OS SABERES GEOGRÁFICOS DOS FILHOS DOS PESCADORES DE SÃO JOSÉ DE RIBAMAR/MA E O ENSINO DE GEOGRAFIA: um diálogo possível

Orientando: Alexandre Vítor de Lima Fonsêca Orientadora: Drª. Regina Araújo de Almeida RESUMO

A atividade pesqueira na cidade de São José de Ribamar vem desde sua fundação. A tendência para esse ramo de atividade ainda resiste ao tempo, fato que ficou comprovado mediante pesquisa realizada com as famílias dos educandos em 2004 quando da elaboração da nossa dissertação, onde constatamos que a maioria dos pais dos alunos tem na atividade pesqueira sua principal fonte de renda. Para esse estudo, partimos do pressuposto de que os saberes geográficos dos filhos dos pescadores são resultantes dos diálogos entre pais e filhos no dia-a-dia da atividade pesqueira, quanto às referenciais geográficos, optamos por estudar os conteúdos que tem como referências a orientação, situação, localização, movimentos das marés, direção dos ventos, produção e comercialização do pescado por entendermos que esses parâmetros são fundamentais nesse diálogo. A pesquisa divide-se em duas etapas: na primeira pretendemos estabelecer um diálogo com os pais dos alunos a respeito de suas atividades pesqueiras diárias e as conversas efetivadas no meio familiar com seus filhos. Na segunda etapa estaremos visitando as escolas onde esses alunos freqüentam no sentido de identificar os conteúdos que são ministrados nas aulas de Geografia, e qual relação com os saberes geográficos trazidos de casa por esses alunos. Daí a relevância de nossa proposta, pois, analisaremos de que forma estão sendo transmitidos os conteúdos geográficos nas salas de aulas? Qual a conexão didática entre o saber cotidiano familiar e o saber escolar? Como está ocorrendo o processo de aprendizagem dos educandos com os conteúdos que dizem respeito a, orientação, situação, localização, movimentos das marés, direção dos ventos, produção e comercialização do pescado, reconhecendo a importância dos educadores como agentes transformadores da sociedade. As informações preliminares elencadas possibilitam o encaminhamento de algumas questões para compreensão da proposta deste projeto, entender, portanto: Como se dá à construção dos saberes repassados de pais para filhos nas conversas informais sobre movimentos de marés, orientação pelo sol e local da pescaria? Quais as singularidades da prática da pesca artesanal e o deslocamento diário do pai desses educandos? Como se estrutura o processo de comercialização desse pescado? Como são ensinados na escola os conteúdos geográficos que tratam de orientação, localização e situação? Assim, estudaremos as geografias dos filhos dos pescadores de São José de Ribamar e sua relação com os conteúdos geográficos ministrados em salas de aulas a partir do Método Dialético, por entendermos que os fenômenos não acontecem isoladamente e sim interdependentes, e o Estruturalista, que parte do

princípio que os fenômenos podem ser estudados tendo como referencial o concreto. Busco na fase atual, ampliar as leituras a partir do entendimento do olhar que emergem dos saberes cotidianos da comunidade pesqueira, não esquecendo as relações que esse homem tem com o equilíbrio da natureza, em contraposição com aqueles que simplesmente exploram os recursos naturais.

Palavras-chave: Saberes; Ensino; Pescadores; Geografia

OS SABERES GEOGRÁFICOS DOS FILHOS DOS PESCADORES DE SÃO JOSÉ DE RIBAMAR/MA E O ENSINO DE GEOGRAFIA: um diálogo possível Orientando: Alexandre Vítor de Lima Fonsêca1 Orientadora: Drª. Regina Araújo de Almeida2

1 – INTRODUÇÃO

Situado no Golfão Maranhense na porção oriental da Ilha do Maranhão, o município de São José de Ribamar faz parte da Microrregião denominada Aglomeração Urbana de São Luís, sua sede localiza-se geograficamente a 44°03’15” ao Oeste de Greenwich e a 2°33’43” ao Sul do Equador, sua população é de 131.379 habitantes (IBGE/2007), com área de 386 km², que o classifica como o centésimo vigésimo primeiro município do território maranhense. Limita-se ao Norte com o Oceano Atlântico e o município de Paço do Lumiar, ao Leste e ao Sul com a baía de São José e ao Oeste com o município de São Luís, o município de São José de Ribamar apresenta uma altitude máxima de aproximadamente vinte metros, com temperatura média em torno de 28º e índices pluviométricos em torno de 1.900 milímetros anuais. A realidade educacional do município de São José de Ribamar não é diferente dos demais municípios brasileiros. O sistema possui uma rede com 89 escolas do ensino fundamental, 9 escolas do ensino médio, entre particulares, estaduais e municipais, 754 docentes no ensino fundamental e 192 atuando no ensino médio. A rede conta com 19.590 alunos matriculados no ensino fundamental e 3.863 alunos no ensino médio, IBGE/2007. A atividade pesqueira na cidade de São José de Ribamar vem desde sua fundação. A tendência para esse ramo de atividade ainda resiste ao tempo, fato que ficou comprovado mediante pesquisa realizada com as famílias dos educandos em 2004 quando da elaboração da nossa dissertação, onde constatamos que a maioria dos pais dos alunos tem na atividade pesqueira sua principal fonte de renda. O município retira da pesca artesanal boa parte de sua receita. Segundo “seu Riba”, presidente da colônia de pescadores, existe cerca de 2.680 pescadores registrados na colônia, o que daria, segundo o presidente, uma produção equivalente a oito toneladas de pescado por dia, comercializados no próprio município e exportados para as cidades vizinhas, principalmente para a capital do estado São Luís. Contudo, essa produção e receita não podem ser contabilizadas devido à pulverização do desembarque do pescado ao longo da faixa litorânea do município.

                                                       
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 Professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal do Maranhão   Professora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo 

Considerando os aspectos educacionais e as atividades pesqueiras no município, resolvemos estudar os saberes geográficos dos filhos desses pescadores e que diálogo é estabelecido entre esses saberes e os conteúdos geográficos que são sistematizados nas escolas municipais onde esses educandos estudam. Para esse estudo, partimos do pressuposto de que os saberes geográficos dos filhos dos pescadores são resultantes dos diálogos entre pais e filhos no dia-a-dia da atividade pesqueira, quanto às referenciais geográficos optamos por estudar os conteúdos que tem como referências a orientação, situação, localização, movimentos das marés, direção dos ventos, produção e comercialização do pescado por entendermos que esses parâmetros são fundamentais nesse diálogo. A pesquisa divide-se em duas etapas: na primeira pretendemos estabelecer um diálogo com os pais dos alunos a respeito de suas atividades pesqueiras diárias e as conversas efetivadas no meio familiar com seus filhos. Na segunda etapa estaremos visitando as escolas onde esses alunos freqüentam no sentido de identificar os conteúdos que são ministrados nas aulas de Geografia e qual é a relação com os saberes geográficos trazidos de casa pelos mesmos.

2. OS SABERES GEOGRÁFICOS DOS FILHOS DOS PESCADORES

Estudar os saberes geográficos dos alunos que são filhos de pescadores no seio familiar e conhecer a realidade concreta de seus afazeres diários envolve antes de tudo conhecimentos do lugar entendido como o ambiente onde acontece às relações de socialização dos conhecimentos adquiridos na labuta diária. As relações sociais acontecem em primeiro lugar dentro do convívio familiar, e é nesse espaço que também se processa parte da formação intelectual do educando tais como: comportamento, hábitos, valores entre outros. Essas relações sociais no nosso entendimento aplicados à pesquisa vão permitir que tenhamos um diálogo permanente entre escola e a casa dos educandos uma vez que os atores desse processo são os mesmos. Na perspectiva da socialização do conhecimento, este passado de pais para filhos ao longo das centenas de anos e o processo de ensino e aprendizagem registrado na escola com os conteúdos geográficos ministrados no ensino básico, se faz necessário o estudo dessa relação onde os atores (pais, alunos e professores) compartilham do mesmo exercício diário, a sobrevivência. Para Callai e Zarth (1997, p. 37) “As experiências no dia-a-dia das crianças também são recursos possíveis e interessantes de se aproveitar em sala de aula. Elas observam caminhos,

construções, reformas, têm acesso às conversas diárias da família, assistem TV, ouvem rádio [...]”. Nesse sentido, o professor deverá destinar um tempo durante as aulas para depoimentos no sentido da valorização da vivência diária dos educandos. Com base nas conversas informais que se dá no interior das residências dos pescadores da cidade de São José de Ribamar onde são comentados o vai e vem diário da labuta pesqueira em condições às vezes adversas, isso por que o processo acontece hora sob forte sol, hora sob chuva intensa, às vezes com ventos fortes às vezes com calmaria. Nesse contexto, urge a necessidade da realização de pesquisa que possa subsidiar a rede pública municipal ribamarense de ensino básico, no tocante ao uso dos saberes geográficos cotidiano como recurso didático, na medida em que proporciona aos educandos variadas tarefas, entre as quais orientação, localização, deslocamentos e leitura de espaços geográficos. Os espaços que são identificados nas conversas diárias no seio familiar após uma jornada diária de aproximadamente dez horas de trabalho nas condições já citadas anteriormente. São espaços que promovem o desenvolvimento de uma série de articulações mentais que resultarão certamente em autonomia intelectual não apenas como melhoria da aprendizagem dos conteúdos geográficos, mas, também na formação de leitores críticos e conscientes das questões sociais. O ensino da Geografia tem buscado continuamente, ao longo dos anos, através de uma parcela considerável de docentes e pesquisadores, métodos e técnicas capazes de subsidiar e compreender melhor a espacialização social cartografada nos mapas, cartas entre outros documentos. No entanto percebe-se a ocorrência de certo descompasso entre os conteúdos que são ministrados pela Geografia e os conteúdos que efetivamente são utilizados no dia-a-dia do educando no ensino básico. O espaço geográfico é entendido, pela maioria dos geógrafos, como o resultado das relações e interferências do homem sobre o ambiente, nesse contexto a cartografia como forma didática de representar essa relação se faz presente com uma linguagem própria identificada por pontos, linhas e manchas. No nosso entendimento a educação cartográfica deve fazer parte do cotidiano da escola, levando o educando a refletir e utilizar os elementos representados nos mapas, não apenas como símbolos em documentos cartografados e que são levados para as salas nas aulas de Geografia ou ciências afins como figuras ilustrativas, mas, como marcos sistematizado dos espaços conhecidos, como, por exemplos, os deslocamentos diários do percurso casa/escola, porto/pesqueiro esse último relacionado à labuta diária dos pescadores, entre outros, levando o aluno a compreender a organização espacial da sociedade e de que maneira esse espaço é representado através de mapas, cartas, plantas, entre outras formas de representação.

Os quadros 1 e 2 retratam o resultado dos questionários sócio-culturais aplicados em 2003 junto às famílias dos educandos da escola Unidade Integrada Profª. Leda Tajra Chaves nas classes de experimento e controle quando da realização de nossa pesquisa para a elaboração de nossa dissertação.
Escolaridade Analfabetos Ensino fund. completo ou Ensino Ensino médio sup. Pai (%) 30 53 17 (%) M Renda Familiar Pai (%) Até 01 s/m Entre 1 e 3 s/m Entre 3 e 5 s/m Sem renda (%) 50 50 Pedreiro Agricultor Pintor Peq. comerciante Carpinteiro Serv. Gerais Outras FONTE: PESQUISA DE CAMPO/2003 QUADRO 01- CATEGORIAS SÓCIO-CULTURAIS- ESCOLARIDADE DOS PAIS, RENDA FAMILIAR E PROFISSÃO DO PAI / UNIDADE INTEGRADA PROFª LEDA TAJRA CHAVES – EXPERIMENTO Os percentuais foram arredondados Escolaridade Analfabetos Ensino fund. completo ou não Ensino médio complet Ensino sup. completo ou não Pai (%) Mãe (%) Renda Familiar Pai (%) Mãe(%) Profissão do pai 32 68 23 68 9 Até 01 Entre 1 e 3 s/m Entre 3 e 5 s/m Sem renda 86 14 45 50 5 Pescador Pedreiro Agricultor Pintor Peq. Comerciante Carpinteiro Serv. Gerais Outras FONTE: PESQUISA DE CAMPO/2003 QUADRO 02 – CATEGORIAS SÓCIO-CULTURAIS - ESCOLARIDADE DOS PAIS, RENDA FAMILIAR E PROFISSÃO DO PAI / UNIDADE INTEGRADA PROFª LEDA TAJRA CHAVES – CONTROLE Os percentuais foram arredondados (%) 48 9 4 4 4 9 22 Profissão do pai Pescador 8 6 3 14 8 14 22 (%)

A partir dos resultados obtidos com a pesquisa, é que estamos propondo o estudo em tela por entendermos que, sendo a profissão predominante no município e também segundo a pesquisa os menos remunerados e com menores índices de escolaridade, os pais desses educandos vem ao longo dos anos passando por sérios problemas econômicos e sociais. Justifica-se a procura dos pais pela pesca em primeiro lugar, pela proximidade com o litoral, pois a cidade está situada de frente para uma baía (Baía de São José) e em segundo lugar a falta de qualificação profissional, uma vez que o trabalho não exige grau de instrução, isso fica claro nos índices de escolaridade nos quadros 01 e 02.

O uso das direções cardeais exercidas no dia-a-dia da labuta dos pais através das feições dos ventos (leste, nordeste, sudeste entre outras) no comando ou não das embarcações, uma vez que uma porção considerável das canoas ainda veleja sob a força dos ventos,  nas suas idas e vindas para os pesqueiros, esse processo gera um conhecimento ímpar e que não deve ser perdido ao longo do tempo. Por outro lado o uso das direções cardeais pelos pais são repassados aos seus filhos através do convívio familiar, uma vez que a maioria dos educandos vivem essa realidade, ou estão próximo dela. Para Cavalcante (1998, p. 148)
Levar em conta o mundo vivido dos alunos implica aprender seus conhecimentos prévios e sua experiência em relação ao assunto estudado, o que pode vir junto com outras ações, como, por exemplo, as atividades de observação, A “qualidade” da observação depende das experiências já vivenciadas pelos alunos em relação ao objeto observado, o que implica, ter como fonte de conhecimento geográfico o espaço vivido, ou a geografia vivenciada cotidianamente na prática social dos alunos.

Nesse sentido, o uso de orientação geográfica exercida pelos pais desses educandos no cotidiano vai proporcionar uma conexão mais interessante entre o que são conversados no dia-adia no convívio familiar com as tarefas escolares propostas, uma vez que, o processo de orientação observado na escola pode ser transferido para o interior das residências dos educandos ou vice versa. Pretende-se pensar a relação entre o conhecimento dos pescadores e suas conversas em suas residências após um dia de trabalho, levando em consideração o seu itinerário de ida e volta ao local de trabalho (pesqueiro), as direções percorridas pelos seus barcos ou canoas, à vela ou com uso de motores, o tempo necessário para ir e vir, os movimentos das marés (enchentes e vazante) e por fim o resultado desse trabalho diário o peixe.

3. OS CONTEÚDOS GEOGRÁFICOS NO 6º ANO

A educação é vista como uma prática transformadora, de vital importância na formação social do educando, chegando mesmo a determinar as atividades econômicas, sociais e políticas. Na visão de Gamboa (2001, p.104), a escola “[...] é o espaço da reprodução das contradições que dinamizam as mudanças e possibilitam a gestação de novas formações sociais”. Essas contradições manifestam-se, acima de tudo, na luta por uma escola democrática para todos, exigindo do docente uma melhor compreensão das práticas pedagógicas e das ações educacionais implementadas no

dia-a-dia, na sala de aula, haja vista que as ações docentes fazem parte do papel socializador da escola. O estudo do cotidiano termina por envolver práticas que “[...] possibilitam a compreensão das relações sociais expressas no cotidiano escolar, num enfoque dialético homem-sociedade nos diversos momentos dessa relação”. (ANDRÉ, 2001, p.40). Os conteúdos devem ser constituídos intencionalmente, através das instituições de ensino, tendo como base tudo aquilo que o educando precisa apreender para se apropriar cumulativamente da cultura da sociedade a que pertence. Para Coll (1998, p.12) “[...] os conteúdos designam o conjunto de conhecimentos ou formas culturais cuja assimilação e apropriação pelos alunos e alunas são consideradas essenciais para o seu desenvolvimento e socialização”. Nesse sentido, o desenvolvimento do conhecimento humano não acontece no vazio, e sim num determinado ambiente culturalmente e socialmente organizado, como é o caso do ambiente escolar. Os conteúdos devem desenvolver no educando conceitos, habilidades, procedimentos, hábitos, valores e atitudes e também ser organizados didaticamente no sentido de proporcionar a assimilação ativa, além da aplicação pelos alunos no seu dia-a-dia. Os conteúdos, no nosso entendimento, devem ter como princípio básico à socialização do saber, uma vez que o conhecimento e a ação surgem no dia-a-dia da sociedade, que aperfeiçoa, reelabora e reproduz esse conhecimento, em conformidade com as práticas sociais vividas no cotidiano pela própria sociedade. Nesse contexto os conteúdos devem atender aos desafios do futuro, numa perspectiva de quebra de paradigmas, tendo em vista a própria (re)construção da sociedade. A escolha dos conteúdos não é tarefa fácil para os professores, principalmente para os docentes de Geografia, quando se tem como meta o “estudo do mundo”. Isto significa fazer opção no momento do planejamento por uma seleção de conteúdos que vão efetivamente dotar o educando de informações que levem à construção do conhecimento geográfico. Para Avancini (1986, p.36) devem ser “[...] conteúdos que cumpram a importante função social da escola: conteúdos que elevem a capacidade intelectual dos alunos, que estejam permanentemente referidos à vida dos mesmos, que sejam instrumento para o entendimento da dinâmica social”. Nesse sentido, a definição e escolha dos conteúdos devem ser tarefa do professor. Pois é ele, que tem o conhecimento da vivência de seu alunado, das características sociais e culturais do espaço, onde o aluno está inserido, assim como certas particularidades locais, que devem ser levadas em consideração na hora do planejamento na escolha dos conteúdos escolares.

É de fundamental importância que os conteúdos tenham como ponto de partida o espaço vivido pelos alunos. Nesse caso é imprescindível o contato direto do educador com o seu educando no sentido de que juntos possam desenvolver um pensamento crítico da realidade local. Nesse contexto, é essencial que seja valorizada a vivência do educando, no sentido de que ele perceba que a Geografia faz parte do seu cotidiano e que ele possa trazer para a sala de aula sua experiência de vida. Na mesma linha de raciocínio os eixos propostos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) significam um avanço, quando propõem conteúdos sintonizados com as dimensões conceituais, procedimentais e atitudinais, os quais são considerados como fundamentais na definição das capacidades desse segmento escolar. Nesse sentido, os PCNs destacam as seguintes proposições entre outras: Que a Geografia é uma área dinâmica, comprometida com a explicação e a compreensão do mundo, colaborando para que o aluno possa se situar no conjunto das transformações locais e globais; Que o estudo da Geografia deve criar as oportunidades para que, com esses temas e conteúdos, o aluno possa conhecer e transcender de seu lugar como forma de existência para outros lugares, e saber operar com as mediações necessárias para compreender a diversidade do mundo cada vez mais integrado; Perceber que por meio da cartografia podem-se ler as informações sobre os lugares, mas que a leitura está condicionada à escala geográfica. Por outro lado, a sistematização em apenas um eixo dos conteúdos cartográficos elencados nos PCNs nos parece pouco, dada a importância dos mesmos no dia-a-dia do educando. Partindose do pressuposto que essa realidade é muito mais complexa do que parece, não podemos explicála de forma fragmentada, principalmente hoje quando a sociedade está a exigir um educando que realmente reflita sobre os problemas de seu meio social. Devem permitir também a construção de uma identidade com o lugar, levando em consideração as diferenças socioculturais através da percepção das relações com o espaço vivido. E devem ser entendidos como meios e não fins em si mesmos. Ao propormos conteúdos com referencial a partir do dia-a-dia do educando, através da percepção do espaço vivido, estamos convencidos de que o exercício de orientação geográfica, que vai desde a orientação do próprio espaço do educando até questões maiores, como por exemplo, a posição da terra dentro do sistema solar, são conteúdos que, apesar de tratarem sobre orientação geográfica, devem permear em todas as séries do ensino básico e não em apenas um capítulo à parte como está previsto na proposta para o 6º ano.

É evidente que a viabilidade dessa proposta de ensino que tem como base esses conteúdos, deve levar em consideração a postura teórico-metodológica do professor e da escola. Primeiro não basta o professor ter uma postura crítica frente aos conteúdos, é necessário que o professor redimensione sua prática na sala de aula e que a própria escola assuma essa postura para que todos saiam ganhando. Segundo, a implementação da proposta passa efetivamente pelo domínio com segurança dos conteúdos ensinados pelo professor; terceiro, é necessário um planejamento adequado das proposições, no sentido da clareza da operacionalização dos trabalhos, ou seja, a escola deve oferecer os materiais necessários para a realização prática das aulas. Segundo Avancini (1986, p. 39) “o importante é realizar um planejamento concreto, oportunizando situações de aprendizagem que façam os alunos desenvolverem habilidades cognitivas próprias e necessárias para adquirir novos conhecimentos, inclusive fora do ambiente de sala de aula”; em quarto lugar, esperamos que a realização dessas tarefas proporcione a aquisição de conhecimentos fundamentais acerca do espaço concreto e de sua representação, próxima e distante por parte dos alunos, no sentido de elevar a sua capacidade de entender os mecanismos de (re)construção desses espaços socialmente vividos.

4. A PROPOSTA DE ESTUDO

As informações preliminares elencadas possibilitam o encaminhamento de algumas questões para compreensão da proposta deste projeto, entender, portanto: Como se dá à construção dos saberes repassados de pais para filhos nas conversas informais sobre movimentos de marés, orientação pelo sol e local da pescaria? Quais as singularidades da prática da pesca artesanal e o deslocamento diário do pai desses educandos? Como se estrutura o processo de comercialização desse pescado? Como são ensinados na escola os conteúdos geográficos que tratam de orientação, localização e situação? A partir dessas indagações pretende-se: • • comunidade; • pesqueiros; • Mapear os pesqueiros dos pais dos educandos elencados na pesquisa; Mapear os deslocamentos diários dos pais dos educandos entre o porto e os Diagnosticar os procedimentos metodológicos utilizados pelos professores de

Geografia, quando os enfoques dos conteúdos são de orientação, localização e situação; Estudar os processos de circulação e comercialização do pescado dentro da

Mapear os movimentos realizados pelos barcos ou canoas de pesca de acordo com

os ventos e a dinâmica das marés; Propor um programa de ensino com ênfase aos procedimentos didáticos/metodológicos cartográficos – orientação, situação e localização - capazes de proporcionar uma melhor aprendizagem ao educando. O conhecimento científico passa evidentemente pelo uso de uma ou mais metodologias, uma vez que em determinada pesquisa o uso de apenas um método não é capaz de dar conta de todo conhecimento. A construção desse conhecimento permeia uma determinada visão científica e filosófica de quem elabora. Assim sendo, o conhecimento científico tem como base fundamental à inserção do pesquisador como parte integrante desse processo em determinada época e local em que esse conhecimento foi produzido. Assim, estudaremos a geografia dos filhos dos pescadores de São José de Ribamar e sua relação com os conteúdos geográficos ministrados em salas de aulas a partir do Método Dialético, por entendermos que os fenômenos não acontecem isoladamente e sim interdependentes, e o Estruturalista, que parte do princípio que os fenômenos podem ser estudados tendo como referencial o concreto. Para Lakatos&Marconi (2007, p.101), “tanto a natureza quanto a sociedade são compostas de objetos e fenômenos organicamente ligados entre si, dependendo uns dos outros e, ao mesmo tempo, condicionando-se reciprocamente”, isso por que nenhum fenômeno na dialética pode ser explicado e compreendido isoladamente e sim resultantes de um processo dinâmico de transformação. Quanto ao segundo, os mesmos autores afirmam que, “o método parte da investigação de um fenômeno concreto, eleva-se a seguir ao nível do abstrato, por intermédio da constituição de um modelo que represente o objeto de estudo retornando por fim ao concreto, desta vez com como uma realidade estruturada e relacionada com a experiência do sujeito social”, uma vez que as representações cartográficas fazem parte desse abstrato e as mesmo tempo retratam o concreto, obedecendo a escala da abstração o método se enquadra perfeitamente na nossa proposição. Focalizando a área em estudo, encontramos alguns trabalhos, na maioria monográficos, a respeito de vários temas, entre eles alguns relacionados com o setor educacional, mas nenhum deles trata da geocartografia do deslocamento diário dos pescadores de São José de Ribamar e a conexão com o ensino de Geografia das escolas do ciclo básico. Daí a relevância de nossa proposta, pois analisaremos de que forma estão sendo transmitidos os conteúdos geográficos nas salas de aulas, qual a conexão didática entre o saber cotidiano familiar e o saber escolar, como está ocorrendo à aprendizagem dos educandos com os conteúdos geográficos que dizem respeito a, orientação, situação, localização, movimentos das

marés, direção dos ventos, produção e comercialização do pescado, além de reconhecermos a importância dos educadores como agentes transformadores da sociedade.

4.1 Técnicas de Pesquisa

Sendo as técnicas um conjunto de processos que servem à ciência, a investigação científica faz uso dessas ferramentas como auxílio ao pesquisador em busca das respostas que norteiam suas pesquisas. Assim, torna-se necessário elencar um número significativo de procedimentos que nos parece satisfatório quanto aos objetivos propostos: • • Levantamento e análise bibliográfica; Levantamento de informações pertinentes ao tema, através de documentos das

Secretarias de Educação do Estado e do município em questão, além da secretaria da escola em estudo; • Levantamento de informações diretas, através de pesquisa de campo do tipo

quantitativo-descritivo, com o uso de formulários, aplicados aos pais dos alunos envolvidos na pesquisa; • • identificada; • • Aplicação de questionário sócio-cultural com todos os alunos da Unidade Viagens com os pais dos alunos pesquisados nos seus deslocamentos diários do

porto ao local de trabalho (pesqueiro); Entrevista estruturada com os professores que ministram Geografia na escola

Integrada Dr. José Silva, por tratar-se da escola mais próxima do porto; Observação de aulas com o registro em formulário apropriado, e também os

registros fotográficos, que permitirá uma melhor análise das atividades desenvolvidas; Além desses elementos analisaremos e interpretaremos os dados obtidos na pesquisa, e a partir dessas informações será construída a síntese dissertativa preliminar e, por fim, a elaboração do texto final. Assim o propósito traçado para este projeto, num plano de investigação, interessa contextualizar os conteúdos geográficos ministrados nas salas de aula que dizem respeito a, orientação, (DEETZ, 1948), (BOCZKO, 1984), (ALMEIDA; PASSINI, 1992), (OLIVEIRA, 1993) situação, localização, (UZÊDA, 1963), (OLIVEIRA, 1993), PAGANELLI, (1995), (BORGES, 1999), (SIMIELLI,1999), (SANTOS, 2002), entre outros.

Dessa forma, é possível identificar quais os principais delineamentos metodológicos que se pretende pensar a realidade estudada. As questões como movimento de marés, direção dos ventos, produção e comercialização do pescado, deverão ser estudados com o apoio de: (SANTOS, 2002), (FONSÊCA, 2004), (DA SILVA, 2004), (IBGE, 2008), entre outros.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Venho desde ano de 2003 pesquisando sobre a realidade dos pescadores de São José de Ribamar e seus filhos, analisando o processo produtivo, a política de comercialização do pescado no município, o processo de ensino e aprendizagem nas escolas freqüentadas por essas crianças que na sua maioria estudam na rede pública municipal. Por essa razão, busco na fase atual dar prosseguimento nas leituras já realizadas e ampliar essas leituras a partir do entendimento do olhar que emergem dos saberes cotidianos da comunidade pesqueira, não esquecendo das relações que esse homem tem com o equilíbrio da natureza, em contraposição com aqueles que simplesmente exploram os recursos naturais. O cronograma de pesquisa contempla, a participação em colóquios, em grupo de estudos, em laboratórios de ensino e cartografia aplicada, assim como a realização de disciplinas, participação em eventos em especial com os relacionados com a pesquisa e que possam contribuir com seu desenvolvimento. Durante o ano de 2009, além das disciplinas ministradas, realizarei levantamento bibliográfico. No ano de 2010, realizarei trabalhos de campo na cidade de São José de Ribamar/MA para processamento posterior. Nos anos seguintes a preparação do texto de qualificação e a programação de outras etapas após o alcance de alguns objetivos. Por fim, juntamente com a orientadora, cumprir o programa semestralmente discutido e avaliado, durante as etapas da pesquisa.

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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BOCZKO, R. Conceitos de astronomia. São Paulo: Edgar Blücher, 1984. BORGES, A. de C. Topografia aplicada à engenharia civil. São Paulo: Edgar Blücher, 1999. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: ensino fundamental, Geografia. Brasília: MEC/SEF, 1998. CALLAI, H. C. ; ZARTH, P. A. O estudo do município e o ensino de história e geografia. Ijuí: UNIJUÍ, 1997. CAVALCANTE, L. de S. Geografia, escola e construção de conhecimentos. 3. ed. Campinas: Papirus, 1998. COLL, C. Os conteúdos na reforma: Ensino e aprendizagem de conceitos, procedimentos e atitudes. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. DEETZ, C. H. Cartografia: um estudo e normas para a construção e emprego de mapas e cartas. Boletim Geográfico, Rio de Janeiro, p.145 – 378, maio/jul. 1948. FONSÊCA, A. V. L. Orientação Geográfica: uma proposta metodológica para o ensino da geografia na 5ª série. 2004. 145f. . Dissertação (Mestrado) – Centro de Ciências Humanas e Letras - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2004.   GAMBOA, S. A. S. A dialética na pesquisa em educação: elementos de contexto. In: FAZENDA, Ivani. (org.) Metodologia da pesquisa educacional. 7. ed. São Paulo: Cortez, 2001. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Anuário estatístico do Brasil. Rio de Janeiro, 2001. LAKATOS, E. M; MARCONI, M. A. Fundamentos de metodologia científica. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2007. OLIVEIRA, C. de. Dicionário cartográfico. 4. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 1993. ________ Curso de cartografia moderna. 2. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 1993. PAGANELLI, T. I. Da representação do espaço, ao espaço da representação. In: Colóquio/ Worshop. Rio Claro. Anais. Rio Claro: UNESP, 1995. ________ T. I. A noção de espaço e de tempo – o mapa e o gráfico. Antunes, A. R. et al. Revista orientação. São Paulo. USP, 1985, n.6, p. 21-38. SANTOS, D. A reinvenção do espaço. São Paulo: Unesp, 2002. SIMIELLI, M. E. R. A Geografia e suas linguagens: O caso da cartografia. In: CARLOS, Ana Fani Alessandri. (org.) A geografia na sala de aula. São Paulo: Contexto, 1999. UZÊDA, A.G. Topografia. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1963.