A Importância do uso de mapas no ensino dos movimentos migratórios da população brasileira.

Mary Hellen Sipriano Xavier
maryhellenxavier@oi.com.br Universidade Federal de Juiz de Fora

RESUMO: Este trabalho analisa o uso dos mapas no ensino de Geografia, sob a ótica da importância da alfabetização cartográfica aliada ao domínio do conteúdo trabalhado pelo professor com o auxílio deste recurso. Para isto, focou-se no ensino dos movimentos migratórios brasileiros, buscando pesquisar com este conteúdo é trabalhado na escola com o auxílio de mapas. As fontes dos mapas trabalhados pelos professores também foi pesquisada, a fim de analisar sua adequação e seus possíveis problemas cartográficos. A análise baseou-se em dados de pesquisas qualitativas realizadas com professores da rede estadual de ensino de Juiz de Fora. Apesar de o grupo amostral ser pequeno os resultados apresentados permitem visualizar com os recursos cartográficos tem sido utilizados no ensino de Geografia. Conclui-se a partir deste trabalho que a utilização de mapas no ensino facilita o entendimento dos movimentos migratórios, mas não descarta a utilização de outros recursos e muito menos as explicações e conceitos que devem ser trabalhados pelo professor. Cabe ao professor, ensinar os alunos a analisar os mapas de forma crítica, levando-os a entender que a população brasileira se desloca num espaço que é desigual e desequilibrado.

Palavras- chave: Cartografia, Mapas, Alfabetização Cartográfica, Movimentos Migratórios.

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1) INTRODUÇÃO: A cartografia representa um recurso fundamental para o ensino e a pesquisa de geografia, pois, possibilita a representação dos diferentes recortes do espaço e na escala que convém para o ensino. Sendo assim, a cartografia se fundamenta na leitura e representação do espaço, permitindo, pois a visualização maior desse espaço, onde o aluno entenderá como está inserido neste espaço que pode ser local, regional e global. Através de mapas e outros recursos saberá distinguir os mais diferentes e distantes locais, possibilitando uma visão mais crítica da realidade na qual pertence. Neste sentido, o domínio da linguagem cartográfica por parte do professor e do aluno é hoje uma das competências a serem desenvolvidas, que mais são apontadas pelo PCN:
“O aluno precisa apreender os elementos básicos da representação gráfica/cartográfica para que possa, efetivamente, ler o mapa. Algumas noções, expostas no quadro a seguir, são básicas na alfabetização cartográfica, tais como: a visão oblíqua e a visão vertical, a imagem tridimensional e a imagem bidimensional, o alfabeto cartográfico (ponto, linha e área), a construção da noção de legenda, a proporção e a escala, a lateralidade, referências e orientação espacial” (PCN 1998, p. 77)

Assim há uma grande preocupação de professores em alfabetizar cartograficamente seus alunos transformando-os em leitores de mapas, ensinando-os a linguagem cartográfica e sua decodificação. Para ALMEIDA E PASSINI, 1991:
“Ler mapas, portanto, significa dominar esse sistema semiótico, essa linguagem cartográfica. E preparar o aluno para essa leitura deve passar por preocupações metodológicas tão sérias quanto a de se ensinar a ler e escrever, contar e fazer cálculos matemáticos.” (ALMEIDA E PASSINI, 1991, p.15)

Porém apenas a alfabetização cartográfica concebida como “aprendizagem do alfabeto cartográfico” não é suficiente para que os alunos e professores leiam mapas. É necessário que além do domínio da linguagem cartográfica, professor e aluno saibam os conceitos e informações relacionados aos temas representados nos mapas. O mapa é um recurso que por ser um meio de comunicação de informações de natureza geográfica, deve ser utilizado sempre que possível nas aulas de Geografia. Através de sua leitura é possível estabelecer raciocínios geográficos, fazendo inter-relações. Entendendo o mapa, como um instrumento que desencadeia raciocínios para o entendimento do espaço geográfico, é que SOUZA e KATUTA, 2001 afirmam a necessidade romper com a visão de muitos professores de Geografia que utilizam este recurso apenas como um meio de obter informações e localização:
“É importante salientar a necessidade de romper com visões mecânicas de leituras de mapas incorporadas por muitos docentes, que concebem ser possível apenas retirar desse recurso dados ou informações sobre a localização geográfica dos fenômenos. Tal visão é, a nosso ver, fruto de uma formação docente não comprometida com uma dada prática pedagógica que se queira entendedora e transformadora da sociedade.” (SOUZA e KATUTA, 2001, p.117)

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Diante do exposto faz-se necessário conhecer como o professor trabalha com os mapas na sala de aula, principalmente no ensino dos movimentos migratórios brasileiros, uma vez que este tema ao ser estudado com o auxílio deste recurso se torna mais interessante e leva o aluno ao estabelecimento de raciocínios geográficos. 2) METODOLOGIA: O objetivo desta pesquisa é conhecer a forma que o professor de Geografia trabalha com os recursos cartográficos no ensino dos movimentos migratórios brasileiros. Para isto, primeiro foi realizada uma revisão bibliográfica sobre o tema pesquisado e elaborado um questionário com perguntas que visavam identificar como o professores (as) trabalham os movimentos migratórios em suas aulas, se fazem a utilização de mapas e qual sua concepção sobre a importância da utilização deste recurso no ensino dos movimentos migratórios brasileiros. Além disso, a partir das perguntas elaboradas, buscou-se identificar quais os mapas utilizados pelos professores e suas fontes, para posterior análise de adequação aos alunos e verificação de problemas cartográficos que dificultavam sua interpretação. Assim, as identificações dos livros didáticos adotados para a análise de como estes abordam o tema das migrações internas no Brasil em temos cartográficos e teóricos foi também uma etapa importante desta pesquisa. Foram pesquisadas duas professoras da rede Estadual de Ensino de Juiz de Fora, com experiências de 12 e 25 anos na prática docente, lecionando o tema das migrações na 6ª série do ensino fundamental e 2º ano do ensino médio. As professoras responderam a questionários que visavam identificar como o professor (a) trabalha com o conteúdo dos movimentos migratórios e, se utilizavam mapas ao trabalhar com este tema. (Ver Anexo1) A análise dos questionários permitiu identificar como este recurso tem sido utilizado pelo professores (as) de geografia e sua importância para a compreensão dos movimentos migratórios brasileiros. 3) ENSINO DOS MOVIMENTOS MIGRATÓRIOS BRASILEIROS X MAPAS USO NECESSÁRIO? As migrações mudaram. O fenômeno da mobilidade humana sofreu recentes e profundas transformações, tornando-se cada vez mais intenso, diversificado e complexo. No contexto da economia globalizada, os deslocamentos de massa revelam as contradições ocultas do modelo neoliberal. Assim os movimentos migratórios brasileiros devem ser entendidos no cenário amplo e complexo da economia globalizada, como fluxos de população que se desloca em um espaço desigual e desequilibrado, e que tem passado por intensas transformações nas últimas décadas como afirma RUA, 2003:
“Espacialmente, estas transformações têm tido repercussões marcantes. Se o padrão taylorista - fordista apontava para a concentração, o padrão do capitalismo flexível, pós-fordista, aponta para a descentralização espacial de atividades e até mesmo da população.” (RUA, 2003, p.108)

Estas transformações afetaram a intensidade e a direção das migrações inter-regionais brasileiras, devendo ser também representadas nos mapas temáticos que abordam este tema, uma vez que segundo PASSINI, 1994:
“O mapa é uma representação simbólica de um espaço real (...) sendo um recurso de valor, sempre que estejam envolvidas questões que

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problematizem as ações do homem no espaço. Pois as relações existentes no espaço geográfico dificilmente são perceptíveis no campo, em sua totalidade, sem a sua representação” (PASSINI, 1994, p.23)

O professor deve através da utilização de mapas temáticos que representem os movimentos inter-regionais brasileiros permitir que os alunos estabeleçam raciocínios geográficos, entendendo as mudanças sofridas em relação à intensidade e direção destes fluxos populacionais e suas causas, uma vez que o mapa é um instrumento que deve ser utilizado no ensino de Geografia para desencadear raciocínios para o entendimento do espaço geográfico ou para o entendimento da forma de organização territorial de diferentes sociedades. Através deste recurso pode-se responder e entender as perguntas básicas no estudo das migrações inter-regionais: O que? Ou Quem? Onde? Por quê? E Para onde? Estas informações podem ser representadas nos mapas temáticos de forma quantitativa (Quanto?), ordenadas ou qualitativas (Onde? Quando? Por quê?) e através de sua leitura é possível localizar os objetos de estudo (migrações brasileiras), fazer questionamentos e tentar por meio de subsídios teóricos respondê-los. É importante observar que a respostas aos questionamentos, muitas vezes não dependem somente das informações contidas no mapa, mas também das informações e conhecimentos do leitor, no caso alunos e professores de Geografia. É nesse sentido que SOUZA e KATUTA, 2001 afirmam que:
“... apenas a alfabetização cartográfica, concebida como “aprendizagem do alfabeto cartográfico”, não propicia que alunos e professores leiam mapas. Para que tal fato ocorra é preciso que seus usuários, além de terem o domínio dessa linguagem, saibam conceitos e informações relacionados aos temas representados nos mapas. Caso contrário, a leitura dessa representação inviabiliza-se. ”(SOUZA e KATUTA, 2001, p.116)

Assim o professor ao utilizar este recurso deve antes explicar aos alunos os conceitos de migração, como se dão os movimentos inter-regionais brasileiros no espaço e no tempo, suas mudanças e causas, para depois trabalhar com estes conceitos e conteúdos representados no mapa. Para isto é necessário que o professor domine todo o conteúdo e saiba inclusive as mudanças sofridas atualmente nas migrações inter-regionais brasileiras, afim de que também possa intervir até mesmo na leitura de mapas que já se encontram desatualizados. Quanto a estas mudanças é necessário fazer algumas observações.

3.1) ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE MIGRATÓRIOS BRASILEIROS E SUAS MUDANÇAS

OS

MOVIMENTOS

GOLÇALVES E BARBOSA, 1989 fazem um breve histórico sobre as migrações internas brasileiras. Segundo estes autores com a aceleração do desenvolvimento industrial do país, sobretudo depois de 1956, acentuaram-se o processo migratório interno, que já vinha ocorrendo desde 1930. A região Sudeste e o Norte do Paraná transformaram-se em grandes centros de atração populacional, proveniente em sua maior parte do Nordeste brasileiro. Com a industrialização, a rede de transporte foi se aperfeiçoando. A razão é óbvia: a indústria precisa receber matérias-primas e enviar seus produtos para outras regiões. Se não houver estradas boas, as viagens serão mais demoradas e, como sabemos, num país capitalista, tempo é dinheiro. Além disto, o desenvolvimento capitalista industrial precisa ter mão-de-obra disponível, pois não adianta dispor de máquinas e matérias-primas e não ter quem as opere nas fábricas. Por 4   

isso se diz que o desenvolvimento do capitalismo industrial precisa sempre de mão-de-obra pronta a se deslocar para os setores e regiões onde os capitalistas estão fazendo investimentos. Se observarmos com atenção o processo migratório interno do Brasil, veremos que a redistribuição da população pelo território segue os passos da expansão do capitalismo no Brasil, que se acentuou nas décadas de 50,60 e 70. A partir do final dos anos 60, e principalmente dos anos 70, as grandes indústrias, muitas delas multinacionais, resolveram investir em grandes projetos agropecuários no Centro-Oeste e na Amazônia. Grandes correntes migratórias passaram então a se dirigir para essas regiões. Na década de 80 a região Nordeste continuou sendo importante fornecedora de mão-deobra para os grandes investimentos que foram feitos em outras partes do território, porém observa-se que muitos paranaenses, gaúchos e catarinenses migraram para o Centro-Oeste e para Amazônia. São descendentes de imigrantes que vieram para o Brasil entre os séculos XIX e XX. Como a migração não é resultado apenas da tração que uma área exerce sobre os indivíduos, mas também das dificuldades encontradas por estas pessoas em seus lugares de origem, o fato de muitos sulistas terem abandonado suas terras indicam que aí também devem ocorrer graves problemas sociais. A distribuição da população pelo território, portanto só pode ser compreendida se analisarmos as condições sociais, econômicas e políticas da ocupação do espaço geográfico. Os referidos autores estavam corretos em fazer estas análises, que também podem ser visualizadas e compreendidas através de mapas que retratem estes diferentes períodos descritos acima. Hoje as migrações apresentam novas mudanças que também devem vir representadas nos mapas que retratem os movimentos migratórios internos atuais. Podemos citar as seguintes alterações nos fluxos migratórios atuais: • Aumento dos movimentos intra-regionais em direção as cidades médias; • Redução da migração nordestina para o Sudeste; • Crescimento populacional das capitais dos estados das regiões Norte e Nordeste devido ao processo de desmetropolização; • Fluxos inter-regionais direcionados para a Amazônia. As mudanças citadas não ocorreram por acaso, suas causas podem ser explicadas no contexto atual do neoliberalismo e seus impactos no espaço e nos movimentos populacionais, como afirma RUA, 2003:
“As tendências atuais, marcadas pelo pós-fordismo e pelo neoliberalismo, apontam para uma fragmentação e descontinuidade na qual o espaço ganha novos atributos e significados. A desindustrialização, o desemprego tecnológico, a desmetropolização e a “dissolução da metrópole indicam novas características para as migrações. Os impasses do processo migratório marcam as relações internacionais. No Brasil, as migrações de longa distância (Nordeste/Sudeste, Nordeste/Amazônia e Sul/Amazônia) passam a ser superadas pelas migrações de curta distância (intra-regionais). Estas alterações implicam explicações de caráter econômico, político, social/cultural, não-abrangidas pelas análises tradicionais.” (RUA, 2003, p.103, 104)

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3.2) PROFESSORES E O USO DOS MAPAS NO ENSINO DOS MOVIMENTOS MIGRATÓRIOS Assim a partir do exposto buscou-se observar como o estudo dos movimentos migratórios e o uso de mapas para sua representação é abordado na escola, pelos professores de Geografia. E o que estes pensam sobre a relevância deste tema. As análises dos questionários aplicados mostram que os que as professoras pesquisadas utilizam mapas em suas aulas, e consideram importante o uso deste recurso no estudo dos movimentos migratórios:
“O uso de mapas é essencial para se entender os fluxos migratórios, pois facilitam a compreensão do assunto.” (Profª. A) “Os mapas são importantes para visualizar os maiores fluxos de entrada e saída. Ajudam o aluno a não decorar a matéria e entender com mais facilidade.” (Profª. B)

As falas das professoras revelam o uso do mapa como um recurso que ajuda na compreensão do conteúdo estudado, não substituindo as explicações e conceitos que devem ser desenvolvidos pelo professor. Quanto ao desenvolvimento da leitura de mapas com os alunos e o interesse destes ao utilizar este recurso às respostas foram às seguintes:
“A leitura de mapas é muito importante no ensino de geografia, pois os mapas são uma fonte de informação muito mais agradável de ler. Porém o interesse varia de acordo com as turmas que trabalho, algumas apresentam interesse por este recurso, já outras acham “chato” e não se interessam. ”(Profª. A) “Acho muito importante desenvolver a leitura de mapas com meus alunos, e tento fazer isto constantemente usando mapas sempre que possível, assim os alunos ficam bem interessados pelo assunto e aprendem a fazer relações sem ter que decorar o conteúdo.” (Profª. B)

É importante destacar que a Profª. A trabalha com turmas de 2º ano do ensino médio, já a Profª. B com turmas da 6ª série do ensino fundamental, as duas lecionam na mesma escola, porém as respostas foram diferenciadas quanto a interesse dos alunos.Talvez esta diferença em termos de interesse ocorra devido a faixa etária dos alunos que estão em fases de desenvolvimento diferenciadas e portanto se interessam por assuntos diferentes. As duas professoras afirmaram sentirem-se seguras ao desenvolver a leitura de mapas com seus alunos e afirmaram dominar o tema dos movimentos migratórios brasileiros. Afirmam buscar que os alunos não realizem apenas a leitura dos mapas, mas que compreendam quais são as representações ali impressas, estabelecendo raciocínios geográficos. As professoras disseram que ao preparar suas aulas procuram sempre se atualizar fazendo consultas em vários livros, em materiais da internet, revistas e jornais. Porém, muitos alunos não têm interesse e não perguntam nada. Uma das professoras afirmou trabalhar o conteúdo dos movimentos migratórios brasileiros com exemplos de Juiz de Fora, procurando fazer pesquisas em sala a respeito da origem dos estudantes, perguntando de onde suas famílias vieram para mostrar a relevância de se estudar as migrações:

“Procuro sempre iniciar este conteúdo fazendo uma pesquisa na sala sobre a origem das famílias dos alunos. Faço este levantamento e localizo as cidades ou estados dos quais vieram no mapa do Atlas, mesmo assim alguns não se interessam.” (Profª. A)

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Observa-se que as duas professoras apontaram a falta de interesse dos alunos, mesmo quando o tema estudado é trabalhado com um auxílio de mapas que tem por objetivo levá-los a estabelecer raciocínios geográficos, tornando o conteúdo mais atrativo. Talvez este desinteresse seja explicado pela falta de consciência dos alunos das possibilidades de uso do mapa e de sua importância para se obter informações até mesmo no seu cotidiano. Este pensamento equivocado pode ser resultado de uma formação na qual os mapas e conteúdos deveriam ser memorizados sem relação entre os mesmos. Assim CASTROGIOVANNI e COSTELA, 2006 afirmam que:
“O resultado desta forma de aprender é encarar a Geografia como saber inútil, presente nos currículos escolares porque ainda representam acertos nas provas classificatórias de concursos ou vestibulares.” (CASTROGIOVANNI e COSTELA, 2006, p.14)

Deve-se mostrar para os alunos a importância do uso de mapas no estudo dos movimentos inter-regionais brasileiros não como forma de memorizar quais foram os deslocamentos da população ao longo da história, mas sim como um instrumento que possibilita uma melhor compreensão do espaço geográfico brasileiro, auxiliando no desvendamento de uma determinada realidade, identificando as causas e as relações que desencadearam e continuam provocando estes deslocamentos. Assim como também levando a análises das transformações que estes fluxos sofreram atualmente. Para ALMEIDA E PASSINI, 1991:
“Uma vez que a geografia é uma ciência que se preocupa com a organização do espaço, para ela o mapa é utilizado tanto para a investigação quanto para a constatação de seus dados. A cartografia e a geografia e outras disciplinas como a geologia, biologia caminham paralelamente para que as informações colhidas sejam representadas de forma sistemática e, assim, se possa ter a compreensão “espacial” do fenômeno. O mapa é de suma importância para que todos que se interessem por deslocamentos mais racionais, pela compreensão da distribuição e organização dos espaços, possam se informar e se utilizar desse modelo e tenham uma visão de conjunto.”(ALMEIDA E PASSINI,1991,p.16)

É esta concepção de geografia e de mapa que o professor (a) deveria trabalhar com seus alunos, despertando maior interesse pela disciplina. 4) MOVIMENTOS MIGRATÓRIOS X LIVROS DIDÁTICOS X MAPAS Os Parâmetros Curriculares Nacionais têm na “Cartografia-como instrumento na aproximação dos lugares e do mundo” um dos eixos de trabalho no 3º ciclo. Esta ênfase dada pelo PCN à Cartografia fez com que muitos autores de livros didáticos concentrassem o assunto em um único tópico do programa curricular, como se a representação pudesse ser separada dos conteúdos representados. Alguns livros didáticos só apresentam mapas no capítulo dedicado à cartografia, abordando o tema dos movimentos migratórios inter-regionais apenas com imagens e gráficos. Diante disso cabe verificar quais são os livros utilizados pelas professoras pesquisadas e como eles abordam os conteúdos dos movimentos migratórios inter-regionais e sua representação cartográfica. 7   

As professoras foram indagadas sobre as fontes dos mapas utilizados em suas aulas e responderam utilizar os mapas do livro didático e do Atlas. Os livros adotados na escola pesquisada são escolhidos no início do ano por todos os professores de Geografia em conjunto, que tentam escolher livros que levem os alunos a pensar e que esteja adequado a realidade dos alunos. Quantos aos livros adotados apresentam diferenças em termos de série, autor e coleção. O livro adotado pela Profª. A, que leciona no 2º ano do ensino médio é Geografia Volume único de referência: • LUCCI, Elian Alabi; BRANCO, Anselmo Lazaro; MENDONÇA, Cláudio. Geografia Geral e do Brasil. São Paulo: Saraiva 2007. Já o livro adotado pela Profª. B, que leciona na 6ª série é o do Projeto Araribá que é adotada em todo o ensino fundamental. Sua referência é: • AOKI, Virginia. Projeto Araribá. Geografia. 6ª série. São Paulo: Moderna, 2006.

O livro do ensino médio apresenta o conteúdo dos movimentos migratórios após trabalhar a indústria, a agricultura e o espaço agrário o que leva o aluno a compreender melhor os movimentos migratórios e suas causas. Segundo a Profª. A:
“O livro apresenta o conteúdo dos movimentos migratórios de forma bem abrangente e coerente levando o aluno a compreender as causas destes movimentos de maneira crítica.” (Profª. A)

Já o livro do ensino fundamental segundo a Profª. B:
“Aborda o conteúdo das migrações de forma superficial não aprofundando muito o tema. Mas é bem rico em gráficos e mapas.” (Profª. B)

Estas observações das professoras podem estar relacionadas à série que o conteúdo é abordado. É natural que o livro do ensino médio aprofunde mais o tema, pois os alunos já estão numa fase do desenvolvimento cognitivo que lhe permitem maiores abstrações estabelecendo raciocínios mais complexos. Os dois livros apresentam as migrações a partir de um enfoque histórico-estrutural, ou seja, aponta o capitalismo como responsável pelo desenvolvimento desigual/desequilibrado no espaço levando a expulsão das populações que migram em busca de melhores condições de vida. Neste enfoque a idéia de migrações espontâneas é fortemente combatida, enfatizando-se o direcionamento dos fluxos de acordo com as necessidades do modelo econômico, responsável pelas determinações estruturais. RUA, 1993 defende esta abordagem afirmando que:

“Quando se fala em migrações é fundamental lembrar que migram aqueles que não conseguem uma exigência condigna em determinado lugar. Estes são “empurrados” para fora do local onde vivem e passam a constituir massas de trabalhadores onde isto se faça necessário à reprodução ampliada do capital. ”(RUA, 1993, p.152)

Baseando-se neste enfoque, os livros trazem mapas que representam os fluxos migratórios em determinados períodos. Estes fluxos são direcionados de acordo com as condições econômicos e estruturais da época que estão sendo abordados.

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O livro utilizado no ensino médio apresenta apenas um mapa que representa os fluxos migratórios no Brasil no período de 1970 a 1980. O mapa apresenta título, legenda, escala fonte e a orientação de forma correta, estando também adaptado ao leitor ao qual se destina (alunos do ensino médio). (Ver anexo 2) Já o livro utilizado na 6ª série apresenta dois mapas, um representando o período de 1950 e 1970 e o outro de 1995 a 2000. Os dois apresentam título, legenda, escala orientação e fonte corretamente e também estão adaptados à série a qual se destina. (ver anexo 3 e 4) O Atlas é adotado no início do ano, sendo que as duas professoras preferem utilizar o Geoatlas da Maria Elena Simielli. Neste Atlas, são apresentados três mapas temáticos que abordam os movimentos migratórios inter-regionais brasileiros em períodos diferenciados. O primeiro aborda o período de 1950 a 1970, o segundo de 1970 a 1990 e o terceiro de 1990 em diante. Os mapas apresentam título informando o período representado, legenda indicando os principais fluxos e a fonte. Elementos como a escala e orientação não foram representados. (ver anexo 5) É muito importante que os mapas apresentem estes elementos cartográficos, como legenda, escala título, fonte e orientação de forma correta a fim de não comprometer sua interpretação. CASTROGIOVANNI e COSTELA, 2006 apontam alguns problemas cartográficos no aprender geográfico: A legenda: é um problema cartográfico porque requer uma análise com certo grau de abstração. Muitas vezes os alunos não acreditam na significância do que está sendo representado. Escala: só pode ser melhor entendida a partir da 6ª série quando o entendimento euclidiano da escala é realizado. Orientação: é um dos maiores problemas enfrentados pelos adultos. Muitas vezes, por ser mal trabalhada, induz a uma construção errada de conceito. Ainda segundo as autoras citadas acima:
“O conjunto de problemas cartográficos evidenciados anteriormente, que configuram representações de leituras de mapas, podem ser resolvidos se forem trabalhados, a partir de atividades condizentes e bem elaboradas. Essas atividades devem estar de acordo com o desenvolvimento cognitivo e interesse dos alunos, sendo elaboradas a partir da participação em oficinas, em atividades que utilizem o lúdico e/ou concreto como ponto de partida.” (CASTRIGIOVANNI e COSTELA, 2006, p. 50,51)

Mas cabe lembrar que não basta que os professores ensinem seus alunos a serem apenas bons leitores de mapas. É necessário que professor e aluno dominem os conceitos dos temas trabalhados e representados nos mapas. É neste sentido que SOUZA e KATUTA, 2001 afirmam que não basta alfabetizar cartograficamente é necessário atribuir significados, construir representações a partir dessa representação, defendendo assim a “leiturização cartográfica” na qual:
“Leiturizar geográfica e cartograficamente o aluno, portanto, implica não somente ensiná-lo a ler o “alfabeto cartográfico”, mas também ensiná-lo a construir pensamentos sobre a representação. ”(SOUZA e KATUTA, 2001, p.139)

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Assim o uso de mapas no ensino dos movimentos migratórios e da geografia implica “leiturizar” o aluno para que este, pela leitura de mapas, entenda a lógica das diferentes territorialidades produzidas neste novo contexto de globalização e capitalismo que alterou a direção e a intensidade destes fluxos migratórios populacionais num espaço desigual e desequilibrado.

5) CONSIDERAÇÕES FINAIS: O estudo dos movimentos migratórios brasileiros pode se tornar muito mais interessante por meio da utilização de um recurso que represente como estes fluxos se dão no espaço. O uso de mapas neste processo é fundamental, porém não substitui a explicação do professor, que deve dominar além da leitura cartográfica os conceitos indispensáveis para compreensão do tema representado. Cabe ao professor a tarefa de despertar nos alunos o interesse pela leitura e interpretação de mapas, mostrando que a partir deste recurso é possível analisar e compreender o espaço geográfico e também como a população brasileira se desloca neste espaço desigual e desequilibrado. Sabe-se, porém que esta não é uma tarefa fácil de ser realizada levando-se em consideração a atual circunstância onde os meios de comunicação e as inovações tecnológicas despertam mais facilmente o interesse dos alunos por quaisquer outros assuntos, deixando que as conclusões sobre o saber geográfico sejam impostas por meios de comunicação em massa. Neste contexto, cabe à escola e ao professor de geografia ao trabalhar com os movimentos migratórios brasileiros, despertar nos alunos uma visão crítica compreendendo as verdadeiras causas que levam a estes deslocamentos, explicitando as contradições que cercam o sistema capitalista e o modelo neoliberal. A utilização dos recursos cartográficos contribui muito para que este objetivo seja alcançado, desenvolvendo nos alunos habilidades e competências que os levem a se tornar cidadãos críticos e conscientes sobre o seu papel na sociedade, sabendo ler e interpretar de forma crítica o mundo que os cerca. 6) REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ALMEIDA, Rosângela Doin de; PASSINI, Elza Yasuko. O Espaço Geográfico: Ensino e Representação. 3 ed. São Paulo: CONTEXTO,1991. AOKI, Virginia. Projeto Araribá. Geografia. 6ª série. São Paulo: Moderna, 2006. CASTROGIOVANNI, Antonio Carlos; COSTELLA, Roselane Zordan. Brincar e Cartografar com os Diferentes Mundos Geográficos: A Alfabetização Espacial. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2006. GONÇALVES, C.W.P; BARBOSA, J.L. Geografia Hoje: O Espaço Geográfico da Sociedade Brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1989. LUCCI, Elian Alabi; BRANCO, Anselmo Lazaro; MENDONÇA, Cláudio. Geografia Geral e do Brasil. São Paulo: Saraiva 2007. PASSINI, Elza Yasuko. Alfabetização Cartográfica e o Livro Didático: Uma Análise Crítica. Belo Horizonte: LÊ, 1994. PCN- Parâmetros Curriculares Nacionais: Geografia /5ª a 8ª série. Brasília: MEC/SEF, 1998. RUA, João. População e Cidadania. In: CASTROGIOVANNI, Antonio Carlos; CALLAI, Helene Copetti; SHAFFER, Neiva Otero; KAERCHER, Nestor André. Geografia em Sala de Aula: Práticas e Reflexões. Porto Alegre: UFRGS, 2003. RUA, João; WASZKLAVICUS, Fernando Antonio; TANNURI, Maria Regina Petrus; NETO, Hellon Póvoa. Para Ensinar Geografia: Contribuição para o trabalho com 1º e 2º graus. Rio de Janeiro: ACCESS, 1993. SOUZA, José Gilberto de; KATUTA, Ângela Massumi. Geografia e Conceitos Cartográficos: A Cartografia no Movimento de Renovação da Geografia Brasileira e a Importância do Uso de Mapas. São Paulo: UNESP, 2001. 10   

7) ANEXOS:

Anexo 1: Pesquisa: A importância do uso de mapas no ensino dos movimentos migratórios da população brasileira.

QUESTIONÁRIO Professor(a):__________________________________________________________________ Escola:_______________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________ 1Há quantos anos você leciona como professor (a) de Geografia?

2-

Quais são as séries em que você trabalha?

3-

Em quais séries você trabalha o conteúdo de população?

4-

Ao trabalhar com o tema dos Fluxos Migratórios utiliza mapas?

( ) Sim ( ) Não. Em caso positivo de quais fontes? ( ( ( ( ( ) ) ) ) ) Uso de mapas do livro didático Uso de mapas retirados em revistas Uso de mapas obtidos na internet Mapas de criação própria Mapas produzidos pelos alunos

5- Nos mapas que você utiliza quais as convenções cartográficas que eles apresentam?

6-

Como você se sente ao desenvolver com seus alunos a leitura de mapas?

7-

Qual é livro didático adotado?

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8-

Como ele aborda o estudo da população? E os movimentos migratórios?

9-

Quando planeja as suas aulas, quais as fontes que você consulta?

10- Já observou diferenças entre mapas que tratam dos movimentos migratórios? O que notou de diferente?

11- Você acha importante desenvolver a leitura de mapas com seus alunos? Por quê?

12- Você nota interesse das turmas no uso de mapas durante as aulas?

13- Como seus alunos se comportam diante de lugares que não sabem a localização?

14- Em suas turmas existem alunos de outras cidades, estados ou países?

15- Quais são as perguntas mais freqüentes no estudo das migrações?

16- Eles localizam nossa cidade nos mapas?

17- Procura trabalhar o tema da migração com exemplos de Juiz de Fora?Quais exemplos? 12   

18- Para você qual é a importância do uso dos mapas no estudo dos movimentos migratórios?

Anexo 2:Mapa do livro do ensino médio

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Anexo 3:Mapa do livro do ensino fundamental

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Anexo 4:Mapa do livro do ensino fundamental

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Anexo 5:Mapas do Geoatlas

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