Madrugada de Deus

Por Fabiane Borges e Hilan Bensusan

Na terceira rodada crescia. Virava ela. Não qualquer ela, a super ela! Mulher maravilha, deusa hiperbólica, gestos travestidos tratorando todas as tramas, aos galopes. Virava outdoor divertindo o público já acostumado à cena fictícia. Mas ela acreditava em tudo, seu delírio era concreto como o paralelepípedo torto que lhe servia de palco. Trejeitos estabanados lhe botava roxa, bra ço roxo, perna roxa e manca. Emitia grunhidos pra terminar frases excêntricas. Sentia tanta dor que dava pena: porque só quando mulher podia chorar, lamentar, falar mazela, se humilhar e ao mesmo tempo: farol, farol, farol!!!! O povo tinha inveja do Espirito Santo dela. Desde pequena escolhida, parida de deus, as vezes mulher, mais velha que a terra, pelo menos aquela cheia de índio que seus ancestrais salvaram, sua avó abençoou, sua … sua... Eu sou o fruto proibido da cena de deus e o esp írito. Maria foi o apelido da puta. Eu estava lá antes de ser pintada a primeira janela de vermelho, pra trazer o sangue de volta. Esse tempo em que o sangue dos homens fugia pela menstrua ção da grande deusa, minha irmã, minhas partes. Fui acometida de todos os delírios quando ele me pegou do umbigo e me cravou mil filhos. Profetiza dos charlatões. Fui escolhida para lhes causar remorso, e tenho uma pequena verruga que cresce no meio das nádegas a cada vez que uma criança se frustra. Eu queria ter salvo a mulher que se afogava, mas a verruga crescia mais que a pobreza na praça. Choro de não ter forças contra esse furúnculo nojento, atribulado, que parece feito de banha. As gargalhadas eram o coro. As gargalhadas uma ópera regida por um homem superior com quem costumava deitar as vezes, fazer amor... Ele deita comigo e me seduz com vozes. Me deixa ouvir o som da luz escorregando dos lábios soltos, feito vulvas barulhentas. Mas eu só tenho notícia da platéia, quando fora do lugar – seria então aquilo a revelação que muitos já desesperaram por anos? Era igreja aquilo? Altar para os deuses que foram subestimados... ou terreiro autônomo temporário. Ou seria uma ópera súbita? Uma megalomaníaca sobre a calçada que é palco que é teatro que é carro de som que é santuário e que é só fachada e, Deus às éguas, tudo pode acontecer. Já enxergam tudo de uma vez, os aposentados gritando, as putas virando ministras, os generais desistindo, as transeuntes arrancando as roupas das outras transeuntes, os peitos dando champagne de mamar, os paus da platéia virando estacas para um trem pagador passar, as crianças armadas até os dentes, as televisões quebrando, as coorporações rachando, os presidentes caindo... Ela, ela era a pastora das possibilidades, ríspida e meticulosa. Quem mais poderia ter notícias dela – ela nunca poderia parar em nenhuma notícia, não cabia nelas, era descabida. Eu fui chamada para dirigir Madona, aquele mulherão, mas não suporto gente disciplinada demais, rejeitei o trampo, decidi eu própria loira, eu própria roupas de coro, fivelas, saltos altos, cintas ligas, saltos cinzas, coloridos, correntes, impaciência, gravatas, meias rasgadas e cintura fina. Eu cantei para as multidões tristes, para os desencantados e provei que minha buceta tinha quatrocentos milhões de tentáculos e que listas azuis apareciam nos meus gestos velozes. A energia condensada em forma blues, céu compacto em boa forma de dançarina. Elas gritavam meu nome e me queriam exemplo para toda obra, toda máxima. Naqueles dias de sons ágeis e drogas sofisticadas eu moldei corpos e comportamentos. As cartas nunca vi onde pararam, dos emails perdi a senha. As provas são essas marcas nas axilas, de quando elas me ergueram em duas estacas afiadas, me cantando. Seus gritos atravessavam meu corpo como flechinhas de madeira. Eu não sentia dor. Eu sentia um

furacão que crescia no meio daquela multidão sedenta da minha performance. Cruzei as pernas e emiti o mais sublime dos cantos. Quase quatro anos de luto axilar e voz rouca. Agora liberadas não me procuram, já lhes servi o manjar da libertação. Um por ano, durante uma vida inteira. E depois vivi toda a devassidão dessa decadência que me engasga. Fumo demais e me afogo em 40 copos de álcool com algum sabor. Fui a cantora mais poderosa do mundo. Ele também bebia seus copos tártaros, cossacos que seguiam descendo um a um depois de incorporar a mega ela que ele não queria deixar minguar. Ela tinha que se esbaldar de si, não podia ser vista transformada na megera de fim de noite que pede golfadas do conhaque dos outros, mesmo mordido de lábios bêbados, catados de copos desperdiçados. Aquele líquido ardente tinha que seguir fluindo, boca adentro até a bexiga cinzenta que nem o fazia interrromper seus rituais submersivos, já que todos os banheiros eram seus, todos os objetos eram seus urinóis e seus vasos superprotegidos e seus penicos e seus arbustos. Tétrica. Quem a via via a indecência e a respirava como coisa santa e bruxa e porca e abençoada. O dia em que o mar me acompanhou por achar que eu era quem sabia amar, e assim, para que ficar entre as ostras, as conchas e ter ondas? Largou as sereias, as baleias, todas as areias, as éguas marinhas, os porcos espinhos do fundo do mar e me pegou pelo braço e andou ao meu lado. Um encantador de oceano? Na sarjeta de madrugada, se mijando sem saber da forma da sua genitália e compelindo todos os olhos e ouvidos a estarem de velas acesas, a prestarem devo ção incondicional. É que o universo também para, estanca, fica embasbacado e espera a avalanche de um delírio se corroer. As estrelas, a platéia. E não seria aquele a Madonna, a Madona, o simulacro de um avatar? Nas ruas despatrulhadas da madrugada não há propriedade, não há originalidade de sarjeta, não há nem arquétipos nem cosméticos. Ela seria a imitação, um arremedo, um embuste. Mas quem tiraria das garrafas vazias de vinho alguma carteira de identidade, quem certifica a autenticidade? A cada dia, e para a glória de todos os gestos ratos, tudo imita tudo. Paris is burning. O centro metafísico do mundo é aquele paralelepípedo. Todas as credenciais são periferias. Uma das visões da noite anterior lhe deixou insone. Um grande bisturi cinza, do tamanho de uma nuvem. Logo ele e ela que tinha medo de chuva. Que tinha medo de médico. De dentista. De zoológico. De roupas brancas. De olhares severos. De caras feias e respostas bravas. Um bisturi significava tudo isso. Estava farta de ameaças. Logo a mãe baixada no hospital fazendo operação, rasgando rins a fora, tudo compreendido, era deus, seu amante ilegítimo lhe contando segredos, atrevido, condescendente, mil brindes, aleluia!!!! A mulher reticente e velha morreria e alguma coisa substancial aconteceria. Talvez uma transformação na silhueta, na conta corrente, na ponta do dedo indicador poderoso, cheio de magia, onde carregava um anel em forma de cobra verde. O bisturi era peixeira e era canivete e a rua oráculo, encruzilhada, tentáculo – os garçons suspensos no ar já que poderiam estar vendo a encenação condensada de seus destinos ou podiam terminar a noite com ele, com as unhas de suas mãos que arranhavam as costas daquele deus improvisado. O bisturi nos lábios, o medo, a cobra verde nos dedos, resvalando pelos braços, pelas vísceras, pelas nádegas fizeram parar também o Haroldo, que morava na rua de um empreendimento imobiliário de papelão que ele construía a cada dia. Também Haroldo ficou em suspensão a caminho da casa. Seu caminho de casa era diferente a cada dia mas naquela noite ele escolhera a cal çada de longe, ele já carregava no seu ombro sua mobília, seu chão, sua parede, todos os seus domínios para aquela noite, e eram demasiados. Haroldo com os olhos fixos nele incorporado, arfando e mais tardio que qualquer f ísica, uma dimensão suplementar de supetão, a glória desvalidaria se tivesse salvação o submundo. Haroldo colocou a mão sobre a cara e sentou no chão, não podia ver e cheirar, não podia deixar de ouvir os barulhos entorpecidos do velho amante de deus. Ele sabia ser seu ouvido mais honesto, mais

devolutivo, mas envolvido, mas confessava estar cansado de ser usado na rua, por um enrustido, que só sabia de si quando alavancado por garrafas esvaziadas por sua sede devassa. Não queria emprestar nenhum órgão sequer para o monstruoso profeta travestido, para logo em seguida ser humilhado, esquecido e alvo ainda de remorsos matutinos. Esse amor era inviável. Um nômade mendicante nomádico e um fiasco ambulante enrustido. Não haveria consolo para tão invertidos desejos. Sete anos vivendo na rua, sem nenhuma ajuda do amante. Sobrava a serrana bela, que conheceu na infância, conhecia de cor – gostava: serviam por ela, e queriam servir mais. Quem gosta de ser alguma outra coisa, diferente de uma vaca sagrada? Mas suas tetas ardiam. Estética do sofrimento... Foi sofrendo que disse as melhores frases, deu as maiores gargalhadas, gritou o nome do amor à exaustão, perdeu a voz de novo, chorou falando nas enchentes e atravessou o rio três, quatro vezes, sem parar um segundo de gritar, porque o grito fazia vazar, era o ladrão por onde a mágoa escorria, por onde a pororoca dobrava e ruía. O grito fazia da gargalhada, ruido. Ruminava. Rangia. Roncava em afazia. Em falta de ar. Obnubilado. Os escandalizados diziam que era feio sofrer assim, que não era direito, que se assustavam com o gutural, com o contralto desafinado. Eles tinham medo que ela morresse, caísse, fosse violada, porque perdia o controle, falava sozinho, gritava passante, perdia telefones, a hora, amantes, dignidade. Era um escândalo! Falava poemas aos tropeços com língua bagaceira, sem respeito. Mostrava as tetas por qualquer dinheiro. Tetas que só tinha à noite quando ensandecia. Essa alegria toda tinha também seu repuxo, sua ressaca, que se misturava a um mal humor crônico, que não lhe largava e com o qual tinha acostumado a ver a vida. Tinha algo de honesto no mal humor, talvez a irredutibilidade, a falta de concessão, a precisão com que o corpo responde ao que importa ou não importa. A certeza com que diz não, e ponto final. Aquela que fica irredutível. Irredutível. Como os deuses, as mitocôndrias e as ninfas. Foi num dia mal humorado e rasteiro que supôs lucidez. Não perverteria nenhuma forma. Creditaria na conta do amante a generosa e pequena fortuna da mãe morta. Que nem era santa. Isso sim era um ato, bem mais que humano, porque um mandato divino. O brilhantismo é flash. Nem sempre rastro ou saída. Um instante muda toda narrativa. E foi com olhos de santa que deu ao amante ofendido toda as pratarias. Sem piscar olho ou zelo, convicto e sóbrio, três horas da tarde. Ao amante de rua sobrou a dúvida de como proceder. Mas sempre soube que a megalomania tinha poder. Deitou-se sobre seus pés derretido, e artista criativo iniciou o grande altar. As pedrinhas de ouro nos cantos, bem colada com cimento roubado da construção da igreja evangélica. As correntes formando o nome da estrela. Pingos de pérolas nos assentos do seu nome. E por fim as moedas estrangeiras, detalhando uma constelação exibida e mendiga. E foi assim que se fez, o altar da profeta Megalômana. Atravessado de santerias e rumores. Culto de travestis e outros demônios. Que perdura no centro da cidade, perto da lata de lixo, como resumo do amor mais escondido que j á se viveu. E do tamanho de Deus.

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