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                             II Encontro da Associação Nacional de Pesquisa 

         e Pós‐graduação em Arquitetura e Urbanismo 

Teorias e práticas na Arquitetura e na Cidade Contemporâneas
Complexidade, Mobilidade, Memória e Sustentabilidade Natal, 18 a 21 de setembro de 2012

 

Impactos socioespaciais dos projetos urbanos relacionados à Copa 2014  em Fortaleza: área de envoltório do Estádio Plácido Aderaldo Castelo.   
Fortaleza urban projects impacts related to 2014 World Cup: Plácido Aderaldo Castelo  Stadium area.   Impactos de los proyectos urbanos relacionados con la Copa de 2014 en Fortaleza: área  do Estadio Plácido Aderaldo Castelo.  
1 Carla Camila G. ALBUQUERQUEi 
Doutoranda em Arquitetura e Urbanismo; professora do CAU‐UNIFOR; camilagirao@hotmail.com  

  RESUMO 
A  pesquisa  Impactos  socioespaciais  dos  projetos  urbanos  relacionados  à  Copa  2014  em  Fortaleza,  da  qual  este  artigo  faz  parte,  visa  construir  um  acompanhamento  sistemático  e  a  monitoração  das  alterações  urbanas  oriundas  do  megaevento  esportivo,  ou  seja,  dos  impactos  relacionados  ao  provimento  de  equipamentos  e  seus  desdobramentos  socioespaciais  relativos  à  Copa  do  Mundo  de  2014  na  cidade  de  Fortaleza.  Os  impactos  serão  avaliados  em  termos  da  localização  da  implantação  de  equipamentos  e  serviços  coletivos,  da  ampliação  do  acesso  à  moradia,  da  dinamização  do  mercado  imobiliário, da ampliação da mobilidade e da distribuição dos impactos ambientais das intervenções.  Especificamente,  a  proposta  de  discussão  apresentada  visa  colocar  o  quadro  atual  dos  resultados  alcançados  pela  pesquisa  referente  à  área  de  impacto  relacionada  ao  Estádio  Plácido  Aderaldo  Castelo  (Castelão) a partir dos indicadores acima mencionados.  

PALAVRAS‐CHAVE: megaeventos, impactos, projeto urbano. 
 

ABSTRACT 
The research Urban socio‐spatial impacts related to World Cup 2014  projects in Fortaleza, from which  this article forms part, aims to build a systematic monitoring of the changes arising from the urban mega  sports events, the impacts related to change in urban infrastructure and its socioespacial consequences.  The impacts will be evaluated in terms of location of installation of equipment and public services, the  expansion of access to housing, boosting the housing market, the expansion of mobility and distribution  of environmental impacts of interventions.  Specifically, the proposal presented for discussion aims to put the current picture of the results achieved  by research on the impact area related to the  Plácido Aderaldo Castelo Stadium from the indicators  mentioned above. 

KEY‐WORDS: mega events, impacts, urban design 
 

RESUMEN: 
La  investigación  de  los  Impactos  socio‐espaciales  dos  proyectos  urbanos  relacionados  con  la  Copa  del  Mundo  2014  en  Fortaleza,  de  la  cual  este  artículo  forma  parte,  tiene  por  objeto  desarrollar  un  seguimiento  sistemático  de  los  cambios  derivados  de  los  acontecimientos  urbanos  mega  deportes,  es  decir,  los  impactos  relacionados  con  el  cambio  en  la  infraestructura  urbana  y  sus  consecuencias  socioespacial  en  el  Mundial  del  2014  en  Fortaleza.  Los  impactos  serán  evaluados  en  términos  de  ubicación de la instalación de equipos y servicios públicos, la expansión del acceso a la vivienda, impulsar 

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                             II Encontro da Associação Nacional de Pesquisa 

         e Pós‐graduação em Arquitetura e Urbanismo 

Teorias e práticas na Arquitetura e na Cidade Contemporâneas
Complexidade, Mobilidade, Memória e Sustentabilidade Natal, 18 a 21 de setembro de 2012

el  mercado  de  la  vivienda,  la  expansión  de  la  movilidad  y  la  distribución  de  los  impactos  ambientales  de  las intervenciones.  En concreto, la propuesta presentada para la discusión tiene como objetivo poner la imagen actual de los  resultados  obtenidos  por  la  investigación  en  el  área  de  impacto  en  relación  con  el  Plácido  Aderaldo  Castelo Estadio a partir de los indicadores mencionados anteriormente.  

PALABRAS‐CLAVE: mega eventos, impactos, diseño urbano 

1 INTRODUÇÃO 
Em  tempo  de  mundialização  econômica,  quando  há  necessidade  de  superar  a  concorrência  global  na  disputa  pelos  investimentos  cada  vez  mais  voláteis  advindos  da  financeirização  econômica,  a  lógica  da  organização  do  espaço  urbano  vem  sendo  subordinada  às  oportunidades  econômicas  disponibilizadas  pelo  mercado.  Uma  nova  concepção  da  política  urbana  vem  se  impondo  em  diversas  grandes  cidades  brasileiras:  busca‐se  ressaltar  suas  vantagens  comparativas  e  tem‐se  a  perspectiva  de  retorno  dos  investimentos  na  cidade  como  um negócio bastante lucrativo.  A  atração  de  eventos  de  porte  internacional  tem  sido  encarada  pelos  principais  agentes  econômicos  e públicos como uma forma de dinamizar a economia local e de se tentar resolver  graves  problemas  relacionados  às  desigualdades  socioespaciais.  Seguindo  tendências  e  modelos  aplicados  em  outras  metrópoles,  materializadas,  especialmente  pela  atração  exposições,  festivais,  feiras  e  eventos  esportivos.  Fortaleza,  capital  do  Estado  do  Ceará,  tem  procurado se firmar como lócus privilegiado para sua realização. Neste contexto, a cidade, pela  primeira vez, sediará em 2014 um evento internacional de grande escala e visibilidade.   Neste  sentido,  a  pesquisa:  Impactos  socioespaciais  dos  projetos  urbanos  relacionados  à  Copa  2014, visa construir um acompanhamento sistemático e a monitoração das alterações urbanas  oriundas  do  megaevento  esportivo,  ou  seja,  dos  impactos  relacionados  à  alteração  da  infraestrutura urbana e seus desdobramentos socioespaciais.   A  mensuração  destes  impactos  se  dá  através  do  mapeamento  e  construção  de  um  banco  de  dados  com  variáveis  relacionadas  às  transformações  de  caráter  socioespacial  (valor  do  solo,  transformações do meio ambiente, acesso ao projetos, distribuição dos custos e dos benefícios  que  envolvem  o  processo,  entre  outros).  A  análise  a  ser  construída  pela  pesquisa  vem  sendo  pautada  pela  utilização  de  indicadores  ligados  à  inserção  da  população  em  geral  nos  seguintes  contextos  de  transformações  territoriais,  quais  sejam:  produção  da  moradia;  meio  ambiente;  acesso à mobilidade; dinâmica imobiliária; configuração socioespacial; gestão e governança.  Especificamente,  a  proposta  de  discussão  neste  artigo  visa  apresentar  o  quadro  atual  dos  resultados  alcançados  pela  pesquisa  referente  à  área  de  impacto  relacionada  ao  Estádio  Governador Plácido Aderaldo Castelo (Castelão) a partir dos indicadores acima mencionados.   Na primeira parte do trabalho é explicitado o suporte teórico mais geral que elucida a inserção  dos  megaeventos  e  mega‐projetos  no  contexto  econômico  mundial.  Em  seguida  apresenta‐se  os projetos urbanos envolvidos no megaevento, percebendo o lugar de destaque ocupado pela  reforma  da  “Arena  Castelão”.  Na  terceira  parte  do  artigo  procura‐se  ilustrar  as  claras  modificações  já  percebidas  na  área  de  entorno  do  projeto  em  análise,  principalmente  no  que  diz  respeito  aos  indicadores  levantados:  concepção  arquitetônica  e  papel  simbólico  do  projeto  “Arena  Castelão”;  relação  entre  a  concepção  e  implementação  dos  projetos  urbanos;  e  as  2

Memória e Sustentabilidade Natal. Contudo. Ser  global passou a aparecer como uma espécie de condecoração pela qual as cidades lutam por  conseguir. organismos  mundiais de política econômica e social a partir de um novo instrumental tecnológico: a  revolução da informática e as redes de comunicação.                                                        II Encontro da Associação Nacional de Pesquisa           e Pós‐graduação em Arquitetura e Urbanismo  Teorias e práticas na Arquitetura e na Cidade Contemporâneas Complexidade. poupar. voltada a uma  nova economia de serviços avançados. se adequar às novas demandas e forças da  economia global. investir. Esta institucionalidade invisível é controlada por corporações empresariais  transnacionais. A lógica da interdependência global. trabalhar. no que diz respeito às  estruturas e processos econômicos.  apontam‐se  nas  considerações  finais. passam cada vez mais a determinar as realidades locais ou  particulares. federações interestatais. Para alcançar este novo padrão global. ii) Mundo Perversidade: a  globalização como ela é (adesão desenfreada aos comportamentos competitivos que  caracterizam ações hegemônicas) e iii) Mundo Possibilidade: a globalização como ela pode ser  (ideologia proletária). enfatiza  e divulga uma suposta faceta positiva e glamorosa da globalização. O principal argumento de Sassen (1998). reestruturação do espaço urbano na medida em que as cidades se  adaptaram aos novos espaços industriais e aos espaços do terciário especializado (seja pela  perda ou pela conquista destes espaços). entretanto.   Quando o autor refere ao Mundo Fábula. Já que estas forças existem (como pressuposto). diretamente articuladas pelo comando do  mercado financeiro global. Mobilidade. Humaniza os processos capitalistas de produção. aponta que a ideologia da globalização cria. principalmente aquelas situadas na periferia do sistema.  Por  fim.  algumas  perspectivas  frente  ao  contexto  identificado  e  questões  centrais  que  deverão  orientar a continuidade da pesquisa.   Cabe às cidades. a ideia é que a cidade possa  servir como suporte físico aos fluxos econômicos. independentemente dos homens que as realizam. circulação e consumo. é que as cidades na era  da globalização devem alcançar um grau maior de especialização do que tinha. as cidades  precisam ser competitivas. uma espécie de promoção para a modernidade. blocos regionais de mercado comum. Para se firmar. no contexto da globalização. comerciar.   Produzir. impõe a desregulamentação dos  mercados e dos estados nacionais tendo em vista uma maior flexibilidade do movimento dos  investimentos transnacionais.  3 . consumir. as atividades econômicas  passam a funcionar e a operar sozinhas.  Santos (2010) procura entender estes fenômenos a partir do encontro de três mundos em um  só: i) Mundo Fábula: globalização como nos fazem vê‐la.  Sempre foi o lócus privilegiado do sistema capitalista. as cidades surgiram para isso. associando‐a ao progresso  e à modernidade. a  organização de uma rede mundial de metrópoles.  Algumas consequências desencadeadas pelo Regime de Acumulação Flexível no processo de  formação das cidades podem ser especificadas: explosão do número de cidades no mundo e  do volume de pessoas nas cidades. 18 a 21 de setembro de 2012 condições  de  acesso  à  terra  e  produção  da  habitação. e a competição entre cidades pela atração do capital  financeiro internacional. acumular. e não há muita novidade em dizer que  continua sendo.   2 CONTEXTO DOS MEGAEVENTOS  O novo ciclo de expansão do capitalismo enfim alcançou uma escala produtiva e financeira  genuinamente planetária (ainda que desigual).

 As  metrópoles centrais sofreram uma sensível diminuição da intensidade de crescimento urbano  no centro ou núcleo metropolitano. No intuito de reverter o processo de  decadência ou de atrair investimentos em um período de grande concorrência. Os centros periféricos. as cidades  desenvolveram estratégias políticas. Outros centros  urbanos possibilitaram.   O planejamento urbano assim transforma (aparentemente) questões extremamente  complexas em soluções técnicas racionais e convenientes aos problemas colocados pelos  diversos agentes. passando do controle à produção de um ambiente construído.  Os projetos urbanos procuraram atrair novas atividades econômicas através da construção de  novos centros de negócios. passaram a incentivá‐los. 1998). As  estratégias variam. comercio varejista. novos espaços industriais. administrativos. econômicas e culturais. estimulando o mercado  imobiliário através da desregulamentação do uso do solo. O papel político do planejamento urbano diz respeito à  sua capacidade de assegurar um instrumento de mediação e de negociação entre as diversas  4 . por outro. Preocupações com a mudança da cidade em longo prazo  deram lugar à ênfase dos ganhos econômicos em curto prazo. e observaram intenso crescimento de sua periferia.  As limitações de capital. principalmente dos setores  privilegiados pela reorganização do mercado de trabalho urbano. desde a promoção de eventos internacionais ou espetáculos. e começassem a concorrem em um processo de disputas  pelo capital internacional. que acabaram por ocasionar a decadência e a estagnação econômica  de determinadas regiões em detrimento de outras. A maneira com que a gestão pública passou a ver o urbanismo e o  planejamento urbano mudou. o crescimento coorporativo‐financeiro ocasionou um aumento do setor de  serviços especializados em outras. no lugar  de colocar empecilhos à aprovação dos empreendimentos. comércio e de turismo. Memória e Sustentabilidade Natal. associado ao financiamento público  desses projetos.  anteriormente produtivas. processo conhecido como  desindustrialização. Governos locais e grupos  empresariais mobilizaram‐se para facilitar a atração de capitais. fizeram com que várias regiões e cidades. em contextos bastante específicos. em uma tendência denominada  de Marketing Urbano.  anteriormente centrais ou não incorporadas pelos processos econômicos. a emergência de centros  tecnológicos de ponta.  ocupada pelo capital imobiliário residencial de classe média.   Se por um lado.  para um enfoque mercadológico. a grosso modo. que. comportaram em uma estrutura urbana. reforçando o papel das cidades como pontos estratégicos  para esses serviços que são necessários ao gerenciamento das operações econômicas globais  (SASSEN. Organiza (aparentemente) a convergência dos diferentes grupos sociais e  funções urbanas num todo coerente. que passaram a abrigar o setor produtivo. por meio da renovação urbana das áreas degradadas. a fuga das indústrias levou a uma perda da base econômica de algumas  cidades. que exigia  condições mais “favoráveis” para desempenhar plenamente sua funções no sistema. turismo e entretenimento.                                                        II Encontro da Associação Nacional de Pesquisa           e Pós‐graduação em Arquitetura e Urbanismo  Teorias e práticas na Arquitetura e na Cidade Contemporâneas Complexidade. 18 a 21 de setembro de 2012 O esvaziamento industrial nas metrópoles centrais.  Houve uma mudança no controle ao desenvolvimento urbano de muitas cidades. relacionado com serviços  financeiros. buscassem se  adaptar a nova realidade colocada. até a criação  de novos distritos de negócio. por sua  vez. Assim. o último grande impacto do processo de reestruturação econômica  sobre o território foi o surgimento dos megaprojetos imobiliários. Mobilidade. se deu em consequência da reestruturação produtiva global em direção  aos países periféricos.

 A pouca  flexibilidade e seu caráter regulatório estatal é suprimido para dar lugar a uma nova estratégia. função primeira da ideologia dominante (FERREIRA. comércio. A recuperação econômica de áreas falidas a  partir da atração de eventos e centros culturais. 2010) partiu dos países industrializados e contou com  um contexto específico: crise de superprodução.   Afinado à globalização. Eis porque o planejamento urbano é um instrumento privilegiado de tradução  ideológica dos interesses de classe. 2010. Alavancar parcerias com o setor privado para a construção de polos urbanos  capazes de atrair grandes empresas e negócios globais mostrou‐se como uma alternativa para  prefeitos em meio a crises de governabilidade. tão útil  no ciclo da economia fordista e da sociedade do consumo de massa. A conexão entre interesses públicos e privados formou o novo  paradigma da urbanização. Desenvolve ao máximo as capacidades de integração  social.  principalmente voltada ao gerenciamento da cidade. que se transformam não somente em  instrumentos políticos. torres de comunicação. mas em disputas políticas em si.  Os insumos mais valorizados nesta competição global de cidades são: espaços para  convenções e feiras. Mobilidade. mais inserida na globalização a cidade seria.  O “urbanismo de mercado”(FERREIRA.  segurança. CASTELLS. para  seus difusores (BORJA. O evidente  resultado é um forte processo de valorização fundiária e imobiliária. O marketing urbano se converte em um elemento chave para a consecução das  políticas urbanas locais. mas também garante as políticas públicas  5 .185). alta  competitividade. mais ágil e eficaz para integra‐la à lógica  da economia financeirizada e globalizada. assim como frente às pressões e reinvindicações das classes sociais  dominadas. parques industriais e tecnológicos.  O reconhecimento da competitividade é o caminho para sua melhor adaptação ao contexto  global. que transforma estes  setores da cidade. entre as diversas exigências necessárias à realização de seus  interesses gerais.  O PE cumpre papel estratégico de promover a infraestrutura e a imagem exigidas para a  inserção e competição na rede mundial de cidade. Memória e Sustentabilidade Natal. cedeu espaço. às exigências de um sistema  de acumulação flexível. O mercado imobiliário parece não ter limites: utiliza a cultura como  alavanca de valorização imobiliária. 2007). 18 a 21 de setembro de 2012 frações da classe dominante. em nichos de oportunidades para o capital. Quanto maior a capacidade de atrair a tendência de concentração de instituições de  caráter decisório.  A nova questão urbana assenta‐se sobre a competição entre cidades. 1998) é um modelo de planejamento urbano mais  adequado. 2010). p. alavancados e viabilizados por  investimentos públicos (FERREIRA. desconcentração industrial. As grandes obras revitalizadoras propagaram‐ se nos países centrais. ao transformar espaços “obsoletos” e “degradados” decorrentes  da reestruturação econômica. O Planejamento Estratégico (PE). o urbanismo vive uma outra lógica: “o urbanismo de mercado”  (FERREIRA. O planejamento urbano. em oportunidade para o capital imobiliário.                                                        II Encontro da Associação Nacional de Pesquisa           e Pós‐graduação em Arquitetura e Urbanismo  Teorias e práticas na Arquitetura e na Cidade Contemporâneas Complexidade.  É esta capacidade do planejamento urbano de ser um quadro de negociação social  condicionado e institucionalizado. modernista‐funcionalista. as parcerias público‐privadas como a grande saída para  viabilizar transformações urbanas. A concepção de um único tipo de configuração  urbana é capaz de garantir a sobrevida das cidades no competitivo contexto da globalização  econômica: intervenções urbanas baseadas em projetos urbanos de grande visibilidade  internacional. que explica o empenho das diferentes tendências políticas  em se apropriar dos órgãos de planejamento. em detrimento ao modelo racionalista‐funcionalista.

 ou mesmo  superar as vulnerabilidades existentes nas cidades brasileiras. como confiança. voltada  para emancipação econômica e política dos trabalhadores. Mobilidade. adotou‐se a seguinte categorização: 1)  tangíveis: todos os impactos físicos ou o que pode ser mensurados. Justifica‐ se assim o montante de investimentos públicos para tornar a cidade atraente para os seus  compradores. Memória e Sustentabilidade Natal. dos  novos padrões de competitividade.  Legado pode ser definido como “algo que se recebeu”. o evento pode então ser  justificado como estratégia eficiente. e percorre toda a  pesquisa em andamento. é a seguinte: é possível identificar tais processos transformadores no  megaevento Copa do Mundo Fifa 2014?    3 OS LEGADOS  A Federação Internacional de Futebol (Fifa) especifica quais os requisitos necessários à  estrutura urbana para as cidades sedes do evento. os consensos fazem parte do receituário principal propalado. Dentre outras determinações. orgulho. destaca‐se a  mobilidade urbana como investimento prioritário. A primeira versão do documento. estrutura rodoviária e ferroviária). e 2) intangíveis: impacto  cultural. os grandes projetos  urbanos são mercadorias cobiçadíssimas como potencializadoras da dinâmica urbana. pela facilidade de serem aceitos pela população em geral a  partir dos legados. número de empregos  temporários e permanentes gerados. na ampliação da cooperação e no  empoderamento social. reputação. privatizar. desregular. e a concentração de  recursos públicos em equipamentos e infraestruturas tão pontuais e específicas. No PE. já sofreu dois  aditivos que alteraram tanto o volume de recursos como o escopo de alguns projetos. sensibilização.  levando em conta as necessidades do espectador do evento.  entusiasmo. 2007).   6 . incremento do turismo nacional e internacional.   O legado do megaevento tem sido a principal bandeira que justifica a modificação de  investimentos em temas prioritários. ou “o que foi deixado para  posteridade”. para o provimento de condições  dignas de vida e dos direitos fundamentais de todas as pessoas. e para diminuir. 18 a 21 de setembro de 2012 necessárias para. só podem ser de fato mensurados quando evoluem para a  formação de novas redes e movimentos sociais. O que se quer definir então como legado do megaevento esportivo?  O que o  megaevento deixou para a cidade que o recebeu?   Dentre as várias definições de legados de megaeventos. fragmentar o dar ao capital imobiliário espaço  absoluto. Consensos entre  todos os agentes sociais locais para legitimar a força desta nova “vocação” de cidade.   A Matriz de Responsabilidade da Copa trata‐se de uma acordo entre os entes federativos e a  Fifa.  Como legados tangíveis pode‐se citar: a infraestrutura de mobilidade instalada para o  megaevento. O documento tem como objetivo definir a execução de medidas imprescindíveis para a  realização do Megaevento. Mas a principal questão que se coloca. Neste sentido. novos tipos de uso dos terrenos e  atividades econômicas. reorientação da expansão da cidade. O governo local deve garantir que o país  tenha infraestrutura nacional de transportes (aeroportos. de janeiro de 2010.                                                        II Encontro da Associação Nacional de Pesquisa           e Pós‐graduação em Arquitetura e Urbanismo  Teorias e práticas na Arquitetura e na Cidade Contemporâneas Complexidade. em potencial (investidores internacionais). Se estas ações  possibilitarem como retorno uma sociedade um pouco mais soberana e democrática. efeitos sociais que repercutem de modos diversos (POYNTER. democraticamente acordados. Já os legados intangíveis.

 Neste contexto. de promover a articulação das políticas de transporte.  Fonte: autoria própria. destaca‐se o “protagonismo” de  Fortaleza no cenário das cidades‐sedes da copa. a construção de Veículo Leve sobre Trilhos (VLT).   Um forte marketing urbano tem sido realizado no intuito de conquistar maior protagonismo  da cidade no abrigo das atividades do Megaevento.  Mobilidade  As intervenções urbanas e investimentos na área de mobilidade têm o objetivo. O governo do  Estado do Ceará também pretende sediar o sorteio final dos grupos da Copa do Mundo em  2013. disponibilizando o Centro de Eventos do Ceará para sua realização (que será inaugurado  no final do mês de junho de 2012).   Figura 1: Mapa Fortaleza com a localização dos Projetos Urbanos  vinculados à Matriz de Responsabilidades da Copa de 2014 em Fortaleza.                                                        II Encontro da Associação Nacional de Pesquisa           e Pós‐graduação em Arquitetura e Urbanismo  Teorias e práticas na Arquitetura e na Cidade Contemporâneas Complexidade.    Entre as mais recentes notícias veiculadas na imprensa. 18 a 21 de setembro de 2012 A responsabilidade sobre a implementação das intervenções urbanas relacionadas ao suporte  do megaevento na cidade de Fortaleza. 2) Mobilidade ‐ a construção de quatro corredores  exclusivos para ônibus (BRT). trânsito e  acessibilidade. Memória e Sustentabilidade Natal. As obras previstas possuem dois focos principais: 1)  Equipamentos ‐ a reforma do Estádio Governador Plácido Aderaldo Castelo (Castelão). Mobilidade. a  ampliação do terminal de passageiros do Aeroporto Pinto Martins. hoje envolvidos no portfólio da Copa de  2014. e a construção do Terminal  Marítimo de Passageiros do Mucuripe. foi  dividida entre os três níveis de governo. Isto vem se dando em consequência do  cumprimento dos prazos acordados na reforma do Estádio Governador Aderaldo Plácido  Castelo. nenhuma das demais obras. Esta estratégia vem sendo bem no  sucedida no que diz respeito ao número de jogos conquistados pela cidade‐sede. conforme  discurso oficial.  Figura 2: Mapa esquemático localizando os demais projetos urbanos em  andamento na cidade de Fortaleza. vem sendo  implementadas conforme o cronograma estabelecido. a fim de proporcionar o acesso amplo e democrático ao espaço de forma  segura. socialmente inclusiva e sustentável. e implantação de duas novas estações de  metrô (Padre Cícero e Montese) (ver figura 1). Por outro lado. a partir da Matriz de Responsabilidade da Copa. Fonte: autoria própria. alargamento de  corredores viários (Raul Barbosa/Via Expressa). embora iniciadas oficialmente. os empreendimentos previstos  7 .

 de uma adaptação do ramal ferroviário de cargas  (operado pela estatal Transnordestina) para o transporte coletivo metrô. mesmo com a instalação do VLT. resumidamente. Destaca‐se que o transporte de cargas continuará em operação. Memória e Sustentabilidade Natal. será construída (ver figura 3 e 4).    8 . Fonte: SEPLAG/SEINFRA.   O projeto Metrofor trata‐se. 18 a 21 de setembro de 2012 priorizam a implementação e a melhoria de sistemas de transportes coletivos. Isto se dá em consequência da  permanência do Porto de cargas na ponta da Praia do Mucuripe. área de influência. mesmo com várias  determinações de planejamento que expressam o contrário (como o Projeto Orla e o Plano  Diretor de Fortaleza). que  teria como prioridade a finalização da linha Oeste. um dos mais importantes municípios que compõe a Região  Metropolitana de Fortaleza). A via ferroviária existente será adaptada para o VLT e uma nova via para  o transporte de cargas. (ligando o centro de Fortaleza ao centro do  município de Caucaia. bem como a  integração entre diversas modalidades de transportes. Mobilidade. uma  modificação da programação da implementação do sistema metropolitano de transportes. ou seja.   Figura 3: Eixo de implantação VLT.  e ainda será ampliado. Consideremos os projetos propostos:  VLT Parangaba‐Mucuripe  O ramal Parangaba/Mucuripe trata‐se de uma adaptação das obras do Metrofor.  Especificamente o  ramal Parangaba‐Mucuripe consiste no único trecho pelo qual o transporte de cargas ainda  trafega no interior da cidade.  2009. localização das estações e contexto urbano atual.                                                        II Encontro da Associação Nacional de Pesquisa           e Pós‐graduação em Arquitetura e Urbanismo  Teorias e práticas na Arquitetura e na Cidade Contemporâneas Complexidade.

 O  Governador do Estado já tem sugeriu oficialmente mais uma modificação da Matriz de  Responsabilidades da Copa. 18 a 21 de setembro de 2012 O ramal em questão fará a conexão de 12.0  milhões da Caixa Econômica Federal (CEF) para viabilizar este sistema.  Acontecimentos recentes em nível nacional impactaram sensivelmente este projeto específico. às principais áreas do  megaevento (aeroporto e estádio). Pontes Vieira e Mucuripe .4 km em elevado. que possibilitam o principal acesso ao litoral e à rede  hoteleira da cidade. Padre Antônio Tomás e Av. Rodoviária. A última conexão proposta dá acesso ao estádio. A aliança entre os partidos políticos  da prefeitura e do governo do estado foi rompida em razão das eleições municipais de 2012. Eng.    O contexto político local também passa por turbulências. Alberto Sá). O projeto ainda envolve o  alargamento das avenidas para um caixa de 45m.7 quilômetros entre a Estação Parangaba e o Porto  do Mucuripe (ver figura 3).3 km em superfície e 1. conectam‐se a Av. Santos Dumont.  um elevado ferroviário (no bairro Parangaba e na Av. ao longo da Av. As obras de melhoria da via prevista (incluindo drenagem. há décadas. Rui Barbosa e Via Expressa. Paulino Rocha (ver figura 1). alegando o descumprimento de procedimentos essenciais relativos ao processo de  licenciamento ambiental. Beira‐mar. Virgílio Távora). do  Tribunal de Contas do Estado do Ceará (TCE) para a Secretaria Infraestrutura do Estado  (SEINFRA). Av. A prefeitura está  sendo forçada então a reiniciar o processo licitatório. Memória e Sustentabilidade Natal.                                                        II Encontro da Associação Nacional de Pesquisa           e Pós‐graduação em Arquitetura e Urbanismo  Teorias e práticas na Arquitetura e na Cidade Contemporâneas Complexidade. Alberto  Craveiro. e de acordo com regras estabelecidas pelo Regime  Diferenciado de Contratações (RDC). localizada  predominantemente na porção litorânea. urbanização. a partir da BR‐116 pela  Av. Montese.   O principal objetivo do ramal é conectar a rede hoteleira da capital. demonstrando o desejo de assumir integralmente as obras de  mobilidade do Megaevento em Fortaleza. Papicu (estas duas possuem projeto que  envolve a integração com os terminais de ônibus). passando por 22  bairros. principalmente no eixo da Via Expressa. a implementação da obra ainda  prevê quatro passagens subterrâneas rodoviárias (na Av. Mobilidade.   Estações Padre Cícero e Juscelino Kubitscheck  Entre os projetos de melhoria de mobilidade urbana não previstos inicialmente.  terraplenagem. junto a este eixo. Dom Luiz. que comportará quatro faixas de fluxo de  veículos automóveis por sentido. pavimentação. A Prefeitura Municipal de Fortaleza conta com um empréstimo de R$170.  A Construtora Delta. Vila União. O principal motivo  da demora diz respeito a uma série de questões que envolvem a negociação das  desapropriações de cerca de 3 mil famílias que ocupam. Raul Barbosa e na Av. onde as  obras do VLT tem particular conexão (ver figura 1). Aguanambi) e viadutos rodoviário (nas  Av. Além das estações. A obra só foi iniciada em abril de 2012. o eixo do ramal  ferroviário (ver figura 3). contando com 8 estações: Parangaba. Serão 11. destaca‐se a  implantação de duas novas estações de metrô (Padre Cícero e Juscelino Kubitschek) na Linha  9 . São João  do Tauápe.   BRT Dedé Brasil/Alberto Craveiro/Paulino Rocha  A Avenida Dedé Brasil é a principal ligação viária entre o terminal rodo‐metroviário de  passageiros da Parangaba e o Estádio Castelão. Av. paisagismo e sinalização viária) para a Copa 2014  envolvem a construção de um sistema Bus Rapid Transit (BRT)ii. vencedora das quatro licitações promovidas pela prefeitura municipal em  razão das intervenções do megaevento. As desapropriações necessárias para este fim ainda não  foram iniciadas. Agrega‐se a este fato a notificação do dia 14 de maio de 2012. Av. abandonou os contratos acordados.

 a área do terminal passará de 38. Também serão criados novos espaços como edifício‐garagem. ou seja. para pré‐megaevento. (depois da Copa das Confederações. a previsão é que a capacidade operacional chegue a 14. como gramado. o Governo do Estado do Ceará e  Prefeitura Municipal de Fortaleza. tem previsão para o início de agosto de 2012.  Segundo o Ministério do Esporte. Até o final de 2013.5 mil m² para 133. mais do que o dobro da capacidade atual. Entretanto.829m² em duas  etapas. cobertas.2 milhões de usuários por ano para 9  milhões. Logo passou a ser uma das prioridades das  intervenções na cidade para atender o Megaevento de 2014. Mobilidade. estatal responsável pelo projeto. arquibancadas.000 metros quadrados. o projeto de  ampliação foi incluído posteriormente. Memória e Sustentabilidade Natal. área mista. Após a conclusão da segunda parte. camarotes. recentemente inaugurada (ver figura 1). o projeto de modernização  e adequação às exigências da Fifa do estádio Castelão abrange todas as estruturas da arena  esportiva. Segundo o projeto que atualmente vem sendo veiculado na  imprensa local e nacional. vips lounges com 10. 72 camarotes. três  mil business places com lounges. contava inicialmente com uma perspectiva de  funcionamento ótimo visando 50 anos. De acordo com a Infraero. a construção de cais/berço.2 milhões.  O projeto atual inclui a reforma e ampliação do terminal de passageiros juntamente com a  adequação do sistema viário de acesso. Com conclusão prevista  para dezembro de 2013.                                                        II Encontro da Associação Nacional de Pesquisa           e Pós‐graduação em Arquitetura e Urbanismo  Teorias e práticas na Arquitetura e na Cidade Contemporâneas Complexidade.    Arena Castelão  Conforme a Secretaria de Esporte do Governo do Estado do Ceará. a pavimentação e urbanização de acessos e o  estacionamento. A parte seguinte do trabalho aprofunda a análise neste projeto  específico.  Terminal de Passageiros do Porto do Mucuripe  Este projeto também foi adicionado via Termo Aditivo à Matriz de Responsabilidades em 19  de julho de 2010. inaugurado em 1998. setor de imprensa. em julho de 2010. As obras foram recentemente iniciadas  (recapeamento da pista de pouso).  10 . o terminal de passageiros do  Aeroporto Martins.  Equipamentos  Aeroporto Pinto Martins: reforma e ampliação do terminal de passageiros e adequação do  sistema viário  Fincado no centro geométrico da cidade de Fortaleza.  todo o processo de implementação seguirá as regras estabelecidas pelo Regime Diferenciado  de Contratações (RDC). O projeto engloba a construção do terminal de  passageiros. em 2016. a capacidade passará de 6. por meio de um aditivo da Matriz  de Responsabilidades da Copa. depois de vários adiamentos. será construído o Terminal Marítimo de Passageiros do  Mucuripe para atender à Copa de 2014.  entre outras. As obras foram  licitadas em regime de urgência. modelo que flexibiliza as licitações para as obras da Copa do Mundo  de 2014 e para a Olimpíada de 2016.  praça de acesso e restaurantes. e tiveram  recursos garantidos a partir de empréstimo da CEF de R$32. 18 a 21 de setembro de 2012 Sul do metrô de Fortaleza (Metrofor).  não será possível sua utilização). com a ampliação de 9 pontos de  embarque (hoje existem 7).2 milhões  de passageiros por ano. celebrado entre o Ministério do Esporte. vestiários.

   Figura 4: Estádio Castelão em três momentos: inauguração em 1973.  Tal reforma. As suítes e camarotes oferecem toda privacidade e  infraestrutura para relacionamento corporativo entre Diretores.  tecnologia.   Os pacotes de Hospitality oferecem o acesso aos jogos da Copa 2014 em espaços  privativos diferenciados. Fonte: imagens de  divulgação disponibilizadas em http://www. neste sentido. tem muito pouco de  futebol.secopa. foram incluídas e concluídas  graças à “oportunidade” viabilizada pelo Megaevento. passa.ce.                                                        II Encontro da Associação Nacional de Pesquisa           e Pós‐graduação em Arquitetura e Urbanismo  Teorias e práticas na Arquitetura e na Cidade Contemporâneas Complexidade. o Castelão (ver figura 4).  forçadamente. Mobilidade. Obras de reforma para a copa do mundo de 2014 em 2011. por sua vez. Para além do jogo de futebol. as Arenas possuem  espaços comercialmente viáveis. 18 a 21 de setembro de 2012 Projetos agregados  Diversas ações do Governo do Estado e da Prefeitura de Fortaleza que independem da Matriz  de Responsabilidades da Copa foram incluídos no “Plano de Investimentos” ou no chamado  “Portifólio da Copa” (ver figura 2).   Ao adorar tais princípios. para além do futebol dos finais de semana.  gerará uma parceria público‐privada por meio da concessão de exploração do equipamento. Fornecedores.   4 ANÁLISE DOS IMPACTOS DA “ARENA CASTELÃO”  Concepção arquitetônica e papel simbólico do projeto “Arena Castelão”   Inaugurado em 1973. fica claro que o Megaevento proporciona negócios. Clientes. incorporando os  compradores de shopping e os turistas. em nome do  megaevento.  garante a ampliação do uso para diferentes formas de entretenimento. A Copa. que deverá ser finalizado ainda no fim de 2012. alguns cuja relação com a copa é difícil detectar. vem sendo costurados. e  simulação da implantação final do projeto Arena Castelão. que projetos  urbanos de caráter pontual desconectados de um projeto de cidade. o Estádio  Governador Plácido Aderaldo Castelo. principalmente através da propaganda e do marketing urbano. Memória e Sustentabilidade Natal. ainda sem as arquibancadas das partes por detrás dos gols. desta forma. Uma série de obras que estavam pensadas há vários anos  para a cidade. As vendas ocorrem em todo o mundo. a  priori. Percebe‐se. principalmente. assumiu papel de redentor do caos urbano. conforto e. Este.  O caráter multifuncional das Arenas. durante 8 anos pelo Consórcio Arena Multiuso Castelão (Galvão Engenharia S/A e  Andrade Mendonça). e as Arenas são o  coração e símbolo maior deste empreendimento. financiada pelo Governo do Estado do Ceará por meio de empréstimo do BNDES. desde 2010.  Investidores. sustentabilidade econômica determinados pela Fifa. a geração de  renda extra.br/    Existe uma diferença evidente na nova estrutura pensada para o equipamento: viabilização de  diversidade funcional que sustenta.gov. pela  segunda reforma cujo objetivo maior é atender aos padrões internacionais de segurança. conceitualmente diferentes dos Estádios. e a expectativa é  11 .

18 a 21 de setembro de 2012 que as áreas Vip’s esgotem‐se rapidamente. Gerente do  Departamento de Desenvolvimento Urbano e Regional do BNDES). Outras alterações substanciais no  projeto original dizem respeito ao rebaixamento do gramado.  O desafio colocado ao arquiteto foi também o de executar a reforma aproveitando a estrutura  original. dos traslados. O projeto.  Ainda segundo o autor do projeto:  Ele (o projeto) prevê gerar uma imagem de modernidade que poderá ser uma nova  atração turística para a cidade.  podem  ser  entregues  após  o  evento”. além de propor a  flexibilização de indicadores urbanos em seu entorno. em  26/05/2012). Memória e Sustentabilidade Natal. implantados de forma concentrada neste setor. não teremos Copa.  já  que  “muitos  desses  projetos  não  são  tão  importantes  para  a  Copa.    Para o BNDES. centro de imprensa. Estes tipos de declarações. o projeto de reforma do Estádio foi entregue ao escritório  Vigliecca e Associados. valorizar o solo da região do entorno  de maneira marcante e irreversível criando uma nova centralidade de animação na  escala metropolitana (www. visando o adensamento habitacional. A Copa se espalha pela economia.  Parte da estrutura de concreto. novas dependências de serviços e  vestiários. o projeto apresenta novos parâmetros  de ocupação e preservação. Gerente Comercial oficial da Match  Hospitality no Brasil. Mobilidade. suítes e áreas VIPs. uma vez que as reformas e as novas construções  previstas na gleba do estádio irão.  O projeto aposta no diálogo entre a estrutura de concreto original da década  de 70 a nova cobertura sustentada por 60 pórticos de aço. ao contrário das decisões pelas demolições tomadas em outros Estados que também  sediaram jogos. A instituição  financeira estima que com até R$ 530 milhões será possível erguer completamente uma arena  com todas as especificações técnicas exigidas pela FIFA. 52 camarotes. ou Arena: tribuna de honra.  Visando atender estas expectativas. das instalações. os equipamentos esportivos são prioridade de financiamento. podendo alcançar até 36 meses de carência.  setores de uso comercial temporário. Lembrando que todos os camarotes Match Premier. para jogos  do Brasil já se esgotaram (Daniela Storti.  Jérôme  Valcke. foi implodida para dar lugar ao novo programa do  Estádio Contemporâneo.                                                        II Encontro da Associação Nacional de Pesquisa           e Pós‐graduação em Arquitetura e Urbanismo  Teorias e práticas na Arquitetura e na Cidade Contemporâneas Complexidade. em resposta à solicitação de preços de ingressos.  Mas precisamos sim de 100% dos estádios. Inserido no bairro Passaré.  Sem arenas.com. Sendo assim. sem dúvida.vigliecca. área de ocupação periférica sul.900 veículos e o revestimento  envidraçado de suas fachadas (ver figura 5). devido a exclusividade e alta procura no  mundo corporativo. a ampliação da rede de transportes. original vai além do objeto  arquitetônico e alcança a escala urbana ao propor a construção de um complexo olímpico pós‐ copa. um estacionamento para 1. a  intervenção na Arena “pode desencadear um evidente vetor de expansão da cidade” segundo  o arquiteto em entrevista à Revista Projeto Design. a construção de um novo anel  de arquibancadas inferiores. O prazo de  pagamento é de 180 meses. o que é uma  oportunidade que não pode ser desperdiçada (Rodolfo Torres. Não temos que ter  país novinho em folha”.  e  continua  “apenas  algumas  partes  do  projeto  são  essenciais.  percebe‐se  que  grande  parte  do  projeto  não  será  executada. cada vez mais recorrentes na medida em  12 .br/pt‐BR/projects/castelao‐arena). contudo.  Não  estamos  forçando  que  100%  seja  entregue  até  a  Copa. ao Parque Ecológico do Cocó e à BR‐116.  segundo  o  secretario  geral  da  Fifa. exclusiva para a venda dos programas de camarotes/ingressos  da Copa do Mundo de 2014. mas de pouca visibilidade imobiliária.   Ao  avaliar  a  perspectiva  de  conclusão  da  obra  em  relação  às  demandas  mínimas  para  a  realização  do  evento. próximo ao  aeroporto. encaixados na base de concreto. um centro de compras.

br/pt‐BR/projects/castelao‐arena      Relação entre a concepção do legado e implementação dos projetos urbanos   Um  balanço  geral  divulgado  recentemente  pelo  Governo  Federal  aponta  que  41%  das  obras  em  todo  o  Brasil.br/copa2014/fortaleza/estadio e www. mas que também pode interagir com a  malha urbana. destaca‐se a  ausência de previsão de investimentos no terminal rodoviário João Tomé.                                                        II Encontro da Associação Nacional de Pesquisa           e Pós‐graduação em Arquitetura e Urbanismo  Teorias e práticas na Arquitetura e na Cidade Contemporâneas Complexidade. Ainda frente ao sistema rodoviário.   Neste contexto.transparencia. ainda sem data para o início das obras.com. são obras para o Brasil. ao  último balanço das obras (divulgada em abril de 2012). Já admitiu até que Fortaleza poderia  criar uma versão “light” do BRT. apenas o edifício anexo da nova sede da Secretaria Estadual de Esportes  parece atender parcialmente ao conceito de Arena.  relacionadas  à  Matriz  de  Responsabilidades  da  Copa. Mesmo sendo  prevista um estação de VLT nas intermediações do edifício.  serão  canceladas.  por  um  lado. pode estar contido neste contexto. O  VLT.  por  outro  lado. Memória e Sustentabilidade Natal. Mobilidade. caracterizada por uma faixa de fluxo preferencial nas Avenidas  Dedé Brasil. quando necessário. Alberto Craveiro e Paulino Rocha.  que  as  obras  ainda  não  iniciadas  ou  sem  projetos  ou  contratos  em  outubro  de  2012.  A outra principal intervenção referente à mobilidade. com uma estrutura e um  sistema que causa menor incômodo por ser segregado. sob responsabilidade do governo do  estado.  O governo municipal já admitiu dificuldades para a realização da obra devido à carência de  recursos para viabilizar as contrapartidas necessárias.vigliecca. o projeto de adaptação do sistema  ferroviário de carga não possibilitou nenhum tipo de interação com a malha urbana. O centro olímpico não tem previsão  de financiamento. também é passível de considerações no que diz respeito à sua concepção técnica. caracterizado por ser um modal de boa capacidade demanda. 18 a 21 de setembro de 2012 que  se  aproxima  o  megaevento.  ainda  continua  afirmando  que  não  são  obras  para  a  Copa. sendo  necessária uma série de intervenções no sistema viário da cidade (passagens em desnível) para  o seu bom funcionamento. As áreas comerciais previstas são  temporárias e funcionarão durante o período dos jogos. Por meio da avaliação das informações  13 . Fonte:  www.  O  governo  brasileiro  tem  adotado  uma  posição  contraditória  já  que  admite. planejadas antes mesmo de o evento ser anunciado.  ainda  sequer  foram  iniciadas.   Na figura 6 abaixo foram sintetizadas algumas das previsões orçamentárias e de  implementação dos projetos a partir da matriz de responsabilidades (de janeiro de 2010). Em que medida o projeto da “Arena” não ficará restrito a mais um  “Estádio”?   Figura 5: Momentos que registraram a implosão de parte da estrutura do estádio e ilustração do projeto da Arena Castelão.  deixa  transparecer  o  poder  decisório  da  Fifa  em  relação  às  decisão das prioridades do Governo Brasileiro. nenhum tipo de melhoria de  conexões entre vias municipais e intermunicipais foi anunciada até o momento. No caso específico.gov.  O BRT de Fortaleza.

  Percebe‐se que a “cota parte” dos recursos direcionados aos equipamentos constitui o  montante mais significativo. tendo  como exceção a reforma do estádio Castelão.br/.   14 .  associados às desapropriações de populações de baixa renda.  Nesse  contexto.  não  observam  as  determinações  estabelecidas  pelo  Plano  Diretor Participativo de Fortaleza (PDP‐For). 18 a 21 de setembro de 2012 disponíveis. ou seja. que priorizam o alargamento de eixos viários. sujeitos ao super‐dimensionamento. as variações encontram‐ se quase integralmente associadas às obras de execução. Dentro dos acréscimos.  Figura 6: Síntese da variação dos custos de alguns projetos da copa entre 2010 e 2012.  Condições de acesso à terra e produção da habitação  Um dos impactos de maior relevância na cidade de Fortaleza esta  relacionado com a alteração  na  dinâmica  imobiliária.gov. necessário à  realização do megaevento. isolados no  contexto metropolitano mais geral. Valores dados em R$ milhões.transparencia.  analisando  os  grandes  equipamentos  de  Fortaleza  relacionados  à  Copa  de  2014. favorecendo o transporte  individual e a valorização da terra de forma linear e tentacular.  Tais  transformações. não estabelecidas à  priori na Matriz de Responsabilidades.  decorrente  dos  projetos  urbanos  realizados  para  receber  a  Copa  de  2014. Memória e Sustentabilidade Natal. verifica‐se que a maior parte dos projetos obteve acréscimo orçamentário. Em nenhum projeto que exigia  desapropriações.  Figura 7: Esquema mostrando a divisão das parcelas de recursos entre os diferentes projetos urbanos. houve flexibilidade para este fim.  Destaca‐se ainda a possível priorização para intervenções “novas”. poderemos ter  como resultados dos investimentos da copa grandes equipamentos urbanos.                                                        II Encontro da Associação Nacional de Pesquisa           e Pós‐graduação em Arquitetura e Urbanismo  Teorias e práticas na Arquitetura e na Cidade Contemporâneas Complexidade. autoria própria.  observa‐se  grandes  alterações  na  dinâmica  socioespacial  nas  áreas  próximas  ao  Estádio  do  Castelão. Assumindo a possibilidade da não viabilização dos projetos urbanos  ainda não iniciados (coincidentemente relacionados aos transportes públicos). Fonte:  http://br. correspondendo à 61% dos R$1.6 bilhões previstos até o  momento (ver figura 7). Mobilidade. Fonte: autoria própria.  antecipadas  no  plano  urbanístico  desenvolvido  pelo  Escritório  Vigliecca  Associados.

  com  mais  benefícios  para  a  cidade. alterações adequações no projeto inicial do VLT. O zoneamento em questão não possibilita a  flexibilização dos indicadores urbanísticos.  quando  a  cidade  recebe  mais  uma  vez  destaque  frente  a  conquista  de  uma  quantidade  de  jogos  sediados.  A  melhoria  no  sistema  viário  que  dá  acesso  ao  Estádio  do  Castelão  se  destaca  como  um  dos  principais  fatores  de  valorização. a área encontra‐se em uma zona que se caracteriza pela precariedade  da infraestrutura e dos serviços urbanos e tem como objetivo prioritário requalificar  urbanisticamente área ambientais degradadas. foram pensadas para a redução do número de desapropriações.  os  terrenos  em  áreas  de  avenida  sofreram  uma  valorização  de  até  1. junto com os equipamentos instalados. De  acordo com o governo do estado. Alberto  Craveiro como principal marco.  em  média.   Essa  valorização  pôde  ser  percebida  inicialmente  com  o  anuncio.                                                        II Encontro da Associação Nacional de Pesquisa           e Pós‐graduação em Arquitetura e Urbanismo  Teorias e práticas na Arquitetura e na Cidade Contemporâneas Complexidade.  Um  fator  importante  para  a  atração  do  mercado  imobiliário  para  essa  região  são  os  investimentos  em  infraestrutura. tendo a Av.000%. Este fragmento em questão é demarcado no plano diretor  como uma área onde são proibidos novos parcelamentos solo e tem como objetivo a  preservação integral de áreas com significativo interesse paisagístico.  mas  desta  vez  muito  mais  rapidamente. já que  viabilizarão. Parangaba e Itaperi.  Segundo  o  tesoureiro  do  Conselho  Federal  de  Corretores  de  Imóveis. Com a grande valorização dos terrenos a construção de casas já se  torna inviável sendo a verticalização a opção de maior rentabilidade (ver figura 8). contendo a expansão urbana em direção à  áreas com grande fragilidade ambiental. ramal  Parangaba‐Mucuripe.  Esse  processo  de  valorização  se  estende  para  além  do  bairro  Castelão  se  destacando  como  novas  opções  de  crescimento  os  bairros  Passaré.  Mais  recentemente.  passando  de  R$  50  para  R$  400.  Armando  Cavalcante.  a  valorização  vai  continuar”.  da  cidade  de  Fortaleza  como  sub‐sede  da  Copa  de  2014.  Contudo. percebe‐se a grande valorização imobiliária que vem ocorrendo nas áreas próximas  ao Castelão envolve diversas variáveis.  não existe a disponibilização pública do projeto até o momento. Existe uma clara fronteira de valorização da terra. Tais terrenos vêm dando lugar a novos  empreendimentos imobiliários horizontais e verticais (condomínios fechados).  presidente  do  Sindicato  dos  Corretores  de  Imóveis  15 . 18 a 21 de setembro de 2012 De acordo com o PDP.  em  2009. Com toda essa  valorização já se percebesse uma modificação na morfologia das edificações do bairro que  antes se destacava por uma predominância de edificações horizontais e hoje já se observa uma  tendência à verticalização.  “Quanto  mais  às  obras  forem  avançando. é  a parte do bairro Passaré mais valorizada. Tais contradições  representam um descompasso e retrocesso frente às medidas estabelecidas no PDP.  Segundo  o  tesoureiro  do  Conselho  Federal  de  Corretores  de  Imóveis.  explica  José  Maria  Cavalcante.  o  valor  do  metro  quadrado  na  área  valorizou  700%.  os  preços  dos  imóveis  no  entorno  do  Estádio  subiram  novamente.   Existe disponibilidade de terra vazia. Messejana. Memória e Sustentabilidade Natal.  Ainda há de se destacar a principal contradição do legado da copa: as desapropriações.   Destaca‐se no plano de ocupação vinculado ao estádio uma parte do território preparada para  o desenvolvimento imobiliário.  podendo chegar a valores mais altos (ver figura 8). Na porção mais a oeste da área de entorno do equipamento. contudo. mas a localização do equipamento e das intervenções  viárias são as principais. Mobilidade. São inúmeros e diversificados os terrenos que não  desempenham qualquer função social.  Armando  Cavalcante. a valorização significativa da terra.

  encontram‐se  hoje  fechados.                                                        II Encontro da Associação Nacional de Pesquisa           e Pós‐graduação em Arquitetura e Urbanismo  Teorias e práticas na Arquitetura e na Cidade Contemporâneas Complexidade.  Figura 8: Análise do entorno do estádio e identificação de dinâmicas.  Ao  longo  da  Av.  Com  o  aumento  do  preço  dos  imóveis  e  consequentemente a modificação dos usos.    16 .  Paulino  Rocha.   Outra  modificação  já  percebida  refere‐se  aos  usos  das  edificações.  disponíveis para aluguel.  mesmo  depois  do  final  da  Copa  do  Mundo. Fonte: autoria própria.    Uma  das  principais  consequências  dessa  modificação  na  dinâmica  imobiliária  da  região  no  entorno  do  Castelão  é  o  processo  de  gentrificação.  Boa  parte  desses  empreendimentos  tem  a  incorporação  assegurada  pelo  Programa  Minha  Casa  Minha  Vida  (PMCMV). destacou.  Segundo  a  perspectiva  dos  agentes  de  corretagem.  já  é  possível  observar  tais  transformações.  Existe  uma  tendência  de  crescimento de imóveis para fins comerciais com o objetivo de atender a demanda de serviços  decorrentes  do  grande  movimentação  de  pessoas  na  Copa  de  2014. Mobilidade.  os  preços  da  região  do  entorno  do  Castelão  não  deverão  cair  porque  os  terrenos  estavam  sendo  comercializados  a  preços  muito  baixos.  Observa‐se. 18 a 21 de setembro de 2012 do  Estado  do  Ceará  (Sindimóveis). que influencia diretamente a vida das pessoas que  moram na região.  Inúmeros  galpões  de  armazenamento  de  mercadorias.  “Estão  indo  agora para um preço de mercado”. Memória e Sustentabilidade Natal.  em  razão  da  proximidade  com  a  BR‐116.  Analisando  os  anúncios  dos  novos  empreendimentos  residenciais  observa‐se  nas  estratégias  de  venda  o  apelo  às  promessas  de  desenvolvimento  da  região  (ver  figura  9). existe uma forte tendência de expulsão da população local que não possuirá  condições  financeiras  para  permanecer  nessa  localidade.  portanto  que  o  processo  de  desenvolvimento  que  vem  ocorrendo  no  entorno  do  Estádio  tende  a  valorizar  de  forma  geral o setor privado em detrimento da população local.

  as  diretrizes  planejamento  urbano  e  de  proteção  ambiental.br/condominio‐laguna‐ residence‐pre‐lancamento‐no‐castelao‐iid‐229629335  http://www. 2009). parece justificável neutralizar os empecilhos normativos. Memória e Sustentabilidade Natal.                                                        II Encontro da Associação Nacional de Pesquisa           e Pós‐graduação em Arquitetura e Urbanismo  Teorias e práticas na Arquitetura e na Cidade Contemporâneas Complexidade.   A  maior  parte  dos  novos  equipamentos  urbanos  previstos  é  voltada  às  áreas  de  esporte  e  lazer.  por  meio  de  alterações  na  legislação  urbana  vigente  e  na  agenda  de  prioridades  preexistentes. abrindo terreno  para dúvidas acerca dos reais benefícios deles decorrente. 18 a 21 de setembro de 2012 Figura 9: Lançamentos imobiliários para os bairros Passaré e Castelão.  extrema  falta  de  transparência  documental  e  pouca  ou  nenhuma  participação  do  conjunto  da  população  nas  decisões  que  já  previamente  tomadas  em  nome  das  necessidades  do  evento.  Destaca‐se  neste  contexto  a  necessidade  de  adequação  dos  espaços  urbanos. mas fazer da necessidade  algo que torna lícito o ilícito.  Neste  contexto.imobimix. sobretudo o parque hoteleiro municipal (BRASIL.  transferência  de  grande  quantia  de  recursos  públicos  para  poucos  grupos  privados. por vezes alheias ao contexto urbano local.com.  Empreendimento: Condomínio Laguna Residencial Bairro: Castelão.  capital  do  Estado  do  Ceará. Propaganda: Venha morar próximo ao Estádio  Castelão.  tem  procurado  se  firmar  como  lócus  privilegiado  para  a  realização  do  megaevento  Copa  2014. Possibilita que instrumentos temporários de poder político tornem‐se  17 .  a  cidade.  ameaças  de  despejos  de  famílias.  pela  primeira  vez.  intervenções  realizadas  na  cidade  que  ferem  a  legislação  de  controle  urbano. Mobilidade.  a  recepção  do  megaevento  Copa do Mundo FIFA 2014 ainda não foi amplamente debatido e confrontado.  A  comemoração  por  esta  oportunidade  é  tão  significativa  quanto  à  preocupação  que  tem  demonstrado  diversos  setores  da  sociedade  organizada  quanto  a  forma  como  está  sendo  realizada  a  preparação  deste  evento:  condições  especiais  de  licitação  e  contratações  de  empreiteiras.  sediará  um  evento internacional de grande escala e visibilidade. e de infraestrutura turística. Propaganda: Aqui no Mandarim Residence.com.  às  determinações da Fifa.    Fonte: http://fortaleza.olx. faz com que o argumento atue como justificativa para a  transgressão.html  5 O QUE ESTÁ EM JOGO?  Fortaleza.  enquanto  que  as  demais  intervenções  são  destinadas  à  complementação  de  infraestrutura  básica  de  transporte  que  permita  o  deslocamento  de  atletas  e  turistas  (agentes  externos).  seu dinheiro se valoriza! Será mais um sucesso de vendas na  região que mais tem se desenvolvido.   Empreendimento: Condomínio Mandarim Residence Clube Bairro: Passaré.  No momento da oportunidade.br/imoveis/mandarim‐ condominio‐clube‐passare‐fortaleza‐apartamento‐ venda+100136.  Utiliza‐se como recurso a consideração da ideia de “necessidade”.  Apesar  da  ampla  campanha  de  formação  de  consensos  políticos.

  convite.  Na modalidade da contratação integrada. Para apressar essa fase. as empresas oferecem os lances. Observando o exemplo da RDC.  Primeiro. concurso. e promotores de Justiça    Contratação  integrada  Lei nº 8. A empresa poderá ter enorme  vantagem em relação ao Estado.  A lei diz que é o governo quem tem que  fazer os projetos básicos das obras.  Ressalta‐se que é difícil estimar o preço de uma obra sem um  projeto básico. Ou  ainda. o que lhe permite  obter ampla margem de lucros.                                                        II Encontro da Associação Nacional de Pesquisa           e Pós‐graduação em Arquitetura e Urbanismo  Teorias e práticas na Arquitetura e na Cidade Contemporâneas Complexidade. auditores e membros do  TCU.  Com isso. utilizado nas licitações do Aeroporto Pinto Martins e das obras de  mobilidade da prefeitura de Fortaleza.  Por regra.462/ 2011).   Observemos em um primeiro plano o Regime Diferenciado de Contratações Públicas (RDC de  Lei nº 12. Assessorias técnicas do PCdoB. Só quem vencer a  licitação é que vai ter que apresentar a documentação da  habilitação.  O licitante pode entrar com recursos  contra o edital. e esta combinação  caracteriza a forma com que a nações periféricas são orientadas para operar no capitalismo  financeiro internacional (AGAMBEN. caso de superfaturamento. O Estado. gasta‐se longo tempo  analisando papéis de empresas que  sequer vão ter condições de executar o  trabalho ao final. É possível identificar que os  mecanismos são utilizados de forma permanente também no desenho das políticas públicas  urbanas. o executivo ficará menos  vulnerável e entende que vai acelerar a execução dos projetos. usando valores estimados com base em preços  de mercado ou já pagos em contratações semelhantes ou  calculados de acordo com outras metodologias. após a  escolha do vencedor e a aprovação ou não de sua habilitação.666/93  (regime de contratações públicas)  Existem seis modalidades de licitação: concorrência.  percebe‐se que a fragilidade da Matriz de Responsabilidade da Copa ocasionará uma serie de  exceções (ver quadro 1). mantido em sigilo até  o final da licitação. PSDB e DEM. Ainda  18 . depois contra uma  empresa habilitada ou desabilitada e  depois ainda contra uma empresa  declarada vencedora. ou mesmo permanentes. Os  recursos contra o edital não vão suspender o andamento da  licitação.  Lei nº 12. é preciso se habilitar  juridicamente primeiro antes de oferecer  as melhores propostas numa licitação. em plenas condições de uso. em que a  obra é contratada por inteiro e deve ser entregue à administração  pública pronta para uso.  Projeto básico  e orçamentos  Inversão das  fases da  licitação  Redução dos  recursos  Nas grandes obras. Mobilidade. Ou  seja. leilão. Para o governo. Cada recurso  suspende a realização da licitação. A  principal inovação é a criação da contratação integrada. o governo entrega  apenas um anteprojeto de engenharia às empresas licitantes. tomada de preços. Estados e municípios de usarem o Regime  Diferenciado de Contratações (RDC) apenas para tocarem as  obras da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016. 18 a 21 de setembro de 2012 instituições duradouras.462/ 2011  (regime diferenciado de contratações públicas)  Dá a opção à União. O governo  poderá fazer contratações integrais das obras. dirigido pelo capitalismo  financeiro. A  administração fará um orçamento interno. consultores de orçamento. Memória e Sustentabilidade Natal. será possível usar um  cadastro com a pré‐qualificação permanente das empresas  interessadas em participar de licitações.   Mas este processo não se restringiu ao campo econômico. tem que entregar aos licitantes um  orçamento de quanto pretende gastar  incluindo uma relação minuciosa dos  materiais e mão‐de‐obra que serão  usados em todo o empreendimento. A empresa vencedora da licitação vai fazer o  projeto básico já sabendo quanto vai receber.    O julgamento dos recursos vai acontece apenas no final.  Quadro 1: Comparação entre  o regime de contratações públicas em vigência e o regime diferenciado para o Megaevento. Fontes:  Relatório de Jandira Feghali. que deverão ser entregues 100% prontas pela  empreiteira contratada. 2004). A lei dá mais liberdade para o Executivo. o Estado poderá ter enorme vantagem em relação à  empresa casos em que a empreiteira pode começar os trabalhos e  depois abandonar por falta de condições financeiras. as contratações das empresas  devem ser parciais (uma empresa fica  com a estrutura. pregão. outra com a edificação e  outra com o acabamento). tem se utilizado de um “estado de emergência econômico” para possibilitar a  adoção de medidas heterodoxas frente às normas legais correntes.

 O artigo 6º do RDC ainda diz que a busca da vantagem   para a administração não será apenas preço.  Só os atos mais relevantes vão para o Diário Oficial obras de mais  de R$ 150 mil e serviços de mais de R$ 80 mil. na página de transparência da  administração. 2011). os  municípios que estão com obras em  andamento podem refinanciar suas  dívidas acima do limite da receita líquida  real. principalmente. depreciação econômica e  outros fatores de igual  relevância.  O prazo para refinanciar dívidas acima do limite quando houver  obras em andamento é esticado até 31 de dezembro de 2013. sustentabilidade ambiental. as mais vulneráveis. se provarem  desequilíbrio financeiro. Já os donos de residências  avaliadas acima de R$ 40 mil receberão o valor correspondente à desapropriação em dinheiro.                                                        II Encontro da Associação Nacional de Pesquisa           e Pós‐graduação em Arquitetura e Urbanismo  Teorias e práticas na Arquitetura e na Cidade Contemporâneas Complexidade. menos de R$ 40 mil).00 (ROLNIK. A lista de empreendimentos  deverá constar nas Matrizes de Responsabilidades ou obras  imprescindíveis para cumprir os compromissos com as  organizações internacionais. nem onde será.  ‐ Por exigência da Administração Pública. Poderá ser admitido até 70% de peso para um dos dois  itens.  ‐ Para recomposição financeira motivada por casos de força. receberão uma unidade residencial (na  periferia da metrópole) dentro do programa federal Minha Casa Minha Vida. o governo do estado encaminhou. Destaca‐se.  Na contratação integrada.  Aditivos sem  limites para  Fifa e COI  As empresas têm que cumprir o  orçamento.  manutenção. A exceção das obras imprescindíveis   pode abrir caminho para qualquer tipo de empreendimento. da Caixa  Econômica Federal.  Bônus ou  remuneração  variável  Publicidade  Lista de obras  da Copa e das  Olimpíadas  A lei atual não é específica para a Copa do  Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. no limite de 25% e 50%.  Endividamento  de cidades‐ sede da Copa  Pela Medida Provisória 2185‐35/2001. não há garantias de alternativas de  moradia no ato da desapropriação. um projeto de lei que se apresenta em desacordo com os princípios do direito à  moradia. não existe de forma clara na mensagem  quando ela será entregue. exige que as casas devem estar  prontas no momento em que as pessoas forem removidas.  Apesar de considerar que a contratação integrada reduzirá o  número de aditivos da RDC prevê três exceções:   ‐ Não haverá limite de aditivos se alteração do projeto for pedido  da Fifa ou do COI. ou seja. consagrados na constituição federal de 1988. Copa das Confederações de  2013.  Praticamente todos os atos da licitação  são publicados no Diário Oficial. o processo de desapropriações.     Sobre as desapropriações e indenizações dos moradores que serão removidos por conta da  construção do VLT Parangaba‐Mucuripe.  O governo poderá conceder uma remuneração variável  às  empresas que entregarem as obras antes dos prazos e se tiverem  bom desempenho nos padrões de qualidade e critérios de  sustentabilidade ambiental. para  estes. de acordo com o projeto. será de  apenas R$ 200. Desta forma. pode haver  reajuste no contrato de até 25% para  obras e até 50% para reformas. dificilmente  conseguirão comprar um imóvel com o valor a ser pago. o critério será sempre de técnica e  preço. O valor do aluguel social definido. mas. com prestações custeadas pelo estado. Mesmo os que vão receber  indenizações (muitos receberão. 18 a 21 de setembro de 2012 Preço e  qualidade    há casos que vão parar na Justiça Quando o critério de escolha for preço e  técnica.  Frente ao provimento de outra unidade habitacional. apenas serão consideradas as benfeitorias: os proprietários dos imóveis avaliados em  até R$ 40 mil.  As obras referentes à Copa de 2014. A legislação internacional.   19 . além da indenização correspondente. os pesos deverão ser de 50% para  cada item.  A empresa que vence o contrato tem a  obrigação de cumpri‐lo exatamente como  prometeu. no final do ano de  2011. Isso  vai beneficiar os municípios‐sedes da Copa do Mundo. o  tratamento diferenciado dado aos posseiros. Olimpíadas e Paraolimpíadas poderão usar o Regime  Diferenciado de Contratações (RDC). mas também  benefícios diretos e indiretos. Memória e Sustentabilidade Natal.  para as famílias que terão indenização de até R$ 16 mil. Mobilidade. Não há nenhum bônus se  antecipar prazos ou usar tecnologias  inovadoras. No texto. O valor do bônus não poderá  estourar o orçamento inicial do empreendimento. O restante é  publicado apenas na internet.

 Gavin.. Cibele (orgs. educação. O que está em jogo é a própria (re)organização social urbana na qual o megaevento  se realiza e a definição dos papéis a serem desempenhados por todos setores sociais.                                             i  Contribuiu para a elaboração do artigo a Arquiteta e Urbanista Bruna Gripp Ibiapina (bruna_gripp@hotmail.. transporte. In: OLIVEIRA. 2010.  FERREIRA. G. é preciso reencontrar uma forma balanceada de gestão dos legados. ou TRO (Trânsito Rápido de Ônibus). S.  convivência. W. 1998.com). 2004  BORJA. Ruy. O  conceito evoluiu a partir dos corredores exclusivos para ônibus. O jogo continua: megaeventos esportivos e cidades. March 2006 . fez parte por dois anos do grupo de pesquisa A influência dos projetos urbanos nos fatores de expansão e  consolidação da cidade de Fortaleza.   FERREIRA. Cidade para poucos ou para todos? Impasses da democratização das cidades no  Brasil e os risco de um “urbanismo à avessas”.  1998. RIZEK. Estado de exceção. como alternativa ao metrô para o transporte de massa.  SANTOS. rápido.  MARCARENHAS. S. com uma imagem de qualidade e identidade única.  Para isso. G. atendendo não  apenas às exigências específicas do esporte e aos interesses particulares de grupos e setores. Mobilidade. São Paulo: Studio Nobel. BIENENSTEIN. São Paulo: Editora  UNESP.   ii O BRT. From Beijing to Bow Bells: Measuring the Olympics Effect. M.. 2007.   POYNTER. (Orgs. João Sette Whitaker. É preciso voltar um pouco atrás: Como as decisões foram tomadas? Que  atores cumpriram o seu papel estabelecido? Quem deixou de cumprir? Como foram  estabelecidos os papéis? Como foi a coordenação entre todos os entes envolvidos? Qual o  envolvimento da sociedade civil na concepção e implantação dos projetos? Quais os  mecanismos de controle ainda existente? Que conquista sociais já foram alcançadas?  6 REFERÊNCIAS  AGAMBEN. é um transporte coletivo sobre pneus.)  Hegemonia às avessas. na atual pesquisa em andamento. Rio  de Janeiro: EdUERJ. que quando  ainda estudante. As cidades na economia mundial.                                                        II Encontro da Associação Nacional de Pesquisa           e Pós‐graduação em Arquitetura e Urbanismo  Teorias e práticas na Arquitetura e na Cidade Contemporâneas Complexidade. Memória e Sustentabilidade Natal. que  combina elementos físicos e operacionais em um sistema integrado. 2011.).   20 . segurança. Londres: Earthscan. Franciso. a estruturação urbana nas diversas áreas como habitação. The Local & the Global : Management of Cities in the Information Age. São Paulo: Boitempo. já que são realmente necessários os 12  estádios. J. Working Papers in Urban Studies:  London East Research Institute. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. J. F. sucesso econômico e outras.  SASSEN. flexível. Não é tão importante a melhora da qualidade de vida das comunidades  em risco. BRAGA. CASTELLS. Rio de Janeiro: Record. O mito da cidade‐global: o papel da ideologia na produção do espaço urbano. São Paulo: Boitempo Editorial. mesmo depois de graduada. É  também fundamental contemplar o desenvolvimento sustentável e atender as necessidades  da sociedade civil. a Fifa tem feito o governo recuar e admitir que o legado prometido já não é  tão importante assim. Milton. SÁNCHEZ.  2010. 18 a 21 de setembro de 2012 Neste contexto. G. de alto desempenho. e continua contribuindo.