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CARTAS DO INFINITO «ENGANO»

CARTAS DO INFINITO - ENGANO

P. Barbosa http://scribd.com/transiente

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CARTAS DO INFINITO - ENGANO

Zodiak, Janeiro de 2007 (dos escritos legados)

Olho para o tecto do meu quarto escuro, abro os olhos o mais que posso, mas não vejo nada. Da rua não vem uma única palavra ou ruído. Se não soubesse que o tecto estava ali, seria como estar deitado na minha cama a flutuar em nada, sozinho num vazio interminável. Mas não, a rapariga deitada ao meu lado liberta um movimento ofegante, como se iniciasse agora a respiração para a vida. É apenas mais uma. Como é que ela se chama mesmo? Sou viciado em sexo. Somos todos. Devemos a essa droga a nossa existência, que nos mantém vivos e nos satisfaz e, a mim pelo menos, também faz derrotar. Por vezes sinto a dor da angústia por este prazer frequentemente desejado, sentindo no meu âmago que a necessidade que me consome não é minha, mas do corpo
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que exige o acto através de uma vontade. E aqui estamos os dois, eu e ela, não sentindo agora nada um pelo outro, não a conheço e ela não sabe quem eu sou, apenas nos encontrámos numa festa qualquer. Deitados, apenas silenciosamente concordámos satisfazer vontades escondidas e não controladas, convertidas, no meu caso pelo menos, num prazer supremo que durou meia dúzia de segundos. Agora não sinto nada, nem por ela nem por ninguém, um vazio idêntico àquele que experimento quando abro os olhos neste quarto negro, que está cheio de coisas que não podem ser sentidas e vistas. O que mais me incomoda é esta consciência de que o acto praticado com ela ser, na sua essência, uma vontade que me é estranha, que foi plantada neste corpo que me foi emprestado para perpetuar a vontade de alguém ou de alguma coisa, ou para atingir um fim que desconheço, que não é meu, que não controlo e não desejei. Sinto que o movimento de penetração me dá apenas o prazer necessário, mas não a satisfação, para produzir o próximo movimento, na antecipação de um prazer final que chegará mais à frente e que me é prometido em troca de algo, como no drogado que sempre se injecta para satisfazer uma vontade que não desejou.
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Mas enquanto a droga mata o drogado rapidamente, o dono do sexo usa-nos sadicamente durante toda a vida. E este vício não é só do corpo, mas também da mente. De cada vez que o decido fazer, sinto-me como que teletransportado para frente de Morpheus, com o comprimido azul da doce ilusão numa mão e o comprimido vermelho da dura realidade na outra. E sempre, de forma consciente, escolho o comprimido azul, porque receio confrontar-me com essa dura realidade; estamos a ser manipulados, brutalmente manipulados, por alguém ou alguma coisa que nos dá prazer em troca da nossa submissão; em troca do quê, na realidade? Não sou o Neo, sou o Cypher, que cobardemente, ou inteligentemente (não sei), escolhe o caminho mais fácil, mais doce. E assim, acordado e enganado, mas com satisfação, faço aquilo que me é ordenado. Enceno correctamente todos os movimentos sem pensar. Ela faz o mesmo, num movimento conjunto estranhamente coordenado, porque nunca ensaiado, de mútua estimulação, dando corpo ao contrato de perpetuação não compreendido pelos fantoches que se tocam. Sinto cordéis de marioneta amarrados a cada um dos meus membros, manipulados lá de cima por alguém ou por alguma coisa que não consigo ver no tecto do meu quarto escuro. Se calhar não pode ser
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visto, apenas sentido. Será que estou louco? Ela está a acordar. Tenho de lhe dar atenção.  Zodiak, meu lindo. Estás acordado? Estava a sonhar contigo, com o que fizemos ontem... vamos repetir a dose?

FIM
“Cartas do Infinito - Engano” é extraído do manuscrito “Segredos Perfeitos” (http://www.scribd.com/doc/48221815/Segredos-Perfeitos)

P. Barbosa http://scribd.com/transiente

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