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(…) Colocou, para Mme. Chauchat, uma poltrona forrada de pelúcia, no lugar que antes assinalara pantomimicamente.

Para si mesmo apossou-se de uma cadeira de vima, de braços redondos, e que gemeu e rangeu, quando nela se sentou. Inclinou-se para Mme. Chauchat, apoiando os cotovelos nos braços da poltrona, com a lapiseira na mão e com os pés para trás, embaixo da cadeira. Ela, por sua vez, afundou-se no estofamento coberto de pelúcia; seus joelhos achavam-se muito elevados, mas apesar disso, cruzou as pernas e balançou um dos pés, cujo tornozelo, acima da margem do sapato de verniz preto, desenhava-se sob a seda igualmente preta da meia. À sua frente estavam sentadas outras pessoas, que se levantavam para dançar e cediam o lugar a outras, cansadas. Era um constante vaivém. - Estás com um vestido novo – disse Hans Castorp, para ter o direito de olhá-la, e ouviu como ela respondia: - Novo? Então conheces meu vestuário? - Tenho ou não tenho razão? - Tens, sim. Mandei fazê-lo aqui, recentemente, no Lukacek, na aldeia. Ele trabalha muito para as senhoras daqui. O vestido te agrada? - Muito – respondeu ele, envolvendo-a mais uma vez no seu olhar, antes de baixar os olhos. – Queres dançar? – acrescentou. - E tu, gostarias? – perguntou ela, sorrindo, com as sobrancelhas alçadas, ao que ele replicou: - Gostaria, sim, se tivesses vontade. - És mais levadinho do que eu pensava – observou ela, e quando ele se riu desdenhosamente, acrescentou: – Teu primo já se foi? - Pois é, é meu primo – confirmou Hans Castorp sem necessidade. – Eu também notei que ele não está mais aqui. Acho que já se recolheu. - É um homem jovem muito fechado, muito honesto, muito alemão. - Fechado? Honesto? – repetiu ele. – Entendo o francês muito melhor do que falo. Queres dizer que ele é um pedante. Achas que os alemães são pedantes, nós Alemães? - Nós zombamos de seu primo. Mas é verdade, vocês são um pouco burgueses. Vocês amam a ordem melhor que a liberdade, toda a Europa o sabe. - Amar... amar... o que é isso? Falta uma definição a essa palavra. Um ama, outro possui,como nós dizemos proverbialmente – afirmou Hans Castorp e prosseguiu: Nos últimos tempos meditei às vezes sobre a liberdade. Isto é: ouvi esta palavra com tanta frequência, que me fez refletir. Eu te direi em Francês o que pensei a respeito. Isso que toda a Europa chama de liberdade pode ser uma coisa tão pedante e tão burguesa em comparação à nossa necessidade de ordem – é isso! - É divertido. É a teu primo que tu pensas em dizer coisas estranhas como essa? - Não, é realmente uma boa alma, uma natureza singela, cujo espírito não corre nenhum perigo, tu sabes. Mas ele não é burguês, ele é militar. - Não corre perigo? Repetiu ela com alguma dificuldade… – Tu queres dizer: uma natureza firme, certa de si mesma? Mas ele está seriamente doente, teu pobre primo. - Quem te disse isto? - Aqui a gente anda bem informada sobre os outros. - O dr. Behrens te disse isto? - Pode ser, me fazendo ver esses quadros (chapas de radiografia). - Quer dizer: fazendo teu retrato! - Por que não? Achaste bom, meu retrato? - Mas sim, extremamente. Behrens restituiu exatamente tua pele, oh realmente, muito fielmente. Eu adoraria ser retratista, também, para ter a oportunidade de estudar tua pele como ele. - Fala em Alemão, por favor! - Oh, eu falo Alemão também quando falo Francês. É uma forma de estudo artístico e médico – em uma palavra: trata-se de “literatura”, tu compreendes. E então, não queres dançar? - Não. Acho isso pueril. Discrição de médicos. Assim que Behrens voltar, todos cairão sobre as cadeiras. Isso será fortemente ridículo. - Tens tanto respeito a ele? - A quem? – disse ela, pronunciando a interrogação com uma brevidade exótica. - A Behrens. - Mas vai então com teu Behrens! Além disso falta espaço para dançar. E depois sobre o tapete... Vamos ver como dançam os outros. - Pois sim, vamos – concordou ele, e pôs-se a olhar, sentado junto dela, com o rosto pálido; os olhos azuis que tinham a expressão pensativa do avô observavam os saracoteios dos enfermos disfarçados, no salão e na biblioteca. A Irmã Muda saltitava com o Joãozinho Azul; a sra. Salomon, fantasiada de cavalheiro engalanado, de casaca e colete branco, com uma camisa engomada de peito saliente, com um bigode pintado e com um monóculo, girava nos saltinhos altos dos seus sapatos de verniz, que, inauturalmente, saíam por baixo das calças de homem; seu par era o pierrô, cujos lábios luziam num vermelho de sangue no rosto caiado, e cujos olhos se pareciam com os de um coelho albino. O grego de mantilha requebrava suas pernas

é um grande falador. lançando em redor de si olhares confusos. Na eternidade. curada? .Ah! Tu o conheces? . de alguma forma – sem responsabilidade. Pode ser.harmoniosas.Quando? . alguns jogavam cartas. eterno..Tu não estás mal instruído.. Talvez não passemos de filhos enfermiços da vida.. a três. tens a intenção de me tratar por “tu” para sempre? .. Eu sempre te tratei por “tu” e assim te tratarei eternamente.De maneira que voltarás? . – Por que falar? Falar. Diz-me então. discorrer. Eu quero dizer: é um sonho bem conhecido. tu a conheces a fundo. A srta. que se tornou um pouco meu amigo. por enquanto… . No entanto.Aonde vais? .É um pouco forte. a sra. a gente faz como se imitando um pequeno porco: a gente pende a cabeça para trás e fecha os olhos.Nem um pouquinho. voltou a ressoar.Estás. Eu.Eu não acredito que nós sejamos de tudo e nada como devemos ser – replicou ele.Vamos. O piano. Falavam baixinho. humanista e poeta – eis um alemão ao completo. Um de nossos hóspedes. – Burguês. Em seguida. tu o percebes bem. em torno de Rasmussen. . sem dúvida. É um pouco tarde que o Senhor resolve endereçar a palavra a seu pobre servo. a gente não fala nada. Depois do jantar.Quanto a isso. É necessário admitir que tu és um pequeno sonhador um tanto curioso. porque Hans Castorp falava o francês de modo lerdo. Sua conversa desenvolvera-se com certa lentidão.Como? Era uma frase indiferente.Ele lança sobre ti algumas palavras. simplesmente. . .. Não teria sido difícil sonhar esse sonho mais cedo. ou como nós falamos no sonho. significa que se recolheram ao repouso]. . pois é necessário dormir muito profundamente para sonhar dessa forma.E ainda – disse Hans Castorp –.Eu não me lembro sinceramente de ter tido o prazer de conhecer esse cavalheiro. Partirei. para contigo eu prefiro essa língua à minha. então. Depois. ele sobressaltou-se. falar – continuou Hans Castorp – pobre paixão! Na eternidade. agora sob as mãos do rapaz de Mannheim. O promotor público. sabes? estarmos sentados assim – como um sonho singularmente profundo. tu sabes. mantendo-se abraçados.É porque eu vou arriscar uma pequena mudança de ar. no seu quimono. Engelhart estava sentada a seu lado e virava as folhas.Nada mal.. . se eu tivesse falado mais cedo. . Em todo caso. teria sido necessário que eu te tratasse por “a senhora”! . Estou falando com a mais absoluta seriedade.Poeta! – disse ela. . Eu vou partir.Um pouco. disse: . A palavra custou a lhe penetrar a consciência.A Daghestan? . . Na biblioteca. decotado e resplandecente de lantejoulas escuras. é uma coisa bem republicana. estar sentado perto de ti como agora. eu não falo habitualmente o Francês. ele gosta muito mesmo é de recitar belos versos – mas esse homem é um poeta? . eu o concedo. . sonho de todo tempo. Senhor Settembrini. é a eternidade. isso! Tu estás na tua casa na eternidade. como que numa meditação vacilante. como faz quem é despertado de repente. revistas de ceroulas violeta. no meio dos sons do piano. como deve ser. .Bonita palavra. olha.Mas claro. pois para mim falar Francês é falar sem falar.Não é possível – disse ele.Muito longe daqui. .Que vais fazer? – perguntou Hans Castorp.Por que essas palavras? – disse ele. tu não terás por muito tempo a oportunidade de me tratar por “tu”. não.. . Wurmbrand e o jovem Gänser dançavam juntos. aparentemente surpreendida pelo seu aspecto estarrecido. e cujas crinas acariciava como se fossem a cabeleira hirsuta de um homem. isto é um sonho. . Grande parte dos pensionistas parecia ter adotado a posição horizontal [no contexto da história. – Sob nenhum aspecto. sim – repetiu Hans Castorp mecanicamente.Eu o conheço bem.Bem. . consternado… .. A assistência do baila já se tornara menos numerosa. Um cataclismo de vastas dimensões produziu-se nele. .. – Vamos sentar-nos aqui e olhar como num sonho. a que eu disse aqui.Eu vou partir – repetiu ela. sim. Tu compreendes? .Ora. longo.. que substituíra o jovem eslavo e colocara na estante um álbum de músicas. . Ninguém mais se achava nas poltronas à sua frente. – Estás apenas brincando. Mas Behrens acha que no momento não se pode fazer grande coisa aqui. que se calara durante algum tempo. Para mim.Bem. Mas eu duvido que isso seja poético ao mesmo grau. . . amanhã.É suficiente. sem nenhuma dúvida. ao passo que a sra. . por exemplo. Stör bailava com a sua vassoura que apertava contra o coração.

É de minha raça. Já é a terceira vez que venho a esse lugar. Nossa relação? Vamos . Tu estavas muito tímido para se aproximar de uma mulher a quem tu falas em sonho agora. . . como a gente sabe estas coisas aqui.Então.Eu não entendi absolutamente nada do que tu quiseste dizer.Soubeste do Behrens? . Sim. Deixa-me sonhar de novo após ter me despertado tão cruelmente por esse alarme da tua partida. Eu o conheci em uma outra estação balneária. não é? . ou será que havia alguém que te impediu? . um amigo. .. . entendendo que ele talvez vá morrer. mas também como adepto de uma outra disciplina das ciências humanas. A morte.Tu decididamente tens razão de dizer que falas como em sonho. Mas tu esqueces. – Quanto a mim. É também um viúvo que possui um serviço de café bastante notável. . com insistência e em alemão: naquele dia.Tu sabias aonde eu ia? .Tu és belamente forte em espionagem. não teria sido tão fácil te conhecer nesse mundo.Lembro-me um pouco.. .. e eu estou apaixonado. . Eu não te tratarei mais por “senhora”. ele representou tua pele de maneira totalmente exata. a gente logo vê. . . dessa vez. de fato.E tu?… Perdão. quando dizia: “tu me apavoras”... Quem é? Com que objetivo este homem vem vê-la? . quando meus olhos te vêem. . Havia ainda meu primo com quem estava ligado e que se inclina muito pouco a se divertir aqui: ele não pensa em nada a não ser voltar às planícies para tornar-se soldado. tu me falas em partida. bem.Sim. Eu passei um ano aqui. este italiano que deixou a noite – o que ele te lançou? .Que seja. antessala. o tenho sempre dentro da carteira. bom orador. – E tu? . Minha curiosidade não é invencível. quando me levantei da mesa.. .. não é? Mas é estranho. Ele está moribundo. meu bem. eu amo a liberdade antes de tudo e notadamente a de escolher meu domicílio. se tentar ser soldado nas planícies. . esta palavra não me impressiona tanto hoje em dia. Este seria um aspecto muito inocente.Eu? Tu não me escaparás.Terias gostado? . Queres que eu mostre-o a ti? .Eu vi teu retrato exterior.Meu Deus! E tu o tens contigo? . .Será que sabes até que grau estou doente? . A ideia da morte não me apavora. radiografia].. .. Tu não compreendes apenas o que é isso: ser obcecada pela independência. Palavra terrível.. no teu quarto. Eu não tenho piedade – nem de meu bom Joachim nem de mim mesmo...Há alguma coisa nesse ramo das ciências humanas chamado medicina – Disse Hans Castorp –que a gente chama obstrução tuberculosa dos vasos linfáticos..Certamente.É bem possível que ele morra. É possível que eu volte.Mas sim.Tu falaste com meu primo no atelier de fotografia íntima [no caso.Não.Oh. meu pequeno.Ele mesmo o disse.É doença que me a restitui.Sempre este Behrens! . não. . Deixa-me pedir outra coisa! Talvez um senhor russo que mora na cidade venha te ver. Teu amigo italiano de resto não vai muito bem não. é um pouco mais complicado. tu sabes..e ao presente. Mas aí então tu estarás bem longe há muito tempo.No meu caso.Meu primeiro nome também! Realmente tu levas bem a sério os costumes do Carnaval. mais doente do que ele pensa. Eu adoraria mais ainda ver teu retrato interior que está fechado dentro do teu quarto...Ah.Trinta e sete e oito ou 9 à tarde – explicou Hans Castorp. . meu amigo. eu o confesso. ou em realidade eu te conheci. é um compatriota sofrente. tu sabes.. faz seis meses… Tu te voltaste para me olhar… Ainda te lembras? . E bem.. Clawdia? . Ele está.Falsário! Responde então – este senhor. Quanto ao meu.Que pergunta! Já faz 6 meses.Pobre diabo. Ela me deixa tranquilo.Ah! Tu apontaste. para ir ao exame médico. . Sobretudo não sei quando. não tão simples. . eu respondo. . seu estado parece muito com o meu e eu não o acho particularmente imponente.Muito obrigada. Isso é verdade? Tu me apavoras. Era uma forma de falar bem convencional. Incomodo-me muito pouco deste senhor. nesse dia Behrens fez teu retrato transparente.E teu marido em “Daghestan” está de acordo? Tua liberdade? .. .Repito que poderíamos ter conversado mais cedo. Tu tens uma pequena mancha úmida por dentro e um pouco de febre.Que ele vá morrer.Achas.. talvez. eu o tenho no meu quarto.Eu te disse. Sete meses sob teus olhos. Mas meu primo. Trata-se de teus interesses. Deixa que agora te pergunte uma coisa. já faz alguns anos. Eu acredito que ele conhece teu corpo não somente como médico.. lembras-te? . Se for verdade. .Isto não se sabe. .

Jamais. senhor. produzidos com uma mão só pelo enfermo de Mannheim. discípulo dócil de seus preceptores e que voltará logo às planícies. com os lábios trêmulos. Com os olhos tão azuis como os de Hans Lorenz Castorp. a formalidade? A formalidade. àquilo que nos consome. o pianista cessou de tocar.A moral? Isso te interessa? Bem. nós filosofamos. tu bem sabes que o que dizes aqui não é verdade. deitando no colo também a mão que até então acariciava o teclado. Bem. se lançando ao perigo. não é? Ele permanecia calado. . se eles soubessem….Bem. mas aventureiros no mal. ao que é nocivo. de fato. de boa família. de resto. não na razão. Os quatro únicos remanescentes da festa carnavalesca conservaram-se imóveis. eu quero dizer: no pecado. levantaram-se suavemente. folheando um tomo de músicas que tinha sobre os joelhos. – Sabe as consequências. e a da srta.lá: nós tomamos chá juntos. não deixava ouvir senão alguns nos suaves e espaçados. A srta. . Achas que estou certa. e nós conversamos. é um incidente sem consequências graves e que passará rápido. . tu e teu compatriota sofrente – tu queres seriamente que isso me surpreenda? Por qual tipo de idiota tu me tomas? O que tu pensas de mim? . Tudo isso deve te desagradar muito. nas pontas dos pés. Para quê. Quando se interrompeu a conversa entre Hans Castorp e Clawdia Chauchat. – Eram os últimos. a cujo lado se achava a professora. Parece-nos que é mais moral se perder e mesmo se deixar debilitar do que se conservar. Tu és um bom homem conveniente. a festa de Carnaval acabou. os médicos de hoje em dia. Inclinava-se para frente em direção à mulher reclinada com o tricórnio de papel. Clawdia. no fundo. e tu o dizes sem convicção. Englehart prosseguiu estudando as notas. A febre do meu corpo e os batimentos do meu coração arrasam e fazem tremer os meus membros. E minha febre? De onde ela vem? . Estás satisfeito? . nos grandes pecados que tentam nos inclinar cristianamente diante da miséria. Sob o seu peso baixaram-se lenta e cada vez mais profundamente as cabeças do par sentado junto do piano. Engelhart para o álbum de músicas. Mas Hans Castorp fez que não. nos bons modos. para esquecer completamente que falou em sonho aqui e para ajudar seu grande país com seu trabalho honesto sobre os canteiros.Da moral também! E o que é que pensaste. nós falamos do homem. Tinha entre os dedos a lapiseira que pertencia a ela. na honestidade – mas sobretudo no contrário. de desejos tênues. pois não é outra coisa – e seu rosto pálido. de Deus. o jovem fitava a sala que se esvaziara.Ah. Os pensionistas haviam-se dispersado. com os pés cruzados muito para trás. é o contrário de um incidente. Estava ainda sentado da mesma forma de antes. Aí está. sim? . . de milhares de coisas. sumiram-se o rapaz de Mannheim e a professora. com a cabeça baixa e os braços rigidamente pendurados. Os grandes moralistas não são virtuosos. é a pedantice ela mesma! Tudo o que tu disseste a respeito da moral. sobre a moral.Tu falas como o Senhor Settembrini. feita sem aparelho. – E ergueu os braços a fim de tirar com as duas mãos o gorro de papel do cabelo arruivado. Por fim. da moral. sem modificar. Essa forma de se dirigir a uma pessoa. que é aquela do Ocidente culto e da civilização humanitária. Clawdia – respondeu. quer dizer. nos vícios. deveria ser possível. Os silêncio prolongouse por alguns minutos. nós fumamos dois ou três “papiros”. se é que se pode dizer assim. no canto diagonalmente oposto.É um sujeito que não dá muito a pensar. a sua posição. com os olhos fechados. sob o assento. e evitando lançar um olhar para o outro canto da sala. . O piano.Faltam-lhe alguns detalhes que Behrens teria encontrado.Todo mundo se retira – disse Madame Chauchat. cuja trança cercava a cabeça qual uma coroa. – Jamais eu te trataria por “senhora”. da vida. eu estou certo disso.Não. pela sala de correspondência. me parece fortemente burguêsa e pedante. como se se tivessem posto secretamente de acordo. a do jovem de Mannheim em direção ao piano. na disciplina. jamais na vida nem na morte. Eis tua fotografia íntima. . por exemplo? . parece que será necessário procurar a moral não na virtude. já é tarde.

Pequeno burguês! – disse... Enquanto ia divagando. e por outro lado é uma pulsação muito solene e muito majestosa – maior que a vida risonha de ganhar dinheiro e de encher a barriga – muito mais venerável que o progresso que tagarela pelo tempo – porque ela é a história e a nobreza e a piedade e o eterno e o sagrado que nos faz tirar o chapéu e andar com as pontas dos pés. santa maravilha da forma e da beleza. meu sonho. O corpo. continuou ele a falar: . eles são sensuais os dois. quando eu era estudante. de maneira que se ajoelhava diante dela. e é ele que faz a morte. Mas também ele é uma grande glória adorável. é verdade.Não te esqueças de me devolver meu lápis. Ao avançar esse pé. sobretudo. Ela disse: . deslizou pelo tapete.. Mas Hans Castorp sacudiu a cabeça. com a cabeça baixa e o corpo todo trêmulo.. com aquela tua fala – já uma vez. e seus terrores e sua grande magia! Mas a morte. rumo à porta. e o umbigo ao meio na moleza do ventre.Tu és realmente um galã que sabe implorar de uma maneira profunda. com a cabeça deitada para trás e com os olhos fechados. esse amor que me possuiu no instante em que meus olhos te viram. no Alemão! E lhe pôs na cabeça o gorro de papel. com a mão a repousar no gonzo.Eu não me importaria. sim. e os grandes galhos de vasos e nervos que passam do tronco aos ramos dos pulmões. – Belo burguês de pequena mancha úmida. E saiu. cheia de segredo febril da vida e da podridão! Vê a simetria maravilhosa do edifício humano. com a cabeça deitada para trás. estremecendo e vacilando sobre os joelhos. e respondeu: . . uma defesa e uma aventura pelo mal.. Permaneceu sem se mover. deixa-me sentir o cheiro da pele da articulação. Mesmo o corpo.. sem dúvida são meu antigo amor por ti essas manchas que Behrens achou no meu corpo. em que eu reconheci. é mesmo um interesse extremamente humanitário e um poder mais educativo que toda a pedagogia do mundo!. tu sabes. tocou o chão com o outro joelho. eu não me importo com Carducci e a República eloquente e o progresso humano no tempo.Que delírio! . É verdade que tu me amas tanto? E arrebatado por esse contato. e o sexo obscuro entre as coxas! Olha as omoplatas se movimentarem sobre a pele brilhante do dorso. o amor. que nos faz corar e nos envergonha. os meus lábios nos teus! Não abriu os olhos. meu eterno desejo. esses três não se separam. resvalou da cadeira. vamos! – disse ela. sobre a qual a engenhosa cápsula articula secretamente seu óleo deslizante! Deixa-me tocar devotamente de minha boca a Artéria do fêmur que bate em frente à coxa e que divide mais abaixo as duas artérias da tíbia! Deixa-me sentir a exalação de teus poros e apalpar teus pelos.. porque eu te amava irracionalmente. antigamente.br/2013_06_01_archive. Por outro lado. e deixame perecer. ou. meu deus. retirou um pé de sob o assento rangente. meu príncipe de Carnaval! Tu terás uma crise de febre essa noite. Oh. depois de ter terminado de falar.Adeus. e o amor para ele. pois eu te amo! Ela acariciou-lhe suavemente com a mão os cabelos aparados da nuca. tu e teus olhos maravilhosamente oblíquos e tua boca e tua voz. destinada à anatomia do túmulo. e é isso. meu destino. Oh. já sobre ambos os joelhos. é. eu já te conhecia. e o amor do corpo... os ombros e as ancas e os seios floridos de uma parte à outra sobre o peito. – Eu te amo – balbuciou – eu te amei todo o tempo. o amor e a morte. insolente. evidentemente. o amor. eu te pedi teu lápis.Oh. desolado. tu compreendes. Por cima do ombro disse baixinho: .inclinou-se ainda mais para o rosto da mulher – senão o meu amor por ti.html .Oh! O amor não é nada se não for um delírio. eu ta predigo. e o corpo de superfície avermelhada e pálida por medo e humilhação de si mesmo. Fonte: http://sdcaustica. e que indicam também que estava mal… Seus dentes batiam. meio voltada. uma coisa insensata. – Se teus preceptores te vêem. sim. a morte. imagem miraculosa da vida orgânica. Com essas palavras. uma coisa difamada. e a coluna que desce na direção das nádegas frescas e luxuriantes. . imagem humana de água e de albumina. . sob cujo umbral hesitou um instante. e como a estrutura dos braços correspondem àquela das pernas. pois tu és o sentido da minha vida. que me guiou a esse lugar. e as costelas arrumadas por pares. as doces regiões da junção interior do cotovelo e do joelho com sua abundância de delicadeza orgânica sobre suas almofadas de carne! Que festa imensa acariciar esses lugares deliciosos do corpo humano! Festa para morrer sem se queixar depois! Sim.. para enfim te conhecer mundanamente. Pois o corpo é a doença e a volúpia. para o corpo humano. são uma relação indecente e prejudicial. ele também. é uma banalidade agradável. .. com o rosto junto ao tapete.Vamos. Mas quanto a isso de eu ter te reconhecido e reconhecido em ti meu amor – sim. de um lado. levantando um dos braços nus.blogspot. quando eu te reconheci – e foi ele. estendendo as mãos com a lapiseira de prata.. mas de matéria viva e corruptível. encantadora beleza orgânica que não se compõe nem de tintura a óleo nem de pedra. perfeita para que façamos dos nossos planos pequenas canções possíveis.com.