You are on page 1of 32

EME Prof.

ª Alcina Dantas Feijão
ANARQUIA
Caroline, 7
3
!ão Caetano "o !#l
$%&&
Caroline A'aral
ANARQUIA
Mono(rafia a)resenta"a, so*
orienta+ão "o Prof. Alessan"ro, ,
EME Prof.ª Alcina Dantas Feijão co'o
#' "os re-#isitos )ara o*ter o
certifica"o "e concl#são "o Ensino
M."io.
!ão Caetano "o !#l
$%&&
!UM/RI0
ÌNTRODUÇÃO
1 MÌTOS E VERDADES
1.1 A opinião popular
1.2 Mitos X realidade
2 O QUE É ANARQUÌA, AFÌNAL?
2.1 Contexto histórico
2.2 Conceito
3 CONCEPÇÕES FÌLOSÓFÌCAS
3.1 Ìntrodução
3.2 Niilismo
3.3 Ceticismo
3.4 Como esses pensamentos se relacionam à Anarquia
4 ANARQUÌA X COMUNÌSMO
5 MOVÌMENTO PUNK
5.1 Contexto histórico
5.2 Pré Punk
5.3 Punk Rock
5.5 Anarco-punk
5.6 O movimento
5.8 O movimento punk no Brasil
6 A ANARQUÌA E A ARTE
6.1 Anarquistas fazendo Arte
6.2 Anarquias nas Artes
6.2 Anarquias nas Artes no Brasil
7 A ANARQUÌA E O CÌNEMA
7.1 Anarquistas fazendo Cinema
7.2 Anarquias no Cinema
7.2 Anarquias no Cinema brasileiro
8 COMO ALCANÇAR OS PRÉ-REQUÌSÌTOS PARA SE TER UM GOVERNO
LÌBERTÁRÌO
CONCLUSÃO
REFERÊNCÌAS
IN1R0DU230
Esta monografia fala sobre Anarquia, em seu contexto político, artístico e
filosófico. A forma mais conhecida de Anarquia, marcada pelo símbolo da letra A
envolta em um circulo em vermelho, marcou nas pessoas o movimento anárquico
na política, como alternativa de governo, mas este é apenas um aspecto, a
anarquia como um todo, abrange muitos outros campos.
De todos os movimentos sociais, a anarquia parece ser aquela em que o
cidadão comum sabe que existe, mas conhece muito mais os mitos e preconceitos
do que as verdades, esta monografia se propõe a quebrar esses mitos e
apresentar todos os aspectos diferentes para o assunto. Conhecer historicamente
a sociedade faz com que o individuo a entenda e permite que ele seja crítico sobre
ela, colaborando com a justiça e a democracia. O cidadão que de nada conhece
do mundo, não cria embasamento em suas argumentações e muitas vezes não
sabe expressar o que sente em relação ao que vê.
A monografia começa apresentando os maiores absurdos que se ouve ao
questionar a uma pessoa "o que é Anarquia?¨, para cada mito, uma verdade, até
que no capítulo seguinte "O que é Anarquia, afinal?¨ o termo seja conceitualizado.
No terceiro e no quarto capítulos é dada a base teórica para entender as
aplicações da anarquia nos diferentes modos em que ela se apresenta. Logo
depois os argumentos são explorados até cessar a dúvida principal no estudo
Anárquico: "como seria possível colocá-la em prática?¨.
$ MI10! E 4ERDADE!
Mito5 "Seria uma gritaria, vários rebeldes quebrando cadeiras"
Reali"a"e5 Não haveria motivos para rebeldia no Sistema Anárquico, já que todos
seriam livres para ser, pensar, agir, ir e vir. Claro que todo sistema pode gerar
insatisfação, mas ideologicamente seria improvável.
Mito5 "A sociedade sem governo viraria uma bagunça, crimes não seriam punidos,
qualquer um ia poder fazer o que quisesse independente das conseqüências"
Reali"a"e5 A Sociedade não precisaria de governo, os homens saberiam suas
obrigações e direitos tão organicamente que o fazem pela consciência, não pelo
medo da punição.
Mito5 "Uma verdadeira zona, terra de ningum, lei do mais forte, confusão, sem
!ustiça, sem segurança social, sem investimentos estrangeiros, alta criminalidade,
sem ordem alguma e portanto, um pa"s miserável e sem perspectivas#"
Reali"a"e5 Na Anarquia a liberdade do homem não deve infringir a liberdade do
outro. E quem fiscalizaria? A própria população. Os investimentos estrangeiros
seriam inúteis em um estado anarquista já que não existiria moeda, pelo menos
não a moeda como a conhecemos hoje. O objetivo de uma anarquia instaurada
seria de se espalhar pelo mundo.
Mito5 "$ocê anarquista, então você bebe, se droga, não faz nada da vida"
Reali"a"e5 Um anarquista pode beber, se drogar e não fazer nada da vida como
qualquer outro cidadão.
Mito5 "% a subsistência& % a tecnologia& % o avanço da 'umanidade&"
Reali"a"e5 A subsistência seria mantida através de cooperativas e toda a
população teria direito a tudo. A tecnologia evoluiria de acordo com o necessidade,
sem esse entulho tecnológico e invenções inúteis. O avanço da humanidade se
daria mais intelectualmente do que materialmente, um ser humano consciente e
que busca a conscientização e o conhecimento aprende a viver melhor em seu
meio, em sua sociedade e consigo mesmo.
Mito5 "A Somália uma Anarquia&"
Reali"a"e5 A Somália foi considerada uma Anarquia entre 1991 e 2006, já que
depois da queda do governo de Siad Barre o país ficou sem governo. Mas hoje ela
é governada por senhores de guerra rivais.
A Anarquia que houve na Somália não tem a ver com a Anarquia idealizada
por Bakunin, Proudhon e outros teóricos do Anarquismo Político.
$ 0 QUE 6 7ANARQUIA8, AFINA9:
$.& Conte;to <ist=rico
Não existiu um idealizador do Anarquismo, como Karl Marx foi do
Comunismo, provavelmente porque o sentimento libertário existe no ser humano
instintivamente. Os animais são de certa forma anarquistas, eles convivem em
ajuda mútua para conseguir abrigo, alimento e defesa contra predadores. O mundo
animal é governado pelo meio, não por uma força imposta. Humanos, animais que
são, tem estes instintos também que são ignorados sob desculpa de convivência
em sociedade.
Na pré-história, mais especificamente no Período Neolítico, o homem
construiu uma sociedade comunitária com base no conceito de cooperação - a
terra, os rebanhos e os instrumentos eram de todos, e o indivíduo poderia se
considerar dono deles se pertencesse àquela sociedade. A partir desta sociedade
de características anarquistas começa a se formar o pensamento que vemos até
hoje, de que território é poder, de que é necessário que alguém lhes diga o que
fazer e o que pensar. Os primórdios das idéias anarquistas vêm do ser humano em
sua essência. Como concepção vital, o anarquismo afirma que tudo o que limita a
liberdade do ser humano deve ser suprimido.
É característico de todas as mitologias conservar a lembrança de revoltas, e,
inclusive de lutas nunca acabadas de uma raça rebelde contra os deuses mais
poderosos. Dos Titãs que assaltaram o Olímpio, a Prometeu, que desafiou Deus,
das forças misteriosas que, na mitologia escandinava, provocavam o "crepúsculo
dos deuses", ao diabo que na mitologia cristã, nunca cede e sempre combate o
bom Deus em cada individuo. É estranho que histórias como estas nunca tenham
sido censuradas, afinal são atentados perigosos para a onipotência de seus
deuses e poderiam desencadear uma onda de ateísmo.
Estes comportamentos (os libertários) estão tão enraizados na alma popular
que nenhum padre, governante ou pajé teve a ousadia de ocultá-los. Contentaram-
se em desnaturar os fatos e contorcê-los aos seus objetivos, ao colocar o rebelde
na posição de mal absoluto ou de punição máxima, o crente não se arrisca a
repetir tais princípios para não ter o mesmo fim que o personagem. É claro que, se
não tivesse sempre existido rebeldes audaciosos e heréticos inteligentes, eles não
teriam se obrigado a tal esforço.
$.$ Conceito
"Ausência de governo. Cada homem governa a si mesmo" é a frase que
mais comumente explica a Anarquia, mas compreende-la vai um pouco além
destas palavras. Quebrados os mitos, encaramos um sistema utópico com pouca
chance de execução na sociedade atual.
A Anarquia é um ideal liberal de governo, o movimento nasceu de uma frase
do livro "O que é a propriedade?" de Pierre-Joseph Proudhon em que ele declarou
que "a propriedade é roubo" e denunciou "o governo do homem pelo homem" em
favor de uma sociedade baseada em "igualdade, lei, independência e
proporcionalidade" - princípios que ele debatia encontraram sua mais alta perfeição
na união social da "ordem e anarquia". Proudhon e outros "hegelianos radicais"
vieram a Paris refugiados se colocavam a discutir ideias políticas a partir das teses
de Friedrich Hegel, entre eles estavam Mikhail Bakunin, Karl Marx e Karl Grün.
O anarquismo propõe uma sociedade com solidariedade, reciprocidade,
generosidade, características que só poderiam florescer plenamente em um mundo
libertário. A anarquia é a liberdade, e a liberdade em si pode ser aplicada de
diversas formas em todas as áreas imagináveis. Na política, vê-se como solução a
autogestão para a libertação dos povos, raças, homens e mulheres. Em palavras
mais claras, autogestão seria a organização dos povos sem fronteiras nem
lideranças autoritárias e partidárias, com plena igualdade, onde todos participariam
da resolução dos problemas sociais.
A Anarquia pretende chegar a um estágio de evolução da consciência
humana em que não haja governo, porque o governo não é necessário.
3 C0NCEP2>E! FI90!?FICA!
3.& Intro"#+ão
Assim como nos princípios básicos da filosofia, quando crianças nos
deparamos com questões como "o que sou eu?", "o que é o mundo?", "por que
existimos?", "Por que somos assim e não assim?" até chegarmos ao que nossos
pais e avós chamam de 'fase do por quê', em que questionamos tudo o que nos é
dito. Se nós, tão pequenos somos capazes de questionamentos tão profundos, que
em idade adulta resultaria em discussões extensas, por que nos abstemos da
dúvida e aceitamos o que nos é dito como resposta mesmo que não seja
totalmente convincente? Por que abandonamos a postura questionadora a medida
que amadurecemos?
3.$ Niilis'o
O termo "Niilismo" foi criado durante a Revolução Francesa para designar
aqueles que não estavam a favor nem contra a Revolução, ou seja, não
concordavam plenamente com nenhum dos lados então preferiam não se
posicionar. A palavra Niilismo vem do latim, 'nihil' que significa nada. (ada que
explica a negação completa. (ada faz sentido, nada pode ser teorizado, nada é
verdade absoluta.
É uma descrença em qualquer fundamentação metafísica para a existência
humana, e de que nenhum valor tem base suficiente para ser considerado
plenamente verdadeiro.
O Niilismo positivo resgata o poder humano de escolher e de assumir suas
próprias responsabilidades, livre de toda opressão estatal ou religiosa. O negativo
levanta questionamentos mas os considera irrespondíveis, leva à imobilidade do
ser, afinal se não existe razão em nada, não há motivo para fazer qualquer coisa.
Nietzsche dividiu o Niilismo em duas categorias, o passivo (incompleto) e o
ativo (completo).
O niilismo passivo é uma evolução do individuo, mas não uma mudança de
valores, é incompleto porque a quebra de concepções dará lugar a outras, nunca
chegando a negação total, mas destruindo e reconstruindo o pensamento.
O niilismo ativo, é onde Nietzsche se coloca, considerando-se o primeiro
niilista de fato, intitulando-se o niilista-clássico, prevendo o desenvolvimento e
discussão de seu legado. Este segundo sentido propõe uma atitude ativa,
renegando a metafísica e destruindo a moral para cair no vazio total. A vida é
desprovida de qualquer sentido e o niilista completo não pode ver outra saída
senão esperar pela morte (ou provocá-la), mas não é ao suicídio que Nietzsche
espera que o niilista chegue, e sim a um nível de consciência em que o individuo
aprenda a se ver como seu próprio criador de valores e no momento em que
entende que não há Deus e não há nada de eterno após a morte deve aprender a
ver a vida como um eterno retorno, sem o qual o niilismo seria sempre um ciclo
incompleto.
3.$ Ceticis'o
Criado na Grécia Antiga pelo filósofo Pirro de Élis, o Ceticismo rejeita
qualquer tipo de dogma. No Ceticismo Filosófico o cético escolhe examinar o
mundo de maneira crítica e a medida que examina o mundo, a si mesmo e tudo o
que conhece, percebe que a verdade não pode ser encontrada e não há verdade
absoluta. Tudo passa a ser relativo afinal, "Nada pode ser conhecido, nem mesmo
isto".
O Ceticismo não admite a religião ou qualquer outro fenômeno metafísico
pela impossibilidade de prová-los e por nunca responderem racionalmente às
duvidas levantadas, mas afinal o que é a racionalidade? Ela não existe. E o que é a
existência? O que é a verdade? O que é a mentira? O que é o nada? Assim como
estas perguntas não podem ser respondidas a metafísica e a religião não podem.
Se é impossível conhecer a verdade, tudo se torna indiferente e equilibrado. Para o
cético, o ideal do sábio é a indiferença.
Ao seguir o ceticismo o sujeito se encontra em estado de indiferença, a
suspensão do "juízo", o total despojamento e uma postura neutra diante da
realidade. Mas a falta de crença é diferente da descrença ativa, ao invés de
descrer baseados na falta de evidências, os céticos reconhecem que não se pode
estar certos de que evidências novas não possam aparecer no futuro, de modo que
eles se mantém abertos em sua pesquisa.
A filosofia cética é bastante criticada por relativar tudo e nunca chegar a
conclusões, dessa forma não é prática para a vida real, o sujeito totalmente cético
não sobreviveria na sociedade porque é preciso assumir posições e pontos de
vista.
3.$ Co'o esses )ensa'entos se relaciona' , Anar-#ia
A Anarquia pode levar a Anomia, um estado de falta de objetivos e perda de
identidade, visto que nem sempre o ser humano se governará de maneira
coerente. Mas ela pode ser vista também de forma individual, a anarquia do
pensamento se correlaciona com os conceitos de Nietzsche e Pirro, a liberdade de
pensar quebraria tudo o que a moral social impõe, casamento, amor, a própria
liberdade, a anarquia do pensamento seria se permitir pensar o que lhe faz sentido,
independente do que outras pessoas pensam, não que não haja influência, mas o
questionamento faria com que o individuo distingua sobre estas influências. Claro
que sempre há a possibilidade de incorporar estas teorias completamente, mas ao
tentar ver o ser social de forma realista, há de se reconhecer suas limitações e por
generalização, poucos os que se disporiam e seriam capazes de seguir tais
filosofias.
Ao considerar a Anarquia como movimento político, tanto o pensamento
niilista positivo, quanto o pensamento cético, dariam base para as idéias libertárias
e tornariam as pessoas com tais mentalidades aptas a viver plenamente em uma
sociedade anarquista.
O niilismo político seria mais ou menos equivalente ao anarquismo,
repudiando a crença de que este ou aquele sistema político nos conduziria ao
progresso, o qual não passaria de um sonho mentiroso.
@ ANARQUIA A C0MUNI!M0
Muitos anarquistas entraram para as ideias dos movimentos libertários
através do comunismo, mais conhecido, aparentemente mais provável e mais
glamurificado. O comunismo é quase posto como oposição ao anarquismo. É certo
que as concepções estão ligadas em diversos pontos, mas em algum momento
dentro da AÌT (Associação Ìnternacional de Trabalhadores) os libertários se
dividiram entre aqueles que defendiam o comunismo e aqueles que defendiam o
anarquismo, criando um sentimento de rivalidade entre os dois ideais.
Ìsso fica claro quando se lê parte dos milhares estudos sobre o comunismo
em que o ideal anarquista aparece subjetivamente como uma aberração, um ramo
morto, como o nada, do qual estes autores anunciam repetidamente o completo
desaparecimento anarquista e o triunfo integral seja de seu bolchevismo, seja de
seu reformismo estatista-capitalista-socialista. De fato o movimento anarquista só é
conhecido na atualidade graças ao movimento punk nos anos 70, afinal muito
pouco se vê de literatura anarquista e não é matéria de currículo escolar, nunca foi
colocada em prática e daqueles que se deparam com a teoria surgem inúmeros
questionamentos quanto a sua aplicação em qualquer sociedade, questões válidas
e complexas de serem respondidas, afinal o anarquismo, assim como o próprio
comunismo (que é diferente de socialismo) é uma teoria utópica, e para ser
aplicada ainda há muito que se considerar.
As diferenças entre Comunismo e Anarquismo são ideológicas, as duas são
uma reação ao Capitalismo, as duas surgiram dentro do mesmo contexto:
Hegelianos radicais refugiados em Paris no Cabaret Voltaire discutindo o sistema.
Karl Marx acabou por criar o Comunismo, enquanto Proudhon e Bakunin deram um
novo significado a palavra "Anarquia¨ e teorizaram-na como movimento político.
O Comunismo propõe colocar o trabalhador no poder no que viria a ser a
"Ditadura do Proletariado¨ e o Anarquismo rejeitava totalmente a presença de
governo. Os dois sistemas pretendem usar como meio de alcançar seus objetivos
plenos a educação do povo, o Comunismo de fora para dentro e o Anarquismo de
dentro para fora. Ambos pretendem acabar com as fronteiras entre países e formar
uma sociedade global.
Dentro do Comunismo a sociedade seria totalmente igualitária, mas no
aspecto da personalidade, nenhum ser humano é igual ao outro, suas
necessidades são diferentes, seus desejos e ambições e nesse ponto, o
Anarquismo pretende dar a liberdade de "ser¨ que o Comunismo limita.
B M04IMEN10 PUNC
B.& Conte;to <ist=rico
Entre os anos 40 e 50, a Geração Beat saiu de suas casas de classe média
e de suas faculdades financiadas pelos pais e foi para a estrada "conhecer o país",
estes influenciam a contracultura do final dos anos 60, em que os hippies eram
contra o sistema capitalista, à Guerra Fria e à guerra do Vietnã, de forma pacífica.
O Movimento Punk surge dentro desse contexto, como reação à não-violência dos
hippies e a certo otimismo desses.
B.$ Pr.DP#nE
Depois de um show do The Doors em Chicago, o jovem de cerca de 20 anos
Ìggy Pop voltou para sua cidade, Michigan com a idéia de montar uma banda. No
auge da psicodelia dos anos 60, o The Psychedelic Stooges que mais tarde virou
apenas The Stooges, tocava algo diferente de tudo que estava passando nas
rádios naquele momento. Ìnfluenciados por Jim Morisson pela atitude; The Velvet
Underground, pela não-hipocrisia e oposição à imposição eles foram a linha de
frente para o que viria a ser conhecido como Punk Rock.
Eram conhecidos principalmente pela performance do vocalista Ìggy Pop
que gritava, contorcia o corpo, sujava-se com pasta de amendoim e carne crua,
atirava-se na platéia e cortava o próprio corpo com pedaços de vidro. Os shows
foram chamando a atenção, porque parte do público se identificava com as
músicas e a outra parte passava o show inteiro xingando os integrantes.
O MC5 foi outra banda precursora do punk, sem a mesma notoriedade do
The Stooges, mas talvez com a mesma importância, afinal foi seu som "pesado e
brutal" que deu a Ìggy Pop o conceito de que se deveria "detonar com o público,
deixá-los suados e gloriosamente exaustos" e seu som era mais próximo ao Punk
do que o dos Stooges.
Na Ìnglaterra o princípio de que "qualquer um pode montar uma
banda"/"Faça você mesmo" e o espírito renovador do punk rock se mesclaram a
uma situação de tédio cultural e decadência social, florescendo o punk como o
conhecemos.
B.3 P#nE RocE
É difícil definir a música Punk, pois cada ramificação do estilo teve
características específicas. Porém dentro de todas estas variações pode-se eleger
alguns padrões comuns e marcos a serem citados.
O Punk Rock se estabeleceu nos Estados Unidos e na Ìnglaterra no começo
dos anos 70 com bandas como Ramones, New York Dolls, The Patti Smith Band e
Television dos EUA e Sex Pistols, The Clash, The Adicts, The Damned, Wire e
U.K. Subs do Reino Unido. A música era simples, formada por 3 ou 4 acordes, sem
solos de guitarra, rápidas e agressivas, temas que abordam idéias anarquistas,
niilistas e revolucionárias, ou sobre problemas políticos e sociais como o
desemprego, a guerra, a violência, ou em outros casos, letras com menos
conteúdo político e social, como relacionamentos, diversão, sexo, drogas e temas
do cotidiano.
Apesar de estar perdendo força, 1977 foi o ano mais significativo da cena
Punk, os àlbuns mais aclamados foram lançados como "Never Mind the Bollocks
Here's The Sex Pistols" do Sex Pistols, "Leave Home" e "Rocket to Russia" do The
Ramones e "Clash" do The Clash foram produzidos.
B.@ AnarcoP#nE
Nem todo punk era anarquista, apesar de ideologicamente a anarquia estar
inclusa no Movimento Punk, principalmente na música, boa parte dos punks não se
considerava anarquista.
O AnarcoPunk é uma vertente do Movimento Punk que consiste de bandas,
grupos e indivíduos que promovem políticas anarquistas, teve mais força na
Ìnglaterra que nos EUA ou outros países que mantinham uma cena punk, pela
história do país que tornava esse sentimento mais propício.
Alguns utilizam o termo para designar as musicas punks com conteúdo
anarquista na letra, como "Anarchy Ìn The U.K." dos Sex Pistols, mas haviam as
bandas que tinham a anarquia como tema principal e se consideravam bandas de
"anarcopunk" como Crass, Conflict, Flux of Pink Ìndians, Subhumans, Poison Girls
e Oi Polloi. Estas bandas se diziam "punks de verdade", enquanto outras como Sex
Pistols, The Clash e The Damned eram nada mais do que "fantoches da indústria
musical".
B.B 0 MoFi'ento
A contestação contra o sistema de coisas tornou forma ideológica através do
Punk. Com o visual fugindo dos padrões que a sociedade impõe através do
modismo, é um movimento que não fica calado, acomodado, como a maioria dos
jovens e o povo em geral. Faziam manifestações, panfletagens, boicotes e
passeatas para mostrar sua contracultura e seu repúdio a todas as formas de
fascismo, nazismo e racismo, autoritarismo, sexismo e comando.
Politicamente, vê como solução a autogestão (anarquia) para a libertação
dos povos, raças, homens e mulheres. O porta-voz do movimento foram as
Fanzines, jornais político-alternativos que os punks faziam para divulgar entre si
seus ideais, já que eles evitavam qualquer relação com a mídia tradicional pelo seu
potencial manipulativo. O Punk não era uma moda, e sim um modo de vida e se
pensamento. Um movimento cultural de luta e ação direta, de liberdade de
expressão e de comportamento.
A princípio o Movimento Punk era apolítico, mas como os objetivos dos
punks e dos anarquistas era muito parecido, eles começaram a colaborar entre si
nas ações. Com o contato estreito alguns anarquistas viraram também punks e
muitos punks viraram também anarquistas.
Porém, assim como o Movimento Hippie, o Punk foi engolido pelo
capitalismo, seus discos, sua moda e suas bandeiras viraram produtos nas mãos
de empresários e produtores que lucravam com o sucesso da cena. A estilista
Vivienne Westwood, que até hoje tem um visual pesado e agressivo foi um destes
empresarios, ela levou o movimento para a moda e até hoje desfila esse molde na
London Fashion Week.
B.G 0 MoFi'ento P#nE no Hrasil
Era difícil no Brasil em plena Ditadura Militar ter acesso a um Movimento de
contestação como era o Punk, mas ainda que de forma limitada, os brasileiros
tiveram acesso a esses discos. Os álbuns eram comprados em duas lojas: a Wop
Bop e a Punk Rock Discos (no lugar onde mais tarde foi construída a Galeria do
Rock). Como o preço era muito elevado, os punks passaram a fazer cópias em
fitas caseiras e distribuir entre si.
Em 1978 começaram a surgir as primeiras bandas tupiniquins, entre elas:
AÌ-5, Condutores de Cadáver e Cólera, em São Paulo e Aborto Elétrico em Brasília.
Apesar de na Europa o Movimento Punk ter acabado no final dos anos 80, no
Brasil ele ganhou força, surgiram novas bandas de varias partes do país, tanto no
Rio Grande do Sul com Os Replicantes e Pupilas Dilatadas, no Nordeste com a
banda Homicídio Cultural e também em São Paulo com Ratos de Porão, Psykóze e
Fogo Cruzado, ABC com Hino Mortal, Garotos Podres e Ulster e Rio de Janeiro,
com os Desordeiros e Espermogramix. O público para estas bandas também
aumentou muito nesse período.
O primeiro disco de Punk Rock a ser gravado aqui foi a coletânea Grito
Suburbano, que reunia três bandas: Cólera, Olho Seco e Ìnocentes. A qualidade do
disco é mediana, porém foi um disco corajoso, ousado e revolucionário para a
época. O primeiro disco de apenas uma banda foi o EP Violência e Sobrevivência,
do Lixomania, que hoje pode ser encontrado em vinil a preços absurdos.
Ao mesmo tempo em que surgiram as bandas punks, surgiram também as
gangues. Devido à grande violência e brigas que elas causavam, a mídia começou
a ver o movimento e os punks com maus olhos, manipulando informações e
criando mentiras que desmoralizavam o movimento aos olhos da população. Ìsso
fez com que os policias e militares tivessem atitudes mais radicais com os punks e
a repressão aumentou. O mesmo pânico que uma família tinha ao saber que um
filho era comunista ou anarquista, passou a ter em relação ao punk.
A cena punk existe no Brasil até hoje, sendo considerada uma das maiores
do mundo, apesar de continuar sofrendo preconceito e incompreensão pela maior
parte da população e das autoridades.
G A ANARQUIA E A AR1E
G.& Anar-#istas faIen"o Arte
A Comuna de Paris, primeiro governo proletário da história, é um episódio
muito estudado na história do radicalismo europeu e da Anarquia. Porém,
raramente se reconhece que os debates anarquistas relativos à arte tiveram um
papel no acontecimento.
Anteriormente Pierre-Joseph Proudhon já havia destacado a importância da
arte no Anarquismo no livro )o princ"pio da arte e de sua destinação social,
inspirado pelos ataques do governo ao pintor, anarquista e futuro communard,
Gustave Courbet.
Proudhon elogiou Courbet por estender a ação recíproca dialética entre a
crítica anarquista social e a transformação da sociedade na esfera artística, então a
liberdade estilística de Courbet seria pela crítica social. Émile Zola argumentou que
anarquismo e arte eram uma questão estética e não social. Para Zola, na arte de
Courbet o principal não é o engajamento e sim a sua "natureza rebelde", já que ele
parou de imitar os "mestres flamengos e renascentistas" como seus
contemporâneos estavam fazendo, ele exercia a "livre expressão da
personalidade". Zola transformou a liberdade estilística em um ato anarquista.
O debate entre as teorias de Proudhon e Zola só se resolveria durante a
Comuna de Paris. Alguns communards eram artistas e instigados por Courbet
formaram a "Federação dos Artistas", seu primeiro ato foi emitir um manifesto
declarando completa liberdade de expressão, o fim da interferência governamental
nas artes e igualdade entre membros. A liberdade de expressão: para Courbet, não
havia conflito entre as defesas de Zola da liberdade por meio do estilo e de
Proudhon pela liberdade pela crítica, um anarquista poderia acolher ambos.
O Construtivismo Russo nasceu com a "Revolução de Outubro" (de 1917),
que implantou o Socialismo e criou a URSS. A arte Construtivista estava
diretamente ligada a política, já que acreditava que o artista podia contribuir para
suprir as necessidades físicas e intelectuais da sociedade como um todo,
relacionava-se com a produção de maquinas, com a arquitetura e com os meios
gráficos e fotográficos de comunicação. Era uma arte feita pelo povo e que em
parte pretendia divulgar o Socialismo, no governo de Lênin isso funcionou bem,
porém quando Stálin veio ao poder passou a usar a arte unicamente para a
propaganda política, toda a arte que não transmitisse sua mensagem ou que não
lhe fosse aliada era considerada "Formalista", só sendo aceito no país o seu
"Realismo Socialista.
O que pouco se fala sobre as origens do Construtivismo é que os artistas se
dedicavam a arte popular segundo as ideologias Anarquistas, não Marxistas. Para
encerrar sua participação na Primeira Guerra Mundial a URSS assinou o Tratado
de Paz de Brest-Litovsky, cedendo um quarto da terra arável Russa, um quarto de
sua população e três quartos da indústria aos impérios alemão e austro-húngaro. A
"direita" leninista apoiou a decisão, enquanto uma "esquerda" mais popular
considerava que a Revolução deveria ser a nível mundial e o acordo de Lênin
restringiu-a apenas ao território Russo. No último grupo estavam os anarquistas,
em 23 de Fevereiro de 1918, o anarco-comunista Aleksandr Ge fez um discurso no
Comitê Executivo Central de Sovietes expondo a opinião de seu grupo: "Os
anarco-comunistas proclamam o terror e a guerra de guerrilha em dois fronts# É
melhor morrer pela revolução social do mundo do que viver como resultado de um
acordo com o imperialismo alemão". Os anarco-sindicalistas russos assumiram a
mesma posição. E eles falavam sério, organizaram-se em patrulhas de "Guardas
Negros", armados com rifles, pistolas e granadas.
O governo criou a Cheka (Comitê Totalmente Russo Contra a
Contrarrevolução) para lutar contra o movimento esquerdista invadindo os "clubes
anarquistas" e as mansões que eles ocupavam (as mansões eram antigas
propriedades da elite de Moscou que fugiu da Rússia por causa da revolução).
Durante os ataques da Cheka, 40 anarquistas morreram ou ficaram feridos e
mais de 500 foram presos, entre estes, muitos dos artistas construtivistas. À
medida que os anarquistas eram recolhidos, desarmados e presos suas
publicações suspendiam-se por falta de quem os produzisse. O governo soviético
foi esperto de acabar com o movimento enquanto ele ainda estava se estruturando,
depois disso qualquer um que lutasse pelo anarquismo na URSS era considerado
inimigo de estado. Alguns dos remanescentes agiram escondidos para lançar uma
campanha anticomunista que levou a ondas de prisões em 1919, outros se
juntaram ao Exército Vermelho Comunista, alguns como leais "anarquistas
soviéticos", para acabar sendo presos também no começo dos anos 1920.
Entre os artistas Construtivistas que apoiavam os anarquistas estavam
Rodchenko, Alexei Gan, Lukashnin, Nadezhda Udalt'sova, Vladimir Maiakóvski,
Vassilii Kamenskii e os futuros Suprematistas, Kazimir Malevich e Olga Rozanova.
G.$ Anar-#ias nas Artes
Assim como o sentimento libertário sempre esteve presente no ser humano
como espécie e como individuo, a arte existe desde os primeiros rabiscos nas
cavernas e a partir do momento em que ela passa a ser admirada e comercializada
cada vez que surgia um movimento novo o rompimento de valores com o anterior
pode ser considerado anárquico. O Renascimento rompeu com a Ìdade Média, o
Barroco rompeu com o Classicismo e por aí vai.
No século XÌX havia um consenso em Teoria da Arte de que só era obra de
arte aquela "que é produzida pelo homem e imita algo", imitavam-se paisagens,
natureza morta, construções, retratos (...). Com a invenção da fotografia, não era
mais necessária a pintura para registrar um momento, um rosto ou uma paisagem
já que uma fotografia faria o mesmo com maior perfeição e muito mais rápido.
O primeiro movimento a romper com a "Teoria da Arte pela Ìmitação" foi o
Ìmpressionismo, o importante aqui era retratar a luz e o movimento, usando
pinceladas soltas e cores vivas.
A partir daí o Modernismo começa a acontecer, oficialmente com o
Expressionismo de Van Gogh e em seguida com as outras vanguardas
(Expressionismo, Cubismo, Futurismo, Dadaísmo e Surrealismo). De forma geral o
Modernismo rompeu com todos os preceitos de arte de forma radical e agressiva,
como cada movimento tinha sua teoria intensamente embasada e elaborada
mudaram a forma da sociedade ver a cena artística de forma drástica e inteligente.
O Dadaísmo porém, terá sido a ma
3is anárquica das vanguardas. Não se propunha a mudar a arte vigente mas
ser uma anti-arte, engajada pelo fim da Primeira Guerra Mundial eles subvertiam a
arte para expressar a subversão que a guerra é para a sociedade. A arte dadá não
tem sentido, assim como a guerra não tem sentido.
Ìnspirada no Dadaísmo, a Pop Art de Andy Warhol era uma reação a
comercialização elitista das "obras de arte", ele trouxe a arte para as camadas
populares em embalagens de sopas e pôsteres de artistas, ao mesmo tempo ele
protestava o consumismo exagerado e a estereotipação (rotulação) das pessoas.
Nunca antes um artista tinha vendido sua arte por tão pouco e a deixado tão ao
alcance do povo.
O Suprematismo foi um movimento ligado diretamente ao Construtivismo,
tanto pela sua origem russa quanto pelo seu líder, Kazimir Malevich, que conviveu
com os Construtivistas na época dos conflitos entre anarquistas e comunistas no
começo da URSS. Do Construtivismo vêm também suas formas geométricas e
valorização do que viria a ser Design.
Malevich defende a ruptura completa e absoluta com a arte que se via até
então, da idéia de imitação da natureza, com as formas ilusionistas, com a luz e a
cor naturalistas e impressionistas e com qualquer referência ao mundo objetivo,
que o Cubismo de certa forma ainda alimentava. Malevich ainda fala em "realismo",
a partir de sugestões do místico e matemático russo Ouspensky, que defende
haver por trás do mundo visível um outro mundo, uma espécie de quarta dimensão,
além das três a que nossos sentidos têm acesso. O Suprematismo representaria
esse mundo.
Eis que surge a arte abstrata, ascendendo do "quadro negro em fundo
branco" do próprio Malevich, que sobre a obra declarou: "Eu sentia apenas noite
dentro de mim, e foi então que concebi a nova arte, que chamei Suprematismo". O
Suprematismo pode ser visto como uma anarquia ao mundo objetivo e ao universo
das artes como um todo.
Não existe, de resto, invenção artística importante sem rebeldia, sem ruptura
com normas acadêmicas ou simplesmente vigentes, sem indisciplina teórica e sem
a irreverência necessária ao sepultamento dos mestres. Contraditória figura, o
mestre ensina, ilumina e mata. Depois de um certo caminho percorrido, o condutor
deve desaparecer para que o conduzido reinvente o mundo. O presente e o futuro
da arte alimentam-se da violência em relação ao passado. A cada dia, os criadores
precisam assimilar e destruir o já feito.
G.3 Anar-#ias nas Artes no Hrasil
Todos os movimentos de caráter anárquico que foram importados da
Europa para o Brasil mantiveram seu teor libertário. Mesmo com a Antropofagia
criando uma arte abrasileirada, a liberdade de se romper com o antigo sistema (de
sempre se valorizar o que vem do exterior), de se opor ao que o público de arte
queria comprar no Brasil, o choque da Semana de 22, todas estas características
intensificavam o caráter anárquico que o Modernismo já tinha.
Além desta que foi a ruptura total, o Brasil tem outros exemplos fortes de
arte anárquica. A Tropicália, por exemplo, que apesar de ter acontecido durante a
Ditadura Militar, adota uma postura anárquica pela inovação estética enquanto o
resto do país fazia música de protesto. O grupo Secos&Molhados, que inovou nas
roupas extravagantes e maquiagens, algo que nunca tinha sido visto no Brasil e
era recente e incomum no resto do mundo. E o cantor Raul Seixas, que era um
anarquista declarado e colocava mensagens diretamente ligadas a livros de Teoria
da Anarquia em suas músicas.
7 A ANARQUIA E 0 CINEMA
7.& Anar-#istas faIen"o Cine'a
O primeiro contato da Anarquia com o Cinema foi no momento da criação do
cinematógrafo, os irmãos Lumière fizeram o projeto da maquina e encarregaram a
oficina do engenheiro de maquinas Doignon, de construí-la, este direcionou o
trabalho para Paul Delesalle e seu ajudante Viardot.
Paul Delesalle era um militante anarco-sindicalista membro da CGT (Confederação
Geral do Trabalho), um sindicato fundado em 1895, mesmo ano que o "Le
Libertaire" (órgão maior da imprensa anarquista) e mesmo ano que os Lumiére
apresentaram seu cinematógrafo ao mundo.
Os dois operários trabalharam no projeto em 1894, o processo de montagem
foi feito seguindo todos os cálculos de Louis Lumière, mas a película não deslizava
bem e se rompia a cada giro da manivela, para solucionar o problema, Delesalle
retrabalhou e adaptou algumas engrenagens, diminuiu a espessura e a altura dos
dentes e conseguiu fazer o mecanismo funcionar corretamente. Porém, o chefe da
oficina com receio de contrariar os Lumière, ordenou que fosse feito outro aparelho
fiel ao projeto inicial.
A história inteira é um pouco confusa, em nenhum livro se menciona Paul
Delesalle, Viardot ou Doignon como participantes do processo de montagem do
cinematógrafo, menciona-se apenas Jules Carpentier e Charles Moisson.
Questiona-se então todos os lados da historia, teria Carpentier contratado outras
empresas para determinadas etapas do cinematógrafo? Teriam os Lumière, por
precaução, encomendado a mais de uma empresa o trabalho? Delesalle se lembra
com exatidão desse período?
Ìndependente da veracidade, a história é conhecida nos meios libertários e
por identificação, transforma o olhar dos anarquistas para a sétima arte, até então
desvalorizada e considerada apenas comercial e manipuladora. Nas bases teóricas
do Anarquismo defendido por Charles Malato, baseado na transformação, na
"modificação" do humano. O homem é considerado nem bom, nem mau: ele pode
se transformar. Pode evoluir se educando e adquirir uma melhor consciência do
mundo e de seu próprio papel social. Logo ideologicamente, por trás do movimento
de tração da película, esconde-se um pensador da ação, do "movimento", da
transformação individual e social.
Como disse Gilles Deleuze, "existe uma afinidade fundamental entre a obra
de arte e o ato de resistência". Ato de resistência que os anarquistas se
empenhavam em produzir e sustentar. A relação entre arte e anarquia se dava a
medida que muitos teóricos quiseram desenvolver a arte como um meio efetivo de
educar e despertar ideias libertarias no maior numero de pessoas.
Somente em 1908 os jornais anarquistas se questionam sobre as condições
de trabalho dos cinematografistas, e depois, no uso "útil e pedagógico" com
destinação popular dessa recente criação. Eles deploram seu aspecto quase
exclusivamente comercial e desejam fazer dela um meio lúdico de aprendizagem
para as classes trabalhadoras.
Deste principio nasce o "Cinema do Povo", em que anarquistas fizeram a
primeira cooperativa cinematográfica, destinada a criar filmes militantes. Gustave
Cauvin, ligado à cooperativa, organiza em 1921 o "Cinema Educador" que fazia
filmes pedagógicos para crianças. A iniciativa durou até 1939, já que com a
Segunda Guerra Mundial os anarquistas tiveram que voltar suas atenções para o
cenário caótico à sua volta.
7.$ Anar-#ias no Cine'a
A militância, por meio da pedagogia, não é o único aspecto do cinema de
tendência libertária. Além do cinema "militante e social ou humano" havia o Cinema
de Vanguarda, que vinha primeiramente dos Hidropatas e dos Ìncoerentes e mais
tarde dos Dadaístas e Surrealistas.
Numerosos grupos de jovens que se formam durante o século XÌX sob o
nome genérico de "boêmios", frequentam cabarés e se organizam em assembléias
para discutir suas idéias artísticas. Estes jovens, nascidos burgueses, tentam fugir
da mediocridade ou do mercantilismo de sua classe, contestando os valores
estabelecidos. Entre eles estão Hidropatas, Hirsutos, Zuristas, Quesedanistas e os
Ìncoerentes, deste último grupo fazia parte Émile Cohl, o pai do desenho animado.
Émile Cohl era principalmente um desenhista, entra para o cinema quando
descobre o plágio de uma produtora de um jogo que ele criou, quando vai até lá
para reclamar os direitos autorais, Léon Gaumont, dono da produtora, lhe oferece o
cargo de diretor e roteirista. Na Gaumont ele tem a oportunidade de experimentar a
animação de personagens desenhados com a ajuda de fotografias. Em 1908, ele
lança o primeiro desenho animado da história "Fantasmagorie", inspirado no teatro
de sombras que costumavam fazer no cabaré Chat Noir, o ponto de encontro dos
Ìncoerentes. Os personagens de Cohl além do tom humorístico, desenvolvem uma
maneira política antiautoritária, em ataque constante aos católicos e em oposição
às forças da ordem. A partir da ideia de Cohl, outros cineastas fazem animações
ridicularizando autoridades (governantes, militares, policiais e etc).
Georges Méliès também frequenta o cabaré Chat Noir, porém ao contrario
de Cohl, Méliès se interessa por outros cabarés do mesmo estilo. Depois de ter
conhecido o Museu Grévin do ilusionista Dorville, acompanha esse artista em seus
projetos de criação de "estranhos" cabarés. Méliès não era um anarquista mas não
estava totalmente desligado do movimento, ele conhecia os militantes,
compartilhava de alguns ideais e principalmente, tinha o tal "pensamento libertário".
Em seus filmes pode-se observar algumas características anárquicas. A
contestação do maniqueísmo, em que no final quem se dá bem é o malvado (os
anarquistas costumavam tomar partido do "mau" pela provocação, afirmando uma
oposição ao sistema vigente). A contestação do estado, quando meninos são
manipulados por marionetes a apanhar o diretor do teatro, as marionetes,
protegidas pelos meninos, se salvam e espancam alegremente o diretor. A
pequena história que parece uma farsa, revela-se uma incitação à revolta. O
antimilitarismo (defendido por uma parcela dos anarquistas) aparece em um filme
que retrata as guerras e massacres Romanos até a Conferência da Paz de 1907. O
maior mérito de Méliès continua sendo os efeitos especiais, mas esta análise
unicamente artística da obra mascara outras visões importantes do artista, como as
citadas acima.
Nem Èmile Cohl nem Georges Méliès eram anarquistas, no entanto, a ironia
Ìncoerente difundida e retomada nesse tipo de curtas-metragens, durante os anos
1910, mostra como o trabalho de falseamento das imagens e das formas
convencionais nutre o cinema do começo do século XX, ao colocar sempre em
questão as figuras da ordem, exercendo uma crítica ampla aos governantes e à
sociedade.
7.3 Anar-#ias no Cine'a *rasileiro
A primeira sessão de cinema no Brasil aconteceu em 8 de Julho de 1896 no
Rio de Janeiro, o primeiro filme feito no Brasil teria sido "Vista da baia da
Guanabara" pelo italiano Afonso Segreto.
A produção de cinema no Brasil engatinhou se comparado a Europa e aos
EUA, nenhuma inovação, algumas adaptações de livros e filmagens com
conotação propagandista (cavações). O Cinema brasileiro se destaca
internacionalmente com o Cinema Novo, "Deus e o Diabo na terra do Sol" de
Glauber Rocha chega a ser exibido em Cannes, não ganha nenhuma premiação
mas conseguiu bom públicos e elogios da crítica.
O sentimento libertário se apresenta no Cinema Novo à medida que eles são
contra "a ditadura estética e comercial do cinema americano, contra a mentalidade
conservadora dos críticos e a favor do público, não paternalizando, ou seja,
pensando que uma mensagem mastigada vai mudar a consciência e acabar com a
alienação", segundo depoimento de Glauber Rocha.
Com a ditadura militar a repressão política deu fim ao movimento e alguns
de seus cineastas tiveram que se exilar. Além disso, se os diretores do Cinema
Novo procuraram se adaptar às novas circunstâncias, mantendo-se fiéis a um
grande público, a parcela mais jovem do grupo de realizadores que se formava a
sua volta recusou-se a isso, este grupo mais jovem cria um novo movimento no
país, o Cinema Marginal.
O Cinema Marginal, também conhecido como "Udigrudi" (referente a
Underground), apesar de acontecer durante a Ditadura não contestava a situação
política do país e sim a linguagem cinematográfica, mais especificamente,
contestavam o Cinema Novo.
Por mais que o Cinema Novo já tivesse uma estética esdrúxula pelo lema
"uma ideia na cabeça e uma câmera na mão", eles ainda mantinham uma
linearidade e um acabamento sofisticado. Já o Cinema Marginal trazia inspiração
na cultura americana (histórias em quadrinhos e hollywood principalmente), e a
"estética do lixo", efeitos especiais propositalmente mal feitos e pornografia. O
Cinema Marginal declarava "anarquia" ao modo padrão de fazer cinema.
J C0M0 A9CAN2AR 0! PR6DREQUI!I10! PARA !E 1ER UM 04ERN0
9IHER1/RI0
Proudhon já dizia que para uma sociedade anárquica funcionar, a educação
do povo era essencial. Os anarco-sindicalistas, em especial Dureau, viram no
cinema uma forma de propagação das didáticas libertárias.
Os Comunistas parecem concordar, uma população ignorante é nada mais
que massa de manobra e uma população igualitária ou livre precisaria garantir uma
educação de qualidade a todos e mais do que isso, o sistema só poderia funcionar
em uma sociedade que o entendesse. Por isso a ignorância e o analfabetismo
funciona tão bem no Capitalismo, quão menos o povo souber, menos ele contesta.
Quanto mais o povo souber, mais livre ele quererá ser, mais inconformado
com a falta de comida no prato comparada a abundancia de outros e o povo se
rebelaria, e o povo gritaria por outro sistema, um sistema que fosse justo o
suficiente para atender as necessidades dessa população que pensa. E se esse
novo sistema se corrompesse a população perceberia e agiria, porque é uma
população que pensa.
C0NC9U!30
Quando se fala em sistemas de governo é comum que a maior parte das
pessoas não se envolva apenas falando sobre o tema, em geral elas se encantam
tanto com a idéia de mudança, que querem converter todas as outras pessoas e
fazer com que esse governo seja implantado. O comunismo é o maior exemplo
disso, as pessoas fundam partidos comunistas e socialistas, outras milhares
aderem e ainda assim a oposição tem o forte argumento de que todas as
aplicações de socialismo acabaram em ditadura e trouxeram atraso tecnológico,
entre outros prejuízos. Não se pode dizer que é intriga da oposição, afinal são
fatos, desagradáveis, porém fatos.
Cabe ao revolucionário pensar sobre os movimentos libertários
considerando todas as experiências vividas por esta sociedade, e encarar que
talvez nenhum deles seja aplicável, que todos podem ser corrompidos, e que as
lacunas sempre serão um problema. A luta por igualdade, liberdade e fraternidade
não é só francesa, não é só de Marx, Bakunin e Che Guevara ou não teríamos até
hoje a discussão em torno destes assuntos. Termos em mãos sistemas elaborados
e viáveis não significam que não possam surgir novos, assim como na vida,
aprendemos com os erros, nas teorias libertárias eles também podem servir para
amadurecer a ideia.
REFERKNCIA!
ANARQUÌA PUNK. MoFi'ento P#nE.
http://anarquiapunk.br.tripod.com/anarquiapunk/id1.htm
Acesso em 11/2011
ANTLÌFF, Allan. Anar-#ia e Arte. Editora Madras, 2009.
AVRÌCH, Paul. 1Le R#ssian AnarcLists. Editora Faísca, 1967.
GUÌA DO ESTUDANTE. <ist=ria 4esti*#lar $%&$. Edição 5, Editora Abril 2011.
ÌNFO ESCOLA. Niilis'o.
http://www.infoescola.com/filosofia/niilismo/
Acesso em 08/2011
MARÌNONE, Ìsabelle. Cine'a e Anar-#ia. Azougue Editorial, 2009.
NETTLAU, Max. <ist=ria "a Anar-#ia. Editora Hedra, 2008.
NÌETZSCHE, Friedrich. 0s Pensa"ores, NietIscLe. Editora Nova Cultural, 1999.
OLÌVEÌRA, Pérsio Santos de. Intro"#+ão , !ociolo(ia. Editora Àtica, 2010.