fls.

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ESTADO DO AMAZONAS PODER JUDICIÁRIO Comarca de Manaus Juízo de Direito da 5ª Vara Cível e de Acidentes de Trabalho Processo Nº: 0615568-65.2013.8.04.0001 Ação: Procedimento Ordinário Requerente: Samuel Camara Requerido: Convençao Geral das Assembleia de Deus no Brasil - CGADB SENTENÇA
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Vistos etc.

Trata-se de ação anulatória com pedido de antecipação de tutela, ajuizada por SAMUEL CÂMARA, qualificado na inicial, em face de CONVENÇÃO GERAL DAS ASSEMBLÉIAS DE DEUS NO BRASIL (CGADB), igualmente identificada, visando à declaração da nulidade do processo disciplinar promovido pela ré, que implicou a extromissão do autor dos quadros da CGADB. Aduz o autor que foi notificado em 04 de junho de 2013 sobre a decisão da Mesa Diretora da ré que o excluiu da referida entidade, em desrespeito ao devido processo legal e seus corolários da ampla defesa e do contraditório. Ressalta que, a despeito de ter reiteradas vezes solicitado cópias dos autos do processo disciplinar, jamais foi atendido. Aduz, como tema de fundo, que o fato que teria servido de base à representação, consistente na pretensa desordem comandada pelo autor, na reunião realizada na cidade de Maceió, não foi comprovada, seja porque se trata de um homem de idade, seja porque se trata de um temente a Deus. Av. Paraíba S/Nº, 3º andar, Setor 06, São Francisco - CEP 69079-265, Fone: 3303-5115 /5116, Manaus-AM - E-mail: 5acivel@tj.am.gov.br

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ESTADO DO AMAZONAS PODER JUDICIÁRIO Comarca de Manaus Juízo de Direito da 5ª Vara Cível e de Acidentes de Trabalho Por derradeiro, pugna pela declaração de nulidade da decisão que o desligou da entidade, bem como pela sua reintegração. Postulou ainda a imposição de astreintes e a antecipação da tutela jurisdicional. Acostou à inicial os documentos de fls. 11/46. Deferida a antecipação de tutela (fls. 47/50). Ao contestar o pedido (fls. 128/155), a ré afirmou que o autor age sob o signo da má-fé, pois os fatos que lhe foram atribuídos, realmente, ocorreram, e que, ao revés do que foi dito na peça de ingresso, o autor não é um cidadão anoso, pois tem menos de 55 anos de idade. Argumenta, no tocante à alegação de violação do contraditório e da ampla defesa, que o autor teve amplo e irrestrito acesso aos documentos constantes do procedimento disciplinar, e sempre que foi instada a fazê-lo, forneceu cópias aos advogados do demandante. Alega que a exclusão do autor não possui qualquer mácula apta a ensejar a nulidade dos atos. A ré, ainda em sua resposta, veiculou
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argumento alusivo à incompetência do juízo, questão que foi objeto de exceção, devidamente processada e julgada por esse juízo, que propendeu pelo seu inacolhimento. Para evitar tautologia, crê-se desnecessária a abordagem do tema nesta sentença. Juntou os documentos de fls. 156/221. Vieram a mim. Decido. A lide comporta julgamento antecipado, nos termos do art. 330, I, do diploma processual civil, haja vista a suficiência do conjunto probatório encartado aos autos para o deslinde da controvérsia, Av. Paraíba S/Nº, 3º andar, Setor 06, São Francisco - CEP 69079-265, Fone: 3303-5115 /5116, Manaus-AM - E-mail: 5acivel@tj.am.gov.br

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ESTADO DO AMAZONAS PODER JUDICIÁRIO Comarca de Manaus Juízo de Direito da 5ª Vara Cível e de Acidentes de Trabalho sendo despicienda a produção de provas em audiência. De acordo com o autor, o seu desligamento teria ocorrido sem a comprovação da justa causa e com ofensa ao devido processo legal e seus corolários constitucionais do contraditório e da ampla defesa. No que concerne à alegação de que reiterados pedidos de vista aos autos foram indevidamente negados pela ré, o exame detido dos autos não demonstra com clareza que isso tenha ocorrido. Portanto, refuto tal fundamento. Há, contudo, outros fundamentos relevantes a conferir respaldo à pretensão. Ressalte-se que a eficácia direta dos direitos fundamentais às relações privadas, no que vem sendo chamado de “eficácia horizontal dos direitos fundamentais”, encontra forte ressonância na doutrina pátria e na Excelsa Corte. Nessa trilha, trago o seguinte aresto:
EMENTA: SOCIEDADE CIVIL SEM FINS LUCRATIVOS. UNIÃO BRASILEIRA DE COMPOSITORES. EXCLUSÃO DE SÓCIO SEM GARANTIA DA AMPLA DEFESA E DO CONTRADITÓRIO. EFICÁCIA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS NAS RELAÇÕES PRIVADAS. RECURSO DESPROVIDO. I. EFICÁCIA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS NAS RELAÇÕES PRIVADAS. As violações a direitos fundamentais não ocorrem somente no âmbito das relações entre o cidadão e o Estado, mas igualmente nas relações travadas entre pessoas físicas e jurídicas de direito privado. Assim, os direitos fundamentais assegurados pela Constituição vinculam diretamente não apenas os poderes públicos, estando direcionados também à proteção dos particulares em face dos poderes privados. II. OS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS COMO LIMITES À AUTONOMIA PRIVADA DAS
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ASSOCIAÇÕES. A ordem jurídico-constitucional brasileira não conferiu a qualquer associação civil a possibilidade de agir à revelia dos princípios inscritos nas leis e, em especial, dos postulados que têm por fundamento direto o próprio texto da Constituição da República, notadamente em tema de proteção às liberdades e garantias fundamentais. O espaço de autonomia privada garantido pela Constituição às associações não está imune à incidência dos princípios constitucionais que asseguram o respeito aos direitos fundamentais de seus associados. A autonomia privada, que encontra claras limitações de ordem jurídica, não pode ser exercida em detrimento ou com desrespeito aos direitos e garantias de terceiros, especialmente aqueles positivados em sede constitucional, pois a autonomia da vontade não confere aos particulares, no domínio de sua incidência e atuação, o poder de transgredir ou de ignorar as restrições postas e definidas pela própria Constituição, cuja eficácia e força normativa também se impõem, aos particulares, no âmbito de suas relações privadas, em tema de liberdades fundamentais. III. SOCIEDADE CIVIL SEM FINS LUCRATIVOS. ENTIDADE QUE INTEGRA ESPAÇO PÚBLICO, AINDA QUE NÃO-ESTATAL. ATIVIDADE DE CARÁTER PÚBLICO. EXCLUSÃO DE SÓCIO SEM GARANTIA DO DEVIDO PROCESSO LEGAL.APLICAÇÃO DIRETA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS À AMPLA DEFESA E AO CONTRADITÓRIO. As associações privadas que exercem função predominante em determinado âmbito econômico e/ou social, mantendo seus associados em relações de dependência econômica e/ou social, integram o que se pode denominar de espaço público, ainda que nãoestatal. A União Brasileira de Compositores - UBC, sociedade civil sem fins lucrativos, integra a estrutura do ECAD e, portanto, assume posição privilegiada para determinar a extensão do gozo e fruição dos direitos autorais de seus associados. A exclusão de sócio do quadro social da UBC, sem qualquer garantia de ampla defesa, do contraditório, ou do devido processo constitucional, onera consideravelmente o recorrido, o qual fica

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impossibilitado de perceber os direitos autorais relativos à execução de suas obras. A vedação das garantias constitucionais do devido processo legal acaba por restringir a própria liberdade de exercício profissional do sócio. O caráter público da atividade exercida pela sociedade e a dependência do vínculo associativo para o exercício profissional de seus sócios legitimam, no caso concreto, a aplicação direta dos direitos fundamentais concernentes ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa (art. 5º, LIV e LV, CF/88). IV. RECURSO EXTRAORDINÁRIO DESPROVIDO. (STF. RE 201819, Relator(a): Min. ELLEN GRACIE, Relator(a) p/ Acórdão: Min. GILMAR MENDES, Segunda Turma, julgado em 11/10/2005, DJ 27-10-2006 PP-00064 EMENT VOL-02253-04 PP-00577)

O legislador, atento a isso, alterou a redação do artigo 57 do vigente Código Civil, por meio da Lei nº. 11.127 de 2005, e passou a exigir expressamente, para exclusão de associado, a presença de justa causa, comprovada em procedimento administrativo, assegurado o direito de defesa e de recurso. Pois bem, da representação formulada pelos pastores Sebastião Rodrigues de Souza e Juvanir de Oliveira, que eclodiu o processo disciplinar ora objetado, extrai-se que o autor e outros três pastores teriam, sem qualquer motivo aparente, sob o comando do primeiro, “gritado palavras de ordem”, e provocado “confusão ou desordem em plenário”. Segundo, ainda, a apontada peça, “o principal responsável e instigador do tumulto instalado no conclave, foi o Representado Pr. Samuel Câmara, apoiado pelos demais Representados, que de uma posição privilegiada da plataforma, estrategicamente planejada, comandava e determinava, por gestos e voz, o comportamento da trba, tudo isso acompanhado pelos membros da CIMADB e das demais Convenções a ele Confederados, coadunados por seus Av. Paraíba S/Nº, 3º andar, Setor 06, São Francisco - CEP 69079-265, Fone: 3303-5115 /5116, Manaus-AM - E-mail: 5acivel@tj.am.gov.br

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ESTADO DO AMAZONAS PODER JUDICIÁRIO Comarca de Manaus Juízo de Direito da 5ª Vara Cível e de Acidentes de Trabalho respectivos presidentes, como exemplo: CEADIF, CEADAM

e
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CONFRATERES”. E, em remate, diz: “… os representados passaram a se comportar com desvario, de forma iníqua, perversa e maldosa contra a CGADB, Mesa Diretora bem como da própria Assembléia Geral, procedendo da seguintes forma: 1) Ataques verbais ao presidente da CGADB e dos trabalhos convencionais; 2) Incitamento a desordem, ao desrespeito e a indiscipline, interrompendo a palavra do presidente da sessão; 3) Fazer uso da palavra na sessão em plenário sem autorização; 4) Cerceamento do direito de livre manifestação dos demais convencionais, haja vista a impossibilidade do uso da palavra diante da bagunça instalada sob o comando do Representado, Pr. Samuel Câmara, com apoio dos demais Representados, que usavam de gestos e sinais de comando.” (fls. 156/159) Como a lei civil não conceitua e não enumera as hipóteses de justa causa, fica a cargo do Estatuto da associação fazê-lo ou, ao menos, prevê-la. Assim, cumpre verificar o que diz o estatuto da ré a respeito:
“Art. 9º. É vedado aos membros da CGADB: I - abrir trabalhos em outra região eclesiástica e receber ministros ou membros de uma Assembléia de Deus no Brasil atingidos por medida disciplinar; II - apoiar, em qualquer hipótese, trabalhos dissidentes por acaso existentes ou que venham a existir em qualquer região eclesiástica da mesma fé e ordem; III - vincular-se a qualquer tipo de sociedade secreta; ? IV - vincular-se a movimento ecumênico; V - vincular-se a mais de uma Convenção Estadual ou Regional; VI - vincular-se a outra convenção nacional ou de caráter geral, com abrangência e prerrogativas da CGADB; VII - exercer seu ministério isoladamente, sem vínculo a uma Convenção Estadual ou Regional;

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VIII - exercer funções ministeriais, isoladas ou não, onde a Igreja ou Convenção Estadual ou Regional da qual se transferiu, mantenha atividades; IX - descumprir as normas estatutárias, regimentais e demais resoluções da CGADB.

De acordo ainda com o art. 10 do mesmo Estatuto:
“Perderão a condição de membros da CGADB os infratores do disposto no artigo 9.º deste Estatuto.”

Por sua vez, o Regimento Interno da entidade ré define as penas disciplinares e as condutas passíveis de ensejar as suas respectivas aplicações, a saber:
Art. 128. O membro da Convenção Geral está sujeito às seguintes penas disciplinares: I - advertência; II - suspensão; III - desligamento. Parágrafo único. As penas disciplinares previstas neste artigo serão aplicadas de acordo com a gravidade da falta, sendo assegurado ao infrator, o pleno direito de defesa. Art. 129. Será aplicada advertência ao membro que: I - for inadimplente com a contribuição que trata o art. 8º, inciso III, do Estatuto da CGADB; II - quando convocado, não comparecer, sem prévia justificação, a três reuniões sucessivas da Assembléia Geral da CGADB; III - quando convocado, não comparecer, sem prévia justificação, quando convocado para outras reuniões ou audiência no âmbito da CGADB; IV - alterar a bandeira e/ou o hino oficial da Convenção Geral. Art. 130. Será aplicada suspensão ao membro que: I - reincidir nas faltas referidas no artigo anterior; II - faltar com decoro e o devido respeito aos demais membros numa Assembléia Geral ou em reunião dos

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demais órgãos da Convenção Geral; III - desrespeitar a boa ordem e disciplina nas sessões da Assembléia Geral, ou fizer uso da palavra sem a devida autorização do Presidente. Art. 131. Será aplicado o desligamento ao membro que: I - transgredir o art. 9º do Estatuto da CGADB; II - for julgado e condenado em juízo, pela prática de crime incompatível com o exercício do ministério, após o parecer do Conselho de Ética e Disciplina; III - desobedecer o credo doutrinário das Assembléias de Deus no Brasil, publicado no órgão oficial da Convenção Geral – Mensageiro da Paz; IV - negar-se a entregar a congregação ou igreja que esteja dirigindo, com o respectivo patrimônio da mesma à Igreja ou Convenção Estadual ou Regional na qual estava filiado e não assumir o ônus por débitos indevidamente contraídos em sua gestão; V - não cumprir o Estatuto, o Regimento Interno, as Resoluções da Assembléia Geral e da Mesa Diretora da Convenção Geral.

Pelo

que

se

infere

dos

termos

da

representação formulada contra o ora autor, este teria agredido verbalmente o presidente da CGADB, incitado a desordem, feito uso da palavra sem autorização e cerceado a palavra dos convencionais, em razão da suposta barafunda instalada sob o seu comando. A precitada representação, todavia, não

descreveu em que teria consistido as alegadas ofensas bradadas contra o presidente da entidade e tampouco explicitou a forma como ele teria comandado a alegada desordem. Já o Relatório do Conselho de Ética e Disciplina, no qual se louvou a Mesa Diretora para desligar o autor da entidade ré, fez a cronologia das etapas do procedimento, e, no mérito propriamente dito, afirmou que restaram comprovadas as imputações feitas aos

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ESTADO DO AMAZONAS PODER JUDICIÁRIO Comarca de Manaus Juízo de Direito da 5ª Vara Cível e de Acidentes de Trabalho representados, porque as “imagens constantes das gravações CD/DVD” seriam “claras e inequívocas, quanto à materialidade, a presença dos representados e a autoria dos atos praticados”. (fls. 185/191) A simples afirmativa, vazada em termos vagos e genéricos, de que a mídia comprovaria os fatos narrados na representação não cumpre com o dever constitucional de fundamentação, de inafastável aplicação, também, em processo disciplinares envolvendo particulares. Seria de rigor que houvesse não somente a descrição do conteúdo do CD/DVD, mas também da conduta individualizada do autor, com a menção clara e objetiva dos tipos de ofensas proferidas contra o presidente da CGADB, de modo a demonstrar a sua efetiva existência e se elas, caso existindo, poderiam ter o condão de depreciar a imagem ou a honra da pessoa dita ofendida. Não se poderia prescindir dessa providência até mesmo em face do princípio constitucional, segundo o qual ninguém pode ser compelido a exercer ou deixar de exercer direito ou função com que tenha sido contemplado por lei ou pacto social. No caso, ademais, não se sabe sequer se a ré disponibilizou o dito CD/DVD aos representados, uma vez que nos autos não há qualquer indicativo de que isso tenha ocorrido. Uma sanção tão grave, como sói ser a extromissão de associado de uma entidade associativa, não pode apoiar-se em singelas afirmativas, sem a cabal demonstração da infração atribuída ao associado. Sob esse prisma, pois, não se hesita afirmar que os fatos narrados na representação não foram comprovados. E ainda que eventualmente a ré houvesse logrado comprovar os fatos atribuídos ao autor, a este, quando muito, poderia ser aplicada a pena de suspensão, na forma do art. 130, II e III, do Regimento Interno, figuras típicas nas quais as condutas do demandante, em tese, se Av. Paraíba S/Nº, 3º andar, Setor 06, São Francisco - CEP 69079-265, Fone: 3303-5115 /5116, Manaus-AM - E-mail: 5acivel@tj.am.gov.br
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ESTADO DO AMAZONAS PODER JUDICIÁRIO Comarca de Manaus Juízo de Direito da 5ª Vara Cível e de Acidentes de Trabalho enquadrariam, e não nas previsões dos artigos 8º, I, 9º, IX, do Estatuto da CGADB e artigos 127 e 130 e 131, V, do Regimento Interno da mesma entidade, porque, diversamente do artigo 130 e inciso, que descrevem infrações de forma restrita, aqueles dispositivos tipificam ilícitos associativos de modo tão aberto a ponto de impossibilitar o direito de defesa. Alexandre de Moraes adverte que embora "não exista necessidade de tipificação estrita que subsuma rigorosamente a conduta à norma, a capitulação do ilícito administrativo não pode ser tão aberta a ponto de impossibilitar o direito de defesa, pois nenhuma penalidade poderá ser imposta, tanto no campo judicial, quanto nos campos
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administrativos ou disciplinares, sem a necessária ampla defesa" (Direito constitucional . 14. ed. São Paulo: Atlas, 2003. p. 123-124). Sob esse específico aspecto, verificou-se, também, transgressão ao direito de defesa, de cunho constitucional, de natureza pública, a autorizar o conhecimento da matéria independente de provocação da parte interessada. Outro aspecto relevante que, a despeito de não ter sido objeto de ataque direto, mas que por versar matéria de ordem pública se mete, igualmente, na esfera de oficialidade judicial, e, por isso mesmo, autoriza o conhecimento do juiz de ofício, diz respeito à inobservância do princípio da bilateralidade como dado imanente ao caráter dialógico de todo processo, seja ele judicial ou administrativo. De fato, a defesa apresentada perante o Conselho de Ética e Disciplina da entidade ré argumentou que os representados não infringiram as disposições estatutárias e regimentais da entidade, apenas fizeram valer o seu direito de voz e voto quando da discussão de matérias postas em votação. O Conselho de Ética e Disciplina, Av. Paraíba S/Nº, 3º andar, Setor 06, São Francisco - CEP 69079-265, Fone: 3303-5115 /5116, Manaus-AM - E-mail: 5acivel@tj.am.gov.br

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ESTADO DO AMAZONAS PODER JUDICIÁRIO Comarca de Manaus Juízo de Direito da 5ª Vara Cível e de Acidentes de Trabalho quando da emissão do parecer, e a Mesa Diretora, quando do julgamento, não se reportaram em nenhum momento aos fundamentos manejados pelos representados. Dessa forma, ao deixar de apreciar a tese dos representados, a ré ignorou aquilo que a doutrina alemã cunhou de Anspruch auf rechtliches Gehör, ou seja, os direitos do autor de ver seus argumentos devidamente apreciados. Tal direito é corolário do princípio da
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bilateralidade resultante do contraditório e da ampla defesa, como se observa do disposto no art. 5º, LV da CRFB/88:
"Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: (...) LV - aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes;(...)"

Maria Sylvia Zanella Di Pietro, sobre a matéria, esclarece:
"O princípio do contraditório, que é inerente ao direito de defesa, é decorrente da bilateralidade do processo: quando uma das partes alega alguma coisa, há de ser ouvida também a outra, dando-se-lhe oportunidade de resposta.”

O

contraditório

e

a

ampla

defesa

não

constituem meras manifestações das partes em processos judiciais e administrativos, mas, e principalmente uma pretensão à tutela jurídica (Curso de direito constitucional, 4ª ed., São Paulo, Saraiva, 2009, p.592 ). Portanto, no ponto, verificada ofensa ao Av. Paraíba S/Nº, 3º andar, Setor 06, São Francisco - CEP 69079-265, Fone: 3303-5115 /5116, Manaus-AM - E-mail: 5acivel@tj.am.gov.br

fls. 295

ESTADO DO AMAZONAS PODER JUDICIÁRIO Comarca de Manaus Juízo de Direito da 5ª Vara Cível e de Acidentes de Trabalho contraditório, impõe-se, por consequência, a nulidade do processo disciplinar. Pontue-se, por derradeiro, que, embora
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posições mais conservadoras defendam a tese de que as deliberações associativas não são passíveis de ser sindicadas pelo Poder Judiciário, a norma prevista no art. 5º, XXXV, da Constituição Federal infirma tal entendimento, pois sempre que o motivo da exclusão não constitua justa causa ou, caso tenha decorrido, da exclusão por justa causa, lesão ou ameaça de lesão a direitos, haverá oportunidade à intervenção do Poder Judiciário. Assim, entrevê-se motivos patentes e graves, suficiente a ensejar a declaração da nulidade do desligamento do autor. Dito desta maneira, julgo procedente o pedido para declarar a nulidade do processo disciplinar nº 036, assim como todos os atos dele derivados (apensos 024/12, 026/12, 034/12, 037/12 e 043/12, tudo nos moldes acima descritos. Determino ainda a imediata reintegração do autor nos quadros da entidade ré. Confirmo, neste ato, os efeitos da tutela concedida liminarmente. Por fim, condeno a ré ao pagamento das custas e despesas processuais, além de honorários de advogado do autor, os quais fixo em R$ 5.000,00 (cinco mil reais). P. R. I.C. Manaus, 21 de novembro de 2013. José Renier da Silva Guimarães Juiz de Direito

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