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Um novo conceito para a Historiografia - entrevista com o historiador José D'Assunção Barros

José D'Assunção Barros é o primeiro historiador a ser entrevistado pela Rede Histórica. Autor que transita em diversos campos de estudo, destaca-se nas áreas de Teoria e Metodologia da Histórica. Professor da UFRRJ, lançou recentemente pela Editora Vozes quatro volumes de Teoria da História: princípios e conceitos fundamentais (volume I), os primeiros paradigmas: historicismo e positivismo (volume II), os paradigmas revolucionários (volume III) e acordes historiográficos: uma nova proposta para a teoria da história (volume IV). Rede Histórica: O primeiro volume procura apresentar os conceitos fundamentais da Teoria da História. Quais são esses conceitos? Que papel desempenham na formação de um historiador (a)? José D’Assunção Barros: Para trazer mais consistência à resposta que darei a esta pergunta, gostaria de lembrar, antes de mais nada, que a Teoria da História não é apenas uma mera instância para ser instrumentalizada pelos historiadores nas suas diversas áreas de estudo e nas suas pesquisas. A Teoria da História, além de ser isto em um dos seus sentidos, é também uma área específica de pesquisa e reflexão dentro da História: uma área que estuda, analisa e problematiza o trabalho dos historiadores, suas maneiras de ver e fazer a história, os modos como eles escrevem as suas narrativas e desenvolvem as suas análises, os tipos de associações que os historiadores estabelecem entre si. Compreendido este sentido mais amplo para a expressão "Teoria da História" (e esta expressão já é ela mesma um dos conceitos fundamentais para este campo), é preciso também ressaltar que a expressão "teoria da história" também pode ser utilizada para designar cada um dos diversos modos de conceber a história como modalidade específica de conhecimento, de maneira que se pode dizer que existem diversas "teorias da história" ou "paradigmas historiográficos". As "teorias da história" neste sentido mais específico (de paradigmas) devem ser bem distinguidas das "filosofias da história", uma questão à qual me dedico em um dos capítulos deste primeiro volume. Também considerei muito importante esclarecer as implicações de a História ser concebida como uma disciplina científica, isto é, como um "campo disciplinar" (este é, aliás, um conceito importante com cuja discussão eu praticamente abro o livro). Além disto, o esclarecimento sobre a distinção entre “Teoria” e “Método” foi outro ponto fundamental desta primeira parte da obra. Sobretudo, para fixar alguns conceitos operacionais com vistas à tarefa de analisar o trabalho dos historiadores da nossa época e das anteriores, concluí que era muito importante discorrer sobre os conceitos de "paradigma", "matriz disciplinar", "escola histórica", "campo histórico". A cada um destes conceitos eu dedico uma discussão importante no primeiro volume da minha coleção Teoria da História, uma vez que eles são necessários para a tarefa à qual me dedico nos demais volumes, a saber: a de abordar o desenvolvimento da historiografia e o trabalho dos inúmeros historiadores, com suas formas específicas de conceber e fazer a história. Rede Histórica: Quais são as diferenças e semelhanças entre Teoria da História e Filosofia da História? Como distinguir Teoria de Método?

a necessidade de lidar com informações de forma mais sistemática. pois ela é de caráter mais geral. preciso novamente de metodologia. Os físicos também têm inúmeras teorias sobre os diversos fenômenos pertinentes aos seus campos de estudos. e inúmeras outras operações. “Ver”. A expressão. o Positivismo. neste sentido. os biólogos.José D'Assunção Barros: Estas delimitações são ambas muito importantes para a compreensão desta área de estudos que é a Teoria da História. preciso de mais metodologia. A Metodologia surge quando você tem uma tarefa específica a ser realizada. da realidade ou relacionado aos diversos campos de saber. a metodologia surge quando entram em cena os procedimentos de pesquisa. Para os historiadores. aqui. A Metodologia. por assim dizer. assim como os químicos. sua natureza. Vale dizer. o Materialismo Histórico. Particularmente. Para comparar resultados possibilitados por diversos níveis de análise. neste nível de sentido. Agora vamos entender o que é a “Metodologia”. Se a “Teoria” relaciona-se ao verbo “ver”. A distinção entre “filosofia da história” e “teoria da história” é mais sutil. É importante também ressaltar que não existe apenas uma teoria para cada fenômeno ou assunto. eu procuro mostrar que uma Teoria – inclusive em vista da própria etimologia da palavra – relaciona-se a um certo modo de “ver” as coisas. Para constituir minhas fontes de estudo – a partir das quais conseguirei enxergar uma sociedade ou processo histórico – preciso de metodologia. mas sobretudo no sentido de “conceber” algo. enfim. estou me referindo aos diferentes modos como estes fenômenos têm sido vistos pelos historiadores e cientistas políticos. mas que correspondem cada qual a um domínio específico. a Metodologia relaciona-se ao verbo “fazer”. Soa grandes “teorias da história”. os antropólogos e tantos outros praticantes de campos específicos do conhecimento. liga-se ao “fazer”. em vários níveis de ação. deve ser entendido não apenas no sentido de olhar ou contemplar. que interagem um com o outro. fenômeno ou processo histórico. Para analisar este ou aquele tipo de fontes. gráficos que sintetizam informações e tendências). Quando contraponho estas duas expressões – o que fiz no segundo capítulo do primeiro volume da coleção Teoria da História – estou entendendo “teoria da história” no sentido mais específico: „teoria da história‟ como qualquer uma das diversas maneiras de conceber o conhecimento histórico. mas inúmeras teorias sobre cada elemento a ser estudado em cada qual dos vários campos de conhecimento. teoria e metodologia constituem os alicerces principais da constituição do conhecimento científico. para cada aspecto da realidade. O que ocorre com as diversas “teorias da história” – ou com os diversos modos de . Juntos. Ver e fazer – ou “Teoria” e “Metodologia” – são dois gestos fundamentais para os praticantes de qualquer tipo de conhecimento: dois gestos que na verdade se interligam. Há mesmo metodologias para expor resultados de uma pesquisa (por exemplo. Começarei a falar da segunda. de entender de determinado modo algum aspecto da natureza. o Historicismo. também pode ser substituída por uma outra: o conceito de “paradigma”. metodologia está muito ligada a fontes históricas. No primeiro volume da minha coleção Teoria da História. existem diversas maneiras de concebê-los. Por exemplo. quando me refiro a esta ou àquela teoria sobre o processo histórico de “descolonização” que ocorreu no século XX. ou quando enumero as diversas teorias que existem acerca do “Nazismo” ou sobre a eclosão de revoluções no período moderno. as funções do historiador.

Uma “teoria da história” concentra-se na tarefa de fornecer aos historiadores instrumentos conceituais e teóricos para compreender as coisas que aconteceram ou que estão acontecendo. por assim dizer. inclusive de hoje. Rede Histórica: Que lugar Positivismo e Historicismo ocupam hoje na formação de um historiador (a)? José D'Assunção Barros: Positivismo e Historicismo são os primeiros paradigmas clássicos. assim como os materialistas históricos. Eles surgem precisamente como as duas alternativas que se colocam para os historiadores naquele momento. o Materialismo Histórico.conceber a História como um campo específico de conhecimento – é que elas são grandes espaços coletivos de pensamento construídos pelos historiadores e filósofos que pensam de uma mesma maneira em relação à história. mas posso contribuir com aportes teóricos para o Historicismo ou para o Materialismo Histórico. depois que é fundada por um ou mais autores. Um outro ponto de contraste entre „filosofias da história‟ e „teorias da história‟ é o fato de que as primeiras são essencialmente especulativas: tentam imaginar ou propõem a ideia de que o desenvolvimento da história vai conduzir a determinado ponto. temos a filosofia da história de Kant. e uma identidade profissional para este estudioso especializado que será o historiador. como o de “classe social”. como por exemplo a ideia de que a história é principalmente feita não por indivíduos. são “teleológicas”. a partir de determinados princípios e pressupostos. Por exemplo. Por exemplo. Por exemplo. passam a ser espaços coletivos de reflexão. Algumas décadas depois. É interessante notar que as filosofias da história acabam sendo construções pessoais deste ou daquele filósofo. oferecendo-lhes possibilidades específicas de conceber a História como campo de conhecimento. no qual a História passa a postular um estatuto de cientificidade. Com relação ao Positivismo e Historicismo. rigorosamente falando. um lugar nas cadeiras universitárias. Já uma “teoria da história” não está interessada. tal como ocorre com as teorias da história. os historicistas concebem a História. mas por grandes grupos humanos que são as classes sociais. que se dá no trânsito do século XVIII para o XIX. Também é importante ter em vista que uma “teoria da história”. “luta de classes ”. em especular sobre o fim da história ou sobre os desígnios secretos que a movem. As teorias da história começam a surgir no século XIX. Por exemplo. a filosofia da história de Hegel. precisamente quando a História começa a ser postulada como um saber cientificamente conduzido. para os quais todos podem colaborar com desenvolvimentos posteriores. O sentido da história é o principal interesse de uma “filosofia da história”. Já as “filosofias da história” eram realizações específicas de certos filósofos. e não um universo comum a inúmeros pensadores que enxergam a História de maneira análoga. não posso alterar a “filosofia da história” de Kant. e a quaisquer outros paradigmas. de um determinado jeito. e também determinados modos de ver a história. “modo de produção”. da historiografia. surgiria o terceiro paradigma clássico: o Materialismo Histórico. se o compreendermos como uma das muitas “teorias da história” disponíveis aos historiadores. e assim por diante. como campo de conhecimento. Em uma palavra. eles seguem adiante no tempo como possibilidades para os historiadores. É verdade que o Historicismo encontrou mais eco na historiografia . disponibiliza aos que querem pesquisar e refletir sobre a história um certo conjunto de conceitos fundamentais.

e sobre a relatividade de qualquer ponto de vista. portador de interesses diversos. um texto escrito em uma época remota foi escrito por alguém. os historicistas passaram a dirigir este modo de enxergar o mundo humano – circunstanciado. foi a de partilhar o mesmo „volume 3‟ entre as reflexões sobre Marx e Nietzsche – ou. como “paradigmas revolucionários” (este terminou. que é discutido no terceiro capítulo deste mesmo volume. isto é. envolto por certas circunstâncias). um historiador é tão histórico quanto as suas fontes. Disse que há certa audácia nesse gesto de aproximar os dois autores a partir do subtítulo . conhecer muito bem as proposições destes dois paradigmas antagônicos – o Historicismo e o Positivismo – é sempre muito importante para os historiadores em formação. sobre o Materialismo Histórico e sobre este outro paradigma que chamei de “Paradigma da Descontinuidade” – e de qualificar a ambos. que em contrapartida ainda sobrevive bem em algumas das demais ciências sociais. Essa é a pedra de toque que faz do Historicismo um paradigma mais atualizado para a historiografia atual do que o Positivismo. para o Historicismo. e as fontes históricas produzidas pelos homens do passado são atravessadas seja por subjetividades pertinentes a estas sociedades singulares. para entender que os historiadores também eles são atravessados por intersubjetividades. permitiu que o Historicismo encontrasse seus próprios espaços de renovação no seio das sociedades contemporâneas. em contrapartida. um pouco mais que o Positivismo – que. por se tornar o subtítulo do volume). As sociedades que o historiador analisa seriam. sobretudo porque o confronto entre estes dois paradigmas permite enxergar com especial luminosidade o problema da „Objetividade e Subjetividade‟ na produção do conhecimento histórico. aliás. ainda é um paradigma bem presente nas ciências sociais que lidam prioritariamente com métodos quantitativos e com a crença em leis gerais e universais que regeriam os desenvolvimentos humanos. pertencente a determinada classe social ou instituição. O Historicismo foi tendendo a consolidar cada vez mais a noção de que o trabalho dos historiadores é interpenetrado em diversas instâncias pela subjetividade humana. De que forma eles revolucionaram os estudos históricos? Ainda são vozes que ecoam na historiografia brasileira? José D'Assunção Barros: Uma escolha de algum modo audaciosa. Foi por isso que escolhi para tema transversal do „volume 2‟ da coleção Teoria da História – que trata do Positivismo e do Historicismo – a reflexão sobre esta questão de fundo: o jogo entre objetividade e subjetividade no trabalho do historiador. Ora. em meu entender – tal como esclareço nos capítulos dois e três do Volume II da coleção Teoria da História – em vista dos modos divergentes como um e outro destes paradigmas encaram o problema da „Objetividade e Subjetividade‟ na produção do conhecimento histórico.contemporânea do que o Positivismo. com o tempo. singulares. problematizado – para si mesmos. Isso se dá. atravessado por subjetividades várias. Posto isto. Enfim. por fim. seja por subjetividades concernentes aos autores ou produtores destas fontes (por exemplo. mais especificamente. relativizado. A consciência crescente sobre a historicidade de qualquer coisa. Rede Histórica: No terceiro volume nos encontramos com Marx e Nietzsche. na organização da coleção Teoria da História. No limite o reconhecimento do peso das intersubjetividades nas elaborações historiográfica pode levar ao relativismo extremado.

mas sim as classes sociais. trazem uma incontornável . A pergunta. embora cada um a responda de uma maneira diferente. mas também às instâncias sociais. Aliás.de “paradigmas revolucionários” porque. em direção ao melhor. ao qual retorno no último capítulo do „volume 4‟. o ateísmo. econômicas. Uma delas era a “ilusão do Progresso” – essa ideia de que a humanidade caminha necessariamente. todavia. os cultuadores de um e de outro destes grandes filósofos se estranham mutuamente. tal como discuto no „volume 4‟. o seu paraíso no fim da história: no caso. De todo modo. quando digo que há ainda uma terceira coisa que é o pensamento “marxiano”. refiro-me ao fato. nem mesmo Marx pôde resistir – já que também ele esperava encontrar. e nem mesmo do programa marxista de ação política. O Materialismo Histórico é um paradigma historiográfico. eles começam a fazer uma nova pergunta. no fim de tudo. mais especificamente. tal como o demonstra a Teologia da Libertação e outros movimentos que são ao mesmo tempo religiosos e de inspiração marxista). no caso. Marx desloca o olhar dos meros acontecimentos políticos para as realidades econômico-sociais. O marxismo é um programa de ação política. que era importante para Marx. implicando tomadas de decisão e escolhas que não levam a lugares pré-determinados. de sua realidade social. de que há elementos da identidade teórica de Marx que não podem ser confundidos como traços inerentes ao Materialismo Histórico (por exemplo. e que fundam de certo modo duas novas perspectivas. e também do pensamento “marxiano” (o pensamento específico de Karl Marx). A contribuição de Marx. em Marx. Marx (e Engels) – ou. uma das primeiras preocupações do capítulo sobre o “Materialismo Histórico” é a de distinguir este do “marxismo”. Ele chamou atenção para questões muito importantes. vai muito além desta proposta política que mais tarde ficaria conhecida como “marxismo”. o Materialismo Histórico – foram revolucionários porque trouxeram à História um novo olhar teóricometodológico: o de que os verdadeiros agentes da história não são os indivíduos. encontra como resposta a ideia de que o historiador deve contribuir para a transformação da sua realidade – e. Além disto. das quais os historiadores não costumavam se aperceber em sua época. Esta leitura iluminista da história. depois de muita luta. e todas as outras. revolucionando também as possibilidades de escolhas dos objetos historiográficos. uma certa maneira de ver e de conceber a história. Deste modo. A essa ilusão iluminista. “Qual a utilidade da História para a vida?”. e que. No entanto. a História encontraria uma utilidade muito específica para a Vida. tanto Marx como Nietzsche são revolucionários para a história por terem instituído dois paradigmas que questionam certos valores estabelecidos que não eram nem de longe colocados em cheque pelos historiadores e pensadores de sua época. E. portanto. e é este ponto que considero revolucionário nos dois autores. Neste ponto. Esta é a pergunta que ressoa tanto em Marx como em Nietzsche. não é um traço obrigatório do paradigma do Materialismo Histórico. foi questionada severamente por Nietzsche. um mundo socialista. e de que. acho importante lembrar que Nietzsche foi igualmente revolucionário para a historiografia. Além disto. um paraíso nos espera. linear e progressiva. Até hoje repercute nos historiadores esta lucidez que rompeu com o padrão historiográfico tradicional e permitiu perceber que a história não corresponde apenas aos acontecimentos políticos. culturais. que chamou atenção para o fato de que a história é construída a cada segundo. de maneira linear e contínua. contribuindo para redirecionar o destino da humanidade ao propor um novo modelo de sociedade que só poderia ser alcançado através do desenvolvimento da própria história. frequentemente.

Na historiografia brasileira. são construções coletivas. mas sim dos paradigmas historiográficos que eles fundaram ou ajudaram a fundar. Walter Benjamin. terá um lugar especial em um dos capítulos do „volume 4‟). em contrapartida. um materialista histórico que também deixa ressoar em si o “Paradigma da Descontinuidade”. os paradigmas. a partir daí. Thompson. Nietzsche viu com especial clareza que tudo é histórico. Suas contribuições repercutem até hoje. acerca da contribuição de cada um deles para os paradigmas em questão. muito mais do que um “historiador-cientista”). Mas gostaria de lembrar que. e tantos outros – e o paradigma da „Descontinuidade‟ foi se consolidando a partir de contribuições importantíssimas como a de Foucault e outros mais. de alguma maneira. Abordo mais o paradigma do Materialismo Histórico do que a contribuição específica de Marx (que. O Materialismo Histórico foi beneficiado por inúmeras contribuições – como as de Gramsci. o terceiro volume de Teoria da História não trata apenas destes dois autores. Uma vez fundado ou sugerido um novo modo de ver as coisas. que procuraram sacudir os homens de sua época do sono que os envolvia. Lukács. contribuir para transformar o próprio Presente e mesmo mudar o Futuro. também entre os historiadores brasileiros. Deve ser pensada polifonicamente (não deve ser exibida como um canto gregoriano linear e monódico. e que não existem valores eternos. O historiador brasileiro é essencialmente acórdico – para já mencionar um conceito que será importante no „volume 4‟ da coleção – e muito habitualmente agrega de forma criativa as mais diversas contribuições e influências. Marx e Nietzsche. transcendentes. Ao construírem as suas narrativas fechadas e únicas. Eu discorro sobre todos estes autores. mas sim como uma sinfonia extremamente complexa e exuberante. Nietzsche chamou atenção para o fato de que a História precisava. capaz de contribuir para lhes trazer uma nova luminosidade. Conforme disse antes. Até hoje algumas das contribuições de Nietzsche estão em pauta na historiografia. para cuja orquestração se conclama o papel de um “historiador-artista”. embora eu tenha discorrido nesta resposta a respeito de Marx e Nietzsche. acima de tudo. sobretudo. reforçavam esta ilusão e costumavam falsificar a história (por vezes de modo não-consciente) construindo uma narrativa que simulava linearidade e progresso. além de enfatizar a ideia de que “o que aconteceu. já que a pergunta os mencionou diretamente.responsabilidade a todos os homens que estão inarredavelmente mergulhados na história. irá chamar a estes materiais e processos esquecidos de “centelhas perdidas” – as quais os historiadores despertos deveriam se dedicar a recuperar para pô-las a brilhar à luz de um novo presente. servir à Vida. são „filósofos do despertar‟. . E. além de embarcarem ingenuamente no cotejo triunfal dos vencedores. passa a ser elaborado e reelaborado a muitas mãos. Walter Benjamin. por seu turno. A História precisa ser crítica (questionar os poderes estabelecidos e os automatismos vigentes). e. as vozes de todos estes autores são muito ressonantes. aconteceu assim porque não podia ser de outro jeito”. os historiadores selecionavam para a posteridade certos aspectos da história e deixavam que muitos outros se perdessem no vasto oceano histórico. Isto seria pôr a História ao serviço a Vida. respondendo à segunda parte da pergunta. imutáveis. Por fim. ou as “teorias da história”. e de outros tempos. Nietzsche percebeu que os historiadores de sua época. este passa a constituir um paradigma que. claro. uma vez que as centelhas recuperadas também poderiam.

cada pensamento autoral é complexo. Examino autores como Walter Benjamin. é claro. apesar de não receber o mesmo apoio que os historiadores recebem em alguns países como os da Europa e como os Estados Unidos da América. Criei com isso um novo conceito para análise da historiografia (isto é. pondo-as a dialogar de maneira criativa e coerente. eu sustento no „volume 4‟ que a maioria dos pensadores – historiadores. Trabalham com a mesma habilidade e desenvoltura que precisa ter um músico ao compor suas composições musicais. antropólogos. Koselleck. ainda por escrever. antropólogos. tem a sua singularidade. e Marx. mas sem produzir gratuidades e inadequações. Isto é. Droysen. Hobsbawm e outros). O recurso do “acorde teórico”. Mas percebo que estas influências são retomadas de formas muito criativas pelos nossos historiadores. neste livro. do trabalho dos historiadores de nossa época e de todas as épocas). com a vasta contribuição de Foucault. Percebo um diálogo muito intenso. poderia nos dar mais detalhes sobre esse novo conceito? José D'Assunção Barros: A ideia do “acorde teórico” – um recurso para apreender metaforicamente uma complexidade autoral – ocorreu-me em vista da necessidade de resolver um problema que surgiu com o paciente estudo e esforço de síntese aos quais . na ressonante influência de diversos historiadores ligados à Escola dos Annales e à Nova História. na historiografia brasileira. além de pequenos comentários com análises mais rápidas sobre inúmeros outros historiadores e filósofos.Considero a historiografia brasileira uma das mais ricas do planeta. filósofos. Rede Histórica: Para finalizar. beleza e eficiência próprias. também poderia ser utilizado para analisar o pensamento autoral de filósofos. com autores como os da escola inglesa do materialismo histórico (Edward Thompson. sociólogos. e tantos outros – constrói a sua identidade teórica de maneira acórdica. Max Weber. Na verdade. com a Escola de Frankfurt (Adorno. Mas eu os utilizo especificamente. Marcuse e os demais). com a filosofia e a literatura? José D'Assunção Barros: Utilizei esta expressão na resposta anterior apenas para expressar a minha opinião de que os historiadores brasileiros são muito ricos na assimilação de influências e contribuições diversificadas nos seus trabalhos. Rede Histórica: O que significa ser um “historiador acórdico”? Esse conceito sugere um relacionamento com a música aos moldes daqueles que os historiadores possuem. como acontece com um belo acorde musical. psicólogos ou outros pensadores. Pretendo falar destas ressonâncias no „volume 5‟ da coleção Teoria da História. conforme postulo. por exemplo. Paul Ricoeur. Este é o objeto do quarto volume da coleção Teoria da História. e com os microhistoriadores italianos – isto sem falar. É uma metáfora de trabalho que serviu de guia para todo o quarto volume da coleção Teoria da História. para analisar o pensamento autoral e a produção bibliográfica de historiadores e filósofos da história (filósofos ou outros pensadores que pensaram sobre a história em alguns momentos de sua trajetória intelectual). Ranke. Esse conceito é o de “acorde teórico”: um recurso teórico-metodológico que esclareço logo na abertura do quarto volume da coleção.

examinam a história como “luta de classes” (um conceito importante para esse paradigma que é o Materialismo Histórico). Paulo Freire não era apenas materialista histórico: ele também era católico. Além disso. e percebemos no seu estilo de escrita uma influência de Nietzsche – o que. conseguimos aproximar os historiadores uns dos outros. Walter Benjamin. inclusive os historiadores. Procurei nos volumes iniciais da coleção esclarecer os fundamentos de cada paradigma. percebemos que. auto identificava-se com o Materialismo Histórico. Por exemplo. e assim por diante. tinha como outro dos traços importantes de sua identidade teórica um “messianismo judaico”. e outras vezes os classificamos no interior de um determinado paradigma. de modo a apreender a singularidade de cada um. De todo modo. ou repensar como cada um destes paradigmas responde a determinadas questões. que também se identificava com o paradigma do Materialismo Histórico. que um dos principais conceitos utilizados para delinear a identidade teórica de um historiador é o conceito de “paradigma”. tais como Adorno ou Marcuse. eu pretendi realizar um exercício de historiografia – um mergulho em maior profundidade na obra de alguns autores específicos. e também o filósofo alemão Walter Benjamin. a outros podemos qualificar como historicistas. são complexos. Ser católico era um traço tão importante da sua identidade quanto ser materialista histórico. Os historiadores têm se reconhecido nos paradigmas. De fato. por exemplo. Por exemplo. Examinei os dois primeiros no „volume 2‟ da coleção Teoria da História. Quando buscamos ajustá-los aos inúmeros paradigmas teóricos pertinentes aos diversos campos de conhecimento. O educador brasileiro Paulo Freire. aliás.me entreguei nos volumes anteriores. mesmo sem que este ou aquele autor tenha se autoidentificado com o paradigma em questão durante a sua vida. quais trabalham com conceitos análogos e sustentam concepções parecidas sobre a História. Os pensadores dos vários campos de saber. Foi aí que surgiu o problema. ninguém negará que Edward Thompson ou Eric Hobsbawm são historiadores ligados ao paradigma do Materialismo Histórico. Mas aqui surge o problema. Estou dando alguns exemplos diversos de modo a trazer a nu o problema contra o qual eu me defrontava. Quando organizamos a vasta produção historiográfica em paradigmas e correntes teóricas. Apenas para mencionar três paradigmas bem conhecidos (mas que não são os únicos). posso citar o Positivismo. Estes autores também incorporavam em sua identidade teórica uma influência importante de Freud. verificar quais tem afinidades entre si. inúmeros historiadores se apresentam como ligados ao paradigma do Materialismo Histórico. Um “paradigma” é um certo modo de ver (conceber) e fazer a História. “materialismo” (no sentido proposto por Marx) e “historicidade radical”. o conceito de paradigma é bastante útil. Disse. No quarto volume. uma vez que eles trabalham com uma concepção de história que privilegia a combinação fundamental de “dialética”. este é um conceito útil e interessante para a Teoria da História. em outro momento. o Historicismo e o Materialismo Histórico. podemos tentar situá-lo no interior de um certo paradigma. por exemplo. e o terceiro no „volume 2‟. Quando examinamos um autor específico. também ocorre com outros autores que dele se aproximaram através da famosa Escola de Frankfurt. Estes e outros aspectos trazem pontos comuns a inúmeros autores que podem ser qualificados como relacionados ao Materialismo Histórico. . Frequentemente isso dá certo em alguma medida.

Paul Ricoeur tem o Historicismo como um traço importante de sua identidade teórica. por exemplo? Foi aí que me surgiu a ideia do “acorde”. podem ser incorporadas em um “acorde” e adquirir um novo sentido musical. Não basta classificar um autor no interior de um paradigma. mas. a música é composta por sucessões de acordes. acreditava na possibilidade de atingir certa forma de neutralidade científica de uma maneira que se aproxima muito do modo como os “positivistas” se colocam diante desta questão. que traz tanta beleza à Música. mas ao mesmo tempo “harmonizado” por outros elementos – e até mesmo o barril de carvalho que o acolhe irá contribuir para o resultado final que se expressará sob a forma de um certo sabor singular e complexo que terá cada vinho. O filósofo Fichte está presente como uma influência importante em Ranke. o que também é uma ideia interessante para o objetivo que eu tinha de incorporar esta noção à análise historiográfica. particularmente a partir de uma assimilação da contribuição de Husserl. em outros campos de práticas e saberes. e outras perguntas conforme outro paradigma. Na Música. não cabem inteiramente ali. eu estou querendo mostrar que os pensamentos autorais são complexos. Por exemplo. Ademais. De todo modo. Ranke. e vários outros). qualquer bom ouvinte de música pode perceber claramente a combinação de várias notas para formar um acorde. como se este fosse um compartimento no interior do qual encontrará os seus pares. Diversas notas. Há casos mesmo em que podemos perceber que determinado autor responde a certas perguntas conforme a tendência expressa por um paradigma. Como resolver o problema da necessidade da apreensão da complexidade autoral de um historiador ou de um filósofo. e é importante ainda lembrar que uma única nota musical também pode carregar dentro de si sonoridades secretas (não perceptíveis pelo ouvido humano. Com isto. A arte da “perfumaria” baseia-se na ideia de que um bom perfume deve ser composto de um acorde formado por vários cheiros. diga-se de passagem. e outra influência fundamental é a da Fenomenologia. mas igualmente importante neste autor é a influência do Existencialismo. . Ao historiador Droysen. A noção de “acorde” também aparece. Poderia seguir enumerando muitos casos. ele possui outra nota de influência importante que é a do “hegeleanismo”.embora eles possam se sintonizar com um paradigma ou outro. um historicista anterior. mas também aparece de alguma maneira como um dos autores que ajudaram Karl Marx – o primeiro materialista histórico – a compor a sua identidade teórica (além de Hegel. um bom vinho pode ser composto por um certo extrato de uvas. um acorde é um som composto de outros sons. Feuerbach. que existem isoladamente. a não ser sob a forma de timbres). que são chamadas de “harmônicos”. alguns autores chegam a dizer que Max Weber é “meio” historicista e “meio” positivista. dificilmente podemos deixar de classificar como “historicista”. Por isso. mas além disso. e percebe-se mesmo uma clara rejeição de Hegel em seu trabalho. Esse som complexo. Na “enologia”. por outro lado. Max Weber geralmente responde como um “historicista” às questões sobre o reconhecimento das intersubjetividades humanas. ou que este sociólogo-historiador se coloca a meio caminho entre estes dois paradigmas. já não tinha esta nota. é o acorde.

. comentei que o “ateísmo” de Karl Marx era uma nota singular do pensamento deste autor. a Música nos oferece também o exemplo dos acordes que se sucedem: uma imagem que também pode ser incorporada para apreender a dinamicidade de uma determinada trajetória autoral). veremos que Marx não é só isso. Kierkegaard. Chamei a este volume de “acordes historiográficos”. Max Weber. pois sua identidade teórica também é composta por outros traços – tais como o “ateísmo” ou o finalismo socialista. Este é o projeto do „volume 4‟ da coleção Teoria da História. Droysen. Podemos pensar autores – historiadores ou filósofos da história. que Marx fundou com Engels em meados do século XIX. por exemplo – a partir da metáfora do “acorde teórico”. e também reconhecer mudanças acórdicas que distinguem o “jovem Marx” do Marx da segunda fase (afinal. Benedetto Croce e outros mais. além dos inúmeros autores que nele ressoam de uma maneira ou de outra. por exemplo.Comecei a trabalhar com a ideia de que os pensamentos autorais – ou as identidades teóricas de um historiador. além de entretecer comentários mais breves sobre outros autores como Foucault. historicidade radical). seguindo adiante. Mas. filósofo ou sociólogo – poderiam ser igualmente representáveis pela ideia do “acorde”. tendências a examinar certas temáticas. Podemos pensar em um “acorde-Marx”. materialismo. Paul Ricoeur e Koselleck. mas não necessariamente um componente do paradigma do Materialismo Histórico. depois de ter examinado nos capítulos anteriores Walter Benjamin. À luz do conceito de “acorde teórico”. Anteriormente. como disse antes. Um autor é quase sempre complexo: sua identidade teórica comporta influências autorais várias. Ousei encerrar o „volume 4‟ de Teoria da História com uma análise acórdica sobre o pensamento historiográfico de Karl Marx. Ranke. traços específicos que singularizam seu pensamento. podemos formular a ideia de que a base do pensamento de Marx é a tríade que caracteriza o paradigma do Materialismo Histórico (dialética.