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QUATRO Universidade Federal de Santa Catarina

Curso de Jornalismo
Jornal Laboratório da disciplina de REDAÇÃO IV
Florianópolis, dezembro de 2008
DISTRIBUIÇÃO GRATUITA
Supervisão: Jorge K. Ijuim

Fernanda Espíndola

INFÂNCIA: Das 80 mil crianças que vivem em abrigos no Brasil, 87% não estão disponíveis para adoção e a maioria não volta à sua família por já ter sofrido maus tratos pelos pais

Menores em situação de risco


esperam definição de seus futuros
Apenas 5% das crianças em abrigos são, reito a ser criado e educado no seio da assistentes sociais, cada uma delas, no crianças vivam por período indetermi- Algumas destas permanecem nas insti-
de fato, órfãs, o resto delas está nesta sua família e, excepcionalmente, em fa- momento, acompanha em média 50 pro- nado nas instituições. tuições até completarem 18, depois dis-
situação por maus-tratos ou negligência mília substituta, assegurada a convivên- cessos. Sobrecarregadas, dão preferên- Os menores vão para a escola e a so são obrigadas por lei a desligarem-se
por parte dos pais. Para estas crianças, cia familiar e comunitária.” Este é o ar- cia para as crianças em situação de ris- partir dos 16 anos são estimulados, das instituições.
a situação de abrigamento deveria ser tigo 19 da lei nº 8.069, de 13 de julho de co. É por este motivo que os processos além disso, a fazerem cursos profissio- As crianças têm teto, alimentação,
apenas transitória, até a restituição na 1990. Ainda hoje, 18 anos depois, ainda de destituição familiar, que liberariam nalizantes. Segundo Munique, psicólo- recebem carinho, acesso a saúde e edu-
família ser autorizada pelo conselho tu- não há condições de respeitá-la. as crianças à adoção, ou reintegração ga da Casa Lar Pai Herói. Incentivar os cação. Mas perdem uma grande refe-
telar, ou serem adotadas. A vara da infância e da juventude de à família, arrastam-se por meses, ou menores é essencial, pois é rara a ado- rência para a formação: a convivência
“Toda criança ou adolescente tem di- Florianópolis conta com apenas duas até mesmo anos, o que faz com que as ção de crianças maiores de seis anos. com a família.
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Transporte Prostituição Contrastes Cemitérios Mulher


Nosso controverso Trabalho que rende Preconceito que Especulação cresce Muros e grades por
espetáculo diário debate e história cega e exclui por falta de espaço todos os lados
Com quantos ônibus se atravessa Floria- A prostituição narrada a partir do perfil de Enquanto a mãe natureza se encarregou Com os cemitérios de Florianópolis Faz três anos que Roseli não liga para o
nópolis? Nos cinco anos do Sistema Inte- duas mulheres que trabalham na capital. de separar as belezas naturais de Floria- lotados, famílias em luto possuem marido e nove meses que Ana Paula não
grado de Transporte Coletivo, o Quatro Detalhes de suas histórias e da rotina que nópolis em ilha e continente, a popula- menos opções para enterrar seus vê a mãe. Elas estão ilhadas no Presídio
visita os seis terminais da cidade, conhe- levam em casa e nos locais de trabalho, ção criou padrões para os que moram parentes. Quem pode paga até R$ 8 Feminino de Florianópolis assim como
cendo mais de perto este personagem que, uma luxuosa casa de shows e uma whiske- “do outro lado da ponte”. Os morros e mil por um terreno no cemitério par- a adolescente grávida Suzi e mais 159
entre mocinho e vilão, participa do nosso ria no centro da cidade. Um outro olhar seus moradores também são alvos de ticular Jardim da Paz. A população de mulheres. Todas perderam a liberdade
cotidiano. Confira a viagem de seis horas, sobre essa profissão que, ainda não legali- discriminação, problema maquiado em baixa renda conta com o auxílio da de ir e vir, mas suas expectativas e preo-
nove ônibus e 167 km do nosso repórter, zada no Brasil, gera polêmica, projetos meio à folia do carnaval. Cruzamos a Prefeitura, que fornece caixão, velório cupações não se mantêm imóveis. Elas
assim como as propostas dos órgãos pú- de lei e divide opiniões entre a sociedade, ponte e subimos o morro. L á se vão os e uma vaga por quatro anos nas gave- amam, riem e sofrem enquanto esperam
blicos para a melhoria do sistema. legisladores e trabalhadoras da classe. preconceitos. tas do São Francisco de Assis. o tempo passar.
4>> 12>> 6 a 8>> 16>> 21>>
 QUATRO OPINIÃO & DEBATE Florianópolis, dezembro de 2008

Editorial
Manifesto da redação por carreguem uma visão preconceituosa e

Felipe Machado
talvez até provinciana. Que na escolha
de palavras cometamos algum deslize.

jornalismo mais humano Ainda assim, é reconfortante perceber


o quanto melhoramos como repórteres

M
e pessoas durante essa caminhada na
busca da humanização do jornalismo e
ais gente. Mais pes- sídio feminino é descrita com antíteses e de nós mesmos. Sempre com incentivo
soas. Mais seres figuras de linguagem. de nosso sensei - o mestre japa - Jorge
humanos. O Quatro Mais que um bom texto, nossos esfor- Kanehide Ijuim.
nasceu dessa premis- ços focaram-se em eleger bons temas e Incentivados também por nossa von-
sa, relembrada a cada fazer boas apurações. Reconhecemos que tade de escrever mais. Produzir matérias
reunião de pauta desta edição. A busca de se despir do “pré-conceito” não é tarefa mais longas, mais textos autorais, mais
um jornalismo mais humanizado, sem fácil. Falar sobre reportagens, com
preconceitos e com responsabilidade tabus como pros- mais profundida-
guiou a produção do jornal. Nos dedica-
mos a romper as fronteiras do jornalismo
tituição, morte, ou
mesmo classes so-
Queremos contar de. Não queremos
ser os “especialis-
objetivo e dono de uma única verdade.
Temos consciência de que o tratamen-
ciais requer muita
maturidade pesso-
histórias. Romper tas-em-nada”. Não
queremos apenas
to que damos às matérias pode mudar as
concepções de mundo, noções do senso-
al e jornalística, as
quais fomos incen-
as fronteiras da produzir cápsulas de
informação. Quere-
Florianópolis foi o cenário para a apuração dos 30 repórteres do Quatro

comum, visões de cultura. Ou consolidá-


las. E aqui nos preocupamos não apenas
tivados a desenvol-
ver nesse desafio
objetividade e da mos contextualizar,
entender os aconte-
descrevem ou simplesmente noticiam.
Queremos ser contadores de histórias.
terpretações que um texto pode ter. São
essas as possibilidades que nós procu-
em mostar a versão mais próxima do real,
mas também a versão mais palpável e
de fazer um jornal-
laboratório.
verdade única cimentos não como
fatos isolados, mas
Queremos fazer simbiose entre o jorna-
lismo e a arte.
ramos. Queremos fugir das versões ide-
alizadas da dicotomia do bem e do mal.
compreensível dos fatos. Para isso, o sis- É claro que não encadeados em uma Não temos a pretensão de que os lei- Viver é mais complexo que isso. O jorna-
tema de ônibus de Florianópolis vira uma chegamos lá ainda. Sabemos que temos conjuntura social. tores vejam o mundo com nossos olhos. lismo também deveria ser.
peça teatral; uma crônica-reportagem, muito a aprender. É possível e prová- Queremos nos inserir no cenário de Só queremos despertar algum sentimen-
cenas de filme e a realidade de um pre- vel que muitos de nossos textos ainda reportagens que narram e não apenas to. Estamos conscientes das diversas in- Equipe de Redação

Da redação UFSC alagada

Comemos barriga
Felipe Machado

Jorge Kanehide Ijuim

“C
omer barriga” órgãos de imprensa (e seus jornalistas)
no jornalis- teve por motivação a solidariedade às
mo significa dores universais, ou simplesmente por-
perder a opor- que “tragédias são sempre notícia”.
tunidade de A discussão sobre o que chamamos
cobrir um fato relevante. Nesse sentido, de “valores-notícia” é pertinente porque
temos que admitir que o Quatro comeu as abordagens de alguns jornais e seus
barriga ao não trazer nessa edição qual- jornalistas denunciam a falta de uma
quer matéria sobre a tragédia que asso- perspectiva humanista. Pelas imagens
lou o Estado no final de novembro. de TV ou pelas fotos de jornais – e até
Mas foi algo consciente. O jornal capa de revistas – houve quem privile-
estava em fase de fechamento quando giou a máxima: “- Quanto mais gente
as fortes chuvas estavam caindo (no ge- chorando, melhor!”. Nesses casos, o
rúndio, mesmo!). apelo às dores do outro, beirou ao sen-
Somos um jornal sacional. A falta
laboratório, de 4ª
fase de um curso de O apelo às dores de compreensão
do quanto é com-
Jornalismo. Como
tal, àquela altura não do outro beirou plexa a questão
dos fenômenos
tínhamos mais tempo
hábil, infra-estrutura, ao sensacional. – físicos e sociais
– levou alguns
mobilidade e agilida-
de para deslocar uma Alguns adotaram jornais e jornalis-
tas a adotarem a
Santa Catarina ainda não estava na primeira página dos jor-
nais do Brasil quando esta foto foi tirada, em 13 de novem- Sobre o fotógrafo:
equipe e realizar um
trabalho minimamen- a postura do postura de “profe-
ta do acontecido”,
bro, mas Florianópolis já estava cercada de água. Após dias
seguidos de chuva forte, eis que aparece o sol. E andava tão
Felipe Machado cursa o quinto semestre
de Jornalismo na UFSC. Mais do trabalho
te satisfatório. Se essa
não é uma boa justi- “profeta do apresentando ver-
sões simplistas e
sumido que era possível ver outros fotógrafos perambulando
pela universidade para registrar o fim da chuvarada daquele
dele em www.flickr.com/felipemachado ou
escreva para felipemachado@gmail.com
ficativa, ao menos
acontecido” reducionistas. Tal dia. Teve até arco-íris.

4
expõe nossa decisão, postura trouxe a

Expediente
baseada na consciên- público matérias
cia de nossas limita- com o discurso:
ções. “todos sabiam do que poderia aconte-
E, apesar dessas limitações enquanto cer, mas ninguém fez nada”.
jornal laboratório, a equipe do Quatro é Cabe à imprensa investigar, criticar,
solidária à população catarinense e – in- elucidar. Mais que apontar a irresponsa-
dividualmente e a sua maneira – está bilidade deste ou daquele, é fundamen- Reportagem, edição e
fazendo tudo que pode para minimizar tal ter como ponto de partida a com- diagramação:
o desconforto dos seres humanos atin- preensão de que tragédias como a que Andressa Dreher, Angieli Maros, Projeto gráfico:
gidos por essa catástrofe. vivenciamos é conseqüência da ação Bibiana Beck, Camila Chiodi, Flávia Schiochet Ano 1 Número 2
*** minha, sua, de todos. Portanto, talvez a Cecília Cussioli, Felipe Machado, Marcelo Andreguetti dezembro 2008
Mesmo “comendo barriga”, vale aqui culpa não seja só da “autoridade” que Fernanda Espíndola, Flávia
fazer alguns comentários sobre certos descumpriu seu dever de antever, nem
Schiochet, Gabriel Esteves, Colaboração: Jornal da Disciplina de
movimentos ligados ao fato principal. tampouco do “irresponsável e turrão”
Gabriel Luís Rosa, Gabriela Bazzo, Clóvis Geyer, Matheus Nolli,
Os governos, em suas várias esferas, que construiu sua morada em área de Redação IV
corresponderam com certa rapidez às si- risco. A responsabilidade é de todos os Gabriela Cabral, Gustavo Naspolini, Manuela Soares, Samuel Casal
nalizações da calamidade. Mobilizaram filhos desta “Terra-Pátria”. Isis Martins, Jessé Torres, Jéssica
gente e recursos para o atendimento das Estas linhas não são críticas à im- Camargo, José Monteiro Jr, Júlio Supervisão: Curso de Jornalismo
vítimas. A instituição imprensa também prensa, mas autocrítica, pois também Ettore, Larissa Cabral, Letícia Jorge Kanehide Ijuim
respondeu ao socorro do Vale do Ita- sou jornalista. Como tal, tenho que Arcoverde, Luísa Konescki, Universidade Federal
jaí. Empresas jornalísticas deslocaram aprender com erros e acertos, para po- Marcelo Andreguetti, Marina Impressão:
equipes para a cobertura – repórteres der compartilhar as experiências com de Santa Catarina
Rocha, Mayara Schmidt Vieira, Imprensa Universitária - UFSC
especiais, correspondentes, até âncoras. meus alunos – jornalistas em formação.
Michel Siqueira, Paulo Rocha,
Alguns fizeram o que se pode conside- É meu dever mais que ensinar técnicas, Trindade
rar um bom trabalho. Outros nem tan- suscitar o debate sobre a profissão e so- Pedro Dellagnelo, Rogério Moreira, Tiragem:
to. Vale refletir se a mobilização desses bre as ações humanas. Sarah Westphal, Sofia Franco. 1500 exemplares Florianópolis - SC
Florianópolis, dezembro de 2008
ESPAÇO GONZO QUATRO 

A noite é de sexo, algemas e cinta-liga


Ou, do sábado em que uma repórter em busca de uma entrevista caiu de pára-quedas em uma noite Candy

E
sse camarote é meu! transparente – está ga e todo cara já co- - Acho que tá reservado pros pir-

Manuela Soares
- Isso é um cama- um grupo de adoles- meu um colega de es- ralhos – fala o agregado.
rote? centes. Parecem ter cola. – brada a morena - Como se ela se importasse – re-
- Eu sou aniversa- 16 anos. Eles tiram com voz rouca em tom truca a morena que já está atrás da
riante e meu pai pa- fotos, fazem poses, escrachado. loira, em direção ao “camarote”.
gou esse camarote pra mim! dão beijos na boca. - Que horror! – fico
- E qual é seu nome? Meninas e meninos. escandalizada ao ima- Posfácio
- Gabriela Bo... Mas o que chama ginar criancinhas da Reencontro os três na pista lotada,
Não que eu não queira identificar mais a atenção são pré-escola fazendo depois de ser enxotada do sofá e de
a menina, mas ela estava tão bêbada seus berrinhos e risi- sexo. Mas acho que uma entrevistada que parecia um tú-
que não conseguiu falar o próprio nhos de hiena. Prin- não era a esses cole- mulo.
sobrenome. cipalmente quando gas de escola que ela - Você já tomou bala? – pergunta
- Como? Não entendi seu nome. chega mais uma be- se referia. o agregado.
- Saaaaaai do meu sofá que eu bida colorida. Fico - Todo mundo já ex- - Não.
quero deitar! – grita histérica a me- perto de uma colu- perimentou. Vai dizer - E doce?
nina com um agudo mais irritante na, para observar que não? – continua a - Nunca.
que Mariah Carey. Bia, a DJ que vim morena – Mas os ho- - Vamos tomar? Um amigo meu tá
Eu levanto. Ela desaba no sofá. entrevistar. Ao meu mens ficam com ver- trazendo. É 35 o doce.
Sua calcinha é branca. Mas ela pa- lado há uma mesa, gonha de admitir. A morena tenta me convencer,
rece ter vindo pronta para mostrá-la, e nela uma morena. - Eu nunca experi- mas não há jeito. Duas doses de
com sua cinta liga aparecendo com Meus pés estão me mentei coisa nenhuma Smirnoff já me deixaram aérea,
a meia branca, logo após o vestidi- matando. – se antecipa o agre- imagine coisa mais forte. E com
nho xadrez que só cobre a bunda. - Posso sentar? gado. ninguém em quem confio por perto
Bunda? Ela é tão nova que ainda - Claro, eu ia mes- Ouve-se Britney pra me salvar se eu precisar?
não desenvolveu bunda nem peitos. mo te convidar. Es- Spears e gritinhos ain- - Uma vez tomei nove balas em
Nem juízo. tou esperando uma da mais irritantes de uma balada só. – ri freneticamente
Mas estou aqui a trabalho... Cadê amiga que está no adolescentes deban- o agregado junto com a morena. Os
a Bia? Por isso a música estava tão banheiro. Que coi- dando para a pista. dois parecem ter bebido muito na
diferente. Onde que ela se meteu? Já sa horrível aquilo Enquanto a loira minha ausência.
foi um parto chegar aqui. Tenho que ali, menina! Mulher atende o marido no - Que risada é essa? – pergunta a
conseguir essa entrevista de qual- com mulher até vai, celular, a morena e o morena – tu é viado sim!
quer jeito. agora homem com agregado conversam - Não sou não. Já falei que gosto
homem não dá, né? ao pé do ouvido. A loi- de mulher.
Prefácio – a morena aponta ra avisa que o marido Só agora percebo que a loira está
- Você está bem longe. os adolescentes no está vindo. com um homem mais velho, ao nos-
- Ah é? Mas é pra lá ou pra lá? canto da boate. - Sério que vocês so lado, perto do bar. Deve ser o
Eu me perdi nas ladeiras. - Aqui tem sempre duas transam? Mas marido. Continuo dançando. Chega
Sim, eu estava perdida no centro essa pirralhada? porque você trai seu a bala. Morena e agregado vão para
de Floripa, às onze da noite de um - Não sei. É a se- marido? Falta alguma o banheiro. O marido da loira segue
sábado chuvoso. A chuva já não é gunda vez que venho coisa na relação? os dois com um olhar indecifrável.
mais novidade depois de 12 finais aqui. Hoje é noite - Falta muita coisa Quando voltam ela pára ao meu
de semana sem sol. “Candy”. É pro na relação! lado, bate quadril com quadril, en-
Chego à boate onde vou encon- público feminino - Nada! É porque laça minha cintura e dispara para o
trar a minha entrevistada: Bia Wen- mesmo. Só vem a aqui o sexo é bom agregado:
dhausen, DJ aos sábado e hostess mulherada. Mas mesmo! – reponde a - Adoro mulher grande!
nas quintas. Combinei com ela por começa a encher morena com sua voz - Já começou a pegar a bala? –
um depoimento no site de relacio- só à meia-noite. rouca. pergunta o agregado para a morena,
namentos Orkut. “Adorarei fazer a A morena é mui- Todos riem. enquanto a loira me fuzila com os
entrevista”. Essa foi a resposta, se- to risonha. E cla- - Que tipo de ba- olhos e o marido sorri.
guida de MSN e telefone. ro, simpática por ladas tu freqüenta? - Ele sabe? – pergunto à morena.
- Tem nome na lista? me agregar à sua Pergunta-me a loira. - É claro que sabe. Ele só quer
- Tenho. Andressa. Está na lista mesa. - Eu prefiro bar- ficar olhando.
VIP. Eu falei com a Bia. - Ai, menina. A zinho, tipo o Blues. - Já volto.
- Não. A Bia não me passou nada. gente tá bebendo Em balada, eu vou O banheiro está lotado. Entra um
Está na “lista amiga”. champagne desde mais na Devassa. En- guri - deve ter entre 17 e 18 anos –,
Muy amiga, pensei. Vim até aqui o almoço. graçado, acabo fre- maquiado, junto com uma amiga
sozinha nesse sábado à noite só pra Sai uma loira da qüentando as baladas - Ai, eu vou aqui. Eles não me
entrevistar a mulher. E ainda ter que porta do banheiro. ditas “alternativas”, querem no outro mesmo. Afinal, eu
pagar quinze reais por uma festa Ela parece estar em mesmo sendo hetero. sou menina.
com estilo musical da qual não sou uma passarela, pé - Pois eu prefiro que Lembrei de uma professora da
fã? ante pé até a mesa. Mas não venham. Os hete- faculdade, antropóloga, falando so-
É possível ouvir a música que ela não é tão simpática rossexuais comentam. bre gêneros: “Quando vão acabar
toca lá dentro. É boa. É uma mulher quanto a morena. Lembra minha an- Eles vêm só pra fi- com essa palhaçada de banheiro
cantando em português numa levada tiga chefe. Senta, cumprimenta. Não car olhando, repa- masculino e feminino? Até parece
mixada estilo Vanessa da Mata. sorri. Fala mal do lugar, do almoço, rando pra depois que as pessoas não sabem se com-
- É a Bia que tá tocando? Tudo do marido, de si mesma. Tudo com comentar. Em São portar”.
bem, vou entrar do mesmo jeito. um sotaque estranhíssimo de que- Paulo não é assim. Volto para a pista para me despe-
O hall é pequeno e a moça que ro-ser-carioca-chique-dos-anos-90. Lá ninguém fica fa- dir dos amigos desta noite. São duas
cobra as comandas no caixa parece Bréeega. A cidade, as boates, as pes- senta um cara que é prontamente lando da tua vida. Aqui da manhã.
entediada. Sigo o som da música soas. Tudo pra ela é Bréega. Não um agregado à mesa pela morena. Ele eu tenho que ir em puteiro. E - Tchau menina, vou indo – falo
escada acima. O bar é grande. Na “brega” qualquer. Um “brega” com cumprimenta todas e me olha com mesmo assim tem que ser dos bons. para a morena.
verdade é pequeno. Mas comparado um “B” fortemente pronunciado, dúvida: Teve um onde o dono me falou “seu - Não! Fica com a gente. A gente
à pista, parece gigante. Dedos tocam que sai acompanhando um movi- - Você é...? marido tem nome na cidade. Você te leva.
ritmicamente os botões da mesa de mento discreto de cima para baixo - Andressa. não tem medo de ficar falada?” Eu - Não posso. Meu pé está me ma-
som ao lado do telão onde passam com a cabeça e com o abrir e fechar - Mas você não é gay não, né? faço o que eu quero! – diz indigna- tando – essa desculpa sempre fun-
clips de música black. Não condiz dos olhos. - Hmm, não. Porquê? da a loira – Não são eles que pagam ciona.
com as baladinhas que a loira está Daqui eu não consigo mais ver - É porque hoje é noite das mu- minhas contas. Aliás não sou eu - Então me passa teu telefone.
tocando. Bia. Há uma divisória entre esse lheres. A Aline é. Ela tenta me con- também. Não tô trabalhando. Eu passo, ela anota. Eu peço o
O ambiente é luxuosamente de- ambiente com mesas e sofás e a pis- vencer de que sou também, enquan- - Passa a tarde toda vendo TV perfil do Orkut dela, ela me passa.
corado: além do estêncil dourado ta. Mas adoro o repertório. Sixpence to eu tento convencer ela de que é com a empregada – debocha a mo- Digo tchau pra loira, pro marido.
nas paredes, dois sofás gigantescos None the Richer, Amy Winehouse, hetero como eu. Mas você já pegou rena. Na saída, passo pelo sofá onde a
de couro e cortinas de veludo no Blondie. menina, né? - Sim. Assistindo Márcia Golds- garota continua desmaiada. Ela per-
janelão. Tudo vermelho. Na fren- Aline, a garota da porta e amiga - É, mais ou menos. chimdt com a faxineira. Uma gorda deu a própria festa de aniversário.
te do janelão – quase uma parede da Bia, da morena e da loira, apre- - Todo mundo já beijou uma ami- desse tamanho. Vamos ali no sofá? Andressa Dreher
 QUATRO CIDADE Florianópolis, dezembro de 2008

(Des)integração há cinco anos


Quatro vai de ônibus do sul ao norte de Florianópolis para sentir as virtudes e limites do transporte urbano

Do sul ao norte
José Monteiro Júnior No limite
Rogério Moreira 9h08. O ônibus chega no Terminal
Infográfico: Rogério Moreira Júnior
Integrado de Canasvieiras e, mais
uinze para as seis da ma- pelo acaso do que por planejamento,
nhã. A cortina da noite
ainda está fechada no
Ponto final
do Ingleses 88,4 km é a distância entro na linha Ingleses. Assim como
o Caieira da Barra do Sul vai até o
entre o ponto final do Caeira
Trevo do Erasmo, que da Barra do Sul e o ponto final extremo sul da Ilha, o Ingleses che-
dá acesso aos bairros do Tican do Ingleses, no Norte da Ilha, ga perto do extremo norte, passando
Morro das Pedras e do Ribeirão da que pode ser feita com uma por praias que ficam movimentadas
Ilha. Lentamente, alguns faróis co- passagem. São três quilômetros no verão, até chegar no bairro Santi-
meçam a aparecer no horizonte, a menos que o trajeto entre a nho, aonde faz a volta para retornar
rompendo a escuridão. São os pri- Ponto final Tisan ao Terminal. No ponto final, entre-
capital e Balneário Camburiú
meiros ônibus que saem do Terminal do Capoeiras tanto, todos os passageiros devem
do Rio Tavares em direção aos bair- em São José sair do ônibus, e pela primeira vez,
ros do Sul da ilha para depois retor- A integração funciona por desde o Trevo do Erasmo, piso fora
narem cheios de passageiros. Agora, 30 minutos de um terminal.
porém, eles estão vazios, e cami- Titri - metade do percurso da linha Espero por alguns instantes até
nham silenciosamente como atores Madrugadão Norte, que dura que o ônibus volte, e quando passo
indo ocupar seus lugares no palco. o cartão pela catraca, pago mais R$
Seis minutos depois, o ônibus mais de 1,98. Até aqui, a máxima de “ir por
Tilag
Caieira da Barra do Sul passa pelo uma hora toda a cidade com apenas uma pas-
tal trevo. Dentro dele estão apenas Ticen sagem” estava funcionando – pelo
o cobrador (sentado num banco dos menos em parte. Gastei apenas uma
passageiros, dormindo) e o motoris- 224 mil é o número passagem em todo o trajeto de cin-
ta. Faço sinal para que o motorista médio de vezes que as catracas co ônibus e quatro terminais – mas
pare e subo no veículo. O cobrador dos terminais da capital giram se saísse dos terminais e tivesse que
até abre os olhos quando passo o Tirio todos os dias - quase passar novamente pelas catracas,
cartão na catraca, como se surpreso
por alguém estar ali a esta hora da Trevo do Erasmo
duas vezes pagaria outros R$ 1,98 - isto se pa-
gasse no cartão. Com o dinheiro, R$
a população de Palhoça
manhã. Mas logo volta a dormir. 2,50. Se tivesse que pagar uma pas-
O Caieira da Barra do Sul é uma sagem em dinheiro para cada ônibus
Se um passageiro pagar duas
das linhas mais longas do Sul da do trajeto, pagara R$ 12,50.
passagens por dia, 20 dias por
Ilha, cobrindo aproximadamente Voltando dos Ingleses, chego no
mês, vai ter um gasto mensal de
26km – 21 deles na Rodovia Bal- Tican e as 10h19 entro no Canas-
cem reais, equivalente a
dicero Filomeno, via que cruza os vieiras Semi-direto, linha que vai
bairros do Ribeirão da Ilha, Fregue- Ponto final do
Caieira da Barra do Sul
um quarto do até o Centro da cidade, parando
sia, Caiacanga-Açu e a Caieira da
Barra do Sul, por fim. No final da
salário mínimo nos pontos e no Terminal de Santo
Antônio do Lisboa. Com a meta de
rodovia ainda há um caminho para passar por todos os terminais, desço
a praia dos Naufragados – uma co- no Tisan onze minutos depois de ter
munidade pesqueira. É próximo do dos Limões) foram desativados. Os de floripa em outubro de 2008 se as- até o terminal de Canasvieiras. Um saído de Canasvieiras, e preciso es-
início desta trilha que fica o ponto que ainda funcionam são os da La- semelhe muito ao do inverno. O sol deles aponta para um veículo quase perar 20 minutos até que outro ôni-
final da linha, aonde o ônibus chega goa da Conceição (Tilag), Trindade mesmo só aparece entre as nuvens saindo. “É aquele ali”, ele diz, antes bus passem em direção ao centro.
às 6h28, ainda antes do sol nascer (Titri), Canasvieiras (Tican), Santo depois das 8h06, quando o Tirio-Ti- de eu correr na direção do ônibus. Embora seja possível ir de uma
por completo. Ali o veículo aguarda Antônio de Lisboa (Tisan) e do Cen- lag chega no Terminal da Lagoa. “Às vezes a gente chega no ponto ponta a outra da ilha sem passar pelo
desligado, ao som de pássaros e do tro (Ticen). A não ser o Ticen, todos Conforme as horas vão avançando, e reclama dos poucos horários – mas Terminal Integrado do Centro, ele
mar batendo nas rochas até as 6h30. os outros servem seus respectivos o número de passageiros também au- não sabe que acabou de passar um ocupa uma posição central no cená-
Já é hora de voltar às estradas. bairros e levam as pessoas ao cen- menta. O Lagoa-Rio Tavares, que vai ônibus por ali”. É isto o que fala rio do transporte público. É dele que
A viagem de volta é mais anima- tro. Dentro deles, é possível tomar até o Terminal Integrado da Trindade, Jelson Luiz Prado, 34 anos – 10 de- saem ônibus para todos os outros
da. Os primeiros passageiros são outra linha sem pagar nada a mais. já sai da Lagoa da Conceição às 8h19 les trabalhando como cobrador. Ele terminais e regiões da Ilha e também
mulheres que entram dizendo “bom Este é a principal vantagem atribuí- lotado. Um dos motivos é porque ele acha que a solução para o sistema para outras cidades da região metro-
dia” ao motorista. Depois crianças da ao sistema integrado – ir para vá- passa perto das duas principais uni- integrado começa com a organiza- politana de Florianópolis, embora
com mochila nas costas e homens rios lugares pagando uma única pas- versidades da cidade. Isto logo se ção das pessoas, com tabela de ho- elas não estejam dentro do sistema
começam a entrar, e o veículo, que sagem, num valor único. Para testar rários das linhas. integrado – pelo menos não oficial-
era um ator silencioso passa a ser
um pequeno palco cheio de ruídos,
o quanto isto é verdade e conhecer
os outros terminais, termino um café
Planejamento dos Este planejamento é o que o Setuf
(Sindicato das empresas de transpor-
mente. O ônibus vindo do Tisan che-
ga no Ticen próximo das 11h30.
enquanto o motorista dirige a peça e rápido numa das lanchonetes do Ti- horários pode ser te coletivo de Florianópolis) chama A última linha do trajeto é o Ca-
o cobrador (já acordado) recepciona rio e, às 7h40, entro no ônibus azul de “conexão ideal”. Neste transporte poeiras. Este é o ônibus do sistema
os astros do cotidiano. que vai para o terminal da lagoa. a solução para os hipotético, cada passageiro sairia de integrado que chega mais perto dos
Seu nome é Michel Ferreira. Ele sua casa sabendo que horas o ônibus limites de Florianópolis – mas ele
trabalha há seis anos como cobrador, Ideais problemas dos passa no ponto, quanto tempo ele não se contenta em apenas se apro-
mas prefere andar de carro ou moto
quando não está em serviço. “É mais
Ao contrário do Caieira da Barra
do Sul, o Lagoa-Rio Tavares já sai passageiros leva para ir até o terminal próximo e
a que horas ele pode voltar para casa.
ximar. Ele sai da cidade, atravessan-
do o portal que dá as boas vindas
confortável, não depende de horá- dos terminal com pessoas em pé. Ali Infelizmente, a hipótese não sai do aos visitantes de São José, dá a volta
rios. É melhor, principalmente nos dentro, jovens com jaqueta de cou- papel por causa da falta de informa- num quarteirão, pára num ponto e
finais de semana”, comenta. E esta ro e fone nos ouvidos se misturam percebe pelo número de pessoas len- ções. No site das empresas, o tempo retorna à capital, como um ator que
não é a única reclamação dele, natu- com homens calvos de camisa so- do textos em fotocópias – mas o ve- estimado do trajeto não leva em con- precisa voltar rapidamente para o
ral de Florianópolis. Michel também cial e pasta na mão, não muito longe ículo parece que pertence a outra re- sideração o tempo gasto nas filas, por palco. Este é o mais próximo que
acha que o sistema viário precisa ser de um senhor com roupas simples e alidade. É um “ônibus do Surf”, que exemplo. Além disso, são sites nor- Florianópolis chega do transporte
melhorado antes do transporte pú- uma mala cheia de ferramentas aos tem suportes para pranchas no lugar malmente confusos e desatualizados. intermunicipal integrado.
blico, e dá uma razão para isto. No pés. De certo modo, o ônibus acaba dos bancos traseiros. Combina bem Outro problema é que muitos mo- Por volta do meio-dia volto ao
dia anterior, ele ficou uma hora na sendo um local democrático. O que com o verão de Florianópolis. Agora, toristas não respeitam o horário de Terminal Integrado do Centro, seis
fila para chegar até o Terminal Inte- determina quem vai em pé ou sen- porém, os suportes azuis com man- saídas. “Freqüentemente saem antes horas, oito ônibus, seis terminais e
grado do Rio Tavares. tado não é o dinheiro, mas apenas a chas de ferrugem servem apenas de do horário”, desabafa Adiel Mitt- 167km desde o início da viagem.
Às 7h20, enfrentando pouca fila, ordem de chegada ou a pressa. apoio para quem vai em pé. mann, 24 anos, bacharel em Ciências Embora a reportagem tenha termi-
o Caieira da Barra do Sul chega no Eliane Golçalvez participa desta Depois de subir o Morro da Lagoa da Computação e estudante de mes- nado, continuo com os ônibus, na
Tirio, um dos seis terminais urbanos rotina há três anos. Todos os dias, ela com dificuldade (sendo ultrapassado trado na UFSC. “Será que não passa minha rotina. Termino então minha
da cidade. Estes edifícios são recen- pega o Lagoa-Rio Tavares, que sai do por carros, motos e até mesmo por pela cabeça deles que alguém pode posição de espectador e crítico tea-
tes, e foram inaugurados junto com Tirio às 7h33 ou às 7h40. Sua princi- outros ônibus), o Titri-Tilag chega estar contando que aquele ônibus vai tral diante do Sistema Integrado de
o sistema Integrado de Transporte de pal reclamação são os horários des- ao Terminal da Trindade às 8h45 estar lá até em determinado momen- Transporte Público de Florianópo-
Floranópolis, em 2003. Eram nove regulados e a condição dos veículos. – três horas depois do início da via- to?”. Deste modo, a conexão ideal lis, e volto a ser mais um dos figu-
terminais no início, entretanto três Neste dia, entretanto, o ônibus tem gem. Pergunto para alguns cobra- não funcionana por falta de uma or- rantes desta peça cotidiana, entre a
(dois no continente e um no Saco ar-condicionado – embora o clima dores qual linha posso pegar para ir ganização ideal. tragédia e a comédia.
Florianópolis, dezembro de 2008
CIDADE QUATRO 

Comitê propõe mudanças no transporte


Entre as propostas estão vias exclusivas para ônibus, construção de ciclovias e desafogamento do trânsito

T
ornar o transporte ur- 78,8 Km de ciclovias. O carioca há

Felipe Machado
bano cada vez mais anos utiliza este meio de transporte
atraente e reduzir o saudável, não poluente e econômi-
uso de veículos parti- co, com uma infra-estrutura capaz
culares nas principais de dar conforto ao ciclista.
vias. Este é o principal objetivo da Enquanto o modelo carioca não
Contrans (Comissão especial con- faz parte da vida do ilhéu, a cida-
sultiva permanente para o planeja- de vai crescendo e se adaptando às
mento e apresentação de sugestões urgências para seu funcionamento.
para o transporte público da Capital) “Estamos entrando num movimento
que está formada desde outubro de que depende de mudança de cultu-
2008. No primeiro encontro da co- ra. Precisamos enfrentar juntos essa
missão, que contou com a presença predominância do transporte indivi-
dos principais agentes ligados à vida dual, senão no futuro viveremos o
da cidade, seus membros apresenta- caos” explicou Ildo Rosa, presidente
ram as novas propostas e discutiram do Ipuf.
questões como a mobilidade urbana, Entretanto, para alguns passagei-
de quem é a responsabilidade para ros o caos futuro já é bem presente.
a solução dos problemas, as alter- Adiel Mittmann, 24 anos, bacharel
nativas ao uso do carro e do ônibus em Ciências da Computação e es-
e formas de transporte não motori- tudante de mestrado na UFSC, é
zado – principalmente a bicicleta TERMINAL DO CENTRO: proposta afetará os 224 mil passageiros que passam pelo Ticen todos os dias um dos usuários descontentes. Sua
como meio de locomoção. principal reclamação é a falta de
O presidente da Contrans, Carlos Criciúma e Curtiba. no de Florianópolis (Ipuf), aconte- um instrumento fundamental a ser organização. Os problemas apon-
Guilherme Rocha dos Santos, ex- Outra alternativa é o transporte cem, em média, 224 mil viradas de utilizado para assegurar a implan- tados por ele vão desde os horários
plicou que medidas já estão sendo marítimo – o que já funciona mo- catraca por dia. tação destas rotas inteligentes, com de partida das linhas que saem todas
tomadas para tornar o trânsito mais destamente na Barra da Lagoa – que As ciclovias merecem atenção, a inclusão das obras no orçamento ao mesmo tempo para os mesmos
ágil em alguns pontos. As primei- pode ser explorado comercialmente uma vez que a experiência em municipal”. destinos, até os painéis informativos
ras mudanças estão ocorrendo nas com vantagens tanto para usuários Florianópolis ainda é pequena. A O Ipuf está estudando proposta de de horários que passaram a veicular
avenidas Mauro Ramos, Beira-mar como para empresários e poder pú- arquiteta do Ipuf Vera Lúcia Gon- uma empresa francesa para implan- propagandas ao invés de informar.
Norte, Paulo Fontes e Gama D´Éça. blico. A dimensão do movimento no çalves lembra que a ilha tem 41 tar em Florianópolis o modelo pari- “Os ônibus urbanos de Florianópo-
Nestas vias, que possuem um grande transporte urbano em Florianópo- km de ciclovias e que a prefeitu- siense de aluguel de bicicletas. No lis são uma piada. Aqui, quanto me-
fluxo de veículos, começarão a fun- lis aparece perante a quantidade de ra tem intenções de aumentar este Brasil o melhor exemplo de cidade nos você anda de ônibus, menos se
cionar corredores - pistas exclusivas usuários do sistema. Segundo dados número para dez rotas cicloviárias. que aproveita seu potencial ciclovi- incomoda.”
para os ônibus - como acontece em do Instituto de Planejamento Urba- “O Plano Diretor Participativo é ário é o Rio de Janeiro, que possui José Monteiro Júnior

Mais de duas décadas guardando carros


Flanelinha há 22 anos, homem faz sociedade com irmãos e ainda espera uma chance para mudar de vida
de, mas não está só. Depois da sua ra informal, dar um quê de oficial
Júlio Ettore Suriano

Júlio Ettore Suriano


mudança vieram os pais e seis dos à atividade. Quando questionado

E
sete irmãos, dois deles completan- sobre o que pretende fazer para mu-
do a espécie de ‘sociedade’. Deise dar de vida, Roberto revela que está
m 2007, o número de Kelly, 22 anos, trabalha às manhãs e pensando em abrir uma firma, mas
trabalhadores por con- Gilson, 29, que estava junto durante ainda não sabe em que ramo irá atu-
ta própria - como ca- a entrevista, não tem hora fixa. “Os ar, apenas que “tem que fazer, falar
melôs e prostitutas sem calouros dão uma grana boa”, diz não adianta”. Ele ainda conta que
vínculo empregatício se referindo ao período dos trotes, o candidato reeleito para a prefei-
- aumentou 1,5%, de pouco mais de quando os alunos da universidade tura de Florianópolis, Dário Berger
18,9 milhões para 19,2 milhões de lotam o bar da praça Santos Du- (PMDB), passou por ali durante a
pessoas, segundo o Instituto Brasilei- mont. Ambos concordam, com um campanha e prometeu pessoalmen-
ro de Geografia e Estatística (IBGE). resquício de sotaque dos pampas, te que iria transformar o ponto em
O relatório da Pesquisa Nacional por que o movimento praticamente es- Zona Azul - estacionamento pago de
Amostra de Domicílios, divulgado tanca quando acabam as aulas, prin- vagas rotativas da prefeitura -, con-
em setembro, apontou também que cipalmente durante o verão. Cada tratando Roberto e seus irmãos para
a proporção deste tipo de ocupação, um dos irmãos fica com o que ganha trabalharem na fiscalização.
em relação a todos os trabalhadores, e, mesmo com tanto tempo, eles não A suposta promessa, porém, pode
continua nos mesmos 21,2% da pes- se lembram de ter havido disputa encontrar obstáculos. Os auxiliares
quisa de 2006, o que indica que a for- pelo ponto com outros guardadores. de trânsito são cedidos à Zona Azul
malização não avançou. Além de se exporem a um empre- pela Associação Florianopolitana de
Embora o índice tenha diminuí- go sem garantias como previdência Voluntários (Aflov) - entidade tam-
do em SC - de 20,4% para 20% -, ou férias, os irmãos Benitez e seus bém vinculada à prefeitura e que de-
esta modalidade de trabalho infor- colegas Brasil afora estão vulneráveis senvolve projetos sociais - por meio
mal, ainda é encontrada em larga ao código penal. Quando imposta, a do Programa Trabalha Juventude.
escala nos grandes centros urbanos. transação financeira entre motorista Segundo Cristiane Kretzer, assesso-
Um dos exemplos são os guarda- Juntando trocados, Roberto ajuda a sustentar a mulher e três filhas
e flanelinha pode ser caracterizada ra da Aflov, os candidatos às vagas
dores de carros - os populares “fla- como extorsão, sendo denunciada do programa passam por uma sele-
nelinhas”. Em Florianópolis, uma Hess, na Trindade. Natural de Santia- atrás dos clientes: “daê, irmão!”, “dar à Polícia Militar ou às guardas mu- ção que inclui análise de currículos
pequena rua perto da Universidade go, interior do Rio Grande do Sul e uma olhada aí, senhora?”. Até o mo- nicipais. Segundo Ivan Couto, co- e entrevistas. Mas, para quem já
Federal de Santa Catarina serve de escolheu Florianópolis porque gosta- mento ele não havia conseguido nada, mandante da Guarda Municipal de esperou 22 anos por uma chance de
estacionamento para quem vai à va das praias. Com 16 anos, já sentiu mas diz que a última vez em que foi Florianópolis, casos como este de- consertar os erros do passado, uma
instituição de ensino ou procura o os efeitos da falta de oportunidades trabalhar, três dias antes, faturou R$ pendem da queixa de alguém, mas promessa é só mais uma.
comércio do bairro Trindade. Há 22 e começou a trabalhar guardando 40 somando os trocos de 50 centavos a incidência é baixa na capital. Fora Casado há dez anos com Ivanilda,
anos um homem trabalha ali, por carros. “A gente nasceu pobre”, la- ou um real. O máximo que fez em um das estatísticas, Roberto e Gilson são empregada doméstica, Roberto tem
conta própria, guardando carros. menta. Mas ele também admite sua dia foi R$ 150. “Onde é que é o tribu- do tipo que prefere construir uma re- três filhas com idades de 10, 9 e 3 anos,
Carlos Roberto Benitez da Rocha, parcela de culpa: “Nós éramos vaga- nal de pequenas causas?”, quer saber lação de confiança com os clientes. todas na escola. O que espera para o
38 anos, não lembra em que ano veio bundos, né maninho?” um motorista, que agradece depois da “Já enjoei de cuidar de carro”, futuro delas? “Só estudo”. Ironicamen-
para a capital catarinense. Só que era Era perto das 14h30 quando Rober- resposta: “Aquele prédio verde com diz o irmão mais velho, que usa te, ao que não deu tanta importância
jovem, e com 20 anos largou a oitava to dava esta entrevista, é claro, enquan- branco, é só tocar reto!” um colete azul escrito ‘estaciona- quando jovem, mas pelo menos esta
série no colégio estadual Simão José to carros entravam e saíam e ele corria Roberto trabalha durante a tar- mento’ em amarelo, para, embo- lição ele parece ter aprendido bem.
 QUATRO SOCIEDADE Florianópolis, dezembro de 2008

O morro que se vê sem preconceito


Um bairro como o que você mora e que ainda prepara uma das festas mais celebradas de todo o ano

Larissa Cabral
Larissa Cabral
Gabriel Esteves

“P
ode subir!
Não tem pe-
rigo, não”,
disse um
morador do
Morro da Caixa, no Centro de Flo-
rianópolis. Não é exatamente o que a
maioria das pessoas espera ouvir ao
se aproximar de um morro, mas foi
o que ouvi ao procurar a Sede Social
da Embaixada Copa Lord, escola de
samba tradicional da Ilha.
A Grande Florianópolis tem 56
morros espalhados pela Ilha inteira.
Morro do Horácio, da Mariquinha,
do Céu, Monte Serrat e Morro do
Atanásio estão entre os mais lembra-
dos. Os morros, muitas vezes, são
confundidos com favelas - ambien-
tes considerados de baixa qualidade
de vida, onde os moradores têm li-
mitado poder aquisitivo, grande par-
te das ruas não possui calçamento e
a iluminação pública é deficiente em
vários pontos. A palavra ‘favela’ tem
uma conotação negativa muito forte
em todo o Brasil. O senso comum
associa ‘favela’ à idéia de pobreza,
desorganização, violência, ou má
educação. O uso dessa palavra in-
dica, geralmente, um julgamento de
valor. Muitas favelas se localizam RAÍZ NO MORRO: Naninha nasceu no Morro da Caixa e agora, com 22 anos, participa da produção de arte da Embaixada Copa Lord
nos morros, mas nem todo morro é
favela.
Larissa Cabral

Originalmente, o conceito de “fa- raz, diretor de arte da Copa Lord há nas ruas têm tanta procura.
vela” era aplicado somente a locais cinco anos. No meio dessa festa, o precon-
sem apoio estatal, ou seja, sem ener- Cláudio, que também é artista ceito é deixado de lado. As mesmas
gia elétrica, abastecimento de água e plástico, demonstra muito orgulho pessoas que torcem o nariz para
esgoto. Oficialmente, porém, define- em trabalhar para a escola. Com quem diz que mora no morro, que
se uma favela como qualquer região seu chapéu de abas curtas e uma fita evitam ir até lá e fazem comentários
cujas construções tenham sido reali- métrica enrolada no pescoço fala de preconceituosos, no carnaval estão
zadas em terrenos invadidos e sem toda a beleza e brilho do carnaval e lado a lado com as “pessoas da fave-
regularização fundiária. “Como as da comunidade, apesar de não morar la”, cantando e dançando o mesmo
primeiras favelas foram localizadas ali. “Mas quando a preparação está enredo.
nos morros do Rio de Janeiro, ficou na reta final, eu quase me mudo para O que a grande maioria ignora é
uma associação entre favela e mor- cá. Já tive que descer o morro várias que cenas de violência não têm lo-
ro”, explica a professora Carmen vezes às 3h, 4h da manhã com as me- cal exato para acontecer. Constan-
Rial, do departamento de Antropo- ninas e nunca me aconteceu nada”. temente vemos casos em escolas,
logia da UFSC. O preconceito em O samba tem origens africanas, festas, universidades, na rua de um
relação ao morro mas assim como o conhecido ou ali, na esquina da nos-
e aos seus mora- carnaval, se tornou sa casa. Não há critérios regionais,
dores existe e ex- “Nos morros símbolo de iden- sociais, financeiros ou da cor de
pressa a distância
social entre ele e
existem pessoas tidade nacional e
é também uma lu-
pele. “Geralmente, no morro, os cri-
mes mais cometidos são homicídios,
o restante da ci-
dade. Mas, se há
boas, pais de crativa atração tu-
rística. “Do nosso
sempre ligados ao tráfico de drogas,
mas bandido é bandido em qualquer
um momento em família que desfile participam lugar”, comenta Edson Volpato, ins-
que essa distância pessoas de vários petor de polícia e coordenador ad-
é encurtada brus- acordam cedo” lugares da cidade junto do COP-Central de Operações
camente, é duran- e de todo o mun- Policiais.
te o carnaval. do. Já vi italianos, Como qualquer bairro, no morro Cláudio Ferraz sobe o morro há cinco anos para colorir o carnaval
O carnaval de Florianópolis espanhóis e japoneses sambando há famílias, donas de casa, crianças
conta com cinco escolas de sam- aqui”, afirma Antônio José Leopol- indo à escola, senhoras varrendo a condições de se mudar sempre vai muito medo de subir. Sempre per-
ba. A mais antiga é a Protegidos do, atual presidente da Copa Lord. calçada, jovens jogando bola e tudo fazer isso”. guntam onde, exatamente, moramos
da Princesa, seguida da Embaixada Ele calcula que a escola deva ter mais que você vê aí pela sua jane- Rosilene Cardoso, a Naninha de e se não encontram, descem e vão
Copa Lord. As outras são União da 2.700 componentes, mas que apenas la também. “Nos morros existem 22 anos, também nega o preconcei- embora”.
Ilha, Unidos da Coloninha e Con- 30% deles são do morro, o que mos- pessoas boas, pais de família que to em relação à violência no morro. O diretor de arte Cláudio, além
sulado do Samba. Todas elas, com tra a participação em massa de pes- acordam cedo para trabalhar. Muitas Ela trabalha na Sede Social da Copa de negar a imagem negativa do mor-
exceção de uma, têm raízes no soas de fora desse círculo social. vezes, os marginais moram ali, mas Lord e, assim como vários outros ro, que é construída e consumida
morro, nasceram através da vonta- Outro aspecto que evidencia o não atuam”, acrescenta Volpato. membros da comunidade, ajuda a por muitos, faz questão de falar das
de da comunidade do morro. Mas prestígio desse carnaval que envol- Antônio Leopoldo, da Copa Lord, confeccionar e, principalmente, ‘dar pessoas. “Elas são muito artísticas,
as festas de carnaval são famosas ve gente de todos os cantos é a fal- viveu no Morro da Caixa durante dez brilho’ e enfeitar roupas e acessórios. solidárias. A comunidade é maravi-
pela integração, tanto durante a ta de procura por outras opções de anos e afirma nunca ter presenciado Entre uma lantejoula e outra, Nani- lhosa. Sinto-me em casa”. “O mor-
organização dos eventos, como na festa. “O baile de salão era muito nenhum caso de violência. “Isso não nha contou que desde que nasceu ro, às vezes, é a única oportunidade
celebração. Nelas, não é possível festejado e hoje quase não aconte- existe. Não vejo problema qualquer mora no Morro da Caixa e também de algumas famílias que não têm
distinguir quem é ‘do morro’, quem ce mais. O carnaval de rua também em morar aqui”. No morro ele co- “não vê nada disso”. Ela confessa condições de morar em um bairro.
é ‘da Beira-Mar’, quem é branco e está em decadência”, conta o presi- nheceu e se casou com a esposa e, que encontra dificuldades em con- Lá, criam seus filhos e levam uma
quem é negro. “O samba une todo dente da escola de samba. Nota-se, hoje, mora em São José. “Me mudei seguir alguns serviços, exatamente vida normal, como qualquer outra
mundo. É que nem praia, bem de- então, que nem as festas elitizadas porque pude mudar. Encontrei uma por morar no morro. “O pessoal que que mora no bairro”, acrescenta o
mocrático”, comenta Cláudio Fer- dos salões e nem as que aconteciam casa boa e acredito que quem tiver entrega lanche, principalmente, tem Inspetor da polícia, Edson Volpato.
Florianópolis, dezembro de 2008
SOCIEDADE QUATRO 
Larissa Cabral

DE ONDE VEM O SAMBA: é no Morro da Caixa, no Centro, que se localiza a Sede Social da Copa Lord. No galpão, a comunidade prepara a festa que ocorre em fevereiro

Alesc age contra o preconceito É cantando o samba que


O preconceito por morar em morros
e favelas traz inúmeras dificuldades,
ou mulheres, isto é, grupos excluí-
dos socialmente. ONGs, escolas de
40 jovens, que assinam contrato com
dois anos de duração. Os estagiários a Beira-Mar sobe o morro
desde conseguir um remédio pelo samba, e outros grupos que atuam trabalham 4 horas diárias e recebem
tele-entrega da farmácia até conven- em comunidades nos mandam listas uma bolsa de R$ 450,00. Uma ajuda
cer um taxista de que não há perigo com nomes de jovens interessados. financeira muito bem vinda, segundo Samba no pé não é quesito obri- dos ensaios. “Subi o morro só
em fazer uma corrida até sua casa. Os pré-selecionados são entrevista- a auxiliar administrativa da Assem- gatório para passar pela “Nego para pegar a fantasia. O clima é
Mas nenhuma delas é pior do que a dos por assistentes sociais e só então bléia Ariana Barbosa, de 19 anos. Quirido”, a não ser que você bem legal, é uma festa!”. Sobre
de conseguir emprego. Além da mo- decidimos os que tem mais necessi- “Com o dinheiro, posso pagar minha seja uma das belas passistas da o sentimento na hora de percor-
radia, sempre considerada área de dade”, explica. faculdade, que tem mensalidade de escola ou outro personagem de rer a passarela ela afirma que é
risco, o estigma de favelado perse- Negra, ex-moradora de comu- R$ 273. E ainda sobra pra mim”. muito destaque. Aliás, para des- muito saudável e impolgante.
gue os habitantes dessas comunida- nidades e funcionária de carreira Estudante da 2ª fase do curso de filar não existem muitas obriga- “É uma sensação muito intensa.
des que pleiteiam um lugar no mer- Administração da Faculdade Borges ções e restrições. Geralmente, Ficamos lá cerca de uma hora,
cado de trabalho. de Mendonça, Ariana revela que os quem tem vontade participa da mas parecem dez minutos”.
festa. Apesar de não ser de nenhu-
Justamente para dar essas opor-
tunidades a jovens excluídos so-
Lei de oferta de benefícios do estágio vão além da
ajuda material. “É experiência para Grande interessada na folia ma delas, a foliã diz se empe-
cialmente, foi criado o Programa estágios aumenta o mercado de trabalho, entra para o é Eneida Santos, psicóloga de
46 anos. Ela é uma das muitas
nhar muito para cantar o enre-
do, “desempenhar bem e ajudar
Antonieta de Barros, da Assembléia currículo. E o ambiente de trabalho
Legislativa de Santa Catarina. For- auto-estima de ajuda bastante também no relaciona- pessoas que não é da comunida-
de do morro e também não tem
a escola”. “Na hora do desfile as
diferenças entre quem é do mor-
mulado politicamente pelo Fórum mento com as pessoas. Antigamente
de Mulheres Negras da Grande Flo- jovens moradores eu tinha muita dificuldade de falar e uma escola de samba definida. ro e quem vem de fora acabam,
Eneida mora no centro e já des- mas dá para perceber sim quem
rianópolis, a idéia virou projeto atra-
vés do deputado Volnei Morastoni
de morro e favela me relacionar com os outros e esse
estágio me ajudou muito”, conta. filou três vezes no carnaval. Na é da escola porque são bem mais
em sua gestão como presidente da Visitado pelo Ministro da Secreta- primeira vez, na década de 90, preparados. Eles são superiores
Casa, em 2004. Hoje, é lei 13.075, ria de Promoção da Igualdade Racial cantou o enredo da Unidos da na avenida. Eles mandam e nós
de julho de 2004, o primeiro passo do Legislativo há 25 anos, Marilu (Sepir), Edson Costa, em novembro, Coloninha. “Fui convidada por obedecemos”.
para uma política social já dado por expõe o programa como se fosse o programa pode se expandir para amigos. Não achei que fosse Antigamente, Eneida gosta-
uma assembléia legislativa no país, um filho: “O estágio dá uma condi- outras instituições brasileiras, um so- gostar tanto, mas amei”, con- va de participar do carnaval de
informa, com orgulho, a coordena- ção financeira a essas pessoas. Nós nho de Marilu. “A sociedade é uma fessa. Nos outros dois desfiles, clube, mas afirma que a escola
dora do programa, Marilu Lima de acompanhamos a trajetória escolar, engrenagem, como você é pobre, não a escola de samba escolhida foi de samba é seu clube de hoje.
Oliveira. mesmo na faculdade, e trabalhamos tem acesso à educação de qualidade a Embaixada Copa Lord. “A úl- “Quero muito levar minha filha
“Oferecemos estágios como ou- para aumentar a auto-estima desses e, portanto, fica fora do mercado de tima vez foi em 2006 e em to- para desfilar. Ela e meu marido
tra empresa qualquer. A diferença jovens. Assim, eles começam a se trabalho. A jovem entra no programa das elas desfilei no chão, com estavam me assistindo na última
está na seleção. Lidamos com jo- sentir aceitos e abandonam a noção quando decide que não quer pegar na as pessoas que são de fora e não vez, mas ele detesta”. Sobre o
vens estudantes de 16 a 24 anos de inferioridade. Nós os instrumen- vassoura como a mãe. Então a gente sabem as coreografias”. carnaval de 2009, afirma sem
cujas famílias possuam renda de até talizamos e os transformamos em modifica essa trajetória familiar e dá Eneida procurou a escola de conseguir esconder a empolga-
2,5 salários mínimos, tenham vul- protagonistas de suas próprias histó- a chance de a pessoa vencer a pobre- samba em novembro para o des- ção que “se algum amigo meu
nerabilidade no local de moradia e rias”, discursa. za e o preconceito”. file que acontece em fevereiro, chamar, eu vou”.
sejam preferencialmente negros e/ A cada ano, o programa seleciona Gabriel Esteves mas conta que não participou Larissa Cabral
 QUATRO SOCIEDADE Florianópolis, dezembro de 2008
Marina Rocha

LIMITES MUITO ALÉM DA GEOGRAFIA: ponte Hercílio Luz, o cart���������������


ão-postal mais famoso
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de Florianópolis,
��������������� é
�� usado
������ para
����� ilustrar
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conflito entre os moradores da Ilha
����������
e do Continente
�����������

Ponte de ligações ou exclusões?


Na capital catarinense, morar no continente vira sinônimo de constrangimento
Marina Rocha operações bancárias por habitantes São José tem mais de oito mil tra- dividual. “Ele vem da cultura e é graduação discute assuntos como
e gastos com saúde, educação, ha- balhadores no ramo, enquanto socialmente produzido”. Ela acre- a xenofobia e o etnocentrismo de

I
bitação, ciência, tecnologia e sane- Florianópolis tem pouco mais de dita que uma cidade, sozinha, não acordo com uma abordagem antro-
amento. sete mil. é responsável pela construção de pológica. Tanto Andrei
lha e continente marcam Andrei Longen, morador de Mesmo assim, é possível encon- estereótipos. “Você vê os mes- Longen quanto Luísa Bonetti afir-
a divisão geográfica de Barreiros (São José), conta que as trar comunidades na internet, em mos apelos em qualquer lugar. mam gostar do lugar onde vivem.
Florianópolis. No entanto, a pessoas pensam que Florianópolis sites como o Orkut, intituladas: pas- Florianópolis não é diferente. A “Coqueiros é perto de tudo”, com-
ponte, que deveria ser apenas é independente e melhor em tudo. sou da ponte é Palhoça e passou mídia cria e exige as mesmas coi- pleta Luísa. Longen é mais dramá-
uma construção, é na verda- “Não é bem assim. Se não fossem da ponte é tudo São José. Andrei sas das pessoas. E é ela quem vem tico: “estou bem ciente de que pelo
de o símbolo de um problema social as cidades da região da Grande Longen enfatiza que “na, maioria impondo padrões culturais”. menos não entro na minha cidade
que a cidade enfrenta: o preconceito Florianópolis, a capital estaria iso- das vezes, é brincadeira, mas essa Mesmo diante das evidências, com aquele cheiro de esgoto in-
que os moradores da ilha têm com os lada de tudo, já que é uma ilha”, centralização de lugares incomo- a antropóloga Miriam Hartung, suportável, com uma visão de um
que vivem no continente. completa. da”. Mesmo não falando sério, as diz desconhecer essa “rixa” entre grande lixão ou de várias favelas”.
O assunto ainda é um tabu. Uns Em 2007, Florianópolis, São José pessoas dão um jeito de acentuar a continente e ilha. Longen explica A psicóloga Andrea explica que
negam. Outros desconhecem. Muitos e Palhoça foram os maiores impor- discriminação, como conta Luísa. que só tomou conhecimento da si- pré-conceitos são opiniões prévias
confirmam. Cristina Wolff, profes- tadores do sudeste do estado (região “Tenho um tio que fala que a so- tuação ao entrar em contato com que você tem sobre algum assunto
sora de História da Universidade de 22 municípios), registrando 771 brinha dele não mora em São José, pessoas de outras cidades que vêm desconhecido e, com a informação,
Federal de Santa Catarina (UFSC), milhões de dólares. Em exportações, mora em Coqueiros”. Para ela, a ci- morar na capital “e acham que tudo podem ser modificadas. Os precon-
nega as acusações. “Sempre morei a capital catarinense aparece como a dade sofreu uma “mudança de foco” se resume a Florianópolis”. ceitos, porém, não estão suscetíveis
na ilha e nunca tinha ouvido falar vigésima mais importante do setor. que propiciou o surgimento da dis- A hostilidade em relação aos a mudanças. Segundo ela, o cami-
sobre isso”. Já Luísa Bonetti, floria- A capital é, também, responsável cussão. “Antes era status morar no não-nativos é outra questão preocu- nho para acabar com as discrimina-
nopolitana e moradora do bairro de por 52% do Produto Interno Bruto continente, as praias mais badaladas pante. Um projeto de pesquisa que ções é estar aberto às diferenças. “E
Coqueiros (continente), apresenta (PIB) do sudeste do estado. ficavam lá. Como o aeroporto é na trabalha com o tema é o Nós e os isso não é um trabalho só da área da
um argumento diferente. “Nunca so- A construção civil participa de Ilha, a Universidade, então as pesso- outros, um estudo sobre as relações educação, todas as instituições de-
fri preconceito, até porque o bairro quase 5% do PIB estadual e é um as acham que não têm nada de bom entre nativos e de fora na Ilha de vem colaborar para essa abertura:
onde moro apresenta um certo sta- setor de grande geração de mão- do outro lado”, explica. Santa Catarina. Organizado pela família, igrejas, políticas públicas...
tus, mas ele existe sim”. de-obra. Dados do Ministério do Andrea Zanella, psicóloga, professora aposentada da UFSC, Todos nós somos responsáveis por
A cidade conta com uma popu- Trabalho e Emprego mostram que alerta que o preconceito não é in- Louise Lhullier, o estudo de pós- uma ética à vida”, finaliza.
lação de cerca de 397 mil habitan-
tes, segundo o Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE).
Destes, quase 95 mil são moradores
do continente. Palhoça e São José
são considerados parte da Grande
Florianópolis (que engloba 21 muni-
cípios). De acordo com levantamento
recente da Federação das Indústrias
do Estado de Santa Catarina (Fiesc),
São José é a segunda cidade mais di-
nâmica do estado, perdendo apenas
para Balneário Camboriú. Palhoça é
a quinta e Florianópolis a décima. O
índice de dinamismo é medido atra-
vés do potencial de consumo, que
reúne a renda de abertura de em-
presas, licenciamento de veículos, COMENTÁRIOS COMO ESSE SÃO ENCONTRADOS FACILMENTE NA INTERNET: para os membros das comunidades virtuais, isso é só brincadeira
Florianópolis, dezembro de 2008
VIDAS GUARDADAS QUATRO 

Presídio feminino da

Sofia Franco
capital detém mulheres,
angústias e sonhos
Um filho foragido, a surpresa de uma gestação e a ausência da
infância compõem as histórias do lado de dentro das grades
Sarah Westphal estima que seja a causa de 80% das carcerário que classificou o Presídio
prisões. O número de presas por Feminino de Florianópolis como o

H
tráfico em SC cresceu quase 40% em oitavo pior do Brasil não levou em
menos de três anos: em dezembro de conta um aspecto essencial:
á unhas pintadas 2005 eram 330; em julho de 2008, – Mais importante que a infra-
e descascadas no elas já somavam 452. A entrega e estrutura é o modo como você é
Presídio Femi- o transporte dos entorpecentes são visto. Aqui todo mundo me trata
nino de Floria- práticas designadas ao sexo feminino bem, os agentes são simpáticos, a
nópolis. Há so- por serem funções não violentas, comida é boa, eu convivo bem com
lidariedade, tristeza e sobretudo lucrativas e que permitem estar em as outras. A maioria das mulheres
espera. Mulheres diferentes, unidas contato com os filhos. está aqui por causa do marido. Foi
pelo reduzido espaço – beliches Em relação à família, Roseli envolvida de alguma maneira.
contíguos, um mesmo tanque de acredita que a estrutura familiar
roupa – e pela pausa que frea a é determinante na formação do O bebê de Suzi
interação com o mundo que ficou caráter. Para ela, a sociedade devia A constatação de Roseli se aplica à
de fora, mas não o próprio mundo pedir desculpas quando alguém adolescente Suzi, 19 anos. Grávida,
em si. que nunca teve nada vai preso e ela ela aguarda uma audiência há cinco
mesmo reconhece que este não é o meses. A razão de sua prisão foram
A preocupação de Roseli seu caso. Roseli se julga responsável 120 kg de maconha encontrados
A presidiária Roseli, 44 anos, pelo crime que cometeu embora na oficina de seu companheiro.
tinha lágrimas nos olhos quando considere incoerente a punição do Suzi diz que a droga pertence a um
GALERIA: amizade em meio a superlotação e noites no banheiro
começamos a conversar. Havia filho. De acordo funcionário do
acabado de saber que o filho fugiu com Roseli, o estabelecimento o clima tenso da prisão e o único se prostituia para conseguir dinheiro
do presídio onde estava há dois anos filho acabou detido “Comecei a mas reconhece contato com o mundo exterior se para ela e para seus nove irmãos.
e oito meses, em outro estado: devido a uma acu- que já tinha co- dá através de uma televisão 14 Atualmente, seu irmão de 12 anos
– Ele tinha ganhado permissão sação de lavagem fumar crack aos nhecimento das polegadas em frente a qual elas se fuma maconha; e a de 13, crack.
para terminar a faculdade, está no de dinheiro e por atividades ilegais aglomeram para assistir à novela Uma das preocupações de Ana Paula
último semestre de Jornalismo. O um pedaço de ma- dez anos. Saí de do namorado: “A Favorita”. é tirar a irmã de enrascadas, já que a
problema é que como ele só recebeu
a autorização para ir às aulas há
conha encontrado
dentro do freezer.
casa porque meu – Eu tinha espe-
rança de que ele ia
– A gente torce para a Donatella
se dar bem. Ela já sofreu tanto,
menina sempre compra fiado. Para
ela, a televisão exagera ao tratar os
um mês e meio, já estava rodado
por faltas. Daí a juíza entendeu que
– Meu filho pegou
quatro anos por
pai me batia” parar com isso. Eu
me arrisquei por
coitadinha – conta Suzi, sorrindo
com seus grandes olhos verdes.
traficantes como pessoas ruins:
– Eu nunca fui maltratada pelos
ele deveria parar de ir, voltar para lavagem de dinhei- ele, eu me deixei traficantes. Muito pelo contrário:
a prisão e ficar em regime fechado de um Ômega de levar pelo amor. A infância de Ana Paula às vezes eles é que dão conselhos:
até março. Ele pegou uma semana R$ 8 mil. E mais quatro anos pela Agora eu já falei “Ou você escolhe Do outro lado da grade, Ana Paula “Olha o que tu vai fazer com a tua
livre (que é um direito dos presos maconha. Em uma audiência eu eu ter esse filho ou essa vida”. Regina também assiste à novela, vida...”. A gente é que vai atrás.
com bom comportamento a cada expliquei para o juiz que quando Suzi está convicta de que o mas por motivos distintos: Em sua última busca, Ana Paula
três meses) e não voltou. Hoje meu meu filho começou a fumar, tinha companheiro escolheu a primeira – Eu gosto dos artistas, eu gosto foi pega em flagrante segurando
advogado veio aqui para me contar. uma música do Marcelo D2 que opção, pois ele tem ajudado daquela que faz a Flora e também uma bandeja de iogurte e roupinhas
Nem sei porque eles contam essas dizia “Uma erva natural não pode bastante desde que ela foi presa. As daquele jornalista, como é mesmo de bebê. O episódio aconteceu faz
coisas para gente. Eu tô aqui dentro, te prejudicar”. Eu não consegui cunhadas levam compras uma vez o nome dele? nove meses. Desde então, ela já
não tem nada, nada que eu possa competir com isso. O mundo é muito por mês e foi uma das irmãs dele A história de Ana Paula, 22 anos, esteve em quatro audiências e ainda
fazer. E o pior é que eu entendo hipócrita. Hoje, o Marcelo D2 ganha quem confortou a moça na Galeria, também se diferencia das demais. não decidiram qual será sua punição.
meu filho. Ele não agüentou – conta o Prêmio Tim de Música. Meu filho local onde ficam as mulheres que Ela já acumula 18 passagens pela Ela confessa que a falta da droga às
em tom grave, enquanto formata as está na prisão. Ou melhor, não está ainda não foram julgadas. Segundo polícia, por furto de celulares e vezes a deixa irritada e, a fim de se
fichas de atendimento das presas no - reconsidera preocupada com a a diretora, atualmente o Presídio roupas: ocupar, lava as panelas depois das
computador. notícia da fuga. Feminino de Florianópolis abriga – Eu roubo para sustentar meu refeições. De tudo que ficou para
Roseli trabalha na farmácia – Eu tenho medo porque para 162 pessoas, 96 a mais que sua vício, né? Eu comecei a fumar crack fora, o que mais a entristece é a
da penitenciária há dois anos. A sobreviver na prisão é preciso se filiar capacidade. Devido à superlotação, aos 10 anos. Foi com essa idade que saudade da mãe:
possibilidade de emprego é uma a alguma organização. Ele se filiou a algumas presas provisórias têm que eu perdi a virgindade. Foi com um – A primeira coisa que eu vou fazer
regalia: permite que o mês tenha uma delas, mas só para proteção. Se dormir no chão, no corredor ou em senhor de 52 anos. Eu casei com quando sair é falar com a minha
40 dias na contagem do tempo bem que faz tanto tempo que a gente frente ao banheiro. Como a irmã do ele. Eu saí de casa porque apanhava mãe. Ela ainda não veio me ver
legal. Outros trabalhos possíveis não se fala que eu nem sei mais namorado de Suzi já estava lá, elas muito do meu pai. Meu pai estava porque tá muito longe. Ela mora
são cozinhar, lavar louça e limpar. como ele está. Me preocupa se ele dividiam a cama. Até então, a moça sempre bêbado, batia em mim, nos em Tijucas. Quero falar com ela e
Roseli já recebeu 480 dias de estiver escondido pela organização. ainda não sabia que estava grávida. meus irmãos. pedir desculpa por tudo que eu fiz
remissão devido às suas atividades Se ele aceitou isso, ele estará com A descoberta veio com um teste de O corpo de Ana Paula confirma – responde sem hesitar, enquanto
na farmácia. Mas ainda é pouco para uma dívida eterna. Nunca mais vai farmácia e foi comemorada com sua versão. Ela tem marcas no olha para os três sabonetes em
sua pena de 26 anos. Ela foi presa conseguir sair dessa vida. palmas pelas detentas. rosto e nas pernas. Seu olhar, ora sua mão. Ana Paula os levava
com mais 11 pessoas por tráfico Roseli não vê o filho desde o dia – Eu sempre sonhava em ser mãe. desconfiado, ora apenas tímido, para uma senhora que estava sem.
internacional. No esquema, estavam de sua prisão, em outubro de 2005. Eu pensava que ia ser uma menina. também remetem a uma vida difícil. Assim como os sabonetes, elas
envolvidos ela e o marido, que foi Mesmo período em que não encontra Mas quando eu soube que era um Ana Paula faz questão de ressaltar dividem a lavação das roupas, o
condenado a 56 anos de prisão. o marido, que vive no Presídio de menino, fiquei bem contente. Meu que sua primeira relação sexual não papel das cartas, os absorventes, a
Atualmente, o tráfico de drogas Segurança Máxima de São Pedro de marido já tem duas meninas e vou foi forçada: televisão. Compartilham segredos e
é o crime que mais leva mulheres à Alcântara. Normalmente, ela teria dar o primeiro filho homem para – Eu queria. Eu tinha dez anos mas esmaltes. Repartem a angústia das
cadeia. Conforme um levantamento direito a visitas íntimas uma vez por ele. E a médica ainda disse que ninguém dizia, meu corpo nunca audiências, a expectativa do alvará.
feito pelo Ministério da Justiça, das mês, mas a polícia alega que o marido vai ser bem pintudo! Que orgulho! foi de criança. Assim como a minha Sentem unidas a saudade da família
27 mil mulheres presas em todo o dela está muito longe e inviabiliza – brinca. mãe, ele nem desconfiava que eu e do secador de cabelo. Roseli diz
Brasil cerca de 7.800 foram detidas os encontros. A ex-comerciante Por estar esperando um bebê, fumava, e ficou bem desesperado que elas vivem em simbiose. A com-
por este motivo. Isso equivale dizer entende que, apesar de nunca ter Suzi foi transferida para o quarto quando soube. Ajudou bastante paração é válida: a cumplicidade
que a cada dez presidiárias, três são dito que desejava a separação, foi berçário. Um berçário sem berços, a minha família. Meu casamento sustenta a vida até que as portas do
por tráfico. No Presídio Feminino divorciada pelo sistema. Essa é ali dormem 11 mulheres e quatro durou um ano e sete meses. mundo se abram de novo.
de Florianópolis, a média é maior: a sua única queixa. Segundo ela, a crianças. As paredes preenchidas Depois de sair da sua segunda * Os sobrenomes foram retirados para
diretora Maria Conceição Orihuela recente avaliação da CPI do sistema por adesivos coloridos amenizam casa, Ana Paula foi para a rua, onde preservar a identidade das entrevistadas.
10 QUATRO INFÂNCIA Florianópolis, dezembro de 2008
Fernanda Espíndola

APEGO: As crianças vão à escola da comunidade, mas é no abrigo que lidam com pessoas de mesma vivência e formam vínculos; processo traumático principalmente para os mais velhos

Por todo o tempo que mandarem


Crianças e adolescentes em instituições de caráter provisório aguardam, por tempo
indeterminado, retornarem à sua família de origem ou ganharem uma substituta
Bibiana Beck entretida com algum brinquedo, as- O cômodo, apesar de pequeno, é dos ou violados por ação ou omissão maior motivo que acarreta no afasta-
Fernanda Espíndola sistindo desenho na TV ou na aula de aconchegante. A mesa fica de frente da sociedade ou do Estado, por falta, mento do menor do convívio familiar

A
reforço, ministrada na Casa. Fabi, mo- para a porta, encostada na parede di- omissão ou abuso dos pais ou respon- é a carência de recursos materiais da
nitora da casa, não sabe explicar por- reita, e pendurado na parede fica um sáveis ou em razão da sua conduta. família (24,1% dos casos pesquisa-
casa, que antes era que, mas fala que é melhor assim. “Já mural, com desenhos coloridos que as Quando isto acontece, a autoridade dos). Munique, psicóloga da Casa
azul e cujo portão era imaginou ter 28 correndo, berrando e crianças deram para Fê. competente (Conselho Tutelar, Vara Lar, aponta outro fator. “Durante mui-
manual, está rosa e querendo atenção? Não, não. Melhor - Há quanto tempo R. está aqui?, da Infância e da Juventude, Ministério to tempo esse foi o principal motivo
com portão eletrônico, que metade estude de manhã e a outra perguntamos. Público, etc) determina medidas como porque quem fazia a vistoria olhava a
que não permite ver metade de tarde.” - Há quatro meses. o encaminhamento do menor ao res- casa e dizia ‘este não é ambiente para
a frente da construção. Entre o novo Enquanto esperamos ser atendidas, - Ele nos disse que faz duas sema- ponsável, orientação e apoio tempo- se criar uma criança’, por mais que
portão e a porta – que continua a mes- continuamos conversando com R. O nas. rário e matrícula em estabelecimentos fosse o melhor que os pais pudessem
ma – há um espaço a céu aberto com menino é receptivo, esperto e carente, - É que ele é muito novo, ainda não de ensino. oferecer. Hoje, o que mais vemos aqui
chão de cimento. À esquerda da casa, como a maioria das crianças mais no- consegue mensurar o tempo. O abrigo é medida excepcional. é a negligência por parte dos pais e a
uma passagem que dá acesso aos fun- vas, que se aproxi- Fê é a assistente Primeiro buscam-se alternativas para dificuldade que estes têm de dar limi-
dos, onde ficam a casinha de bonecas mam dos visitantes social que traba- a criança ou adolescente permaneça tes às crianças.”
e o gramado em que os meninos jo- com mais facilidade, No Brasil, 87% lha há três anos na com sua família. Não sendo possível, J. 11 anos, é um exemplo de falta
gam bola. Na fachada, uma janela e
a porta principal. Entramos e fomos
pedem colo, fazem
carinho e brincam dos abrigados Casa Lar Pai Herói,
abrigo para crianças
o jovem é encaminhado a um abrigo
e este deve assegurar pela manuten-
de disciplina. Seus pais procuraram
o Conselho Tutelar há três meses
conduzidas até a sala, que tem um sofá
de couro marrom, com 14 lugares, em
com os cabelos com-
pridos das mulheres.
não estão e adolescentes que
tiveram seus direi-
ção e pelo fortalecimento dos víncu-
los familiares. “Antes de a criança ser
alegando que não conseguiam impor
limites à criança, que não tinham con-
formato de U e com o estofamento Perguntamos há disponíveis tos violados (aban- encaminhada para adoção, tenta-se o dições de ficar com ele no momento.
rasgado em alguns pontos. De frente quanto tempo R. es- dono, maus tratos, reingresso dela ao lar de origem. O Ansioso e agitado, passa o tempo todo
para a perna menor do U, a escada que tava na casa. “Ahhh, para adoção violência física ou abrigo é temporário, é a transição para mexendo em tudo que vê, pega coisas
conduz ao segundo andar. E de frente nem me lembro moral) e foram afas- que a criança seja colocada em famí- sem pedir, tira os pertences das outras
para a parte côncava, uma televisão de mais. Acho que faz tadas do convívio lia substituta (adoção) ou retorne ao crianças do lugar. “Ele até sabe se
29 polegadas. Sentamos no sofá me- umas duas semanas.” Ele fica distante familiar por determinação da justiça. lar. As pessoas precisam entender que comportar, mas quando tira vantagem
nor e imediatamente nos fizeram com- e pensativo quando se lembra dos pais “Os abrigos são lugares transitórios, abrigo e orfanato são diferentes. Aqui disso. Mês passado foi aniversário
panhia. R., de cinco anos, sentou-se ao e do lar de origem. Tem saudades de existem porque as crianças que são as crianças estão em um caráter pro- dele, e a mãe de J. quis fazer uma fes-
nosso lado. Com os pés sem encostar casa e quer voltar ao convívio familiar. afastadas da família de origem não visório, até que a Justiça determine o ta aqui para comemorar. Ele passou o
o chão e com as mãos sobre as pernas, “Eu vou sair daqui logo, meu pai tá são, obrigatoriamente, encaminhadas futuro delas”, salienta Fê. mês todo como um santo. Foi só aca-
nos cumprimentou com um oi tímido. comprando uma casa e vai vir buscar para adoção. Seguimos o que manda o Cerca de 240 crianças em Floria- bar a festa que voltou a se comportar
- Oi. Onde estão as outras crianças? eu e meu irmão”, fala contente. Mas Estatuto (da Criança e do Adolescen- nópolis e São José estão em abrigos mal”, conta Munique.
- perguntamos. isso não significa que ele não goste de te): tentamos garantir que a criança, como a Casa Lar, e 80 mil em todo o Para o ECA, o motivo pelo qual J.
- Na escola. onde está agora. Gosta, e gosta muito. mesmo afastada do lar, continue com país. Destas, 87% não estão disponí- está abrigado não é válido. Segundo o
- E não era para você estar na escola “Aqui tem um monte de amigos pra o vínculo e referência familiar”, expli- veis para adoção. Segundo o estudo artigo 23 do estatuto, a falta ou carên-
também? brincar, e a Fê, e a Dani, e a Fabi e as ca ela. O direito à convivência familiar e co- cia de recursos materiais não constitui
- Não, né. Eu sou pequeno. Só os outras moças são bem legais com a Segundo o art. 98 da Lei n. 8069/90, munitária: os abrigos para crianças e motivo de suspensão do poder fami-
grandes vão pra escola. gente.” Enfim, somos chamadas para do Estatuto da Criança e do Adoles- adolescentes no Brasil, feito pelo Ins- liar. Angelita Machado, assistente so-
Eram dez horas da manhã, e metade o nosso atendimento. “Tchau, R. Da- cente (ECA), as medidas de proteção tituto de Pesquisa Econômica Aplica- cial da Vara da Infância e da Juventude
das crianças realmente estava no co- qui a pouco a gente conversa mais.” à criança e ao adolescente são aplicá- da (Ipea), em parceria com o Conselho de São José, afirma que crianças em
légio – ou na creche, como é o caso Nos despedimos assim e entramos na veis sempre que os direitos (educação, Nacional dos Direitos da Criança e do situações como a de J. são abrigadas
das mais novas. A outra metade estava sala da Fê. saúde, dignidade, etc) forem ameaça- Adolescente (Conanda), em 2005, o por medida profilática. “Se os pais
Florianópolis, dezembro de 2008
INFÂNCIA QUATRO 11

Fernanda Espíndola
acreditam que não podem ficar com a para a juíza um pedido para que esse
criança opta-se pelo abrigamento para adolescente permaneça aqui. Até hoje
evitar que ela entre em situação de ris- ela sempre aceitou.” Atualmente está
co. É muito provável que isso venha na casa uma adolescente de 18 anos.
a acontecer quando os pais não que- F. foi abrigada aos 17 anos, junto com
rem ficar com os filhos.” Para Luiz, sua filha de nove meses, porque o pa-
coordenador geral da Casa e filho dos drasto não admitia que a enteada grá-
fundadores, isso ocorre porque falta vida ficasse em casa.
no município uma casa de passagem. Munique explica que quando estão
“Nós não temos aqui em São José este próximos de completar a maioridade,
tipo de estrutura. Muitos casos nem os jovens são incentivados a fazer um
precisavam de abrigamento. O estatu- curso de capacitação. “F. faz curso de
to é claro: o abrigo é medida extrema e telemarketing e K., apesar de ainda
excepcional. Na prática isto não acon- ter 14, fala que gostaria de trabalhar
tece. E uma vez que o menor é abriga- como babá. Já começamos a procurar
do, nós temos 48h para avisar a juíza algum curso desse tipo.” Para ela, é
e é aberto o processo. Daí complica a importante que este jovem saiba que,
saída da criança, porque o processo é por mais que ele não possa mais morar
moroso.” na casa, o vínculo não é desfeito. “Eles
Angelita explica que este processo é sempre podem vir aqui pedir orienta-
demorado por se tratar de uma situação ção, estaremos aqui para ajudá-los. E
delicada. “A partir do momento que é os padrinhos também podem ser refe-
aberto, o juiz vai investigar os motivos rência para eles”, ressalta.
que levaram ao abrigamento. Ele pas- Os padrinhos a que Munique se re-
sa pelo fórum e chega ao Ministério fere são pessoas que fazem parte do
Público. Em alguns casos o promotor projeto Padrinhos do Sorriso. Um fi-
sugere um estudo social daquela famí- nal de semana no mês (normalmente
lia. Essa solicitação vai para o juiz que o último), as crianças passam com os
autoriza ou não. E assim o processo padrinhos. Para isso é preciso ter boas
se alonga.” Em casos de consumo de notas na escola e bom comportamen-
drogas por parte dos responsáveis, por to. “É uma forma de discipliná-los.
exemplo, além há ainda o tempo tra- Eles precisam saber que para se ter al-
tamento para desintoxicação, que dura gumas coisas é preciso dar outras em
nove meses. “Depois desse período, troca”, explica Fê. Este projeto tem o
os responsáveis pelo menor precisam objetivo de oferecer à criança abriga-
se estruturar, mostrar o esforço que fa- da a oportunidade de viver dentro de
zem para ter a criança de volta, o que uma família por dois dias. Segundo
faz com que a criança fique ainda mais a assistente social, devido ao tempo
tempo no abrigo”, salienta Munique. que algumas crianças permanecem na
Durante o perí- casa, elas esquecem
odo de abrigamen- como é o ambiente
to, as instituições Cerca de 2,3% de uma família, como
incentivam que os é ter a atenção voltada
responsáveis visitem dos jovens só para ela. “Por mais
as crianças e os ado- que tentemos apro-
lescentes. A pesqui- em abrigos já ximar o ambiente do
sa do Ipea, realizada abrigo do ambiente
em 584 abrigos de atingiram a familiar, isto é im-
todo o país, aponta possível. São muitas
que 58,2% mantêm maioridade. crianças, e tudo aqui
SOLIDÁRIA: Para algumas crianças, uma vantagem de estar na Casa Lar Pai Herói é que “tem comida
todo dia”, e ainda assim, M., de três anos, abrigada há quatro meses, oferece bolinhos para as repórteres
vínculo familiar. Na é divido. É bom para
Casa Lar Pai Herói, eles saber que existe
as visitas são monitoradas por Fê e por outra forma de lar.”
Munique e acontecem todas as quar-
tas-feiras. “É uma forma de acompa-
Para evitar que as crianças confun-
dam os padrinhos com uma possível
Das Casas de Misericórdia aos abrigos
nharmos o desenvolvimento do caso”, família substituta, Fê opta por não
ratifica Munique. autorizar que um mesmo padrinho fi- Até 1900, as necessidades so- Luiz. Em menos de cinco anos, Jan- receber este menor”, explica Fê.
A maioria dos menores recebe visi- que com a mesma criança dois meses ciais da população brasileira eram dira e o marido, Luiz, já cuidavam P., 28, tem deficiência mental foi
ta, mas não todos. K., 14 anos, está na seguidos. “É uma decisão nossa. Tem de responsabilidade da igreja, de mais 32 crianças. “Nessa época a primeira criança recebida pelo
Casa há dois anos, não se lembra mais abrigos que permitem um padrinho através das Casas de Misericórdia. chamamos a atenção da mídia, que abrigo. Foi abandonada na porta
da última vez que recebeu a visita da fixo para a criança. Achamos que isto Não havia qualquer atuação do veio aqui fazer uma reportagem. Foi da Casa no ano de sua fundação
mãe. Tímida, a garota dá indícios de cria um vínculo muito forte, que quan- Estado neste sentido. Somente em daí que veio o nosso nome, pois es- e está lá até hoje. V., 12, tem pa-
que tem consciência que provavel- do desfeito pode ser mais um trauma 1922 surgiu, no Rio de Janeiro, o tava passando, na TV Globo, a no- ralisia cerebral e está abrigado há
mente ficará na casa até completar a para esta criança.” Apesar da precau- primeiro estabelecimento público vela Pai Herói, e o jornal colocou dois anos.
maioridade. “Toda vez que sai uma ção, vínculos acontecem. para o atendimento de crianças e este nome na matéria.” Cuidar dele está cada vez mais
criança da casa, ela se sente como se Goreti, funcionária pública federal, adolescentes. Na década de 40, foi A Casa foi regularizada como abri- difícil. V., já está grande e as mo-
ficasse para trás. Esses dias eu estava participou do projeto Padrinhos do criado o Serviço de Assistência ao go na segunda metade da década de nitoras têm dificuldades de trocá-
brincando com eles e falei ‘deixa eu Sorriso por quase um ano. Afastou-se Menor (SAM), ligado ao Ministé- 80, quando a discussão em torno dos lo e colocá-lo na cadeira de rodas
ver quais de vocês faltam ir embora da Casa Lar porque se afeiçoou de- rio da Justiça, que era equivalente meninos de rua culminou na criação devido ao seu peso. Ele também
daqui’ e discretamente ela levantou a mais a uma criança. Quando a entre- ao Sistema Penitenciário para a da Comissão Nacional Criança e precisaria de um acompanha-
mão. É um trauma para ela saber que vistamos, a pergunta que ela nos fez população de menores. Constituinte, em 1986, no governo mento mais específico, oferecido
o abrigo é transitório para a maioria, foi se Y. ainda estava lá. “Foi adotado As instituições mantiveram um Sarney. Mas foi só com a constitui- pela Fundação Catarinense de
mas para ela não”, conta Munique. no começo do ano”, respondemos. caráter correcional-repressivo até ção cidadã, de 1988, que a proteção Educação Especial, em um bairro
K. chegou à casa com mais quatro ir- Seus olhos se encheram de lágrimas. 1964, quando foi estabelecida a integral a criança e adolescentes foi vizinho. Fê diz que o problema é
mãos, e já viu três saírem de lá: os dois “Eu queria adotá-lo. Quando soube Política Nacional de Bem-Estar contemplada nos artigos 227 e 228. estrutural. “Não temos um carro
mais novos foram adotados e a mais que não seria possível, quase entrei do Menor (PNBEM). O Código Em 1990 esta doutrina da proteção para levá-lo até lá. Estamos ten-
velha, C. ainda que continuasse abri- em depressão. Por isso me afastei da de Menores, que abrangia crian- integral foi coroada com o Estatuto tando conseguir com a prefeitu-
gada após os 18 anos, fugiu do abrigo casa. Apesar de Fernanda (Fê) tentar ças em situação irregular, ou seja, da Criança e do Adolescente (ECA). ra, mas está difícil”. Ambos es-
para se casar. de tudo para que isso não aconteça, menores infratores, carentes e Segundo o Estatuto, a instituição peram uma vaga na Orionópolis,
Não é raro encontrar maiores de crianças são crianças. Não tem como abandonados, foi aprovado em deve escolher o perfil de atendimen- instituição especializada no aten-
idade abrigados. Cerca de 2,3% dos jo- não se envolver com elas”. 1979. Um ano antes, nascia a Casa to. Em Florianópolis, o Lar Recan- dimento de pessoas com defici-
vens em abrigos já atingiram a maiori- Apesar do sofrimento que passou, Lar Pai Herói. O abrigo é fruto da to do Carinho, por exemplo, atende ência. Para P., a vaga não abre há
dade. “Não é porque eles completaram Goreti diz que nunca conseguiu se dedicação de Jandira, mãe de seis crianças com HIV. A Casa Lar Pai 28 anos. Enquanto aguardam, os
18 anos que nós vamos dizer ‘agora desvincular completamente da Casa filhos naturais, que cuidava das Herói foca seu atendimento em dois contam com a boa vontade
você tem que sair daqui’”, afirma Fê. e quer voltar a ser voluntária. “Eles crianças filhas das profissionais grupos de irmãos, por mais que na e dedicação daqueles que os aco-
Em três anos trabalhando na casa, ela estão com poucos padrinhos. Eu te- do sexo que atuavam na região. prática isto nem sempre se aplique. lheram no melhor lar que podem
já teve duas meninas que atingiram a nho amor pra dar e essas crianças “Naquela época, aqui tinha uma “Temos aqui crianças que vieram oferecer.
maioridade durante o período de abri- precisam receber amor. Chega a ser zona de meretrício, e minha mãe sozinhas, pois não havia vagas em Quem quiser conhecer ou
gamento e continuaram lá. “Quando incoerente não ajudá-los. Até porque cuidava das crianças enquanto as outros abrigos. Não é porque o nos- ajudar a Casa Lar Pai Herói,
isso acontece, nós escrevemos um é uma experiência enriquecedora e mulheres trabalhavam”, relembra so perfil seja outro que não vamos o telefone é (48) 3246 3233
relatório minucioso, e encaminhamos inesquecível.”
12 QUATRO COMPORTAMENTO Florianópolis, dezembro de 2008

Felipe Machado

No movimentado centro da capital catarinense, existem diversas whiskerias abertas o dia inteiro, onde trabalham mulheres de várias idades, a maioria de origem mais humilde

As profissionais do código 5198


A rotina de duas garotas entre livros, programas, quartos e planos para o futuro
entrevista mais parecia um encontro máquina caça-níqueis, além unhas estão terríveis. Entre-

Sofia Franco
Gabriela Bazzo
de amigas, todas da mesma idade. de um bar de frente para a olhamos-nos, e automatica-
Sofia Franco

E
Fluminense, filha do meio de cin- porta. Não tivemos que pa- mente escondemos as nossas
co irmãos, com pai militar e mãe gar os dez reais cobrados de unhas, bem piores que as dela.
mbora já tenha ganha- professora, Natália conta que saiu noite para a entrada. Dei- Além do cuidado com a apa-
do um código na Clas- de casa aos 16 anos tomada pelo tada em sua cama, de robe rência, Natália se preocupa
sificação Brasileira de espírito aventureiro que diz ter her- bordô, a mineira Mariana* muito com o corpo. Todos os
Ocupações (CBO) há dado do pai. Depois de concluir um fica bem a vontade para dar dias, depois de acordar e to-
seis anos, a profissão curso técnico de administração e a entrevista. “Meu filho mais mar um farto café da manhã,
de prostituta ainda é vista com mui- marketing no Senac de São Paulo, velho quer ser jornalista. Sei ela vai à academia, onde fica
to preconceito em vários segmentos começou uma carreira de modelo a que um dia ele também vai por no mínimo quatro horas.
sociais e levanta polêmicas de âm- convite de Ana Pimenta, responsá- precisar fazer isso”. Natural É faixa roxa no caratê, esporte
bito trabalhista. Por pressões do Mi- vel pelos eventos da Harley David- de Alfenas, sul de Minas Ge- que começou a praticar ainda
nistério Público, em outubro de 2008 son no Brasil, onde trabalhou dos 17 rais, depois de 15 anos longe criança obrigada pelo pai. Seu
o Ministério do Trabalho decidiu re- aos 18 anos. “Adorava estar no meio de casa, ela ainda não perdeu soco, com força de 90 kg, já
formular a cartilha de profissionais do pessoal da mídia, conheci gente o sotaque. A cada seis meses brigou com muito homem,
do sexo, que dava orientações de bem relacionada do mundo inteiro”. ela viaja para visitar a famí- nunca no trabalho.
cuidado com a saúde, planejamento Nessa época ganhava em média 5 lia, o pai auxiliar de produ- Mariana, adepta do espiri-
financeiro e ações educativas, além mil reais por mês e teve a oportuni- ção, a mãe dona de casa e os tismo há 17 anos, se diz cada
de apresentar o passo-a-passo da dade de visitar todos os estados do quatro irmãos. Os três filhos, vez mais “zen”, mas nos conta
prostituição. O MP alega que o do- país, além de viajar para Inglaterra, 16, 14 e 9 anos, moram com que na semana anterior acertou
cumento faz apologia à exploração Austrália e Argentina. os avós paternos em Curi- um cliente com uma garrafa
das mulheres, mas representantes da Há seis meses se mudou para a tiba, onde também mora o de cerveja após ele mandá-la
SEMPRE: Camisinha e unhas muito bem feitas
categoria desaprovam a polêmica e capital catarinense, mais próxima da ex-companheiro, com quem calar a boca. “Sou calma, mas
dizem que lutaram muito para serem atual residência de sua família em Im- conviveu por sete anos e que três programas por semana, que cus- tenho sangue na veia. Procuro
reconhecidas como profissionais. bituba, para substituir no Senac uma conheceu em São Paulo. Ela também tam de 400 a 2 mil reais. “A maioria ser totalmente relax, pois um dos
Bem ou mal vistas pela sociedade, professora de espanhol, língua que já os visita duas vezes por ano. Depois dos homens que freqüentam a casa pecados capitais é a ira”. Ela come-
as mulheres do código 5198 da CBO domina desde os sete anos de idade. que saiu de casa trabalhou em vários são casados, muito bem relaciona- çou na prostituição há oito anos a
não levam uma vida muito diferente Entretanto a professora não se afastou restaurantes; seu prato preferido é dos e educados. Vem também muita convite de uma amiga. Desde então
das demais. Têm paixões por livros, do cargo e Natália ficou sem o empre- arroz com feijão, frango e polenta. gente de fora, falam do português ao trabalha na mesma boate, de onde
música e culinária, praticam espor- go. Entre os gostos da menina de fala Natália nunca trabalhou nessa mandarim. Políticos, jogadores de já foi gerente, ganhando, além dos
tes, guardam dinheiro para o futuro doce e cabelos cacheados, estão os li- área, mas adora cozinhar. Sua es- futebol, artistas e grandes empresá- programas, dois salários mínimos
e trazem consigo algumas frustra- vros. Ela lê e ficha cerca de oito obras pecialidade são os frutos do mar, e rios”. Segundo ela, os “pés de chine- por mês.
ções, pessoais ou no trabalho, além por mês, entre história, psicologia e diz que largaria tudo pelo chocolate. lo” são os policias, juízes e promo- Hoje a casa lhe rende cerca de R$
de ter uma personalidade carregada auto-ajuda. Sua coleção beira os 300 Entre os planos para o futuro, está o tores, que não pagam os 110 reais 2 mil, atendendo de oito a dez clien-
de virtudes, defeitos e manias. exemplares, minuciosamente organi- de abrir um bistrô ou uma adega, em para entrar na boate. O perfil de seus tes por semana. “Aqui não dá para
Em uma quarta-feira de chuva, zados por datas em seu escritório. alguma cidade pequena, tranquila e clientes reflete seu estilo de vida. escolher homem, tem todo tipo de
encontramos Natália* no meio da Não muito longe dali, outra afi- afastada. Ela também tem vontade No guarda-roupa apenas peças gente, dos mais feios aos mais boni-
tarde em frente a uma floricultura cionada por livros nos recebe pela de cursar faculdade de administra- caras e de grife, que segundo ela tos. Se bem que perante Deus somos
no centro de Florianópolis. Vestindo manhã em seu quarto na whiskeria ção ou engenharia química. Mas es- são investimento na profissão em todos iguais”. Além disso, faz faxi-
calças pretas de ginástica e a blusa onde trabalha. Depois de subir dois ses projetos ficam para daqui a dois que está há três meses. De noite, nas a 60 reais durante a tarde. Seus
da academia de artes marciais que lances de uma escadaria estreita, ilu- anos, tempo em que pretende juntar cabelos sempre escovados, perfu- gastos são menores que os de Natá-
freqüenta, a menina de 19 anos nos minada por uma forte luz azul, che- dinheiro trabalhando cinco dias por me Victoria’s Secret e unhas impe- lia; 550 reais vão para os filhos, 175
acompanhou até uma lanchonete. gamos a um grande salão com me- semana em uma das maiores casas cáveis. Durante a entrevista, com para o aluguel de����������� seu apartamento,
Em alguns minutos de conversa, a sas, sofás, um pequeno palco e uma de show da cidade. Ela faz cerca de as mãos sobre a mesa diz que suas sendo a �������������������������
outra metade paga por um
Florianópolis, dezembro de 2008
COMPORTAMENTO QUATRO 13
Felipe Machado

Em Florianópolis, casas de show freqüentadas por prostitutas de luxo chegam a cobrar mais de cem reais de entrada. Nesses estabelecimentos, fala-se do inglês ao mandarim

cliente. Por ano, desembolsa R$ 150 me deixa mais desinibida, mas eu

Regulamentação ainda gera polêmica


pelo convênio com uma clínica par- ganho anos de vida”. Também não
ticular e a cada dois meses compra fuma e é totalmente anti-drogas.
roupas no centro da cidade. Mariana admite que além de fumar
Diferente de Natália, que se diz desde os 14 anos, muitas vezes na

ONG Estrela Guia/ Divulgação


elegante, ela se diz criativa e está boate bebe além da conta, mas não Diferente de países como a Ale-
sempre inventando moda para se considera alcoólatra. Na noite manha e a Holanda, no Brasil as
agradar os clientes. Seu quarto na anterior à entrevista havia bebido prostitutas não têm amparo de
whiskeria é tão colorido como suas 18 latas de cerveja e já chegou ao leis trabalhistas, pois a profissão
roupas; uma parede verde limão, número de 28. Uma vez por ano faz não é legalizada. Não é possível
outra laranja, uma televisão, DVD, exames preventivos pelo SUS e os que essas mulheres tenham car-
dois aparelhos de som e uma gela- leva à clínica com que tem convê- teira assinada, já que são proibi-
deira. Um coração de pelúcia ver- nio. Ela também recebe apoio de dos vínculos empregatícios com
melha com os escritos “Eu te amo” uma ONG que distribui preservati- agenciadores ou casas noturnas
fica pendurado em uma prateleira vos para profissionais do sexo e pro- que, segundo nosso código pe-
e abaixo dele uma camisinha, que move campanhas de vacinação. nal, configuram práticas ilegais
nunca falta. Ela passa lá a maior Embora a prostituição represente de exploração sexual e cafetina-
parte da semana. a maior parte de suas rendas, as duas gem. Elas seguem sem 13º sa-
Natália paga de aluguel mil reais, já estipularam datas para parar. Elas lário, licença-maternidade ou a
e divide seu apar- não se colocam segurança do salário mínimo. O Pessoal da ONG Estrela Guia faz trabalho educativo e prevenção
tamento com duas como vítimas, código da Classificação Brasilei-
tarântulas, duas “Não é um mas não hesitam ra de Ocupações (CBO) consiste o tráfico de mulheres que venham a políticas públicas de assistência
cobras Surucucu em falar o quanto apenas na descrição do ofício se dedicar à atividade. médica e controle de doenças
de Patioca e um dinheiro fácil, o trabalho é di- que permite que as prostitutas O projeto divide opiniões entre a voltadas passa essas mulheres.
linguado. “Con- fícil. “Não é um paguem o INSS não como autô- sociedade e entre a própria classe No Brasil a atenção dispensada
vivo bem com as é um dinheiro dinheiro fácil, é nomas, mas como profissionais das prostitutas. Para Fernando Ki- às prostitutas já foi motivo de
cobras, todos nós
somos venenosos”.
rápido. É um um dinheiro rápi-
do. O ambiente é
do sexo.
A presidente da ONG Estrela
noshita, especialista em direito e
cidadania, o projeto é controverso,
entraves diplomáticos com os
Estados Unidos.
Aos 17 anos morou
com um namorado,
ambiente podre” podre, as pessoas
são podres e eu
Guia - associação em defesa das
profissionais do sexo, Ana Pau-
pois sua lógica é garantir direitos
às mulheres que escolheram seguir
Em 2005 o Ministério da Saú-
de recusou uma ajuda financeira
mas hoje diz que em parte me acho la Litwisnki afirma que conhece essa profissão e não incentivá-las a de 48 milhões de dólares do go-
não dividiria seu podre também. poucos casos de mulheres que se prostituir. Por outro lado, a maio- verno norte-americano para o
ambiente com mais ninguém. “Não Mas todo mundo tem um lado po- utilizam o código 5198. “As me- ria da população não tem acesso a programa de prevenção a DST/
penso em me casar. Não agüentaria dre.”, diz Natália, que marcou para ninas preferem se declarar pro- uma educação que possibilite fazer AIDS. A Agência do Estados
ter que escutar alguém roncando”. 2010 a mudança de vida. fissionais autônomas. Hoje usar essa escolha de maneira consciente. Unidos para o Desenvolvimento
Só ela mexe no espaço, metodica- Mariana acredita que a vida que ou não o código não muda nos- Ana Paula faz uma análise ponde- Internacional (USAID) impôs
mente organizado e, por isso, se de- leva é errada. “O que eu faço é pe- sos direitos, apenas faz crescer rada da situação: “Embora os bene- que a verba não poderia ser uti-
fine louca, maluca, chata e cheia de cado, estou vendendo algo que Deus o preconceito”. Mas ainda assim fícios não estejam muito claros no lizada em programas voltados a
manias. Ainda assim gostaria de ter me deu de graça”. Para a mineira, ela reconhece que o registro na projeto do Gabeira, o fato de ganhar- prostitutas. Na mesma época, o
um filho, que criaria para ser como a saída da whiskeria, programada CBO é um passo importante para mos direitos trabalhistas seria uma Brasil também recusou 40 mil-
ela e lhe faria companhia. para janeiro de 2009, representa a legalização da profissão e diz boa idéia e a alteração do código pe- hões de dólares de um fundo
Além de exigente com a ordem seu maior envolvimento nas ativi- que se mais pessoas se decla- nal nos traria mais segurança. Mas pelo mesmo motivo.
da casa, a carioca é muito cuidadosa dades do centro espírita que fre- rarem profissionais do sexo, o sabemos que muitas coisas continu- As autoridades brasileiras
com a saúde. Só transa com camisi- qüenta, pois para desenvolver sua projeto de lei do deputado fede- ariam clandestinas”. Ela diz que sua afirmaram que as condições para
nha e, a cada 90 dias faz uma bate- mediunidade precisa se afastar de ral Fernando Gabeira terá mais classe não quer ser vitimizada, quer o uso do dinheiro iam contra a
ria de exames pelo convênio de seu um ambiente carregado de energias chances de ser aprovado. apenas respeito. “Quero poder abrir política de saúde estabelecida
plano de saúde. Há dois meses ela negativas. Seus planos são terminar Ela refere-se ao PL 98/2003, um crediário nas Casas Bahia dizen- pelo país. Os Estados Unidos
parou de beber quando trabalha, se o segundo grau e prestar concurso que prevê a anulação dos artigos do que sou profissional do sexo sem condenam a prostituição moral e
permitindo apenas chope ou vinho para os correios. “Meu sonho é ser 228, 229 e 231 do código penal; ser olhada de cara feia”. legalmente em todos os seus es-
nos finais de semana. “Já bebi muito funcionária pública, para não ter que deixariam de ser crime o favore- Alguns profissionais da área da tados, exceto Nevada.
e deveria beber mais para agüentar trabalhar tanto”. cimento da prostituição, a manu- saúde afirmam que legalizar o ofí- Gabriela Bazzo
aquele ambiente desprezível. Isso é * Os nomes foram trocados para preservar a tenção de casas de prostituição e cio facilitaria a implementação de Sofia Franco
jogar dinheiro fora, porque o álcool identidade das entrevistadas.
14 QUATRO LUXO Florianópolis, dezembro de 2008

Jéssica Camargo

Os moradores se dividem em relação às festas em casas noturnas do bairro: alguns se incomodam com o barulho; outros acham que a badalação anima a vizinhança

Sol, champagne e incomodação


Os prazeres e os problemas do dia-a-dia dos moradores de Jurerê Internacional
dade de vida e que hoje se vêem, badalados do litoral brasileiro, sen-
Michel Siqueira

Jéssica Camargo
Michel Siqueira em algumas épocas do ano, dentro do comparado aos melhores para-
do beach point mais badalado do douros de Punta Del Este e Ibiza”.
litoral catarinense, talvez até do li- Mas foi com a instalação do El Di-
uando o bairro estiver toral brasileiro. vino Beach em dezembro de 2004,
no auge da badalação, Florianópolis deve receber quase com grande trabalho de marketing,
recebendo o maior flu- 800 mil turistas em 2008, segundo que a praia se consagrou. Mais re-
xo de turistas da tempo- projeção da Santa Catarina Turis- centemente, abriram as portas o
rada na semana entre o mo S/A (Santur), empresa ligada à Café de La Musique, o Parador P12
Natal e o Réveillon, o médico João Secretaria de Estado do Turismo, – também do grupo El Divino Bra-
Francisco Mussnich, 63, estará ter- Cultura e Esporte. Desses turistas, sil – e a recém inaugurada Pacha
minando de arrumar as malas para quem tiver disposição – e dinheiro Floripa.
viajar, como tem feito nos últimos – para pagar pelo glamour de uma Nesses bares e restaurantes da
anos. Morador de Jurerê há 14 anos das praias mais requintadas do Bra- praia há quem beba cerveja ou cho-
e dono de um sobrado de frente para sil, irá se hospedar em Jurerê Inter- pe, mas a bebida oficial é a cham-
o mar a 30 metros do Restaurante nacional, no norte da Ilha de Santa pagne. A garrafa mais barata não
Taikô, ele diz que é impossível ficar Catarina, distante 30 km do centro. sai por menos de R$ 70, e a mais
ali nos dias de agito, e prefere sair O aluguel de um apartamento cara quase R$ 2.500. O gerente de
de casa para não se aborrecer. simples a 150 metros da praia para um dos bares conta, em tom de con-
É tarde de sexta-feira, e João até três pessoas sai por R$ 300 a di- fissão, que já viu um cliente pagar
Francisco revolve com cuidado a ária na alta temporada. Para quem uma conta de 25 mil reais sozinho
terra do jardim de seu terraço. Do prefere o luxo, uma casa de frente com seu cartão de crédito. Tinha
alto de sua casa, para o mar com comprado várias garrafas de cham-
observa outras
mãos cuidadosas,
Na praia há quem cinco suítes e
capacidade para
pagne, mas não as tomava – prefe-
ria estourar a rolha e jogar a bebida
que preparam o
Taikô para mais
beba cerveja ou dez pessoas cus-
ta R$ 10 mil por
nos amigos, por brincadeira.
A maioria das casas em Jurerê
uma noite de festa. chope, mas a dia, com o mí- não tem muros nem portões. Às ve-
Cortinas alaranja- nimo de 15 dias zes, uma cerca faz a separação do
das são recoloca- bebida oficial é a de aluguel. Para terreno com a calçada para evitar
das, bebida e co- alugar um imó- que animais entrem na proprieda-
mida preparadas e champagne vel no período de. Nas garagens, todos os modelos CONTAS ALTAS: bares e restaurantes do bairro são dos mais caros da ilha
um caminhão che- de maior procura de carros importados, de minivans dos nesses valores. sando melhorar a qualidade de vida
ga trazendo várias – depois do Na- a Ferraris. A segurança patrimo- do bairro. Um dos mecanismos de
caixas de som que estarão a toda tal e antes do Réveillon – é preciso nial é feita por uma empresa priva- Associação divulgação das ações da AJIN é o
dali a algumas horas. Ele assiste a planejamento, pois as locações são da contratada pela Associação de A fundação da AJIN, incentiva- informativo bimestral chamado Fo-
tudo resignado. Avisado pela repor- esgotadas com antecedência. Proprietários e Moradores de Ju- da pela empreendedora de Jurerê lha de Jurerê, editado pela própria
tagem que acontecerá um show ali A transformação de Jurerê Inter- rerê Internacional (AJIN). Os 550 Internacional, a Habitasul, se deu associação. Publicado desde 2000,
logo mais, ele conta que acompa- nacional no “destino mais valoriza- associados – mais da metade do em 1986, quatro anos após o lança- o informativo tem tiragem média de
nha a programação do restaurante e do do Brasil” aconteceu, sobretudo, número de imóveis – contribuem mento das vendas de lotes no bair- três mil exemplares, é distribuído
que à noite vai ao cinema fugir da a partir da instalação de bares e mensalmente com uma taxa para ro. Sua função é fazer a mediação gratuitamente e também pode ser
badalação do seu quintal. restaurantes sofisticados na orla. O a segurança no valor de R$ 142, e entre os associados e as instituições lido no site www.ajin.org.br.
O médico é um dos muitos mora- primeiro foi o restaurante Taikô em uma para a manutenção das áreas econômicas, sociais, políticas e A insatisfação dos moradores
dores que escolheram Jurerê Inter- 2002, que anuncia em seu site ser pública s de R$ 65. Os gastos da culturais que compõem a socieda- com a badalação do bairro é um dos
nacional pela tranqüilidade e quali- “hoje um dos pontos de praia mais associação também estão embuti- de para resolver os problemas, vi- temas recorrentes no informativo
Florianópolis, dezembro de 2008
LUXO QUATRO 15
da AJIN. O bancário aposentado o estabelecimento consegue licen-

Paulo Rocha
Antonio Carlos Dainez, gerente da ças dos órgãos competentes, como
Associação, aponta que esta é uma a Fundação Municipal do Meio
das questões mais importantes em Ambiente (Floram). Para esse ano,
pauta. Ele ressalta que o crescimen- a chegada de 2009 no Taikô vai ser
to do bairro trouxe alguns proble- ainda mais seletiva. O número de
mas, e que casas noturnas, festa e convites deve cair de R$ 1500 para
barulho “não são de interesse da R$ 800. De acordo com Ângela,
comunidade”. É na mesma direção essa diminuição não tem a ver com
que aponta a pesquisa encomenda- as reclamações dos moradores de
da pela Habitasul ao Instituto Mapa Jurerê, mas visa a um melhor aten-
em 2007 sobre o perfil dos mora- dimento aos clientes. Os seletos que
dores do local. De acordo com es- curtirão a festa regada a champagne
ses dados, dentre as causas que os Veuve Clicquot devem desembolsar
motivaram a escolher o residencial de R$ 550 a R$ 850 pelo convite
estão a tranqüilidade (37%), morar antecipado.
na praia (20%), segurança (10%) e A casa, que diz receber nos três
organização (9%). Badalação e o meses de temporada quase 200 mil
agito não parecem ser um fator de pessoas, tem tomado alguns cui-
atração de moradores. dados em virtude das reclamações
Existem, no entanto, os que de- dos moradores do bairro. “A gente
fendem esse novo aspecto do bair- está mantendo a política da boa vi-
ro. A aposentada Maria Goreti, 58, zinhança”, reforça a hostess. Para
moradora do residencial há nove evitar pôr mais lenha na fogueira,
anos, conta que de sua casa não o restaurante tem deixado de fazer
Jéssica Camargo

ouve nenhum barulho e acha que shows com bandas e privilegiado


deveria ter mais baladas pelas re- a contratação de DJs: “A gente já
dondezas para “harmonizar os jo- passa para o cliente a questão do
vens e os mais velhos”. Sua amiga, problema do som”, explica. Porém
a empresária Cândida Maria, 69, nem todos os clientes aceitam essa
concorda, e diz que acha graça dos condição. Alguns deixam de fechar
jovens enchendo o bairro no verão. negócio com o restaurante, outros
“É bom para animar, porque no res- insistem e recebem um convidado
to do tempo é tudo muito sossegado indesejado: a polícia mandando
por aqui”, afirma. baixar o volume. Mesmo em festas
Compartilham da mesma opinião com som mecânico, ainda é preci-
aqueles que vêem o potencial lucra- so saber lidar com a situação. Além
tivo dessa badalação; pessoas que de buscar um bom relacionamento
moram no bairro durante a baixa com os vizinhos, há outras estra-
temporada e alugam seus imóveis tégias: “à medida que a hora vai
no verão, e também os que adqui- passando, a gente observa, avalia
riram suas propriedades há pouco o vento, vai fechando uma janela
tempo, já depois do boom de Jure- aqui, outra ali...”.
rê. Na opinião de Antonio Carlos
Dainez, “quem é a favor não vive o Barulho na Justiça
problema”. Segundo ele, as maiores Tramita na Justiça uma Ação
reclamações vêm dos vizinhos dos Civil Pública (ACP) proposta O aluguel diário de um apartamento simples sai R$ 300; de uma casa de frente para o mar custa R$ 10 mil
estabelecimentos. pela AJIN buscando garantia do
A casa de João Francisco fica a acesso público e irrestrito ao bal-
pouco mais de 30 metros do Taikô,
mas há casas que distam menos de
neário de Jurerê Internacional.
Tem sido prática corriqueira dos “Jurerê é propaganda enganosa”
dez metros. O gerente Dainez con- restaurantes, além do desrespeito
ta ainda que duas casas vizinhas à lei do silêncio, o bloqueio das Alheio às baladas e ao sossego mas se fosse no sul da Ilha seria trabalhar como zelador, recebendo
ao El Divino Beach foram postas passagens que dão acesso à orla, de Jurerê Internacional, Alexsan- melhor, né...”. Nos dois meses em metade do que ganhava quando era
à venda, porque seus proprietários o fechamento de parte da praia em dro Barbosa, 33, um dos vigilantes que trabalha em Jurerê atendendo mecânico. Hoje, ganha R$ 1.100
não suportaram a convivência. “É algumas festas e a colocação de da empresa que faz a segurança do as construções do Il Campanario por mês somando os salários de
muito comum o pessoal sair três, mesas e cadeiras na areia, sendo bairro, concorda que no verão as – polêmico empreendimento da caseiro e zelador. Na temporada,
quatro horas da manhã, embriagado que essas não podem ser utiliza- coisas devem piorar. Casado e pai Habitasul – Alexsandro viu ape- deixa tudo pronto para os patrões
e acabar fazendo sexo no jardim do das sem consumação. de dois filhos, mora no Ribeirão da nas uma tentativa de furto num da casa onde mora e se muda para
cara”, relata. Na ACP contra a Prefeitura de Ilha e acorda às 5h da manhã para automóvel, no estacionamento em Canasvieiras, bairro vizinho a Ju-
Entre as principais queixas dos Florianópolis, União e órgãos go- pegar o primeiro dos três ônibus frente à árvore em que costuma fi- rerê, onde uma irmã tem um apar-
moradores estão perturbação à lei vernamentais de fiscalização e que toma para chegar ao trabalho, car. Não saiu dali, só se mostrou tamento em que fica hospedado. É
do silêncio, bloqueio do acesso à proteção ambiental – como a Flo- num percurso que dura duas horas. para o ladrão com um assobio e nesse tempo também que trabalha
praia pelos bares, ocupação de es- ram e o Instituto de Planejamento Sob um sol escaldante, ele está de chamou a polícia pelo rádio. “Eu de domingo a domingo no edifício,
paço público para fins comerciais, Urbano de Florianópolis (IPUF) – a calças compridas, camisa e grava- não sou doido de ir lá brigar com o pois o fluxo de pessoas aumenta:
engarrafamentos e outras questões, AJIN pede a demolição dos bares e ta, sentado num toco de madeira bandido. Meu trabalho é proteger “Fim do ano isso aqui vira uma
como bloqueio de garagens, sujeira restaurantes que ocupam áreas de embaixo de uma árvore. “A empre- a construção”, se explica. O ladrão bagunça. Tem gente que não vem
nas praias e ruas, depredação, des- uso comum e também a anulação sa quer que eu fique aqui em pé e foi embora depois que viu o vigia. para descansar, vem para bagunçar
truição de áreas preservadas como das licenças concedidas para es- vestido como um boneco, mas não Outro trabalhador do bairro, mesmo”, desabafa.
as restingas e o aumento da crimi- ses empreendimentos. A opção por dá”, reclama Alexsandro, afrou- Nelson Portes, 48, é zelador do Janete Piran, 41, garante que
nalidade. uma ação mais ampla vem depois xando o nó da gravata. Perguntado Edifício San Blas, um dos prédios não vai estar lá na temporada. Tra-
de algumas tentativas com ações sobre os riscos do trabalho em Ju- do Jurerê Open Shopping – um balha há apenas dois meses como
Conflito de gerações privadas contra alguns dos estabe- rerê Internacional, responde com centro de compras a céu aberto faxineira do Open Shopping, mas
“Os pais reclamam, os filhos ado- lecimentos, mas que não surtiram bom humor, dizendo que todos os instalado no bairro – além de tam- fica lá só até o começo de dezem-
ram”. A frase é da hostess do Res- efeito. dias quando está indo para debai- bém ser caseiro de uma residên- bro. Mora na Daniela, outro bairro
taurante Taikô, Ângela Montegui- Curiosamente, alguns dos imó- xo da árvore, um bando de gaivo- cia de veraneio a duas quadras do vizinho, e antes trabalhava como
lhott, 29. O local é um dos points veis que abrigam as baladas de Ju- tas tenta atacá-lo. Na volta para a trabalho. Os donos do imóvel são empregada doméstica no centro.
mais agitados do verão. Segundo rerê, como por exemplo, o Taikô, casa, mais duas horas de ônibus, de Curitiba, e costumam vir para Recebia mais do que hoje, e tam-
Ângela, as principais reclamações são de propriedade da Habitasul, a enquanto não começa a tempora- o litoral algumas vezes por ano, bém acha que era mais feliz. “O
acontecem no ano-novo e no car- empresa que criou Jurerê Interna- da: “Se agora já não dá tempo nem além de alugar a casa na alta tem- pessoal aqui é muito mal-educado,
naval quando o Taikô organiza cional, a mesma empresa que ven- de ver a novela, no verão eu vou porada. e não respeita ninguém. O povo é
grandes festas, com bebida libera- deu caro o conceito de qualidade chegar em casa depois da meia- Ex-mecânico de carros, Nelson porco mesmo”, reclama. Ainda não
da e convites para lá de salgados. de vida a Antonio Carlos, a João noite, por causa do trânsito”. morava em Jurerê Tradicional e sabe o que vai fazer quando largar
No réveillon 2008, por exemplo, Francisco, a Maria Goreti, a Cândi- Recebe R$ 1 mil por mês, sa- trabalhava em São José numa ofi- o emprego, mas quer sair, nem que
o convite masculino chegou a ser da Maria... lário que acha justo por não ter cina autorizada de uma montadora. seja para ficar em casa, sem fazer
vendido na hora por R$ 1.300. Em Procurada diversas vezes pela feito faculdade. Recém efetivado Tinha que sair às 5h da manhã de nada. “Jurerê Internacional é pro-
festas como essas, são fechados os reportagem, a empresa não se dis- na empresa, espera ser transfe- casa para chegar a tempo no traba- paganda enganosa”, finaliza.
acessos à praia ao lado do restau- pôs a conceder entrevista antes do rido para um local mais próximo lho. Com o tempo, cansou de tan- Jéssica Camargo
rante e parte da praia fica de uso fechamento desta edição. de sua casa: “pode ser no centro, tos ônibus e há quase oito anos foi Michel Siqueira
restrito dos convidados. Para tanto, Colaborou Paulo Rocha
16 QUATRO MERCADO DA MORTE Florianópolis, dezembro de 2008

Cemitérios sem espaço

Cecília Cussioli
fazem descanso eterno
tornar-se artigo de luxo
Nas gavetas pagas pela prefeitura o corpo é tirado depois de
quatro anos. Quem pode garante um terreno em até 25 vezes
Cecília Cussioli nosso carro-chefe”, declara Anízio tura. O serviço é pago pelas funerá-
Letícia Arcoverde Fritzen, chefe do Departamento de rias que atendem nos cemitérios da

F
Serviços Públicos da Prefeitura de cidade e tem um custo de R$ 560.
Florianópolis. Apenas dois dos 11 Quatro anos depois, o cemitério tem
az um ano e meio que cemitérios públicos da cidade ain- o direito de exumar o corpo e de-
Andréia perdeu o filho, da possuem espaço para túmulos. O socupar a gaveta. Se a família não
Dininho. O jovem de 18 maior, do Itacorubi, abriga 58.890 entrar em contato ou não tiver onde
anos estava, segundo a pessoas enterradas em 100 mil m² e colocar os restos mortais, esses vão
mãe, no lugar errado, na está saturado há 10 anos. De acordo para o ossuário comum, um espaço
hora errada. Foi assassinado no bair- com o secretário de Urbanismo e Ser- subterrâneo sinalizado pela grande
ro Monte Cristo e hoje está no cemi- viços Públicos, José Carlos Rauen, cruz amarela vista logo na entrada
tério São Francisco de Assis, o maior a lotação póstuma de Florianópolis do cemitério. Segundo o administra-
de Florianópolis. No dia de Finados, está esgotada. “Se não construirmos dor, Osmar Ferreira, lá devem estar
a data de maior movimento do ano, outro cemitério urgentemente, vamos “umas cinco, seis mil pessoas”, reu-
que traz até 10 mil visitantes aos cer- ter problemas”, admite. nidas desde a criação do cemitério,
ca de 28 mil túmulos, Andréia levou No meio do cemitério, longe da em 1925.
três velas para Dininho. Protegeu-as vista de quem passa na rua, estão Quatro funerárias atuam no mer-
da chuva debaixo de um abrigo im- os seis blocos que enumeram quase cado de Florianópolis, licitadas pela
provisado com três tijolos. E ao re- 800 gavetas de cimento bruto, sepa- prefeitura até pelo menos 2011. São
lembrar a morte do filho, fez questão radas em três fileiras. Algumas rece- Jorge, São Pedro, São Joaquim e O maior cemitério da cidade esgotou sua lotação há uma década
de contar que pretende levá-lo para beram um segundo andar com mais Santa Catarina trabalham através
um lugar melhor. três. Em um dos andares de baixo, de um sistema de rodízio e plantão, enterros de beneficiados pelo auxí- nidade de evitar o ossuário comum
A primeira opção era enterrar Di- rente ao chão de terra, descansa Di- coordenado pela Central de Óbitos. lio funeral, condição listada na lei e alugar o espaço, com uma taxa de
ninho no cemitério ninho. Criada pela prefeitura em maio de que garante a licitação. Quem não R$ 60 a cada cinco anos.
São Cristóvão, em Andréia con- 2008, a central surgiu para atender as consegue o benefício da prefeitu- A gaveta que Andréia visita não
Coqueiros, por ser
mais perto de sua
Se a família ta que espera o
aniversário de
famílias em luto. Segundo funcioná-
rios do ramo, antes era comum que
ra mas não pode pagar muito – ou
não encontra espaço para um novo
poderá ser alugada nem possui aca-
bamento. O nome de Dininho, Aldo-
casa, no bairro vizi- não contatar quatro anos da empresas de municípios próximos túmulo -, pode comprar o mesmo íno, e a data de sua morte estão es-
nho Vila Aparecida. morte do filho como São José ou Biguaçu viessem pacote recebido por carentes, mas critos a dedo, no cimento que lacrou
Não havia espaço e o cemitério, o para tirá-lo de até a ilha “roubar” os corpos assim ir para uma das 75 gavetas constru- a tampa. As três velas não demoram
ela recorreu ao São lá. Nem teria que as famílias saíam dos hospitais. ídas pelas funerárias em um terreno para apagar na chuva forte de Fina-
Francisco de Assis, corpo vai para o outra escolha. As quatro empresas trabalham no doado pela prefeitura. As três filei- dos, apesar da proteção. Mas An-
no Itacorubi, a três
ônibus de distância.
ossuário comum As gavetas são
destinadas a
mesmo prédio da Central de Óbitos,
em frente à entrada do cemitério do
ras de 25 gavetas, que mudam de
nome para “carneiras”, são pintadas
dréia deixou um isqueiro para que a
boa vontade de outros visitantes às
“Eu queria comprar pessoas caren- Itacorubi, e possuem preços de ur- de amarelo e possuem acabamento gavetas mantenham as chamas ace-
um terreno aqui, mas também não tes, que recebem o auxílio funeral nas tabelados que variam entre R$ em granito. Criadas no ano passado, sas. Ela espera a construção de um
tinha”, explica a mãe de 34 anos. Já da Prefeitura. Para conseguir a ajuda 290 (a sextavada, madeira pinus na última semana de outubro elas novo cemitério para trocar o lugar
que a família de Andréia não possui econômica nos momentos incertos, e interior revestido em samilon) e ainda tinham 15 vagas, e uma nova de Dininho. “Estamos esperando dar
um jazigo onde poderia enterrar o fi- as famílias devem residir em Floria- R$ 3.980 (uma extra-luxo, madeira construção com 75 novos espaços quatro anos para arranjar um outro
lho, Dininho foi para uma gaveta. nópolis e passar por uma entrevista nobre envernizada e interior de ce- está prevista ainda para este ano. lugar para ele”, conta a mãe, espe-
Criadas em 1998, as gavetas, ou com assistentes sociais. O auxílio dá tim almofadado com babado). Cada De acordo com Anízio, antes dos rançosa. “Aí vamos comprar um es-
carneiras, são a principal estratégia direito a translado, velório, urna e uma atende uma média de 60 a 80 próximos quatro anos será instituído paço para ele no cemitério novo que
para a falta de espaço nos cemitérios uma vaga por quatro anos nas gave- óbitos por mês. Além desses casos, um decreto oferecendo às famílias vão fazer no Cacupé.”
de Florianópolis. “Hoje elas são o tas cimentadas doadas pela prefei- uma funerária geralmente custeia 15 compradoras das carneiras a oportu- Elaborado há cinco anos, o proje-

“Todo mundo ganha com a tanatopraxia”, a arte de operar mortos


O escritório de Marcus Vinícius é Ele é um dos quatro funcioná- a capacidade de prolongar o veló- do ele, o curso oferecido em São
Sofia Franco

grande e decorado com símbolos rios da funerária Santa Catarina, rio de cinco para até 72 horas com Paulo só serve para você sair com
religiosos. Beirando os 30 anos, onde divide a sede com 20 urnas o processo de higienização que, o certificado na mão. O de Curiti-
sentado atrás de uma mesa com de todos os tamanhos, modelos e segundo Marcus, evita vazamento ba tem pouco movimento e quase
papéis, calculadora e tabela de pre- preços. A loja fica na frente do Ce- de líquidos. Vai desde a aspiração nenhum morto para mexer. “Já no
ços, cumpria plantão na tarde de mitério São Francisco de Assis, no simples (R$ 400) até o embalsa- de BH dá muito óbito”, recomen-
uma sexta-feira de outubro. De ca- Itacorubi, mas Marcus diz que só mento, que pode chegar a R$ 1.800 da. “São uns 20, 30 por dia, dá para
misa social escura, calça azul e sa- subiu lá uma vez. e é obrigatório se o morto for trans- aprender muito.”
pato preto, não tem problemas em “Para mim é um serviço co- portado de avião. “O mais difícil e Oferecido pelo Sindicato das
explicar como funciona o negócio mum”, responde, quando pergun- caro é corpo necropsiado”, explica Empresas Funerárias de MG e com
em que trabalha. tado sobre como é lidar com a mor- Marcus, falando sobre aqueles que certificado emitido pela Faculdade
Marcus não é o chefe, mas sua te em horário comercial. “Tirando vêm do Instituto Médico Legal, ge- de Ciências Médicas do estado, o
função tem nome pomposo. Ele se criança”, ele acrescenta. Por ser ralmente óbitos causados por vio- curso tem duração de uma sema-
apresenta como técnico em tanato- um momento difícil, Marcus ex- lência. “Eles entregam aberto, nós na, com 20 horas de teoria e 60 de
praxia, ou tanatopraxista. É isso o plica que eles tentam deixar tudo o que temos que fechar.” prática. A descrição do curso indi-
que faz sempre que sai de trás dos mais simples possível para a famí- Se ele explica com cuidado o ca que o investimento vale a pena
papéis e vai até o laboratório nos lia, o que pode acabar em prejuízo funcionamento da empresa, sua e “todo mundo ganha com a tana-
fundos do escritório. Segundo o na forma de constantes cheques animação surge mesmo é na hora topraxia”. A funerária se destaca da
próprio, seu trabalho não é muito sem fundo. “São cerca de três a dez de contar sobre sua formação. Mar- concorrência e “o corpo fica limpo,
diferente do que um médico faz em por mês”, conta. “E sempre os mais cus se orgulha de ter feito o melhor bonito e com a cor natural, dignifi-
um paciente. “Só que o paciente já caros.” curso de tanatopraxia do Brasil, cando a imagem do ente falecido”.
está morto”, completa. Na rotina de um tanatopraxista, em Belo Horizonte (MG). Segun- Letícia Arcoverde Marcus em seu local de trabalho
Florianópolis, dezembro de 2008
MERCADO DA MORTE QUATRO 17
Cecília Cussioli

No cemitério do Itacorubi, a prefeitura fornece a urna, o velório, o transporte e o espaço. Nas gavetas, o nome dos mortos geralmente é escrito a dedo pela própria família

to da Necrópole Florianó- R$ 6.600 – taxas de velório e


Crematório oferece opção
Cecília Cussioli

polis prevê um cemitério sepultamento. Ao todo, um

mais “prática e acessível”


vertical de quatro prédios espaço de paz no “paraíso”
com espaço para 70 mil custa no mínimo R$ 9 mil,
corpos, construído numa além do custo de manutenção
parceria da prefeitura com anual - que caso a família Único em Santa Catarina, o Crema- por meio quilate produzidos na Suíça;
a iniciativa privada. Apro- atrase mais de três parcelas, tório Vaticano, em Balneário Cam- o segundo – que nunca foi adquirido
vado pela Câmara de Ve- o cemitério retoma o terre- boriú, oferece uma opção menos – é preciso esperar por carregamentos
readores, o projeto ainda no e transfere o corpo para convencional às famílias em luto. Por espaciais da Nasa.
não tem orçamento nem um ossuário recém-constru- R$ 3.400 – apenas pelo processo de Caso o pacote tradicional seja o
data para o processo de ído, com pequenas gavetas cremação – os parentes não precisam suficiente, o ritual será o mesmo que
licitação, mas o secretário individuais cobertas pelo se preocupar em encontrar um espaço um funeral comum. A diferença é que
José Carlos Rauen espe- mesmo mármore branco do nos cemitérios da cidade. Aberto em após o velório, o morto é levado até o
ra iniciar os trabalhos em gramado. “Fazemos de tudo 2007, o crematório atende de 10 a 15 crematório e não ao cemitério. A inci-
Sofia Franco

agosto do ano que vem. para não chegar ao extremo: casos por mês e verifica que, apesar neração é feita em 24 horas e as cin-
Até lá, as famílias em luto renegociamos ao máximo ou do serviço ser mais caro que um se- zas são devolvidas aos parentes em
precisam pensar com ante- oferecemos as gavetas identi- pultamento comum, a procura vem pequenas urnas. Diferente de outros
cedência e ter dinheiro no ficadas do ossuário sob uma aumentando. “Em longo prazo, é um crematórios no país, Ronaldo garante
bolso. taxa de 40% do salário míni- investimento com menos gastos do que cada corpo é queimado separa-
mo”, garante Ivo. que manter um jazigo”, avalia Ronal- damente com o caixão e os pertences
Descanso em paz A solução encontrada do Souza, supervisor de atendimento, do falecido - com exceção de metais
Há 13 km dos túmulos pelo Jardim da Paz para am- referindo-se às taxas de manutenção pesados.
apertados do Itacorubi, pliar a clientela já trouxe re- dos cemitérios particulares. Apesar de poucos casos em Santa
50 mil m² de grama apa- torno com 10% dos terrenos Além do serviço de pronto atendi- Catarina, o número de cremações está
rada hospedam entes fa- vendidos. O outdoor visto mento, a empresa oferece um plano em ascensão no Brasil. Em dez anos
lecidos de alguns poucos por quem passa na frente do preventivo que o cliente adquire ainda houve um acréscimo de 48% dos fu-
habitantes de Florianópo- cemitério, na rodovia SC- em vida, em até 36 parcelas de R$ 122. nerais e, em algumas cidades, chega
lis. Criado há 38 anos, o As velas de Andréia e túmulos do Jardim da Paz 401, anuncia: um plano pre- O pacote inclui, além da cremação, a representar metade deles. O Crema-
Cemitério Parque Jardim vidente de 25 leves parcelas uma homenagem de despedida com tório Vaticano espera, nos próximos
da Paz é, de acordo com o versículo atrapalhado pela chuva, já que a ad- de R$ 228. Assim, caso alguém tenha música, vídeos, revoada de pombas dois anos, alcançar 30 cremações por
da Bíblia que decora a placa de boas ministração monta um toldo próximo receio de ficar desalojado quando a brancas e chuvas de pétalas de rosa. mês – média alcançada pela sede de
vindas, uma espécie de “paraíso na ao túmulo e fornece sombrinhas pre- hora chegar, já pode pensar com an- “Tudo o que uma grande celebração Curitiba. Ronaldo acredita que a prin-
terra”. Poucos minutos de ônibus tas com a marca do lugar. tecedência. Foi o que fez Maria Lui- tem direito”, garante Ronaldo. Caso a cipal barreira para isso são os aspec-
o separam do vizinho lotado, mas O maior cemitério particular da za há 26 anos. Com o pai doente no família deseje deixar o evento “ainda tos culturais e religiosos. “As crenças,
como o acesso foi projetado para cidade é também o que mais oferece hospital, a psicóloga, até então com mais inesquecível”, o Vaticano tem principalmente a católica, ainda são
carros, pedestres precisam se arris- vagas. Dos dez mil terrenos, ape- 29 anos, preferiu adquirir um terre- a disposição dois serviços especiais: muito apegadas ao material, ao se-
car no acostamento para chegar ao nas metade está vendida. O restan- no antes que “tivéssemos que resol- transformar as cinzas em diamantes pultamento. Mas as questões práticas
ambiente agradável, espaçoso e pa- te pode ser adquirido em formas de ver em cima da hora, e não saísse do ou mandá-las para o espaço. No pri- tendem a falar mais alto”.
dronizado. Longe do centro urbano, pagamento variadas, que Ivo Fontes jeito que a família gostaria”. Pouco meiro caso, cobra-se até 9 mil reais Cecília Cussioli
no caminho para as praias, o condo- Filho, gerente operacional do Jar- tempo depois, quando o pai faleceu,
mínio é mantido a taxas anuais que dim da Paz, garante adequar às con- a mãe de Maria Luiza resolveu fazer
equivalem a um salário mínimo. dições de cada cliente. “Oferecemos o mesmo. Hoje a família possui dois
Todo o verde, ar limpo, e silêncio do dois tipos de jazigo com espaço para jazigos vizinhos com espaço para
local causam um sentimento híbrido dois sepultamentos; ou lateral, como quatro pessoas, onde está enterrado
de paz e solidão. uma cama de casal (R$ 8.500), ou apenas o patriarca da família. Soma-
A média de 15 sepultamentos rea- sobreposto (R$ 5.700)”, algo como das todas as taxas anuais pagas para
lizados por mês segue uma ordem es- um beliche. Os valores podem ser manter o jazigo vazio no cemitério
tética: sepulturas subterrâneas, ape- parcelados em até seis vezes, com desde a morte de seu pai, a psicóloga
nas com a placa de mármore branco juros. Mas o cliente só poderá usu- já desembolsou mais de R$ 10 mil
aparente e uma pequena floreira re- fruir do terreno quando todas as par- – quantia que lhe permitiria adquirir
tangular. À escolha da família ficam celas estiverem quitadas. um novo espaço. Mas disso Maria
as flores, as letras e o acabamento No pacote oferecido pela funerária Luiza não se arrepende. “Pago pelo
da lápide – que pode ser de placa de exclusiva do Jardim da Paz inclui-se único espaço que tenho certeza que
aço ou vidro. Um enterro aqui não é translado, urna – que podem chegar a um dia irei usar”.
18 QUATRO TECNOLOGIA Florianópolis, dezembro de 2008

Estréia da TV digital traz dúvidas


A chegada do sinal aberto a Florianópolis mostra que a população não está preparada
passar por aprovação para começa- midor, na loja em que ele trabalha,

Felipe Machado
Camila Chiodi
rem a transmitir digitalmente. A TV até a metade de novembro nenhum

O
Barriga Verde, por exemplo, repre- conversor havia sido vendido. A si-
sentante da Rede Bandeirantes em tuação é parecida nas demais lojas
sinal aberto de tele- Florianópolis, recebeu consignação do centro de Florianópolis que dis-
visão digital chega do Ministério das Comunicações ponibilizam o produto. O preço de
a Florianópolis an- em novembro. “A partir daí, vamos um conversor pode variar de R$ 300
tes da data prevista enviar um projeto para o Ministério a mil reais.
no cronograma do e para a Anatel (Agência Nacional Para 2009, com a extensão do si-
Ministério das Comunicações. De de Telecomunicações), que devem nal no país a previsão é de aumen-
acordo com o planejamento do Sis- responder em até 6 meses”, afirma to nas vendas de conversores. Os
tema Brasileiro de Televisão Digital Renato Frasetto, coordenador dos principais compradores desses apa-
(SBTVD), a primeira transmissão projetos para TV Digital da emis- relhos deverão ser os telespectado-
aconteceria apenas em janeiro de sora. res das classes C e D, que assistem
2009, mas a estréia ocorreu já em Leandro Oliveira Santos, 32 anos, à TV aberta e eventualmente terão
dezembro. O sinal digital traz para morador do bairro Monte Cristo - lo- que se adaptar à tecnologia digital.
a ilha não só tecnologia, mas princi- calizado na parte continental de Flo- As classes A e B, além de não serem
palmente muitas dúvidas e um cená- rianópolis, que também vai receber muito populosas, em muitos casos
rio semelhante ao das cidades onde o sinal digital – tem acesso apenas à têm acesso ao serviço digital pelas
ele já estava em vigor: a população programação da TV aberta. Ele ou- operadoras de TV a cabo. Segundo
não está bem informada a respeito do viu falar sobre a TV Digital através Televisores com o conversor digital em loja do centro de Florianópolis o Fórum Brasileiro de TV Digital,
que é e como vai funcionar, e muito de amigos e na própria televisão, em até o final de 2008 o sinal digital das
menos preparada para se adaptar a um telejornal. Entendeu que com a de uma loja o conversor de TV Di- se fosse uma forma de acessar a pro- redes abertas estava ao alcance de
essa nova tecnologia. novidade a imagem de seu televisor gital (mais conhecido como set-top gramação de redes pagas. 40 milhões de usuários, mas apenas
A única emissora que já deu início iria melhorar. “Tenho muitos chu- box), Leandro ficou curioso sobre Interpretações equivocadas e dú- cerca de 650 mil (1,6 %) havia se
às transmissões em Florianópolis foi viscos na TV lá de casa. Nem parece como funcionava. O aparelho trans- vidas como as de Leandro são muito adaptado ao sistema.
a RBS – afiliada da Rede Globo na que moro na capital”. Leandro esta- forma o sinal digital que chega da comuns. André Pereira, vendedor A transição da televisão analógi-
região Sul. Em um primeiro momen- va certo. Com a tecnologia digital, emissora em um sinal que o televi- de uma loja de eletrodomésticos ca para a digital no Brasil começou
to, a programação transmitida digi- a qualidade da imagem é superior e sor comum consiga processar. Ligou no centro de Florianópolis, conta em dezembro de 2007, com a es-
talmente será a da filial Rede Globo sem chuviscos, e o som é igual ao de para a loja e lhe disseram que tinham que todo dia em média 10 pessoas tréia na cidade de São Paulo, e deve
do Rio de Janeiro, incluindo nove- uma gravação em CD. “Assim como dois modelos à venda: um que cus- perguntam, só para ele, sobre o apa- terminar em 2016, quando a trans-
las, shows e filmes. As produções o vídeo cassete era bom e o DVD é tava cerca de R$ 500 e outro de R$ relho conversor. “Algumas pessoas missão analógica será interrompi-
em telejornalismo serão as últimas a melhor, ou no caso do celular, que 900. Mas que por enquanto apenas acham que com o início da TV Di- da. Depois de São Paulo o sinal já
incorporar a tecnologia digital. Aos foi diminuindo de tamanho e de pre- a RBS iria transmitir digitalmente, gital elas são obrigadas a comprar o chegou também a Rio de Janeiro,
poucos, produções locais serão gra- ço, acho que com a TV Digital deve o que fez Leandro perder seu inte- conversor ou vão ficar sem nada na Belo Horizonte, Goiânia, Curitiba,
vadas em alta definição. ser assim também”, diz Santos. resse. Ele entendeu que o conversor televisão”, relata Pereira. Apesar do Porto Alegre, Salvador, Campinas e
Outras emissoras ainda devem Tendo certo dia visto no folheto disponibilizaria mais canais, como interesse e da curiosidade do consu- agora Florianópolis.

Dúvidas continuam
e usuários ainda não
Vendas de blu-rays ainda não decolaram
têm interatividade devido ao alto preço e desconhecimento
A maioria das dúvidas relativas à TV Gustavo Naspolini por 1.080 linhas de resolução, seis se podem encontrar DVDs de filmes as pessoas estão curiosas para ver
Digital tem origem nos aparelhos e vezes mais nítida que a do DVD. por R$ 12,99, é difícil encontrar um como funciona o disco que vem
termos técnicos que envolvem essa “Há maior sensação de profundida- filme blu-ray por menos de R$ 79. “dentro destas caixinhas azuis, me-

Q
nova tecnologia. Antes de tudo, o de, cores mais vivas e sensação de “Esse preço é alto porque o formato nores”.
usuário se pergunta o que é preciso uando chegou em realismo”, comenta André Pasetto, é novo e poucas pessoas conhecem Um retrato do estágio embrioná-
fazer para ter acesso ao sinal digi- casa, o bancário Pe- vendedor. O som deste, que preten- o blu-ray”, afirma Pasetto. rio em que os blu-rays se encontram
tal. Para quem assiste à TV aberta, dro Paulo Martins, 42 de ser o sucessor do DVD, é três A loja em que Pasetto trabalha, a no mercado é que eles nem mesmo
é necessário conectar um conversor anos, ligou o aparelho vezes mais claro e potente. A maior mesma em que Pedro Paulo comprou estão disponíveis na maioria das
à televisão comum, ou comprar um de DVD que fica na capacidade de armazenamento está por engano o blu-ray do Springste- locadoras de vídeos da capital ca-
televisor que já venha com o con- sala de estar e introduziu o disco relacionada com o reduzido com- en, é um dos poucos pontos de ven- tarinense. Emílio Polatti, gerente
versor embutido. É preciso ainda ter que acabara de comprar em uma primento da onda que compõe o da do novo formato em Florianópo- de uma videolocadora do centro da
uma antena UHF (Freqüência Ultra loja de um Shopping Center de Flo- laser óptico do disco, que permite lis. Enquanto se as vendas de DVDs cidade afirma que o custo seria mui-
Alta), já que o sinal analógico fun- rianópolis. Era um show de Bruce armazenamen- ultrapassam os to alto para uma clientela bastante
ciona com antenas VHF (Freqüên- Springsteen, um de seus cantores to de até cinco 100 exemplares específica e reduzida. “Ainda não
cia Muito Alta).
Um dos benefícios que a televi-
prediletos, ao vivo em Dublin. Pe-
dro Paulo estranhou o preço do pro-
vezes maior. A
cor desse laser, “Estão todos por semana, ape-
nas dois blu-rays
trabalhamos com discos de alta de-
finição, mas a previsão é que come-
são digital pode oferecer é a interati-
vidade. Pelo próprio controle remo-
duto, que ultrapassava os R$ 100, e
a embalagem azul e menor que as de
azul, é o que dá
o nome ao novo
curiosos para ver são vendidos, em
média, no mesmo
cemos a adquirir alguns exemplares
a partir do ano que vem”.
to, o telespectador, agora chamado
de usuário, pode enviar perguntas e
costume. Comprou do mesmo jeito,
não encontrando um mais barato. A
formato (o “e” de
blue foi extraído
como funciona período. Este nú-
mero, à primeira
Enquanto o novo formato não
ganha difusão na sociedade, o DVD
vídeos, participar de votações e até surpresa maior veio quando o apa- do nome em vir- o disco destas vista baixo, é con- ainda é a alternativa economica-
mesmo fazer compras e acessar ser- relho não reproduziu o disco recém- tude de registro siderado pela loja mente viável para a população. E
viços de banco on-line. comprado. O bancário telefonou da marca em al- caixinhas azuis” satisfatório, uma sua dinastia irá durar por alguns
Para que isso aconteça é neces- para a loja, relatando o problema, guns países). vez que o novo bons anos. “É improvável que o
sário que o Ginga - middleware (es- e apenas depois de descrever para O blu-ray é formato ainda é DVD desapareça por completo nos
pécie de programa de computador) a atendente o produto foi que des- uma novidade cara para o bolso do pouco conhecido, e é reduzido o próximos 20 anos, assim como a
do SBTVD – esteja pronto, mas por cobriu que não havia comprado um cidadão, principalmente porque, número de pessoas que já aderiram fita cassete ainda é bastante utiliza-
enquanto os envolvidos com o seu DVD, e sim um tal de blu-ray. para ser utilizado, é necessário que à nova tecnologia. “A tendência é da. Os três formatos vão coexistir”,
desenvolvimento lidam com pro- Pedro Paulo não é um caso iso- se tenha um aparelho reprodutor crescer a venda deste formato, as comenta Polatti. Neste período de
blemas de direitos autorais. Alguns lado. A grande maioria da popula- específico (o disco também toca pessoas vão aos poucos conhecendo transição, as pessoas vão gerindo
dizem que em maio de 2009 os pri- ção ainda não conhece a mais nova no videogame Playstation 3). Este e substituindo o DVD pelo blu-ray. as novas tecnologias, e conhecer os
meiros conversores com o programa tecnologia em discos com imagem custa a partir de R$ 1.499. Também Mas ainda vai demorar muito para novos formatos é fundamental para
estarão prontos para o mercado. Ou- de alta definição, som cristalino e é importante uma televisão de alta as vendas ficarem parecidas”, afir- não ser engolido pela evolução dos
tros prometem a chegada para daqui alta capacidade de armazenamento resolução, para que as mudanças de ma Andréa Flores, gerente da loja. eletrônicos, e não ter surpresas desa-
a um ano. As incertezas continuam de dados. No blu-ray, disco de 12 imagem e som sejam justificadas. O Porém, a vendedora Carina Araújo, gradáveis como a que ocorrou com
sendo a marca TV Digital. centímetros de diâmetro, igual a preço do disco também é elevado, também responsável pelo setor de Pedro Paulo na tentativa de assistir
Camila Chiodi um cd comum, a imagem é formada comparado com o DVD. Enquanto CDs, DVDs e blu-ray, afirma que ao show de Bruce Springsteen.
Florianópolis, dezembro de 2008
SAÚDE QUATRO 19
Mayara Vieira

Restaurante Le Due Regine em Florianópolis: há um ano adaptou seu cardápio e aboliu completamente a gordura trans dos alimentos sem alterar sabor e textura

A nova fobia da alimentação


Depois do colesterol e da gordura saturada, o alvo agora é a transaturada
Mayara Schmidt Vieira alimento que ele possa metabolizar, da pele – o que provoca alteração da transaturada dos alimentos do Le restaurante onde trabalha há cinco
tratar, aproveitar. A partir de uma parede de vasos sanguíneos; aumen- Due Regine sem alterar o sabor e a anos e duvida: “Farofa sem marga-

N
determinada quantidade, que é mui- ta o colesterol ruim (LDL) e trigli- textura. “Essa mudança não foi difí- rina, não é farofa, deve ter um gosto
to pequena, ele começa a acumular, cerídeos; diminui o colesterol bom cil. Pelo contrário, foi super fácil e diferente”.
a farofa, proteína de e a gordura trans passa a ser tóxica (HDL) e aumenta risco de câncer super natural. Quando a gente viu, já Djuliana Corsi, estudante de Nu-
soja e azeite de oli- para o organismo”, alerta a nutricio- colorretal, de próstata, de mama e de tinha mudado e conseguimos adap- trição e colaboradora do projeto do
va. No ovo, feito na nista Rossana Proença. útero. Além disso, passa pelo leite tar todos os pratos que eram servi- Le Due Regine, ensina: “Nós substi-
chapa, uma pequena A substância, encontrada em bo- materno ou pela placenta, o que pre- dos”, garante Vânia, que possui o tuímos os temperos prontos, a mar-
dose de óleo vegetal lachas e biscoitos, pipocas de micro- judica o desenvolvimento do bebê. restaurante buffet a kilo há quatro garina presente em molho branco,
puro. O mesmo sabor e a mesma ondas, chocolates, sorvetes, salga- Criando e testando receitas, alu- anos e meio e recebe cerca de 150 em farofa. Em todos esses produtos,
aparência, a diferença está nos in- dinhos, folhados, tortas, fast foods, nos e professores do curso de Nutri- pessoas por dia. substituímos as massas utilizando
gredientes e no modo de preparo: margarinas acumula-se no sangue, ção da UFSC conseguiram realizar Com a inovação, a clientela au- óleo e não margarina. Então, tem
nada de gordura hidrogenada ou no fígado, nos rins, no coração e no uma experiência pioneira: eliminar mentou e a fidelidade dos antigos como fazer”.
margarina, os principais disfarces tecido adiposo – camada de gordura totalmente a presença da gordura freqüentadores foi conquistada.
da gordura trans. “Eles dizem que a alimentação fi- Legislação
A dona da farofa, do ovo frito e de cou mais leve, menos gordurosa, A ciência está ajudando a melho-

Atenção aos rótulos


muitos outros alimentos libertos da diminuindo aquela sensação de peso rar a qualidade de vida das pessoas,
trans é a empreendedora Vânia For- após o almoço”. falta agora uma legislação para dar
nasari, proprietária do restaurante Le respaldo aos estudos e auxiliar os
Due Regine em Florianópolis que, Falta de conhecimento consumidores.
A obrigatoriedade de informar na
em parceria com o Laboratório de Mas o fato de Florianópolis ter o Até o momento, o que há é uma
embalagem do produto a quan-
Técnicas Dietéticas da Universidade primeiro restaurante sem gordura resolução (veja o box) que tornou
tidade de gordura trans contida
Fe-deral de Santa Catarina (UFSC), trans do país não é sinônimo de co- obrigatória a rotulagem nutricional
numa porção considerada normal
tornou-se o primeiro restaurante nhecimento e preocupação da popu- com os valores de gordura trans das
para uma pessoa, em vigor desde
sem gordura trans do Brasil. lação e dos proprietários de restau- porções de alimentos.
agosto de 2006, foi uma inicia-
Criada em laboratório a partir do rantes sobre o assunto. Mesmo com a No Congresso Nacional e no
tiva da Agência Nacional de Vi-
século XX, a trans tem origem em recomendação da Organização Mun- Ministério da Saúde algumas dis-
gilância Sanitária (Anvisa) para
um processo chamado hidrogena- dial da Saúde para eliminar a subs- cussões estão sendo desenvol-
proteger o consumidor. “A medi-
ção, que transforma o óleo vegetal tância da alimentação, muitos ainda vidas. Há cinco projetos de lei
da é importante para brecar o rit-
- líquido - em gordura vegetal - só- ignoram a definição de gordura tran- exclusivos sobre o assunto com di-
mo de crescimento de obesos no
lida - e permite deixar os alimen- saturada e seus malefícios. Heloísa ferentes propostas: uma delas é a
país e tem como objetivo permitir
tos macios e mais duráveis, além Veronesi, empresária, almoça todos publicidade explicativa para a po-
que as pessoas possam controlar
de ter sabor neutro e baixo custo, dias em restaurantes a kilo e admite pulação sobre a substância, e outra
melhor o consumo desse tipo de
o que explica sua forte presença que até pouco tempo nunca se pre- é a proibição da industrialização e
gordura”, explica Djuliana. Trans nos rótulos desde 2006
nos produtos industrializados. No ocupou com o assunto. “Em virtude comercialização desse tipo de gor-
De acordo com essa portaria
entanto, não possui valor nutritivo do sobrepeso, estou mudando meus dura em todo o território nacional,
(n. 360, dezembro de 2003), os zero de trans e existir gordura hi-
e vem sendo associada a doenças hábitos alimentares, mas confesso como já acontece na Dinamarca e
rótulos devem conter informa- drogenada na lista de ingredien-
cardiovasculares, obesidade, cân- que tenho pouco conhecimento sobre na Califórnia.
ções sobre o valor energético de tes. Isso significa que o produto
cer, preocupando profissionais da esse tipo de gordura”, conta. “Só a informação não muda o
carboidratos, proteínas, gorduras tem menos de 0,2 grama do in-
saúde que a consideram o veneno A cozinheira Fátima do Santos, comportamento. Agora, sem a infor-
totais, gorduras saturadas, gordu- grediente por porção, quantidade
dos tempos modernos. sem saber o que é a substância e mação, a mudança de comportamen-
ras trans e fibra alimentar. insignificante, segundo a Anvisa.
“A gordura trans é uma invenção. onde ela se encontra, diz que usa to não vai existir. Não é só alarmar
Atenção: Nos rótulos dos pro- E, portanto, o fabricante está au-
Ela é uma gordura em uma forma muita gordura hidrogenada nas so- as pessoas com relação à gordura
dutos, pode acontecer da tabela torizado a informar no rótulo que
que não existe na natureza. O or- bremesas, margarina e caldos pron- trans. É mostrar que existe um ca-
nutricional informar que tem seu produto é livre de trans.
ganismo não a reconhece como um tos nos pratos que prepara para o minho”, finaliza Rossana Proença.
20 QUATRO CULTURA Florianópolis, dezembro de 2008
Divulgação

No Brasil, bibliotecas vazias são comuns. Motivos como a deficiência educacional e as relações culturais são alguns dos responsáveis pelo distanciamento entre livro e brasileiro

País feito de homens sem livros


Apesar do aumento no índice de leitura, pesquisa mostra que brasileiro lê pouco
é para menos: o índice de leitura das distorções no ensino da leitura.
Arquivo Barca dos Livros

Angieli Maros
no Brasil é de 4,7 livros por habi- Segundo a professora, outro pro-
tante ao ano – longe de ser um dos blema que bloqueia a disseminação

É
melhores do mundo – segundo re- do hábito de ler está inserido nos-
vela a pesquisa Retratos da Leitura sa cultura. “Na formação cultural
domingo. Numa barca no Brasil, divulgada pelo Instituto do povo brasileiro, o hábito de ler
parada sobre as águas Pró-Livro (IPL) em maio de 2008. não tem merecido lugar de desta-
da Lagoa da Concei- A pesquisa, que ouviu 172.731.959 que. Ele sempre foi considerado
ção, em Florianópolis, brasileiros, o equivalente a 92% de prática de grupos de prestígio social
50 pessoas, a maioria toda a população, mostrou também e econômico. Políticas públicas de
delas ainda crianças, dividem o es- que 45% dos estudados não têm o leitura são recentes na história da
paço mergulhadas num clima de hábito de ler. Apesar de esse nú- educação brasileira, e, ainda as-
magia. Nesse caso, a barca não é mero ainda ser pouco considerável, sim, não têm atendido ao univer-
um simples meio de transporte para brasileiros ainda lêem mais que ar- so da população de baixa renda”.
passeio ou trabalho: é a Barca dos gentinos, cuja média de livros por A leitura é um hábito que deve ser
Livros, que há quase dois anos apro- ano é de 3,2; e mexicanos, que lêem incentivado desde a infância, pois é
xima a literatura dos moradores da 2,9 livros por ano. No entanto, en- nessa fase da vida que existe mais
Costa da Lagoa, bairro que contorna tre dados, estatísticas e indicações, facilidade para desenvolver um
a parte norte da Lagoa da Conceição. uma resposta ainda não se confi- perfil de leitor. Pelo fato da criança
Inaugurada em fevereiro de 2007 gurou: por que se lê pouco aqui? hoje depender inexoravelmente dos
por iniciativa da Associação Aman- Num país como o Brasil, onde meios de comunicação eletrônicos,
tes da Leitura, a biblioteca Barca dos as desigualdades são evidentes e a principalmente a TV, a familiaridade
Livros é um projeto coordenado por evolução cultural ainda caminha a com os livros é ainda mais restrita.
Tânia Piacentini, doutora em edu- passos lentos, é fácil perceber que Para Gilka Girardello, coordenadora
cação pela Universidade de Campi- a deficiência no processo de edu- do Ateliê Aurora da UFSC - que que
nas (UNICAMP) cação – essencial trabalha a relação criança, mídia e
e que trabalha na formação de imaginação - ao contrário do que se
como avaliadora “Na formação leitores – é um pensa, literatura, TV e internet po-
da Fundação Na- dos motivos que dem ser trabalhadas juntas sem ne-
cional do Livro cultural do povo leva o brasileiro nhum problema. “A gente não pode
Infantil e Juvenil a se manter afas- opor a literatura às mídias eletrô-
(FNLIJ). Mais do brasileiro, leitura tado dos livros. nicas. Se houver presença de pais, Projeto Barca dos Livros: cultura para todos os moradores da Lagoa
que incrementar
a formação cul- não tem recebido De acordo com
Nilcéa Lemos Pe-
professores e educadores na gestão
das crianças com a produção cultu- que realmente querem, o que torna tura, como o Programa Nacional Bi-
tural do local por
onde passa, a bi-
destaque ” landré, professora
e pesquisadora do
ral, há possibilidade de que elas as-
sistam TV e se interessem por leitu-
o exercício de ler mais prazeroso.
Porém, sabemos que não são ape-
blioteca da Escola (PNBE), que foi
criado em 1997 com o objetivo de
blioteca móvel Programa de Pós- ra ao mesmo tempo. Não são coisas nas fatores como educação, cultura democratizar o acesso de alunos e
tem como meta Graduação em necessariamente opostas”, explica. e tecnologia que influenciam nos ín- professores à cultura através da dis-
facilitar a criação do hábito de lei- Educação da Universidade Federal Gilka ainda defende a necessidade dices de leitura. Este também pode tribuição de acervos formados por
tura em pessoas de todas as ida- de Santa Catarina (UFSC), a falta de de trabalhar a leitura de forma cole- variar segundo o poder econômico, obras de referência da literatura. Ou-
des e principalmente incentivar a recursos nas escolas do país dificul- tiva. Segundo a educadora, “quanto o mercado editorial, o porte das ci- tro exemplo é o Plano Nacional do
formação de novos leitores, como ta o trabalho de alfabetização. “Os mais a prática de ler for uma coisa dades, as regiões, e até mesmo se- Livro e Leitura (PNLL), um conjun-
explica a bibliotecária Elizabeth professores são muito importantes de grupo, mais as crianças vão ter gundo gênero e idade. Conforme to de projetos, programas, atividades
Cardoso Fernandes. Além de contar na formação de leitores, principal- interesse pelos livros, porque embo- a pesquisa divulgada pelo IPL, no e eventos na área do livro, leitura,
histórias, o projeto também realiza mente para as crianças cujo único ra isso seja uma atividade solitária, Brasil mulheres lêem mais que ho- literatura e bibliotecas em desenvol-
outras atividades culturais, como local de aprendizado de leitura é a de encontro com o texto, também mens, e crianças e jovens lêem mais vimento no país, criado em 2005.
saraus, noites literárias, teatros, escola, mas eles também encontram deve ter uma dimensão social”. De que adultos. No entanto, muito mais Em Santa Catarina, o PNLL já doou
debates sobre ciência e cultura e dificuldades de diferentes ordens. acordo com Nilcéa Pelandré, as no- que interpretar dados sobre a real R$ 68 mil para projetos de crítica e
empréstimos de livros para os mo- Uma delas é a de nem sempre dispo- vas tecnologias não devem ser vis- situação dos brasileiros em relação expressão literária, que assim como
radores da região de Florianópolis. rem de bons materiais de leitura nas tas como adversárias da leitura nem à leitura, o principal é incentivar. todos os que estão sendo desenvol-
Nos últimos dez anos, iniciati- escolas”, relata Nilcéa, para quem da aprendizagem, uma vez que elas Nos últimos anos, o governo bra- vidos Brasil afora, tem nas mãos – e
vas como a Barca dos Livros têm a falta de conhecimento dos pro- trazem novos suportes e estimulam sileiro tem desenvolvido algumas principalmente nos livros – o grande
se espalhado por todo o país. Não fessores também é uma das causas as crianças e os adultos a lerem o políticas públicas de estímulo à lei- poder de construir um país melhor.
Florianópolis, dezembro de 2008
CULTURA QUATRO 21

Número de livrarias em SC ainda não é satisfatório


Quer comprar um livro? As livrarias ainda são os princi-
pais pontos de comercialização
um número até maior que o neces-
sário”, comenta o presidente da
de publicações no Brasil, segundo CCL.
Com 2.600 unidades distríbuidas irregularmente, estudo feito pela Fundação Ins- Líder de mercado na região Sul,
as livrarias são o principal meio de aquisição de tituto de Pesquisa Econômica da as Livrarias Curitiba, proprietária
títulos no país USP (Fipe). das Livrarias Catarinense e Porto,
A pesquisa “Produção e Vendas é a maior rede de SC com filiais
do Setor Editorial Brasileiro”, en- em Joinville, Blumenau e Balne-
comendada pela Câmara Brasileira ário Camboriú. Na capital, com
RR de Livro (CBL) e pelo Sindicato lojas no Centro, Shopping Beira-
AP Nacional de Escritores de Livros Mar e bairro Estreito, as Livrarias
4 7 (SNEL), mostra um panorama do Catarinense oferecem 60% de seu
AM mercado editorial, com dados refe- estoque em livros e o restante em
PA 50 rentes ao número de livros produzi- CDs, DVDs, materiais escolares e
37 42 MA CE dos, setores com mais títulos publi- produtos de papelaria.
49 PI 98 RN 40 cados e os meios de aquisição. Para atrair novos leitores, a livra-
PB Em 2007, as livrarias comercia- ria promove projetos como o “Pas-
TO 35 PE 75
lizaram 95,5 milhões dos 200 mi- se Adiante - Corrente de Leitura Li-
AC SE
8 RO 9 BA 37 lhões de exemplares vendidos, e es- vraria s Catarinense.” Em diferentes
MT AL tão em primeiro lugar nos postos de pontos da cidade são espalhados li-
25 30
41 110 vendas, seguidas das distribuidoras vros, novos e de diversos gêneros,
DF e do comércio de porta em porta. que a população, depois de lê-los,
GO 71 No Brasil há 2.600 livrarias, pode deixar em outro local públi-
47 MG sendo que 66 estão em Santa Cata- co, para que mais pessoas possam
MS 360 rina. “A maioria está concentrada fazer o mesmo. Há também o “Clu-
ES no litoral do estado, enquanto que be da Descoberta”, em que escolas
30 SP 43
85% dos municípios catarinen- agendam visitas para conhecer a
RJ
PR 676 335 ses não têm nenhuma. O mínimo loja. “Muitos dos alunos, principal-
Participação das regiões brasileiras na aceitável seria de uma por cidade”, mente de escolas públicas, entram
quantidade de estabelecimentos:
185
afirma José Vilmar da Silva, pre- em uma livraria pela primeira vez”,
SC
Sudeste 53% 66 sidente da Câmara Catarinense do conta Suzi Mara do Amaral, geren-
RS Livro (CCL). te da Livrarias Catarinense, locali-
Sul 15%
166 Com nível de leitura de 2,6 livros zada no centro da capital.
Livrarias Nobel: maior rede do Brasil, por ano - índice baixo comparado Para Rafael Arnecke, gerente da
com 194 lojas distribuídas por 110 cidades, ao vizinho Rio Grande do Sul com Livraria Vozes, atrair novos leitores
Nordeste 20% 23 estados e em países como Espanha, 5,5 - a presença das livrarias exerce depende, em parte, de promoções,
Portugal, Angola e México importante função no incentivo à participação em feiras ou eventos,
Norte 5% leitura. “Com a defasagem existen- mas também da questão do hábito
Livrarias Saraiva: maior rede em
faturamento com receita de R$ 340 milhões te nas bibliotecas, principalmente da leitura. “Há pessoas que têm
Centro Oeste 4% crianças e jovens ficam sem alter- como prioridade comprar um apa-
no primeiro trimestre de 2007. Conta com
Distrito Federal 3% 99 lojas em 12 estados e no DF nativa para conseguir os livros”, relho eletrônico e não um livro, que
completa Silva. Florianópolis con- ainda é visto como um supérfluo”,
Ilustração: Gabriela Cabral - Colaboração: Rogério Moreira Júnior
Fonte: Diagnóstico Setor Livreiro 2007 - Associação Nacional de Livrarias
ta com seis estabelecimentos sendo finaliza Arnecke.
“o único município do estado com Gabriela Cabral

Pesquisa descreve as características da leitura no Brasil


Com o objetivo de estabelecer um
perfil do leitor brasileiro, o Institu- Leitura pelo mundo Portugal
to Pró-Livro divulgou em maio de Veja quais os índices de leitura em alguns 10*
2008 a segunda edição da pesquisa países latino-americanos e europeus
Retratos da Leitura no Brasil. *Média de livros lidos por habitante de cada país em um ano

Baseada em projeto desenvolvido Cuba


Espanha
pelo Centro Regional de Fomento 9*
ao Livro na América Latina e no 11*
Caribe (Cerlalc), Organização das
Nações Unidas para a Educação,
Cultura e Saúde (Unesco) e pela Or- México Colômbia
ganização dos Estados Íbero-ameri- 2,9* 1,6*
canos (OEI), o estudo mostra vários
aspectos da leitura no país. Um dos
destaques é o aumento do nível de
leitura, de 1,6 livros/ano para 4,7-
posição favorável se comparada a
Nas estantes do país Peru
Brasil
4,7*
2,2*
outros países da América do Sul. Dados da pesquisa Retratos da Leitura no
Outro ponto a destacar são as Brasil mostram o que o brasileiro está lendo**
maiores influências nos hábitos de ** Resposta estimulada em que o leitor podia escolher mais de uma opção Argentina
leitura. Em 49% dos entrevistados, 3,2*
a figura materna foi citada como a
principal incentivadora. Revistas-52%
Livros-50%
Os não leitores - 77, 1 milhões de
brasileiros - alegam não ler por falta Jornais-48%
de tempo, por não gostarem de ler,
porque não têm dinheiro para adqui- Livros indicados
rir livros ou mesmo porque não são pela escola-34%
alfabetizados. Mesmo assim, muitos
Textos
deles ainda têm como único gênero
escolares-30% Histórias em
de leitura a Bíblia.
quadrinhos-22% Textos na
Hoje, de acordo com o Instituto
internet-20%
Brasileiro de Geografia e Estatítica
(IBGE), o número de analfabetos
no Brasil é de 14,1 milhões, ou seja,
um em cada dez brasileiros com 15
anos ou mais.
Angieli Maros Ilustração: Angieli Maros - Colaboração: Rogério Moreira Júnior
Gabriela Cabral Fonte: Pesquisas “Retratos da Leitura no Brasil” (Brasil-2008) e “El espacio iberoamericano del libro (Colômbia-2008)
22 QUATRO EDUCAÇÃO Florianópolis, dezembro de 2008

Vestibular 2009 causa

Felipe Machado
ansiedade e nervosismo
em jovens estudantes
Estudo mostra que o medo de reprovar e de decepcionar os
pais caso não passem deixam os vestibulandos mais ansiosos
– quando cursava o terceirão, ano rotina é bastante estressante. No
Luísa Konescki
passado e este ano. No vestibular começo do ano, pensava em fazer

“E
2008, o último candidato que entrou medicina e estudava muito. Mas
no curso fez 81.04 pontos, enquanto mesmo depois de mudar sua opção
u tenho que Annelise fez 69, dez a mais do que para um curso menos concorrido,
passar”. tinha atingido no ciência e tecnolo-
“É preci- ano anterior. Mas gia agroalimentar,
so estudar
muito”.
ainda achou pou-
co. “Para medi-
“A ansiedade não diminuiu seu
ritmo de estudos.
“Tenho medo de que dê branco na
prova”.
cina fiquei muito
longe”. Ela atribui
varia de aluno “No início do
ano sentia bas-
“Tenho medo de escolher a profis-
são errada”.
seu desempenho para aluno. Tem tante insegurança,
à ansiedade que achava que não
“Será que estou escolhendo certo? sentiu no primei- aquele que fica estava estudando
Se não estiver, vou ter que voltar pra ro dia de exames. o suficiente, mes-
cá, e não quero voltar pra cá”. “Não terminei a nervoso, tem mo com todas as
“Não quero passar por tudo isso de
novo”.
prova, me deu ta-
quicardia, quase
aquele que fica apostilas do cur-
sinho”, afirma ela.
Essas são algumas das frases que
a psicóloga Roselene Schutz diz mais
desmaiei, fiquei
branca, branca...
mais tranqüilo” “Fazer o terceirão
mais o cursinho é
escutar no atendimento aos alunos No segundo dia muito estressan-
do cursinho pré-vestibular em que Apesar de estudar o dia todo, Carolinne ainda tem medo da prova
eu não parava de te. Eu fico até as
trabalha. Lidando com adolescentes chorar durante o aulão [revisão fei- 11h da noite estudando”. Ela vai de palhado seu desempenho neste ano. sua mãe nas despesas de casa. Car-
e jovens em sua maioria, ela afirma ta pelos cursinhos pré-vestibulares] manhã para o colégio, estuda alguns “Penso em fazer acupuntura”. los diz não se sentir ansioso, mas se
que os alunos encaram a prova do e cheguei para a prova com o olho dias à tarde no colégio, outros vai Carlos Henrique da Silva, de 20 sente cansado com essa rotina toda.
vestibular de forma diferente, cada inchado.” Após os dois primeiros para o cursinho, e chega em casa às anos, está no seu terceiro ano de “Ah! Porra! Queria fazer esporte,
na sua maneira. “A ansiedade varia dias, Annelise conta ter ficado mais 6h da tarde. Então estuda até a hora vestibular e, ao contrário de Caro- mas não tá dando tempo”.
de aluno para aluno. Tem aquele que tranqüila porque não via mais possi- de dormir. Carolinne fala exaustiva- linne, não se sente despreparado. Se Embora também sem muito tem-
fica nervoso, mas também tem aque- bilidade de passar e não havia mais mente de seus planos, e apesar de sente ansioso? “Olha, sinceramente, po para estudar, Matheus do Amaral
le que fica mais tranqüilo”. Ainda o que fazer. Com esse episódio, ela dizer não se sentir pressionada por não muito. Ano passado, me senti só Ribeiro, de 18 anos, é um desses es-
segundo ela, aqueles que ficam mais começou a ir ao psiquiatra e a tomar seus pais, ela acredita que não seria no primeiro dia”. Foi quando tentou tudantes que se considera tranqüilo.
nervosos são geralmente os que es- um remédio para concentração, mas justo que pagassem uma faculdade entrar na UFSC para jornalismo e Matheus fez o vestibular da UFSC
tudam mais, porque se sentem mais mudou de médico, e este disse que o particular. “Fiz escola particular na Udesc para História. Neste ano, para o curso de Engenharia de Pro-
pressionados por eles mesmos. remédio era muito forte. Se não pas- desde pequeninha e ainda ter que tentou ambos os cursos novamente. dução Elétrica através das cotas de
Para a psicóloga Dulce Helena sar este ano no vestibular, Annelise pagar uma faculdade, que às vezes Para isso, faz um cursinho pré-vesti- estudantes de escola pública. Aluno
Penna Soares, que desenvolveu o já analisa a possibilidade de fazer o nem é tão boa assim, não dá!”. Ca- bular de manhã e estuda durante 2h do terceiro ano do ensino médio do
trabalho “Vestibular: Fatores Ge- curso de medicina em uma universi- rolinne fez vestibular no ano à noite. À tarde trabalha Colégio Aderbal Ramos, estuda à
radores de Ansiedade na Cena da dade particular. “É muito sacrifício passado para ver como para ajudar noite e trabalha durante o dia por-
Prova”, dentre os motivos levanta- ter de passar por isso de novo”. era a prova, e disse que gosta. Quando entrou no
dos como geradores de ansiedade, Quem também pensa em cursar que ficou “super terceiro ano, nem pensava
o medo da reprovação, a excessiva uma universidade particular é Caro- tranqüila”. muito em fazer ves-
quantidade de matérias para estudar lina Gabriel Cardoso, 17 anos. É o Mesmo as- tibular. Viu que as
e o elevado número de candidatos primeiro vestibular que faz e não se sim, teme inscrições estavam
Matheus Nolli

por vaga são os mais indicados pe- sente preparada para entrar em uma que o abertas e resolveu
los vestibulandos”. O principal fator universidade pública. Carolina conta nervo- tentar. Matheus tem
que motiva a ansiedade, no entanto, que se inscreveu para Administração sismo matérias apenas do
seria “o medo da reprovação e a de- de Empresas na Udesc, Relações In- tenha terceiro ano em seu
cepção que podem causar a seus fa- ternacionais na UFSC e Administra- atra- colégio e, por isso,
miliares, no caso de fracassarem. ção na Unisul. “Eu sei que eu não vou pegou apostilas
E o medo de fracassar não é à passar [em nenhuma pública], mas emprestadas de
toa. Este ano, 11.837 pessoas fize- eu me inscrevi. Sempre passei de ano um amigo. Se não
ram a primeira etapa do vestibular com média sente, pegando recupera- passar este ano,
da Universidade do Estado de Santa ção”. Ela comenta que não se sente fará o mesmo ano
Catarina, a Udesc. A Universidade nervosa, e acha que isso não é de- que vem, estuda-
conta com 42 cursos, os quais so- vido à sua falta de preparo. “Se rá por conta pró-
mam 1.488 vagas para o primeiro eu achasse que ia passar eu pria. Mas acre-
semestre letivo, o que resulta em também não ia ficar ansiosa. dita que estará
7,95 candidatos para cada vaga. No Porque eu pego prova final na universida-
vestibular da Universidade Federal no colégio e não fico nem de em 2009:
de Santa Catarina (UFSC), este índi- um pouco nervosa”. Caro- “Se eu for
ce foi de 6,75 candidatos para cada lina se sente irritada por li- fazer a prova
vaga, disponíveis nos 70 cursos da dar com tanta tranqüilida- achando que
instituição. A UFSC ofereceu 2.544 de com qualquer situação, eu não vou
vagas para os alunos no 1º semestre já que isso faz com passar, aí
do ano letivo, e 2027 vagas para o que ela não estu- é que eu
segundo semestre. de: “Eu tô ferrada não passo
O curso mais concorrido do Esta- na escola e eu não mesmo”.
do é medicina, na UFSC, cuja rela- consigo estudar”.
ção candidato/vaga foi de 42,95 no Diferente de
vestibular 2009. Annelise de Olivei- Carolina, Caro-
ra Renzetti, de 19 anos, é uma das linne Odebretch
estudantes que fez as provas. An- Dias, de 17 anos,
nelise já tentou medicina três vezes mostra que sua
Florianópolis, dezembro de 2008
CULTURA QUATRO 23

Não precisa ser o Super-homem


No Brasil, a carreira de quadrinista autoral é difícil, mas mercado já esteve pior
para o mundo: Alemanha, Argenti- a primeira vez em vinte anos que o

Jessé Torres
Flávia Schiochet na, França, Bolívia, Espanha e Es- país ganhou uma das categorias. Os

D
tados Unidos já conheceram seus gêmeos Bá e Moon já haviam sido
traços e idéias, sem que saia de indicados antes, mas foi o traba-
esenha, olha, apa- casa. “Já desenhei para gente que lho do gaúcho Rafael Grampá em
ga, refaz, amassa, nunca vi ao vivo”, brinca. conjunto com a americana Becky
começa de novo. Cinema, prêmios internacionais e Clooney e o grego Vasilis Lolos
Rabisca, colore, põe a mobilização independente de qua- que marcou pela primeira vez a pre-
no portfolio, guar- drinistas de todo o Brasil têm dado sença verde-amarela no pódio. Este
da na gaveta. Assim é a rotina de visibilidade ao setor. Um desses ano, foram três prêmios. Grampá e
um quadrinista num país em que exemplos é a QuartoMundo, espé- os gêmeos comemoraram juntos: o
não é comum publicar suas histó- cie de cooperativa on-line através trio, juntamente com Lolos e Clo-
rias se você não for um dos gran- da qual quadrinistas brasileiros tro- onan ganhou pela antologia 5, uma
des expoentes do traço, ou pagar cam experiências, álbuns e idéias. brincadeira entre amigos de perfilar
do seu próprio bolso. Uma média Fernanda Chiella é participante da um ao outro. Para Gabriel Bá, o Eis-
de 10 publicações nacionais são QuartoMundo há dois meses, e ago- ner rendeu o prêmio de melhor mi-
lançadas no mercado brasileiro ra responsável pela distribuição dos nissérie por The Umbrella Academy,
por mês, segundo dados da Devir álbuns independentes em Florianó- e para Fábio Moon, pela HQ on-line
– uma das maiores distribuidoras polis. Fernanda publicou seu álbum Sugarshock!.
de quadrinhos por aqui. Nos Esta- In her darkest hours, em outubro A principal característica destes
dos Unidos, esse número passa de pela editora Image/Shadowline. quadrinistas é o trabalho autoral.
600, contando apenas a distribui- A produção cinematográfica é Nos últimos anos, o gênero se forta-
ção da principal empresa da área, outro fator que tem impulsionado o leceu após o amadurecimento de ar-
a Diamond. consumo, revertendo o processo: o tistas nacionais, mas o mercado bra-
No ano passado, cerca de 84% novo leitor é incentivado a procurar sileiro não tem crescido junto, como
das HQs publicadas no Brasil eram as HQs após conhecer sua versão na explica Casal. “Recebemos depois
estrangeiras. Somente em outubro, “telona”. A linguagem dos dois gê- de ter publicado a história. Em paí-
108 histórias entraram no mercado neros, aliás, é similar: ambos se va- ses europeus, pagam até antecipado
brasileiro, entre americanas, japo- lem das linguagens visual e verbal, para você trabalhar. No Brasil ainda
nesas e européias. A pequena pro- enquadramento, seqüências e ilumi- não se tem como sobreviver só de
dução brasileira não permite ter a nação. Super-Homem, Batman, Ho- quadrinhos”. Como os artistas gos-
mesma imponência frente ao merca- mem-Aranha, Quarteto Fantástico, tam do que fazem, muitos aceitam
do como, por exemplo, a européia, Sin City, 300, X-Men, Hulk, Cons- as condições impostas pelas edito-
onde o quadrinho é produzido para tantine, V de Vingança, Motoqueiro ras, e trabalham sem garantia de re-
todas as faixas etárias e consumido Fantasma, Demolidor, e Hellboy são torno breve.
como literatura. apenas alguns exemplos dos últimos Com nervos de aço, quadrinho autoral disputa seu lugar no mercado Ao contrário do trabalho autoral,
A maré de má sorte, porém, sucessos de adaptação de HQ para HQs de super-heróis são as princi-
tem dado sinais de mudança. Para longas-metragens. E o enredo de fil- anos de hiato entre os filmes À Meia- Moon, pela adaptação do conto O pais responsáveis pela venda de ál-
Samuel Casal, ilustrador e qua- mes e de literatura clássica também Noite Levarei Sua Alma (1963) e Alienista, de Machado de Assis. buns ilustrados. A maior parte dos
drinista, a área nunca esteve tão alimenta as histórias ilustradas, pro- Encarnação do Demônio (2007). Internacionalmente, o Brasil está profissionais, iniciantes ou não, está
saudável e produtiva. Ele é um movendo intertextualidades. Samuel Na literatura, a categoria “didático, bem representado. O Eisner, um dos ou passou pelas grandes empresas,
dos casos bem-sucedidos. Gaúcho, Casal lançou em outubro Prontuário paradidático e ensino fundamental prêmios mais importantes para qua- desenhando personagens prontos,
mora há dez anos em Florianópo- 666, HQ sobre a prisão do persona- ou médio” do prêmio Jabuti 2008 drinhos, há dois anos mantém bra- sem necessariamente ter desenvol-
lis, mas através da Internet produz gem Zé do Caixão que explica os 40 foi dos gêmeos Gabriel Bá e Fábio sileiros em seu pódio. Em 2007, foi vido seu traço.

Para autores, o mundo é o limite Casal: heavy metal, mariachi e tinta


A relação entre os chamados “qua-
André Dahmer

drinhos autorais” e alternativos com Dez minutos passados das sete da

Arquivo Samuel Casal


a web é quase que simbiótica. Sa- noite e o hall do shopping Igua-
muel Casal, autor do álbum Prontu- temi começa a encher. Crianças
ário 666, baseado em um período da de colo, casais, estudantes, ado-
vida do personagem Zé do Caixão, lescentes, senhores de idade, de-
conta que em 2002 foi “descober- ficientes físicos e nerds ocupam
to” na rede. Hoje trabalha através cinqüenta cadeiras dispostas em
do computador, sem sair de casa, filas em frente a um palco impro-
como ilustrador de grandes revistas visado. Restam cerca de 30 pesso-
e jornais brasileiros e estrangeiros. as, encostadas nas escadas rolantes
Ele conta também que era costume e pilares do shopping. Assim foi a
entre os profissionais enviar “e- abertura, no dia 30 de outubro, do
mails pesadíssimos” para mostrar 1º Florianópolis em Quadrinhos.
trabalhos anexados, que dependen- Dentre os convidados, Samuel
do da velocidade de conexão talvez Casal foi o escolhido para repre-
nem fossem abertos. Hoje, com um sentar o quadrinho autoral. Há 12
portfolio on-line, basta enviar aos DAHMER: popularidade na web anos no mercado, ele já teve suas
potenciais clientes a linha do seu en- ilustrações publicadas em revistas
dereço eletrônico. A tendência foi explicada em A nacionais de grande circulação e Samuel Casal, ilustrador desde os 17 anos, atualmente é free lancer
Se a web serve para os profissio- Cauda Longa, relatório de um estudo antologias e livros estrangeiros.
nais da ilustração e dos quadrinhos realizado por Chris Anderson, editor Começou aos 17 anos como ilus- que está sentada no colo de sua mo filme de Zé do Caixão, como
inserirem-se no seu nicho de mer- da revista americana Wired. No li- trador de um jornal de Caxias do esposa e sorri. Aos 34 anos, 18 de uma alternativa para preencher
cado, é útil também para os caça- vro, são analisadas as alterações no Sul, RS, sua cidade de origem. profissão, tem no currículo mais de visualmente a lacuna na filmogra-
talentos. O desenhista iniciante que comportamento dos consumidores Em 1998, mudou-se para Floria- oito prêmios nacionais. “Desenho a fia. Casal adaptou contos sobre o
tem “brilho” e não tinha onde publi- a partir da convergência digital. Se- nópolis como editor de arte do lápis, nanquim, tinta a óleo, grafite, personagem de José Mojica Ma-
car pode, de uma hora para a outra, gundo o autor, o comércio eletrônico jornal Diário Catarinense, e, des- vetorial, tatuagem... qualquer coi- rins para o roteiro do álbum e em
ter seu trabalho reconhecido. Foi o permite que o custo de manutenção de 2002, trabalha exclusivamente sa, desde que desenhe”. No tempo menos de três meses o álbum foi
que aconteceu com André Dahmer, de um produto destinado a um públi- como free lancer. livre, pratica yôga e toca guitarra na lançado pela Conrad. O traço pe-
autor de Malvados – tirinha de hu- co extremamente específico, como De cabelo raspado, barba com- banda WWDiablo, que mistura o sado, cheio de contraste, combina
mor ácido e politicamente incorreto, quadrinhos autorais, seja equiva- prida, tatuagens pelos braços e estilo mariachi com metal pesado. com o clima de terror psicológico
toscamente rabiscada, que agora in- lente ao de produtos procurados por alargadores nas orelhas, Samuel A proposta para seu último tra- – como ele mesmo define – das
vade grandes jornais e sites brasilei- muitos consumidores – fenômeno sobe sério no palco. De relance, balho, Prontuário 666, surgiu nos histórias de Mojica.
ros, como o portal G1, o Jornal do extremamente contemporâneo. olha para a filha de quatro meses bastidores da gravação do últi- Flávia Schiochet
Brasil e a Folha de São Paulo. Jessé Torres
24 QUATRO CULTURA Florianópolis, dezembro de 2008

Cinema com

Mafalda Press
sotaque mané
se destaca na
32ª Mostra
de São Paulo
Jerônimo do Carmo
Reconhecimento aos idos de 1973, quando um exi-
bidor paulista que se aventurava na
de filmes de dois co-produção de filmes lhe solicitou
um roteiro que contasse a história de
diretores confirma Nossa Senhora da Aparecida e seus
importância do milagres na região de Aparecida do
Norte. “Agnóstico, fiz uma comédia
Edital Cinemateca sobre a busca desesperada de romei-
ros por milagres, em meio daquele
risível ‘milagre econômico’ da dita-
Marcelo Andreguetti dura”, conta Penna, que, claro, não
agradou seu proponente. Daí para
frente, o projeto foi caminhando as

O
custas do diretor, que finalmente o
cinema catarinen- finalizou em 2005, devidamente
se parece enfim dar adaptado para as possibilidades do
passos largos. Pela edital cinemateca catarinense e da
primeira vez, dois nova realidade cotidiana brasileira.
longa-metragens Para rodar o filme, Penna optou
produzidos no estado foram selecio- pela película de 35 mm, o que re-
nados para a Mostra Internacional presentou um desafio e tanto, pois
de São Paulo, que em sua 32ª edi-
a quantidade de material à dispo- Os dois filmes, em 35 mm, conseguiram recursos para a filmagem através do Prêmio Edital Cinemateca
ção, decorrida entre 17 e 31 de outu-
sição era mínima. “Cinema é um
bro, exibiu 456 filmes de 75 países
brinquedo caro. Um erro qualquer Filme é película é coisa de amador. Lancei mão de rama de audiovisual catarinense.
em inúmeras salas espalhadas pela
- foco, luz, ou um diálogo errado - e Angelo Clemente Sganzerla é irmão todas as técnicas cinematográficas “Não vejo dificuldado para fazer
megalópole paulistana.
as perdas seriam consideráveis”. Aí, de Rogério Sganzerla, um dos mais que estudei pra realizar um filme cinema em Santa Catarina, tanto
“Doce de Coco”, de Penna Filho,
e “Aos Espanhóis Confinantes”, de lembra, entrou em jogo a qualidade influentes cineastas brasileiros, que é, acima de tudo, profissional”. que meu longa é o primeiro total-
Angelo Clemente Sganzerla, repre- do grupo, que realizou um excelen- morto em 2004. Em Aos Espanhóis Outra coisa que motivou Angelo mente produzido por catarinenses
sentaram a bandeira barriga-verde te trabalho e garantiu um padrão de Confinantes, seu primeiro longa- a dar uma estética diferenciada à e com recursos catarinenses.”, en-
na Mostra, que é uma das principais metragem de ficção, o diretor quis Aos Espanhóis Confinantes é sua fatiza.
produção digno de um filme com or-
vitrines do cinema mundial. Ambas ampliar o espectro da visão que ti- convicção de que quem faz filme Aos Espanhóis Confinantes
çamento bem superior.
as produções só se concretizaram nha lançado sobre a exploração do é quem usa película. “Tem muita também foi selecionado para a
Apesar do recurso escasso, que
por incentivo do Prêmio Edital Ci- oeste catarinense em documentário gente gravando vídeo e dizendo Mostra Internacional de Brasília,
constitui um obstáculo recorrente no
nemateca Catarinense da Fundação homônimo, que foi o responsável que faz filme”, diz o diretor, que onde esteve na mostra competi-
cinema em qualquer região do país,
Catarinense de Cultura. pela vitória no Prêmio do Edital ao explorar todas as possibilidades tiva, ao lado de grandes filmes
Santa Catarina oferece um quadro Cinemateca Catarinense em 2007.
Os diretores reconhecem o refi- que o suporte lhe permite, encon- nacionais como “Feliz Natal”, de
um pouco mais animador pra quem O filme é uma ficção baseada na
namento que um evento como esse tra sua forma de dizer: “isto, é efe- Selton Mello, “A Festa da Menina
vive do Cinema, garante Penna Fi- obra de Othon Gama D’Eça, que
proporciona ao currículo do filme. A tivamente, um filme”. Morta”, de Matheus Nachtergale,
Mostra é não apenas uma forma de lho. A firmeza dos realizadores do em 1929 acompanhou, junto de um Em relação ao cinema do estado, e “Última Parada 174”, de Bruno
ampliar contatos, mas também uma estado, através da Cinemateca Ca- fotógrafo, uma expedição oficial Sganzerla lamenta o número pre- Barreto. “Ter meu filme compa-
oportunidade de acesso a obras que tarinense, ajuda o cumprimento da que planejava “catarinizar” o oes- cário de roteiristas. “Já são pou- rado com essas grandes obras foi
ainda não atingiram o mercado. “Há lei estadual que criou os editais do te do estado, onde a influência dos cos, e os que temos só produzem para mim até mais importante que
filmes que só a partir dessa visibi- Prêmio Cinemateca e do Funcine castellanos confundia as fronteiras bombas”, brinca o diretor, que fora estar na Mostra de São Paulo”, diz,
lidade conseguem atrair uma dis- (Fundo Municipal de Cinema de entre Brasil e Argentina. “Resolvi isso demonstra confiança no pano- orgulhoso, o diretor.
tribuidora”, afirma Penna. Embora Florianópolis). “Todos os anos, os unir as fotografias da viagem com
já tivesse propostas de distribuição cursos de audiovisual das universi- o texto de Othon, coisa que nunca
comercial para seu filme, motiva- dades locais colocam mais profis- havia acontecido”, declara Angelo.
das pela visibilidade que obteve no
FAM (Festival Audiovisual Merco-
sionais no mercado, e essa política
é fundamental para o fomento da
Feito em estúdio, as locações
para o faroeste de Sganzerla foram
Ficha Técnica
sul) em Florianópolis, considerou produção”. Mas a luta deve conti- montadas com mata nativa, trazida
animadora a presença do filme em nuar, sublinha Penna, já que o atual do Parque Estadual das Araucárias, AOS ESPANHÓIS DOCE DE COCO
São Paulo, onde participou da mos- governo deixou de cumprir o Edital na localidade de São Domingos, CONFINANTES
tra Perspectiva Internacional. Direção e Roteiro: Penna
Cinemateca em 2003, 2004 e 2006. município próximo de Chapecó. Lá Direção e Roteiro: Angelo Filho
Já o filme de Sganzerla, Aos Es-
O diretor acredita ainda que San- ainda se encontra preservada a ve-
panhóis Confinantes, participou da Clemente Sganzerla Fotografia: Adriano Barbuto
ta Catarina precisa de mais ousadia getação do início do século XX, pe-
mostra competitiva Novos Diretores, Fotografia: Edson Fattori
em sua política cultural voltada ao ríodo no qual a história toma lugar. Montagem: Tiago dos
fato que já considerou um prêmio.
“Passar por uma peneira de 1300 audiovisual. Dentre as medidas que Inteiramente rodado, editado e Montagem: Tiago dos Santos e Penna Filho
filmes, estar entre os 450 exibidos e poderiam ser tomadas, indica, estão produzido em película de 35 mm, Santos Elenco: Antonella Batista,
a criação de um pólo de produção o filme de Sganzerla já é rotulado
ainda cair numa mostra com outras Elenco: Édio Nunes, João Hélio Cícero, Maria Carolina
seis grandes obras que sintetizam o no estado e um maior incentivo à pelos críticos como experimental,
Bosco, Gilbas Piva, Marcello Vieira, Gil Guzzo, Margarida
que há de novo e de qualidade no circulação. Penna Filho participa do devido ao uso de técnicas pouco
usuais no cinema de hoje, mais Trigo, Raul Ferreira, Sandro Baird, Berna Sant´Ana e
cinema brasileiro já é uma grande Conselho de Ética da Cinemateca
características do cinema mudo, Maquel Renato Turnes
conquista”, comemora Angelo. Catarinense, uma associação sem
fins lucrativos com papel assumida- como a trucagem, e a filmagem em Produtora: ACS Produtora: Penna Filho
30 anos depois mente político e que reúne os envol- 12 quadros. No entanto, o diretor Multimídiax Produções
A idéia por trás de Doce de Coco, vidos na produção cinematográfica refuta a idéia de sua obra ter caráter 85 minutos, 35 mm P&B 104 minutos, 35 mm Color
de acordo com Penna Filho, remete do estado. experimental. “Experimentalismo
Florianópolis, dezembro de 2008
RELIGIÃO QUATRO 25

Sobriedade com louvor e swing


Promoters evangélicos apostam em baladas gospel como opção para jovens fiéis
Pedro Dellagnelo
Paulo Rocha
Pedro Dellagnelo

P
ouco depois das dez da
noite, Naldo Júnior sai
de trás de seus equipa-
mentos de DJ e pausa
momentaneamente o
reggaeton (ritmo latino) que vinha
animando o salão do clube Seis de
Janeiro até então. Pega o microfone
das mãos do promoter Daniel Olly
e chama todos para perto do palco.
O público é o que se imagina para
um sábado a noite: jovens de classe
média, meninos de bermuda ou cal-
ça jeans e meninas produzidas. “E aí
me perguntam...”, diz Naldo, com
a platéia vidrada em seu discurso,
“esse povo não bebe, não se droga,
não fuma, que felicidade é essa? De
onde vem?” pergunta, levantando a
voz. A platéia, em uníssono, respon-
de: “de Jesus!”.
Naldo é um DJ de Brasília e foi
convidado para tocar na Ecko Fest,
a terceira edição da festa gospel
promovida por Daniel Olly em Flo-
rianópolis. Através da divulgação SEM CENSURA: Durante a festa, a pista de dança é tomada por fiéis de todas as idades que aproveitam a noite ao som da música de Deus
boca-a-boca nas igrejas e na rádio
Sara Brasil FM - rede nacional do de que a imagem da religião possa Brothers, apenas diz “aí vamos nós” que eles nunca vão a festas secula- não toca somente no meio gospel.
pastor Rodovalho, líder da igreja ficar manchada se algo der errado. (Hey boy / Hey girl / Superstar Dj’s res e se orgulha ao apontar a van Um exemplo é a banda Da Raiz,
Sara Nossa Terra - os eventos reú- Daniel, além de promoter, é DJ e / Here we go). Freqüentemente, ain- em que, segundo ele, mais de 20 de reggae gospel, que faz ques-
nem uma média de 1500 pessoas, gosta de afirmar que toca psy-gos- da, ele busca referências em festas pessoas vieram para a Ecko Fest. tão de lembrar da apresentação em
evangélicas ou não. Olly aposta pel, numa referência ao ritmo ace- seculares: “Vou a vários shows aqui As festas gospel não são, porém, um campeonato de surfe em Itajaí.
no crescimento da festa e esperava lerado e eletrônico do psy-trance. A na cidade, mas não para beber, fu- unanimidade entre os evangélicos. “Nossas músicas muitas vezes não
2000 presentes nessa terceira edi- diferença, segundo ele, é o proces- mar ou me prostituir. Vou lá para ver Pastores mais antigos costumam falam diretamente de Deus, muitas
ção. Para isso misturou bandas gos- so de criação das músicas. “Existe a iluminação, a montagem do palco. condenar o ambiente de festa e tor- vezes fazemos referências sutis a
pel de rock, reggae, pagode e black muita colaboração no meio gospel. Levo isso para as minhas festas”. cer o nariz para a divulgação des- Ele”, justifica Armison Isídio, inte-
music, montou uma estrutura à altu- Antes de compor nos juntamos [com Os jovens que vão às festas de ses eventos em seus templos. “Até grante da banda. No entanto, muitos
ra de qualquer festa secular (como outros DJ’s da cena], oramos e ofe- Olly não são incentivados a buscar porque existia uma certa rivalidade. religiosos não concordam com a
os evangélicos se referem a festas recemos a música a Deus. A partir inspiração no meio secular, a que Eles viram as festinhas de bairro e mistura de fé e festa. Um caso co-
não-crentes) e fez questão de não daí ela se torna mais que uma músi- eles se referem como “mundão”. as festinhas juninas organizadas pe- nhecido foi a participação da banda
pôr a palavra “gospel” no material ca, vira um instrumento de louvor”, Lucas Córdoba, de 20 anos, come- las igrejas começarem a se esvaziar. de metaleiros gospel Oficina G3 no
de divulgação da festa. explica. “Também não pego sam- mora o fato de não haver pessoas Os jovens passaram a se reunir de- Rock in Rio em 2001. Várias igrejas
A última estratégia é conseqüên- ples [pequenos pedaços de músicas “ficando” nas festas evangélicas. pois do culto para ir a eventos maio- protestaram formalmente contra o
cia confessa de seu próprio proces- usadas para montar novos ritmos] Outro ponto a favor, segundo Julia- res. Mas hoje a maioria já entende e show, citaram o rock como diabóli-
so de conversão. Criado em Campo de músicas demoníacas. Tem uma, na Paula, 17 anos, é o fato de que apóia as festas”, explica Olly. co, chamaram o evento de “templo
Grande, Mato Grosso do Sul, Da- por exemplo, que convoca todos os as festas não têm censura de idade, Também gera polêmica a parti- de satanás” e aconselharam os fiéis a
niel diz ter se envolvido cedo com que estão na festa a irem para o in- já que não há venda de bebidas e cipação de bandas evangélicas (ver manter distância da apresentação.
as drogas e o tráfico. Vivia em festas ferno” completa. Justiça seja feita, cigarros, e que não ocorrem brigas. box) em festas seculares. A maioria Outras doutrinas evangélicas são
pela cidade e acabou, por engano, a música, do duo inglês Chemical Guilherme Araújo, 17 anos, afirma dos músicos se apressa em dizer que completamente favoráveis às come-
indo a uma festa evangélica. Sem morações. Seguidores da Bola de
o efeito das drogas e do álcool, ele Neve, da igreja Batista, das igrejas
afirma ter sentido naquela noite uma
paz interior, que acabou o condu-
“A inspiração maior vem de Deus” Quadrangulares e da Livre em Je-
sus, do vice-prefeito de Florianópolis
zindo à reabilitação e a converter- Bita Pereira, são maioria nos eventos.
se para a igreja Sara Nossa Terra. Um cenário desconhecido da to é vencedor de dois prêmios dos ritmos brasileiros. “Estuda- Adolescentes, pré-adolescentes e jo-
A igreja, comandada pela família maioria do público, a música Grammy Latino (2005 e 2007), mos samba e pagode e tiramos o vens se reúnem em média três vezes
Rodovalho, ficou conhecida por ter gospel é o segundo estilo mu- além de ser a única banda gos- que há de bom para compormos por mês para aproveitar festas e shows
muitos crentes famosos e por pregar sical mais vendido no Brasil, pel a ter se apresentado no Rock nossas músicas. Nos inspiramos gospel. Mas não são só eles, na Ecko
a teologia da prosperidade, onde as movimentando cerca de 45 in Rio, na edição de 2002. Já muito no Bezerra da Silva, de- Fest podiam-se ver famílias, adultos e
posses materiais são consideradas milhões de reais em venda de se apresentaram no estádio do pois que ele se converteu, mas a crianças dançando ao som de ritmos
uma promessa de Deus e a pobreza é discos. Neste mercado “para- Morumbi, Pacaembu e Canindé inspiração maior vem de Deus”, com toques de louvor.
vista como conseqüência do pecado, lelo”, alguns artistas e bandas reunindo, ao todo, mais de cem conta. A banda, além de tocar Fora o público diferenciado, o
seja das próprias pessoas ou de, por se destacam e alcançam grande mil pessoas. em festas, também realiza cul- ambiente é o mesmo de uma festa
exemplo, administradores públicos. reconhecimento neste público As bandas religiosas de Flo- tos especiais. secular. A música é alta, as meninas
A principal reclamação do promo- específico. rianópolis são bem mais recentes Outro exemplo desse novo ensaiam as coreografias da moda
ter, hoje, é a falta de incentivo dos A cantora carioca Aline Bar- se comparadas a outras do resto cenário na capital é a banda - em versão mais comportada - e o
empresários evangélicos. A festa, ros é hoje o maior nome desse do país. O grupo de pagode Pu- de reggae Da Raiz, formada há camarim das bandas, regado a fru-
orçada inicialmente em 9 mil reais, mercado. Começou no meio rifica Samba, um dos principais apenas dois anos. Três dos in- tas e sucos, está sempre superlotado
contou com a ajuda de algumas pou- gospel aos nove anos de idade. no cenário da cidade, foi forma- tegrantes: Thiago, Matheus e e confuso. Quando a banda Purifica
cas empresas, cada uma contribuin- Hoje, aos 32, já produziu 29 do em 26 de agosto deste ano. Armison são de diferentes igre- Samba subiu ao palco, já eram 23h.
do com um cota de R$ 500. O resto álbuns e ganhou por três vezes “Alguns de nós éramos amigos jas e se conheceram durante os Após abençoar o show e o público,
saiu do bolso de Olly, com a ajuda o Grammy Latino de melhor há anos, outros Deus botou no cultos. Com uma proposta di- Zão do Cavaco, como é conhecido
de alguns amigos. Daniel sonha alto álbum de música cristã (2004, nosso caminho. Aqui cada um é ferente, o trio busca tocar não o vocalista William dos Santos, fez
e quer levar a Ecko Fest para casas 2006 e 2007). de uma igreja diferente” conta só em festas gospel: “Nós toca- um convite tentador: “Vamos swin-
noturnas famosas da cidade. A única Caso semelhante é o trio pau- o vocalista William dos Santos. mos no WQS de Itajaí [etapa do gar com Jesus!”, puxou, já ao ritmo
barreira é, atualmente, o dinheiro. listano Oficina G3, uma das Segundo ele, apesar do nome campeonato mundial de surfe] e do pagode. E a platéia acompanhou,
Ele não quer se associar a nenhuma mais antigas bandas gospel do da banda, a inspiração para as o resultado foi muito legal, nos animada. Uma longa noite, que os
igreja, o que poderia gerar uma con- país. Criado em 1987, o conjun- músicas é mais divina do que receberam muito bem”. evangélicos garantem ser “livre de
tribuição financeira, pois tem medo vícios”, estava apenas começando.
26 QUATRO FUTEBOL Florianópolis, dezembro de 2008
Felipe Machado

Grandes legendas da humanidade fazem o barato aqui até o final da linha não quero mais brincar de legenDuipit utatuero ex estrud magna aliquisim zzrit, commod esto e

DIA-A-DIA: os atletas das categorias de base do Figueirense treinam duas horas diariamente, uma rotina que incluiu fundamentos técnicos como exercícios físicos

Eu quero ser jogador de futebol


O sonho de se tornar uma estrela internacional exige dedicação desde cedo
Felipe Machado Incentivado por seu pai mudou-se R$ 100. Eles têm como responsabi- diferente. Os quase 150 alunos na Existem hoje no Brasil 21.180
para Florianópolis, deixando para lidade 2h30 de treinos de segunda a unidade do bairro Agronômica tam- atletas profissionais, atuando no

O
trás também sua mãe e a irmã de sábado e a exigência de permanece- bém têm uniforme oficial, campo, país, cadastrados junto à Confedera-
agasalho oficial nas quatro anos. A mãe concordou com rem na escola. treinador, treinos táticos, físicos e ção Brasileira de Futebol (CBF). Em
cores preto, branco a idéia, embora fosse contra. O pai, A rotina dos meninos começa técnicos. Mas os treinos acontecem 2008 ainda foram transferidos até
e verde, as chutei- que fora atleta do Internacional gaú- com estudo. Os mais jovens como somente duas vezes por semana e os novembro 1.176 jogadores, para pa-
ras em bom estado, cho e tentou sem sucesso se tornar André, nascidos em 94 ou 95 estu- atletas são mais jovens, com idades íses do mundo todo, inclusive aque-
o calção esportivo jogador lhe disse “a minha mãe não dam na parte da manhã, enquanto entre 7 e 15 anos. O responsável téc- les que não têm tradição no futebol
na cintura e a alta estatura, magreza, deixou, mas você vai poder realizar os mais velhos à noite. Após saírem nico, João Lorini, reconhece que a como Armênia, Chipre, Islândia ou
indicam um atleta do Figueirense. o meu sonho”. das aulas, que podem ser em colé- intenção é fazer com que os jovens Vietnã. A transferência internacional
De expressão séria, André gagueja André também herdou do pai o gios públicos ou particulares, cuja joguem bola, pois o ideal para ser envolve desde times tradicionais de
um pouco no início da entrevista, time pelo qual torce, o Vasco. O ga- mensalidade depende dos pais, os
roto, porém, se contém, talvez ten- garotos almoçam e seguem para o
Felipe Machado

mesmo depois do aval do superinten-


dente técnico das categorias de base tando agir profissionalmente. Diz treino, no mesmo centro de prepa-
do clube, João Abelha. “Pode falar a que pode torcer enquanto estiver nas ração da equipe principal, na cidade
vontade”, diz Abelha, ao passar an- categorias de base, mas que vai ser de Palhoça. “O treino deles é mais
dando no cor- figueirense ao jogar lúdico. A gente faz eles brincarem
redor entre as pelo time principal. de pega-pega, por exemplo, que
quadras cober- “A minha mãe Sabe, porém que
essa é uma possi-
ao mesmo tempo eles estão exerci-
tando”, conta Gil. À noite, quando
tas do Centro
Esportivo Cate- não deixou, mas bilidade difícil de
ser concretizada. O
estão no alojamento, conversam.
Alguns meninos, que têm notebook,
geró, no bairro
de Monte Ver- você vai poder técnico da categoria deixam os colegas usarem para na-
infantil, Fernando vegar na internet.
de, na capital.
Enquanto chove
realizar o meu Gil, compara o pro- A dedicação não passa desperce-
torrencialmente
lá fora, outros
sonho” cesso de ascensão
com uma pirâmide,
bida por quem está ligado ao dia-a-
dia desses jovens. Gil diz que dá par
atletas treinam sendo que na base pais, é “uma lição de vida”. Josiane
fundamentos do estão os mais novos. - que desde abril é responsável por
esporte no gramado sintético coberto: André, ciente que terá sua promo- eles em assuntos que incluem o co- Lorini, da escolinha do Grêmio, crê que poucos serão profissionais
fazem ziguezague pela quadra dan- ção avaliada junto com a de outros légio e dar ciência do comportamen-
do saltos e cabeceando bolas que os atletas infantis no final do ano, faz to aos pais - também nota. Segundo atleta é treinar todo o dia. Em se tra- elite a clubes pequenos de terceira
companheiros alçam das laterais, to- coro com seus dirigentes e com as- ela os meninos já têm consciência tando de sonho, a idéia é não iludir, divisão. O Figueirense foi responsá-
dos muito concentrados, ouvindo as sistente social Josiane Resende ao do sacrifício que terão que fazer, mas também não desestimular. Nor- vel por seis transações nesse ano e o
recomendações do treinador enquan- afirmar que “é importante estudar”. mas ainda falta um adulto como malmente há clubes que aproveitam Grêmio, por duas.
to fazem os exercícios. André, que Na cabeça dos garotos os testes de referencial. A freqüência das liga- jogos como os de campeonatos en- Os cerca de 15 milhões de eu-
está fora das atividades de hoje por fim de ano estão ganhando impor- ções para casa varia de acordo com tre escolinhas, por exemplo, o Me- ros (R$ 43,5 milhões) pagos ao
causa de um resfriado, lembra que tância: “Não tem como não pensar”, o dinheiro disponível de cada um. tropolitano, para descobrir talentos Internacional no ano passado pela
já ficou sem jeito ao responder uma diz André. Nesse intervalo, ela tenta ajudá-los com idade por volta dos 13 anos. mais nova revelação do futebol -
outra entrevista após sair de campo O garoto André é um dentre os a decidir quando alguém pensa em “Tem garoto que dá duro nos treinos Alexandre Pato, que só pôde atuar
tendo marcado um gol. André, o atle- cerca de 100 que estão sob os cuida- desistir. “Vocês chegaram até aqui. pensando nisso”, aponta, mesmo pelo A.C Milan neste ano por ter
ta do Figueirense, tem 15 anos. dos do Figueirense. Após serem pré- É isso mesmo que vocês querem?”, considerando que pouquíssimos de- completado 18 anos em setembro
A vida do garoto de Caçador, no selecionados em jogos em Santa Ca- encoraja. A pergunta “como é que les vão ter chances de se tornarem de 2007 - indicam um negócio que
oeste do estado, que se mudou para tarina - as chamadas “peneiras” -, na eu vou falar para o meu pai que eu profissionais. movimenta bastante dinheiro. Lori-
a capital em setembro para treinar capital ou por indicação de olheiros fui desligado?” é comum na cabeça A rotina desses atletas é mais ni crê que o baixo custo necessáro
futebol personifica a descrição que ou escolas de futebol particulares de alguns jovens atletas. descontraída. Os garotos, algumas para manter um jovem atleta, como
Abelha faz dos seus atletas. Ele foi afiliadas presentes em outros esta- vezes, se indispõem com as reco- o que é feito pelos grande clubes,
descoberto ao jogar em um campe- dos, eles são novamente testados na Escolinha mendações e a saída é não pressio- tem muito retorno em negociações
onato catarinense para garotos en- sede do time, em Florianópolis. Os Os meninos que treinam em uma nar. Afinal, além de muito jovens, como essas. Abelha dá uma dimen-
tre 11 e 14 anos, o Moleque Bom selecionados são integrados à equi- das escolinhas de futebol do Grêmio, os pais pagam mensalidade, de R$ são da importância das categorias
de Bola, e desde então, motivado a pe e passam a receber alojamento, também na capital catarinense, têm 25, ao invés dos meninos receberem de base “Nós trabalhamos com so-
tentar seguir carreira profissional. refeições diárias e uma mesada de o mesmo sonho, mas uma realidade como os profissionais. nhos”, completa.
Florianópolis, dezembro de 2008
MÍDIA QUATRO 27

Nudez catarinense nas revistas


Publicação com tiragem de 5 mil exemplares é a primeira do gênero no estado

Divulgação
Gabriel Rosa

A
té pouco tempo, o
leitor de revistas
masculinas tinha
poucas opções na
banca. Basicamente
a Playboy, com uma nudez mais
artística e erótica, e a Sexy, um pou-
co mais pornográfica. Portanto, o
surgimento de uma publicação ca-
tarinense voltada para esse público
pode ser considerado natural: a re-
vista bimestral Nua, que lançou sua
sétima edição em novembro, já al-
cança vendas entre 4 e 5 mil exem-
plares por edição.
Cada número traz um ensaio
principal, com uma modelo em des-
taque no estado. A Nua só aceita
mulheres catarinenses, e já trouxe
na capa uma ex-rainha da Oktober-
fest (Blumenau), uma princesa da
Festa do Pinhão (Lages) e uma luta-
dora de vale-tudo (Joinville), entre
outras. Além disso, são publicados
ensaios com modelos menos co-
nhecidas e reportagens, entrevistas
e perfis de interesse masculino.
O editor responsável, Rafael Fa-
rias, tem seu escritório no centro de
Florianópolis. É uma sala pequena,
parecendo mais um apartamento do Gisele Pavanate em sessão de fotos em Itajaí. Pela Nua, já passaram uma ex-rainha da Oktoberfest e uma princesa da Festa do Pinhão
que um escritório profissional, com
vários livros na prateleira, um sofá
e uma mesa redonda no centro. O
relacionamento entre os produtores
alguma pessoa chama a polícia por
se sentir ofendida – o que nunca
duzimos a tiragem pela metade nas
outras edições, então, para sobrar Segmentação cria novo mercado
da publicação é bem informal: “Em aconteceu. Até porque fazemos as menos”, afirma Rafael. De fato, os
Floripa e na região, nós mesmos fotos durante a madrugada ou bem exemplares recolhidos das bancas, Cerca de um ano antes do primeiro vencedoras são a Veja, com uma
pegamos um carro e distribuímos de manhã”. O editor conta que, du- na prateleira no escritório, mostram número da Nua, outra revista focada tiragem média de mais um milhão
nas bancas”, explica. Já em outras rante uma sessão na beira-mar de o resultado: somando as sobras das no público catarinense era lançada de exemplares por edição, e a Épo-
cidades, como Blumenau, Joinville Balneário Camboriú, vários velhi- quatro edições – a primeira foi ven- no mercado, mas com uma proposta ca, com 417 mil. Entretanto, elas
e Lages, a produção da Nua usa o nhos pararam para assistir, aplau- dida a preço de custo para uma dis- completamente diferente. Em outu- têm registrado uma queda cada vez
serviço comissionado de distribui- dindo ao final da tomada. tribuidora, e a sexta ainda não havia bro de 2006, chegava às bancas a maior na circulação. Segundo os
doras de revistas. Gisele Pavanate sido recolhida primeira edição da História Catari- dados do Instituto de Verificação de
A equipe é formada por profis-
sionais autônomos. No total, qua-
é a capa da edição
de novembro. A As modelos são das bancas –, não
chegava a cem
na, publicação que trata apenas de
temas do passado “barriga verde”.
Circulação (IVC), a impressão de
publicações do gênero sofreu uma
tro fotógrafos, três revisores e uma
jornalista, além de uma empresa
modelo nasceu em
Laguna, e decidiu
fotografadas em exemplares.
A busca pela
A História é feita em Lages e é
trimestral, com tiragem de cinco mil
diminuição de 12% na média total
de exemplares desde o ano 2000.
produtora para os ensaios fotográ-
ficos. O casting é escolhido, prin-
posar para a revis-
ta em Itajaí, por ser
pontos turísticos publicidade
outro problema.
é exemplares. O editor Cláudio Sil- No mesmo período, o mercado
veira explica que “como a revista de revistas focadas no público po-
cipalmente, por Rafael Farias, com uma cidade com de SC – muitos “Nossa revista não não é jornalística, mas histórica, as pular, feminino e no mundo televi-
o apoio de uma série de olheiros “clima carnavales- é pornográfica”, edições não ficam velhas” possibi- sivo cresceu 27%. São consideradas
espalhados pelo estado. “Eles tra- co”. Em 2004, Gi- deles, públicos acredita o editor. litando a republicação dos números “populares” as com preço de capa
balham com isso, mas para várias sele foi fotografa- “Entretanto, muita esgotados. “É uma revista especia- menor que R$ 2, geralmente dispo-
revistas. Vão a lugares onde po- da para a Playboy, gente confunde as lizada em história, produzida por níveis apenas em bancas – área do-
dem encontrar mulheres bonitas, além de vídeos e coisas. Por isso, historiadores”. minada pela Abril, com Viva Mais,
como festas e desfiles, e fazem as outros quatro ensaios para a revista. a procura por anunciantes se torna Tanto a História quanto a Nua Ana Maria, Tititi e Minha Novela.
propostas”, explica Levi Farias, “No dia das fotos para a Nua, tinha uma faca de dois gumes: de um lado, demonstram uma tendência do jor- Semanalmente, são vendidas quase
responsável pela área de comercia- um monte de gente olhando”, conta. o público-alvo é muito claro. Do ou- nalismo atual e, principalmente, das um milhão de títulos do gênero.
lização da revista. “Desde crianças até ‘a melhor ida- tro, perdemos vários anunciantes em revistas: a segmentação. As duas A segmentação pode ser vista
Mesmo sem revelar o cachê de de’. Mas quando eu tirei a roupa, os potencial, que não querem ligar o são concorrentes de revistas de por- também nos jornais impressos, mas
cada modelo, o editor explica que a surfistas de 14 e 15 anos que tinham nome dos produtos que vendem pro- te nacional, como a Playboy (com através da cadernalização: editorias
Nua oferece mais do que as revistas parado por ali foram ‘convidados’ a dutos à revista”. uma circulação média de 238 mil de variedades, esportes, política
de grande porte, como a Playboy sair”, brinca. Na edição de setembro e outubro, exemplares por edição) e a Aventu- e economia separadas e com re-
e a Sexy, pagam para “anônimas”. as propagandas de cerveja, vodka e ras na História (68 mil exemplares), pórteres e colunistas próprios. “Há
“Elas cobram por dia, e esse valor Público difícil motos se intercalam com as de um ambas publicadas pela Abril, editora dez anos, era realmente muito difí-
muda sempre, dependendo de uma Antes do lançamento da revista, foi chuveiro e de lâmpadas purificado- com mais recursos. Por que então cil você encontrar um veículo seg-
série de pontos”, como a fama e a feita uma pesquisa de mercado por ras de ar. Além disso, ao comprar cada vez mais títulos são lançados mentado além de revistas como a
importância da pessoa. “As revistas todo o estado. A questão era: “Você a revista, o leitor ainda ganha um no mercado? “Chegar a cada indi- Bizz e os fanzines. Afinal, vivíamos
maiores só pagam bem para as mais compraria, por cinco reais, uma re- preservativo. víduo foi uma das tendências mais o auge da cultura generalista.”, re-
famosas”. As modelos são, então, vista com fotos de mulheres cata- Rafael conta também o caso de discutidas no meio das revistas nos lembra Marcos Espíndola, colunista
fotografadas em pontos turísticos rinenses nuas em pontos turísticos um cirurgião plástico que topou ser anos 90”, explica Marilia Scalzo do Diário Catarinense. A sessão do
importantes do estado. Na maioria de Santa Catarina?”. O resultado entrevistado. Após conhecer a Nua, no livro Jornalismo de Revista. “A jornalista tem um público-alvo dife-
das vezes, as próprias escolhem o impressionou Rafael Farias: prati- o médico voltou atrás. Entretanto, a internet resolveu esse problema de renciado da publicação: “A coluna
lugar onde serão feitas as fotos – o camente 100% de aceitação. edição de setembro e outubro traz uma forma melhor. Para as revistas, Contracapa tem um vínculo com os
que pode incluir lugares abertos e Foi decidido que seriam impres- uma reportagem com o repórter Hé- fica o meio termo: não falar com jovens, mas não necessariamente
públicos, como praias e praças. sos dez mil exemplares da primeira lio Costa, que, segundo o editor, foi todo mundo (como a TV e o jornal) este é o seu objetivo. O foco é o uni-
Rafael explica que, durante mui- edição. Para a frustração da equi- prestativo e solícito, sem preconcei- e não individualizar seu leitor”. verso da cultura pop, principalmente
tas sessões, curiosos param para pe, menos da metade foi vendida. to. “Temos que mostrar que a revis- As maiores revistas do Brasil o âmbito regional e a nova geração
assistir. “Só há algum problema se “Superestimamos o mercado. Re- ta não é de sacanagem”. são as semanais de informação: as de artistas”.
28 QUATRO PERFIL Florianópolis, dezembro de 2008

Exageros no cabelo e na maquiagem caracterizam a super-mulher

A transformação acontece no camarim, onde Penélope prepara Selma para brilhar em mais uma show Seu sustento vem das apresentações em casas noturnas e eventos

“A drag é o exagero da mulher”


O glamour e charme da produtora Selma Light na vida noturna de Florianópolis
Ísis Martins principalmente homens, dançam re- vam do Batman, eu gostava da Mu- va em Santa Catarina. A drag veio Florianópolis, viaja semanalmente

A
mixes no melhor estilo drag music. lher Maravilha. Esses são só alguns depois, em 2001. “No dia de meu a trabalho e participa de qualquer
Alguns sem camisa, alguns abra- exemplos. Mas quando você é crian- aniversário, vesti-me por imposição evento. O amigo Marcelo Quinti-
través da janela la- çados a seus parceiros, um ou dois ça, isso parece natural.” de amigos e caí no gosto”, conta. no Meller conta que não é fácil um
teral do Uno Mille atracados a mulheres; outros, ainda, A primeira vez que os pais per- Ao revelar para a família, já mora- travesti ser bem-sucedido, e este é o
branco que estacio- eram vistos em cima de suportes de ceberam que havia algo diferente no va sozinha. “Foi tranqüilo. Na ver- diferencial da ‘diva drag brasileira’.
na em frente à casa concreto, embalando-se sensual- pequeno Aurélio Basthos foi quando dade, eles sempre souberam que eu “Muitos acabam como garotas de
noturna, é possível mente ao som do DJ. ele tinha apenas cinco anos. “Um dia era gay”, afirma. Hoje em dia, mora programa. As pessoas criticam, mas
ver o perfil realçado pelos vistosos Atrás do palco, escondida pela eles me perguntaram: ‘Você gosta de com os pais e mantém um bom rela- não dão oportunidade de trabalho”.
cabelos loiros. Com passos firmes cortina, uma porta leva ao camarim. Fulaninha?’. Eu respondi: ‘Não. Eu cionamento. “Saio com minha mãe Do camarim é possível ouvir a
e cabeça erguida, sai do carro: salto No recinto de aproximadamente gosto é do Fulaninho’. Pronto. Eles para comprar roupas, ela dá pitaco agitação que toma a pista. Em fren-
alto, calça jeans, cinto preto, blusa oito metros quadrados, Selma Light ficaram horrorizados. Levaram-me na minha vida, opina sobre o ho- te ao espelho, o hairstyler Carlos
de alça, sem decote. Apesar do traje começa a se aprontar para o show. até para o psicólogo. Mas freqüentei mem certo para mim...” Lopes dá nova feição a seus pró-
discreto, Selma Light visivelmente Elvis Leon, o maquiador, munido durante pouco tempo, até o momen- Em 2007, deixou de se vestir prios traços, tornando mais sutil o
chama mais atenção do que qualquer de uma incrível diversidade de som- to em que aprendi a fingir”. como Aurélio. No começo, teve re- semblante masculino. Lança um
um por perto. Corpulenta, de traços bras, blushes e pós, transforma aos Selma conta que a própria aceita- ceio à reação do pai. “Ficava com olhar sedutor e admira o reflexo de
fortes e olhar marcante, a famosa poucos a travesti em drag queen. ção é difícil. “A princípio, você não medo de chegar perto dele. Até que sua personagem. Vira ligeiramente
drag queen cumprimentou-me com Enquanto ele delineia, pinta, retoca, se conforma. Eu achava que poderia ele questionou minha mãe por que a cabeça, faz caras e bocas, retoca
a mesma cortesia com que me tratou Selma fala abertamente comigo, dis- ser apenas uma fase, que iria pas- eu não o abraçava mais, por que es- compulsivamente a maquiagem. O
durante toda a madrugada. Passava posta a relembrar fatos marcantes e sar”, diz. Durante a juventude, che- tava tão distante. A partir de então tecido zebrado, que o cobre dos om-
das 23 horas, mas a noite estava ape- revelar detalhes de sua vida. gou a namorar meninas; experimen- comecei a mudar minha atitude, vi bros às coxas, combina com a meia
nas começando. Trejeitos, roupas e pensamentos tou, inclusive, o sexo com mulheres, que poderia agir normalmente, como arrastão e uma bota de couro branco
Encostados no balcão, dois ho- femininos em um corpo predomi- mas nunca o sentimento de paixão. antes”. No entanto, os pais ainda a e bico fino. Vez ou outra borrifa no
mens sem camisa tocam-se de leve, nantemente masculino. Esta é Selma “Nunca chorei por uma mulher, chamam pelo nome verdadeiro. rosto o sufocante fixador de cabelos,
alternando olhares, sorrisos e goles Light. Ela se define como travesti, era apenas um deslumbramento. E Entre as situações inconvenien- para dar firmeza à pintura. Em pou-
de cerveja. Perto do caixa, apoiam um homem que assume inteiramente eu não namorava porque realmen- tes, se destaca a do ano passado, co tempo Penélope está pronta.
os cotovelos três pessoas de longos a identidade de mulher. Mas também te queria. Era mais para mostrar ao quando foi convidada a participar Selma, por sua vez, cala-se du-
cabelos castanhos, vestes curtas e faz o papel de drag queen durante a meu pai que eu era capaz.” de um programa de televisão. “Eu rante a finalização da arte em sua
altas sandálias, mas de indiscutíveis noite. “A drag é o exagero da mu- Com 18 anos começou a fazer te- estava na sala de espera. Certa hora, face. Um desenho que lembra um
traços masculinos. Na extremidade lher. É o brilho, as cores, a maquia- atro. Foi durante um exercício para um advogado entrou e sentou, e as- chifre de alce é desenhado na testa;
do bar, a entrada para o banheiro não gem chamativa. É uma personagem treinar o choro que se aceitou. “A sim que eu dei ‘boa noite’, levantou cada olho, circundado por uma pin-
indica distinção entre área masculi- que interpreto em eventos”, explica. orientação do professor era que fi- e foi embora. Na hora, nem percebi tura preta em forma de asas e pedras
na e feminina. Lá dentro, o espelho E é como drag que ela se sustenta. xássemos os olhos em um espelho que era por minha causa”. Selma redondas brilhantes, como as que
reflete um homem de salto, saia e “Essa é minha profissão”. e falássemos de coisas que não gos- soube apenas no dia seguinte que expunha em seu collant. O cabelo
blusa, levantando o tecido que cobre Ela conta que sempre teve ca- távamos em nós mesmos. Eu come- tinha sido preconceito. “Rolou um adquire nova forma aos cuidados
as partes íntimas e deixando-se foto- racterísticas femininas. “Nunca me cei: ‘Não gosto de mim por isso, não stress, mas o pessoal da mídia me de Penélope, transformando-se em
grafar por um amigo. senti outra coisa que não fosse gay. gosto de mim por aquilo... não gosto defendeu”, diz. um moicano minuciosamente estili-
Subindo as escadas, avista-se a Nasci gay”. Sempre gostou de andar de mim porque sou homossexual’. Apesar do preconceito, a princi- zado. Traje, penteado e maquiagem
entrada do dark room, coberta por com meninas, de fazer coisas que Nesse momento, caí em prantos”. pal comandante das Paradas da Di- impecáveis, a multidão embebida
tiras pretas que iam do alto vão até o as meninas faziam. “Escondia-me Na época, não assumiu para mais versidade de Florianópolis consegue em entusiasmo lá fora e uma músi-
chão. Ignorando o quartinho e che- para brincar com a Barbie da minha ninguém. Só foi sair do armário tirar disso seu sustento. É apresen- ca estonteante no último volume: o
gando à pista, dezenas de pessoas, prima. Enquanto os meninos gosta- por volta de 1999, quando já mora- tadora fixa de uma casa noturna em show vai começar.