1 A CARTOGRAFIA MULTIMÍDIA COMO UMA NOVA LINGUAGEM NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE GEOGRAFIA: considerações metodológicas

Suely Aparecida Gomes Moreira1 - gomesgeog@yahoo.com.br

Resumo O surgimento das novas tecnologias de comunicação e informação (TICs), especialmente o uso intensivo da rede mundial de computadores, a Internet, tem modificado profundamente os ambientes de ensino-aprendizagem. Deste modo, ensinar Geografia também tem se tornado um desafio cada vez maior, na medida em que se exige que os docentes não somente dominem os/aos conceitos/categorias intrínsecos à instrução dessa disciplina, mas principalmente que saibam escolher e valer-se de diversas linguagens adequadas para cada situação de ensino-aprendizagem. Nesse sentido, reconhecemos que o mapa é uma das formas de representação mais utilizadas no ensino de Geografia, apesar de que essa nova realidade tecnológica tem multiplicado o número de usuários que buscam o auxílio do mapa em meio digital, para finalidades distintas, de acordo com seus interesses e necessidades. Os mapas que antes se apresentavam num formato impresso, preestabelecido, estático e sem nenhuma possibilidade de interatividade, apresentam-se, atualmente, em meios eletrônicos, onde o usuário pode se apoiar na combinação de diversas mídias, como textos, gráficos, som, vídeo e animações para melhor compreender o espaço neles representado. Essa nova forma de representação e de comunicação da informação espacial está se tornando conhecida como Cartografia Multimídia, sendo que em alguns países essa discussão se encontra em estágio bastante avançado. No Brasil seu conceito ainda é pouco compreendido, como também limitado o conhecimento em como utilizá-la no ensino de Geografia visando a potencializar a construção de conhecimentos sobre a organização espacial do mundo contemporâneo. Assim, essa pesquisa tem por objetivo discutir os princípios da Cartografia Multimídia, reconhecendo as suas contribuições, os seus limites e as perspectivas para o uso dessa linguagem no ensino de Geografia visando a apresentar algumas recomendações para a sua inserção como componente curricular nos cursos de Licenciatura em Geografia. Para tanto, estamos realizando uma pesquisa bibliográfica de obras referentes à Cartografia Multimídia, Novas Tecnologias na Educação, Ensino de Geografia e Formação de Professores, acompanhada de discussões e reflexões, junto ao grupo de pesquisa ‘Geografia e Cartografia Escolar’2, como auxílio para a fundamentação e elaboração dos instrumentos de investigação. Pretendemos definir critérios de análise de Websites a fim de apresentar algumas diretrizes para o uso da Cartográfica Multimídia na formação de professores de Geografia. Como resultados parciais, sinalizamos que ainda não é possível avaliar em que aspectos a Cartografia Multimídia pode favorecer ou limitar o ensino de Geografia. No entanto, podemos afirmar, a priori, que os modelos de ensino pautados apenas em mapas impressos são insuficientes frente à realidade tecnológica na qual a Educação na insere na atualidade. Palavras-chave: Cartografia Multimídia. Ensino de Geografia. Novas Tecnologias na Educação. Formação docente.

Introdução
Estudiosos como David Harvey (2001) e Moacir Gadotti (1997), os quais tomamos como referência nessa discussão, compreendem o movimento histórico-social atual, denominado “pós1

Aluna regular (Doutorado) do Programa de Pós-Graduação em Geografia – UNESP – Rio Claro (Bolsista CNPq) Linha de Pesquisa: Território, Cultura, Ensino e Metodologias em Geografia. 2 Grupo de Pesquisa coordenado pela Profª Dra. Rosângela Doin de Almeida, com o objetivo de desenvolver pesquisas que relacionem teorias e conceitos da Geografia e da Educação relacionados com a linguagem da Cartografia.

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modernidade”, como um estágio marcado por improbabilidades e questionamentos acerca do futuro. Esse movimento se define, entre outros aspectos, por mudanças estruturais em todos os setores da sociedade como ciência, artes, economia, política, entre outros, e tem como um de seus elementos reveladores a invasão da tecnologia eletrônica, da automação, e a utilização intensiva das tecnologias da informação e da comunicação (TICs). Essas tecnologias disponibilizam novos espaços e ambientes denominados também como ciberespaço3 (LÉVY, 2008), que considera além da infra-estrutura informática, as relações entre as pessoas que interagem nestes ambientes. Por conseguinte, essa interação interpessoal no ciberespaço cria novas formas de comportamentos, de linguagem, de atitudes, de valores, de práticas e costumes, o que faz com que o autor acima denomina de cibercultura. No campo educacional as TIC estão modificando as formas de construir e comunicar o conhecimento. O uso combinado das diversas mídias torna possível a construção do conhecimento coletivo com sujeitos localizados em espaços e tempos distintos, integrados ao mesmo ambiente virtual ou à mesma comunidade virtual de aprendizagem. As formas de pesquisar informações e de divulgá-las a um número cada vez maior de pessoas também se tem alterado a partir da disponibilização dessas tecnologias. Neste sentido, alteram-se, também, os modos de ensinar-aprender. Assim sendo, temos percebido o surgimento de uma nova relação entre alunos e professores, que não se centra mais num sistema hierárquico no qual o professor tem a centralidade do saber, como predominantemente ocorria no processo ensino-aprendizagem. Nesse contexto, interessa-nos, particularmente, nessa discussão, refletir sobre o papel do ensino de Geografia frente a essa cultura da virtualidade, principalmente a partir desse movimento para que se possa constituir como uma ciência fundamental para a construção e reprodução de uma política em que o objeto principal seja o resgate dos valores sociais. Sabemos, pois, que a educação escolar sempre se apresentou como um processo abstruso, no qual o professor interagia pessoalmente e diretamente com os discentes, apoiado em algum meio como complemento à sua ação pedagógica, tal como o quadro negro, o giz, o livro, dentre outros. Porém, com o advento das novas mídias eletrônicas os espaços e tempos escolares têm se expandido para além dos muros escolares e dos currículos e calendários rígidos. A comunicação entre os alunos e professores pode ocorrer de modo indireto nos ambientes formais como também nos informais (à distância, descontinuamente) e no tempo (comunicação diferida, não simultânea) (BELLONI, 2006; MORAN, 2007). Entratanto, essa nova realidade conferida pelo acesso de um número cada vez maior de pessoas aos meios de comunicação de massa, como o rádio, a televisão, o computador, o telefone celular, a Internet, dentre outros, tem demudado densamente os ambientes de ensino-aprendizagem. A “educação pós-moderna” tem, conseqüentemente, prestada maior importância ao processo do conhecimento e suas finalidades, que com a apropriação de conteúdos, tornando-se assim o que Gadotti (1997) nomeia de educação multicultural. Nesse sentido a educação, na contemporaneidade, tem adquirido novos significados, tendo como princípio fundamental o desenvolvimento da autonomia do aluno, a fim de que este, ao longo de sua formação, construa habilidades e competências para se autogovernar, ou seja, um sujeito capaz de “fazer por si mesmo”. Nesse movimento, exige-se que repensemos as nossas práticas comunicacionais em sala de aula, intentando romper com a lógica na qual estamos acostumados, como a de “falar/ditar”, destacada por Lévy (1993, p. 8) como “a escola é uma instituição que há cinco mil anos se baseia no falar/ditar do mestre”. Por isso, entendemos que se faz necessário modificar as práticas docentes cristalizadas na “emissão” para outras que considerem a participação efetiva do aluno no processo de construção do conhecimento. Desse modo, o ensino de Geografia se apresenta como um dos grandes desafios da profissão docente, na medida em que se exige que os docentes não somente dominem os/aos conceitos/categorias
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Pierre Levy (2008) considera o ciberespaço ou rede não apenas a infra-estrutura informática, mas também as relações entre as pessoas que interagem neste ambiente. A interação entre as pessoas no ciberespaço cria novas formas de comportamentos, de linguagem, de atitudes, de valores, de práticas e costumes que este autor denomina de cibercultura.

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intrínsecos à instrução dessa disciplina, mas principalmente que saibam escolher e valer-se de diversas linguagens4, adequadas para cada momento de ensino-aprendizagem. Nesse sentido, reconhecemos que a linguagem cartográfica tem no mapa uma das formas de representação mais utilizadas no ensino de Geografia, pois essa forma de representação, por meio de um conjunto de signos, permite uma percepção imediata do espaço representado. A despeito disso Oliveira (2005, p. 31) afirma que,
Como se vale de uma linguagem visual, a cartografia apresenta a propriedade de ser um sistema espacial, de percepção instantânea. Quando se olha para um mapa, o que chama a atenção primeiramente é a imagem formada pelo conjunto de signos: cores, formas, texturas, tonalidades. Difere, portanto, da linguagem sonora, em que o conjunto dos signos só é apreendido linearmente: as letras formam sílabas, que formam palavras, que formam frases, que formam orações e assim por diante. A mensagem é completada apenas ao final desse encadeamento.

Assim sendo, a linguagem dos mapas, desde que compreendida, favorece o entendimento da organização sócio-espacial, na medida em que permite apreender as características físicas, econômicas, sociais, ambientais do espaço e, sobretudo, realizar estudos comparativos das diferentes paisagens e territórios representados em várias escalas. Entretanto, os mapas em formato impresso não permitem qualquer possibilidade de interatividade, pois sua apresentação é preestabelecida, linear e estática. Peterson (1999) alerta, para o fato de as representações mentais derivadas dos mapas em papel restringirem a nossa interação com a realidade, de modo que se limitam em representar um mundo estático e sem mudanças. Além disso, esses modelos não podem ser usados eficazmente pela maioria das pessoas, deixando analfabeto ou semianalfabetos um grande segmento da população no que diz respeito à leitura do mundo por meio de mapas. Todavia, as avançadas tecnologias da informação e comunicação e as redes telemáticas têm permitido a produção e a distribuição de representações cartográficas cada vez mais elaboradas. Podemos, por exemplo, obter uma multiplicidade de imagens de satélites do nosso planeta, por meio de informações que, enviadas por redes mundiais de sensores e incorporadas a dados armazenados em modelos informáticos ultramodernos, permitem realizar simulações e fazer previsões de diversos, de eventos climáticos, por exemplo, que podem incidir sobre a Terra podendo, até mesmo, evitar algumas catástrofes humanas e ambientais. Temos visto que atualmente tem aumentado expressivamente o número de usuários que buscam o auxílio de imagens de satélites e mapas em meio digital em alternativa aos mapas impressos. Os recursos cartográficos disponíveis na internet estão crescendo rapidamente. Alguns desses recursos oferecem uma poderosa ferramenta, denominada de recursos de multimídia, entendida como combinação de diversas mídias, como textos, gráficos, som, vídeo e animações, que são modalidades complementares as quais oferecem a oportunidade para o usuário obter um maior e melhor entendimento dos assuntos de seu interesse ou do seu estudo, principalmente em termos de representação espacial. (WIEGAND, 2005). Esses recursos tecnológicos têm possibilitado novas relações entre as pessoas e os mapas na medida em que a integração de recursos de multimídia à Cartografia favorece a interatividade5, ou seja,

A linguagem, nesta discussão, é entendida como sendo os diferentes modos que utilizamos para representar nossa experiência: imagens, sons, palavras, sensações, sentimentos. Contudo, a linguagem é apenas uma (re)apresentação da experiência, mas não a experiência propriamente dita, assim como um mapa não é o território que ele representa. O conceito de interatividade tem sido utilizado de diversas formas por autores como Belloni (2001), Primo (1998), Silva (2002) e Levy (2008) que o compreendem sob diferentes perspectivas. Acredita-se que a utilização da interatividade se intensificou com o advento da rede telemática nos anos 1980 e no final dos anos 1990, com a popularização da Internet, passaram a ser criados sites em HTML, contendo links que aumentam a comunicação entre o indivíduo e o computador. Nesse sentido, Silva (2002, p. 20) conceitua a interatividade como sendo uma
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o “diálogo” entre o leitor e o mapa, uma vez que torna possível selecionar as informações de acordo com seus interesses e necessidades. Como exemplo, temos diversos Sites como o Google Maps, Google Earth, dentre outros, que se dispõem como ferramentas de apresentação de dados em que os usuários podem não somente visualizar o espaço de diferentes maneiras, como também acrescentar conteúdos que podem ser somados à base de dados e interligados a outros elementos de multimídia, permitindo uma “viagem pelo mundo”. Essa nova forma de representação e de comunicação da informação espacial está se tornando conhecida como Cartografia Multimídia, sendo que em alguns países essa discussão se encontra em estágio bastante avançado. No Brasil seu conceito ainda é pouco compreendido, como também limitado o conhecimento em como utilizá-la no ensino de Geografia visando a potencializar a construção de conhecimentos sobre a organização espacial do mundo contemporâneo. Frente a essa indefinição, intentamos, neste artigo, expressar algumas das preocupações que vêm sendo partilhadas junto ao grupo pesquisa ‘Geografia e Cartografia Escolar’6, com o objetivo de compreender as seguintes questões: quais são os princípios básicos da Cartografia Multimídia?; quais as suas contribuições, os seus limites e as perspectivas para o uso dessa linguagem no ensino em Geografia?; quais são os níveis de interatividade que essa nova linguagem pode proporcionar?; que critérios devem ser considerados para a sua inserção como componente necessário na estrutura curricular dos cursos de Licenciatura em Geografia? Consideramos fundamental ampliar o debate a propósito da formação docente, especialmente de professores de Geografia, a partir na nova realidade tecnológica em que estamos inseridos. Por isso, destacamos a necessidade de considerar a Cartografia Multimídia como uma nova linguagem que, a nosso ver, pode potencializar a compreensão dos conceitos/categorias geográficas, uma vez que permite a interatividade e oferece meios para uma melhor compreensão do dinâmico processo de organização espacial. Esclarecemos, no entanto, que não há intenção, de nossa parte, da institucionalização da Cartografia Multimídia como um conteúdo a mais nos currículos de licenciatura em Geografia, nem de se propor metodologias como “receitas” de ensino-aprendizagem. No entanto, entendemos ser necessário compreendê-la num sentido mais amplo, além de discutir suas limitações e potencialidades nos cursos de formação de professores de Geografia. Esse trabalho se insere numa abordagem qualitativa da pesquisa educacional. Assim, contemplamos o entendimento da Cartografia Multimídia em outra dimensão, que vai além de seus princípios, leis e generalizações, mas voltado para o entendimento das potencialidades que essa linguagem pode representar no ensino em Geografia. Para tanto, desde o primeiro estágio da pesquisa estamos em contato com bibliografias referentes à Cartografia Multimídia, Novas Tecnologias na Educação, Ensino de Geografia e Formação de Professores, acompanhada de discussões e reflexões, como auxílio para a fundamentação e elaboração dos instrumentos de investigação. Paralelamente estamos definindo critérios para análise junto a alguns Websites, a fim de apresentar diretrizes para a inserção dessa linguagem na estrutura curricular dos cursos de Licenciatura em Geografia. Os princípios básicos da Cartografia Multimídia O pesquisador Australiano W. Cartwright (1999) esclarece que o termo “multimídia” desenvolveu-se a partir da década de 1970 e ainda não há consenso em torno do seu significado. Entretanto, Peterson (1999, p. 127) entende que “multimídia são as várias combinações de textos, gráficos, animação, som, e vídeo para os propósitos de melhorar a comunicação”, ou seja, a essência da multimídia está na combinação dessas várias mídias para armazenar e comunicar informação.

“disponibilização consciente de um mais comunicacional de modo expressivamente complexo, ao mesmo tempo atentando para as interações existentes e promovendo mais e melhores interações - seja entre usuários e tecnologias digitais ou analógicas, seja nas relações “presenciais” ou “virtuais” entre seres humanos”.
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Grupo de estudos coordenado pela Profª Dra. Rosângela Doin de Almeida, cujo objetivo é desenvolver pesquisas que relacionem teorias e conceitos da Geografia e da Educação relacionados com a linguagem da Cartografia.

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Todavia, a Cartografia incorporou o termo multimídia somente a partir de meados da década de 1980 e, e este se dispõe como suporte para a combinação de mapas com outras mídias, visando a representar de maneira mais realística os fenômenos mundiais. Atualmente, as diversas mídias podem “criar diferentes formas de expressão”, por isso “um ‘mapa multimídia’ pode ser construído em várias camadas, cada uma delas dirigidas às necessidades de diferentes usuários.” (PETERSON, 1999, p. 34). O recente desenvolvimento da técnica da multimídia tem permitido aos cartógrafos e aos usuários de mapas a criação e o uso de apresentações de multimídia na Cartografia. Segundo estudos realizados por Cartwright (1999) o uso da informática na produção, armazenamento e distribuição de mapas tem-se intensificado, principalmente, a partir da década de 1970. O computador, nas décadas anteriores, era usado basicamente para auxiliar no processo de produção de mapas em papel. No entanto, os avanços na forma de armazenamento de dados (CD-ROM/DVD) e a popularização da Internet (World Wide Web) durante os anos de 1980 e 1990 contribuíram para a afirmação do autor Peterson (1999) que classifica esse avanço como uma segunda onda de desenvolvimento da Cartografia na área de Multimídia. Todavia, no decorrer da década de 1990 e início deste século, com o acesso à Internet, houve uma democratização do acesso aos mapas. O crescente uso da informática e o advento da rede mundial de computadores acrescentaram outro componente, conhecido como interatividade. A partir desse componente, o usuário pode agir ativamente sobre as representações cartográficas disponibilizadas em meio digital, especialmente aquelas disponíveis na Internet. Assim, a relação do usuário evolui, então, da condição de “observador passivo”, para a perspectiva da seleção e da apresentação das informações a partir de seu interesse ou de sua área de estudo, principalmente em termos de representação espacial. Não obstante, uma representação cartográfica multimídia pode ser considerada como interativa e não interativa, como nos elucida Ramos (2005, p. 51),
[...] a não-interativa, em que um tema encadeia outro, como as páginas de um livro (nessa estrutura, é permitido ao usuário apenas o movimento de seguir adiante ou retroceder – esse tipo de multimídia é também chamado de linear); e a multimídia interativa, que alguns autores chamam de não-linear, em que o encadeamento dos temas não obedece necessariamente a uma seqüência predefinida. Um tema é apresentado, bem como todos os outros a ele relacionados, e o usuário ‘navega’ na informação de acordo com a sua necessidade.

Dessa forma, a Cartografia Multimídia interativa se apresenta na forma de hipermapas, que corresponde a procedimentos não lineares de movimentação da informação, contrária à lógica do papel impresso que direciona o leitor a se mover num sentido estruturado. Ramos (2005, p. 85) explica que “o hipermapa corresponde à aplicação cartográfica do conceito de hipertexto”, que pressupõe a estruturação da informação em forma de camadas interligadas. Parafraseando o texto descrito a seguir, podemos dizer que é como se um “território” representado por meio de um mapa se abrisse, e nos mostrasse outro “território”, e este ainda outro – e os três fossem somente antecipação, tendo em vista que há uma infinidade de territórios que podem ser descobertos, de acordo com o interesse a criatividade do “navegante”!
Como se o Mar se abrisse E nos mostrasse outro Mar – E este ainda – ainda outro – e os Três Fossem só antecipação – De Períodos de outros Mares – Por Praias não visitados – Estes também a beira de mares indevassados – A Eternidade – são os Mares que virão – Emily Dickinson (1999, p. 51)

A partir dessa analogia, podemos entender que o ciberespaço disposto pelas novas TICs pode potencializar a construção de conhecimentos significativos, a partir do envolvimento de múltiplos

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autores, de maneira não linear, numa perspectiva de rede onde cada conexão pode permitir o enveredar por outras redes que estão constantemente sendo alteradas de forma participativa. Nessa perspectiva, a Cartografia Multimídia se mostra como uma nova mídia em que conduz a um novo relacionamento entre pessoas e mapas, e entre pessoas e mundo real. Um simples “Clic” nos elementos de um mapa em meio eletrônico, outros dados geográficos relacionados ao mapa podem ser acessados, tais como número de população ou nomes geográficos para localidades ou áreas, nomes geográficos ou volume de tráfego (fluxo) para características lineares, pontos de altitude, coordenadas, distancia áreas de superfícies e mesmo hora local para um específico ponto, além de tantos outros temas relacionados ao interesse do usuário. Concordamos com Ormeling (1999, p. 69) quando afirma que
Os mapas em cartografia multimídia fornecem – através de seus pontos de informações – vínculos atuais para outros elementos multimídia permitindo aos usuários o seu acesso. Os mapas são os mais óbvios meios de transporte destes pontos de informações, permitindo indicar posições geográficas (pontos, objetos lineares ou áreas) e elementos multimídia vinculados (textos, diagramas, imagens, desenhos, esquemas, vídeos, trilha sonora, etc.)7.

Dessa forma, os mapas, quando apoiados em recursos de multimídia, permitem diferentes possibilidade de leitura do espaço neles representado. Peterson (1995) destaca cinco princípios que considera como básicos quando se trabalha Cartografia Multimídia: a) A insuficiência da mídia de papel: Entre as vantagens apresentadas para a Cartografia pela mídia em papel, em relação à mídia em computadores, está a facilidade de transporte e a capacidade de suportar uma resolução espacial maior, além da longevidade do papel ser maior que a mídia eletrônica. Entretanto, apesar do papel oferecer maiores vantagens, ele é insuficiente para competir com a mídia interativa no que diz respeito a responder à essência da Cartografia, que é a representação e comunicação do mundo espacial e dinâmico. b) Problemas associados à distribuição de mapas em papel: Um dos aspectos mais importantes para o uso de mapas é a sua disponibilidade para uso das pessoas em geral. A evolução da impressão de mapas facilitou o seu uso, da mesma maneira que a Internet pode acelerar muito mais a distribuição de mapas a um público cada vez maior. Além disso, os mapas na Internet permitem a interatividade, consentem ao usuário mudar a perspectiva, a projeção ou o nível de detalhe. c) Problemas relacionados ao uso de mapas: Comprovadamente um dos maiores problemas relacionados ao uso de mapas está associado à inabilidade da população, ou seja, a falta de conhecimento específico em relação à sua linguagem de comunicação. A multimídia interativa se apresenta, então, como uma solução para este problema, na medida em que pode incorporar animação, que estimula o usuário a explorar métodos de representação alternativos que facilitam a compreensão do mundo. d) O valor intrínseco da Multimídia: Apesar de vários argumentos contrários ao valor da multimídia para melhorar a transferência de informação e conhecimento, esse autor se apóia na idéia de que a aquisição da informação é um processo ativo. Baseado nisso, acredita que ambientes interativos podem promover uma melhor aprendizagem, pois os usuários são capazes de explorar ativamente as informações de multimídia.

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Tradução nossa. “The maps in multimedia cartographic products provide – through theis hotspots – the actual links to the other multimedia elements, and thereby enable users to acess them. The maps are the most obvius carriers of these hotspot as these would immediately indicate the geographical position (points, linear objects or areas) and linked multimedia elements (texts, diagrams, images, drawings, shemes, videos, soun tracks, etc.).

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e) A obrigação moral da comunidade cartográfica: Peterson discorda da idéia difundida na Cartografia, de que a maioria das pessoas não realiza nenhum tipo de análise espacial, portanto não precisam de mapas. Ele acredita que os mapas facilitam a compreensão do mundo e oferecem informações para tomada de decisões significativas, sendo especialmente importantes para a participação democrática de todos. A partir disso, a Cartografia Multimídia apresenta-se como um novo caminho para democratizar o acesso a diferentes modelos de mapas para um número cada vez mais amplo de pessoas. Análise de alguns produtos de Cartografia Multimídia Após análises prévias, realizadas nesta etapa de nossa pesquisa, verificamos que alguns dos materiais cartográficos eletrônicos não apresentam qualidade, podendo inclusive ser pior que os mapas tradicionais do Atlas. No entanto, outros podem favorecer, em aspectos diferenciados, estudos significativos acerca de temas relevantes ao ensino da Geografia Escolar. A seguir, destacamos alguns dos sites que estamos analisandos até o momento: Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) – Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) no site http://www.cptec.inpe.br/. Este site disponibiliza imagens de diversos satélites, inclusive do GOES, que são frequentemente utilizadas nas animações da previsão do tempo nos programas de TV. Nesse site podem-se obter imagens atuais, até mesmo do dia em que está sendo ministrada a aula, ou ainda buscar imagens em arquivos gravados anteriormente, além de poder criar animações no próprio site. CD O Brasil Visto do Espaço (Embrapa). http://www.cdbrasil.cnpm.embrapa.br/ - A partir de mosaicos de imagens dos satélites Landsat 5 e 7, a Embrapa elaborou um extenso banco de dados de imagens de uso do solo em todo o país. Há um tutorial para quem não está habituado a analisar imagens de satélite. IBGE 7 a 12. http://www1.ibge.gov.br/7a12/default.html - O personagem Paulinho, por meio de animações, aborda assuntos como mudanças climáticas e educação ambiental. Servidor de Mapas (IBGE). http://www1.ibge.gov.br/mapserver/index.htm - Servidor de mapas interativos, onde o professor pode encontrar informações como divisão política, hidrografia, rodovias e ferrovias, resultados do censo 2000 e registro civil 1998. Recomenda-se a utilização de interface básica para usuários que não tenham conhecimento em geoprocessamento. GEOVOL. http://www.vol.eti.br/geo/ - Este web site traz informações gerais sobre todos os países do mundo. Assemelha-se a uma versão online de um atlas em papel, mas constitui fonte de informações. Na opção jogos está disponível um jogo de localização de Estados ou países em suas respectivas regiões. Eaprender. http://www.eaprender.com.br - Site dedicado ao ensino de diversas disciplinas, não apenas de Geografia. Para ter acesso total aos conteúdos do site, o professor deve se cadastrar e criar uma senha de acesso. Estão disponíveis diversos mapas, bem como animações sobre o tratamento de água, o efeito estufa e jogos interativos. Googlemaps: http://maps.google.com.br - Este site possibilita a busca de melhores rotas para um percurso, indicando caminhos, sentidos das ruas e avenidas, pontos de referências, entre outros. Googleearth: http://earth.google.com.br/ - este permite a visualização do planeta em diferentes escalas e perspectivas.

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As contribuições, os limites e as perspectivas para o seu uso no ensino em Geografia O desenvolvimento de recursos direcionados ao ensino em Geografia, no caso mais específico dos mapas, encontra-se relacionado às dificuldades da utilização dos recursos tecnológicos para a mediação no ensino-aprendizagem. No caso específico dessa disciplina, temos visto que muitos docentes e discentes possivelmente se apropriam (quando isso acontece) dos recursos cartográficos na internet apenas para ilustrações dos assuntos estudados, ao invés de considerá-los como uma ferramenta de aprendizado. Enquanto diversos recursos como as fotografias aéreas, as imagens de satélites, os programas de cartografia digital, o Global Position System (GPS), as informações contidas na Internet, os programas da computação simples ou sofisticados podem ser acessados por todos os seguimentos da sociedade, a dificuldade dos professores em dominar esses recursos e utilizá-los potencialmente no ensino de Geografia ainda é espantoso. Nesta perspectiva, Wiegand (2005) alerta para o fato de que muitos dos mapas na internet não foram produzidos com o objetivo de “alcançar os jovens”. Na compreensão desse autor isso não se caracteriza necessariamente como um problema, uma vez que as dificuldades de interpretação podem ser compensadas pela oportunidade de despertar o interesse da juventude para acessarem os mapas disponíveis na rede mundial de computadores. No entanto, Peterson (1999 enfatiza que a mídia interativa apresenta um aspecto de diversão, potencializando o processo de aprendizagem, na medida em que proporciona alegria e prazer pelo ato de “conhecer”. Estas sensações são associadas pelo autor às mesmas proporcionadas pelas “descobertas” em um mapa ou Atlas impresso. Para esse autor, “[...] o sentimento pode se tornar mais intenso e se tornar disponível a um público maior através da multimídia interativa.” (p. 32). Por isso, afirmamos que a Cartografia Multimídia pode contribuir para intensificar a alegria e satisfação da descoberta. Por outro lado, essas novas metodologias de ensino, não devem significar necessariamente uma ruptura com os antigos métodos de ensino, nem negá-los; mas apresentar-se como uma possibilidade de adoção de outras maneiras de se ensinar-aprender. A exemplo, temos a Cartografia Multimídia, que se apresenta como outro caminho para a dinâmica da organização espacial. Por isso, entendemos que o uso das TICs na educação pode-se constituir como uma poderosa ferramenta para exploração e a construção do conhecimento. Dessa forma, podemos afirmar que a Cartografia como linguagem da ciência Geográfica vem passando por um processo de transformações com a inserção das TICs no ensino. Dessa forma faz-se necessário (re)pensar novas práticas educativas, novas definições e novos conceitos, principalmente sobre os “mapas”, como recurso pedagógico para o ensino de Geografia. Diante disso, consideramos necessário refletir sobre a formação de professores a partir do início do século XXI, frente ao novo contexto marcado pela “cultura da virtualidade”. Daí a nossa defesa para que a linguagem da Cartografia Multimídia seja inserida nos cursos de formação de professores, principalmente, de Geografia. Como resultados, a priori, de nossa pesquisa, defendemos que a existência pura e simples das TICs não garantem, necessariamente, um processo pedagógico mais rico e desafiador, mas é destarte afirmar que, apesar de não ser ainda possível avaliar em que aspectos a Cartografia Multimídia pode favorecer ou limitar o ensino de Geografia, reconhecemos que os modelos de ensino pautados apenas em mapas impressos são insuficientes frente à realidade tecnológica na qual a Educação se insere na atualidade. Por isso, acreditamos, a princípio, que os recursos de multimídia oferecem uma vantajosa possibilidade de ensino e aprendizado quando usados de forma concomitantes e de maneira adequada. Finalizamos defendendo que a vida fora da sala de aula está diretamente relacionada à informatização, daí não ser mais viável negar o uso das TICs no processo ensino-aprendizagem. Entendemos que o ato de ensinar significa preparar o aluno para além do mundo do trabalho, e nesse sentido o ensino de Geografia não pode ficar alheio ao uso das tecnologias como um importante recurso pedagógico.

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