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"A despeito dos incontáveis acontecimentos incoerentes e maléficos em nossas vidas, dos incríveis fatos que se sucedem, dos desvios

das reiteradas insanidades da histór ia humana, tanto coletiva como individualmente, acreditaremos ser nossa incumbênci a prosseguir com o mundo, pois ele é, afinal, o 'mundo de Deus', devendo, portanto , haver significado e bondade ocultos em seus processos, mesmo que seja difícil di scerni-los. Assim, devemos continuar no cumprimento de nosso papel dentro do sis tema, da melhor maneira possível, sendo filhos obedientes, maridos zelosos, esposa s respeitosas, bem-comportados açougueiros, padeiros, fabricantes de velas, espera ndo contra toda esperança, que uma revelação do significado resulte, de algum modo, de ssa vida de resignação sem sentido. Não é assim, disseram os gnósticos. Dinheiro, poder, governo, constituição de famílias, paga mento de impostos, a infinita série de armadilhas das circunstâncias e obrigações - nada disso foi jamais rejeitado tão total e inequivocadamente na história humana como pe los gnósticos. Estes nunca esperaram que alguma revolução política ou econômica pudesse, o u devesse, eliminar todos os elementos iníquos do sistema em que a alma humana enc ontra-se aprisionada. Sua rejeição não se referia a um governo ou sistema de proprieda de em favor de outro; ao contrário, dizia respeito à total e predominante sistematiz ação da vida e da experiência. Portanto, os gnósticos eram na verdade conhecedores de um segredo tão fatal e terrível que os governantes deste mundo - i.e., os poderes, sec ular e religioso, que sempre lucraram com os sistemas estabelecidos da sociedade - não podiam permitir-se ver esse segredo conhecido e, muito menos, tê-lo publicam ente proclamado em seus domínios. De fato, os gnósticos sabiam algo: a vida humana não alcança a sua realização dentro das estruturas e instituições da sociedade, porque estas representam, na melhor das hipóteses, apenas obscuras projeções de outra realidade mai s fundamental. Ninguém atinge sua verdadeira natureza individual sendo o que a soc iedade espera nem fazendo o que ela deseja. Família, sociedade, igreja, ocupação e pro fissão, lealdade patriótica e política, bem como regras e normais morais e éticas, na re alidade de modo algum conduzem ao verdadeiro bem-estar espiritual da alma humana . Ao contrário, constituem, com maior frequência, as próprias algemas que nos alienam de nosso real destino espiritual.

Esse aspecto do gnosticismo foi considerado herético em épocas passadas e até hoje cos tuma ser chamado de 'negação do mundo' e 'antivida'; porém, constitui, obviamente, nad a mais que boa psicologia e boa teologia espiritual, por se tratar de bom senso. O político e o filósofo social podem considerar o mundo um problema a ser resolvido , mas o gnóstico, como seu discernimento psicológico, reconhece-o como uma condição da q ual precisamos nos libertar pela visão interior. Isso porque os gnósticos, como os p sicólogos, não buscam a transformação do mundo mas a transformação da mente, com sua consequê cia natural: uma mudança de postura perante o mundo. Jung reafirmou uma antiga per cepção gnóstica ao dizer que o extrovertido ego humano deve, em primeiro lugar, tomar plena consciência de sua própria alienação do Self Superior, antes de poder começar a reto rnar ao estado de união mais íntima com o inconsciente. Até nos conscientizarmos intei ramente da inadequação de nosso estado de extroversão e de sua insuficiência quanto às nos sas necessidades espirituais mais profundas, não obteremos nenhum grau sequer de i ndividuação, através da qual uma personalidade mais madura e ampla surge. O ego aliena do é o precursor e uma pré-condição inevitável do ego individualizado (daí o a existência de nstituições e sistemas TAMBÉM serem, em parte, inevitáveis!)". Como Jung, os gnósticos não r ejeitavam a terra 'per se', que reconheciam uma tela sobre a qual o Demiurgo da mente projeta seu sistema ilusório. Quando nos deparamos com uma condenação do mundo n os escritos gnósticos, o termo usado é fatalmente 'Kosmos' ou este 'eon' e nunca a p alavra 'ge' (terra), que consideram neutra, se não totalmente satisfatória. Era desse conhecimento - o conhecimento que se tem no próprio coração a respeito da in utilidade espiritual e absoluta insuficiência das instituições e valores estabelecidos do mundo exterior - que os gnósticos valiam-se para construir tanto uma imagem de ser universal como um sistema de inferências coerentes a serem extraídas dessa imag em."

uma única opção. Essa premonição certamente não constitui uma experiência exclusiva de Jung. todas as trivialidades do mundo cotidi ano. Pode-se dizer que essa atitude consistia da convicção de que o conhecimento direto. Os antigos gnósticos não eram sectários nem membros de uma nova religião específi ca. em t odas as pessoas. felicidade e amor a p artir de algo ou de alguma experiência não passam de sinais de uma inesgotável saudade do Pleroma. O estado de esquecimento da Gnose sempre carrega consigo um perturbador senso de privação. A longo prazo. ou mesmo um saber filosófico da verdade." . Jung precisou viver a experiência orig inal. pessoal e absoluto das verdades autênticas da existência é ace ssível aos seres humanos e. são incapazes de apagar a su a lembrança. Jung escreveu que a imagem que temos do mundo somente corresponde à re alidade quando o improvável tem lugar nela. a Urerfahrung (experiência arcaica original). há mais pessoas familiarizadas com o antônimo de gnóstico. a partir de cujo mu ndo de sombras Jung produziu os Sete Sermões. que trai o seu. em grego .gnostikoi. que não se aplacará até que seu único objetivo verdadeiro . todas as suas tentativas de obter estímulo. pois somos menos humanos na medida em que a n egligenciamos ou ignoramos.denotando aqueles que possuem a gnose ou o conhe cimento. ele nunca pôde escapar a uma condição que posteriormente descreveu como pre monição de um mundo de sombras ao qual não se podia escapar. É improvável que a ordem prevaleça sobre o c aos e que o significado vença a falta de sentido. como ele a chamou. levou-o ao mundo de sombras de Basilides e aos mortos inquiridores . como queriam seus detratores. de uma percepção desse mundo de sombras." "Havia apenas um caminho aberto. literamente. só os que 'sabem' podem prestar serviço útil. Somente aqueles que descobriram o caminho de casa podem revelá-lo aos outros. A negação da Gnose apenas afirma secretamente o seu poder. o elemento transcendente de uma gnose interior encontra-s e indelevelmente gravado no coração do homem. esse termo significa um desconhecedor ou ignorante . O argumento igualitário de que os desinformado s podem prestar serviço ao mundo desde que bem-intencionados é invalidado por esse f ato. que é o verdadeiro lar da alma." "Certa vez. Essa experiência de Gnose. pois são eles que conh ecem a estrada por tê-la percorrido. isto é. a 'plenitude do Ser'. De fato. parecem ter representado uma classe muito mais inter essante que o último grupo. Pode-se dizer q ue é essa vocação que nos torna humanos. na maioria. No entanto."As palavras 'gnóstico' e 'gnosticismo' não são exatamente comuns no vocabulário dos nos sos contemporâneos. mas é compartilhada até certo ponto por t oda a humanidade. Um homem que perdeu seu rumo revela-se um guia medíocre. As árvores e as flores. o improváv el representa a verdadeira vocação. 'agnóstico'. que a obtenção de tal conhecimento deve sempre constituir a suprema realização da vida humana. mas um conhecimento que brota no coração de forma misteriosa e intuitiva . Os antigos gnósticos. mas pessoas que compartilhavam entre si certa atitude perante a vida. sendo chamado em algumas obras gnósticas de 'Gnosis kardias': o conhecimento do coração. costumavam dizer que todos os desejo s de uma pessoa. os pássaros e os animais que seg uem o próprio destino são superiores ao homem. Em oposição aos não-conhecedores.e não os muitos falsos e enganosos . mais ainda. o improvável acontece. mas em sentido figurativo descreve uma pessoa sem fé religiosa que não obstante se ressente de ser chamada de ateísta. A natureza gnóstica da vocação humana evidencia-se pela presença. eles se consideravam conhe cedores . No entando. os gnósticos já existiam muito antes dos agnósticos e. o autêntico destino do ser humano. ele é possível e não está fora de nosso alcance. Num sentido muito verdadeiro. Apesar de sua não-racionalid ade e improbabilidade. decorrentes da desatenção e da consequente ignorância. Mesmo enquanto vivia no mundo radiante iluminado pela luz do sol de seus prime iros anos.seja novamente encontrado. Esse conhecimento ou Gnose não era co ncebido como um saber racional de natureza científica.