OS PROGRAMAS DE MAPEAMENTO ONLINE E A CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA CARTOGRAFIA Tânia Seneme do Canto UNESP – Campus de Rio Claro/SP Programa

de Pós-graduação em Geografia

Resumo: Nos últimos anos as novas tecnologias de comunicação e informação se infiltraram no cotidiano da sociedade com tamanha velocidade e intensidade que parece não ter dado tempo para escolhas e reflexões sobre suas implicações sócio-culturais. O surgimento da Internet afetou diretamente as atividades humanas ao inaugurar uma nova forma de produzir, transmitir e acessar conhecimento. Assim, a ciência, a educação, a economia e também as manifestações sociais e artísticas incorporaram quase que intuitivamente esse novo espaço de comunicação como meio essencial para o desenvolvimento de seus trabalhos. A cartografia também faz parte desse conjunto de áreas do conhecimento que evoluiu no ritmo das novas tecnologias e tão cedo já construiu uma história com o Ciberespaço. Em resumo, a rede começou a servir aos cartógrafos quando através da Web eles puderam publicar seus mapas, tornando-os disponíveis imediatamente ao mundo. Tais produtos cartográficos eram como os mapas impressos, desse modo a maior mudança se deu no suporte, que dotado de um grande potencial de distribuição e comunicação proveu os mapas de um alcance global. Logo em seguida, muitos programas foram evoluindo na rede, assim como a velocidade do download, possibilitando que os mapas multimídia, antes disponibilizados apenas em CD-ROM, fossem distribuídos na Web. Nesse contexto, os cartógrafos ainda construíam os mapas e os usuários apenas acessavam o pacote de dados já pronto que lhes era entregue. Com o aumento crescente de acesso à Internet por banda larga e o desenvolvimento de softwares sociais, a relação entre produtor e usuário de mapas mudou completamente. Os programas de mapeamento online adotaram esses novos dispositivos que permitem aos usuários publicar os conteúdos gerados por eles mesmos e compartilhálos na rede e, então, transformou o usuário de mapas no seu próprio autor. Atualmente, o aplicativo mais popular que segue essa tendência é o Google Maps, pois através de suas ferramentas o usuário do programa pode criar um mapa com dados multimídia produzidos por ele mesmo, criar links, e publicálo em seu site ou, ainda, torná-lo colaborativo e deixar que outras pessoas adicionem informações. Desse modo, qualquer um que tenha acesso a Internet é capaz de construir mapas de seu interesse, sobre o assunto que quiser, para os fins que pretender e da forma que convir, colocando em evidência os lugares não oficiais e as geografias vividas por comunidades e pessoas comuns. Refletir sobre essa transformação que mais parece uma revolução, buscando compreender seu significado e possibilidades na construção do conhecimento geográfico é o objetivo central do presente trabalho, já que com esses novos sistemas de mapeamento inaugura-se um tipo de cartografia que escapa ao domínio da ciência objetiva e entra no campo da criação de sentido, da subjetividade, tornando-se assim um terreno fértil para se pensar a cartografia escolar e o ensino de geografia. Palavras-chave: cartografia, novas tecnologias, construção do conhecimento.

Introdução Ao longo da história da ciência a Cartografia se consolidou como uma linguagem gráfica capaz de provir às diferentes áreas do conhecimento um meio de visualização do espaço e um instrumento de ação. Através dos mapas, diversos aspectos da natureza e da sociedade ganharam a localização e a extensão que permitiram aos cientistas elaborar análises espaciais e planos de ação sobre os fenômenos representados. Desse modo, a Cartografia serviu e tem servido à sociedade para diversos fins, inclusive, muitas vezes contraditórios; ela já foi utilizada como ferramenta para atravessar mares e oceanos, traçar limites territoriais, criar estratégias de defesa e ataque militar, explorar recursos naturais, preservar áreas de conservação, planejar cidades e, também, ensinar geografia. No mundo contemporâneo, o surgimento das novas tecnologias de comunicação e informação desencadeou profundas transformações na Cartografia. O desenvolvimento do Sensoriamento Remoto e a introdução dos computadores nas atividades do cartógrafo através dos Sistemas de Informação Geográfica (SIGs), por exemplo, alteraram bastante o modo de produzir mapas e criaram novos tipos

de aplicação para eles. Contudo, esses novos meios técnicos provocaram mudanças dentro do campo cientifico, interferindo em práticas e saberes de grupos especializados na produção de mapas. A mais recente inovação tecnológica em matéria de mapeamento aproveitou os recursos desses avanços científicos, como as fotografias de satélite e as ferramentas dos SIGs, mas interveio num outro contexto da prática cartográfica, aquela realizada por pessoas comuns, isto é, nãocartógrafos profissionais. Esses novos sistemas são conhecidos como programas de mapeamento online e permitem que qualquer pessoa com acesso a Internet construa seus mapas sem ter conhecimento especializado em computação ou em Cartografia. Isso significa que esses aplicativos que utilizam a Web como plataforma criaram novas condições para a população em geral se expressar através dos mapas. Sabemos que o ato de mapear nunca foi de domínio apenas da ciência. Alguns teóricos entendem que a humanidade sempre construiu mapas, pois, antes mesmo da invenção da escrita os povos primitivos já tinham necessidade de visualizar e comunicar o ambiente em que viviam. Desse modo, a Cartografia é uma linguagem já muito antiga utilizada por diversas pessoas em diferentes situações. No nosso dia-a-dia, por exemplo, freqüentemente construímos mapas mentais para percorrer o caminho mais curto até o trabalho ou desenhamos mapas na primeira folha de papel que aparece tentando explicar a um turista como chegar ao seu destino. No entanto, os novos programas de mapeamento dos quais iremos tratar no presente texto demonstram que suas ferramentas ampliam o uso que não-cartógrafos fazem dos mapas ao permitir que mapeiem novas relações espaciais de diferentes formas e para outros fins. As possibilidades de mapeamento que tais sistemas oferecem aos usuários da Web são enormes e a pesquisa de mestrado que embasa este trabalho busca descobrir de que maneira as pessoas estão explorando esses recursos e que sentidos de espaço emergem de suas práticas e representações espaciais. Para tanto, procuramos entender a Cartografia e os novos meios tecnológicos, principalmente a Internet, a partir de uma abordagem cultural. Desse modo, nos apoiamos na concepção de que os mapas devem ser lidos pelos processos e interesses que os produzem e os conteúdos que veiculam. Já o novo ambiente virtual, que se expressa sob o conceito de Ciberespaço, deve ser compreendido como uma nova linguagem que traz profundas implicações no nosso modo de perceber, experimentar e representar o mundo. Nesse contexto de investigação muitas conquistas já foram alcançadas, o que nos autoriza apresentar aqui algumas considerações sobre a Cartografia que surge na contemporaneidade à luz das novas tecnologias. Vale ressaltar que a pesquisa em questão não visa produzir conhecimento na área especifica de ensino, entretanto, diante das características dessa nova Cartografia nos permitimos extrapolar os recortes realizados a propósito do mestrado e apontar as possibilidades de aplicação dos novos programas de mapeamento na formação geográfica escolar. Assim, apresentaremos primeiramente como funcionam alguns aplicativos de mapeamento online, quais inovações que proporcionam ao usuário e, principalmente, o uso que tem sido feito de tais recursos digitais. Em seguida, discutiremos em que aspectos as práticas que dão origem a essas novas representações se diferem da cultura de mapeamento predominante na sociedade ocidental. Para finalizar, discorreremos sobre os sentidos de espaço que o uso dessas tecnologias em sala de aula ajuda a construir. Nesse último ponto, abordaremos principalmente a ressignificação do lugar a partir das novas práticas de mapeamento. Os Programas e Projetos de Mapeamento Online Todos os sistemas de mapeamento que encontramos na Web apresentam uma imagem do planeta que servirá de base para o usuário criar seus mapas. Essa imagem é formada a partir de imagens de outras porções da Terra obtidas periodicamente através de satélites de diferentes alcances. Um mapa base, isto é, com arruamento, nomes e limites territoriais, também faz parte dessa composição, entretanto, isso tudo é móvel, plástico e passível de combinações devido à interatividade que os programas oferecem aos seus usuários. Assim, o planeta pode ser navegado em muitas direções sobre diversas imagens e escalas. O Google Maps1 e o Google Earth2 são os aplicativos mais conhecidos e utilizados no mundo. Além de terem sido lançados primeiro, eles estão disponíveis em várias línguas, são muito fáceis de usar e trazem muitas possibilidades aos seus usuários. O Maps surgiu no início como uma ferramenta
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http://maps.google.com.br/ http://earth.google.com/intl/pt/

de busca de endereço e de serviços localizados, assim, os usuários podiam receber informações sobre o melhor caminho para ir de uma cidade a outra, a localização de hotéis, restaurantes, e até as condições do trânsito das grandes cidades. De imediato, o programa era formado apenas por mapas, os quais não contemplavam muitas regiões do planeta. Ao longo do tempo, a empresa Google foi ampliando a abrangência espacial de seu aplicativo oferecendo informações locais a um número cada vez maior de cidades e introduzindo as imagens de satélite. A primeira vez que o Google Maps disponibilizou na rede ferramentas que permitiam aos usuários criarem seus próprios mapas foi em 2005, entretanto, para fazer uso do novo serviço nesse momento era necessário ter certo domínio da linguagem de programação. Desse modo, a possibilidade de produzir mapas sem precisar de nenhum tipo de conhecimento especializado em Computação ou Cartografia só ocorreu efetivamente quando a corporação anunciou no primeiro semestre de 2007 o lançamento do My Maps. A versão brasileira dessa nova ferramenta encontra-se disponível no site do Google Maps Brasil sob o título de Meus Mapas3. Ao acessar esse link um mundo de possibilidades se abre ao usuário gratuitamente, permitindo-lhe construir facilmente sua própria representação da Terra através de linhas, pontos, polígonos, textos, fotos e vídeos e, ainda, publicá-la na Internet. Além de criar automaticamente para o mapa um endereço na Web, o programa também oferece a opção de convidar pessoas para colaborar com o mapeamento ou, mesmo, deixar que ele seja editado livremente na rede. O Google Earth é um aplicativo que se parece muito com o Maps quando diz respeito à criação de mapas, entretanto, ele apresenta algumas ferramentas a mais e outras a menos em relação ao seu similar. A primeira diferença que podemos estabelecer entre os dois é o fato de o Earth não ser acessado através de um endereço da Web, ou seja, ele não é um site, é uma aplicação que utiliza a Internet para funcionar, mas precisa ser instalado no computador depois de adquirido por download. Outro aspecto importante é que o modelo de terreno que essa aplicação oferece ao usuário é visualizado em 3D e não em 2D (Maps), isso significa que é possível perceber as diferenças de altitude do relevo da Terra. O Google Earth também serve para pesquisar a localização e obter informações sobre os lugares. Contudo, ele é ainda mais poderoso nesse ponto, pois é mais rápido, mais interativo e apresenta as informações de um modo mais sistematizado através de camadas. Essas camadas fornecem diferentes tipos de dados sobre os lugares e podem ser ativadas separadamente ou em conjunto, conforme o desejo do usuário. São tantas as modalidades de informação que o programa oferece através das camadas que muitas pessoas defendem que o Google Earth é um grande Atlas. Só para se ter uma idéia, o usuário pode visualizar construções em 3D, os limites das cidades, estradas, a localização de vulcões, informações municipais, mapas históricos, as condições do clima, etc. O que torna esse dispositivo também muito interessante é a sua utilidade na hora do usuário desenvolver seus mapeamentos, pois com tantas informações sobre os lugares é possível mapear diferentes temas e áreas sem mesmo conhecê-las. Outra ferramenta que pode auxiliar o usuário do Google Earth no processo de criação de mapas é a superposição de imagens, que permite acoplar à superfície terrestre imagens hospedadas na Web. Essa opção não é a simples adição de uma foto ao conteúdo do mapa como ocorre no Google Maps, ela possibilita que o usuário ajuste a imagem ao nível do solo. Outras duas ferramentas que estão disponíveis apenas no Earth são o que eles chamam de “imagens históricas” e “passeio”. O primeiro é um dispositivo que quando acionado mostra uma linha do tempo com todas as imagens de satélite da região selecionada já adquiridas pela empresa. Desse modo, as transformações espaciais mais recentes (mais ou menos dos últimos 10 anos) de determinados lugares podem ser observadas de cima. A segunda ferramenta permite ao usuário gravar as imagens de um passeio realizado sobre o planeta do Google e, ainda, narrar a experiência. É um vídeo feito no próprio programa que pode ser assistido depois por outras pessoas. Muitos usos podem ser feitos dessa inovadora ferramenta, por exemplo, apresentar em movimento o patrimônio histórico de uma cidade ou o percurso de uma viagem. Para desenhar o mapa, o programa dispõe igualmente das linhas, polígonos e marcadores. Fotos e vídeos também podem ser incorporados aos mapas, mas, não é possível convidar outras pessoas para colaborar com os mapeamentos. Assim, o compartilhamento e publicação do conteúdo produzido no Earth acontecem a partir da transferência de dados por e-mail ou hospedagem em

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http://maps.google.com.br/ Menu: Meus Mapas

servidores, já que toda vez que o mapa é salvo no programa um arquivo que pode ser visualizado em qualquer computador equipado pelo Google Earth é gerado. Muitos outros programas de mapeamento online estão disponíveis na rede e vários deles utilizam a base de mapas e imagens do Maps. Funcionalmente todos eles se parecem muito, apresentando, inclusive, quase as mesmas ferramentas, entretanto, suas interfaces são diferentes, podendo agradar de formas distintas os usuários. O problema é que a maioria é em inglês, tornando o acesso difícil para algumas pessoas. De qualquer modo, vale a pena citá-los para mostrar que existem outras opções de trabalho além daquelas desenvolvidas pelo gigantesco Google. Os aplicativos Umapper4 e Glotter5 apresentam quase as mesmas condições de criação de mapas que o Google Maps, pois permitem aos usuários construir mapeamentos com conteúdos em diversas linguagens (imagem, texto e vídeo) e publicá-los na rede, tudo de modo muito fácil. Porém, a possibilidade de produzir colaborativamente tais representações espaciais não existe nesses dois programas. Para tanto, temos disponível na Web outras duas opções, Map Channels6 e Platial7, os quais, além de oferecer as ferramentas usuais, também permitem que várias pessoas editem o mesmo mapa. Navegando pelo Ciberespaço, podemos ver que essas novas tecnologias estão sendo exploradas em diversos níveis pelos internautas. Mapeamentos que realizam a aplicação das mais simples ferramentas até projetos e serviços que elaboram dispositivos originais para criar novas formas de representação são encontrados no imenso oceano da informação digital. Assim, apesar desse novo meio técnico e o seu conjunto de aplicativos nos impressionarem bastante a ponto de produzirem um tipo de encantamento por si só, o que na verdade dá sentido a todo esse instrumental é o uso que fazemos dele. Assim, colocando ao alcance de pessoas comuns a possibilidade de utilizar de diferentes modos e para os mais variados fins a linguagem cartográfica, os programas de mapeamento online não determinam, mas criam condições para a existência de projetos de mapeamento como MapMyGlobe8, 11 Post Urbano9, Invisible Stories10, Ancestral Atlas e MapYourAncestors12. O mapeamento MapMyGlobe é um projeto que visa construir um guia de viagem interativo do mundo contando com a colaboração de quem viveu os lugares. Para tanto, seu criador Julien C. utilizou em um nível mais avançado os dispositivos oferecidos pelo Google Maps e desenvolveu algumas novas ferramentas para viabilizar a idéia. A partir desses recursos digitais, então, qualquer pessoa com acesso a Internet e de qualquer parte do planeta pode mapear o seu globo, descrevendo por fotos e textos paisagens e lugares que conhecem e traçando linhas que contam histórias e geografias. Desse modo, forma-se um mapa aberto, que comporta múltiplas autorias e por isso mesmo apresenta diferentes perspectivas do mundo e encontra-se em constante transformação.

Figuras 1 e 2: Projeto de mapeamento MapMyGlobe.

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http://www.umapper.com/ http://www.glotter.com/ 6 http://www.mapchannels.com/ 7 http://platial.com/ 8 http://www.mapmyglobe.com/ 9 http://post.wokitoki.org/ 10 http://maps.google.com.br/ Pesquisar no mapa conteúdo criado pelo usuário: Invisible Stories 11 http://www.ancestralatlas.com/ 12 http://www.mapyourancestors.com/

Outro projeto muito interessante que é construído colaborativamente e utiliza os recursos do Maps é o Post Urbano. Esse projeto busca mapear as diferentes relações espaciais que os habitantes de Rosário (Argentina) têm com a cidade. Para isso, ao acessar o site o usuário identifica no mapa base ou na imagem de satélite um ponto do município que lhe interessa e relata a sua experiência com aquele lugar, que pode ser de diversas naturezas, como uma memória, um sentimento, uma manifestação política, etc. As intervenções dos usuários ficam registradas no mapa virtual e também na cidade, pois os criadores do projeto levam cartazes das mensagens deixadas no espaço virtual para o espaço físico de Rosário e as pregam nos pontos reais que foram mapeados. O mapeamento Post Urbano realiza através de um mapeamento online a virtualização da cidade argentina para possibilitar que a população materialize seus encontros com um espaço que não é mais o mesmo, devido às transformações que sofreu ao longo do tempo. Desse modo, o que deixou de existir no espaço concreto de Rosário, mas que ainda marca seus habitantes pode agora ser recuperado ou reconstruído simbolicamente dentro de um mapa que dá vida a lugares subjetivos.

Figuras 3 e 4: Projeto de mapeamento Post Urbano.

O projeto Invisible Stories também recorre ao espaço vivido para criar seu mapa. Desenvolvido diretamente no serviço Meus Mapas do Google, ele espacializa a história de vida de pessoas anônimas da cidade de São Paulo. Indivíduos comuns, que vivem o cotidiano da cidade grande, narram suas trajetórias a um grupo de artistas e esses as localizam no mapa. Assim, os lugares de onde essas pessoas vieram, por onde passaram e aonde hoje se encontram são identificados e mapeados com as próprias histórias que os produziram.

Figuras 5 e 6: Projeto de mapeamento Invisible Stories.

Existem na Web algumas aplicações que oferecem um serviço de mapeamento que propõem especificamente a construção desse tipo de representação. MapYourAncestors e Ancestral Atlas são sites que permitem aos usuários mapear a árvore genealógica da família e as histórias e eventos marcantes por quais passaram. O usuário pode criar um mapa dos momentos, datas e lugares importantes de sua vida, mas também das pessoas que lhe deram origem. Desse modo, escala temporal nesses projetos é móvel, podendo abranger um passado muito próximo e muito distante. Mudança de Paradigma na Cartografia

Ao longo da Idade Moderna, a Cartografia esteve fortemente ligada ao progresso da ciência e da tecnologia. Desenvolveu-se seguindo pressupostos que validavam a objetividade do mundo e aparentemente garantiam aos cartógrafos a construção de uma representação fiel e precisa do espaço geográfico. Desse modo, o pensamento que predominou entre esses profissionais era de que os mapas deveriam e podiam ser a própria reprodução da superfície terrestre em um plano de tamanho reduzido. Como coloca Harley (1989), essa teoria, ou ideologia, era baseada em tantos princípios científicos que foi se tornando inquestionável, a ponto de tanto aqueles que faziam como aqueles que usavam os mapas acreditassem piamente nela.
From at least the seventeenth century onward, European mapmakers and map users have increasingly promoted a standard scientific model of knowledge and cognition. The object of mapping is to produce a 'correct' relational model of the terrain. Its assumptions are that the objects in the world to be mapped are real and objective, and that they enjoy an existence independent of the cartographer; that their reality can be expressed in mathematical terms; that systematic observation and measurement offer the only route to cartographic truth; and that this truth can be independently verified.13 (HARLEY, 1989, p. 4).

Nesse sentido, essa cultura cientifica de mapeamento sempre se preocupou com a acuracidade de suas obras, pesquisando continuamente as novas tecnologias e procedimentos que levariam a uma representação mais correta da realidade. O desenvolvimento de grande parte desses processos e instrumentos que suportam a produção cartográfica mais precisa foi incentivado pelos governos federais, principalmente dos países desenvolvidos, por servirem a aplicações militares. Desse modo, como observa Monmonier (1985), a necessidade de uma segurança e defesa nacional efetiva foi e continuará sendo o principal ímpeto para novos e maiores desenvolvimentos em mapeamentos e uso de mapas, já que um bom sistema de defesa requer inteligência geográfica e navegação acurada. Para se ter uma idéia, muitas das tecnologias de precisão atualmente utilizadas para uso civil foram na realidade inventadas ou aperfeiçoadas pelos militares anteriormente. O GPS (Global Positioning System) e a aerofotografia, por exemplo, que substituíram métodos mais antigos de localização e mensuração do terreno, são meios de produção de mapas para uso em diversas áreas da ciência, mas também já beneficiaram bastante o setor de defesa. Assim, a instrumentalização da racionalidade técnica, que tem regido a Cartografia Moderna a um longo tempo, se deu em muitos casos para fins de controle e vigilância. Nesse sentido, fica evidente que a produção cartográfica cientifica está em grande medida estruturada por relações de poder. Harley (1989) tenta com muito afinco dar conta das diversas dimensões da forma poder/conhecimento que permeiam a Cartografia e a questão do ímpeto militar no desenvolvimento das tecnologias de mapeamento demonstram muito bem onde começa essa relação. Contudo, as próprias etapas e técnicas que constituem o conjunto de regras que visam “dirigir” o trabalho do cartógrafo levam mais à materialização de interesses e valores no mapa do que à representação da “realidade”. O autor explica:
The steps in making a map – selection, omission, simplification, classification, the creation of hierarchies, and ‘symbolization’ – are all inherently rhetorical. In their intentions as much in their applications they signify subjective human purposes rather than reciprocating the workings of some “fundamental law of cartographic generalization”.14 (HARLEY, 1989, p. 11).

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Tradução livre da autora: “A partir do século XVII adiante, cartógrafos europeus e usuários de mapas têm crescentemente promovido um modelo cientifico padrão do conhecimento e da cognição. O objetivo do mapeamento é produzir um modelo relacional ‘correto’ do terreno. Os pressupostos são que os objetos a serem mapeados no mundo são reais e objetivos, e que eles gozam de uma existência independente do cartógrafo; que sua realidade pode ser expressa em termos matemáticos; que a observação e a mensuração sistemática oferecem a única rota à verdade cartográfica; e que esta verdade pode ser independentemente verificada”. 14 Tradução livre da autora: “Os passos no fazer de um mapa – seleção, omissão, simplificação, classificação, hierarquização, e ‘simbolização’ – são todos inerentemente retóricos. Em suas intenções, tanto quanto em suas aplicações, significam mais propósitos humanos subjetivos que respeito por algum tipo de ‘lei fundamental da generalização cartográfica’”.

Segundo Wood (1992), todo mapa é fruto de uma seleção, ou seja, da escolha de um aspecto a ser mapeado, ou então, de um sistema de símbolos a ser utilizado. Por isso nenhum mapa é imparcial, isto é, a seleção que foi realizada atende a um interesse, seja de uma associação, de uma classe social, de uma cidade ou de um país. De qualquer modo, para o autor, a seletividade inerente à produção de um mapa busca em última análise reproduzir um sistema social e cultural. Nesse contexto, fica claro o motivo que leva Harley (1989, p. 7) a dizer: “... maps are at least as much an image of the social order as they are a measurement of the phenomenal world of objects”.15 Desse modo, os cartógrafos desempenham um grande poder no momento em que estão mapeando e, através do conjunto de regras que seguem acabam, sem que percebam, tentando controlar a imagem do mundo. E qual seria a imagem do mundo que a Cartografia Moderna ajudou a construir? Segundo Harley (1989, p. 14), “all the world is designed to look the same”16 e para isso o processo de mapeamento eliminou as características essenciais que dão sentido e diferenciam os lugares. Ao buscar ordenar e uniformizar as relações espaciais através dos processos de padronização e classificação, a Cartografia reduziu e simplificou uma realidade complexa, contraditória e múltipla, produzindo imagens estereotipadas que comunicam um espaço fechado, sem entradas e saídas. E ao retirar do contexto de mapeamento os principais elementos que produzem o espaço, isto é, a vida, a história e os seres humanos, a Cartografia construiu a imagem de um espaço vazio, naturalizado, sem deslocamentos e, principalmente, sem possibilidades. Hoje, as novas tecnologias de mapeamento online e, principalmente, as aplicações realizadas pelos novos cartógrafos parecem romper com essa visão objetiva e utilitarista do mapa. Apesar de também estar fortemente marcada pelo desenvolvimento técnico, a Cartografia que se acessa no Ciberespaço provoca o estatuto dos cartógrafos tradicionais ao colocar no centro do mapa aquilo que um dia foi desconsiderado pelos procedimentos e regras cunhados pela cultura científica: a vida. São experiências, histórias, acontecimentos que são mapeados pelas próprias pessoas que as viveram. Desse modo, nenhum lugar mais é igual ao outro e mesmo um mesmo lugar pode ser diferente. Lemos (2008, s/p) diz:
Esses sistemas de mapas digitais tornou disponível, para todos com acesso à rede, uma possibilidade de produzir conteúdos e mapas sem precedentes na história da humanidade. Com finalidades as mais diversas, esses mapas hoje, permitem a pessoas e comunidades criarem histórias e significações autóctones sobre suas realidades, sobre seus “lugares”. Ou seja, é possível produzir histórias sobre os lugares que não são as oficiais, criar sentido além da reprodução oficial.

Repensando os projetos de mapeamento apresentados anteriormente à luz dos paradigmas da cartografia tradicional, podemos perceber que aproveitando o canal de publicação aberto da Internet os programas de criação de mapas dão visibilidade a uma pluralidade de perspectivas do espaço, impedindo que uma única visão de mundo seja reproduzida. Quando colaborativo, um mesmo espaço se desdobra em muitos lugares e a diferença se torna o sentido maior do mapa. É claro que os mapas produzidos a partir dessas tecnologias não são construções desinteressadas, pois escolhas foram feitas no seu processo de construção e uma vontade de alcançar algo, um objetivo, foi o que provavelmente lhe deu origem. Porém, agora, o poder dos mapas está nas mãos de muitas pessoas, diminuindo sua força de reprodução social e elevando sua capacidade de contestação e questionamento. Feng (2008, s/p) em seu trabalho de mestrado constatou: “Maps are powerful tools. Many people take them as fact, but they tell the story the creator wants you to see. Grassroots communities17 and artists welcome this technology because it allows their voices to be heard”.18 Desse modo, a Cartografia começa a escalar uma posição onde a imagem do mundo não pode mais ser controlada.

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Tradução livre da autora: “no mínimo, os mapas são tanto uma imagem da ordem social, quanto uma medida do mundo fenomenal dos objetos”. 16 Tradução livre da autora: “todo o mundo é desenhado para parecer o mesmo”. 17 Termo inglês utilizado para designar comunidades locais envolvidas em campanhas ou movimentos sociais. 18 Tradução livre da autora: “Mapas são ferramentas poderosas. Muitas pessoas os interpretam como fato, mas eles contam a história que seu criador quer que você enxergue. Comunidades Grassroots e artistas receberam bem essa tecnologia, pois permitiu que suas vozes fossem ouvidas”.

Aplicações no Ensino de Geografia Partindo dessa reflexão sobre as novas tecnologias de mapeamento, percebemos que os significados e usos atribuídos aos mapas não são mais os mesmos. Conseqüentemente, as novas práticas cartográficas que se realizam nesse contexto transferem novos sentidos ao espaço e reforçam outros. É por esse potencial de ressignificação do espaço que os novos aplicativos são pensados aqui como possibilidade para o ensino de geografia. Sabemos que a aprendizagem não é garantida pela simples transmissão de conhecimento do professor para o aluno. Em sala de aula muitas variáveis estão em jogo, entre elas, a experiência de vida que o professor e o aluno trazem. Assim, invariavelmente, esse processo é complicado e cheio de fracassos de um lado e sucessos de outro, entretanto, entendemos que quando o aprendiz se vê como sujeito, isto é, autor do próprio conhecimento, ele passa a atribuir sentido ao que produz e compreender melhor seu papel no mundo. Diante disso, o primeiro elemento que se destaca na aplicação dos programas de mapeamento online na formação geográfica é o fato do aluno ter a chance de se tornar o próprio autor de seus mapas. Atento a importância dessa condição do aluno no processo de aquisição da linguagem cartográfica, os Parâmetros Curriculares Nacionais de Geografia (Brasil, 1998) colocam que depois de desenvolvida algumas noções básicas de cognição, como a visão oblíqua e vertical, lateralidade e proporção, referências e orientação espacial, etc.; o aluno encontra-se no momento de aprofundar seus conhecimentos em duas dimensões: “a primeira trata da leitura de mapas, porém uma leitura crítica, que analisa e ultrapassa o nível simples da localização dos fenômenos. A segunda dimensão trata do aluno participante do processo como mapeador consciente”. (grifo nosso, Brasil, 1998, p. 77). Desse modo, mesmo antes do surgimento dessas novas ferramentas, já existia a preocupação de formar um aluno que entendesse e participasse do processo de confecção do mapa. Contudo, o PCN (Brasil, 1998) propõe o desenvolvimento de atividades nesse sentido para, principalmente, capacitar os alunos na análise e representação adequadas das informações geográficas. No presente trabalho, entendemos a importância desse domínio, mas buscamos aplicar essa linguagem e forma de fazer sugerida pelos Parâmetros, para construir conhecimento sobre outro tema que também é recomendado para o terceiro ciclo: o lugar. Incorporado ao texto do PCN sob o título “A conquista do lugar como conquista da cidadania”, essa categoria é apresentada como conteúdo curricular, pois está ligada às novas correntes de pensamento da Geografia e, principalmente, porque oferece oportunidade para estudar o cotidiano do aluno. Desse modo, o lugar é entendido aqui tanto pela interação social mediada pela cultura material, como pelas representações que constituem o imaginário humano. Essa última abordagem possibilita que a vivência e os conhecimentos dos alunos sejam valorizados em toda a sua subjetividade e afetividade. (Brasil, 1998, p. 59). Assim, a dimensão simbólica se torna carregada de possibilidades para compreender o lugar em que se vive. Através do item “o mundo como uma pluralidade de lugares interagindo entre si”, o PCN (Brasil, 1998) também insere o mundo como categoria a ser compreendida na relação com o lugar, pois é por este espaço imediato que estabelecemos contato com aquele mais extenso. A materialização dos processos de globalização, como as desigualdades sociais, a homogeneização e as segregações, se dão nos lugares e assim, o mundo é vivido por cada um de nós em toda a sua contradição e complexidade. Sobre essa relação Carlos (1996, p. 26) diz: “(...) uma vez que cada sujeito se situa num espaço, o lugar permite pensar o viver, o habitar, o trabalho, o lazer enquanto situações vividas, revelando, no nível do cotidiano, os conflitos do mundo moderno”. Diante disso, os programas de mapeamento online se tornam uma ferramenta com diversas possibilidades de aplicação na construção de significados e conhecimentos que colocam o lugar em primeiro plano. Os dispositivos mais simples do Google Maps podem ser utilizados pelos alunos para a criação de um mapeamento individual onde cada um deve contar a sua história de vida na cidade. Nessa prática, o cotidiano e as referências culturais dos alunos são valorizados, pois o aluno pode livremente relatar suas vivências no lugar através de diferentes linguagens (ponto, linha, polígono, texto, imagem, foto, vídeo). Desse modo, ele se coloca como personagem principal do mapa e se vê dentro dele, compreendendo a sua importância na constituição do lugar. A plasticidade desses aplicativos virtuais permite navegar e mapear o planeta contiguamente, sem o “inconveniente” dos limites da escala. Essa característica abre uma porta de entrada para os alunos entenderem a relação do lugar com o mundo e vice-versa. Assim, nesse mesmo projeto de mapeamento do lugar, o professor pode propor aos alunos que cliquem o zoom (–) do programa para visualizarem na tela do computador a localização do município onde vivem no contexto do mundo.

Esse exercício tem o potencial de fazer os alunos perceberem que o lugar não está fora do mundo, mas que na verdade o mundo é formado por muitos lugares. O desenvolvimento de um projeto desse tipo se parece muito com o mapeamento Invisible Stories e pode ser facilmente realizado através das ferramentas disponíveis diretamente pelo serviço Meus Mapas, do Google. A idéia de mapeamento proposta pelos sistemas Ancestral Atlas e MapYourAncestors também pode ser uma oportunidade para desenvolver nos alunos o entendimento das relações entre os lugares e os diferentes espaços-tempos que os produzem. A exemplo dos projetos Post Urbano e MapMyGlobe, a produção de um mapeamento colaborativo do município entre os alunos pode também se constituir numa prática interessante que necessita apenas dos recursos oferecidos pelo Meus Mapas. Além de desenvolver aspectos e sentidos do lugar que os outros mapeamentos também acabam explorando, algumas outras dimensões desse conceito podem ser ressignificadas nessa construção. A questão das diferenças e desigualdades que permeiam o lugar é levantada pelos múltiplos olhares e vivências que as pessoas têm dos mesmos problemas e lugares; já a apropriação simbólica da cidade por um conjunto de seus habitantes, no caso aqui os alunos, valoriza a experiência coletiva do espaço, produzindo assim o sentido do espaço público. Considerações Finais As possibilidades de uso das novas tecnologias de mapeamento online no ensino de geografia partiram da concepção de que todos os mapas têm o poder de produzir criativamente diferentes significados. Apesar de estático e fechado a intervenções, o próprio mapa impresso não é capaz de produzir apenas um sentido para o espaço que representa. Utilizado por diferentes pessoas em diversos contextos e situações, qualquer mapa é sempre um mapeamento, isto é, uma representação que está em processo de ser finalizada a todo o momento, mas devido a sua natureza relacional nunca conquista a totalização do sentido. O desenvolvimento dos Atlas Escolares Municipais que utilizam a linguagem cartográfica, entre outras, para produzir o conhecimento sobre o lugar também se apóia nessa concepção. O conjunto de mapas locais voltados para o ensino é compreendido apenas como parte de um contexto que desloca conhecimentos, experiências e representações espaciais diversas e complexas. Assim, a construção do sentido de lugar através da Cartografia depende de práticas que se realizam de maneiras e em tempos diferentes. Porém, os estudos e leituras que desenvolvemos parecem mostrar que esse potencial de criação de significado dos mapas aflora ao se fazer uso das novas ferramentas virtuais de mapeamento. As condições de construção desses sistemas são abertas e permitem que tantos contextos possíveis sejam registrados e acumulados numa mesma representação. Assim, principalmente nos mapeamentos colaborativos, os diversos sentidos atribuídos ao espaço num mesmo mapa se encontram e produzem outro mapa, que se transforma novamente cada vez que um ponto é adicionado.

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