cinema e web 2.

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Ano 05 - nº 06 - Salvador/Bahia - 2008/09

o filme colaborativo

a invasão da Toy Art

brinquedos no ateliê

a Cannabis em HQ

marcha da maconha

Editorial

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Salve, salve! É com muito prazer que apresentamos a sexta edição da revista Fraude: ainda sobre jornalismo cultural, ainda focada em Salvador, ainda completamente pensada e executada pelos bolsistas do Programa de Educação Tutorial da Faculdade de Comunicação da UFBA, com o acompanhamento de sua tutora, mas repleta de novidades! Se no número anterior inauguramos um novo projeto editorial, seguindo parâmetros mais jornalísticos, dessa vez as mudanças tomaram conta do projeto gráfico. A idéia era manter o mesmo tom divertido e experimental da diagramação, mas também aproximar o visual da Fraude ao de outras revistas de cultura. E para consolidar sua identidade gráfica mudamos um monte de coisas – como você irá perceber à medida que folhear esta nova edição. Olhamos os bons exemplos – e copiamos. Estilo de títulos, colunas, rodapé, legendas... Aqui ninguém se inspira, é Fraude mesmo. Afinal, como disse o antropólogo, escritor e fotógrafo Ted Polhemus: “Quem é real? Quem é replicante? Quem se importa. Divirta-se”.

Equipe Fraude

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um guia para a fraude
Desalinhado No mundo entediante da padronização, reinventar os clichês pode ser um bom antídoto contra a monotonia p.06 Artistas de Brinquedo Dobraduras, costuras e caixas-supresa... Práticas e consumos de uma arte que, na Bahia ou no mundo, não está de brincadeira. p.18

Hino de gratidão a Deus O canto dessa cidade é do Senhor: saiba como a música religiosa obteve o maior crescimento entre todos os estilos musicais vendidos no país. p.08

Cem mil em 1968 Saiba como Evandro Texeira fez a foto símbolo da resistência à ditadura militar no Brasil. p.22

Escrevo como respiro Sem grandes editoras, sem muitos leitores: a odisséia dos autores baianos para publicar seus livros. p.11

O homem de todos os cantos A história de Dimitri Ganzelevitch, um colecionador de arte e agitador cultural que fez de Salvador a sua morada. p.26

Anima meu rei! Entre peixes cantores, línguas falantes e ovelhas motoqueiras: por onde caminha o mercado de animação publicitária em Salvador. p.13

Clica, clica... clica mais Internet e seres humanos: um conto sobre como alguns cliques podem substituir – ou arranjar – sexo facilmente. p.29

editorias da fraude
Preliminares: Comece por aqui. página 06 Economia da Cultura: Quando a cultura de consumo recria o consumo de cultura. página 08 Ciber: -arte, -tecnologia e -cultura. página 29 Imaginando: Ler histórias, ouvir histórias... Agora é hora de também vê-las. página 38 Cotidiano: No dia-a-dia da cidade há histórias que passam quase despercebidas... quase. página 18

agradecimentos
A todos os que colaboraram com texto, imagem, foto ou ilustração. A'Os Mizeravão pelo som e ao Balcão Botequim pelo espaço de lançamento. Na foto de capa, ao fotógrafo Wendell Wagner pela disposição e boa vontade, além da resistência ao sol, a Ricardo Borges por nos emprestar suas caras-e-bocas, e ao MAM - Museu de Arte Moderna da Bahia - pela locação. À Fabiane Oiticica por atender o celular de madrugada e estar sempre disposta a fotografar para nós. A Pedro Dell'Orto, que nos deixou fotografá-lo e espalhá-lo pela cidade nos cartazes e postais. A Filipe Monte Verde, Tássio Carneiro e Vitor Barreto por enfeitarem nossas páginas.E à ajuda de Tarcízio Silva, que continuou fraudando mesmo quando não era mais sua obrigação.

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Colaboração é a chave Cada vez mais aberta, democrática, anárquica e livre: Fraude preparou um especial sobre softwares livres e cinema em tempos de Web 2.0. p.30

Em poucas palavras É possível fazer literatura no Twitter? p.37

Navegar é preciso, pagar não é preciso Em que pé anda o embate entre softwares livres e softwares proprietários em terras soteropolitanas. p.31

A marcha da maconha Proibição ou liberação? Em HQ, Fraude conta a história da controversa marcha pela liberação da maconha em Salvador. p.38

As possibilidades são infinitas Como as transformações trazidas pela Web 2.0 vêm modificando o modo convencional de fazer cinema. p.34

Picassos movem-se por Londres Quando a arte invade as ruas, ela invade também a vida das pessoas. p.42

Desconhecido sabor Agradoce Uns cliques na web, umas páginas observadas... Um perfil de uma pessoa que só existe online. p.36

quem faz a fraude
Tutora Petcom: Graciela Natansohn Editora-geral: Alana Camara Editor Ciber: Rodrigo Lessa Editora Cotidiano: Jéssica Passos Editora Economia da Cultura: Alana Camara Editor Imaginando: Marcel Ayres Editora de fotografia: Alana Camara Diretor de arte: Rodrigo Lessa Diagramação: Alana Camara, Jéssica Passos, Marcel Ayres, Rodrigo Lessa, Samuel Barros, Tarcízio Silva Assessoria de comunicação: Caio Sá Telles, Hortência Nepomuceno, Marcelo Lima, Paula Janay Alves Produção do lançamento: Carolina Guimarães, Cíntia Guedes, João Araújo Redatores e colaboradores: Alana Camara, Bruno Santana, Caio Sá Telles, Carolina Guimarães, Cíntia Guedes, Hortência Nepomuceno, Jéssica Passos, João Araújo, Marcel Ayres, Marcelo Lima, Mariele Góes, Matheus Santos, Mirela Portugal, Paula Janay Alves, Rodrigo Lessa, Samuel Barros, Tarcízio Silva Colaboradores de imagem: Caio Sá Telles (p.28), Daiane Oliveira (42), Eder Maximiniano (43), Evandro Texeira (22, 24, 25), Fabiane Oiticica (3, 8, 9, 10, 11, 12, 26, 27, 28, 29), Fabiano Gummo (38, 39, 40, 41), Gina Leite (18, 20), Lívia Argolo (43), Naara Nascimento (43), Piero Carapiá (42), Rebecca Agra (36), Ricardo Falcão (13, 14, 15, 16), Tulio Carapiá (43). Capa: Alana Camara (arte), Wendell Wagner (fotografia), Carolina Guimarães, Cíntia Guedes e Rodrigo Lessa (produção).
A revista Fraude é uma publicação do Programa de Educação Tutorial da Faculdade de Comunicação (Petcom) da Universidade Federal da Bahia. O PET é um programa mantido pela Secretaria de Ensino Superior do Ministério da Educação, e é através do orçamento anual destinado ao Petcom que é paga a impressão da revista. As opiniões expressas neste veículo são de inteira responsabilidade dos seus autores. Tiragem: 1500 exemplares. Ano 5, número 6, Salvador - Bahia. End.: Rua Barão de Geremoabo, s/n, Ondina, Salvador, Bahia - Brasil. Tel.: 3283-6186. E-mail: petcom@ufba.br www.petcom.ufba.br www.revistafraude.blogspot.com

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Desalinhado
texto Caio Sá Telles e Samuel Barros

A malícia de todo mass media
Herbert George Wells foi um escritor inglês que marcou o século XX com seus romances de ficção científica. Uma de suas obras mais polêmicas chama-se “A Guerra dos Mundos” e narra a invasão da Terra por forças alienígenas provenientes do planeta vermelho. O que deveria ser uma alegoria satírica sobre as políticas colonialistas européias tornou-se motivo para um dos maiores episódios de histeria pública: à véspera do Dia das Bruxas do ano de 1938, o texto adaptado do livro foi veiculado pela rede CBS e os resultados da transmissão foram desastrosos. Com a hegemonia informacional do rádio e o clima tenso que antecedeu a Segunda Guerra Mundial, a história foi levada a sério demais em algumas regiões dos Estados Unidos, gerando, por exemplo, vários casos de suicídio. Celebrouse, então, o poder arbitrário da manipulação midiática. Já na década de 90, a imprensa européia começou a morder o próprio rabo graças a um multi-víduo fictício chamado Luther Blisset. Uma identidade coletiva que repousa como máscara flutuante sobre a cara de quem, mais do que pretenda o anonimato, queira zombar da mídia sensacionalista. Através das fraudes noticiosas assinadas por Blisset, jornais e televisões veicularam notas escandalosas sobre desaparecimentos de artistas famosos ou casos de horrorismo – nome eleito pelos jornalistas de Bolonha para designar a aparição misteriosa de animais mortos nos espaços públicos da comuna – sem o cuidado mínimo da apuração prévia. Tudo uma maneira de ridicularizar os mass media através do seu próprio dom de iludir.

O Judas moderno
A venda de amigos nunca foi novidade. Desde Judas, este setor do mercado de relacionamentos acompanhou a evolução do comércio. Hoje, cobrar para apresentar amigos, sob o pretexto de consultoria, é algo rotineiro nas interseções entre o mundo financeiro e o político. Afinal, como avisou Manuel Bandeira, o amigo do rei tudo pode, seja em Pasárgada ou em outro lugar qualquer. Com a virtualização das relações, não era de se esperar coisa diferente. A versão moderna do Judas coloca à venda o amigo virtual. No Brasil, o maior balcão de negócio é o Orkut, o site de relacionamento usado por sete em cada dez internautas tupiniquins. O caso mais famoso foi a compra da comunidade “Eu Amo Floripa” pelo grupo de comunicação RBS e pela produtora Tudo Eventos & Conteúdo para promover um festival de música. O valor da compra não foi divulgado, mas deve ter sido maior do que as 30 moedas de prata que Judas recebeu.

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S´existe luz, a quem será que se destina?
Por detrás da orquestra ensurdecedora que assina a trilha sonora de uma vida urbana, canários assobiam de uma copa alta enquanto folhagens secas sussurram sob passos apressados. Para as pinceladas impressionistas que invadem o céu na morte do dia ou para a flauta que o vento toca, somos todos cegos em certa medida. Através de seus pensamentos e fotografias, Evgen Bavcar convida-nos a um desvelar desconcertante do mundo em que vivemos e que, ao mesmo tempo, somos tentados a esquecer. Bavcar considera-se um escritor cujas tintas de impressão são extraídas da luz. Em sua obra, a imagem e o verbo caminham para um horizonte mesmo e comum: seus registros fotográficos brotam, sobretudo, da enunciação. No quintal de sua infância, ao povoado esloveno de Lokavec, o pequeno Evgen perdeu a visão do seu olho esquerdo quando brincava com um galho de árvore. Ele tinha apenas 10 anos e nem esperava que, pouco antes de chegar aos 12, seu olho direito também teria a visão roubada por outra fatalidade. Hoje, seu trabalho é um relicário de nostalgias construído através de palavras alheias sobre seus próprios objetos de desejo. Bavcar encontra, nas trevas, o decalque de suas imagens sob o olhar tátil que revela a potencialidade perceptiva de seu corpo para além do visível. Ele provavelmente sorriria ao ouvir Chico Buarque cantar: “saiba que os poetas, como os cegos, sabem ver na escuridão”.

O eterno retorno do que já foi e ainda é
Como já disse Balzac, em “A menina dos olhos de ouro”: o reino do verdadeiro amor é principalmente a memória. Se assim não fosse, seriam apenas sensações físicas. Sem a força dos sonhos, o amor seria simplesmente o curto-circuito de terminações nervosas e a ebulição de adrenalina. Antes, a memória é um constante escrever, de um modo menos dolorido, o que já foi: é uma interpretação íntima de uma história particular, a fim de permitir algum sorriso sincero, mesmo nas manhãs chuvosas. Um acordo entre passado e presente para tornar possível a esperança no futuro. A memória é a confluência das emoções, num segundo que não termina. É a sedimentação do que foi e do que poderia ter sido, enquanto o braço se ergue. Preso na lógica irredutível do tempo, o presente transformase em passado para alcançar o futuro. E a memória se refaz a cada folha que murcha. O significado da floresta se amplia, ao tempo que o outono forra o chão. No entanto, infeliz o que rejeita a chegada das flores, por saudade do botão. Sem lembranças terminará, sem nada.

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Hino a de gratidão
Deus
texto Bruno Villa e Marcel Ayres fotos Fabiane Oiticica
De acordo com informações da Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), no ano de 2003, a música religiosa conquistou o maior crescimento entre todos os estilos musicais vendidos no país, chegando a ocupar, inclusive, o segundo lugar nas vendagens. Esses resultados são fruto do crescimento da população praticante das religiões pentecostais. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) prevêem que, em 2020, o número de evangélicos vivendo no Brasil deve chegar a 50 milhões. Neste contexto de expansão da demanda por produtos, através dos dízimos, as igrejas montaram uma estrutura empresarial. Elas adaptaram às particularidades e necessidades do mercado evangélico os mecanismos de gestão de uma empresa capitalista. Assim como suas similares mundanas, denominação criada pelos próprios evangélicos, a indústria fonográfica gospel montou uma imensa estrutura que envolve grandes gravadoras, distribuidoras de discos espalhadas por todos o país, pontos de venda dentro e fora das igrejas e fortes ações de marketing, segundo a pesquisa desenvolvida pela produtora cultural Rebeca Caldas. No Brasil, as grandes gravadoras em atuação são a Line Records, vinculada à Iurd (Igreja Universal do Reino de Deus), a Gospel Records, da Renascer em Cristo, e a MK Records, a mais antiga, atuando no mercado há 20 anos, sem vínculos com nenhuma igreja.

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Quan d não s o você vai p e liga ar assim , , nes que já n ar? Porqu ão ro Bolo se m la ma e você u doid doido, b ndo che is viv o! A i vida olo doid o de ilus er sem Trech Jesus o! Eita ão? o da bo é bol músi Átrio o do lo ca Bo s do ido! Re lo
i. Doid o, da band
O grupo MK, que além da gravadora engloba a rádio 93 FM, o portal ElNet, a revista Enfoque Gospel, de circulação nacional, e o programa televisivo Conexão Gospel, é a empresa mais forte no mercado. Com um casting de 38 artistas e mais de 200 títulos comercializados – que vão da música sertaneja ao HipHop – a MK controla todos os setores da comercialização de discos. Além da gravação, o empreendimento é responsável pela distribuição e divulgação do material que produz. Já a Line Records, há 16 anos no mercado, produz atualmente 35 artistas dos mais variados gêneros musicais, dentre eles Mara Maravilha e Salgadinho, da extinta banda de pagode Katinguelê. A gravadora conta também com uma mega-estrutura de distribuição, divulgação e vendagem de discos, alcançando, inclusive, países da Europa e da África. Como espaço para divulgação de seus trabalhos e janela para ampliar o consumo da música gospel, a Line tem um o programa televisivo chamado “A Noite é Nossa”, exibido todos os sábados à noite pela Rede Record e apresentado pela cantora Isis Regina. O louvor na Bahia Apesar da força crescente da música evangélica no país, principalmente na região sudeste, a Bahia ainda tem uma estrutura precária para o trabalho dos artistas. Nenhuma banda baiana tem contrato com gravadora, elas dependem do suporte financeiro das respectivas igrejas para gravar discos e fazer shows. Até o grande recordista de vendas dentre os artistas gospel baianos, o cantor Lázaro, ex-vocalista do Olodum, segue carreira independente. A diferença entre Lázaro e as demais bandas é que o cantor conquistou mais facilmente espaço no mercado evangélico, devido ao reconhecimento anterior à carreira gospel. As igrejas que mais investem em

a

música no estado são a Primeira Igreja Batista do Brasil e a Renascer em Cristo. A Iurd, no contexto baiano, ainda ensaia os primeiros passos para a formação de bandas. A igreja criou o projeto “Força Jovem”, que promove atividades voltadas à educação, à arte e ao lazer. Dentro deste projeto, os organizadores estão montando duas bandas, a Jovem Bahia, que prepara a gravação do primeiro disco, e a Restauração. A Igreja Batista, segundo o ministro Hélio Souza, já dava ênfase à importância da música no processo de evangelização. A instituição criou até uma diretoria musical, que funciona como uma espécie de fundação para financiar atividades culturais e eventos evangélicos e que administra a Casa de Oração Mundial, um ministério da igreja. Hélio Souza, que também é o diretor musical da instituição, explicou que o ministério engloba três categorias de bandas – infantil, juvenil e oficial. Das quatro bandas vinculadas à Casa de Oração Mundial, somente uma, o grupo oficial, batizado com o mesmo nome do ministério, gravou disco e tem o privilégio de representar a igreja em eventos musicais. De acordo com Souza, vocalista da banda, o disco de doze faixas, gravado em Salvador e masterizado e mixado no Rio de Janeiro, custou cerca de R$ 50 mil. Na primeira tiragem foram colocadas à venda oito mil cópias, todas esgotadas, com promessa de nova remessa, de cinco mil exemplares, chegarem este ano. Os discos podem ser adquiridos em pontos de vendas dentro das próprias igrejas Batistas, a R$ 19, e nos shows da banda, a R$ 15. Em semelhança ao que ocorre na indústria musical secular, no mercado evangélico a

igreja desempenha o papel das gravadoras ao abocanhar uma considerável fatia do lucro obtido com as vendas do disco: cerca de 80% do valor é direcionado ao ministério. Uma das dificuldades enfrentadas pelas bandas baianas é o baixo consumo de discos por parte do público evangélico. De acordo com lojistas, além de o alto preço dificultar o acesso à população de baixa renda, os fiéis preferem adquirir outros produtos. Segundo André Porto, gerente da Casa de Publicadora da Assembléia de Deus (CPAD), a venda de discos representa apenas 4% do total. Os artigos mais vendidos são Bíblias e revistas, que representam cerca de 50%. Outro problema apontado pelo Pastor Marinho, da Igreja Batista, é que os baianos não consomem os trabalhos de artistas do estado, eles preferem as bandas de fora. A exceção à regra é o cantor Lázaro. Outro problema oriundo dos preços dos discos é a pirataria. Questionado sobre o assunto, Souza afirmou nunca ter visto seus discos serem vendidos pelos ambulantes. “Já encontrei duas ou três músicas disponíveis na internet, mas nada gritante”, completa. De acordo com Rebeca Caldas, a pirataria existe, mas numa intensidade muito menor à do mercado secular. De acordo com a pesquisadora, o consumidor passa por um processo de convencimento dentro das igrejas, que os orienta a não comprar produtos pirateados. “As pessoas são incentivadas a consumir aquilo que é da igreja. Tudo que não vem dela é visto

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como nocivo. No caso do consumo de discos piratas, além de constituir um crime, é também pecado”, explica. Para todos os gostos Dentre a quantidade de artistas que despontam no mercado de música gospel nacional, alguns são considerados blockbusters nas vendagens. É o caso de Aline Barros. A cantora, recordista de vendas, recebeu disco de platina triplo pelo álbum “Som de Adoradores” – 750 mil cópias vendidas. Além disso, Aline participou da trilha sonora da novela Global “Duas Caras”. Outro destaque é Marcelo Crivella, bispo da Iurd, que foi o único artista da Line Records a alcançar a marca de 1 milhão de discos vendidos. Bandas e artistas como Oficina G3, André Valadão, Diante do Trono e Fernanda Brum são mais exemplos da vasta indústria fonográfica da fé. O mercado gospel baiano também lança nacionalmente talentos da música evangélica. Quem está investindo nesse seguimento são cantores como Lázaro, Xanddy, que está gravando o primeiro CD evangélico de sua carreira e Gil Melândia, ex-cantora da Banda Beijo. Em Salvador, algumas bandas menores buscam a valorização de seus trabalhos unindo o culto ao Senhor a ritmos bem inusitados. É dessa maneira que o grupo de pagode Átrios do Rei, que atua no cenário gospel baiano há 13 anos, tenta crescer na esfera

nacional. O compositor Ramon Costa confessa que ainda hoje há preconceitos em relação ao estilo da banda, mas está convencido de que ela cumpre a sua missão “pois os jovens que alcançamos possivelmente não dariam atenção se o evangelho fosse pregado de outra maneira. Tenho certeza que Jesus usaria a mesma estratégia!”, completa. O Louvorzão “Tem uma famosa cantora baiana que, em uma de suas músicas, diz assim: ‘o canto dessa cidade é meu'. Mas sabem o que eu digo a essa moça? Eu digo que o canto dessa cidade é do senhor!”. Foi com este discurso exaltado que um pastor abriu a festa “Explosão de Louvor e Adoração”, organizada pela Primeira Igreja Batista do Brasil. Durante o evento, cerca de oito mil pessoas se amontoaram no Parque de Exposições para prestigiar artistas de projeção nacional e local. Dentre as principais atrações estavam o grupo Fat Family, que fez sucesso no final dos anos 90, e a banda de pagode gospel Átrios do Rei, que levantou o público cantando: “a vida sem o senhor é um bolo doido”. O sucesso do evento levou o pastor Carlos Ribas, um dos organizadores, a declarar que aquele festivo 8 de março de 2008 seria a data inaugural para a cruzada evangelizadora que pretende “conquistar a Bahia para o Senhor”.

Algumas igrejas promovem seus próprios encontros, a exemplo do realizado pela Primeira Igreja Batista. Outros eventos não estão vinculados a nenhuma igreja específica, como é o caso do “Clama Bahia”, em que artistas consagrados no mercado gospel, como as cantoras Aline Barros e Cassiane já participaram. Contudo, não há rivalidade entre os fiéis das diferentes vertentes protestantes, é possível encontrar freqüentadores da igreja Batista em eventos promovidos pela Renascer e vice-versa. A palavra de ordem é misturar música à louvação. Os eventos evangélicos estão cada vez mais freqüentes e mobilizam, a cada ano, um número maior de pessoas. A “Marcha para Jesus”, por exemplo, realizada anualmente em diversos estados do país pela Igreja Renascer em Cristo, reuniu este ano, em São Paulo, cerca de cinco milhões de pessoas. Em Salvador, o evento contou com a presença de aproximadamente 500 mil pessoas, que percorreram o trajeto Barra-Ondina em ritmo de carnaval, acompanhando trios elétricos animados por bandas de todo o país e de diversos gêneros musicais.

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escrevo respiro
como
Nenhuma grande editora e poucos leitores: qual a solução para quem é escritor na Bahia? texto Mariele Góes e Paula Janay Alves fotos Fabiane Oiticica
Na Bahia, ser escritor e publicar livros através de editoras não é tarefa fácil. Além de existirem poucas editoras baianas, elas trabalham com segmentos muito específicos do mercado - como auto-ajuda, livros jurídicos, acadêmicos, evangélicos. São poucas as que publicam literatura. Segundo Paulo Conceição Rocha, editor-chefe da Cispoesia, nova no mercado, existe covardia por parte do setor privado em apoiar projetos que não dependam exclusivamente da chancela do governo. “Há uma descrença geral no ramo literário da Bahia. Não há ciclo suficiente de oferta e procura que possa delimitar o mercado claramente”. A solução para os autores, então, é bancar o próprio livro tirando do bolso o dinheiro da publicação - ou buscar um dos poucos editais de incentivo do governo. A Fundação Cultural era o órgão responsável pelas políticas culturais de literatura na Bahia. Com a mudança do governo do Estado, essa responsabilidade foi transferida para a Fundação Pedro Calmon. Segundo Geraldo Maia, integrante do Núcleo do Livro, Leitura e Literatura da Fundação, a política adotada pelo governo anterior, em que todo o processo de produção do livro ficava concentrado nas mãos do Estado, enfraqueceu a indústria editorial baiana. “Houve uma retração, um enfraquecimento, uma quase anulação da indústria editorial. Como alguém vai investir numa editora pra concorrer com o Estado? Isso fez com que a cadeia produtiva do livro ficasse emperrada, porque diversos agentes dela ficaram sem função”, argumenta. Antes os livros eram lançados pelo Selo Bahia. O original era entregue a uma comissão e caso fosse aprovado, era editado pelo Estado. “O autor não fazia nada e quando recebia o livro pronto não sabia o que fazer com ele”, conta o também poeta e escritor.

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Sandro Ornellas, escritor.

para que você tenha um mercado criado e depois a coisa possa andar com as próprias pernas”, explica. Alguns autores enxergam na iniciativa própria a maneira mais rápida de terem seus livros publicados e resolvem bancar todo o processo. No entanto, é preciso ter dinheiro para investir. As editoras baianas especializadas em outros segmentos que não a literatura, publicam, eventualmente, obras de ficção de autores que têm como pagar. A EDUFBA, que trabalha prioritariamente com livros técnicos e científicos, é um exemplo disso. “Prestamos serviços. Não é uma publicação da nossa editora, é do autor. Normalmente são livros de poesia”, explica Flávia Garcia Rosa, diretora da EDUFBA. Uma tiragem pequena, de 300 exemplares, pode custar de R$ 2,5 mil a R$ 3 mil. Pelo alto custo, os autores baianos acabam procurando gráficas e editoras do eixo Rio-São Paulo, onde a concorrência é maior e, por conseqüência, os preços menores. O escritor e professor de literatura da Faculdade de Letras da Universidade Federal da Bahia, Sandro Ornellas, é um dos que bancou seu próprio livro, chamado “Trabalhos do Corpo”, através da editora carioca Letra Capital, investindo aproximadamente R$ 3,5 mil. Segundo ele, o maior problema do escritor, atualmente, nem é publicar um livro, e sim conseguir com que este tenha circulação. “Não é da noite para o dia que você consegue mandar 800 livros para todo o Brasil. Além de pagar o livro, você tem que enviar para quem interessa”, conta Ornellas.

E dá pra viver de literatura? A distribuição é mais um problema. As livrarias cobram 50% do valor do livro quando este é deixado em consignação. O valor parece abusivo para quem já bancou a editoração. “Por isso meu livro só está em duas livrarias, foram as que se sensibilizaram com o fato de eu ter bancado o livro sozinho. Cobrar 50% de um livro que tem editora, tudo bem, mas cobrar de um escritor independente o mesmo que se cobra de um Paulo Coelho é ser cara-de-pau”, reclama Ricardo Cury, escritor iniciante que lançou seu primeiro livro, “Para Colorir”, em 2008. Cury não conseguiu retorno financeiro imediato para seu investimento. “Depois de ter vendido quase 500 livros, a dívida ainda estava viva”, comenta. Ainda assim, o escritor vê o futuro de forma otimista. “Acho que dá pra ganhar dinheiro. O que não dá é para ficar rico, mas dá para, pelo menos, conseguir trabalhos com o livro”. Nem todos pensam dessa maneira. Ornellas é mais pessimista quando fala da sua relação financeira com a literatura. “Eu não estou pensando em retorno. Eu faço poesia. Poesia não dá retorno financeiro. É prima pobre da literatura. Pode dar prestígio, poder cultural, visibilidade, mas dinheiro não dá”. Ernesto Diniz, escritor e blogueiro [www.sonhadores.org/ernesto], parece compartilhar da idéia. “Desde 2001 escrevo blogs e já senti muita vontade de publicar um livro. Hoje, desencanei”, desabafa. “Minha relação com a literatura é a mesma relação que temos com a respiração: eu respiro. Ponto”.

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O importante é não cruzar os braços Mas a culpa da decadência do mercado editorial baiano pode ser simplesmente empurrada para o Estado? O escritor Lima Trindade, autor de três livros e editor da revista eletrônica “Verbo 21” [www. verbo21.com.br], afirma que não, e aponta a comodidade dos escritores como uma da causas para o mercado ser tão restrito. “Os escritores querem ser descobertos e querem ser descobertos enquanto gênios. Há a necessidade de deixar o papel de vítima. A responsabilidade é do próprio escritor; se o autor quer ser publicado, tem que se mexer. O mais importante é não cruzar os braços, esperando que um edital vá salvar a sua vida”, reclama Lima. Wladimir Cazé, autor do livro “Microafetos”, produzido de forma independente, acredita que depender do governo pode ser nocivo para quem escreve. “As políticas de incentivo deveriam ser, como a própria palavra diz, apenas um incentivo, um fomento inicial

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Eu faço poesia. Poesia não dá retorno financeiro. É prima pobre da literatura.

Anima

meu re i!
texto Marcel Ayres e Rodrigo Lessa ilustrações Ricardo Falcão

O horário nobre da televisão comprova: é cada vez mais comum assistir a comerciais em que desenhos ganham vida e roubam a cena principal. Peixes cantores, línguas falantes, ovelhas motoqueiras e até uma tartaruga que joga futebol são exemplos conhecidos do universo ilimitado da animação. Personagens fictícios que marcam época, lançam vocabulários e se consolidam no imaginário do consumidor – um diferencial e tanto em uma era de mercados competitivos. Por trás dessas propagandas, estão envolvidos profissionais de diversos campos, que, munidos de muita criatividade, conseguem prender alguns minutos de atenção do público. Na Bahia, onde o setor publicitário não apresenta o mesmo desenvolvimento que no Sudeste do país, a situação se revela menos “animadora”. Sem verbas nem demandas de produção atraentes, os profissionais locais se vêem sem muitas opções de trabalho, embora atestem: pelo menos na mão-de-obra, não falta qualidade.

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Para entender o mercado de animação publicitária na Bahia, primeiramente temos que recorrer ao seu passado. Na segunda metade da década de 90, a animação era novidade no estado. Isso fez com que os profissionais que atuavam na área criassem expectativas “glamourosas” sobre o seu futuro. No entanto, dez anos depois, percebe-se que os rumos da animação baiana não foram exatamente os previstos. A coisa esfriou e, para muitos, não houve o crescimento esperado. As regiões economicamente mais estáveis, com grandes anunciantes, agências e produtoras, ainda concentram as maiores contas publicitárias do país. “A publicidade baiana de forma geral não vai bem. As decisões estratégicas estão cada vez mais centralizadas no Sul e Sudeste do país, o que faz com que as estruturas se ‘enxuguem' por aqui”, lamenta Ducca Rios, publicitário e designer baiano que já fez trabalhos para Tim, Oi, Braskem, Petrobrás e Coca-Cola, entre outros.

Obstáculos no caminho Em Salvador, quem resolve investir em animação para a publicidade tem que enfrentar alguns agravantes. A demanda por serviços, por exemplo, oscila com o próprio mercado publicitário que, de acordo com o ilustrador e empresário Adriano Dias, “está fraco em todos os quesitos, pois a maioria dos trabalhos é de campanhas institucionais para empresas e não de peças publicitárias mesmo”. Há, também, um excesso de profissionais que, anualmente, se formam e não conseguem oportunidade de emprego. Além disso, em alguns casos, a animação requer mais tempo de produção, contrariando a lógica de rapidez do mercado. Mesmo com os problemas encontrados na prática profissional, animadores mais otimistas como Ricardo Falcão – digital designer que já trabalhou para a TV Aratu, TVE, TV Bahia e Propeg – apontam que a animação publicitária vem dando sinais de crescimento em outras regiões

do país, não apenas no Sudeste. Embora a animação não seja uma tradição na Bahia, o estado é berço de profissionais reconhecidos e que estão ávidos por uma oportunidade. “Somos tão bons quanto os animadores de fora!”, exclama Falcão. A qualidade das produções baianas, quando há investimento, em nada deixa a desejar se comparada com outras regiões. O que a determina, no final das contas, são o dinheiro e o tempo despendidos, e não o estado em que as peças foram executadas. “Quanto mais clientes com capacidade de investimento, mais estimula o crescimento da produção de animação”, opina o publicitário Leonardo Capello, que atua na área de design e vídeo há 15 anos. Mesmo que haja demanda de serviços, pode surgir uma outra dificuldade, desta vez, associada às características do próprio trabalho solicitado. Em Salvador, dominam os anunciantes varejistas, que mesmo com grandes campanhas oferecem orçamento reduzido e exigem substituições quase

O profissional de animação não deve ser um mero operador de softwares.
Ducca Rios, publicitário e designer.

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diárias das peças veiculadas. É o caso, por exemplo, de estabelecimentos que trabalham com promoções diárias e ofertas relâmpagos. Para Jorge Nascimento, desenhista animador com mais de 30 anos de experiência, essas peças que exigem pressa e trocas constantes “talvez sejam as maiores inimigas da animação publicitária”, que solicita mais tempo de feitura. O resultado do impasse é facilmente visto na maioria das propagandas locais: desprovidas de animações mais elaboradas, as peças contam apenas com pequenas inserções do tipo table top – animação feita a partir de filmagens ou gravação de um letreiro, arte ou fotografia estática, simulando, através da câmera, o movimento desse objeto. Por conta própria Diante de um mercado que não oferece atrativos para as empresas locais, muitos profissionais resolvem agir por conta própria. Ao realizar trabalhos esporádicos e sem vínculos institucionais, os freelancers garantem a sua independência, o que muitas vezes pode até significar um ganho maior pelo serviço prestado. A prova de que a ousadia pode dar certo é vista na história de Adriano Dias, que iniciou a carreira como freelancer na capital paulista e hoje é um dos donos da Olhar

Filmes, que faz serviços de animação 2D, 3D e efeitos visuais em Salvador. Fundada em 1993, a empresa já foi responsável pela criação de peças de animação para diversos estabelecimentos comerciais da cidade, além de vinhetas institucionais para a Coelba, Petrobrás e redes de televisão como a TV Itapoan (filiada ao SBT, na época), Rede Bahia e TVE. Questionado sobre porque resolveu investir no mercado baiano, Dias é enfático. “Embora tenha permanecido em Salvador por amor à cidade, o que me motivou a vir para cá foi a vontade de desbravar um mercado novo”, revela. No entanto, quando não há uma valorização da mão-de-obra, corre-se o risco de surgirem os “faztudo”, que são aqueles profissionais não-especializados que, a preços baixíssimos, desenvolvem materiais de qualidade duvidosa. O publicitário e ilustrador Rafael Borges, que vê tal prática como uma desvantagem para o crescimento da profissão, é contundente. “Tem muita gente quebragalho por aí, mas são pouquíssimas as pessoas que estão realmente qualificadas pra fazer animação”, alfineta. Para sobreviver nesse cenário, o jeito é se virar. Na falta de outras opções, muitos profissionais enxergam nos materiais institucionais uma saída para

manter a marca ativa no mercado e, de quebra, movimentar os caixas das empresas. Nos últimos anos, os editais também vêm se revelando como uma alternativa interessante. Exemplo disso é a TV Brasil - rede de televisão pública brasileira pertencente à Empresa Brasil de Comunicação (EBC) –, que abriu trinta editais no início de 2008 para escolher filmes de animação, dentre outros, para as TVs educativas. Para o desenhista Jorge Nascimento, que começou a trabalhar com animação no início da década de 70, iniciativas como essa têm contribuído para que as empresas locais e seus profissionais ganhem um maior prestígio e o mercado se aqueça gradativamente. Onde eu aprendo, hein? Para quem pretende trabalhar com animação publicitária, a formação é uma etapa fundamental. Uma busca que requer dedicação, paciência e, por que não, uma pitada de talento. Mas esse não é um caminho fácil; por se tratar de uma área profissional que é recente no país, os desafios enfrentados no processo de capacitação se tornam ainda maiores. Como no Brasil não há um curso superior específico para a profissão, os iniciantes têm que buscar alternativas para suprir essa deficiência. Uma das saídas é investir

Em 2008, Salvador sediou o Animaí II encontro Baiano de Animação – evento que reuniu estudantes profissionais da área para participarem de atividades de criação, aprendizagem, desenvolvimento técnico e exibição de obras. O encontro ofereceu oficinas e seminários sobre os rumos da animação baiana, além de promover o encontro Animação Nordeste: ações para o fortalecimento regional.

Bahia animada

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A jovem animação brasileira nasceu na segunda metade do séc. XX. Após algumas experiências, em 1953 foi lançado o primeiro longametragem de animação em terras tupiniquins, o “Sinfonia Amazônica”, de Anélio Lattini Filho. A partir de 1960 a animação passa a ter presença na publicidade e começam a surgir os primeiros profissionais da área como, por exemplo, o chargista japonês, Ypê Nakashima, autor de “Piconzé”, primeira animação colorida produzida no Brasil.

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em graduações afins, como Publicidade & Propaganda, Cinema e Design, que oferecem disciplinas tangenciais ao campo desejado. Nos últimos anos, vem se delineando uma outra possibilidade. Embora ainda seja um movimento tímido, algumas universidades começaram a dialogar mais diretamente com a animação e criaram cursos nessa área. É o caso do curso de Belas Artes com habilitação em Cinema de animação da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), e das Graduações Tecnológicas de Design de animação da Universidade Anhembi Morumbi, de São Paulo, e de Design Gráfico - Ilustração e Animação Digital 3D da Universidade Veiga de Almeida, do Rio de Janeiro. Em 2004, mais um avanço: a PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica) lançou a primeira pós-graduação brasileira em animação. Na Bahia, no entanto, não há especializações ou cursos superiores específicos na área, restando poucas opções para a capacitação. Além de oficinas realizadas em eventos esporádicos, algumas escolas locais de informática oferecem cursos profissionalizantes, que ensinam os alunos a mexer em softwares essenciais ao trabalho do animador. Mas, para Ducca Rios, que trabalha há 15 anos com publicidade, uma formação de qualidade exige mais do que um ‘saber manejar'. “O profissional de animação

não deve ser um mero operador de softwares. Ele deve também entender de comunicação, de roteiro, de linguagem cinematográfica e, se possível, de ilustração”, aponta. Diante de tantas dificuldades, muitos iniciantes optam por um percurso ainda mais alternativo para a sua formação profissional. Motivados pelas possibilidades da internet, eles constróem um caminho autodidata, em que tutoriais, listas de discussão e comunidades virtuais se convertem em uma espécie de guia para a carreira a ser seguida. Outra possibilidade está em cursos online, como o Animation Mentor[www.animationmentor.com], que permitem, a qualquer um que esteja interessado, produzir as suas próprias animações. Além de contribuir para a formação desses futuros profissionais, a Internet seria ainda uma solução para entrar no mercado e driblar a baixa demanda de serviços. “Embora ainda não seja uma realidade significativa em nosso estado, a web permite que se prospecte clientes em qualquer lugar do planeta”, aponta Rios.

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Salada de estilos, com muito rock e bom humor

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Artistas de brinquedo

texto Alana Camara e Tarcízio Silva

I - Marcelo tem dezenove anos. Acorda e vai para a faculdade, como tantos jovens. Na saída, se encaminha para uma loja. Aproxima-se do balcão e escolhe uma dentre dezenas de pequenas caixas, todas com a mesma embalagem. Passa a mão sobre os envoltórios de papel cartão, como se tateasse um tesouro. Finalmente escolhe uma. A apreensão enquanto abre a caixa logo se transforma em um sorriso de satisfação. Ao chegar em casa, coloca sobre a estante o mais novo item de sua coleção.

II - Juliana e Márcio observam atentamente a máquina de costura tremer sobre o tecido. A agulha encontra resistência demais. Lá se vai mais uma viagem à loja de materiais. Outra visita, mais experiência. Buscam perfeição de peso, textura e cor. Cada detalhe da criação deles, por menor que seja, deve sair exatamente como imaginaram.

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III - Deitada no chão de seu quarto entre dezenas de papéis, Lívia se diverte, concentrada em pintar uma das folhas de papel cartão. Trabalho pronto, pega uma tesoura. Recorta minuciosamente algumas formas estranhas. Começa a dobrar e a montar os pedacinhos de papel, agora coloridos. Encaixadas todas as aparas, a menina cria um novo objeto.

As ligações entre os três personagens são mais estreitas do que parecem à primeira vista. Papel, pano ou resina. Colecionismo, dobraduras, costuras, caixas-surpresa... Elementos pertencentes às práticas e consumos de uma mesma atividade: a Toy Art. Definido pelo dicionário, um brinquedo é “um objeto ou uma atividade lúdica, voltada única e especialmente para o lazer”. A Toy Art seria outra forma de criar e de consumir brinquedos. Ela se apropria desse formato para ir além: o brinquedo deixa de ser mero objeto de diversão e se transforma também em suporte para a expressão artística. Andréa May, artista plástica baiana e criadora de Toy Art , define a prática como “a idéia e a imagem materializadas em forma de brinquedo”. A Toy Art, no entanto, vai além do apelo lúdico e visual. O seu plus está justamente em carregar também um conceito, um valor. A idéia é trazer uma história associada ao brinquedo, que tem como característica ironizar, criticar e satirizar a realidade, fazendo, em geral, referências à cultura contemporânea e à pop art. Os toyarts expressam, assim, uma visão única do artista, que converte uma coisa comum – o brinquedo – em algo capaz de

transmitir uma mensagem. Cada toy deve ter características e design singulares, por isso a novidade é fundamental. As peças são feitas em séries pequenas, sempre trazendo uma visão diferenciada daquilo que representam, o que lhes garante um quê de raridade e de colecionismo. Corta, molda, encaixa Com as peculiaridades de cada lugar, as cenas narradas se repetem por todo o mundo. Em pouco menos de 15 anos, a Toy Art surgiu, virou febre e ganhou algum reconhecimento artístico. Tudo começou com a tendência crescente de colecionismo de brinquedos por adultos, mas o nome e o conceito de Toy Art só foram cunhados de fato em 1996, quando o artista Michael Lau, de Hong Kong, criou uma série de toys em resina. Os toyarts nasceram, assim como acontece com a arte urbana dos países mais ricos do sudeste asiático, bebendo das mais diferentes fontes estéticas e temáticas, indo da pop art e do grafite ao folclore ou às lendas urbanas. Os toys mais famosos são os de vinyl (um tipo de plástico) e geralmente representam animais antropomorfizados. Coelhos, macacos e raposas estão entre os mais criados. Como cada artista costuma produzir poucos exemplares de cada toyart, o valor pode chegar, em alguns casos, a mais de 5 mil dólares. Um

exemplo foi o “Original Fake Companion”, do artista Kaws, vendido por esse valor. Quanto ao aspecto comercial, as práticas também variam muito. As peças podem ser encontradas em galerias de arte ou em lojas, e a compra pode ser convencional, aquela em que o consumidor escolhe a peça que quer levar, ou através da chamada blind box ou caixa cega – caixas vendidas lacradas, de modo que o comprador não sabe que toy está dentro. Nesse caso, pode vir tanto um de tiragem de 5.000 exemplares, quanto um raríssimo, do qual exista apenas uma dúzia no mundo todo. Mas não são apenas os brinquedos de plástico, fabricados industrialmente, que encantam artistas e colecionadores. Outra categoria da Toy Art é a chamada têxtil ou artesanal. Inspirados em bichinhos de pelúcia, os criadores utilizam diferentes tipos de tecidos, costuras e botões para criar personagens bem particulares. É o tipo de toy mais difundido no Brasil, tanto pela facilidade de produção, quanto pelas influências do artesanato. Há, ainda, um outro tipo de toyart que vale à pena citar: os paper toys, ou os toys de papel. Facilmente encontrados na internet, distribuídos por artistas e coletivos, são arte sobre papel dobrável, cujos arquivos - de download geralmente gratuito - qualquer pessoa do mundo pode imprimir, customizar e se divertir cortando, dobrando e montando. Lívia

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Argolo, estudante de design, conta que conheceu a Toy Art assistindo à série Mundos Invisíveis, do Fantástico, realizada inteiramente com animações de personagens feitos de papel. Ao buscar as referências do trabalho, descobriu os paper toys. Para Lívia, que não coleciona outros tipos de toyarts, é justamente a etapa lúdica de recorte e de dobragem que a fazem preferir essa categoria. “No final das contas, vale mais o conceito do toy do que o material em si”, conclui a estudante. No tabuleiro da baiana tem também Em terras brasileiras, como não poderia deixar de ser, a Toy Art sofreu reapropriações e influências. A produção nacional concentra-se no uso de materiais alternativos e na confecção artesanal, um reflexo das nossas especificidades culturais. É enorme a presença de toys handmade ou, numa tradução literal, feitos à mão e utilizando como matériasprimas o tecido, a resina ou o papel. Márcio Campos e Juliana Castro, formados em design pela UFBA, fizeram uma coleção de toyarts como projeto experimental de conclusão de curso. Optaram por peças artesanais, costuradas, considerando principalmente a disponibilidade de materiais e a maior facilidade para trabalhar. “Na época a gente via que os toys no Brasil tinham essa forte tendência e para nós seria o melhor, porque já conhecíamos uma ótima

costureira”, conta Márcio. A proposta era trabalhar com todo o tipo de referências, não ter nenhum limite. “A gente queria colocar a nossa vivência. Então tem de tudo. Coisas que são regionais, coisas que são mais pop”, afirma Márcio. Quanto aos materiais utilizados pela dupla, não houve restrição, como explica Juliana: “Ainda estávamos tateando. A gente pensava em um material, comprava e botava na máquina. Se a máquina costurasse, beleza”. A coleção dos Brinquedos Pândegos contou com doze toys, com referências que iam de elementos típicos da cultura baiana, como o candomblé, à lenda-urbana do punhal dentro do boneco Fofão. Uma forma de arte ainda quase desconhecida no universo acadêmico, os toyarts de Juliana e Márcio chamaram a atenção de professores e colegas e tiveram excelente repercussão. Por se tratar de uma prática ainda pouco disseminada, foi uma surpresa descobrir em Juazeiro, cidade do sertão baiano, uma marca já consolidada de Toy Art: a Iaiá BA. A pequena empresa foi idealizada pelas irmãs Iana Barbosa – artista plástica responsável pela criação e produção dos toys – e Dandara Almeida, designer, que cuida dos contatos e da identidade gráfica da marca. As duas conheceram a Toy Art em 2006, numa oficina realizada no 16º Encontro Nacional de Estudantes de Design (NDesign), em Brasília. Como em casa de ferreiro, o espeto é de pau, Iana afirma que os produtos não são tão valorizados em Juazeiro, mas que fazem sucesso em outros lugares e são vendidos em lojas de todo o Brasil na Sementinhas de Amarena, no Rio de

Janeiro, e na Casa de La Madre, em Porto Alegre, por exemplo. Sobre seus clientes, Iana fala que nem todos sabem o que é Toy Art. “Alguns pensam que é apenas um bonequinho estranho ou bonitinho e outros nos descobrem por ter uma noção da tendência”, diz. Quanto às referências, ela conta que procura não ter influências, pois quer ser reconhecida pelo seu traço e desenho. Outra marca baiana que chama a atenção é a Íons, concebida pelos designers Andrea Sagiorato e Igor Bittencourt. O casal teve acesso à Toy Art pela primeira vez também na oficina do NDesign, onde cada participante recebeu tecidos, enchimento, agulha e linha para fazer seu próprio toy. Mas somente depois que Andrea fez, de presente de namoro, dois bonecos de plush (um tipo de tecido aveludado) representando ela e Igor, é que surgiu o projeto da Íons. Ao discutir qual seria a sua proposta, os dois optaram por desenvolver algo que fosse novo no cenário brasileiro. “Vimos que, apesar de ser um movimento recente, os toyarts de plush estavam muito comuns entre os que se produziam e por isso optamos por criar algo diferente”, conta Igor. Fizeram, então, um molde em clay (material utilizado pelas montadoras para modelar carros em tamanho real) e produziram as peças em resina. “Acredito que a resina não seja o melhor material para os toys, mas fazer em vinyl tem um custo muito alto”, afirma o designer. Os toys da Íons são vendidos através do Flickr [www. flickr.com/photos/ionsartbr] e podem ser encontrados em branco – para que o dono o customize – ou já pintados por Igor e Andrea. As influências do trabalho são de

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ilustradores e de toyzeiros, à exemplo de Simone Legno, de John Burgerman e de Hiroshi Yoshi. Disseminando & Aprendendo Muito embora a produção nacional e baiana de toys esteja crescendo, é ainda difícil encontrar no país lojas especializadas e que vendam também artigos importados. A mais conhecida é a paulista Plastik, além de existirem algumas lojas virtuais. Em Salvador, no entanto, não há nenhum empreendimento deste tipo. Andrea May conta que até sonhou em abrir uma loja dedicada à Toy Art quando montou sua primeira coleção, mas que seria muito utópico, pois as vendas seriam mínimas. Andrea comprovou sua teoria ao colocar stands do Toy Centro (ver box) na Feira Hype*, experimento que classificou como desentusiasmante. Para ela, “se existe uma lacuna nesse comércio é porque as pessoas não viajam na idéia e não costumam investir em coisas lúdicas e artísticas. Preferem roupas de grife”. Ao invés de cruzar os braços, May considerou os problemas como desafio. Em 2005, carregando a experiência de exposições individuais de suas obras em Toy Art, ela levou à frente a I Mostra Imagética de Art Toy, a versão brasileira de “ToyWallArtShow”, reunindo vários artistas de todo o Brasil. Outro evento relevante para a disseminação da Toy Art foi o curso produzido por Iana Barbosa e financiado pelo Banco do Nordeste (BNB). A artista ministrou aulas de criação de toys em

Juazeiro, para adolescentes carentes, que culminaram num coquetel para a exposição dos trabalhos à imprensa, aos representantes locais do BNB e aos familiares dos participantes do curso. Iniciativas que comprovam que a arte está em expansão, mesmo que ainda timidamente. Para quem quer ingressar no mundo * Feira realizada dentro do projeto Aparelho Cultura, cuja da Toy Art, seja como criador, seja como idéia era, além de comercializar diversos produtos, favorecer o intercâmbio entre os segmentos da cultura pop/tech de colecionador, nada como uma boa Salvador. pesquisa. Há alguns excelentes livros sobre a temática, como “Full Vinyl: The Subversive Art of Designer Toys”, de Ivan Vartanian, “I Am Plastic: The Mais Toys! Designer Toy Explosion”, de Paul Budnitz e “Plastic Culture: Toy Centro: foi criado no início de 2006, por Andrea May, para ser um local de compartilhamento How Japanese Toys Conquered de idéias, contatos, ações e eventos envolvendo a Toy the World”, de Woodrow Art, seja na Bahia ou em outros cantos do Brasil. Pode ser Phoenix. Infelizmente, são acessado em [www.toycentro.blogspot.com] Para mais informações e para fazer os seus próprios é só encontrados apenas em acessar: inglês e, importados, custam Vinyl Abyse [www.vinylabuse.com]: Referência em toys mais de 100 reais por de resina Toypaper [www.toypaper.co.uk]: Baixe e monte seus exemplar. Mas na web é próprios paper toys possível encontrar uma Paper Critters [www.papercritters.com]: Crie, lista sem fim de imagens, desenhe, imprima e monte paper toys sites e blogs, tanto de marcas e de lojas, quanto de criadores e fãs.

Empecilhos à parte, a Toy Art vai, pouco a pouco, encontrando seu espaço, se firmando como estética contemporânea e conquistando uma legião de aficcionados. Para Marcelo Almeida, fã de Gary Baseman e dono de uma coleção que não pára de crescer, os toyarts estão invadindo a mídia, a publicidade e a vida das pessoas. “Estão entrando em nossa cultura e eu acho muito legal ter um pouco mais de cor, de criatividade e de inspiração no diaa-dia”, afirma o estudante, que substituiu os potes, as estátuas de madeiras e as caixinhas com folhas perfumadas - que a mãe havia comprado para decorar sua casa - por “bonequinhos de 6 cm, muito mais legais e baratos”, hoje distribuídos em móveis e prateleiras.

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texto Carolina Guimarães e Mirela Portugal fotos Evandro Teixeira

Os quarenta anos da histórica foto da Passeata dos Cem Mil, nascida da lente do fotojornalista baiano Evandro Teixeira

“Das lutas de rua no Rio em 68, que nos resta, mais positivo, mais queimante, do que as fotos acusadoras, tão vivas hoje como então, a lembrar como a exorcizar?”
Diante das fotos de Evandro Teixeira, Carlos Drummond de Andrade.

Ao ajeitar a lente 35 mm na frente do rosto, procurando um novo ângulo para recortar a multidão que se estendia na Praça Marechal Floriano na Cinelândia, Evandro não sabia que a foto não seria publicada. Esforçou-se como se a imagem fosse para a primeira página. Algum sexto sentido guiou seu olhar até o momento perfeito para o clique. Não lhe parecia um grande desvio da verdadeira missão daquele dia: registrar o exato momento da prisão do líder estudantil Vladimir Palmeira, a qual, segundo rumores, aconteceria durante a manifestação que mais tarde seria conhecida como Passeata dos Cem Mil. Ao seu lado, no alto da escadaria da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, o jovem Vladimir discursava, inflamado. Mais tarde, ele iria embora ileso, e a foto pretendida jamais nasceria. Nenhum problema para o fotojornalista, que empunhando sua velha Leica, enquadrava e registrava o magnetismo dos cem mil que fizeram história naquele dia. No retorno para o laboratório de revelação do Jornal do Brasil, passada a ânsia do momento, Evandro Teixeira não se deteve muito ante os negativos. Estava mais preocupado em medir a temperatura do revelador com o dedo e dar corda no relógio-cronômetro – o JB podia ter idéias revolucionárias, mas na infra-estrutura passava longe do moderno. Trabalho

feito, filme entregue ao laboratorista. E alguns anos de silêncio. O fotograma que se tornaria o símbolo de uma época só ganharia as folhas de papel 15 anos depois. Cem mil em uma foto Muito já foi dito, escrito, celebrado e descoberto sobre o ano de 1968. Não há quem nunca tenha ouvido histórias de heroísmo ou tirania sobre aquela que foi uma das épocas mais lembradas e idealizadas da história do Brasil. Porém, nada consegue sintetizá-la tão bem quanto a imagem capturada pela lente de Evandro Teixeira. Um quadro perfeito de multidão, no qual só um detalhe se destaca: um cartaz com as palavras de ordem que estavam na ponta da língua de todos os presentes: “Abaixo a ditadura. Povo no poder”. Despreocupado com a modéstia, Evandro não hesita em chamar aquele 26 de junho de 1968 de um dos dias mais bonitos do Brasil. Era uma manhã ensolarada de quarta-feira, a despeito do inverno que se anunciava. A célebre Passeata dos Cem Mil coloria as ruas com o calor idealista dos estudantes, artistas, religiosos e intelectuais. Era a maior manifestação popular contra o regime dos miltares, e havia sorrisos de tímido otimismo nos rostos. Foram essas faces anônimas, em um

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quadro simples, porém poderoso, que Evandro Teixeira deixou registrado. E, passados quarenta anos, ele rende suas homenagens à foto com a linguagem dos iniciados: “Vladimir falava da Câmara, e eu estava ao lado dele. De lá do alto, tirei a foto. Fiz com uma média angular, construção belíssima, nitidez incrível, foco do primeiro ao último”, diz Evandro. Todos os rostos estão focados, nítidos. Qualquer um pode, com relativa facilidade, reconhecer a si mesmo ou a parentes e amigos. Mas, ao mesmo tempo, poderiam ser de qualquer um. Evandro não buscou enquadrar pessoas famosas ou influentes, muito embora algumas – como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil – estivessem presentes na Passeata. A multidão ali retratada é de anônimos, um recorte, uma síntese do que foi aquele dia, em que o povo foi às ruas. E, por causa disso, de alguma forma, todos os cem mil estão naquela foto. O estagiário e o foca Até ter a oportunidade de fazer a célebre fotografia, Evandro Teixeira, baiano nascido em Irajuba (a 300 km de Salvador) precisou deixar tudo que conhecia para construir sua carreira no Rio de Janeiro. Ao chegar em frente ao modesto prédio do jornal Diário da Noite, nada nas mãos a não ser uma carta de recomendação e, na cabeça, a idéia de que o Rio era o destino de todo artista, Evandro não teve a melhor das acolhidas: “Baiano, vá fotografar os casórios. Pode ser qualquer um de dia, de tarde ou de noite, só não quero gente preta”, foram as palavras do editor. Era o seu primeiro trabalho como fotojornalista. Depois de procurar o dia inteiro, o único casamento que Evandro encontrou foi o de, como ele descreve, “um negão com um black power e uma loura alemã”. Apesar das instruções recebidas, fez a foto assim mesmo. “Cheguei à redação e pedi ao laboratorista, que faz o papel do photoshop de hoje, até muito melhor, para dar uma mexida, e o cara ficou branco. Mas aí o

diretor de fotografia descobriu a armação porque não dava pra mudar o cabelo do cara, e veio já xingando: ‘Demite esse baiano que ele é burro!'” Uma semana mais tarde, Evandro teve uma segunda chance: “Voltei e fui escalado para fazer a cobertura do carnaval”. Vestindo um smoking alugado, ele foi ao baile do Teatro Municipal. “Subi pro primeiro andar, e, não lembro bem porque, não fiz o trabalho. Todo foca é a mesma merda, fui recebido aos xingamentos de novo. Mas me deram outra chance no desfile da escola de samba, e aí, finalmente, saiu perfeito, voltei com um material lindo pra redação.” Cinco anos mais tarde, já fora do Diário da Noite, dividia a redação com Zuenir Ventura e Carlos Drummond de Andrade, no ilustre Jornal do Brasil. “O JB era o sonho de todo jornalista, e é onde estou até hoje. Eu tinha medo de ir pro jornal, porque era glamouroso, top de linha demais e eu pensava que não estava preparado. Quando o editor me xingou pela primeira vez, vi que podia trabalhar ali.” Evandro diz que o jornalismo era mais romântico naquela época, pois havia mais tempo disponível para a apuração, a pesquisa, o jornalismo investigativo. “Hoje não existe mais isso, ninguém faz nada com tempo, tudo é para ontem”, lamenta. Cem rostos quarenta anos depois Evandro já estava com a carreira consolidada quando a foto da Passeata – que ficara esquecida desde 68 – foi resgatada durante a preparação de seu primeiro livro, Fotojornalismo, lançado em 1983. Enquanto fazia o projeto gráfico do livro, Elayne Fonseca, designer e amiga de Evandro, encontrou a si mesma e ao seu marido, o arquiteto Ernandes Fernandes na foto. Em 68, eles ainda não se conheciam. “Ele [Evandro] tinha umas duas caixas cheias de fotos, íamos para a casa dele, eu e o Ernandes, e passávamos uma por uma, tínhamos que achar umas 100 legais para publicar. No meio delas, havia uma cópia da foto. E ela era tão nítida que eu reconheci facilmente um amigo meu. Isso me abriu a idéia de que ali podia ter mais gente conhecida”. Depois foi fácil encontrar amigos da faculdade, até que finalmente Elayne se reconheceu, alguns metros abaixo de Ernandes. Esse foi o embrião do projeto “68 destinos”, lançado alguns anos depois. O objetivo era localizar e contar a trajetória de 68 pessoas entre os presentes naquela foto. Para isso foi criado um site [www.evandroteixeira.net/68destinos], onde o usuário poderia identificar os rostos na foto ao mover o cursor e ver cada pessoa ampliada. O próximo passo era enviar informações sobre aquela pessoa por e-mail. O projeto, patrocinado pela Petrobrás, logo se tornou conhecido. Foram localizadas não 68, mas A célebre Passeata dos 100 pessoas, número que remetia à passeata dos Cem Mil coloria as ruas Cem Mil. “Eles têm histórias maravilhosas - gente com o calor idealista que foi trocada por embaixador americano, que dos estudantes, artistas, fez parte da luta armada, outros que entraram pra religiosos e intelectuais. equipe do Lamarca e do Mariguela. E fotografei essas pessoas hoje em dia, na praça da Cinelândia também, como se ainda assistissem Vladimir Evandro Teixeira. falar”.

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Renato Ribas tinha um perfil diferente daqueles que formavam a massa de manifestantes – era empresário. Aos 28 anos, tinha sociedade numa empresa de consultoria na área metal-mecânica. Mas algo o unia àquela multidão que foi às ruas naquele dia: a ideologia. “Acho que poucos sabem ou dão valor ao que representou a passeata: a certeza de que uma manifestação, uma reação a um determinado estado de coisas pode, sim, levar governos a alterar suas atitudes“.

Doutora em Antropologia Social, Yvonne Maggie estava com 23 anos àquela época. Por achar que seria uma manifestação importante, ela decidiu ir sozinha, já que o namorado, o hoje antropólogo Gilberto Velho, tinha ido comprar as alianças para seu casamento, no mês seguinte. Por acaso, ela encontrou o futuro marido na multidão, com as alianças numa caixa embrulhada com papel de presente. “Só uma coisa está presente ontem como hoje: a consciência muito forte de que, sem liberdade e sem liberdade de pensamento e de expressão, é impossível a vida“.
Trechos do livro “1968: Destinos. Passeata dos Cem Mil”, de Evandro Texeira.

O projeto deu origem ao livro “1968: Destinos. Passeata dos Cem Mil”, lançado em Abril deste ano pela editora Textual, no qual as pessoas localizadas contam suas histórias e o que mudou em suas vidas nesses quarenta anos. Um instante para a posteridade E o que ficou do passado? Como olhar, hoje, para aquele distante 68, quando todas as utopias, sonhos e esperanças de uma geração estavam vívidos e palpáveis? Para Elayne, a lembrança daquele dia é felicidade. Ela, que tinha 19 anos na época, participava do movimento estudantil. “Ir para passeatas já fazia parte dos nossos planos corriqueiros dentro do

movimento. Foi um dia muito tranqüilo”. Tanto ela quanto Ernandes lembram que a Passeata foi pacífica. Segundo ele, a manifestação foi Elayne “ganhando ares de festa”. concorda: “Lembro de uma amiga minha, que também saiu na foto, que ia cantando e comendo chocolate, e eu recriminava: ‘Nossa, você parece que está numa festa'. Eu pensei que era um clima mais sério, mas era, de fato, uma festa”. Ambos destacam a importância da foto para a história do Brasil. “É um documento histórico muito rico”, diz Ernandes. “Durante muito tempo as pessoas tinham muito medo do DOPS, ninguém nem queria ser visto em foto. Então veio essa

foto, uma coisa linda, que foi puxando o fio da meada, fazendo a gente se reencontrar”, completa Elayne. Evandro considera que sua foto – aliás, não somente essa – serve como uma contribuição para que as gerações futuras possam saber como era a vida em um país sem democracia. ”Hoje mesmo, a editora recebeu um e-mail e me repassou: ‘Estou na foto, Evandro. Fico muito feliz. Minha mãe fará 83 anos, e vou presenteá-la com o livro. Queria que fosse autografado'. As dedicatórias seriam para Ricardo Magalhães, parte da história do Brasil e para dona Albertina, que também é parte da História do Brasil”.

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O homem de todos os cantos
texto Jéssica Passos e João Araújo fotos Fabiane Oiticica e Caio Sá Telles

foto Fabiane Oiticica

Há lugares no mundo que passam séculos despercebidos e são descobertos quase que por mágica por pesquisadores, turistas e curiosos. Tal é o caso das ruínas romanas em Volubilis, no Marrocos, que têm hoje recebido especial atenção, mas há cerca de sete décadas, quando um menino maravilhado as visitava, de mãos dadas com sua mãe, eram quase anônimas. O rapaz, ao vagar os olhos pelo local, deu-se conta de uma pequena moeda dos tempos dos césares. Tal mudança de olhar em relação a uma coisa tão diminuta determinaria as paixões do homem que ele se tornaria. Setenta e dois anos depois, do outro lado do Atlântico, o mesmo garoto de olhar pueril reergueria um castelo. Numa parte esquecida do centro histórico

de Salvador é que Dimitri Ganzelevitch guarda sua coleção de relíquias. Com a mesma ousadia de quando se abaixou para pegar a moeda, o homem de bons modos e educação aristocrática trabalha no Mercado Modelo, consegue comprar e reformar um casarão no bairro do Carmo e o transforma na casa-museu Solar Santo Antônio, hoje prestes a virar uma fundação. Mas, assim falando, parece que as coisas foram simples. Que do Marrocos ao Brasil foi como olhar a parte da frente de um postal, bonito e colorido. A verdade, porém, se pareceu bem mais com as linhas em preto e branco da parte de trás. A chegada em Salvador em um chuvoso março e a abertura da sua galeria de arte, localizada inicialmente no Pelourinho e

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depois na Barra, foram bem problemáticas. Além de ter sérias dificuldades para conseguir abrir seus estabelecimentos, não conseguia vender nada. Hoje, tantos anos depois, Dimitri já lançou grandes nomes e trabalhou com alguns dos artistas plásticos mais renomados da cidade, como Carybé, mas diz que para ele “vender Carybé é como vender uma caixa de sapatos. Ele já é famoso, não há mais vibração”. O simpático senhor que nos recebeu de meias diz que a arte “está nos olhos”, e que se uma pedra ou um galho na praia causa uma experiência de caráter estético em alguém, seja pelas texturas, cores ou mesmo pela disposição do musgo, aquilo, naquele momento, é arte. Desde pequeno, Dimitri é ligado à arte do povo e das ruas em todas as suas manifestações. Lembra sempre de quando andava, apaixonado, pelas feiras do Marrocos. Desde que passou a morar no Brasil, encontrou terreno fértil e grandes possibilidades na cultura baiana, notadamente popular, e por isso

trabalhou por tanto tempo com artistas – hoje famosos – como Bel Borba, J. Cunha, Babaloo. É difícil acreditar que alguém com a visão de Dimitri é resultado da união de duas famílias aristocráticas e educado num regime extremamente erudito. Seu avô paterno era russo e ficou preso fora do país quando da revolução bolchevique. Não podendo voltar, acabou, depois de casar com uma moça inglesa, morando no Marrocos. Seus avós maternos foram exilados na Argélia. Dimitri brinca que os dois lados da família foram “vítimas da história” e causadores de um “colonialismo involuntário”. Seu primeiro contato com arte se deu através de um curso livre em Rabat. Depois estudou ainda em escolas em Lisboa e Madri e universidades em Paris e Londres, mas sempre detestou a educação formal, e nunca chegou a ser graduado. Faltava aulas em Madri para visitar catedrais e museus, por desprezar a formação escolar nos moldes que era obrigado a recebê-la. Em Portugal, trabalhou como pintor com

foto Fabiane Oiticica

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fotos Caio Sá Telles

o mestre da azulejaria Jorge Barradas, mas logo desistiu, “sem traumas”, de criar arte para somente promovê-la, uma vez que não se considerava capaz de “arrancar as tripas e espirrar o sangue em cima das suas obras”. É inusitado que sua volta à África, continente ao qual é intimamente conectado e ao qual volta hoje ao menos uma vez por ano, tenha se dado devido a uma convocação para servir na Argélia, país ao qual chegou engravatado a um destacamento de tipógrafos comunistas. É óbvio que o contato inicial de Dimitri com os colegas de quartel foi o pior possível. Todos se irritavam com seus bons modos à mesa e com o fato de não dormir no quartel por ser apadrinhado por um dos superiores.

E não é a toa que todos ficaram surpresos quando ele fez um discurso no quartel contra a obediência cega aos superiores e contra o massacre europeu na África, sem sequer entender muito o que dizia. Aclamado depois disso como um herói pelos colegas de quartel, apanhou dos superiores e foi preso, fugindo um pouco depois como clandestino num navio que transportava ex-soldados de volta para a França. Teimoso, voltou para a Argélia e percorreu todo o país fotografando escravos até que findou a guerra. Para Ganzelevitch, um homem que sempre defendeu a preservação do patrimônio histórico, “lembranças são uma coisa maravilhosa e extremamente perigosa”. Acha que há uma tendência natural de abafarmos e não revivermos os momentos tristes, só os bons.

E isso, essas boas lembranças, “podem ser perigosas a partir do momento em que somos saudosos e achamos que só no passado as coisas eram boas”, pois é preciso, em qualquer tempo, “manter a curiosidade e a generosidade. Curiosidade para interessar-se pelos outros, generosidade para admiti-los (aos outros) em sua diferença”. O solar onde mora e nos recebeu, considerado referência de preservação arquitetônica em todo o país, recebe visitas de pessoas de várias partes mundo, interessadas em ver sua coleção ou o anfiteatro das estrelas, um belo teatro a céu aberto recentemente reinaugurado. Apesar de viver num lugar que muitos dizem ser quase uma extensão do que ele é e pensa, Dimitri acha difícil dizer o que ele é, quem ele é. Ele não é francês, nem marroquino, nem português (viveu 15 anos em Portugal, então pode reivindicar uma “costela portuguesa”), nem espanhol, nem argelino, nem inglês ou sequer baiano. “Sou, acho, um pouquinho o resultado das minhas vivências. Me sinto confortável em qualquer local, me sinto de qualquer lugar e, ao mesmo tempo, de lugar nenhum”.

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foto Fabiane Oiticica

Clica, clica... clica mais
texto Rodrigo Lessa foto Fabiane Oiticica

Começo preparando o ambiente: fecho cortinas, deixo ligada apenas a luz do abajur, sento na cama e me encosto confortavelmente na parede, com travesseiros de sobra e o notebook no meu colo. Conecto, dou uns cliques, acesso meus perfis nos sites mais diversos, vou clicando nas fotos-avatar de pessoas desconhecidas, só as que pareçam apetitosas, e abrindo novas abas. Leio nos perfis as poucas palavras que tentam mostrar um conteúdo não procurado nem oferecido. Vejo álbuns de fotos, adiciono aquelas pessoas que pareçam promissoras, e a esta altura já estou levemente excitado, prestes a ficar completamente excitado, o sangue quente circulando com força pelas veias do corpo cavernoso do meu membro, que dilata, pulsa, e o melhor, pede mais e mais. E é isso que dou a ele, mais e mais. Mais cliques, cada vez mais cliques, cada vez mais irresponsáveis e sem discernimento, deixando um rastro de recados e mensagens com meu MSN, me adicionem, quero sexo. Funciona, sempre funciona. Ser bonito e gostoso não é puramente uma questão de genética, ou de malhar incansavelmente. Basta tratar no Photoshop umas fotos do modelo da sétima página da busca Google Imagens para a expressão homem bonito, aquele cujo tom de pele lembre remotamente o seu, ser um pouquinho inteligente só, apenas um pouquinho, não deixar seu rosto à mostra na foto e marcar logo o sexo, quando ele ou ela te virem, acredite, você vai estar perto demais para existir a possibilidade de recusa. É só ter um pouquinho de inteligência, mas não demais. Demais cansa, me cansa. Quero sexo, nada de política ou filosofia, não me coloquem pra foder com Dostoievski, nem se for ménage com Meireles. Quero a mulher-melancia, o homem-bambu, o sushiman daquela foto, ou a garçonete do bauru com soda limonada da noite passada. Ao mesmo tempo. E o MSN sempre apita várias vezes, sempre ao mesmo tempo, novos contatos, antigos parceiros de boas fodas, outras nem tanto, é só escolher. Num menu de opções pouco ortodoxas, nem me pergunto quem quero hoje. O que quero hoje?

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Colaboração
é a chave

ATENÇÃO! Este material ou qualquer parte do mesmo pode ser copiado, reproduzido, distribuído, re-publicado, apresentado, anunciado ou transmitido de qualquer maneira ou por qualquer meio, incluindo, mas não limitado a, meios eletrônicos, mecânicos, de fotocópia, de gravação ou de qualquer outra índole, sem a permissão prévia por escrito da Fraude ou do titular dos direitos autorais. Desde 2004, a web encontra-se em uma nova fase. Mais democrática, aberta, anárquica e livre. Os teóricos vêm chamando essa nova rede de web 2.0, e, onde se multiplicam as maneiras de compartilhar conteúdo, conceitos como o de colaboração são a chave. A própria idéia de produção por parte de um único autor ou empresa vai por água abaixo nessa fase na qual um mesmo software pode ser modificado infinitamente por usuários que não se conhecem e estão espalhados por todo o globo. Da mesma maneira, através de processos como os mash-ups, músicas podem ser alteradas, combinadas e recombinadas de forma a possuírem uma versão para cada ouvinte. O mesmo com vídeos, contos, poesias, roteiros, comics, todos realizados numa lógica de inteligência coletiva. Ferramentas como os blogs, fotologs, twikis, compartilhadores de vídeo, música etc, ao contrário do que muitos podem pensar, são apenas a ponta desse gigantesco iceberg que é a web 2.0. Compartilhem nas páginas seguintes como os softwares livres brigam por espaço num mercado dominado por softwares proprietários e como a produção de cinema via web pode funcionar colaborativamente. E modifiquem à vontade!

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Navegar é preciso, pagar não é preciso
texto Cíntia Guedes e Matheus Santos

Com Licença, sim? É quase sempre proibido copiar, distribuir, reproduzir ou modificar a maioria dos produtos que tem como matériaprima a informação, a tecnologia ou o conhecimento. Acostumamos com o tal do “direitos reservados”, e é assim com a imensa maioria dos livros, CDs, softwares, etc. Até pouco tempo, só com muito dinheiro era possível acompanhar o ritmo das inovações. Agora, proliferam-se no mundo inteiro movimentos que defendem a bandeira do sistema colaborativo de produção de conhecimento, criando soluções palpáveis, inteligentes e rentáveis de produção, entre outras coisas, de Softwares Livres. Alternativas, aparentemente, mais acessíveis e bem mais justas.

A principal característica de um Software Livre é a abertura do código fonte. O usuário pode estudar como o software funciona e adaptá-lo às suas necessidades, alterando-o num sistema de soma e não de sobreposição. Uma vez que um problema é solucionado ou uma nova adaptação é feita, ela é divulgada e pode ser usada por todos, sem pagar nada. O Software Proprietário trabalha de maneira oposta: não permite que o usuário tenha acesso ao código fonte e cobra preços de softwares novos por pequenas inovações. Ou seja, enquanto o Software Proprietário é padronizado, o Software Livre permite adequações aos mais diferentes usos. O exemplo maior desta disputa parece ser entre o Software Proprietário Windows e o Software Livre Linux, ambos sistemas operacionais para computadores. Há diferenças bem marcadas entre os dois. A atualização do Linux é muito mais rápida, uma vez que não há necessidade de uma nova versão: os erros podem ser corrigidos por usuários em qualquer lugar do mundo. Já o Windows demora mais tempo para ser atualizado, pois o acesso às novas versões depende da Microsoft e do lançamento do produto no mercado. O Vista, a mais recente atualização do Windows, foi lançado em 2007, cinco anos depois de seu antecessor, a versão XP. Isso acontece porque o Windows utiliza a licença de reserva de direitos autorais enquanto o Linux utiliza outra licença - a GPL (veja box). Ao navegar pelo Software Proprietário que conferiu a Bill Gates o status de homem mais rico do mundo durante anos, encontramos uma interface altamente

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amigável, com ferramentas simples e práticas. Além disso, o uso massivo do Windows faz com que ele seja, na maioria das vezes, muito mais familiar. Já o Linux, à primeira vista, parece coisa de outro planeta. O usuário comum, acostumado com a interface do Windows e sem conhecimentos aprofundados de informática, demora a habituar-se ao Linux. Segundo o estudante de jornalismo Breno Fernandes, que usa tanto o Windows quanto o Linux, a maior dificuldade para um iniciante em Software Livre é darse conta de que não entende tanto de computadores como pensava. O exemplo é bastante ilustrativo: “imaginemos que a pessoa só usou o Internet Explorer toda a vida, e aí quando chega no Linux vai logo buscar o ezinho azul e o nome internet. Nesse momento, falta, ou tarda a vir, a informação de que Internet Explorer não é a Internet, mas um browser ou navegador, uma ferramenta, um software que te permite acessar a internet”. A superação do estranhamento inicial depende, em parte, da predisposição do usuário em conhecer um novo sistema. Pensando justamente nesse tipo de consumidor, foi desenvolvido o Ubuntu - Linux for human beings (Linux para seres humanos), um sistema operacional baseado no Linux e que promete ser muito
http://www .ubuntu-b r.org

mais fácil de usar. O que chama atenção nesta disputa é que ela abrange não somente questões tecnológicas; toca também a política, a economia e a esfera do desenvolvimento social. “Construir e utilizar o Software Livre é uma maneira de trabalhar com a perspectiva de que o processo educacional tem que formar um cidadão para que ele seja autor, produtor de conhecimento e de culturas e não só um consumidor de informações”, afirma Nelson Pretto, professor da Faculdade de Educação da UFBA, fundador do Projeto Software Livre Bahia (PLS-BA) e do projeto Tabuleiro Digital, que disponibiliza para a comunidade, na Faculdade de Educação, computadores em tabuleiros que se assemelham aos das baianas de acarajé. Os tabuleiros funcionam para navegação na internet por um curto intervalo de tempo – tempo de comer um acarajé – e todas as máquinas utilizam Softwares Livres. Liberdade em verde e amarelo “O Software Livre tem um significado fundamental para um país como o Brasil, porque tem como princípio a idéia de autonomia”, afirma Pretto. Ao que parece, os empresários brasileiros já se deram conta dessa vantagem: segundo pesquisa

publicada no blog Cultura Digital, do Ministério da Cultura, já em 2007, 53% das empresas no país utilizam Softwares Livres e esse número sobe para 73% quando contadas apenas as empresas de grande porte (aquelas com mais de mil funcionários). O discurso governamental veiculado tanto em jornais de grande circulação no país quanto nos aparatos de comunicação do Estado (blogs do governo, por exemplo) afirma que o Brasil tem ferramentas para despontar no desenvolvimento de SL, principalmente para o mercado de exportação. Nesse setor, a região nordeste tem chances de abocanhar grande fatia da produção, uma vez que no eixo sulsudeste existem indústrias para exportação de Software Proprietário que absorvem muito mais mão de obra e, possivelmente, deixam o mercado menos suscetível às investidas do SL. desponta Atualmente Pernambuco na produção de SL; Salvador, embora ainda não possua filiais de grandes empresas de produção de SL, é referência no desenvolvimento. Foi em terras soteropolitanas que surgiu, por exemplo, o primeiro Twiki do Brasil. SL que permite a interação de grupos usando um mesmo navegador, um Twiki é uma plataforma de criação colaborativa de conteúdo, a

http://www.cultura.gov.br/blogs/cultura_digital

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exemplo da Wikipédia. E o que tornou Salvador pioneira foi a criação do Twiki do Instituto de Matemática da UFBA, que permite uma melhor comunicação entre alunos e professores, pois todos são cadastrados e podem consultar informações sobre as disciplinas do curso, ler e baixar arquivos. Parecendo andar na contramão, o governador da Bahia, Jacques Wagner, assinou no primeiro semestre de 2008 um protocolo de intenções com a Microsoft, em que acertavam a parceria do governo do estado com a empresa para o desenvolvimento de ações de inclusão digital. Entre as ações, está prevista a doação de computadores para escolas públicas, obviamente com o Windows já instalado. A bandeira do SL foi levantada pelo Governo Lula desde a campanha presidencial de 1998, e quem não se lembra do ex- ministro Gilberto Gil, logo depois de assumir o Ministério da Cultura em 2003, usando um pingüim na lapela? Era o Tux, um pingüim farto após ter comido vários peixes, mascote escolhido por Linus Torvalds pra representar o Linux. O uso do SL nas instituições federais foi incentivado principalmente pelo MinC e pelo Ministério da Educação, contudo, a decisão da adoção do SL fica a cargo do gestor de cada instituição. Ainda não há nenhuma lei que regulamente a questão. Bahia.br “E o Linux começa a incomodar”, é o que pontua Daniel Cason, estudante do curso de Ciências da Computação da UFBA e membro do Graco (Gestores da

Rede Acadêmica de Computação) que gerencia parte da rede de computadores da sua faculdade desde 2005. O grupo de gestores funciona como uma oficina de redes prática, ou seja, o aluno trabalha efetivamente com o desenvolvimento e a manutenção de uma rede - o que para Cason deveria ser uma disciplina da grade curricular de qualquer curso de computação. De acordo com Cason, a opção do Graco pelo uso de soluções livres é fundamental não só para o seu aprendizado acadêmico ou pelo fato de não serem cobradas licenças pelos softwares, mas também para uma eficiente manutenção da rede. A cada nova necessidade ou idéia que é apresentada e a cada falha encontrada os alunos têm a possibilidade de intervir nos softwares e de adequá-los às suas intenções. Afinal, eles próprios, através de um processo de criação conjunta, podem solucionar os problemas que encontram. Vale ressaltar que o uso de um Software Livre não significa um uso necessariamente não comercial. No mercado de Salvador algumas empresas já apostam no uso do SL, seja buscando benefícios financeiros ou por ideologia, elas podem encontrar suporte em cooperativas que trabalham exclusivamente com tecnologias livres, e que oferecem desde serviços relacionados ao desenvolvimento de softwares até a migração de Software Proprietário para Software Livre. Este é o caso da Colivre [www.colivre.coop.br],bcooperativa soteropolitana que oferece seus serviços desde a pessoas físicas, políticos, órgãos governamentais, ONG's até mesmo a empresas privadas.

A cooperante Joselice de Abreu chama a atenção para a relação entre SL e Economia Solidária: “a gente desenvolve o software aqui e, se a população consome o nosso software, isso vai desenvolver a economia local”. Para ela, a questão é simples. Trata-se do consumo consciente, já que o capital que é investido localmente, num bairro, cidade ou estado tem um retorno muito mais rápido. “Quando usamos o suporte de uma empresa a qual podemos contatar por telefone ou ‘bater na porta' é diferente de usar os serviços de uma multinacional, cujo suporte está em outro país”, exemplifica Abreu . O caso parece simples: as tecnologias desenvolvidas próximas à comunidade possibilitam o retorno mais rápido do capital investido para a própria comunidade. Em Salvador, o movimento Software Livre cresce quase que escondido, em meio ao frenesi pelos pseudo-supernovos Softwares Proprietários que economizam seu tempo, ou seja, pela sempre nova (e cara!) solução dos seus problemas. A grande sacada é sempre a da multinacional, que pensa de maneira organizada e inteligente na inserção dos seus produtos no mercado. Ainda assim, mesmo para aqueles não muito dispostos com a causa do Software Livre, ele pode ser uma opção econômica e tanto ou mais eficiente do que o Software Proprietário. Mas quem sabe valha a pena inverter a lógica e refletir sobre o caso, como disse o professor Nelson Pretto: “Farinha pouca, um pouquinho de farinha pra todo mundo”.

GPL - General Public License (Licença Pública Geral)
Em termos gerais, a GPL baseia-se em 4 liberdades: Liberdade nº 0: A liberdade de executar o programa, para qualquer propósito. Liberdade nº 1: A liberdade de estudar como o programa funciona e adaptá-lo para as suas necessidades. O acesso ao código-fonte é um pré-requisito para esta liberdade. Liberdade nº 2: A liberdade de redistribuir cópias de modo que você possa ajudar ao seu próximo. Liberdade nº 3: A liberdade de aperfeiçoar o programa, e liberar os seus aperfeiçoamentos, de modo que toda a comunidade se beneficie deles. O acesso ao código-fonte também é um prérequisito para esta liberdade.
Fonte: Wikipedia

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texto Joã o Araújo e Marce lo Lima

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Não só softwares e os direitos autorais têm se modificado depois da idéia de colaboração na era da web 2.0. As mídias tradicionais de comunicação e arte também vêm sendo profundamente alteradas e o cinema colaborativo se destaca, particularmente nos últimos anos, por conta de projetos inovadores que se têm visto desenrolar de diferentes formas na ou a partir da Internet. O que a colaboração traz de novo para o cinema é a possibilidade de existirem, segundo Alene Lins, experiente em cinedocumentário e rádio, “roteiristas, editores e diretores de áudio, com desenhos de som diversos para o mesmo filme” e “ainda a possibilidade de ver diversas maneiras criativas de tratar a mesma temática, perceber visões estéticas diferenciadas, com os personagens desenvolvendo ações diversas”. Enfim, “histórias paralelas de um mesmo universo fílmico”. Alene acrescenta que o cinema colaborativo “é uma experiência nova que foge um pouco do conceito de cinema como um produto autoral”, visão da qual discorda a pesquisadora Karla Brunet, doutora em Comunicação Audiovisual pela Universitat Pompeu Fabra, para quem “ainda existe um idealizador por trás da produção, por mais que seja chamado de coordenador ou outro nome”. Porém, o cineasta soteropolitano Reinofy Duarte, não familiarizado com os modos de produção colaborativa, lembra que, desde antes desse tipo de produção, “a Internet ajuda em todo o esquema industrial do cinema”, possibilitando, por exemplo, “pesquisa por editais que estejam divulgados no espaço virtual, a relação entre profissionais de diversas áreas, o acesso às tabelas de valores de pisos salariais e de locação de equipamentos”. No entanto, o papel da Internet no cinema ampliou-se para muito além disso, tendo ela se tornado hoje um suporte essencial para a criação de certos filmes e possibilitando as suas produções e distribuições – por qualquer usuário – a baixos custos. Novamente, é preciso notar que a distribuição, mesmo de filmes tradicionais, “dentro de um ambiente virtual acaba sendo mais fácil, pois o próprio usuário decide o que quer colocar na internet. O YouTube já deixa isso bem claro”, como afirma Ricardo Chahad, um dos administradores da Você Filmes.

www.vocefilmes.com.br

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Há uma iniciativa nacional de cinema colaborativo no ar desde 2007, a Você Filmes. O site permite cadastro gratuito e tem como principal objetivo, segundo Ricardo Chahad, um dos administradores do projeto, “permitir que o participante aprenda por si próprio a produzir filmes e escrever roteiros, mesmo sendo amadores”. No site, se apresenta uma das diferentes formas de se fazer cinema colaborativo: os usuários sugerem, a partir de uma cena disponibilizada por um diretor, possibilidades de cenas seguintes, dentre as quais, o diretor escolhe uma e grava, e assim sucessivamente até finalizar o filme. Não se pode esquecer que há ainda outros projetos nacionais, como o de Paulo Coelho, de fazer uma versão fílmica de seu livro A bruxa de Portobello, a partir de fragmentos de vídeos postados por fãs voluntários no YouTube.

en www.op

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inema.o

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http://colunas.g1.com.br/paulocoelho/bruxa-experimental

Dentre os filmes colaborativos, não são os fictícios como os da Você Filmes, mas sim os documentários que têm se mostrado alguns dos principais projetos inovadores. Muitos deles tematizam aspectos da própria Web 2.0, a exemplo do The Weblog Project, que se auto-intitula um filme “por, para e sobre Webloggers”, o The Digital Tipping Point, sobre meios colaborativos, e o The Basement Tapes, que está sendo efetivado através do site OpenSourceCinema e discute o direito autoral na era da Internet. Os temas, entretanto, não se limitam à própria colaboração, apesar de ela ser muito recorrente. Segundo Karla Brunet, participante do grupo de pesquisa em cibercidades, isso se dá porque “os produtos tendem a ser metalingüísticos na emergência de novos formatos”. Em todo caso, já se vê outros assuntos, como a guerra do Iraque, debatida pelo The Echo Chamber Project. O que há de mais interessante nestes documentários é que eles nunca estão acabados, podendo ter vídeos filmados por qualquer usuário, ser editados e remixados infinitamente e possuir milhares de versões distintas. Sobre eles, Alene Lins, professora do curso de comunicação social da UFRB, argumenta: “acho que podem surgir produtos sem unidade ideológica alguma, muitas viagens, apenas pelo fato do grupo interagir. Mas também acredito na união de grupos ideologicamente integrados que construam algo que tenha a ver com esta ideologia compartilhada”.

www.archive.org/details.php?identifier=digitaltippingpoint

Apesar da unidade que o termo Cinema Colaborativo aparenta sustentar, a realização dos diversos filmes pode se dar de diferentes formas. A pesquisadora Karla Brunet fala de projetos inovadores, como sites que apenas compilam séries de vídeos temáticos enviados por usuários da rede. Há também os que recebem pedaços de roteiro para serem unidos no projeto de um único diretor, e projetos que apenas escolhem online a equipe e elementos, como a trilha sonora, para serem posteriormente realizados de forma tradicional e exibidos em salas convencionais, como é o caso de Faintheart, filme britânico que apenas usou o site de relacionamentos MySpace para, mediante voto, escolher elenco, direção e produção, além de

www.theweblogproject.com

www.echochamberproject.com

ace.com www.mysp

/faintheart

themovie

algumas características pontuais, como a trilha sonora. Ainda que colaborativo nesse aspecto, o filme será em sua maior parte produzido e distribuído de forma tradicional, em salas de cinema convencionais.

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Desconhecido sabor Agradoce
texto Rodrigo Lessa
Mulher de 27 anos, com um metro e setenta centímetros de altura, olhos castanhos, sorriso largo, daqueles que mostram quase todos os dentes da boca. Os cabelos castanho-escuro levam mechas brancas na parte da frente. Parecem propositais, mas ela jura que não. “Meu cabelo é o mesmo de Rogue”, compara-se com a personagem das histórias em quadrinhos dos X-Men, batizada de Vampira no Brasil. E ela é brasileira, sim, do nordeste, baiana. Mas que importa proximidade ou distância geográficas, se o mundo online pode te conectar com qualquer pessoa de qualquer lugar? Rebecca Agra. Ou Becca, Agradoce, Rebecat, Bebecca. Vários nicknames para vários perfis e páginas de sites de relacionamentos, blogs e fotologs. Sempre a mesma pessoa. Sempre encoberta por logins de usuários e senhas de acesso antes de citar Nietzsche num microblog ou de digitar simplesmente que comeu chocolate demais hoje. Formada em Design Gráfico pela Universidade Tiradentes e pós-graduada em Artes Visuais pela Universidade Federal de Sergipe, ela mostra seu trabalho – sua arte, seu hobby – em formatos JPEG de baixa resolução, deixando emails de contato ou skype por onde passa na web. Ela própria tenta se definir: “não sou uma”. Rebecca não se resume a ser “a” isso, ou “a” aquilo. “A” garota que mora sozinha. “A” mulher que está solteira. “A” pensadora que sente Clarice Lispector. Ela é plural – ela se diz ser e eu acredito. Não é uma pessoa em vários perfis, mas se faz de várias pessoas em cada um deles. Transforma-se diariamente no que gostaria de ver no espelho, mas sempre acha que falta algo. Entre uma e outra versão dela mesma, ela se questiona se um dia chegou a saber quem é, se um dia saberá. Ela pode não chegar nunca a saber, verdade. Após dezenas de cliques em páginas do orkut, myspace, blogspot, flicker, deviantart, computerlove, coroflot, multiply, twitter, facebook etc., eu também não chego perto de saber quem ela é. Sei que ela se diz ingênua, e talvez seu sorriso até comprove isso. Sei que o essencial em um homem para ela é ser inteligente. Sei que gosta dos livros de Stephen King, de jantar à luz de velas, que não consegue viver sem internet, dinheiro, sorvete, amor nem oxigênio... Mas não sei quais são suas prioridades. Em um de seus perfis, no qual ela supostamente deveria enumerar as 43 coisas que ela quer fazer na vida, consta apenas quatro coisinhas. Quatro projetos em andamento. “apaixonar-me, casarme com o amor da minha vida, aprender inglês, ser feliz”. E é só o que sei sobre ela para poder desejar-lhe.

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Em poucas palavras
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texto Samuel Barros

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Concurso de microcontos propõe desafio de fazer arte em 140 caracteres

O que é possível dizer com 140 caracteres? Que você aprendeu a fazer pipoca no microondas? Que gostou de um filme considerado brega e está com a consciência pesada por isso? Que descobriu uma nova banda no sudoeste asiático que faz um som legal? Esse é o desafio proposto pelo Twitter.com, rede social de microblogues mais popular no Brasil: escrever sobre o que você está fazendo com 140 caracteres, incluindo os espaços. É preciso aprender a cortar palavras, se quiser publicar no Twitter. Se forem levados em conta os dias normais, que são sempre a grande maioria, fica difícil fugir das cansadas frases de efeito, dos famigerados trocadilhos e das rimas amigas. Fazer arte – literatura, quem sabe – nesse universo de fragmentos de 140 caracteres foi o desafio proposto pelo primeiro concurso de microcontos via Twitter de que se tem notícia, organizado pelo jornalista Roberto Moreno e pelo livreiro Anselmo dos Santos. Para participar bastava ter um perfil na rede social, postar um conto dentro do limite imposto e colocar a tag, ou marcador, #140. No fim das contas, houve mais de 1.800 posts, dos quais três foram premiados com livros de ficção. Os autores/perfis vencedores foram @daniloprates, @terminal1 e @deniscp.

@daniloprates Chega. Vou me embora. Pra casa, pra nasa, pra onde a lava derreta a certeza que o nada persiste e a vida insiste em reter a minha sorte.

@terminal1 Eu sou o medo de escuro que existe no coração de cada criancinha.

@deniscp Trocaram olhares no metrô. Telefones na escada rolante. Carícias no cinema. Beijos no motel. Ofensas no carro. Despedidas na esquina.

O que é isso? Alguém se arrisca a dizer que é literatura? É possível fazer literatura com espaço tão escasso? Segundo @deniscp, ou Denis Pachedo, é plenamente possível, pois “a vontade de quem escreve é desafiar a imposição do limite definido”. E, na entrevista toda feita via Twitter, ele escreve: “literatura não é matemática, por isso não acredito muito em quantificar letras ou contar palavras”. Para Carlos Margarido, dono do perfil @terminal1, o julgamento cabe ao leitor. “Acho que literatura está no olho de quem lê. Por isso pode ser encontrada em qualquer lugar”, argumenta. Danilo Prates, outro premiado, por sua vez, pondera que o tamanho reduzido pode ser um convite para a pobreza. “O esforço está justamente em refinar o máximo, utilizando-se do mínimo”. Cabe a quem escreve falar mais em menos. Sintetizar. Parece que o conselho de cortar adjetivos foi levado às ultimas conseqüências. O imperativo agora é cortar todas as palavras que extrapolam o limite imposto.

- O sustenido seguido de um termo funciona como palavrachave no buscador próprio do site [http://search.twitter. com], que agrega todos os posts que contenham a tag buscada. - A junção de @ com nome de um perfil faz com que este receba o post direcionado a ele, podendo responder da mesma forma, e assim cria-se um diálogo (que todos podem ler, claro). - E foram com esses dois artifícios do Twitter que entrevistei os três vencedores do concurso: trocando mensagens com o @ e marcando os posts com a tag #f6. Para ler tudo na íntegra, busque esta tag na rede de microblogues.

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PicassosLondres movem-se por
texto Caio Sá Telles e Jéssica Passos
Postes e muros despidos estão com dias contados. Sem precisar da legitimidade assegurada por galerias ou museus, a arte avança sobre paisagens cotidianas e propõe uma nova maneira de se desvelar o mundo. Colagem, estêncil, pintura livre. Hoje, não encontramos apenas anúncios de cartomantes e de consertos de fogão espalhados pelos cenários urbanos; pois as intervenções artísticas passam a colorir o cinza das grandes cidades, arrematando-o com golpes de muito tecnicolor. Naara Nascimento, estudante de Desenho e Plástica da UFBA, e Túlio Carapiá, designer gráfico e ilustrador, acreditam na potência interventora da arte que ganha força, sobretudo, em movimentos como a Street Art, o Grafite e o Terrorismo Poético. “No momento em que as produções artísticas não estão fechadas dentro de uma galeria, elas se tornam mais abrangentes por poderem ser percebidas por mais pessoas. A Street Art, por exemplo, pretende retratar o trabalho pessoal do artista, no cotidiano, e o cotidiano em si com certa ludicidade”, afirma Naara. Para Carapiá, o apelo maior que a rua exerce sobre o artista é a necessidade de massificação de seu trabalho. “A expressão artística deve sempre dialogar com o meio em que vive e, dessa maneira, a poesia em se produzir arte é tornar público trechos de nosso diário pessoal, afirmando nossa individualidade. Na rua, a necessidade de

Piero Carapiá – ilustrador, estudante de Arquitetura e Urbanismo da UFBA e de Desenho Industrial da UNEB

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Daiane Oliveira - estudante de Artes Plásticas da Escola de Belas Artes da UFBA

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diálogo entre público, obra e artista fazse ainda mais presente. Os trabalhos devem ‘conversar' com quem o observa, com quem entende ou não entende de arte”, declara Carapiá. Perceber a arte diluída ao próprio entorno altera o olhar de alguém sobre o mundo em que vive, abandonando a velha concepção utilitária dos espaços e estabelecendo um novo tipo de intercâmbio entre o homem e seus caminhos.

Segundo Naara, a criação parte de um ato individual, com o intuito de satisfazer certa pulsão do artista. Ao final, se transforma num processo para além do criador, cujos resultados são objetos do mundo – e no mundo. “Dessa maneira, o artista precisa zelar pela qualidade e integridade da apresentação de seus trabalhos, levando em conta que produz para si e também produz para todos”, conclui a ilustradora baiana.

Eder Maximiano – ilustrador e quadrinista da cidade de São Paulo

*Os trabalhos que ilustram estas páginas foram exibidos na mostra Fraudes Visuais, realizada entre os dias 11 e 15 de agosto, nas paredes externas da Faculdade de Comunicação da UFBA.

Naara Nascimento – estudante de Desenho e Plástica da UFBA

Túlio Carapiá – designer gráfico, graduado pela Escola de Belas Artes da UFBA Lívia Argolo – ilustradora, estudante de Design Gráfico da UFBA

FRAUDE 2008/09

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Paper Toy na Revista Fraude: recorte (ou não), monte e divirta-se.
ilustração Brian Gubicza toy design Matt Hawkins

dobre

corte

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