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ECONOMIA SOLIDÁRIA E AUTOGESTÃO: LIMITES E POSSIBILIDADES lffneto@nin.ufms.

br APRESENTACAO ORAL-Políticas Sociais para o Campo LEONARDO FRANCISCO FIGUEIREDO NETO1; ELCIO GUSTAVO BENINI2; EDI AUGUSTO BENINI3. 1,2.UFMS, CAMPO GRANDE - MS - BRASIL; 3.UFT, PALMAS - TO - BRASIL.

Economia solidária e autogestão: limites e possibilidades

Grupo de Pesquisa: Políticas Sociais para o Campo

Resumo O propósito deste trabalho é tecer algumas reflexões sobre o movimento da chamada “economia solidária”. O trabalho discute aspectos referentes à questão da alienação e sua superação, assim como a formação de uma consciência de classe legítima. Para tanto, o caminho aqui percorrido foi aquele que considera a realidade saturada de contradições e em constante transformação. Buscou-se ter como orientação epistemológica algumas categorias fundamentais – balizas do presente trabalho –, das quais se destaca a perspectiva de totalidade, a centralidade do trabalho e o capital – enquanto relação social predominante. Utilizando não somente da teoria, mas da práxis de alguns casos de movimentos de trabalhadores associados como objeto de estudo, observou-se que a formação de empreendimentos coletivos dos trabalhadores surge em um momento de crise estrutural. As reflexões também apontam que o movimento sugere uma dupla alternativa: como organizações funcionais ao sistema, logo, um alternativa produtiva de geração de renda e de trabalho; e/ou como uma forma de resistência dos trabalhadores. Concluímos que a lógica hegemônica dos empreendimentos ditos “solidários” é a da sua funcionalidade ao atual padrão de acumulação flexível do capital, uma vez que a qualidade da autogestão realizada é restrita e subalterna. Entretanto, dado o caráter de crise permanente do capital, as ações da “economia solidária” também estão permeadas de contradições, com a particularidade de que os trabalhadores podem experimentar algum grau de “autogestão” dentro do processo produtivo, o que aponta para novas possibilidades históricas derivadas de uma consciência coletiva em construção. Palavras-chaves: Economia solidária, autogestão, mudança social. Abstract The objective of this study is to arouse some reflections on the so-called “solidary economy”. The paper discusses aspects related to alienation and its recovery, as well as the formation of legitimate class consciousness. The highly contradictory and ever-changing reality was taken into account. Epistemological guidance lies in fundamental categories like perspective of totality, centrality of work and capital as a predominating social
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Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural

A partir dessa primeira explicação uma série de discussões vem sendo desencadeada. seria um modo de produção e distribuição alternativo ao modo de produção capitalista. de uma forma de organização da produção. que são obrigados a vender sua força de trabalho. because capital is under permanent crisis. ou ainda. que compram força de trabalho. Afinal de contas. ou seja. nas atividades cotidianas desses trabalhadores. a que se destaca aqui é a gestão do empreendimento. ou seja. ou seja. numa primeira abordagem. social changes. seriam os donos dos meios de produção que utilizam. which points to new historic possibilities derived from collective consciousness which is under way. sendo os trabalhadores donos dos meios de produção. de forma geral. The reflections also show that the movement suggests a twofold choice: as organizations functional to the system. Not only theory by also praxis of some cases involving movements of associated employees have been studied. a principal característica do capitalismo é a reificação do trabalho. It has been seen that collective enterprises have been formed in a time of structural crisis. Sem dúvida que a organização de tais empreendimentos.relation. os trabalhadores. ainda que em sua forma mais utópica. nesta lógica. since the quality of selfmanagement is restrict and dependent. Introdução As organizações coletivas dos trabalhadores com finalidades sócio-econômicas vêm ganhando cada vez mais espaço na atual conjuntura. pode-se falar em algum tipo de impacto de cunho subjetivo? Antes de responder a tais considerações. como empreendimentos solidários. que para esse mesmo autor. Sociedade Brasileira de Economia. que tipo de contradição é essa? Ou ainda. a sua característica fundamental seria a organização do trabalho sem a presença de um proprietário. que tem como objetivo imediato a geração de trabalho e renda. Mas será que esses empreendimentos autogestionários são realmente uma contradição? Se sim. The conclusion is that the hegemonic logic of the so-called “solidary” enterprises is that they serve the current pattern of flexible capital accumulation. assim como as divisões materiais – inserida na totalidade capitalista é uma contradição a priori. e de outro os trabalhadores. do qual se destaca Singer (2003). 1. Entre elas. Em tese. de um lado têm-se os proprietários dos meios de produção. Administração e Sociologia Rural . self-management. conceitua o movimento dos trabalhadores coletivos como sendo uma espécie de economia solidária. que esses empreendimentos são qualificados como autogestionários. However. 25 a 28 de julho de 2010. É a partir dessa nova atividade desenvolvida pelos trabalhadores. Alguns autores. . em seu funcionamento ideal – sem os conflitos naturais derivados pela nova divisão do trabalho e pela disputa pelo poder interno. and/or as a form of employees´ resistance. É importante destacar que. de serem trabalhadores e ao mesmo tempo “patrões de si próprios”. the actions of “solidary economy” are also permeated with contradictions: the employees can experience some degree of “self-management” in the production process. Trata-se. uma série de mudanças ocorre no ambiente de trabalho e. é preciso fazer uma leitura sobre o atual contexto e as forças 2 Campo Grande. consequently a productive choice of work and income generation. que também deve ser exercida pelos próprios trabalhadores. ou seja. a partir dessa condição objetiva. Key Words: solidary economy.

Nesse contexto. 3 Campo Grande. uma vez inseridos no capitalismo. Mas por que ela é determinada? Justamente porque a força que a coloca em movimento é uma determinação material. ou seja. É certo que para manter sua taxa de apropriação de mais-trabalho. a possibilidade de continuação do capitalismo parece ser cada vez mais a verdadeira miragem em meio a um deserto de opções. sendo o trabalho o elemento fundamental. as mudanças no mundo do trabalho são cada vez mais freqüentes e perceptíveis. e para isso. Sociedade Brasileira de Economia. o capital. Se no contexto do pós-guerra. nem tanto a terra. por mais uma forte “tempestade”. cabe uma terceira pergunta: Em que condições uma ou outra lógica de organização social torna-se hegemônica? Nem tanto o mar. que vem sendo decrescente em vista dos avanços tecnológicos poupadores de força de trabalho. quando se tem como referência a totalidade concreta. para afirmar que o modo de produção capitalista não está passando por uma crise conjuntural. mas sim que sua contradição insuperável. sufocam uma parte do movimento dos trabalhadores. uma necessidade material. já consideravelmente discutidas em alguns debates sobre a economia solidária. O horizonte de bonança parece estar cada vez mais distante. trazem em seu cerne uma perspectiva de uma mudança para além do capital? Ou são reacionários e. tirar o véu que embaça a visão e buscar as verdadeiras essências que estão em movimento. a solidariedade entre os trabalhadores foi expressa pelos direitos sociais e pleno emprego. é importante fazer uma leitura mais atenta sobre este fato.predominantes. 2. ou ainda. ou seja. agora. tentar responder a duas perguntas: Os empreendimentos coletivos dos trabalhadores são de cunho revolucionário. busca combinar outros elementos na sua relação fundamental entre capital e trabalho? Além dessas duas questões. um outro tipo de solidariedade é desencadeada: a organização coletiva de cunho sócio-econômico – assumida em grande parte na forma institucionalizada de cooperativas e associações. nesse sentido. Nesse sentido. deixam de ser “solidários” com o restante da classe trabalhadora. ocorrendo as mais variadas reações. que inseridos em sua luta pontual. a própria crise estrutural do trabalho é a força que coloca em movimento os trabalhadores coletivos. Contudo. entre valor de uso e valor de troca. ou seja. leva cada vez mais a um estado de crise constante e estrutural. Administração e Sociologia Rural . constituem um dos “fôlegos” para o sistema. Tratase de uma organização que surge como uma das reações determinadas e/ou encontradas pelos trabalhadores frente aos novos imperativos do processo de acumulação capitalista. busca formas flexíveis em sua composição. em sua necessidade infindável de valorização do valor. são apenas mais uma adaptação do modo de produção capitalista que por estar em crise. sendo utilizados e/ou subcontratados pelas empresas convencionais e. Assim. os empreendimentos autogestionários. 25 a 28 de julho de 2010. e isso pode ser visto de duas formas: servem como uma organização funcional ao sistema e/ou as cadeias produtivas. A precarização do trabalho e a autogestão: uma resposta necessária Não é preciso muitos argumentos. tendo em vista as novas estratégias de reestruturação produtiva. Sem dúvida o paradigma da precarização do trabalho assombra a classe trabalhadora.

a própria qualidade da autogestão pode ser questionada e qualificada de forma restrita. 4 Campo Grande. as considerações de Rosa Luxemburgo são de suma importância. 25 a 28 de julho de 2010.Partindo disso. Para entender melhor esse ponto. uma vez que a atividade é diretamente influenciada pelas demandas externas do empreendimento. uma espécie de autogestão stricto senso. Administração e Sociologia Rural . Sociedade Brasileira de Economia.

ou. tendo que concorrer e produzir de acordo com as exigências do mercado. de empregar a força de trabalho segundo as necessidades do mercado ou de atirá-la na rua. da completa dominação do processo de produção pelos interesses do Capital.3. Assim. às tecnologias dominantes que. pela dissolução. por conseguinte. Quanto às cooperativas. remete-se diretamente à visão da autora quanto ao papel das cooperativas enquanto organização coletiva e econômica dos trabalhadores e as mudanças qualitativas que podem promover. as cooperativas – no caso. Praticamente. em essência. na economia capitalista. as autênticas ou “autogestionárias” – isoladas. 2005. no caso de serem mais fortes os interesses dos operários. que não é orientado pela perspectiva de autogestão dos trabalhadores a rigor. a “autogestão” fica comprometida por ser apenas restrita – autogestão stricto sensu –. ou seja. e antes de tudo. a troca domina a produção. pois a organização da produção. de reduzir ou prolongar as horas de trabalho conforme a situação do mercado. em suma. Resulta daí. acaba introduzindo tecnologias e padrões de organização e gestão tipicamente burocráticos. ao padrão produtivo e mercadológico. perdem suas características iniciais. isto é. ao crescerem como empresas. O dilema de Rosa Luxemburgo: “a troca domina a produção”. não atuam neutramente. Administração e Sociologia Rural . às cooperativas de produção. ver-se os operários na necessidade contraditória de governar-se a si mesmo com todo o absolutismo necessário e desempenhar entre eles o mesmo papel do patrão capitalista. assim como a amplitude da tomada de decisão ou. quer. grosso modo. dado os objetivos deste trabalho. Nesse sentido. em face da concorrência. de praticar todos os métodos muito conhecidos que permitem a uma empresa capitalista enfrentar a concorrência das outras. As críticas de Rosa Luxemburgo (2005) são muito mais ricas e complexas do que aqui apresentadas. ou empreendimentos de economia solidária – que em essência são a mesma coisa –. exprime-se isso pela necessidade de intensificar o trabalho o mais possível.80-81. uma vez que elas estão ligadas às origens da economia solidária. Contudo. p. estando a cooperativa – no caso. capitalista: a pequena produção socializada dentro de uma troca capitalista. são elas pela sua essência um ser híbrido dentro da economia. grifos nossos). Ë desta contradição que morre a cooperativa de produção quer pela volta à empresa capitalista. Diante da contradição apontada na citação acima é que surge o dilema do cooperativismo. o próprio princípio da “autogestão” acaba sendo limitado e constrangido. tendo os trabalhadores que se “adaptarem” às condições do mercado. Assim. 25 a 28 de julho de 2010. autêntica e “autogestionária” – ligada ao mercado capitalista. uma condição de existência da empresa. (LUXEMBURGO. mas como instrumentos de dominação do trabalhador. caracterizando um cooperativismo do tipo burocrático. o poder dos trabalhadores. Mas. “usando o chicote em si mesmos” – para conseguir competir no mercado. que se vêem na contradição de governarem a si mesmos como capitalistas – tomando as mesmas atitudes. para a cooperativa de produção. que as cooperativas ou são frustradas economicamente ao manter a ideologia fundadora. por 5 Campo Grande. Sociedade Brasileira de Economia. fazendo da exploração impiedosa.

petrolífera. dando origem a uma espécie de rede cooperativa ou solidária. Eis porque. Para Singer (2002) o isolamento poderia acomodar os empreendimentos solidários em uma situação de inferioridade tecnológica: Então a forma mais provável de crescimento da economia solidária será continuar integrando mercados em que compete tanto com empresas capitalistas como com outros modos de produção. Conforme coloca Mance: Outras redes mais complexas. Já na época 6 Campo Grande. De acordo Luxemburgo (2005). do próprio país e de outros países (SINGER. as cooperativas de produção não podem ser consideradas uma reforma social geral. 2005. comércio e serviços. não conseguem avançar ou romper com o dilema colocado por Rosa Luxemburgo (2005). por conseguinte das cooperativas de produção. 2003. a supressão do mercado mundial e a dissolução da economia mundial atual em pequenos grupos locais de produção de troca. passaram a refletir sobre as melhores estratégias de expansão e consolidação dessas redes. Paul Singer (2003) apresenta o dilema colocado por Rosa Luxemburgo (2005) “a troca domina a produção” aqui apresentado e responde: A argumentação de Rosa Luxemburgo é mais antagônica à gestão capitalista. a saída para o isolamento em redes não é unanimidade. Sociedade Brasileira de Economia. em seu artigo Economia Solidária: um modo de produção e distribuição. mineira. 82-83). pela simples razão de pressupor a sua realização geral. p. consumo. Ela desconhece ou despreza a resistência que os trabalhadores oferecem ao absolutismo do capital e que limita as arbitrariedades que este tenta praticar. Em defesa da economia solidária. destinada apenas a atender populações pobres ou marginalizadas pelos movimentos dos capitais (MANCE. a dependência da cooperativa de produção à cooperativa de consumo estaria limitada a um mercado local e restrito. produção. formando assim cadeias produtivas solidárias. se encontraria na junção de diversas cooperativas. sem em conta o seu caráter híbrido. como a indústria de construção de máquinas locomotivas e navios. entretanto. chegando-se a percepção da necessidade de remontar solidariamente as cadeias produtivas. estão de antemão excluídos da cooperativa de consumo e. antes de tudo. que integram organizações solidárias de crédito. Dessa forma. p. por exemplo.120). 26). que seriam responsáveis por articular as diversas produções. metalúrgica. 25 a 28 de julho de 2010. por conseguinte. Essa progressiva remontagem possibilita à economia solidária converter-se paulatinamente no modo de produção socialmente hegemônico e não apenas em uma esfera de atividade econômica de segunda ordem. Administração e Sociologia Rural . p. paliativa ou complementar. o retrocesso da economia do grande capitalismo a economia mercantil da Idade Média (LUXEMBURGO. Até mesmo entre os intelectuais da economia solidária. as cooperativas de produção resolveriam o seu dilema ao encontrarem um mercado isolado da competição capitalista nas cooperativas de consumo.apenas atuarem inseridos no sistema capitalista e não “contra” e/ou “como sistema” enquanto totalidade. A solução para o dilema “a troca domina a produção” colocado por Rosa Luxemburgo (2005). como defende Euclides Mance (2003). o que implicaria em: Todos os ramos mais importantes da produção capitalista: indústria têxtil. A questão que se coloca diante desta saída consiste na limitação das cooperativas de consumo. 2002. mas não é consistente. das mais diversas áreas. constituindo no fundo.

em que ela escrevia (1899). mas não o elimina” e conclui sobre este argumento: A conclusão é falsa sob todos os pontos de vista. p. os cooperados têm a liberdade de escolher quando e como trabalhar para tornar sua empresa competitiva. uma vez organizados em empreendimentos coletivos econômicos. Afinal de contas. Em condições evidentemente piores do que as da autoexploração (SINGER. 2003. A argumentação de Singer (2003) continua: Se as condições de trabalho na fábrica eram duras. então. Os cooperados realmente não possuem obrigação de gerarem retorno ao “capital" investido. “Não é crível que passem a considerá-las insuportáveis quando se tornam os donos de seus meios de produção” (SINGER. 2003. Possuem. contudo.17). Assim. Administração e Sociologia Rural . ao passo que os trabalhadores assalariados têm de obedecer a determinações da direção (SINGER. Singer (2003) considera. 25 a 28 de julho de 2010. a possibilidade de se auto-explorarem menos. assumir o poder de participar das decisões e. 2003.17). como grande parte das cooperativas são originadas a partir de empresas capitalistas falidas. a liberdade consiste em desenvolver o empreendimento e aumentarem sua renda à custa de forte auto-exploração. colocando que “é comum ouvir que economia solidária apenas compete com o capital. ou se auto-explorarem menos e. estar informado a respeito do que acontece e que opções existem é um passo importante na rendição humana do trabalhador. Daí surge a liberdade dos cooperados. 17). Singer (2003) ainda se defende e contradiz Rosa Luxemburgo em defesa da economia solidária. p. Segundo. Neste caso. mesmo quando essas continuam ainda deixando muito a desejar. obrigação que os cooperados não têm. elas sempre seriam menos duras na cooperativa por duas razões fundamentais: na fábrica capitalista os empregados têm de produzir lucros proporcionais ao capital investido. p. De outro modo. de forma que os trabalhadores associados conhecem as condições de trabalho que o mercado impõe. além disso. o que exige um aprendizado que só a prática proporciona. como para a viabilidade do próprio negócio. portanto. 2003. necessidade de gerarem retorno não só para seu sustento. Dando seqüência em seu argumento. em contrapartida. o que lhes permite se auto-explorar menos. Primeiro porque o capital só pode ser eliminado quando os trabalhadores estiverem aptos a trabalhar a autogestão. ou como afirma Singer. Singer ainda questiona quais seriam as alternativas aos trabalhadores se não a economia solidária: Ficarem desempregados. conclui que. a opção de se auto-explorarem ou não. Terceiro: o surgimento e o fortalecimento da economia solidária reforçam o poder de luta de todos os 7 Campo Grande. p. terem um retorno menor ou nulo. porque a economia solidária melhora para o cooperado as condições de trabalho. os trabalhadores estavam organizados nas fábricas e tinham capacidade de se opor à intensificação do trabalho e a alterações unilaterais da jornada de trabalho (SINGER. eventualmente sobreviverem de bicos ou voltarem a trabalhar para capitalistas. que a resistência dos operários impediria o capital de superexplorar o trabalho. Sociedade Brasileira de Economia.18). o que colocar no lugar da gestão capitalista? Certamente não um planejamento geral que centraliza todas as decisões econômicas nas mãos dum pequeno número de especialistas.

A alternativa seria apostar na crise geral do capitalismo. que forçaria a maioria a aceitar o socialismo. Para refletir sobre esses aspectos e essa realidade. 2006). uma vez considerado que o trabalho – enquanto atividade produtiva – é a mediação fundamental entre o homem e a natureza (MARX. é necessário antes de tudo compreendê-lo com uma dupla possibilidade: enquanto atividade produtiva emancipatória ou enquanto atividade produtiva alienada e/ou estranhada. a atividade produtiva é o “mediador na relação sujeito-objeto entre homem e natureza” (MÉSZÁROS. uma nova realidade cotidiana é desencadeada para os trabalhadores. p. sobre a influência das condições objetivas sobre os aspectos subjetivos. ou ainda. em sua visão. Este é provavelmente o principal papel da economia solidária na luta pelo socialismo. Ainda no mesmo texto. ou seja.trabalhadores assalariados contra a exploração capitalista. se dá em determinadas condições históricas. MÉSZÁROS. mesmo que seja como mal menor (SINGER. 4. A construção de empreendimentos solidários é o método mais racional de obter tal prova. Assim. p. 78). p. sendo o processo de economia solidária uma forma de transição do modo de produção capitalista ao socialismo autogestionário. Autogestão e alienação: a busca pela emancipação. 2006. é que se considera aqui essa base material como ponto de partida para as devidas reflexões sobre a alienação do trabalhador. p. Nesse sentido. p. o trabalho possibilita ao ser humano – um ser então objetivo – manifestar-se e contemplar-se a “si mesmo num mundo criado por ele. Administração e Sociologia Rural . não se trata de apenas uma alternativa ao desemprego. coloca com clareza que. 2003. e não somente no seu pensamento” (MÉSZÁROS. uma vez sendo os trabalhadores donos dos meios de produção de determinadas unidades produtivas. faz-se necessário entender os aspectos fundamentais da tese dominante. que condiciona e transforma. no mínimo porque diminui o exército de reserva (SINGER. Para compreender o conceito de trabalho e suas conseqüências para a classe trabalhadora. O produto do trabalho é a objetivação do homem. em nota de rodapé. Quando livre. objetivado. Também se faz necessário considerar que a atividade produtiva é um fator sem a qual a existência humana não seria possível. 2003. 28). Precisamente por ser o capitalismo o atual modo de produção predominante. 144). Conforme coloca Mészáros (2006. a 8 Campo Grande. 2004. 78). Singer (2003). “o modo de existência humano é inconcebível sem as transformações humanas realizadas pela atividade produtiva”. 2006. donos dos produtos que produzem e os responsáveis pela organização e gestão dos empreendimentos. A autogestão generalizada da economia e da sociedade – que constituiu a essência do programa econômico e político do socialismo – só conquistará credibilidade quando houver a prova palpável de que ela não é inferior à gestão capitalista no desenvolvimento das forças produtivas. Outra consideração que precisa ser feita é que a análise aqui presente. 18). mas uma alternativa ao próprio sistema. 25 a 28 de julho de 2010. Não obstante os limites e imperativos econômicos e a contradição que se movem aos empreendimentos coletivos sócio-econômicos. a alienação do trabalho. Sociedade Brasileira de Economia. no que diz respeito à alienação.

o trabalho mesmo se torna um objeto. na sua relação com sua própria atividade. enquanto antítese. este lhe aparece como “um objeto estranho”. 2006. quanto mais objetos o trabalhador produz. 80). grifos meus). a alienação do homem como membro de sua espécie – de seu ser “genérico” e. mas também. do qual o trabalhador só pode se apossar com os maiores esforços e com as mais extraordinárias interrupções. o produto de seu trabalho. dentro da própria atividade produtiva” (MARX. este.) tanto aparece como perda do objeto que o trabalhador é desposado dos objetos mais necessários não somente à vida. 20). como uma atividade “alheia que não lhe oferece satisfação por si e em si mesma. tanto menos pode possuir e tanto mais fica sob o domínio do seu produto. Com isso. a divisão do trabalho e o intercâmbio – que o “impedem de se realizar em seu trabalho. Não obstante. diz respeito à relação entre o trabalhador e o objeto.. enquanto tese predominante na sociedade capitalista e suas dimensões mais profundas. 20). história da humanidade. 2002).partir do momento em que o trabalho se torna uma mercadoria. tendo em vista a composição e o funcionamento da sociedade capitalista. seja realizada e. no exercício de suas capacidades produtivas (criativas). principalmente. a objetivação do trabalho: (. O trabalho se torna apenas um meio de existência. p. Administração e Sociologia Rural . 2006. a alienação da própria atividade produtiva. p. Entender a alienação. Nesse sentido. 2004. a segunda dimensão da alienação pode ser observada na relação do trabalhador no interior do processo produtivo. não é a atividade em si que lhe proporciona satisfação. na produção capitalista. Sociedade Brasileira de Economia. é imprescindível para que a emancipação do trabalho. 78. “e principalmente. do capital (MARX. 2004. “uma existência externa”. mas uma “propriedade abstrata dela: a possibilidade de vendê-la em certas condições” (MÉZÁROS. torna-se uma atividade penosa e de sofrimento. Nesse sentido. que se defronta com uma “potência autônoma diante dele” (MARX. A apropriação do objeto tanto aparece como estranhamento que. Dessa forma. 2006. uma atividade alienada e estranhada pelo homem. Conforme Marx (2004): 9 Campo Grande. p. entendido como uma relação social de dominação baseada na estrutura hierárquica do trabalho (MÉSZÁROS. para que a classe trabalhadora seja capaz de supra-sumir a triste e verdadeira – pois concreta e historicamente verificável – . mas apenas pelo ato de vendê-la a outra pessoa” (MÉSZÁROS. no resultado da atividade produtiva. p. no ato da produção. o trabalhador ao se relacionar com o produto de seu trabalho. Dito de outra forma. Sim. fundamentada na “reificação” do trabalho. ou ainda. a alienação do homem em relação aos outros homens. o estranhamento não se dá apenas na relação entre o sujeito e o objeto. p. 25 a 28 de julho de 2010. p. 80). 82). surgem mediações de segundo grau – tais como a propriedade privada. e na apropriação humana dos produtos de sua atividade” (MÉSZÁROS. nessas condições. a alienação na fase capitalista pode ser entendida em quatro dimensões interdependentes: a alienação do homem em relação à natureza.. fruto de sua atividade produtiva. a triste história de luta de classes. Conforme coloca Marx (2004) e Mészáros (2006). A primeira das dimensões colocadas. no capital. para satisfazer carências fora dele. mas também dos objetos do trabalho. 2004.

2004. junto a si (quando) fora do trabalho e fora de si (quando) no trabalho. Isso: (. p.. tanto da natureza quanto da faculdade espiritual dele. quando a atividade livre do homem é reduzida a apenas um meio. Conhecida as duas primeiras dimensões da alienação. por isso. Com efeito. 2). p. O que é produto da relação do homem com seu trabalho.. de sua atividade vital e de seu ser genérico é o estranhamento do homem pelo (próprio) homem. Nas palavras de Mészáros: O terceiro aspecto – a alienação do homem com relação ao seu genérico – está relacionado com a concepção segundo a qual o objeto do trabalho é a objetivação da vida da espécie humana. 47).. de forma imediata. Finalmente.O trabalhador só se sente. a alienação do homem em relação aos outros homens. com conseqüências devastadoras para as teorias que podem ser construídas no interior desses horizontes. mas também de entender a história deve sofrer o mesmo destino. Conforme Marx: Uma conseqüência imediata disto. ao colocar o indivíduo em primeira instância em relação à humanidade. p. Em outras palavras. pode-se então entender as outras duas dimensões. p. Enquanto Marx levou em consideração a relação do “homem com a humanidade em geral” para formular a terceira dimensão/faceta da alienação (MÉSZÁROS. mas operativa. como se ele no trabalho não pertencesse a si mesmo (MARX. como o trabalho e o objeto do trabalho de outro homem (MARX. 84). mas forçado. por conseguinte e em primeiro lugar. uma vez que a contradição entre indivíduo e humanidade acaba levando à aparente idéia de que a história já está construída e. é um trabalho de auto-sacrifício. uma vez que o sujeito histórico é lançado ao mar. 2004.) O trabalho externo. efetiva (mente). é limitada aos indivíduos. grifos meus). produto do seu trabalho e consigo mesmo. p. faz “do ser genérico do homem. “ele faz da vida genérica do homem um meio de sua existência física" (MARX. 10 Campo Grande. 2007. ou seja. ou seja. 2006. que Marx (apud MÉSZÁROS. Pois. intelectual (mente).. 2006. Sociedade Brasileira de Economia.. e a capacidade de “fazer história” é negada. 2). desta forma. não está em casa. portanto. quando trabalha. a alienação do homem enquanto ser genérico e. defronta-se com ele o outro homem. 2004. p.. o trabalho no qual o homem se exterioriza.) (MÉSZÁROS. contemplando-se. 25 a 28 de julho de 2010. 2004. pois o homem se duplica não apenas na consciência. 20). (. a si mesmo num mundo criado por ele (MÉSZÁROS. um meio de sua existência individual” (MARX. a externalidade aparece para o trabalhador como se (o trabalho) não o pertencesse. que são conseqüências diretas e indiretas das duas primeiras. de mortificação. A terceira dimensão da alienação do ser humano. em sua sociabilidade. vale em relação do homem com outro homem. a própria consciência de ser um “sujeito histórico” é perdida. não apenas a possibilidade de fazer. 84. Está em casa quando não trabalha e. a saber: a alienação do ser humano como membro de sua espécie. Quando o homem está frente a si mesmo. (. Administração e Sociologia Rural . no quarto aspecto da alienação ele “está considerando tendo em vista a relação do homem com os outros homens” (MÉSZÁROS. 2006. que se concretiza por meio do trabalho estranhado. O seu trabalho não é. trabalho obrigatório. 85-86). p.) traz a dissecação e a completa eliminação cética do sujeito histórico. de o homem estar estranhado do produto do seu trabalho. p. 83). p. um ser estranho a ele. 20) chama de “estranhamento da coisa” e a segunda de “autoestranhamento”. voluntário.

Tal processo também foi descrito por Dejours (1999) como a “banalização da injustiça social”. logo. e como nos ensina Guerreiro Ramos. Normalmente um dos principais argumentos em defesa do cooperativismo. grosso modo. de uma nova carência. apresentada reiteradamente como elemento essencial do projeto de “economia solidária”. vale para eles. basta a eles. a carência da sociedade. que novamente têm a sociedade com fim. explica o mecanismo no qual o homem. o entretenimento. Este movimento prático pode-se intuir nos seus mais brilhantes resultados quando se vê operários (ouvriers) socialistas franceses reunidos. 25 a 28 de julho de 2010. Sociedade Brasileira de Economia. é expressa principalmente nas cooperativas. seria seu caráter distinto de uma empresa capitalista convencional. Advogamos que entender tal distinção ajuda a sair do beco sem saída que a economia solidária hoje se encontra: funcionalidade ou espaço de resistência ao capital. propaganda etc. clubes de trocas. dessa maneira. como finalidade a doutrina. na sua relação de sociabilidade homem-homem. e da própria economia solidária. e uma vez que “neutraliza” o seu próprio sofrimento. que. A sociedade. fumar. beber. com isso. e a nobreza da humanidade nos ilumina a partir dessas figuras endurecidas pelo trabalho (MARX. ora sendo considerada apenas uma atualização do mesmo para um novo contexto histórico (chega-se a falar em ressurgimento do cooperativismo sob o nome “economia solidária”). Administração e Sociologia Rural . a questão do grupo parece ser ponto de reflexão para o autor no rumo da emancipação. justificado por ser uma organização baseada no trabalho e não no capital. e de nenhuma forma o presente trabalho ter como propósito colocar – ou idealizar – o “caminho da emancipação”. comer. 146. entre outros. por um lado temos o projeto utópico do cooperativismo. não como estruturas inerentes a esta lógica utópica (o 11 Campo Grande. Mas ao mesmo tempo eles se apropriam. Entretanto. tornou-se fim. e o que aparece como meio. como o associativismo. a fraternidade dos homens não é nenhuma frase. em que pese tal principio. p. Entretanto. outra coisa distinta são os meios institucionais e organizacionais escolhidos para concretizar este projeto. Um ponto importante que precisamos considerar é que. sublima tal sofrimento. antes de mais nada. outrossim. etc. alienado no seu trabalho. Organização social e propriedade: qual a autogestão da “economia solidária”? A proposta de “economia solidária” está diretamente relacionada com o movimento cooperativista. 2004. moedas sociais. isso vai implicar na neutralidade de perceber o sofrimento do outro. mas sim a verdade para eles. nossa postura vai ao sentido de analisar os componentes e elementos constitutivos do cooperativismo. Assim: Quando os artesãos comunistas se unem. Não obstante os apontamentos de Marx (2004) sobre a alienação e suas dimensões. outra coisa é a criação dos meios institucionais que o concretize. no “mundo existe mais de possível do que de efetivo”. abrangendo outros elementos. a associação. Nessas circunstancias. vamos analisar essa “autogestão” no contexto da “economia solidária” e nas práticas cooperativistas. claramente autogestionário. mas. mas também no sentido de ser algo maior que o próprio cooperativismo. não existem mais como meios de união ou como meios que unem. ora sendo confundida com ele. apenas suscitar algumas reflexões sobre a economia solidária e a questão da emancipação. 5.. O fato é que a lógica da “autogestão”. grifos nossos).

apenas acontece da gestão especifica de unidades de produção. tal movimento resultou numa autogestão restrita a múltiplos e desconexos grupos de produção (organizados em forma de cooperativas). Dessa forma. por definição. quando observamos mais atentamente tais elementos constitutivos. de um projeto político. porém. por meio da criação de um organismo econômico integrado e 12 Campo Grande. um voto”. percebe-se que além do discurso “cada cabeça. opções estas que nem sempre podem refletir os seus princípios ideológicos. a atual proposta de economia solidária apenas veio. não conseguiu. a se pautar pelos mesmos elementos do cooperativismo tradicional. até o momento.projeto). discorrer detalhadamente sobre cada um desses elementos. com ela. no espaço desta comunicação. Em suma. Administração e Sociologia Rural . pode-se arriscar dizer que a economia solidária carece. inclusive. uma suposta autogestão. descartando. no discurso dos seus intérpretes. a forma constituída pelo movimento cooperativista cada vez mais revela-se de natureza burocrática e heterogestionária ante a utopia de emancipação do trabalho. o movimento cooperativismo como um todo se estrutura por meio de mecanismos de lógica predominante do capital e não. e ainda assim muito limitada (não se desenvolveu outros mecanismos além das assembléias) e restrita (muitas cooperativas se dividem entre sócios “votantes” e trabalhadores subordinados). mas sim como opções dadas historicamente. o mecanismo essencial de subordinação do trabalho. ressaltar os motivos que o cooperativismo. mas. quaisquer propostas de planificação ou integração econômica e contestação da lógica patrimonial e dissociada das cooperativas. Considerações Finais A luta cooperativista focou na gestão coletiva. elas competem entre si. distribuição. a lógica da lei do valor. na crença de que isso significaria subordinação do capital ao trabalho. até o momento. baseadas na propriedade privada (amenizada pelo sistema de cotas vinculado ao trabalho). 25 a 28 de julho de 2010. Com isso. o que é. não buscou abolir a propriedade privada dos meios de produção e. são empresas capitalistas como outras quaisquer. projeto este estruturado pela combinação de uma ofensiva socialista contra a propriedade privada. gravemente. Logo. 6. Cada um desses grupos produtivos é estruturado por meios de cotas de propriedade. Sociedade Brasileira de Economia. quando é justamente a propriedade privada da produção. Enquanto que a prática de autogestão. Não é nosso objetivo. na fragmentação produtiva (cada cooperativa ou unidade de produção é isolada. uma pseudo-autogestão. organização). quanto ao aspecto produtivo como um todo (propriedade. como um todo. outrossim. um sistema produtivo fragmentado e hierárquico. Apesar de todo o discurso de integração por meio de redes e moedas sociais. a rigor. ou seja. um sistema distributivo de mercado e um sistema de gestão com alguns mecanismos de participação. por um conjunto de princípios e práticas autogestionárias. a rigor. ao mesmo tempo que afeta uma das quatro dimensões da alienação. Nesse horizonte. e a sua distribuição é realizada dentro da lógica do capital (o determinante é o valor de troca das mercadorias). temos um sistema patrimonial de cotas. não constituindo um sistema orgânico ou algum tipo de coordenação integrada). avançar além disso.

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