Órbitas Primitivas.

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ÓRBITAS PRIMITIVAS

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Paulo Renato Cardoso ÓRBITAS PRIMITIVAS Fracções Futuras de Um Tratado Heliocêntrico por EVA FERREIRA Órbitas Primitivas.indd 5 02-05-2007 12:35:03 .

Órbitas Primitivas.indd 6 02-05-2007 12:35:03 .

Uma vez que estamos aqui na primeiríssima madrugada do princípio é óbvio que a abertura da intensidade é a deflagração de uma insubstante e líquida positividade. Deparamo-nos portanto com um momento energético primordial que se traduz numa espécie de assertividade pura cujo conteúdo se confunde com a forma dado que se trata de uma asserção sem outro objecto que o seu sujeito nada de coisa tudo acto. 7 Órbitas Primitivas.Abertura metapoética Órbitas primitivas: ou “Por que tudo aqui é primeiro e primitivo” No princípio. abre-se a intensidade e a sua tensa duração. Esta asserção que se põe e expõe sem pôr nada sem compor que se diz sem dizer nada porque prévia a todo o dizer que diz remete-nos imediatamente para o registo da exclamação e da exclamação vocálica pura: tomando a voz como metáfora da copresença que se anuncia e que dá imediato sinal de si mesma como um milagre de fogo. como buscamos a hora original da intensidade. ousaria chamar “órbita” e. a órbita em jogo designa-se “órbita primitiva”.indd 7 02-05-2007 12:35:03 . A esta abertura.

sobretudo o “A” esse pássaro que sai dos olhos penetrantes 8 Órbitas Primitivas. tudo de dentro do corpo porquanto a sua essência consiste precisamente na formação de uma força expressiva. A exclamação transporta sempre uma abundância sensível uma prodigalidade de vagas sobre vagas e espumas e rochas e animais e. Assim dada a íntima adesão da força e da forma (do energético e do icónico) a exclamação nunca dissimula o exclamante pois a própria dissimulação se trai a si mesma e se despe de facto mesmo ao despir-se vestindo-se permanecendo sempre sob a ordem veraz da expressão: Eu sou a verdade – diz a voz exclamante no corpo solar da vogal a vogal aberta.indd 8 02-05-2007 12:35:03 .. A pura vogal exclamo na electricidade da pele eis aí a génese de todos os gritos futuros que desaguam afónicos na febre hibernal das horas transbordantes.Exclamar é lançar fogo à boca e fundir aí a voz com as labaredas.. Na exclamação enquanto emblema quase alegórico da expressão há uma força interna que ganha forma ou seja a exclamação é a unidade efectiva da interioridade e da exterioridade do espírito e do mundo.

A pele e as raízes do cabelo electrificam-se. Ora com muita luz faz-se muita sombra. Sob o prisma das mulheres porém toda a história de todos os universos possíveis se resume ao instante em que a língua toca numa ponta de cabelo. Tremo por dentro. É uma matéria elástica mais forte que a memória.no instante mais próximo da voz e que atravessa as junções dos elementos vivos. Matéria de órbitas e de danças elípticas mais conexas que o vento sobretudo o vento que deus implica nas curvas das mulheres sobretudo as mulheres marítimas e trágicas as sereias de naufrágios e derivas que conduzem os homens de abismo em abismo até à origem do mundo.indd 9 02-05-2007 12:35:03 . Três redondas errâncias: órbitas veementes em torno da luz. É preciso fixar o sol com os olhos e a língua. Mulheres infinitas onde o universo é apenas um átomo agitado de um fio de cabelo que se parte e que toca na língua e erra e erra e erra. Esse pássaro que morde a paz inerte de ignorar-me pássaro triangular não é de pedra nem metal. 9 Órbitas Primitivas.

Acontecer é sempre cair. Sombra debaixo dos dedos.indd 10 02-05-2007 12:35:03 . Serão a ponta de cabelo a língua ou o toque de uma na outra? Drama da verdade. Tudo como chuva. A expressão nunca deserta a exclamação. Finalmente aplausos de pé a cair e a rastejar entre os arbustos do espanto.Permanece mistério e trevas toda a grande biblioteca e a sua febre de pó. A aparência no reino da expressão é o ser encarnado um ser vivo muito sonoro. A exclamação nunca conseguirá alienar o ser exclamante. Primeiro cai o pano depois o tecto depois as vísceras dos actores. Mesmo no caso aparentemente limite da dissimulação instituída ou seja no caso da exclamação cénica a exclamação de uma voz a ressoar por uma máscara de teatro mesmo aí quando a voz e o corpo próprios são entregues ao alheio modo de ser da personagem mesmo aí portanto a exclamação permanece fiel à voz e ao corpo da expressão. O ser exclamante é uma evidência. O mundo é o corpo inteiro de algo diante da luz. Não há exílio possível. 10 Órbitas Primitivas. Não cai o véu nem se faz dia sobre os universos possíveis infusos num átomo de mulher.

Uma evidência com seu poderoso instante de silêncio e a paralisia de todos os rios do mundo.indd 11 02-05-2007 12:35:03 . Aí a intensidade preenche a figura que virá que vem vindo e não chega ainda. É isso que buscamos com os lábios e os olhos incendiados.Uma pedra um músculo um motor: uma pedrada na cabeça dos verbos é isso uma evidência. 11 Órbitas Primitivas. Uma evidência. Esse traço que rasga a tela da experiência: o traço natal o traço oriental da primeira rotação do tempo. Ora as nuvens de pó partem para perto e para longe enquanto os membros do corpo vêm chegando sem nunca acabarem de chegar. Talvez nunca chegue porque os blocos de pedra esboroam-se e o gesto do escultor segue mais as nuvens breves do pó do que os membros duros do seu corpo fixo. Uma pedrada na cabeça dos verbos mas dos verbos vivos os verbos no presente do indicativo e na primeira pessoa do singular: Eu-ser-algo-agora! Nesta irrupção o mais difícil é o simples traço.

indd 12 02-05-2007 12:35:03 . Mas se estou escrevendo não será porque estou já enlouquecendo e amando este modo de estar indo para o que sou? não sei não sei e sinto sede no meio-dia-meia-noite da minha feroz ignorância 12 Órbitas Primitivas. A chave tarda a porta também só os nós dos dedos e os punhos me batem a horas e entram para ficar. Se escrevo grito e ordeno: Tudo a dançar pedindo chuva e sol e arco-íris. Se não escrevo enlouqueço.Pois assim seja. Se não escrevo a confusão do mundo toma-me o corpo o meu e expõe-se aí num grande espectáculo circense de trapezistas palhaços e feras. Se não escrevo enlouqueço transforma-se o meu corpo numa esfinge absurda que me morde por fora e por dentro perco a memória dos elementos essenciais: as horas as fontes os abraços. Entram coisas vivamente brutais como só são brutais as coisas nossas e os seus sinais.

Escorrega-me a voz entre a insónia e a memória Procuro a boca a matéria nocturna dos lábios Responde uma respiração húmida interrompida lavrando a aridez abrupta do meu corpo campo de batalha planalto de labirintos inacabados. A minha outrora é o porquê desta rua que sobe oblíqua para a saudade o porquê desta calçada de granitos que pedra após pedra me tocou na boca e chegou ao cimo de mim. 13 Órbitas Primitivas.indd 13 02-05-2007 12:35:03 . Todas as coisas têm uma: é o que são.Primeiras Agitações da Matéria-Eu Outrora.

Eu Só Névoa a realidade das coisas morreu suicidou-se sofrera muito foi melhor assim. Sou bruma e penso em símbolos de horas naufragantes insulares Não há mastros nas caravelas de quem me avista não há mastros nem caravelas nem quem me aviste Sou eu que sou sou eu que me avisto. Eu atmosfera densa de ausências.indd 14 02-05-2007 12:35:03 . Talvez. 14 Órbitas Primitivas. Já não há nada para enevoar de véus e de ânsias Só Névoa só a vastidão mistérica e concreta indefinidamente alastrante e total de mim acordando só bruma da bruma a acordar em mim.Esta manhã acordei vaga e imensa como uma cidade desabitada acordei céu de luar sitiada pelo deserto da noite acordei espacial meu corpo um continente submerso e sou a bruma indissolúvel envolvente etéreo de nada num universo de nebulosas. Bruma não oculta tesouros não cerra praias nem portos é só bruma.

indd 15 02-05-2007 12:35:03 .Eu inexacta como a linguagem lenta das sombras de resto nada infinitamente nada Um ligeiro músculo de vento águas passadas a mover moinhos um arder sem se ver pelos tempos e espaços interiores uma circunferência perfeitamente sem princípio nem fim pura circulação de nada meus rios em meu leito minhas veias entre eu e mim em trânsito contínuo para ser outro e ser o mesmo para meditar o intervalo vazio entre a pele de dentro e a pele de fora 15 Órbitas Primitivas.

. Mesmo amar-me. Ai o ventre! Ai a origem! O intangível propulsivo a espera o medo Resta o cavalgar louco que ecoa rumo ao Sul ao Futuro batendo as areias espancando-as no chão a galope a galope. O meu cavalgar é esfaimado! Esporas contra o ventre.Num cavalgar alado por desertos por instáveis espelhos de pó num cavalgar se alonga descontínua em movimento arritmado a dança pagã natural dos ares meu corpo meus olhos se entregando de dentro ao labirinto sem paredes de sentir-me. Esporas contra o ventre. Acelero-me.. De sentir-me insurrecta obscena limítrofe. Vou a cavalgar montada na incerteza obcecada demente frenética de ir a caminho de dentro do meu repouso sem caminho. É tão certo tudo incerto. Aceleração infinitamente aquém do movimento.indd 16 02-05-2007 12:35:03 . Ai o ventre! Ai a origem! 16 Órbitas Primitivas.

indd 17 02-05-2007 12:35:04 . Amanhecerá.Se a exaustão for inútil se o galope for para nada se tudo for para nada de nada Beberei à saúde do silêncio dos deuses um trago de rouquidão e de mudez e uivarão meus dentes fissurados uma ternura absurda evasão voraz mergulho de águia sobre a rocha. Talvez amanheça ou não. é muito ácido dentro do estômago dos meus cavalos arteriais 17 Órbitas Primitivas. Creio duvido sobre o mesmo sobre mim e pesa-me e estreita-me e enlaça-me o talvez a oscilação de sim o desequilíbrio de não o espectro da vertigem e da queda talvez & etc.

indd 18 02-05-2007 12:35:04 .Ó fragas oceânicas das gaivotas que fui outrora Ó fragas verticais de quando eu toda era só asas Ó fragas impossíveis das minhas horas íntimas escarpadas Sou a avidez de um voo Lanço-me esta apóstrofe pois sei-me longe de mim eu é uma ciência sem método e alcançar-me é um projecto com hiatos estrategicamente inefáveis não me ouço nem me toco nem me vejo nem me sinto todos os meus sentidos são sensivelmente analfabetos de mim Por isso conforta-me pensar na impossibilidade de ser ave marítima sei-me outra coisa do que me sei sabe-me todo outro saber-me e sei-me inteira um ritmo salgado de amargar-me que perdura 18 Órbitas Primitivas.

Há santuários onde se fala de amor onde se ama a fala circular do amor O meu amar e o meu amar-me não falam nem se falam gesticulam aéreos têm cordas mas não vocais novelos de cordas abundantemente indecifráveis cordas mudas como pedras em espirais de espanto cercando a longínqua árvore do silêncio No vértice da minha hora levantarei um santuário à Possibilidade da metamorfose 19 Órbitas Primitivas.indd 19 02-05-2007 12:35:04 .

indd 20 02-05-2007 12:35:04 . É esta emoção o sentido íntimo de principiar. Vim do Distante em fuga em febre frontalmente como uma falésia penetrando pelo mar alto e sou a amazona e a heroína fatal da trama terrível que vou tecer ao sol com fios de saliva da boca de monstros nas praias que ainda não há. Metamorfose. Os olhos transformam-se em sóis vulcânicos e a realidade das coisas inflama-se. 20 Órbitas Primitivas. Vim dessa íntima exactidão. Longe é um ponto cardeal qualquer. Um excesso de vibração cordas desfibrando-se. Tudo no corpo em círculos concêntricos expansivos como ecos de gritos nocturnos. Reunir as audácias sem retorno e fazer pedras de caminho e das pedras pão e do pão rumos e de tudo forças sobre a terra sobre o dia. O meu destino é partir. Reunir as partes de todas as partidas e partir inteiramente. Batem martelos nos meus nervos incandescentes.Libertação.

21 Órbitas Primitivas. Tenho loucura bastante para embebedar a infinita humanidade passada e futura com a substância vital de alucinados Quixotes. Sei que há raras mulheres guerreiras como raros homens oceânicos.indd 21 02-05-2007 12:35:04 .Enamorei-me de uma espada beijo-a todas as manhãs todas as madrugadas sempre grata livre Heróica. Tudo depende da exactidão férrea da alma. Vinho novo em odres novos loucura nova em mulheres novas para a plena possessão da embriaguez de si próprio. Meu corpo inflamável é um profeta que delira deuses.

Primeiras Forças de Atracção (com Oscilações Irregulares da Temperatura) Eu: « O poema é uma alucinação solar uma fé no oriente da primavera » Tu: « O amor é mais vinho que o vinho uma porta vinda do futuro para Aqui » « Assim o poema o sol o amor o vinho fazem corpo Aqui: urge despir os Textos: esses animais filhos do deserto » ( Num timbre modulado a expirar peixes e forças marítimas a voz emissária do mocho de Atena precede obscuramente a vaga pregnância de um vulto humano que emerge lento e esforçado que avança oblíquo numa articulação côncava arrastando um hálito de vinho um suspeitável para os entendedores práticos mas indemonstrável para os cépticos místicos hálito de vinho dizer vinho é dizer uma coisa viva que viu o sol e compreendeu coisa quente como víscera recém-atacada de nudez e de excesso [.indd 22 02-05-2007 12:35:04 ...] 22 Órbitas Primitivas.

Também eu. Eis o caminho que desfibra o artesão e o seu segredo São os jogos de ar que aproximam o corpo da forma de ave. Ora todos os dias não são bastantes pois o ar não repousa e o fogo tem fome de não-repouso. Ser-me é trabalho infinito. Pó no ar. Do trabalho ao jogo ser-se jogado e perder-se. São os jogos de ar que jogam o corpo do artesão: poeira de sol.Allegro molto vivace! (Uma Respiração de Vinho: um vinho a respirar uma encosta de videiras a respirar os sóis de um outono a principiar aquele voo partilhado que declina todos os gestos capazes de navegação nocturna A respiração tem braços e mãos de artesão que trabalha o ar na sombra do segredo como se fosse um barro ou uma madeira de opacidade próxima da água São estes jogos de ar que voam pelo meu corpo de artesão que é um corpo trabalhador mas sem a combustão necessária para conduzir o ar até à chama persistente Dizer artesão é dizer a imersão o banho de terra e de coisas terrestres como a busca de algo exacto e inteiro.indd 23 02-05-2007 12:35:04 . 23 Órbitas Primitivas. Da matéria à energia.

. A busca do inteiro e a alegria da fissura: nada se nega tudo se fermenta e a massa da voz sobe a caminho de outra massa talvez [.] (A massa da voz desce sob as mãos de amassar-se É ainda uma timidamente afirmativa embriaguez que se levanta e se despe que se ensaia e se teme mas é já também a vibrante e jubilosa profundidade da adivinhação Fenda-que-abre e Muralha-que-cede É já a essencial alegria da Putrefacção dos músculos de algo estrangulante que espetava ossos na garganta e brumas nos desejos É a essencial alegria da Potência de outro caminho é enfim o júbilo poético da vida: a Poesia a iniciar-nos no convívio transformante da sua Face ) 24 Órbitas Primitivas. Ora a voz branca a Vogal nua apesar de ainda tão incoativas e de incompletas exalam já o prenúncio e a antecelebração da alegria da Fissura..indd 24 02-05-2007 12:35:04 .Eis o Vinho como Respiração como Espírito como Voz Aquela voz que desventra o silêncio como uma espada límpida ou como um relâmpago a rasgar a altitude da tempestade compacta Essa voz cheira a vinho já ao longe porque parece atravessar uma pirâmide de alegria densa e grave.

] 25 Órbitas Primitivas.Bebe assim abertamente Segue muito para além da sede sempre bebendo Abertamente peito exposto frontalmente é o meu labirinto Pois todo o Fechado será deserto por onde não voam os pés azuis das virgens antiquíssimas portadoras de oferendas (também eu serei virgem noutro mundo possível) por onde não voam os pés nus da flor de lótus que há nos lagos orientais e no meio-dia sem túnica dos olhos infantes (também meus olhos serão infantes noutro mundo possível) Aí no Fechado sobrevirá a Peste Disjuntiva e a Colheita Vazia Três facas três golpes três hemorragias tudo a vociferar como que a sacrificar grandes animais com cilíndricas gargantas a escorregar entre o princípio e o fim coisas de carbono coisas químicas com seus órgãos a reagir de norte a sul acelerados e imóveis É isso o Fechado Nesse dia farei jejum em silêncio escondida entre os textos cobrirei meu corpo de cinza e direi aos homens Não me toquem! Ai de mim e do meu labirinto! (Paz: A escrita tem dentes que a boca desconhece) [..indd 25 02-05-2007 12:35:04 ..

A carne abre a palavra sobretudo a Vogal-que-não-sara A carne atravessa os ferros das Consoantes para a plantação da voz-solar-que-vem Vem-como-dom para fissurar o estreitamento Vem-como-dom de pulmões novos refeitos duma madeira mais viçosa e mais elástica Vem-como-dom de uma árvore em chamas verdes para a Vogal-que-não-sara a Vogal-interconsonântica a Exposta a Aberta via estreita estreita ponte 26 Órbitas Primitivas.indd 26 02-05-2007 12:35:04 .

indd 27 02-05-2007 12:35:04 .(por onde passa a cabeça passa o corpo por onde passa o corpo passa a passagem e o passageiro sempre a passar sempre a passar sempre a passar falham os pulmões falha a boca boca a boca falha a boca falha o sol sol a sol sol a sol boca a boca sempre a passar a Abertura no centro do tronco a tua árvore sangra vogais verdes sangra geograficamente como rios feridos a duvidar foz ou nascente (?) línguas geográficas sangrando árvores sempre a passar antes enlouquecer que falhar a boca será rio será mar (?) uma-linha-de-água-que-une onde falha a boca falha o corpo o corpo todo boca a boca sol a sol contra os cornos da morte contra os muros das Consoantes sol a sol na arena de transformar o corpo em boca a boca em Vogal Vogal Aberta boca a boca sol a sol) (Tudo só por não saber dizer que te amo) 27 Órbitas Primitivas.

.] Levantara-se para beber água e voltar ao sono Subiu o vaso aos lábios estranhou o odor estranhou o sabor Atirou os olhos para dentro do vaso mergulhou-os no líquido Nada Interrogou os olhos o vaso o líquido Nada Guardava o leito um outro corpo sem sede Vibrava lento como que a subir uma colina derradeira no quase fecho duma longa viagem Fumegava uma temperatura de carne – um fumo branco a erguer pontes e arcos arcos de pontes e rios sem arcos e eu arqueada pelos meandros de despertar.indd 28 02-05-2007 12:35:04 . 28 Órbitas Primitivas. O Mistério quotidiano da natação do outro corpo no mesmo leito. Havia velas acesas a soprar a temperatura do corpo e a vigiar o lume Vibrava lento aceso meu labirinto Avançava desarmado talvez regressando meu labirinto Fora longa a viagem O mundo acabara talvez Meu labirinto..Antes da aurora havia já os corpos nas suas navegações experimentais! [...

Viria nu assinalado reconhecível com cicatrizes de cordas e de mastros? Quem o rosto da Porta-que-Abre.indd 29 02-05-2007 12:35:04 .? Quem a chave de algo como vinho? (Perguntai depois Fazei agora algo de justo com os grãos da questão Por que colocais os corações de vossos filhos na boca do leão do Fechado ? Respondei depois Ora não) Agora ponderemos nos braços mudos dos medos a gravidade da estranheza Tiremos-lhe os ossos Peneiremos a sua carne Por fim ponderemos exactos a carne limpa da Estranheza as vias por onde se ensaia no Partir e por onde desaprende o repouso as pedras onde refaz o fio das Lâminas e onde gasta o impulso dos joelhos O perpassar do silêncio deixa marcas na fronte talvez sinais que o escriba grava sob a Órbita pura que se dá e se furta ao sensível – é a Órbita demasiado veloz para que haja uma companhia simultânea o Tacto vem Depois colocar os dedos na textura áspera dos Sinais que fissuram gravemente a fronte e a fronte é apenas a primeira placa de barro a sair do fogo Mas o fogo há três dias que redige sinais com seu Machado subjacente 29 Órbitas Primitivas.

] Não há corpos para tanta escrita O mundo transborda de sinais A história é uma página exígua uma jangada feita de destroços e toda a sabedoria se oferece no coração das ruínas No princípio a irrupção é uma chama sem tecto que sobe pela seiva das árvores é uma chama que radica na majestade insegura do gesto submarino do gesto em apneia – os pulmões expandem-se levantam torres de vigia Por vezes entre a superfície e a profundidade explodem guelras e escamas caem fortificações A insónia vai chegando como uma sombra e com a sombra o corpo esfria e sobressalta-se Levantara-se para beber água e voltar ao sono Subiu o vaso aos lábios estranhou o odor estranhou o sabor Atirou os olhos para dentro do vaso mergulhou-os no líquido Nada Interrogou os olhos o vaso o líquido Nada Há horas perfectíveis e horas que laboram sem perguntar porquê sem perguntar pelo Se da possibilidade: Esta era a hora que se atira para a frente e se dispara simplesmente porque o arco sofria e a corda estava no limite de si mesma: a flecha foi sem bússola nem carta de marear 30 Órbitas Primitivas..O machado decapitou o silêncio e disjuntou os elementos primitivos – os corpos erram duplos pelas inversões que refluem e redemoinham: é a hora anfíbia do movimento corpo-a-corpo corpo-a-sol corpo-a-chão [.indd 30 02-05-2007 12:35:04 ..

indd 31 02-05-2007 12:35:04 .foi sem medir a altura das estrelas À frente ia a sede louca a delirar apocalipses depois iam os lábios gretados quase desunidos como o silêncio desfeito à fúria ininteligível da espada Os lábios fustigados pelos chicotes do deserto seguiam a hora com seu ladrar monstruoso de Corvos abissais a escurecer Depois Só mais tarde viria o Tacto e com ele a inacabada morte a Estranheza de desaguar para dentro a abertura da ferida no chão que pisam as águas Na verdade é a força vital dos tecidos feridos das rochas fendidas que reúne a nuvem o rio e o coração vazio do vaso onde vêm repousar os lábios depois de tanto pó mal mastigado Porém o vaso vermelho contra a carne indisposta dos lábios próximos da decomposição o vaso da sede teme e treme O vaso não é casa para os lábios Entre a cama do corpo e a mesa do vaso a insónia traçou uma linha e os lugares convergiam cegos Levantara-se para beber água e voltar ao sono Subiu o vaso aos lábios estranhou o odor estranhou o sabor Atirou os olhos para dentro do vaso mergulhou-os no líquido Nada Interrogou os olhos o vaso o líquido Nada 31 Órbitas Primitivas.

indd 32 02-05-2007 12:35:04 .Nada de Nada excepto algumas vozes femininas a espessura correu pelas escadas de pedra e a pedra cresceu e as escadas atingiram a morada a nómada morada dos Sete Sóis da primeira cidade do mundo As vozes subiam e desciam pelos Sete Sóis e toda a substância feminina dessas vozes precedia a Aurora e superava-a – Nenhuma Aurora teria vogais bastantes à altura daquelas vozes O líquido do vaso comunicava interiormente com as vogais as femininas vogais que precedem e superam as Auroras Daí a Estranheza a interrogação e Nada senão uma certa Arte Divinatória sobre a matéria da Alegria sobre a deflagração da Alegria Daí a temperatura a soprar intensidades por todos os sentidos a soprar sobre a superfície das águas sensíveis da pele 32 Órbitas Primitivas.

indd 33 02-05-2007 12:35:04 .Confesso obscuros rituais biopoéticos sem bater no peito da mea culpa Degluto em espasmos subtis em convulsões rubras serenamente acesas em lume brando os pães-s agridoces-s ( as plúmbeas pastas de massa encarnada ) Degluto arrítmica os sinais espessos-s as coisas nodosas-s os frutos crus-s as seivas inflamáveis como óleos-s-s Degluto a Veemência da mastigação dos dias Degluto a violência da Origem sob a espécie informe da fracção Degluto páginas sanguíneas arrancadas aos tomos carnudos disto ( Degluto-me ) [.] 33 Órbitas Primitivas...

( Demonstra-se assim que: 1 – as intensidades obram Coisas Primitivas 2 – as mulheres obram Rotações Carnais 3 – o Oculto das obras frui sóis ) ( Postula-se assim uma fé anterior: que os sóis são a felicidade incandescente que há nas mãos e nos pés que praticam a via entre a seara e o pão ( Exorta-se ao denodo prudente sobre o frágil mármore: Sede como as pombas e as serpentes talvez os sinais sejam carnívoros 34 Órbitas Primitivas.indd 34 02-05-2007 12:35:04 .

.i . . os agudos iis a espetar ferros nos nervos da guerra e nós embarcados nos gritos remando e nadando pelos vórtices para aportarmos enfim como frutos maduros na Verdade do Verão 35 Órbitas Primitivas..Queria – ao terminar o poema – ter desfeito os nós e as forças cegas do (/ Aaçço /) e da (/ Trtreva /) ter reconciliado a inimizade sibilante das serpentes que se interpõem aqui ( ~ss ~s~~ sss~ ) em nós intervalares reptilíneos no vazio e no silêncio carbonizados (margaridas carbonizadas: a coisa do Poema) Queria que do coração trespassado desta raiva – o poema – se forjasse Algo internamente Posterior se trabalhasse Um Projéctil: Uma Matéria Um Tempo – sobretudo uma energia – a poiesis e pudesse então haver o tacto pleno _ _ _ ( ! ) e pudesse então haver um ninho de Sol _ _ _ ( ! ) no umbigo dos nossos olhos outonais um ninho os ovos abertos de dentro os frágeis vivos os ténues raios vibrando violinos silvestres um ninho povoado pelo ritmo dos iis os metálicos iis ii-iiis . .indd 35 02-05-2007 12:35:04 .

(e se o poema for o Moinho que mói os cereais da carne a carne consanguínea da Oração sem paz e da Audição sem deuses? se o poema for o Moinho e o Vento as mós e o grão a Raiva simultânea da Promessa e do Preenchimento haverá – DAÍ – farinha-para-pão?) (Calai-vos e segui a via estreita até quando ) 36 Órbitas Primitivas.indd 36 02-05-2007 12:35:05 .

indd 37 02-05-2007 12:35:05 .Era quase Noite quando nos tocámos Depois veio o Sono e houve pássaros místicos a cantar maravilhas e prodígios Azuis Eram pássaros cantores de asas líquidas não comem Sementes e desconhecem os Ermos Os pássaros que pressentem os passos da Luz em sinais menores Desceu a maré na praia redonda do nosso Sono branco e atravessámos a pé exacto e enxuto os sonhos que reinam nas margens da Manhã as margens ondulares do Pássaro e da Semente Semeai em dia de vento Semeai com gestos largos e dançai sem cuidar Se as mãos do vento não estiverem convosco mesmo assim não temeis Dançai e não temeis Pintai a hora da espera com a graça da dança: Sempre Avançai pelo coração da pedra sem cuidar Entrai pelo lado franco do Perigo Oferecei os pés nus à Vigília comum do Abandono Dai sem cuidados: Sempre Desdobrai o manto da Graça Cor-de-rosa desdobrai a voz do Anjo da Fonte 37 Órbitas Primitivas.

Onde nos transportará esse silêncio que não sabemos chamar pelo nome próprio ? Quem nos visitará de dentro do Vento do Pássaro da Semente ? Que flor Que fruto ou é Eterna a Semente e a sua Travessia ? Semeai em dia de vento Semeai com gestos largos e dançai sem cuidar Porque o vento justo como todos os amantes só vem quando o cuidado adormecer e a alegria só se fará carne quando o húmus lhe abrir as Portas 38 Órbitas Primitivas.indd 38 02-05-2007 12:35:05 .

indd 39 02-05-2007 12:35:05 .Procuro um antigo poema cirúrgico penetrante didáctico A cirurgia viola a porta frágil da carne quebra os selos antigos do Livro fechado do Sangue e logo soa um muro de Bronze contra o solo A cirurgia tem a força duma alavanca ofegante e há um íntimo estremecimento sem Outrora um tremor novíssimo muito árido e salgado A cirurgia suspende a Conjunção com a Lâmina transpira sob o sol negro da Queda e cala-se ocultando a fealdade dos Medos à sombra do corpo inseguro no tempo lento da cinza no cubo maldito da água e do pó e das lamas tolhendo o espírito A cirurgia ama o nevoeiro descendente da questão o corpo da questão sobre a pedra onde os elementos se religam A cirurgia trabalha e ama o Princípio do Sangue beija os selos e cala-se Pois os dedos oram dando voltas com os fios na aprendizagem da unidade dos nós 39 Órbitas Primitivas.

indd 40 02-05-2007 12:35:05 .A cirurgia é a audição do sangue vulnerável o Reino ameaçado pelo Pior pelo Cerco metálico que se estreita pela insónia arrastando a paralisia dos membros a vertigem do Instante do Fim um tremor que queima a garganta que fura os olhos que seca os seios um tremor mecânico repetindo-se avolumando-se fazendo círculos ( Ai. os meus profetas! ) A cirurgia trabalha na Conjunção e no Limiar apenas pelo amor da interioridade 40 Órbitas Primitivas. o meu labirinto! ) um tremor cravado no chão e no céu como um Cerco aferrado ao Instante da Crise um tremor desconjuntando os músculos dos cavalos selvagens que havia dentro da vida e os decompositores mordem já nas entranhas um tremor sacudindo as paredes como a dúvida da Essência Há um sabor ácido a húmus e a floresta que sobe à boca ( Ai.

Não há uma parábola mística que me conforte o peito a digestão das rochas sedimentares os textos truncados a hora do banho de lágrimas a angústia de embarcar a carência de pão a vocação de mar o amor dos peixes a fome enfim com os seus delírios as suas redes finas a aproximação da tempestade e da memória dos futuros Um fio de água corre pelas galerias salgadas da memória enredada dos pescadores e há um bordar murmurando coisas oceânicas e há um lavrar arroteando coisas florestais que toma as veias da memória sem porto dos pescadores Um fio de água deposita e desloca areias recria lugares e os pescadores sentem uma concha de luz a rodar debaixo dos pés [ ? ] o ímpeto das vagas sulca o espírito das luas fortes Os pescadores vacilam com as veias cheias de pêndulos a atravessar a hora por todas as diagonais – Pêndulos Insolúveis Lâminas a redigir a traços vermelhos no meu peito exposto os caracteres ilegíveis do Limiar Ai.indd 41 02-05-2007 12:35:05 . meu obscuro escriba da tempestade! 41 Órbitas Primitivas.

É a era da pele! 42 Órbitas Primitivas.indd 42 02-05-2007 12:35:05 . Pois só o Novo canta Novo.Da profundidade imperfeita dos sentidos regresso mais jovem mais líquida com uma exaustão insondável um acréscimo de ser Os teus cabelos eram serpentes a sibilar contorções Os cordeiros da minha sede bebiam labaredas da tua boca e alucinavam paisagens O mistério íngreme da nudez desenrolava lentas ressonâncias O mistério inacabado do fogo soprava pelos arcos das pontes pelas espirais dos búzios esses claustros descrentes o mais recolhido e despojado Cântico Novo O-da-Vogal-solar-sem-ocaso O-dos-dedos-itinerantes em pleno Meio-Dia O cantar novo renova o cantor.

indd 43 02-05-2007 12:35:05 .O mistério lancinante de três velas sem mastro descia em curvas agudas de cinza entre a ponte e o rio As cinzas traduziam o rio noutras línguas Rio corpo-de-sombra-fluida Rio massa-invertebrada-da-Ida Línguas antiquíssimas da mesma matéria das lamas originárias lamas argilosas que ainda fervem nos sangues densos de alguns limiares ou signos trágicos Entre as serpentes e os cordeiros balança uma ponte de corda ponte irascível para passagens de delírios derradeiros Uma câmara de sal preserva da corrupção a primeira sombra O rio desdobra lençóis sobre o leito estreito do Órfão mas o Desdobrar naufraga e angustia-se diante do fim nos escolhos da Ponte Estreita do abandono 43 Órbitas Primitivas.

Enquanto houver dentes no mundo (e na minha boca) será para rasgar terras e céus o rio e o leito debater-se-ão em duelo lutarão nus sem armas toda a noite corpo a corpo lutarão até espumarem vermelho até que haja lamas nas copas mais altas. O rio far-se-á uma cadeia de nuvens negras expulsas do chão e da chuva O leito far-se-á uma descida de olhos rodando vácuos até ao abismo do princípio O abandono far-se-á um chicote lançado sobre os cavalos do rio ninguém cairá exausto mas eu estremeço Beber o rio e comer o leito faz uma refeição muito longa Haja um estômago Capaz 44 Órbitas Primitivas.indd 44 02-05-2007 12:35:05 .Gravado nos músculos desta hora há um canto guerreiro: Enquanto houver dentes no mundo (e na minha boca) será para rasgar homens e deuses o rio há-de mergulhar dentro da cinza há-de recoser os lençóis das pontes até espumar linhas e fios.

Busco compreender os fios de saliva das palavras que percorrem os corpos expostos dos poetas A ( Se o Sol é o Corpo da Génese e do Limiar massa de terra e carne e de outras coisas orgânicas massa sem dentro nem fora massa não-segmentável matéria própria de escrita superfície densa exposta à monstruosidade que nela se congrega ininterruptamente ( Então o Corpo do Poeta é uma metamorfose insustentável e imparável sempre devindo percorrendo todo o espectro das possíveis e das improváveis mutações Então o Corpo do Poeta é para se comer e é a mesma matéria a que se estende na mesma mesa dupla mesa da inscrição e da alimentação – mesa-via dolorosa – onde os comensais apascentam as fontes da sensível vogal desmembram os sinais e se embriagam seriamente ) 45 Órbitas Primitivas.indd 45 02-05-2007 12:35:05 .

.] enfim o iminente soar do alarme de algo ) ( Sofro tanto e não há como dizer-me A orfandade dos sinais é uma terra extensa uma tensão muscular articulatória é ser doendo-se fogo seminal e fogo bélico é o Demais é o excesso impróprio é uma vigília e um oráculo (fugir dele é abraçá-lo precipitadamente) 46 Órbitas Primitivas.indd 46 02-05-2007 12:35:05 .B ( Depois a noite fecha-se como um baú no estômago de um navio náufrago o mestre sobe para o jardim adivinhando a necessidade do horror os discípulos dormem caoticamente encostados às árvores e os eventos sucedem-se como uma dança muito ensaiada saindo natural e os gestos transformam-se em metáforas uns dos outros tudo é trânsito para outra coisa os comensais partem mas jamais se extingue a lâmpada côncava do Caminho Ela ensina a linguagem dos navegantes o hálito e a textura dos seus sinais os sinais da urgência os sinais do tremor os sinais do limiar os sinais de todos os extremos e de todas as inefabilidades [..

47 Órbitas Primitivas. Eu própria também.indd 47 02-05-2007 12:35:05 . o meu labirinto! ( A poiesis é a terra rubra deste sangrar em agonia sob fogo síntese de línguas de espadas e cascas de árvores e perfumes e um sepulcro ou um lar escavado na rocha no centro do jardim [. Certamente..« Se foges já és meu refém e a fuga nunca é bastante não há para onde te furtes ao chão e ao céu – Convéns comigo? – portanto onde estiveres estarás dentro de mim Se queres perecer para te precipitares na boca do Fim sabe que a boca do Fim é minha boca o desejo do Fim sou eu mordendo-te no teu silêncio íntimo portanto eu sou aquele que faz os caminhos ínvios e a loucura de ir neles E é por mim que se dá a órbita e o seu próprio perecimento – que não é senão um véu diáfano sobre o piano cintilante que já havia no Início » C ( Aqui a queda e a suspensão do instante a indisponível disjunção dentro-fora a liquefacção total da carne própria a transmutação de tudo em sangue a sangria imposta a demora da hora no Instante o acampamento sobre a instabilidade dos animais Ai..] Tudo é sinal de outra coisa.

O poeta sabe-o bem: quer chore quer cante quer cale quer não queira: ele sabe-o ele é esse saber Esse saborear É memória vigília atenção nocturna à iminência é colocação da voz nas linhas de água do deserto uma outra Páscoa buscando-se.. [?] Que redacção cristalina que luz aquática que vento setentrional que mulher grávida será capaz de abrir uma porta na rocha inflamável do espanto e de fazer A Páscoa Crítica pelo coração amplo do deserto [ ? ] [. Nem veias de poeta que sejam bastantes para a poesia: o poeta morrerá muito jovem – lê-se.] 48 Órbitas Primitivas.indd 48 02-05-2007 12:35:05 ..( Não há poema bastante para o poeta. É tudo aquém da Palavra chamada é tudo incoincidente com a clara e exacta hora da Fulguração é tudo na mesma árvore fruto e queda.

Um que possa mastigar e digerir e fazer meu corpo e depois mergulhar-me nele como numa onda matinal de mar ou como num vento de neves de montanha e assim ficar desperto e sentido e tudo e outra Mas talvez não haja ainda o livro da minha fome e falte que a própria fome a fome de livro seja posta em livro. Embarcamos de corpo inteiro numa Incógnita. Eu estou nisto portanto. Continuarei faminto a fiar silêncios até que a minha fome se faça escrita e assim a carência expluda o pórtico por onde virá a nutrição Esta fome e a sua escrita – e o livro que possa comer-se – são uma desgraça que se abate pesadíssima sobre uma vida e que se aloja nela inexpugnável como se a perseguisse por dentro ou a abarcasse toda por fora sendo eu mesmo incapaz de imaginar uma qualquer forma de evasão. Um livro. A hora sobe. 49 Órbitas Primitivas. É uma desgraça-necessidade e não há por onde não ir nela. A minha fome procura um livro que não encontra. Tudo infinitamente. Escrever é destinar-se ao sem-destino. O mar reflui. Literalmente.indd 49 02-05-2007 12:35:05 .Levanta-se o pórtico da carência. Os punhos rodam.

.Desgraça impossível de findar: desgraça que terá sempre o exacto volume que a vida tiver – sobretudo a minha – eu nisto portanto.] 50 Órbitas Primitivas.. O livro é impossível de haver: só há escrita pois esta é o tempo aberto de todos os fluxos é o pesar infindável da mesma fome que alimenta a vida carecendo-a dessa dolorosa destinação vital que é o repouso da escrita e do escritor em livro A impossibilidade do livro é a impossibilidade da interrupção ou pacificação – ainda que fosse um instante – da Desgraça e da Carência da vida enquanto ser-se fome (E o pórtico é uma propulsão que se alteia a si mesma ) (E a escrita tem bocas que a fome desconhece ) [.indd 50 02-05-2007 12:35:05 .

indd 51 02-05-2007 12:35:05 .no acto da minha escrita ou quando a escrita me toma em acto seu a solidão faz-me um cerco alto e espesso como só será o vértice agudo da Morte tudo começa no corpo do vento no sopro no barro do ventre do vento do meu corpo tudo se funde nas ondas lunares das mãos tacteando sinuosas tudo fermenta na massa espumosa do desejo na seiva quente roendo o útero das palavras roendo o útero da memória das coisas o útero de tudo de aquém e de além as palavras intestinas defecando-me as palavras genitais masturbando-me violentando-me toda na minha docilidade insciente no meu equívoco sensível de amante e prostituta a solidão faz-me um cerco alto e espesso como só será o vértice agudo da Morte o vértice instante das águas caudalosas vindo anunciar no seu acto de escrita em mim a sede primitiva e a carência da visão essencial 51 Órbitas Primitivas.

O poema tece-se à temperatura febril e festiva de muitos corpos amalgamando-se noutros muitos O poema tece-se dos fios quentes da saliva lamacenta em muitas línguas desdobrando-se noutras muitas O poema mora ali no caminho viscoso das línguas mora andando dumas às outras na solidão de morte que é meu corpo padecendo a compulsão convulsa da escrita O poema é a secreção húmida dos demónios dos outros feitos eu 52 Órbitas Primitivas.indd 52 02-05-2007 12:35:05 .

O poema sou eu fecundando demónios no útero grávido dos outros No fim do poema fico sempre mais só e choro pelo que Foi e pelo Depois Porque Depois há que circular: circular antes que chova O poema é muito proceloso não dá para nidificar dará para nadar para ficar nato na natação tem caudal capaz de grandes travessias malogradas naufrágios e outras colheitas mais raras como a do Arco quebrado Dizem portanto os pássaros que o poema não dá para nidificar Mas qual a verdade dos juízos arborescentes dos pássaros nidificadores ? Os pássaros também não são exemplares: dão para nadar talvez ou para outras colheitas mais raras como pôr os olhos na vertical presos às órbitas de um bando sobretudo se houver um sol oriental pois um sol oriental possui um grande jogo de cordas e roldanas que perpassam os olhos 53 Órbitas Primitivas.indd 53 02-05-2007 12:35:05 .

Os pássaros à evidência dão muito e dão para muito mas não dão para nidificar – pelo menos segundo os métodos clássicos da nidificação sou ainda a avidez de um voo 54 Órbitas Primitivas.indd 54 02-05-2007 12:35:05 .

] as asas vegetais do anjo oscilavam aéreas nas copas altas da verde Voz o caudal da Magna hora transbordava imenso da taça repleta do signo ausente o sangue da sede fervia qual raiz de lava qual órbita primitiva serpenteando ancorando a vida na árvore injectando o bálsamo no corpo mirrado do som transindo mais bálsamo que corpo mais odor que terra na matéria sonora da voz 55 Órbitas Primitivas.indd 55 02-05-2007 12:35:06 ..À Magna hora do voo da voz voltando ao ninho eis folhas secas no regaço dos ramos da árvore do centro do jardim O Ancião: Olhai o peito florido da Magna hora do voo côncavo da voz voltando ao ninho Olhai silentes e bebei Bebei os lábios carnudos do cântico da Vinda O Anjo: Não temeis Sou eu [..

indd 56 02-05-2007 12:35:06 ..] O Anjo incapaz de suportar a pureza energética daquele Natal excessivo entrou por dissonâncias demoníacas O Anjo olhou fundo nos olhos da voz humana e encontrou uma figura sombria de Mulher era a Insónia empurrando a noite rebolando enorme como um mistério ancestral sulcando as circunvoluções encefálicas das montanhas e das tempestades marítimas como um rochedo a subir a encosta sob a insegurança dos golpes trémulos da Fúria alta e a insónia era as cordas os braços as forças era todo o teatro oblíquo da Tracção A insónia era tudo sempre já no limiar da quebra irrecuperável na aresta superior da catástrofe para sempre a Insónia íntima à Porta do fogo inquieto dentro dos pés descalços do segredo 56 Órbitas Primitivas..a chaga é maior que a carne e a cicatriz perdeu-se no nevoeiro da vinda O Anjo havia clamado uma segunda vez uma terceira e mais outra e mais outra e mais Não temeis Sou eu [.

esqueleto amputado pelas grossas lâminas do Espanto empunhando espadas contra os dentes desmedidos que há dentro dos jovens frutos silvestres insultando a dor que há dentro da fome humana de Tanto O Ancião: Bebei dum trago só violento e fundo a paisagem rochosa do voo côncavo da voz voltando ao ninho Bebei o perfume sensual dos pântanos pútridos o lodo abundante dos beijos O Anjo: Não temeis Sou eu [.indd 57 02-05-2007 12:35:06 ..] Não temeis fareis pão com a farinha das pétalas da Voz comereis desse pão arenoso quando fordes com vossos filhos pelo Caminho a vossa tenda avançará convosco será a boca da menina infante o sal fresco do mar da boca da menina infante vossa filha será tudo será lábios alados da Magna hora Jamais faltará farinha de pétalas para o pão Jamais faltará tenda para os lábios Jamais faltará caminho para os filhos 57 Órbitas Primitivas..

indd 58 02-05-2007 12:35:06 .Não temeis que a hora é Magna e o ninho da Voz é uma jangada que vai Crescem as mãos do Canto dentro do rio Vai Os corpos infantes dos versos são troncos de jangada Os meandros do rio desenham cálices fundidos no voo voz Tudo em meu corpo lasso Virá o Outono em linha recta como uma luz a furar o peito do jardim Virá depois a hora líquida das vogais vestindo o sopro sem lar Virá o manto de cinzas a nudez natal e saber-se-á o Gesto ( o Gesto de Tocar no sabor longo da pele ) 58 Órbitas Primitivas.

Alteraram-se tanto os tempos que a terra tomou outras figuras [ ? ] E onde agora o afago de mãe que havia no murmúrio corrente do tempo fluvial [ ? ] Onde agora se [ ? ] Se a tão alterante travessia dos nomes e dos gumes das coisas trouxe esses aluviões e meandros essas subtilezas demoníacas ou mistéricas trouxe Isso chuva de rochas na fluvialidade de mim e de ti sem que se saiba o que seja a carne e o sangue do tempo [ ? ] Onde agora o afago antigo nos olhos doirados que coloriam os rios de Outrora quando todos éramos infantes [ ? ] Onde agora a fé uníssona em verdades gestuais translúcidas [ ? ] Onde agora Onde se [ ? ] Se os aluviões e meandros novos transformaram a epifania a memória dos rostos das órbitas das palavras e injectaram tempestades de deserto nos nossos corpos na nossa sede inquieta de beijo e de renascimento solar 59 Órbitas Primitivas.indd 59 02-05-2007 12:35:06 .

indd 60 02-05-2007 12:35:06 .[ ? ] Onde agora senão tactear o caminho fluvial com o corpo nu tactear a aresta do delírio – essência unitiva entre a loucura e a verdade dois infinitos tactear o perfil austero da ânsia e do impulso tactear a corda tensa que suspende Outrora e Depois sobre as águas da Reunião [ ? ] Onde a Aliança senão num altar de pedra em fogo senão martelando nele como se fosse Algo sobre a bigorna e a massa de tudo altera-se porque é carne sanguínea e terra eólica e água ígnea a massa da Evidência da Memória da Origem de Nós A carne é a conjunção da matéria e da intensidade – Mistério da Conjunção A carne percorre os verbos e os nomes mais ínvios sem resvalar nunca apesar da morte essa inenarrável diacronia irruptiva essa curva na estrada do arco batendo nas cordas coisa de violoncelos O violoncelo semeia e colhe abóbadas à beira rio O lençol da harpa beija as maçãs as rosas as janelas que dão sobre a nudez do amante a exalar aéreas borboletas 60 Órbitas Primitivas.

Apesar de haver sempre um cadáver ao sol e um abutre a dobrar-se sobre essa incrível desfiguração onde não poisam mãos Apesar de haver sempre uma matilha de cães negros a sacrificar uma virgem no umbigo ébrio da cidade intensa Apesar de haver sempre chifres contra chifres a rasgar a paz estreita onde o tempo inteiro se concentra atlético e violento como uma tragédia Apesar de haver sempre uma insónia a uivar aguda afiada espetando-se intermitente mas doendo contínua desventrada Creio na comunidade original do sol da carne da vogal (os chifres e as mandíbulas dos monstros cercarão a fonte o princípio o necessário ? (a noite abater-se-á sobre a paixão essencial com seu fumo definitivo de carne putrefacta ? [.] 61 Órbitas Primitivas...indd 61 02-05-2007 12:35:06 .

eu desço também pelos nervos vegetais das heras vivas eu sou esta íngreme descida do sótão sobre a casa eu sei que lembro uma qualquer serpente húmida repugnante eu sei que me confundo viscosa com toda a matéria subjacente desço nasço estanco acelero-me altero-me sem nomes capazes de me dar berço como se o véu da minha pele aumentasse 62 Órbitas Primitivas. A loucura desce inelutável seguindo uma lei simples: a lei da gravidade singular da loucura universal e a loucura desce sem atrito no plano inclinado das horas na razão inversa da temperatura atmosférica das origens.Também há trevas interiores donde se elevam chamas Um louco num sótão que possui toda a casa toda a casa assenta na loucura superior dos braços do sótão como se o sótão fosse seus alicerces radicais Loucura branca na sombra do sótão Loucura ampla na estreiteza do sótão A loucura cai de cima para baixo como um sol chovendo e penetrando.indd 62 02-05-2007 12:35:06 . Toda a casa se ilumina com a cor variável dos espectros da loucura. A loucura desce como heras pelas pedras medievais de uma torre tragicamente inacabada sem razão outra que a desgraça pura e total.

fazer da fome uma vigília e da vigília uma bainha sem espada uma espada de pé erecta como a voz clara do bem uma espada de audição sempre labiríntica e tensa multiplicando lâminas móveis 63 Órbitas Primitivas.indd 63 02-05-2007 12:35:06 .irregularmente de espessura e de transparência como se o paradoxo fosse um acréscimo simultâneo de aparição e de furto A loucura cola-se-me toda hidrata a minha pele a minha própria de sempre A naturalidade da colagem não extingue porém os arados de fogo O fogo que sulcou todo o Éden depois da expulsão Tudo se fez cinzas e cobriram-se as cinzas com sal (o sal para secar os ovários às cinzas para diferir a repetição) então desertificou-se a aldeia da Aurora e o sal estrangulou a regeneração e esculpiu a Loucura brilhante em caracteres esplendentes de orvalho e lágrima eu ainda criança de leite aprendi de cor a Redacção Agora vivo com ela no sótão como um amor interdito um amor mais forte que a vertigem do abismo e a escadaria do sótão e o beijo da morte Um louco no sótão da casa é uma boa história para adormecer a fome de alguém contra o peito áspero do temor e da esperança Todo o meu trabalho é a manutenção da navegabilidade da fome Sim.

a espada deixou há muito seu lar Partiu Não crês? Pergunta ao primeiro viandante por ela Dir-te-á novas Ela evita os caminhos e as estalagens Mas não se furta às feiras montadas nas encruzilhadas Faz três dias de caminho que a não vejo Mas não tardará por certo novo vislumbre Está sempre próxima a fome dorme nas torres dos pórticos da cidade Eu portanto mantenho operacional a casa das máquinas onde se concebe a atrocidade da fome assaltando a nave como monstros marinhos Aprendi de cor a Redacção Come o livro enquanto dormem as palavras depois de despertarem não mais haverá paz nem verdade apenas tempestade A aprendizagem é uma esfera de aço para os meus dentes A loucura escorrega sinuosa como uma cauda sem cabeça cintila fugidia como a dança da luz nos espelhos dá-me tecto e chão e leva-me dentro da pirâmide da redacção como numa embarcação de troncos de papiros 64 Órbitas Primitivas.Sim.indd 64 02-05-2007 12:35:06 .

indd 65 02-05-2007 12:35:06 . se a casa voltasse suavemente a pó e o sótão se tornasse uma tenda colorida sobre a rua e um nevoeiro novo nos embriagasse como fruta madura uma bebida de fruta levemente fermentada muito doce e depois viesse o sal exacto e exigente como gumes de cristal viesse o sal e o sol necessários para o Caminho Ai. amor.Ai. se a casa voltasse suavemente a pó esta noite haveria música! A loucura é apenas um Anjo grande transportando o Abismo e a Ponte transportando Ambos dentro do mesmo vinho A loucura torna-nos cálices repletos a transbordar e bebe-nos às horas incertas da sede Loucura branca e ampla porque movimento de todas as cores sobre todos os relevos Loucura planície de mãos livres para o voo aberto E talvez para a raiz nova de algo de não sei Quem és? 65 Órbitas Primitivas. amor.

. morava a feiticeira da Manhã uma jovem de aparição inimaginável necessariamente Bela nunca olhos humanos lhe haviam em carne viva adorado a Presença porém havia umas imensidades uns sentidos outros umas abundâncias de. Ela! – a.indd 66 02-05-2007 12:35:06 . a suspensa entre vogais a excessiva interjeição Era tudo a íntima adoração do desejo multicolor de ser tocado pela Dança – Ela – de ser abrangido pelos seus gestos móveis nas suas espirais oblíquas no seu rodar de veludo e de brocados no seu balouçar de pontes próximas do abraço como um cais sob o êxtase da Chegada um cais a tremer sob a espera da fulguração a espera do banho inteiro banho largando o corpo pelos sóis oblongos sóis voando de onda a onda como golfinhos na baía rósea da floração sóis voando como olhos inquietos quais olhos buscando outros olhos quais quais olhos buscando qual abrigo único qual rocha sobre a qual erguer o Dia a Noite e todos os espaços 66 Órbitas Primitivas....Primeiras Elipses e Rotações (com Aceleração Contínua do Delírio) Diante do vale amplo.

Porém há sempre um bater de Algo turvamente oleoso à nossa porta: a insinuação dubitativa da versão do Possível em ruínas em cinzas nómadas-ss em círculos vazios-ss (Como se o rio fosse uma serpente a morder a própria cauda) (Como se a fractura fosse mais primitiva que o inteiro) Porém há sempre uns punhos descarnados a bater à nossa porta: a insinuação dubitativa da versão do Possível em sombras imprecisas em lâminas-ss em lodos ermos-ss (Como se eu fosse o informe reflexo da noite nas águas do cais) Há sempre pois a proximidade do diabólico divisor que esmaga o búzio e o anel que ensanguenta o som e a praia que indica em tudo o lugar fluvial e a ponte donde lançarão as cinzas futuras de nossos ossos o diabólico divisor que ouve dentro de todo o pão o sibilar de uma serpente e dentro de todo o ovo o veneno de um escorpião (Como se isto fosse um rio esférico: um exílio infinito numa rotação sem eixo) (Como se as areias fossem intrínsecas à verdade das angústias das estrelas das larvas) (Como se o tacto disto fosse a certeza de uma lepra invisível: uma coisa da família dos templos e dos deuses desaparecidos: já não se crê que alguém lhes tenha orado e crido neles) 67 Órbitas Primitivas.indd 67 02-05-2007 12:35:06 .

Vestígios quentes de nunca nada ninguém Orar a Ela é preciso Ela! Ela! – a.indd 68 02-05-2007 12:35:06 . Vogais vogando como anéis de algas boiando nas águas e aportando nas areias das encostas do Falar E as marés davam espigas na praia – tantas espigas quase pão 68 Órbitas Primitivas.O diabólico divisor ataca o abdómen depois o crânio A insinuação dubitativa deixa-nos insepultos disjuntos [ ? ] Qual será a língua capaz de tecer uma túnica sobre o corpo [ ? ] Qual o fio de saliva capaz de dar nós em todos os sentidos Busco uma voz nas ruínas dos textos. a líquida consoante fluindo entre vogais só Ela ambas as mãos ambos os lábios ambos os seios o possível Ela! Ela! – elevavam-se pétalas de canções dentro das vogais abertas – as vogais de Ela! Ela! – [ É – Á ! ] vogais semeando: cabelos abissais asas carícias silêncios de seda. Vogais indo: subindo e descendo pelas linhas de água pelos brilhos suspensos nos ares pelos oráculos ondulares dos perfumes...

Ela! – ouviam-se os teares pulsando no coração do templo O ritmo certo dos teares avançando pelo coração da lágrima da Alegria compunham-se túnicas novas à sombra sagrada de uma harpa delirando terreamente aos braços da febre harpa da fiação ininterrupta e o templo transpirava e o deserto crescia no seu berço oval deserto recém-nascido amamentado nos seios das parábolas

Este mundo é como um pai que tinha sete filhos e sete filhas e uma ceara sem poço e uma vinha antiga dos seus antepassados e um rebanho sem pastor. Os filhos cresciam, cresciam. Não podeis compreender a enormidade do crescimento dos filhos. Um dia gigantes ficaram maiores que a casa: não cabiam todos lá dentro. As filhas choravam e os pais emudeciam diante dos filhos monstros e quedos como promontórios como falésias onde o mar inventa gargantas para as suas raivas. Vedes bem: chegara a hora de Algo. Ninguém sabia. Este mundo é pois isto: estar-se sempre sobre a hora plena de Algo e ninguém saber [...]

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Com os primeiros passos na via contemplativa surge a primeira evidência heliocêntrica no feminino os olhos surpreendem-se a medir os sóis e as luas Visão dos astros: um Ver tão estranho e tão nosso curvo e angular um Ver claramente generoso e farto e quente e nutritivo como o branco pranto dos violoncelos marinhos um Ver alto relampejando bastando-se desnecessitando de olhos um Ver-viatura-energia transportador de árvores e montanhas Ver germinador de trigo e uvas pelos telhados de pássaros rubros Ver embarcador de pescadores pelos chãos dos répteis azuis Ver grávido no peito da ceara e do mar como mãos puxando redes mãos enchendo cestos redigindo a verdade da terra a transbordar um Ver pleno cego de luz e de indefinido circulação de pães e peixes até aos confins da fome comum Ver sobrando pães e peixes sobrando o Sol nos dentros sobrando uma tarde e uma manhã para Só ir sobrando para Só

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(os olhos ardem lentos pendendo como figos vermelhejando frágeis nos outonos de todos os tempos nos outonos mares onde vem desaguar o ouro líquido da lágrima sempre próxima sempre na raiz dos dias abundância sem lar de um frio inteiro talvez guiando por onde até ) Delírio capaz de deus? Obstinação de boi ziguezagueando talvez [...] Delírio transeunte: errância pelas margens disseminadas pelos ermos sem anjos bons nem maus sem forças alheias? Sim. Apenas o meu corpo bovino. Os meus nervos de carne e osso.

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O presente é hora de êxodo meu o futuro ferve num fogo de ninguém Os cegos e os mudos e os paralíticos enfim todos os cativos irmãos de todos os órfãos trepavam aos Obeliscos e colhiam os deuses há milénios dormindo dentro dos hieróglifos. O sol arenoso fluía como leite e mel. O Ver amanhecia como uma língua que se desprende Alguns descreviam aparições confusas de plenitude e Absoluto Outros incendiavam-se em desmedidas intensidades Alterantes Todos viajavam até ao Êxtase pelo Verão do pomar sem muros As Babilónias ficavam para trás como animais doentes incapazes de irrigar o deserto com danças de crianças. As mulheres grávidas e as que haviam dado à luz elevavam-se como árvores e fontes como casas e caminhos como pão e vinho. As mulheres elevavam-se e o firmamento acontecia As mulheres nomeavam o espaço com o ventre aberto 72 Órbitas Primitivas.indd 72 02-05-2007 12:35:06 .

O ser obedecia às mulheres. Conhecia a fome delas e respondia instantâneo. As mulheres oravam sem palavras e o ser cumpria-se submisso. A mudez do ser orava às mulheres e as costuras do véu estelar brilhavam. Uma constelação oriental obrava a escultura desta coincidência entre a intimidade do ser e o mistério das mulheres. Todos as seguiam subindo seguros para os planaltos verdes. Aí erguia-se a Torre horizontal do estuário dos silêncios Aí sentia a manhã a correr-me nas veias de mulher sentia o sol fluir no corpo e entendia-me como quando as águas correntes da alegria transbordam fábulas e estremecem as colunas subterrâneas da cidade e do coração Lembro-me de ser criança e de não compreender o tempo sobretudo o sexo do tempo o véu e a nudez do tempo Creio na verdade da pele na hora inaugural da era da pele Acontecerá a doação nua do haver nudez: o Haver Nu total-total-total Três vezes até ao excesso do fogo: a Epiderme grita como a Plenitude do esforço na íngreme vertente do Sol a romper o corpo da cor É a Manhã e o Principiar

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Semeia-se o canto Vêm as chuvas A Líquida consoante desagua nas vogais A exclamação corre pelas bocas como cavalos alados Astrais A forma sensível da Promessa traz um lume que não queima os Olhos A Incandescência da líquida consoante fluindo entre vogais Visitações pernoitando connosco como mantos leves Ela havia anunciado os anteprimeiros passos da palavra os cantos inscritos na madeira da voz pelos artesãos antigos inscrição incrível para o nosso esforço de leitura e de tacteamento para os nossos corações frágeis no vórtice interior da compreensão Os cumes futuros dos montes semearam-se pelos lábios das águas assim são os mares tão grande deflagração assim as tuas veias tão meridionais tuas veias matinais agitadoras das árvores insuflam sóis pelas narinas dos violinos argilosos

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Temo que a viagem me consuma a túnica e me atinja a pele e me morda a carne madura dos livros Temo a roda que persegue a máquina diabólica dos dilúvios os fundos óssicos as rupturas imanentes à escrita: essa hemorragia branca anoitecendo apesar do modo monstro de circular tão confinado: as tuas veias que tecem os mares do sul como se fora um bordado muito ácido ao gosto incendiado dos peixes as tuas veias que têm ondas por fora correntes por dentro e crateras várias de mil luas densas A tua chama diuturna redige a Verdade a abissal incandescência a incessante a linha-que-une a superfície da Vogal e da Veia

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Imaginai 76 Órbitas Primitivas. Imaginai as cores contando histórias de dores e desejos de outras coisas. Imaginai as marés das crateras lunares soprando crianças azuis.Imaginai o vale como uma ânfora cheia de perfume uma ânfora vinda do Sul e plantada inteira no solo como uma bênção uma ânfora incrustada no umbigo do sol nascente como lábios num beijo redondo Imaginai agora veados voando de dentro do perfume pelas planícies tenras da lua cheia.indd 76 02-05-2007 12:35:07 . Imaginai o anfiteatro do vale a encher-se com as personagens de todas as histórias de todos os tempos de todos os mundos As personagens começam a mover-se receosas Sentem-se dúbias e os fios dos novelos cruzam-se indefinidos como a rede que o mar emaranhou toda a noite dentro da boca As folhas dos livros correm húmidas por outonos e primaveras eis a liquefacção da biblioteca o dilúvio a conduzir a biblioteca para o território insólito de uma pele de animal um palimpsesto aquoso com profusas correntes marítimas redigindo as navegações e os seus naufrágios.

indd 77 02-05-2007 12:35:07 .os símbolos como peixes de água a correr as correntes. 77 Órbitas Primitivas. Imaginai o Amor a transpirar símbolos: os peixes saltam e espumam é a invenção da Onda. Imaginai o Amor como a invenção da onda o Amor como a composição do ritmo enrolando a vinda e a ida. Imaginai este anfiteatro: o dilúvio na biblioteca e as pombas filtrando a superfície das águas buscando sinais: buscando ramos pelas oliveiras que plantáramos às portas das aldeias das histórias. Imaginai a falha intervalar que há entre a pele e a máscaras como um jardim suspenso. Imaginai Imaginai o momento da floração desse jardim intersticial como a diuturna sonoridade do Amor.

O Amor é a Ondulação.indd 78 02-05-2007 12:35:07 . A curva mora no Amor eis a geometria curvilínea da carne: o Amor é corpos deslocando chãos e tectos rodando sóis e luas: os campos respiram. Os símbolos amadurecem dentro do Amor: uma vindima. Uma papoila uma pétala de malmequer velejando na menina dos olhos da ondulação: Questões trémulas: O Amor rema nas galerias submersas? nos canais expostos? na presença? na ausência? O Amor rema com os braços femininos das marés as marés que desenham um Sol no umbigo do mundo Os Símbolos chegarão durante a hora dourada farão uma porta oval na madrugada Os Símbolos não têm paredes não são Casa nem tenda: são mulheres Os peixes são luz e água não morrem. Imaginai uma ceara respirando ondas. Os livros saúdam o dilúvio na biblioteca O Amor transforma o anfiteatro do vale numa bailarina banhando-se Imaginai 78 Órbitas Primitivas.

A navegação desfia arvoredos como se arpejasse um oráculo cercando-o sem lhe tocar: a mansidão dos oráculos é afirmativa como uma pedra polida evocando-nos o leito de um rio ou uma palavra potável num círculo de pele Imaginai as mulheres como rios e leitos de rios como mapas e candeias.Imaginai Imaginai o timbre da onda como um sumo à hora exacta do desejo Sagrado de sumo as mulheres bebem o sumo bebem a hora a sede o timbre a onda o símbolo.. Os símbolos têm meandros como as mulheres têm seios... Imaginai o Delírio: encontrareis as mulheres as mulheres cantando no deserto no mar na noite no fogo. no coração dos elementos 79 Órbitas Primitivas...indd 79 02-05-2007 12:35:07 .. Imaginai o Delírio: encontrareis as mulheres. As mulheres são mais de mil anos de ondulação: as mulheres são este dilúvio exemplar As mulheres são a juventude do tempo banhando-se.

indd 80 02-05-2007 12:35:07 . O poema: Imaginai o Delírio: encontrareis as mulheres sobretudo a Bailarina. O símbolo nas mãos em concha do Amor dando de beber ao Cântico: a curva deslocando-se – rio sem fonte nem foz [ ? ] porque a mulher não morre Desvelai os ombros desta hora feminina: os ombros são o Centro do Jardim As bocas atravessam as mulheres e atingem o Canto: as mulheres têm bocas em todo o corpo – também nos ombros sobretudo nos ombros nus onde pernoitam as chamas primitivas 80 Órbitas Primitivas.Imaginai! Pudesse levar-te no poema até onde me levei nele! Vistes como suspendemos as forças animosas para o delírio nos abrir a terra? O poema vai indo-chamando: leva-nos consigo indo-chamando sobretudo a ondulação.

indd 81 02-05-2007 12:35:07 .Os ombros ardem e avançam e fazem a Dança que traça uma linha na pele da Noite uma translação mensageira duma saliva íntima: a-da-Natividade a-da-Tangência ( o Sol roda no eixo dos ombros nus ) É a linha-que-une os dois hemisférios da Noite. Vou oferecer a boca à linha-que-une aos ombros nus das mulheres deflagrando. Os ombros ardem e avançam. Os ombros desaguam na boca e acontece o Canto as águas frutificam sóis e a minha sede alastra entra no fogo no ferver. Saliva no Canto linha-que-une a minha boca é tua. A redacção do Livro da Chama requer – linha a linha – o seguimento da linha-que-une a boca à pele à altura nua dos ombros os peixes saltam e gritam Vogais Desvelai os ombros principiai a Hora 81 Órbitas Primitivas. São a maré a subir pelo estuário até à eira onde as mulheres estendem o manto sobre a terra espraiam a pele como copas de árvores a arder e a saltar da flor para o fruto.

indd 82 02-05-2007 12:35:07 .Voz Clamante no deserto no mar na cidade na guerra no peito Tu andas a escrever-me Tu respiras-me tanto e lês-me coisas que não escrevi Tu cuidas-me das feridas Tu deves ser mulher: vais por onde não há ida apenas noite e chegas em segredo à porta aberta voltas sempre por outro caminho mais íntimo e alteras o lugar e a coisa e o sentido vens de onde não foste e trazes o pólen das flores que ainda são por haver Voz Clamante Tu deves ser mulher Só a madeira da carne mulher é a madeira capaz de ir e vir pelos corpos quebrados pelo vento crispante da ante-manhã da dor pelo tempo bárbaro de cristais a espigar sobre o amarelo infante do Mar sem sono o que eleva as copas da Hora Só a madeira da carne mulher é a madeira qualitativa portadora do vértice festivo o vértice oriental do dia: o chá de canela e mel que pirateia pelos mares do sul descobrindo fontes no coração dos náufragos 82 Órbitas Primitivas.

Extingo-me imóvel sobre o Fogo sem fumo. Senhora? Donde chegará a Chuva? Onde se rasgará a Porta? 83 Órbitas Primitivas.indd 83 02-05-2007 12:35:07 . Senhora. Quando virá a manhã com seu cântico íntimo revolver esta terra estéril. Olhai. Clamo deste Limiar.Na génese do limiar urge uma oração extrema à deusa sem braços da Origem Senhora da Captividade iluminada. que a minha carne atravessa agora. Clamo desta Travessia desta muralha de bronze e padeço e extingo-me. (A voz exilou-me resta o gesto inteiro desta carne fraca. clamo do Limiar.) Onde ides tão nocturna e rochosa que não me ouvis o Tremor? Senhora dos Passos que tardam.

indd 84 02-05-2007 12:35:07 . completou a perfeição do arco. Senhora.O arco-íris do Vosso silêncio. Porta dando para a curva da altura que faz subir crentes os olhos ogivais O delírio possui uma guitarra cujo ventre sombrio é refúgio para as tempestades A Porta é a meditação primeira e última Os olhos rasgarão a muralha: haverá Porta A carne diluirá o bronze: haverá Chuva O poema canta e dança (a poesia porém não cabe no poema: também não há cântaro em que caiba a sede nem terra em que caiba o inteiro florescer dos sóis. Colocai os lábios sobre a boca da Alegria: assim deflagram as fontes do Cantar Novo assim exclama a coloração dos campos depois do dilúvio) 84 Órbitas Primitivas.

páras-e-vais É o teu silêncio esta vaga interior que me enche os pulmões de espumas salgadas É o teu silêncio esse pêndulo que me puxa os olhos para um certo caminho vazio Ir ou ficar? Sim ou não? É o instante. Zero. Um. páras-e-vais Vais-e-vens. O Instante oscilou e demorou-se contorcido pela dúvida. vens-e-páras. Vais-e-vens.Primeiras Circum-Navegações pela Sombra e pelo Sol Vais-e-vens. agora! Ir ou ficar? Sim ou não? Agora para nunca. agora para sempre. vens-e-páras. vens-e-páras. páras-e-vais O ritmo do teu silêncio salva-me a respiração e a palavra elas sempre tão próximas de cair e quebrar A noite bateu-me no rosto na alma talvez nas suas portas: a espera a chegada todo o tempo incandesceu nas fissuras do mar. páras-e-vais Vais-e-vens.indd 85 02-05-2007 12:35:07 . vens-e-páras. Ir ou ficar? 85 Órbitas Primitivas. o único. zero.

Cantar? cantar ainda? neste estreito em que o silêncio bate no estômago como álcool puro? não sei. 86 Órbitas Primitivas. dentro do teu ar. exclamado. que eu respiro e escrevo as minhas respirações ásperas ou brandas claras ou roucas sempre segundo a tua distância. uma boca de ar teu.indd 86 02-05-2007 12:35:07 . Dá-me uma vogal aberta. Conhecer o teu Longe é saber a Força exacta para tocar-Te. Dá-me uma palavra e ficarei salvo.Eis o abismo de Principiar o abismo de Durar o abismo onde se põe a voz como uma ponte de corda a tremer e a cair Amar e cantar até que o corpo se apague? se desintegre? Amar? amar ainda? neste estreito em que as linhas da noite dão um nó de tempestade pura? não sei. É aí.

fortificando) quatro cavalos vendados Ah _______ quatro cavalos agudos Ah _______ o instante do Sinal Ah _______ a força descerra os nervos os nervos da terra Ah _______ a força fende os arcos os arcos da vida Ah _______ da vida Ah _______ 87 Órbitas Primitivas..indd 87 02-05-2007 12:35:07 ..(pianissimo acelerado doloroso) Quatro cavalos vendados Quatro cavalos agudos O instante do Sinal A força descerra os nervos Os nervos da terra A força fende os arcos Os arcos da vida Da vida (mezzoforte acelerado-doloroso alucinado-decidido ido sido de.

.indd 88 02-05-2007 12:35:07 ..(quero uma treva uma redonda para pôr aí a cabeça para arrancar aí os olhos quero um quadrado um mínimo um quadrado de pele minha para escrever isto aí) Ah _______ (quero que comas a treva na pele mínima minha) (Da capo Da capo Até à-afonia à-atonia à-a... à-a.) 88 Órbitas Primitivas.

Deportação: de porto em porto os mastros sofrem de porta em porta os pães enrijam e o Terrível golpeia as naves e os ventres Cela: de pedra em pedra as horas deflagram e a pele cola-se a todas as arestas oleosas Cadáver: Um cadáver que flui que pára que retoma ________ _______ ______ _ _____ _ _ _ _ _______ ___ ____ __ _______ (aí eu entrecorto a linha do respirar travo-me a descer pela boca tropeço quase) (os meus olhos baixos sobre o pé que ataca a subida o degrau puro da respiração esse espaço de ar Bebo-o como o único espaço do mundo o espaço de pôr um pé // apenas // um) (desejo tanto uma coisa mineral terrestre (queria tocar-lhe com o vértice // desta minha meia-noite 89 Órbitas Primitivas.indd 89 02-05-2007 12:35:07 .

indd 90 02-05-2007 12:35:07 .Espero a origem – do lado de amanhã mas este cubo tem sete células sombrias a cercar os vértices não compreende a mudez rara a mudez claramente geométrica e dói-me muito ver a origem convergir assim para aquele ponto o inocente o alheio de todas as cartografias Espero a origem se me amasses não me tecias os cabelos nesse tear tão exíguo não me calçavas os pés com tanta areia e não me lançavas a boca para o Norte esse teu norte onde o umbigo anoitece tão depressa (não quero insistir na miséria exangue dos ruídos sob os quais despertam as tuas coisas nocturnas) 90 Órbitas Primitivas.

Espero a origem – do lado de amanhã Aproximam-se os cristais do vento as órbitas são elípticas mas as fulgurações dançam e as elipses riem – é a alegria e a órbita desdobra os dedos para me tocar (a Oriente o cubo cedeu: as arestas uivam as contorções ferem os vértices impotentes) (o Poema ataca de frente o monstro firma um cerco ferra-lhe o pescoço) 91 Órbitas Primitivas.indd 91 02-05-2007 12:35:07 .

Ora a sede recorda-me o desconforto de uma insónia que por vezes faz da cama um tenso morder um subtil torturar e eu circulo então por todas as posições sem conseguir digerir as pedras pequenas que há diferentemente em todas elas. 92 Órbitas Primitivas. A linha de saliva quebra-se renasce.indd 92 02-05-2007 12:35:07 . Seca-se renasce. Esvai-se renasce. Um certo barro engrossa-me a língua mantém de pé – estremecida – a sede a abstracta sede acelerada.Na minha vida sublinho as paredes pois contra elas a minha língua tacteia aquece fumega sibilante nas planícies caiadas sanguínea nas arestas pétreas. É com esta fricção irregular que tomo o gosto das coisas e dos alongamentos do tempo. Boca na pele boca na luz boca na cinza.

93 Órbitas Primitivas.Pelo labirinto dessa insónia inclinada a língua compreende-me reconhece-me toca-me rema-me e eu não sei como pensar a boca essa confusa proa de tacteamentos. Aí me arrebento truncando sinais no moinho que desvairou.indd 93 02-05-2007 12:35:07 . A evidência desta confusão porém sinto-a clara e irrecusável na sua imponente matéria sensível quando em desencontrados movimentos de boca mordo a minha própria língua.

Procuro-te sob a língua do amor ela diz-me com gestos que partiste para onde não ela repete-me mas eu já não sei ver que nada sob o amor a língua tanto arde tudo que eu e parte e parte e parte a madeira de dentro estremece assim não sei fendem a noite os gelos os fundos eu não eu ? não 94 Órbitas Primitivas.indd 94 02-05-2007 12:35:08 .

Sinto a grande dúvida Ai de mim e do meu labirinto! A escrita arena preta e branca os meus ossos se esfumam aí dois silêncios estreitos metálicos dois espíritos sem saída sem canais subterrâneos dois num declive húmido de mãos suadas a escorrer duas Arena preta e branca as bestas os músculos o vermelho aí a gritar na pele dois silêncios doentes dois frontais sóis a ferver a ferver a ferver muito três três vezes a pedra liquefaz-se e as mãos chovem mais duas duas-a-duas Silêncio O coração é um músculo contorcido O amor começa sempre já em alto mar 95 Órbitas Primitivas.indd 95 02-05-2007 12:35:08 .

ou bem numa cela fechada o corpo dobrado os olhos colados às pedras a furar a grande dúvida inspira expira dentro fora o corpo arqueado muito líquido muito fetal o corpo flui em vagas em ventos o meu corpo escorre sobe e desce o silêncio das pedras pedras chão pedras tecto postas apostas círculo de olhos a furar para dentro o meu corpo cerca-me assalta-me falha-me 96 Órbitas Primitivas.indd 96 02-05-2007 12:35:08 .Sinto a grande dúvida Ai de mim e dos meus profetas! ou bem a cela ou bem a via mas sempre no deserto no tutano dos ossos da questão 1.

hoje todo o dia foi martelos e machados a dançar aí confusos na massa espessa no ácido húmido da língua a minha aí hoje onde fui me busquei aí onde a boca me colou pernoitei aí onde não sei se cheguei se passei aí me consumi a pele aí para arder melhor 2.indd 97 02-05-2007 12:35:08 . em suma a máquina deste dia tinha um eixo deslocado a rodar contra a luz contra o peso desta minha saliva de cinza a máquina deste dia de cerração bebia longamente as minhas forças a sombra da minha busca o cristal dos meus olhos brancos a furar a pedra a vertigem incandescente da questão 97 Órbitas Primitivas. ou bem numa via nua via falésia horizontal o corpo atacado os pés a gritar coisas para cima 3.

De um lado a espada do outro a parede e eu no meio contando-me a minha história muito mal contada. O pó agita-se tanto na minha boca. Houve um tempo em que os rios cantavam no coração das cidades e as praças tinham fontes e no círculo luminoso das fontes brilhavam mais do que águas as vozes de crianças. Ter a origem por destino grãos de pó. Sinto-o granuloso na pele a responder a ventos com erosões curvas que trazem um certo pão quotidiano. Lembro-me de olhar para o lado oceânico daquele silêncio e de concluir com os olhos incendiados: o silêncio deste amor é uma américa nova ainda encoberta sitiada por oceanos quase infinitos – serão necessários séculos para que ela se desenhe nas cartas de marear. Procurei braços encontrei espadas. Procurei portas encontrei paredes. De resto penso muitas vezes no silêncio de um amor que cruzei uma remota noite. 98 Órbitas Primitivas. Vir do pó voltar ao pó. Sinto-o granuloso na língua como sal insípido que me preserva a consciência da via estreita. Não sei.indd 98 02-05-2007 12:35:08 .

indd 99 02-05-2007 12:35:08 . Sei apenas que a verdade é a mesma e que há algo de óssico e de muscular na verdade que trabalha: sou eu articulando-me. Farei do ruído lancinante do mundo um canto de repouso? (não sei) 99 Órbitas Primitivas. Manhã tarde. Eu trabalho. Eu não sei o que fiz não sei se navego ou se durmo na praia. Sétimo dia. Deus dorme.Não obstante o impossível outros teriam transformado o corpo em jangada e partido mar dentro para morrerem lentamente entre as ondas que vão e vêm em ciclos tão abertos e fechados que o movimento é apenas um repouso complicado.

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Índice 7 13 14 16 18 20 22 25 26 28 33 35 37 39 41 42 43 45 49 51 53 55 59 62 66 70 Abertura metapoética Primeiras Agitações da Matéria-Eu [Esta manhã acordei vaga e imensa como uma cidade desabitada] [Num cavalgar alado por desertos por instáveis espelhos de pó] [Ó fragas oceânicas] [Libertação] Primeiras Forças de Atracção [Bebe assim abertamente] [A carne abre a palavra] [Antes da aurora havia já os corpos] [Confesso obscuros rituais biopoéticos] [Queria – ao terminar o poema –] [Era quase Noite quando nos tocámos] [Procuro um antigo poema cirúrgico penetrante didáctico] [Não há uma parábola mística que me conforte o peito] [Da profundidade imperfeita dos sentidos] [O mistério lancinante de três velas sem mastro descia] [Busco compreender os fios de saliva das palavras] [Levanta-se o pórtico da carência] [no acto da minha escrita ou] [O poema sou eu fecundando demónios no útero grávido dos outros] [À Magna hora do voo da voz voltando ao ninho] [Alteraram-se tanto os tempos que a terra tomou outras figuras] [Também há trevas interiores donde se elevam chamas] Primeiras Elipses e Rotações [Com os primeiros passos na via contemplativa] Órbitas Primitivas.indd 101 02-05-2007 12:35:08 .

indd 102 02-05-2007 12:35:08 . A curva mora no Amor] [Imaginai] [Voz Clamante] [Na génese do limiar] Primeiras Circum-Navegações pela Sombra e pelo Sol [(pianissimo acelerado doloroso)] [Deportação] [Espero a origem – do lado de amanhã] [Na minha vida sublinho as paredes] [Procuro-te sob a língua do amor] [Sinto a grande dúvida] [Sinto a grande dúvida] [De um lado a espada] Órbitas Primitivas.72 74 76 78 80 82 83 85 87 89 90 92 94 95 96 98 [O presente é hora de êxodo meu] [Semeia-se o canto Vêm as chuvas] [Imaginai o vale como uma ânfora cheia de perfume] [O Amor é a Ondulação.

SMG. LDA VILA NOVA DE FAMALICÃO quasi@doimpensavel.com.ÓRBITAS PRIMITIVAS FRACÇÕES FUTURAS DE UM TRATADO HELIOCÊNTRICO POR EVA FERREIRA PAULO RENATO CARDOSO BIBLIOTECA “UMA EXISTÊNCIA DE PAPEL” COPYRIGHT QUASI EDIÇÕES APARTADO 562. 252 375 164 Órbitas Primitivas.quasi.pt www. 252 371 724 Fax. LDA ACABAMENTO NA INFORSETE. MAIO 2007 DEPÓSITO LEGAL 000000/07 ISBN 978-989-552-278-1 IMPRESSO NA PAPELMUNDE.pt Tel. AG. 4764-901 VILA NOVA DE FAMALICÃO E PAULO RENATO CARDOSO (2007) 1.indd 103 02-05-2007 12:35:08 .ª EDIÇÃO.

indd 104 02-05-2007 12:35:08 .Órbitas Primitivas.