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SAINDO DA ESCURIDÃO BUSCANDO A INCLUSÃO. GILMAR VIANELLA.1 A inclusão é a capacidade de entender e reconhecer o outro. Os portadores de deficiência visual representam uma população esquecida no Brasil. À dificuldade de caminhar até um determinado lugar impõe limitações no nível de mobilidade que uma pessoa deficiente pode alcançar. Tanto para as pessoas com visão normal quanto para as pessoas portadoras de deficiência visual, a representação cartográfica possibilita um auxílio precioso na localização de cidades, ruas, estradas. Este projeto aborda a importância da Cartografia Tátil auxiliando o deficiente visual a reconhecer os mapas através do tato com a utilização de material didático específico e de metodologias que auxiliem na superação dos obstáculos gerados pela deficiência. Um dos principais objetivos desse trabalho foi desenvolver e divulgar o material didático que facilitasse a utilização da linguagem tátil no tratamento e comunicação da informação geográfica. Sendo assim, no sentido de conhecer a realidade das pessoas portadoras de deficiência visual, desenvolvi uma pesquisa para verificar a situação educacional das pessoas portadoras de deficiência visual em Juiz de Fora, buscando elementos para entender o processo de dificuldade encontrada por eles no estudo de cartografia tátil. Para a amostra estudada nesta pesquisa, foram selecionados os alunos portadores de deficiência visual que freqüentam a Associação dos Cegos onde muitos são internatos desta associação e muitos perpassam por lá; e também da Escola Municipal Cosette de Alencar. Desta maneira, a Geografia pode contribuir para uma melhor compreensão das dificuldades dos deficientes visuais em relação ao entorno e também na sua inclusão com cidadão ativo. É importante que possamos desenvolver técnicas, trabalhos produzidos com mapas táteis para os cegos e que estes recebam treinamento para com estes materiais. Afinal não é a cegueira que incapacita o homem, assim como não é a visão que o capacita para a condição de ser humano. PALAVRAS-CHAVE: Inclusão, Deficiência Visual, Cartografia Tátil, Deficientes Visuais.

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INSTIUIÇÃO: CES/JF Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora.

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O presente trabalho aborda a Cartografia Tátil como um dos instrumentos facilitadores da Inclusão Social dos alunos do Ensino Fundamental com Deficiência Visual. Estudos como os de Sassaki(1997), Joly(1997), Mittler(2003) Vigotsky(1989), Meneguette e Eugênio(1997), Vasconcelos(1993), Sanchez(1997), Simielle(1993), Torres(2002), Ross(1993) e outros mais, serviram de suporte teórico para melhor elucidar as implicações desse novo paradigma, que cada vez mais se mostra como um desafio, tendo em vista a necessidade de se modificar esse modelo educação e ensino para os deficientes visuais, que ainda vigora na prática de ensino atual. Antigamente o conhecimento dos conteúdos da Geografia restringia-se à sala de aula, era centrado no professor e no seu material didático. Simultaneamente, o aluno viajava pelo mundo ouvindo o professor discursando, citando o nome de países e capitais, dos rios, citando a população em números, sempre com uma enorme quantidade de informações sem, contudo fazer muito sentido para o discente. Hoje percebe a Geografia como uma ciência mais atuante, mais crítica, mais conscientizadora; uma ciência que dá prioridade à análise da produção do espaço geográfico. Segundo Magnoli (2002),
A Geografia escolar pode ser um saber essencial se for capaz de compreender sua condição de “gramática do mundo”, isto é, de um corpo de conceitos e competências destinados a desvendar o texto social impresso nas paisagens. Essa é sua função insubstituível: não há outra disciplina adequada a revelar como o espaço produzido pelas sociedades materializa projetos econômicos, estratégias políticas e identidades culturais.

Quando Magnoli se refere à “gramática do mundo” no sentido prático ele quer dizer que a Geografia também pode se expressar em outras escalas de análises, todas elas demonstrando a atuação do homem como construtor e modificador do espaço geográfico. Fruto de longa intervenção social sobre o meio ambiente, o espaço geográfico é o palco dos acontecimentos, espaço de vivência, de fluidez. Neste espaço o ser humano imprime novas características, pois é um ser social. Reconhecer as formas visíveis e concretas do espaço geográfico atual, seu processo de formação durante o tempo, isto é, o processo histórico, identificar, analisar e avaliar os impactos destas transformações faz parte do conteúdo geográfico. Este é também o parecer do MEC/Conselho Nacional de Educação quando da proposta dos Parâmetros Curriculares Nacionais, para Ensino Fundamental. De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação,
O Ensino Fundamental no Brasil tem por objetivo a formação básica do cidadão, mediante o desenvolvimento da capacidade de aprender, a compreensão do ambiente natural e social, o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem e o fortalecimento dos vínculos de família... (PCN ,1998; p. 41).

Hoje para entender a Geografia e abordar as questões tratadas nesta disciplina, temos que adentrar a sala de aula e conhecer os conteúdos dos livros didáticos. Torna-se também indispensável buscar outras fontes de conhecimento, analisar e reconhecer outras formas de abordagens, aprofundando e atualizando temas relacionados ao mundo, ao homem e a atuação deste no espaço geográfico. Devemos buscar um novo olhar, buscar uma integração entre a Geografia e outras disciplinas e entender holisticamente o mundo atual. A questão da integração supõe uma reflexão sobre a realidade que vivemos e ao ficar a par das modificações contemporâneas, alcançamos uma melhor visão do mundo. Temos que ter um enfoque crítico-construtivo no ensino da Geografia, enfoque este que auxilie na formação de cidadãos conscientes, dotados de opinião própria, de posturas modificadoras do status quo, um ensino geográfico voltado para a cidadania.

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Esse espírito crítico significa desenvolver nos discentes alternativas diante das “realidades”. Orientá-lo para que perceba claramente o mundo onde as transformações ocorrem numa velocidade acelerada e diante do qual devemos tomar decisões a todo instante é função da Geografia. A Cartografia pode ser considerada como um dos instrumentos facilitadores da inclusão dos alunos do Ensino Fundamental com PPDVs (Pessoas Portadoras de Deficiência Visual). A dificuldade encontrada pelo professor de Geografia ao trabalhar com a Cartografia para deficientes com PPDVs, na 6ª série do Ensino Fundamental é uma realidade, uma vez que não encontramos nos currículos dos cursos de formação de professor nenhuma disciplina que capacite o profissional no trabalho com deficientes visuais. Os portadores cegos ou de baixa visão carecem de vários recursos didáticos especiais, vindo a garantir suas possibilidades de desenvolvimento e participação na sociedade. O objetivo da inclusão está no centro da política educacional e da política da sociedade. Na área da educação a inclusão envolve um grande processo de reforma e de reestruturação das escolas como um todo, com o direcionamento de assegurar que todos os alunos tenham acesso a todas as gamas de oportunidades de educação e sociais oferecidas pelas escolas. Segundo Romeu:
Conceitua-se a Inclusão Social como o processo pelo qual a sociedade se adapta para poder incluir, em seus sistemas sociais gerais, pessoas com necessidades especiais e simultaneamente estas se preparam para assumir seus papéis na sociedade. A Inclusão Social constitui um processo bilateral no qual as pessoas, ainda excluídas e a sociedade busca, em parceria, equacionar problemas, decidir sobre soluções e efetivar a equiparação de oportunidades para todos. (SASSAKI, 1997, p. 3).

A Política Nacional de Educação Especial serve como fundamentação e orientação ao processo de educação de pessoas portadoras, de condutas típicas e de altas habilidades, criando condições adequadas para o desenvolvimento de suas potencialidades, com vistas ao exercício consciente da cidadania. Segundo Rabello (1989, p. 40):
Quem é o deficiente visual entre nós? O cego é um ser normal, é apenas portador de uma deficiência. Eles precisam, apenas, demonstrar que possuem a mesma capacidade para participar do desenvolvimento sócio-econômico cultural (...) Atualmente a situação não se apresenta dessa forma, principalmente no que diz respeito a legislação.(...) Mas o que se observa é que existe uma contradição entre o discurso e a realidade vivida pelo deficiente.

Talvez em nenhuma outra forma de educação os recursos didáticos assumam tanta importância como na Educação Especial de pessoas deficientes visuais levando-se em conta que: um dos problemas básicos do deficiente visual, em especial o cego, é a dificuldade de contato com o ambiente físico; a carência de material adequado pode conduzir a aprendizagem da criança deficiente visual a um mero verbalismo, desvinculado da realidade; a formação de conceitos depende do íntimo contato da criança deficiente visual com as coisas do mundo, tal como a criança de visão normal necessita de motivação para a aprendizagem; alguns recursos podem suprir lacunas na aquisição de informações pela criança deficiente visual; manuseio de diferentes materiais possibilita o treinamento da percepção tátil, facilitando a discriminação de detalhes e suscitando a realização de movimentos delicados com os dedos. O foco neste trabalho é a Escola Cosette de Alencar. Na atualidade existem duas modalidades de inserção de aluno portador de necessidades educativas especiais: a integração, baseando no princípio de normalização. Entende-se que a parte cabível à escola seria abrir suas portas ao aluno com deficiência, oferecendo situações individualizadas de aprendizagem (sala especial, sala de recursos), cabendo ao aluno adaptar-se à estrutura existente. Atualmente a Escola Cosette de Alencar, além do Ensino Fundamental e Médio, oferece cursos de Orientação e Mobilidade, Sorobã, Linguagem em Braille, Informática. Encontra-se na escola também sala com livro didático transcrito em Braille, Livro Falado (livro gravado em cassete), materiais didáticos em película de PVC, Micro computador (sintetizador de voz e o Sistema

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Operacional Dosvox). Não só os cursos como também os materiais, são oferecidos para muitos deficientes visuais cegos de outras localidades, cegos de nascenças com cegueira adquirida, ou baixa visão e para até os que já cursaram curso superior e buscam apoio que é com certeza encontrado neste espaço escolar. Muitos dos recursos contidos nesta escola são repassados pelo Instituto Benjamin Constant. Este Instituto é um órgão de referência nacional para a questão da deficiência visual. Em todo mundo e durante muito tempo os portadores de deficiência visual sofreram com a carência de instrumentos que facilitassem seu cotidiano. Não raro, o cego estava destinado à dependência de outrem ou à mendicância por preconceito e convencionalismo. A Exclusão Social conseqüente desse desinteresse por parte do poder público e da sociedade civil gradualmente vem diminuindo. Os portadores de deficiência como um todo e os portadores de deficiência visual em especial, tem adquirido direitos nas últimas décadas, entretanto ainda há mito a ser feito. Um mapa tátil deve apresentar um conjunto harmonioso de símbolos, texturas e elementos que transmitam a mensagem proposta com simplicidade. Deve-se evitar o excesso de dados que, em vez de facilitar, complicam a obtenção de informações. As representações gráficas em mapas podem ser mais facilmente elaboradas a partir do conhecimento das variáveis gráficas, da função do mapa e do público a que ele se destina. Da mesma forma esses mesmos fatores devem ser observados na elaboração de mapas táteis. Nesse contexto as seis variáveis que são o tamanho, a forma, a orientação, a textura, a elevação (espessura ou altura) e a orientação são utilizados para construir códigos táteis dos mapas considerando os fenômenos geográficos que podem ser reduzidos, para sua representação, na forma de pontos, linhas e áreas. Entretanto, a construção de mapas táteis deve ser feita com cuidado, lembrando que um mapa é um instrumento de comunicação e por isso, deve-se levar em conta os usuários desse mapa. No caso dos mapas táteis aconselha-se uma interação contínua de fazedor de mapas com os potenciais usuários, ou seja, os deficientes visuais. São eles que saberão se o mapa está sendo eficiente para transmitir a informação. O sistema háptico (tato) é um dos mais complexos meios de comunicação entre o mundo interno e externo do homem, e são inúmeras as questões relacionadas ao tato e a leitura tátil. É preciso, entretanto, levar em consideração que a transcodificação do mundo visual para uma linguagem tátil traz consigo a experiência de quem vê, e isso pode dificultar a compreensão do mundo interno ou da representação mental que o cego faz do mundo. Um dos principais objetivos desse trabalho foi desenvolver e divulgar o material didático que facilitasse a utilização da linguagem tátil no tratamento e comunicação da informação geográfica. Este trabalho irá proporcionar aos alunos cegos e com visão subnormal experiências através da aplicação de metodologias próprias utilizadas nas aulas práticas com o desenvolvimento de mapas táteis. A importância do material desenvolvido para favorecer os deficientes cegos e com visão subnormal e videntes, era objetivar material didático que pudesse ser utilizado em aulas integradas nas escolas regulares. Por isso para desenvolver o material didático tátil, primeiramente, pesquisei materiais de baixo custo e de diferentes texturas que pudessem ser utilizados na fabricação dos mapas, sem agredir a sensibilidade tátil dos deficientes visuais ao tocá-los. Para a elaboração do mapa tátil utilizei materiais que fossem agradáveis ao toque como: cola colorida, miçangas, lixas de paredes com várias texturas, amostras de pedras moídas, amostras de caixas de papelão, papel E.V.A., botões e peças de bijuteria. Esses materiais foram escolhidos por serem de baixo custo e agradáveis de usar o tato. Na confecção dos mapas, a leitura tátil seria mais objetiva em texturas de alto-relevo. Foi verificado que a literatura pouco aborda sobre mapas táteis de forma geral e nada foi encontrado sobre mapas de escala grande. Foi necessário um mapa que servisse de base para o mapa tátil, ou seja, um mapa que não fosse muito dividido. Escolhi mapas referentes à matéria direcionada à 6ª série do Ensino Fundamental, e foquei o Mapa Minas Relevo e Região Sudeste, divisão política e capitais. Este mapa estava em uma escala menor do que o mapa produzido ou seja, o mapa ampliado, uma escala muito pequena para os objetivos previstos, o que demandou trabalho de ampliação do mesmo, processo este permitido para o caso de um mapa tátil, que por sua natureza comporta muito menos detalhes que um mapa convencional para videntes. Assim decidido foi dado o início à experimentação de materiais e textura para a execução do mapa tátil, conforme citado acima.

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Os mapas táteis irão mostrar adequação à transmissão de conceitos geográficos, mas porém, assim como ocorre na manipulação de mapas convencionais, necessitam de um preparo prévio através de atividades práticas para sua melhor compreensão. Diante dessa experiência adquirida, através do desenvolvimento deste projeto posso afirmar que o material didático desenvolvido nesta pesquisa irá permitir aos alunos deficientes visuais e com visão subnormal, uma maior compreensão e domínio da Cartografia Tátil. Com essa metodologia que proponho, acredito que irá fazer com que os deficientes visuais evoluam no conhecimento e domínio de mapas táteis, e uma melhor aprendizagem relativa à Geografia à Cartografia. O presente estudo foi conduzido a partir da abordagem qualitativa, uma vez que este tipo de pesquisa preocupa-se com os processos dos fenômenos estudados e não com o produto final, pronto, generalizado. O instrumento utilizado para a coleta de informações e o estudo aprofundado dos dados referentes ‘a população alvo’ desta pesquisa foi a entrevista. O pesquisador busca obter as informações na fala dos atores sociais. A entrevista por ser um processo de mediação e interação entre o entrevistador e o entrevistado permite uma busca maior de informações as quais são analisadas de maneira aprofundada, preocupando-se com o processo e o desenvolvimento das informações obtidas. Para a aplicação da entrevista primeiramente foi solicitada à participação dos associados da Associação dos Cegos. No início da conversa, foram colocados aos sujeitos pesquisados os objetivos do trabalho e da conseqüente entrevista, bem como o caráter confidencial das informações. Estes encontros e o decorrer das entrevistas ocorreram em clima de bastante interação entrevistador / entrevistado. A utilização deste instrumento de pesquisa teve por base um roteiro de perguntas elaboradas previamente, o qual foi dividido da seguinte maneira: dados pessoais; questões sobre a escolaridade dos deficientes, as dificuldades ou não encontradas durante o cotidiano escolar com o estudo de mapas, como se dava ou se dá o seu processo de escolarização. Para a amostra estudada nesta pesquisa, foram selecionados os alunos portadores de deficiência visual que freqüentam a Associação dos Cegos onde muitos são internatos desta associação e muitos perpassam por lá; e também da Escola Municipal Cosette de Alencar. Para caracterizar o grupo estudado nesta pesquisa, e para o levantamento dos dados pessoais foram analisados sexo, faixa etária entre 20 e 60 anos e as etnologias da deficiência visual, conforme se pode visualizar através tabela a seguir. Etiologia da Instituição de Aconteceu a Se Grau de deficiência ensino que alfabetização xo escolaridade visual freqüenta cartográfica? Escola Municipal Cosette Alencar Escola Municipal Cosette Alencar Curso Saúde Escola Municipal Cosette Alencar Escola Municipal Cosette Alencar

Entrevistado

Idade

01

21

M Ensino Médio

Nascença

de

Sim

02

25

F

2º ano do Ens. Sub Nor Médio 3º ano do Ens. Adquirida Médio Nascença

de

Sim

03

29

F

Sim

04

29

M Ensino Médio

de

Sim

05

32

M Ensino Médio

Sub Nor

de

Sim

6
06 07 08 09 32 36 53 59 2º ano do Ens. M Nascença Médio M Pedagogia F M Ensino Médio Nascença Nascença Escola Municipal Sim Cosette de Alencar CES/JF Sim Curso Pré Sim vestibular CES/JF CES/JF Sim Sim

9º período de Sub Nor Psicologia 9º período de 10 45 F Nascença História Elaboração: Vianella, Gilmar. 2006

Com base na tabela acima, visualizamos as características pessoais com relação ao numero de entrevistados, a idade de cada um, o sexo, o grau de escolaridade, as etiologias da deficiência visual, a Escola/Faculdade que estudou ou adquiriu a Graduação, o lugar que estuda atualmente. Os dados sobre o processo de escolarização dos deficientes visuais e sub normais pesquisados, relacionaram-se à forma de atendimento educacional recebido, ou seja, se estudaram na escola da rede regular ou em instituição especializada, ao nível de escolaridade, a avaliação do cotidiano da rede regular de ensino. Sendo o foco de nosso trabalho, também indagamos como ocorreu sua alfabetização cartográfica, se recorda das aulas, se foi utilizado algum recurso específico para sua deficiência, a dificuldade encontrada e se ainda encontra em relação ao ensino da cartografia, sugestões que eles dariam para a construção de mapas táteis, e as medidas consideradas necessárias para facilitar a inclusão educacional. Questionados sobre a avaliação do cotidiano escolar da rede regular de ensino, os entrevistados analisaram suas vivências educacionais em relação à metodologia das aulas de Geografia, a atuação dos docentes em relação ao aluno com deficiência visual (de que forma atuaram ou atuam esses professores de maneira a contribuir e auxiliar o processo ensino-aprendizagem destes alunos), e se foi utilizado o Sistema Háptico. Para ilustrar estas questões sobre a metodologia e atuação dos docentes frente à deficiência, destacam-se alguns depoimentos dos próprios entrevistados: “A maior parte dos professores não estava preparado para receber alunos com deficiência visual. A didática empregada normalmente não atendia as necessidades”. A opinião de outro entrevistado revela a falta de qualificação dos docentes: “Nós, pessoas com necessidades que temos mostrar nossas dificuldades. O professor não tem nada pronto, para um aluno com deficiência”. Neste sentido, procurando identificar as medidas consideradas necessárias para facilitar o processo de inclusão escolar, e assim proporcionar melhores condições de aprendizagem, os entrevistados revelaram que principalmente o governo, os órgãos direcionados à educação, investissem mais nos materiais pedagógicos direcionados aos deficientes visuais, qualificar mais e capacitar os professores para a Educação Especial, e que melhor a sociedade olhassem com um outro olhar para os Deficientes Visuais. A preparação dos docentes se faz também com a participação dos alunos, ou seja, possibilitando que o aluno portador de deficiência possa identificar e manifestar suas dúvidas e questionamentos, da mesma forma que este aluno seja encorajado a participar da aula, ensinando aos professores e alunos a melhor forma de conduzir a aula. Em conseqüência disso, é muito importante também que as escolas tenham a disponibilidade de materiais pedagógicos para facilitar o aprendizado deste alunado. A partir daí, conforme os dados desta questão, é necessário promover debates e discussões no ambiente escolar, envolvendo não só professores e alunos, mas também os funcionários, pais, comunidades vizinhas, sobre a importância da educação inclusiva e das possibilidades de conviver e ensinar-aprender junto com alunos portadores de deficiência visual. Quanto às questões sobre o processo de escolarização, analisados nesta pesquisa, verificou-se que a maior parte dos alunos deficientes estudaram ou estudam em ambientes de ensino

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da rede regular. Embora estudando na escola regular, as dificuldades encontradas quanto às metodologias e atuação dos professores, e também à falta de acesso aos recursos pedagógicos, não prejudicaram o processo educacional, ou seja, o ensino cartográfico. O isolamento ao qual muitos alunos com deficiência passam na sala de aula da rede regular de ensino, é atribuído a diversos fatores. A dificuldade expressa pelos professores em lidar com as questões da diferença, da deficiência e seus limites é um deles. Neste sentido, o relacionamento, a comunicação e o convívio estabelecidos com os colegas de classe, podem ter sido o ponto de partida que auxiliou na continuação dos estudos, permitindo que os pesquisados pudessem fazer parte e aprender no cotidiano escolar. Verificou-se a necessidade imediata de melhorias na atualização dos professores da rede regular de ensino, para proporcionar um processo educacional satisfatório a todos os alunos, bem como maior disponibilidade de recursos e material pedagógico direcionados aos mapas táteis. Sendo assim educando a sociedade para receberem as pessoas portadoras de deficiências, melhores condições estes deficientes terão para se educar, em busca de um caminho para a inclusão escolar e profissional, enquanto cidadão social. Diante de todas as considerações apresentadas, permanece a convicção de que conviver com a diferença é descobrir o quanto somos semelhantes em essência. Essa caminhada não é fácil, vivemos um dia cada vez mais difícil de trilhar. Muitas vezes pensamos que vencemos uma etapa, mas, quando olhamos para traz, não foi bem assim e, temos que começar tudo outra vez. Entretanto, ao recomeçarmos não somos mais os mesmos, pois avançamos em crescimento humano, trazendo- nos de volta a nós mesmos. É importante que possamos desenvolver técnicas, trabalhos produzidos com mapas táteis para os cegos e que estes recebam treinamento para com estes materiais. Afinal não é a cegueira que incapacita o homem, assim como não é a visão que o capacita para a condição de ser humano. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: AGUILAR, José. (org), História da Cartografia, Editora Codex, Rio de Janeiro, 1967. ALMEIDA, Rosângela Doin. Atividades Cartográficas: Ensino de Mapas para Jovens. São Paulo: Ática, 1997. BABA, Clara T. N. Superando as Limitações. São Paulo: Paulinas, 1982. BRUNO, Marilda Moraes Garcia; MOTA, Maria Gloria Batista. Educação Especial: a competência social. Brasília: MEC, 1998. Disponível em www.redesaci.org.br. Instituto Ethos. O que as Empresas podem fazer pela Inclusão das Pessoas com Deficiência. São Paulo, 2002. Disponível em: http://www.ethos.org.br 2002 BRASIL. Lei nº 9.394/96, de 20/12/1996. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, p. 35-67, 1996. BRASIL, Secretaria de Educação Especial. Política Nacional de Educação Especial: Livro 1. Brasília: SEESP,1994. BRASIL, Secretaria de Educação Especial. Subsídios para Organização e Funcionamento de serviços de Educação Especial. Brasília: SEESP,1995. CARLOS, Ana Fani A.. A Geografia na sala de aula. São Paulo; Contexto, 2005. CASTELLAR, Sônia. Educação Geográfica: teorias e práticas docentes. São Paulo: Contexto,2005. DUARTE, P. A. Fundamentos de Cartografia. Florianópolis: Editora da UFSCV, 1994. FERREIRA, Graça Maria Lemos. Geografia em Mapas. São Paulo: Moderna, 1994. FONSECA, Vitor da. Educação Especial. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

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