1 O Google earth como uma ferramenta de apoio ao ensino de Cartografia.

Estudo de caso: Escola Estadual José Marinho de Araújo, Santa Rita de Jacutinga – MG.1
Magno Angelo Kelmer

RESUMO

A Geografia como ciência que se propõe a entender os arranjos espaciais que se fazem presentes entre o homem e o seu entorno, aponta para a necessidade de se conhecer cada vez mais e melhor o nosso espaço de vivência. Para que este conhecimento se estruture, é necessário que o aluno conheça bem o próprio chão, onde ele convive sistematicamente com os lugares do seu dia-a-dia. A cartografia fornece as bases para que este estudo se realize por meio do estudo dos mapas. O ensino do local a partir dos mapas pode conduzir o aluno à compreensão da sua realidade, do seu espaço geográfico e das transformações que possam estar acontecendo ao seu redor. O uso de mapas desenvolvidos para cada localidade possui uma proposta de trabalho alternativa, considerando que os professores dispõe de poucos, ou quase nenhum material referente ao município onde moram, tornando difícil o trabalho com o espaço local. Este trabalho é fruto de uma pesquisa iniciada em 2006, onde foram confeccionados vários mapas sobre o município de Santa Rita de Jacutinga. Escolhida uma turma de primeiro ano do ensino médio da Escola Estadual José Marinho de Araújo em 2007, foram aplicadas atividades sobre os mapas que representam o espaço de vivência destes alunos. Com resultados insatisfatórios foi realizada uma nova atividade em 2008 com outra turma de alunos da mesma série e utilizando um novo método para obtenção de melhores resultados. O Google Earth como uma ferramenta de apoio tecnológico, pode auxiliar nesta tarefa ao apresentar as imagens de satélite desses lugares, aproximando o aluno da sua realidade. A ferramenta Google Earth, que foi utilizada para auxiliar no trabalho de campo foi de extrema importância, uma vez que os alunos puderam visualizar o município e o seu entorno e a cidade com sua malha urbana. Puderam se localizar e localizar suas casas e as casas de seus amigos e transpor suas descobertas para o mapa impresso. Este trabalho apresentou um índice muito satisfatório no que diz respeito à introdução de uma ferramenta tecnológica para auxiliar no ensino-aprendizagem de cartografia. Surge assim, uma proposta alfabetizadora, onde alunos e professores “aprendem fazendo”, ao utilizar dados referentes ao município onde vivem. Palavras-chave: Cartografia. Ensino-aprendizagem. Espaço local. Geotecnologia. Google Earth.

Trabalho de Conclusão de Curso: Especialização em Geografia: Pesquisa e Ensino, Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora, 2008. (magnognun@ig.com.br)

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O LOCAL E O MAPA Entender o nosso espaço local se torna fundamental para a compreensão do espaço global, que se faz presente em cada parte do todo. Desta forma, é necessário um ensino de Geografia que enfatize todos os aspectos do espaço local, destacando sua ocupação histórica e atual, abordando seus aspectos físicos (relevo, vegetação, clima, hidrografia) e seus aspectos humanos (população, economia, cultura). Todos esses temas quando trabalhados a respeito do espaço local fornece ao aluno argumentos para que ele possa apreender o mundo a partir da sua base geográfica, que é o seu lugar de vivência, e dialogar com sua relação com ele. Segundo Aguiar (2003, p. 141), apud Levinas (1980),
Para nos apropriarmos do espaço é preciso que antes nos apropriemos de nós mesmos, pois o nascimento latente do mundo se dá a partir da morada. No assíduo cuidado pelas coisas da nossa morada, a existência do lugar dá-se de forma plena, acolhedora.

Como visto, os autores destacam a importância de se conhecer a própria morada para ter uma boa base de informação para a partir deste conhecimento fazer as relações necessárias com o espaço global.   Todas essas informações sobre o espaço local necessitam estar bem solidificadas no imaginário dos alunos para que eles possam estabelecer as relações necessárias com o seu espaço de vivência e com o mundo ao seu redor. Estudar geografia é basicamente ler o mundo, os espaços geográficos, e construir suas relações com eles. Para Callai (1998, p. 75)
O estudo da geografia insere-se neste âmbito, na perspectiva de dar conta de como fazer a leitura de mundo, incorporando o estudo do território como fundamental para que possa entender as relações que ocorrem entre os homens, estruturadas em um determinado tempo e espaço.

Desta forma, podemos justificar a importância de se conhecer melhor o município onde se vive. Ali estão inseridos o espaço e o tempo delimitados, da mesma forma como aponta a citada autora. O conhecimento do seu local de vivência vai permitir que o aluno faça as análises entre o seu entorno e os aspectos que o rodeiam e que se fazem presentes no mundo todo, dependendo da escala de análise que se utilize. Para que este conhecimento se estruture, é necessário que o aluno conheça bem o próprio chão, onde ele convive sistematicamente com os lugares do seu dia-a-dia. A cartografia fornece as bases para que este estudo se realize por meio do estudo dos mapas. Os mapas não podem ser vistos apenas como formas práticas de comunicação, orientação e representação da realidade. Devem servir para serem interpretados e analisados como forma de conhecimento maior dos lugares. Castrogiovanni (2004, p. 31), acredita que ler mapas “significa dominar o sistema semiótico da linguagem cartográfica. Não é apenas localizar um elemento cartográfico ou qualquer fenômeno”. O mapa apresenta uma síntese do lugar, uma representação codificada, que precisa ser interpretada e representada mentalmente, para que se obtenha sua máxima utilização. Nos tempos de globalização se faz necessário e fundamental ter a percepção para analisar as implicações do todo em cada local. Assim, é importante saber ler o espaço geográfico, e uma das formas é através dos mapas, pois um leitor critico e consciente do espaço, é aquele que tem a capacidade de ler o espaço real e a sua representação, ou seja, o mapa. O ensino do local a partir dos mapas pode conduzir o aluno à compreensão da sua realidade, do seu espaço geográfico e das transformações que possam estar acontecendo ao seu redor. Não perdendo o foco nas relações do seu local com o entorno, nas suas variadas escalas de análise.

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De um lado, ao utilizar os mapas do seu local de vivência, os alunos podem desenvolver a capacidade de organizar as informações, de comparar dados, avaliar situações e inferir sobre questões do seu respeito. Por outro lado, ao aprender a decodificar os signos presentes no mapa, poderão criar um conjunto de sentimentos que poderá ser utilizado para compreender, interpretar e agir sobre o mundo. Para Santos (1996, p.113),
Cada lugar é uma teia, uma malha de relações intrincadas, processos à procura das formas. A cidade está em todos os lugares, no entanto, quando encontramos, é difícil fixar no mapa todos os trajetos, todas as trilhas, que as atravessam para ir aos mesmos lugares, ao encontro das formas sonhadas que, por uma ou outra razão tornaram-se o que são: rugosidades.

Ao habitar o local, o aluno pode conhecê-lo da melhor maneira possível, que é através da sua vivência, do seu uso diário do espaço geográfico. Como vimos na citação de Milton Santos, apreender todas as experiências oriundas do viver do local em um mapa, não é uma tarefa fácil, mas, ao mesmo tempo, compreender o espaço geográfico e sua representação cartográfica, faz com que o aluno se torne um cidadão mais consciente do seu lugar no mundo e sua interação com ele. CARTOGRAFIA: ENSINO-APRENDIZAGEM A Cartografia desde tempos bastante remotos sempre foi utilizada para atender a inúmeras funções, de acordo com a necessidade de cada povo. Segundo Francischett (2004), na Pré-história, a Cartografia era usada para delimitar territórios de caça e pesca. No decorrer dos tempos a arte de desenvolver mapas foi evoluindo e na Babilônia os mapas já eram impressos em madeira, em forma de disco liso, mas foram Eratosthenes de Cirene e Hiparco que construíram as bases da moderna Cartografia tendo o globo como forma, com os sistemas de latitudes e de longitudes. A importância de se estudar Geografia e, principalmente o mapa, deu-se segundo Francischett (2004), de maneira acelerada a partir de 1870, quando os franceses, após serem derrotados pelos alemães, sentiram a falta do conhecimento geográfico e promoveram reformas no ensino, criando a obrigação de excursões geográficas, principalmente baseadas pelo mapa e realizando o que chamamos de croqui. Surge assim, o reconhecimento de que o entendimento dos lugares se dá pelo entendimento das suas representações, através do seu desenho. No século XX, ao ensino de Geografia couberam conteúdos que priorizassem o estudo da terra nos seus aspectos políticos, econômicos, físicos e culturais. O mapa nesse momento passa a ser utilizado como ilustração para localizar o lugar do conteúdo ensinado. Neste momento o conteúdo cartográfico fica um pouco ausente, observando uma falta de interesse pelo uso dos mapas no ensino de Geografia, fato que vai se modificar com a Geografia Crítica, que retoma a discussão sobre a importância do ensino pelos mapas, sendo ele visto como essencial na condução do ensino geográfico. Como lembra Lacoste (1988, p. 45), “o aluno vai a escola para aprender a ler, a escrever e a contar. Por que não para aprender a ler uma carta”. Dessa forma, o autor questiona a falta de compromisso da escola com relação à educação cartográfica. Nas últimas décadas vimos o desenvolvimento da comunicação cartográfica, principalmente na relação entre o cartógrafo e o usuário a partir da observação da realidade. Podemos perceber um número crescente de trabalhos de pesquisa nessa linha, principalmente no que nos atende com relação ao ensino de Cartografia.
Contemporaneamente, é dada ênfase, na Geografia, ao estudo das imagens. Para tal, recorre-se a diferentes linguagens na busca de informações, hipóteses e conceitos, trabalhando-se com a Cartografia Conceptual, apoiada numa fusão de múltiplos tempos e numa linguagem específica, que faça da localização e da espacialização uma referência da leitura das paisagens e seus movimentos. (FRANCISCHETT, 2004, p.44)

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Para Martinelli (1991, p. 78), “a Cartografia é a ciência da representação”. Assim, ela vai representar e investigar os conteúdos espaciais e não poderá fazê-lo sem o conhecimento da essência dos fenômenos que estão sendo representados, nem o suporte das ciências que os estudam. Dentro desta representação do espaço geográfico, o uso da linguagem cartográfica é um aspecto de relevante importância, principalmente quando se trata de pensar na educação do indivíduo que está inserido na interlocução e na comunicação de sua época. Uma vez que as representações cartográficas se valem de muitos símbolos para transmitir informações aos usuários, é importante salientar que:
A escola deve criar oportunidades para que os alunos construam conhecimentos sobre essa linguagem nos dois sentidos: como pessoas que representam e codificam o espaço e como leitores das informações expressas por ela. (BRASIL, 1997, p.87)

Assim, é a Cartografia que, graficamente, representa uma área geográfica numa superfície plana como em um mapa ou um gráfico, ou em terceira dimensão como é o caso de uma maquete. Esse processo cartográfico vai sempre se valer dos símbolos, signos e cores. A educação cartográfica é necessária e importante para todos, independente do grau de escolaridade. No dia-a-dia, todos usam a Cartografia e com ela fazem as operações mais complicadas sem se darem conta de tamanha importância. No cotidiano, a prática e o senso comum colocam o homem em condição de localizar-se e orientar-se no mundo através da Cartografia. O uso da linguagem cartográfica atende a diversas aplicações, uma dessas aplicações é no ensino-aprendizagem de Geografia, no qual se faz necessário o uso de mapas geográficos que representem a realidade de cada lugar. Conforme enfatiza Lacoste (1988, p. 82): “há necessidade de um saber que ajude a pensar o espaço em que se vive”. Almeida e Passini (2002, p. 46), defendem a “necessidade de se discutir sobre uma alfabetização cartográfica que possa ser vista como uma proposta metodológica que prepare o cidadão para a compreensão do conteúdo estratégico da Geografia”. Esse conteúdo estratégico é o conhecimento do próprio chão, onde se pisa, vive, convive. O uso de mapas desenvolvidos para cada localidade possui uma proposta de trabalho alternativa, apresentando uma linguagem gráfica e conteúdos adequados ao nível de ensino a que se destina. Considerando que professores do Ensino Fundamental dispõe de poucos, ou quase nenhum material referente ao município onde moram, tornando difícil o trabalho com o espaço local, estes mapas trazem consigo, também, uma proposta alfabetizadora, onde alunos e professores “aprendem fazendo”, ao utilizar dados referentes ao município onde vivem. Nessa perspectiva surgiu a oportunidade de reconhecer, mais uma vez, que a Geografia estuda as relações sociedade-natureza na busca de explicações para a organização do espaço, a qual tem raízes nas relações sociais de trabalho. NOVAS TECNOLOGIAS As relações que se estabelecem na atualidade demonstram que cada vez mais o homem tem buscado evoluir no seu processo de desenvolvimento. Dentro deste processo podemos citar as novas tecnologias para o mapeamento do globo terrestre e conseqüentemente um avanço no conhecimento cartográfico. Para Rocha (2002, p. 17): “pode-se dizer que com o advento da informática na automação de processos, surgiram várias ferramentas para a captura, armazenamento processamento e apresentação de várias informações”. Na atualidade este conjunto de técnicas é muito valorizado em função do seu potencial de análise espacial, na medida em que, por meio de sensores é proporcionado ao usuário um maior conhecimento sobre o espaço geográfico e por sua vez, um maior domínio para analisar, planejar e gerir o mesmo. Uma das ferramentas de que podemos lançar mão para auxiliar no ensino de Geografia é o Google Earth, uma ferramenta de fácil acesso e que pode mediar o conhecimento entre os alunos e os conhecimentos cartográficos.

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ESTUDO DE CASO: SANTA RITA DE JACUTINGA – MG   O município de Santa Rita de Jacutinga localiza-se no sul da Zona da Mata Mineira, na microrregião de Juiz de Fora; sua área é de 438,6 quilômetros quadrados, fazendo divisa com o Estado do Rio de Janeiro, sendo o Rio Preto um divisor natural entre os estados. Faz divisa com os municípios Bom Jardim de Minas, Passa Vinte, Rio Preto e Valença (RJ). Como podemos observar no mapa da página 38. O Rio Preto, que corresponde ao limite da divisa de Minas Gerais e Rio de Janeiro, nasce no Maciço de Itatiaia, a mais de 2.700 m de altitude, próximo ao Pico das Agulhas Negras. A sede do município está a 540 metros de altitude no ponto central da cidade, tendo 1698 metros de altitude máxima, medida no Serrote de Santa Clara e sua altitude mínima de 439 metros medida na foz do Rio Santa Clara, tem sua posição determinada pelas coordenadas de 22° 11’00” LS e 44° 05’00” LW,2 e fica a 372 quilômetros de distância da capital do Estado. Inserida no complexo serrano da Mantiqueira, serpenteada pelos rios Preto, Jacutinga, Bananal, Pirapetinga e Santa Clara, além dos inúmeros córregos e nascentes existentes por toda a região, que compõem a bacia do Rio Paraíba do Sul.

Santa Rita de Jacutinga –MG Limites Municipais

APLICAÇÃO DOS MAPAS DE SANTA RITA DE JACUTINGA NO ENSINO DE GEOGRAFIA Os mapas elaborados sobre o município de Santa Rita de Jacutinga foram aplicados, na forma de exercícios, aos alunos do primeiro ano do Ensino Médio da Escola Estadual José Marinho de Araújo no ano de 2007. Este trabalho de campo contou com o apoio da Professora Rita Helena Novaes Motta, professora de Geografia da turma e da diretora da escola, a professora Mariza Aparecida Azedias Pereira que possibilitaram o trabalho. No ano de 2007, mas precisamente no mês de maio, foi aplicada uma atividade aos 30 alunos do primeiro ano do Ensino Médio da Escola Estadual José Marinho de Araújo, como forma de verificar a utilidade dos mapas desenvolvidos para o município de Santa Rita de Jacutinga. Nesta atividade foram utilizados dois mapas sobre o município, o primeiro mapa apresentando os limites municipais e seus municípios limítrofes e o segundo mapa apresentando a malha urbana da cidade. O objetivo principal foi detectar o nível de conhecimento cartográfico do aluno a respeito do seu local de vivencia. Como resultado, obtivemos índices nada satisfatórios com relação ao contato dos alunos com

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 IGA – Instituto De Geociências Aplicadas
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas 

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os mapas do seu município. Fato que veio a culminar no prosseguimento das pesquisas, como veremos adiante. Em agosto de 2008, retornamos a mesma escola e aplicamos novamente os mesmos exercícios em outra turma contendo 24 alunos de primeiro ano do Ensino Médio. Desta vez dividimos os trabalhos, sendo que 14 alunos da turma trabalharam com o uso de mapas convencionais e os outros 10 alunos além de utilizarem os mapas convencionais utilizaram a ferramenta do Google Earth, nos computadores da escola, com imagens do município. MAPAS CONVENCIONAIS Para realizar os trabalhos (05/2007) com os alunos do primeiro ano do Ensino Médio da Escola Estadual José Marinho de Araújo adotamos a seguinte metodologia: 1° passo: A escolha dos mapas. Foi escolhido o mapa de Limites Municipais, por ser um mapa de grande importância para o estudo do local, pois, além de representar o espaço físico do município, representa também os municípios do seu entorno, sua cidade e o seu distrito municipal. O segundo mapa escolhido foi o da Malha Urbana, mapa que representa o espaço vivido pelo aluno. Apresenta o traçado das ruas da cidade de Santa Rita de Jacutinga e os seus principais rios. 2° passo: O nível de ensino. Busquei aplicar as atividades com alunos do ensino médio, pois queria realizar as atividades em um público mais maduro. Optei em trabalhar o primeiro ano, pois o aluno está revendo cartografia neste momento. A atividade foi realizada na Escola Estadual José Marinho de Araújo. 3° passo: A atividade proposta. Busquei levantar questionamentos sobre o conhecimento do aluno a respeito do seu local de vivência. No primeiro mapa que trata sobre os Limites Municipais, exclui dele os nomes das localidades e pedi que o aluno se orientasse pela rosa dos ventos e anotasse os nomes dos municípios que fazem divisa com seu município ao Norte, à Leste e à Oeste. Depois, observando a legenda do mapa, o aluno teria que anotar o nome da cidade e do distrito do município. Observando este mesmo mapa, pedi que o aluno respondesse qual estado faz divisa com seu município e quais são as coordenadas geográficas que o representam. No segundo mapa que trata sobre a Malha Urbana de Santa Rita de Jacutinga, me preocupei em manter os nomes dos rios que são as referências da cidade e pedi que o aluno marcasse com um X o local da Igreja Matriz, que é um ponto de referência para todos, e em seguida marcasse um circulo no local da sua residência. 4° passo: A orientação dada antes da atividade. Para obter um resultado o mais fidedigno possível com a realidade dos alunos, só foi informado que se tratava de uma pesquisa sobre o ensino de Geografia voltado para o local. A não orientação sobre como realizar a atividade faz parte da metodologia, uma vez que o resultado depende também dos erros que por ocasião ocorrerem. A atividade foi realizada no período de 2 horas/aula (aulas geminadas) e realizada de maneira individual. Ao aplicar a atividade nos alunos do primeiro ano do ensino médio (05/2007), pude perceber o interesse pelo material que eles tinham nas mãos ao saber que se tratava de mapas de Santa Rita de Jacutinga. Primeiro, porque se tratava de um material inédito e a grande maioria ali, nunca tinha visto o seu município representado em forma de mapa. Segundo, mais importante e completando o anterior, o espírito de topofilia falou mais alto naquele momento. Esta turma (05/2007) apresenta a seguinte faixa etária: 3,7% alunos com 17 anos, 3,7% alunos com 18 anos, 11,1% alunos com 16 anos, 70,4% alunos com 15 anos e 11,1% alunos com 14 anos.

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Podemos certificar que a maioria dos alunos se encontra matriculado no período regular, sendo poucos que se encontram fora do ano correspondente a sua idade. Com relação à primeira questão do mapa de Limites Municipais, ao usar a legenda do mapa para poder localizar e nomear a cidade e o distrito municipal, somente 22% dos alunos conseguiu acertar. A grande maioria não sabe o que vem a ser um distrito e não sabem ao menos que o seu município possui um. Alguns confundiram distrito com estado e escreveram dentro do mapa do município o nome do nosso estado: Minas Gerais. O nome da cidade foi colocado corretamente por 97 % do total dos alunos. A segunda questão, que trata sobre os municípios limítrofes, teve um acerto de 44% do total dos alunos. Percebi que 25% dos alunos não conseguem se orientar pela rosa dos ventos, trocando assim, o município vizinho que fica localizado a leste pelo que fica a oeste. Notei que 26% dos alunos não sabem com exatidão os municípios que fazem limite com o seu município. A pergunta sobre o estado que faz divisa com Santa Rita de Jacutinga teve um acerto de 96% do total dos alunos, visto que este nome não foi retirado do mapa para a realização de tal atividade. Com respeito às coordenadas geográficas, os acertos atingiram 48% do total de alunos. Mesmo estando as coordenadas escritas no mapa, não foi claro para a maioria o sentido de latitude e longitude como um par ordenado para indicar a localização da cidade. No outro mapa, que trata da Malha Urbana do município, somente 37 % do total de alunos acertaram a localização correta da Igreja Matriz. Fato preocupante, uma vez que esta igreja é o maior ponto de referência dentro da cidade. Este mapa apresentava a rosa dos ventos como orientação e principalmente os dois rios que cortam a cidade como referência, ou seja, não poderia ter sido tão difícil se orientar pelo mapa e encontrar o ponto exato da igreja tomando os rios como orientação. Uma vez encontrada a igreja de maneira correta a localização da própria residência não foi uma atividade difícil, pois, aumentava assim, o número de referenciais. MAPAS CONVENCIONAIS e COM o AUXÍLIO da FERRAMENTA GOOGLE EARTH Para realizar esta segunda parte da pesquisa, retornamos à Escola Estadual José Marinho de Araújo, no município de Santa Rita de Jacutinga no mês de agosto de 2008. Escolhemos uma turma do primeiro ano do Ensino Médio, para que os resultados deste trabalho possam ser comparados com os do ano passado que foram aplicados a uma turma também de primeiro ano. Para este trabalho organizamos a turma (08/2008) da seguinte maneira: A turma foi separada em duas partes, sendo que a primeira parte contendo 14 alunos ficou em sala de aula e realizaram as atividades com os mapas do município da maneira convencional, ou seja, com os mapas impressos e as questões formuladas para serem respondidas sem nenhum auxilio, conforme foi aplicado no primeiro trabalho da turma do ano de 2007. A segunda parte da turma contendo 10 alunos foi encaminhada para a sala de informática e distribuída de forma que dois alunos ocupassem um computador. Neste computador os alunos tiveram acesso ao programa Google Earth e puderam visualizar o município de Santa Rita de Jacutinga em várias escalas. Após o manuseio da ferramenta em questão os alunos saíram do computador e realizaram a mesma atividade que os demais realizaram de maneira impressa e com as mesmas questões sobre os mapas do município, ou seja, a mesma atividade aplicada nos alunos do ano de 2007 e dos alunos que compunham a outra metade da turma de 2008. Esta turma (08/2008) apresenta a seguinte faixa etária: 75% dos alunos com 15 anos 8,3% dos alunos com 17 anos, e 16,7% dos alunos com 16 anos. Onde constatamos mais uma vez que as turmas pesquisadas apresentam alunos na idade regular para a série estabelecida como objeto do nosso estudo. Com relação à primeira questão do mapa de Limites Municipais, ao usar a legenda do mapa para poder localizar e nomear a cidade e o distrito municipal, somente 7% dos alunos que fizeram a atividade de forma convencional errou o nome da cidade, e dos alunos que utilizaram a ferramenta do Google Earth, todos atingiram o objetivo proposto. Com relação ao distrito municipal, os alunos que realizaram as atividades de forma convencional apresentaram 57% de erros, enquanto os alunos que puderam visualizar as imagens do Google Earth acertaram em 100% o nome e a localidade do distrito de Itaboca.

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A segunda questão que trata sobre os municípios limítrofes, teve 100% de acertos pelos alunos que puderam usar das imagens do Google Earth, enquanto os alunos que realizaram a atividade de maneira convencional tiveram 78,6% de acertos com relação aos municípios que fazem fronteiras com Santa Rita de Jacutinga. Parte destes alunos, 8,3%, não consegue se orientar pela rosa dos ventos, não conseguindo estabelecer o Norte, o Sul, o Leste ou Oeste. Somam-se a este fato, os alunos que não sabem ao menos os nomes dos municípios que fazem divisa com o dele, que são 12,5% do total dos analisados. A questão sobre o Estado que faz divisa com o município de Santa Rita de Jacutinga, teve 100% de acertos pelos alunos que utilizaram o Google Earth e somente 7% dos alunos que não tiveram acesso a ferramenta não acertou. Fato preocupante, uma vez que o nome do Estado do Rio de Janeiro não foi retirado do mapa para a realização da atividade. A questão sobre as coordenadas geográficas que representam a cidade teve 70% de erros com os alunos que utilizaram o computador e teve 36% de erros com os alunos que fizeram a atividade sem o auxilio da ferramenta em questão. Esta questão já tinha sido apontada pela professora Rita Helena como uma que apresentaria resultados insatisfatórios em face de grande dificuldade que os alunos apresentam quanto à compreensão das coordenadas, pois ela bem conhece a turma e sabe do grau de aprendizagem que eles já tinham alcançado. Este fato é bem interessante, visto que foi o único item da atividade que não apresentou resultado satisfatório com o auxilio da ferramenta do Google Earth. Podemos atribuir este resultado ao fato de que os alunos não se importaram em identificar as coordenadas geográficas nas imagens de satélite. O fato mais importante naquele momento era visualizar a sua cidade e o seu entorno, procurando, principalmente a casa de cada um. Ficou claro que mais uma vez, mesmo estando às coordenadas escritas no mapa, os alunos não tem uma noção concreta de latitude e longitude como um par ordenado para indicar uma localização. No segundo mapa que trata da malha urbana do município, somente 14% dos alunos que não utilizaram o Google Earth acertaram a localização correta da Igreja matriz. Os alunos que visualizaram a malha urbana do município através das imagens do Google Earth tiveram 90% de acerto com relação a essa questão. Este mapa apresentava a rosa dos ventos como orientação e principalmente os dois rios que cortam a cidade como referência. Uma vez encontrada a igreja de maneira correta a localização da própria residência não foi uma atividade difícil, pois, aumentava assim, o número de referenciais para auxiliar no entendimento do mapa. CONSIDERAÇÕES FINAIS Pesquisar sobre a relação entre o ensino-aprendizagem de cartografia e o uso de mapas elaborados para um município de pequeno porte, nos confirma a lacuna existente no ensino de Geografia quando se trata de estudar o local de vivência do aluno. Baseado em Lacoste (1988, p.45): “o aluno vai à escola para aprender a ler, a escrever e a contar. Por que não para aprender a ler uma carta”, e também quando este autor nos fala sobre: (1988, p.82): “há necessidade de um saber que ajude a pensar o espaço em que se vive”, podemos constatar a importância de se estudar o local de vivência deste aluno, o estudo do próprio chão onde ele habita e constrói suas relações com o próprio local e com o mundo. Neste trabalho, apresentamos mapas elaborados para o município de Santa Rita de Jacutinga, um município de pequeno porte e que não dispunha até então de mapas que representassem a sua realidade. O contato destes mapas com os alunos da Escola Estadual José Marinho de Araújo, veio da necessidade de investigar como os alunos do primeiro ano do ensino médio se portariam diante deste material inédito para eles. Como o trabalho de campo foi dividido em duas partes, sendo que metade dos alunos trabalharia com os mapas convencionais, ou seja, impressos no papel para responderem as atividades propostas, e a outra metade usariam o computador com imagens de satélites obtidas com o auxilio do Google Earth e logo após responderiam as atividades da mesma forma como a primeira metade, obtivemos resultados bem mais satisfatórios que os obtidos na primeira aplicação das atividades em outra turma de primeiro ano do ensino médio da mesma escola no ano de 2007.

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As questões apresentadas tratavam sobre os limites municipais, os municípios vizinhos, o distrito municipal, as coordenadas geográficas que representam o município, a malha urbana e a localização do aluno na sua cidade. Os mapas que apresentamos aos alunos foram de grande importância e despertou neles uma curiosidade e um sentimento de topofilia muito grande, ao manusear um mapa que representasse a sua cidade. Os alunos têm pouco contato com mapas e o seu principal contato se faz pelo livro didático, que apresenta sempre mapas de grandes cidades e de países, não apresentando o espaço local do aluno que o utiliza. Esta carência é explicada pelo sistema que as editoras têm que adotar, onde um mesmo livro confeccionado no Sudeste do país, por exemplo, irá ser adotado em escolas de todo o Brasil, ou seja, mostrando dados e informações padrões em um país de realidades tão diferentes. A ferramenta, Google Earth, que utilizamos para auxiliar no trabalho de campo foi de extrema importância, uma vez que os alunos puderam visualizar o município e o seu entorno e a cidade com sua malha urbana. Puderam se localizar e localizar suas casas e as casas de seus amigos, procuraram pelas edificações mais conhecidas, resumindo, se localizaram. Este trabalho apresentou um índice muito satisfatório no que diz respeito à introdução de uma ferramenta tecnológica para auxiliar no ensino-aprendizagem de cartografia, pois constatamos que os erros apresentados com os alunos que utilizaram tal ferramenta, foram da ordem de 33% em todas as atividades, sendo que os alunos que não a utilizaram apresentaram erros em todas as questões. O auxilio de uma ferramenta como o Google Earth foi de extrema importância e serviu para comprovar que é importante buscar novos caminhos para auxiliar a pratica docente e aproximar os alunos da tecnologia que cada vez mais os envolve. Com este trabalho confirmamos a necessidade de se pensar um ensino de cartografia que envolva mais o aluno, utilizando mapas que represente seu espaço de vivência, seu espaço local. É necessário aprofundar mais a pesquisa, envolvendo uma amostra maior de alunos, mais escolas e utilizar outros municípios para aumentar o número de variáveis para se ter uma análise mais fidedigna possível. Este foi um passo a mais na caminhada sobre esta questão. As atividades realizadas foram fundamentais para destacar a necessidade de investimento em produção de mapas voltados para o estudo do local. Importante também, para constatar a necessidade deste material para auxiliar os professores no ensino de cartografia, partindo da própria localização do aluno, facilitando sua orientação e posicionamento no mundo. O domínio da linguagem do mapa é tão importante para o cidadão como o raciocínio numérico e a comunicação verbal. O aluno precisa ser preparado para ler representações cartográficas. Segundo Castrogiovanni (2002, p.39): “fundamental no ensino da Cartografia é que o aluno aprenda a fazer uma leitura crítica da representação cartográfica, isto é, decodificá-la, transpondo suas informações para o uso do cotidiano”. Este cotidiano envolve tanto o espaço global, estudado nos livros didáticos, como o espaço local, onde o aluno vai compreender melhor o próprio chão onde ele vive, ou seja, o chão onde ele pisa. REFERÊNCIAS AGUIAR, Lígia Maria Brochado. O lugar e o mapa. Cadernos de Cedes/Centro de Estudos Educação Sociedade, São Paulo: Cortez, n°1, p. 139-148, agosto. 2003 ALMEIDA, Rosângela Doin de. Cartografia escolar. São Paulo: Contexto, 2007. ALMEIDA, Rosângela Doin de; PASSINI, Elza Yasuko. O espaço geográfico: ensino e representação. São Paulo: Contexto, 2002. P. 90 BRASIL> Secretária de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: história e geografia. Brasília: SEF, 1997 (PCN, v.5) CALLAI, Helena Copetti. O estudo do município ou a geografia nas séries iniciais. In: CASTROGIOVANNI, Antonio Carlos (Org). Geografia em sala de aula: práticas e reflexões. Porto Alegre: Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1998. Cap. 7, p.75-83.

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