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Vanda Lisa Lourenço Menino

Tese de Doutoramento em História, área de especialidade História Medieval

 

Junho, 2012

VANDA LOURENÇO MENINO

Dissertação apresentada para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Doutor em História, na área de especialidade de História Medieval, realizada sob a orientação científica de Professor Doutor Bernardo Vasconcelos e Sousa

Apoio Financeiro do POCI 2010 – Formação Avançada para a Ciência – Medida IV.3, durante 18 meses

Junho, 2012

Declaro que esta Dissertação é o resultado da minha investigação pessoal e independente. O seu conteúdo é original e todas as fontes consultadas estão devidamente mencionadas no texto, nas notas e na bibliografia.

A candidata, ____________________________________________ Lisboa, de de

Declaro que esta Dissertação se encontra em condições de ser apresentada a provas públicas.

O orientador, ____________________________________________ Lisboa, de de

À Maria e ao Tozé

RESUMO TESE Vanda Lourenço Menino

A infanta D. Beatriz, filha do rei de Castela D. Sancho IV e da rainha D. Maria de Molina, tornou-se rainha de Portugal ao contrair matrimónio, no ano de 1309, com D. Afonso IV. Foi para servir os interesses político-diplomáticos dos dois reinos que este consórcio foi estabelecido nos acordos do Tratado de Alcanises (1297), contrariando a doutrina eclesiástica que condenava como incestuosos os matrimónios entre consanguíneos e afins. No caso em apreço, os futuros monarcas portugueses estavam incluídos neste interdito eclesiástico, embora tenham recebido a necessária dispensa papal. Dos três papéis desempenhados por D. Beatriz, mãe, mulher e rainha, pretendemos demonstrar que a consorte tinha um protagonismo diferente daquele que é conferido ao monarca, mas não o podemos considerar de menor relevância. Da investigação efectuada às fontes coevas ressalta, numa primeira observação, que a rainha senhoreava em algumas terras. Destas recebia proventos com os quais mantinha os seus vassalos e servidores que com ela compartilhavam a vivência diária no âmbito da sua “Casa”. Dos muitos conflitos que marcaram o reinado do Bravo consideramos que aquele que mereceu uma maior atenção por parte da rainha foi o que opôs o monarca ao infante D. Pedro, seu filho e futuro rei português. Nesta oposição aberta entre pai e filho, a rainha, não esquecendo o seu papel de mulher, não se opôs, abertamente, a seu marido. Porém, a documentação deixa-nos entrever a sua preocupação enquanto mãe, revelando um jogo de bastidores que a rainha manteve com o objectivo de alcançar a paz não só para o reino, mas também para a sua parentela. A morte era uma realidade tão constante e presente no quotidiano da sociedade medieva que era aceite como inerente à própria natureza humana. No entanto, esta familiaridade não diminuiu o medo sentido face à morte. Porque ela é certa, mas incerta a sua hora, era necessário preparar o “saimento” deste Mundo. Foi neste contexto que a rainha de D. Beatriz mandou redigir três testamentos e um codicilo nos quais após a entrega da alma a Deus e depois de cuidar do seu corpo, deixou expresso como deveriam ser distribuídos os seus bens móveis. É compreensível que a rainha quisesse contemplar, de forma privilegiada, os da sua linhagem, procurando, assim, evitar a fragmentação irremediável dos seus bens. Com as informações obtidas no seu testamento conseguimos imaginar a soberana durante a sua vivência diária a circular pelos diferentes espaços de uma forma que se traduzia na ostentação da sua riqueza, como o impunha a sua condição social. Os objectos que adornaram o seu corpo e a fizeram resplandecer com o seu brilho e fascínio eram, por um lado, parte da memória da linhagem e, por outro, parte da sua própria existência.

A união deste casal permaneceu após a morte, ao escolherem o mesmo local de sepultura, a Sé Catedral de Lisboa, demonstrando, deste modo, a união necessária para enfrentar o desconhecido. Palavras-chave – rainha, Beatriz, Afonso IV, Casa da Rainha, século XIV ABSTRACT THESIS Vanda Lourenço Menino

The infanta Beatriz of Portugal daughter of the King of Castile Sancho IV and queen Maria de Molina, became Queen of Portugal by marriage, in the year 1309, with Afonso IV. It was to serve the political interests of the two kingdoms that this marriage was established in the agreements of the Treaty of Alcanises (1297), contrary to the ecclesiastical doctrine that condemned as incestuous marriages between's those related by blood or related. In the present case, the future portuguese monarchs were included in this ecclesiastical interdict, although they have received the necessary papal dispensation. The three roles played by Beatriz of Portugal, mother, wife and queen, we intend to demonstrate that the consort had a different role from that granted to the monarch, but that we cannot consider of less relevance. The documents showed that the queen exercised authority in their lands. With proceeds received from such land, the Queen maintained her vassals and retainers who shared the daily experience as a part of her household. Of the many conflicts that marked the reign of Bravo we believe that the one who deserved a greater attention on the part of The Queen was the one opposing the monarch to the infante Pedro, his son and future King of Portugal. In this open conflict between father and son, the Queen, not neglecting her role as a wife, did not oppose, openly, her husband. However, documentation allows us her concern as a mother, revealing a set of backstage playing by the Queen with the aim of achieving peace not only for the Kingdom, but also for their relatives. Death was a reality as constant and present in the everyday life of medieval society that it was accepted as inherent to human nature itself. However, this familiarity did not reduced the fear felt in the face of death. Because it is certain, but uncertain of its time, it was necessary to prepare the "exiting" of this world. In this context the queen Beatriz had wrote three wills and a codicil in which she established our her estate should be divided after the delivery of the soul to God and clauses regarding how to take care of her body. It is understandable that the Queen wanted to contemplate, in a privileged manner, those of their lineage, seeking to avoid irretrievable fragmentation of their goods. With the information obtained in her

testament we can imagine the sovereign during her daily existence wandering about the different spaces in a manner which materialised in ostentation of her wealth, as was imposed by her social condition. The objects that once adorned her body and made her shine with all her glitz and glamour were, on the one hand, part of the memory of lineage, and, on the other, part of her own existence. The Union of this couple remained after death, having choosen the same location for their grave, the Cathedral of Lisbon, thus demonstrating the Union needed to face the unknown. Keywords – Queen, Beatriz, Afonso IV, Household, queenship, XIVth century

lxvii Indíce de quadros …………………………………………….…………………….2..…………………………………………….1.… 155 c) Bens móveis ………………………………………………………….… 208 VI – O perpetuar da memória ………………………………………………. 140 V....………… 256 Conclusão …………………………………………………………………. Os Avelar – a ascensão de uma linhagem …………………..…… 173 V. 261 Fontes e Bibliografia …………………………………………………………. O património da rainha ………. 19 II – A ascedeência linhagística ………………………………………………..……… 114 V – A “Casa” da Rainha ………………………………………. 296 I – Esquemas genealógicos …………………………………………………………. lxviii .…….1. 263 Apêndices …………………………………………………………………….1... 140 b) Bens alienados …………………………………….………. xiv Indíce de esquemas genealógicos …………………………………………………. Beatriz.……. 76 IV.. 194 V. lxvi Indíce de mapas …………………………………………………………………..3.. 218 VI. 156 V....1.………………… 140 V.. Vassalos e serviçais da rainha …………………………………………. Os bens da rainha ……………………………………………………… 140 a) Bens adquiridos …………………………..…… 157 V..… ix III – Quadros ……………………………………. 1.. 41 III – O acordo matrimonial ………………………………………………………… 54 IV – D. rainha de Portugal …………………………………………... A mulher: relação com a rainha D.. 1 I – As representações da rainha na historiografia portuguesa …….1.1. i II – Mapas ……………………………………………………………………….3. 103 IV..….2.. Uma dupla função: mulher e mãe ………………………………………..……... Isabel …………………………….………………………………... A elite governativa ………………………………………………………….. Os poderes senhoriais: privilégios e jurisdição …………………. 164 V..3.3.1..……….………………….. A mulher: relação com D.……. 76 IV.. Lopo Fernandes Pacheco ………………………………………………...1..……………………………. Afonso IV ……………………………..…… 76 IV.1.…….3.……………. A mãe …………………………………………………………. A instituição do hospital …………………………………….1.. Os direitos e as rendas ……………………………………………..………………………….INDÍCE Introdução …………………………………………………..…….. 194 V..…..2.2..1.

– Livro . / conc. I. – Confrontar Chanc.capítulos Cf. – Documentos Elucidário – Elucidário de Viterbo fl. II. – concelho cap. – folha fls. – Coordenação Crónica de 1419 – Crónica de Portugal de 1419 Crónicas dos sete primeiros reis – Crónicas dos Sete Primeiros Reis de Portugal Crónica Geral de 1344 – Crónica Geral de Espanha de 1344 CUP – Chartularium Universitatis Portugalensis (1288-1537) cx. – incorporação Liv. T. 343-354 Coord. – folhas fr. pp. – caixa DHP – Dicionário de História de Portugal dir. – gaveta Gran Crónica – Gran Crónica de Alfonso XI GEPB – Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira HGCRP – História Genealógica da Casa Real Portuguesa inc. – direcção doc. – freguesia Gav. – documento docs. – citado Codicilo de 1354 – Provas de História Genealógica da Casa Real Portuguesa. .LISTA DE ABREVIATURAS ADF – Archivo de los Duques de Frias ACA – Arquivo da Coroa de Aragão ADB – Arquivo Distrital de Braga BSS – Brasões da Sala de Sintra c. – Chancelaria cit. – capítulo caps. Liv.

T.º . – volume . – transcrito v. – tradução portuguesa trans. Liv. “O testamento da rainha D. – rolo s/d – sem data Santarém medieval – Maria Ângela Beirante.º4 (transcrito por Vanda Lourenço. Santarém Medieval segts. port. – página part. II. m. – verso Vol. II. Liv. – seguintes sep. Gav.1. – páginas PHGCRP – Provas de História Genealógica da Casa Real Portuguesa r. I. 100-107 Testamento de 1358 – Provas de História Genealógica da Casa Real Portuguesa.tomo TT – Torre do Tombo Testamento de 1349 – Provas de História Genealógica da Casa Real Portuguesa. pp. n. pp. Beatriz”. – separata T .6.número NA – Núcleo Antigo OC – Ordem de Cister OFM – Ordem dos Frades Menores OSB – Ordem de São Bento p.LD – Livro do Deão LL – Livro de Linhagens do Conde Dom Pedro m. T. – particulares pp. 343-354 trad. I. 341-343 Testamento de 1357 – TT. – maço ML – Monarquia Lusitana MPV – Monumenta Portugaliae Vaticana n. pp.

Numa fase inicial o estudo sobre as mulheres estavam associados aos movimentos feministas (por exemplo.INTRODUÇÃO O projecto de Doutoramento agora apresentado é mais uma etapa de um percurso académico iniciado nos idos de 1994. Quando as biografias históricas voltam a ganhar actualidade no panorama historiográfico e quando tem vindo a desenvolver-se a investigação sobre a chamada história do género. em particular o período medieval português. 483. Os estudos na área da História que se debruçavam sobre as mulheres eram dedicados. conferindo importância e atenção a personagens femininas. 1950-2010). por certo uma das menos conhecidas. in The historiography of Medieval Portugal (c. “Womens’s and gender history”. Sabíamos. p. Lisboa. e pela investigação tem amadurecido ao longo dos anos. não permitindo a abertura para o estudo sobre mulheres nem para as reivindicações feministas1. na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. dir. Este trabalho representa o avançar numa caminhada cuja pesquisa e investigação procuraram contribuir para o conhecimento da nossa realidade passada. encontravase mais interessado na propaganda e exaltação do modelo de mulher obediente. à priori que este não seria um trabalho fácil de realizar. Foi somente na década de sessenta do século passado que se começou a pesquisar e a recuperar os trajectos e acções das mulheres. Podemos apontar estas possíveis ligações para explicar a resistência que os meios académicos ofereceram a esta nova área de estudo. uma das rainhas da primeira dinastia portuguesa. ganhou forma o projecto de trabalhar sobre D. o regime ditatorial vivido em Portugal até 1974. mulher de D. 2012. a trabalhos sobre o casamento. uma vez que a História das Mulheres é um campo de estudo muito recente. principalmente. boa esposa e mãe de família. Cf. Instituto de Estudos Medievais. da qual destacamos os protestos contra a guerra do Vietname e a favor dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos da América. 1 1 . O gosto pela História. Afonso IV. Manuela Santos Silva e Ana maria Rodrigues. os movimentos de libertação das mulheres na Europa). Possivelmente. Beatriz. mas também à política contemporânea. de José Mattoso.

Tornou-se. in Estudos de Direito Hispânico Medieval. Vanda Lourenço. pp. in Clio. Beatriz”. Coimbra. pp. Beatriz seriam muito escassas e pobres. “O casamento em Portugal na Idade Média”. pp. 81-107. Hermenegildo Fernandes e Luís U. Revista do Departamento de História. pp. 1948. Coimbra. as nossas rainhas medievais não terem ocupado o trono e a coroa por direito próprio. a documentação revelou-se muito mais rica do que se poderia imaginar à partida. T. pelos historiadores do direito2. 1952. Ano 3. in Promontoria. Afonso. vol. 16/17. necessário efectuar um trabalho heurístico para reunir toda a documentação possível. in IBIDEM. Revista do Centro de História da Universidade de Lisboa. n. 4 3 2 2 . Beatriz. talvez devido ao facto de. apesar das dificuldades e dos obstáculos. “O testamento da rainha D. Leão. por tradição. que o verdadeiro trabalho científico carece de uma grande base heurística. 37-92. Foram publicados desde a segunda metade do século passado os seguintes trabalhos específicos sobre a rainha D. No entanto. Todavia. mais uma vez. alguns autores estavam Manuel Paulo Merêa. mas também dando às rainhas consortes um papel absolutamente secundário4. 139-145. assim. 59-138. Arqueologia e Património da Universidade do Algarve. IDEM.º3. Luís Cabral de Moncada. Beatriz (1349-1358)”. I. A primeira dificuldade que tivemos de enfrentar foi a parca bibliografia existente sobre a mulher do Bravo3. nos parecem intransponíveis. Universidade de Coimbra. “O dote nos documentos dos séculos IX-XII (Astúrias. Esta tarefa inicialmente surgiu como quase impossível. 151-171. 2005. I. por vezes. Ao iniciar este projecto tinha a noção das dificuldades e estava consciente de que todos os percursos têm obstáculos que. Galiza e Portugal”. “Do luxo à economia do dom: em torno do tesouro da rainha D. Para não repetir informação em nota de fim de página remeto para o primeiro capítulo da dissertação onde será apresentada bibliografia relativa à rainha D. 2007. pp. Beatriz. pp. pp.”. Os estudos sobre as rainhas medievais portuguesas são ainda parcos. muitos dos quais repetindo informação. mas também porque tudo indicava que as informações relativas à rainha D. E ir desvendando a cada dia a história desta rainha foi um desafio muito grande e demonstrou. 37-58. “A arra penitencial no direito hispânico anterior à Recepção. Nova série. Universidade de Coimbra. 363-394. mas sim como consortes ou viúvas. vol. in IBIDEM. in IBIDEM. in Estudos de História do Direito. O nosso ponto de partida foi um conjunto de problemas e de questões cujas respostas eram difíceis de encontrar. “Em torno do “casamento de Juras”. IDEM. “Notas complementares I – Sobre a palavra «arras»”. IDEM. essencialmente.um campo com uma longa tradição em Portugal e elaborados. não só devido ao estado em que se encontram os nossos arquivos no que diz respeito à organização e inventariação de todos os fundos.

“At the same time. D. temas e métodos6. 483). p. por exemplo) relegando para segundo plano as restantes consortes. 1-21. Leonor Teles. Inês de Castro. em 1985. no ano seguinte. Porém. da Revista de História. dois grandes colóquios interdisciplinares que revelaram o grande interesse que este novo campo de estudos estava a despertar. 1979. women and feminist movements started putting forward such claims as women’s right to vote. 3 . Ambos podem ser vistos como um reflexo dos debates e reflexões que ocorriam fora do nosso país5. and birth control. apesar de todas as restrições. das rainhas em particular. D. Deste modo. sep. assim como. Os investigadores exerciam mais o seu labor sobre a História económica. sep. no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. de Bracara Augusta. apesar das mudanças e de alguns progressos foi somente em meados dos anos oitenta do século XX que os estudos sobre a História das Mulheres iniciaram o seu trajecto no meio académico7. O casamento no contexto da sociedade medieval portuguesa. 1984. Todavia. Subsídios para o estudo do adultério em Portugal no século XV. Foram organizados. Com a Revolução do 25 de Abril de 1974 não foi só o regime político que se alterou em Portugal. In 1977.º5. este tipo de acontecimentos só voltou a ter lugar após o derrube da ditadura. and started sponsoring studies and publications on women. a “Commission for the Feminine Condition” (Comissão da Condição Feminina) was created as a government institution to promote the equality of rights. Porto. Assim. Amélia Aguiar Andrade. Ambos os trabalhos estudam amplamente a posição das mulheres na família. Isabel. p.mais preocupados em registar as singularidades de algumas rainhas (D. pp. work. mas também o ensino universitário e o desenvolvimento das ciências sociais. política e religiosa sem que a história das mulheres e. que decorreu em Lisboa.” (in Manuela Santos Silva e Ana Maria Rodrigues. “Women’s and gender (…)”. 1-30. social and juridical questions” (in Manuela Santos Silva e Ana Maria Rodrigues. no ano de 1968. “Womens’s and gender (…)”. n. cativasse a sua atenção. um ciclo de conferências sobre o tema A mulher na sociedade contemporânea. pp. foram realizados encontros de carácter científico cujo tema principal gravitava em torno da mulher. foi realizado o “Issues such as women’s education. civil divorce. and sexuality were discussed there along with moral. Teresa Teixeira e Olga Magalhães. Apesar de muito inovador para o contexto político da época. com a renovação dos seus problemas. 484) 7 6 5 Humberto Baquero Moreno. foi organizado um congresso intitulado Sobre a condição da mulher portuguesa. Braga. Centro de História da Universidade do Porto.

Coimbra. 2003. Afonso V e D. IDEM. “A mulher como um bem e os bens da mulher. n. 3ª série. Isabel Maria Sabino Ferreira. 1989-1991. 35-49. pp. Cascais.pt/?no=101000100079.ul. Podemos considerar que este último marcou o inicio do estudo de “história das mulheres” entre os medievalistas portugueses. in A mulher na sociedade (…). 13 12 Evelina Verdelho. vol.ics. Ana Rodrigues Oliveira. in Revista da Universidade de Aveiro/Letras. vol. 2001. 2 vols. 1986. 1986 (veja-se. no qual fez não só um conjunto de reflexões teóricas sobre o assunto. “Santarém e as cidades da comarca da Estremadura na memória cronística feminina”. e na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.º5. pp. http://analisesocial. sendo também apresentadas propostas metodológicas para a sua abordagem. 10 9 José Mattoso. pp. 51-90. 11 Maria Helena da Cruz Coelho e Leontina Ventura. Imagens e palavras”. No entanto. 2000. Câmara Municipal.”. Visão histórica e perspectivas actuais. As representações da mulher na cronística medieval portuguesa (séculos XII a XIV). pp.º6-8.colóquio As mulheres em Portugal8. 99-102. O Professor José Mattoso apresentou neste colóquio uma comunicação intitulada “Mulher e família”10. consultado em 25/03/2012) A mulher na sociedade portuguesa. Posteriormente. 201-219. 275-284. 133-147. “A imagem da mulher nas crónicas medievais”. Alcina Manuela de Oliveira Martins. in Os reinos ibéricos na Idade Média. vol. in A mulher na sociedade (…). apesar dos anos volvidos. in Santarém na Idade Média. Santarém. Livro de homenagem ao Professor Doutor Humberto Baquero Moreno. 1995 (dissertação de Mestrado policopiada). Patrimónia. Actas do colóquio. n. in Faces de Eva. pp. Porto. pp. Faculdade de Letras. No silêncio das palavras (mulheres nos livros de linhagens). “A mulher na historiografia portuguesa dos reinados de D. Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Actas do Colóquio. os livros de linhagens12 e as crónicas13 foram estudados em busca do elemento feminino. João II. “A mulher e a família”. entre os séculos XI e XIII. Faculdade de Letras da Universidade do Porto/ Livraria Civilização. IDEM. I. vol. I. a sucessão e a aliança. 4 . XXII (92-93). A investigação deveria assentar em dois vectores fundamentais da vida familiar. Não nos podemos esquecer que os autores deste tipo de 8 As actas foram publicadas na revista Análise Social. foi a apresentada pelas Professoras Maria Helena da Cruz Coelho e Leontina Ventura11. como enumerou um vasto conjunto de problemas que na altura poderiam ser objecto de estudo pelos historiadores. “A mulher entre a norma e a prática na Idade Média portuguesa”. 2007. Visão histórica e perspectivas actuais9. o programa de investigação proposto naquele colóquio está longe de ter sido cumprido. Lisboa. I. Uma outra comunicação que trouxe algumas respostas sobre o papel das mulheres da nobreza nas estratégias de aliança e na transmissão do património. A mulher na sociedade portuguesa.

Saul António Gomes. Estudos em homenagem a Salvador Dias Arnaut. Mesmo em França e em Espanha foram publicadas somente na década de 90 do século passado: George Duby e Michelle Perrot (dir. 1893. “Uma estratégia de passagem para o Além: o testamento de Beatriz Fernandes Calça Perra (Tomar. documentação régia e eclesiástica). pelos Livros Horizonte). um capítulo cujo 14 Frederico de Figanière. “Uma dama na Leiria medieval: Beatriz Dias. Diogo Vivas. mas também que era possível saber muito mais sobre as senhoras poderosas16. neste estudo o autor escreveu sobre algumas rainhas medievais. o registo da representação que o homem fazia da mulher do seu tempo. 9-II. Lisboa. principalmente. Talvez devido às fontes tradicionalmente utilizadas pelos investigadores (tais como crónicas. Foi necessário esperar pelos anos 90 do século XX para os historiadores questionarem novamente as fontes e descobrirem que era possível escrever a história de mulheres não pertencentes à nobreza15. Centro de História da Universidade do Porto-Instituto Nacional de Investigação Científica. nunca tendo havido uma equipa de investigadores que tenha organizado uma História das Mulheres em Portugal17. pp. Rainhas de Portugal. os estudos de história das mulheres versavam. “Um património laico tomarense nos finais da Idade Média: os bens de Beatriz Fernandes Calça Perra”. 1462)”. IDEM. Coimbra. Paris. livros de linhagens. 16 Maria Helena da Cruz Coelho e Leontina Ventura. pp. Francisco da Fonseca Benevides. Madrid. Histoire des femmes en Occident. Lisboa. o panorama nacional sobre a história das mulheres era muito lacunar e fragmentário. Editora Ausência. Lisboa. 159-193. vol. Elisa Garrido (dir. Síntesis. Estudos históricos. Estudo histórico.fontes eram sempre masculinos. Historia de las mujeres en España. IDEM. Coimbra. 17 5 . pp. sociedade e poderes. pp. II. 1987. Centro de História da Universidade de Lisboa. n. 1859. in Actas das II jornadas luso-espanholas de História Medieval. recentemente editada. Nova série. principalmente. Todavia. in Primeiras Jornadas de História Moderna. Patrimonia. 1997. 1987. in Economia. Cascais. vol. As donatárias de Alenquer. Gomes Editor. de). in Clio. in Horizontes do Portugal Medieval. 223-241. Lisboa. 143-161. 917-937. Plon. 5 vols. Visibilidade de uma existência”. João Franco Monteiro. de). Typographia Universal. 19911992. devido à falta de fontes elaboradas pelas próprias mulheres. 33-77. infelizmente. 15 Manuel Sílvio Alves Conde. 1986. Porto. Memorias das rainhas de Portugal: D. Pedro I”. sobre rainhas. 2004. M. pp. Algumas observações em torno de uma bastarda régia”. “Os bens de Vataça. pp. 2007. Como podemos verificar. pelo que através destas ficou-nos. Podemos encontrar na História da vida privada em Portugal. Theresa . Revista do Centro de História da Universidade de Lisboa. princesas e mulheres pertencentes à nobreza14. História das rainhas de Portugal e da sua casa e estado. 1878 (esta obra foi reeditada no ano de 2007.º16/17. Actas. “Vataça – uma dona na vida e na morte”. “Constança Sanches. in Revista de História das Ideias. sabemos muito pouco sobre a forma como elas se auto-representavam.. 301-329. I. «manceba del-rei» D. 1999. Typographia Castro Irmão.Santa Isabel.

21 22 Isabel Pina Baleiras. “A mulher”. Círculo de Leitores.título é “A mulher”. 2010. “Women’s and gender (…)”. 1999 (dissertação de Mestrado policopiada). Universidade do Minho. 19 20 Aqui destacamos os trabalhos realizados por Manuela Santos Silva e Ana Maria Rodrigues que serão. pp. Braga. clearly show how little progress has been made in this matter since 1985”19. coord. de José Mattoso. o qual propõe uma síntese sobre o assunto18. 2008 (dissertação de Mestrado) (Professora Manuela Santos Silva foi responsável pela orientação deste trabalho). ambas são coordenadoras da colecção Rainhas de Portugal. Rainha de Aragão (1328-1348). In Manuela Santos Silva e Ana Maria Rodrigues. 24 23 6 . Entre muitos artigos publicados21. Leonor Teles. vol. do Programa Inter-Universitário de Doutoramento em História (Professora Ana Maria Rodrigues é actualmente responsável pela co-orientação desta dissertação de Doutoramento). David Nogales Rincón (bolseiro da Fundación Española para la Ciencia y la Tecnología – FECYT). Adriana Romba de Almeida (bolseira FCT). dir. pp. Casamentos da casa real portuguesa no século XV. representación y mecenazgo en el tránsito del cuatrocientos al quinientos en Portugal (1497-1517) (Professora Ana Maria Rodrigues é actualmente responsável pela supervisão deste projecto de pósdoutoramento). comunicações apresentadas em encontros científicos e teses de mestrado22 e/ou doutoramento23 bem como em projectos de pós-doutoramento24. na qual são traçadas biografias de todas as rainhas portuguesas. Aida Maria Martins da Silva Pinto. A ideia pré-concebida de que não havia dados documentais suficientes para escrever acerca das mulheres condicionou a inexistência de biografias das rainhas de Portugal. I – A Idade Média. 496. in História da vida privada em Portugal. failing to acknowledge the diversity of women’s conditions and experiences. La Casa de las infantas de Castilla y reinas de Portugal doña Isabel y doña María: Corte. Lisboa. “The facts that i tis still the singular ‘woman’that is used. Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Infelizmente. A história das mulheres trilhou na historiografia portuguesa um curto e lento caminho. 300-323. Lisboa. uma mulher de poder?. de Bernardo Vasconcelos e Sousa. para o período medieval as 18 Ana Rodrigues Oliveira e António Resende de Oliveira. Serão ao longo das páginas seguintes mencionados em notas de fim de página. and that women are relegated to their sole biological nature by the choice of the title of the division in which they are included. de início os estudos dedicados às rainhas medievais tinham como base a pesquisa de fundamentos económicos das “Casas” das rainhas20. ao longo do trabalho referidos em nota de rodapé. Assim. Uma rainha e o seu tesouro: os bens de Leonor de Portugal. Nos últimos anos esta temática tem vindo a ser mais investigada graças aos esforços das Professoras Ana Maria Rodrigues e Manuela Santos Silva.

duas dinastias. Dezassete mulheres. Revista do Centro de História da Universidade de Lisboa. vol. Na revista Clio. Lisboa. Revista do Centro de História da Universidade de Lisboa. 27 28 Ana Rodrigues Oliveira. surgiu um outro estudo generalista sobre as rainhas medievais de Portugal28. 2010. a rainha D. 16/17. Teresa de Leão e Castela (1078/91?-1130) até Leonor de Lencastre (1458-1525). Lisboa. Beatriz. foi dedicado um capítulo às rainhas de Portugal. em número reduzido. IDEM. mas sem carácter sistemático. quatro séculos de História. Neste contexto. Revista do Centro de História da Universidade de Lisboa. no qual são redigidos de forma muito sucinta e genérica esboços biográficos das rainhas portuguesas desde D. pp. 25 Veja-se a título de exemplo os trabalhos de Félix Lopes. patrimónios. Eram elas. principalmente.n. assim como a bibliografia referida pela autora neste seu trabalho. vol. Clio. pp. III – Santa Isabel de Portugal e outros estudos. in Clio. Nova série.. Esfera dos Livros. Lisboa. Da mesma autora. Beatriz (1372-1420?).º 16/17 foi dedicado à temática das “Realezas: práticas e doutrinas”. Academia Portuguesa de História. o n. 315-330. às rainhas e infantas portuguesas. Uma rainha esquecida na história de portugal?”. s. Outros autores referem a rainha D. Leonor Teles (…). “D. Rainhas medievais de Portugal. com três artigos sobre as rainhas de Portugal29. 2007. Nova série. 16/17. mas também às rainhas e infantas não portuguesas focadas nas crónicas. com a ausência de investigação sobre fontes primárias. poderes”. Partindo deste ponto.Armando Vivas. Manuela Santos Silva. 1974. Foram eles a dissertação de mestrado de Ana Rodrigues Oliveira27.consortes mais estudadas eram. Breve apontamento sobre a rainha Santa Isabel e a pobreza. 16/17. Foram igualmente publicados dois trabalhos de grande importância para o estudo da queenship: uma biografia da rainha Leonor Teles. 7 . Colectânea de estudos de História e Literatura. Nova série. 2007. Isabel25 e D. na qual através de um estudo minucioso caracterizou as diferentes imagens e modelos da mulher transmitidos pela cronística medieval portuguesa. pp. 243-258. 139-153. 26 Isabel Pina Baleiras. Ana Rodrigues Oliveira. Outros trabalhos de âmbito geral recentemente publicados. As presentações da (…). deram algum destaque ao estudo da mulher. 1997. vol. Leonor Teles26. baseada em crónicas. “Filipa de Lencastre e o ambiente cultural na corte de seu pai”. 29 Ana Maria Rodrigues. in Clio. a autora elucidou os leitores sobre os papéis e estatuto atribuídos à mulher. vol. 2007. “Rainhas medievais de Portugal: funções. no início deste trabalho.

a nossa recolha e pesquisa exaustivas não podemos descurar a bibliografia estrangeira. Amantes dos reis de Portugal. 32 33 Maria Paula Lourenço. Perante as dificuldades sentidas. Ensaio biográfico. com o objectivo de não duplicarmos informação remetemos os leitores para essas páginas finais. Refira-se ainda. misericórdia. fazendo com que a documentação que se encontra hoje à disposição do investigador represente uma pequena parte daquela que terá sido produzida pelos oficiais da rainha34. 1| juin 2006. in http://e-spania. Esfera dos Livros. Em tais estudos deveriam ser encontrados os aspectos de continuidade (como. «Le pouvoir au féminin dans la Castille médiévale: 8 . mis en ligne le 16 août 2010. transformações e depredações que foram sofrendo.org/319. consultado em 08/12/2010. mulher de D. Acresce ainda. Rainhas medievais de Portugal (…). Leonor. até. religiosidade e espiritualidade no Portugal do Renascimento. Ana Cristina Pereira e Joana Troni. os cartórios das diferentes casas religiosas. recentemente.mas também em trabalhos de investigação histórica30. não só ao longo do texto. Toda a documentação primária por nós utilizada na redacção deste trabalho encontra-se referida. a partir de quando se pode falar efectivamente da instituição Casa da Rainha?). Campo das Letras. ao longo dos séculos. Assim. especialmente a espanhola. Lisboa. Porto.revues. A revista E-Spania35 publicou as 30 Manuel Marques Duarte. Fundação Calouste Gulbenkian / Fundação para a Ciência e Tecnologia. de pequenas biografias das rainhas medievais portuguesas32 e. 2008. bem como as grandes mudanças. Poder. Leonor Teles. algumas questões emergiam devido à ausência de estudos sistemáticos e comparativos dos quais ressaltassem as visões de conjunto sobre as rainhas medievais portuguesas. eSpania [En ligne]. 2009. 2002. Lisboa. 31 Ivo Carneiro de Sousa. o desaparecimento dos registos da chancelaria de D. 34 35 Vejam-se na edição on-line os seguintes artigos: Charles Garcia. Além da bibliografia e das fontes portuguesas sobre as quais incidiu. Leonor (1458-1525). Joana Bouza Serrano. Sublinhe-se também. João II31. como dificuldade. A rainha D. Lisboa. a quase total ausência da publicação de fontes específicas sobre o tema. das amantes dos monarcas33. a publicação. As Avis. e uma dissertação de Doutoramento sobre a rainha D. os bens imóveis que pertenciam à Casa da Rainha). Beatriz. mas também os de inovação (por exemplo. sobretudo. por exemplo. «Le pouvoir d’une reine». mas também na lista de fontes consultadas. Esfera dos Livros. Ana Rodrigues Oliveira. As grandes rainhas que partilharam o trono de Portugal na segunda dinastia. 2002. Emmanuelle Klinka.

org/327. aportaba hábitos o costumbres de su país?” (in María Jesús Fuente. como se escogía a la esposa del príncipe? Qué virtudes se tenían en cuenta para elegirla? Fueron las reinas simples objectos de la pasión del rey? Eran. como um modelo a imitar39. Consejo Superior de Investigaciones Científicas/Xunta de Galicia. e rainha de Castela pelo seu casamento com D. Como um espelho da sociedade da sua época.revues. sólo esposas oficiales de los monarcas.comunicações apresentadas no Colóquio “Gobernar en Castilla durante la Edad Media: el papel de las mujeres”. procurou estudar um papel que não podia ser analisado isoladamente: o de mulheres e. Fernando e D. mis en ligne le 09 juillet 2010. Mais antigos são os labores de Gaibrois de Ballesteros sobre D. A autora não deixava de alertar para a existência de poucos estudos dedicados às mulheres medievais hispânicas40. Reinas medievales en los reinos hispánicos. consultado em 09/12/2010. desta feita mais recente. p. 1| juin 2006. 2005. in http://e-spania. Beatriz. CNRS). Leonor Teles. consultado em 08/12/2010. simultaneamente. mis en ligne le 09 juillet 2010. p. Reinas medievales (…). e-Spania [En ligne]. María Jesús Fuente. Beatriz de Portugal. mãe de D. quienes reservaban el amor para sus concubinas? Cuál era su misión o su papel? Qué relación tenían con los poderes políticos y religioso? Hicieron algún tipo de aportación a la cultura de su tiempo? Si era extrajera. 2007. o Instituto de Historia do CSIC-Madrid e o SIREM (GDR2378. no qual se observavam as restantes mulheres do seu tempo. rainhas. que decorreu na Casa de Velázquez entre os dias 17 e 19 de Janeiro de 200536. Maria de Molina37. «Ser reina». por el contrario. e-Spania [En ligne]. 1| juin 2006. 23).revues. que constituem um marco importante sobre o estudo das consortes régias e das suas múltiplas formas de abordagem. 26. abarcando o período do século VI ao XV. Madrid. en otras palabras. José Manuel Nieto Soria. João I41. Merece igualmente referência um outro estudo. 39 As questões colocadas por esta autora foram as seguintes: “qué se esperaba de ella como reina? Como se la elegía o. no qual a autora. Estes trabalhos serão referenciados em notas de fim de página ao longo do trabalho. 36 Este congresso foi co-organizado pela Casa de Velázquez.org/324. a consorte surgia. 41 9 . 40 César Oliveira Serrano. de María Jesús Fuente38. Esfera de los Libros. através das pequenas biografias das rainhas dos reinos hispânicos. Encontramos aqui um conjunto de trabalhos monográficos de grande interesse sobre os vários aspectos da actividade política feminina. Também no une deuxième voie?». sobre as consortes dos reinos hispânicos. La pugna dinástica Avís-Trastámara. assim. Santiago de Compostela. 37 38 María Jesús Fuente. filha de D. Reinas medievales (…). in http://espania. Beatriz de Portugal. De salientar ainda o estudo de César Oliveira Serrano sobre D.

1996). acaba por ser transversal a toda a realidade histórica. construcción e interpretación de la imagen visual de las mujeres (Madrid. 42 10 . Representación. bem como a administração dos seus bens patrimoniais e. Mujeres representadas. 2000). Mujeres: cuerpo e identidades. 1995). 2009). representaciones. Historia de las mujeres: una revisión historiográfica (Valladolid. Nunca podemos olvidar que os registos medievais. III Seminario Internacional de AEIHM. II Seminario Internacional de AEIHM. movilizaciones. Foram. principalmente. regulación de conflictos y cultura de la paz (Valencia. mas também as relações sociais que manteve e a sua posição na vida política do país. Historia y Feminismo. 2008). 1999). O estudo deste caso concreto levou-nos a efectuar leituras interpretativas do papel da mulher pertencente a um grupo privilegiado e de topo da sociedade medieval portuguesa. por fim. Mujeres e Historia. Las edades de las mujeres (Madrid. Apesar da temática escolhida se encontrar inserida no conceito de queenship. Perspectivas desde la Historia (Baeza. Historia de las Mujeres. também em Espanha o conceito de queenship não encontra um termo que corresponda à sua abrangência. o domínio político e militar. Las mujeres y el poder: representaciones y prácticas de vida (Madrid. Pautas históricas de sociabilidad femenina: rituales y modelos de representación (Cádiz.país vizinho a Asociación Española de Investigación de Historia de las Mujeres (AEIHM) tem realizado colóquios internacionais com uma periodicidade anual desde 1993. Historia y Feminismo: La historiografía feminista francesa y su influencia en España (Madrid. Revisión teórica y metodológica (Bilbao. bem como a acção dos monarcas e de alguns elementos ligados à corte. a preparação para a morte. Beatriz. 1994). 2007). (Sevilha. neste país também. Mujeres. 1993). Imágenes de género (Madrid. Maternidades: discursos y prácticas históricas (Oviedo. prácticas y discursos en la Historia. I Seminario Internacional. poucas as rainhas sobre as quais se elaborou uma biografia com base numa investigação em fontes primárias. Mujeres y ciudadanía. foi necessário indagar dados na documentação coeva guardada nos arquivos. Perspectivas Actuales (Barcelona. Las mujeres y las guerras. Joan Scott y la historiografía feminista en España (Madrid. Tornava-se necessário conhecer não só as origens familiares de D. 1998). narravam. Perante a parca informação disponível na bibliografia. escritos por homens. 2004). mas também tendo escolhido como objecto de trabalho uma temática cujas notícias eram ainda mais reduzidas. Discursos. 2003). Tal como em Portugal. La historia de las mujeres y del género en Italia (Madrid. sobretudo os indivíduos Apresentamos aqui a lista com o tema/título do colóquio. Diálogos entre España y América latina (Bilbao. 2005). 2002). políticas y experiencias de vida (Barcelona. La relación de las mujeres con los ámbitos públicos (Santiago de Compostela. 2006). Mujeres y Educación. assim como o ano e o local de realização: La historia de las mujeres en Europa. 1997). Historia y Feminismo. 2010). Saberes. nos quais proporciona aos seus participantes um espaço de encontro e discussão de especialistas em história das mulheres nacionais e estrangeiras42. 2001).

que nasceu por volta de 1265 e morreu em 1321. D. Inês de Castro. Não esquecemos a visão que os historiadores do século XX tinham de D. Para o estudo desta personagem traçámos um plano de trabalho que. ausente. Sancho IV. filha de D. Afonso XI. D. e faleceu em 1295. Esta rainha encontrava-se ligada à coroa castelhana. era D. Quanto a sua mãe. De seguida foi necessário procurar a ascendência linhagística de D. Este foi negociado aquando da celebração do tratado de Alcañices. Após a morte de seu marido. filha de D. Afonso. Isabel e D. Leonor Teles. D. Fernando IV. uma vez que seu pai foi o rei D. na qual a rainha teve um papel muito importante na assinatura do acordo de Canaveses de 1355. Os pais de D. Inês de Castro. necessariamente. ponderámos observar algumas “estórias” escritas sobre os amores de D. senhora de Molina. Beatriz. o Bravo. Pedro com D. nem todas as memórias das consortes são recordadas com a mesma intensidade. D. Afonso X. Maria. Maria foi regente durante a menoridade do seu filho. bem como pelas primeiras histórias de Portugal. e de D. Pedro com D. Jaime I de Aragão. foi sofrendo alterações à medida que a sua concretização ia ganhando forma. tornava-se inevitável analisar como a historiografia estudou a mulher de D. Começámos a pesquisa pelas obras suas contemporâneas. Beatriz. Antes de iniciar o estudo sobre a rainha D. Sancho IV nasceu em 1257. passando pelas diferentes crónicas medievais. e do seu neto. Devido à trágica relação de D. filho segundo de D. coroou-se rei em Toledo no ano de 1284. Neste mundo maioritariamente masculino a história das rainhas foi naturalmente relegada para segundo plano. até. Inês. bem como a forma como os diferentes autores imaginaram a mãe do herdeiro do trono e qual o seu papel durante o relacionamento amoroso de D. Beatriz era mais ténue e. Violante. Maior Afonso Teles. Pedro e de D. Beatriz eram primos e casaram-se sem obter a respectiva dispensa canónica de matrimónio. Beatriz. Afonso será analisado no capítulo III. que só chegaria em 1301. Sancho IV. logo após a morte de seu pai. Deste modo. A imagem de uma rainha que revelava personalidade forte e interventiva nos assuntos relacionados com a governação do reino. a imagem de D. deixou muitos registos na documentação coeva. após a morte do rei D. O acordo matrimonial entre D. Todavia. como por exemplo D. infante de Castela e senhor de Molina. no 11 . o Sábio.provenientes das principais linhagens. e de D. Beatriz e o infante D. Afonso IV.

rei de Castela. O imaginário medieval.9. Círculo de Leitores. Fernando IV de Castela e D. em 1291 (Veja-se. Obras completas. enquanto o príncipe português era bisneto deste. p. Porto. Dinis. Para além dos laços de parentesco que uniam estes nubentes. D. IDEM. em Alcañices. Relaciones diplomáticas y dinásticas”. Para garantir e cimentar esta última negociavam-se matrimónios entre as duas casas reais. a 12 de Setembro de 1297. futura mulher do infante português D. Lisboa. As relações de frontera no século de Alcañices. D. vol. José Augusto Pizarro. Genealogias e estratégias (1279-1325). Assim aconteceu. por via de sua avó paterna. Centro de Estudos de Genealogia. Linhagens medievais portuguesas. à luz do direito canónico. vol. Lisboa. vol. a infanta D. rei de Portugal. Assim.º13. casou em 1302 com D. 922-923. Beatriz. O casamento entre D. Beatriz teria apenas três ou quatro anos de idade e o infante não teria mais de seis. José Mattoso. IV – Poderes invisíveis. I. in IV Jornadas Luso-espanholas de História Medieval. mas também estabeleceu um acordo matrimonial que visava. Estes dois casamentos são bem ilustrativos do peso que o espaço ibérico detinha no momento da escolha de cônjuges para os futuros monarcas peninsulares. através das alianças dinásticas assegurar as boas relações entre Portugal e Castela. Obras completas. Fernando IV. vol. Afonso. Beatriz era neta de D. “La política internacional de Portugal y Castilla en el contexto peninsular del Tratado de Alcañices: 1267-1297. José Augusto Pizarro. A nobreza de corte de Afonso III. Constança.18. 2001. como ilegítima. Lisboa. Porto. Círculo de Leitores. 45 46 12 . ou seja. Actas. n. os futuros monarcas portugueses estavam incluídos no interdito eclesiástico devido aos sucessivos casamentos entre membros das respectivas famílias. II – Identificação de um país. D. Deste quadro não devem ser dissociadas as relações estabelecidas entre Portugal e Castela. Heráldica e História da Família da Universidade Moderna – Porto. 233). Manuel García Fernández. rei de Castela e irmão de D. uma vez mais.ano de 129743 quando D. Círculo de Leitores. Beatriz de Guillén. Gav. o Sábio. pp. D. Afonso III. bastarda de Afonso X e casada com D. Sancho IV e D. Oposição. Este foi um tratado diplomático que definiu as fronteiras entre os dois reinos ibéricos. 2005. Cf. II. Afonso45. 44 Sobre o sistema de circulação de mulheres no seio da nobreza medieval portuguesa vejam-se os estudos de Leontina Ventura. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. 1992 (dissertação de Doutoramento policopiada). Coimbra. Beatriz era considerada. uma vez que o casamento de seus pais nunca fora validado pela Igreja46. Constança foi acordado por seus pais. m. irmã mais velha de D. 43 TT. respectivamente. Afonso X. Este acordo foi ratificado visando uma consolidação de alianças entre Portugal e Castela. De facto. 1999. a infanta portuguesa D. 3 vols. que oscilaram constantemente entre a guerra e a paz. 1998. Neste caso. Esta consolidação foi efectuada através da circulação de mulheres44. Dinis. 2001.

Pedro contra o seu pai devido à morte de D. Afonso IV para com a sua mulher? A ida da rainha a Badajoz no ano de 1336. seu marido. procurámos aqui levantar algumas questões e encontrar possíveis respostas. mas também analisar alguns dos momentos políticos e pessoais mais importantes da vida desta rainha. Este era um acordo pré-matrimonial. D. na parte final deste capítulo. Isabel era muito próxima ou. Dinis deu a carta de arras à infanta D. este matrimónio se pudesse concretizar. qual o papel que a infanta teve na guerra civil de 1319-1324? Teve uma intervenção activa ou um papel passivo? Será que podemos falar em fidelidade de D. Quantos filhos nasceram do seu casamento? Quais os que sobreviveram até à idade adulta? Como foi a relação desta mãe com a sua prole? Qual o papel desempenhado nas negociações dos casamentos dos filhos? 13 . Beatriz e dos seus irmãos. que regulava o destino e a gestão dos bens. Beatriz. Beatriz? A relação com D. Afonso IV. mas também devido à necessária legitimação da infanta D. chegado o dia do enlace. Inês de Castro. Isabel? Devido ao facto da infanta ter vindo para o reino de Portugal muito nova ocupou-se a consorte dionisina da educação da sua nora? Que educação recebeu D. Foi logo após o regresso do encontro de Alcañices e antes da chegada da dispensa que D.devido aos laços de parentesco tão próximos que existiam entre os noivos. Na primeira será analisada a relação de D. por último. foi necessário fazer todos os esforços para obter da Cúria Romana as necessárias dispensas para que. através das parcas informações encontradas. e o genro. Beatriz com o rei D. Beatriz com a rainha Santa Isabel. na assinatura do acordo de Canaveses (1355) e no restabelecimento da paz no reino? Na segunda parte iremos analisar. D. Também aqui procuramos resposta a algumas questões: seguiu D. Afonso IV. a relação de D. anterior à consumação do casamento. Assim. Beatriz enquanto mãe. fria e distante? Como terão convivido estas duas mulheres? E. bem como visava garantir a efectivação do casamento e salvaguardar a noiva em caso de repúdio. Beatriz o modelo de santidade de D. em 1301. O quarto capítulo deste trabalho será dividido em três partes. para intervir no conflito entre o marido. pelo contrário. Como o campo dos afectos é totalmente silenciado pela documentação. qual a posição da rainha na revolta do infante D. A licença papal foi concedida por Bonifácio VIII. D. Afonso XI.

Tais como: que terras possuía? Qual a sua origem? Onde se localizavam? Quais os bens imóveis adquiridos e/ou alienados? De que modo exercia D. De que tipo de funcionários necessitava uma rainha? Quais as instituições que já se encontravam definidas exclusivamente para o serviço da rainha? Quem compunha a corte da consorte? Será que podemos falar de um corpo de servidores próprio e autónomo face ao rei? Por fim. que se viu alcandorado à posição social mais elevada no reinado de D. O outro caso de estudo são os Avelar. Esta sua ascensão está intimamente ligada aos cargos ocupados na corte do monarca. abordaremos as acções de D. Vamos encontrar muitos membros masculinos. 14 . Apesar de muitas questões ficarem por responder devido à ausência de informação documental. as informações veiculadas na documentação coeva sobre os direitos e as rendas recebidas por D. Infelizmente. Afonso IV. Beatriz são muitas parcas. a doação dos seus objectos móveis. Como apêndice poderão encontrar-se esquemas genealógicos. Beatriz. O objectivo principal destas linhas é tentar perceber se já existia verdadeiramente uma Casa da Rainha ou se será necessário esperar uns anos para que esta se institucionalize. as doações à Igreja e a particulares. bem como mapas sobre os bens imóveis detidos pela rainha D. os seus testamenteiros e as suas últimas vontades.No quinto capítulo será abordada a “Casa” da rainha em termos dos bens e dos indivíduos que a integravam. assim como as relativas aos privilégios e jurisdição das terras. Foi com estas pessoas que D. a instituição de um hospital. iniciamos este capítulo com muitas dúvidas em mente. Por fim. Beatriz. Beatriz os seus direitos senhoriais? Uma rainha seria sempre rodeada por um conjunto de vassalos e serviçais que com ela conviviam e partilhavam o seu dia-a-dia. assim como quadros vários. mas também femininos desta linhagem na esfera da rainha D. Beatriz que visaram perpetuar a sua memória através da escolha do local de sepultura e da instituição da capela régia. Lopo Fernandes Pacheco. o hábito franciscano com o qual ordenou ser enterrada. Beatriz construiu uma teia de relações. mas também institucional. mas também do Bravo. Beatriz. As terras e as rendas delas auferidas garantiam uma certa autonomia financeira por parte da usufrutuária. não só a nível pessoal. mas também junto da rainha. serão analisados dois casos concretos: um nobre. as missas que mandou rezar. Através da documentação conseguimos entrever uma parte daquele que terá sido o núcleo patrimonial da rainha D.

Livro de Linhagens do Conde D. 6BA10. Beatriz são unânimes. “Beatriz”. Todavia. Leonor e Pedro48. Beatriz terá nascido no ano de 1293 em Toro. I. Monarquia Lusitana. a título de exemplo. Beatriz (1293-1359). Dinis que esta infanta passou a ostentar o título de rainha de Portugal. Afonso IV e os três filhos que sobreviveram. de Joel Serrão. por A. dir. Aqui 47 Fr. Afonso IV. ir Portugaliae Monumenta Historica. 48 Livro de Linhagens do Deão. Francisco Brandão. o facto de ser casada com D. S/a. e seu irmão o monarca D. 1980 (doravante citado como LL) 4A11. o Bravo. 1984. deste modo. são preconcebidas e trouxeram-nos algumas dificuldades iniciais. necessária e imprescindível a pesquisa ao nível das fontes manuscritas guardadas nos arquivos. assim como os estudos contemporâneos. fl. A infanta D. I. Sancho IV. tendo vindo para Portugal muito jovem (com três ou quatro anos de idade47). 21A12. in Dicionário de História de Portugal. rainha de Portugal. vol. Pedro. Estas ideias. título esse que manteve até 1359. a nosso ver e como iremos demonstrar. academia das Ciências. ed. Maria de Molina. Devido ao acordo matrimonial assinado entre os monarcas português e castelhano. Lisboa. temos a consciência de que muitas das perguntas ficaram sem resposta … Perante a quase total ausência de informação disponível à partida foi necessário iniciar o árduo trabalho da pesquisa documental. Foram estas as nossas bases de partida. seus pais foram o rei D. Figueirinhas. 21B13. destacamos os três nobiliários medievais nos quais as informações relativas à rainha D. Esta princesa era filha e irmã de monarcas castelhanos. E foi desta forma que a historiografia portuguesa sempre a tratou: uma consorte que não deixou registos nem marcas dignas de estudo. Efectivamente. e D. Lisboa. 1980 (doravante citado como LD) 6AZ9. 318. vol. de José Mattoso. Maria. p.Este foi o plano por nós traçado na tentativa de encontrar as respostas para muitas das questões levantadas no início deste projecto. Fernando IV. apenas referindo os seus pais. ed. Academia das Ciências. 49 15 . Foi somente após o falecimento do rei D. bem como uma mulher que pouca influência teve na vida política e na governação do país. Quanto às narrações coevas. Da Silva Rego. Revelouse. mulher de D. Nova série. 501 (doravante citada como ML). ano da sua morte. principalmente na Torre do Tombo. 1974. 7D10. principalmente quando escasseiam os relatos coevos. de Joseph Piel e José Mattoso). Lisboa. Nos estudos contemporâneos salientamos a sua entrada no Dicionário de História de Portugal a qual diz somente “D. parte V. não se revelou tarefa fácil traçar o percurso de vida desta rainha. Porto. com quem se casou em 1309”49. (ed. esta infanta foi separada de seus pais. Imprensa Nacional – Casa da Moeda. os seus irmãos.

Já no final do reinado o país viu-se mergulhado. Fernando. era dotada de grande piedade. Infelizmente. pautou a vida de D. Não existem. Na memória escrita ficou também registado o encontro em Badajoz que D. Beatriz. Para além das fontes documentais temos ainda as crónicas e outras fontes narrativas. herdeiro do trono. bem como os esforços que D. Afonso Sanches. que reinou entre 1325 e 1357. o governo de D. ou seja. Beatriz teve com D. representações iconográficas ou descrições da época que nos dêem um retrato físico desta rainha. desta vez entre D. tais como as Crónicas dos sete primeiros reis de Portugal. Afonso IV conheceu várias situações de conflito. Ao nível da política externa. a Crónica Geral de 1344. a Crónica de 1419. grande número das notícias relativas à rainha chegaram até nós de forma indirecta. tal como a rainha Santa Isabel. na magnífica sepultura que a rainha mandou erigir na capela-mor da Sé de Lisboa uma estátua jacente que por certo se aproximaria da verdadeira fisionomia da soberana. tais como a guerra entre Portugal e Castela entre 1336 e 1339. fomos encontrá-las em documentação régia ou particular onde. Dinis. novamente. muitas vezes. Acreditamos que estas quatro décadas não tenham passado incólumes por esta mulher. Afonso XI de Castela com o objectivo de alcançar a paz entre as duas monarquias ibéricas. apesar de difícil a nossa tarefa revelou-se possível. e D. Beatriz fez para conseguir a assinatura do acordo de Canaveses entre D. Pedro. ano do seu próprio falecimento. No entanto. Afonso IV e o seu filho D. Por regra. João I e os poucos relatos dos livros de linhagens. Beatriz se tornou rainha de Portugal até 1359. que D. pelo grande flagelo da Peste Negra de 1348. futuro rei de Portugal. Evidentemente que a acção governativa do seu marido. Deve ter existido. de todo. as informações são escassas. o reinado do Bravo foi marcado pelo conflito existente entre o monarca e o seu irmão D.encontrámos um conjunto de documentação dispersa por vários fundos. temor a Deus e outras virtudes. Ao nível da política interna. de facto. numa guerra civil. em 1325. Afonso IV. a Crónica D. Afonso IV. as referências destas fontes não vão além dos elogios à consorte do Bravo que. mas também pelas reformas administrativas e por várias medidas que visavam conter os abusos senhoriais. mas também a luta contra os 16 . com as suas múltiplas consequências a vários níveis. foi somente após a morte do rei D. essa imagem ficou perdida para sempre com o Terramoto de 1755. Pedro. a Crónica de D. Como dissemos. Porém. retratos. D.

neste percurso sinto-me devedora para com todos os meus professores e colegas. a amizade e a ajuda conseguem ultrapassar todas as barreiras e obstáculos. Em primeiro lugar. de que constituiu ponto culminante a batalha do Salado (1340). 140. primeiro D. a nível interno. Ao longo da elaboração deste trabalho recebi apoios e incentivos que sempre se revelaram determinantes para a sua concretização. Segundo Ana Maria Rodrigues. como impedimentos para prosseguir o nosso labor. Afonso IV deixou vago o trono de Portugal este foi ocupado por D. não só destas lides académicas. Pedro. os seus desejos ou os seus sonhos. Ficam por revelar aspectos tão importantes para um retrato físico e psicológico da nossa personagem como o seu corpo e o seu rosto. p. Quando D. Pedro? Apesar de afastadas do governo do reino as rainhas detinham poder que se manifestava em diversas áreas. Neste contexto políticoeconómico-diplomático qual o papel desempenhado por D. D. somente. financiada pelo POCI 2010 – Formação Avançada para a Ciência – Medida IV. mas também em diferentes esferas de actuação. “Rainhas medievais de Portugal (…)”. muitas vezes. Todavia. 17 . pelo contrário apoiava. posteriormente. mas também profissionais que ao longo deste meu percurso se cruzaram no meu caminho e de alguma forma 50 Ana Maria Rodrigues. durante 18 meses. no campo institucional. aquilo que a documentação nos deixou entrever. cumpre-me referir que a Fundação para a Ciência e Tecnologia me concedeu uma bolsa de estudo para Doutoramento. mas era também essa relação que lhes impunha limites”50. No aspecto diplomático. o físico e o político. Assim. que as rainhas medievais alcançavam uma posição de poder. as suas preocupações e as suas angústias. Beatriz? A rainha encontrava-se ao lado de seu marido. além dos acordos comerciais e de mútua protecção estabelecidos com a Inglaterra. apoiando-o incondicionalmente ou. os opositores régios. Mas esses talvez venham a permanecer desconhecidos para sempre. seu filho primogénito que deu continuidade à política de reformas administrativas iniciadas pelo pai.muçulmanos. Este estudo apresenta. o Bravo tentou assegurar a paz através de diversos tratados celebrados com Aragão e Castela.3 Na realização de um projecto científico surgem sempre inúmeras dificuldades e lacunas. consideradas. “era através da sua relação com os dois corpos do rei. Dinis e.

contribuíram para o finalizar deste trabalho. quero deixar expressa a minha gratidão e amizade a todos os que com o seu apoio contribuíram para a redacção e elaboração deste estudo. Abril de 2012 18 . A ele um agradecimento muito especial. Apesar de não os nomear. Lisboa. Um bem-hajam! Ao meu mestre de estudo devo o finalizar deste trabalho e de mais uma etapa académica.

estes trabalhos serão referidos ao longo do capítulo. Não há estudos especializados sobre D. No decorrer deste estudo deparámo-nos com uma dificuldade: não encontrámos nenhum texto ou memória que relatassem aprofundadamente a vida da rainha D. Beatriz não é a rainha mais conhecida da História de Portugal. Beatriz. e irmã do rei D. o Sábio. ainda que breve. Beatriz. Afonso IV e mãe de D. ao olhar de muitos. Nas diferentes obras que compulsámos. No entanto. Procuraremos. 19 . Afonso X. por vezes. e neta de D.I – As representações da rainha na historiografia portuguesa Nas próximas páginas iremos seguir os passos dos textos e dos autores que desde o tempo de D. deste modo. Entre uma Rainha Santa. rei de Castela. Inês de Castro. ainda. ao longo dos tempos. Muitos autores reconhecem a esta soberana apenas dois actos 51 Com o objectivo de não sermos repetitivos. pertencendo à família real castelhana. como uma desconhecida. no entanto existem trabalhos51 onde os respectivos autores foram deixando uma contribuição. D. D. acerca da vida da rainha. Efectivamente. as notícias sobre a rainha são claramente fragmentárias. Sancho IV. as efémeras evocações revelaram-se importantes porque nos legaram a reconstrução e a representação de uma imagem que se pretendeu perpetuar. imprecisa. era filha do rei D. nas crónicas. Apesar de esparsas. Isabel do “Milagre das Rosas”. Beatriz surge. Beatriz. constituindo a base da actual imagem sobre a rainha. Pedro I. Outros. Beatriz. rainha consorte de Portugal. que referenciam a vida e as actividades de D. a D. encontram-se. e de sua mulher. ainda que sumária e. e uma aia que depois de morta se tornou rainha. não tendo a soberana. mulher de D. D. Fernando IV de Castela. Ao longo da história portuguesa as diversas consortes régias não possuíram a mesma visibilidade. o Bravo. a rainha D. no ano de 1293. terá nascido em Toro. Beatriz até à actualidade foram fixando em narrativa a sua vida. reconstituir de uma forma rigorosa o legado da sua memória. principalmente. inspirado qualquer labor biográfico. Maria de Molina. guardam dela a imagem de uma mulher que pouca influência teve na vida política e no governo do país. estas notícias. a figura de D.

º26. mas também a luta contra os muçulmanos. e disso temos a certeza. podemos afirmar que este conheceu.13. Quanto à política interna. inevitavelmente. Por outro lado. Beatriz foi separada de seus pais e trazida para Portugal quando teria apenas três ou quatro anos de idade. contra D. O primeiro. a vida desta mulher. rodeado pelos seus conselheiros que temiam a crescente influência da nobreza castelhana junto do futuro rei D. ano da sua morte.9. Muito se terá passado na sua vida. tendo presente o contexto do reinado de D. Pedro. de que constitui episódio cimeiro a batalha do Salado (1340). Pedro. este encontro não obteve o desejado sucesso.importantes durante a sua vida. diferentes situações de conflito. que reinou entre 1325 e 1357. Afonso IV. pautou. mandou assassinar a formosa Castro. ao conseguir que as partes em conflito alcançassem um acordo em 135552. D. e o seu irmão D. além dos acordos comerciais e de mútua protecção estabelecidos com a Inglaterra. O monarca. ressalta a tentativa de assegurar a paz através dos diversos tratados celebrados com Aragão e Castela. Pedro jurou fidelidade ao rei seu pai. que a acção governativa do seu marido. 20 . Afonso IV. Sabemos. tais como a guerra entre Portugal e Castela entre 1336 e 1339. com o objectivo de pôr termo à guerra que existia entre aquele rei e D. o rei D. mas também entre o monarca português. Nas suas régias mãos foram colocadas a cruz e o Evangelho sobre os quais D. Afonso IV – todavia. Afonso Sanches. D. após o óbito do rei D. m. ela foi marcada pelo conflito desencadeado entre o infante e seu pai. Dinis. seu sobrinho e genro. Gav. pelas quais esta mulher não passou incólume. ao nível diplomático. e até 1359. Como resultado da aliança matrimonial estabelecida com o sucessor do trono português. n. D. no seguimento do assassinato de D. quer como infanta quer como rainha. Afonso XI de Castela. A rainha teve neste trágico momento uma acção decisiva para o restabelecimento da paz entre o marido e o filho. entre 1293 e 1359. ao nível da política externa. Inês de Castro. o encontro que teve em Badajoz com o rei D. Afonso IV. Dinis. com as suas 52 TT. assinalem-se também o grande flagelo da Peste Negra de 1348. passando a ostentar o título de rainha de Portugal no ano de 1325. O segundo acto está relacionado com a intervenção da rainha para acalmar a revolta de seu filho. Assim. Foram quase sete décadas de vivência.

Tornou-se. in Dicionário Ilustrado da História de Portugal. na maior parte dos indivíduos. bastardo do rei D. necessário compilar e reunir todas as notícias para tentar obter o maior número de dados possível. Numa sociedade onde os bens e a posição social eram transmitidos de forma hereditária. Um deles é o Livro do Deão53. Pedro Afonso. 1993. o denominado Livro de Linhagens do Conde D. não exista datação explícita. Beatriz são unânimes e referem somente os seus laços de parentesco mais próximos. por Martim Eanes. Dinis e conde de Barcelos55. Aqui encontrámos um conjunto de documentação dispersa por vários fundos. as informações são escassas e pontuais. futuro rei de Portugal. ou seja. Em ambos os livros as informações relativas à rainha D. principalmente na Torre do Tombo. 21 . os relatos coevos sobre D. sendo este o nosso ponto de partida. No final do reinado de D. Para o caso em apreço encontramos informações apenas em dois livros de linhagens. o país viu-se mergulhado em mais uma guerra. em larga medida constituídas por listas genealógicas da nobreza medieval. os seus irmãos. coord. O outro é o nobiliário mais célebre. Por regra. 54 55 Cf. mas Luís Krus identifica-o como sendo o deão da Sé de Braga. embora. Lisboa. Deste modo. Alfa. concluído por volta de 1340 e redigido por D. José Mattoso.múltiplas consequências a vários níveis. «Nobiliários». vamos encontrá-la em documentação régia ou particular onde. o parentesco ocupava um lugar de destaque. o facto de 53 LD. LL. Martim Martins Zote. vol. Afonso IV. muitas vezes. 36-37. assim como as reformas administrativas e a tentativa de contenção dos abusos senhoriais. Sobre estes não teceremos. Como foi já referido. os seus pais. Ao nível das fontes coevas. pp. José Costa Pereira. o grande número de dados relativos à rainha chegou-nos de forma indirecta. Beatriz escasseiam. por agora. assim. II. Pedro. escrito entre 1337 e 1340. revelou-se necessário efectuar uma abordagem aos nobiliários medievais. desta vez entre o monarca e o seu filho D. Pedro54. Os nobiliários medievais são obras muito específicas. por encomenda de um deão cujo nome não é referido. porque todos esses documentos serão utilizados ao longo das próximas páginas. ou seja. revelou-se importante e imprescindível uma pesquisa ao nível da documentação manuscrita guardada nos nossos arquivos. mais considerações.

61 22 . em 133658. não são despicientes as parcas informações contidas no Livro que fala da boa vida que fez a Rainha Dona Isabel57. fl. Sancho” in Maria Isabel da Cruz Montes. “E sendo infante [D. n. Isabel.5r. & serue vários capitulos desta historia. 417-418. D. Imprensa da Universidade. 21A12. fruto deste matrimónio. 1921. do Boletim da Classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa. Ana Maria e Silva Machado. 2ª ed. Pedro. 1999 (Dissertação de mestrado policopiada). pp. Maria Isabel da Cruz Montes. Vida e milagres de Dona Isabel rainha de Portugal. “Livro que fala da boa vida que fez a rainha de Portugal. e & da subsequente”. Lisboa. Talvez devido ao facto de D. – 2 (Cf. Dinis e esta rainha D. Embora não se tenha conservado o texto Trecentista existe uma cópia manuscrita do século XVI que se encontra nos Reservados do Museu Nacional Machado de Castro. Vida e milagres de Dona Isabel rainha de Portugal (edição e estudo). fl. coord. fls. Beatriz ter vindo “moça para Portugal” e ter sido criada pelo “rei D.5r. Afonso] casou com a rainha D. Monarquia Lusitana na parte VI. Entre as fontes narrativas. rainha de Aragão. O objectivo principal deste livro seria a exaltação da santidade de D. 59 58 57 Maria Isabel da Cruz Montes. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. com o seguinte n. que esta no Conuento de S. Sancho de Castela e da rainha D. Esta hagiografia de autor anónimo foi provavelmente elaborada por um membro do clero. e D.5r e 7r. A primeira delas está relacionada com a glorificação da sua linhagem60 e com o seu casamento com o infante D. B. Afonso61. Beatriz”. Isabel. “Depois a tempo que vieram de Aragão fizeram fazer vodas do dito rey D. tresladada de hum liuro escrito de maõ. 7D10. sucessor no trono português56. Coimbra. Lisboa. Clara de Coimbra.ser casada com D. logo após a morte da rainha D. Este manuscrito é a primeira hagiografia escrita inicialmente em português. Vida e milagres (…). Joaquim José Nunes. Beatriz (…)” in Maria Isabel da Cruz Montes.º de inventário 2221/R. Vida e milagres (…). 1999. Maria mulher do dito rei D. 21B13. sep. Leonor. pois a narração do seu percurso cristão encontra-se subordinado à Imitatio Christi. 495). Caminho.º13. Texto do século XIV restituído à sua presumível forma primitiva. surgem aí algumas referências a esta infanta. Vida e milagres (…). e que sobreviveram até à idade adulta: D. p. 60 “(…) filha do rei D. LL 4A11.. foi já publicado por Francisco Brandão. 56 LD 6AZ9. rainha de Castela. 2000. D.12931384. pp. in Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa. Afonso seu filho e da dita D. Isabel segundo cumpria de se fazer em criança de filha de rei”59. de Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani. Afonso IV e os três filhos. respectivamente. de Coimbra. pp. Isabel”.495-534 (este autor refere que o texto é uma “relaçam da vida da gloriosa Santa Isabel Rainha de Portugal. Maria. mas a grande maioria das passagens que lhe são consagradas enaltecem a fé e o exemplo religioso que D. 6BA10.

pp. tardios. Beatriz. História da literatura portuguesa. 1989. como testemunha directa. vol. 1996. pp.. Pedro. António José Saraiva. A crónica régia aparece. vol.. História da literatura portuguesa. Alfa. 479-508. 2001. Alfa. “Fernão Lopes”.. vol. Lisboa. 1993. I – Das origens ao Cancioneiro Geral. 63 Joaquim Veríssimo Serrão. gostaríamos de assinalar que nenhuma das crónicas compulsadas oferece um capítulo independente dedicado à rainha D. 189-190. Porto. a Crónica Geral de 1344 constituiu um novo empreendimento literário de D. por D.18r. Pedro Afonso. “A historiografia da Crónica Geral de Espanha de 1344 a Fernão Lopes”. redigida. pp. Afonso IV. 62 Maria Isabel da Cruz Montes. Para além dos nobiliários medievais e da hagiografia. Lisboa. IDEM. Beatriz sendo cerca da cama (…)”62. de D. 437-477. Lisboa. João Soares Carvalho. p. IDEM. vol. de Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani. como um género historiográfico “oficial”. espectador de muitos deles ou até mesmo interveniente activo em variadas situações. Lisboa. Lisboa. 4 vols. «Crónica Geral de Espanha de 1344». de 1344. o conde surge também como um narrador que dá testemunho de alguns factos e acontecimentos dos quais é contemporâneo e. 2001. a rainha D. e Óscar Lopes. I – Das origens ao cancioneiro Geral. A fim de evitar a utilização excessiva de notas de rodapé salientamos que para a redacção deste capítulo sobre as diferentes fontes foram obras essenciais: Joaquim Veríssimo Serrão. normalmente cingido a uma unidade de tempo político. sendo as suas lembranças a base de toda a narrativa. 31. Lisboa. in Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa. Luís Krus. Instituto da Cultura e da Língua Portuguesa. História da literatura portuguesa. Gradiva. Porto Editora. bastardo de D. conde de Barcelos”. 19511990 (doravante citada como Crónica Geral de 1344). Cronistas do século XV posteriores a Fernão Lopes. 2001. 17ª ed. Alfa. ou seja. as crónicas ocupam um lugar de destaque. A historiografia portuguesa (…). os seus limites são um reinado63. por vezes. assim. 263-273. Pedro Afonso65. Dinis e irmão de D. Podemos afirmar que escrevia. vol. História da literatura portuguesa. 217-251. Lisboa. IDEM. Neste caso. “De Zurara a Rui de Pina”. 1996. História da Literatura Portuguesa. geralmente. A historiografia portuguesa. pp. Caminho. O crepúsculo da Idade Média em Portugal. 3 vols. coord. 1. Isabel] em sua cama. Teresa Amado. Posterior à redacção do Livro de Linhagens. muitas vezes. Verbo. I – Das origens ao cancioneiro Geral. A excepção é a Crónica Geral de Espanha de 134464. Doutrina e crítica. Alfa. a crónica régia surge como uma narração de acontecimentos. também ela. “A Crónica Geral de Espanha. edição crítica do texto português por Luís Filipe Lindley Cintra. I – Das origens ao Cancioneiro Geral. 2001. Crónica Geral de Espanha de 1344. No século XIV.Beatriz também constituía e referem a infanta sempre junto de sua sogra: “jazendo a rainha [D. Rui Carita. conde de Barcelos. fl. 65 64 23 . Lisboa. Vida e milagres (…). Em todo o caso. Ed. através de um texto lógico e temporal. pp. Academia Portuguesa de História e Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Todos os textos de narração histórica que se debruçam sobre a centúria de Trezentos são. Lisboa.

Duarte. referem-se – numa perspectiva de troca de mulheres – ao casamento dos dois filhos legítimos de D. Beatriz68. de Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani. 24 . seu filho primeyro»66. vejam-se as pp. pai de D. do que propriamente durante o reinado do seu marido69. por isso. por iniciativa do infante D. mas.Infelizmente. na altura. que era filha del rey dom Sancho e da reynha dona Marya. Beatriz nesta crónica é. Beatriz e Fernando. João I. 192-193. que. sabemos que começou a ser redigida em 1 de Julho de 1419. 196. veja-se a p. escassa. casou el rey dom Fernando de Castella com a iffante dona Costança e levoua cõsigo. despois que hi forom ajutado. Caminho. Sancho IV de Castela. Dinis e. antes de iniciar o confronto armado contra seu pai: «Partio se daly ho iffante pêra Coinbra e levou dahy a molher e os filhos pêra hum lugar que chamom 66 Crónica Geral de 1344 (…). Luís Krus. pp. crítica com introdução e notas de Adelino de Almeida Calado. respectivamente: «E. A presença de D. Dinis. irmãa del rey dom Fernando. filho de D. Esta narrativa pretendia ser uma história geral de Portugal que inicia o seu relato com o conde D. 1998 (doravante citada como Crónica de 1419). e termina com D. Fernão Lopes. 185-186. Dinis. também. Afonso IV. com dois dos filhos legítimos de D. No essencial. por esposa do iffante dom Affonso. a infanta surge como uma mulher que o marido procurava proteger da guerra que iria travar contra D. E el rey dom Denis trouxe cõsigo a iffante dona Beatriz. Vamos encontrar mais informação sobre esta infanta na parte relativa ao governo de D. Naquele. 69 68 Para o reinado de D. Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa. ed. Aveiro. Não nos debruçaremos sobre a polémica autoria desta crónica porque é um assunto que ultrapassa os objectivos deste nosso trabalho. Afonso Henriques. 1993. Afonso e Constança. coord. Para o reinado de D. 225. foi iniciada seis décadas após a morte de D. onde a deixou ao cuidado de Fernão Martins da Fonseca juntamente com escudeiros da sua confiança. Beatriz são muito escassas. Alguns autores defendem que o infante teria entregue esta missão ao seu escrivão dos livros. A Crónica de Portugal de 141967 é de autor desconhecido. 209. dispersa e circunstancial. Lisboa. acumulava este cargo com o de guarda-mor dos arquivos do reino – a Torre do Tombo. 207. Dinis. ou seja. a colocou em Alcanices. 201. 67 Crónica de Portugal de 1419. Henrique. as informações relativas à rainha D.246. p. devido a informação textual. Universidade de Aveiro. ”Crónica de Portugal de 1419”. sua molher. Afonso IV.

sua madre. Afonso Henriques e culmina com o governo de D. É. 72 73 74 75 A título de exemplo. e a Rainha Dª Ysabell. de mulher. 101-123. Dizem respeito ao seu casamento com o infante D. Afonso IV seria ainda narrada. 107 e 111. na Crónica dos Sete Primeiros Reis de Portugal71. Afonso IV73. acusado de plágio por se ter apropriado dos escritos anteriores de Fernão Lopes. veja-se: Joaquim Veríssimo Serrão. Nomeado por D. como rainha de Portugal74 e como mãe75. Denys. é considerado 70 Crónica de 1419 (…). que he vyla de Purtuguall. veja-se: «E d aly a dicta Jfamte Dª Lyanor se foy diamte há Sabuguall. como mulher de D. A título de exemplo. de rainha e de mãe. sendo secundário tudo quanto não esteja ligado ao monarca. as referências à rainha são uma repetição daquilo que é narrado em todas as outras crónicas anteriores. que vai sendo mencionada ao longo da Crónica. Afomso de Purtuguall. a vyeram esperar. inevitavelmente. Algumas questões se debatem entre os especialistas acerca da autoria desta obra por parte de Rui de Pina.Alcanizes. mulher de Afonso XI] (…) veyo loguo a cydade d Euora em Purtuguall. vol. p.. pp. I. Fernando de Castela» in Crónicas dos sete primeiros (…). já no século XVI. domde heram jumtos elRey D. Rui de Pina vai exaltar os feitos dos monarcas. Afonso. veja-se: «E a Rainha [D. Afonso IV. Duarte. em 1434. Homde a Rainha Dª Bryatyz e seu padre. A historiografia portuguesa (…). Aqui. Beatriz aparece como irmã do rei D. 1952-1954 (doravante citado como Crónicas dos sete primeiros reis). edição de Carlos da Silva Tarouca. e herdeiro do trono de Portugal. Para este cronista o rei é a figura dominante. e leuou dahy a molher» in Crónicas dos sete primeiros (…). 80. Sendo esta uma questão muito complexa e que transcende o âmbito deste nosso trabalho. 3 vols. e a Rainha Dª Bryatiz. p. sua molher. Em relação à história dos reis da primeira dinastia. Academia Portuguesa da História. nomeado por D. os quais retocou e aperfeiçoou segundo o seu próprio estilo. p. Jffamte. respectivamente. irmãa delRey D. Actualmente. e leixou a hy com alguns escudeiros e tornou se pêra Coinbra»70. 71 Crónicas dos Sete Primeiros Reis de Portugal. p. 209. A título de exemplo. A título de exemplo. Fernando IV de Castela72. que trazya a dicta Jfamte Dª Maria» in Crónicas dos sete primeiros (…). Uma parte muito significativa do reinado de D. À cronística medieval associamos. assim como a bibliografia citada por este autor. Lisboa. 151. sempre nestas quatro perspectivas de irmã. E há receberam com muyta homra e com synaes de gramde amor» in Crónicas dos sete primeiros (…). cronista-mor do reino. por Rui de Pina. Dinis e da rainha D. Manuel cronistamor do reino e guarda-mor da Torre do Tombo. Maria de Castela. Rui de Pina teria utilizado os manuscritos anteriores. Isabel. p. que tinha Fernão Martinz da Fonsequa. pois. o nome de Fernão Lopes. Uma vez mais. cujo relato se inicia com D. que he em Castela. veja-se: «Dª Byatriz. sabemdo que vynha. 324. veja-se: «E leyxou a molher em Cojnbra» e «Partio se daly ho Jffante pera Cojnbra. D. e molher que foy delRey D. filho do rei D. 25 .

Pedro de Castela. tantas saudades deixaram. Lisboa. Livraria Civilização. de justiça e de prosperidade que se teriam vivido nesse reinado e que. Crónica de D. vai narrando os acontecimentos de política externa e interna que mais marcaram o reinado do Formoso. Nesta perspectiva. Lisboa. cognominado O Cruel. Beatriz: «d’el-rrei dom Pedro seu primo. neto da rrainha dona Beatriz filha do dito rrei Dom Sancho»81. 2 vols. porque era bisneto legítimo do rei D. Com Fernão Lopes se «consumará a criação de uma historiografia inteiramente portuguesa»77. 76 O facto de ter trabalhado no Arquivo régio da Torre do Tombo permitiu a Fernão Lopes contactar com as fontes que alicerçaram a sua obra. escrita. o monarca é apresentado como herdeiro de seu primo. que el ficava erdeiro nos rreinos de Castella e de Leom. que pois el-rrei dom Pedro era morto. História da literatura (…). Pedro. Assim. respeitando a linha cronológica. 79 78 Fernão Lopes. 2004. Imprensa Nacional Casa da Moeda. Pedro I. Fernando. a Crónica de D. 101-102. António José Saraiva. Fernão Lopes. ed. cerca de um século após o reinado deste monarca.. Fernando aspirou à coroa castelhana. Ca era bisneto legitimo d’el-rrei dom Sancho de Castella. não existe qualquer referência à mãe do soberano. Fernando. reais ou fictícias. esto nom foi d’esta guisa.o primeiro cronista régio76. João I80. morreu sem herdeiros directos. ed. Crónica de D. Sancho IV de Castela por parte de sua avó D. 1986. que louvassem para sempre os dez anos de paz. Escrita pelo mesmo autor. p. Crónica de D. no dizer do cronista. 80 81 26 . Fernando. 77 Fernão Lopes. mas faziam entender a el-rrei. Fernando. João I. É pela sua pena que chegaram até nós a Crónica do rei D. e ell assi o dezia. Fernando79 e a Crónica do rei D. a Crónica do rei D. Pedro78. Porto. D. Talvez o mais importante fosse o narrar de pequenas histórias. Para tal. crítica de Damião Peres. quando o rei D. Na Crónica de D. pp. e Óscar Lopes. o cronista exalta o passado linhagístico de D. 1990. na quarta década do século XV. 89. nos finais da quarta década do século XV. crítica de Giuliano Macchi. provavelmente. Livraria Civilização. Crónica de D.

como o autor refere na crónica: «don Fernando rrey de Castilla. Das principais crónicas de Espanha contemporâneas de D. Crónica de D. cap. que D. 27 . políticos e diplomáticos existentes entre as duas coroas peninsulares. I. neste caso concreto. ed. João I. onde a rainha. porque a sua avó paterna. 407. p. uma vez mais. João I. 83 84 Gran Cronica de Alfonso XI. Constança. era filha ilegítima de D. T. Inês. estejam na origem de vários capítulos onde são narradas as relações entre os dois reinos. 416 (doravante citada como Gran Cronica). Talvez os laços familiares. João I. Pedro. cuja filha foi esta dona Enes. I. a rainha D. Violante. Gredos. padre deste rrey don Alfonso de Castilla. Beatriz. Inês de Castro possuíam laços de parentesco. em capítulo autónomo82. rei de Castela. D. por isso. assi que ella era sua sobrinha da parte do padre. filhas do dito Rei dom Samcho. Sancho. 407. Ao explicitar de uma forma detalhada e individual todos os antepassados de D. vol. e dona Viollante.Quanto à Crónica de D. Este monarca castelhano era avô de D. Desta vez. Sancho IV. filha delRei dom Sancho de Castella. Beatriz. sobrinho da nossa rainha D. a portuguesa e a castelhana. Segundo Fernão Lopes. Beatriz. Pedro e D. por parte de sua mãe. ElRei dom Pedro era filho da Rainha dona Beatriz. e. Madrid. sejam elas ocasiões de paz ou até mesmo de guerra. Fernando IV. e aquella Rainha dona Beatriz eram ambas irmaãs. Fernão Lopes remete para a reconstrução da dimensão familiar e dinástica. e bisavô de D. I. molher que foi de dom Garçia dUzeiro. Inês. Pedro e D. p. Porque dona Viollante Samchez ouvera elRei dom Sancho dhũa dona que chamavom dona Maria Afomso. Beatriz. a memória linhagística foi recordada. tinham um mesmo antepassado comum. surge como elemento de ligação a uma memória linhagística que era necessário preservar e conservar: «certo he que dona Enes era sobrinha delRei dom Pedro (…). D. como no caso da coligação militar na 82 Crónica de D. posto que nom fossem dhũa madre. redigida durante o reinado deste monarca que era filho de D. uma vez mais. vol. para mencionar. p. filha de seu primo coirmaão»83. crítica de Diego Catalán. e esta dona Viollamte Samchez foi madre de dom Pedro de Castro que sse chamou da Guerra. era Hermano de la rreyna dona Beatriz de Portogal»84. CLXXXVII. e de D. 1977. através da rainha D. destacamos a Gran Cronica de Alfonso XI. molher que foi de dom Fernam Rodriguez de Castro.

ao encontrar-se com o rei de Castela D. seu genro. Este silêncio pode estar relacionado com o facto de a Coroa portuguesa revelar. referenciada como um elemento vital de união dos diferentes laços linhagísticos e familiares que se estabeleceram entre as monarquias castelhana e portuguesa («el rrey estando en Badajoz esperando las gentes que avian de yr com el a entrar en el rreyno de Portogal. porque a perspectiva da narração é castelhana. 181. Cf. publicada pela primeira vez em 1824. De um modo geral. Gran Cronica. No entanto. quase sempre. Afonso XI. T. no ano de 1535. ela limitou-se a seguir a Crónica de 1419. na Colecção Inéditos de História de Portugal. a soberana está presente em alguns momentos importantes do reinado de seu marido. essencialmente. um maior interesse em exaltar a história dos reis mais próximos. Esta referência remete-nos para a posição que a rainha ocupava numa dimensão familiar e dinástica. p. no inicio da Época Moderna. num momento em que a história das mulheres se encontrava. II. Deste modo. em alguns textos cronísticos apenas se regista um simples apontamento que recorda D. de referências dispersas e quase sempre associadas à sua função pública de mulher do monarca reinante. mas trata-se. Esta crónica constitui um manancial de informação complementar. rei castelhano. tomo 85 Gran Cronica. hermana de su padre»85). Dispensamo-nos de falar da cronística portuguesa posterior a Fernão Lopes porque. em diferentes contextos de rivalidade. de um modo geral. vino ay la rreyna doña Beatriz de Portogal su tia. 86 28 . e o monarca português surge. principalmente. gostaríamos de destacar. nas Crónicas dos Sete Primeiros Reis de Portugal. mas também como conciliadora. assim como os acrescentos de Rui de Pina. o protagonista é D. subalternizada face à história dos príncipes e dos monarcas reinantes.Batalha do Salado (1340). na tentativa de mediar a paz entre os dois reinos86. pela Academia Real das Ciências de Lisboa. Cristóvão Rodrigues Acenheiro que redigiu a Chronicas dos Senhores Reis de Portugal. olvidando-se as notícias ligadas às suas actividades próprias. Como vimos. p. Beatriz é. T. II. Beatriz como mãe e avó. por diversas vezes. Afonso XI. em todas as crónicas. D. 181. em detrimento dos reis da primeira dinastia. por um lado.

V87. A sua Crónica abarca o período compreendido entre o conde D. Henrique e D. João III. Porém, os seus relatos limitam-se a resumos e extractos de crónicas anteriores88, restringindo-se a uma narração sucessiva dos factos régios. Um outro cronista que gostaríamos de destacar foi Duarte Nunes de Leão (1530-1608), que se notabilizou por reformular as antigas crónicas do reino89, iniciando a sua narrativa com o conde D. Henrique. Era seu objectivo declarado escrever uma história de Portugal depurada de erros e falsas versões90. Assim, podemos afirmar que, ao nível da cronística, muitos dos nossos autores limitaram-se a tecer elogios sobre esta consorte que seria dotada de grande piedade, temor a Deus e outras virtudes. Nas crónicas existem, como já referimos, dois episódios que são sempre narrados e associados à rainha e nos quais surge sempre como mediadora da paz. Com o objectivo de colocar termo à guerra que eclodiu em 1336 entre Portugal e Castela, encontrou-se, em Badajoz, com o rei D. Afonso XI de Castela, seu sobrinho e genro; no entanto, e como já mencionámos, este encontro não teve o desejado sucesso. O segundo episódio está relacionado com a revolta que D. Pedro moveu contra seu pai em 1355 devido ao assassinato de D. Inês de Castro. A rainha teve neste trágico momento uma acção decisiva para o restabelecimento da paz entre o marido e o filho, ao conseguir que as partes em conflito alcançassem um acordo que foi estabelecido em Canaveses91. A maioria dos cronistas reconhece apenas estes dois actos de maior relevo e importância na vida desta rainha. No século XVII, e sob a égide do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, foi escrita a primeira tentativa de uma história nacional completa e já afastada dos
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Cristóvão Rodrigues Acenheiro, Chronicas dos senhores reis de Portugal, V, Lisboa, Academia Real das Ciências, 1926. Estamos a referir-nos, principalmente, aos textos de Fernão Lopes e de Rui de Pina.

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Duarte Nunes de Leão, Crónicas dos Reis de Portugal reformadas pelo Licenciado Duarte Nunes de Leão, introdução e revisão de M. Lopes de Almeida, Porto, Lello & Irmão, 1975.

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«Duarte Nunes declara que se fundou em matérias históricas para se abalançar à obra de revisão que era digna da memória histórica dos primeiros reis. Coligiu informes novos; consultou as crónicas de Espanha; analisou documentos da chancelaria; verificou cartórios notariais e códices dos mosteiros; estudou problemas canónicos» (Joaquim Veríssimo Serrão, A historiografia portuguesa (…), vol. I, p. 324). TT, Gav.13, m.9, n.º26.

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modelos da crónica medieval, a Monarquia Lusitana. Nesta obra, redigida totalmente em língua portuguesa, a exaltação do passado e a apologia nacional são pontos fundamentais. Recorde-se que nesta época o bilinguismo peninsular aceitava que as temáticas nacionais fossem compostas no idioma do país vizinho. Foi assim que, no final do século XVII, em 1672, frei Francisco Brandão, monge cisterciense de Alcobaça, publicou a Sexta Parte da Monarquia Lusitana, referente ao reinado de D. Dinis92, e o beneditino frei Rafael de Jesus publicou a Sétima Parte desta importante obra da nossa historiografia, em 1683, na qual se ocupou de todo o reinado de D. Afonso IV93. O ponto de partida para estas duas partes foi a crónica de Rui de Pina, à qual devemos associar informações coligidas pelos respectivos autores, ao nível da leitura documental. No entanto, esta era muitas vezes efectuada sem aplicação da crítica histórica. O trabalho de frei Rafael de Jesus é, por um lado, o menos erudito nas palavras e, por outro, o menos rico de informação, porque o autor se baseou, quase exclusivamente, na Crónica de Rui de Pina e não procurou documentação nova nem tratou de corrigir as inexactidões do cronista de Quinhentos. Na Monarquia Lusitana encontramos mais informação referente à infanta D. Beatriz na Sexta Parte, ou seja, no livro dedicado ao reinado de D. Dinis, do que na Sétima Parte, que relata o reinado de D. Afonso IV, no qual D. Beatriz é rainha de Portugal. E, uma vez mais, a imagem que fica da infanta e, depois, da rainha assenta nos elogios à sua piedade manifestada através das orações e das devoções, aqui reveladas no acompanhamento que fazia à rainha Santa Isabel, sua sogra, bem como no temor a Deus e no seu cuidado ao velar pelo bem-estar de seus filhos94. Não deve ser completamente alheio a esta série de elogios o facto de a Monarquia Lusitana ser escrita quase três séculos após a rainha ter vivido. Deste modo, temos de olhar os factos narrados, uns como verídicos, porque a documentação assim o corrobora, mas outros como verosímeis, porque talvez fossem utilizados pelo autor para preencher lacunas existentes onde a construção das personagens é sempre, ou quase sempre,
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ML, VI.

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Rafael de Jesus, Monarquia Lusitana, ed. por A. da Silva Rego, parte VII, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1974 (doravante citada como ML, VII).

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A título de exemplo, referimos: “Não as desemparou nunca a deuota Rainha, antes alem de assistir à superintendência da fabrica, as acompanhaua nos diuinos Officios, & lhe era companheira muitas vezes no Refeitorio, assi continuou sempre que residia em Coimbra acompanhada muitas vezes de sua nora a Rainha D. Brittes, que lhe era companheira nestes exercicios de piedade” (ML, VI, fl.263).

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feita com base em estereótipos. É deste modo que devemos interpretar a descrição da imagem de D. Beatriz, ao ser-nos apresentada como uma boa rainha e piedosa, quando é narrado que as «casas da rainha Santa Isabel e de sua nora, a rainha D. Beatriz, [eram] seminários de virtude e boa criação de donzelas»95. O mesmo se diga da sua relação com o marido, quando se refere a protecção que D. Afonso dava a sua mulher e aos seus filhos96. De igual modo, apresenta-se a imagem de uma companheira que está sempre ao lado de seu marido e que o apoia nas suas decisões, segundo o arquétipo da boa esposa97. Estamos, assim, perante a redacção de uma história apologética, na qual as figuras do rei e da rainha correspondiam a modelos de virtudes conjugais. A tradição da obra magna dos monges cistercienses manter-se-ia no século imediato, com obras históricas de finalidade distinta. Assim, nos princípios do século XVIII, a História de Portugal conheceu um período de grande desenvolvimento e actividade sob a égide da Academia Real de História. Era objectivo da Academia “fazer da História o espelho da grandeza da Pátria”98. Os arquivos régios e particulares tornaram-se locais abertos aos historiadores que procuravam os documentos, até então silenciosos, como fonte de novos conhecimentos. Foi, assim, sob a protecção da Academia Real de História que se iniciou um notável período de estímulo pela recolha e publicação de fontes documentais. Neste contexto, as crónicas perdem grande parte da sua importância para a pesquisa de novos dados, principalmente ao nível da história política. A historiografia de Setecentos procurou elevar a grandeza da Coroa. Deste tempo, destacamos a obra de D. António Caetano de Sousa, cujos estudos versaram,
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ML, VI, fl. 265.

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Sobre a guerra civil de 1319-1324 narra a ML “Nam se deteue o Infante [D. Afonso] em Coimbra despois de se lhe entregar, antes tanto que a guarneceo com bom presídio, & recolheo nella a Infanta Dona Brittes sua mulher, partio della na mesma tarde ao dia seguinte, que foi o 1. De Ianeiro do anno de 1322” (ML, VI, fl. 412). “ Naquelle lugar [nos arredores de Cidade Rodrigo] o esperaua a rainha Dona Maria com ElRey Dom Afonso seu neto; leuaua o nosso Infante [D. Afonso] em sua companhia sua mulher a Infanta Dona Brittes filha daquella Rainha para empenhar mais no caso a sogra: & assi conferindo o que lhes pareceo conueniente na pretenção do Infante, resoluèrão naquelle mês de Mayo em que forão as vistas, que a Rainha Dona Maria inuiasse carta a ElRey Dom Dinis pedindolhe largasse o governo do Reyno ao Infante” (ML, VI, fl. 358). Joaquim Veríssimo Serrão, A historiografia portuguesa (…), vol. III, p. 53.

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principalmente, sobre a nobreza portuguesa e respectiva genealogia. O seu grande trabalho académico foi a História Genealógica da Casa Real Portuguesa99 (173548), em treze volumes, apoiado em mais seis tomos de Provas100. Nesta obra encontramos a trajectória das grandes figuras do Reino, e onde a Casa Real ocupa um lugar de destaque, mas descrevem-se também as antigas linhagens, referindo-se, inclusivamente, os membros menos conhecidos da nobreza. Esta obra é considerada «como o guia por excelência para conhecer os meandros do nosso passado senhorial»101 e deve ser olhada em função do espírito da época. Ou seja, um tempo em que as monarquias europeias constituíam o fundamento das mais velhas nações e os seus soberanos punham em destaque que, tanto eles como as suas famílias, tinham assegurado a continuidade dinástica. O objectivo era, assim, exaltar um passado heróico e dá-lo a conhecer ao público em geral. Na História Genealógica da Casa Real Portuguesa, os relatos sobre a rainha D. Beatriz encontram-se na primeira parte da obra, ou seja, quando D. António Caetano de Sousa fala sobre a sucessão dos antigos reis. Uma vez mais, as informações relativas à consorte referem-se aos seus pais, ao seu casamento com D. Afonso IV e aos filhos nascidos desta união, mas também ao seu local de sepultura e ao seu testamento102. Quanto aos volumes das Provas, encontramos apenas a transcrição de dois documentos relativos a D. Beatriz: o codicilo ao seu testamento, datado de 1354, e o seu testamento do ano de 1358. Esta é uma obra que podemos considerar como uma ferramenta de consulta indispensável quando se pretende estudar a Casa Real e a nobreza portuguesa. Durante o século XVIII, o cronista-mor da Casa de Bragança, Jozé Barbosa, sob o signo da Academia Real da História, redigiu o seu Catalogo chronologico, histórico, genealógico e critico, das rainhas de Portugal e seus filhos103. Aqui, o autor preferiu trilhar um caminho muito próximo do genealógico, onde princesas e
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António Caetano de Sousa, História genealógica da Casa Real Portuguesa, 15 vols., Lisboa, QuidiNovi/Público/Academia Portuguesa da Historia, 2007 (doravante citada como HGCRP).

António Caetano de Sousa, Provas de História Genealógica da Casa Real Portuguesa, 12 vols., CoimbrA, Atlântida, 1946-1954 doravante citada como PHGCRP).
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Joaquim Veríssimo Serrão, A historiografia portuguesa (…), vol. III, p. 83. HGCRP, vol. I, pp. 191-193.

102

Jozé Barbosa, Catalogo chronologico, histórico, genealógico e critico, das rainhas de Portugal e seus filhos, Lisboa, Academia Real da História, 1727.

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rainhas se sucediam em referências breves. Deste modo, é relatada a ascendência desta princesa castelhana (com menção aos pais, avós e bisavós), o seu casamento com D. Afonso IV e os filhos que teve. Para este autor, a acção mais ilustre de D. Beatriz foi instituir, juntamente com seu marido, as capelas e mercearias na Sé de Lisboa104. Apesar da entrada ser relativa a D. Beatriz, Jozé Barbosa dá mais ênfase à questão que era discutida naquele tempo, sobre se a infanta D. Maria, filha de D. Afonso IV, mulher de D. Afonso XI e mãe do castelhano D. Pedro, o Cruel, teria sido ou não mulher legítima de D. Afonso XI de Castela105. Toda a informação compilada por Jozé Barbosa não veio contribuir para ampliar o conhecimento que se tinha da soberana, o qual nos foi legado não só pelas crónicas dos reinados de seu marido e sogro, mas também pela historiografia do século XVII. Já no último quartel do século XIX, Francisco da Fonseca Benevides publicou os dois volumes intitulados Rainhas de Portugal106 (1878-1879). Este professor de Física e de Hidrografia do Instituto Industrial de Lisboa escreveu vários livros, dedicando, também, parte da sua investigação à História nacional. Para a realização deste estudo sobre as rainhas, pesquisou e compilou documentos que se encontravam guardados no arquivo da Torre do Tombo. Esta obra lançava, assim, as bases para uma narrativa biográfica dedicada às rainhas de Portugal, dando uma visão de conjunto, mas também personalizada sobre as nossas rainhas. Pela mão de Francisco da Fonseca Benevides somos conduzidos através de uma viagem no tempo, em que as Rainhas de Portugal possuem um papel central na sociedade da sua época. Apesar da importância deste trabalho, ele não teve seguidores imediatos que o completassem, não existindo, até aos nossos dias, uma obra congénere que a superasse. No que concerne à rainha D. Beatriz, inicia-se a narrativa dizendo que foi casada com D. Afonso, «esse malvado que foi fruto do consórcio da santa rainha D. Isabel, e do sábio e generoso rei D. Dinis»107. Segundo Benevides, a rainha D.

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Jozé Barbosa, Catalogo chronologico (…), p. 276. Jozé Barbosa, Catalogo chronologico (…), pp. 279-281. Francisco da Fonseca Benevides, Rainhas de Portugal (…). Francisco da Fonseca Benevides, Rainhas de Portugal (…), p. 187.

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Beatriz não figura, com frequência, nos documentos do seu tempo. Talvez por isso, a narrativa sobre a rainha é toda ela imbricada nas acções de D. Afonso IV. Termina referindo que existem apenas dois actos de maior importância na vida desta consorte. Um, o seu encontro em Badajoz com o genro, D. Afonso XI, com o objectivo de colocar termo à guerra entre Portugal e Castela; e o segundo, a intervenção que a rainha teve na reconciliação entre D. Afonso IV e o seu filho D. Pedro, após as discórdias suscitadas devido à morte de D. Inês de Castro108. Como já sublinhámos, são sempre estas as duas acções referidas, ao longo dos tempos, pelos diversos autores, a propósito de D. Beatriz. No final do século XIX, Anselmo Braamcamp Freire, precursor da genealogia científica em Portugal, publicou os seus três volumes dos Brasões da Sala de Sintra109. No primeiro volume, publicado em 1899, faz o elenco das famílias nobres, dando informações circunstanciadas para cada um dos seus elementos. Porém, a sua contribuição procurou, essencialmente, estudar e esclarecer os problemas históricos relacionados, sobretudo, com aspectos e personagens da segunda dinastia. De salientar que a sua pesquisa é baseada em fontes fidedignas. Nesta obra, as informações relacionadas com a rainha D. Beatriz estão, fundamentalmente, associadas à doação de Viana do Alentejo, que pertenceu à capela dos reis D. Afonso IV e sua mulher, devido ao facto desta vila ter sido, por várias vezes, retirada à gestão da capela110. No inicio do século XX surgem algumas obras que tiveram clara influência na difusão da memória histórica. Sendo praticamente impossível reconstituir exaustivamente a lista de todos os trabalhos que possam interessar para a história da nossa rainha, e não sendo esse o objectivo destas nossas linhas, fixemo-nos apenas nas obras de maior vulto e repercussões. Neste sentido, para muito contribuíram as Histórias de Portugal que, no inicio do século passado, seguiam um esquema tradicional de análise dos acontecimentos por reinado, e onde, na maioria dos casos, a rainha D. Beatriz não era mencionada, o mesmo se verificando em obras mais
108

Francisco da Fonseca Benevides, Rainhas de Portugal (…), p. 197.

109

Anselmo Braancamp Freire, Brasões da Sala de Sintra, 3 vols., Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1973 (doravante citado como BSS). BSS, vol. I, pp. 132-136.

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recentes, de meados do século XX111. Porém, D. Beatriz é por vezes referida em algumas obras, tanto em manuais escolares como em Histórias de Portugal de maior fôlego112. Quando isso acontece, é focada no âmbito do Tratado de Alcañices, devido ao acordo de casamento com o futuro D. Afonso IV, e da necessária dispensa pontifícia para o projecto deste consórcio; é feita, também, uma breve referência aos filhos nascidos deste matrimónio, assim como a identificação dos seus pais, sendo, igualmente, relatada a sua intervenção na reconciliação, estabelecida em 1355, em Canaveses, entre D. Afonso IV e D. Pedro, após a morte de D. Inês de Castro. Na Nova História de Portugal, quando se fala no processo diplomático internacional, é referido que esse era, por regra, um assunto tratado directamente pelo rei, pelos seus secretários ou validos. Porém, é recordado o papel que algumas rainhas tiveram no domínio da diplomacia internacional e, neste contexto, é referida D. Beatriz113. No entanto, apesar de todo o labor da historiografia contemporânea, não existem até à data, em Portugal, trabalhos exaustivos sobre a consorte do Bravo. Entre os estudos contemporâneos, salientamos o Dicionário de História de Portugal, que dedicou uma entrada a cada rainha, de forma, porém, muito breve. Assim, sobre D. Beatriz, a respectiva entrada diz somente “D. Beatriz (1293-1359), rainha de Portugal, mulher de D. Afonso IV, com quem se casou em 1309”114. Não gostaríamos de terminar sem fazermos um périplo pelas “estórias” que, ao longo dos tempos115, se foram escrevendo sobre a relação de D. Pedro com D.
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Chagas Franco, História de Portugal, Lisboa, Livraria de Francisco Franco, 1938; Caetano Maria de Abreu Beirão, História breve de Portugal, Lisboa, Verbo, 1960; A. H. de Oliveira Marques, História de Portugal, 12ª ed., 3 vols., Lisboa, Palas Editores, 1985; Oliveira, Martins, História de Portugal, ed. crítica por Isabel Faria e Albuquerque, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1988. Alfredo Pimenta, Elementos de História de Portugal, 5ª ed., Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade, 1937, pp. 116; Damião Peres (dir. de), História de Portugal, vol. II, Barcelos, Portucalense, 1929, pp. 312 e 316; Joaquim Veríssimo Serrão, História de Portugal, vol. I, Lisboa, Verbo, 1977, pp. 248-249, 262, 276, 330, 383, 393, 401; José Hermano Saraiva (dir. de), História de Portugal, vol. III, Lisboa, Alfa, 1986, pp. 48, 53; José Mattoso (dir. de), História de Portugal, vol. II – A monarquia feudal (1096-1480), Lisboa, Ed. Estampa, 1993, pp. 483-487.
113 112

A. H. de Oliveira Marques, Nova História de Portugal, dir. de Joel Serrão e A. H. de Oliveira Marques, vol. IV – Portugal na crise dos séculos XIV e XV, Lisboa, Ed. Presença, 1987, p. 333. S/a, “Beatriz”, in DHP, vol. I, p. 318.

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Garcia de Resende foi o primeiro autor que, no ano de 1516, recordou os amores de Inês no Cancioneiro Geral. Luís de Camões inspirou-se nas Trovas à morte de Inês de Castro para dedicar “à linda Inês” n’Os Lusíadas o canto III. Esta história trágica atravessou fronteiras logo no inicio do

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Cristina Pimenta. Cancioneiro Geral. Um tema português na Europa. Afonso IV. D. IV. D. Ao efectuarmos esta abordagem é nosso intuito captar a visão que é transmitida da rainha D. e semelhança. Exemplar político. havia uma opinião errada contra este Rei. 301-309. N’A Castro é referido que a rainha D. Uma outra obra foi escrita por Henrique de Noronha. D. Lisboa Ocidental. e Beatriz gerão em Pedro sua imagem. Lisboa. segundo o autor. Pedro I. D. Inês de Castro. / Porque nem posso nisso obedecer-lhes. Publicações Europa-América. 2004. de que mereceo ser filho. aquelles em ter hum filho. na maioria das obras por nós compulsadas existe um enorme silêncio em relação à nossa consorte117. a perspectiva da rainha-mãe. destacam-se duas obras da centúria de Quinhentos que nos dão. Pedro o he de seus pays. Garcia de Resende. Imprensa-Nacional – Casa da Moeda. Além Pirenéus foi escrita Inês de Castro pelos franceses Houdar de la Motte (1723) e Victor Hugo (1853). limitámos a nossa pesquisa a algumas dessas “estórias”. Pedro. “Trovas à morte de Inês de Castro”. Pedro Coelho e Álvaro Gonçalves. Beatriz. 29 e 32. Lisboa. ou seja. e cujo tema é a trágica morte de D. O facto de António Ferreira ter estudado em Coimbra talvez lhe tenha permitido ter acesso à lenda oral de D. que seria ainda contada com grandes pormenores. 2005 pp. A Castro. Julgamos ser pretensão dos respectivos autores narrar somente os acontecimentos através das personagens principais. vol. publicada pela primeira vez em 1587. Inês de Castro: «Meus duros pays não curem de cansar-me. Lisboa. Pedro. Círculo de Leitores. também. este foy ditoso em que teve pays. Inês de Castro. em sintonia com o seu marido. não apoiaria os amores de seu filho D. 1993. onde os elogios surgem numa sucessão contínua. Diogo Lopes Pacheco. 1723. porque. No entanto. 118 117 116 António Ferreira. Não sendo este um ponto essencial do nosso trabalho. mãe preocupada que procura acalmar as século XVII com a publicação em Espanha da Historia General de España (1601) de Juan de Mariana. D. pelo humanista português António Ferreira. 2ª ed. 119 120 121 «Affonso. 1991. Uma é A Castro118. Beatriz. Inês de Castro. Henrique de Noronha. Lisboa. 14-53. António Ferreira. respectivamente. pp. pp.. No entanto. A Castro. Para uma visão mais precisa e detalhada sobre esta temática consulte-se Maria Leonor Machado de Sousa. o seu Exemplar político120. de que merecerão ser 36 .Inês de Castro116. Pedro com D. Lisboa. / Nem o não fazer desobedeço» e «Mas porque te não movem tantos choros / Da Raynha tua mãy os tantos rogos / D’elRey teu pay?»119. Inês. Beatriz é-nos apresentada como uma boa mulher121. ACD – Editores. principalmente ao rei D.

153). Pedro. de Agustina Bessa – Luís. “Mas que poderosa personalidade sentimos nós. para cada um as reconstruir para si e adivinhar o que falta. onde a autora convida o leitor a efectuar uma análise aos contextos históricos. Afonso IV. sendo D. Adivinhas de Pedro e Inês.iras do filho D. e essas doações. No entanto. em 1983. conduzindo.” (in Tatiana Alves Soares. em tais páginas de Bessa – Luís. desaparecem os obstáculos. morto o velho rei que tanto o assustava. In Agustina Bessa – Luís. Numa alusão à infância do infante D. «Por todo o Reyno dava a entender sua vingança contra sua queixa. “Adivinhas de Pedro e Inês: uma rosácea pós-moderna”. Porém. Brites. como quem lê uma profecia obscura! Reconstruir e escolher” (in Mário Martins. morta também D. e outra parte conformidade. aquella entre o pay. 53. deste modo. dos pays. se am stou com o rey. aparece como uma avó cuidadosa que assume. se calou. Adivinhas de Pedro e Inês. irmã bastarda da rainha D. consultado em 24/07/2008). 4ª ed. Pedro tem acesso a uma conduta baseada no sentido comum. Pedro. após a morte de D. sociais e ideológicos da época. Março 1985.”. Lisboa. Brites. respectivamente).º84. destinam-se decerto a acrescentar os rendimentos e a provisão para a educação dos órfãos”. Este romance lançou um olhar pósmoderno sobre a principal história de amor portuguesa. passados que foram os meses de luto. 126 125 124 In Agustina Bessa – Luís. “Mas D. pp. o casamento? Porque era viva D. e de sua mulher D. que seria uma “mãe adorável” 127.br/viicnlf/anais/caderno09-03. Exemplar político. vassalo do rei de Castela. Agustina Bessa-Luís escreveu. 127 “Em 1357 a Touria é doada à rainha viúva D. Já no século XX. p. Inês. do filho. de sentido especial. Guimarães Editores. p. Violante. “muito severa e intimidante” em oposição a D.html.” (in Agustina Bessa – Luís. Revista Colóquio / Letras.org. Uma vez mais. Inês “sobrinha-neta da soberana de Portugal”126.. “Com as Adivinhas de Pedro e Inês. 123 122 Agustina Bessa-Luis. 37. em 25 de Outubro de 1359. Adivinhas de Pedro e Inês123. porque era neta de D. Ela teria a seu cargo os filhos de Inês. p. que foy a verse com elle. a sua mãe é apresentada como sendo. a uma multiplicidade de interpretações124. 12). A primeira referência à rainha-mãe nesta “estória” apresenta-a como um obstáculo à união entre Pedro e Inês125. p. Inês. e outro he a felicidade. provavelmente. falecida a rainha. a rainha surge como elemento comum na contagem dos graus de parentesco. Pedro contra seu pai122. Adivinhas de Pedro e Inês. n. e decerto por não causarlhe paixão. e o filho. poque se representão em tão bom filho. Adivinhas de Pedro e Inês. a educação dos netos fruto desta união128. pays: de hum. assim como outras terras da Estremadura. 2006. à espera de que cada leitor a desfolhe. “Morto D. poque he imagem de taes pays» (in Henrique de Noronha. sua mãe. Pedro anuncia o seu casamento com Inês. D. uma nova flor surge. 122. vagarosamente. Fernando Rodrigues de Castro. Exemplar politico. jurando-se de huma. “Adivinhas de Pedro e Inês. p. Pedro quer legitimar os 128 37 .filologia. e este do filho para os culpados da morte de sua esposa» (in Henrique de Noronha. 28. Beatriz. e a sorte. a mãe. Recensão crítica”. 99-100). in http://www. Brites. “Porque não confessou D. e perdão. saboreando imagens únicas. quando a rogos da Rainha sua mãy.

por vezes. João Aguiar. o mito supera a história. Inês de Portugal. De facto. tal como num puzzle. podemos afirmar que este conjunto de textos nos oferece informações breves. nesta história baseada no triângulo amoroso Constança – Pedro – Inês. a memória do monarca reinante. mas.pt/vercial/letras/crit0022. neste contexto. até hoje. o guião para um filme com o mesmo título.htm. p. escrito em 1997129.di. juntamente com seu marido. do melhor que. a história vai fluindo. Ed. Beatriz é. “banido do reino” Inês de Castro. sem grande significado. Podemos afirmar que o impossível amor entre Pedro e Inês conferiu um carácter trágico a toda a história e as referências mais recorrentes são justamente aquelas que não possuem qualquer comprovação histórica. Inês de Portugal. 38 . Num primeiro momento. que D. Inês. respectivamente.uminho. surge angustiada pela guerra em que o país vive e pelo facto de não ter. assim. nesse momento. Adivinhas de Pedro e Inês. repetidas e. pois nunca se esquece dos pobres”. Beatriz vai surgindo nas recordações dos diferentes narradores. São estes os pensamentos que povoam a mente da rainha. “desde o remoto dia em que veio de Castela para casar com El-Rei. Pedro e D. 123 e 193.Seguindo ainda a senda das “estórias” dos amores de D. José Leon Machado faz a seguinte crítica ao livro: “João Aguiar escreveu um belo romance. e fiel (tanto quanto possível) à verdade histórica” (in http://alfarrabio. onde. se escreveu mais recentemente. O autor optou pela narrativa in media res. momentos antes da assinatura do acordo de Canaveses. que começou por ser. não cessou. em todos os textos surgem referências ao casamento do príncipe D. p. Beatriz. também ela. então ainda Infante. em ficção. em alguns momentos. as várias peças se vão encaixando. de porfiar pela paz do reino”130. respectivamente). do realizador José Carlos de Oliveira. Mesmo quando as fontes documentais começaram a ter uma filhos. Beatriz. as diversas crónicas foram redigidas para preservar e enaltecer. Inês De Portugal. Brites (morta em 1359)” (In Agustina Bessa – Luís. 1997. apontam-se notícias um pouco mais detalhadas que permitem reter conhecimentos para a compreensão e construção da história de vida da rainha D. Neste contexto. essencialmente. narradora e. não queremos deixar de referir o livro do jornalista João de Aguiar. De um modo geral. Afonso com a princesa D. como uma mulher caridosa e conciliadora: “Toda aquela gente ama a Rainha. consultado em 24/07/2008). É. 16. assim evitando tantos escândalos e mortes. Mas D. 15. Lisboa. que viviam em Santarém com a avó. inicialmente. a partir da memória das várias personagens sobre os vários acontecimentos. 130 129 João Aguiar. Asa. onde. D.

Deste modo. é mais fácil entender as omissões relativas à rainha ou as pequenas descrições nas quais ela surge mais como uma figurante do que como uma outra 131 Francisco da Fonseca Benevides. pela sua sogra. assim como outras perspectivas e representações.importância essencial para a redacção da História. escassas as referências à consorte. Infelizmente. de facto. De facto. continuou a surgir ocasionalmente. Tanto mais que muitos dos nossos cronistas se limitaram a tecer elogios à personagem. uma estátua jacente que por certo se aproximaria da verdadeira fisionomia da soberana. que é apresentada como dotada de grande piedade. haveria o interesse em manter registada a acção do monarca. principalmente ao ser criada. São. como o seu corpo e o seu rosto. Deste modo. essa imagem ficou perdida para sempre ao desaparecer no terramoto de 1755131. este estudo apresenta. temor a Deus e outras virtudes. assim como os estudos contemporâneos. ocupando a rainha. escasseiam os relatos coevos. p. Gostaríamos de salientar que não se revelou tarefa fácil traçar a vivência ou o carácter desta personagem que viveu numa época tão afastada. 196. representações iconográficas ou descrições da época que nos dêem um retrato físico desta rainha. a rainha Santa Isabel. neste caso concreto. não existem. o que se iniciou sob a influência da Academia Real de História. não encontramos diferenças no modo como a rainha nos é apresentada. A imagem de uma rainha justa. sobretudo porque. os seus desejos ou os seus sonhos. um papel do qual não se sentiu a necessidade de deixar registo para o futuro. as suas preocupações e as suas angústias. não se encontrando registo de eventos ou situações que possam ter contribuído para alargar algumas das ideias já anteriormente apontadas para caracterizar a rainha e a sua acção. Rainhas de Portugal (…). Provavelmente. irão ficar por revelar muitos aspectos tão importantes para um retrato físico e psicológico da nossa rainha. Existiu. 39 . como vimos. Efectivamente. na magnífica sepultura que a rainha mandou erigir na capela-mor da Sé de Lisboa. aquilo que a documentação nos deixa entrever. somente. desde tenra idade. retratos. Porém. Não podemos olvidar que estas obras foram escritas para apresentar o monarca no exercício da sua função de governador de um reino. Mas estamos convencidos de que esses talvez venham a permanecer desconhecidos para sempre. de todo. boa e piedosa era inerente à sua função de consorte do soberano do reino. de facto.

na Idade Média. a distinção entre o domínio público e o privado era difícil de estabelecer. No que se refere à vida privada da rainha. Neste campo. Dinis e pela rainha Santa Isabel. em 1297. 40 . com apenas três ou quatro anos. elas versam. apenas sabemos que veio para Portugal após o estabelecimento do acordo matrimonial. principalmente quando tratamos de personagens que tiveram a sua vida intimamente ligada à coroa e ao governo do reino. não existem referências à sua educação. sempre que existem informações. o silêncio das fontes é enorme e. ao que fez durante a sua infância e adolescência. o plano político e público.personagem principal do reino. Assim. existe um profundo e longo silêncio. Quanto ao resto. e que foi criada pelo rei D. enfim. sobretudo. às personagens que a acompanhavam. Sabemos que. nem tão pouco à identidade dos seus mestres.

que luego sería arzobispo de Toledo” (Rafael del Valle Curieses. 2000. Afonso de Molina136. Madrid. o Conquistador. para vengar la muerte del maestre de Santiago don Gonzalo Ruiz Girón en el desastre de Moclín. 226-229). p. Afonso IX de Leão e de D. 41 . o Sábio135. “El nombre hacía honor a su tío Sancho. Para evitar um excesso de notas de rodapé gostaríamos de referir que o relevante trabalho de Mercedes Gaibrois de Ballesteros. era filha do infante D. Le dieron ese apelativo cuando. La familia “Téllez de Meneses” (…). Sancho IV de Castilla. e hizo reconocer a Doña María de Meneses por reina y a su hija Doña Isabel. La familia “Téllez de Meneses” en los tronos de Castilla y Portugal. irmão de Fernando III. Sancho IV132. rei de Leão e Castela. Imprenta Provincial. sobretudo. pp. 132 “Con frecuencia se toma su apelativo de ‘Bravo’ como sinónimo de fiereza salvaje y. teve com sua mulher D. a estudos castelhanos que versam especificamente sobre os monarcas D. Violante. Madrid. Inmediatamente partieron para Toledo. 34).II – A ascendência linhagística A nossa protagonista. Quanto à sua mãe. El soberano ejercicio de la concórdia (1260-1321). 1999. María de Molina. y en su catedral fueron solemnemente ungidos y coroados” (Modesto Salcedo. hermano de doña Violante y abad de Valladolid. Este infante era o quarto filho de dez que o rei D. Sancho IV e D. Foi em Ávila que o infante D. fue más humano que la mayoría de sus contemporáneos.. Editorial Voluntad. que tenía dos años. e de sua terceira mulher. 3 vols. por heredera. Maria de Molina e de D. Maria Afonso de Meneses. Berengária I de Castela. nas respectivas notas. 19221928 serviu de base para a redacção destas linhas. llegó como un alud hasta las puertas de Granada” (Modesto Salcedo. o Bravo133. Maria de Molina souberam da notícia da morte do rei e onde participaram na missa fúnebre celebrada em honra do falecido. “Al dia siguinte Sancho IV se hijo proclamar rey de Castilla y León. era filha de D. 133 Para a redacção destas linhas (que tomam a forma de uma breve síntese) recorremos. a rainha D. Beatriz. filha de Jaime I de Aragão. D. Sancho e D. Os restantes estudos irão sendo citados ao longo das próximas páginas. Maria de Molina. 137 Foi este rei que uniu definitivamente as coroas de Leão e Castela e consolidou a Reconquista. nascido a 12 de Maio de 1258. Palencia. en realidad. p. em Sevilha134. o Santo137. Demos primazia aos elementos que estão relacionados com a infância da nossa protagonista. Afonso X. 136 Este príncipe era filho segundo do rei D. 202). Alderabán. 134 135 Este monarca faleceu a 4 de Abril de 1284.

Sancho IV (…). tendo nascido em Tierra de Campos. 24-28. autora espanhola que mais estudos dedicou a Maria de Molina. Mas aquele secundogénito reinou em Castela com o título de D. por um lado. após uma invasão do reino de Castela por parte dos emires de Marrocos. Sancho aparecia como segundo filho varão. o infante D. Gaibrois de Ballesteros. 59. um poderoso senhor.Maior Afonso de Meneses138. foi a partir do ano de 1272 que D. Afonso Teles de Meneses e D. no campo de batalha. Segundo Gaibrois de Ballesteros140. a ter maior protagonismo e presença nos acontecimentos políticos do reino e. A data de 1260 é avançada por Rafael del Valle Curieses. Sancho IV. inesperadamente. La família ‘Tellez de Meneses’ (…). que nasceu no ano de 1258139. Fernando solicitou a D. p. por outro. assistiuse a uma aproximação do rei ao seu segundo filho varão. 138 139 Mercedes Gaibrois de Ballesteros. Na linha sucessória. Un episodio de la vida de María de Molina. I. precedido de seu irmão. refere que se desconhece a data de nascimento desta rainha castelhana. o príncipe D. pp. partiu com o exército para acudir as tropas que se encontravam a lutar na zona de fronteira. María de Molina (…). A subida ao trono deste filho segundo está associada ao conflito com o seu pai. o príncipe D. Maria Anes de Lima. vol.º4. Mas logo Filha de D. 34. talvez. a defesa dos direitos dos seus filhos à sucessão da coroa. direito à herança da coroa. são escassas. 140 Mercedes Gaibrois de Ballesteros. talvez devido à sublevação de um grupo de nobres. Porém. o infante D. nota n. Juan Núñez de Lara. Fernando. regente do reino em ausência de seu pai. falecendo. Perante a iminência da morte. EspasaCalpe. deste modo. 1935. início do conflito. (nesta obra poderão encontrar-se muitas outras referências sobre esta linhagem). Sobre os Meneses veja-se Modesto Salcedo. não tendo. Assim. Sancho começou. mas avançou a hipótese de a soberana ter. Madrid. o ano de 1275 foi marcado por um acontecimento que mudou a vida deste filho segundo. As informações sobre as actividades do infante D. Sancho até ao ano de 1282. p. a mesma idade de seu marido. o rei Sábio. 42 . Fernando.

Universidad de Valladolid. p. 21-28. Podemos também vislumbrar nesta união uma tentativa por parte da coroa para controlar uma importante linhagem. talvez como consequência de mútuas conveniências. devido à posse da Gasconha. por um lado. muitas vezes quando os nubentes eram ainda crianças. p. a 4 de Abril de 1270. a coroa seria beneficiada. a catalã Guillerma de Montcada. O silêncio. Sancho IV (…). as suas quatro filhas foram partidos muito apetecidos e. Reinas medievales (…). 262). Valladolid. Fernando IV de Castilla (1295-1312). Assim. do ponto de vista do dote. mediante procuradores. Foi. Não terá sido despiciendo o apoio que o visconde deu a D. nota 17). que D. serviu como aceitação implícita. por outro. não existir oposição ou provas contrárias à sua celebração. após vários anos da sua celebração. Palencia. favoreciendo el escaso interés de aquél por la legitimación del posterior matrimonio de Sancho IV con María de Molina. 43 . reforçava-se a ligação linhagística que existia com a influente estirpe dos senhores de Haro144. Da parte do senhor de Montcada sempre houve a preocupação em conseguir unir. Como é sabido. Segundo as Siete Partidas os desponsórios por palavras de presente têm a validade de um matrimónio se os contraentes forem maiores de sete anos e.” (Jose-Manuel Nieto Soria. uma das suas filhas com uma das dinastias reinantes. por “sponsolia per verba de presenti”142. pelo controlo da importante fortuna familiar do visconde. visconde de Bearne e senhor de Montcada e Castelvel143. D. Sancho IV (1284-1295). assim. seguindo esta regra. Afonso X firmou o matrimónio do seu filho segundo. Sancho não manifestou qualquer oposição ao casamento com Guillerma de Montcada (María Jesús Fuente. neste caso. em Burgos. 247. o infante D. 142 141 143 Jose-Manuel Nieto Soria. 1994 p. através do matrimónio.após a morte do irmão. Veja-se Cesar Gonzalez Minguez. durante o período medieval os casamentos entre membros das classes privilegiadas eram acordados por seus pais. a mais nova de quatro filhas de Gastón VII. 1976. Afonso X durante o conflito com a Inglaterra. pp. D. 144 Segundo Nieto Soria. “esta será una circunstancia que tendrá gran influencia en la actitud de Lope Díaz Haro en diversos momentos del reinado de Sancho IV. 22. demonstrando-se. Afonso X como um monarca cujo prestígio estava em nítida ascensão. já que. neste contexto. Editorial La Olmeda. Deste modo. O acordo foi estabelecido. recebeu como esposa. Sancho assumiu o papel de regente e herdeiro da coroa141. não tendo ainda o príncipe completado doze anos. Esta união foi validada pelos pais dos nubentes. La guerra civil y el predomínio de la nobleza.

Modesto Salcedo. à antiga e importante linhagem dos Teles de Meneses. Maria Afonso foi madrinha de baptismo de Violante.Na realidade. durante as estadas de D. p. Neste séquito régio. e. 193. que D. Neste círculo terá aprendido as noções de etiqueta cortesã. o matrimónio era válido e efectivo porque. Vários autores supõem que Maria Afonso de Meneses passou parte da sua infância e juventude em Tierra de Campos. por parte do pai. 146 Luís Vicente Díaz Martín. Maria Afonso foi educada e permaneceu ao longo da sua infância e juventude. Afonso X que se iniciou a convivência e a amizade com o infante D. La familia “Tellez de Meneses” (…). à coroa castelhana. o Sábio. 87. 30-31. Afonso X. nunca foi solicitada a sua anulação ao Papa. aos olhos da Igreja. Maria na corte de D. talvez devido à fama de feia e de mau carácter que tinha Guillerma. Afonso X. Plaza y Jánes. Foram duas as mulheres que cuidaram da sua educação e criação durante as duas primeiras etapas da vida desta nobre dama: María Domínguez foi sua ama. Maria de Molina. 23. fazia parte da comitiva de damas e princesas que gravitavam na corte afonsina. Caja de Ahorros Popular. e María Fernández Coronel. Nesta localidade aprendeu a dignidade cortesã146. Para Modesto Salcedo148. por outro. María de Molina. Sancho.”145 Mas. Maria encontrava-se ligada. Barcelona. Maria terá tido uma integração como qualquer outra mulher da nobreza. D. 2005. por parte da mãe. Nieto Soria afirma que “seguramente. La familia “Téllez de Meneses” (…). por um lado. Esta relação seria já antiga e próxima quando D. 44 . local onde nasceu. 147 María Antonia Carmona Ruiz. ou seja. possivelmente. D. foram firmados através dos respectivos procuradores os “sponsolia per verba de presente” e. Valladolid. p. Sancho IV (…). la negativa de don Sancho a consumar el matrimonio seria causa determinante. sua inseparável aia147. pp. 145 In Nieto Soria. D. foi na culta e distinta corte de seu primo. 148 Modesto Salcedo. este casamento nunca foi consumado entre os esposos. porque era prima do rei D. 1984. Foi. p.

uma filha ilegítima que D. Para a História ficará conhecida como Maria de Molina. João Núñez de Lara. Branca morreu na Primavera de 1293 (Vicenta Maria Márquez de la Plata. do referido senhorio ao rei seu cunhado. com a aquisição deste senhorio. Isabel se casasse com um castelhano. possivelmente. Não havendo outros descendentes. Branca. Teve. o senhorio de Molina sairia da órbita castelhana entrando para a aragonesa. em rigor. D. Maria de Aulada. Uma vez mais. Alderaban. Sancho teve de D. foi a sua filha. que lhe tinha concertado o matrimónio com Guilherma de Montcada. Este designativo só lhe foi atribuído após a morte de sua irmã mais velha. o rei pediu a D. Branca. a sua mulher. Sancho IV. IDEM. prometendo-lhe a liberdade quando D. Maria. Sancho IV (…). prima de D. D. EspasaCalpe. É assim. esta dama respondeu afirmativamente ao monarca ao nomeá-lo em seu testamento como futuro detentor do senhorio de Molina. deste modo. Modesto Salcedo. Branca. Reinas medievales españolas. mas ambos morreram sem descendência pouco tempo depois do matrimónio. 229. 1967. Madrid. No ano de 1286 ficou viúva e tentou casar a sua filha D. Maria Afonso. Deste modo. quem herdou o senhorio de Molina. pai de D. O grupo Nieto Soria. D. que a rainha começou a ser designada por Maria de Molina. Fernando III. 150 45 . A familiaridade entre D. a seu irmão. mas talvez sem o grande fausto digno do casamento de um infante real devido às circunstâncias em que foi celebrado. assim. em testamento. Afonso Fernández. D. Isabel casou com D. Sancho e D. no mês de Junho de 1282. Afonso X e de D. María de Molina. o Moço. Esta dama fez uma doação. o Bravo encerrar a sua cunhada no Alcácer de Segóvia. Un episodio de la vida (…). À morte de D. a anuência do clero que apoiava o futuro rei e. D. Veja-se também o trabalho de Mercedes Gaibrois de Ballesteros. 2000. Tres veces reina. a 23 de Maio de 1293. p. Maria resultou numa união matrimonial que ocorreu em Toledo. em Castela. Afonso III de Aragão. 218). D. deste modo. deste modo. D. os motivos que terão levado o jovem príncipe a desobedecer à vontade paterna. Branca que o nomeasse como herdeiro do referido senhorio. Sancho já se encontrava em luta contra seu pai para obter o trono castelhano e. O senhorio de Molina foi doado pelo rei D. La família “Téllez de Meneses” (…). Maria de Meneses de Ucera149. D. que detinha a posse do senhorio de Molina até àquele momento150. a partir daquele ano. 149 D. Este era um território bastante problemático porque se encontrava na fronteira com o reino de Aragão e. ano em que foi celebrado o seu casamento com D. Afonso. realizou-se com todas as cerimónias próprias deste acontecimento. pp. Afonso. Branca era filha de D. Casou com D. filho bastardo de D. Mafalda Manrique de Lara. Em 1282. como já referimos. Isabel com D. Decidiu. o Santo. Afonso de Molina e de sua primeira mulher. p. Esta união não agradou ao rei castelhano porque. Maria e D. 47-48. Madrid. que o doa. o Niño. necessitava de apoios. e Luis Valero de Bernabé. Desconhecemos. muito apetecido pela coroa aragonesa devido à sua posição estratégica (actualmente Molina localiza-se no município de Molina de Aragón e pertence à província de Guadalajara).

pai de D. inclusive nos graus mais elevados de proibição. y Doña María. Sancho como D. Sobre o matrimónio destes dois monarcas. Porém. Tipografia Archivos. Afonso X. Maria ser. Por um lado. 152 46 . era sobrinho do infante D. Fernando IV (…). havia a consanguinidade em terceiro grau e. Sancho e D. prima e madrinha de uma filha ilegítima do Bravo. D. veja-se também: María Jesús Fuente. pai do Bravo. os nubentes eram parentes em segundo e terceiro grau152. Mas também o rei D. 1928. Afonso X. Maria. portanto. Afonso X. Por outro. D. a Igreja passou a proibir os matrimónios entre consanguíneos e afins até ao quarto grau do Direito Canónico. por outro. Nieto Soria coloca a hipótese de o casamento entre D. Maria era um dos mais fortes de Castela. uma vez que com esta união ficava definitivamente ultrapassado o projecto matrimonial jurado e ratificado. Madrid. O facto de as casas reais europeias casarem entre si fazia com que. durante a Idade Média. 4). por lo cual la reina era tia segunda de su esposo. Maria conheciam estes impedimentos canónicos que invalidavam. Maria de Molina convertia-o em bígamo. aos Papas a tarefa de aceitar ou não qualquer matrimónio em que existisse uma ligação de parentesco e/ ou afinidade. p. A partir do IV Concílio de Latrão (1215). nieta de estos mismos y prima hermana de Alfonso el Sabio. conhecedor de todos estes impedimentos. talvez nesta união existisse o interesse do Bravo em rodear-se de tão influentes apoiantes. celebrou-se sem o consentimento do monarca D. deste modo. Necessitavam.” (in Cesar Gonzalez Minguez. por D.nobiliárquico ao qual pertencia D. 257-283. Jaffé e H. quase todos os membros das famílias reais se achassem entroncados uns com os outros. com o seu silêncio. que havia já negociado o casamento deste seu filho com a referida Guillerma de Montcada151. pp. E. Reinas medievales (…). este novo casamento com D. 26. iniciado. Tanto D. Afonso de Molina. Por um lado. da dispensa papal. deixando. Não podemos também esquecer o parentesco espiritual proveniente de D. automaticamente. Afonso X. assim. La dispensa de matrimónio falsificada para el rey Sancho IV y María de Molina. ao Que se tenha hoje conhecimento não foi celebrada a ruptura destes esponsais (Cf. simultaneamente. a qual só foi solicitada após o casamento. Finké. Considerando o momento político que se vivia. a sua união perante a Igreja. p. Este casamento de D. uns anos antes. consentiu no matrimónio. Maria ser uma forma de afirmação do filho contra o pai. Sancho era legítimo esposo de Guillerma de Montcada e. nota 23). o clero castelhano. 151 “Sancho IV era biznieto de Alfonso IX de León y de Doña Berenguela la Grande. Sancho realizava-se com um duplo inconveniente.

Ou seja. tanto entre a realeza europeia como entre as diferentes linhagens nobres. Estamos perante um caso evidente da contradição entre a teoria e a prática. Sancho IV (…). E. os grupos privilegiados da sociedade medieva praticavam as irregularidades no matrimónio. se declarou rei de Leão e Castela. o trono ao seu sobrinho D. assim. a hipótese de que os tempos conturbados que se viviam em Castela conjuntamente com a ocupação do trono por D. inclusivamente. excessus enormitas y publica infamia153 e ordenou que os nubentes se separassem imediatamente. Guillerma de Montcada. Sancho e a morte do Papa permitiram a não execução da sentença papal. Finké. Por outro. Sancho e D. com o objectivo de legitimar os filhos nascidos dessa ligação. e H. só solicitavam a dispensa papal após a realização do casamento. o Papa Martinho IV classificou. após uma rebelião contra seu pai. p. E. 6). oficiada pelo arcebispo de Toledo. Neste contexto de invalidade do matrimónio. Uma outra razão está relacionada. La dispensa (…). Sancho se encontrar legal e legitimamente casado com D. Jaffé. Afonso de la Cerda. D.enviar representantes para celebrar a cerimónia religiosa. com o facto de. E. as regras canónicas chocavam muitas vezes com os interesses nobiliárquicos e. sob pena de excomunhão e de interdito. 48. Logo após o matrimónio entre D. 153 Citado por Nieto Soria. com uma dureza extrema. uma vez que existia consanguinidade entre os nubentes. à luz do Direito Canónico. esta união de incestas nupcias. De facto. principalmente quando consideravam que a união era conveniente ou desejável. o Bravo teria o maior interesse em obter a declaração que legalizava o seu casamento. caso não obedecessem à ordem pontifícia154. usurpando. os casamentos entre parentes próximos realizaram-se com muita frequência. Maria. Finke declaram que “falta toda noticia sobre la ejecución de la orden”. a validação papal legitimaria o seu filho varão como herdeiro genuíno da coroa. como dissemos. Durante séculos foi regra o matrimónio ser um assunto regulado no seio da nobreza e das casas reais. Avançam. Esta atitude do Papa advém do facto de não ter sido solicitada a necessária dispensa. 154 47 . Assim como não existem registos de intervenção do Papa seguinte (Cf. Por um lado. deste modo. Jaffé e H. p. ele era o filho segundo que. que desobedeciam amiudadas vezes e sem qualquer problema aos ditames da Igreja. muitas vezes.

Por um lado. mas morreu sem nunca obter a tão desejada dispensa. in Genesis medieval del Estado Moderno. D. Valladolid. deste modo. 48 . O Papa respondeu ao pedido do rei alegando que ainda não podia conceder a referida dispensa porque até ao momento continuavam a existir múltiplos impedimentos. a dispensa legitimava os filhos nascidos deste matrimónio. “Castilla. principalmente no inicio do reinado155. Apesar da oposição da Santa Sé e do Direito Canónico. um franciscano eleito Papa no ano de 1288. Sancho IV (…). Porém. não negou ao monarca a hipótese de obter a bula de dispensa mais tarde. Sancho IV decidiu enviar uma embaixada ao Sumo Pontífice com o objectivo de conseguir a tão almejada dispensa matrimonial. Ambito Ediciones. prejudicando. Por outro. existia a Sobre as relações externas castelhanas veja-se: Luis Vicente Díaz Martín. surgiu uma vontade de entendimento entre o trono pontifício e o castelhano. 1987. A estes objectivos se dedicou o monarca durante a sua vida. A principal preocupação dos monarcas residia nos seus filhos. Maria de Molina foi sempre a única esposa reconhecida por D. 107.Durante o seu reinado D. 1280-1360: política exterior o relaciones accidentales?”. Nunca os reis poderiam imaginar que após o seu casamento seria tão difícil obter a dispensa canónica do triplo impedimento. D. Sancho IV. 156 155 Nieto Soria. Esta união do Bravo veio tornar tensas as relações entre Castela e o papado. que ao serem fruto de uma união ilegítima e incestuosa eram considerados bastardos. uma vez que tantos outros príncipes da época não se preocuparam em solicitar a dispensa a Roma antes de celebrar o matrimónio e quase sempre a obtiveram sem problemas de maior. pp. principalmente quando havia muitos interesses dinásticos em jogo. No entanto. mas também ao nível das relações políticas. Castilla y Navarra (1250-1370). não só no plano pessoal. O conceder a bula de dispensa acarretaria consequências. parecía dejarse abierta la vía hacia una reconsideración en un momento más oportuno (…)”156. os infantes de la Cerda que pretendiam ocupar o trono de Castela. Para Nieto Soria. 125-147. Com o início deste novo ciclo. p. “pues junto a la denegación. toda esta resposta está cheia de ambiguidade. Sancho IV procuraria alcançar dois objectivos urgentes e imediatos: anular as pretensões do infante de la Cerda ao trono e obter a dispensa pontifícia para o seu matrimónio. com Nicolau IV.

nunca viu reconhecido pela Igreja de Roma o seu casamento com Maria de Molina. Faleceu este rei a 25 de Abril de 1295. 159 160 Verardo García Ruy. Gobierno de La Rioja/Instituto de Estudios Riojanos. legitimando. La dispensa (…). Maria seria mantido até ao final da vida deste rei que. que continuava a ser a esposa repudiada157. “Notas sobre el franciscanismo y el dominicanismo de Sancho IV y Maria de Molina”. La família “Tellez de Meneses” (…). Sancho IV (…). 107). Sancho. Sobre a falsa bula veja-se E. os esponsais com Guillerma de Montcada deixaram de ser um impedimento para o monarca castelhano conseguir a legitimidade do seu matrimónio com D. quien lo declaraba en una bula de 21 de marzo de 1297. ya durante el pontificado de Bonifacio VIII.questão de D. declarada como uma falsificação pelo Papa Bonifácio VIII. no entanto. casou-a com um dos seus irmãos. Maria de Molina. Logroño. 171-184. se encargo de coordinar al equipo que falsifico la bula de dispensa Proposita nobis” (in Salustiano Moreta Velay. a pesar de presentarse como una bula otorgada por Nicolás IV. ditou o seu testamento. J. 267). Para esta rápida obtenção foram talvez decisivas as boas relações que existiam entre o rei de Aragão e o papado (María Jesús Fuente. toda a respectiva descendência. D. que tuvo lugar en Roma el 4 de abril . “Notas sobre el franciscanismo (…). 157 “Según sabemos hoy. p. no produciéndose la elección del nuevo pontífice hasta el 5 de julio de 1294. La capilla del rey Don Sancho “el Bravo” y los cenotáfios Reales en la Catedral de Toledo. 1922. Pedro. Finke. p. Deste modo. Esta bula foi. 172). Este carácter de falsificación no se conoció hasta mucho tiempo después. na qual o Papa Nicolau IV reconhecia o seu casamento como válido. p. O impedimento para a união de D. Salustiano Moreta Velay. deste modo. D. p. Pelaez. a bula Proposita nobis. a 25 de Março de 1292. Os reis castelhanos receberam. Reinas medievales (…). Nájera 3 de julio al 4 de agosto de 1995. Sancho IV é considerado como um rei eminentemente piedoso e justo (Modesto Salcedo. Sancho encontrava-se gravemente doente quando. Todas estas condicionantes não deveriam criar consenso na Cúria Pontifícia. 49 . su elaboración se produjo en el largo interregno de más de dos años que se abrió a su muerte. Jaime II. D. in VI Semana de estudios medievales. em Toledo. p. Jaffé. Sancho com D. encontrando-se sepultado na capela de Santa Cruz da Catedral desta cidade160. Logo após a morte deste monarca O rei de Aragão. 226). durante o período vacante de dois anos em que os negócios eclesiásticos estiveram entregues ao colégio cardinalício159. e H. D. Toledo. 158 “Un fraile dominico de origen probablemente español.” (Nieto Soria. no ano de 1295. D. desejando granjear o dote desta rica herdeira. Guillerma conseguiu. apesar de envidar todos os esforços. Guillerma de Montcada. a 21 de Março de 1297158. un tal Petrus del convento romano de Santa María ‘supra Minerva’. 1996. no qual nomeou como tutora do herdeiro da coroa a sua mulher. sem problemas. a anulação de compromisso de esponsais com D. 1996. Tal adulteração terá ocorrido após da morte de Nicolau IV.

temos. posteriormente. “El de Aragón se comprometió en capitulaciones a tomarla por esposa cuando ella llegase a la edad núbil y jurando así mismo que ‘nunca la dexaría’. Maria sobreviveu a D. a rainha finalmente fechou os seus olhos para a vida terrena. com a morte de D.foi proclamado rei de Castela D. na maior parte do tempo. e D. Fernando num conflito político de luta pelo trono. apressam-se a estabelecer um acordo matrimonial entre esta princesa castelhana. No início do Verão de 1321. que teria somente oito anos. 161 162 Os reis de Aragão. p. percorrendo todas as terras do reino e intervindo. Maria de Molina adoptaram uma postura de apoio às ordens mendicantes e contribuíram fervorosa e pessoalmente para a sua implantação e consolidação definitivas no território castelhano (Salustiano Moreta Velay. o monarca aragonês rompeu o Embora não estando no âmbito do nosso estudo. gostaríamos de referir que actualmente não existem dúvidas entre os autores espanhóis de que D. Porém. as Huelgas Reales de Valladolid. Durante os onze anos que reinaram juntos. Maria Fernández Coronel. Dois dias após fazer o seu derradeiro testamento. rei de Aragão162. “Notas sobre el franciscanismo (…)”. Esta infanta ficou aos cuidados de sua ama. Esta suspeita de bastardia mergulhou o início do reinado de D. muitas vezes. revelando-se a rainha regente como uma grande defensora dos direitos deste seu filho e. que foi aia de sua mãe. A senhora de Molina reinou três vezes: com seu marido. O seu acordo matrimonial foi estabelecido com D. como conselheira e colaboradora das decisões tomadas pelo monarca. Isabel. Por ordem de nascimento. Jaime II. Sancho IV. considerados ilegítimos. apesar de. Fernando. finalmente. D. 1996. a rainha adoeceu gravemente e esteve alojada vários meses no Mosteiro de S. Sancho IV e D. e para confirmar sus palabras 50 . Isabel ser designada como herdeira de D. com seu filho e. Jaime II. Sancho IV vinte e seis anos. D. D. 172). se pudesse sentar firmemente no trono. ao verem a infanta D. Afonso XI. Fernando IV. Em treze anos de união nasceram sete filhos. com apenas nove anos. Afonso XI. Francisco de Valladolid. seu filho varão primogénito. que nasceu na vila de Toro no ano de 1282. os filhos nascidos desta união eram. do seu neto. consequentemente. Encontra-se o seu sepulcro no mosteiro cisterciense que fundou161. a soberana concentrou todos os seus esforços para conseguir a imprescindível dispensa que era absolutamente necessária para que o seu filho. Maria acompanhou sempre o seu marido. com seu neto. redigido pelo escrivão Pedro Sánchez. D. Devido ao ferrete da ilegitimidade do casamento de seus pais. D. o futuro D. em primeiro lugar D. Enquanto rainha regente. se encontrar grávida. Sancho IV.

Jaime II e infanta de Aragão. que nasceu no início do ano de 1286 em Valladolid e pereceu com cinco anos na mesma cidade. a primeira mulher do infante herdeiro do trono português. Beatriz. entrego en rehenes vários castillos” (Vicenta Márquez de la Plata. Afonso III (Gaibrois de Ballesteros. Maria. o infante D. Fernando para preparar o casamento desta sua irmã com o rei D. Fontemoing. em 1311. Beatriz. Mémoire sur les relations de la France et de la Castille de 1255 à 1320. Pedro. Filipe. Reinas medievales (…). de quem teve uma filha. Esta infanta casou. de quem não teve sucessão164. os reis castelhano e português. alegando a ausência da bula de dispensa de parentesco163. Filipe IV.compromisso e devolveu a princesa a Castela. numa tentativa de consolidar a amizade franco-castelhana foram encetadas negociações durante o reinado de D. D. p. D. filha de D. D. pp. sem sucessão. duque da Bretanha. nascida em Toro no ano de 1293 e protagonista deste estudo. Filipe faleceu em 1359. mujer de Fernando III El Santo. tendo-se este finado em 1319. Em Valladolid deu a rainha D. mulher de D. 163 164 Segundo Georges Daumet. A última filha do matrimónio dos reis castelhanos foi a infanta D. D. que casou com D.). com João III. Dinis. 165 51 . 26). no ano de 1288. 225). Afonso. O quarto descendente teve o nome de Henrique e veio ao mundo em Vitoria. Faleceu em 1328. Maria de Molina (…. p. p. estaba emparentada com Constanza. o segundo filho deste matrimónio foi D. Maria à luz o seu quinto filho. estabeleceram um tratado. No ano de 1292 nasceu. Branca. o Belo (Georges Daumet. em Sevilha. tendo falecido em 1299. Foi escolhida como madrinha do herdeiro da coroa castelhana a rainha-mãe de Portugal. Pedro. O terceiro filho foi o infante D. Como já referimos. Este príncipe casou-se. o infante D. O desejado filho varão. nasceu em Sevilha a 6 de Dezembro de 1285 e teve o nome de Fernando (sobre este infante falaremos mais adiante). e Luis Valero de Bernabé. herdeiro do trono. com D. Numa tentativa de consolidar alianças e angariar aliados. D. Paris. no ano de 1290. Fernando de La Cerda. em 1310. y por lo tanto bisabuela de la niña Isabel. Reinas medievales (…). s/d. 225). 131-132). Com ele ficava assegurada a sucessão no trono165. e Luis Valero de Bernabé. madre de don Jaime” (Vicenta Márquez de la Plata. Margarida de La Cerda. “Beatriz de Suabia. neta de D. Fernando.

De Portugal só compareceu D. Maria de Molina167. Afonso Sanches. Maria Afonso Teles de Menezes nasceu Violante Sanches. Constança. Dinis aceitou o matrimónio. no mês de Janeiro de 1302. Estas pretensões de D. No Outono de 1297 o rei português e a regente castelhana. mas impôs como condição a entrega das vilas de Olivença. Maria de Molina. primeiro conde de Barcelos. 167 166 Gaibrois de Ballesteros. Dinis não eram benéficas para a governante de Castela. assim. como analisaremos mais adiante. irmã de D. Fernando IV com a infanta D. três filhos ilegítimos de três mulheres diferentes. Un episodio de la vida (…). e o infante D. filha de D. que ambos os monarcas ratificaram solenemente o compromisso matrimonial entre o rei castelhano e a infanta D. Félix dos Galegos. Assim. Maria de Molina. D. T. D. Afonso. 52 . Beatriz. que foi casado com Maria Lopes de Haro. Fernando teria dezasseis anos. Fernando. D. Além destes seus sete filhos legítimos. D. príncipe herdeiro da coroa de Portugal. em Valladolid. D. Neste acordo foram também celebrados os esponsais entre D. de uma dama desconhecida nasceu Teresa Sanches. Sancho IV teve ainda.a 15 de Setembro de 1291.º369. que casou com D. III. E. grande privado do rei D. Sancho IV (…). Fernando IV. cujo capítulo fundamental era estabelecer o compromisso matrimonial entre o príncipe herdeiro do trono de Castela. reataram negociações para concluir o compromisso matrimonial dos seus filhos. Dinis e parente de D. Campo Maior e S. Sancho novas aventuras amorosas após o seu casamento com D. Fernando de Castro. em Alcañices. que ainda não teria completado os dois anos de idade. Constança. João Teles de Menezes. João Afonso de Albuquerque. Uguela. conde de Barcelos. Maria de Molina cedeu aos pedidos do monarca português porque acreditou que com este matrimónio D. Dinis seria um importante aliado de Castela e defenderia o trono do seu genro. Maria de Molina. em Cidade Rodrigo166. de D. Maria Peres nasceu D. antes da união com D. Este foi um caso raro para Este documento encontra-se transcrito em Mercedes Gaibrois de Ballesteros. que contraiu matrimónio com D. Dinis. Da sua barregã D. p. D. e a infanta portuguesa D. Mas D. n. 28. Constança teria acabado de cumprir doze anos e D. celebrou-se o casamento do rei D. Foi. Não se conhecem a D. vila fronteiriça da actual província de Zamora. tendo reinado desde 1295 até 1312. Fernando morreu com vinte e quatro anos. que teria cinco anos. Constança. por fim. Logo após a recepção das bulas de dispensa de parentesco.

53 .uma época em que as relações fora do casamento e os filhos ilegítimos eram frequentes e faziam parte da convivência do casal.

Um aspecto do relacionamento ibérico e europeu (séculos XIIXIV)". in IV jornadas luso-espanholas de História Medieval. II. o ampliar território. As suas vivências são quase sempre ocultadas pela acção dos monarcas. Castela e Aragão se achavam intimamente unidos por laços de família: o filho de D. poder y mentalidad. Actas. Estes pactos. estamos perante uma sociedade em que o trono se transmitia de forma hereditária ao filho primogénito. in A guerra e a sociedade na Idade Média. "Casamentos reais portugueses. O casamento era uma instituição bastante firme que gozava de um amplo reconhecimento. Podemos apontar. muitas vezes. p. 2003. Universidad del País Vasco. pp. obter disponibilidade finaceira. Porto. que as relações entre países vizinhos sempre alternaram entre uma perspectiva de colaboração (comércio e alianças) e de desavença (guerras e conflitos). por sua vez marido de uma tia paterna do rei de Castela. por fazer. Jaime II de Aragão era tio materno de Afonso IV” (Paulo Drumond Braga. o adquirir novos reinos. em larga medida. VI Jornadas Luso-Espanholas de Estudos Medievais. o jogo de interesses ao nível das alianças políticas entre os reinos ou as linhagens. Dinis era sogro de Afonso XI de Castela e a mãe deste era irmã de Afonso IV. “As bodas mistas criaram uma rede de tal modo intrincada que. La nobleza castellana (siglos XII-XV). As relações de fronteira no século de Alcanices. como motivo para estabelecer casamentos entre casas reais o procurar apoio para fazer guerra a terceiros. por outro. as uniões eram encaradas. Notamos. de vínculos familiares169. 170 169 54 .III – O acordo matrimonial A história das rainhas medievais portuguesas encontra-se. Arsenio Dacosta. como o principal instrumento para regular relações. 2009. num momento de 168 Isabel Beceiro Pitta. vol. Jorge (CIBA) – Porto de Mós – Alcobaça – Batalha. Por seu lado. e Ricardo Cordoba de la Llave. Los linajes de Bizkaia en la Baja Edad Media: poder. II. entre outras causas (veja-se Ana Maria Rodrigues. p. Os fortes interesses político-económicos sobrepunham-se no momento da escolha dos cônjuges. Consejo Superior de Investigaciones Científicas. 1998. parentesco y conflicto. Faculdade de Letras da Universidade do Porto. essencialmente. muitas vezes. não sendo irrelevante o facto de o mercado matrimonial da realeza ser muito restrito. no reinado de Afonso IV. Actas. Madrid. pretexto para guerras”. Campo Militar de S. Isto porque. se. 1534). criar e consolidar alianças entre reinos. sendo utilizado. vol. Portugal. Bilbao. também. 1990. “Infantas e rainhas: garantes de paz. cimentando a política externa170. muitas vezes eram selados através do matrimónio de membros das famílias reais168. ao longo da História. Parentesco. Muitas vezes. 39-59). o papel das mulheres serviu. por um lado. Nos casamentos dos membros da família real a conjuntura política e os contratos estabelecidos revelaram-se fundamentais para gizar as teias de relações internacionais que eram também. 128.

propiciando. deste modo. 55 . a “Reconquista Cristã” que havia começado no século VIII. por vezes longe das suas origens. Nerea. 1991. Não sendo nosso propósito alongarmo-nos sobre a política externa dos reinos medievais. um filho varão. no caso que nos ocupa. 173 172 171 Margaret Wade Labarge. Publicações Europa-América. 110. bem como a necessária precaução contra eventuais inimizades. p. considerava-se que as esposas régias deveriam ser bastante saudáveis e férteis para darem à luz. já que à futura rainha estavam incumbidas as funções de auxiliar o monarca seu marido a afirmar e consolidar a sua Não podemos esquecer que o fim do reino de Granada só foi conseguido durante o governo dos reis Católicos.. de preferência. para as enviar para os novos países. Terminava. um finalizar das hostilidades.conflito. dependente da reprodução biológica. 2003. Não podemos esquecer que a escolha de uma futura consorte deveria ser benéfica para o reino. 71. A jovem noiva tinha de possuir também outras características como. deste modo. Porém. esp. San Sebastián. no ano de 1492. apartando muitas jovens do seio da sua linhagem ou residência habitual. mas também a obtenção de um herdeiro masculino para garantir a independência e assegurar a continuidade da linhagem no trono172. marcados por grandes alianças políticas e militares devido à “Reconquista Cristã” que continuava activa no vizinho reino de Castela171. a juventude e o vigor eram utilizados como possíveis indicadores de fecundidade. onde iriam ser as novas consortes. ser prudente. Importa considerar que. Na Idade Média não havia forma para verificar previamente a fertilidade das noivas. excepto quando havia filhos de um casamento anterior. Lisboa. La mujer en la Edad Media. p. por exemplo. trad. Estas circunstâncias conduziram à celebração de vários casamentos por delegação. discreta e cuidadosa na educação dos filhos173. muitas vezes. a estratégia matrimonial encontrava-se inserida na consolidação e afirmação dos reinos e monarquias peninsulares. orientadas para estabelecer vínculos familiares. como um eficaz mecanismo de resolução do mesmo. Para atingir este fim. o casamento não representava só a busca da paz externa. Veja-se Christopher Brooke. gostaríamos de referir que as relações entre os mesmos foram constantes e. O casamento na Idade Média. Deste modo. através dos quais se ligava uma estirpe régia com uma outra de igual condição.

175 174 “A repressão específica das mulheres por meio dos casamentos combinados baseia-se muito mais na redução da sua existência a uma vida ao lado de um homem.. in Vivir siendo mujer através de la historia. “Mujeres y fiestas en la Castilla bajomedieval: las celebraciones del ámbito doméstico”. no seio das monarquias peninsulares. era importante diligenciar para que a escolha da noiva fosse absolutamente acertada.. Perante todos estes aspectos. Valladolid. existia sempre uma superioridade do homem em relação à mulher. porque através dessas uniões havia a possibilidade de aumentar o grupo de aliados. Lisboa. com cada indivíduo a desempenhar o seu papel social175. deste modo. Secretariado de Publicaciones e Intercambio Editorial. Beatriz era a filha mais nova do rei D. o casamento era um assunto de âmbito político e económico que se negociava no seio das famílias. a infanta D. para o estabelecimento de uma união matrimonial com uma importante casa real europeia. 2005. segundo o costume vigente. Numa sociedade em que o sistema de parentesco tinha uma base linhagística. de Magdalena Santo Tomás Pérez et allí. Sancho IV e D. Pelo contrário. 1993. “Os “El verdadero amor conyugal no nacía en modo alguno de la pasión. Nesta perspectiva. coord. mas também dos mais velhos sobre os mais novos. revelando-se essenciais. dir. De resto. 99). mediante a fixação do dote e das arras. II – A Idade Média. 56 . decididos todos os planos pela geração mais velha. de Georges Duby e Michelle Perrot. port. reduzida aos interesses e necessidades deste (…)” (in Claudia Opitz. Procurava-se sempre fazer uma aliança conveniente porque um bom casamento valorizava a linhagem. o matrimónio surgia como um meio de conservação e reforço das estruturas de poder. p. interessava casar todas as filhas. “O quotidiano da mulher no final da Idade Média (1250-1500)” in História das mulheres. na Baixa Idade Média. principalmente. 363). políticodiplomáticos e de sucessão. Maria de Molina. sendo. para definir o candidato ou a candidata que melhor se adequava às necessidades. Estes dois elementos gozavam de uma grande importância na hora de acordar os futuros enlaces. Como já vimos. Círculo de Leitores. trad. Durante a Idade Média. vol. de acordo com padrões existentes. o modelo matrimonial assentava numa base em que não existia uma livre eleição do cônjuge nem se concedia relevância aos sentimentos ou laços afectivos entre os nubentes174.posição dentro do reino respectivo. p. a posição por si desempenhada na linhagem estaria definida. Decorrendo deste facto. sino que era fruto de la convivencia y de la relación continua entre marido e mujer” (Juan Carlos Martín Cea.

D. deste modo. que consistia em unir a infanta D. com D. D. 115-133. em 1294. pois vinha sobrepor-se ao já estabelecido entre os reis de Portugal. Dinis. e de Castela. Luís. pondo em causa os acordos matrimoniais estabelecidos em Ciudad Rodrigo. Foi no inicio destas conversações que o rei francês enviou um novo embaixador para acertar um possível casamento entre o seu filho primogénito e herdeiro da coroa. Seguindo os preceitos da política internacional. Branca. sentiu a necessidade de fomentar uma aproximação ao reino de França. o rei Filipe IV enviou a Castela os seus negociadores para diligenciarem o pacto matrimonial. através do casamento do infante herdeiro. o rei francês decidiu fixar as arras da princesa em 24 000 maravedis de renda. 362. De facto.rapazes pouco mais direito tinham de falar do que as raparigas (…). Luís. 176 Claudia Opitz. Este acordo seria lesivo para as relações luso-castelhanas. Sancho IV178. Dinis. mas também com a Igreja. Deste modo. filha do monarca francês. D. Mémoire sur les relations (…). filha mais nova de D. rapidamente. principal apoiante dos infantes de la Cerda. Beatriz com o herdeiro da coroa capetíngea. tendo aí iniciado as negociações e a redacção dos acordos matrimoniais. para negociar o projecto matrimonial entre as Casas reinantes de Castela e de França. D. D. Os mensageiros franceses encontraram-se em Valladolid com o rei castelhano. D. “O quotidiano da mulher (…)”. Branca. mas também procurou uma ajuda eficaz para adquirir. Quanto ao segundo projecto. Sancho IV foi estabelecendo alianças com os países vizinhos. principalmente as pp. p. foram encetadas conversações sigilosas com Filipe IV. Fernando. D. enviou uma embaixada a Castela que foi recebia em Palência. no ano de 1291. Fernando com D. 178 177 57 . sobretudo se eram os herdeiros de uma casa”176. e a soma do dote oferecido seria de 10 000 libras tornesas. Beatriz. Sancho IV. Para o consórcio de D. Neste contexto. Georges Daumet. e a recém-nascida D. Sancho IV deu todas as garantias de que o acordo de 1291 seria mantido. o rei castelhano considerou o valor oferecido pelo dote de pouca monta. as negociações foram mais complicadas. ao ter conhecimento destas pretensões do rei castelhano. a dispensa apostólica que legitimava o seu casamento. entre os sucessores das respectivas coroas e as infantas do reino vizinho177. Seria. o Belo. No entanto. estabelecido um duplo casamento. Para a redacção destas linhas veja-se. D.

Afonso. A morte prematura do Bravo teve. Maria de Molina. assim como pela sua ilegitimadade –. Neste ponto. a hesitação manteve-se. solicitou aos negociadores franceses que a jovem princesa Branca viesse viver para Castela com o intuito de se familiarizar com a língua e os costumes da sua nova pátria. D. por algumas passagens de montanha. mas sim pelos cobiçados territórios de Fontarabie. adiou por seis anos a legitimação dos seus filhos. do lado castelhano. in e-Journal of Portuguese History. anulou estes acordos e. Summer 2007. 58 . a rainha regente a abandonar as negociações relativas aos casamentos dos seus filhos com os infantes francos e. 1). p. Os mensageiros francos recusaram-se a aceder a este pedido enquanto a Santa Sé não enviasse a dispensa de parentesco aos futuros cônjuges. Logroño e Vitoria e. as conversações ficaram paradas porque o rei castelhano recusou-se a alienar parte do seu domínio. D. they chose a bride within a princely or royal family because of the political and/or economic benefits that alliance would bring to the monarchy” (Ana Maria Rodrigues. Fernando IV. “’For the honor of her lineage and body’: the dowers and dowries of some late medieval queens of Portugal”. viúva de D. Sancho IV morreu. não abdicar do dote em terras levaram. San Sebastián. Constança e de negociar a união do infante D. Porém. Beatriz encontravam-se neste ponto quando. à procura de um aliado dentro da Península Ibérica. oferecendo apenas dinheiro para dotar a sua filha. por outro. Assim. mas sempre num clima de impasse e sem resolução à vista. que controlavam a entrada por Navarra no reino francês. a soberana não desistiu do matrimónio do infante D. As conversações para o casamento da infanta D. mas desta feita porque os embaixadores não tinham poderes suficientes para aceitar esta oferta. D. No entanto. subindo ao trono o infante. Estas disputas pelo poder da coroa e o facto de Filipe. desde logo. futuro herdeiro da coroa de Portugal. Devido às guerras internas – provocadas pela menoridade do rei.5.o inicio do novo reinado foi muito turbulento. Sancho IV ofereceu pelo dote de sua filha 100 000 libras tornesas. por outro. o poder real e a coroa foram defendidos graças aos esforços. com a infanta Beatriz179. Por seu lado. à astúcia e à inteligência de D. 179 “Before anything else. Por um lado. Sancho IV e tutora do jovem rei. Numa tentativa de solucionar o problema. As negociações continuaram. por um lado. number 1. também. em Abril de 1295. vol. o Belo.devido ao facto do rei franco ter instruído os seus mandatários para que o dote da infanta não fosse constituído por dinheiro. duas consequências. Fernando com D.

1998.Nos finais da centúria de Duzentos assistimos. p. deste modo. O novo reinado foi marcado por uma grande debilidade política que originou um aumento das lutas pelo poder. envidava esforços para obter o apoio das cidades e da maioria dos bispos do reino. Neste momento de grande turbulência. o rei castelhano pediu a D. Ficou. in O Tratado de Alcanices e a importância histórica das terras de Riba Côa. agravadas pelo acicatar da ilegitimidade sucessória. Universidade Católica Editora. o rei procurou colocar em prática o seu plano diplomático. assim como uma falta de autoridade régia. Jaime II de Aragão. assim. Sancho IV estabeleceu o casamento de sua filha D. as diversas forças políticas. um conflito aberto entre os dois reinos. 181 180 59 . a que já aludimos anteriormente. evitando. nos quais se combinavam matrimónios para selar as concórdias estabelecidas181. A morte prematura do Bravo converteu a situação da ilegalidade do seu casamento com D. Afonso X. A esta conjuntura de desordem e de crise interna podemos acrescentar a guerra contra os granadinos. Foi neste contexto de aproximação aos reinos vizinhos que D. porquanto o seu filho herdeiro. numa tentativa de fazer frente à hostilidade que existia em relação ao seu filho180. principalmente a alta nobreza. D. contrastando com a vizinha Castela. esta era relativamente estável. Esse abeiramento foi feito através de acordos de paz com os reinos vizinhos. determinado o casamento entre o Miguel-Angel Ladero Quesada. aproveitaram a situação de fragilidade da coroa para aumentar o seu poder. a 15 de Setembro de 1291. era considerado ilegítimo. Ao nível da conjuntura política interna. como regente. à luz do Direito Canónico. Reuniram-se ambos em Ciudad Rodrigo. a uma política dionisina que se pautava por um bom relacionamento com os vizinhos peninsulares. Sancho IV. Lisboa. devido à autoridade incontestada da coroa. D. Sancho a seu pai D. Este encontro marcou um momento de boas relações entre as duas monarquias peninsulares. 20. em Portugal. Maria de Molina. Ao nível externo. Castela e Aragão. onde existiam permanentes conflitos sociais. chegando a invadir o reino vizinho com o seu exército. “O tratado de Alcanices visto de Espanha”. em 1295. Fernando. tinha apenas nove anos quando começou a reinar e. Actas do congresso histórico lusoespanhol 12-17 de Setembro de 1997. proveniente do conflito que opunha o infante D. através do qual diligenciou uma aproximação a Portugal e a Aragão. o Sábio – turbulência essa que se acentuou após a morte de D. Maria de Molina num problema de grandes dimensões políticas. Dinis um encontro para estabelecerem um acordo de paz. Isabel com D. Porém. O monarca português deixou-se envolver pelos conflitos internos de Castela. bandeira dos inimigos do rei.

Badajoz.18. Gav. Este foi um pacto claramente vantajoso para Portugal. com D. Paulo Drumond Braga. Fernando IV. Lisboa. V. Trujillo (todos localizados na fronteira com o Alentejo). Sancho IV deu vários castelos distribuídos ao longo da fronteira. Acrescentandose a estas possessões os castelos de Moura e Serpa. Actas do congresso histórico luso-espanhol 12-17 de Setembro de 1997. Fernando IV. 104-115). as fronteiras mais antigas da Europa186. Dinis deu em fidelidade Guarda e Pinhel. Olivença. Serpa. “Esto no significa que pasaran al dominio del otro reino sino que los alcaides se comprometían a no servir ni entregarlos al rey que los vinculaba si éste no cumplía el acuerdo” (Miguel-Ángel Ladero Quesada. rei de Castela. ambos os monarcas definiram. José Augusto Pizarro. “O tratado de Alcanices visto de Portugal”. uma aliança de paz que na altura era necessária e imprescindível (cf. O rei castelhano pagou ainda a tenência aos alcaides e comprometeu-se a que. as lutas pelo trono continuavam em Castela. Dinis. Joaquim Veríssimo Serrão. entre o rei português D. de Monforte e de S. continuariam em fidelidade os castelos de Moura. n. pp. que tinham o apoio dos reinos de Aragão e de França. São efectuadas trocas de castelos e lugares ocupados durante as incursões militares. p. D. Fernando. Portugal renunciava à posse dos 186 185 60 . m. Maria de Molina e o conselho régio. sucessor no trono de Castela. ratificaram o compromisso matrimonial entre os 182 ML. Allariz e Aguilar de Moa (na Galiza. fl. Dinis (…). Moura. 1531-1537. 23).infante herdeiro D. que seria celebrado antes do fim de Setembro de 1299182. Por um lado. Por outro. p. in O tratado de Alcanices e a importância histórica das terras de Riba Côa. antes de mais.º13. pp. a saber: Serpa. os reis castelhano e português encontraram-se em Alcañices. Dinis e D.9. Maria de Molina decidiu garantir a paz urgentemente com Portugal. Universidade Católica Editora. Felix dos Galegos. na povoação de Alcañices. É neste contexto de várias frentes de batalha que D. 206. mas segundo o ponto de vista castelhano o Tratado de Alcañices foi. Constança. 37. com as ameaças dos infantes de la Cerda. aos quais se juntava o rei D. Ouguela e Olivença. 184 183 TT. “O tratado de Alcanices (…)”. D. Ambos os monarcas deram castelos em fidelidade como garantia de cumprimento deste pacto183. Deste acordo destacamos dois importantes pontos. entre os dois reinos. Nesta vila aguardavam o monarca luso D. D. Portugal ficava com o direito à posse dos castelos de Ribacoa. O Tratado de Alcañices é considerado por alguns historiadores como um dos mais importantes documentos da História portuguesa. Allariz e Aguilar de Moa. “Casamentos reais portugueses (…)”. 1998. D. Olivença. Por seu lado. filha do rei Lavrador. Deste modo. por seu lado. formado por alguns prelados e a mais alta nobreza de Leão e Castela185. Assim. Cáceres. assim como os castelos localizados no Alentejo: Campo Maior. No entanto. este acordo fixava os limites definitivos do território de Portugal. o jovem rei de Castela. sua mãe. após o casamento. Este pacto foi assinado a 12 de Setembro de 1297. em Setembro de 1297184. junto a Orense). Visto do lado português.

Sancho) e de Lamego (D. Dinis casou com a infanta aragonesa. Isabel. D. Afonso X. p. pp. História. D. Dinis.infantes castelhanos e portugueses: o rei D. alferes-mor. João Mendes de Briteiros. com apenas onze anos. vol. (Alguns destes indivíduos foram identificados através da obra de José Augusto Pizarro. tio. D. senhor da Biscaia. 190 189 61 . Estevão Pires e D. irmão do rei D. ricos-homens. Isabel (cf. Este tratado foi outorgado da parte castelhana pela rainha D. Afonso III casou com D. tutor e guarda dos reinos de D. D. XV/1. Martim Afonso. na escolha do cônjuge de nada importou a vontade dos jovens nubentes quando o acordo foi estabelecido. castelos de Aroche. 254-256. Fernando IV de Castela. João Fernandes de Lima. 1530-1537). Maria de Molina. uma nobre dama que se encontrava no séquito da rainha D. Fernão Fernandes de Lima. Afonso Pires de Gusmão. Constança. João). O Tratado de Alcañices é referido no próprio documento como sendo uma forma de pôr fim à “contenda sobre as vilas e castelos. irmão do rei. D. João Rodrigues de Briteiros. D. Sancho I casou com D. D. arcebispo de Braga. Neste acordo. Dinis (…). D. D. adiantado-mor da Galiza. Fernando. 2ª série. Paulo Drumond Braga. irmã mais nova do rei castelhano. e posturas e pleitos entre nós D. Beatriz veio para Portugal. de uma parte. bispo de Tuy. os bispos de Lisboa (D. 113). “As relações de fronteira no século de Alcañices (1250-1350): o Tratado de Alcañices”. Garcia Fernandes de Vilamaior. Dinis que teria sete anos187. em Ciudad Rodrigo no ano de 1291. Valencia de Alcântara. Fernando IV. Pedro Ponce. Foi com Castela que se registou o maior número de consórcios. D. irmãos do rei castelhano. p. a rainha D. D. Este casamento foi acordado por seus pais. p. D. Neste caso. Henrique. João Fernandes de Sotomayor. o infante D. os matrimónios entre membros das famílias reais das diferentes coroas peninsulares foram comuns durante a Idade Média porque estas uniões serviram também como um meio de amenizar as hostilidades existentes entre os reinos189. V. ML. Vataça. Martim Gil. Como temos vindo a sublinhar. Dulce Berenguer de Aragão. infante herdeiro de Portugal. 1998. mordomo-mor do rei e senhor de Albuquerque. na posse de Castela desde o tempo de D. foi para Castela acompanhada por D. D. Dinis. Martinho. “Casamentos reais portugueses (…). D. Pedro Eanes de Portel. Urraca de Castela. que ainda não completara os quatro anos188. 233). D. o infante D. do Porto (D. D. D. os mestres do Templo e de Avis. Sancho. Vasco). Foram também celebrados os esponsais entre D. filha do rei D. e que por razão destas contendas nascessem entre nós muitas guerras”190. o rei castelhano reconhece que os lugares de Aroche e de Aracena se encontravam. Fernão Pires de Barbosa. e termos e divisões. e analisando somente os reis da primeira dinastia temos: D. Beatriz de Castela. e João Simão. 646). Diogo de Haro. Assim. após a assinatura do acordo matrimonial. onde foi criada pelos seus futuros sogros. Ferreira e Esparregal (Humberto Baquero Moreno. in Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. meirinho-mor da casa do rei. Pedro e D. e D. Afonso. 188 187 A infanta D. Telo. e nós D. Fernão Pires. com sete anos. Beatriz. D. da parte portuguesa. Filipe. Lourenço Soares de Valadares. o infante D. João Afonso. mestre de Alcântara. D. Afonso. como em tantos outros. João Fernandes. de Aracena. da outra. D. Dinis (…). e D. Isabel (José Augusto Pizarro. D. D. Constança. justiça-maior do reino de Castela. 1998. pp. Afonso II casou com D. indevidamente. primo do rei.

e João Carlos Garcia. no ano de 1291. Fernando IV e D. junto a Campo Maior. Castelo Melhor. 901-943. D. I. Leontina Ventura. Actas. vol. assente na amizade e na defesa mútua. Actas. As relações de fronteira no século de Alcañices. “A fronteira luso-castelhana na Idade Média”. Manuel García Fernández. comandados por D. claro que existia uma vontade de ambos os monarcas em acertar a paz entre os dois reinos. como já aludimos. in IV Jornadas Luso-Espanholas de História Medieval. D. Castelo Rodrigo. O tratado previa uma paz de quarenta anos. 1998. Foi nas cláusulas finais que os dois monarcas fizeram os juramentos de lealdade e de entreajuda. Porto. Podemos afirmar que esta aliança. Aiamonte e alguns lugares que detinha na Galiza e em Leão191. devido às consequências que trouxe às relações peninsulares. pp. Sobre a evolução da fronteira portuguesa e castelhana vejam-se. um acordo de paz que pretendia pôr fim às Segundo Brandão esses lugares podem ser os territórios de Aliste (comunidade da província de Zamora. Alfaiates. quando se estabeleceram os acordos matrimoniais entre D. Beatriz? Ou terá sido este o valor que a regente de Castela pagou para garantir a paz com o seu reino vizinho e evitar. Ferreira. junto à raia com Portugal) e de Toroño. simultaneamente. Monforte e outros lugares de Riba Côa. 191 62 . Constança. D. Fica. in IV Jornadas Luso-Espanholas de História Medieval. “La politica internacional de Portugal (…)”. Fernando IV entregou também ao rei português os lugares. II. 967-986. São Felixes dos Galegos (hoje na posse de Espanha) e Ouguela. Podem estas terras ser consideradas como o dote da infanta D. castelos e vilas raianas de Sabugal. IV jornadas luso-espanholas de História Medieval. Por seu lado. Castelo Bom. D. Luís Carlos Amaral. foi pactuada uma modificação fronteiriça baseada na forma de troca de povoações consolidando. mais uma frente de combate? Consideramos a última hipótese mais plausível. 1998. 1998. um exército de trezentos cavaleiros. Faculdade de Letras da Universidade do Porto. “Reconquista y definiciones de frontera”. “O tratado de Alcañices (1297): uma construção historiográfica”. à disposição do rei seu genro. pois. 655-691. Almeida. Fernando. para auxiliar o rei castelhano no combate aos seus inimigos. pp. in As relações de fronteira no século de Alcañices. também. Actas. Vilar Maior. Esparregal. foi um marco histórico muito importante. uma vez que o dote das jovens noivas era geralmente pago através de bens móveis. Por outras palavras. vol. Dinis as povoações de Olivença (actualmente administrada por Espanha). vol. I. Miguel-Ángel Ladero Quesada. Dinis cedeu os direitos que possuía em Valência de Alcântara. Campo Maior. Porém esta ainda não havia sido feita. Porto. Dinis colocou. As relações de fronteira no século de Alcañices. Em troca dessas duas localidades foram entregues definitivamente a D. pp. Porto. pp. assim.Em Ciudad Rodrigo. acordou-se a sua entrega ao rei português. 25-52. João Afonso de Albuquerque.

Dinis. dentro e fora do seu reino.” (in Joaquim Veríssimo Serrão.violências e hostilidades que marcavam as zonas raianas. Como é referido. Regencias y minorías regias”. Gostaríamos de recordar que aquele matrimónio tinha já sido acordado com o rei D. através do qual os pactos matrimoniais e as alianças entre as duas coroas representaram um papel muito importante ao terem repercussões políticas no sentido de assegurar a paz Nas palavras de Joaquim Veríssimo Serrão. Actas. por um lado. principalmente. 680). o Tratado de Alcañices significou para o nosso país “a cúpula de uma política sabiamente conduzida por D. as relações entre Portugal e Castela oscilaram constantemente entre a guerra e a paz. Politicamente. assim. Sancho IV em Ciudad Rodrigo. vol. Sempre que se estabelecia esta última. in IV Jornadas Luso-Espanholas de História Medieval. As relações de fronteira no século de Alcañices. se assentou num acordo dinástico. Foi através do Tratado de Alcañices que Portugal passou a deter a fronteira mais antiga da Europa192. Fernando.“Reconquista y definiciones (…)”. este acordo simbolizava. 193 192 Para Ladero Quesada foi a mudança diplomática de D. Assim terá acontecido novamente em Setembro de 1297. mas sobretudo a sua morte prematura associada à grave crise política castelhana devido à menoridade do infante D. p. Para Castela. Afonso de la Cerda ao trono castelhano. mais do que um tratado diplomático e territorial. 38). Este acordo beneficiou muito mais D. Muitos destes benefícios foram conseguidos através de uma política baseada em exigências e pressões sobre um monarca que se encontrava numa situação de grande debilidade. o rei português impôs a sua vontade ao rei castelhano definindo. por outro. Miguel-Angel Ladero Quesada. para com base nos fundamentos do Estado alcançar o assentamento da Pátria. mas também do seu filho herdeiro da coroa com a infanta castelhana. as fronteiras do seu reino. na vila fronteiriça de Alcañices. 1045-1070. 63 . mas recebendo um importante conjunto de lugares raianos. II. a ruptura da perigosa aliança política entre Portugal e Aragão e. negociavam-se matrimónios entre as duas casas reais. o que permitiu a D. Dinis do que a coroa castelhana193. o rei português obteve um duplo casamento: da sua filha com o monarca castelhano. o fim do apoio português às pretensões dinásticas de D. 1998. pp. praticamente sem dar nada em troca. onde. “O tratado de Alcanices (…)”. “Relaciones peninsulares en el siglo de Alcañices (1250-1350). Veja-se também Vicente Angel Álvarez Palenzuela. Do mesmo modo. no ano de 1291. um tratado de paz que tinha como objectivo. p. Porto. Sancho IV nos últimos anos do seu reinado. Dinis fazer os jogos alternativos da guerra e de aliança para conseguir mais territórios e fixar a fronteira em limites mais favoráveis ao seu interesse (Cf.

que ambicionava pôr termo à cobiça da nobreza lusa que se encontrava em Castela. lo mismo que su hermana doña Beatriz com respecto al infante don Alfonso. Fernando IV (…). 195 194 Miguel-Angel Ladero Quesada. Dinis (…). Y éste fue el resultado más importante. hija natural de Alfonso X. 27. en lo ‘cambiado’ en Alcañices se introdujo un elemento que no estaba en disputa desde fines del siglo XIII: Riba Coa. Maria de Molina. p. nota n. en mi opinión. Pretendiam ambos solucionar a forma de obter o dinheiro necessário para pagar ao papado a imprescindível dispensa devido ao grau de parentesco que unia os nubentes197. tal vez inesperado para el rey de Portugal” (Miguel-Angel Ladero Quesada. Em 1300 reuniram-se novamente os dois monarcas na vila fronteiriça de Ciudad Rodrigo. consequentemente. Para esta reconciliação teve um papel muito importante a política apaziguadora da regente D.” (in César Gonzalez Minguez. A viúva pretendia. a fim de viabilizar os casamentos acordados em Alcañices. D. Sancho IV – da qual D. “O tratado de Alcanices (…)”. 196 “Pero. Ao regressar a Castela. Sancho IV e. buscando um relacionamento pacífico entre as duas coroas vizinhas. como tales primos carnales por lo que Fernando IV era tio de la infanta doña Constanza. um entendimento com o rei português.e as boas relações entre os dois reinos194. p. Dinis veja-se o trabalho de José Augusto Pizarro. “Fernando IV y Don Dionís de Portugal eran nietos de Alfonso X el Sabio. 27). Afonso. el primero como hijo de Sancho IV. Dinis retirou amplos dividendos196. objectivo que diminuiria. o número de opositores ao seu governo existentes na Península Ibérica. el segundo como hijo de doña Beatriz. además. Sobre a situação política do reinado de D. D. há muito tempo. 197 64 . como consecuencia de la entrega pacífica de 1296. A morte do monarca castelhano em 1295 abriu o caminho para a tão desejada reconciliação entre os dois reinos. Dinis. assim. o tratado de Alcañices foi o resultado de uma conjuntura política – o reino de Castela desgastado por graves crises após a morte prematura de D. Os procuradores atenderam também a participar nos gastos da dispensa para a realização do matrimónio do rei castelhano com D. Segundo Ladero Quesada195. Sancho IV revelou uma política anti-portuguesa que protegia o infante D. 90. que se encontrava refugiado em Castela. Sabemos que os procuradores concederam à regente o pagamento dos gastos efectuados com a legitimação do seu casamento com D. D. p. Maria de Molina convocou os procuradores dos concelhos para uma reunião de Cortes a realizar em Valladolid. y. “O tratado de Alcanices (…)”. a legitimação de D. Ficou acordado que os dois reis repartiriam as despesas das referidas bulas. Fernando e seus irmãos. irmão bastardo de D. Constança.º251).

Honório IV. e nelles assi dispensados permanecer tambem licitamente. Leão. pp.Logo após os acordos matrimoniais. 143-150). e dos outros mais dos vossos Reynos de Castella. apesar dos esforços desenvolvidos. 201 65 . 106-108.294v). Isabel. Afonso. os reis portugueses pediram ao monarca aragonês que intercedesse junto do Papa juntamente com os embaixadores lusos (ML. inclinados a vossos rogos dispensamos comvosco por autoridade Apostolica. seu filho. nenhum dos Papas (Martinho IV. Como já referimos anteriormente.” (in Cesar Gonzalez Minguez. V. odios. Procurando aproveitar o bom relacionamento existente. 98 e Rafael del Valle Curieses. Maria de Molina convocou Cortes com o objectivo de alcançar o apoio económico suficiente para conseguir a bula pontifícia que legitimasse o seu filho como herdeiro do trono castelhano (Luís Vicente Díaz Martin. p. Beatriz pudesse casar com o infante português. e esperando que por meio do mesmo matrimonio. e quietação dos mesmos Reys Dom Dinis. fl. e por graça especial. os quais entroncavam em D. aos olhos da Igreja todos os filhos nascidos desta união eram considerados ilegítimos. Esta situação de ilicitude transformou-se numa importante arma para os inimigos da coroa castelhana que a invocavam para justificar a sua rebelião. existiam várias dificuldades para se obter a desejada bula. fl. Afonso e D. D. D. Afonso de la Cerda200. Maria de Molina recebeu as Bulas198 do Papa Bonifácio VIII199. Maria de Molina. possais contrahir legitimamente desposorio. Los dos matrimonios de Sancho IV de Castilla. p. Assim. durante anos. e matrimonio.º345). Jaime II. “Nos por tanto desejando affeitusosamente a paz. que envidou. se se effeituar. Nesta altura o papa Bonifácio VIII encontrava-se de boas relações com o rei de Aragão D. V. irmão da rainha D. e rancores. 293v). como a elles sobrevirão acrescentadas prosperidades. todos os esforços para obter aquele documento pontifício. María de Molina (…). e Portugal. se arrancarão as taes inimisades. assim como concedia a dispensa de parentesco em terceiro e quarto grau para que D. Nicolau IV e CelestinoV) concedeu a bula de dispensa de parentesco aos contraentes. 200 199 198 Para obter esta quantia D. pp. fl. 11. Beatriz encontra-se transcrita e traduzida em ML. Maria de Molina. Marcos Pous. Afonso X201. Apéndice. Fernando IV. 118. V. Maria de Molina e. e dom Fernando. Foi necessário esperar doze anos e aguardar a decisão de “La bula de Bonifácio VIII está fechada en Anagni el 6 de setiembre de 1301 y últimamente há sido publicada por A. depois de ter enviado dez mil marcos de prata para defender os direitos ao trono de D. etc” (ML. Fernando IV (…). Beatriz e seus irmãos. de modo a se poderem celebrar os casamentos entre os infantes portugueses e castelhanos. Este documento legitimava D. A bula de dispensa para o casamento entre os infantes D. Foi somente no Outono de 1301 que D. doc. nota n. em oposição a D. Dinis empenhou-se em obter a dispensa de Roma. Sancho IV e D. 294v. A outorgação desta bula por parte do papado significou um triunfo pessoal para D. para que não obstante o impedimento do parentesco em terceiro grão por duas vias e em quarto grao por hũa. e assi a vos. Analisámos previamente como a Igreja Romana condenou a união matrimonial entre D. e assi a vossa.

284v-286. as uniões entre consanguíneos e afins até ao quarto grau. 66 . como foi já referido. José Mattoso. 2001. esta regulamentava que os bens recebidos pelos futuros esposos deviam entrar para a sua nova família. vol. José Augusto Pizarro. O direito canónico impedia. bem como para o enlace entre D. p. consolidando. nesse ano de 1301. Não podemos esquecer que. Obras completas. não apenas durante a vida do casal. Apesar do casamento dos futuros reis de Portugal ter sido acordado. as alianças estabelecidas. mas depois da morte de um dos cônjuges204. à regente castelhana. Dinis enviou a Palença uma embaixada para ultimar os termos do acordo para esta união. Lisboa. Círculo de Leitores. Estes dois enlaces são também ilustrativos da frequente circulação de mulheres que se efectuava entre as casas reais203. V. devido à frequente infracção aos impedimentos matrimoniais estabelecidos pela Igreja. “For the honor of her lineage (…)”. desde o IV Concilio de Latrão (1215). no ano de 1300 D. Não raras vezes. Linhagens medievais (…). em 1297. O primeiro definia um conjunto de regras e de ritos aos quais era necessário obedecer para manter uma boa relação com a Igreja. IDEM. 204 203 Ana Maria Rodrigues. Obras completas. Para a Igreja. sendo imprescindível verificar se os cônjuges estavam ou não unidos por um parentesco que pudesse inviabilizar a realização do seu casamento. vol. onde ambos tinham o direito de dispor deles. A nobreza de corte (…). Sobre o sistema de circulação de mulheres no seio da nobreza medieval portuguesa vejam-se os estudos de Leontina Ventura. vol.quatro papas distintos para que a Bula pontifícia fosse entregue. bem como de uma desejada aproximação entre as duas coroas. Quanto à lei civil portuguesa. 2. durante a Idade Média. o matrimónio era um sacramento considerado único. Constança e D. A família e o poder. II. fls. o sistema de circulação de mulheres reflectia uma forte endogamia. Os casamentos reais encontravam-se submetidos tanto ao direito canónico quanto ao civil. I. indissolúvel e celebrado para toda a vida. VII – A nobreza medieval portuguesa. Fernando IV202. o sistema de parentesco e os restantes factores sociais assumiam um significado de grande importância na definição das estratégias de 202 ML. aquando do Tratado de Alcañices. assim. Estes dois consórcios são bem ilustrativos do peso que o espaço ibérico detinha no momento da escolha de cônjuges para os futuros monarcas peninsulares [ESQUEMA GENEALÓGICO I].

e Ricardo Córdoba de la Llave. p. não raras vezes. afinidade e alianças205. “Sistemas de parentesco y estructuras familiares en la Edad Media”. abarcando todos os descendentes de cada um dos trisavós. Esta união marcava o inicio de uma aliança que obrigava os reis portugueses a determinados compromissos em defesa do reino castelhano. estavam delimitadas por uma série de ritos que permitiam definir os pactos estabelecidos entre duas linhagens. II – Tempos medievais: Ocidente. Efectivamente. “A Europa das cidades e dos campos (séculos XIII a XV)”. Assim. 207 67 . Logroño. dir. 2001. sendo os jovens nubentes somente chamados para consentir nesta união. afirmar que a família real. Parentesco. vol. As alianças matrimoniais.alianças. sem a qual a união do infante herdeiro do trono português poderia ficar compremetida ao ser declarada como inválida. Desta forma. os laços derivados do matrimónio eram gerados por interesses ou razões sociais. com o herdeiro de um reino que tinha cada vez mais importância no xadrez político da Península Ibérica. único habilitado a acordar derrogações. As combinações dos casamentos eram consideradas negócios de homens. havia que solicitar a dispensa de parentesco ao Papado207. 112). Sendo necessário. foi indispensável requerer a Roma a onerosa bula de dispensa. a união da infanta D. Podemos. As ligações da realeza medieval acarretavam. uma rede matrimonial extensa. pp. Estes dois consórcios representavam para os monarcas castelhanos muito mais do que uma simples troca e circulação de mulheres. por isso foram sempre conduzidas pelos “chefes” das linhagens após uma madura reflexão sobre a avaliação da importância de determinada aliança. considerada ilegítima aos olhos da Igreja. no caso em apreço.142-143. apesar de possuir. p. XI Semana de estúdios medievales: La família en la Edad Media. através de regras 205 Maria Isabel Loring Garcia. 1997. Como já referimos. situações de consanguinidade e afinidade entre os cônjuges.14. Beatriz com o herdeiro da coroa portuguesa representava para Castela uma ligação da sua filha mais nova. Isabel Beceiro Pitta. na prática o seu mercado encontrava-se restringido sob o ponto de vista qualitativo. sendo as respectivas práticas condicionadas pela Igreja que. a nível geográfico. in História da família. Lisboa. 206 “Estas regras (…) impõem o exercício de uma extensíssima memória colectiva das relações de parentesco. o parentesco envolvia um conjunto de relações sociais. reforçando o índice de endogamia neste grupo social206. combinando consanguinidade. largos poderes sobre as estratégias familiares” (Henri Bresc. Instituto de Estúdios Riojanos. de André Burguière et alli. Terramar. principalmente da realeza. poder (…). pois. e dão ao tribunal eclesiástico.

rei de Castela. Sancho IV. no limiar da proibição imposta pelo Concílio de Latrão (1215). Sobre o cômputo dos graus de parentesco veja-se Maria Isabel Loring Garcia. pp. además de su participación en la legitimación contractual-sacramental. como forma de evitar o incesto sob pena de excomunhão dos cônjuges e do não reconhecimento do enlace por parte da Igreja208. Jaime. Afonso III. por serem bisnetos do rei D. pai da rainha Santa Isabel. Jaime. rei de Portugal [ESQUEMA GENEALÓGICO IIb]. Assim. Reyna Pastor de Togneri. Universidad de Murcia. cognominado o Conquistador. Afonso X. e D. A doutrina eclesiástica condenava os matrimónios realizados entre consanguíneos e afins. O quarto grau de parentesco. Afonso IX de Leão [ESQUEMA GENEALÓGICO IIc]. Beatriz de Guillén. Murcia. familia y matrimonio en la historia de Galicia. D. de Aragão. a autoridade clerical fez do casamento um dos sacramentos principais. por via de sua avó paterna. “Sistemas de parentesco (…)”. impondo o seu modelo como forma de enquadrar e controlar as alianças suscitadas pelo parentesco. os futuros monarcas portugueses estavam incluídos neste interdito eclesiástico devido aos sucessivos casamentos entre membros das respectivas famílias. Pedro.rigorosas. Seminario familia y elite de poder en el reino de Murcia. “Estrategias de los poderes feudales: matrimonio y parentesco”. pp. De facto. 208 68 . enquanto o príncipe português era bisneto deste. No caso em apreço. durante a Idade Média. 1989. mãe de D. 1997. Beatriz era considerada. o mesmo antepassado comum: o bisavô D. D. teve dois filhos: D. deste modo. 9-24. Santiago de Compostela. Beatriz era neta de D. Tórculo Edicións. (Reyna Pastor de Togneri. A maioria das vezes. o Sábio. o que lhes conferia um parentesco em terceiro grau [ESQUEMA GENEALÓGICO IIa]. bastarda de D. existia um duplo parentesco em terceiro grau. Assim. conduzia à endogamia nas alianças consideradas convenientes entre pessoas do mesmo grupo social. Para além dos laços de parentesco que aproximavam estes nubentes. uma “La Iglesia se reserva. Violante. 19-25. também unia estes infantes. não só como incestuosos. definida por um código estrito de igualdade. à luz do direito canónico. o Bravo. estabeleceu um controlo das mesmas. el de la legitimidad de las alianzas al ejercer el control de los grados de parentesco entre los contrayentes para evitar el incesto”. 27). p. D. el control de la consensualidad de los contrayentes y. Foi assim que o IV Concílio de Latrão (1215) definiu a proibição do matrimónio até ao quarto grau de consanguinidade e afinidade. Actas. punto importante. mas também como inválidos. “Acerca de famílias y parentescos” in Parentesco. a necessidade de união com uma pessoa do mesmo nível de nascimento. Siglos XV-XIX Historia de la mujer e historia del matrimonio. Havia um outro vínculo familiar em terceiro grau: a infanta D. como ilegítima. Os infantes tinham. Afonso X e casada com D.

192. com apenas 4 anos. Esta mudança de pátria ajudava não só à adaptação aos costumes e à língua do seu novo país. Era muito comum que após estabelecidos os acordos matrimoniais as jovens noivas fossem enviadas para a sua nova linhagem para aí serem criadas212. E. antes de chegada a dispensa papal.vez que o casamento de seus pais nunca fora validado pela Igreja209. iffante irmãa del rey dom Fernando de Castela. chegado o dia do enlace. Sancho IV eram parentes em 3º grau. mas as das donzelas eram superiores às destas últimas. por outro lado. nulo e os seus filhos ilegítimos. ou seja. 211 Claudia Opitz dá a esta regra difundida entre a nobreza no final da Idade Média o nome de “patrilocalidade”. logo o seu matrimónio era considerado. 213). que esta convivência desde tenra idade evitava que o compromisso fosse quebrado. Maria de Molina e o rei D. Beatriz veio para Portugal. um compromisso que procura garantir a efectivação do casamento e salvaguardar a noiva no caso de este se não vir a realizar”. p. à luz do direito canónico. p. seu filho. D. a nível diplomático. no ano de 1297. quando casou com ele sua filha dona Costança. 363). logo após o regresso do encontro de Alcañises. 236. Acreditava-se. A Crónica de 1419 relatanos que “el rey dom Denis trouxera por esposa do iffante dom Afonso. “A carta de arras constitui como que uma escritura ante-nupcial. que só chegaria em 1301. para conseguir a dispensa papal. Sobre os esponsórios vejam-se. p. a título ilustrativo. “La politica internacional de Portugal (…). a pequena infanta D. pp. seguindo um costume vigente na época. (Leontina Ventura. e terá ficado na casa dos reis seus sogros ou sob a sua esfera de influência. Manuel García Fernández. Foi neste contexto que. este matrimónio se pudesse concretizar. em 1301210. 922-923). Assim. Dinis (…). Beatriz e dos seus irmãos. vol. mas também a de legitimação da noiva) para que. Os monarcas esforçaram-se. Foi no final do ano de 1297 que. p. principalmente devido aos laços de parentesco tão próximos que existiam entre os noivos. I. 210 209 José Augusto Pizarro. ou seja. era garantido aos rapazes casadoiros o ambiente psico-social a que estavam habituados (in Cláudia Optiz. foi inevitável fazer todos os esforços para solicitar a Roma as imprescindíveis dispensas (não apenas a de parentesco. A nobreza de corte (…). como já referimos (cf. dona Biatriz. Crónica de 1419. D. As arras eram entregues tanto às donzelas como às viúvas. a licença papal foi concedida por Bonifácio VIII. As D. mas também proporcionava uma forma de convívio e ligação precoce entre os noivos. Maria 213 212 69 . Como dissemos anteriormente. trazendo-a el rey em sua casa”211. “O quotidiano da mulher (…)”. A carta de arras é anterior à consumação do matrimónio. mas também por causa da necessária legitimação da infanta D. Dinis celebrou os acordos pré-matrimoniais que regulavam o destino e gestão dos bens através da carta de arras213.

por um lado. Por vezes. O rei português entregava a D. Crónica de 1419. devendo constituir uma certa percentagem do mesmo” (in Manuela Santos Silva. a possibilidade da morte prematura do esposo ou o aparecimento em cena de uma barregã. vol. na senda da tradição do direito visigótico. e podiam ter lugar antes da boda. no Sabugal. deste modo. Beatriz uma renda anual de seis mil libras da moeda velha de Portugal recebidas pelos senhorios de Évora. “A quantia da concessão era calculada. as arras funcionavam como o garante de um sustento e como um recurso necessário no caso de algo correr menos bem. que funcionavam como uma espécie de “seguro”. como pena pelo não cumprimento da mesma. Vila Real. 3). em princípio. A sociedade medieval portuguesa: aspectos de vida quotidiana. Cuadernos de Historia de España.. Vila Viçosa. quando o enlace se realizava entre menores. V. Gaia com Vila Nova215 [MAPA I]. p. Sá da Costa. os bens recebidos em arras deveriam ser herdados por um filho do casal ou tornar ao marido ou seus herdeiros. 259. 217 70 . 216 Crónicas dos sete primeiros reis (…). 2008. A. 63-64. Esta doação podia funcionar. p. xiii maravedis. Manuel Paulo Merêa. p. p. assim. in As raízes medievais do Brasil Moderno. p. del Cármen Carlé. uma vez que. “Apuntes sobre el matrimónio en la Edad Media española”. Lisboa. D. Muitas vezes. “Estratégias de los poderes (…)”. Academia Portuguesa de História/Centro de História da Universidade de Lisboa. p. I. fl. 1980. e acharom que lhe avondaria. 140. Segundo as Crónicas dos sete primeiros reis. conselho que podia avondar a ele e a sua molher e ofeçiaes e agentes andando pelo regno. por outro. Dinis doou à sua nora “boas vilas. de feito. 192). Deste modo. tendo como base o rendimento auferido pelo marido ou o volume do seu património. II. A futura rainha ficava. O casamento assumia. 27). 215 214 ML. Reyna Pastor de Togneri. dos mjlhores lugares de Portugal”216. “For the honor of her lineage (…)”. eram celebradas com o pai do noivo. principalmente quando existia um conflito entre o seu marido e o seu reino de origem. As arras dadas à noiva deveriam corresponder a uma porção do património detido pelo noivo no momento do casamento214. as circunstâncias políticas deixavam as rainhas numa situação mais frágil. 2ª ed. 1981. que formalizava um acordo entre as partes. pp. per todo. a deter o senhorio das ditas terras com todos os seus direitos. e que por esto poderia mui bem vever” (Cf. Após a morte da soberana. no entanto. 31. como uma garantia da promessa de matrimónio e. Lisboa. 80.arras. 116. p. verdadeiro pacto social e económico. Esta carta está datada de 16 de Outubro de 1297. Esta quantidade variou em função da região do país e da época entre a metade e a décima parte das propriedades do noivo (Ana Maria Rodrigues. Não é nosso intuito. de Oliveira Marques. O mesmo se pode ler na Crónica de 1419 que refere “fez-lhe suas vodas e deu-lhe grandes riquesas e a sua molher bõas vilas dos milhores lugares de Portugal e foy. poderiam atirar a rainha para uma situação de grande incerteza no futuro. vol. 147-157. “Os primórdios da Casa das Rainhas de Portugal”. H. “O dote nos documentos (…)”. mas também em caso de viuvez ou repúdio217. os contornos de um acto público. as arras eram propriedade da mulher e protegiam-na materialmente no caso dos esposos se separarem e anularem o matrimónio.

a ausência de dote voltou a verificar-se com as rainhas D. e tinha um importante papel no incremento dos recursos da nova família. jóias ou outros bens móveis sumptuários. Segundo Manuela Santos Silva221. diga-se que durante muitos séculos o norte de Espanha não conheceu o regime matrimonial dotal.alongarmo-nos sobre a origem desta dotação ou o seu sentido primitivo218. assim como a proporção entre homens e Sobre as cartas de arras. 27. Madrid. Siglos XI-XIV. De seu pai recebia a noiva o dote que era. o total de bens que a mulher levava para o casamento podia superar o do marido. mas entravam também em linha de conta o número de filhos existentes. 222 71 . Por isso. doados pelo pai à filha. muitas vezes. Leonor Teles. “Os primórdios da Casa (…)”. “This was a kind of convergence between the Roman tradition of the dos (paid by the bride’s father or family to the groom). D. as soberanas de Portugal. veja-se Isabel Beceiro Pitta. sob a forma de bens móveis e não em terras. “Infantas e rainhas (…)”. Foi somente após esta consorte que as futuras rainhas de Portugal foram dotadas. Isabel de Lencastre222. as arras constituíram a doação matrimonial mais importante. Através do dote. 1997. Alianza. Em caso de dissolução do vínculo matrimonial estas doações ficavam sempre em posse da mulher. 42. 2). p. em Portugal. Las noblezas españolas en la Edad Media. O montante das arras e do dote variava em função do seu grupo social. Parentesco. por seu lado. considerada a parte mais fraca do casal. Por vezes. p. and the Germanic traditions of the bride price (paid by the groom to the bride’s father or family) and the morning gift (given by the groom to his wife after the consummation of their marriage as a reward for her viginity)” (Ana Maria Rodrigues. Beatriz. Num acordo matrimonial estavam geralmente presentes as arras e o dote. quase sempre. p. A título de exemplo. este era concedido. “For the honor of her lineage (…)”. p. Sabemos que era prática comum na Península Ibérica a noiva trazer consigo um dote para o matrimónio e. O dote era dado à esposa sob a forma de uma quantia em dinheiro. Infelizmente não temos. O marido devia fazer a entrega das arras à sua futura esposa (Marie-Claude Gerbet. informação sobre a carta de dote concedida à rainha D. 221 220 219 218 Manuela Santos Silva. a partir desta altura a carta de dote passa a ocupar o seu lugar219. e Ricardo Córdoba de la Llave. rendas. um montante não despiciendo. Ana Maria Rodrigues. até ao século XIII. poder (…). parece não terem recebido dote. o noivo beneficiar a sua futura mulher através das arras220. Se. 109). até à rainha Santa Isabel. para impedir o delapidar do património linhagistico. Para Ana Maria Rodrigues. as mulheres levavam os bens para fora da sua família de origem. Filipa de Lencastre e D.

ML. pois D. fl. doado para ajudar nas despesas dos casamentos dos filhos dos reis. o infante D. de Bragança). 225 224 223 ML. Era. Viana do Alentejo (dist. Nobres do Reyno. Dinis tenha dotado.mulheres e o lugar que cada um ocupava na linha de sucessão. fl. com a condição de só poder doar estas vilas à infanta sua mulher ou a um filho em forma de morgadio. por terras minhotas a solicitar o serviço224 aos povos. poderia acontecer que o casal não tivesse filhos e a sucessão da coroa fosse feita pela linha colateral da linhagem ou até mesmo por um filho bastardo. VI. para cujos casamentos se fasiam pedidos de alguns regalos nos destrictos em que vivião. assim. aumentando. Mais à frente iremos ver que D. Afonso encontrava-se.” (in ML. de Évora) e Terena (conc. e proporção acomodada aos Fidalgos. o herdeiro da coroa não iria prejudicar a rainha-mãe. Assim. ou seja. asseguravam a manutenção do status no caso de viuvez. Nesta altura ambos os nubentes já se encontravam em idade de contrair o matrimónio por palavras de presente. dist. 226 72 .135. necessário tomar todas as medidas para que o último cenário não acontecesse. a situação e sustento da rainha-viúva poderiam ficar em risco. respectivamente. Beatriz226. Nas classes privilegiadas. conventos e cabidos. se estendia tambem por cortesia. 127). independentemente do novo ocupante do trono. estes montantes eram necessários para garantir a manutenção do poder e do prestígio. A cidade de Lisboa contribuiu com um grande donativo225. no ano de 1308. VI. ou seja. É provável que D. “Este costume de se darem donativos para os casamentos dos filhos dos Reys. deste modo. Porém. VI. principalmente. não só porque lhes permitiam ter uma garantia de sobrevivência. Alandroal. um donativo voluntário. fl. Segundo Francisco Brandão. mas sim fazer-lhe doações. Pedro quando subiu ao trono fez várias doações de terras à sua mãe. mas. se houvesse filhos nados desta união. o jovem infante fez logo doação das vilas de Viana do Alentejo e de Terena à sua mulher. o seu senhorio223. por casamento. As arras e o dote revelaram-se bastante importantes para as rainhas. o dote era proporcional à ordem de nascimento. Todas as precauções deviam ser tomadas no inicio de vida do novo casal. Neste caso. Após receber esta permissão do pai. Afonso e D. de Évora). a infanta D. o seu filho com muitas terras: Rebordãos (conc. Beatriz teriam dezasseis e quinze anos de idade.126v-127.

230 73 . assim como o direito e o dever de protecção227. fls. 1990. pelo direito canónico e consuetudinário.. 228 229 Margaret Wade Labarge. p. pp. este deveria passar por três etapas. nos doze anos para as raparigas e nos catorze para os rapazes229. Instituto de Estudios Riojanos. trad. vol. A history of women in the Middle Ages. dir. in La familia en la Edad Media. oferecendo-se os espectáculos mais 227 Dominique Barthélemy. 43. Assim. London. The fourth estate. começava pelas negociações entre as famílias dos futuros nubentes que. pelo que é provável que o casamento por palavras de presente. fazia-se a transferência. do direito a toda a autoridade sobre a esposa. também. de Georges Duby. “As modas femininas e o seu controlo” in História das mulheres. José-Luis Martín. “Parentesco” in História da vida privada. normalmente quando os nubentes eram ainda muito jovens. neste nível social. e Shulamith Shahar. Lisboa. Como foi já referido. como já referimos. por fim. Afonso eram menores de idade. seguindo o ritual da Igreja. para o jovem noivo. Segundo a doutrina aprovada no IV Concílio de Latrão tinha de ser oficiada diante de um clérigo através de um acto público e com o expresso consentimento verbal de cada um dos cônjuges. 1993. de Georges Duby e Michelle Perrot. Toda esta cerimónia estava profundamente ritualizada. coord. acordando também o dote e as arras. segundo a norma. port. p. A boda. Routledge.Para se ter um casamento bem conduzido. A idade do casamento encontrava-se estabelecida. vol. 81. Círculo de Leitores. talvez na principal igreja da capital do reino – a Sé – sob a presença atenta de um clérigo228. tanto os acordos matrimoniais quanto a bula de dispensa de parentesco foram emitidos quando os infantes D. dir. era um grande acontecimento. p. port.. trad. a cerimónia de casamento realizada dentro da igreja. II – Da Europa feudal ao Renascimento. era um conceito reconhecido pelo Direito Canónico e praticado durante a Idade Média. A segunda etapa. 151-178. Esta solenidade era designada como sponsolia per verba de presenti. Lisboa. 2003. José Ignacio de la Iglesia Duarte. La mujer (…). II – A Idade Média. Círculo de Leitores. no caso em apreço. no qual se efectuava uma exibição pública da condição dos jovens noivos230. haviam sido feitas no âmbito do Tratado de Alcañices. Beatriz e D. p. os esponsais ou a promessa de casamento futuro. Logroño. “El proceso de institucionalización del modelo matrimonial cristiano”. 2001. 190). Veja-se. “Apenas o funeral podia rivalizar com o casamento como foco de atenção da comunidade e de exibição sumptuária” (Diane Owen Hughes. V. ML.132-135. só se tenha realizado na cidade de Lisboa em Maio de 1309. O casamento ficava concertado pelas respectivas famílias. A partir do momento em que eram celebrados os esponsais. XI semana de estudios medievales Nájera. E. 134. del 31 de julio al 4 de agosto 2000.

Crónica de 1419. também eles. e. Afonso e D. podendo ter quebrado. Na Crónica de 1419. após o casamento de D. pp. “Mujeres y fiestas (…)”. 232 O rei D. conde de Barcelos (1285-1354). para selar pactos ou alicerçar 231 Veja-se Juan Carlos Martín Cea. Leonor (1328-1348). desta união nasceram sete filhos. João Afonso. D. Pedro IV. Em jeito de síntese. Talvez a convivência. por último. Afonso IV não ter filhos bastardos conhecidos. A relação do infante D. D. João Afonso. teve vários bastardos foram eles: D. senhor de Albuquerque (1289-1329). Beatriz e D. acima de tudo. assim. Dinis queixa-se das despesas que teve com o casamento do seu filho: “E quanto trabalho eu soportey per mim e per alguns de minha casa e quantas despesas fiz por ajuntar este casamento”232. mas faleceu um ano após o matrimónio [ESQUEMA GENEALÓGICO I]. foram eles: D. ambas de nome D. Afonso IV. 201. entre os dois esposos tenha criado laços de profunda estima e amizade entre ambos234. deste modo. D. Assim. Pedro (13201367). rei de Castela. Afonso Sanches e com D. Dinis. Isabel e D. 237. D. podemos recordar que os casamentos entre membros das diferentes famílias reais serviram. Afonso Sanches. Muitas vezes. garantir descendente varão que pudesse assegurar a sucessão do trono. D. Sequencialmente. esses antagonismos revelaram-se em fortes confrontos e lutas armadas. D. D. Dinis (…). talvez devido aos favores que D. Afonso IV. Pedro Afonso. p. respectivamente. D. Fernão Sanches e mais duas filhas. rei de Aragão. pelo casamento. João. Beatriz tornava-se. foi conflituosa. que casou em 1328 com D. muitas vezes. Dinis concedia a estes seus filhos bastardos. Dinis. falecido pouco depois do nascimento. 234 233 José Augusto Pizarro. rainha de Portugal. a infanta D. 74 . em 1315 e 1317 e terão falecido pouco depois. principalmente com D. 104-109. pai de D.deslumbrantes que se prolongavam durante uma semana num ambiente de fausto231. mas. que terão. Maria (1313-1357). a seu pai no trono de Portugal. uma longa tradição familiar233. Dinis que nasceram. Maria. Supomos que. que casou com D. Afonso XI. em 1325. Uma das funções do matrimónio real seria não só dar continuidade à linhagem. sucedendo. Esta nossa afirmação decorre do facto de D. D. senhor da Lousã e de Arouca (1290-1336). desde a infância. Após a morte do rei D. o único varão que sobreviveu. a vida conjugal deve ter sido harmoniosa. dos quais só três sobreviveram. p. Afonso com alguns dos seus meios-irmãos.

principalmente. nesta lógica. mulher do infante D. O papel das mulheres neste jogo político de alianças era fundamental. não menos importante. Afonso. Beatriz. exemplificado pelo caso em estudo. Beatriz e de D. depois D. inseria-se. a paz entre os reinos. mas também e. veio selar o acordo que definia as fronteiras entre Portugal e o reino vizinho. com o matrimónio de D. Este tipo de uniões era frequentemente praticado na Península Ibérica. D. O estabelecimento de laços de parentesco tão estreitos devia garantir.alianças entre os reinos. para além da concórdia entre os monarcas. Fernando IV de Castela com D. sabemos que esse clima de harmonia tinha lugar. porque possibilitava a continuidade da linhagem e da dinastia. por completo. mas os equilíbrios eram muito ténues e instáveis e podiam romper-se em qualquer momento. não só porque era o garante da paz. Afonso IV com D. No entanto. Constança. Afonso IV. nos primeiros momentos. 75 . O sistema de alianças através da troca de mulheres.

Deste modo. como meras figurantes. Reyna Pastor de Togneri.IV – D. para a mesma situação feminina. as mulheres surgiam. rainha de Portugal IV. mas sim demonstrar que o papel da infanta e depois rainha D. 149216. – A mulher: relação com D. pp. de forma a assegurar a continuidade da linhagem do marido. Foram eles: A. H. 1986. Revista da Universidade dos 76 . os elementos do sexo feminino foram também protegidos e respeitados. História de Portugal. encontramos 30 (cerca de 21%). É extremamente raro encontrar nos documentos escritos do período medieval testemunhos directos provenientes de uma mulher. IDEM. Ao longo deste capítulo iremos. vol. 279-334. del 5 al 7 de noviembre de 1984. 201-216. escritas para glorificar a memória de um rei. IV. pp. “Las relaciones internacionales de Alfonso IV de Portugal (…)”. – Uma dupla função: mulher e mãe IV. nas crónicas e em outras fontes narrativas237. Actas del coloquio celebrado en la Casa Velázquez. Casa de Velázquez/Universidad Complutense. Problemática y puntos de vista” in La condición de la mujer en la Edad Media. p. Mesmo entre a nobreza. e de forma quase exclusiva. Madrid. in Arquipélago. No entanto. mães e. p. Não pretendemos neste nosso estudo centrar-nos em representações da posição subalterna da mulher: a submissa. Todas as 235 “Em relação ao espaço a cronística medieval remete para um cenário predominantemente masculino. Maria Margarida Lalanda. Beatriz foi muito além do de mera figurante na sociedade de Trezentos. Afonso IV (1325-1357)”. 187. com a sociedade a ser fortemente dominada pelo homem e com todas as manifestações da vida pública a serem marcadas pela acção dos elementos masculinos235. As representações da mulher (…). às quais apenas era solicitado que desempenhassem o seu papel de esposas.1. a desprezada. Para minimizar o número de notas de rodapé indicamos os títulos que serviram para essa contextualização. gestantes de um varão. “A política externa de D. sempre que necessário. acima de tudo. 91).” (Ana Rodrigues Oliveira. “Para una historia social de la mujer hispano-medieval. aquela que é objecto de violência e manifestação de pecado. Afonso IV A época medieval era marcadamente masculina. Manuel Garcia Fernandez.1. essencialmente. muitas vezes. embora dentro dos limites de uma sociedade claramente dominada pelos homens236. (…) A Crónicas dos Sete Primeiros Reis (…) para um total de 189 topónimos relacionados com a passagem ou a permanência de protagonistas masculinos. I. fazer alusão a factos da história política e militar. pp. 237 236 Sobre as fontes narrativas utilizadas por nós neste estudo veja-se o capítulo I – “As representações da rainha”.1. as fontes por nós utilizadas baseiam-se. ou seja. vol. a proporção aproximada de 5 para 1. de Oliveira Marques. Beatriz. Nova História de Portugal.

2009. I – Desde os tempos pré-históricos a 1580. O casamento representava o início de um novo ciclo e uma nova etapa na vida de uma mulher medieval239.crónicas são redigidas em períodos posteriores ao reinado de D. VI. Fortunato de Almeida.). “Santa Isabel de Portugal. João Afonso de Albuquerque. o seu matrimónio e o estatuto de consorte mudaram os relatos respeitantes a D. Bertrand. in Penélope. Rui Ramos (coord. pelos seus herdeiros. vol. Dinis e seu filho D. pp. Beatriz surgem sempre associadas ao monarca ou a conjunturas muito específicas. surge mencionada de uma forma irregular. na qual o monarca surge como o protagonista das vicissitudes de um reinado que se pretende exaltar. Fazer e desfazer História. Afonso Sanches. como já analisámos anteriormente. III – Santa Isabel de Portugal e outros estudos. entre os quais as batalhas não poderiam deixar de ter uma grande importância238. enquanto solteira. constituíam mesmo um terreno fértil para a explanação dos valores ideológicos e do imaginário de indivíduos ou grupos sociais que retinham. 188). Como já salientou Bernardo de Vasconcelos e Sousa. 168-169. vol. 79-107. o infante D. 1989. Círculo de Leitores. a cruz e a coroa . p. Como mulher casada. e debruçam-se sobre aspectos mais factuais. História de Portugal. 2005. p. Bernardo Vasconcelos e Sousa. mas também devido à existência de uma rainha em Portugal – D. Beatriz. 240 239 238 ML.a memória do Salado em Portugal". Esfera dos Livros. conde de Barcelos. História de Portugal. Afonso”. 1989. pp. Supomos que este facto possa ser devido à sua tenra idade ou à posição de infanta. Academia Portuguesa de História. Dinis a ratificar uma carta confirmada pelo monarca. n. pela técnica da escrita. D. a memória dos tempos”. vol. pp. D. “La división de la edad para la mujer está dada predominantemente por el matrimonio. Afonso IV. A larga contenda entre El-Rei D. as batalhas “pelo seu significado.º2. vol. 2003. Assim. Afonso e “sua nora a Infanta D. II. “Para una historia social de la mujer (…)”. logo após o seu casamento. XI. 483-487. principalmente no que concerne à documentação coeva. Lisboa. Tanto nas fontes narrativas como nas fontes documentais. Todavia. D. História de Portugal. a consorte surge na documentação régia de D. "O sangue. devendo-se ter sempre presente que a mensagem veiculada é a imagem construída pela cronística régia. sobre a repartição das terras que foram de D. José Mattoso (dir. (Bernardo Vasconcelos e Sousa. 1997. pp. in Colectânea de estudos de história e literatura. Brittes”240. Fernando Félix Lopes. en el que pierde la virginidad e pasa a procrear. Isabel – tornando assim raras as referências à princesa. Isabel. 77 . Deste modo. Beatriz. a infanta adquiriu uma série de direitos também ao nível da representação política. bastardo Açores. Afonso IV. de). su tercera edad es aquella en la que ya no procrea. a rainha D. História. 28). os relatos sobre a rainha D. Lisboa. 107-151. Por outro lado.” (Reyna Pastor de Togneri. eram narrados os feitos considerados notáveis. Lisboa. Lisboa.

régio. A partir desse momento o número de documentos onde consta D. Toda esta conjuntura política influenciou o inicio da vida da jovem infanta em Portugal. mas sobretudo após o seu casamento (José Mattoso. a morte prematura dos dois descendentes mais novos parecia pressagiar o fim do clima de paz de que gozava o reino. Beatriz) foi uma das mais cruéis e atribuladas da história medieval portuguesa e europeia. Porém. onde serão elencados todos os actos da rainha. Beatriz. vol. Lisboa. Isabel e dos filhos legítimos. Martim Gil. as sucessivas fomes. p. Afonso com os seus meios-irmãos foi sempre marcado por conflitos. D. João Afonso. Porém. Afonso Sanches e D. Rainhas de Portugal (…). Beatriz de Castela nos documentos do seu tempo” (Francisco da Fonseca Benevides. 187). Esta convivência originou que alguns dos descendentes ilegítimos fossem criados junto da rainha D. o relacionamento do infante D. a rainha D. como veremos em capítulo mais adiante (5. Violante. Porém. a Peste Negra. nasceram os seus três primeiros filhos. Dinis. devemos ainda considerar que a primeira metade do século XIV (em que decorreu a vida de D. principalmente com D. Círculo de Leitores. Como já referimos antes. Afonso e. bem como da infanta D. Obras completas. pp. Quando a infanta passou a deter o título de rainha de Portugal é muito mais frequente a sua presença na documentação. inúmeras guerras civis. 2001. Para além do conturbado contexto interno.2. Beatriz marcado por momentos que correspondiam a um ideal de felicidade inerente ao estatuto de uma futura rainha: casou em 1309 com o infante D. Afonso encabeçou a revolta contra o seu pai. incluindo alguns dos filhos bastardos de D. VIII – Portugal medieval. Poderia esta ser Opinião contrária manifestou primeiramente Francisco da Fonseca Benevides ao afirmar “não figura habitualmente a rainha D. o infante D. deste modo. quase ninguém aos efeitos da violência ou da proximidade da morte. O início da centúria de Trezentos foi para D. Teresa e D. Esta discórdia tornou-se mais evidente a partir do momento em que o infante teve casa própria. posteriormente. Novas interpretações. respectivamente. Beatriz ou os seus oficiais aumenta muito significativamente241. 242 241 78 . D. ambos casados com as filhas do falecido conde. perseguições aos judeus. Não escapava. e pelo conde D. – Vassalos e serviçais da rainha). 217-227). Aqui circulavam não só os reis com os seus mais próximos oficiais e a mais alta nobreza da corte. Beatriz veio para Portugal pouco tempo depois da assinatura do tratado de Alcañices e foi criada na corte dionisina. Tudo sucedeu nesse século: a Guerra dos Cem Anos. Pouco depois. Dinis242. o número de documentos em que esta figura é considerável.

Dinis apresentava. Por seu lado. Afonso Sanches. Crónicas dos sete primeiros reis. Dinis dava a D. Este período de conflitos entre o rei D. porque se dizia que el rei dom Dinis queria fazer herdeiro do reino dom Afonso Sanchez. seu bastardo244. ou por o herdeiro ao trono se ressentir com o favorecimento que o seu irmão bastardo. Dinis iniciou um período de grande agressividade contra a nobreza e que foi claramente concretizado através de sucessivas inquirições nas zonas onde a aristocracia terratenente detinha maior implantação. Dinis começou a ganhar forma e foram cada vez mais os nobres que se colocaram ao lado do infante herdeiro. No Livro de Linhagens. Segundo José Mattoso esta pretensão do infante não pode estar dissociada do “propósito que os nobres aliados do infante tinham de obter uma administração judicial menos rigorosa. Beatriz. Afonso Sanches. D. aio e mordomo de D. D. Pedro que houve este conflito de “el rei dom Denis com o ifante dom Afonso. que também estava contra a protecção que D. por razom que queria que reinasse Afonso Sanchez seu filho de barregãa”243. que na 243 LL 7D4. pp. D. Obras completas. que era ifante. colocou-se ao lado do infante D. D. recebia do rei. Dinis foi. 98-99). razões contra o seu primogénito. Dinis. que trazia consigo e que el muito amava” (LL 21G14). Afonso e seus partidários. herdeiro legítimo do trono. Dinis. D. Afonso Sanches recebeu de seu pai. principalmente os membros da nobreza senhorial. descontente. afirma veementemente que “Este rei dom Denis houve guerra com seu filho dom Afonso. Afonso proclamou que seu pai pretendia retirar-lhe o direito de sucessão ao trono245. o Conde D. O final do reinado de D. Pedro. Pedro. marcado por um período de grande turbulência que opôs este rei e os seus apoiantes ao jovem infante D. Afonso. vol. contemporâneo dos acontecimentos e autor da referida obra. este seu bastardo sempre lhe fora obediente e fiel (Cf. VIII. 221) 246 79 . um dos mais importantes da cúria régia. Afonso era a inveja que tinha de seu irmão. D. também ele. Dinis afirma que nunca provocou ou foi seu intento provocar qualquer dano ou mal ao herdeiro da coroa. Para o monarca português o único móbil para tão grande animosidade do infante D. razões essas que consistiam no facto de o infante reclamar para si o regimento da justiça do reino246. conde de Barcelos. Segundo D. seu filho de gaanhadia. 245 244 Segundo o relato das Crónicas dos sete primeiros reis. Afonso. o cargo de mordomo-mor do rei. Conseguir uma autoridade mais maleável ou mais bem disposta para com os seus interesses era certamente um benefício” (in José Mattoso. Dinis e o seu filho herdeiro redundou na guerra civil de 1319-1324. p. Sobre este momento crítico registamos o que ficou arrolado nas diferentes fontes narrativas sobre a atitude e posição da jovem infanta D. Esta. Afirma também mais adiante o conde D. O legítimo herdeiro D. assim.suscitada pelo infante D. seu filho herdeiro. A oposição ao rei D.

p. coarctar o poder da aristocracia e. Dinis e o seu filho herdeiro foram relatados pela primeira vez na voz do próprio monarca através de três manifestos proclamados contra o infante D. Livro II dos Reis D. Afonso iniciar a luta armada contra os aliados de seu pai. que tinha Fernão Martinz da Fonsequa. p. alguns deles. “Partio se daly ho Jffante pera Coinbra. entre outros. p. enunciados ao longo das próximas linhas. Lisboa. pelo que nos escusamos a repetir as referências. Curitiba. são apenas a exteriorização de uma disputa iniciada muito antes dos atritos entre Dinis e o irmão ou o filho. m. é referido que antes de o infante D.Santa Isabel de Portugal e outros estudos. Obras completas. como primeiro ponto do seu programa. 209. Dinis tornou-se cada vez mais violenta.opinião de José Mattoso não foi apenas provocada por lutas ou incompatibilidades entre o infante herdeiro do trono. mandou recolher a soberana em Alenquer. n. e leixou a hy com alguns escudeiros e tornou se pera Coinbra” (Crónica de 1419. VIII. Foi neste contexto que D. que he em Castela. Pedro I. A rainha Isabel nas estratégias políticas da Península Ibérica: 1280-1336. Dinis247. pp. 2005.º12. Academia Portuguesa de História. a luta armada entre o infante D. Dinis contra o infante D. Câmara Municipal de Lisboa. herdeiro do trono. Crónicas dos sete primeiros reis. vol. 129-153). os conflitos armados préestabelecidos. por um lado. “O primeiro manifesto de el-rei D. Gav. Dinis. Os relatos das crónicas vão sendo. e o rei D. Esta disputa revelou também os conflitos existentes no seio da nobreza portuguesa perante os projectos do monarca em. Lisboa. a supressão das prerrogativas estatais dos senhores. reforçar e consolidar o poder régio. Afonso seu filho e herdeiro”. 227). A resistência foi violenta e prolongada. Dinis. a interferência do Papa. 251 250 249 248 247 80 . desconfiado de que a rainha D. à zona de Alcañices. Afonso. Isabel favorecia o filho na luta contra o seu governo. por outro. levar a sua mulher e os seus filhos para aí ficarem a salvo de possíveis represálias250 que sobre eles poderiam recair no contexto da grave crise política e militar que na altura se vivia em Portugal251.” (in José Carlos Gimenez. D. pp. A guerra aberta era cada vez mais inevitável. Neste sentido. Afonso IV. 135-146. in Colectânea de estudos de história e literatura. Livro I de Misticos de Reis. III . Segundo a Crónica de 1419. D. 69 (dissertação de Doutoramento policopiada). Dinis. Após este momento. Estes objectivos chocavam com os antigos privilégios detidos pela nobreza senhorial248. Afonso.” (in José Mattoso. Fernando Félix Lopes. 111). os acordos e a desobediência dessa nobreza. 1997. para que ela não informasse o infante dos seus planos. “As disputas jurídicas. Estes dissídios entre o rei D.11. Documentos para a história da cidade de Lisboa. e leuou dahy a molher e os filhos pera hum lugar que chamom Alcanizes. p. vol.13. D. Relata-nos a mesma Crónica que o rei D. Universidade Federal do Paraná. As vicissitudes deste confronto chegaram até nós através dos relatos contidos nas diversas crónicas e em documentos contemporâneos249. com cada uma das partes a procurar granjear o apoio da nobreza portuguesa. em 1211. e o monarca D. Afonso (veja-se: TT. essas perturbações revelam a essência de um embate entre o processo de centralização da monarquia portuguesa e uma prática política de privilégios defendida por uma parte da nobreza que objetivava dominar os espaços políticos e os recursos do reino desde a primeira reunião de Cortes. 1947. estando na altura em A guerra civil de 1319-1324 pode “ter sido provocada pela implantação de uma autoridade monárquica que se coloca acima de todos os poderes e que tem. foi a Castela.

Porém. Academia Portuguesa de História. Nesta urbe o infante conquistou laços de obediência e de clientelismo junto da aristocracia local. dirigiu-se a Guimarães. IDEM. vol. No caso em apreço. Lisboa. Pedro veja-se: Fernando Félix Lopes. Deste modo. Lisboa. Afonso IV fez uma grande parte da sua criação em Leiria. que numa situação de conflito aberto era o que corria maior perigo. A rainha D. Numa carta enviada pelo Papa João XXII ao rei D. Academia Portuguesa de História. p.“O quotidiano da mulher (…)”. 223-238. 1997. in Colectânea de estudos de história e literatura. que o apoiou quando se revoltou contra seu pai. Isabel. Dinis e o filho (1321-1322)”. Quem interferiu activamente nesta luta armada foi a rainha D. “ouve o por muy estranho e dise que aquelas gemtes que ele [o infante D. III – Santa Isabel de Portugal e outros estudos. vol.Santa Isabel de Portugal e outros estudos. “Os príncipes não costumavam levar as esposas nas suas campanhas militares. principalmente o herdeiro do trono. Beatriz era zelar pela protecção dos seus filhos. aquele reconheceu o papel desempenhado pela rainha Santa através de várias iniciativas para promover a paz entre o marido e o filho. Pedro conde de Barcelos”. Isabel tudo fez para que ambos agissem como mediadores no conflito português.Santarém. seu filho253. “E foyse camjnho de Lejrya. em 1319 (ML. III . 209. a obrigação da infanta D. Mais tarde e ainda no decorrer da mesma guerra civil de 1319-1324. 373). Sobre a colaboração e protecção que a soberana fez ao conde D. D. in Colectânea de estudos de história e literatura. onde encontrou o filho a cercar a cidade256. Pedro. esta não é a única vez que o jovem infante tenta proteger a sua mulher dos perigos de uma luta armada. 107). procurando que as partes em conflito se reconciliassem. 257 256 255 254 253 81 . Isabel e o infante D. seu irmão. Pedro Afonso colaboraram mutuamente para alcançar o fim desta guerra. Dinis]”252. Segundo nos relata a ML. 109-127. Logo depois reuniu um grupo de homiziados e rumou a caminho de Leiria254 com o objectivo de atingir a capital do reino255 e desferir um rude golpe no exército do rei seu pai. Afonso] jumtara que não erom senão pêra ir comtra ele [rei D. Dinis. p. p. pp. O seu objectivo era promover uma reconciliação entre as partes. 1997. “Santa Isabel na contenda entre D. quando soube da ida da sua nora e netos para fora do reino.” (Claudia Opitz. V. Pedro257. As acções da rainha procuraram a intervenção directa do papa e do rei Jaime II de Aragão. A trégua foi negociada em Coimbra graças à intercessão do conde D. p. “Alguns documentos respeitantes a D. o infante o infante guarneceu o castelo de Coimbra com uma boa defesa e recolheu dentro das suas muralhas D. juntamente com o infante D. pp. de alguns membros da nobreza e 252 Crónica de 1419. D. dizendo que querja yr a Lixboa em romarja a San Vicente” (Crónicas dos sete primeiros reis. sua mulher. tanto mais que elas tinham também algumas obrigações a cumprir. Beatriz. 286v).

da rainha D. Isabel 258. Foi perante a sua mãe que o infante D. Afonso jurou o acordo de paz com seu pai, em 1322, na cidade de Leiria259. Porém, a guerra civil prolongou-se até 1324260. Os relatos das diferentes crónicas são omissos em relação à posição e atitude da jovem infanta Beatriz nesta luta política. Tendo estas fontes historiográficas como objectivo o exaltar e registar a memória régia, não é de estranhar que a presença de D. Beatriz surja apagada em relação à pessoa do rei e do futuro sucessor da coroa. A única presença feminina que aparece referenciada nas crónicas é a rainha D. Isabel, cujo papel é o de uma consorte empenhada e, simultaneamente, mãe do futuro rei de Portugal. A Rainha Santa procurou incessantemente a conciliação entre as duas partes em conflito. Consideramos que este factor foi um elemento crucial, se não mesmo o mais importante, para o apagamento que os cronistas deram à imagem da infanta D. Beatriz. No xadrez político em que se movia, D. Afonso procurou, em 1319, apoios que ultrapassavam as fronteiras lusas261. Assim, para atingir as suas pretensões, pediu autorização ao pai para ir visitar a sogra, a rainha D. Maria de Molina. O monarca português, talvez com receio das intenções do filho, recusou a sua saída do reino.

D. Afonso impôs, no acordo estabelecido, o afastamento do infante D. Afonso Sanches do reino. Veja-se Crónica de 1419, pp. 211-212. Saul António Gomes, Introdução à história do castelo de Leiria, 2ª ed., Leiria, Câmara Municipal de Leiria, 2004, p. 121. Mas a fama de mau filho e rebelde irá acompanhar o infante D. Afonso. Na Crónica de 1419, escrita uma centúria depois dos acontecimentos, a imagem de D. Dinis surge como a de um rei muito humilde e bom, por oposição ao infante, que era muito rebelde e insatisfeito (Crónica de 1419, p. 192). D. Dinis enviou cartas ao rei de Aragão sobre o litígio que ocorria em Portugal e, também, ao Papa João XXII, que lhe enviou uma Letra em resposta. Estes dissídios entre o rei D. Dinis e o seu filho herdeiro foram relatados pela primeira vez na voz do próprio monarca através de três manifestos, já referidos, dirigidos ao reino contra o infante D. Afonso, datados de 1 de Junho de 1320 (aqui o monarca chama o filho de ingrato e redige um rol de mercês que fizera e a má paga que recebeu do infante), o segundo de 15 de Maio de 1321 (o monarca acusa os seguidores de D. Afonso de terem praticado muitos crimes) e o último de 17 de Dezembro de 1321 (neste, o monarca acusa o infante de desnaturado) (Fernando Félix Lopes, “O primeiro manifesto (…)”, pp. 130-131). Enquanto internamente existiam intrigas, maquinações e preparativos de guerra, ao nível externo procurava-se nos reinos vizinhos apoios. Nesta altura, os três reinos peninsulares, Portugal, Castela e Aragão, além de terem assinado os tratados de mútua assistência em Agreda, no ano de 1304, apresentavam laços de parentesco muito chegados a unirem os respectivos governantes. Assim, os reis de Portugal e Aragão eram cunhados, D. Isabel era irmã de D. Jaime II de Aragão, e o jovem monarca de Castela, D. Afonso XI, era neto dos reis de Portugal.
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Neste contexto, D. Beatriz adquiriu um papel essencial na cena política. Perante a rejeição de D. Dinis, o infante D. Afonso solicitou à sua sogra que intercedesse por si junto do rei português, argumentando que queria muito ver a filha e o genro262. Porém, D. Dinis não sucumbiu a tamanha pressão e manteve a sua recusa em deixar o jovem infante deslocar-se até Castela. No entanto, contrariando a vontade do pai, D. Afonso encontrou-se com D. Maria de Molina, em 1319, no inicio do Verão, em Fuente Guinaldo, uma aldeia junto a Ciudad Rodrigo. Para o autor da parte VI da Monarquia Lusitana263, a presença da infanta D. Beatriz neste encontro serviu para que a rainha castelhana se empenhasse mais no conflito, a favor do jovem infante. Segundo María Antonia Carmona Ruiz264, nesta reunião a rainha e regente de Castela manifestou o seu desacordo com a atitude de D. Dinis, mas também reprovou a postura do seu genro. Em resultado deste encontro, D. Maria de Molina fez algumas pressões, a pedido de sua filha e do seu genro, junto de D. Dinis, para que o monarca português acedesse aos pedidos do infante D. Afonso e lhe entregasse o exercício da justiça265. D. Dinis não hesitou em negar a pretensão do filho. Este encontro em Fuente Guinaldo, em 1319, pode muito bem ter sido a última vez que D. Beatriz viu a sua mãe, uma vez que D. Maria de Molina faleceu a 1 de Junho de 1322, na cidade de Valladolid. Os monarcas portugueses fizeram honras fúnebres a esta sua familiar em Lisboa, juntando-se a eles a infanta D. Beatriz que na altura se encontrava em Coimbra266. A paz chegaria, finalmente, ao reino através do acordo celebrado em 25 de Fevereiro de 1324. Com este pacto, o monarca cedeu às exigências do infante D. Afonso ao fazer sair de Portugal o bastardo Afonso Sanches, retirando-lhe terras e rendas. Terminava, assim, a guerra civil em 1324. Pouco tempo depois, o estado de saúde do rei D. Dinis agravou-se. Segundo nos relata Francisco Brandão267, “cresceo
“E ela enviou muito rogar a el rey dom Denjs, que enviase la o iffante e sua molher pera os ver, e não enviando dizer pera que cousas, ou que proveito” (Crónica de Portugal de 1419, p. 196; Crónicas dos sete primeiros reis, p. 86).
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ML, VI, p. 358. María Antonia Carmona Ruiz, María de Molina, pp. 254-255. Crónicas dos sete primeiros reis, p. 87; ML, VI, p. 358. ML VI, pp. 440-441. ML, VI, fl. 469.

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a febre” e foi necessário estanciar em Vila Nova da Rainha, perto da Azambuja. D. Isabel viu o seu marido num estado tão grave que mandou chamar o infante D. Afonso, que se encontrava em Leiria, e dias mais tarde D. Beatriz foi trazida pelo conde D. Pedro268, já numa fase terminal, em que o moribundo monarca “algum aliuio que teue foi ver dahi a poucos dias a Infanta sua nora”. O rei acabaria por falecer em Santarém, a 7 de Janeiro de 1325. Este acontecimento marcou um novo ciclo na vida da jovem D. Beatriz, uma vez que se tornava, desse modo, mulher do rei de Portugal. Quando as crónicas relatam a aclamação do infante D. Afonso como novo monarca são apenas referidas as suas qualidades e virtudes, não sendo nunca mencionada a sua mulher269. Aquele acontecimento marca a abertura do capítulo relativo ao reinado de D. Afonso IV, pretendendo preservar para as gerações vindouras a exaltação das glórias régias. D. Beatriz é referida no capítulo imediatamente a seguir como a mulher que assegurou a descendência do trono270. Como rainha de Portugal, D. Beatriz teve uma participação activa em vários acontecimentos que marcaram a vida política do reino. Como referimos anteriormente, a figura desta soberana não se alcandorou à posição de destaque que teve a rainha D. Isabel, sua sogra, ou, por razões opostas, D. Leonor Teles, mulher do rei D. Fernando. Mas nem por isso a acção da mulher de D. Afonso IV deixou de se pautar por uma posição fortemente interventiva em alguns acontecimentos que marcaram a vida política do seu tempo. Num mundo predominantemente masculino, as rainhas surgiam quase sempre com uma função meramente secundária. Porém, observando atentamente as actuações de D. Beatriz, esta surge-nos como mediadora num contexto de intensas lutas políticas internas, mas também externas, procurando diminuir a tensão que existia entre as partes litigantes. Estamos, assim, perante uma mulher que se sabia mover nos meandros políticos e procurava atingir os seus objectivos: a paz do reino e, concomitantemente, a concórdia familiar. Contudo, D. Beatriz encontrava-se confinada ao mundo da sua família política. É, essencialmente,

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ML VI, pp. 468-469. Crónicas dos setes primeiros (…), p. 141. Crónicas dos setes primeiros (…), p. 142.

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neste contexto que se move. Mesmo após a sua morte foi recordada como filha, mãe e avó de reis271, ou seja, a latere destes. A cronística régia, tanto portuguesa como castelhana, relatou com algum destaque certas acções de D. Beatriz272. Assim, no contexto das bodas da infanta D. Maria, filha mais velha dos monarcas portugueses, com o rei castelhano D. Afonso XI é mencionada a presença dos reis lusos juntamente com D. Isabel, avó da noiva, em Alfaiates (conc. do Sabugal). Após esta cerimónia, os dois monarcas ibéricos, com as suas mulheres deslocaram-se a Fuente Guinaldo, em 1329, senhorio do rei de Castela, e aí combinaram um outro casamento, o do infante D. Pedro, filho primogénito dos monarcas portugueses, com D. Branca, filha do infante D. Pedro de Castela273. Com estes casamentos as duas monarquias renovaram, uma vez mais, os acordos de paz entre os seus reinos estando, assim, consolidada uma política de bom entendimento peninsular274. Todavia, o infante D. Pedro, herdeiro do trono português, viria a repudiar a sua noiva, recusando-se a casar com D. Branca. Esta rejeição tornou tensas as relações entre Portugal e Castela. Também aqui, D. Beatriz surgiu no papel de mediadora entre os dois reinos, quando fez saber do seu desejo em terminar as querelas entre ambos, motivadas pela oposição castelhana face ao repúdio da infanta D. Branca por D. Pedro275. A intervenção de D. Beatriz teve também lugar fora de Portugal. Assim, num momento de conflito aberto entre D. Afonso IV, seu marido, e D. Afonso XI, de Castela, simultaneamente seu sobrinho e genro, a consorte portuguesa dirigiu-se a Badajoz para se encontrar com o rei castelhano com o intuito de pôr fim às hostilidades entre os dois monarcas. As relações político-diplomáticas destes dois reinos ibéricos haviam encontrado um equilíbrio desde o início do século XIV, devido à acção estratégica de D. Dinis. O tratado de Agreda, de 1304, assinado entre Portugal, Castela e Aragão, definiu uma aliança perpétua entre os três reinos e foi
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Crónica de D. Fernando, p. 101 e 181; Crónica D. João I, vol. I, p. 407. Crónicas dos sete primeiros reis (…), p. 151; Gran crónica, vol. I, pp. 455-456. Mais adiante analisaremos em pormenor o casamento de D. Maria e dos seus irmãos.

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“E otrossi firmaron los rreyes sus pleytos e posturas de amistad el vno com el outro” (Gran cronica, vol. I, p. 455).
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As questões relacionadas com este matrimónio serão analisadas detalhadamente mais adiante.

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renovado no início do reinado afonsino. Efectivamente, as relações entre Portugal e Castela foram cordiais e amistosas, com os casamentos dos respectivos príncipes entre si a procurarem consolidar o clima de paz276. A. H. de Oliveira Marques considerou o conflito entre Portugal e Castela (1336-1339) como “episódico e não motivado por qualquer alteração substancial de política externa”277. Como já afirmámos, as bodas régias desempenharam um papel muito importante na consolidação da paz entre os dois reinos ibéricos. No entanto, a união entre D. Maria, filha de D. Afonso IV, e D. Afonso XI estava longe de ser feliz e a infanta portuguesa enviou sucessivas queixas a seu pai relatando as humilhações que sofria. Neste cenário, multiplicaram-se as cartas e as embaixadas entre as duas cortes. As relações entre D. Afonso IV e o soberano castelhano tornaram-se cada vez mais turvas, em grande parte devido à infidelidade de D. Afonso XI, rei de Castela e genro do Bravo, para com a rainha D. Maria278. Perante as queixas da filha, o monarca português aliou-se ao rei de Aragão, D. Pedro IV, assim como aos revoltosos nobres castelhanos279. A agravar esta tensa situação familiar, existiu também um outro episódio que veio acicatar a ira de D. Afonso IV. Estamos a referir-nos ao casamento do infante D. Pedro, herdeiro do trono português, com D. Constança, filha de D. João Manuel, a mesma que fora repudiada por D. Afonso XI. Este monarca, devido ao ódio que detinha por D. João Manuel, intentou todos os meios para impedir o casamento com o herdeiro do trono português. Todavia, o acordo matrimonial foi celebrado em Estremoz, em 1335, e o casamento realizou-se por procuração, em Fevereiro de 1336, no mosteiro de S. Francisco da cidade de Évora, com a presença

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Como analisaremos mais à frente, foram negociados os casamentos da infanta D. Maria, filha de D. Afonso IV, com D. Afonso XI (1328) e o do infante D. Pedro, herdeiro do trono português, com D. Branca, filha do infante D. Pedro de Castela (1331-1340). A. H. de Oliveira Marques, Nova História de Portugal, vol. IV, p. 317.

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Foi barregã do monarca a castelhana D. Leonor de Gusmão, filha de D. Pedro Nunes de Gusmão e de D. Beatriz Ponce de Leão. Desta relação nasceram vários filhos bastardos, uns após os outros com admirável regularidade anual. Por seu lado, a rainha D. Maria deu à luz, em 1332, o seu primeiro filho, D. Fernando, que faleceu no ano seguinte e, em 1334, nasceu o segundo, que sucedeu ao pai no trono, D. Pedro, o Cruel.

Foi neste contexto político e perante a recusa do jovem infante D. Pedro, herdeiro do trono português, em casar com D. Branca, que D. Afonso IV realizou os esponsais do seu filho com D. Constança Manuel, filha de D. João Manuel, um dos maiores senhores feudais castelhanos e acérrimo opositor de D. Afonso XI.

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dos monarcas portugueses e de muitos fidalgos e ricos-homens da corte régia280. No entanto, D. Afonso XI dificultou a passagem da jovem Constança pelo seu reino, impedindo-a de chegar a Portugal. Esta atitude, considerada como uma afronta por parte de D. Afonso IV, somada aos agravos anteriormente recebidos na pessoa de sua filha, desencadeou a iniciativa de mover uma guerra contra Castela. Mas regressemos ao encontro entre D. Beatriz e o rei seu genro, em 1336, num momento em que existia um conflito aberto entre os dois reinos peninsulares. O monarca castelhano recebeu muito bem a rainha sua tia e sogra, que se encontrava acompanhada por cavaleiros portugueses. A consorte portuguesa rogou a D. Afonso XI que não entrasse em Portugal, porque isso significaria iniciar uma luta armada entre os dois reinos. O monarca explicou que D. Afonso IV quebrara as promessas de paz e ajuda mútua entre ambos, a partir do momento em que apoiara D. João Manuel, seu inimigo e com o qual mantinha uma luta armada. Porém, se D. Afonso IV lhe entregasse vilas e castelos para recompensar o muito mal e dano que fizera na comarca de Badajoz, comprometia-se a não entrar em Portugal para iniciar o conflito armado. Muito lastimosa, D. Beatriz informou D. Afonso XI que não tinha poderes para aceitar as suas exigências, mas que falaria nesse sentido com o rei seu marido quando chegasse a Portugal281. E, perante a intransigência do monarca castelhano, D. Beatriz regressou ao seu reino sem ter logrado os objectivos que tinha com a entrevista com o genro. No entanto, importa fazer ressaltar a actuação da rainha, fosse ela de iniciativa própria ou em concordância com D. Afonso IV282. Por um lado, a rainha cumpria o papel que o casamento lhe reservava, de contribuir para a aproximação entre os dois reinos que então se encontravam em situação de guerra; e, por outro, o episódio é revelador da existência de alguma capacidade de manobra detida por D. Beatriz, que se encontrou com o rei castelhano, D. Afonso XI, assim se intrometendo nos assuntos políticos de ambos os reinos. Nesse momento, a rainha

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Crónica de 1419, p. 225. Gran Cronica, vol. II, p. 181.

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“Os seus [das mulheres] desejos e ideias só podem frequentemente ser descortinados por detrás do véu da tutela e da regulamentação impostas pelos seus pais, maridos e confessores sendo os seus actos ainda limitados pelas normas da sociedade e pelo controlo social.” (Claudia Opitz,“O quotidiano da mulher (…)”, p. 354).

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cumpriu, na senda de D. Isabel, as suas funções de embaixadora da paz e da harmonia entre os reinos ibéricos, função que tantas vezes a sua sogra desempenhara. A luta entre Portugal e Castela tornou-se cada vez mais inevitável e a guerra durou entre 1336 e 1339, revelando-se destruidora para ambos os contendores. Este confronto entre dois reinos cristãos peninsulares não contava com a aprovação do Papa. Bento XII tomou várias iniciativas para colocar fim aos conflitos armados entre D. Afonso IV e D. Afonso XI283. Refere o Livro de Linhagens do Conde D. Pedro que o arcebispo D. Gonçalo Pereira teve, também ele, um papel importante para que se alcançassem as tréguas284. A ameaça muçulmana sobre a Península Ibérica era cada vez mais forte e constante, e daí o Papa ter exercido toda a sua influência para incentivar a união entre os dois reinos cristãos para conjuntamente combaterem a iminente invasão muçulmana da Hispânia. Devido aos frequentes ataques dos muçulmanos na zona de fronteira com Castela, o rei D. Afonso XI solicitou ajuda militar ao monarca português. Devido talvez ao mau relacionamento familiar que naquele momento existia entre D. Afonso IV e o seu genro, foi a rainha D. Maria que veio encontrar-se com seus pais, na cidade de Évora, para pedir auxílio na luta contra os muçulmanos285. Os monarcas portugueses receberam a sua filha “com muyta homra e com synaes de gramde amor”286 e, perante os insistentes
Uma das mais importantes medidas tomadas pelo Papa Bento XII foi a concessão, em 1340, da bula de cruzada a D. Afonso XI e D. Afonso IV. Neste contexto, o Papado, por um lado enviava para Castela ajuda material para fazer face às despesas militares e, por outro, concedia indulgências aos que combatessem os mouros. O Papa pretendia terminar com os confrontos militares que opunham D. Afonso IV e D. Afonso XI porque o seu objectivo era que ambos os monarcas se coordenassem e direccionassem os seus exércitos contra o império benemerim, inimigo comum que se preparava para invadir a Península. Sobre o papel pacificador do Papa Bento XII veja-se o estudo de Marie-Claude Mahaut, “Le role pacificateur du Pape Benoît XII dans le conflit de la Castille avec le Portugal (13371340)”, in Actes du 101e Congrés National des Sociétés Savants, Lille – 1976, La guerre et la paix au moyen age, Paris, Bibliothèque Nationale, 1978, pp. 225-239. Juntamente com o Papado, a monarquia francesa teve igualmente um papel de mediadora, entre 1338 e 1339, neste conflito ibérico (Maria Margarida Lalanda, “A política externa de D. Afonso IV (…)”, p. 116).
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“Este arcebispo [D. Gonçalo Pereira] foi o que pôs tregoas antre este ifante dom Afonso o quarto, que entom era rei, e el rei dom Afonso, o Bõo, de Castela, que filhou Aljazira a Mouros e outros muito logares na fronteira dos Mouros. E enesto fez gram serviço a Deus, porque a guerra era mui crua e mui danosa aos reinos, per mar e per terra, e desperecerom i muitas gentes” (LL 21G14).

“A Rainha com gramde umylldade e muytas lagrymas, dise a elRey ho fumdamemto e esperamça e neçesydade com que vynha, que hera pedyrlhe com gramde afficacya, que em sua pesoa e com jemte d armas e ffrotas e tesouros de seus Reynos, quysese em tam evydemte peryguo hyr ajudar elRey D. Afomso seu marydo, comtra os Mouros, ymigos da ffee” (Crónicas dos sete primeiros reis (…), pp. 324-325).
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Crónicas dos sete primeiros reis (…), p. 324.

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o jovem infante foi colocar a sua mulher e o herdeiro do trono em Alcañices também agora nas vésperas de uma guerra. p. Afonso IV. pp.pedidos de ajuda. A Serra de Yelves está localizada na Extremadura espanhola. 326). 89 . que os exércitos de D. Afonso IV de Portugal combatem os inimigos comuns: o imperador benemerim de Marrocos. vol. e D. VII. assim. o monarca protegeu a rainha sua mulher e o seu filho herdeiro. caps. Os relatos desenvolvidos desta batalha encontram-se no Livro de Linhagens do Conde D. assim como o infante D. I. pp. “Vencer ou morrer. também. 147-148). o estudo de Bernardo Vasconcelos e Sousa. Veja-se. Afonso XI. e como esqueçydos d algumas payxões pasadas. Duarte Nunes de Leão. p. no ano de 1339. “Todos os autores procuraram ilustrar os feitos decisivos atribuídos ao rei português e aos seus exércitos dando particular ênfase à intervenção de Afonso IV junto do conselho do genro. entre outras coisas. Yusuf. em 1340291. Pedro. 288 287 Gran Cronica. ao encontro do monarca castelhano289. V. Pedro. Chronicas dos Senhores Reis (…). Abu-I-Hasan. 102-108. colocando ambos longe do palco das hostilidades. "O sangue. com a bênção papal. Crónicas dos Reis de Portugal (…). pp. o cronista castelhano da Gran Cronica de Alfonso XI refere que a ida do seu rei a Juromenha não foi somente para afinar a estratégia militar. Afonso IV foi. vol. Neste passo da sua narrativa. mas também “por ver a la rreyna doña Beatriz de Portugal”288 que se encontrava com o rei seu marido. II. nas proximidades do estreito de Gibraltar. História de Portugal (…). 291 290 289 Esta batalha foi travada a 30 de Outubro. É. enquanto D. Lisboa. junto à praça de Tarifa. Maria e o infante herdeiro D. ML. seguiram para Badajoz e daí para Sevilha (Crónicas dos sete primeiros reis (…). deste modo. D. dirigiu-se com D. 1991. 327). rainha de Castela e sua filha. Constança seria conduzida a Portugal e que o rei de Castela se obrigava a tratar a rainha sua mulher como devia (Fortunato de Almeida. Pedro. Beatriz e o infante D. Assim. posteriormente. O fim da guerra entre os dois reinos ficou definido através de um tratado de paz assinado em Sevilha. onde deixou a rainha sua mulher e o infante seu filho e. para Badajoz. vol. 36. Maria. pp. 505-514). Tal como nas vésperas da guerra civil de 1319-1324. Este confronto terminou com a vitória dos exércitos cristãos junto às margens do rio Salado. os nossos autores relatam que o rei de Portugal foi a Elvas e deixou aí a rainha D. p. a necessidade de defesa contra o inimigo da fé que uniu os dois monarcas desavindos. Beatriz e D. quando demoveu dos seus intentos os que pretendiam fazer a entrega da praça de Tarifa” (in Bernardo Vasconcelos e Sousa. Foi. Pedro que voltaram a Estremoz. 279-290. na famosa Batalha do Salado. Neste ponto existe uma discrepância entre a cronística dos dois reinos. A batalha do Salado (1340)” in Actas do Colóquio A memória da Nação. Livraria Sá da Costa. D. rei de Castela. 459-488. pp. Em centúrias posteriores a memória do Salado continuou a ser relatada pelos autores portugueses: Cristóvão Rodrigues Acenheiro. II. Afonso IV dirigiu-se para a Serra de Yelves. Após as conversações. com a rainha D. “Homde todos se vyram. na província de Cádiz. juntamente com as rainhas D. ao encontro do rei de Castela. a cruz e a coroa (…)”. que estipulava. cimentando novamente o entendimento entre ambos290. na parte final da biografia de Álvaro Gonçalves Pereira (LL 21G15) e nas Crónicas dos sete primeiros reis. 366. LII-LXII. eles com mostramças de muyto amor e gramde prazer se trataram” (Crónicas dos sete primeiros reis (…). Foi deste modo que os monarcas dos reinos ibéricos se encontraram em Juromenha para acertarem o plano militar287. Maria. e o rei de Granada. p. que D.

ou seja.” (in Bernardo Vasconcelos e Sousa. D. Luís este propósito foi rapidamente gorado. 293 Como já referimos anteriormente. Inês de Castro (1325-1355). Afonso IV que sempre interveio para afastar a Castro da corte e do reino295. D. viúva de D. para a recuperação de territórios aos muçulmanos por parte da coroa castelhana. é tornado explícito. após o IV Concílio de Latrão tornaram-se incestuosas todas as relações até ao 4º grau de consanguinidade e afinidade. Crónicas dos sete primeiros reis (…). Recuemos um pouco no tempo. por isso mesmo. filho bastardo de D. no seguimento do assassinato de D. D. Talvez o momento mais marcante e dilacerante da vida desta rainha tenha sido quando assistiu à revolta de seu filho. Inês foi recolhida no castelo de Albuquerque. Nesta comunhão que se sugere entre a divindade e os seus cavaleiros. mulher do infante herdeiro.Esta vitória. através do baptismo. Assim. contra D. o infante D. finalmente. Pedro. Segundo a tradição. a fim de casar com D. p. de seu nome Inês Peres de Castro. Dinis. Inês de Castro na corte. Constança Manuel veio. Em 1340. Após esta batalha. Sob a protecção de D. armando os cavaleiros. muito próximo da fronteira entre os dois 295 294 90 . Constança unir por parentesco espiritual. No seu séquito vinham nobres damas. o rei é o enviado de Deus. Era objectivo de D. D. mas houve uma. e ainda em 1340. 349. Todavia. 33). Teresa de Albuquerque. Afonso IV regressou a Portugal e foi a Estremoz ter com a sua mulher e o infante D. foi decisiva para o controlo do estreito de Gibraltar e. que “ho reçeberão com mais amor e alegria. Pedro. finalmente. Pedro. o resultado não poderia ser outro senão a derrota dos inimigos da cristandade. Pedro. como que os compara aos mártires prontos a derramar o próprio sangue por amor a Jesus Cristo. de origem galega. para Portugal. A futura rainha tudo intentou para terminar com este relacionamento. assim como a relação mantida com D. que atraiu a atenção do jovem infante. Luís. segundo os relatos portugueses. Constança Manuel terá convidado esta sua dama para madrinha do seu filho primogénito. p. a cruz e a coroa (…)”. um impedimento suplementar nesta relação adúltera294. É ele quem interpreta a simbólica dos elementos e é ele. Pedro. deste modo. criando. os dois amantes. com a morte prematura do infante D. ao mesmo tempo. como era este caso de Inês de Castro e D. não eram bem recebidas por parte de D. quem. D. Afonso IV. A presença de D. 292 “Neste combate total. que solenidade nem gramdes festas”293. a consumação do milagre de que não podem restar dúvidas e que. "O sangue. foi conseguida através da intervenção divina292. Pedro. a beleza desta donzela terá cativado e conquistado de imediato o infante D. herdeiro do trono luso. Afonso Sanches.

para logo de seguida passarem a viver maritalmente. D. Inês bisneta do mesmo monarca. Beatriz. Constança. Inês de Castro. que sempre ocupou um espaço privilegiado no imaginário colectivo297. Rui de Pina. 1933. Inês de Castro. 91 . Pedro era neto de D. o mesmo que sucedera com ele próprio? Isto é. falecido ainda criança. Pedro. o monarca estaria a evitar que ocorresse com o seu jovem neto. Não é nosso objectivo neste estudo fazermos um relato exaustivo sobre a versão dramatizada dos amores de D. ocorrido provavelmente em 1348 ou 1349. os filhos ilegítimos nascidos da relação de D. Após a morte de sua mulher. 298 297 296 D. como veremos mais adiante). a bibliografia referida por esta autora. tal como acontecera com D. entre os quais Rui de Pina na senda de Pero Lopez de Ayala296. Pedro. associou a crescente influência dos Castro em reinos. É considerado o “mais antigo historiador que narra” a relação de Pedro e Inês na sua Cronica del Rey D. este afastamento geográfico não foi impeditivo de que Pedro e Inês mantivessem acesa a chama da sua paixão. p. iniciam a versão dramatizada e romanceada da história destes dois amantes. Pedro com D. Porém. fijo del rey D. Alfonso deceno de este nombre en Castilla. Este pedido deve ter alarmado tanto o rei português como alguns elementos da alta nobreza cortesã que viam com maus olhos esta junção devido ao receio de uma possível interferência dos senhores de Castro nos jogos da política interna portuguesa. Desta relação nasceram quatro filhos: Afonso. (António de Vasconcelos. Inês disputarem o trono com o legítimo herdeiro. muitos autores. Inês a Portugal. Mas terá sido somente o móbil político que moveu D. Inês. Pedro pudesse assumir abertamente a sua relação com D. Inês. Pedro foi fazer regressar D. escrita tal como já referimos século e meio após os acontecimentos narrados. Portucalense Editora. João. deixou livre o caminho para que D. Pedro terá pedido ao Papa que lhe concedesse a necessária dispensa para contrair matrimónio com D. assim como. 28). Fernando. Barcelos. A partir deste momento. D. a primeira medida tomada por D.O falecimento prematuro da infanta D. Afonso Sanches. o infante D. na sua Crónica. Pedro e D. Afonso IV? Podemos também afirmar que ao marcar uma posição contra esta relação. Pedro Lopez de Ayala foi um cronista castelhano que viveu no século XIV e no início do seguinte (1332-1407). Dinis e Beatriz (estes três são contemplados no último testamento da rainha D. Sancho IV de Castela e D. para isso veja-se Cristina Pimenta. já que à luz do Direito Canónico da época os jovens amantes encontravam-se unidos por laços de parentesco que inviabilizavam a sua união: eram segundos primos298.

Inês Perez de Castro nasceu em 1325 e pertencia a uma linhagem da alta nobreza galega. É óbvio que estas afirmações não passam de conjecturas. filho mais novo de D. Aldonça Lorenzo de Valladares. Lisboa. Linhagens medievais (…). Pedro de Castro. Inês de Castro e D. Ambos os matrimónios são ilustrativos da ligação existente a Portugal. José Augusto Pizarro. I. Inês de Castro”. António Ferreira (A Castro. José Augusto Pizarro. mas também às importantes linhagens nobiliárquicas medievais. Pedro de Castro esteve casado legitimamente com D. sua barregã302. I. 38H9. primeira edição de 1516). III – Santa Isabel de Portugal e outros estudos. in Actas das II jornadas luso-espanholas de História Medieval. fylho primeyro genito e erdeiro que era do Jffamte D. e D. pudesse soseder os Reinos de Purtuguall e do Alguarue»299. p. primeira edição do século XVI) e Garcia de Resende (“Trovas à morte de D. 173). filha do seu tutor. pp. II. Porto. Manuel. “Castilla y Portugal: las dos fidelidades de D. p. 230). Violante Manuel (filha do infante D.território português à apreensão sobre «a uida e a soseção do Jffamte D. 34F4-5. Beatriz Afonso de Portugal. 249). 365-366. o da Guerra. vol. primeira edição de 1572). Joana. 195-221. Dinis) e de D. Afonso (irmão do rei D. vol. que per alguma maneyra poderião ordenar sua morte por tall que cada hum dos outros filhos de Dª Jnes por morte do dito Infante D. Linhagens medievais (…). Segundo Fernández de Bettencourt. Comissão Executiva do IV Centenário da Publicação d’Os Lusíadas. Centro de História da Universidade do Porto / Instituto Nacional de Investigação Científica. filha de D. Dinis”. Inês de Castro. Isabel Ponço de Leão. Pedro Fernandez de Castro”. Pedro I sem mencionar D. Do seu segundo matrimónio nasceram D. Fernando Ruiz e D. I. Inês para despoletar tamanha animosidade entre sectores da nobreza da própria corte régia portuguesa? Tanto mais que eram comuns e aceites as relações existentes de reis/infantes/grandes senhores com barregãs301. pp. 1972. pai de D. e de uma dama de nome Aldonça Soares de Valadares. Fernamdo. “O infante D. “aunque después se anulara por motivos de que no há logrado descubrir nuestra dilligencia” (citado por Eduardo Pardo de Guevara y Valdes. Lisboa. Joana de Castro foi rainha de Castela pelo seu matrimónio com D. Sancha Gil de Chacim. mas importa tê-las presentes para ilustrar a complexa teia política a que os amores de Pedro e Inês deram lugar300. Álvaro Perez de Castro (foi conde de Arraiolos e primeiro Condestável de Portugal). 299 Crónicas dos sete primeiros reis (…). R6. Pedro I. Episódio de Inês de Castro à luz da história. A sua relação amorosa tornou-se lenda ou estória e foi contada por nomes tão ilustres como Luís de Camões (Os Lusíadas. seu jrmão. Pedro Fernandes Ponço de Leão e D. Apesar da tradição referir que este casamento 302 301 300 92 . Este senhor de Castro terá contraído matrimónio duas vezes. Afonso irmão de el-rei D. onde Fernando Ruiz de Castro assumiu a chefia da linhagem e figurou entre os indivíduos mais influentes de Castela. Os filhos legítimos projectaram-se em Castela. grande senhor galego e camareiro-mor de D. 1997. e da segunda vez desposou D. in Cancioneiro Geral. D. p. Mas quem era e de que família provinha D. in Colectânea de estudos de história e literatura. Salvador Dias Arnaut considera que “uma paixão como a de Pedro e Inês tinha naturalmente de provocar desencontradas reacções” (Salvador Dias Arnaut. Afonso XI de Castela. Aldonça de Valladares nasceram D. vol. Fernando III de Castela) (veja-se Fernando Félix Lopes. 1987. Fernamdo. Academia Portuguesa de História. pois era filha de Pedro Fernandez de Castro. vol. filha do infante D. Torna-se impossível falar de D. dama portuguesa ligada às velhas linhagens portuguesas dos senhores de Bragança e de Baião (veja-se LL 21M13. Pedro. De D. 7). p. O papel destes seus descendentes foi primordial na história do século XIV em Castela e também em Portugal. Casou primeiramente com D.

assim como as suas amizades e fidelidades303. Quando foi acordado o casamento do infante D. rei de Castela. relações de parentesco muito próximo entre estes dois amantes [ESQUEMA GENEALÓGICO III]. D. de uma forma muito particular. tendo este nobre convivido junto da corte dionisina e assistido ao crescimento do infante D. pp. Fernando Rodriguez de Castro. Pedro de Castro. a educação de Pedro de Castro foi nitidamente portuguesa. Lorenzo Suárez de Valladares. neta do monarca castelhano. Afonso XI. estando esta última relacionada com a sua juventude passada em Portugal (Eduardo Pardo de Guevara y Valdés. herdeiro de Portugal304. María Jesus Fuente. “Castilla y Portugal (…)”. Reinas medievales (…). assim. 224-225. concomitantemente. pp. sob a tutela de D. a sua promoção política e social na corte de D. Porém. 306 93 . 223-232). D. Sancho IV. p. Mas como granjearam os Castro tanto poder e. Violante de Ucero ficou viúva após a morte de seu marido. Afonso IV. No entanto. uma vez que D. a D. o monarca castelhano concedeu-lhe várias e sucessivas mercês. Lorenzo de Valladares viu-se impelido a enviar o jovem Pedro de Castro para a corte portuguesa. esta fidelidade à coroa portuguesa não foi impeditiva para a sua ascensão política em Castela. “Castilla y Portugal (…)”. 305 304 303 Veja-se Eduardo Pardo de Guevara y Valdes. 305. Pedro de Castro afirmou que “avia a conoscer la crianza que aquel rey de Portugal avia hecho en él al tiempo que era niño” (citado por Eduardo Pardo de Guevara y Valdés. deste modo. Desse modo. Pedro de Castro passou a prestar fidelidade a dois monarcas: a natural. e a emocional. D. 225-226. Veja-se. por parte do pai. Pedro era neto do mesmo monarca castelhano.Inês. tantas inimizades? Quando. Durante vários anos. 224). Por isso. D. D. D. era filho de Fernando Rodriguez de Castro e de Violante de Ucero. foram bastantes os que procuraram junto deste senhor apoio e solidariedade. A partir desta data. Inês era. assim. o senhor de Castro nunca renunciou às suas duas fidelidades agradando ora a durou somente um dia. colocou o seu filho varão. marcando. a vida deste varão. p. Recordemo-nos que o infante D. Eduardo Pardo de Guevara y Valdés. pp. de Castela. tais como a nomeação como mordomo-mor do rei e a concessão do senhorio de Monforte306. a D. filha bastarda de D. “Castilla y Portugal (…)”. em 1305. Pedro. devido aos conflitos políticos que marcaram o início da centúria de Trezentos em Castela. Afonso XI lhe deu várias mostras de confiança e amizade e. em consequência. Pedro com D. “Castilla y Portugal (…)”. Constança Manuel. existindo. foi como rainha que gostou de ser tratada ao longo da sua vida. Afonso XI encontrava-se indiscutivelmente consolidada já em 1330305.

” (Eduardo Pardo de Guevara y Valdes.um ora a outro monarca307. com D. 309 308 307 94 . No entanto. D. claro reflejo de esa doble vinculación: doña Beatriz de Portugal al ser hija de un infante lusitano y. al linaje portugués de los Braganza” (Eduardo Pardo de Guevara y Valdes. Pedro encontrar-se-á envolvido num conflito entre as duas coroas ibéricas. y doña Isabel Ponce de León. No entanto. al serlo de un magnate castellano y pertenecer por línea materna. sucedendo-lhe o seu único filho legítimo. Lemos y Sarria. Os Castro formavam. providenciaram também o casamento do infante D. Leonor de Gusmão. Constança. a odiar e a temer tanto os senhores de Castro e a sua influência na corte portuguesa. efectivamente. mas também casar o seu filho D. filha de D. João Manuel. 230). Afonso IV e casada com o rei de Castela. o Torto. Este novo monarca levou a cabo uma violenta acção anti-nobiliárquica concretizada pelos ataques directos a membros de importantes famílias da “Los dos matrimónios que nos constan son. com D. filha do infante D. Pedro Fernandez de Castro foi sempre em favor daquele monarca. 223). p. Afonso XI a abandonar a sua manceba e. “El papel indiscutiblemente hegemónico que estos personajes venían jugando en el contexto gallego. o monarca português. o infante D. uma importante linhagem aristocrática que há muitos anos ocupava posições de destaque na vida política castelhana. “Castilla y Portugal (…)”. “Castilla y Portugal (…). Para a decisão pender a favor da coroa castelhana o rei aliciou o Castro com algumas mercês308. Pedro Fernandez (este matrimónio não se chegou a realizar). filha de D. João Nunes de Lara. Maria. como logicamente cabría haber esperado en un principio. juntamente com alguns magnatas castelhanos. como analisámos. Pedro. E. o plano do monarca castelhano deu resultado. com uma activa participação nas múltiplas lutas entre facções da nobreza309. João. en sí mismos. hijo de San Fernando. Henrique. paralelamente. encabeçaram uma conjura para forçar D. Afonso XI. em 1350. Puebla de Valdeorras e Berosines. Afonso XI prometeu a doação do burgo de Caldelas com suas terras. sobre o modo como o seu marido mantinha uma barregã. porque a partir desse momento a posição de D. inimigo de D. Afonso XI. por su madre nieta del infante de Castilla don Manuel. Joana de Castro. simultaneamente. D. devido a essa dupla fidelidade. herdeiro do trono português. É nesta conjuntura que o monarca castelhano obriga D. D. e D. D. no había tenido en el marco castellano una proyección favorable. Pedro de Castro a optar por uma das duas fidelidades. fundamentado en buena medida por su titularidad sobre los carismáticos patrimónios de Trastámara. Perante as queixas da rainha D. Pedro I. Talvez tenha sido este o motivo que levou D. a conjuntura política no vizinho reino de Castela alterou-se com a morte de D. pp. Afonso IV.

Esta coligação era chefiada pelos bastardos de D. foi sempre a de não interferir nos assuntos internos do reino de Castela. Talvez tenham acenado ao futuro rei de Portugal com o trono de Castela. e o jovem herdeiro da coroa portuguesa. Pedro e mãe de seus filhos. tornar-se-ia. Foi neste contexto que o jovem infante português se tornou uma peça essencial para o conflito castelhano. Estas violentas acções granjearam-lhe muitos inimigos e conduziram mesmo a uma acesa guerra civil. os elementos perseguidos da nobreza uniram-se e formaram uma forte oposição ao monarca. os adversários do monarca castelhano procuram ganhar para a sua causa o infante português311. 311 310 95 .aristocracia e pela execução de alguns elementos da alta nobreza. Henrique de Trastâmara310. assumindo. o reino luso com a guerra vivida no país vizinho e cujo desfecho permanecia incerto. a candidatura de D. Sancho IV. Deste modo. mulher de D. Justa ou injustamente. Afonso XI. uma política de neutralidade. uma vez que poderia ser o garante de apoios militares. D. uma vez que D. Álvaro Perez de Castro. uma vez que o Bravo caminhava para o ocaso da sua jornada terrena. apoiava a facção revoltosa. o rei D. deste modo. Beatriz era filha de D. Inês de Castro. Seguindo esta perspectiva. assim. bem como permitir a livre mobilidade dos revoltosos no reino luso. símbolo dos opositores ao monarca castelhano. principalmente D. Inês. Inês de Castro surgia aos olhos de muitos como o elo de ligação e consolidação da relação entre os Castro. D. Os Castros poderiam. o infante D. ajuda e alianças em Portugal. Perante as agressões que estavam a sofrer. Pedro seria brevemente rei de Portugal. rainha de Portugal. irmão de D. após uma guerra civil em que derrotou e matou o seu irmão. Pedro I. tanto em Portugal como em Castela. Pedro. assim. Porém. legitimando. Este bastardo veio a tornar-se rei de Castela sob o nome de Henrique II. em 1339. D. Afonso IV. deste modo. Recordemos que desde o fim da guerra que opôs estes dois reinos ibéricos. a ingerência do jovem infante português ao apoiar uma das facções beligerantes rompia com a orientação adoptada pelo rei seu pai. em 1369. ver-se alcandorados ao mais elevado nível da nobreza com um reforço do seu prestígio e poder. por via feminina. D. a posição do monarca português. Por seu lado. Talvez para o ambicioso Álvaro de Castro a sua irmã pudesse servir como trampolim para as suas aspirações. naturalmente. Pedro à coroa castelhana. bisavô do monarca castelhano. comprometendo. Os revoltosos procuraram apoio.

O jovem infante considerou que essas advertências não passavam de meras ameaças e nunca declarou que estava casado com D. Beatriz. Neste excerto Rui de Pina apresenta o arcebispo de Braga como sendo D. atacou violentamente a alta nobreza do seu reino. Segundo nos relata António de Vasconcelos312. 2000. o apoio militar do herdeiro português. Gonçalo Pereira. a rainha D. Álvaro Gonçalves. deste modo. 127). A degolação de D. D. este prelado já teria falecido havia mais de cinco anos (Ana Maria Jorge. numqua quis a jso hobedecer” (in Crónicas dos sete primeiros reis. vol. Inês. Pedro para que ele aceitasse a coroa do reino castelhano conseguindo. meirinho-mor do rei. de Carlos Moreira Azevedo. É neste contexto que a facção oponente aliciou. II. Pedro314. Pedro a afastar-se de D. monarca castelhano. p. uma 312 António de Vasconcelos. “O desejo do soberano português e dos seus mais próximos conselheiros de evitar a entrada do infante no conflito. nunca o saberemos. Inês. e afirmar que era com ela casado. ajmda dito com çerta declaração / de/ comsultas que auia comtinuas da morte de Dª Ines. junto do futuro rei. mas acreditamos que essa possibilidade deve ter assustado a nobreza de corte de D. representava os Castro. D.Fosse este um plano consciente por parte dos senhores de Castro ou uma invenção dos seus adversários. Afonso IV. juntamente com alguns prelados e grandes do reino. que sua uida nom corese risco. como se praticauão. Pedro. II. Pedro a proteger D. Lisboa. principalmente dos irmãos Castro. “Episcopológio (catálogo dos bispos católicos portugueses)”. Inês foi perpetrada por Pedro Coelho. ele dicto Jfamte. 366). uma conspiração por parte desta para depor o monarca. e sem numca querer decrarar a verdade. e Diogo Lopes Pacheco. Inês (…). Afonso IV. 134-135). D. através de D. arcebispo de Braga aconselharam o infante D. dir. p. irmão de D. no entanto. e por outros perlados e senhores isto fose acomselhado ao dito Jfamte D. A informação que é veiculada em Crónicas dos sete primeiros reis (…) refere que D. “(…) pela Rainha Dª Biatriz e polo Arcebispo de Braga. Gomçalo Pereyra. pêra que a saluasse hou segurase em tall luguar. Álvaro Peres de Castro. in Dicionário de História Religiosa de Portugal. Afonso IV manifestou a sua oposição a esta relação que seu filho manteve com D. Gonçalo Pereira. Afonso IV que se sentiu ameaçada perante uma possível secundarização face aos novos validos do futuro monarca português. não terá sido alheio à decisão de matar Inês de Castro” (in Rui Ramos. em consequência. com os perigos que isso poderia acarretar. pp. Inês da morte. Pedro I. História de Portugal. vemdo que tudo erão ameaças e terores que se não auião asym d executar. Círculo de Leitores/ Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa. Inês. um nobre muito próximo de D. 35. filho de Lopo Fernandes Pacheco. mas o infante mostrou-se sempre inabalável313. o infante D. Inês e. 314 313 96 . aconselharam o infante D. rodeado pelos seus conselheiros que temiam a crescente influência da nobreza castelhana. D. mandou assassinar a formosa dama. mais do que a amante e mulher do próximo rei de Portugal. Para a facção aristocrática portuguesa que estava mais próxima de D. Inês devido aos perigos que o cercavam. suscitando. linhagem que ameaçava ascender ao mais alto nível de poder e influência junto do futuro monarca. D. p. Beatriz e D.

13. per alguma vingamça e satisfação sua. importante linhagem galega. e destrohir seu Reino. seu padre. principalmente. Após a morte de D. m. Acreditamos que a morte de D.9. Pedro. Afonso IV ao seu filho herdeiro D. Crónicas dos sete primeiros reis. Tal como no passado o infante D. Afonso se havia 315 TT. Estes três homens eram próximos e leais vassalos de D. Pedro jurou fidelidade ao rei seu progenitor. 316 97 . buscou e procurou loguo todalas cousas em que pudese deseruir a elRey. deve ser enquadrada no contexto dos divergentes interesses da nobreza portuguesa e castelhana. encontravam-se os Pacheco. no qual se opunham. Afonso IV. Efectivamente. n. em Agosto de 1355. 368. Sobre as suas régias mãos foram colocadas a cruz e o Evangelho nos quais D. enquanto o futuro rei era rodeado pelos senhores de Castro. Inês de Castro não só esteve relacionada com questões políticas.º26. Pedro iniciou uma luta feroz contra os assassinos da sua amada: – “E porem. duas linhagens. o jovem D. se pudese”316. com o infante a ser associado ao governo. Diogo Lopes. as duas linhagens tinham objectivos e aspirações incompatíveis. vejamos: junto a D. a guerra civil voltou a Portugal. Por seu lado e como já tivemos oportunidade de analisar. principalmente através de Lopo Fernandes Pacheco. opondo o rei D. Inês. e gozando da protecção régia. Gav. Inês de Castro. Foi através do acordo de paz assinado em Canaveses. que encontraram na proximidade face ao rei e à sua corte o móbil para a sua ascensão na hierarquia nobiliárquica. acima de tudo. e dar mortall castiguo aos matadores dela. Senão. p. os Pacheco e os Castro. os senhores de Castro. ajmda que fose per meos tam comtrairos a ele. mas.das figuras mais destacadas da nobreza de corte do Bravo. a linhagem dos Pacheco efectuou a sua ascensão e atingiu a proeminência política e social estritamente associada a D. pai de um dos assassinos da formosa Castro. que a concórdia regressou ao reino de Portugal. ao conseguir que as partes em conflito alcançassem um acordo315. Afonso IV. Afonso IV. Como iremos ver mais adiante. A rainha teve neste trágico momento uma acção decisiva para o restabelecimento da paz entre o pai e o filho. viam uma oportunidade de ascensão e projecção através do futuro rei de Portugal. Vejamos resumidamente o desenrolar dos acontecimentos: depois do falecimento de D.

Pedro reuniu em seu torno um grupo considerável de apoiantes. Uma vez mais o cronista Rui de Pina afirma que a defesa da cidade do Porto se encontrava assegurada por D. É neste momento que a consorte tenta. Dinis. Segundo Bernardo Vasconcelos e Sousa. Pedro a revoltarse contra o seu progenitor. com destino à cidade do Porto.13. no qual D. mas também temor e obediência. D. É. e de Martim do Avelar. poder (…). o rei D.revoltado contra o seu pai. o Velho.º26. desonra. m. a rainha D. prior da Ordem do Hospital (Bernardo Vasconcelos e Sousa. cuja defesa se encontrava a cargo de D. deste modo. No ano de 1355. o rei D. O exército revoltoso iniciou a sua luta em terras de Entre-Douro-e-Minho e Trás-os-Montes. Afonso IV317. Pedro levantou cerco e foi encontrar-se em Canaveses com a sua mãe. Gav. D. e Ricardo Cordoba de la Llave. arcebispo de Braga. matar ou prender todos aqueles que participaram na morte de D. consideradas contra-natura uma vez que os filhos deviam aos pais respeito e serviço. n. Gonçalo Pereira. O infante apresentou ainda como garante um conjunto de doze dos seus vassalos321 que “Se tiende siempre en todas las épocas a resaltar la tensión. Inês de Castro. Gonçalo Pereira. Beatriz presenciou as duas rebeliões. no papel de mediadora.318 chegou ao Porto o rei D. arcebispo de Braga já falecido. m. Álvaro Gonçalves Pereira. a paz no seio da sua linhagem.” (Isabel Beceiro Pita. 169). TT. D. la ruptura de la convivencia. este arcebispo estaria já falecido no ano de 1348. n.º26. D. p. Pedro prometeu guardar e manter para sempre este perdão e não ir contra ele nem fazer dano. entre os quais se encontravam também os vassalos dos irmãos Fernando e Álvaro Pérez de Castro. acertar juntamente com o prior do Hospital.9. Álvaro Gonçalves Pereira. Gav. 364). assinado o referido tratado de Canaveses. vemos agora o infante D. el peligro que suponen para la paz pública.9. Perante a iminente aproximação do monarca. arcebispo de Braga. sobre las vivencias cotidianas y habituales y tanto más cuanto mayor es su carácter violento. assim como aos apoiantes de D. O infante fez menagem nas mãos de Aires Gomes da Silva. p. Todas estas promessas foram juradas sobre os Santos Evangelhos e o Crucifixo colocados nas régias mãos de sua mãe e de D. quando cercavam esta urbe. encontrando-se a referida urbe protegida por Álvaro Gonçalves Pereira. Beatriz. Afonso IV. a 5 de Agosto de 1355. D. Guilherme de la Garde.13. Afonso IV com os seus aliados. ambas de filho contra pai. 319 318 317 TT. cavaleiros “que el guardara”320. prior do Hospital e filho de D. Afonso IV na guerra civil319. 320 98 . Parentesco.

Soeiro Coelho. Foi nesta cidade que D. também o monarca apresentou como garante do cumprimento da sua promessa doze dos seus vassalos.velariam para que D. A rainha D. concedeu-lhe poder de plena jurisdição cível e crime em todo o País325. D. Nuno Vegas do Rego e Nuno Freire. 325 Sobre a justiça criminal veja-se Ricardo António Lopes. Gonçalo Nunes. Rui Vasques Pereira. Gav. tendo desempenhado um papel muito activo para a celebração deste acto. m. Pedro a co-governação do reino. e o infante D.” (in TT. [sumido]. Gav. Gav. Beatriz estava presente no perdão concedido a todos aqueles que se encontravam envolvidos na morte de D. deste modo. Fernão Gonçalves Cogominho. Inês de Castro322.9. Aires Gomes da Silva. João Coelho. seu marido.º26). Gomes Pais de Azevedo. Gav. m. Chegava.º26). n. Talvez numa tentativa de consolidar este pacto. Martim Vasques de Góis. Martim Fernandes da Teixeira. João Peres de Alvim. assim. m. Guilherme de la Garde. Pedro I. n. Tal como o infante. Estevão Coelho. Beatriz. devido à sobreposição de dois dos seus papéis. Afonso IV ratificou o tratado de Canaveses assinado e jurado por seu filho. Afonso IV e D. cumprissem o estabelecido324. que se encontravam presentes em Canaveses (TT. O rei perdoou também todos os vassalos do infante D.9. Afonso [sumido]. Beatriz rumou para Guimarães. Martim do Avelar. acompanhada pelo arcebispo de Braga. Inês de Castro323. O velho monarca entregou ao infante D. m. Vasco Gonçalves Barroso e Álvaro Soares (TT. seu filho. Foram eles. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Depois de ter obtido a confirmação do acordo por parte do seu filho. comprometendo-se a envidar todos os esforços para que o rei. Pedro cumprisse o assumido. 324 323 322 TT. Martim Afonso de Melo.9. ao encontro do monarca. 99 . Rodrigo Afonso de Sousa.13.º26. n. Pedro Martins Alcoforado.9. Justiça criminal nos reinados de D. ou seja. como esposa impunha-se 321 Os vassalos apresentados foram: João Afonso Telo.º26). Pedro.13. Pedro que destruíram e danificaram os bens dos súbditos régios devido à morte de D. 2003 (dissertação de Mestrado policopiada). a consorte jurou uma vez mais o acordo de Canaveses. Assim. n. ao seu termo a guerra civil que opusera o rei ao filho varão e. D.13. Lisboa. Este deverá ter sido um dos momentos mais difíceis da vida de D.13. a paz no reino de Portugal era restabelecida. “E o Iffante dom Pedro que presente sya disse em presença (…) [da] senhora dona Beatriz pela graça de Deus Reynha de Portugal e do Algarve sa madre (…) [que] perdoava e perdoou para sempre a todolos que com ElRey chegarom e se atraçarom em sa conpanha ao tempo da morte da dicta dona Enes e aos outros que el avya e Razoava por culpados teendo que forom en conselho da ssa morte e sabedores dela. Vasco Martins de Sousa. o Velho. Gonçalo Pais (filho de Paio da Meira).

p. fraco e com necessidade de ser protegido. perante uma decisão muito difícil de tomar: quem apoiar? Uma crise no seio da família real implicava o envolvimento de todos aqueles que tinham uma palavra a dizer em relação ao futuro da dinastia. Porém. Não nos devemos esquecer de que nesta época existia uma grande dificuldade em separar o foro familiar do político. VII. Neste caso. Na guerra civil encontramos a consorte a zelar por um dever mais alto. 327 328 “Power is always social. o “privado” do “público”. 14). Boydell Press 2002. mas acima de tudo de uma autoridade que lhe era reconhecida e respeitada por aqueles que com ela conviviam328. mas principalmente como mãe do futuro monarca. ou seja. pelos infantes e pelos seus netos. concluímos que. D. foi ainda avisado a tempo e veio a Lisboa despedir-se de seu pai326. inclusivamente os filhos de D. procurando 326 ML. 100 . “Emma: the powers of the queen in the eleventh century” in Queens and queenship in medieval Europe. que andava à caça. inclusivamente no momento do último suspiro do Bravo. ao tomar a atitude de mediadora da paz ao nível interno.velar pelos interesses do marido. a garantia da paz e da concórdia entre o rei e o herdeiro do trono. Suffolk. mas como mãe deveria cuidar também dos do filho. p.” (Pauline Stafford. tal como já fez notar Bernardo Vasconcelos e Sousa. Podemos afirmar que D. ao percorrermos as diversas fontes relativas às diferentes actividades de D. Inês. D. como consorte. de Anne J. A consorte régia encontrava-se. de uma liberdade de movimento e de acção muito mais restrita do que o homem. Duggan. D. mas também externo. a rainha teria de dispor de espaço de manobra. de capacidade de persuasão e de alguma autonomia política327. p. Beatriz. Beatriz esteve sempre atenta aos negócios do reino. 571. ed. deste modo. Bernardo Vasconcelos e Sousa. Beatriz procurou o apaziguamento. O futuro monarca. Afonso IV. A mulher dispunha. Pedro. 25. pois. D. Beatriz esteve sempre ao lado do seu marido. O monarca terá falecido assistido pela rainha. Durante a Idade Média a mulher era considerada um ser fisicamente frágil. Por certo interveio com as suas advertências junto do esposo. it exists and grows in its recognition.

sendo alguns deles simultaneamente políticos e familiares. 207). D. e Ana Cristina Pereira. O poder da nossa rainha não surge como limitado. p. “Para una historia social (…). Amantes dos reis (…). D. Para os códigos de conduta da época. apenas sabemos que D. não se importando com os sentimentos dos dois jovens prometidos. Como já referimos anteriormente. de uma forma mais directa. Porém. a imagem de poder e autonomia revelada pelas diferentes atitudes de D. 65. 237. os casamentos na Idade Média eram o resultado de demoradas negociações efectuadas pelos chefes de linhagem que actuavam em função dos interesses da sua estirpe. mas sim como um poder que se plasma e adapta a cada passo e em função das situações concretas. É nítido que a partir do momento em que se tornou rainha de Portugal. Afonso IV e D. p. sendo esta última subordinada ao marido. uma vez que ambos foram criados pela rainha D. Na senda de José Augusto Pizarro330 e de Paula Lourenço331. una esfera limitada de desplazamiento. os acontecimentos do reino. tuvo un ámbito proprio en el que moverse y actuar. Beatriz contrastam com a representação de uma mulher submissa. Afonso IV foi o único rei da primeira dinastia ao qual não se conhecem nem barregãs nem descendência ilegítima. 330 329 José Augusto Pizarro. en un mundo en el que el hombre es creador de espacios y del sistema de relaciones. Os factores que a isso conduziram podem ser vários. Dinis.” (in Reyna Pastor de Togneri. noble o popular. e Joana Troni. Beatriz começou a ter um papel mais importante e a acompanhar. consideramos que este matrimónio é um exemplo de que esta união não terá sido falha de sentimentos pessoais mais profundos entre os dois esposos. Isabel. Num plano mais íntimo da vida conjugal. p. além da norma da época. podemos concluir que aparentemente existiria essa comunhão entre D. Pela análise agora efectuada. a convivência desde muito jovens concedeu a possibilidade dos nubentes se conhecerem e se estimarem desde tenra idade. um bom casamento seria aquele em que existia comunhão entre o homem e a mulher. mas também de receberem os mesmos ensinamentos e uma educação similar. No entanto. “La mujer.amenizar as tensões existentes entre este e o infante329. 331 101 . Nestas linhas ficámos a conhecer uma rainha participativa e interventiva nos acontecimentos políticos do seu novo país. Beatriz. Paula Lourenço.

p. diremos que D. o amor entre ambos332. Sabemos também que o seu relacionamento com estes irmãos nem sempre foi pacífico. a tranquilidade só seria alcançada em 1328. talvez. de modo bastante directo e pessoal. D. Afonso IV. Estes desaguisados foram bastante violentos. sobre o papel da rainha D. Afonso Sanches333. Em jeito de conclusão. Estos juegos amorosos facilitan la consumación del matrimónio cuando los niños moran juntos. procurando sempre a harmonia e a concórdia propiciadoras do bem-estar do reino e dos súbditos. Afonso e D. a soberana enfrentou sempre os momentos de conflito. o se visitan en sus casas o se unen carnalmente. João Afonso.também nós acreditamos que o facto de D. uma vez que do primeiro destes irmãos o monarca tomou todas as terras que ele tinha em Portugal. 71. poderá ter facilitado o desenvolvimento de laços afectivos entre ambos. como a estima. o rei D. Beatriz terem crescido juntos desde pequenos e saberem que iriam casar. Com tal propósito. o monarca sentenciou-o à pena de morte sob a acusação de traição por se ter aliado com D. quer internas quer externas. João Afonso. possuíam igualmente uma forte componente familiar. intereses de esos niñospor entrar en una especie de juego amoroso de iniciación y acercamiento. não deixando de ser políticas e militares. Beatriz foi uma presença constante na vida de D. Afonso IV. Poderá não ter sido alheia a esta invulgar castidade do rei o exemplo do casamento de seus pais. 189). bem como as crónicas. a amizade e. “Para una historia social (…)”. Beatriz nestes conflitos familiares as fontes documentais. intervindo como pacificadora e conciliadora nos conflitos e lutas. com a morte de D. Infelizmente. acusando-o de tentativa de envenenamento e da pretensão de usurpar o trono. tendo sido marcado por conflitos. Dinis e a rainha D. Quanto a D. Isabel. o cuando reciben regalos uno de otros. são omissas em informação. Afonso Sanches e D. 333 332 Bernardo Vasconcelos e Sousa. Afonso Sanches. empenhando-se convicta e profundamente na resolução de problemas que. intervindo. em alguns deles. 102 . principalmente com D. no qual as barregãs e os inúmeros irmãos e irmãs bastardos conviveram e foram criados na corte junto da rainha e do próprio infante herdeiro.” (Reyna Psastor de Togneri. p. “(…) comieza a desarrollarse a partir de los siete años. Tendo surgido o conflito bélico entre estes dois irmãos.

“Las mujeres y su ámbito de desarrollo: parentesco y familia en las obras Alfonsíes”. Beatriz terá convivido com a corte literária de seu pai. o Sábio. as pequenas infantas eram preparadas para casar fora do reino. Era sobretudo na esfera “privada” que se manifestavam os grandes sentimentos essenciais do indivíduo. Por regra. A sociedade medieval (…). 1. Esta formação cultural de uma princesa não era igual à das outras crianças. Beatriz era necessário cuidar da sua educação.org. uma relação semi-“privada” e semi-“pública”. boas rainhas. Isabel Nas linhas que se seguem tentaremos traçar o tipo de ligação afectiva que existia entre D. 2008. Foi este monarca que impulsionou os estudos universitários em “Sin lugar a dudas. Beatriz. a tristeza … Infelizmente. embora esta não fosse tão esplendorosa como a de D. que o meio privado era o local privilegiado para expressar o sentir de cada um. Sancho IV teve um papel muito importante no estímulo da cultura do seu reino. Beatriz e a sua sogra. 103 . a sua educação começou em Castela e terminou no reino de Portugal. No caso de D. a infanta D. Isabel334. músicos. e também devido à posição social ocupada por ambas. 16. tornava-se essencial receber toda a preparação para serem boas princesas e. acedido em 06/01/2010. essas atitudes eram representadas de acordo com o estabelecido pela norma social ou com o que a sociedade esperava das consortes.2. D. in http://www.php?script=sci_arttext&pid=S032750942008000100005&lng=es&nrm=iso. Sabemos. no entanto. Mais dificilmente narra como se ama. tais como o medo. as afinidades intelectuais. que era simultaneamente. astrónomos. p. Afonso X. a documentação coeva não nos deixou nenhum relato directo sobre os afectos existentes entre estas duas mulheres335. una de las principales estructuras vertebradoras de la sociedad medieval fue el sistema de parentesco” (Laura Quiroga. onde se vive. Enquanto viveu com os seus progenitores. a rainha D. médicos.ar/scielo. às vezes o que se come.” (in A. a alegria. vol. Após o nascimento da infanta D. de Oliveira Marques. 105). Circulavam pela corte castelhana historiadores. em que os respectivos comportamentos se desenrolavam num âmbito social muito específico. Tal como o rei Sábio. Muitas vezes.IV. 335 334 “Regista a história o que se veste.1. deste modo. p. in Temas medievales [online]. pintores.scielo. poetas e trovadores tanto castelhanos como portugueses. Afonso X. – A mulher: relação com a rainha D. D. também D. posteriormente. H. Sancho IV herdou de seu pai.

No entanto. esta função deverá ter sido desempenhada pela rainha D. la reina se ocupa de ellos. As damas e as rainhas eram consideradas “protectoras credenciadas dos jovens criados na corte. neste caso do marido. 246. Beatriz veio. fl. mas também dos bastardos de D. 501. Dinis338. Beatriz devia ser educada na corte régia. Ao chegar às terras lusas. assim. oportunamente. através do matrimónio. Isabel de Aragon – reina de Portugal. Diputación Provincial / Institución “Fernando el Católico”. 338 104 . posteriormente. Isabel337 que lhe terá transmitido não só toda a educação que devia ter uma futura rainha. A mulher solteira era. 61). esta ficava submetida a uma estreita tutela e protecção de seus parentes. Após a assinatura do acordo de casamento. a situação de solteira podia ser considerada como breve e transitória porque a mulher ocupava uma importante função no estabelecimento e consolidação de alianças. V. esta infanta teria sido criada na corte dionisina pelos seus futuros sogros. fl. mas também os costumes do seu novo país. Beatriz viveu os seus primeiros anos de vida. ML. estando o monarca mais preocupado com a governação do reino. Zaragoza. neste ambiente muito estimulante a nível cultural que D. quase sempre. com cerca de três ou quatro anos. Foi. reciben las dotaciones económicas que corresponden a su regia estirpe y garantizan su subsistencia. em Alcalá. VI. assim como os valores e as tradições familiares. Sabemos que D. 336 ML. tanto políticas como militares. a infanta D. para o seu novo reino acompanhada por Rui Martins de Sandim336. Como filha. Todavia. 337 “Esta situación de públicas y repetidas infidelidades por parte de don Dionís. Por regra. neta e futura mulher de reis a infanta D. na maioria parentes próximos do senhor e que elas deviam por essa razão amimar e lisonjear.Salamanca e em Valladolid e. uma desconhecida para a história da sua linhagem porque se encontrava relegada para um meio essencialmente doméstico. Isabel se dedicou à educação dos seus filhos. A crescente afirmação da linha primogénita varonil na sucessão do património familiar resultava sempre num relegar da mulher para um plano secundário na ordem da sucessão. no comporta una actitud de violencia legal ni moral: los niños bastardos son educados cerca del padre.” (Angel San Vicente Pino. 1971. O casamento era sempre concertado pelos seus pais ou seus tutores e significava a entrada para uma outra forma de dependência. p.

343. Anos mais tarde. mas temos notícia de duas que devem ter acompanhado o seu crescimento e que poderão ter desempenhado um papel muito marcante e importante na sua formação e educação. p. Esta é a única informação que temos sobre a relação existente com esta dama (ML. I. natural de Toledo e criada da infanta340. 384 (dissertação de Doutoramento policopiada). Maria Helena da Cruz Coelho e Leontina Ventura. filho de João Gil de Soverosa. Coimbra. foi esta dama que acompanhou D. Martim Eanes. IDEM. vol. José Augusto Pizarro. p. Linhagens medievais (…). 84. sine proprio. “O modelo cortês”. encarregada da supervisão e cuidado diário da criança. 178. já na vida adulta. p. O séquito que se formou em torno da Rainha Santa estava em íntima relação com a soberana. 341 340 Segundo Francisco Brandão esta dama foi casada com Lourenço Martins do Avelar (ML. filha de D. “Vataça uma dona (…)”. 105 . Beatriz. Beatriz. Assim. Por isso. As jovens de mais elevada categoria social conheciam ainda a figura da aia. XIII e XIV). “Os bens de Vataça (…)”. D.elas apareciam-lhes como a substituta da mãe de quem tinham sido brutalmente arrancados ao sairem da infância”339 (durante a Idade Média a infância era o período que decorria entre o nascimento e os sete anos). vejam-se os trabalhos de Sebastião Antunes Rodrigues. sua colaça341. 1958. Coimbra Editora. pp. Sabemos que possivelmente terá sido a terceira mulher de D. p. não raramente. de Georges Duby e Michelle Perrot. fl. 1993. de certo. 30). p. sub clausura: A Ordem de Santa Clara em Portugal (séculos. A sua ligação vem desde Aragão. como futura rainha de Castela. vol. dir. 2011. De todas as outras mulheres que gravitavam em torno de D. ficando a ser sua camareira-mor. Beatriz Eanes. a que se estabelecia entre a aia e a sua educanda. In oboedientia. V. uma educação mais cuidada que lhe seria útil para acompanhar o seu marido nas funções de governante do reino. Beatriz trouxe consigo. 159-193. encontramos nobres damas como D. 258v). esta era uma ligação muito forte. Lisboa. Círculo de Leitores. Nas classes privilegiadas. Muitas vezes. Rainha Santa. que vieram para Portugal com a infanta D. as aias acompanhavam as suas discípulas. Constança. conde de Barcelos (ML. Lisboa. que funcionava como uma segunda mãe e se encarregava da sua formação. não considerando a existência de um casamento formal entre os dois). No entanto. V. Uma futura rainha teria. terminada a educação e. Cartas inéditas e outros documentos. casando depois com D. Maria Ximenes 339 Georges Duby. Vataça. 190. Era filha do conde de Ventemilha e neta do imperador do Oriente Teodoro Lascaro II. Isabel. Desconhecemos as damas que D. Estamos a falar de D. Sobre D. para cuidar das crianças. in História das mulheres no Ocidente. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Pedro Afonso. uma vez que D. Joana Gonçalves Redonda343. Isabel. p. II – A Idade Média. existia a ama. e de D. Isabel. p. 342 Esta mulher pertencia à alta nobreza e era da inteira confiança de D. V. não podemos olvidar o papel desempenhado por D. bem como o das damas que andavam na corte desta rainha. et in castitate. 33-77. refere que este casal apenas viveu maritalmente. 180-182. Teresa Eanes. Vataça a acompanhou como aia. Maria Filomena Andrade. Vataça342.

Isabel de Aragão (…)). entre outras. Beatriz. Poderemos também acreditar que. vol. Constança Martins347. p. Maria Filomena Andrade.Coronel344. Estevainha Martins346. Estes ensinamentos visavam não só iniciar a Esta dama era filha de Gonçalo Anes Redondo e da sua segunda mulher. “Alguns documentos respeitantes a D. Camareira da Rainha Santa Isabel (Sebastião Antunes Rodrigues. A corte dionisina foi um local de elevada cultura patrocinada pelo monarca. pp. mas agora dentro dos muros do Convento de Santa Clara de Coimbra. pp. Após a morte de D. Sebastião Antunes Rodrigues. pode revelar-nos a esmerada educação que teve a nossa infanta. a formação de D. À luz dos dias de hoje este saber pode parecer-nos pouco extraordinário. 384. 345 344 343 Irmã de leite da rainha. Isabel (Dezembro de 1327) (Sebastião Antunes Rodrigues. (…). Isabel. p. Rainha Santa. também a infanta D. 346 347 Filha do aragonês Raimundo de Cardona e de D. Isabel. uma vez que encontramos a consorte afonsina a legar-lhe bens em testamento (QUADRO I). A educação feminina tinha um grande cunho de formação religiosa. Rainha Santa (…). p. Pedro (…)”. a rainha D. (…). Urraca Vasques. Fernando Félix Lopes. Dinis. Porém. A relação de D. Dinis. mas na época medieval. um mundo onde a maioria das pessoas era iletrada. 626-628). Rainha Santa. mas também se dedicando à leitura de obras de espiritualidade. e irmã da primeira abadessa do Convento de Santa Clara de Coimbra. Esta dama é de origem aragonesa e veio para Portugal na companhia da Rainha Santa. Lisboa. Estevainha Martins. faleceu antes da data do segundo testamento de D. 223-238). Maria Martins. 86. do qual não teve descendência (Sebastião Antunes Rodrigues. Pedro. I. Isabel de Cardona348. (…). Rainha Santa. Maria Filomena Andrade. Marquesa Rodrigues345. pp. p. (…). 190. Rainha Santa. Beatriz com esta abadessa deverá ter-se mantido para além da morte da rainha D. José Augusto Pizarro. 383). In oboedientia (…). Como princesa católica e educada por uma rainha extremamente devota. 87). Isabel de Aragão: biografia da Rainha Santa. para além de aprenderem os labores de costura e de bem falar. Neste campo. deverá ter tido o acompanhamento de alguns membros eclesiásticos. irmã bastarda de D. bastardo de D. Veio de Aragão com a rainha sua tia. 86-87. Foi segunda mulher do conde D. Maria Gonçalves Redonda (1317-1328) (Cf. pp. Urraca Fernandes d’Andrade. Foram elas: Marquesa Rodrigues. In oboedientia (…). p. Deve ter vindo de Aragão com a Rainha Santa e foi sua colaça. Maria Filomena Andrade. tal como D. Maria Eanes. 2008). Isabel. 383 e 639-642). Esta dama foi Abadessa do Convento de Santa Clara de Coimbra (Sebastião Antunes Rodrigues. Linhagens medievais (…). Ésquilo. Camareira da Rainha Santa (Conde de Moucheron. Constança Martins. Conde de Moucheron. In oboedientia (…). Beatriz passou certamente pela via religiosa. 86. Joana Peres (Cf. eram também ministrados os ensinamentos religiosos. Beatriz deveria saber ler e rezar o ofício divino. p. 86. Isabel decidiu tomar o hábito de clarissa e algumas destas mulheres acompanharam-na como aias e damas da sua “Casa”349. 349 348 106 .

apelidando a infanta de “discípula”353 da futura sogra. 258. que explicaban como resultado natural del pecado de Eva. 350 “Las mujeres para quienes la cultura es sólo instrumento de su proprio perfeccionamiento espiritual” (María Carmen Pallares Mendez. V. assim nos é referido que “Muchas damas de la nobleza portuguesa imitaram esta laboriosa entrega a la caridad. Santa Isabel de Aragón. in Relaciones de poder. mas acima de tudo incutir-lhe valores essenciais de uma boa mulher e mãe. fl. Beatriz terá passado. Neste último registo historiográfico. afirma que a rainha D. Francisco Brandão. tivemos de consultar não só as diversas crónicas. Esta tinha um lugar importante na sociedade medieval não só pelo uso constante que se fazia dela na liturgia. Fr. pelas leituras religiosas e restantes boas práticas de devoção. perante a ausência de informações na documentação coeva. Madrid. Isabel era considerada um exemplo a seguir por muitas damas da nobreza do seu tempo.jovem Beatriz no catolicismo. pelo inculcar do ideal feminino de passividade e submissão aos seus criadores e ao seu marido351. p.” (Magaret Wade Labarge. à jovem infanta devem ter sido ministrados ensinamentos de música. Beatriz352. Isabel e D. mas também na vida palaciana e na corte de D. 356). A principal responsabilidade materna. de producción y parentesco en la Edad Media y Moderna. fl. Isabel deve ter ensinado à infanta a leitura do Livro das Horas com o objectivo de gravar na jovem mente o espírito de justiça e pobreza. Todas estas práticas deveriam ser acompanhadas pela assistência à missa diária juntamente com a rainha. também certamente. o seu autor. infanta y reina de 353 352 107 . “Las mujeres en la sociedad gallega bajomedieval”. Consejo Superior de Investigaciones Científicas. mas também a Monarquia Lusitana para encontrar informações dispersas e muito parcas sobre a relação existente entre a D. ML. Aproximación a su estudio. Dinis gravitaram os mais prestigiados trovadores da sua época. Beatriz. A educação de D. princípio de la comprensión humana y base de la paz social deseada por el pueblo. 351 A mesma informação é veiculada na “Relaçam da vida da gloriosa Santa Isabel de Portugal”. A rainha D. Enfatiza ainda o mesmo autor que a futura consorte apreendeu muito bem os bons exemplos e ensinamentos de sua sogra. Assim. assegurava os deveres para com Deus. “La concepción de la mujer de los pensadores medievales se basava en su fácil aceptación de la inferioridad de la misma. que neste caso concreto era desempenhada pela rainha D. VI. Além da leitura. in ML. como fossem a compaixão e o amor maternal350. D. 501. p.” (Vicente Gonzalez Hernández. 1990. através do respeito das horas de oração. Isabel “recolheu. e criou em sua casa” a pequena infanta D. 50). Neste contexto. La mujer en la (…). Isabel.

In oboedientia (…). ao mesmo tempo que era solicitado o castigo das respectivas faltas com um misto de doçura e rigor. Sempre que se deslocava a Coimbra. sabemos que a infanta D. p. Assim. VI. no entanto. Todavia. Realiza pois todo um conjunto de acções. p. Aqui. as práticas religiosas. A partir do momento em que a jovem Beatriz foi entregue a D. próprias de uma rainha que vela pelo seu povo. Deste modo. Beatriz acompanhava com frequência D. fl. a acompanhava no refeitório do dito convento. Isabel como uma pessoa excepcionalmente dedicada aos assuntos religiosos. Teorema. não há nenhum registo na documentação do Convento de Santa Clara de Coimbra que corrobore as palavras do autor da Monarquia Lusitana. p. as orações e os rituais sacralizados. Nota-se. Francisco Brandão. Beatriz. como um jogo. “Durante o período em que D. existe um grande desfasamento com as informações compulsadas na documentação coeva. ambas as mulheres iam à cozinha ”por as iguarias que a comer as Donas apresentauão ante ellas”356. Isabel. 356 ML. A criança na sociedade medieval portuguesa. fazendo-lhes aprender. 516. 355 354 ML. VI. 358 357 108 . sem sair do lar deveria assim moldar a alma dos filhos. Beatriz. 263. ML. 1971. VI. que a mensagem veiculada na Monarquia Lusitana corresponde ao estereótipo das virtudes inerentes à condição de qualquer rainha. Ambas eram acompanhadas Portugal (historia de su vida y de su tiempo). fl. que reforçou a imagem da rainha D. Isabel nos exercícios de piedade. mas também o hábito de frequentar de templos e espaços sagrados354. (Quero agradecer à Doutora Maria Filomena Andrade as informações partilhadas sobre este assunto). O que encontramos é um enorme vazio relativamente à pessoa da infanta e depois rainha D. Zaragoza. são conhecidas as suas obras de caridade e a humildade com que auxilia os necessitados e acorre aos pobres e doentes. assistiam ambas com as freiras de Santa Clara de Coimbra aos ofícios e D. 143).” (in Maria Filomena Andrade. e praticavam as suas acções com muita humildade358. apoia a pobreza envergonhada. Maria de Molina no seu papel e função maternal. muitas vezes. Como afirmámos. Assim. Dinis é vivo. 263. a consorte dionisina terá transmitido à sua discípula os gestos. foi esse o relato deixado por Fr. 381). Seguindo ainda as palavras daquele autor355. “A mãe. após as obras de conclusão. Caja de Ahorros y Monte de Piedad de Zaragoza. Funda hospitais. 47).Uma das principais funções educativas de uma mãe era o ensinamento da fé cristã. fl. os órfãos e as mulheres caídas em desgraça. Beatriz que o autor pretendeu transmitir. especialmente o mais pobre e necessitado. era a rainha D. Isabel acompanhada pela nora. “sua companheira nestes exercícios de piedade”357. esta substituiu D. Esta é a imagem de D. para que as suas crianças gradualmente se transformassem em pequenos ministros do culto doméstico” (in Ana Rodrigues Oliveira. 2007. Lisboa.

469. verificamos que foi ao filho. Os infantes encontravam-se em Leiria. p. Afrontamento. e à sua mulher. Aspectos rituais e atitudes perante a morte”. n. “A morte régia em Portugal na Idade Média. Num campo mais familiar e íntimo. no ano de 1324. Todavia. D. Nos conventos medievais as mulheres mais velhas. in Cadernos do Noroeste. in História das mulheres no ocidente. pp. VI. a infanta D. quando o rei D. encarnavam um modelo exemplar para as outras mulheres e podiam também assumir um papel de ensinamento e de correcção360. Aos sete anos de idade iniciava-se uma nova etapa que se prolongava até aos doze ou catorze e que se denominava por adolescentia. 265. I – A Idade Média. Porto. perante uma educação de âmbito privado. Beatriz como “seminarios de virtude. 1993.” (Elisa Maria Domingues da Costa Carvalho. fl. quando teria catorze anos.pelas suas donzelas e donas sempre que se deslocavam ao referido convento. Dinis conheceu um agravamento do seu estado de saúde. O casamento desta infanta realizou-se na Sé de Lisboa. 243). Neste 359 ML. assim. fl. A instrução das jovens aristocratas durante a Idade Média era uma actividade circunscrita ao âmbito familiar e ao grupo reduzido que era formado por sua mãe e respectivas camareiras ou criadas. onde um grande número de religiosas não passou pelo noviciado no modo de viver.º2. quem a rainha D. Carla Casagrande. Este era um período de estudo e educação em que se aprendia a ler e a escrever. e boa criação de donzelas”. Classifica Fr. Ele encarregar-se-á de satisfazer as vontades régias e de tratar das exéquias como cumpria. “A presença do herdeiro e sucessor do rei morto é de todas a mais confortante. porque uma grande parte das religiosas que habitavam no convento de Santa Clara de Coimbra saíram das casas destas rainhas. Beatriz. Mas o velho monarca pretendia também ver a nora361. 104-105. 109 . Isabel mandou chamar. o rei moribundo “algum aliuio que teue foi ver dahi a poucos dias a Infanta sua nora”362. Perante a angústia e a inquietação por o seu pai se recolher à cama. VI. 362 361 360 ML. Francisco Brandão as casas de D. “A mulher sob custódia”. Afonso. Isabel e D. pois tinham já aprendido as boas práticas religiosas359. 1996. consideradas prudentes e virtuosas. vol. Estamos. o jovem herdeiro da coroa partiu ao encontro do progenitor. 9. vol. em 1309. Iniciava-se nesse momento a fase de maturação na qual se colocavam em prática todos os ensinamentos recebidos nos anos transactos.

I. T. Lisboa. E. pp. p. 278). falecida ainda criança. a rainha D. Acto de independência em relação ao marido. que os mais próximos se uniram procurando a harmonia. Afonso IV denominam-se “vossos [da rainha D. decide ainda a rainha fixar a sua última morada. Beatriz e D. mais nitidamente do que hoje.momento trágico. Beatriz e pelas suas netas365. Apesar do carácter lacónico das fontes no que toca a aspectos mais íntimos. ML. “A célula privada. Isabel decidiu viver o seu estado de viuvez em total recolhimento no Convento de Santa Clara de Coimbra. In oboedientia (…). Dinis. Beatriz363. 152. II. tais como coroas. António de Vasconcelos. podemos perceber como a relação entre estas duas mulheres era baseada numa grande estima. No cenóbio conimbricense. No entanto. entregando-se. de 1891-1894. Afonso IV]. que era simultaneamente rei de Portugal. às orações daquelas com quem viveu. T. um sentimento que se estende aos primos e aos amigos. entregando-se. “No mosteiro que funda. matriz da vida interior” in História da vida privada. 385). enfim – justamente por este motivo – activo e eficaz. 514. um sentimento. entre eles o mordomo-mor. Dona Isabel de Aragão (a rainha Santa). facsimilada da ed. afecto temperado desse toque particular que dele faz. fl. amizade e certamente algum carinho e amor parental. uma vez que é como “minha filha” que a rainha D. Gonçalo Peres Ribeiro e a sua mulher. D. VI. mandou distribui-las pela rainha D. 148-150. e um conjunto apreciável dos seus servidores. à vida religiosa364. II.” (in Maria Filomena Andrade. 367 110 . ressalta não só a estima e o afecto que os monarcas nutriam por D.. Constança. II – Da Europa feudal ao Renascimento. mas também o apertar dos laços da solidariedade privada. D. Para tal. Liv. o âmago das solidariedades privadas. Beatriz e D. PHGCRP. na morte.” (in Charles de La Roncière. mas também o reforço da união familiar ante o desgosto da perda próxima de um ente querido. p. no que se refere aos objectos de maior valor. vol. Beatriz como guardiã das suas últimas “Apesar das zangas e dos inúmeros malogros do espírito de linhagem. Liv. deste modo e de uma forma exclusiva. 1993. A rainha Santa nomeou D. mandou alterar alguns dos seus bens móveis (por exemplo. vol. são também sepultados a sua neta Isabel [filha de D. sepultado também ele no “seu” mosteiro de São Dinis de Odivelas. a família permanece o berço por excelência do afecto mútuo. Um ano após a morte de D. 1990. Universidade de Coimbra. I. e que consubstância uma atitude de afirmação de um panteão próprio. ed. Círculo de Leitores. dos panos de ouro e de seda mandou fazer vestimentas e ornamentos para a Igreja). 17-21. II.Coimbra. p. Foi perante o choque da morte do chefe da linhagem. D. por sua vez. 366 365 364 363 PHGCRP. pp. Isabel chama sempre à mulher de seu filho366. Isabel] filhos”367.

da santidade da sua morte e da abundância dos seus milagres.” (Elisa Maria Domingues da Costa Carvalho. D. II. Isabel retirou-se do mundo e enclausurou-se no Mosteiro de Santa Clara de Coimbra. 150. Isabel deslocou-se a Estremoz para procurar. em testamento. Afonso IV ao rei de Castela. “A memória da exemplaridade da vida de D. T. que tem as pedras furadas. Isabel nomeou como sua testamenteira e legou. p. a menina que ao chegar de Castela lhe terá sido entregue para criar e preparar para o seu papel de consorte do monarca. Estas referências a um sentimento muito mais profundo entre ambas as mulheres são as únicas que possuímos e são reveladoras de todo o carinho. a Rainha Santa adoeceu. e andaõ na cadea do ouro. p. ao vincular-se a uma vida religiosa. T. so o jaspe. II. Foi a esta que D. I. 522. a paz entre os dois monarcas371. estima e amor maternal que D. ML. Isabel afirmou ter criado a infanta D. Isabel. Liv. 369 370 Após a morte do rei D.” (in José Carlos Gimenez. 224). fl. Beatriz com D. Beatriz. Beatriz que se encontrava próxima da soberana doente372. uma vez que D. uma vez mais. D. II. p. Liv. datado de 1327368. chegada à vila alentejana. p. PHGCRP. Afonso IV. & os teixees das águias”370. Dinis. Isabel nutria pela rainha D. 156). Beatriz foi ter com a sua sogra para a tratar e confortar. I. o amargo desgosto da 368 PHGCRP. T. Isabel teve uma visão de uma senhora vestida de branco que percorria o seu quarto e contou a D. “Embora o carácter puramente religioso das acções da Rainha viúva tenha firmado e contribuído para realçar e eternizar seus traços de santidade é possível afirmar também. Após esta visão. tais como: “minha coroa pequena.vontades quando a declarou sua testemanteira no derradeiro testamento. a partir de 1336. Liv. PHGCRP. não abandonou por completo seus bens materiais e não se afastou dos assuntos políticos do reino. “A morte régia em Portugal (…)”. I. a outra. & a minha brocha redonda. Beatriz sentiu. opôs D. a rainha D. a rainha D. sua neta369. Sofrendo de uma maleita e num acesso de febre elevada. D. & a crux de ligno Domini que anda em tres pedras çafiras furadas e as relíquias que andaõ na coroa do ouro. 372 371 111 . foi esta a Estremoz. incorporando-se. na tradição recordatória da família real a memória dos seus antepassados. 150. A rainha Isabel nas estratégias políticas (…). 149. Daí saiu apenas duas vezes: uma quando efectuou a peregrinação a Santiago de Compostela e. Maria. Isabel cerrou os seus olhos para o sono eterno. p. que ela. & as outras religas de Saõ Bertolomeu que andaõ so o cristal. Ao saber do conflito que. VI. tal como já o havia feito D. Porém. objectos valiosos. E a relação entre ambas as mulheres deverá ter-se fortalecido ao longo dos anos. desta forma. Beatriz. atravessará todo o século XV. D. Este carinho terá sido posteriormente transferido para os netos nascidos do casamento de D.

Isabel procurou. as crónicas revelam-nos que a rainha D.º26. 375 374 373 112 . n. Pedro se revoltou contra o seu pai. Beatriz decalcou da sua mentora as atitudes e intervenções para salvaguardar e promover a paz. Beatriz terá sentido a angústia de uma solidão brutalmente imposta pela morte e pela dor da ausência. Isabel – estão incluídas na Relaçam da vida da gloriosa Santa Isabel Rainha de Portugal. era reconhecido um papel político às rainhas375. 542. in Anuario Filosofico. a 4 de Julho. A soberana envidou todos os esforços para promover e restaurar a paz no reino. considerada uma biografia hagiográfica da mulher de D. Beatriz quando. ter a missão de arbitragem deste conflito que opunha os exércitos do rei D. o infante D. em Barcelona. Dinis e escrita por alguém muito próximo da rainha (uma freira de Santa Clara ou o bispo D. comunicação apresentada no XIII Colóquio Internacional: La Historia de las mujeres: perspectivas actuales. Dinis e de D. não nos podemos esquecer que. A mesma atitude tomou a rainha D. tanto interna como externa. seu confessor). de um modo geral. Perante a morte daquela que ocupou desde os seus quatro anos de idade a função de mãe. D. Estávamos no ano de 1336. mas também a ordem pública. D.” (in Ana Rodrigues Oliveira. “Estudios jurídicos sobre el papel de la mujer en la Baja Edad Media”. As representações da mulher (…). 5. o infante herdeiro D. No entanto. Mercedes Galán. após o assassinato de D. Inês de Castro. 174). Ambas as narrativas – sobre as mortes de D. “Fernão Lopes e Rui de Pina pensaram e trabalharam a figura de Isabel como modelo da rainha de Portugal pós-Reconquista. “Isabel de Aragão: a construção de uma identidade”. A sua canonização foi realizada em 1625. que se realizou de 19 a 21 de Outubro de 2006. o carácter apologético e a glorificação das virtudes de uma consorte que se pretendia exaltar como uma fiel Maria Filomena Andrade. por um lado. Foi graças ao papel mediador desta consorte que as hostilidades terminaram e a paz entre pai e filho foi restabelecida. organizado pela Asociación de Investigación de Historia de las mujeres. p. deste modo.perda de um familiar. nos acontecimentos relativos à guerra civil de 1319-1324. Dinis às hostes do filho rebelde. em Estremoz. 1993. Todos estes relatos relembram-nos. pelo Papa Urbano VIII. Segundo Ana Rodrigues Oliveira. Afonso. Isabel é já considerada “como beata e prepara a canonização que ocorrerá séculos mais tarde”373. a imagem de uma soberana pacífica e conciliadora que procurava o bem estar do reino374. p. enfatizando. Aqui. Podemos inferir deste relato que D. Como já tivemos oportunidade de analisar nas páginas anteriores. p. Salvado.

Como podemos verificar. considerados próprios da condição feminina. com a mulher santa. os tabeliães. por outro. Por outro lado. mesmo não sendo familiares consanguíneos. Isabel aliava a “excelência do nascimento à nobreza da virtude. 2). face à sociedade de então”. De uma maneira geral. e. As fontes deixam também transparecer a existência de um ambiente de concórdia e de profunda amizade entre estas duas mulheres.seguidora da rainha Santa Isabel376. Isabel. como já tivemos oportunidade de afirmar. Talvez devido ao facto de ter sido educada e criada por D. a cronística deixou-nos uma imagem de D. p. Beatriz decalcada da consorte sua sogra. eram responsáveis pela “criação” de uma futura rainha. os feitiços … 377 376 113 . Isabel. a mulher era considerada um ser fraco e inferior ao homem. mas nunca lhe atribuindo a profundidade espiritual e a santidade de D. constituem exempla em toda a Europa (especialmente na Hungria e na França) e que associam ao poder político e social uma virtus que as coloca em situação privilegiada. Numa sociedade marcadamente patriarcal. é através do seu olhar filtrado também por aquilo que pensavam. tal como era a da Idade Média portuguesa. de obediência e de veneração pelos progenitores (neste caso. que vislumbramos a mulher medieval. como modelos de perfeição. a norma definia um grande respeito pelos progenitores. a luxúria. Isabel assumiu esse papel em relação a D. Uma rainha piedosa podia ser a fonte inspiradora de um verdadeiro e justo poder. sendo-lhes atribuídos diversos vícios e pecados. Beatriz). Beatriz estão relacionadas. pelas representações que transmitem o estereótipo da mulher santa ou pecadora377. Por um lado. (Maria Filomena Andrade. a imagem da mulher foi sempre a elaborada pelo imaginário masculino: os cronistas. D. todas elas. os artistas … praticamente todos eram homens. insere-se no conjunto de santas rainhas que. Na época em estudo. mas também pelos que. “Isabel de Aragão (…)”. desde o século V. não serão de somenos importância os valores de respeito. tais como a mentira. as diferentes imagens da rainha D. A rainha D.

tendiam a casar-se muito jovens. A maternidade era. de suma importância o papel desempenhado pela mulher378. revelando-se. Deste modo. o primeiro filho varão era aceite como o herdeiro legítimo do trono e do reino. da relação existente entre um homem e uma mulher casados deveria resultar descendência. dar à luz e criar os filhos era a função de todas as mulheres que não tivessem professado numa ordem religiosa. tienen un ascendiente común. 39-66. Deste modo. acarretando um outro grande risco para a mulher medieval: os partos. se privilegia la sucesión masculina sobre la femenina. p.3. “La maternidad en las obras alfonsíes: desde la concepción hasta el nacimiento de los hijos”. 2007.” (in Laura Quiroga. LXXXI. além de fiel. Como já referimos anteriormente. Ultrapassado o perigo de morte durante a infância e consumado o matrimónio. os anos de fertilidade eram muito elevados379. “A consciência social do risco do parto encontra-se bem traduzida no facto de se aconselhar a confissão e a comunhão às mulheres prestes a dar à luz. como as dificuldades sentidas pela medicina então praticada no lidar com imprevistos. por lo mismo. inerente à condição feminina. es decir. Casar. Um bom matrimónio deveria ser prolífico e uma boa esposa seria aquela que. pois.IV. p. “El linaje es un vínculo entre personas que comparten la misma sangre y que. Veja-se também: Laura Cecilia Quiroga. reflectindo.1. complicações e 380 114 . considerada a missão mais importante da consorte. uma vez que muitas mulheres morriam no parto ou das suas sequelas380. En segundo término. assegurando. tanto o predomínio de gravidezes prejudicadas por deficientes condições alimentares e sanitárias. O principal papel de uma rainha era o de garantir herdeiros. assim. Do matrimónio entre D. meros e úteis peões nestas negociações. Estes eram temidos. que tanto la descendencia como la ascendencia es de carácter agnaticio. uma vez que as suas damas tinham o costume de entregar as suas crianças a amas. assim. pp. vol. “Las mujeres y su ámbito (…)”. a transmissão do sangue real através da concepção de um varão cuja existência era considerada essencial para uma sucessão pacífica do poder para a geração seguinte. in Cuadernos de Historia de España. La mujer (…). o que reduzia o intervalo entre as possíveis gravidezes (Margaret Wade Labarge. 3). – A mãe No decorrer da Idade Média. era também fecunda. Parece hoje demonstrado como os partos de alto risco que provocavam a morte das parturientes faziam parte do quotidiano medieval. o matrimónio constituía o enquadramento legal e ético da reprodução. pois. no seio da realeza o complexo jogo de uniões matrimoniais iniciava-se muito cedo para garantir o reforço das alianças políticas e as infantas. 44). Esta era. 379 378 Este período era maior nas classes altas.

p. mas também o cuidar da sua prole384. que casou em 1328 com D. Pedro. mas faleceu um ano após o matrimónio [ESQUEMA GENEALÓGICO I]. rei de Castela. Joham. Pedro. Beatriz conseguiu sobreviver a estes momentos (a infância e os diversos partos) e assegurar não só a descendência da linhagem régia. que semdo moço. HGCRP. 148). Afonso II. sucedendo. 142). p. Dinis. rei de Aragão. Denys que naçeo e moreo em Samtarem. I. mas que morreu alguns meses mais tarde. a seu pai no trono de Portugal. T. caso a Igreja do Convento de Santa Clara. seu avoo. na infância ou na adolescência. Pedro (1320-1367). (…) E ouue mais a Jfamte Dª Lyanor. e jaz sepultado no Mosteyro de Sam Domymguos de Samtarem. Domingos de Santarém. dos quais só três sobreviveram. p. pelo que pouco podemos escrever nesse sentido. Pedro IV.” (in A. Isabel383 (1324) e D. p. Afonso que nasceu em 1315. sendo sepultado na Capela dos Reis. emergências que poderiam surgir durante o parto. D. imortalizada por Camões. moço de hum anno. faleçeo em Penela. A rainha D. 148). a igreja do primeiro convento de clarissas de Coimbra. Leonor (1328-1348). cazada com elReª D. E ouue a Jfamte Dª Maria que despois foy Raynha de Castela e Leão. na Capela dos Reys (…). deste nome o XIº de Castela (…). I. Afomso. E ouue mais ho Jfamte D. alguns anos mais tarde. e jaz sepultado no Mosteyro d Odivelas. H. Isabel mandou. T. algumas das 384 383 382 381 115 . que apos ele reynou. isso aconteceu. nascido a 12 de Janeiro de 1317. D. E apos ele ouve o Jfamte D. D. por último. “Rara se mostrava a família que não tivesse perdido um ou mais filhos de tenra idade. em 1327. p. A diferença numérica entre os filhos nados e os sobreviventes era bastante comum na sociedade medieva. nasciam D. Afomso. no Mosteiro de Alcobaça. Denys. q eu saya deste mundo ante que essa Igreja seja feita. Beatriz resultaram sete filhos. nasceram382: a formosíssima Maria (1313-1357). ou seja. João (1326). & assi he minha vontade de jazermos em a outra pois que for acimada“. 65). As fontes por nós compulsadas não fornecem detalhes sobre os primeiros anos de vida destes jovens infantes. que tambem faleçeo moço. 210). jumto com elRey D. D. D. e a grade. mandado instituir pela Santa Rainha. Nas Crónicas dos sete primeiros reis a sequência apresentada é a seguinte: “primeyramente: O Jfamte D. Conhecemos. deste nome o quymto. dos Reys d Araguam (…)” (in Crónicas dos sete primeiros reis. sepultar-se nesta Igreja. mas foi trasladada para o Convento de Santa Clara (Cf. A sociedade medieval (…). que casou com D. A criança na sociedade (…). exceptuando D. que nasceu em Coimbra e foi o único varão que sobreviveu. uma vez que a mortalidade infantil era muito elevada381. contudo.” (in Ana Rodrigues Oliveira. que terão ambos falecido em 1326. assim. mas terá falecido poucos meses depois. e jaz sepultado em Alcobaça. não estivesse ainda concluído. de Oliveira Marques. E ouue o Jfamte D. (in HGCRP. encontrando-se sepultado em S. A todos os monarcas portugueses.Afonso IV e D. “e se acontecer. mandome em tanto deitar em o coro da outra Igreja velha acima da Ifante Dona Isabel minha neta de guisa que fique ella antre mi. Afonso XI. Esta Infanta encontrava-se sepultada no coro da “Igreja velha”. que foy Raynha d Araguam. Sequencialmente. casada com elRey D. Assim.

Deste modo. Nesse momento. Afonso X. “Uma tal tarefa teria como auxiliares os jogos e os passatempos desenvolvidos pelas raparigas em torno dos brinquedos que reproduziam bonecas ou miniaturas de louça de cozinha e de mesa (…). as raparigas eram normas da sociedade medieval no que concerne ao tratamento das suas crianças. As mães detinham a missão de educar as crianças pequenas387. seriam. Afonso levou D. mas também como fonte de amor. não descurando a instrução na fé cristã.” (in Reyna Pastor de Togneri. quando soube que o iffante levava a molher e filhos fora do regno” (in Crónica de 1419. À progenitora competia também uma presença mais constante na educação das filhas. transmitindo-lhes todos os saberes e qualidades essenciais ao desempenho das suas futuras funções de esposas e mães389. com o incitamento à aprendizagem dos gestos. no estudo que efectuou para Castela. A jovem infanta e os seus filhos. Beatriz e os filhos para Alcañices386. por exemplo. O que se entendia da função de ser mãe? Existia amor pelos filhos. A criança na sociedade (…). o Sábio. É necessário esperar pelo momento de negociação dos diferentes casamentos para termos algumas informações sobre os filhos de D. ficavam. ao mesmo tempo que 389 388 387 386 116 . Os legumes a ferver na panela. verificando os conteúdos ensinados. p. “La obligación y el derecho de criar a los hijos hasta los tres años de edad corresponde a la madre. ou da confecção de um arroz de noz. que estaba ja em Santarem. Nas louças. “O pedagogo Raimun do Lúlio aconselhava mesmo as mães a aproveitar todos os tempos e momentos das ocupações domésticas para difundirem a fé cristã junto dos seus filhos. o infante D. “Para una historia social de la mujer (…)”. propícios a fazer as crianças rezar. o denominado amor materno? Reyna Pastor385. assim como o infante herdeiro. as meninas certamente imitariam os gestos culinários das mães. Dinis]. de afecto e de honra.Seria ainda atribuição da rainha a educação dos seus filhos. durante a guerra civil e antes do inicio de mais uma batalha. “Para una historia social de la mujer (…)”.187-214. concluiu que foi no tempo do rei D. respectivamente. a progenitora vigiava o ensino prestado por aqueles homens. protegidos contra qualquer eventualidade que pudesse ocorrer num cenário de guerra. das orações e dos rituais religiosos que contribuíam para inserir a jovem criança numa sociedade fortemente marcada pelo cristianismo388. assim como as comunitárias. uma Avé-Maria ou um Miserere. mas também o seu comportamento moral. pp. Era ainda às mães que competia a função de transmitir aos filhos os valores e as tradições familiares. 385 Reyna Pastor de Togneri. p. por seu lado. 209). podiam fornecer a ocasião para lhes falar do inferno e o tempo de cozedura de um ovo. 143). Como referimos. deste modo. 195). que se começou a valorizar a maternidade não só como função reprodutora. sendo depois estas entregues à tutela de um aio ou de um mestre. p.” (in Ana Rodrigues Oliveira. “E el rey [D. Beatriz.

Não é nosso objectivo analisar minuciosamente o casamento dos três filhos de D. Com as bonecas. fazer ressaltar o papel da nossa consorte no âmbito dos diferentes acordos matrimoniais. o rei D. Foi após um momento de grande crispação entre o pai. Pretendemos. Afonso IV obteve uma Bula papal que dispensava os infantes D. assim. A criança na sociedade (…). Félix Lopes. o infante D. “Santa Isabel de Portugal (…)”. senão o único. Esses casamentos resultaram de longas negociações. Dinis. p. auxiliada pelos avós. A par da educação dos filhos. Félix Lopes. à luz dos modelos maternos familiarmente observados e comentados. uma vez que estas entravam para um reino que tanto se podia encontrar na posição de aliado como na de inimigo. 82. Numa boa educação também não poderia faltar a educação moral. No entanto. uma vez que esse estudo foi já efectuado por vários autores que serão citados ao longo destas linhas. “Santa Isabel de Portugal (…)”. citando o Código Alcobacense. 390 Ana Rodrigues Oliveira. D. este autor não apresenta as fontes de onde retirou esta informação. 393 392 117 . D. 391 Félix Lopes. pelo qual a progenitora era completamente responsável. criada entre os pais e os avós392. No desempenho desta sua função de educadora. independentemente até da sua própria moralidade”390. 145-146). muitas vezes. Beatriz e D. a mãe era. os modos. A criança na sociedade (…). Afonso. Porém. Afonso recusou confiar ao rei o seu filho (uma vez que pretendia criá-lo em Castela na casa do infante D. p. em 1317. p. ensaiariam. Pedro e D. A criança foi. Pedro). Mas se em ocasião de atrito com o seu pai. Dinis. Afonso IV com muito amor391. atitudes e cuidados a ter com os seus futuros filhos” (in Ana Rodrigues Oliveira. o principal. pp. tornava-se necessário tratar dos seus casamentos. que nasceu. Maria para receberiam exemplos e conselhos. A atitude que o rei assumia dependia sempre da conjuntura política. Beatriz393 reservou-lhes um papel relevante na consolidação das alianças com os reinos ibéricos através do matrimónio. Talvez com o objectivo de precaver situações de ilegitimidade das uniões. O futuro dos filhos sobreviventes de D. isso sim. e o filho. por fim acabou por corresponder aos desejos do monarca dionisino. o infante D. 87. estes apertados acordos não eram o garante da segurança das futuras rainhas. com a “fiscalização da sexualidade da filha apresenta-se como âmbito privilegiado da pedagogia materna.iniciadas nas artes da costura e da tecelagem. Beatriz. refere que o monarca dionisino ajudou a criar os filhos de D. 146.

Beatriz veja-se Ana Maria Rodrigues. pp. Fernando IV. numa situação de grande debilidade governativa e. pp. 39-59. Como forma de consolidar e reforçar os laços políticos e familiares entre as duas coroas. Após a celebração do casamento entre D. foi celebrado em Escalona395 um acordo entre os dois jovens monarcas. I. Afonso XI397. através do qual confirmavam todos os tratados estabelecidos pelos seus antecessores. Aillaud. vol. sep. a filha primogénita de D. Foi. que ficou como regente. unir-se-ia com D. 146-147). Constança ficou reclusa no castelo de Toro (Fortunato de Almeida. Maria com o rei de Castela. Pedro. casaria com D. deste modo. Afonso XI396 [ESQUEMA GENEALÓGICO I]. Sobre o casamento dos filhos de D. Afonso XI. datada de 18 de Fevereiro de 1325. 335-336. a rainha D. rei de Castela. XV. evitando. Este não foi o primeiro consórcio a ser negociado para 394 Esta bula. Como já refrimos. Afonso XI. O primeiro matrimónio realizado foi o que uniu a infanta D. 397 396 Teria treze meses de idade quando foi aclamado rei de Castela aquando da morte de D. Beatriz se tornaram reis de Portugal. Porém. Procurava-se providenciar não só a paz e a colaboração entre Portugal e Castela. João Manuel. encontra-se resumida em Visconde de Santarém. mas também obter sólidas alianças através dos casamentos entre os infantes. Maria. 1842. Relações político nobiliárquicas entre Portugal e Castela: o Tratado de Escalona (1328) ou dos “80 fidalgos”. uma vez mais. este casamento não chegou a ser consumado uma vez que o monarca repudiou a jovem em consequência de desentendimentos com o seu sogro. pp. procurou um entendimento com o novo rei português. deste modo. pp. Assim. II série. que se pensou. O jovem monarca castelhano encontrava-se. a infanta D. o clima político em Castela era marcado pela contestação da realeza e por grandes conflitos entre várias facções da nobreza. Maria de Molina. Afonso IV. T. Paris. o jovem infante D. 1998. ficou também previsto neste tratado a realização de casamentos entre membros das duas famílias reais através de uma troca de mulheres. sobrinha de D. em 1328. quando D. no casamento entre as duas coroas ibéricas. 118 . P. Foi sua avó. a infanta D. Quadro elementar das relações políticas e diplomáticas de Portugal com as diversas potências do mundo desde o princípio da monarchia portugueza até aos nossos dias. 1255-1277. por esse motivo. filha de D. 395 José Augusto Pizarro. Afonso IV ao sector nobiliárquico que contestava a coroa. Em 1325. Constança. IX. Maria e D.contraírem matrimónios com qualquer membro de uma casa real de quem fossem parentes até ao quarto grau de consanguinidade394. História de Portugal. com catorze anos assumiu o governo e firmou acordo de casamento com D. J. vol. D. “Infantas e rainhas (…)”. seu pai. Afonso e D. um possível apoio de D. da Revista da Faculdade de Letras – História. Branca. assim. e o herdeiro do trono português. Ou seja.

D. com receio de aumentar o poder de D. de Oliveira Marques. Assim. descendente de um ramo primogénito da casa real castelhana afastado da sucessão. Afonso XI reinou num clima de intriga palaciana e de forte reacção senhorial. Porém. Aguilar Editor. João I com D. “a gradual emergência do reino inglês como grande potência militar caracterizou a história europeia de Duzentos e Trezentos. 111. era um importante e poderoso chefe nobiliárquico que agregava junto de si a facção mais influente e descontente da nobreza do reino castelhano. p. Devido ao facto da infanta ser ainda uma criança. D.cada um dos nubentes. em 1325-1326. foi necessário esperar os anos necessários para a realização das bodas e a consequente consumação do matrimónio. de modo algum hesitou em romper os acordos estabelecidos com D. Segundo A. Constança Manuel. T. Nova história de Portugal.” (in Enrique Florez de Setien. que tinha atingido a maioridade há pouco tempo. vol. João Manuel.” (A. Com o objectivo de estabelecer uma aliança de perpétua amizade entre a casa real portuguesa e a inglesa. Afonso IV (…)”. logo no início do seu reinado. contudo. Madrid. Maria Margarida Lalanda. Será preciso esperar cerca de sessenta anos para se ver concretizada uma aliança com a Inglaterra através do casamento de D. Constança Manuel. João Manuel. em Castela. Este nobre. sino por la precisión de cortar la prejudicial alianza del padre contra el rey. vol. acima de tudo. O jovem monarca. Afonso XI não oscilou em estabelecer uma aliança mais valiosa e importante com o vizinho reino de Portugal. A união da portuguesa D. IV. Nova História de Portugal. Afonso IV de Aragão e. IV. de Oliveira Marques. 400 399 398 119 . H. Beatriz. estas negociações não resultaram398. p. via nesta ligação matrimonial um meio de impedir o seu tio de estabelecer alianças que pudessem ser danosas para a coroa. D. consequentemente. Eduardo III. No entanto. poderoso duque de Penafiel e viúvo de uma irmã de D. se valió de tan buena conyutura para repetir la instancia de que tomase por mujer a su hija doña María. Memorias de las reinas católicas de España. Porém. porque o jovem Eduardo encontrava-se já comprometido com a irmã do rei de Castela. filha do seu tio D. 319). 1945. II. p. Afonso IV encetara negociações. H. o rei D. p. H. Filipa de Lencastre. de Oliveira Marques. filha única de um dos seus principais opositores. o rei decidiu não contrair o casamento já contratado. Afonso XI necessitava de afirmar e consolidar o seu poder e. Maria com o O objectivo de efectivar esta aliança era tão veemente que o monarca enviou a Inglaterra uma embaixada com o almirante Manuel Pessanha e o Mestre Rodrigo Domingues que. regressaram a Portugal sem nenhum acordo estabelecido. D. As suas vitórias no longo conflito armado com a França [a Guerra dos Cem Anos] elevaram-no à categoria de aliado ideal para qualquer Estado mais fraco. com o objectivo de apaziguar estas inimizades estabeleceu acordo de matrimónio com D. João Manuel. D. Perante este repúdio e. E. Afonso XI tivera o matrimónio acertado com D. Por seu lado. “A política externa de D. talvez. D. enviando embaixadores incumbidos de propor a união da infanta primogénita com o futuro herdeiro da coroa inglesa. João Manuel. “Como el rey de Portugal conoció las disensiones del nuestro com su suegro y que el rey no había consumado el matrimonio com doña Constanza. M. Veja-se A. sobrinha da rainha Santa Isabel. o seu lugar no trono399. Don Alfonso tenía a sua favor que el desposorio com la hija de don Juan Manuel no fué por elección espontánea. Constança Manuel. para evitar as represálias por parte de D. Constança ficou como prisioneira em Toro. Foi depois disto que o monarca castelhano estabeleceu acordo com a filha mais velha de D. 497. 129). alegando o grau de parentesco que o unia à sua prima direita400.

primos-coirmãos. evitaba posibles fugas de partidários del infante al outro lado de la frontera. 47). A manceba assegurou na corte uma posição de enorme influência: “era Leonor de Gusmán que acompanhava o rei nas suas deslocações e campanhas militares. é bem eloquente acerca da importância que as duas coroas atribuíam ao consórcio. repudiada pelo monarca castelhano sob o pretexto do parentesco demasiado próximo que unia os dois nubentes. 355-377. após o casamento. p. Maria como sua esposa.” (in Ana Maria Rdrigues. 205). Constança. A decisão das duas coroas se unirem e selarem os acordos foi materializada pelo contrato de casamento estabelecido. D. essa ligação parental não constituía um obstáculo que uma dispensa pontifícia não contornasse. Fernando. irmã de D. Afonso XI era filho de D. Por su parte Alfonso XI conseguía también un poderoso aliado. “Infantas e rainhas (…)”. 190). Afonso IV. D. Afonso IV. a 17 de Dezembro de 1327. principalmente na luta contra os muçulmanos401. Ficaria. Leonor de Gusmão.monarca castelhano representava. pois um monarca que repudiara uma noiva para casar com outra poderia sentir-se tentado a repetir o acto404. Afonso IV. inviabilizado o receio de um abandono. en la guarda y defensa del tráfico cristiano del Estrecho y sus bordes limítrofes” (in Manuel Garcia Fernandez. 17. Dispunha-se também a ajudar o rei seu sogro. mesmo que a necessária dispensa relativa ao parentesco não fosse concedida pelo Papa403. Maria eram duplamente primos-coirmãos e. Constança.” (in Bernardo Vasconcelos e Sousa. antes resultando da provável intervenção da Rainha Santa nessa matéria. Como não é “Alfonso IV obtenia el apoyo de un aliado acepcional para la guerra civil contra su hermanastro don Alfonso Sanchez. perante a lei canónica vigente na época. mais um meio para assegurar a colaboração ibérica que vinha sendo estabelecida entre os dois reinos peninsulares. pois D. O rei castelhano comprometia-se a tomar solenemente D. con una flota prestigiosa. D. era ela que o aconselhava e o substituía junto dos oficiais do conselho. entre os dois soberanos. irmão de D. n. uma vez que. uma vez que o parentesco que unia os jovens infantes era exactamente o mesmo da situação anterior. Afonso IV terá tentado salvaguardar a sua filha de uma situação de repúdio. Era deste modo que os reis mantinham as suas determinações sempre que para o seu reino elas se manifestassem inevitáveis ou úteis. recebendo as deferências e homenagens acostumadas. e de D. Afonso XI manteve com D. por instaurar uma nova dinastia em Castela. uma relação muito mais próxima do que com D. p. em particular no caso das raparigas. acabando um deles. D.” (in Ana Maria Rodrigues. Gav. nos paços da rainha D. sua barregã. que recorriam aqueles que necessitavam de uma intercessora junto do monarca. “Las relaciones internacionales de Alfonso IV (…)”. tinham uma consanguinidade dupla de terceiro grau. Ou seja. “O local da reunião não foi escolhido ao acaso. “Infantas e rainhas (…) ”.6. Henrique. e como já referimos anteriormente. II. sobrepondo-se à própria autoridade pontifícia. Isabel 402 . os jovens D. assim. dos quais oito varões. T. Beatriz. tal como o havia sido D. y. p. era a ela. na cidade de Coimbra. Contudo. Afonso e D. “o carácter incisivo da fórmula. Segundo Bernardo Vasconcelos e Sousa. O futuro veio revelar que as preocupações do monarca português não foram infundadas. em tudo o que fosse necessário. deste modo. Maria. p. Daquela relação nasceram nove filhos. (…) Era habitual as rainhas participarem nas negociações matrimoniais da sua prole. 43). Talvez as crenças religiosas impusessem à 404 403 120 . 402 401 TT. de este modo. pp. Afonso IV de Portugal. Supomos que esta cláusula terá sido propositadamente redigida de modo a evitar que a infanta portuguesa fosse.º23 e HGCRP. m. a fazê-la rainha e nunca se separar dela por nenhuma razão. e não à rainha. justiça e chancelaria nas suas ausências. através dos procuradores do monarca castelhano e perante D. Este relacionamento extraconjugal não foi bem visto pelos monarcas portugueses.

e a Rainha Dª Bryatiz. Isabel. p. assim. 369. Maria tornava-se. onde permaneceu alguns dias para prestar assistência à jovem infanta que se encontrava com uma leve enfermidade. VII. que trazya a dicta Jfamte Dª Maria. “A Jfamte Dª Lyanor se foy diamte há Sabuguall. quando. que he de Portuguall. Leonor de Guzmán. os jovens monarcas castelhanos seguiram para Salamanca e dali para Medina del Campo. Isabel. p. Liv. Beatriz a receber a homenagem dos alcaides dos castelos dados como garante do acordo. D. avó dos noivos. sua molher. com a presença da família real portuguesa. e todos juntos dirigiram-se para a cidade de Coimbra407. Depois rumaram todos a Castela. das muitas cláusulas que constam no documento existe uma que está directamente relacionada com D. 407 406 ML. Este acompanhar rainha Santa Isabel a obrigação moral de interceder junto do neto para que este terminasse o relacionamento com D. em detrimento do futuro rei.esse o âmbito deste nosso trabalho. Denys. onde já se encontravam o seu marido e D. quando é referido o que cada uma das partes deve dar à outra no caso do falecimento de um dos negociadores ou nubentes. Constança e a dispensa para o novo casamento. se foram todos há vyla d Allfaiate. na qual se incluía a rainha D. VII. E aly se fizeram suas bodas. Beatriz acompanhou a filha até Ciudad Rodrigo. possa estar relacionada com o seu provável envolvimento nas negociações deste acordo. para a povoação de Fuenteguinaldo. 152). (…) E depois d estarem hy alguns dias. e dos principais senhores do reino406. Porém. cap. D. Liv. homde veo el Rey de Castella. Afonso IV morresse antes da chegada da dispensa papal ou do nascimento do primeiro filho dos jovens nubentes. Afomso de Purtuguall. VI. No entanto. Recuperada novamente a saúde.º5. e a Rainha Dª Ysabell. a boda se celebrou na localidade de Alfaiates. sua madre. não analisaremos pormenorizadamente o contrato de casamento desta infanta portuguesa. é referido que. seria a rainha D. que he vyla de Purtuguall. II. a sua intercessão não obteve os resultados esperados.º2. rainha de Castela. VII. D. E talvez não fosse alheia a esta opção a sua origem castelhana. Beatriz regressou a Portugal. de modo a evitar a discórdia entre os dois reinos. ML. 121 . Beatriz: no momento das contrapartidas. cap. n. e molher que foy delRey D. em 1328. onde prosseguiram os festejos. Concluído o cerimonial. Para a realização deste consórcio foi promulgada pelo Papa a anulação do casamento anterior de D. domde heram jumtos elRey D. 405 HGCRP.” (in Crónicas dos sete primeiros reis. n. caso D. Julgamos que a preferência pela rainha. VI. e apenas no caso dela também já ter falecido tal missão recaía no futuro monarca português405. Afonso XI com D. VII. Liv.

namorouse e houue em seu poder em seuylha Dª Lyanor Nunnez de Guzmão. que sucedeu ao pai no trono de Castela. na sua juventude.da nova rainha castelhana pela sua mãe pode remeter para o amor e o carinho maternos. em Xeres de Badajoz. T. Isabel. com a possibilidade de os seus irmãos bastardos lhe usurparem o trono. Mais à frente é referido “Como quer que elRey de Castella no asemto das pazes com ellRey de Purtuguall firmadas. Afonso XI votava a mulher e o filho. 410 409 Crónicas dos sete primeiros reis. Somente em 1332 nasceu o primeiro filho. ele o não fez asy. Temos aqui um exemplo nítido de um homem que se une a duas mulheres: a 408 “Jmdo ja em dous annos que elRey D. Afomso de Castella hera casado com a Rainha dª Maria. D. 122 . Maria com o monarca castelhano foi pautada pelo desgosto que foi crescendo sem cessar: entristecia-a não só a traição infligida. 155). Nada nem ninguém conseguia romper este relacionamento amoroso. pp. “desejamdo atalhar no começo este foguo de dyscordya. A união de D. O monarca português que se havia confrontado. Mas ele depois fez em todo ho comtrairo de sua promessa”410. filha de D. mas também para a presença de uma mãe confidente e conselheira da sua filha. Leonor de Guzmán409 ía-se revelando bastante fértil. contrastando com a protecção concedida à barregã e respectivos bastardos.” (in Crónicas dos sete primeiros reis. A rainha D. Sancho. nascendo o seu primeiro filho. simultaneamente. p. em 1334 surgiu o segundo e último filho. E daly se partio elRei com promessas que fez. mas também o tardar em dar ao rei um sucessor legítimo408. Afonso IV e. p. Pedro de Guzmão.” (in Crónicas dos sete primeiros reis. manifestou bastante inquietação perante o desprezo a que D. Pedro Aguilar. Enquanto D. a barregã D. de se nom dar tamto a afeição de Dª Lianor. Pedro Núñez de Guzmán e de D. Pedro. Afonso IV receava o futuro da legítima sucessão no trono castelhano por parte do seu neto. Esta dama era filha de D. ficou e prometeo que d ahy em diamte em todalas cousas catase sempre há Rainha Dª Maria asy como por seu estado e por /ser/ sua molher lhe /com/vynha. que morreu no ano seguinte. no termo do ano de 1332. fremosa e muy descreta. teve vistas com elRei seu neto. D. nos finais de 1331 e. 148). 296). Fernando. amte que mais se açemdese. Juan de Velasco (Enrique Flórez de Setien. avó do monarca castelhano. 155-156. p. e nam avemdo dela jeraçam. nascia o segundo de nove filhos. mãe de D. devido à existência daqueles filhos ilegítimos. II. a quem acomselhou em seus feitos tão sam e direitamemte (…). D. Memorias de las reinas (…). Beatriz Ponce de León e viúva de D. que estaua vyuua de poucos dias e hera muy fydallgua moça. Maria tardava em engravidar. sua mamçeba. e apartase de sy Lyanor Nunnez de Gozmão.

2007. no dia imediato à assinatura do tratado de Escalona. Esta parecia ser a combinação perfeita para um bom entendimento presente e futuro. Maria temeu pela sua própria vida devido à tensão política vivida em Castela414 e terminou os seus dias na cidade de Évora. Afonso IV. para pedir ajuda militar a D. onde acabou por falecer a Nas Crónicas dos sete primeiros reis é apontada a seguinte causa para este rompimento: “Se diz que ho dicto Alluaro Nunnez por danaficar (sic) e abater em D. Crónicas dos sete primeiros reis. pp. O reacender do conflito entre D. Assinado o acordo de casamento entre o jovem rei castelhano e a infanta D. ni el hijo tributó a su persona los respetos de reina. dise a elRey que por quamto a calydade e comdiçam de Dª Costamça. Afonso XI e D. a rainha D. em nome do seu marido. dinheyro. e tall com que nam guanhaua homra. Dinis412. pp.legitima. por obrigação ditada pelos compromissos diplomáticos. em 1328. T. foram ao seu encontro na cidade de Évora. 146-147). 1255-1277. La falta de sucesión en los primeros años la desairó con el marido. Esfera dos Livros. 414 123 . ocasionándole continuos sinsabores los hijos que el rey lograba en una amiga. por ser filha de seu vasalo. ficavam. talvez por um verdadeiro e profundo sentimento amoroso. p. Os monarcas portugueses. sabendo que a sua filha vinha ao reino. onde “ha receberam com muyta homra e com synaes de grande amor”413. Constança Manuel411. pp. Como já referimos. nem liamça. uma vez que um consórcio entre ambos os signatários poderá ter servido como forma de consolidar aquele pacto e também de reforçar as alianças diplomáticas entre os dois reinos ibéricos. 95-121. Infantas de Portugal. nom hera rezam que casase com ella. D. Fernando IV e D. Afonso IV e D. Beatriz.” (in Enrique Flórez de Setien. consideramos que o acordo de Escalona assinado com D. II. “Esta señora fué poco afortunada en el principio. Juan Manuel levara o monarca a romper o seu noivado com D. rainhas em Espanha. e a barregã. Maria. terá motivado essa ruptura. filha mais velha de D. El rey su hijo la obligó a salir del reino por faltar a la madre corazón para ver tanto sangre derramada. reforçados os propósitos de paz entre as duas coroas ibéricas. 148). D. deste modo. Maria deslocou-se a Portugal. p. Ni el marido la amó únicamente. 412 411 José Augusto Pizarro. 413 Marsilio Cassotti.” (in Crónicas dos sete primeiros reis. Afonso IV na luta contra os mouros. 324. Já viúva. Lisboa. Joham. através do qual os dois soberanos confirmavam os acordos e tratados estabelecidos entre os respectivos pais. Memorias de las reinas (…). y menos en el fin. Relações político nobiliárquicas (…). Porém.

uma vez que a sua única irmã viva. ao monarca seu primo do mesmo nome que governava em Portugal autorização para trasladar os restos mortais de sua mãe para Sevilha. Leonor. Pedro IV de Aragão. quando a sua mão foi cobiçada por algumas cabeças coroadas. com uma das filhas de D. 416 415 ML. Infantas de Portugal (…). Afonso IV (…)”. Pedro de Castela solicitou. aos monarcas D.”Em 1361. Liv. foi enviada a Portugal. muyta discriçaõ & muyta virtude”416. o Cerimonioso. A busca de uma diversificação de alianças no seio da Península Ibérica. Afonso IV a entrar para o reino dos mortos. cumprindo. Talvez com o objectivo de procurar aliados peninsulares para a Guerra dos Cem Anos. 35-38. para serem colocados ao lado dos do seu marido. Maria Margarida Lalanda. em Maio. ou não pôde. D. Eduardo IV. 1842. p. onde parece que repousa. seria D. a propor. cap. 113. X. em 1358. Leonor. n. como vimos anteriormente.18 de Janeiro de 1357. uma vez que os embaixadores ingleses detinham poderes do monarca para “tratarem das clausulas do casamento (…) e do tempo em que a dita Princeza deverá ser conduzida a Inglaterra”418. se encontrava casada desde 1328 com D. Dos sete filhos nados apenas lhe sobreviveu o infante D. uma embaixada com a missão de ajustar o casamento do futuro monarca britânico. Esta só poderia ser D. T. em 1345. Afonso IV417. 417 418 124 . Maria. XIV. onde tinha sido vontade do rei ser sepultado. Visconde de Santarém. porém. numa altura que se desconhece. deste modo. IX. O Príncipe Negro. Pedro. de Sevilha. rei de Castela. levaram D. mas também os crescentes planos de ampliação da hegemonia por parte de Castela. p. 121). Beatriz. os relatos sobre esta infanta são praticamente desconhecidos até aos seus dezassete anos. Mas não quis.º2. devido à perda dos seus entes mais queridos: uma vez mais. em 1347. Os restos mortais da rainha foram trasladados anos mais tarde para Sevilha415. O interesse da coroa britânica manteve-se ainda em Julho de 1347. Afonso XI. Porém. a nossa consorte foi abalada pela perda de um filho e.” (in Marsilio Cassotti. a vontade da rainha expressa no seu testamento. VII. Estas diligências revelaram-se. Quadro elementar das relações políticas (…). Este ano revelou-se muito triste para D. Beatriz desempenhou um papel relevante. fazer o mesmo com o corpo da mãe. Pedro fez trasladar o corpo do pai para Córdova. “A política externa de D. Beatriz foi a infanta D. foi para o convento de São Clemente. a qual. A filha mais nova da rainha D. Também aqui D. infrutíferas. p. que nasceu no ano de 1328 e é descrita como sendo dotada de “muyta fermozura.

Os bens patrimoniais possuídos pelas consortes régias permitiam-lhes auferir de rendas consideráveis. p. María de las Mercedes Costa Paretas. 5. 421 Cf. Beatriz419. consultado em 27/04/ 2011. Estes contactos simultâneos entre várias coroas para estabelecerem alianças matrimoniais eram uma prática muito comum na época. 10. HGCRP. em 1338. Leonor foi a segunda das quatro mulheres de D. I. 125 .pt/unidades/centros/c_historia/Biblioteca/projectos/Un_destin_interrompu. Pedro IV de Aragão. Adriana Almeida. uma vez que sete dias após o início das negociações foi assinado o acordo matrimonial. p.pdf. No fim. Assim terá acontecido com a jovem Leonor. ou seja. mas segundo a cronística “foy lhe [a D. encontravam-se ainda por saldar 12. Infelizmente. 420 419 Crónicas dos sete primeiros reis. T. A good queen cares for her image: the sumptuous wardrobe of Leonor of Portugal. María de las Mercedes Costa Paretas. o seu pai deve ter considerado. p. n. Bracara Augusta. em paralelo com o D. Vejase. Beatriz. 220. Un destin interrompu : Aliénor du Portugal. brève reine d’Aragon (1347-1348). de acordo com a conjuntura. Os embaixadores aragoneses actuaram de forma tão célere e eficaz que o entendimento entre ambas as partes foi extremamente rápido. Pedro IV] dado com esta Ifamte Dª Lianor gramde casamento em dinheyro. algumas vezes as consortes eram solicitadas a dar a sua contribuição para o casamento dos filhos. da sua primeira mulher. vol.ul. mais imperiosa uma união à coroa de Aragão do que à de Inglaterra.pdf. reina de Aragon (1347-1348)”. não dispomos deste contrato e que nos daria informações relativas às posições acordadas. “Leonor de Portugal. Como já vimos anteriormente.º41-42 (53-54). António Caetano de Sousa421 refere que o dote desta infanta foi estabelecido em 50. ao infante D. que esteve prometida a dois jovens simultaneamente. sep. Afonso e ao filho de Filipe. “Leonor de Portugal (…)”. filha mais nova de D.utl. o Belo. filha do rei de Navarra.fl. 423 422 Cf. in http://www.000 libras barcelonesas. Leonor referiu que a parte do dote que ainda faltava pagar era da responsabilidade de sua mãe. 361. e Ana Maria Rodrigues. 1965.portugueses o seu casamento com D. D. mas foram somente pagas 28. Beatriz. e em muy ricas joyas d ouro e de prata”420.iseg. Queen of Aragon 1328-1348). XVIII-XIX. Este monarca subira ao trono em 1336 e enviuvou. a mesma situação ocorreu com a rainha D. in http://www. No seu testamento. p. a rainha D. Por esse motivo. acabava por prevalecer a ligação matrimonial considerada mais benéfica para o reino. Maria. Leonor. consultados ambos em 27/04/2011. à sua morte.pt/aphes30/docs/progdocs/ADRIANA%20ALMEIDA.500423. D. D.500422 e.

Anales de la Corona de Aragón. através de um instrumento de obrigação datado de 22 de Dezembro de 1347. Para a celeridade deste casamento muito terá contribuído. “Leonor de Portugal (…)”. 6). 4ªed. por seu lado.500 libras de ouro. a 27 de Maio de 1347429. 191v. Afonso IV “reparou muyto (…) e. 354. cap. Leonor de Albuquerque (cf. 37. Beatriz. em caso de morte de um dos cônjuges. por um lado. “quod eadem Alienora tibi ex una parte ir tercio et ex alia forsan ir tercio vel ulteriori consanguinitatis vel affinitatis gradu vel gradibus attinet” (veja-se. cap. p. as disposições a tomar relativas ao destino do dote. Leonor a mesma quantia concedida a D. Leonor ficou estipulado em 35.” (in Ana Maria Rodrigues. Fernando I de Aragão. qui aurait pu nous renseigner sur les engagements pris par les deux parties. Mas o monarca acabou por ceder. mesmo dentro de grau de parentesco proibido428. p. excepto com D. D. Afonso IV ter conseguido. ou seja. Após a realização do casamento. IX.. mulher de D. fl. D. D. & cõ Irmãos que lhe pretendiaõ succeder no Reyno” (in ML. 427 426 425 424 HGCRP. seu sogro. a 10 de Janeiro de 1344. Maria em dote. por outro. Liv. Les Archives de la Couronne d’Aragon gardent les registres du recouvrement de 28. Liv. Rafael de Jesus.500 livres et à la mort d’Aliénor 12.500 livres restaient à payer. Na ML. 428 A dispensa foi concedida a 27 de Maio pelo Papa Clemente VI. “For the honor of her lineage (…)”. Segundo Fr. D. lhe pedirem dote para cazamento de hũ Rey viúvo. Visconde de Santarém. Instituición Fernando el Católico. a rainha D. o rei D. 429 126 .000426. 1998. Pedro IV obteve também do papado documento idêntico. enquanto os embaixadores aragoneses solicitavam 50. a dar a D. María de las Mercedes Costa Paretas. X. Leonor casar com quem quisesse. p. Beatriz ofereceu-se para completar o que faltava para as 50.500 libras barcelonesas e que a posição da rainha D. X. Quadro elementar das relações políticas (…). foi pago a meias pelo seu pai. Zaragoza.000 livres barcelonaises. Constança Manuel convenceu o rei. Afonso IV não queria dar nenhum dote à sua filha.000. Assim. Liv. p. II. IX. o dote seria restituído aos seus pais nos três anos seguintes427.erário régio424. T. Ana Maria Rodrigues. ce qui veut dire que la trace des 9. Leonor de Aragão. 5. Pedro IV estipulou. uma dispensa papal que permitia a D. Jerónimo Zurita. n. n. o facto de D. A acreditar no relato de Zurita.000 livres restantes s’est perdue. D’autres sources nous ont pourtant fourni quelques indications sur cette matière. D. António Caetano de Sousa affirme que l’infante aurait reçu une dot de 50. E. se D. Leonor falecesse primeiro sem testamento feito. foi importante para a dotação desta sua filha. II.º3). 220. Maria. é referido que o dote de D. Não obstante. alegando que a coroa portuguesa nunca tinha dado nem recebido dotes. Afonso XI425. p. I.500 libras e. em conceder o montante em falta. oferecendo 2. Un destin interrompu (…). Duarte. e pela sua mãe. D.º3. 3). “Nous ne disposons pas du contrat de mariage signé à l’occasion. IX. para casar com esta sua prima em Este não foi caso único na história medieval portuguesa: o dote de D. sua filha casada com D. T. T.

Sancho I. Un destin interrompu (…). em 1347430. mandou D. 115-146” (in Ana Maria Rodrigues. Pedro. p. Leonor tornava-se. Lopo de Gurrea. en vers et en prose. mulher de D. assolado pelas ‘uniões’ contra o monarca. 12 (2005). uma vez que a nossa rainha surge como a única mulher referida entre os executores. Como veremos mais adiante. Género. D. Quando a nova rainha chegou ao seu novo reino. Talvez devido a esta epidemia que ceifava cada vez mais vidas na Catalunha. deste modo. o seu confessor frei Gómez. Pedro IV. p. D. Dulce. prior de Lausona na diocese de Colliure. Beatriz recebesse a mais bela jóia do seu tesouro. seu pai. a consorte deixou. mulher de D. Renouvellements. o infante D. Leonor despediu-se da sua linhagem e partiu rumo a Barcelona431.terceiro grau. consumo sumptuário e mecenato nas monarquias de Aragão e 435 434 127 . “Este era o protagonista do ciclo de Canções de Cruzada em francês arcaico que traçava as origens e feitos de Godofredo de Bolhão e seus sucessores. p. veja-se o Quadro IV – Doações concedidas a D. D. r. seu marido433. Catherine Gaullier-Bourgass. Tratadas as partes burocráticas e celebrado o matrimónio. seu marido. uma taça com a sua sobrecopa representando o cavaleiro do Cisne435. 11. os arcebispos de Terragona e Braga. a infanta D. cuja escolha confiou ao rei D. D.” Cahiers de recherches médiévales et humanistes. Dinis. por María de las Mercedes Costa Paretas. reis de Jerusalém. pp. Leonor mandou redigir o seu testamento que data de 13 de Setembro de 1348. na primeira infanta portuguesa a ser rainha de Aragão. de l’épopée romanesque des origines de Godefroy de Bouillon. cit. não se arriscou uma longa e perigosa travessia da Península Ibérica pela comitiva da infanta. Leonor que D. 10). contemplada com a distribuição dos bens feita por sua filha. um Apesar de sempre terem existido boas relações entre Portugal e Aragão. Beatriz (e que constam dos seus codicilo e testamentos). Neste.1063. também ela. o seu chanceler Gómez Martínez. e D. fl. García de Loriz e Blas Fernández de Heredia (ACA. “Infantas e rainhas (…)”. Leonor. na cidade de Santarém. Os restantes executores testamentários foram: D. o que demonstra uma forte ligação entre ambas. onde são mencionadas as respectivas fontes. A soberana portuguesa foi. este encontrava-se assolado pelo surto da Peste Negra. Pedro. 68-69 e 71. Foram elas D. Isabel. 18). antes se apostou numa ida por mar” (in Ana Maria Rodrigues. um objecto em forma de serpente com escorpiões. Assim. Beatriz como sua executora testamentária432. entre outros. Foram eles434 anéis com incrustações de esmeraldas e rubis. “Leonor de Portugal (…)”. 433 432 431 430 Ana Maria Rodrigues. o ciclo ficou completo na centúria seguinte e no século XIV desenvolveramse novas versões em verso e em prosa – cf. Os primeiros poemas surgiram nos finais do século XII. a consorte portuguesa foi agraciada com alguns bens dados em herança ou de presente por parte da sua filha D. Afonso IV. conde de Ribagorza. Para evitar o avolumar de informação em rodapé. por procuração. “Le Chevalier au Cygne à la fin du Moyen Age. “Dada a oposição manifestada por Alfonso XI ao consórcio e a instabilidade que então se vivia no território aragonês. em prata e coral. somente duas mulheres de estirpe real aragonesa chegaram a rainhas de Portugal.

A sociedade medieval (…). mas logo deixou a cidade ao fim de poucos dias. H. p.” (in Mário da Costa Roque.iseg. Aparentemente.pdf. Paris. que. Escasseiam as notícias pormenorizadas das doenças e sua evolução. 28/04/2011. 7.utl. Apesar da morte ser. representativos das duas coroas às quais a rainha estava ligada por laços de sangue [QUADRO V]. uma vez mais. as duas coroas. As pestes medievais europeias e o “Regimento proueitoso contra há pestenença” Lisboa. A única infanta portuguesa que foi rainha de Aragão passou. Leonor. 437 128 . nota 20). uma esmeralda de colo e um pano decorado com sete escudos preenchidos com armas de Castela e de Leão. e sem ter dado o tão almejado filho varão que pudesse suceder no trono. Em Teruel foi nessa altura contagiada sua mulher. Leonor de Portugal. Pedro IV. Beatriz recebeu como herança de testamento da parte de sua filha. Leonor “despues grand dolor de febre continua paso d’aquesta vida el jueves mas cerca passado enta hora del primero suenyo”437. de Oliveira Marques. onde tencionava ficar e que supunha livre da epidemia. por verificar que a situação sanitária era menos segura do que esperava. “É difícil apontar as causas mais frequentes da mortalidade medieval. pois o cronista Zurita não atribui nenhum filho à rainha D. A jovem rainha faleceu a 30 de Julho. Dirigiu-se em seguida para Teruel. várias contas de coral. Pedro IV saiu daquela cidade [Saragoça] a 13 de Outubro de 1348. A notícia deste falecimento chegou à corte portuguesa através de uma carta de D. uma arca de azeviche. As pestes medievais europeias (…). Além das pestes e outras epidemias. Tentativa de interpretação à luz dos conhecimentos pestológicos actuais. D. devido às pestes e às guerras serem frequentíssimas. um ano após o seu matrimónio. a qual informava que D. Leonor faleceu a 30 de Julho de 1348. http://www. durante a Idade Média. 211). este casamento não teve descendentes.pichel pequeno esmaltado. “D. assim. o anúncio do horrível acontecimento deve ter novamente provocado em D. apesar de todo o empenho de ambas as partes na concretização deste casamento que unia familiarmente. Beatriz recebeu esta trágica notícia. Fundação Calouste Gulbenkian/Centro Cultural Português. ficamos sem saber quais destes bens D. p. 95. os desígnios da vida trouxeram o infortúnio a este jovem casal: D.” (in A. muito próxima. Porém. a caminho de Valência. Beatriz a mágoa da dor sentida pela perda de um filho. p. na vila de Jérica. 95). Todavia. depois de lá ter permanecido pelo menos desde 14 de Agosto. 1979. Veja-se Mário da Costa Roque. notava-se uma débil resistência a doenças de tipo infeccioso. de forma muito leve e rápida pela história daquele reino. Valentim Fernandes [1495-1496]. que periodicamente visitavam os povos e ceifavam as gerações. e a acreditar nas Portugal no século XIV. p. Não obstante. veio a falecer em Exericha.pt/aphes30/docs/progdocs/ANAMARIARODRIGUES. 436 consultado in em A peste que invadiu Barcelona dizimou muitas vidas e os monarcas procuraram fugir ao seu contágio. vítima da Peste Negra436. Foi assim que D.

” (in Crónicas dos sete primeiros reis (…). tentara casar D. o projecto não foi levado a bom termo. Assim. Juan de Castela. “Ela. 114-116. como la custumão” (in Rui de Pina. O projecto matrimonial do herdeiro da coroa era sempre aquele que implicava um maior número de contactos e diligências. João I (Ana Maria RODRIGUES. 10). que após a morte da mãe foi trazida para Portugal e criada pela rainha D. Beatriz mandou. Beatriz. Chonica de elRei Dom Afonso o quarto. por exemplo. Constanza Manuel. se fosse desejo do monarca português. Blanca com D. o matrimónio entre o herdeiro da coroa portuguesa. Sobre esses inconvenientes. em seu testamento. diz-nos Rui de Pina que. Portugal. Branca de Castela. p. senhor de Vizcaya e grande opositor do soberano castelhano. Pedro e irmã de D. 361.. que teria apenas oito anos. p. 1936. Neste ficou acordado. Afomso IV. o dote proposto foi de pouca monta440. Lisboa. Todavia. Sobre este. Juan. e tratou de negociar também o casamento dessa sua prima com o seu futuro cunhado. entre outras coisas. p. o de Escalona (1327-1328). Afonso IV de Aragão.informações veiculadas pela cronística portuguesa. Branca era uma cobiçada herdeira de avultados bens castelhanos localizados junto à fronteira com Aragão442. Mas Alfonso XI não podia permitir que um tão grande senhorio fronteiriço passasse para as mãos de um senhor hostil. veja-se Maria Margarida Lalanda. “Á hũa irmã de elRey de França que vola darão mas será com pouco dinheiro. Crónicas dos sete primeiros reis (…). Porém. talvez devido a este inconveniente. existia uma irmã do rei de França que se encontrava disponível e a proposta seria bem recebida. Maria” (in Ana Maria Rodrigues. 442 441 440 439 438 129 . Afonso XI. “Por 1327. menyna ffaleçeo em seu poder. “A política externa de D. mestre de Avis e futuro rei D. outras razões devem ter existido. D. João. 49). desde há muito. filho do infante D. das quais destacamos o bom relacionamento que Portugal passou a ter com o poderoso reino de Castela441. desagradado com o repúdio por Alfonso XI da sua outra neta D. Ana Maria Rodrigues afirma que esta pequena infanta D. e a infanta D. sabemos que a rainha D. já hera ffaleçydo. levar as ossadas para junto do seu monumento na Sé de Lisboa439. Afonso IV (…) . p. E a dicta Rainha Dª Briatiz mamdou em seu testamento que os osos desta Ifamte ffosem depois lamçados com hos seus no muymemto homde jaz sepultada. 361). modelado nos diversos contratos de casamento e nos vários tratados de mútuo auxílio como. seu avô Jaime II de Aragão. Pedro. Beatriz deveria ser uma filha ilegítima do infante D. p. Este casamento foi patrocinado pelas três coroas peninsulares. de modo a que o património dela regressasse à coroa castelhana sob a forma de um dote trocado com o de D. e sobrinha de D. O entendimento entre aquelas duas coroas ibéricas encontrava-se. “Infantas e rainhas (…)”. Esta infanta faleceu ainda menina e pode ser desta neta que D. em tempo que elRey D. sua avó438. pp. 34). filha do já falecido infante D. Leonor teve uma filha. Biblion. Un destin interrompu (…). tio de D. de nome Beatriz.

Branca. tio delRey. D. Branca que na altura contava “çymquo annos”445. p. m. herdeiro de Portugal. pp. I. Branca só regressaria a Castela em 1339. ”Em Portugal. Branca chegou a Portugal em 1329.” (in ML. idade mínima considerada para a consumação do matrimónio no caso das raparigas. os desígnios políticos que estavam associados a esta união não conseguiram obter os êxitos pretendidos. Beatriz. João I. n. Em terras lusas a infanta foi confiada aos cuidados da rainha D. VII. como pella da saúde era incapaz para governar. 151-152). que resultou praticarse. n. experimentava a communicação de cada dia. uma embaixada e uma junta médica para averiguar a validade dos argumentos invocados por D. no seguimento do tratado de paz assinado entre os dois reinos. com D. foi enviada a Portugal. que eraõ nativos. 157-158. Pedro. e correspondencia entre as Magestades. que se conservasse o sangue de huma. Beatriz. & que assi pella lezao do juízo. que teria a seu cargo a criação desta jovem até ao momento em que ela atingisse os doze anos. seu marido. foy a Infante dona Branca descobrindo com os annos os deffeytos da natureza. & como se criava na caza da Rainha Dona Brites. Após a recusa de D. querendo com estas duplicadas allianças. D. 6. 445 444 Crónicas dos sete primeiros reis. pp. Esta comissão atestou as razões alegadas pela coroa portuguesa. 12. a necessária dispensa papal para se poder realizar444. foi relativamente comum. pelo rei de Castela. & com disposiçam de ética. e após a chegada a terras lusas de D. Liv. igual sorte teve a rainha D. 197). T. Após o acordo de casamento celebrado. Quadro elementar (…). amizade. T.3. cap. Esta prática de se enviarem as prometidas. Pedro.º3). D. A dispensa papal concedida pelo Papa João XXII foi trazida para Portugal por Lopo Fernandes Pacheco. mas a sua alegada incapacidade para ter filhos e uma eventual debilidade mental446 contribuíram para o repúdio por parte do príncipe D. com que nacera: O que dissimulava a meninisse. manifestou a idade. Porém.” (in HGCRP. p. Pedro. desde tenra idade. para as cortes dos seus futuros maridos. onde eram criadas. 443 Crónica de D.13. “Era tanta a satisfaçaõ. Afonso IV mandou Lopo Fernandes Pacheco trazer para Portugal a jovem D. p.º8). & habituaes os achaques. Gav. & para conceber. senhor de Ferreira (TT. Liv. e obteve “hũa geerall despemssaçom”443. Como já analisámos anteriormente.Castela e Aragão. 165. ou seja. Porém. 130 . e ajustarse haver de casar o Infante D. 447 446 Visconde de Santarém. “Perigosas payxoens de doenças de perlizia. e outra Coroa nos descendentes de ambos. II. Pedro para anular o casamento447. & algũa quebra do natural entendimento” (in Crónicas dos sete primeiros reis (…). filha do Infante D.Pedro. aonde vivia. fortificando-se com novos parentescos a sua estabilidade. I. 416.

225. filha do nobre castelhano D. Apesar das contrariedades. Branca pelo infante herdeiro. Talvez possamos apontar como uma possível causa para esta união a forma gravosa como D. “Infantas e rainhas (…)”. pp. Constança Manuel. que a Infante Dona Branca (pello discurso de dez annos assistente em Portugal. Afonso IV estabeleceu acordo de casamento entre o seu filho varão e D. oposição essa encabeçada precisamente por D. João Manuel e ex-noiva do rei de Castela. uma vez que o herdeiro do trono de Portugal se preparava para casar com a filha de um dos seus maiores rivais. João Manuel não recusou a proposta que lhe veio do reino luso. trouxerom muyto homradamemte a dicta Jfamte a Lisboa (…).º4). João Manuel estabelecesse uma aliança com os poderosos opositores de D. Joam Manoell e com muytos houtros senhores de Castella. Francisco de Évora. No inicio. D. & a cauza delle a inhabilitarem para o matrimónio. 452 451 450 449 448 Crónica de 1419. Este deverá ter sido um rude golpe para o monarca castelhano. Beatriz e “muitos fidalguos e rycos homens que em sua corte amdavam”452. Regressada ao seu país natal. p. Juan Manuel. envidou esforços para demover D. o casamento realizou-se por procuração em 1336451. mostrou-se empenhado na procura de uma solução para o seu caso. n.” (in Crónicas dos sete primeiros reis. ao tempo confrontado com uma feroz oposição de sectores nobiliárquicos. 294-295). 9. D.) que nestes annos andava nos vinte & hum de sua idade. E aly foy logo emtregue a Jfamte Dª Bramca ao sobredito Martym Fernamdez de Porto Careyro. Assim.Constança. Afonso XI ter manifestado ao monarca português que não via qualquer inconveniente nesta união. fosse entregue em Castella. & esta entrega se effectuasse na occasiaõ em que a Princeza Dona Constança. no Convento de S. p. D. Constança se preparava para vir para Portugal. este rei fez um acordo de casamento com D. 131 . Contudo. cõ todo seu dote. com todo ho que ela tynha em Purtuguall. Liv. 14). Constança Manuel. no mês d Agosto do dicto anno. estando presentes D. D. VII. o “Muytos nobres homems. entrasse em Portugal. Este matrimónio nunca foi bem aceite por parte do rei de Castela. filha do dito D. Maria era tratada por parte do marido. Afonso IV. João Manuel. mulher do infante herdeiro448. Afonso XI450. Consequentemente. De modo a evitar que o influente D. e dos mais homrados fidallgos e cavaleyros do seu Reyno. mas “depois de ter reconhecido a doença da infanta. como fora comcordado. Branca seria recolhida num convento449. após o repúdio de sua filha por parte deste monarca. Apesar de D. Afonso XI. João Manuel de tal projecto. esta união teve também a oposição do rei de Aragão. quando D. cap. em a caza da Rainha Dona Brites servida com Real estado. Camareyro Mor dellRey de Castella. Porém. 1. “Em o quarto articulo das pazes se ajustou. talvez devido à repulsa infligida a D. a aliança através do casamento de sua filha com um membro da família real portuguesa reforçou a sua posição de grande senhor. D.” (in ML. visto o repudio. foi necessário procurar uma nova mulher para o herdeiro do trono português.” (in Ana Maria Rodrigues. que jumtos com D.

p. todavia. de Aragão e de Granada. Afonso XI assegura que não haverá qualquer impedimento. 16. Liv. Beatriz no decorrer deste conflito. asy como hora he a Rainha Dª Bryatiz. madre do Jfamte”456. impôs determinadas condições para a realização deste matrimónio. além dos fidalgos castelhanos descontentes.000 dobras castelhanas. 456 455 Crónicas dos sete primeiros reis. Afonso IV. ordena aos seus fronteiros que impeçam a saída de D. 184. João Manuel iniciam-se secretamente e em 1336 são tornadas conhecidas do rei castelhano.” (in Bernardo Vasconcelos e Sousa. “A política externa de D. recebeu a infanta do “As negociações com D. Afonso IV (…)”.1. em meados de 1339. n. Constança vir para Portugal. que se não visse com agrado pella novidade do aparato. foi também analisada a posição e actuação da rainha D. Afonso IV. A guerra que Portugal declarou a Castela teve como móbil não só a permissão da viagem de D. não avendo variedade de entertimentos. D. com esta atitude visa-se garantir que a passagem da noiva pelos territórios régios não será impedida sob qualquer pretexto. Em todas as partes do Reyno se viraõ os mesmos excessos (…)” (in ML. a infanta foi recebida. Constança fez a sua jornada para se juntar ao marido em Portugal. como analisámos anteriormente454. cap. p. &da magnificencia com que se representavaõ. 454 453 Neste contexto. sublinhando-se que de nenhuma maneira se consentiria que as terras de D. “Infantas e rainhas (…)”. filha dos monarcas portugueses. mas também a defesa da honra da rainha D. João Manuel. Quando finalmente foi restabelecida a paz. João Manuel se unissem à coroa de Castela. que lho entregassem para suceder à frente da casa do avô materno457. Dessa forma. 1. Pedro ou o seu filho e herdeiro. um confronto entre Portugal e Castela que só terminou em 1339.º3). A título de arras. 9. Maria.1. Assim. 457 132 . continuou a grandeza das festas por muytos dias.monarca castelhano impediu a vinda de D. VII. D. iniciou-se. mas exigiu. João Manuel e da sua comitiva453. 133). Afonso IV. de Portugal]. João Manuel e que cerquem os seus companheiros” (in Maria Margarida Lalanda. na cidade de Lisboa e realizado o casamento por palavras de presente com o infante D. Pedro455. remetemos o leitor para título: 4. 193). Ana Maria Rodrigues. Exigiu que sua filha “seja lyurememte senhora das teras que lhe derem. em contrapartida. em 1336. D. Uma vez mais não dispomos do documento original do contrato de casamento de D. quando em 1337 é chegado o momento de D. p. Pedro com D. É verdade que concedeu um dote de 300. três anos decorridos desde a celebração do casamento por procuração na urbe eborense. De imediato. o sucessor seria o próprio D. “Celebraran-se as vodas. este nobre procurou aliados contra o seu rei: assim. Constança. – A mulher: relação com D. que se deste casamento nascesse outro filho varão além do primogénito (que seria rei de Portugal). aliaram-se a esta causa os monarcas de Portugal. a quem é pedido conselho pelo sogro [D. “Na falta deste segundo filho. p. Constança para o reino de Portugal. mas sabemos que o pai desta.

mulher de D.” (in Cristina Pimenta. Todavia. vol. seemdo ella de boom parecer. pp.º2. uma vez que não teve um casamento feliz devido à paixão que D. Pedro os seguintes filhos: D. “Protecção régia à capela da infanta D. II. e para António Ferreira. Fosse por mera convenção ou porque D. que nasceu em 1342 e casou com o infante D. Inês de Castro. a beleza de D. Pedro nutriu por D. sobrinha de dona Tareyja dAlboquerque pera amdar por domzella da Rainha. Inês de Castro. pp. Sobre a relação existente entre D. Inês de Castro já despontara na vida do infante D. fermosos olhos. talvez devido às consequências de um mau parto. em 1345. Parecia. jurisdições. namorousse della ho Iffamte dom Pedro. Fernando de Aragão. 460 459 458 133 . vol. Como já referimos. D. de facto. D. Após todos os conflitos e peripécias para poder concretizar o casamento de D. Lisboa. Fernando. Inês atraiu de imediato a atenção do infante460. direitos e pertenças458. D. Série II. João I. Afonso IV (1325-1344). Instituto Nacional de Investigação Científica / Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa. ou «A sua rara fermosura. Pedro. p. Luís. na voz de Camões. Revista da Biblioteca Nacional. Assim. nobre galega que veio para Portugal no séquito da futura rainha459. &disposição. e naquelle tempo passou por hum milagre da natureza …» Tinha. nascido em 1340. Afonso Sanches. Constança. seemdo emtom Iffãte casado com dona Costamça.sogro a cidade de Viseu e as vilas de Montemor-o-Novo e Alenquer. foi tragida aa corte delRei dona Enes de Castro. e amdamdo assi em casa delRei. 9. Afonso IV. com todas as suas aldeias e termos. 169). D. Constança teve D. que sempre os procurou afastar. viúva de D. nascido em 1345 e que sucedeu a seu pai no trono de Portugal. que o contrato estava a prever o futuro de D. “cabelo louro. 1990-1992. a distância não separou os dois amantes que continuaram a encontrar-se. Maria. Inês recolheu ao castelo de Albuquerque. Pedro e D. Pedro I. teve ainda outros bens que deixou para sustentar a capela instituída à sua morte (Cf. D. estabelecia-se que este não podia coabitar com outra mulher. 403). “Desta dama não faltam descrições. que neste. “Certo he que vivemdo elRei dom Affomsso padre deste Rei dom Pedro. todas unânimes da sua beleza: Ayala escreve que era muy fermosa. 1994. n. a relação mantida entre estes dois amantes não era bem aceite por parte de D. Pedro I. D. qual elemento canónico. Paulo Drumond Braga. o destino pregou uma das suas partidas: a dama castelhana faleceu. tom de cabelo. gentileza. onde ficou aos cuidados de D. Pedro. mas falecido precocemente. Além destes. e Nunes de Leão «dotada de estremada graça. Chancelarias Portuguesas. p. Pedro I”. Teresa de Albuquerque. regressando a Portugal somente após a morte de D. 355-356.” (in Crónica de D. veja-se Cristina Pimenta. Segundo a tradição. Constança. Constança com D. 7-19). ainda jovem. Constança. rendas. Com D. per que lhe chamauam collo de Garça».

vilas e lugares doados por D. Senão vejamos: foi Maria Durães. em 461 Paulo Drumond Braga. uma vez mais. 126. Leonor. junto a Gaia. mas faleceu ainda criança). Beatriz. p. Beatriz463. os seus filhos devem ter ficado à guarda da rainha D. tendo o casal habitado na Serra de El-Rei. “fazendo-se maridança qual deviam”465. que surgiu como a cuvilheira do infante D. Constança. p. Pedro vivia. Centro de Estudos Históricos Ultramarinos. nos paços do Mosteiro de Santa Clara. e acabando por se fixar em Coimbra. Fernando. Desse modo. 529-540. em Canidelo. 166). n. Afonso IV. aquando do casamento desta com o rei D. Maria por morte de sua mãe. a nossa consorte assumiu uma parte do dote a pagar. pagos do seguinte modo: quinhentos mil maravedis em terras. Afonso IV e os outros quinhentos mil repartidos em duzentos mil maravedis da dita moeda que ficaram à infanta D. Inês de Castro464.” (in Bernardo Vasconcelos e Sousa. Beatriz de 1358 [QUADRO I] 462 463 TT. vamos somente analisar a eventualidade do seu casamento e a posição tomada pela rainha D.nunca chegando a ostentar o título de rainha de Portugal. Desta relação nasceram quatro filhos: Afonso (veio ao mundo pelos anos de 1350. mulher da sua casa. a sua preocupação com o futuro da sua neta e o pagamento do respectivo dote. Beatriz. Pedro I. p. 11. “Protecção régia (…)”. Mais tarde. pp. A consorte tinha já anteriormente assumido uma parte do dote de sua filha D. Pedro com D.8. com o restante a ser dado pela rainha D. Este ficou estipulado na quantia de um conto de maravedis da moeda de Castela. vol. o herdeiro do trono português ficava livre para assumir abertamente a relação que mantinha com D.17. Afonso IV e a rainha D. fê-la regressar a Portugal e passaram a viver juntos. os procuradores encetaram negociações com D. João e Dinis (nascidos. que cuidou da sua criação e educação. com a dama galega. 465 464 134 . Não sendo objectivo deste nosso trabalho pormenorizar a relação de D. Crónica de D. Maria com D. marquês de Tortosa e senhor de Albarracín. Inês de Castro. m. sendo sepultada no convento de S. pois. respectivamente. Fernando462. Testamento de D. Francisco de Santarém461. “D. 7. D. Após a morte de D. Beatriz. Pedro IV de Aragão. E. quando foi negociado o casamento da infanta D. Lisboa. por isso. Gav. Com a morte de D. em Moledo. Talvez o facto de tomar para si a criação destes seus netos fizesse com que a consorte nutrisse por eles um sentimento materno e. Constança.º7 e As Gavetasda Torre do Tombo.

não só o desgosto e o luto.13. Pedro era ainda infante469. Neste conflito. Gav. Beatriz mandou redigir três testamentos e um codicilo.17. Como iremos analisar mais à frente. que D. reynou. o infante solicitou ao papa a concessão de uma bula de dispensa do referido interdito matrimonial.3. durou pouco tempo.” (TT.6. em 1355. m. “E a dicta Dª Jnes de Crasto (…) ouue ellRey D. uma vez que este era primo do pai de D. Beatriz nutria estima por estes netos. redigido após o falecimento do monarca. como se sabe. Pedro de Purtuguall. o que não os impediu de manter a relação. como será analisado. E que do dicto dom Pedro de Castro fora filha a dicta dona Enes como dicto he. como vimos anteriormente.1352 e 1353. conde de Barcelos. uma vez que no seu último testamento466 lhes deixou alguns legados valiosos. Pedro iniciou uma guerra civil contra seu pai e os executores do assassinato da sua amada. Pedro e D. Pedro que D. tendo sido candidatos ao trono português na crise de 1383-1385). e. o precipitar dos acontecimentos que levaram à morte de D. “ElRey dom Pedro hera filho da Raynha dona Bietriz (sic) e dom Pedro de Castro hera filho de dona Violante e que a dicta dona Violante e a dicta Raynha dona Bietriz (sic) heram irmãas filhas d’ElRey dom Sancho de Castela. semdo Jfamte. seu pay. João Afonso. n. Afonso IV a rainha nunca mencionou os filhos da Castro no seu testamento. Beatriz (nascida em 1354). teve um papel muito importante para a obtenção da paz e o cessar das hostilidades. Por aquel razom el sabia bem que a dicta dona Enes fora sobrinha do dicto Rey dom Pedro filha do seu primo coirmãao. tornou público o matrimónio secreto do jovem monarca com D. Mas sublinhe-se que durante a vida de D. Porém. TT. Afonso IV e a subida ao trono de D. colocou o infante perante sentimentos muito fortes. mas também a fúria e a vingança. quando D. n. Foi necessário esperar pelo derradeiro testamento. Foi somente após a morte de D. em Agosto de 1355468. a sua mãe. Devido aos laços de parentesco que uniam D. Gav. Foi neste contexto. Os quaes se nom chamaram Jfamtes. Efectivamente. m. Esta conjuntura foi já analisada nas páginas anteriores pelo que não nos deteremos aqui em mais considerações.º6. Inês de Castro. os três filhos e huma ffilha (…). salluo três annos depois que ellRey D. D. que depois do ffalecymemto da Jfamte Dª Costamça ele 469 468 467 135 . para que esta avó incluisse todos os seus netos na lista de legatários [QUADRO I]. na cidade de Bragança. Inês de Castro. por último. D. Uma relação que. Inês. Beatriz. quamdo em Coymbra decrarou e ffez certo per testemunho que muytos nom aprouaram.º8). Inês467. Após esse casamento viveram “ambos de consuu e fazendo-se 466 D. a autorização papal nunca chegou. o que foi concretizado através do acordo de paz assinado em Canaveses. Pedro.

3. Gil foi apresentado como o celebrante do casamento que se realizou num dia um de Janeiro.” (in Salvador Dias Arnaut. Foi quando enviou mensageiros ao filho com o pedido que casasse com Inês. guarda-mor de D. E. São também apresentadas como testemunhas deste casamento: Lourenço Buval. Além de testemunha. n. pois Afonso IV apenas desejaria conhecer a verdadeira situação. Francisco Brandão refere que D. Pedro respondeu que nunca casaria com ela. que do dito recebimento tiinham nom boa sospeita.6. João I refere-o também em idênticas palavras. o conde D. m. Procedem deste caualeiro grandes casas em Portugal. & todos os Princepes de Europa por via de sua filha D. bispo da Guarda. duas testemunhas que estiveram presentes no momento do matrimónio: D. por outro lado.17. “Sente-se que Afonso IV teve pelo menos uma altura em que o [casamento de D. “E disse estomçe elRei Dom Pedro. Garcia Martins de Faria. Pedro” (in ML. Inês foi mulher de D. Gav.” (in Crónica de D. 359). & Castella. m. per palavras de presemte. Para comprovar a veracidade do acto. senhor de Góis. Inês470.” (TT. Pedro dera como resposta “ que nom hera seu tabante de o fazer [casar com D.6. Gil. D. 7). que na altura dos recebimentos era deão dessa mesma igreja. 470 TT. esta questão não ficou resolvida. &muito exercício que nella teue. Episódio de Inês de Castro (…). p. que por quamto este recebimento nom fora exemprado nem claramente sabudo a todollos de seu senhorio em vida do dito seu padre. uma vez que a união tinha sido contraída sem o consentimento do monarca471. Inês de Castro] nem acurdava de fazer em todos os dias de sa vida por aficamento que lhy aveesse. Ines de Castro mulher do nosso Rey D. e Fernão Lopes na Crónica de D. 56. 63. “Na sepultura de D. uma vez que anos recebera loguo por sua molher.º6. Foi argumentado pelo referido conde que o matrimónio não fora tornado público em vida do Bravo devido ao receio que D. se fora assi ou nom: que el dava de si fe e testimunho de verdade. morador em Santarém. se tencionava ou não casar. Pedro: “Dom Pedro Fernandes de Castro.17. Porém. Pedro. apresentou. 472 471 TT. respectivamente). Gav. por um lado. n. a dicta Dª Jnes. Inês] desejava. 474 473 136 . Pedro I. Ines de Castro mulher que se disse ser do nosso Rey D. por temor e reçeo que del avia. Pedro pensaria que se dissesse que já tinha casado ou que tencionava casar com Inês a perderia para sempre perante o velho rei que até tinha actuado junto do papa para evitar que o casamento se fizesse. Estevão Martins Carvalhosa. Pedro”.maridança pela guisa que deviam”. o da guerra por seu grande esforço. Desconhecemos a veracidade da ocorrência deste casamento473. Fr. Pedro tinha de seu pai. O facto está atestado por um documento. p. Pedro com D.” (in Crónicas dos sete primeiros reis. Tem-se visto nesta resposta a prova de que Pedro julgava insincero aquele pedido. que porem el por desemcarregar sua coçiemçia e dizer verdade e nom seer duvida a alguuns. VI. mas sabemos que seria muito fácil para um rei conseguir que os fiéis vassalos da sua casa e um bispo jurassem afirmações menos verdadeiras474.º6. João Afonso mencionou que o problema da consanguinidade existente entre os dois nubentes fora resolvido através da dispensa papal que o infante recebera da corte de Roma472. p. que assi se passara de feito como dito avia. n.º8).13. m. até ao momento da morte de D. Numa inquirição realizada em 1385 é referido sobre este assunto que D. 126-127). Gav. pp. Martim Vasques. e Estêvão Lobato. as verdadeiras intenções do filho: se tinha ou não casado.

Ana Rodrigues Oliveira. Porto de Mós e Chilheiros. Deste modo. 475 TT. Pedro com D. aliás.3. Gav. Inês de Castro. Não nos podemos esquecer que nesta época estava em causa a independência do reino e que os Castro eram uma linhagem oriunda da Galiza. Ourém. mestre Estevão. Beatriz deve ter mantido sempre o seu apoio incondicional a D. como reconhecimento da”mujta criançom que me a Raynha dona briatiz minha madre fez E como me foy sempre muy verdadeira amjga em todos meus fectos”476. D. m. João e D. n. os “momentos em que a rainha actuou a favor ou junto do filho rebelde não deixaram de ser interpretados como discretos mas seguros indícios de uma certa parcialidade. 478 137 . Vasco Gomes de Abreu. 1984. doou à mãe as vilas de Óbidos. João I auscultando-se para esse efeito várias testemunhas475. mais tarde. As representações da mulher (…). Gonçalo Mendes. Chancelarias Portuguesas. bem compreensível. foi aberta uma inquirição na qual se tentava legitimar a subida ao trono de D. D. fl. D. 77v). V. Lisboa. Isso mesmo se denota quando os pedidos de D. não só na criação dos filhos do infante herdeiro. Assim. em 1385. Mas nesta conjuntura era mais importante atestar a legitimidade do mestre de Avis ao trono e coarctar qualquer hipótese de considerar os filhos da Castro. Diogo Gomes.13. 1. quando já rei de Portugal. Lourenço Martins de Bornes. doc. mas também na busca da paz em Canaveses. João Mendes de Vasconcelos. Pedro I (1357-1367). Pedro soube reconhecer o amparo que sua mãe lhe concedeu ao longo de todos os momentos da sua vida. 171. Segundo Ana Rodrigues Oliveira. Estas nunca reconheceram o casamento de D. como legítimos. doc. 477 476 Chancelaria D. no contexto da conjuntura da crise sucessória de 1383-1385. Dinis. Pedro I. Vasco Fernandes Coutinho (ML. Álvaro Pereira. quando a rainha rogou ao monarca a dispensa de o seu boticário e morador em Lisboa. Instituto Nacional de Investigação Científica/Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa. p. surgiu novamente a dúvida sobre a autenticidade deste matrimónio. D. 1206. Atouguia. Pedro: primeiro. numa mulher para quem o filho se afigurava mais frágil e vulnerável do que o marido”478. possuir cavalo477. Beatriz eram atendidos por D. Torres Novas. na assinatura da paz de Canaveses e.mais tarde.º8. Pedro. A relação entre a mãe e o filho devia ser muito próxima e de grande cumplicidade. Gonçalo Pereira. Ao longo dos anos.

não deixaram informações relativas ao amor maternal. Esta função começava com os incómodos da gravidez. podemos afirmar que. Como mulher.D. escritas por homens. fac-similada. em alguns momentos. era profundamente marcada pelo casamento e pela maternidade. durante a Idade Média. E. D. rainha de Portugal. 193. titulo 6. uma rainha deveria possuir quatro qualidades essenciais: devia ser de boa linhagem. como mãe. Las Siete partidas. As crónicas. Beatriz foi uma mulher. bela. mas sobretudo para os filhos. Para a época. 3 vols. Beatriz passou de uma linhagem para outra (da de seu pai para a de seu marido). por exemplo. lei 1. rééd. Beatriz foi uma fonte de amor e de afecto para os seus netos. neste caso mulher e mãe de reis. como analisámos. referem os sete filhos nascidos deste matrimónio. nora e mãe. a rainha D. p. Madrid. Todavia e. devendo participar nas alegrias e nas tristezas do rei. Em forma de conclusão. Não obstante. Segunda partida. mas acima de tudo mãe. Era uma pessoa com os mesmos poderes e limitações de qualquer mulher nobre do seu tempo ao desempenhar o seu papel de esposa e de mãe. 1985. a vida de uma mulher leiga. Beatriz e os seus filhos. rica e possuir bons costumes480. No caso em apreço. a consorte deveria estar sempre do lado do seu marido.. bem como o falecimento de quatro deles. Boletín Oficial del Estado. esse empenho não esmoreceu mesmo quando os seus filhos já eram adultos. Eram estas últimas características que a distinguiam de todas as outras mulheres suas contemporâneas no reino. continuando com as dores do parto e. “Para una historia social (…). para mulher. mas são omissas relativamente aos sentimentos suscitados por essas perdas. p. É nas entrelinhas que podemos conjecturar sobre a afectividade existente entre D. 16. no caso de D. mas também de um estádio da vida familiar para outro – de filha. do ponto de vista político: quando falou 479 Esta expressão foi empregue por Reyna Pastor Togneri. após o nascimento da criança. com o enorme empenho que uma progenitora tinha para cuidar dos seus descendentes. As fontes disponíveis. D. A consorte terá desempenhado ao longo de toda a vida o seu “ofício de mãe”479. intervir em determinadas situações críticas. Beatriz conseguiu. Beatriz. mesmo que rainha. Vivendo ela num espaço onde o monopólio das actividades e do poder era maioritariamente masculino. gostaríamos de afirmar que. muito pouco se sabe sobre a função materna da rainha. 480 138 .

O que já demonstrámos não ser verdadeiro. E D. para conseguir a paz no reino. é a de uma rainha apagada e sem papel político. A imagem que prevalece. estas movimentações estavam dependentes da rede de relações familiares. de um grande conhecimento do ser humano. na tentativa de evitar um conflito armado entre os dois reinos. Beatriz como uma rainha dotada de uma inteligência viva. No entanto. mas também com o reino de Castela. Sobretudo nos registos alusivos à rainha D. a sua acção não foi despicienda. Perante conflitos procurou sempre ter uma atitude conciliadora das partes em confronto. Politicamente. a mulher de D. Afonso IV como que ficou na sombra da sua antecessora. Em termos de memória colectiva. Isabel. não hesitando em intervir pessoalmente ou fazendo-se acompanhar de pessoas da sua confiança para a ajudar a pôr termo às disputas. como o arcebispo de Braga no caso das pazes de Canaveses de 1355.com o rei de Castela e seu genro. Afonso XI. D. mãe dedicada. e quando moveu toda a sua influência pessoal durante a guerra civil que opôs o infante herdeiro ao pai. Beatriz jamais se coibiu de exercer a sua influência e a sua capacidade de intervir na vida política do reino que a acolhera como rainha. 139 . Do que acima fica mencionado gostaríamos de referir que consideramos a rainha D. a representação de D. crente em Deus e participativa em alguns actos de governo. para o senso comum. uma vez que revelou alguma autoridade para estabelecer negociações políticas e diplomáticas não apenas internas. Beatriz que é veiculada é a de uma mulher bondosa que segue os ensinamentos da sua Santa sogra.

Junto destas mulheres a rainha D. Inês de Castro e D. cresceu. V. D. Beatriz. uma interdependência entre o serviço à rainha e o serviço ao rei. algumas vezes. 140 . Isabel de Aragão.1. de fidelidades domésticas de parentes. Assim. posteriormente.V – A “Casa” da Rainha D. nunca foi elaborado um estudo exaustivo dos bens imóveis detidos pela rainha D. Leonor Teles. como consorte. Na Idade Média. Desde o inicio do nosso trabalho verificámos a ausência de uma detalhada e rigorosa investigação sobre os bens e os 481 O conceito de “Casa da Rainha”. o caminho aponta para uma relativa autonomia do primeiro em relação ao segundo. uma unidade de organização social. no sentido de família alargada.1. tem vindo a ser alvo de especial atenção por parte da mais recente historiografia portuguesa. os estudos serão referenciados em notas posteriores e à medida que vão sendo citados. durante o período medieval. D. Por seu lado. era ao mesmo tempo o centro da gestão patrimonial. mas existem características que já lhe podemos associar. a Casa da Rainha encontrava-se ainda em fase de “germinação”. Para não sobrecarregar o texto com notas de fim de página. os ensaios realizados interessaram-se mais pela sua antecessora. – Os bens da rainha a) Bens adquiridos Até ao momento. como infanta e. bem como de criados e de servidores. além de ser uma realidade física e espacial.1. – O património da rainha V. Era sobretudo um micro-cosmos complexo e muito marcado por um vasto conjunto de teias de relações sociais. Porém. e sucessoras. viveu e actuou no seio de dois universos que se entrecruzavam: a Casa da Rainha481 e a Corte. Na época medieval. a Casa. Beatriz surgia sempre como uma personagem apagada e desprovida de interesse. mas sustentada num sistema de parentela. Beatriz nem dos seus poderes senhoriais e jurisdicionais. ambas eram fortemente marcadas pelas clientelas domésticas. Como já referimos em capítulo anterior. Através da reconstituição das redes de parentesco encontramos. salientamos os trabalhos desenvolvidos por Manuela Santos Silva e Ana Maria Rodrigues.

A evolução do património de D. uma vez que é parca a informação contida nos relatos coevos. Não nos podemos esquecer que veio para Portugal com apenas quatro anos de idade. Filipa de Lencastre. in A região de Óbidos na época medieval. “Óbidos ‘Terra que foi da rainha D. Identificar os bens detidos pela nossa soberana não constituiu uma tarefa fácil de realizar. consideramos. sempre que a mulher do rei falecia. Sendo a dotação dos pais às filhas. direc. o mundo privado da “Casa” desta consorte. Caldas da Rainha. p. pp. cada rainha tinha à sua disposição um património diversificado. de modo algum o assunto se encontra esgotado nas páginas deste nosso estudo. Manuela Santos Silva. para a redacção destas linhas foi necessário esmiuçar as notícias recolhidas pelas diferentes e dispersas fontes482. que se revelou. seigniorial tributes and jurisdictional rents: the income of the queens of Portugal ir the Late Middle Ages”. por ocasião do matrimónio. Beatriz. assim como reconstruir. Património Histórico. desconhecemos o que terá originado esta ausência.poderes de D. tanto quanto possível. os seus bens voltavam automaticamente para a Coroa e só tornavam a ser doados à nova consorte quando e como o monarca reinante o desejasse. pois consideramos necessária. Filipa’ (o senhorio de Óbidos de 1415 a 1428)”. sejam eles crónicas ou fontes documentais. de Earenfight. in Women and wealth in late Medieval Europe. Ana Maria Rodrigues e Manuela Santos Silva. depois de devidamente compiladas. 1994. Grupo de Estudos. nos permitiram esboçar a mancha de bens detidos pela rainha D. mas também nos quadros anexos a este texto. que existia um núcleo de terras que eram sempre concedidas pelo rei às sucessivas rainhas485. como iremos demonstrar em seguida. 277-278. Beatriz está evidentemente relacionada com o papel que ocupou na corte portuguesa como mulher do monarca. imprescindível levar a cabo. Estudos. 2008. Isto acontecia porque. Não obstante esta prática. a este respeito. uma investigação de conjunto sobre as consortes da primeira dinastia portuguesa. Baseamo-nos na comparação com a rainha D. 88. um hábito entre a realeza medieval483. Beatriz. Esta nossa escolha está relacionada com o facto das informações referentes a estes 485 484 483 482 141 . As fontes documentais usadas para a redacção deste ponto encontram-se em notas de rodapé. Isabel de Aragão e com D. Como já afirmou Manuela Santos Silva484. principalmente. e que não trouxe terras doadas por seus pais. “Private properties. Assim. Apesar de a nossa investigação procurar ser o mais aprofundada possível. as quais. como infanta.

XX-XXI. esteve a infanta castelhana prometida ao filho de Filipe. p. D. Porém. gozavam as arras logo que casavam” (Francisco da Fonseca Benevides. 486 Veja-se o capítulo III – O acordo matrimonial. dou a vos a Infanta Dona Brites por arras (…)” (ML. constituindo estas a principal forma de manutenção e sustento das consortes489. 141-143. Rainhas de Portugal (…). in Novos estudos de história do Direito. pp. ao contrário do que acontecia nos outros reinos. Desse modo. esta última. o Belo. fl. às quais queremos deixar aqui registada a nossa gratidão. 28. eram concedidos bens e rendimentos às consortes régias. e como já referimos anteriormente. 23. Rainhas de Portugal (…). Barcelos. uma soma em rendas provindas de um conjunto patrimonial. mas também na viuvez. 2008. D. “Um problema filológico-jurídico: a palavra ‘arras’”. Dinis dotou a futura rainha com carta de arras. Vila Viçosa. Aquando do acordo matrimonial entre D. já como rainhas nos terem sido facultadas pelas Professoras Manuela Santos Silva e Maria Filomena Andrade. Beatriz e D. V. Francisco da Fonseca Benevides. Porém. 1937. sendo que. p.Começaremos esta análise pelas informações presentes na documentação relacionada com o matrimónio de D. 489 “As rainhas de Portugal. o sogro ofertou a D. Antes do acordo de casamento estabelecido entre a mais jovem filha de D. Beatriz. herdeiro do trono português. Gaia com Vila Nova [MAPA I]. Frederico Francisco de La Figanière. principalmente no século XIII. a influência do direito romano foi paulatinamente alterando este costume. e o infante D. os monarcas portugueses continuaram a outorgar às suas consortes terras. No momento da formalização do acordo matrimonial. 259). o rei D. não tendo sido trocadas arras nem dote entre as duas casas reais486. Beatriz. pelo que a futura rainha apenas trazia consigo alguns objectos pessoais e mobiliários. Vila Real. Ed. Beatriz. trocou-a. bens e rendas diversas. “Dom Dinis pela graça de Deos Rey de Portugal. 488 487 Manuela Santos Silva. sobre esta matéria. Leão e Castela a fruição das arras era imediato. Beatriz possuiu o usufruto das arras. Afonso. e do Algarve. sendo-lhes concedidas as “arras” pelo seu marido. Veja-se. p. Em Portugal. Estas proporcionavam às rainhas uma base económica estável não só durante o casamento. Todavia. Afonso. ficando com a sua administração. Não é demais relembrar que a concessão das arras tinha como objectivo garantir o sustento da rainha em caso de morte prematura do seu marido488. Sancho IV. Seguindo a tradição lusa. o projecto para esta união não passou disso mesmo. Memorias das Rainhas (…). A partir deste momento tornava-se obrigatória a dotação do pai da noiva. 23). Beatriz recebeu por arras terras que rendiam anualmente seis mil libras da moeda velha de Portugal. do Minho. no ano de 1297487. “Os primórdios da Casa (…)”. D. Pedro I. pp. Paulo Mêrea. até ao reinado de D. Comp. de um projecto. a infanta adquiriu Évora. pela compra do seu corpo. 142 . Na senda da tradição visigoda.

Por este motivo. tenha D. com D. Afonso por palavras de presente. Apontamos como causa de tal ausência o facto de o rei considerar o casamento como um dado adquirido. eram. 492 143 . muitas vezes. Beatriz já se encontrasse no reino de Portugal.” (ML. m. nessa altura. senhorio e o poder de nomear os seus oficiais491. a infanta D.soberana. Porém. Cabido da Sé de Coimbra. no ano 1334. 491 “Vos conheção senhorio daqui adeante.10. 2ªinc. lhe escapasse uma situação destas. e dando lugar ao cumprimento de condições consideradas especiais. Ou seja. e que recebão os officiaes. o carácter vitalício da doação. deste modo. Ora. como foi este monarca. Na senda do que nos relata Frei Rafael de Jesus. como os eu avia de poer. Afonso IV490. Foram concedidas à rainha estas vilas com todos os seus direitos. incluídas cláusulas que preveniam tal tipo de situação.259. ML. evidentemente. aumentando ao longo da sua vida. numa data em que a jovem infanta não teria mais do que quatro anos. Beatriz recebido a 490 TT. 259). mas também uma pequena parte do património. V. Qual o motivo? Mero descuido? Não nos parece que a um estratego habituado a importantes negociações. através de doação régia ou de outras formas [QUADROS II e III]. É também possível que. ao nível político e estratégico. Beatriz dar início à organização dos seus domínios e rendimentos particulares. que lhe vos derdes segundo seu foro. Porém.. principalmente porque ele fazia parte das cláusulas do Tratado de Alcañices. V. Dinis não teve esse cuidado. por Sintra. fl. Este contrato matrimonial permitiu a D. a primeira porção das propriedades imóveis detidas pela rainha. seria completamente impossível uma criança de tão tenra idade fazer administração de bens.º484. uma leitura atenta desta carta de arras revela que D. As arras representaram. o rompimento deste acordo. desaparecendo. assim como os respectivos direitos reais. Dinis mandou redigir a carta de arras no ano de 1297. Naturalmente que uma concessão em arras outorgada antes da realização efectiva do matrimónio poderia acarretar o perigo de a dotada não vir a ser a futura esposa do monarca português. há um outro dado que é necessário ter em atenção: D. com a excepção de o monarca reservar para si “o meu senhorio”492. foi transferida para a sua posse a jurisdição pertencente à coroa sobre estas vilas e lugares. uma vez que os bens foram. n. não interessando. fl. deste modo. em Maio de 1309. talvez somente no dia em que foi recebida por D.

m. e muytos lugares de que elRey lhe fez merce” (ML. Dinis tenha concedido a D. Beatriz e. Domingos Gomes. E.º31.3. m.º987. Além das arras. m. D. Atouguia. de Óbidos. A rainha D. uma várzea muito fértil. Afonso IV494. de excelentes condições de comunicação. Gonçalo Esteves e Estêvão Eanes. Isabel de Aragão não senhoreou Torres Vedras. Dinis e D. Torres Novas. Colegiada de S. TT. o Castello de Ourem. Colegiada de Santa Maria do Castelo de Torres Vedras. que considerou Torres Vedras como uma terra pertencente à Casa das Rainhas e que possuía. m.º14. 493 “Agora. VII. m. VII. Colegiada de S. assim como a rainha a mantinha nas outras vilas e terras pelas graças que lhe fizeram os reis D. Pedro I fez a sua mãe.º45. concedeu-lhe a jurisdição nessas vilas. entre elas D.27. Afonso IV. não conhecemos mais nenhuma dotação que D. Dinis e D. abastecimento e defesa. 494 495 TT. Gav. Por um lado. Afonso IV deu a D. Mas D. Miguel de Torres Vedras. TT. aquando da doação de 1357. m. excepto na cidade de Évora.29. Porto de Mós e Cheleiros. Segundo a referida autora. este foi sendo doado às várias rainhas. Beatriz. m. posteriormente. Afonso III. por outro lado. e riquezas” (ML. que apesar de Torres Vedras ser um concelho que pertencia ao rei.º225. também sabemos que esta cidade foi concedida por D. n.º16.4. Neste caso. Terrena. Consideramos. Beatriz. do qual extrai o seguinte: “despois que se receberaõ em Lisboa por palavras de prezente: elRey lhe deu (ao Principe) Viana. a primeira rainha a receber esta vila foi D.4. ao tempo da rainha D.13. lhe acreceo a pòsse das arras prometidas a sua molher a Princesa Dona Brites. Dinis em arras495.4. p. Esta é também a opinião de Ana Maria Rodrigues.6. Este autor remete para Ruy de Pina. e a sua molher grandes terras. Beatriz a jurisdição nos feitos cíveis e criminais em todas as suas terras. Mosteiro de Santos-o-Novo. n. p. n. Deste modo. m.º4. as arras só passassem efectivamente para a posse das donatárias após a realização das bodas por palavras de presente. n. na Idade Média. mulher de D. Leonor Teles. Ourém. Pedro fez a Beatriz. n. Numa doação que D.14. em 497 496 144 . n.posse das arras493. m. mas possuíram a vila D. este referiu-se às outras vilas que a rainha possuía por mercês de D. 85). n. e muytas joyas. Pedro de Torres Vedras. n. 85). que D.49. Beatriz de Gusmão. assim como os juízes Domingos Bartolomeu e Lopo Esteves496. na documentação da época referente a esta vila são intitulados “da rainha” os tabeliães Gonçalo Domingues.4. no ano de 1357.º73. n. Gav. Temos várias provas de que as arras foram efectivamente detidas pela rainha. Beatriz. n. que se recebeo por palavras de presente. pelos motivos apontados. m. e a terra de Armamar junto a Lamego. mas sabemos que esta vila se encontrava na posse da consorte. Desconhecemos o primeiro documento de doação de Torres Vedras à rainha D.º52.13. seria possível que.º4. Beatriz497.

ao mesmo tempo. uma vez que o monarca lhe dispensou todos os seus direitos. efectivo. Casa. rendas e poderes nas terras concedidas. a casa possuía duas áreas centrais de irradiação do seu poder. Beatriz permite-nos compreender que estamos perante um domínio espacialmente vasto e. II. 145 . (Ana Maria Rodrigues. 24). impostos de vários géneros (quase nunca mencionados nas doações498). na comarca de Faro. 1995. ficando na sua posse até à sua saída do país. A vila e o termo nos finais da Idade Média. Nesta zona encontrava-se um núcleo extremamente denso que nos leva a falar de uma verdadeira “área regional” de implantação500. em 1383. e para casos estudados na época moderna portuguesa. A rainha possuía senhorios que se encontravam fortemente concentrados na Estremadura499. 465-467). Beatriz concentrou uma mancha patrimonial verdadeiramente importante. ao longo dos tempos. em que a vila de Alenquer representou a cabeça da ouvidoria das demais terras localizadas nesta região (veja-se Maria Paula Lourenço. 18-19. por tradição as rainhas tutelavam senhorios. Rainhas de Portugal (…) . Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. mas também como o mais estável e uniforme do domínio da “Casa das Rainhas”. nomeação de fiscais e outros oficiais. as jurisdições crime e cível (o mero e o misto império). Lisboa. pp. A outra. Fundação Calouste Gulbenkian/Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica.Os monarcas podiam outorgar às suas esposas doações voluntárias que não estavam sujeitas a regras fixas. Casa. II. instituições e relações sociais. Beatriz detinha menos património eram caracterizadas por um fraco e disperso povoamento. que recebeu de forma vitalícia. D. p. disperso pelo reino. a Estremadura caracterizava-se por doação do seu marido. 1999 (dissertação de Doutoramento policopiada). na “constituição do património das rainhas. Alenquer e Torres Vedras. 752). à excepção de Gaia com Vila Nova. situada junto da importante cidade do Porto501. Fernando. 501 500 A. datada de 1372. corte e património das rainhas de Portugal (1640-1754). p. vol. pois. no reinado afonsino. IV. Será também este o núcleo central que irá pertencer à Casa das rainhas do Portugal Moderno. Podemos afirmar que a Estremadura constitui-se. vol. concluímos que. 113. corte e património (…). Sintra e na cidade de Lisboa]. Lisboa. mais concretamente em torno das vilas de Óbidos. Destas doações faziam também parte rendas. província na qual. pp. D. Torres Vedras. heranças das antigas donatárias da Casa” (Maria Paula Lourenço. As regiões onde D. O poder da rainha foi. Poderes. A percepção cartográfica dos bens de D. H. embora o rei reservasse sempre para a coroa o alto senhorio. Uma primeira correspondia às terras doadas na Estremadura. vol. Nova História de Portugal. 752). Por seu turno. Segundo Francisco da Fonseca Benevides “os direitos reais não era uso serem especificados” (Francisco da Fonseca Benevides. não só como o território principal. No caso em estudo. de Oliveira Marques . 499 498 Segundo Maria Paula Marçal Lourenço. p. rendas e bens das vilas supracitadas [Alenquer. ou seja.

2001. Ensaios de História medieval portuguesa. por exemplo. “Caracteristicamente. que surgia como a principal via de contacto não só entre o litoral e o interior. de Oliveira Marques. com os campos de cereal. pp. pp. Maria Ângela Beirante. a paisagem circundante. Esta região está eivada de pequenos cursos fluviais que vão desaguar ao rio Tejo.uma grande diversidade geográfica que permitiu um variado aproveitamento económico. a que podemos associar a linha costeira que propiciava a extracção de sal. Introdução à História da agricultura em Portugal. Santarém medieval. H. Todas estas estruturas eram imprescindíveis para a subsistência das diferentes vilas. mas também os edifícios e os terrenos que se encontravam adstritos ao serviço do rei505. Nova História de Portugal. sabemos que os 506 505 146 . No caso concreto de Alenquer. Coimbra. A actual zona do Ribatejo. 1983. 504 Maria Ângela Beirante. Universidade Nova de Lisboa. os bosques e as florestas 502 Sobre o papel da Estremadura vejam-se os seguintes títulos. No seu principal núcleo de implantação. Estes eixos eram completados pelo curso do rio Tejo. e teve desde sempre boas vias de comunicação504. Iria Gonçalves. ou em pequenas parcelas junto das habitações rurais”. A. 277-301. A construção medieval do território. considerada o “celeiro de Portugal”503 .. 3ª ed. 2 vols. Lisboa. Maria Helena da Cruz Coelho.. Neste património detido pela rainha figuravam ainda as hortas ou almoinhas. Beatriz beneficiava também da presença de eixos viários tradicionais que permitiam uma fácil ligação entre o Norte e o Sul. 1978. era fértil. Amélia Aguiar Andrade. Lisboa. IDEM. 23. IV. Cosmos. Ana Maria Rodrigues e Manuela Santos Silva. mas igualmente permitia a deslocação da rainha pelas suas terras ao longo deste rio. Lisboa. p. seigniorial tributes (…)”. 1980. As matas. essencial para a alimentação das populações autóctones. uma vez que constituíam pontos logísticos fundamentais para o abastecimento e o sustento das populações506. mas também a actividade piscatória502. mas também com as hortas que rodeavam as cidades de Lisboa e de Santarém. Imprensa Nacional Casa da Moeda. O baixo Mondego nos finais da Idade Média. sobretudo na cultura do trigo. 106-116. O património do mosteiro de Alcobaça nos séculos XIV e XV. 1989. os portos). Todos eles devem ter desempenhado. Lisboa. 503 97. ao longo da Idade Média. de Oliveira Marques. Santarém medieval. Lisboa. tinham tendência para se agrupar num aro em torno de um núcleo urbano. Universidade Nova. D. H. 1980. p. não só como meio de transporte. “Private properties. Livros Horizonte. mas também pela possibilidade de irrigação dos solos e ainda como fornecedores de pescado. Veja. um importante papel na economia local. os mercados. Esta expressão é utilizada por A. as instalações “públicas” (como. vol.

consequentemente. Subsídios para o seu estudo. H. fornecia a uva para consumo de mesa. seu irmão. nos domínios do infante até à sua morte. Gaia. Nova História de Portugal. duas vilas fronteiriças da maior importância. Por isso. Sintra e Vila Viçosa509. 137). além do vinho. existiam no Portugal medievo numerosas árvores de fruta e oliveiras localizadas dentro e na periferia dos povoados. claramente apto para o plantio da vinha. IV. foi realizado um escambo entre ambos. a alimentação da grande maioria da população tinha como base o cereal. Acresce a este facto o favor do clima. Dinis daria Sintra e Ourém. Beatriz. sendo todos importantes para a economia das vilas. D. pelo menos em vastas áreas. Como já analisámos. Nesta altura existiu uma disputa pela posse da vila sintrense entre D. p. tais como Óbidos. Certas localidades pertenceram à rainha D. o pleito foi decidido favoravelmente para a filha mais velha de D. ao passo que D. Ao lado da vinha que. D. 98). Patrimónia. 5. Dinis e os herdeiros de D. Isabel. Mas poucos anos se manteve na posse desta consorte. uma fonte para o complemento alimentar das populações rurais. constituindo. Alenquer medieval (séculos XII-XV). Atouguia. Segundo A. p. desde tempos antigos. um apanágio das sucessivas soberanas. No ano de 1315. de Oliveira Marques. vol. p. Não nos podemos esquecer que o vinho era uma bebida que vinha conhecendo um crescente consumo. 1996. p. Afonso. Trancoso. no ano de 1312. Sintra manteve-se. do seu cultivo. em todo o país se plantava vinha. como cultura e produto destacados da terra portuguesa” (in A. desse modo. Assim. parte dos domínios da rainha. Dinis na composição de um acordo de paz entre o monarca e o infante D. Afonso. Afonso. Porto de Mós. Além de fornecerem madeira e pasto para os animais. principalmente em torno dos grandes povoados. o património recebido encontrava-se localizado em diversos pontos do país. Manuela Santos Silva. mas também excedentes da produção eram enviados para Lisboa e aí vendidos (in João Pedro Ferro. Porém. Para Sérgio Luís de Carvalho a doação de Sintra à rainha D. de Oliveira Marques507. permitiam a prática da caça. igualmente. H. Ourém. A outra grande lavoura da Idade Média era a vinha. O autor afirma que “o solo português mostra-se. Isabel representou a primeira vez que esta vila apareceu claramente associada ao senhorio das rainhas. “Isabel de Aragão (…)”. O “pão” e o vinho surgiam como a base de toda a agricultura e alimentação da época medieval. Cascais. o seu cultivo possuía um peso muito importante na agricultura. “Os primórdios da Casa das Rainhas (…)”. 509 147 . Por todo o país existiam igualmente solos ocupados por pastos para os gados. Não admira. mas também à consorte que a antecedeu. Somente após a morte desta infanta é que a vila regressou à Coroa e. no qual D. pois. já que em 1300 foi utilizada pelo rei D. 508 507 Filomena Andrade. Isabel de Aragão. muitas vezes. Vila Real508. a crise do século XIV e o cenário de mortandade resultante da Peste Negra de 1348 originaram uma paisagem marcada pelo elevado abandono da terra e. Afonso cedia ao monarca Portalegre e Marvão. Como é sabido. que a vinha e o vinho se contassem.faziam. 2.

à que lhe sucedeu. se encontravam já na posse da rainha posteriormente. Philosophical and Religious Studies. Manuela Santos Silva. pp. Muitas destas localidades foram concedidas pelos monarcas D. 1458-1525 (ver Ivo Carneiro de Sousa. Alenquer. “Os primórdios da casa das rainhas (…)”. Filipa de Lencastre. Deste grupo de localidades. todas. 23). Umea University. Afonso IV fez com D. 3. Manuela Santos Silva. Pedro I. levou o referido autor a afirmar que a consorte dionisina foi efectivamente donatária de Alenquer (João Franco Monteiro. 156-157). Sintra. Após o seu falecimento. Filipa de Lencastre. 513 Estas eram também as terras que pertenciam à casa da rainha D. Filipa foram Óbidos. Podemos. Manuela Santos Silva. Diz a mesma autora que. 2. a D. Mas o facto de D. com poucas variações. à excepção de Alvaiázere. na Suécia. Sintra. Dinis. Philippa of Lancaster. p. p. Segundo afirma João Franco Monteiro não se conhecem documentos que atestem a posse de Torres Vedras e Alenquer por parte da rainha Santa Isabel. 512 511 Esta terra foi também doada por D. Por norma. Leonor Teles. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. p. 144). Trancoso512 (Beira Interior Norte) e Vila Real (Trás-os-Montes). Leonor. Torres Vedras. Torres Novas511. como iremos analisar (Sérgio Luis Carvalho. as terras voltavam para a posse da Coroa. Afonso IV e D. A rainha D. mas sempre durante um período limitado. confirmar que a Estremadura continha a componente principal e mais uniforme do domínio da “Casa das Rainhas”. 147-148). deste modo. 510 Isabel Maria Campos. Atouguia. as soberanas eram detentoras das mesmas até à sua morte. V. em favor da rainha D. Todas estas terras estavam circunscritas à vasta região estremenha. Beatriz. pp. Beatriz [QUADRO II]. Isabel possuir em Alenquer uma residência. 50-51. A “Casa das Rainhas” começou a possuir uma composição estável a partir da rainha D. pp. 9. Alenquer. João I. comunicação apresentada na Conference Political women: 1500-1900. Óbidos (todas recebidas em arras) e Vila Real510. p. fl. Leonor Teles (ML. 514 148 . que se realizou em Umea de 12 a 14 de Novembro de 2008. segundo Manuela Santos Silva513. que pertenciam a zonas secundárias e não contínuas do “núcleo central” dos bens da rainha. organizada pelo Departement of Historical. detinha em sua posse Óbidos. tais como Almada. A vila de Sintra nos séculos XIV e XV. “Óbidos ‘terra que foi (…)”. Torres Vedras. assim como o facto de dotar a terra com alguns benefícios. as terras doadas às sucessoras de D. Fernando à rainha D. Sintra. As donatárias de Alenquer (…). Alenquer. Lisboa. 90. à posse das rainhas através do escambo que D. queen of Portugal (1387-1415): the smooth queenship. D. Leonor Teles (…). excepto Vila Viçosa (Alto Alentejo). Quanto a D. mulher de D. Leonor (…). Torres Vedras. Alvaiázere e Torres Novas514. 1988 (dissertação de Mestrado policopiada).

Beatriz receber algumas terras (como por exemplo Sintra. filha de D. algumas terras. Isabel. em Portugal. sabemos que D. mas o conceito de “casa” ou “património da rainha” já estaria a dar os seus primeiros passos nesta centúria. Segundo Manuela Santos Silva515. nem estes tão-pouco podiam ser concedidos à nova soberana enquanto a rainha-mãe fosse viva518. o seu marido. Apesar de não subsistir nenhum documento que comprove esta separação. 516 Em Castela. ou seja. Isabel de Aragão) e a Rainhaconsorte (D. Beatriz poderiam ter seguido esta regra. aquando da ascensão à dignidade de consorte ou quando o seu marido se tornasse rei e lhe entregasse as referidas terras. até ao ano de 1336. Estudos. Caldas da Rainha. consideramos que a “Casa das Rainhas”. Para o caso em estudo. Assim. p. 111-119. Pelo que fica dito. a rainha-mãe (D. ressalva que só no caso da soberana manter o seu estado de viuvez poderia conservar o seu património (César Oliveira Serrano. “Notícias sobre a segunda doação régia de Alenquer. Ou seja. João I. Leonor de Lencastre (Évora. Também segundo Manuela Santos Silva517. Infelizmente. a rainha D. Beatriz. Inferimos aqui uma preocupação dos monarcas em manter na posse das soberanas. conservando a primeira a sua porção até ao final da vida. desconhecemos a forma como ambas administravam e senhoreavam estas terras516. o lote total das terras só seria entregue à nova rainha após a morte da rainha-mãe. 34. e para o caso concreto da rainha D. Manuela Santos Silva. Fernando e D. detendo aí todos os poderes de uma verdadeira senhora dentro dos seus domínios. pp. Isabel e D. A parte de que abdicava a sogra cabia à mais recente soberana. tal como a sua sogra. assim como os direitos e privilégios usufruídos pela manutenção das 515 Manuela Santos Silva. Beatriz. mas em contrapartida as rainhas não podiam alienar esses bens. como instituição. Até ao ano de 1336 coexistiram. não encontramos informação que possa corroborar ou refutar esta hipótese. não existiria ainda no século XIV. No documento de concessão não é mencionado o modo de administração ou a paridade /desigualdade entre as duas rainhas. o património desta última era dividido em duas partes. 1994.D. a Rainha-consorte e a Rainha-mãe. O que conhecemos são informações que relatam o facto de D. as doações das terras eram vitalícias. quando coexistiam duas soberanas no reino. 518 517 149 . p. Isabel. D. Beatriz. 202). Beatriz de Portugal (…). consideramos que algumas das terras em posse de D. Gaia com Vila Nova e Sintra. 15 de Abril de 1491)”. D. Beatriz). Património Histórico. Vila Real. que pertencia à rainha D. Óbidos e Sintra à rainha D. Beatriz detinha Vila Viçosa. Isabel) em doação régia ainda em vida de D. Leonor Teles. in A região de Óbidos na época medieval. “Os primórdios da Casa (…)”.

que também. As doações dos monarcas efectuadas aos membros da nobreza e do clero deviam ser confirmadas pelo novo soberano. Beatriz520. os bens retornavam automaticamente à coroa e só voltariam à posse de nova rainha se o monarca assim o desejasse. m. Na doação que D. 521 522 150 . TT. O património possuído pela soberana permitiu-lhe receber apreciáveis proventos do senhorio da terra. D.º73. o monarca confirmou a posse das terras que se encontravam com a rainha D.º15. Dinis. Isabel e D. Como já afirmámos. no ano de 1351. como já analisámos anteriormente. de duas mulheres de D. Beatriz. serão as mesmas que anos mais tarde vamos encontrar na posse de D. graças e liberdades que o rei D. Filipa de Lencastre. possuídas por D. Numa sociedade profundamente marcada pela Igreja. Anteriormente. mulher de D.2. mas Esta era a prática vigente na época. a maior parte dos bens detidos pela soberana era constituída. Apesar de D. como referimos acima. n. deste modo. Pedro (D. Essas terras. Isabel de Aragão. a rainha fundou um hospital na alcáçova de Lisboa. privilégios. n. a quem pertenciam as terras da “Casa das Rainhas”. Recorde-se que todas as doações régias concedidas às consortes não podiam ser alienadas pelas donatárias. Colegiada de Santa Cruz do Castelo de Lisboa. Mas a identidade própria que a pessoa da rainha detinha enquanto senhoreava estas terras desvanecia-se com a sua morte. O rei consolidou.º63 e n. desta forma.2. reforçando a sua presença na região estremenha. Nesse momento.1. Depois voltariam à posse da coroa e seria o monarca a doar essas mesmas terras519. Constança e D.4. Gav.mesmas. necessitavam de autorização do monarca para adquirir novos bens522. Beatriz ter coexistido com a presença. Afonso IV outorgou e confirmou todas as doações. Dinis fizera a D. TT. principalmente. no ano de 1357. a sua acção piedosa521. os núcleos detidos pela rainha sua mãe há muito tempo. m. Pedro I fez a sua mãe. Gav. O modo de doação era muito semelhante: em forma de senhorio com jurisdição cível somente durante a vida da rainha. A excepção foi a sua convivência com a rainha D. a verdade é que o seu património se manteve sempre na sua posse devido à morte prematura de ambas. n. Beatriz [QUADRO II]. 520 519 TT. revelando. por senhorios de terras em várias vilas e cidades.13.º6. m. Inês de Castro). em Portugal.

Pedro confirmou esta doação à sua mãe529. em Santarém (Maria Ângela Beirante. 1999. p. por nós compulsada. porque não encontramos referência documental que a corrobore.também por algumas propriedades rústicas. uma quintã em Melida (termo de Sintra)524. Uma das lezírias foi de Fernão Sanches. V. Maria Ângela Beirante refere que D. Vicente de Fora. fl. D. 528 ML. m.9. Chancelaria D.º8. Fernão Sanches. 175v e Mário Barroca. 318. 288). Leitura Nova. n. no ano de 1292. n. Gav. As rendas destes dois casais estavam destinadas.14. alm. lavrados. Aquele senhor doou a seu irmão. por alma do referido Fernão Sanches (TT. m. II.12. m. II/2 – Corpus epigráfico medieval português. que o anexou às capelas e hospital que instituiu em Lisboa528. Epigrafia medieval portuguesa (862-1422). Guiomar Gil. Nunca é mencionado na documentação. n. como uma vinha em Alvisquer523.51. seu irmão.9. Coimbra. Santarém medieval. os seguintes bens no termos de Santarém: um herdamento (hereditário) e a lezíria dos Portos (perpétua e hereditária) (Maria Rosa Marreiros. n. 4. assim como “todas as outras coisas que a mim ficaram de Fernão Sanches”. vol. por Nicolau Domingues que pagava o terço do obtido e os foros. por sua vez. As donatárias de Alenquer (…). 529 As excepções desta doação são dois casais localizados na ponte de Alviela. docs. João Rodrigues de Briteiros e de D. seu filho. vol. n.13. Veja-se também. n. para rezar missas. a lezíria dos Portos. assim como ao hospital que instituiu em Lisboa (TT.º24. Existe uma carta de doação que D. localizadas em Santarém e seu termo. bastardo do rei D. m. um herdamento do Bairro. Pedro I.. 318 e 1204). por testamento. Colegiada de Santa Maria da Alcáçova de Santarém. OFM.º36. o rei D. O monarca. Liv. TT.4. pomares. quais os bens que estiveram na posse da consorte.2. no termo de Santarém. p. herdades de pão e olivais). João Franco Monteiro. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Mais tarde.º572. m. Afonso IV. 2ª inc. 523 TT. concedeu o mesmo bem à rainha sua mulher. vinhas. Beatriz530. Gav. para o hospital e capela em dias de sua vida (Chancelaria D. Lisboa. Pedro I. Dinis outorgou a Fernão Sanches. 1990. adegas.º18. Mosteiro de S. filha de D. 1ª inc. doc. fl. fl.678).35. (dissertação de Doutoramento policopiada). ML. Dinis concedeu a este seu filho bastardo. detidos em Santarém e seus termos. 530 151 .10. 175v. Também temos notícias que o Bravo doou metade destes bens à rainha D. a terra do Louriçal525 e duas lezírias no termo de Santarém526. Legou ainda o Bravo à sua consorte todas as herdades e possessões (casas. 527 526 Fernão Sanches casou com D. à capela régia da Sé. Afonso IV fez de todos os bens doados ao monarca por Fernão Sanches. Dinis: Guimarães. Todos estes bens deveriam voltar à posse da Coroa após a morte de D. Fruilhe Eanes de Briteiros.º3). p. XI da Estremadura. todos os anos. n. 197). TT. m. Fundação Calouste Gulbenkian/Fundação para a Ciência e Tecnologia. Província de Portugal. Beatriz. V. Segundo Maria Rosa Marreiros. Desta união não houve descendência (LL 23B2). Propriedade fundiária e rendas da Coroa no reinado de D. D. Dinis527. TT.. m. Não sabemos até que ponto esta informação da ML é verídica. 524 525 TT. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. à época da doação (1335). Convento de Santa Clara de Santarém.º611.

O espaço e os homens. normalmente. p. consoante o detentor do senhorio da vila). Martinho de Sintra. duas excepções. quer pelas suas características arquitectónicas. mas também é possível que designe apenas uma divisão. em finais do século XIII. n. n.º36 e TT. Lisboa detinha ainda uma posição crucial. a excepção seria a cidade de Lisboa onde a corte régia permanecia mais tempo.10. Afonso III ter transferido para esta cidade a sede da chancelaria régia e ter passado a viver aí grande parte do tempo. fora dos muros da cidade. 107). TT.º106. com a vida económica e demográfica a entrar numa estabilização à qual devemos associar o facto de D. a meio caminho entre o Norte e o Sul do reino532. 80-91. respectivamente.16. O paço em Lisboa está relacionado com o prestígio que a cidade foi granjeando ao longo dos sucessivos reinados e particularmente com D. Este edifício foi mandado erigir por D. Existem. impunham-se na paisagem. Patrimónia. a cidade cresceu e ganhou cada vez mais o título de “capital” do reino. Beatriz fez com o Mosteiro de S. porque se encontrava na foz do rio Tejo. alm. Estes edifícios serviam de residência à soberana aquando das suas estadias nas vilas que senhoreava. vestígios e localizava-se no fundo da calçada que saía da porta do castelo. quer pela sua volumetria. 1988. entre vários usos.º14. Apesar de não existir na documentação por nós compulsada qualquer referência a outros paços. do qual não existem. criados ou uma parte dos seus serviços administrativos e burocráticos. D. 1996. A partir deste momento.54. servir para instalar alguns dos seus servidores. Os bens da rainha provinham principalmente de doações régias. englobando todo o espaço de habitação e mesmo dependências várias.. ou seja. o termo “casa pode ser empregue num sentido genérico. TT. m. Ao nível geográfico. Cascais. H. ou o conjunto de divisões que constituem a construção principal” (in Manuel Silvio Conde. porém. 172-174). Beatriz de Gusmão. A urbe olissiponense só começou a ganhar segurança após a conquista definitiva de toda a região do Alentejo. actualmente. o que pode ser ilustrativo da itinerância do seu séquito.1. Segundo Manuel Sílvio Conde. Afonso IV. Beatriz possuía na capital do reino. 2ª inc. através de um préstamo do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Presença. sabemos que em Torres Vedras existia um Paço do rei ou da rainha (assim denominado. m. pp. n. Estas construções. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Torres Vedras (…).A rainha possuía prédios urbanos em diferentes localidades nas quais estanciava. pp. A. Colegiada de S. Tomar medieval. 533 532 531 152 .3. Ed. Lisboa. (Ana Maria Rodrigues. Novos ensaios de história medieval portuguesa. m. os préstamos que D. umas casas533 que poderiam. de Oliveira Marques. como os Paços que detinha em Sintra e na Alcáçova de Lisboa531. Colegiada de Santa Cruz do Castelo de Lisboa de Lisboa. m. Eram elas que materializavam a presença e a importância da realeza junto da população local.

A quintã dava à sua usufrutuária. Branca Lourenço do Avelar. diz a soberana que devem ser comprados bens que rendam em cada ano trinta libras para as entregar. 160-161. devido ao “muito bem. mas com a condição de deixar ao dito mosteiro. vol.13. Beatriz fez a D. no termo de Alenquer. pp. O procurador do cenóbio pedia ao monarca que o contrato fosse julgado por nulo e que esta senhora pagasse as rendas sonegadas durante dez anos e que 534 TT. ordenava para isso aos seus testamenteiros que comprassem propriedades que rendessem as ditas trintas libras e que as metessem em posse do referido mosteiro.º8. Ana Maria Rodrigues. Este tipo de concessão. o mosteiro apelou ao rei D. É referido que o Mosteiro de S. a qual estava isenta de pagar pensão. à sua morte. 99-100. Mosteiro de S. vPorém.12. Beatriz. porque esta soberana faleceu em 1336 e a doação data de 1341. filha de Lourenço Martins I. Iria Gonçalves. 4. Beatriz nomeou como segunda pessoa para deter a quintã de Melida D. desde a morte da rainha D. Isabel. I. Assim. m. O património do Mosteiro de Alcobaça (…). TT. Linhagens medievais (…). 536 153 .4. pp. O baixo Mondego (…). mas se esses bens não fossem adquiridos em vida da rainha. na qual a consorte recebeu uma quintã. evitava também os prejuízos das concessões perpétuas (Maria Helena da Cruz Coelho. uma quintã em Melida (termo de Sintra). duzentas libras por ano. além de ser o preferido dos senhores um pouco por toda a parte. Gav. 301. m. II. p. Branca Lourenço do Avelar. n.. quando a segunda pessoa falecesse. ao Mosteiro de S. Sobre este cavaleiro e sua mulher veja-se a biografia elaborada por José Augusto Pizarro. uma possessão que rendesse em cada ano trinta libras535. a quintã deveria voltar ao cenóbio536. post-mortem. n.º8 e Gav. mercê e defendimento” que a rainha fez ao dito cenóbio. 535 Tanto no Mosteiro de Alcobaça como em Torres Vedras e na zona do Baixo Mondego predominavam os prazos em vidas.Vicente de Fora e o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra [QUADRO II]. Beatriz até ao ano de 1375. sendo a segunda uma pessoa nomeada por D. queixando-se que. Vicente de Fora de Lisboa lhe doou. Esta cedência foi realizada como forma de agradecimento de toda a mercê que D. não recebera nenhuma renda da quintã que lhe devia pagar D. Vicente de Fora de Lisboa.º3. Torres Vedras (…). Vicente de Fora. mas deve ser por lapso. nem só de doações régias era constituído o património da rainha. mulher que foi de Gonçalo Pires Ribeiro534. 1ªinc. Esta doação foi concedida em duas vidas. 13. m. com todos os seus direitos e pertenças. e o único caso documentado de uma doação particular. pp. No testamento de 1358 vemos que a rainha não esqueceu esta quintã que tinha na sua posse. Fernando. em rendas. Constança Lourenço Escola. n. O autor refere que esta doação foi concedida à rainha D. Anos mais tarde. 413-414). D. vol.

Estes eram os bens detidos pela rainha que assentavam maioritariamente em doações da coroa540. É de salientar que o mosteiro só indicou os procuradores para reaverem estes bens dois anos após a morte de D. Pedro. Beatriz passou a deter o estatuto de rainha-mãe.16. ter havido uma pouco vulgar concentração de rainhas e futuras rainhas na corte portuguesa: a rainha D. Beatriz não alterou a sua situação patrimonial após enviuvar de D. Sobre as doações feitas às consortes. mulher de D. Na doação que D.º4). durante a vida de D. Vicente de Fora. m. veja-se Manuela Santos Silva. 16. Beatriz. A rainha Santa Isabel. Shulamith Shahar. mas devido à recusa de D. m. por exemplo. Fica-nos a certeza de ter sido um conjunto considerável. n. 91. n. Gav. assim como um emprazamento de casas em Lisboa538. Não pode ser desprezível o facto de. O documento refere também “e dos outros logares que a dicta senhora Rainha tragia em a prestimo do dicto moesteiro”. apesar da aproximação que fizemos à reconstituição da mancha patrimonial detida. Além do mosteiro de S. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. m. a soberana recebeu um préstamo dos cónegos regrantes de Coimbra. Pedro I fez a sua mãe..10. O juiz acabou por condenar Branca do Avelar537. foi ela que continuou a deter os mesmos bens pertencentes à “Casa da Rainha” e a ocupar o lugar de rainha de Portugal. The fourth estate (…). 13. a cada momento. pp. 2ª inc. Branca. após a morte de D. m. Dinis. segunda mulher do mesmo infante D. D. 54. n. após a morte de seu marido recolheu-se no Convento de Santa Clara de Coimbra.10. no lugar de Enxara. m. n. e repudiada pelo seu marido. em 1357. Pedro.º51ª e Testamento de 1358.. alm. 537 TT. p. O documento data de 1360. Beatriz539. primeira mulher do infante D.4. a infanta D. alm.º14). Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. temos a noção de que não é fácil determinar o número exacto de cidades e vilas que. 54. cx. Infelizmente. Afonso IV. 2ª inc. a consorte teve em sua posse. a rainha D. A partir do momento em que ficou viúva. 541 540 539 538 154 . 16. Mosteiro de S. que faleceu no ano de 1336.º14). Março 3 (TT. Isabel. “Notícias sobre a segunda doação régia (…). herdeiro do trono. mas não menciona quais são esses lugares (TT. Constança.. estamos perante duas rainhas e duas infantas consortes do futuro rei de Portugal. Afonso IV541. Beatriz. Pedro em contrair novo matrimónio. a infanta D. 112-119.perfaziam a quantia de duas mil libras. 2ª inc. Ou seja. Vicente de Fora. Julgamos poder afirmar que D. o monarca refere que a mesma lhe é feita “em todolos dias da ssa vida pera seu mantiimento” (TT.

que a vila de Viana do Alentejo foi destacada pela rainha para a manutenção da sua capela e hospital. a soberana mandou os respectivos provedores venderem alguns dos seus bens móveis e de raiz para pagamento das dívidas do hospital e da capela. doc. m. que as apelações dos feitos cíveis fossem enviadas primeiramente ao provedor e somente no caso de alguém querer apelar da sentença dada. Gav. Chancelaria D. doc. aliás.b) Bens alienados Podemos afirmar que os bens detidos pela rainha constituíam uma realidade dinâmica que se encontrava quer em crescimento (através da doação de terras). porém. a soberana só alienou uma parte muito pequena dos mesmos através de uma permuta com o rei seu marido. vinhas e herdades do senhorio da rainha encontravamse anexados ao seu hospital e capela. Por outro lado. Infelizmente. não são referidos quais foram esses bens543. e dele as apelações seguiam para a corte régia544.º484. poderia ser intenção de D. 544 155 . sempre que possível. Talvez o objectivo da rainha fosse manter e aumentar. Algumas das quintãs. n. Sabemos.13. que não podia alienar as terras sem consentimento régio. 543 Chancelaria D. Pedro I.º13. Depois de analisarmos os bens recebidos. No ano de 1360 o provedor do hospital e da capela expôs ao rei D. 439). n. Assim. Beatriz. 2ª inc. o seu rol patrimonial.. quer em regressão (pela alienação dos mesmos). De todos os bens detidos por D. Afonso IV entregou à consorte a vila de Sintra em troca de Gaia com Vila Nova. O monarca sentenciou que fosse cumprida a vontade de sua mãe. Cabido da Sé de Coimbra. que esta seguisse para a corte régia (Chancelaria D.10. Sabemos. Beatriz conservar os bens que começavam a fazer parte da sua “Casa”. doc. Alcoentre e o Paço do Lumiar542.5. 439. Quanto às apelações dos feitos cíveis. D. mas sim à corte régia. 319 e 349. m. essas passaram para o provedor do hospital e capela. TT. ou seja. Pedro que os alvazis não enviavam as apelações ao provedor. vejamos agora quais aqueles de que a consorte decidiu desfazer-se. Pedro I. 542 TT. Pedro I. Com esta doação foram também alienados todos os direitos que a rainha detinha na localidade. excepto os feitos criminais que pertenciam ao monarca. Para manutenção dos mesmos.

º4121. Filipe. Beatriz pela sua linhagem. tais como jóias. p. n.88. era de origem bizantina. no ano de 1337547. deu-lhe uma cinta de prata esmaltada [QUADRO IV]. Sua mãe. Maria. Na redacção do seu último testamento a rainha D. pp. Isabel legou “à Rainha Dona Breatis minha filha” uma coroa de esmeraldas e rogou-lhe que este valioso bem fosse posteriormente legado a D. apenas faremos uma breve alusão a alguns bens móveis doados à rainha D. Beatriz são reveladores não só do seu estatuto de rainha-consorte. 547 548 156 . além de muito próxima da rainha D. D. Desconhecemos quando lhe foram doados estes bens. doou-lhe uma coroa imperial que sempre guardou junto a si. Vejam-se também os quadros que acompanham esse capítulo. mas também de um grande esplendor e ostentação. Assim. m. estes serão analisados no contexto do seu testamento. Pelas breves descrições que chegaram até nós apercebemo-nos da existência de belos e Para evitar repetições. TT. 2ª inc. “Vataça – uma dona (…)”. Beatriz. contudo. neta da rainha Santa546. recebeu de sua mãe uma esmeralda da virtude e uma esmeralda que devia ser grande. No capítulo VI – “As últimas vontades”. Maria Helena da Cruz Coelho e Leontina Ventura. Beatriz detinha em sua posse fosse a coroa que comprou aos testamenteiros de D. 11-13. Vataça. da família real do Império de Niceia548. Infelizmente não temos conhecimento de quais os bens móveis que acompanharam a nossa infanta quando veio para o reino de Portugal após a celebração do acordo de casamento. que com certeza adornaria a cintura de D. na Península Ibérica. Lascara. Todos os objectos detidos por D. uma breve menção nos seus testamentos a um conjunto de jóias que foram dadas à rainha pelos seus familiares de sangue. as noivas dos futuros monarcas traziam consigo alguns objectos pessoais. Esta nobre dama. seu irmão. Cf. Sé de Coimbra. Talvez um dos objectos de maior prestígio que D. porque é referida como sendo “tamanha” [QUADRO IV].c) Bens móveis Durante o período medieval. 546 545 PHGCRP. Isabel. Existe. roupas ou mesmo dinheiro545.. Tanto podem ter sido aquando da sua vinda para Portugal como noutra altura. os quais são referidos ao longo do corpo deste texto. 149.

valiosos objectos, alguns recebidos hereditariamente, outros como doação de seus filhos e de membros do seu séquito [QUADROS IV e V]. V.1.2. – Os direitos e as rendas

Na senda de Salvador de Moxó, Isabel Beceiro Pita referiu que os senhorios das rainhas constituíam, principalmente, uma forma de custear os seus gastos e de enaltecer o seu prestígio. As terras recebidas em arras davam à rainha uma renda monetária fixa. Alguns destes rendimentos seriam utilizados por D. Beatriz para apoiar o hospital que mandara edificar em Lisboa549. Dentro dos seus senhorios, a rainha surgia como um verdadeiro senhor da terra, uma verdadeira soberana não só em termos dominiais e patrimoniais, mas também nos direitos e jurisdições, por vezes sem possibilidade de recurso para o rei. Algumas jurisdições eram, assim, da exclusiva responsabilidade de D. Beatriz, que nomeava e elegia os oficiais que lhe garantiam a administração, a justiça e a fiscalidade. Nestes seus domínios, a rainha escolhia os párocos locais550 e cobrava rendas. Deste modo, não terá sido por acaso que D. Beatriz se queixou ao monarca D. Afonso IV da actuação dos seus corregedores, uma vez que a consorte não estava a receber as dízimas das suas vilas e lugares551. A soberana era muito ciosa dos dinheiros que devia receber e, deste modo, enviou uma carta aos corregedores régios, para que nas suas terras não levassem as dízimas nem exercessem os feitos, pois ambas pertenciam aos seus juízes. Neste caso concreto, a resposta do rei foi favorável ao pedido da rainha, ou seja, D. Afonso IV ordenou aos seus oficiais que respeitassem as jurisdições de D. Beatriz552. O domínio sobre a terra e os homens que a habitavam implicou sempre o direito de auferir rendimentos derivados não só do senhorio e da respectiva jurisdição, mas também da exploração directa ou indirecta da terra553. Ao
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ML, V, fl. 175v e TT, Colegiada de Santa Cruz do Castelo de Lisboa, m.2, n.º63 e n.º73.

Esta era uma das prerrogativas do direito de padroado que a rainha detinha em algumas das suas terras.
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O rei mandou que as tirassem por ele nessas vilas e lugares (TT, Gav.13, m.2, n.º7). TT, Gav. 13, m.2, n.º7.

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Vejam-se os estudos de Salvador de Moxó, “Los señoríos - en torno a una problematica para el estudio del régimen señorial", in Hispania, vol. XXIV, 1964, pp. 185-236; IDEM, "Los señorios:

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analisarmos toda a documentação referente aos senhorios da rainha D. Beatriz ressalta, desde logo, o interesse económico que esta senhora tinha pelas suas terras. Não nos podemos esquecer que era destas que lhe vinham os rendimentos essenciais para poder manter a sua “Casa”. Como já referimos, as informações relativas aos bens detidos por D. Beatriz são escassas, assim como os conhecimentos referentes à jurisdição e rendas detidas nas várias terras. À semelhança do que se passava com outras terras senhoriais554 e mesmo com as terras reguengas, a consorte, como grande proprietária que era, recebia os mais diversos produtos e serviços que engrossavam o seu património. Com a doação das terras, as rendas e os direitos régios eram transferidos para a posse da donatária. Estamos perante um grande conjunto de terras que fornecia, com certeza, rendimentos não despiciendos, tanto em moeda como em géneros, mas também permitia o armazenamento destes últimos e a sua posterior comercialização. Todos os indivíduos que estavam de alguma forma envolvidos em actividades produtivas, dentro dos domínios da rainha, deviam pagar tributos à senhora da terra, uma vez que a consorte lhes garantia protecção e estabilidade. Assim, do ponto de vista fiscal, D. Beatriz detinha os seguintes direitos: a jugada (incidia sobre a extensão das superfícies lavradas que necessitassem, pelo menos, de uma junta de bois555); o padroado das igrejas (é um conjunto de regalias
cuestiones metodologicas que plantea seu estudio", in Anuario de Historia del Derecto Español, XLIII, 1973, pp. 271-310; IDEM, "Los señorios. Estudio metodologico", in Actas de las jornadas de métodologia aplicada de las ciencias historicas, vol. II - Historia Medieval, Santiago de Compostela, Secretariado de Publicaciones de la Universidad de Santiago, 1975, pp. 161-173. A título de exemplo vejam-se os seguintes estudos: Mafalda Soares da Cunha, Linhagem, parentesco e poder. A Casa de Bragança (1384-1483), Lisboa, Fundação Casa de Bragança, 1990; João Silva de Sousa, A casa senhorial do infante D. Henrique, Lisboa, Livros Horizonte, 1991; Maria de Lurdes Rosa, Pero Afonso Mealha. Os bens e a gestão da riqueza de um proprietário leigo do século XIV, Redondo, Patrimónia, 1995; Luís Filipe Oliveira, A Casa dos Coutinhos: linhagem, espaço e poder (1360-1452), Cascais, Patrimónia, 1999; Bernardo Vasconcelos e Sousa, Os Pimentéis. Percursos de uma linhagem da nobreza medieval portuguesa (séculos XIII-XIV), Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2000; João Luís Fontes, Percursos e memória: do Infante D. Fernando ao Infante Santo, Cascais, Patrimónia, 2000; Vanda Lisa Lourenço, D. Gonçalo Garcia de Sousa: um percurso de vida, Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2003 (dissertação de Mestrado policopiada); Nuno Silva Campos, D. Pedro de Meneses e a construção da Casa de Vila Real (1415-1437), Lisboa, Colibri/CIDEHUS-EU, 2004; José Pavia Cumbre, Os Melo. Origens, trajectórias familiares e percursos políticos (séculos XII-XV), Lisboa, Tribuna da História, 2007. Iria Gonçalves, “Jugada”, in Dicionário de História de Portugal, dir. de Joel Serrão, vol. III, Porto, Livraria Figueirinhas, 1992, p. 415 e Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, “Jugada”, in Elucidário das palavras, termos e frases, vol. II, 2ª reimpressão, Porto, Livraria Civilização, 1993, pp. 338-339.
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auferidas pelo fundador de uma igreja556) e as dízimas (a sua taxa era um décimo e recaía sobre a importação de mercadorias do reino; mas surge também como direito de portagem557). Estes são os tributos cobrados e mencionados na documentação. Porém, existem outros que deviam ser igualmente recebidos pela rainha, embora não referenciados expressamente. Era o caso da aposentadoria (quando efectuada uma deslocação a determinada localidade, quer a rainha quer a sua comitiva usufruíam gratuitamente de alojamento, alimentos e objectos utilitários558), além de beneficiar de direitos específicos de cada uma das localidades sobre as quais exercia jurisdição. Segundo Manuela Santos Silva, as consortes tinham ainda o direito de receber “1/8 de toda a produção agrícola ou outra (como, por exemplo, do peixe que se pescava em toda a costa ocidental e ao qual a rainha tinha acesso em alguns portos da sua jurisdição”559). Muitos outros direitos e rendas deveria cobrar a consorte, que a documentação omite, mas nem por isso deixariam de ser cobrados pelos seus oficiais nas respectivas terras560. D. Beatriz detinha, em algumas das suas localidades, o padroado das igrejas, como se verificou em Viana do Alentejo561 e Sintra562. Este direito consistia na possibilidade da consorte apresentar o pároco da igreja ou o abade do mosteiro ao
António Cruz, “Padroados”, in Dicionário de História de Portugal, dir. de Joel Serrão, vol. IV, Porto, Livraria Figueirinhas, 1992, p. 511; Mário Farelo, O direito de padroado na Lisboa medieval, in http://unlpt.academia.edu/M%C3/A1rioFarelo/558426/_O_direito_de_padroado_na_Lisboa_medieval_Promon toria_ano_4_4_2006_p_267-289, consultado em 27/05/2011.
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Ruy d’Abreu Torres, “Dízima”, in Dicionário de História de Portugal, dir. de Joel Serrão, vol. II, Porto, Livraria Figueirinhas, 1992, pp. 326-327; e Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, “Dízima”, in Elucidário (…), vol. II, p. 199.

Em Castela, as cortes de 1286, 1293, 1307 e 1312 fixaram que este costume só deveria ser pago uma vez por ano e fixaram as quantias dispensadas: “600 maravedíes de la moneda de la guerra para el yantar del rey, 300 para el del infante heredero, 200 para el de la reina y 150 para el del merino mayor” (Denis Menjot, Dominar y controlar en Castilla en la Edad Media, Málaga, Diputatión de Málaga, 2003, p. 28).
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558

Manuela Santos Silva, “Os primórdios da Casa (…)”, p. 29.

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António Manuel Hespanha fez um elenco das concessões genéricas das jurisdições (são todos aqueles direitos e jurisdições que os monarcas, normalmente, concedem). Veja-se António Manuel Hespanha, História das Instituições. Época medieval e moderna, Coimbra, Livraria Almedina, 1982, pp. 294-296. TT, Gav.13, m.5, n.º5. TT, Gav.13, m.5, n.º13; TT, Cabido da Sé de Coimbra, 2ª inc., m.10, n.º484.

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bispo que, por sua vez, o confirmava e nomeava563. A detenção deste direito por parte da rainha representava, por vezes, ajudas, graças e mercês dispensadas por parte da consorte. Em troca, a donatária via garantidos os direitos de aposentadoria e de comedoria564 nas igrejas das suas vilas. Não conhecemos nenhuma carta de nomeação por parte de D. Beatriz, mas sabemos que, na prática, a nomeação nas igrejas locais servia para os monarcas recompensarem os clérigos que os serviram de uma forma leal para os colocar como “cabeça” de uma instituição local, de modo a ter o poder eclesiástico devidamente controlado no terreno. Observamos que a detenção deste direito incidia, no caso em apreço, em vilas onde a consorte possuía o domínio senhorial e durava até a concessão ser revogada565, pertencendo Sintra ao arcebispado de Lisboa, um dos mais prestigiados e, com certeza, muito disputado entre a hierarquia eclesiástica, e Viana do Alentejo, que pertencia ao bispado de Évora. Infelizmente não podemos contabilizar e quantificar as rendas recebidas por D. Beatriz, já que existe um grande silêncio nas fontes a esse respeito. Mas decerto que como senhora das suas terras a rainha recebeu, além das rendas fundiárias fixas e anuais, os principais impostos directos, como a dízima566. Pela sua grandeza, podemos afirmar que a respectiva dimensão económica e financeira não seria despicienda e que a soberana estava na posse de avultadas fontes de rendimento.

Sobre o direito de padroado veja-se: Miguel de Oliveira, As paróquias rurais portuguesas. Sua origem e formação, Lisboa, União Gráfica, 1950; Cândido Augusto Dias dos Santos, O censual da Mitra do Porto: subsídios para o estudo da diocese nas vésperas do Concílio de Trento, Porto, Câmara Municipal, 1973, cap. III, pp. 93-116; José Marques, A arquidiocese de Braga no século XV, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1988; Mário Farelo, “O direito de padroado na Lisboa medieval”, ir http://unlpt.academia.edu/M%C3/A1rioFarelo/558426/_O_direito_de_padroado_na_Lisboa_medieval_Promon toria_ano_4_4_2006_p_267-289, consultado em 27/05/2011. O mesmo que colheita ou jantar. Era uma pensão ou foro que os enfiteutas, colonos ou diocesanos pagavam ao rei quando este visitava as terras para fazer justiça ou a qualquer senhorio que tinha o domínio directo de terras (Viterbo, “Comedoria”, in Elucidário, vol. II, p. 117).
565 564

563

Situação idêntica encontrou para épocas posteriores Maria Paula Lourenço: “Como acontecia com outras casas nobres e da família real, as rainhas dispunham, sobretudo, dos direitos de padroado das cidades, vilas e terras pertencentes ao seu domínio senhorial. Aliás, essas prerrogativas integravam o clausulado das próprias cartas de doação da casa a cada uma das novas rainhas, estando, em principio, anexas à dotação senhorial” (Maria Paula Lourenço, Casa, corte e património (…), vol. II, p. 697).

566

Recordemos que D. Beatriz reclamou ao rei seu marido pelo facto de não estar a receber as dízimas das suas vilas e lugares (TT, Gav.13, m.2, n.º7).

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Nada aponta para que D. Beatriz dirigisse ou administrasse directamente os seus domínios. Estas funções estariam, desde cedo, confiadas a administradores e funcionários nomeados pela rainha. Certamente que o principal volume de rendas recebidas advinha da exploração indirecta das suas propriedades e dos tributos senhoriais. Como veremos de seguida, entre os seus servidores encontravam-se funcionários aos quais estava incumbida a missão de gerir a administração do senhorio, como era o caso, por exemplo, dos tesoureiros, dos contadores e do sacador [QUADRO VI]. No que se refere ao montante recebido, estamos muito longe de poder dar uma resposta satisfatória, uma vez que não dispomos de testemunhos que nos permitam avançar, mesmo em termos de hipótese. Infelizmente, neste ponto, a documentação é absolutamente silenciosa567. Nem todas as rendas seriam pagas em moeda. Algumas, se não mesmo a maioria, eram solvidas em espécie: em cereais, carne e vinho, assim como muitos outros produtos provenientes do trabalho dos homens na terra. Com estas, assegurava D. Beatriz uma boa parte dos seus consumos domésticos e alimentava um grande número de pessoas que com ela conviviam, na sua casa568. A mesa régia era, em regra, farta e diversa. Para a manter condignamente era necessário mobilizar o maior número possível de receitas. Acreditamos que esses proventos provinham de regiões onde a consorte possuía bens da sua “Casa”, mas obrigava também à frequência dos mercados urbanos, onde se compravam os géneros em falta569.
Temos, no entanto, somas para períodos posteriores de algumas das terras da rainha que nos podem dar um exemplo da grandeza das rendas auferidas. Assim, em Torres Vedras recebeu em rendas a rainha D. Isabel, no ano de 1450, 156.143 reais e, onze anos mais tarde, D. Afonso V estabeleceu a tença em 180.000 reais pelas mesmas. Outras vilas, contudo, mostraram-se mais ricas: Óbidos que rendia 650.000 reais; Abrantes 457.500 reais; Sintra 380.500; Alenquer 355.500. Perante os dados apresentados podemos afirmar que a vila torreana não deveria ser a que maiores proventos dava à rainha D. Beatriz (Cf. Ana Maria Rodrigues, Torres Vedras (…), pp. 465-477).
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Veja-se Iria Gonçalves, Imagens do mundo medieval, Lisboa, Livros Horizonte, 1988, principalmente as pp. 201-217.

“Os senhores conservavam sempre o gosto pelos produtos das suas terras, mesmo que estas estivessem já alienadas a rendeiros. Parte das rendas, sobretudo a das direituras, manteve-se em géneros. Todo o terratenente preferia alimentar-se do pão, do vinho, da carne, da fruta, das hortaliças e até do peixe que provinham dos seus domínios” (in A. H. de Oliveira Marques, Nova história de Portugal, vol. IV, p. 93). Sobre a importância da cidade de Lisboa para a propriedade régia, veja-se o estudo de Iria Gonçalves, “Aspectos económico-sociais da Lisboa do século XV estudados a partir da propriedade régia”, in Um olhar sobre a cidade medieval. Estudos, Cascais, Patrimónia, 1996, pp. 1160.

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As rendas auferidas pela rainha devem ter sofrido várias oscilações ao longo dos anos. O século XIV foi marcado, em alguns momentos, por contracções económicas que se manifestaram por baixas da produção que provocaram fomes nas populações. Mas a pior quebra deve ter sido aquando da Peste Negra, em 1348, devido, principalmente, ao aumento da taxa de mortalidade e ao êxodo rural. Neste âmbito, muitos foram os campos abandonados e outros passaram a servir de pasto para os animais. Perante este quadro, não conhecemos nenhuma medida tomada pela rainha nas suas terras, mas consideramos que este silêncio se deve ao facto do monarca, D. Afonso IV, ter tomado medidas legislativas no sentido de procurar solucionar a crise, ao publicar, por exemplo, as chamadas Leis do Trabalho570. Nas terras, quintãs e herdades que a rainha tinha doado à sua capela, verificamos que, por graça e mercê régias, todos os caseiros e foreiros moradores nesses lugares estavam isentos de servir em hoste, em fossado, em galé e estavam igualmente isentos da servidão571. A concessão destes privilégios aos moradores de determinadas localidades era considerada uma excepção. De todas estas terras D. Beatriz deveria receber um conjunto de rendas monetárias não despiciendo que sustentava não apenas a sua casa, mas que a soberana distribuía, com generosidade, pelas ordens religiosas da sua devoção e protecção, principalmente a comunidade de clarissas de Coimbra. Não encontrámos nenhuma doação a mosteiros, com excepção do que consta do seu testamento. Porém, acreditamos que a rainha praticaria o que era um costume na época, ou seja, as doações régias às comunidades conventuais e/ou monásticas. Com os rendimentos auferidos pelas suas terras, D. Beatriz podia também legar rendimentos a algumas aias nobres da sua Casa, “em casamento”. Assim nos demonstra o seu testamento, no qual D. Beatriz deixou quantias monetárias a algumas mulheres do seu séquito [QUADRO I].

570

Virgínia Rau, “Um documento português sobre a Peste Negra de 1348”, in Estudos de História Medieval, Lisboa, Presença, 1986, pp. 128-131.

571

Chancelaria de D. Pedro I, doc. 1001; Chancelarias Portuguesas. D. João I, vol. III, T. I, Lisboa, Instituto Nacional de Investigação Científica / Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa, 2004-2005, doc. 1.

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Através de outros estudos572 sabemos, que, por vezes, a cobrança de rendas senhoriais era marcada por contestações e protestos da população. Mas, no caso em apreço, os lamentos existentes são sempre contra os oficiais régios, nunca contra os da senhora da terra. D. Beatriz estanciou nas suas diversas povoações e sabemos que a presença física do senhor da terra era o suficiente para anular qualquer tentativa de contestação. Consideramos que a soberana deveria ter uma relação pacífica com os moradores dos seus lugares, porquanto estes não se inibiam de recorrer à rainha em busca de protecção, assim será demonstrado mais adiante no caso concreto de uma excomunhão em Almada. Talvez a doação de terras, de senhorios e jurisdições a D. Beatriz possa ter sido uma das formas encontradas por D. Afonso IV para consolidar a afirmação do poder régio. O centralismo político levado a cabo por D. Dinis teve um fiel seguidor no seu sucessor, D. Afonso IV, considerado um rei legislador e centralista que cerceou o poder da nobreza senhorial na tentativa de acautelar o seu próprio poder e autoridade573. A política interna desta época foi marcada pelo conflito desencadeado entre o infante e seu pai, mas também entre o monarca português, D. Afonso IV, e o seu irmão D. Afonso Sanches, pelo grande flagelo da Peste Negra de 1348, com as suas múltiplas consequências a vários níveis, mas também pelas reformas administrativas e pela tentativa régia de contenção dos abusos senhoriais. Ao nível da política externa, o Bravo procurou quase sempre acautelar a paz com os reinos vizinhos, através de iniciativas diplomáticas e comerciais. Parece-nos lícito afirmar que o centralismo político favoreceu o poder territorial e senhorial de D. Beatriz. A entrega de senhorios à rainha facultou ao rei a criação de um “novo” poder senhorial, além do detido pelos nobres574 e pelos eclesiásticos575, mas que não entrava em concorrência com o poder do próprio monarca576.

572

Veja-se a título de exemplo, Luís Filipe Oliveira, A casa dos Coutinhos (…), pp. 81-94.

573

Sem o objectivo de sermos exaustivos vejam-se, sobre o reinado de D. Afonso IV: A. H. de Oliveira Marques, Nova História de Portugal, vol. IV, pp. 495-505; José Mattoso, História de Portugal, vol. II, pp. 483-487; Bernardo Vasconcelos e Sousa, D. Afonso IV, pp. 73-96.

“A Nobreza parecia, à primeira vista, deter um senhorio superior ao da Coroa. Em todas as comarcas, à excepção do Alentejo, isso acontecia, com particular realce para Trás-os-Montes. Contudo, o património da nobreza subdividia-se por dezenas de pequenos senhores” (A. H. de Oliveira Marques, Nova História de Portugal, vol. IV, p. 81).

574

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vol. 581 164 . era extremamente importante garantir às esposas uma forma de sustento próprio em todas as eventualidades. estas deveriam repartir-se entre as esmolas a instituições religiosas.1. “Mando quinhetas livras pêra pontes fazer” (Testamento de 1358). I. Isabel existiram e foram mesmo violentas. 580 579 João Pedro Ferro. de Oliveira Marques.No que concerne às despesas. 81). onde o seu quinhão era menor. Fernando. 578 577 Como exemplo: “Mando aas outras Ordens de Cavalaria de Christus. A título de exemplo veja-se: “Mando trinta livras a cada hum Mosteiro de Sam Francisco. Todas estas receitas permitiam à rainha custear as suas despesas. Mesmo em Trás-os-Montes. “Mando que todollos meus panos de lãa outros que hi ficarem pagados as sobreditas que meus testamenteyros os dem por mha alma a molheres pobres e envergonçadas tambem filhas d’algo como vilãas aquelas que virem que o mays mester am” (Testamento de 1357). se olharmos para os pais de D. 220-221. p. 81). nomeadamente no Alentejo. 53-58. Leonor Teles (…). na Estremadura e nas Beiras. Quanto a D. e Daviz (…). Sublinhe-se que nunca notámos na documentação compulsada qualquer tipo de interferência do monarca nas terras detidas pela sua consorte. pera me dizerem senhos trintairios cantados” (Testamento de 1349). como iremos analisar mais à frente. onde mais de metade da terra não tinha outro senhor. em que as discórdias entre D. IV. Leonor Teles581. 576 575 “Em todas as comarcas possuía [a Coroa] uma avultada parcela de senhorio. de Oliveira Marques. Dinis e a rainha D. vol. pp. Afonso IV. Nova História de Portugal. embora globalmente senhoreasse um quinhão (…) porventura inferior a 20% de todo o Portugal incluía potentados temíveis. p. o sustento da casa real e os gastos de ostentação. verificamos que existe uma dádiva significativa para instituições religiosas577 e religiosomilitares578. V. Nos vários testamentos redigidos pela rainha. – Os poderes senhoriais: privilégios e jurisdição Numa época em que o papel da mulher estava essencialmente voltado para o estabelecimento de ligações familiares. Caso raro. IV.” (A. pertencia-lhe bem uma quarta parte da província.3. Alenquer medieval (…). nem mesmo nenhum conflito ou contenda entre ambos. principalmente “O Clero. Nova História de Portugal. mil livras a cada hua” (Testamento de 1358).” (A. H. e de Sam Domingos de Portugal. H. Isabel Maria Campos. pp. existem também relatos de interferência régia nas terras em posse de D. vol. bem como para obras de piedade579. ao ponto de o rei retirar todas as terras à sua consorte e a enclausurar em Alenquer580. Era sobretudo o caso das ordens religiosas-militares no Alentejo.

centrada na figura do titular do património.º4. poder e prestígio durante a Idade Média. A posse da terra representava a principal fonte de fortuna. Quando recebia o senhorio de uma terra. sacadores. p. Gav. Lisboa. À doação das terras estavam. Quanto ao senhorio jurisdicional. “O domínio senhorial da Casa das Rainhas (1642-1781): património. quando explicitamente declaradas na respectiva carta. mas existiam direitos que eram inseparáveis da pessoa Tanto D. Ed. O fruir dos rendimentos e dos direitos da terra significava para D. Beatriz582. mas também a marca da sua grandeza e poder. m.13. 165 . almoxarifes. não afectando também D. um procurador. juízes. n. Beatriz estabelecia. mas também para “dar juramento” aos novos oficiais (alvazis.em caso de repúdio ou de viuvez. isto é. tais como a Coroa. Pelo menos assim aconteceu quando obteve de seu filho o senhorio das vilas de Torres Novas. D. através de oficiais membros da sua casa (mordomos. Inês de Castro faleceram antes de D. Óbidos. para não só tomar posse das terras. Por regra. mas submetendo os espaços sob sua tutela a uma hierarquização funcional. Pedro herdar o trono de Portugal. Beatriz não só o garante do seu próprio sustento e do da sua casa.4. Estudos de homenagem a Joaquim Veríssimo Serrão. o seu poder derivava da administração da justiça e da tributação de impostos583. escrivães. imediatamente. Todo este processo era dinâmico e incluía a articulação de relações estabelecidas com outras instâncias de poder. estado e poder”. a Igreja e os municípios. A donatária exercia a justiça por si própria. os estados senhoriais configuram uma organização espacial. Colibri. in Amar. 987).” (Maria Paula Lourenço. Constança Manuel como D. era este o âmago do verdadeiro poder senhorial. Afonso IV. Porto de Mós. 1995. associadas algumas regalias. O facto de o rei D. Atouguia e Cheleiros. sendo a mais importante a administração da justiça. Nas linhas anteriores analisámos o senhorio territorial detido pela mulher de D. que de magistrados a delegados do poder senhorial zelam pela manutenção da identidade jurídica do senhorio. juízes …). a sua unidade jurisdicional. sentir e viver a História. as rainhas detinham todos os proventos nos seus domínios. Tal prática visava garantir às esposas régias uma forma de sustento próprio. 584 583 582 TT. Em síntese. em que a agricultura era a actividade económica dominante. “Na realidade. porteiros e “todollos outros officiaes que aa mha jurdiscom e aos outros meus dereytos perteencem”584). Pedro não ter a seu lado uma consorte fez com que esta situação nunca se colocasse. ouvidores.

nesta doação. Pedro confirmar a doação desta vila à sua mãe com todos os seus termos. moinhos. as causas eram julgadas em primeira instância pelos juízes nomeados pela rainha. quatro anos após D. a vila de Viana do Alentejo à sua mulher. A casa senhorial do infante (…). azenhas. Mas o rei reservava para si a punição de certos crimes mais graves e a apelação em última instância para a sua corte586. TT. Beatriz.4. com outorgamento de D. Dinis a fizera à rainha D. o rei guardava para si e para os seus oficiais os feitos criminais em que se demandava pena de corpo ou de morte587.” in TT. História das instituições (…). a infanta D. Anos mais tarde. Porto de Mós e Cheleiros. as apelações dos feitos eram julgadas pelos ouvidores da rainha.do rei.º4. Sabemos também que em algumas cartas de doação eram legados.13. Afonso IV fez doação a D. n. herdades. m. assim como todos os outros direitos e 585 Segundo uma ordenação de D. Foi já como rei de Portugal que D. Gav. Beatriz da jurisdição nos feitos cíveis e criminais em todas as suas terras. 586 587 TT. os senhores detinham os poderes conferidos pela doação régia (António Manuel Hespanha. TT. António Manuel Hespanha. Esta vila de Viana do Alentejo foi dada ao infante pelo rei seu pai. 285. Pedro I confirmou o mando e a autonomia de sua mãe nos seus senhorios de Óbidos. o monarca deixava aos senhores ou a jurisdição relativa a certas coimas ou a jurisdição cível. Estamos a referir-nos ao exercício da justiça superior. em 1329. n. excepto na cidade de Évora. História das instituições (…). Beatriz.º4). mas o monarca reservou para si os feitos criminais (“com todolos seus termos regueengos padroados de Eigreijas casas moynhos açenhas rendas direytos perteenças e outras quaesquer cousas que eu hey e de dereyto posso e devo d’aver por qualquer maneira em essas vilas e em seus termhos e com a juridiscom real que eu hey em essas villas e em seus termhos salvo nos fectos criminaaes criminalmente ententados em que a jurdiscom he e deve seer minha e dos meus subçessores. em Sintra). ou seja. Gav. p. m. relativa à jurisdição das honras. em 1314. Deste modo. 189-192. rendas e reguengos. Este documento data do ano de 1329. Porém.13. fl. Dinis588. padroados da igreja. D. Quando se tornou rei. e esta possuía a “jurisdição intermédia”585. Leitura Nova. Nos restantes senhorios. ou seja. direitos e rendas dentro do senhorio que recebia (Aconteceu essa plena doação de poderes nas arras recebidas. ou seja. Torres Novas.4. m. à donatária os plenos poderes. casas. 589 588 166 . Afonso IV ser monarca do reino de Portugal. D.4. Gav. uma vez que não se podia apelar para o rei nem para a corte do monarca.º4. existiu uma excepção a esta regra: D. jugadas. pelo monarca. Beatriz recebeu os mesmos poderes que a Rainha Santa detivera nas suas terras589. Veja-se também João Silva de Sousa. 28. O Bravo fez esta doação a sua mulher tal como D. Isabel. a doação desta vila a D. p. 282). No caso em apreço. 6 de Místicos. Atouguia. Afonso IV. O infante D. n. Afonso IV confirmou. foi a vez de o rei D.13. Liv. Ourém. Afonso doou. pp.

mas também para mantimento da capela e do hospital da rainha590. Também Sintra foi doada a D. Apesar de não termos nenhuma referência explícita relativa a D. a rainha. no préstamo recebido de Santa Cruz de Coimbra. Consideramos que o mesmo se terá passado em todas as outras doações régias. Beatriz e que o seu posicionamento e opções face aos seus bens permitiram que a rainha D. n. Pedro fez. Isabel e D. n. assim como o mero e misto império. direitos e aplicam a justiça nas terras da consorte em nome do rei.º4. Gav. TT. Assim. 592 167 . antes de responder à rainha mandou confirmar os privilégios e doações das terras concedidos a sua mulher. os 590 TT. Reforçamos.º484. m. Beatriz pelo rei seu marido. Leonor de Aragão queixou-se ao monarca seu marido. Gav. Gav.º11). 2ª inc. A soberana argumenta que “assi se husara nos tempos das outras Reynhas” e era contido nas cartas de doação que o rei lhe fizera das suas terras. assim como “certificado do huso e costume e maneira que se husarom em nos tempos das outras Reynhas”.10. Nesta urbe o Bravo doou-lhe juntamente com a vila os padroados das igrejas. Cabido da Sé de Coimbra. Beatriz sobre a jurisdição e privilégio que detinha nas suas terras. Gav.5.13. assim como todos os outros direitos e pertenças que o rei aí detinha. m.º13. Contudo. avançamos a hipótese de estas não serem muito distantes das que detinha a rainha D. Leonor Teles.4. Beatriz usufruía de poder e autonomia. m. esses privilégios e jurisdições assim se usaram no tempo das outras rainhas. 591 TT. A rainha relembra ao rei que detém toda a jurisdição baixa e alta nas ditas terras. viesse a receber do monarca algumas das terras que haviam estado na posse das rainhas D. Anos mais tarde. excepto a jurisdição crime que pertencia ao monarca.. TT. à excepção dos homens de cavalo ou de armas. Beatriz. Novamente a soberana recebeu apenas a jurisdição cível. O monarca. n. assim como a última apelação. m. Beatriz] aja a jurdiscom em essas villas e em seus termhos assi como compridamente melhor haa em as outras sas villas e terras pelas doações e graças que lhe ElRey dom Denis meu avoo e ElRey dom Affonso meu padre fezerom as quaes eu mando que lhe sejam aguardadas”592. Duarte. imposições ou outros direitos que pertenciam ao rei nas terras da rainha (TT. D. Esta nossa afirmação é confirmada pela referida doação que D. dos acontiados. uma vez mais. uma vez que a criminal pertencia ao rei591. O rei relembrou os seus oficiais que estes não possuem jurisdição nas terras da rainha.3. m. como é mencionado no documento. rendas. de que os oficiais régios lhe trazem grande prejuízo porque recebem rendas.jurisdição. sisas. a rainha D. porque. ao mencionar que “ela [D. em 1357.13. não era somente nas terras de doação que D. a ideia de que a “Casa das Rainhas” estaria nos inícios da sua instituição/formação ao tempo da rainha D. Esta ratificação foi concedida não só para fazer graça e mercê. n. Fernando.5. acabando toda a jurisdição na senhora da terra. n. uma vez que os monarcas reservavam para si a justiça crime. Leonor.º5.13. anos mais tarde e já com a instituição da Casa da Rainha formada. mulher de D.13.

168 . Nas terras que detinha. No entanto.º14. reclamadas pelo primeiro. n. 2ª inc. É o caso da demanda entre o bispo de Lamego. Leonor Teles beneficiou dos seguintes direitos: passavam para as mãos da rainha os bens detidos localmente pelo monarca (tanto os bens de uso público como os de uso privado do rei). Ana Maria Rodrigues. supomos que as concessões feitas a esta consorte seguiram o modelo da doação de 1357. de Poiares. Sobre os direitos que possuíam as donatárias em Torres Vedras veja-se. Alm. como a jurisdição crime e a última apelação. D. Apesar de deter essas jurisdições dentro dos seus domínios. conc. revertiam para a rainha. n. findo o contrato.10.. devido à posse e jurisdição da aldeia de Canelas (fr. que acusava o referido concelho de as ter 593 TT. não possuímos. m. a rainha ordenou ao seu almoxarife e escrivão que não colocassem embargo às aquisições do prior e que ele deveria. Mosteiro de Santos-o-Novo. m. pagar os foros como “ffazem aqueles que teem as herdades nos rregueengos”595. Deste modo. assim como os bens entregues em préstamo. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. apesar de ser um exemplo para um período mais tardio. jurados e outros oficiais593. 595 594 TT. Assim aconteceu quando Lourenço Esteves. actualmente.49. prior da igreja de Santa Maria do Castelo de Torres Vedras. respectivamente. Torres Vedras (…). Existem relatos de algumas apelações de sentenças feitas para a rainha.54. A autora menciona que D. Infelizmente. 469 e segts. pp. no qual a soberana colocava juiz. m. o poder da rainha estava sempre subordinado ao do chefe do reino.29. Sabemos que em Torres Novas e Torres Vedras a rainha possuía os feitos criminais e cíveis594. Ou seja. expôs à rainha que tinha edificado uma capela em honra do Corpo de Deus e que o monarca lhe fizera mercê de poder adquirir casas e herdades nos reguengos até mil libras. n.º987 e 990. Colegiada de Santa Maria do Castelo de Torres Vedras. Beatriz. mordomos. principalmente os que eram considerados inseparáveis da pessoa do rei.cónegos agostinianos doaram à rainha o lugar de Enxara. e como dissemos. TT. as cartas de doação para todos os bens imóveis recebidos por D. de Peso da Régua).16. a rainha era uma verdadeira senhora que exercia os seus plenos poderes e autoridade. posteriormente. e o concelho de Vila Real. m.º6. Salvado. os monarcas não permitiam a alienação de alguns direitos reais.

O procurador do bispo apelou para a rainha. quando Afonso Martins e Maria Soares. que sentenciou a favor do bispo e da restituição do senhorio da aldeia à Sé de Lamego596. m. cabia a D. quando estanciava nas suas localidades.17. Vicente de Fora. uma herdade em Cacilhas e. principalmente quando havia uma clara sobreposição entre o poder eclesiástico e o civil599. n. Beatriz devido a uma pena de excomunhão que lhes havia sido imposta pelo prior e raçoeiros da igreja de Santiago de Almada.usurpado.º45. Deste modo.7. Esgueira e suas gentes. TT. cx. deduzimos que a consorte se opõe à Igreja de Santiago de Almada porque. Sé de Lamego. a pena de excomunhão era a pena mais grave aplicada a um indivíduo pela Igreja. É raro encontrarmos um membro da família real a ir contra uma sentença proferida pela Igreja. trinta soldos para celebrarem missa de aniversário por Mor Esteves. moradores em Almada. 72. n. esta é vila da sua jurisdição598. apelaram a D. segundo o prior e raçoeiros. 599 169 . a igreja devia receber. Colecção Especial. A sentença da rainha estipulava que o prior de Almada não devia aplicar a pena de excomunhão a Pedro Esteves e a sua mulher597. Este é um exemplo claro das tensões que deviam existir entre os diversos poderes. Beatriz zelar pela justiça e pela manutenção da ordem.º1. A consorte aproveitava. a rainha devia ouvir as queixas dos habitantes e dar respostas às suas solicitações. e Mécia Lopes. 598 Sobre a articulação dos poderes eclesiástico e civil veja-se o estudo de caso de Maria João Branco da Silva.. n. Mosteiro de S. A Sé de Lamego na primeira metade do século XIV (1296-1349). mãe de Pedro Esteves e antiga proprietária da herdade. Como senhora das suas terras. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. m. Assim aconteceu em 1348. A rainha nem sempre sentenciava a favor da Igreja. m. pela herdade.º14 (este documento encontra-se transcrito em Anísio Saraiva. escudeiro. Os excomungados tinham comprado a Pedro Esteves. n. Nos tempos medievos. 2003. doc. neste caso. Estas eram prerrogativas detidas pelos monarcas e por aqueles que dele recebiam delegação de poderes. Leiria. Doações e mercês régias. 1ª inc. segundo afirma D. Beatriz.11. Lisboa. 597 596 TT. A vida de uma aldeia do século XV. 1990 (dissertação de Mestrado policopiada). para reforçar os laços de fidelidade com os respectivos moradores. Magno Edições. sua mulher.º 205 A). mas. Sobre o visado recaía a inibição de receber os TT. sua mulher.

222). Para minorar tal situação. 1950. Beatriz.º9 e 10. termo de Porto de Mós. do qual lugar Bartolomeu Peres devia pagar jugada601. segundo antigo ritual de Cardeña” (in Henrique da Gama Barros. 504). os juízes régios não cobravam a multa aplicada e. História da administração pública em Portugal nos séculos XII-XV. in Dicionário de História de Portugal. 170 . vol. deste modo. II. A excomunhão era uma “censura eclesiástica. decidiu recorrer à rainha. 602 601 600 TT. e recaía sobre a cultura do trigo. funcionando. por isso. Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. Lisboa. por ficar completamente isolado da sociedade e só obter a absolvição depois de prometer cumprir penas graves. do milho. p. Assim. porque este último lavrara. Vejamos a sentença dada pela rainha. História de Portugal. morador em Aljubarrota.” (in José Mattoso. “A ajuda do braço secular era uma das condições a que se obrigava o soberano no acto da coroação. o acusado deveria pagar um moio de pão segundo.. “Excomunhão”. sendo-lhe também recusada a sepultura eclesiástica. Figueirinhas. m. de comunicar com os fiéis. 2ª inc. demandava Bartolomeu Pires. Como pena. vol.sacramentos. semeara e colhera trigo e milho em Andanho. Notou Gama Barros 600 que existiu um abuso das penas de excomunhão. como estava estipulado no foro desse lugar. considerou que os seus ouvidores haviam julgado bem602. Lisboa.63. A jugada era “uma contribuição predial imposta aos que possuíam casais convertidos de reguengos em foreiros. ao ponto de ser expulso da comunidade cristã. através das suas justiças. p. no entanto. recusar o auxílio secular para a implementação da pena. T. Imaginando uma sociedade sujeita ao influxo das ideias dominantes da Igreja. o poder civil detinha autoridade para. Em Porto de Mós existiu também uma demanda que foi à apelação de D. Os juízes seculares eram obrigados pelo direito público a executarem as sentenças eclesiásticas. I. Sá da Costa. A situação do excomungado na Idade Média era muito dura. Estevão [?] Fernandes. Ed. n. do vinho e do linho” (in Fortunato de Almeida. Porém. para tal. jugadeiro e rendeiro dos direitos da rainha em Porto de Mós. é fácil julgar a condição do excomungado que se encontrava amaldiçoado por Deus. Esta. II. como auxílio do poder temporal na aplicação da pena. marido de Domingas Martins. 247). Domingas Bartolomeu não deve ter concordado com a pena aplicada a seu marido e. de assistir aos ofícios divinos. 1992. p. pela qual se é excluído da sociedade dos fiéis (…). não se afastavam do excomungado nem consentiam que as outras pessoas o evitassem.

n. exceptuando algumas cartas de doação de D. Afonso IV e D. pacíficas. Beatriz possuiu.13. Gav. afirmar que a infanta e depois rainha D. Infelizmente.. desde cedo. Beatriz. em que a rainha usa jurisdição dentro dos seus domínios. após a morte da rainha.º18. m. permite-nos entrever um pouco da personalidade e forma de agir de D. n. Pedro. uma vez que. Esta lacuna revelou-se um obstáculo que em alguns aspectos se manifestou impossível contornar. isenções e direito de padroado que permitiram engrandecer de forma significativa a “Casa da Rainha”. Assim. A maioria dessas doações foi concedida como uma mercê régia. em jeito de conclusão. Podemos. Tal não impediu a superior uniformidade jurisdicional da rainha. posicionando-se como a autoridade mais forte dentro dos seus senhorios. agravos e apelações à corte do rei de sentenças proferidas pelos juízes e ouvidores da rainha. Esta informação. Não conhecemos queixas. apesar de esparsas. a quem as populações locais não se inibiam de apelar para o que consideravam ser uma recta justiça.2. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. alm. TT. Beatriz e as gentes das suas terras foram.35. E quando esse poder foi questionado. património que lhe permitiu auferir rendas que garantiram o sustento da sua “Casa”. Apesar das poucas informações veiculadas pela documentação coeva.Gostaríamos de referir um outro exemplo. na terra do Louriçal fez citar perante si todos aqueles que no couto e rio do Louriçal tinham moinho603.51. embora escassa. tributos. consideramos poder afirmar que as relações estabelecidas entre D. Além dos domínios senhoriais das terras. aparentemente. 603 TT. m. a documentação relativa às terras das rainhas. Mas. 604 171 . as notícias existentes permitiram-nos traçar a localização dos domínios desta consorte. marcada pela descontinuidade geográfica. todos os bens voltavam à posse da coroa. parece-nos possível afirmar que as atitudes da rainha revelam claramente uma forte vontade da sua parte em se impor como auctoritas suprema no seu senhorio. m. o património da rainha era também composto pelas rendas. As decisões e confirmações de sentenças mostram-nos que a rainha era uma mulher que se apresentava firme e coerente nas suas deliberações.º7. não sobreviveu até aos nossos dias.9. 2ª inc. Embora não esteja patente qualquer desafio à autoridade régia ou eclesiástica. a rainha apelou ao rei para este recordar aos ouvidores que as dízimas pertenciam à Senhora da terra604.

172 . uma fonte de poder. com a administração dos seus bens a permitir à rainha o exercício de poderes senhoriais.A consorte de D. assim. mas também sustentar um séquito e os elementos que gravitavam na sua esfera. Afonso IV representava.

2008. Depois da morte do rei Dinis. em 1325. ainda muito obscura. “Like in many contemporary European kingdoms. Nova Iorque. la catalano-aragonesa. 606 605 173 . a infanta D. Rivista della società italiana delle storiche. portuguesa y castellana. princesas e infantas de Castilla. estes eram independentes da corte do monarca605. the queens of the Crown of Aragon administered their own patrimony and managed their own household and court. Palgrave Macmillan. Por um lado. Como consorte havia todo um conjunto de serviçais que lhe estavam adstritos e. Beatriz era auxiliada por uma equipa de numerosos servidores domésticos que tinham como função dirigir. a soberana possuía prerrogativas formais de soberania. 2002. Inerente à sua função. de fidelidade. mulheres e terras. 139). piety. un espacio institucional que. de protecção e de serviço. o jogo de interesses ao nível das alianças políticas entre os reinos. Uno spazio politico nella Castiglia del quattrocento”. por outro. o papel das mulheres servia. É somente neste âmbito de ligações que podemos percepcionar os poderes das rainhas. essencialmente. Power. na maioria dos casos. in Genesis. em alguns casos. p. “La Casa delle regine. A vida das rainhas é quase sempre ocultada pela acção dos monarcas. sabemos estuvo firmemente constituido en el ámbito de las monarquías ibéricas de la Baja Edad Media. na qual detinha poderes sobre homens. “Apenas hay en las Partidas de Alfonso X el Sabio referencias que nos aclaren pormenores de la casa de las reinas. majestade e realeza. I/2. Para tal efeito D. No entanto. rainha de Portugal.V. este só se revelava no quadro da sua vivência institucional. navarra. Uma consorte possuía sempre o seu espaço doméstico que era necessário administrar. Esta dimensão era ainda fortalecida com o poder exercido dentro da sua “Casa”. their consortium domesticum et familiarum.2. p. Esta actividade era mais complexa do que possa parecer à primeira vista. governar e executar tarefas que faziam parte deste pequeno mundo de carácter essencialmente doméstico606. which was independent of that of the king. Beatriz tornava-se pelo casamento.” (in Nuria Silleras-Fernandez. 73). paralelo a la Casa del rey. mas também detinha poder efectivo.” (Angela Muñoz Fernandez. marcada esta por relações políticas que são ao mesmo tempo de sangue. – Vassalos e serviçais da rainha A história das rainhas medievais portuguesas encontra-se. and patronage in late medieval queenship: Maria de Luna. estamos perante uma sociedade em que o trono se transmitia de forma hereditária ao filho primogénito e.

Each member of the household. and dependents in addition to family members. mas sim através de um grupo flutuante de administradores. The household included servants. Filipa de Lencastre (…). de estatuto social. 73). stood in a particular relationship with the property. complexa e de difícil reconstrução608. A “Casa” era. Ou seja. University of Toronto Press/ Medieval Academy of America. in Medieval families: perspectives on marriage. ou de uma ala apartada destinada ao gineceu cortesão. Constituía. whose reason for coresidence is the care and support of the family group and its property. sim. muitas vezes.” (in Manuela Santos Silva. Carol Neel. “La Casa delle regine (…)”. or patrimony. that formed the basis of the household. and children.Até ao momento. as informações veiculadas pelos documentos que versam sobre esta matéria são muito incompletas. serviçais. Assim. Todavia. nunca foi feito um estudo exaustivo e detalhado relativo à “Casa” da rainha D. constituía antes uma instituição de natureza social e administrativa que incluía um número elevado de Senhoras. Toronto. Outro dos factores a considerar prende-se com o facto de os seus membros se renovarem constantemente (por razões de idade. membros da família real e serviçais609. slaves. não tendo atingido a importância que irá adquirir a partir de D. mais do que a designação material de um edifício. Deste modo. Aqui encontramos membros pertencentes à nobreza e ao clero. No entanto. household. por desagrado da rainha e por muitos outros motivos). whether in one dwelling or in an arrangement like homestead. Filipa de Lencastre. pp. 348). “The household is defined as a group of people sharing a residence. assim. Pensamos que um dos factores que terá contribuído para as poucas informações disponíveis poderá estar relacionado com o facto de nesta centúria a “Casa” da rainha ainda não estar institucionalizada. 609 174 . p.” (in Sally McKee. por morte. ao conjugar os dados dispersos é possível identificar alguns desses servidores e reconstituir alguns dos respectivos cargos. não podemos definir a “Casa” através de uma localização concreta. Angela Muñoz Fernandez. mas sim recolher elementos que nos ajudem a compreender os serviços da “Casa” da rainha. 608 607 “Esta ‘Casa da Rainha’. Não é nossa intenção neste estudo apresentar listas biográficas dos diversos funcionários. uma estrutura compósita cuja realidade era. 183-184). Beatriz. ed. whether kin or nonkin. A “Casa” da rainha não era tanto uma realidade física e espacial. p. oficiais. um local onde se Angela Muñoz Fernández refere que têm sido poucos os estudos relativos à “Casa” das rainhas (Cf. damas e moças. 2004. Beatriz607. impunha-se efectuar uma profunda e rigorosa investigação de raíz. de mulheres encarregadas de ofícios de maior dependência. “Households in fourteenth-century: Venetian Crete”. pelo que na elaboração destas linhas deparámo-nos com a dificuldade da reconstituição da corte que acompanhava D. logo no primeiro contacto com as fontes entrevimos os obstáculos que este tipo de análise acarreta.

desenrolava uma complexa teia na qual imbricavam o nível pessoal e o social. utilizados pela consorte na “Para a rainha e para os seus dependentes a casa começa a gerar uma instituição insubstituível que possibilitava ordenar e controlar a vida social quotidiana. talvez substituindo-se mesmo às funções que as famílias e outros grupos cumpriam nesta época. este universo privado representava mais do que um mero local onde convergiam actividades e funções individuais. assim. educação. Beatriz. A administração do espaço doméstico implicava uma actividade muito complexa. but there remained an ample surplus to provide for the queens and their entourage. com esta. ed. mas também as rendas pagas em géneros). D. 611 610 “A part of these funds and goods was used to remunerate the officials that supervised these activities. Ao mesmo tempo. Desconhecemos a existência de regimentos ou regulamentos que enquadrassem as práticas desta instituição no tempo da rainha D.” (in Ana Maria Rodrigues. como analisámos no capítulo respectivo. Brepols. mas também os colaboradores civis e religiosos. p. A ele pertenciam os servidores privados da rainha. A rainha D. Os proventos que a rainha obtinha através da administração das suas terras (não só em moeda. 175 . este era o local onde a rainha praticava o seu poder. Beatriz dispunha de uma considerável quantia em dinheiro e em géneros provenientes da exploração das suas terras611. apresentando-se como uma outra família capaz de propiciar criação. obtendo não só vantagens sociais e económicas. Porém. De facto. mas também o íntimo e o político. 143). coexistindo. p. and judged the cases concerning them. Beatriz e onde conviviam elementos com funções bem definidas. Os rendimentos auferidos eram. mas até promoções políticas e profissionais610. este era acima de tudo um espaço que podemos considerar como o centro nevrálgico do poder feminino. portanto. Leonor (…). 2007. By Brenda Bolton and Christine Meek. Deste modo. The queen consort in Late-Medieval Portugal.” (in Ivo Carneiro de Sousa. a Casa seria uma pequena corte da rainha que se inseria na mais ampla corte régia. As consortes eram auxiliadas por uma relativa numerosa equipa que circulava neste pequeno mundo. Turnhout. collected the taxes. Todavia. sep. verdadeiramente socialização. de Aspects of power and authority in the Middle Ages. estabeleciase uma rede de relações sociais materializadas num conjunto de serviços e servidores que abrangiam a dimensão doméstica e privada. do ponto de vista físico e funcional. Aqui se poderia aceder a diversas oportunidades. 169). Supomos que. permitiam-lhe efectuar um conjunto de despesas que iam muito além do seu sustento e do supérfluo. assim se formando uma verdadeira comunidade social cujo vínculo era a ligação a D.

” (in Angela Muñoz Fernandez. pois. fl. Desconhecemos a totalidade das damas que a infanta Beatriz trouxe para o Reino. mas. como veio muito jovem para Portugal. “Os primórdios da Casa (…)”. Mas também não deveria ser descurada a tarefa de consertar casamentos adequados para as mulheres solteiras. uma vez que foi recolhida e criada junto da rainha D. mas também um aumento dos rendimentos das respectivas famílias. Beatriz uma sua criada. en la documentación testamentaria de reyes e reinas. de manera recurrente. terá vindo com D. como ella mesma declara no testamento” (in ML. Era através destes rendimentos que os oficiais e os serviçais eram remunerados e/ou recompensados. a infanta tinha já mordomo-mor ao seu serviço antes do casamento. D. a consorte tinha. alguns teriam. fundamentalmente. Ângela Muñoz Fernández afirma que “la constitución de una Casa própria de las reinas era asunto que entraba en el juego de estas negociaciones [matrimoniais]. neste aspecto. D. 181v-182). muitas outras mulheres ansiavam pela constituição da “Casa” da futura consorte. ou por ser natural daquella Cidade. 74). provavelmente. viajado com a jovem desde o seu reino de origem. Para o caso castelhano e. Com a chegada da infanta ao novo reino. Assim desde a sua infância. De entre estes. Como iremos analisar posteriormente. na esperança de deterem um lugar na sua entourage e esperando. Pedro sendo a sua terceira mulher (ML. deste modo. Prevista desde el nacimiento y para el casamiento. 27-41. Teresa Eanes614.manutenção da sua “Casa”. se estendeu também a todos aqueles que com ela partilhavam o espaço residencial. 180v-181v). em jeito de troca e como obrigação. acrescentar não só prestigio à sua linhagem. uma importante função. 614 176 . ou por ser da família de Toledo. fl. & tinha vindo de Castella por Dama da Rainha Dona Brites: chamauase de Toledo. “La Casa delle regine (…)”p. V. 613 612 Veja-se Manuela Santos Silva. de lhes garantir o sustento e definir a ocupação a desempenhar. Castela613. Ao receber os serviços e a companhia destes indivíduos. la formación de la Casa de las princesas e infantas castellanas es un proceso que se visibiliza. también en las capitulaciones que regulaban el matrimonio de estas mujeres con miembros de las realezas vecinas o de la nobleza del reino. E a rainha teria. Esta dama veio a casar com o conde D. natural de Toledo [QUADRO VII]. em período posterior. É. deverá ter existido um primitivo núcleo formado por mulheres e alguns homens que diariamente acompanhavam a pequena infanta. Isabel. pp. Todavia. provável que a sua “Casa” tenha sido constituída por D. “Era Dona Tereja de geraçaõ nobilíssima. Assim. não terá recebido de imediato “Casa”. V. além dos seus parentes. Beatriz viu-se inserida numa rede de relações que. Dinis com elementos portugueses612.

D. 28). tabeliães e concelho de Viana que recebessem e tivessem como senhora a infanta D. que neste ano a infanta D. por um lado. Ainda no reinado dionisino. era um atributo das rainhas. Em rigor. Com D. Pedro. Beatriz solicitava aos que com ela conviviam. revelando. sabemos que as fontes não permitem reconstituir a totalidade do corpo de oficiais nem o círculo de colaboradores que acompanhavam a soberana no seu dia-a-dia. alguns nomes. Consideramos que as informações recolhidas fornecem somente uma parte da realidade do que foi a “Casa” da rainha. o lugar cimeiro era ocupado pelo mordomo-mor [QUADRO VI]. D. Assim. Beatriz e que lhe obedecessem com os seus vassalos e lhe respondessem como respondiam ao monarca (TT. Liv. no ano de 1307. sucedeu-lhe o seu irmão D. responsável pelo respectivo governo. mas também por colaboradores laicos e religiosos que se constituíam como uma comunidade social que vivia em permanência com D. Leitura Nova. foram mordomos-mores de D. A escolha destes e de outros oficiais. Beatriz. mas também algumas actividades e funções. Pedro Afonso. Dinis. fl. 616 177 . Porém. que foi em 1307 que o rei D. Sabemos que a entourage era formada. pelos seus serviçais privados. Beatriz: Martim Eanes. não raras vezes é possível identificar alguns desses servidores. Na “Casa” da rainha. como já referimos. Não pretendemos nestas linhas traçar listas biográficas dos vários elementos que compunham a instituição. administração e superintendência.Em regra. algumas personagens conhecidas e importantes. Dinis lhe fez “Casa”615. João Afonso616. os seus elementos se renovassem com alguma regularidade. alvazis. V. no seguimento de uma carta de confirmação da doação da vila de Viana do Alentejo à futura consorte. Talvez. Esta informação pode-nos indiciar. o seu filho bastardo. por vezes. D. as administrações e as burocracias que constituíam as diferentes actividades que D. 6 de Místicos. Beatriz já comandava a sua “Casa”. mas sim inventariar elementos e pistas que nos ajudem a compreender os serviços. essencialmente. Beatriz já possuía a sua própria “Casa” ou. fl. Afonso IV esta função passou a ser ocupada por membros de linhagens que se encontravam ligadas ao novo monarca. da linhagem dos senhores de Sousa. mandou aos alcaides. 185v. ML. deixam entrever esse domínio mais privado. conde de Barcelos. que gozava de uma 615 Seguramente em 1314. uma vez que D. surge-nos como o primeiro a ocupar este cargo. por outro. tantas vezes por nós desconhecidos. colocando no cargo mais importante uma pessoa da sua inteira confiança. No entanto. o séquito que acompanhava as rainhas é de difícil reconstituição.

João Afonso. Estas eram prerrogativas permanentes do monarca e de todos aqueles que dele recebiam delegação de poderes. No entanto. Gav. Este seria um colaborador próximo da rainha e teria. estariam encarregues de ouvir as demandas (os ouvidores) e. cabia à rainha velar pela justiça e pela manutenção da ordem. os meirinhos incumbidos de executar os mandados dos juízes. em alguns dos seus domínios. Encontramos. seguiu-se-lhe D. TT. estes magistrados julgavam em primeira instância. não temos notícia sobre a existência deste oficial. nas terras da rainha encontramos juízes que por ela julgavam questões ocorridas dentro do seu senhorio. Porém. Havendo um contador e um almoxarife. m. p. Como senhora de várias terras. Difel. por outro. 216. além dos indispensáveis magistrados locais.4. por um lado. Lopo Fernandes Pacheco (de quem falaremos mais detalhadamente) e Martim do Avelar [QUADRO VI]. por outro. Detendo D. o contador e o sacador das dívidas. A corte dos reis de Portuga no final da Idade Médial. a existência de uma certa rotatividade na ocupação do cargo de mordomo-mor e. assim. uma vez que existe omissão nas fontes desde 1320 até 1333618. oficiais específicos para cobrar impostos e dívidas. Talvez a única excepção seja D. Beatriz detinha a posse e o senhorio de algumas terras nas quais. Vimos já que D. Dinis faleceu no ano de 1325.º4. mas inferimos a sua presença. por regra. n. havia um “carácter vitalício da maioria dos ofícios da Casa e da Hoste na centúria de Quatrocentos”617. Assim.13. mas também outros magistrados que. deles se podia apelar para a soberana.grande notoriedade no meio social cortesão no tempo do Bravo. Era ao contador-mor que ficava incumbida a administração económica e financeira do património e era a eleque os contadores estavam subordinados e a quem deveriam apresentar as receitas. por um lado. sendo a última apelação para o monarca. como o almoxarife. existiria com toda a certeza um contador-mor. 1995. excepto na cidade de Évora619. circulavam muitos outros oficias administrativos nomeados pela soberana. a ausência de carácter vitalício. Lisboa. oficiais vinculados a si. Rita Costa Gomes. 619 178 . para o nosso caso em estudo. no entanto. Beatriz a jurisdição cível e crime. Segundo Rita Costa Gomes. 618 617 Este bastardo de D. notamos.

D. sendo este um funcionário subalterno com competência para proceder à execução de sentenças. Beatriz nas suas saídas. Sempre que a rainha pretendia 620 TT. Entre aqueles que com ela conviviam diariamente. dois capelães e um confessor. possivelmente. Beatriz seria também rodeada por um número não desprezível de homens que se encontravam ligados a si por laços de dependência pessoal. m.Assim. a documentação não nos deixa entrever quais os produtos arrecadados pela tesouraria de D. um requeixeiro. Mas a soberana não cuidava só da sua alma. se nas suas terras houvesse apelações. bem como a um clérigo. Ainda nas suas terras de Vila Real e Panóias. Infelizmente. Torres Vedras e Óbidos a rainha possuía os seguintes oficiais: o tabelião que lavrava os actos. mas também as jóias. assim como outros de carácter sumptuário deveriam estar à guarda deste oficial. as suas maleitas corporais ficavam entregues ao físico e ao boticário a quem recorria frequentemente. o porteiro-mor que superintendia na cobrança dos direitos fiscais e o porteiro. Porém. rendas e poderes620. criando-os na sua companhia como membros da sua família e seus dependentes. a função de confidentes e conselheiros. 179 .º4. elas seriam determinadas pelos ouvidores da rainha ou pela própria consorte e nunca as partes poderiam apelar ao rei nem para a sua corte. Além destes oficiais. uma tecedeira e um estribeiro. Gav. Alenquer. ou seja. os quatro últimos ocupando-se de aspectos relacionados com a devoção e a vida espiritual e exercendo. n. Beatriz. produtos sumptuários e percepcionar as rendas recebidas através dos receptores locais dos senhorios. deduzimos que os seus objectos em ouro. Para cuidar das suas necessidades diárias a rainha tinha ao seu dispor um copeiro-mor. os monarcas dispensavam às suas consortes todos os seus direitos. relativamente aos quais registamos a menção a um reposteiro-mor. Havendo um tesoureiro. Este último era um outro cargo da maior importância dentro da “Casa” e ao seu detentor competia a superintendência da cavalariça e acompanhar D. existiria provavelmente um tesoureiro-mor que teria como funções arrecadar bens em metais preciosos.13. Podemos afirmar que durante a vigência da doação os poderes da rainha no seu senhorio eram plenos. prata. não devemos esquecer os indivíduos que a rainha acolhera em criança.4. Numa esfera ainda mais próxima da soberana encontramos os seus servidores privados.

grupos de indivíduos com funções bem demarcadas. Para assistir D. administrativa e pessoal que lhe era outorgada e. além do grupo dos homens que geriam este espaço e asseguravam o seu funcionamento em termos religiosos622. reconhecida. Esta era não só o espaço no qual a rainha e os membros da sua “Casa” assistiam às celebrações litúrgicas. como o conjunto de objectos relacionados com o culto. 28. p. Porém. A regra seria cada um ocupar o seu lugar no funcionamento e hierarquia da “Casa”. de alfaias litúrgicas e de relíquias revela-nos a existência de uma intensa vida devocional [QUADRO VII]. Beatriz ia buscar rendimentos para custear a sua “Casa” permitindo-lhe potenciar e redistribuir recursos para assim exercer uma gestão efectiva sobre os seus oficiais. Em torno da consorte organizavam-se. de um confessor. Supomos que dentro da sua “Casa” haveria um local onde o Sagrado teria o seu domínio. pp. não só os próprios mas igualmente através do indispensável recurso ao fretamento ou requisição compulsória de animais e serviços. na maioria das cortes medievais (…) este departamento surge como o mais numeroso. que nos evidencia uma liberdade pessoal e uma capacidade de manobra política utilizadas em benefício próprio pela rainha. A corte dos reis (…). centrado na Capela. Supomos que a consorte tivesse um oratório na sua câmara onde praticava as suas devoções e se recolhia em oração. Beatriz possuiu um local físico definido e permanente para a prática do culto. apesar de modesta. deste modo. simultaneamente. assim. visto ser raro encontrarmos uma pessoa a exercer. que deveria providenciar o transporte das pessoas e das bagagens621. Era na acumulação e rentabilização do seu património que D. A corte dos reis (…). como uma verdadeira senhora que administrava e chefiava a sua “Casa”.” (in Rita Costa Gomes. Este estatuto era obtido em virtude da autonomia económica. 180 . Todos os cargos e serviçais elencados deixam-nos entrever uma estrutura organizativa complexa. 275-276). Desconhecemos se D. Toda esta logística ficava a cargo da estrebaria. Beatriz surge-nos. e seguramente dos mais impopulares. duas ou mais actividades.deslocar-se às suas terras iniciava-se um complexo processo que procurava assegurar que as jornadas se desenrolavam sem sobressaltos. simultaneamente. D. A presença de capelães. 622 621 Rita Costa Gomes. Não é por acaso que. esta realidade apresenta-se muito obscura. Beatriz nas suas orações e penitências estava ao seu serviço um grupo de homens Deste modo o estribeiro recorria “a todos os meios de que pudesse lançar mão.

Este franciscano foi também confessor de D. pp. II.” (in Rita Costa Gomes. p. 118). A consorte possuía na sua Capela alfaias litúrgicas que deveriam ser em número considerável. n. pelo que conhecemos apenas a existência de dois capelães (Domingos Peres e Estevão Tomé624) que possivelmente asseguravam as celebrações litúrgicas na “Casa” da rainha. Fernando. juntamente com Fr. 342. Apesar das parcas informações relativas à Capela que a rainha teria na sua “Casa”. Francisco e Fr. 625 “Reafirmada de modo sistemático. A corte dos reis (…). 350 e 352. sobre a Capela do infante D. a documentação é parca nestas informações623. as informações relativas aos bens que faziam parte da Capela de D. Beatriz. I. p. T. PHGCRP. Não terá sido por mero acaso o investimento feito nas relíquias e respectivos relicários.designados para o efeito. 52). Estêvão da Veiga626). Afonso IV. a liberdade do rei (como da rainha e dos infantes) na escolha de confessor próprio foi alvo de concessões papais. bem como no grupo de capelães e confessores que acompanharam D. na sua Capela. Liv. mas chegou somente até nós a informação sobre a posse de uma taça de ouro “com sa sobre copa que tem a figura do Agnus Dei dentro”627. 626 627 Como já referimos. A Capela representava a exteriorização e o prolongar da sua Segundo Rita Costa Gomes “geralmente as Capelas reais não excedem em muito as duas dezenas. bem como diversos objectos que guardavam relíquias: um barril de cristal. aos quais se juntava um confessor625 (Fr. p. Colegiada de Santa Cruz do Castelo de Lisboa.º59 e 70. Todavia.2. a existência dos livros e alfaias litúrgicas indispensáveis ao culto. 628 181 . Diogo (Rita Costa Gomes. ainda juntou o Infante consideráveis investimentos materiais tendentes a garantir. Testamento de 1358. não esquecendo a procura da obtenção das mais diversas relíquias e a aquisição de vários retábulos ou imagens para lhe aumentar o respectivo prestígio e potencializar as manifestações da sua própria piedade religiosa” (in João Luís Fontes. respectivamente. no máximo três dezenas de servidores eclesiásticos referenciados ao longo de cada reinado.” (in A corte dos reis (…). A corte dos reis (…). parece-nos evidente a existência de uma vivência religiosa na qual se destaca um desejo de promoção de um culto prestigiante e exemplar em que a oração e a meditação pessoais faziam parte integrante do quotidiano. Beatriz são reduzidas. p. Percursos e memória (…). m. 119). 110). uma serpe de prata e quatro relicários ornados com pedras preciosas628 [QUADRO VII]. 624 623 TT. bem como os adereços e o mobiliário necessário à ornamentação dos diferentes espaços reservados às celebrações e às suas práticas devocionais. Todos eles demonstram a importância da prática litúrgica no seio da família real. mas através de outros estudos ficamos a saber quais seriam esses objectos. Assim. diz-nos o autor do seu estudo: “A toda esta preocupação com os eclesiásticos que asseguravam a vida litúrgica na sua Corte. Não podemos esquecer as relíquias “que andam no christal”.

Vanda Lourenço Menino.13. Relações e sentimentos que. Leonor (…). fundada em relações e sentimentos que pertenciam à própria natureza das coisas. isto é. estes últimos de. da celebração de ofícios especializados. Desde sempre existiu uma selecção consciente feita no momento da emissão de documentos. são poucos os documentos para o estudo da Chancelaria da rainha. uma vez seladas as cartas.” (in TT. A sua existência énos comprovada pela presença de um chanceler-mor. encarregados. Gav. Chancelarias régias quatrocentistas portuguesas: produção manuscrita e aproximação político-diplomática. 632 631 630 629 182 . simultaneamente. de um chanceler e de vários escrivães [QUADRO VI]. considerado o lugar cimeiro entre os altos funcionários a quem estava confiado o selo real que se apunha nos documentos. 15 e 16 de Janeiro de 2009. 176). n. “Todos a tinham como um facto natural. porque eram independentes da vontade dos seus membros” (in Judite Antonieta Gonçalves de Freitas. É possível também entrever a organização de um serviço de chancelaria. in revista da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais. Chancelarias das rainhas portuguesas na passagem do século XIV para o XV (D. p.º4). uma vez que nem tudo era registado através da escrita. na qual outros indivíduos retiveram e escreveram apenas o que pretendiam que fosse preservado. Porto. 2009. apesar das dificuldades. Esta era o centro administrativo onde encontramos indivíduos especializados na produção. organização e guarda dos documentos da consorte632. n. por isso mesmo. Beatriz. 138). surge clara a organização de um serviço de chancelaria. eram iguais em todas as famílias. m.º6. Sobre a chancelaria das rainhas veja-se o seguinte estudo conjunto: Manuela Santos Silva. autenticados e expedidos os seus diplomas630. uma forma de distinção e identidade social629.relação com o sagrado e assumia. do musical. Infelizmente. na qual se refere a existência das chancelarias do monarca e da rainha631.” (in Ivo Carneiro de Sousa. e Isabel de Pina Baleiras. Leonor Teles e D. Afonso IV. sobrelevando a importância do sumptuário.4. Faculdade de Letras da Universidade do Porto “Nom passem por mym nem pelas mhas audiençias nem pela mha chancelaria nem pelos meus ouvydores nem corregedores nos feitos çivys ou criminaaes (…) como dicto he mays passem por ela e pella sa audiençia e pela sa chancelaria em guisa que per este meu mandado aja a dicta Reynha Dona Beatri (sic) a dicta jurdiscom nas dictas sãs terras salvo na cidade de Évora. A rainha D. e que foi agravada pela selecção posterior. p. Todavia. A separação entre as duas chancelarias é esclarecida por uma carta de mercê concedida à sua mulher por D. independente da do rei. Beatriz possuiu “D. Leonor parece ter sido a primeira rainha a organizar uma capela pessoal com uma dimensão verdadeiramente eclesial. em que eram elaborados. D. Colóquio Escrita e poder: as chancelarias peninsulares (séculos XIV e XV). apor a “pagua” em todas elas e de as registar no livro da Chancelaria que se encontrava à sua guarda. D. e devido à sua riqueza. Filipa de Lencastre). informando uma estrutura claramente renascentista.

Beatriz chegou somente até nós um total de 40 [QUADRO IX]. n.4. n. 148.7. temos cinco cartas onde a consorte profere sentenças. Beatriz era uma verdadeira senhora nas suas terras. em nome de D.7. mulher da sua “Casa”. I. não se coibindo de exercer a sua administração e a justiça. Vicente de Fora de Lisboa. n. vol. “O testamento da rainha (…)”. pelo menos desde 1329 até 1359. PHGCRP. pp.. Sé de Lamego. TT. n. Mosteiro de S. TT. MPV. m. 63. m. Convento de Santa Clara de Coimbra. nenhum documento com a assinatura autógrafa da rainha. Desconhecemos a forma do selo da consorte.29. TT. m. Gav. Vários são. a consorte procurava obter da Cúria Romana mercês e privilégios para alguns indivíduos que pertenciam à sua “Casa” ou para a comitiva masculina que a acompanhava nas suas deslocações637. n.4. m. m. p. pp. na qual referimos que D.6.13.º45. como testamenteira. m. m. uma outra na qual se dirige aos seus corregedores e duas em que nomeou procurador. mas também no escatocolo: “A raynha o mandou”635. Existem também alguns escritos (em número reduzido) que são redigidos pelo escrivão da rainha.4. porém.º1. Nestas.º6. I. T. Vanda Lourenço..17. II. Gav. para efectuar a partilha dos seus 633 TT. Colegiada de Santa Maria do Castelo de Torres Vedras. Doações e mercês régias. n. cx. Doações e mercês régias. podendo ler-se na intitulação “Dona Beatriz pela graça de Deus raynha de Portugal”634.13. n. outra em que.º9 e 10. m. Mosteiro de Santa Maria de Almoster. Assim. 106. deu poder ao viúvo de Beatriz Eanes do Avelar. n.º4. TT.º4. TT.escrivão. 634 TT. 637 638 183 .º17. TT. É possível ainda assinalar outro tipo de cartas.º14. m. Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. m. Beatriz e dirigidos aos seus ouvidores e tabeliães636. 1ª inc. 72. TT. Por exemplo. pois.º28. dos quais mais de metade são súplicas ao Papa (23 súplicas). 354. 636 635 A título de exemplo veja-se. Beatriz surge como a autora dos diplomas. n. Dos documentos emanados por ordem de D. os documentos em que D. Liv.11. n.º4. 2ªinc. que podemos denominar de âmbito mais privado: uma em que ordenou o pagamento de 1000 libras à abadessa do Convento de Santa Clara de Coimbra638. 27-31. em número de quatro. Sé de Lamego. Não conhecemos. mas em quatro diplomas é referido que o respectivo documento será selado com o selo da rainha633. Colecção Especial. Através da análise do QUADRO VIII podemos reforçar uma conclusão já avançada. TT. ano da sua morte.

644 184 . 1990. Colegiada de Santa Maria do Castelo de Torres Vedras. Consideramos. estar a iniciar o processo de autonomia.º4. Diante dos dados analisados constatamos que estamos na presença de uma chancelaria organizada. e. D. 643 642 TT. Imprensa Nacional – Csa da Moeda. m. n. ainda uma outra carta de mercê dada ao prior da Colegiada de Santa Maria do Castelo de Torres Vedras. assim como as biografias dos oficiais do Desembargo régio. Gav. Leonor Teles. Esta dinâmica pode ser resultante do facto deste órgão se encontrar ao serviço de uma rainha bastante activa. o autor apontou algumas das características da Chancelaria da rainha D. no escatocolo pode ler-se “A raynha o mandou” (TT. m. temos sempre de olhar para estes documentos como aqueles que chegaram até nós. que com D. Martinho de Sintra. n. É verdade que temos poucos registos [QUADRO IX]. O desembargo régio (1320-1433.. houve redacção de mais documentos.º6. características essas que também encontramos na Chancelaria de D. 150-151. 640 641 João António Mendes Neves. 110. Lourenço Esteves640. pp. 1ª inc.º45. 2005 (dissertação de Mestrado policopiada). Lisboa. Os actos encontramse escritos sobre pergaminho e validados com o selo da consorte643. mas alguns deles ter-se-ão perdido ao longo do tempo.11.bens639. Armando Luis de Carvalho Homem. Vicente de Fora de Lisboa. bem como um codicilo ao primeiro. n. m. por último. pelo menos. Como já referimos anteriormente. No estudo dedicado aos originais da chancelaria de D. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. 111-114. Fernando (1367-1383). Certamente. Coimbra. Assim. deste modo.29. Colegiada de S. concluímos que nenhum dos escrivães pertencentes ao desembargo de D.º36.1. Beatriz a chancelaria da rainha poderia corresponder a uma realidade física independente da do monarca ou. n. por exemplo).4. o que significa que terá havido um menor cuidado de preservação do que o verificado na chancelaria régia. Após uma consulta efectuada à obra O desembargo régio (1320-1433). que geralmente encarregava alguém da sua redacção. Beatriz642. Beatriz. TT. A “Formosa Chancelaria” – Estudo dos originais da Chancelaria de D. 639 TT. Fernando I. Afonso IV estava ao serviço de D. eficiente e apostada em responder e despachar assuntos. realizado por João Mendes Neves641. mandou redigir o seu próprio testamento por duas vezes.13. os diplomas têm um autor. Beatriz644. Mosteiro de S. m. p. no entanto.

º3. Colecção Especial.º1. Por exemplo. mas a rainha mandou que o alcaide não cumprisse a excomunhão649. TT. Beatriz se encontrasse limitada à gestão do seu património e da sua “Casa”. n. m. embora a esfera de actuação da chancelaria de D. Gav.. m. 645 TT. n.. Pedro. TT. The queen consort (…). 646 647 648 649 650 “This meant that in Portugal queen consorts did not enjoy personal authority nor any sort of charisma of their own but derived all their power from the specific concessions that the Kings made to them.17. Beatriz numa contenda que existia entre um casal de moradores de Almada e o prior e raçoeiros de S. a consorte aplicou o poder de justiça cível que lhe havia sido doado pelo rei seu marido quando. este é um caso raro e ilustrativo da sobreposição do poder civil sobre o religioso. Uma vez mais fica claro que a rainha era uma donatária poderosa e rica. Beatriz refere-se. O prior excomungou os ditos moradores. Afonso IV de que não estava a receber as dízimas das suas vilas e lugares645 ou a nomear procurador para tomar posse de terras que lhe foram doadas pelo rei D. recebeu uma apelação na qual aprovou a sentença dada pelos seus ouvidores648.” (in Ana Maria Rodrigues. o da já referida sentença proferida por D.2. a actos de jurisdição nas suas terras. Como já analisámos anteriormente. n.13. n. n. 651 185 . TT. n. TT.º9 e 10. encontramos a soberana a queixar-se a D.A maioria da documentação emanada da chancelaria de D.63. m.63. 2ª inc. essencialmente. mas o seu poder estava circunscrito às suas terras e aos assuntos com elas relacionados651.º4. m. por exemplo.27. alegando que a igreja devia receber 30 soldos para fazer um aniversário. Tiago de Almada. p. Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. m. Existe também uma outra carta de apelação à rainha na qual esta aprova a sentença dada pelos seus ouvidores650. m. e pelo Mosteiro de São Vicente de Fora647.13. 2ª inc. cx.4.º9 e 10.º7. Como já tivemos oportunidade de analisar. Mais notório é o caso que gostaríamos de salientar. Gav. TT. Estes diplomas revelam que estamos perante uma rainha conhecedora e atenta face aos problemas expostos e que detinha autonomia e plena capacidade decisória. 145). seu filho646. Gav.13.4.

p. o chanceler de D. Lourenço Martins com os de Barbudo foi efectuada por Mário Farelo. Todavia. p. 2008. foi desembargador e clérigo do monarca656. it has been noted that not only some of the highest posts of the queen’s household were held by the king’s men but even many of the lower officials were chosen from among the vassals. O copeiro-mor de D. de Carvalho Homem. nota n. acreditamos que apesar desta proximidade começara já a delinear-se a separação entre as “Casas” do rei e da rainha. 186 . Rita Costa Gomes. 310. Beatriz era composto por um grupo de servidores que tinham funções diversas. Beatriz tem os seus próprios oficiais e funcionários. Beatriz. A corte dos reis (…). a documentação não nos deixou entrever o período durante o qual cada um desempenhou as suas tarefas. Faro. 144).Como pudemos verificar. p. 278. pp. o séquito de D. Sousa Costa. mestre de Avis. 2005. The queen consort (…). p. 1968-1970. Como já analisámos. 180. Martim do Avelar. L. vol.º17. os mestres e os comendadores: as ordens militares de Avis e de Santiago (1330-1449). verificamos que o exercício de alguns cargos era desempenhado por servidores do monarca cuja presença se encontra atestada652. 2º série. 119. Edições Franciscanas. não será difícil calcular que alguns indivíduos ter-se-ão conservado na companhia da rainha por pouco tempo. II. foi mordomo-mor da consorte654 [QUADRO VI]. 293. I.” (in Ana Maria Rodrigues. esquires. I. O facto do Mestre Martim do Rosmaninhal surgir como «medico domini regis et suo»658 sugere a estreita relação que possivelmente existiria entre a câmara da rainha e a do rei. Assim. A. que fora meirinho-mor e conselheiro do Bravo653. L. enquanto outros permaneceram longos anos ao serviço da sua senhora. um dos nobres mais próximos do rei e influentes na corte. 654 653 652 Sobre este senhor veja-se Luís Filipe Oliveira. que desempenhavam de uma “Nevertheless. “A quem são teúdos os barões e sages cónegos? Perspectivas sobre as redes de solidariedade no cabido da Sé de Lisboa (1277-1377)”.º150. 342. 350 e 352. Estêvão da Veiga foi confessor de ambos os cônjuges657. Afonso IV. de A. O desembargo régio (…). Domingos Peres. Também o clérigo capelão de D. pp. Apesar de existir uma certa autonomia da “Casa” da rainha. and servants of the king. 199-204. Braga/Porto. O desembargo régio (…). D. Liv. n. Lourenço Martins de Barbudo Esta identificação de D. 655 656 657 658 Monumenta Portugaliae Vaticana. ed. D. O ouvidor Gil Peres exercia o mesmo ofício no desembargo régio655. assim como Fr. Beatriz foi Lopo Fernandes Pacheco. Todavia. in Lusitania Sacra. de Carvalho Homem. A. Universidade do Algarve. A coroa. p. D. T. PHGCRP. Infelizmente. Seguiu-o no cargo o bispo de Lisboa. p.

A corte dos reis (…). a consorte salienta Maria Migueis. Todavia. 56. Entre estas. e sobretudo com o fabrico do pão. revelando. p. Por regra. A corte dos reis (…). Encontramos também mulheres que rodeavam D. Podemos.forma muito clara e definida as suas funções. por outro com o abastecimento e distribuição alimentar. amas. um reconhecimento implícito da 659 Estas expressões foram utilizadas por Rita Costa Gomes. p. para o que eram nomeadas ‘covilheiras’ e ‘lavadeiras’. esta população feminina estava aparentada com os numerosos cortesãos que gravitavam em torno do rei no seu quotidiano: elas eram as suas mulheres. ou seja. pertenciam a níveis sociais mais humildes. em geral. escravas domésticas. Beatriz gravitavam mulheres de “pequena sorte” ou “mulheres baixas”659 que eram as suas covilheiras660. 56).” (in Manuela Santos Silva. 661 660 187 . empregando padeiras e regueifeiras. a rainha deveria ser acompanhada por um séquito feminino que exercia tarefas de natureza mais íntima de serviço à consorte. é bastante difícil identificar todos os homens a quem estavam destinadas funções. mas a quem a rainha agracia no codicilo de 1354 [QUADRO I]. gestão e vigilância. assim. A maioria dos servidores de D. as mancebas eram as servidoras de mais baixa hierarquia dentro da “Casa”. e esta operação torna-se ainda mais impraticável quando procuramos definir serviços e hierarquias no que toca aos elementos femininos. as suas filhas. mas. Dedicavam-se sobretudo às tarefas da Câmara Régia e da Ucharia e Mantearia – ou seja relacionadas. deste modo. mouras e servas [QUADRO VI]. muito raramente encontramos uma acumulação de tarefas pelo mesmo indivíduo. Beatriz era formada por elementos masculinos que desempenhavam funções de supervisão. Beatriz e que pertenciam a uma condição social mais elevada. “anãa” que deveria pertencer a este grupo de serviçais. as suas irmãs ou até mesmo as suas cunhadas661. sabemos que junto de D. Apesar de possuirmos uma imagem muito parcelar deste gineceu. afirmar que o recrutamento para o gineceu da consorte se fazia dentro do mesmo universo do do monarca. permanecendo num total anonimato. 181). além da presença maioritária destes indivíduos. e. Muitas vezes. “Isso não significa que não houvesse também ao serviço do próprio rei muitas mulheres. mas também desempenhavam cargos no serviço da rainha. nomeadamente em cereais. por um lado com os cuidados com a limpeza dos aposentos privados e do guarda-roupa real. “Servidora estreitamente ligada à intimidade física das rainhas. Como já verificámos. Filipa de Lencastre (…). cujas linhagens marcavam presença não só na corte régia. p. Condição diferente tinham as mouras e servas que eram servidoras não-livres. ao serviço “de seu corpo” (in Rita Costa Gomes. mancebas.

e. e João Antunes.pt/uploads/ficheiros/2070. mais dependente da soberana. Amândio Barros. José Augusto Pizarro. e Maria Durães. 339. Isabel. Não raramente. que pertencia ao Desembargo e Conselho de D. A família Cardona e as relações entre Portugal e Aragão durante o reinado de D. (Rita Costa Gomes. p.pdf. Existiram com toda a certeza ricas-donas na esfera da rainha. vol. Fernando. 17. 2005. Pedro I. vedor da chancelaria e conselheiro do monarca). 103. como fundadora. sobrinha e testamenteira de D. Pedro e D. II. A corte dos reis (…). 349. e com uma esfera de acção mais reduzida. 665 188 . filha do Mestre João das Leis. Beatriz. Afonso IV. p. cavaleiro e guarda-mor de D. Beatriz estabeleceu relação com D. D. de Maria Girona. concomitantemente. não conseguimos saber a ascendência paterna e materna desta sobrinha da rainha D. A corte dos reis (…). uma da linhagem Velho (Leonor Gonçalves Velha662). aparentada com João Durães. onde foi abadessa desde 1329 até 1362665.up. p. 664 663 662 Donzela”cuja presença na corte tem quase sempre por objectivo o tipo peculiar de relação evocada pela sucessão da criação e do casamento surge. sobrinha de D. p. pensamos que talvez fosse uma filha segunda que terá vindo para a corte portuguesa para ser criada junto da tia. Infelizmente. Os Buval pertenciam a uma nobreza inferior cuja ascensão se encontrava associada ao serviço da corte dionisina. os de Portocarreiro ou os de Cogominho. Linhagens medievais (…). Beatriz663. Neste universo feminino não faltam as donzelas664 e as mulheres religiosas.” (in Rita Costa Gomes. que foi agraciada em todos os seus testamentos e no codicilo [QUADRO I]. e de duas mulheres relacionadas com servidores do monarca (Constança Nogueira. verificamos a presença de três mulheres pertencentes aos senhores de Avelar (referimo-nos a Beatriz. Assim. p. Vão surgir ligados pelo parentesco com outras linhagens da “nobreza de serviço” da centúria de Trezentos. como os de Avelar. Luís Miguel Repas. caracterização e estudo de trajectórias individuais ou familiares”. com as comunidades mendicantes. p. Esta dama foi durante vários anos aia da rainha Santa Isabel e professou no Mosteiro de Santa Clara de Coimbra. “As abadessas cistercienses na Idade Média: identificação. Testamento de 1358. 2ª série. como já foi referido. Dinis. in http://ler.importância das mulheres nas estratégias político-parentais.letras. Mas. principalmente com o convento das clarissas de Coimbra. consultado em 10/07/2011/. Henrique David. 76. Esta dama foi filha de Gonçalo Lourenço Velho e de Aldonça Martins da Cunha. Tal proximidade estaria relacionada com a Rainha Santa Isabel que. D. 78). Talvez devido à proximidade com a rainha Santa Isabel e. sempre protegeu o cenóbio das clarissas de Coimbra. Beatriz acompanhava a sua sogra em algumas das visitas ao convento. in Lusitânia Sacra. estas comunidades mendicantes apresentavam relações muito próximas com o meio cortesão. e a primeira mulher de João Lourenço Buval. 54). Isabel de Cardona. Estas mulheres poderiam ser filhas de ricoshomens ou ainda mulheres e viúvas de ricos-homens da corte. assim. ou geralmente indiferenciada. Branca e Joana). Os membros desta linhagem só adquiriram alguma posição relevante na corte nos reinados de D.

Ambas as consortes mantiveram uma posição de grande proximidade com as religiosas e mais ainda com a abadessa. Daí a importância que tinha para muitas famílias terem as suas filhas integradas no gineceu da consorte. por intercessões junto dos monarcas e junto da Cúria Papal. Beatriz. “La Casa delle regine (…)”. p. D. Beatriz nas suas deslocações.” (in Angela Muñoz Fernandez. fidelidade e obediência668. 277. Por seu lado. se tivermos em conta que uma das missões da “Casa” era procurar casamentos convenientes para as damas do séquito real. “O testamento da rainha (…). além de lhes proporcionar educação. licença para entrar nos mosteiros de freiras de clausura. “Este scenario de relaciones personales. casamento667 e promoção social. No seu testamento de 1357 D. Contudo. a linhagem encontrava-se igualmente presente neste meio. Beatriz deixou a todas as suas “donzelas que andarem comigo ao tempo do meu saymento que lhis dem quinhentas libras a cada hũa para seus casamentos ainda que nom casem e senhos pares de panos sem penaveyras” (in Vanda Lourenço. I. pelo desempenho de cargos na “Casa”. através de elementos masculinos. A consorte solicitou ao Papa que a licença fosse alargada aos homens de boa fama. Isabel de Cardona. A protecção concedida por D. libremente configuradas. 103). No que concerne aos senhores de Avelar. D. Mas sabemos que esta tinha. p. servicio y afecto hacia la señora. Infelizmente. nos vários testamentos da rainha existem doações 666 MPV. sin duda. Beatriz concedialhes protecção. p. hemos de entenderlo. vol. estabilidad emocional y mantenimiento de vínculos con su mundo e su yo originarios. anudadas con lazos de lealtad. 668 667 189 . mas também a ascensão social da linhagem na centúria de Trezentos. Beatriz terá beneficiado não só o seu posicionamento junto da consorte. juntamente com algumas senhoras. como un esoacio de ‘seguridad’. encontramos duas gerações sucessivas de mulheres associadas ao gineceu de D. os servidores obrigavam-se à lealdade. e como veremos mais adiante. Assim. desconhecemos a quantidade e o tipo de indivíduos que acompanhavam D. Em troca da vinculação destes servidores à sua “Casa”. A sucessão de mulheres desta estirpe junto da rainha não é de estranhar. A inserção de diferentes membros e gerações da estirpe dos de Avelar na esfera de influência da rainha D. nomeadamente os oficiais e outros do seu serviço que a acompanhassem666. 83). Beatriz aos da sua “Casa” foi concretizada de três formas: pelos legados testamentários.

MPV. 43v. que o capelão que rezasse missa na sua capela encomendasse a Deus a alma da rainha D. e para o mestre Martinho do Rosmanial. 672 673 TT. MPV. Beatriz “The more closely individuals became embroiled in the queen’s household. ante um círculo no qual D. vol. p. a quem a consorte trazia sob sua protecção e controlo e que. Gil Martins. A camareira Maria Dias estipulou. Julgamos que os felizes contemplados com os legados testamentários foram aqueles que durante mais anos acompanharam a consorte e com ela partilharam os bons e os maus momentos enfrentados ao longo da sua vida669. but the more dependent they became on her continued favor. Feitos da Coroa. 1206. Para o seu copeiro-mor. Afonso IV e de D. Por seu lado. NA. piety and patronage (…). 671 670 669 MPV. 500). p. em testamento. 27-28. II/I. será a vez de D. D. Solicitou também ao Papa a absolvição das penas ou irregularidades para aqueles que tivessem incorrido em incumprimento e acompanhassem a rainha673 Estamos. 29. e respectiva mulher solicitou a faculdade de altar portátil e de escolherem confessor672. devido ao serviço que Maria Dias “fez aadicta Rainha nossa auoo” (Chanc. D. Assim aconteceu quando intercedeu junto do rei D.” (in Nuria SillerasFernandez. não fosse coagido a possuir cavalo para fazer serviço ao rei670. deste modo. de D. Pedro para que o seu boticário. Lourenço Martins do Avelar. pediu o canonicato e a prebenda de Lisboa671. do rei e dos seus netos. a rainha procurou junto dos monarcas obter benefícios ou protecção para os membros da sua “Casa”. pp. Beatriz admitiu membros da aristocracia. se tornavam instrumentos da sua influência. são esses que recebem ajudas para o casamento e doações várias de objectos … Algumas vezes. fl. Power. I. a rainha recebia a lealdade e o apoio dos membros da sua “Casa”. Chanc. I. por sua vez. Pedro I. doc. vol. 276. João I. Beatriz. 674 190 . Pedro674. seu médico. Dessa forma. doc. João I confirmar os “priujllegios dos reis que ante nos forom” a esta capela.outorgadas a estes seus privados [QUADRO I]. Beatriz também não se coibiu de procurar benefícios junto da Santa Sé para aqueles que pertenciam à sua entourage. vol. Em termos recíprocos. p. the greater the benefits that they derived. Assim. Anos mais tarde. D. mestre Estevão. pediu ao Papa o canonicato e a prebenda de Évora para o seu vice-chanceler. 278. 139). Este pedido da rainha foi ouvido pelo monarca que livrou o mestre por “graça e merçce A Rogo da dicta Reynha mha madre”. I.

n. m.º36. los corredores. para los cuales se eran convenientemente dotadas por la reina. mundo de hombres y mujeres. igualmente. la habitación. Integrase en la Corte. demonstrando a grande relação de proximidade existente entre estas duas senhoras675. Martinho de Sintra. Entrar para o serviço da rainha podia. com a rainha-mãe D. com as oportunidades que poderia propiciar. 678 677 Devido ainda ao pouco conhecimento que se detém para o período medieval. Fundamentos en la Castilla medieval. establecían sus vínculos y sus relaciones: el palacio. participar de los signos y representaciones de un estatus social privilegiado.1. concluir que a “Casa” da rainha se constituiu como um espaço onde se concentravam mulheres de várias idades e estratos sociais. uma vez que este lhes permitia aceder ao nível da corte e do poder da coroa676. Para todas elas era um privilégio fazer parte do serviço pessoal de D. la sala. podemos afirmar que existia um grupo de mulheres oriundas de diferentes grupos sociais que conviviam não só com a consorte. E. Posteriormente 675 TT. Colegiada de S. 2006. gozava da proximidade e do favor régio677. manteve um relacionamento muito próximo com a sua nora.” (in Angela Muñoz Eernandez. Sílex. embora a rainha-mãe continuasse a usufruir de alguns privilégios. o los nobles entre ellos. mas também. 89). nota 15). grandes del reino y grandeza en la sociedad política. Beatriz abria a estas mulheres e a estes homens a possibilidade de beneficiar de privilégios e mercês baseados na relação pessoal estabelecida com a consorte. Títulos. les permitía acceder a una plataforma de concertación de matrimonios. melhor ainda. Era junto do monarca e da consorte que os membros deste grupo social gravitavam. como o de ter 191 . bem como a presença na sua “Casa”. p. Algumas destas mulheres conviviam muito próximo da intimidade da rainha. tanto en la esfera pública como en la privada.” (in María Concepción Quintanilla Raso. pois. segundo as crónicas. primeiramente. a potestas da Casa da Rainha recaía sobre a rainha. 221. neste caso. esposa do rei. desde as pertencentes às camadas populares até às provenientes de linhagens nobres. Isabel que. 676 “Trabajar en la Corte como mujeres al servicio de la reina significaba acceder a un profesión de servicio remunerada. como já tivemos ocasião de sublinhar678. promover o jovem nobre que procurava estabelecer vínculos de fidelidade e. Pertencer à “Casa” de D. veja-se o que nos relata José Súbtil para a época moderna: “Foi normal terem ocorrido situações em que a rainha-mãe convive com a rainha consorte. Apesar das parcas informações que nos revela a documentação compulsada. Beatriz. As terras detidas pela soberana.Eanes do Avelar nomeou a rainha como sua testamenteira. “Los espacios donde monarquia y nobleza. Podemos. revelaram-se um meio alternativo de sucesso para as linhagens da nobreza cortesã. Madrid. “La Casa delle regine (…)”. p.

e logo após a morte de D. funcionando como fulcro alternativo de uma rede de relações. vol. falecidas em 1357 e 1349. p. Coimbra. não são observáveis para essas infantas. Pedro. n. Leonor Teles para encontrar de novo em funcionamento a “Casa” da rainha679. Inês de Castro. p. Constança Manuel e D. alertando para o facto de não se conhecerem notícias de doações que pudessem garantir a base patrimonial da casa desta infanta682. rainha de Castela. 18. devem ter pertencido à “Casa” de D. Beatriz. cada “Casa da Rainha” era um caso singular. Leonor Teles. 8. 59). os filhos nascidos deste casamento.. 680 681 Salvador Dias Arnaut. Salvador Dias Arnaut681 ressalva a afirmação do cronista. alguns dos aspectos (…) nomeadamente os patrimoniais. Fernando. Da morte de D. em 1359. sendo necessário esperar por D. 198.)”. Pedro e D. A crise nacional dos fins do século XIV. A instituição não se encontrava ainda completamente definida no século XIV683. consorte de Aragão. 2008. 58-82. “Óbidos ‘Terra que foi (. 1960. “ O Estado e a Casa da Rainha: entre as vésperas do terramoto e o pombalismo”. até à data do casamento de D. vedor ou vedores. vol. p. em 1372. Em rendimentos próprios. Beatriz. um conjunto de oficiais e uma pequena corte que não se confundia com a Casa da rainha consorte embora com ela mantivesse relações estreitas. isto é. Constança. Tudo indica que a corte de D. assim como as irmãs de D. constituindo-se no mundo das mulheres da corte. pp. Leonor Teles (…). Possivelmente. Factor que não deixará de refletir-se na importância e complexidade variável do gineceu. 679 Isabel Maria Campos. como quando não existe uma rainha. Segundo Manuela Santos Silva. nota 8. a repudiada noiva de D. Beatriz.100. porque hi nom avia rrainha nem outra iffante por estonce acuja mercee se ouvessem d’acostar”680. a par de outros de declínio relativo e menor relevo na vida da corte. que apresentará também momentos de maior pujança e capacidade atractiva. por motivos diferentes. Pedro não terá conhecido um gineceu estável e organizado. e D. I – A sucessão de D. filha de D. existe um período muito obscuro sobre a presença feminina na corte régia. p. Fernando com D. Pedro. Inês de Castro morreram. Maria. A corte do reis (…). Segundo Fernão Lopes. essa infanta “tragia (…) gram casa de donas e donzellas. p. Leonor. D. 130). Sobre este assunto Rita Costa Gomes afirma que “A Casa das rainhas portuguesas encontrava-se dotada de tradições próprias de 683 682 192 . Manuela Santos Silva.também. respectivamente. secretário pessoal e um corpo restrito de criados e criadas. Faculdade de Letras. D. Crónica D. filhas d’algo e de gram linhagem.” (in Rita Costa Gomes. Branca de Castela. in Politeia: História e Sociedade. D. a ausência de uma rainha que pudesse constituir a sua “Casa” terá sido colmatada pelo séquito de D. Fernando.” (José Subtil. organizativos e financeiros.º1. “Mesmo que as fontes da época aludam (…) a uma sua possível substituição por outra figura.

Em rigor. No entanto. Alenquer. 52). Óbidos. A Corte de seu pai. educação e socialização. Alguns indícios apontam para que ela tivesse uma ‘Casa’ composta por 180 pessoas ao todo – menos de metade da Corte do Rei – das quais apenas 30 ou 38 eram mulheres. “Consideramo-la [D. 30-31). Infelizmente. onde vivera até se casar. in Rainhas de Portugal (…). podemos afirmar que ressalta uma ausência de polivalência dos vários ofícios. nota-se que a constituição do património das Rainhas tem agora uma estabilidade sem precedentes. administrada de forma competente. Consideramos que as informações recolhidas fornecem somente uma parte da realidade que era a “Casa” da rainha. algumas actividades e funções. o que nos poderá levar a supor. “Os primórdios da casa (…)”. A corte dos reis (…). p. Sintra. tal como muitas outras seriam as pessoas que circulavam pela “Casa”. 684 193 . a fundação da casa das rainhas “data. alguns nomes. “Quase sempre estiveram afectas à casa das rainhas. a partir da sua época. Talvez esta correlação seja uma consequência da possível junção de ambas durante uma grande parte da sua existência. pois as tarefas de cada um são muito precisas. uma rede de relações sociais. Em torno da rainha gravitava uma numerosa “criadagem” que dela recebia favores e rendimentos.” (Rita Costa Gomes. por um lado. por outro. 46). Estabeleceu-se. temos a noção de que muitos oficiais existiriam. pelo menos. algumas personagens conhecidas e importantes. que as esparsas fontes não permitem reconstituir a totalidade do corpo de oficiais. Filipa de Lencastre] a verdadeira instituidora da Casa das Rainhas. pp. Beatriz era maior do que nos deixa entrever a documentação e. deste modo. por vezes. sabemos. de um modo geral. Mas a organização da “Casa” revelava-se ainda muito frágil ao nível estrutural. incluía 115 pessoas adicionadas aos 170 homens do seu séquito. que a corte da rainha D. expressa num conjunto de servidores e serviços que se apresentava como uma família capaz de propiciar criação. apresentando formas específicas de comportamentos sociais que transformavam a corte da rainha num veículo de identidade social684.” (in Manuela Santos Silva. relativamente aos serviços que as compunham. se bem que o seu trabalho tenha sido seguido e bem sucedido pelas suas sucessoras. talvez explique porque conseguiu durante o período em que foi Rainha de Portugal tornar a ‘Casa das Rainhas’ numa instituição bem estruturada e com um corpo de oficiais fixo. tal como em muitas cortes coevas.meados da centúria de Trezentos verificou-se.” (Francisco Fonseca Benevides. os documentos deixam entrever muito pouco desse domínio mais privado. uma vez organização e financiamento nos inícios do século XIV. p. Mas. A circunstância de estar habituada a uma instituição de tal envergadura e poder. seria já ela o prelúdio de uma especialização de funções que contribuiu para definir a existência de uma “Casa” das rainhas. do segundo reinado”. De facto. assim como o círculo de colaboradores que acompanhavam D. revelando. Para Francisco da Fonseca Benevides.. uma interdependência entre a casa da rainha e a corte. Beatriz no seu dia-a-dia. remontando seguramente aos nossos primeiros reis. Chamusca e outras terras.

Em forma de conclusão. exercia o típico poder senhorial de mandar. com a morte de D.fcsh. vol. um local de poder e. a título de exemplo. Nestes.3. uma vez que o seu espaço conferia estatuto a todos aqueles que nele se movimentavam. gerando um universo de relações. assim.1. podemos afirmar que a documentação relativa a D.pt/iem/medievalista/ 686 Alfonso Franco Silva. 954-955. Seguidamente. Centro de História da Universidade do Porto/Instituto Nacional de Investigaão Científica. “Los Pacheco. Revista Medievalista online.3. Todavia.unl. na busca de projecção e poder social. simultaneamente. Beatriz revela-nos uma consorte rica e poderosa. – Lopo Fernandes Pacheco O Livro de Linhagens do Conde D. n. 2006. mas era sobretudo um quadro de sociabilidade fundamental. V. Vanda Lourenço. e Jose Antonio Garcia Lujan. principalmente dentro dos seus domínios territoriais. Sobre Lopo Fernandes Pacheco veja-se. La imagen mítica de un linaje português en tierras de castilla”. desfazia-se a relação que unia os elementos do seu séquito e o património da consorte era reintegrado no do monarca. Encontramos também a rainha a intervir em questões políticas do reino. punir e taxar os seus habitantes. 1987. como Lopo Fernandes Pacheco e os Avelar se posicionaram junto da “Casa” da rainha. Beatriz. Teresa o senhorio de Ferreira de Aves686. analisaremos. todo este espaço de actuação era outorgado pelo monarca e com concessões muito específicas de actuação. http://www. ano 2. III. Pedro tem título autónomo para os Pachecos que “descenderom” de “Fernam Jeremias”685.º2. Porto. Afonso IV. – A elite governativa V. Actas das II Jornadas luso-espanholas de Historia Medieval. julgar. de protecção. pp. principalmente em momentos de conflito. Este cavaleiro teria acompanhado o conde D. Era neste espaço que a família e todo o grupo doméstico da rainha gravitavam.que. A “Casa” representava. Henrique recebera de D. 194 . afectos e sentimentos. Lopo Fernandes Pacheco – um valido de D. Apesar dos seus descendentes terem estabelecido uma ligação aos 685 LL50.

H. necessário esperar pelo quinto senhor de Ferreira. de que passou a trazer o nome. assim. o título dos Pachecos termina referindo que Lopo Fernandes foi “ricomem e muito honrado. Mattoso. e adoptou um esquema sucessório unilinear masculino (…) que a família tomou consciência de si e da sua coerência. A nobreza de corte (…). pp. esta linhagem inicia a sua trajectória ascensional somente no século XIV688. “Controlará durante cerca de cuarenta años la vida política de ese reino y. 131). 692 195 . 1996. pp. para os dados sobre esta linhagem serem mais abundantes. que Fernão Rodrigues foi o primeiro membro da estirpe a utilizar o apelido Pacheco687. Salvador de Moxó. de su poder. IDEM. coord. 688 687 Rita Costa Gomes. 1255-1277. e feze-o el rei dom Afonso. 311-370. A corte dos reis (…). No entanto. Real Academia Historia. José Augusto Pizarro. 547. al amparo de su privanza. Muito terá contribuído para este engrandecimento o vazio social provocado pelo desaparecimento de velhas linhagens. 691 690 689 LL 50A6-7. o quarto”692. Relações político nobiliárquicas (…). 943-944). (…) À apropriação do nome seguiu-se a identificação com o espaço” (Leontina Ventura. durante a centúria de Trezentos a um importante processo de substituição das velhas famílias por linhagens de uma nobreza inferior. “Los Pacheco (…)”. Porém. Assiste-se. 306-312. Madrid. vol. que permitiu a afirmação de novas estirpes690. “De la nobleza vieja a la nobleza nueva. e Jose Antonio Garcia Lujan. in Nova História de Portugal. avô de Lopo Fernandes. vol. dos quais se destaca Lopo Fernandes. (…) O espaço estruturou a família. p. pp. La transformación nobiliária castellana en la Baja Edad Media”. as informações sobre estes senhores sejam muito escassas. II. Podemos. e A. É. Talvez. I. pp. de Oliveira Marques. É neste título 50 do Livro de Linhagens que vamos encontrar referências a Lopo Fernandes691. p. “Terras e julgados”. devido a uma série de peripécias terminará a sua ascensão em Castela689. dir.sucessivos monarcas portugueses. por Maria Helena da Cruz Coelho e Armando Luís de Carvalho Homem. IDEM. vol. Obras completas. não conseguiram alcançar uma posição relevante na corte. Dinis. III – Portugal em definição de fronteiras (1096-1325). in Feudalismo. José. que passou a designar-se pelo nome desse espaço. Devido à importância que alguns dos seus membros alcançaram. Linhagens medievais (…). estabelecer uma sucessão genealógica [ESQUEMA GENEALÓGICO IV]. pp. Leontina Ventura afirma que “foi desde que se estabeleceu numa terra (…). Lisboa.72. Sublinhe-se. Presença. vol. II. essas menções são muito escassas. assim. por isso. LL 50C7. de Joel Serrão. Fernão Rodrigues. 2000. señorio y nobleza en la Castilla medieval. ocorrido durante o reinado de D. No entanto. creará un vasto conjunto teritorial que la convertiría en uno de los más ricos linajes de la Península Ibérica” (Alfonso Franco Silva. 511-616. Do condado portucalense à crise do século XIV. pp. somente.

n. Segundo José Mattoso. Beatriz [QUADRO VI]. avô de D. n. Maria de Vilalobos696. e de Estevaínha Lopes de Paiva693.11. Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. por outro. sexto senhor de Ferreira. TT. LL 50C7. assim. Maria Gomes Taveira695. Afonso a seu pai. Afonso IV foi agraciado com os seguintes cargos: meirinho-mor700. Isabel redigido em Coimbra no ano de 1327699 e. Pedro.. TT. então.. As Gavetas da Torre do Tombo. pertenceu também ao conselho do rei702 e foi nomeado 693 LL 50A6-7. desde muito cedo. os Pachecos pertenceram ao grupo de alguns membros da nobreza que preferiram manter a neutralidade durante o conflito.º32. m. do qual nasceram Diogo Lopes Pacheco e Violante Lopes. sendo porém uma figura de pouco relevo694. n. durante o período da guerra civil de 1319-1324 que opusera o infante D. II. Afonso XI de Castela. mordomo-mor do infante D. Dinis.. “Los Pacheco (…)”.21. a presença de Lopo Fernandes junto dos círculos régios é bastante assídua. pp.º251.18. durante o reinado de D. era filho de João Fernandes Pacheco.48. Alfonso Franco Silva e Jose Antonio Garcia Lujan. m. 2ªinc.17. quem foi este rico-homem. Em 1327 Lopo Fernandes teria já contraído o seu primeiro matrimónio com D. TT. Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. VIII. m. D. No entanto. 4º Conde de Barcelos697 [ESQUEMA GENEALÓGICO IV]. vol. 17. Alm. neta. consideramos que. 694 695 696 697 698 699 700 701 702 196 . Dinis. Por um lado. Lopo Fernandes.Vejamos. do rei D. Seu pai frequentou os círculos de D.11.34. Sancho IV.º251. 217-227.º10. 2ªinc.5. herdeiro do trono701. esperando. vol.9.º15. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. 2ªinc. por parte da mãe. sétimo senhor de Ferreira. 566-575. os resultados sem querer intervir698. m. vol. Gav. No ano de 1345 encontrava-se casado com sua segunda mulher. o rei D. Dona Isabel de Aragão (…). Gav. 2ªinc. de Castela.8. n. Deste casamento nasceu Guiomar Lopes Pacheco que casou com João Afonso Telo.. p.º28. Obras Completas. p. Sobre esta conjuntura veja-se José Mattoso. m. p. n. TT. chanceler e mordomo-mor da rainha D. m. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. m. confirma o testamento da rainha D. TT. n. 958. António de Vasconcelos.10.

Epigrafia medieval (…). ADF.8. Fernando IV. foram distinguidos com igual gesto [para além dos já referidos] D. a serviço do monarca 703. n. um dos cavaleiros que acompanhou o Bravo e o ajudaram a vencer a batalha do Salado706. também. 703 TT. João Gouveia Monteiro. II. dir. p. pp. Em Portugal e de acordo com o estudo de Francisco Marques Sousa Viterbo. João III (em 1525). 566-575. Foi. Revelador de todo o prestígio e importância alcançados por este senhor é a oferta de uma rosa de ouro pelo Papa Bento XII aquando de uma visita à cúria pontifícia707. Catarina. p. de Manuel Themudo Barata.18. Presentes a D. in Nova história militar de Portugal. ADF. Epigrafia medieval (…). “Los Pacheco (…)”. p. 2004. D. por Alfonso Franco Silva. pp. onde foi. Veja-se também. Leonor705. vol. João III. Até à primeira metade do século XV só D.5. Sobre este tratado veja-se José Augusto Pizarro. As Gavetas da Torre do Tombo. assim. Afonso. ainda príncipe herdeiro. “Vencer ou morrer (…)”. Era hábito o Papa entregar a Rosa de Ouro a uma pessoa que pretendesse distinguir e dignificar. “Los Pacheco (…)”. Amélia (esta em 1892)” (in Mário Barroca. Maria II e D. pp. 12551277. “O sangue. Gav. Um outro exemplo da sua grande proximidade é-nos revelado na lista dos 40 nobres indicados como reféns por D. 977-979. Afonso IV no tratado de ratificação de 1328.º302). Círculo de Leitores. de Castela e de Aragão. Dinis e D. n. que estes dois factores são reveladores da privança que. vol. I. “A rosa de ouro. p. Manuel (em 1506 e em 1514). 2/T. nota n. e as Rainhas D. Bernardo Vasconcelos e Sousa. pp. Marquês de Távora. Relações político nobiliárquicas (…). surgindo à cabeça dessa lista o nome de Lopo Fernandes Pacheco. assim como a bibliografia citada por este autor. m. a cruz e a coroa (…)”.º1. desde muito cedo.1699. mas sim de apoio às pretensões do jovem infante.º1. Sobre a batalha do Salado veja-se. D. Curiosidades históricas e artísticas. n. transc. tranc.º32. seus respectivos pais704. Coimbra. Caja 1. “A heráldica medieval na 707 706 197 . assim com a bibliografia citada por este autor. seguido por alguns membros das mais prestigiadas linhagens do reino. Demonstração máxima da confiança que o monarca tinha neste seu vassalo é revelada na criação dos infantes D. Afonso IV nomeou um grupo de fidalgos da sua máxima confiança para responderem pela alcaidaria dos castelos envolvidos no acordo diplomático. Lopo Fernandes manteve com D. D. II. anteriormente estabelecido entre D. à igreja de Santo António e a Lopo Fernandes Pacheco. 20-30. Consideramos. p. vol. Imprensa da Universidade. IDEM. Afonso V foi distinguido com igual gesto de um Papa. Lisboa. 505-514. Um túmulo monumental na Sé de Lisboa”. 248-249. Caja 1. Lopo Fernandes Pacheco foi o primeiro português a ser distinguido com este presente papal. por Alfonso Franco Silva. pp. através do qual estes dois monarcas confirmaram o tratado de Agreda (1304). 28-48. “A Rosa de Ouro era uma rosa que era benzida e consagrada pelo Papa no 4º Domingo da Quaresma. 977-979. vol. Afonso XI de Castela. (…). 704 705 Mário Barroca. e que se documenta desde os meados do século XII. Neste documento. “As campanhas que fizeram a história”. muitas vezes. e Nuno Severiano Teixeira. 1709. Pedro e D. 2/T.pelo Bravo como seu embaixador nas Cortes papal. e que durante a guerra civil de 1319-1324 não deve ter tomado uma posição neutra. celerado com o rei D. Sousa Viterbo. 1919.

Lopo Fernandes tornou-se. in Portugal nos finais da Idade Média: estado. porque não podia administrar como cumpria os bens de seu neto. Assim. 482.. m. OC. g. Lisboa. influenciou a orientação política do Reino. era reveladora de uma dignidade a que correspondia um determinado estatuto e um dado rendimento711. sociedade política.º7/2. Afonso IV nomeou-o tutor de seus netos Vasco. o sétimo senhor de Ferreira a frequentar os círculos das sucessivas rainhas. LL 50B8. “Conselho Real ou conselheiros do rei? A propósito dos ‘privados’ de D. 16. 1992. n. Encontramos. Podemos. 709 710 711 Marcello Caetano.direito público (1140-1495). administrativos e cortesãos.º11. Maria. Mário Barroca. para além. 712 198 . De facto.1. No entanto. A privança deste senhor com o monarca permitiu-lhe exercer cargos militares. D.3. TT. instituições. m. num elemento dinâmico e poderoso da nobreza que. afirmar que a sólida fortuna e a força e importância política de que dispunha permitiram a Lopo Fernandes deter uma proeminente posição no conjunto da nobreza do reino. n. A participação no Conselho régio. assim. Vasco Martins. Epigrafia medieval (…).3. Todos estes aspectos conjugados constituem as causas do seu prestígio e de uma crescente fortuna familiar. ao mesmo tempo que ocupava a mais alta posição na hierarquia da sociedade medieval. deste modo. Lopo Fernandes emprestou à rainha D. p. Mosteiro de Santa Maria de Lorvão. OC. m. bem como a administração da sua vasta mancha patrimonial. Assim. filho de Violante Lopes e de Martim Vasques da Cunha709. p. História do direito português. 708 TT. 3ª ed. Boletim cultural da Assembleia Distrital de Lisboa. Sé de Lisboa”. mais do que um ofício. 1699.I. Verbo. Leonor e Inês708.6. a todo este prestígio será necessário acrescentar uma riqueza material que este senhor possuía e da qual alguns membros da família real se serviram em momentos de necessidade. mulher do infante D.Além de todas estas funções que ocupava na corte régia. g.II. Armando Luís de Carvalho Homem. p. 1982. os cargos áulicos. talvez de uma maneira directa. OSB. nomeou Lourenço Martins Buval como tutor deste seu neto710. para seu mantimento.6. também. 1990. 3ª série. p. Assim. n. 2/T. T. João I”. a elevada quantia de duzentas dobras de ouro712. TT. Pedro de Castela. Mosteiro de Santa Maria de Lorvão. Mosteiro de Santa Maria de Aguiar. Lopo Fernandes não podia descurar as obrigações para com os seus parentes mais chegados. deviam manter o senhor de Ferreira muito ocupado. Fontes . Lisboa. vol.º7/2. Porém. 161-170. Livros Horizonte.

169-226. este senhor possuía a sua própria entourage713. H. cx. uma grande aproximação e confiança não só do monarca. pp. Entre aqueles que com ele conviviam diariamente. 331-345.º12/1). Mosteiro de Santa Ana de Coimbra. OC. Lopo Esteves (TT.6. g. No entanto.de confirmar o testamento da rainha D. veja-se Maria Cristina Cunha. a ascensão dos Pachecos iniciou-se. a exiguidade dos dados disponíveis refere-se. 2ªinc. n. assim como a bibliografia aí citada por esta autora. poder y mentalidad. Mosteiro de Santos-o-Novo. n. Podemos. Mosteiro de Santa Maria de Lorvão. a uma parte dos seus dependentes que surgem especificados como simples escudeiros ou criados [QUADRO IX]. Introdução ao estudo do património. 1987. coord. também. Foram seus criados: Gonçalo Anes (TT. principalmente.1. Leonor. m. claramente. pp. rodeado por um número não desprezível de homens que se encontravam ligados a si por laços de dependência pessoal. afirmar que a ligação deste senhor à corte régia demonstra. Porto. n. 23-52. 257-260.29. “A casa senhorial do infante D. mas também por colaboradores leigos e religiosos que se constituíam como uma comunidade social que vivia em permanência com o senhor. in Media Aetas. A casa dos Coutinhos (…). H. deste modo. 103-139. João Afonso (TT. vol.º347). 2000/2001. Beatriz [QUADRO VI].º2). Em regra. Pertencendo à corte régia. “A casa senhorial do Infante D. Presença. 1993. 2ª série. não devemos esquecer os indivíduos que o senhor de Ferreira acolhera em criança. somente. 1. como já referimos. Pedro Anes (TT. pp. Lisboa. assim.18. da Revista da Faculdade de Letras – Línguas e Literatura. Ivo Carneiro de Sousa. Luís Filipe Oliveira. A corte dos reis (…).º1222). essencialmente. Oriundo de uma nobreza de província. pp. de A. Revista da Faculdade de Letras – História. da casa e da corte de D. 1984. devido à proeminência alcançada por Lopo Fernandes. a corte que acompanhava os senhores é de difícil reconstituição.2. Mosteiro de Chelas. Lopo Fernandes seria. pp. na mais importante personagem do reinado do Bravo. foi mordomo-mor e chanceler da rainha D. Cabido da Sé de Coimbra. H. dir. é possível reconstituir alguns desses servidores e os cargos que desempenhavam. pp. 714 713 199 . João Luís Fontes. veja-se Rita Costa Gomes. Parentesco. IV – Portugal na crise dos séculos XIV e XV. III. José Marques. n. Isabel Beceiro Pita e Ricardo Cordoba De La Llave. este senhor ascende na hierarquia nobiliárquica tornandose. Pedro Rodrigues (TT.º11. 3/4. I. Sabemos que a corte senhorial era formada. mas também das rainhas. Fernando”. Henrique: organização social e distribuição regional”.1. n. n. m. n. m. m. pp. criando-os na sua companhia como membros da sua família e seus dependentes714. in Nova História de Portugal.“A nobreza”. de Oliveira Marques. anexo V – Espiritualidade e corte em Portugal. 125-132. cap. Maria Helena da Cruz Coelho. vol. Mosteiro de Santa Ana de Coimbra. 221-284. Ponta Delgada. talvez.66. 2. Sobre as cortes senhoriais. e Maria Cristina Pimenta. de Oliveira Marques. Porto. pp. A arquidiocese de Braga (…). Sobre a terminologia do termo criado. Como foi já mencionado. Isabel. Podemos.º1331). de Joel Serrão e A. cx. conjugando os dados dispersos. m. Ed. sep.25. séculos XVI-XVIII. Revista de Estudos Medievais. no século XIV. de Oliveira Maeques.º1069 e m. O baixo Mondego (…). Porém.565-569. A. pelos seus servidores privados.

incumbidos da guarda pessoal de Lopo Fernandes. TT. Como já referimos. TT. Mosteiro de Santa Maria de Lorvão. Gav. Pasta 9.º7 e m. uma das principais personalidades nobres do reino. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. 2ªinc. m.º861. p. m.9. m. As Gavetas.º16.9. em 1340. OC.1. Gil Martins717.entrever a organização de um serviço de chancelaria senhorial que nos é sugerido pela existência do escrivão Estêvão Anes715.º1. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. O desembargo régio (…). TT.42. m.17. 716 TT. Este último ocupava um dos cargos mais relevantes ligados à vida pessoal. m. n. 2ª inc. m. m. n. também ele. Mosteiro de Santos-o-Novo. TT.5. Alm. Não era raro que os escudeiros fossem encarregados de outras funções que dependiam da confiança do seu senhor. m. 2ªinc. m. assim como da defesa da sua casa e bens719. Pasta 9.18.17. A disposição de um corpo de escudeiros era sinal de prestígio social e não será demais repetir que o senhor de Ferreira seria. também.5. Senhor de lides guerreiras. se não mesmo a principal. Mosteiro de Chelas. pp.º861 e m.36..º12/1.1. n. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. m.º1542. que estaria encarregado de ouvir as demandas nas terras que se encontravam na posse de Lopo Fernandes718. 566-575.º9 e Alm. n. 717 TT. g.34.5. tinha. também. ao seu serviço um número de escudeiros que deve ter sido muito superior àquele que as esporádicas referências documentais nos deixam entrever [QUADRO IX]. m.17. na sua época. vol. Mosteiro de Santos-o-Novo. m.36. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Mosteiro de Chelas.42.º702. TT. n. Alm. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.17. De um modo geral.º32. TT. uma ocupação relacionada com a administração da justiça através do ouvidor Vicente Anes. Lopo Fernandes participou ao lado do rei na Batalha do Salado. 720 719 718 200 . 2ªinc. estes servidores não 715 TT. bem como a um camareiro.48. n.77. m. n. Estes escudeiros encontravam-se. Deste grupo.º27. m. m. assim como a bibliografia aí citada por este autor. 141-144.º702. n. apenas Rui Vicente e Martim Lourenço são referidos como vassalos de Lopo Fernandes720.34.º1. Numa esfera ainda mais próxima do senhor de Ferreira encontramos os servidores privados relativamente aos quais registamos a menção a cinco clérigos que asseguravam a direcção da vida espiritual716. n. n. n. VIII.º9 e Alm. n. n. Com certeza esse quantitativo seria suficiente para assegurar o número de lanças com que o referido senhor estava obrigado a servir o rei. Sobre o ouvidor veja-se Armando Luís de Carvalho Homem. n. n.33. Ao lado das funções de índole mais doméstica documenta-se.º10. 2ªinc.33.48.

mas também na zona de Lisboa e seu termo.17. Segundo José Mattoso. 219 e 231. uma mobilidade reduzida e. VII – A nobreza medieval portuguesa. Para a escolha deste espaço muito terá contribuído a movimentação das famílias nobres para o sul do país. m. Estabeleceu-se. mas também. por um lado.5.º1. uma rede de relações sociais. a ligação que Lopo Fernandes mantinha com a corte régia. vol. ou seja.desempenhavam diferentes funções. Assim. a uma movimentação das famílias nobres para o Sul. desconhecemos os dados relativos à proveniência de cada um destes indivíduos721. em torno do Senhor de Ferreira gravitava uma numerosa “criadagem” que dele recebia favores e rendimentos.º1542.1. por outro. pp. perante um vassalo régio que tinha o seu próprio grupo de vassalos perfeitamente documentados [QUADRO IX]. m. Uma primeira observação à mancha patrimonial detida por Lopo Fernandes [MAPA III] revela-nos. “A nobreza de Entre-Douro-e-Minho na história medieval de Portugal”. Lisboa. De todo este poder não podemos dissociar o vasto conjunto de bens que Lopo Fernandes detinha. 722 721 201 . ou seja. Círculo de Leitores. que a corte senhorial de Lopo Fernandes era maior do que nos deixa entrever a documentação e. respectivamente). ou seja. Alm. José Mattoso. Estamos. assim. deste modo. expressa num conjunto de servidores e serviços que se apresentava como uma família. m. assim como o tempo durante o qual serviram Lopo Fernandes. para as regiões onde predominava o regime municipal722. a partir do século XIV assistiu-se à instalação de grandes solares na zona da Beira e Estremadura. 2ªinc. principalmente. Em apenas três deles nos é indicada a sua origem geográfica: Estêvão Gomes. por um lado. demonstra que este senhor preferiu dirigir os seus interesses para uma zona bem delimitada. A famíliae o poder. Pedro de Lisboa. que mora em Tomar (TT. o curso do Rio Tejo. Esta deslocação das novas linhagens pode ser entendida como uma tentativa de procurar fortuna em terras mais despovoadas. deste modo. Mosteiro de Santoso-Novo.º32. in Obras completas. Afonso Esteves. Gav. n. prior de la Mota. n. Aqui concentravam-se formas específicas de comportamentos sociais que transformavam a corte senhorial num veículo de identidade social. levando. na rica região agrícola de Santarém e seu termo. n. m. o que ressalta é uma ausência de polivalência dos vários ofícios em que as tarefas são muito precisas. por outro.77.18. seria já ela o prelúdio de uma especialização das funções que se começam a definir nas casas senhoriais. No entanto. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. como já referimos. o que nos poderá levar a supor.33.

repetidas vezes. ADF. O rei doou este senhorio pelos muitos serviços que recebeu de Lopo Fernandes Pacheco e de sua mulher. Alfa. quer quanto ao número de visitas. 202 . “Los Pacheco (…)”. pp. 977-979. José Mattoso. pp. e. 203-215. 1983. Não obstante a grande mancha patrimonial se localizar no centro-sul do país. 179 e 189. encontramos alguns exemplos de membros da aristocracia a possuir bens em urbes727. mas também acessível a Lisboa por via fluvial. de José Hermano Saraiva. Desta Como já demonstrou Rita Costa Gomes. encontramos bens situados em Ferreira de Aves. Esta concessão do monarca fortaleceu e prestigiou ainda mais este senhor. por outro lado. quer na duração das estadas”724. Por regra. Porém. de Castela e de Aragão. dir. pp. Afonso IV. seus filhos.Não podemos esquecer que a cidade escalabitana era. vol. local de longas estadas dos monarcas723. 727 726 José Mattoso. Como já o demonstrou Rita Costa Gomes. Lopo Fernandes ascendeu socialmente devido à privança que estabeleceu com D. VIII. 251254). A corte dos reis (…). de onde este senhor era natural. in História de Portugal. Santarém era “a segunda localidade mais importante dos itinerários régios a curta distância de Lisboa. não menos importante. em serviço régio. Caja 1. p. Nestes domínios exercia Lopo Fernandes os seus direitos senhoriais e de jurisdição de mero e misto império. 725 Sobre a nobreza nas cidades vejam-se os estudos de José Mattoso. pelas embaixadas às Cortes de Roma. n. “O contraste entre a cidade e o campo”. 249. 159-191. a sua população era pouco numerosa726. sendo a última apelação efectuada para o rei725. p. p. a partir de meados do século XIII. por Alfonso Franco Silva. em centros de decisão da economia e da política dos reinos. Oriundo de uma nobreza de província. Santarém foi a segunda cidade onde as estadas dos reis com a sua corte revelou uma maior permanência (Rita Costa Gomes. muitas vezes. A corte dos reis (…). Obras completas. 724 723 Rita Costa Gomes. Apesar das cidades se tornarem. a maior parte dos indivíduos da nobreza detinha os seus bens de raiz fora das cidades. É nesta zona que se localiza a única doação régia concedida a Lopo Fernandes sob a forma de morgadio. com uma posição geográfica central numa rica região agrícola e também central no conjunto do território do reino. Leonor. mas também pela criação dos infantes D. “O contraste entre a cidade (…)”. e. Lisboa. onde o senhor de Ferreira foi.º1 tranc. não impedindo que também os pudessem deter no interior das mesmas. Pedro e D.

m. Podemos apontar como causa provável da referida alienação o facto destes bens se localizarem longe do principal eixo de passagem e estadia da corte régia. n. TT.º251. n. Patrimónia. Maria Ângela Beirante refere que Santarém era local de residência de homens que exerciam cargos na corte732. sendo gravemente lesado porque Lopo Fernandes e D. n. Assim localizava-se em Santarém e seus termos a maior mancha de bens detidos por Lopo Fernandes e. o cenóbio entra em litígio com D.42. Para a escolha desta região muito deve ter contribuído não só uma possível associação preferencial ao ambiente urbano. n. Estas foram efectuadas através de escambos que o senhor de Ferreira realizou com o mosteiro de Alcobaça728. 733 203 . Mário Viana. bens em Santarém e seu termo como reconhecimento de toda a ajuda que sempre fizeram ao dito mosteiro729 [MAPA III]. m. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. após a morte de Lopo Fernandes. Os vinhedos medievais de Santarém. IDEM. Alm. m. n. Caleidoscópio.17. Os bens urbanos localizavam728 TT. 2007. 2ª inc. Sobre veja-se.não deve ser dissociada a escolha geográfica para a detenção dos seus bens. 2ªinc.º861.11. que várias vezes estanciou nos paços que detinha na urbe escalabitana731. n. por outro lado. Santarém (…). as suas vias de comunicação. os solos férteis em seu redor e. O mosteiro de Santa Cruz de Coimbra concedeu em préstamo a Lopo Fernandes e a sua mulher. m. Espaço e povoamento numa vila portuguesa (Santarém.º16.17. em suas vidas.9. 1998. 732 731 Maria Ângela Beirante. Maria Ângela Beirante.34. Cascais. p. m.º10.48. 2ªinc. Alm. O mosteiro pedia aos ouvidores e juízes régios que julgassem os ditos contratos de doação por nulos730. 1147-1350). Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.º15.7. 729 730 TT. m. TT. Santarém (…). Casal de Cambra. 2ª inc. Maria receberam durante muitos anos as rendas e pensões dos referidos bens que valiam mil libras em cada ano. Maria de Vilobos porque considera que este préstamo foi efectuado em seu prejuízo. Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça.º7 e m. m. mas também duas qualidades naturais reunidas por esta cidade: por um lado. 198. quer fluviais. A geografia das alienações localizava-se na região de Alenquer.17. que permitiam facilidades de deslocação733. Mosteiro de Santos o Novo. quer terrestres... por outro. foi esta cidade local de paragem deste senhor.33. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.. Através de uma análise ao MAPA III podemos observar que a quantidade de bens adquiridos por Lopo Fernandes é muito superior aos bens alienados. Porém.

a estreita proximidade de Lopo Fernandes com o poder real e com a própria pessoa do rei [QUADRO X]. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. n. m. o Paço Real que.9. 2ª inc. Lopo Fernandes detem desde olivais a vinhas e herdades de pão738. pois é. Alm. 1994. Sociedade Lisboa 94/MNA. Afonso III. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Os campos férteis de Santarém são propícios à produção destes três elementos básicos da alimentação medieval: azeite. uma vez mais. pp. mas também a deter bens de raiz na zona do 734 TT. A corte dos reis (…). Refiram-se umas casas junto à Porta da Inveja734. m. não deixou de ser o bastião do poder régio naquela cidade. (não será demais salientar que é pelas portas que a vila se encontra em contacto com o mundo exterior. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. 2ª inc. p.33. suporte de uma comunidade humana.7. funcionava como centro da política e da administração do reino. Ed. Lisboa/Milão. Ainda fora da malha urbana a atracção pelo rio – essa via privilegiada de ligação a Lisboa – levou Lopo Fernandes a possuir casas na importante zona da Ribeira [MAPA III].17. A posse deste tipo de bens no centro da urbe escalabitana vem demonstrar. Alm. denominado. 90).. por antonímia. para começar.48. 735 Maria Ângela Beirante. No entanto. onde se encontrava. m. em cujo seio os homens circulavam e se fixam” (Luís Adão da Fonseca.º15. 204 . muita da sua vitalidade. “Lisboa medieval e o seu termo” Lisboa subterrânea.º7 e m. 2ª inc. mas sempre em zonas de grande importância. TT.º16.º15.VIII. vol. Numa sociedade em que uma importante parte da riqueza reside ainda na propriedade do solo. n. por estas que entram novas pessoas na cidade ou que dela saem). José Mattoso..7. essencialmente. m.33.. Apesar da Alcáçova Velha ter perdido. vinho e cereais. Rita Costa Gomes. até D. assim como local de residência de muitos indivíduos pertencentes à nobreza e também o sítio onde os mestres das ordens de Cristo e Avis possuíam os seus paços736. para além de residência dos monarcas. Assim. m. esta nobreza de fidalgos próximos do monarca a deter outro tipo de bens. o Bolonhês mudou este paço para um outro local junto à porta de Leiria. no termo de Santarém737. Obras completas. Mencionem-se outras casas na Alcáçova Velha735. p. “O termo é.34. Alm. no século XIV.17. 262. dentro das muralhas e nos mais variados sítios. 738 737 736 TT. 211-212. de Alcáçova Nova. n.se. 59-67. Santarém (…).17. encontramos em redor da cidade. n. m. p.

Alm.17. num sentido mais lato. junto do monarca.34.º1.7.1. Gav. Valbom.9.9. n. n. n. aplica-se a uma vasta zona (…) que engloba as Manteigas.17. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. apossou-se dos bens que este senhor possuía em Belas e mandou aí edificar os paços régios (Rita Costa Gomes. TT. terá acompanhado frequentemente os monarcas.48. IPPAR.. m. Margarida Albernaz. Pedro. n. n. No termo de Santarém Lopo Fernandes comprou bens na região de Tomar741.48. foi em Vale da Talha que Lopo Fernandes usurpou herdades ao mosteiro de Santa Cruz de Coimbra743. TT. m.º9 e Alm. na Sé de Lisboa constituiu uma excepção face aos locais escolhidos tanto pelos seus antecessores como pelos seus sucessores.º28. de Bartolomeu Joanes.º16. além do mais. 158). m. m. 267-268). m. m.º25. m.33. talvez devido ao seu relativo afastamento da mancha principal das suas propriedades742. pp. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. O rei D. Lopo Fernandes escolheu como local para ser sepultado e perpetuar a sua memória a Sé Catedral de Lisboa. Poços e Pé-de-Aranha. Foi. responsável por um significativo abastecimento da cidade740. n. Beatriz e seu marido745. de uma infanta portuguesa. p. após o confisco dos bens que fez a Diogo Fernandes Pacheco. no seu sentido restrito. 24-25). caracterizada por uma vasta e intensa policultura. de bispos e elementos do cabido (Carla Varela Fernandes. 2ª inc. pp. local de acolhimento dos túmulos e lápides sepulcrais de D. TT.10. que este 739 “Este topónimo que. segunda mulher de Lopo Fernandes Pacheco.Rego de Manços739. 2ªinc.34.º30. Alm. 742 743 TT. Maria de Vilalobos. filho de Lopo Fernandes. Beatriz. Devido ao facto deste senhor ter desempenhado funções de serviço na corte e na própria casa da rainha. Lisboa. mãe de D. passando. Alm. Memórias de Pedra.11. 2ªinc. Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. Alm.. o mesmo escolhido pela rainha D. já perto de Santa Maria do Monte” (in Maria Ângela Beirante. Afonso IV e de D. Santarém (…). de uma dama desconhecida.. 2ªinc. parece particularizar exclusivamente a depressão ou vale por detrás dos Paços do Bispo de Lisboa. 2ª inc. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Pasta 9. terceiro conde de Barcelos. por isso.17. A corte dos reis (…). Este mesmo edifício foi.º15. de D.21. longas temporadas em Lisboa. n. 741 740 TT. que mais tarde veio a emprazar. também. n. Escultura tumular medieval da Sé de Lisboa. Mosteiro Santa Cruz de Coimbra. m. 2001. de D. Pedro Afonso. A sepultura de D. Grácia Fróis. sua mulher. m. Assim se entende melhor a pequena mancha de bens que também detinha nas localidades do termo olisiponense744.º7 e m. É nítido o objectivo de implantação na região de Santarém porque.33.º1. m.9. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. m. assim. Durante a Idade Média era prática comum entre os nobres escolherem o seu espaço funerário. 2ª inc. Fontainhas.48. n. 745 744 205 .34. m.

Os jacentes da Sé de Lisboa e a sua indumentária. 1998. III. V. pp. 3 vols. Boletim do grupo “Amigos de Lisboa”. Europália-91. Neste túmulo encontram-se esculpidas de modo ostentatório as armas heráldicas da sua linhagem747. pp. Fernando Eduardo Rodrigues Ferreira. Lisboa. Editorial Enciclopédia. Nestas linhas procuramos. História da Arte em Portugal. 1948.. somente. 8. 1867. p. Pedro Dias. 17-19. “Busto do presumível canteiro do túmulo de Lopo Fernandes Pacheco”. IDEM. João Pedro Ribeiro. Afonso IV e D. 1982. 1986. assim como a bibliografia aí citada pelos vários autores: Francisco de São Luíz. col. Francisco de S. ainda hoje. 2ª ed. Contribuições para uma ementa dos jacentes portugueses.º1. 1961. Revista Universal Lisbonense. Estudo histórico-arqueológico e artístico. IDEM. “Archeologia portugueza. Lisboa. V. Nova série (2ª). vol. Pedro Dias. Dissertações chronologicas e criticas sobre a historia eclesiastica e civil de Portugal. Lisboa. Porto. IDEM. Lisboa. Câmara Municipal de Lisboa. 124. vol. Centro de Estudos de Arte e Museologia do Instituto para a Alta Cultura. “Monumentos de Portugal”. Armamento medieval no espaço português.“privado” régio pretendeu repousar eternamente. 1934-1938. Catálogo da Exposição. Lisboa.. Lisboa. manter post-mortem a sua proximidade face às duas pessoas que mais marcaram o seu quotidiano. XIII. pp. Gand. “+M AQ(u)I M IAZ M LOPO M FERNAnDEZ M PACHECO M SENHOR M DE / M FER(r)EIRA M E M MOORDOMO M MOOR M DOM I(n)FANTe M DO / M M PEDRO M E CHANCELER M DA M REINHA M 748 747 746 206 . Pedro Dias. “A data da deposição do cadáver de Lopo Fernandes Pacheco no túmulo da Sé”. Palmela. para a eternidade. Documentos para a História da cidade de Lisboa (…). 14-16. 3ª ed. “A heráldica medieval (…)”. 2ª série. Arte portuguesa. Júlio de Castilho. 3ª ed. apresentar de forma muito sumária algumas considerações sobre o túmulo onde se encontra sepultado Lopo Fernandes. 1956. parte II – Os bairros orientaes. 111-137. IDEM. Correspondendo ao desejo de perpetuação da memória do senhor de Ferreira de Aves. IDEM. pp... Sobre a Paleografia de Portugal”. Luíz”. A escultura em Portugal. Aux confins du Moyen Age. Coimbra. assim. Pera Guerreiar. Afonso Eduardo Martins Zuquete (coord. “A escultura gótica. Imprensa Nacional – Casa da Moeda. Gustavo de Matos Sequeira. Cosme e S. Universidade de Coimbra. vol. “A escultura gótica. Epigrafia medieval (…). Mário Barroca. vol. e Nogueira de Brito. Memórias de Pedra (…). embutida na parede. Inscrições sepulcrais da Sé de Lisboa. Lisboa. Luís Gonzaga de Lancastre e Távora. O sarcófago com jazente de Lopo Fernandes foi produzido no atelier de escultores de Lisboa e é considerado por Pedro Dias como a mais bela obra da Sé de Lisboa746. Academia Portuguesa de História. 18. 81-236. 125-129. Armorial Lusitano: genealogia e heráldica. além do seu túmulo com o respectivo jacente encontra-se. pp. na capela de S. Memória do cónego Luís Duarte Vilella da Silva emendada e anotada por Sua Eminência o Cardeal Patriarca D. de). n. Catálogo de Exposição. (…)”. Carla Varela Fernandes. “A escultura gótica (…)”. BSS.. Lisboa. Obras. uma lápide na qual se registam os mais relevantes feitos desta importante personagem748. 1895. 1940. Lisboa Antiga. M. a sua proximidade face a D. 2ª ed. 1857. Alfa. p. Lopo Fernandes procurou. J. Inscrições portuguesas de Lisboa (séculos XII a XIX). O arqueólogo português. IV. pp. Cordeiro de Sousa. 1991. Academia Nacional de Belas Artes. Garcia Pereira. pp. Primeiras manifestações em Portugal”. Sé de Lisboa. mantinha. 2ª ed. 9-41. Lisboa. 1978. coroando o monumento funerário. Lisboa. “Dissertação XV. Beatriz. Câmara Municipal de Lisboa. “Dois túmulos na sé de Lisboa”. Ano I. ao escolher sepultura no mesmo edifício da catedral de Lisboa. 8. Para um conhecimento mais aprofundado vejam-se os estudos dos especialistas que se têm debruçado exaustivamente sobre este assunto. Vergílio Correia. 1930. 1951. Julgamos que esta escolha não é desprovida de significado. 1946. I. 7. Reinaldo dos Santos. A Sé de Lisboa. vol. Três túmulos. 105-232. 2000. IV. Litografia Nacional. Lisboa. IDEM. 1973. Academia Real das Ciências. Câmara Municipal de Palmela. in Olisipo. Damião. Fondation Europalia International.. Lisboa.

Cosme e de S. deste modo. no fidalgo português mais importante da sua época. Esta grade foi originalmente dourada. Epigrafia medieval (…). p. II. que assim se vê alcandorada a uma posição de superioridade face às restantes. foram particularmente propícias para a ascensão de Lopo Fernandes. talvez para proteger a referida rosa de ouro. p. 2/T. colocada no Altar desta Capela da charola da Sé. De facto. vol. 1706. fazendo ressaltar a respectiva linhagem. assim como a protecção real. este senhor alcançou uma posição privilegiada na rede do poder central. assim como a bibliografia aí citada). é também notória a sua considerável base patrimonial. Para além da sua indubitável força política. em cada lado. Assim. onde se podem divisar as armas dos Pachecos: uma caldeira veirada com asa rematada em cabeça de serpente. DONAM BEATR / IZ M O QUAL M FOIM MERCEE M E M FEITURA M DELREI M DOM M AFO / NSO M O QUARTO M E M FOI M CoN EL M NA M LIDE M Que M (h)OUVE M Com M ELREI M D / EM GRA(n)ADA M HU M ESTE M REI M FOI M FAZER M AIUDA M A M ELREI M /DOM M AFONSO M DE M CASTELA M QUANDO M ELREI M DE M BENAMA /RIN M IAZIA M SOBRE M TARIFA M NA M ERA M DE M MIL M E M Cª Cª Cª M E M /Lª Xª Xª M E M VIII M ANOS M AO M Qual M LOPO M FERNAnDEZ M FOI M EN / AVINHON M : DADA M COn M GRAnDE M HOnRA M PeLO M PAPA M BE / NEDITO M HUmA M ROSA M DOURO M QUE M ELE M CON M GRAnDE M / HONRA M POS M EN M ESTA M SEE M TANTO M Que M DALO M CHEGO / U M O QUAL M FOI M CASADO M CON M DONA M MARIA M FILHA / DE M DOM M RUI M GIL M DE M VILA M LOBOS M E M DE M DON /A M TAREIIA M SANCHEZ M Que M FOI M FILHA M DELREI M / DOM M SANCHO M DE M CASTELA M E FOI M EN M TERRA / DO M EN M ESTE M MOIIMENTO M XX M E M NOVE M DIAS M / DE M DEZENBRO M DA M ERA M DE M MIL M Cª Cª Cª M E M LXXX M / E M SETE M ANOS M (transcrito em Mário Barroca. suspensos por cadeados de pregos. dois brasões de espigão. para além de um património extenso. 1699). revelando-se um administrador atento e cuidadoso dos seus bens. Durante a Idade Média a Capela de S. Inês de Castro. 749 207 . Trajectória essa que seria interrompida por seu filho. Epigrafia medieval (…). subsistindo ainda vestígios desse acabamento (veja-se Mário Barroca. Damião era encerrada por uma grade de ferro forjado749. a aproximação à corte e a privança com a própria pessoa do rei.A lápide está ladeada por duas bandas verticais onde se esculpiram. A trajectória de Lopo Fernandes Pacheco permite-nos percepcionar como através dos estreitos laços de vassalidade com o monarca e a sua rainha um membro da pequena nobreza local ascendeu na hierarquia nobiliárquica tornando-se. um dos assassinos de D. a qual procurou incessantemente consolidar. vol. II. 2/T. Diogo Lopes Pacheco. Este é um bom exemplo de que certos êxitos individuais marcam positivamente a trajectória de uma linhagem. oferta do Papa a Lopo Fernandes.

durante o reinado de D.V. Pedro não em título autónomo. mas somente das três gerações que viveram durante os reinados de D. XV. No entanto. – Os Avelar – a ascensão de uma linhagem Os de Avelar aparecem no Livro de Linhagens do conde D. Pedro e. o melhor de Portugal. Paris. de Arquivos do Centro Cultural Português. Vanda Lourenço. assim como seus sucessores. sep. de Oliveira Marques. I. Actas do 2º Colóquio Nova Lisboa Medieval: os rostos da cidade (09. Segundo este autor. quase a meio caminho entre as duas metades de Portugal” (A. passando.3. Maria Martins do Avelar era flha de “dona Maria Reimondo e de Martim d’Aragom. como relativa. 1980. 453-519. A conquista definitiva da praça de Alcácer do Sal. 169-181. social e política do país. Não será demais referir que o século XIV português foi caracterizado por um considerável surto urbano. de Luís Krus. em 1217. a sede da chancelaria régia. H. História de Portugal. as razões para essa supremacia seriam diversas. Lisboa tornava-se. esse notável crescimento. pp. “Os Avelar – percurso de uma linhagem em Lisboa (1325-1367)”. p. Entre elas contavam-se a situação geográfica “tanto em termos de posição absoluta – um porto excelente. porque Estêvão Dias de Mouriz de Sousa casou primeiro com Maria Martins do Avelar e. estabelecer a sua ligação com a principal cidade do reino. depois. não iremos aqui tratar de toda a linhagem. a viverem nela grande parte do seu tempo751. com Estevainha da Maceira750. 10 e 11 de Dezembro de 2004). permitindo. em parte. no qual o desenvolvimento demográfico de Lisboa é caso exemplar. o centro da vida económica. 2007. vol. mas inseridos no título dos de Urrô. 81. este monarca. H. ganhando paulatinamente a função de “capital” do reino752. Fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa. Foram os descendentes destes dois matrimónios que passaram a utilizar o nome Avelar. pp. Sobre os Avelar veja-se. Isto acontece. Foi somente após esta estabilidade que a cidade recebeu. Itinerários de Afonso III (1245-1279). Afonso III. com um interior rico em água e em recursos alimentares. Lisboa. tornou quase inexistente a ameaça dos mouros à antiga Olissipo. acima de tudo. incluindo sal e peixe. nos finais do século XIII. quando veo a casar em Portugal” (LL44U5). talvez. 160-161). Livros Horizonte. Luís Filipe Oliveira e João Luís Fontes. Afonso IV e D. in Lisboa medieval: os rostos da cidade. deste modo.2. Novos ensaios de história (…). 751 750 Veja-se João Alves Dias. ũh cavaleiro que veo com a rainha dona Doce d’Aragom. rico até em pedreiras e minas –. coord. de Oliveira Marques. A. pp. 752 208 .

m. T. m. não raras vezes. Relações político nobiliárquicas (…). Pedro. Esta ligação à corte régia permitiu à linhagem alcançar alguma notoriedade. pertencendo portanto ao que podemos chamar de uma “nobreza de serviço”. na corte dionisina. Carvalhos de Basto. Inês de Castro756. D. sep. 1262 e 1268. Salvador de Moxó. da confiança que o monarca depositava em Martim do Avelar II e. Martim do Avelar II foi vassalo da casa de D. de Hispania. Os membros desta nobreza encontravam-se. Como já sublinhou José Augusto Pizarro. 48-66. como foi o caso dos de Avelar753. 756 TT. Universidad Complutense. Veja-se Salvador de Moxó. Durante o reinado de D.º36. 311-370. “a importância das trajectórias individuais acabava por se reflectir no conjunto da linhagem”755. pela primeira vez. mas também ligados ao serviço da rainha D. por causa da morte de D. Assim. Colegiada de S. de um prestígio já adquirido e consolidado junto do rei. Afonso IV alguns indivíduos dos Avelar surgem como servidores do próprio monarca. Ao serviço da rainha encontramos também Lourenço Martins I. pp. n. Acresce ainda que este senhor de Avelar era “criado” da rainha D. XXX. dependentes dos cargos subalternos que desempenhavam na corte754. Neste documento é apresentado na lista dos doze vassalos de D. Beatriz. 16. 1970. En la España medieval. m. vol. “De la nobleza vieja a la nobleza nueva (…)”.9. Ponte de Lima. 757 758 209 . pp. Salvador de Moxó. vol. 2.º4.º26.13. mas também na do monarca. Os patronos do Mosteiro de Grijó: evolução e estrutura da família nobre (séculos XI e XIV). principalmente pp. “Estructuras sociales y familiares y papel político de la nobleza cordobesa (siglos XIV y XV)”. Afonso IV. neste contexto de desenvolvimento que se assiste ao aparecimento de linhagens de nível médio e inferior que se encontram referenciadas. por outro. pai de Martim do Avelar II. transitando. Veja-se também José Augusto Pizarro.1. n. assim. 1982. 753 José Augusto Pizarro. Beatriz que o nomeou mesmo como seu testamenteiro757. Linhagens medievais (…). Madrid. 1207. p. em 1355. Maria Concepción Quintanilla Raso. Este caso é ilustrativo da possibilidade de alguns indivíduos da mesma estirpe ocuparem funções na “Casa” da rainha. III. Estudios en memoria del Profesor D. Afonso IV e esteve presente no juramento de perdão estabelecido entre o monarca e seu filho. 1995. como copeiro-mor758. Esta linhagem de cavaleiros e escudeiros nasceu e cresceu ligada ao serviço régio. “La nobleza castellano-leonesa en la Edad Media”. II. Gav. para o reinado de D. TT. algumas delas. por um lado. 268. 331-352.É. Martinho de Sintra. Esta sua presença num momento tão importante a nível político é reveladora. 755 754 José Augusto Pizarro.1. TT. Gav. Revista española de Historia. p. pp. Afonso IV. n. e exemplificando.

Mulheres houve que desempenharam um papel extremamente importante no seio da sua estirpe. que foi. assim. mulher de Lourenço Martins do Avelar I. Ilustrativo desta proximidade pessoal foram as dádivas. 16. n. que foi colaça de D. Afonso IV permitiu. também ela. é reforçada pela presença do elemento feminino. verificámos que no caso em estudo algumas das mulheres se tornaram. LL 44U7.1.1. através de sua mulher. Os Pimentéis (…). tanto na casa do rei como na casa da rainha. principalmente pp. da rainha. deste modo. com que Lourenço Martins I agraciou D. alguns dias depois.De um modo geral. Martinho de Sintra. Maria de Aboim. Branca Lourenço. 762 Talvez a grande proximidade de Martim Esteves do Avelar face a João Fernandes de Lima como seu mordomo tenha sido mantida por seu filho. existiram duas gerações sucessivas de mulheres que mantiveram uma posição muito próxima junto da rainha D. Assim. 268-280. mas também. afirmar que a presença do elemento masculino no desempenho de funções de serviço da coroa. n. tais como um pano de lã com figuras e uma taça de prata com sua sobrecopa. Podemos. a referida senhora revoga a nomeação de Martim do Avelar e de João Esteves Pão e Água Sem o objectivo de sermos exaustivos veja-se Bernardo Vasconcelos e Sousa. 761 760 759 TT. Colegiada de S. Beatriz760. e sua filha. D. 210 . ainda que o elemento feminino fosse essencial para garantir a reprodução biológica da linhagem. a historiografia tradicional tem reservado um papel subalterno para a mulher. Porém. No seu testamento a soberana agraciou esta sua criada com 300 libras e com dois pares de panos de lã [QUADRO I]. Em 1345. TT. Deste modo. aos indivíduos desta estirpe uma maior proximidade com a pessoa do rei. Martim do Avelar I (LL 44U5).º36. Beatriz Eanes teria já falecido. e como vimos. também elas. Esta inserção nos círculos da corte pode ter permitido a ligação a um importante senhor. O pertencer à entourage régia de D. Foram os casos de Beatriz Eanes. um elemento decisivo para estreitar alianças com a família real. criada da mesma rainha. mas também para a concretização das alianças familiares no seio da nobreza759. Beatriz761. Beatriz. assim como a bibliografia citada por este autor.º4. João Fernandes de Lima762. Tal ligação encontra-se atestada pelo facto de Martim do Avelar I ser nomeado testamenteiro de D. m. m. Gav. Maria de Aboim.

Colegiada de Santa Marinha de Lisboa. Lisboa. de Arqveologia e História. fac-símile. port.º8.2. ou seja. Podemos afirmar que a estratégia de alianças matrimoniais seguida por esta estirpe é reveladora de uma capacidade de estabelecer uniões com linhagens de maior prestígio político e social. Colibri/Câmara Municipal de Portel. 2003.. por parte da nobreza. vol. a escolha dos cônjuges recaiu sobre elementos pertencentes a linhagens que também eles mantinham ligações à corte e ao próprio monarca. desempenhou um cargo da maior importância na hierarquia urbana. Talvez a ligação de alguns dos seus elementos ao serviço do monarca tenha justificado a presença dos Avelar em importantes centros urbanos. 2ª ed. 767 766 765 764 763 LL 44U6. 1994. trad. sem que nomeasse outros para o seu lugar763.como seus testamenteiros. Os Pimentéis (…). na urbe olisiponense que encontrámos Martim do Avelar I a ocupar um cargo na administração municipal. p. 2001. que viveu em Lisboa767. o de alvazil geral (1326). O exercício.º85. os Avelar denunciam uma estratégia político-social com o nítido objectivo de alargar os seus apoios e as suas redes de solidariedade. de utilizar o matrimónio como um meio para se aproximarem da corte766 e para consolidarem essa posição. p. O casamento na França feudal. principalmente as pp. Cartulário do século XIII. motivada. João de Portel. Bernardo Vasconcelos e Sousa. por um conflito entre ambas as partes764. TT. assim como a bibliografia nacional e estrangeira citada por este autor. Foi. Gradiva. Nas alianças matrimoniais estabelecidas. Pedro. tais como Lisboa e Santarém. a mulher e o padre.3. Estêvão Cibrães e João Esteves: a família Pão e Água em Lisboa (1269-1342). O cavaleiro. 181183. No entanto. Sem o objectivo de sermos exaustivos veja-se sobre as estratégias das alianças matrimoniais: Georges Duby. n. n. como foi o caso dos de Buval. de cargos municipais revela que esta procurou inserir-se na sociedade urbana. Veja-se Miguel Gomes Martins. Mas a ligação dos senhores de Avelar à corte não era feita somente através da proximidade face aos monarcas ou dos laços mantidos com João Fernandes de Lima. mas também o de alvazil Livro de bens de D. talvez. 73.21. dos de Góis e da neta de Estêvão da Guarda [ESQUEMA GENEALÓGICO V765]. Lisboa. 211 . 53. m. ed. 180. Gav. assim. Este cavaleiro. Assim. Até ao momento não conseguimos encontrar uma explicação segura para esta decisão. m. não foi somente na corte régia que os Avelar ocuparam funções. sep.. Este esquema genealógico foi construído com base na documentação compulsada em alguns fundos de Ordens Monásticas guardados na Torre do Tombo e no Livro de Linhagens do Conde D.

António Manuel Hespanha. 2001. in Militarium Ordinum Anacleta. e a partir de 1332 encontramos João do Avelar como freire da Ordem da Cavalaria de Santiago773.º1. 1968. TT. cx. que encontramos alguns dos membros dos Avelar a professar em Ordens Religiosas. n.º32 (1344. 1ª inc. Vicente de Fora de Lisboa. Veja-se Maria Helena da Cruz Coelho. Fundação Eng. A comunidade cisterciense de Arouca durante o abadessado de D. História das Instituições (…). LL 44U6. Convento de Tomar. Jorge. 259-265. n.º101 a 109. Arouca. n. estas Ordens também se encontravam muito ligadas aos monarcas que lhes concediam inúmeros privilégios e doações774.º577. n.3. julgamos que Martim do Avelar o terá desempenhado até à sua morte770. m. 774 212 .º5. Colegiada de S. Câmara Municipal de Arouca/Real Irmandade da Rainha Santa Mafalda. mas também de participar nas sessões da câmara. A atracção pelas Ordens Militares levou Martim do Avelar II a ingressar na Ordem de Avis. 305-308. Arouca – uma terra. n. n.5. n. Mosteiro de Chelas. Leonor Vasques do Avelar foi monja professa no mosteiro de Arouca.10. p. 2ª ed. Assim. Maria Teresa Campos Rodrigues.1. in Ibidem. Abril 22). Teresa Fernandes. 2ª ed. p.º36).12. m. A Ordem de Avis (durante o mestrado de D. de Azevedo “Um inventário do século XIV”. Este senhor teria já falecido em 1345. pp.º21 (1326. Martim do Avelar I estava. m. Quando a nobreza traja de branco.21. 1997. Gav. chegando mesmo a ser abadessa desse mosteiro.28. 69-70. m. Real Irmandade da Rainha Santa Mafalda. 54. 1902. António de Almeida. Pedro A. Outubro 4). Archeologo Português. 1989. Setembro 16). vol. desde a sua fundação. TT. n. 2003. sep. Magno. Lisboa. 1990. VII. Sobre as Ordens Militares de Avis e de Santiago veja-se Cristina Pimenta. tendo ocupado o cargo de Mestre da Ordem772. Arouca. m.. Fernando Rodrigues de Sequeira). m. n. Mosteiro de S.do crime (1344) desta cidade768. um mosteiro. g. Mesa da Consciência e Ordens.6..º8. TT. Maria Helena da Cruz Coelho.. Mosteiro de Santa Maria de Arouca. A administração municipal de Lisboa durante a 1ª dinastia (1179-1383). Não podemos esquecer que o mosteiro de Arouca se encontrava. Documentos Particulares. Livros Horizonte. 223-234. n. 7. Aspectos da administração municipal de Lisboa no século XV. sua mulher. fez partilhas com Lourenço do Avelar I dos bens de Asmafil (TT. Ed. m. Refira-se ainda. Leiria.2. Martinho de Sintra. 23-30. pp.º9 e 29. 1988. Apesar do exercício deste cargo ser anual e os seus membros eleitos pelo concelho dos homens bons no mês de Abril. Marcelo Caetano. muito ligado à coroa régia e a membros da mais alta nobreza do país771. da Revista Municipal. Gav. Luca Rodrigues (1286-1299). 773 772 771 770 769 768 TT. Ordem de Cristo. Neste ano. encarregado de julgar as contendas. Luís Miguel Rêpas. Como é sabido. uma santa. de passagem. As Ordens de Avis e de Santiago na Baixa Idade Média: o governo de D. em Lisboa769. deste modo. 247.º553 (1331. p. Veja-se a bibliografia citada por esta autora. O mosteiro de Arouca do século X ao século XIII. IDEM.7.

Fernando. assistimos. detendo aí um vasto e apreciável quinhão de terras e de rendas. de Oliveira Marques. História de Oeiras (…). mais tarde. 1997. Fernando. na região de Lisboa e seu termo. guarda-mor e leal vassalo do monarca D. H. a nota supra n. História de Oeiras. segundo senhor de Casais. Como já demonstraram vários autores as sucessivas cortes régias efectuavam longas estadas em Santarém. a ocupar importantes lugares na hierarquia nobiliárquica e religiosa. Ainda assim. (in Manuel Marques Ribeiro de Ferreira. também neste caso. 113. História de Oeiras(…). também ele por a perder em 1385-86”. A presença na corte tornava-se. Os Avelar voltam novamente ao senhorio de Cascais. mas acabou. VI Congreso de Estudios Medievales 6-10 octubre. Prensa Y Ediciones Iberoamericanas. in La nobleza peninsular en la Edad Media. mas também na zona de Santarém. a uma movimentação das novas linhagens para o Sul numa tentativa de procurar fortuna em terras mais despovoadas.No entanto. Este senhor revelou-se. Madrid. “Este senhor foi expulso de Portugal em 1373 por se ter recusado a dar um filho como refém nas pazes entre D. de). quanto à cidade escalabitana era. com Sancho Gomes do Avelar.º757. Durante a segunda guerra fernandina (1372-1373) voltou. I.rei D. Vicenta Maria Márquez De La Plata. 1995. um nobre influente na época e uma figura proeminente na região de Lisboa775. após os acontecimentos de 1383-85. León. Itinerários régios portugueses. Fundación Sánchez Albornoz. muitas vezes. “La nobleza bajomedieval Navarra: pautas de comportamiento y actitudes políticas”. p. Para esta escolha muito terá contribuído a ligação que estes senhores mantinham com a corte régia. o prestígio alcançado pelos seus antecessores terá possibilitado que Gomes Lourenço de Avelar. 539-542. 1999. pp. s/d. 7-44. Novos ensaios de história (…). Itinerários del. pp. foi nomeado fronteiro em Ciudad Rodrigo durante a primeira guerra com Castela (1369). 113-114). Fernando e Henrique II de Castela. Veja-se também. estas carreiras mais ou menos distintas não seriam suficientes. o senhorio de Cascais. Não obstante esta A. 2ª ed. mas também o local estanciava a corte por mais tempo. León. Como já afirmamámos anteriormente. filho do primeiro senhor. 299-323. permitindo que alguns dos seus membros viessem. Uma monografia (1147-2003). para alcandorar o conjunto da linhagem a um nível superior da nobreza. Uma análise à mancha patrimonial detida pelos Avelar [MAPA IV] revela que estes senhores preferiram concentrar os seus bens junto ao curso do Rio Tejo. fosse o primeiro senhor de Cascais. p. e Luis Valero de Bernabé. Nobiliaria española: orígen. evolución. pp. instituciones y probanzas. um factor de promoção no seio da nobreza776. Gomes Lourenço de Avelar . no século XIV. principalmente pp. Veja-se Virgínia Rau (dir. a ser fronteiro” (in Manuel Marques Ribeiro de Ferreira. Manuel Marques Ribeiro de Ferreira. onde Lisboa era cada vez mais a principal urbe do reino. por si sós. Oeiras. 127). defendendo a cidade galhardamente e merecendo por isso. 777 213 .. em recompensa. Câmara Municipal de Oeiras. teve os seus bens confiscados e doados a Henrique Manuel de Vilhena. Foram estas trajectórias individuais junto dos monarcas que deram prestígio à linhagem. Eloisa Ramírez Vaquero. “cavaleiro e vassalo lígio do rei D. deste modo. local de longas estadas da corte777. 776 775 Cf.

julgamos que estes casos são mais o espelho de uma trajectória individual do que uma estratégia global da linhagem. Um olhar sobre a cidade medieval.2. pp. do ponto de vista económico-social. por exemplo. Pedro I e D. de Oliveira Marques. 25-26. Sabemos que Martim do Avelar I. NA 176.º8. Dinis. em Santa Justa. Centro de Estudos Geográficos do INIC. [QUADRO XI] onde detinham (principalmente. 1996. como. A cidade na Baixa Idade Média”. “Depois da Reconquista. Mosteiro de Santa Maria de Arouca.4. 1279-1325. Nicolau e de S. o elemento feminino) bens de raíz778. g. 780 779 Esta rua situava-se num zona abrangida pelas freguesias de S. em S. Esta rua pertencia à área mais rica da Ribeira.4. Lisboa.70. como já referimos. TT. “As pontes sobre os côrregos ou caneiros a que estavam reduzidas as ribeiras da Baixa e outras de Lisboa não seriam mais do que passagens estreitas. H. estes cavaleiros e escudeiros possuíam bens urbanos dentro da cidade de Lisboa [MAPA V]. 1988 (texto policopiado). ponte anónima. Gav. João Alves Dias. em que pouco se reparava: a ponte de Galonha. Patrimónia. Julião. a “mais rica e cobiçada de toda a Lisboa. Centro de Estudos Históricos do Instituto de Alta Cultura.21. Os itinerários de D. 781 782 783 784 214 . 53. Na sua extremidade Sul desembocava a Rua Nova. fl.º20. Um olhar sobre a cidade (…). que desempenhou o cargo de alvazil geral e do crime em Lisboa. Os Avelar eram oriundos de uma baixa nobreza que se promovera pelo facto de gravitar em torno da entourage régia. n. onde se abriam as mais importantes e largas artérias da cidade e onde os grandes mercadores expunham os seus produtos”781. No entanto. TT. LL 44U6. Fernando: interpretação gráfica. in O livro de Lisboa. possuía uma casa na urbe783 e Lourenço Martins I tinha umas casas de habitação na Alcáçova de Lisboa784. Julião. 1962. Esta atracção pelo sul do país pode-se justificar pelo ingresso de alguns indivíduos nas Ordens Militares. Devido ao facto deste senhor ter desempenhado funções de serviço na casa Dinis. a norte do rio Douro. p. 778 TT. Iria Gonçalves. Júlia Galego. Cascais. Iria Gonçalves refere ainda que era na Rua Nova que os indivíduos que desempenhavam cargos importantes na cidade possuíam as suas casas de morada782. Lisboa. Entre eles contavam-se casas de sobrado e lojas à Ponte dos Paus779 e outras na Rua das Esteiras780. acaso de madeira. p. m. ponte ‘que vai para Santo Estêvão’. Vicente de Fora” (A. Livros Horizonte. em S. encontramos bens localizados em outras zonas do território. n.opção geográfica pelo centro-sul do país. 104). et alli. 1994. m. Itinerários de D. considerada. Iria Gonçalves. Lisboa. D. Afonso III (…).

Lisboa. de Joel Serrão e de A. de Oliveira Marques. José Mattoso. Dinis doação a Estêvão da Guarda. Mosteiro de Santa Maria de Arouca. IV – Portugal na crise dos séculos XIV e XV. encontramos alguns membros dos Avelar a deterem uma mancha considerável de bens. outro tipos de bens787. Na primeira deteve Lourenço Martins II um conjunto de bens que sua mulher. naturalmente. para além de residência dos monarcas portugueses. Estêvão da Guarda788. Sancha Dias. H. de Oliveira Marques. VIII. 1987. g. assim. Teresa Martins. de Oliveira Marques. in Nova História de Portugal. esta nobreza de serviço ou de fidalgos próximos do monarca a possuir. localizado em Bucelas. 211). a residir longas temporadas em Lisboa. Pedro I.4. Presença. p. 426-428). Segundo José Mattoso alguns desses domínios. adoptado por esta família. Destes bens em Torres Vedras fez D. desde casas a herdamentos. de A.2. com condição de que à sua morte ficassem em maneira de morgadio. dando Martim do Avelar I os bens que detinha na Terra de Santa Maria. passando. Deste modo. p. a mancha detida por um dos indivíduos desta linhagem foi aumentada mercê de uma política de A. pp. coord. chegaram a dar o nome às famílias suas proprietárias (Cf. Assim. A posse deste tipo de bens no centro da urbe olissiponense pode ser elucidativa da ligação que estes senhores tinham. dir.da rainha terá acompanhado frequentemente os monarcas. 788 787 215 . pode sugerir que os seus membros fossem oriundos de Avelar. o seu descendente que tinha direito a herdar estes bens era sua neta. 188. 786 785 TT. pode ser visto como uma estratégia de consolidação da sua presença na região de Lisboa o escambo que Martim do Avelar I fez com sua irmã. no termo de Lisboa. que esta dona havia comprado a sua avó786. Obras completas. bem como courelas e casais em Torres Vedras e em Sintra. ou localizado em Torres Vedras. Martim do Avelar I aumentava a sua implantação geográfica no termo da importante urbe olissiponense. De facto. vol. com a administração da cidade e. Ed. a moeda e os preços”. por outro. em forma de morgadio. Deste modo. Como proprietários de bens de raiz. filha de Diogo Esteves (Chancelaria D. Assim. a origem do nome Avelar. Não podemos esquecer que o Paço Real localizado na Alcáçova foi. aponta para uma estreita proximidade – até física – com o poder real. D. “O surto urbano. consolidando ainda mais a sua fixação nesta região. Neste caso concreto. Sancha Dias. tinham de se ausentar da cidade para percorrerem os seus domínios.º8. n. recebeu em herança. vol. de seu avô. H. localizados nos arredores da cidade. Numa sociedade em que uma importante parte da riqueza residia ainda na propriedade do solo. por um lado. o centro da política e da administração do reino785. e recebendo em troca as herdades e quintãs localizadas em Rio de Mouro. m. encontramos em redor da cidade. H. termo de Lisboa.

Em geral.º51 A). n. não conhecemos nenhuma doação que o monarca tivesse feito aos elementos masculinos desta linhagem. Gil Martins. No ano de 1375.16. que perfaziam a quantia de duas mil libras.16. o mosteiro encontra-se em litígio com Branca Lourenço por causa da posse da referida quintã.1. porque desde o ano de 1350 até 1375 o mosteiro não obteve nenhuma renda da quintã. pp.º86. 2ªinc. no termo de Sintra. Cadernos do Arquivo Municipal. m. existia a quintã de Lançada que se encontrava em posse da estirpe desde Martim do Avelar I. “post-mortem” e durante dez anos. a rainha D. Branca Lourenço do Avelar. mas próximo da urbe olissiponense. deste modo. Pedro I. a consolidação da sua importância e respeito adquirido na casa da rainha. Esta quintã foi dada. TT. acrescido ainda de 300 libras e de dois pares de panos de lã que a rainha deixou em testamento a esta sua criada791.casamento com a única herdeira de um dos mais importantes oficiais régios de D. as mulheres ajudavam no aumento do património desta estirpe.3. cx. principalmente no seu termo. Vicente de Fora de Lisboa. com seus frutos e rendas que valiam cada ano duzentas libras790. Torres Vedras e Loures. recebeu como herança793. os bens de raiz possuídos pela linhagem estavam na sua posse há algumas gerações e eram conservados através de compras e de escambos entre os diferentes membros. Mosteiro de S. 1999. Chancelaria D. apesar de gozarem de uma posição de proximidade face à corte e às pessoas da rainha e do rei. Fora deste aglomerado. O procurador do mosteiro pedia que julgassem o contrato por nulo e que Branca Lourenço não tivesse direito à quintã e que desse os frutos que recebeu nos dez anos. bem como a bibliografia aí citada. pelo Mosteiro de S. Gav. 791 790 789 TT. Colegiada de Santa Marinha de Lisboa. filha de Lourenço Martins I. 426-428. Dinis789. n. O juiz condena Branca do Avelar (TT. n.º3. 11-60. Beatriz doou. Foram estas estratégias que permitiram à linhagem constituir e manter uma significativa mancha patrimonial na região de Lisboa. Saliente-se que. Porém. 792 793 216 . Uma vez mais. uma quintã em Melida. no ano de 1350. “Da Esperança a S. em zonas como Sintra. n. pp. Vicente de Fora à rainha para que ela após a sua morte a pudesse deixar a outra pessoa. como ocorreu com os já referidos bens de Estêvão da Guarda792. a D. mas também através de alianças matrimoniais. Julgamos que esta concentração de bens na Estremadura tem como principal explicação o facto dos membros desta Sobre Estêvão da Guarda veja-se Miguel Gomes Martins.4. e que seu filho. m. demonstrando. Vicente de Fora: um percurso em torno de Estêvão da Guarda”.

sua avó796. em jeito de conclusão. durante o período em estudo. efectuavam-se também trocas entre os diferentes membros da estirpe.º36. D. Segundo Carvalho Homem os monarcas procuravam enraizar os seus servidores nas zonas onde preferentemente estacionavam (Armando Luís de Carvalho Homem. procurando através do serviço e da fidelidade à família real uma presença efectiva e continuada junto da corte régia. Mosteiro de Santa Maria de Arouca. 201-202). que por sua vez havia comprado a D. para uma estratégia que procurava conservar e aumentar um património em formação. mencionamos o já referido escambo que Martim do Avelar I fez com sua irmã. a maioria do património tinha sido transmitido de geração em geração. Tudo aponta.linhagem estarem muito ligados à corte e à família real.º8. dos bens que esta dona tinha em Rio de Mouro. Por outro.2. m. n. o que fazia com que passassem grande parte do tempo junto do monarca. 796 217 . denotámos que todos os membros da linhagem herdaram bens dos seus progenitores. os bens de Asfamil que lhe ficaram por morte de sua mãe. A esta estratégia patrimonial acresciam os contactos com os meios áulicos. TT. Lourenço Martins do Avelar I partilha com Teresa Fernandes. encontrando-se na posse da linhagem há muito tempo. Teresa Martins. Por exemplo. Além disso. g. com prolongadas paragens na principal cidade do reino794. Colegiada de São Martinho de Sintra. pois.1. Por um lado. O desembargo régio (…). 795 794 TT. Maria Martins795. mulher de Martim do Avelar I. afirmar que os bens detidos pelos Avelar não provinham da sua proximidade face ao rei e à sua consorte.4. A título de exemplo. e que ia a par com o crescente prestígio social da linhagem. pp. Teresa. n. Podemos. m.

” (in Manuel Larriba Baciero. Ed. 1990. “a vida do crente transformava-se quando ele pensava que nem tudo ficava perdido com a morte”797. Manuel Sílvio Alves Conde. A doutrina da Igreja defendia. sublinhava que sendo a salvação da alma o objectivo supremo de todos os homens. era importante que cada cristão reflectisse na sua passagem para a vida eterna. p. pp. Mas nem mesmo esta familiaridade diminuiu o medo que a população tinha da morte. Lisboa. como dice Philippe Ariés. 817-837. Porque ela é certa. I – Notas do viver social. pp. Deste modo. no 797 Jacques Le Goff. Vírginia Rau. pp. 2ª ed. era necessário preparar a saída deste mundo. A forma como ocorria essa passagem podia abrir as portas da eternidade. “Família. Ed. pp.128-131. 202). Actas. “Morrer e testar na Idade Média: alguns aspectos da testamentária dos séculos XIV e XV”. coord. p. mais do que nunca. II.. vol. 1995. mas incerta a sua hora. in A cidade. séculos XIII-XVIII. espaços e poderes (séculos XI-XVI). p. Maria Helena da Cruz Coelho. 1989. “Contribuição para o estudo das oligarquias urbanas medievais: a instituição de capelas funerárias em Óbidos na Baixa Idade Média”. “Ritos e imaginário da morte em testamentos dos séculos XIV e XV”. in Lusitania Sacra. 1996. através dos testamentos dos arcebispos e dignitários de Braga na Idade Média (séculos XII-XV)”. vol. Presença. Pobreza e morte em Portugal na Idade Média. Estampa. era através da morte planeada que o indivíduo tinha a esperança de conquistar o Paraíso. 2ª série. in Homens. 2. História e Crítica. II. Maria José Ferro Tavares. Segundo Jacques Le Goff. Sá da Costa. 1988. pp. Lisboa. 1992. p. O nascimento do Purgatório. de J. pp. “A fortuna ao serviço da salvação da alma. por um lado. da família e da memória. por outro. o fim dos prazeres terrenos e. Isabel Castro Pina. in O reino dos mortos na Idade Média Peninsular. Manuela Santos Silva. “Um documento português (…). 155. 2001-2002. “El testamento de Maria de Molina”. e Margarida Durães. – O perpetuar da memória As precárias condições de vida. Mattoso. 798 “El testamento es. Revista de Historia de la Cultura Escrita. sobretudo a partir dos finais do século XIII799. 2ª série. de Maria José Ferro Tavares. Universidade Aberta. Igreja e Estado: a salvação da alma e o conflito de interesses entre os poderes”. 15. a falta de imunidade às doenças e o proliferar das epidemias tornavam a morte uma realidade tão constante e presente no quotidiano da sociedade medieva que ela era sentida. in Arqueologia do Estado. 126. un médio de asociar las riquezas a la obra de salvación. apresentando-se como um acto unilateral. dir. a prática de redacção do testamento798 vulgarizou-se. como inerente à própria natureza humana. vol. Jornadas inter e pluridisciplinares. de ganar los aeterna sin perder por completo los temporalia.“Uma estratégia de passagem para o Além (…)”. Signo. “Um testamento redigido em Coimbra no tempo da Peste Negra”. 13-14. Lisboa. ou seja. Lisboa. Hermínia Vasconcelos Vilar e Maria João Marques da Silva. Elisa Maria Domingues da Costa Carvalho. com a qual se cruzava diariamente. 917-937. in Lusitania Sacra. Livros Horizonte. 799 218 . Lisboa. 39-60.VI. Lisboa. Ias Jornadas sobre formas de organização e exercícios de poderes na Europa do Sul. 1995. 4. Ana Maria Rodrigues. 15-40. 1986. 60-77. Ed.

Neste sentido. vol. seria acompanhado. 804 219 . O tabelião registava. Ed.qual se registava a última vontade do testador e em que o principal objectivo era a instituição de um herdeiro800. A partida deste mundo assustava tanto o camponês quanto os membros das classes privilegiadas. XV. 412). port. Coimbra. A preocupação. 5-252. por Philippe Ariès. 40.. Universidade de Coimbra. 2ª ed. “O homem tardo-medieval vivia e fora moldado por um ‘ambiente devocional forte e muito estruturado. novos e velhos” (Maria José Ferro Tavares. pela afirmação da igualdade de todos perante a morte que ceifava ricos e pobres. p. 802 801 800 Hermínia Vasconcelos Vilar. Inocêncio Galvão Teles. Podemos considerar o acto de redigir as últimas disposições e vontades como um momento preparativo da morte801. “O medo. como acto Paulo Merêa. IDEM. I – A Idade Média. em detrimento do contrato oral. A vontade de assegurar o futuro e a salvação da alma conduziu a uma preferência pelo registo escrito. Coimbra. talvez devido ao carácter efémero de que este último se revestia802. Sobre a história (…). Círculo de Leitores. através do despojamento de todos os seus bens materiais. p. 1989. pois. Pobreza e morte (…). pp. da Revista da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. 4ª ed. Teorema. e Maria João Marques da Silva. antes de mais. Sobre a história da morte no Ocidente desde a Idade Média. um acto religioso que procurava assegurar a vida eterna para a alma do testador. garante da preservação eterna das formas de intercessão. “Morrer e testar (…)”. nos séculos XIV e XV.. A sua redacção encontrava-se dominada por preocupações religiosas que tinham como principal objectivo o perdão das faltas cometidas durante a vida. podemos afirmar que o testamento era. dir.. coord. Direito das sucessões: noções fundamentais. in Estudos de direito hispânico medieval. T. Porém. 69-84. II. o “testamento era um passaporte para o céu”803. e que comemorava a morte como um meio de alcançar vida’” (in Maria de Lurdes Rosa. vol. 1963. 79. Sobre este assunto veja-se: Philippe Ariès. de José Mattoso. 1-45. Lisboa. trad. p. O testamento representava mais do que uma simples manifestação das últimas vontades do Homem. não se exceptuando os próprios monarcas804. pp. Lisboa. de forma a alcançar a salvação individual. de Bernardo Vasconcelos e Sousa. presente no formulário dos testamentos. 74. em relação aos legados testamentários foi coeva da recuperação do testamento enquanto instrumento jurídico. sep. “Sobre as origens do executor testamentário”. 1953. in História da vida privada em Portugal. p. pp. 1980. por parte da Igreja. Coimbra Editora. 803 Cit. as doações efectuadas e as contrapartidas que delas se esperavam. que invadia tanto o sagrado como o secular. bem como as disposições referentes a todos os bens do testador. Ainda segundo Jacques Le Goff. Apontamentos para a história do direito das sucessões português. 2010. que normalmente se fazia em plena força da vida ou quando se sentia aproximar a hora da “partida”. “A morte e o Além”.

16. buscavam a remissão futura dos seus pecados e faltas terrenas. chegava também aos mais elevados estratos de leigos e eclesiásticos. as missas e as preces necessárias para a salvação da sua alma. II. o mesmo Vasco Eanes redigiu o segundo testamento da rainha. em 1354. pp. quando se encontrava em Lisboa808. deste modo. Beatriz foi redigido “estando nos Paços de Valada junto a Santarem. de Sousa esse primeiro testamento da rainha D. assim. ao não garantir. A Estremadura portuguesa (1300 a 1500). C. II. 1995. por Vasco Eanes. um outro risco: uma possível perturbação na sua parentela e família. tanto no campo como na cidade. pp. m. 54-69. mas também definir o futuro do seu património. em 1357. que grassava no nosso país desde Setembro de 1348809. VI. deste modo. no testamento que o indivíduo exprimia o direito e o dever de dispor do seu corpo e dos seus bens. assim como muitos pestosos. tabelião geral do rei. devido a eventuais disputas pela posse dos bens do defunto. Todas estas preocupações podem ter levado a rainha D. tanto os três testamentos como o codicilo806 foram celebrados por uma mulher que procurava. 191).individual. de Março da Era de 1387. 136. para garantir a ordem e a paz não só no mundo do Além.1. Tomo I.º4). Liv. I e II. Patrimónia. in Revista de Ciências Históricas. os quais tinham menor resistência física e péssimas condições de alimentação. n. Mário da Costa Roque. em Alenquer. o mandar redigir um testamento era apanágio de uma elite económica e social805. “A Peste Negra e os legados à Igreja”. p. Beatriz a mandar escrever o seu primeiro testamento a 21 de Março de 1349. Beatriz mandou redigir um testamento no ano de 1349. principalmente. p. 809 808 220 . Gav. pp. também. que he anno de 1349” (HGCRP. 807 806 O risco de uma morte intestada recaía. vol. A vivência da morte no Portugal medieval. As pestes medievais europeias…). 341-354 e TT. Muitas pessoas. I. A esta redacção não deve ser alheio o receio da consorte perante o impacto da Peste Negra. Era. O testamento servia. um codicilo foi redigido. Redondo. mas. procuravam salvaguardar-se o que julgavam ser uma manifestação da ira divina. 123-125. Segundo A. T. Assim. Humberto Baquero Moreno. Sabemos que a rainha D. por Joaõ Esteves. em 21. PHGCRP. Mas acarretava. Liv. T. e no ano 1358. mas também no terreno. pp. dizimando todos aqueles que a contraíam. assim. sublinhar a importância dada às suas últimas vontades807. principalmente. Esta moléstia atacava sobretudo os de baixa condição social. de higiene e de habitação. com o receio de contágio. deste 805 Veja-se Hermínia Vasconcelos Vilar. 341 e 346. tabaliaõ publico. No entanto.I. No caso que nos ocupa. agravando a taxa de mortalidade e aumentando o fervor religioso. 1991. Era. Hoje sabemos que esta epidemia alastrou rapidamente. Liv. zelar pela remissão dos seus pecados. foi redigido o seu último testamento (PHGCRP. no próprio.

221 . existem outros bens e testadores que acrescenta [QUADRO IV]. Constança. talvez. sabemos que faleceu entre 1348-1349. rei de Aragão. à sua filha D. com a entrada da Peste Negra na região da Catalunha. Deste primeiro testamento de D. Maria. no testamento de 1354 declarou já ter feito uma doação em vida dos objectos que deixara. Quanto à infanta D. não havendo interesse em preservá-lo. Pedro IV. rainha de Aragão. também. ao contrair matrimónio a 15 de Novembro de 1347. É. No ano de 1354. e da sua nora D. Leonor. I. Podemos. num registo escrito e particular. T. Constança. Bento. Apenas conhecemos algumas informações a ele relativas pelo codicilo que a soberana mandou redigir em 1354. graças a este conjunto de alterações. 341-343. principalmente após a redacção de um codicilo e de dois outros testamentos – nada sabemos. assim. como já referimos.modo. em 1349. futuro rei de Portugal. segunda mulher do infante D. elencou uma quantidade de bens que. 810 PHGCRP. Bento e a rainha D. havia deixado como legado testamentário. a 30 de Outubro de 1348. em Exericha. bem como por algumas passagens do seu último testamento. pode. Pedro. Porém. no qual doavam inúmeros bens materiais à Igreja. a rainha fez um codicilo ao seu primeiro testamento. Liv. que deixavam expressas as suas últimas disposições e vontades feitas. em 1349. em Barcelona. em 1349. que ficamos a saber da existência de um documento entretanto desaparecido. pode ter havido algum desentendimento entre Fr. apresentando como justificação o pretender corrigir a distribuição do seu património móvel que havia feito no testamento de 1349810. datado de 1358. tendo vindo a falecer a caminho de Valência. No entanto. Aquela infanta foi a segunda mulher de D. apresentar também como motivo para este codicilo o facto de a rainha ter retirado de seu testamenteiro Fr. a rainha foi contaminada em Teruel. o Cerimonioso. em especial. Deste modo. assim como as cem libras que lhe deixava no testamento de 1349 [QUADRO XII]. que apesar de serem reduzidas e subtis não deixam de ser significativas. estar associada às mortes da sua filha D. Beatriz. à rainha de Castela sua filha [QUADRO I]. II. No entanto. Apesar de nunca ser expresso o porquê da retirada deste frade. Consideramos que a redacção deste primeiro testamento da rainha. pp. Beatriz – talvez porque se tenha tornado obsoleto e ultrapassado.

a 23 de Março de 1357. Este testamento foi alvo de análise e transcrição documental feita por Vanda Lourenço. Seja como for. O biénio de 13551356 foi ainda marcado por uma crise alimentar que se disseminou por todo o Reino. 209). 811 “Quero que se este meu testamento nom poder valer como testamento que valha como codeçilho” (TT. atacando todo o reino. a peste. 81-107. que muitas vezes surgia ligada à peste. 812 Durante o período medieval a esperança média de vida era baixa. H. Tornava-se. D. a este surto podemos associar a fome. Assim. a rogo e por mandado da rainha.O testamento é um acto unilateral da inteira responsabilidade do outorgante.º4). a testadora não revelou qualquer sinal de doença nem perigo de vida. 16. no seguimento dos confrontos suscitados pela execução de D. Neste sentido. da sua segunda filha. Gav. m. no Paço de Valada. pois. 222 . de Oliveira Marques. ditou em Santarém. contribuindo para manter o reduzido nível populacional. Pedro. A. Introdução à história da agricultura (…). este testamento pode ser visto como uma nova forma de consolidar as pazes de Canaveses. Nova História de Portugal. “Entrava-se na velhice com o dobrar do meio século. Por um lado. um novo surto de peste ocorreu no país. pp. rainha de Portugal. pp. que o pode revogar em qualquer momento da sua vida sem necessidade de assentimento dos instituídos. em Janeiro de 1357. 41. O que nos permite fazer esta afirmação é o facto de Diogo Lopes Pacheco fazer parte do grupo de testamenteiros da rainha [QUADRO XII]. Beatriz. tabelião geral “nos reynos de Portugal e do Algarve”. como veremos mais adiante. a par dos flagelos que marcaram esta época. A sociedade medieval (…). p. podemos avançar como hipóteses para esta nova redacção o avançar da idade813 (a rainha teria já 64 anos). mas sempre dizimando sectores significativos da população. O ano de 1356 concentrou múltiplas desgraças. apesar de terem efeitos demográficos mínimos. Foi escrito por Vasco Eanes. Setenta anos julgava-se a meta” (in A. a fome e os terramotos. Afonso IV e o seu filho e herdeiro D. H. de Oliveira Marques. vol. de Oliveira Marques. grassando com maior ou menor intensidade. necessário fazer uma nova redistribuição dos bens materiais. Inês de Castro. p. D. 21 e 30-32. rainha de Castela e mulher de D. H. celebradas em 1355 entre D. IV. Mas talvez não tenha sido de menor importância o falecimento. Afonso XI. um outro testamento811. No documento por nós consultado já não se encontra o selo da rainha. n. que mandou colocar o seu selo812. Apesar de ter falecido dois anos após a redacção deste. assustavam a população814. Maria.1. 814 813 A. ou seja. “O testamento da rainha (…)”. assim como por terramotos que.

efectuar algumas modificações ao antigo testamento de 1357. Insistimos. A leitura atenta destes documentos revela que todos eles foram escritos de uma forma espontânea e sem qualquer tipo de coacção religiosa ou familiar. veja-se Hermenegildo Fernandes e Luís Urbano Afonso. Urgia. mas também com a vida política do país. Isabel. João. Beatriz em 1358 [QUADRO XII]. através de um terceiro e último testamento815. Afonso IV. filhas do rei de Castela816. iniciou a governação do país. mas também pelo falecimento dos seus entes queridos e mais próximos (cinco filhos. exilou-se em Castela já não constando como testamenteiro de D. era testamenteiro da rainha. p. publicando uma série de leis e concedendo mercês a alguns grupos sociais. de Oliveira Marques. “Do luxo à economia do dom (…)”. o rei herdeiro. Liv. Isabel – que morreram durante o primeiro ano de vida – Leonor e Maria. respectivamente. assim como o marido). 816 223 . 363-394. Não só por causa das pestes e das guerras. vol. Afonso IV faleceu (28 de Março de 1357). Pedro I. o novo rei não esqueceu os assassinos de Inês de Castro. Sobre os três testamentos e o codicilo mandados escrever pela rainha. Dinis e D. Julgamos que esta tardia alteração pode estar relacionada não só com o luto que a rainha estava obrigada a cumprir pela morte de seu marido. O ano de 1358 foi também marcado pelos acordos matrimoniais dos infantes D. pp. logo após o falecimento do Bravo. com D. Contudo. Não admira que a lembrança da morte fosse um tema sempre presente no quotidiano desta soberana.Cinco dias após esta redacção. D. Afonso. Entre eles sobressaía Diogo Lopes Pacheco que. mas devido às represálias de D. Constança e D. filhos de D. essas alterações só foram realizadas a 29 de Dezembro de 1358. T. após a morte do rei D. orações e exéquias. Inês de Castro. o rei D. Deparamo-nos com o mesmo adeus à vida terrena. Veja-se A. por tudo o relatado. I. Pedro. A boa morte implicava que a pessoa organizasse adequadamente a parte final da sua vida. pois a salvação da alma podia ser conseguida através do afastamento das tentações e pela desistência dos bens terrenos. Todavia. Desta forma. Estes matrimónios não tiveram consumação prática. principalmente à nobreza. IV. em 1357. Dinis. pp. 343-355. Encontramos nos dois testamentos da rainha a aplicação de uma “norma” que formalizava todo o ritual da morte incorporado na redacção dos testamentos do século XIV. que a morte estava muito próxima da rainha. 509. as mesmas disposições de últimas vontades. encetando contra estes uma perseguição que conduziu à vingança. 815 PHGCRP. II. H. Nova História de Portugal. deste modo.

Obras completas. apesar de ser considerado pecador e desprezível. Em termos simbólicos. era necessário dar destino ao corpo que. de igual modo.Para isso ter-se-iam de resolver assuntos pendentes. Elisa Maria Domingues da Costa Carvalho. tanto os de ordem espiritual como material. José Mattoso. 83-85. Não existindo um inventário sobre a “Casa” da Rainha. eternizar no mundo terrestre a memória da sua passagem. Nos testamentos medievais. a morte da mulher do chefe do reino como que atingia e afectava todos os membros da comunidade. Era nesta perspectiva que a redacção do testamento e a recepção dos últimos sacramentos se tornavam fundamentais para o crente. era. mas também visível e demonstrativo da sua fama terrena. mas também perdoar inimigos e arrepender-se dos pecados cometidos. estes eram pertença da Coroa e estavam integrados na “Casa” da Rainha. premiar os servidores. Após a habitual invocação do nome de Deus e da Virgem Maria. Não pretendemos com estas linhas fazer uma incursão sobre a morte nem tãopouco sobre os rituais funerários medievais. como destino último do corpo. Deste modo. Devido ao carácter paternalista da monarquia. o desaparecimento do rei e da rainha era sentido como uma perda pessoal irreparável. Assim. a escolha do túmulo. era necessário pagar as dívidas. representava o consolidar da memória linhagística que vinha dos antepassados. vol. visando. como já foi referido. “A fortuna ao serviço da salvação da alma (…)”. 18. e o seu capital destinava-se aos 817 Isabel Castro Pina. sendo esta “representada pelas gerações presentes. de fazer ressaltar que nos deparámos com uma ausência de informação sobre os bens patrimoniais da soberana porque. p. das suas relações pessoais e do seu enquadramento material no dia-a-dia. procurava-se819 inumar o seu corpo num local santo e piedoso. 127. entregue à Igreja817. porque não é esse o objectivo deste trabalho. por regra. surgia como a primeira preocupação do testador818. “Ritos e imaginário (…)”. Gostaríamos. IV. Beatriz no qual os seus testamentos representam uma fonte bastante importante e rica em informações. estes testamentos e codicilo permitem-nos ter uma visão um pouco mais próxima do indivíduo. pp. sem dúvida. Deste modo. 818 819 224 . p. mas sim traçar um percurso de vida da rainha D.

os mausoléus. p.” (in Maria de Lurdes Rosa. o novo modelo da cabeceira da Sé colocava o casal régio no centro da capela-mor. como ordenava a prática cristã. (…) Não deixará depois de figurar entre as mais procuradas formas de lembrança e sufrágio dos mortos. juntamente com a rainha D. na qual ordenaram a colocação das suas sepulturas825 sob a protecção e intercessão directa de S. sua mulher. 825 824 “Nos anos que se seguiram as obras efectuadas transformaram por completo a velha cabeceira românica da Sé. Foi no ano de 1342823 que o rei D.6. 821 822 Herminia Vasconcelos Vilar afirma que a definição do local da sepultura evidencia “uma preocupação cada vez mais acentuada pela afirmação da individualidade. na periferia desse centro. 2005 (dissertação de Doutoramento policopiada). A vivência da morte (…). a necessidade de individualizar o corpo. “As almas herdeiras”. Entre a realeza. na cidade do Porto (cf. 480). Todos os reis da primeira dinastia pautaram-se sempre pela crença nas 820 Maria de Lurdes Rosa.”A fundação de capelas fúnebres é talvez um dos mais distintivos aspectos da religiosidade dos leigos. Afonso IV. dir. École des Hautes Études em Sciences Sociales / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Fundação de capelas fúnebres e afirmação da alma como sujeito de direito (Portugal. Gav. radialmente. instituíram “por minhas proprias despezas”824. simbolizavam a exaltação do poder régio. I. 336. 225 . assim.1. “A religião no século (…). No dia 25 de Junho. talvez até meados do século XVIII. TT. de Carlos Moreira Azevedo. em especial na Baixa Idade Média. coord. “Do luxo à economia do dom (…)”. bem como a melhor forma de recordar a existência de quem ali estava sepultado. p. Aparentemente. através de encenações triunfais. vol. dando lugar a uma moderna e elegante construção gótica. Lisboa. Lisboa. Gav. 1400-1521). I. TT.1. p. de Ana Maria Jorge. D.º16). 823 PHGCRP.” (in Maria de Lurdes Rosa. n. T.Formação e limites da cristandade. m. os dados dos testamentos deixam entrever que cada fundação é um projecto com história. passando pela compra de objectos e pela contratação de pessoal. 101). através da presença das suas relíquias. uma Capela na cabeceira da Sé de Lisboa. desde a escolha do local à da decoração.º4. pautada por um deambulatório muito iluminado no qual se rasgavam diversas capelas radiantes. II.16. “A religião no século: vivências e devoções dos leigos” in História religiosa de Portugal. n. 371). Estes foram os primeiros reis portugueses a escolher uma sepultura ad sanctus. n. p.vindouros”820. m. Círculo de Leitores. mais do que uma representação física da morte. Vicente. no “meu moymento que eu mandey fazer”821 na capela da Sé de Lisboa822. Afirmava-se. pois sem a identificação do mesmo tornava-se impossível o Juízo individual.º18 e m. 2000. 269). funcionando como um núcleo a partir do qual irradiavam as restantes capelas funerárias. Beatriz designou que a sepultassem. p. em paralelo com um cuidado crescente pela recomposição da linhagem no túmulo” (Hermínia Vasconcelos Vilar.3. p. “Mesmo se as capelas não estão ainda em funcionamento. Deste modo. implantadas.” (in Hermenegildo Fernandes e Luís Urbano Afonso. Beatriz. Liv. 481. constituindo uma excepção face aos locais escolhidos tanto pelos seus antecessores como pelos seus sucessores.

E ainda. em vida828. 1988. Iª Jornadas sobre fomas de organização e exercícios de poderes: a Europa do Sul. Por isso. circundada por deambulatório e nove capelas radiantes.º5 e n. 829 828 827 Sobre a instituição da capela régia na Sé de Lisboa veja-se: TT. o patrocínio da construção de uma nova cabeceira para a igreja827. n. o principal responsável pela transformação da antiga Sé românica numa igreja ‘híbrida’. assumindo. deste modo. constituindo aquela uma instituição perpétua. Lisboa. m. n. 226 . de perpetuar a estirpe no futuro. 2001-2002. in Arqueologia e História. do reinado de D. as esferas religiosa e laica aparentam contradizer-se. Os santos intercessores pelas suas almas eram invocados nos testamentos e isto parecia bastar-lhes. nunca se preocupando com a proximidade de relíquias dos mártires. proporcionariam. para dar continuidade à família. Assim sendo. A escolha de um lugar de memória”. pp. Afonso IV é. no mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.º18 e m.º16. “Os diferentes tipos de solidariedades na sociedade medieval. pp. por outro. Obras ocmpletas. 2ª série.” (Carla Varela Fernandes. I. a nova capela funerária (de Bartolomeu Joanes). n. sendo a vontade do fundador 826 Vejamos os locais onde se encontram sepultados os reis da primeira dinastia: D. séculos XIII-XVIII. que conjuga um corpo de três naves e transepto saliente românicos. mais facilmente. para D. para D. com a nova cabeceira. para D. era condição essencial para participar da corte celestial. e m. “Fundação de capelas na Lisboa quatrocentista: da morte à vida eterna”.º13-14. Gav. 93-94. m. n. n. mas com a profunda crença de que a proximidade das relíquias do mártir vicentino. vol. pela sua projecção no passado. Afonso Henriques e D.5. Pobreza e morte (…). os franciscanos de Santarém. 45).7. com frequência. tanto mais que o despojamento da alma. Sancho I. mais ampla. que não podia ser só moral. o mosteiro dominicano de Odivelas.3. 340341). Pedro. vol. na qual existia um compromisso mútuo entre o instituidor e a igreja829. e o assegurar de um destino idóneo aos bens do defunto. “através de um administrador do seu sangue” (Maria Ângela Beirante. na qualidade de promotor de uma obra. no edifício da Sé. bem como a possibilidade do monarca intervir.º58/59. de facto. A ligação de um fundador à sua capela começava.6. p. a abadia citerciense de Alcobaça. mas pela legitimidade do poder sacramental” (José Mattoso. Afonso II. As capelas e os aniversários por alma foram dos meios encontrados. p. Afonso IV e a Sé de Lisboa. “D. “A fundação de capelas. Afonso III e D.13.º5. Dinis. A escolha deste local não se relaciona com uma possível incapacidade da parte dos frades em interceder pelas almas régias. em termos de compromisso religioso. construída a partir de 1327.” (in Teresa Costa e Filipe Calvão. IV. como já referido. um claustro gótico. História e Crítica. Gav.1. 145). n. por um lado. pp. Há ainda que analisar as preocupações expressas aquando da atribuição dos bens terrenos.capacidades de intercessão dos clérigos das diferentes ordens religiosas existentes em Portugal. D. Fernando. elegeram como lugar de sepultura um Mosteiro ou Convento da sua devoção pessoal826. “através de sufrágios por alma dos progenitores e sepultura junto deles” e. in Lusitânia Sacra. 2006/2007. agora ao modo do Gótico.º4. Afonso IV quebrou esta tradição colectiva de eleger um mosteiro ou um convento como local de sepultura “indicando assim que prefere uma vinculação por assim dizer institucional a uma autoridade religiosa que não representa Deus pelos mesmos critérios. Dinis. um destino tranquilo no Além. 85-90). D. Porém. compreende dois objectivos aparentemente contraditórios: o bem da alma. Maria José Ferro Tavares. O exemplo de Évora”. in Arqueologia do Estado. fenómeno de origem medieval.

à frente das quais estão. dos quais podemos destacar a devoção que ambos os monarcas nutriam pelo mártir S. a arca com as relíquias do mártir encontrava-se no lado da Epístola. 834 227 . Beatriz seguiu o gesto de seu marido que escolhera aquele local para lembrar a sua memória funerária enquanto acto ilustrativo de um cuidado crescente na solenização da sua recordação individual. Rodrigo da Cunha. 2ª ed. pelo menos até ao século XVII: ”O certo é que nunca sairão da capella-mór. 96). Liv. sendo esta designada por Capella de S. assegurar que a sua lembrança não se perdesse no mundo dos vivos. a partir de meados do século XIII. p. “Lisboa foi a cidade onde D. Lisboa antiga. p. ou seja. por respeito. uma vez ser este o local “û o Corpo do Bemaventurado S. apesar das temporadas de Inverno em Coimbra ou em Évora. p. em frente. A vivênia da morte (…). vol. VI. Não deve ter ficado fora das cogitações do Bravo o facto de Lisboa se ter tornado. “D. apesar de ter a invocação de Sta. e conferindo um poder alargado aos leigos. bem como a importância atribuída por este monarca à cidade de Lisboa e à sua principal igreja. juntamente com o túmulo de D. por outro. 1934-1938. em contrapartida. sobretudo. pede aos capelães que lhe cantem para sempre. Beatriz e seu marido (Cf. por um lado. menos pelo mundo rural e mais pelos atractivos do mundo urbano de meados da centúria de Trezentos. Afonso IV e a Sé (…)”. Segundo Hermínia Vilar. Vicente832. Este tinha a obrigação de dotar a capela.. a igreja realizava uma missa quotidiana com um capelão próprio830. Segundo Júlio de Castilho. dos estratos nobres”831. 1642. 336. as parentais. destinadas a abrigar actos oracionais. Terão sido vários os motivos para esta inédita escolha. Afonso IV nasceu (a 8 de Fevereiro de 1291) e onde viria a residir com a corte. 19).” (in Maria de Lurdes Rosa.” (in D. demonstrar a sua individualidade e. parte II – Bairros orientais. “A morte e o Além (…)”. Vicente. Lisboa. que lhes permitia tudo organizar em função do objectivo da salvação da alma individual e suas associadas. D. Júlio de Castilho. no principal centro económico do país. Vicente jás”833. Manuel da Silva. nos diferentes testamentos. a construção de capelas foi um “apanágio. Lisboa. Ao eleger a Sé de Lisboa como última morada. II. mas também uma forma de o monarca deixar bem claro quem era o detentor do poder superior dentro no Reino834. os túmulos de D. T. I. Historia eclesiástica da Igreja de Lisboa. p. para além de encontrarem na urbe fortes apoios sociais à sua luta contra o poder da velha nobreza terra tenente. Câmara Municipal de Lisboa. p. Estas representavam um meio adicional de que os monarcas dispunham para. 417). Ainda hoje [1642] lá estão as relíquias com retábulo e túmulo. numa clara manifestação da sua preferência pelas principais cidades. Além disso. do lado do Evangelho. com largo avanço. “As capelas surgem assim como uma instituição ancorada em estruturas específicas. 144). 220. Gilberto.fl. Maria.imutável. mas também o facto de os sucessivos monarcas a terem paulatinamente transformado em sede da sua corte. 831 830 Hermínia Vasconcelos Vilar. 833 832 PHGCRP. primeiro bispo de Lisboa e.” (in Carla Varela Fermandes. as cidades transformaram-se no local privilegiado de A rainha. Em 1173 foram colocadas na capela-mor da Sé as relíquias deste Santo e aí se mantiveram.

por um lado. “Lisboa era. A escolha de uma igreja como local de sepultura pode estar relacionada com o facto de este ser o lugar onde se celebrava a missa. encomendando ainda os serviços religiosos perpétuos que garantissem a entrada no Céu. p. desde o reinado de D. 30. D. D. T. n. Mendes da Cunha Saraiva considera que esta neta de D. entre os membros da realeza. a cabeça do reino e a cidade do rei. como já referimos. Beatriz838.º3.63). 7. que terá nascido em “fins de Julho ou princípios de Agosto de 1348” e que terá falecido em 1354 (J. mas também porque albergava o local do sacrifício eucarístico. por outro. “D. 1981. Beatriz é filha da rainha de Aragão. o local eleito pelos reis D. símbolo do poder religioso da urbe. e o tempo da ascensão das oligarquias urbanas. 835 O reinado de D. in Nação Portuguesa. aspectos vários” in Clio. ordenou que levassem a ossada de sua neta. 255). Afonso IV. J. No tempo do Bravo. Beatriz para perpetuar a sua memória. Sendo prática comum. p. Beatriz fizeram pela cidade de Lisboa e pela Sé. espaço sagrado por excelência e onde se encontravam depositadas as relíquias vicentinas. Talvez a união familiar fosse para a soberana muito importante. Beatriz pretendeu repousar na solidão do desconhecido. série IV. para local da sua sepultura. “O túmulo duma infanta na Charola da Sé de Lisboa”. Dinis. n.º. Assim. Afonso IV e D. estava à altura de receber os corpos do soberano e da sua mulher. tornava-se também a cidade do rei. p. 144). designar o indivíduo com quem se pretendia partilhar o espaço funerário. cada vez mais poderosos e que conferiam à cidade uma nova realidade económica835. seguindo um costume vigente na época. Revista do Centro de História da Universidade de Lisboa. cada vez mais. p.” (in Carla Varela Fernandes. para glorificar e perpetuar a memória dos monarcas. Mendes da Cunha Saraiva. Afonso IV e a Sé (…). 838 837 836 228 . assistimos à existência de uma importante oligarquia urbana na qual floresciam sectores ligados ao comércio (interno e externo). nela. o poder exercia-se cada vez mais nas urbes e Lisboa assumia. o altar837. Leonor. só a catedral. A Sé de Lisboa foi. Maria Fernanda Maurício. que D. E. que vive à sombra do rei (diferente da antiga nobreza terra-tenente do Norte). “Os testamentos régios (séculos XII a XV). foi com um familiar próximo. o cônjuge. Afonso IV é “o tempo da nobreza de corte. Revista de Cultura Nacionalista. II. E. Deste modo. não surpreende a escolha que D.recrutamento de funcionários indispensáveis para o prosseguimento da política de centralização régia. Por trás desta opção estiveram razões de ordem devocional836. Afonso IV e D.” (in Bernardo Vasconcelos e Sousa. mas sobretudo de ordem política. uma nobreza de espada. um papel central entre as restantes cidades do reino e. D.

a salvação da alma estaria a ser cuidada através da realização de missas” (in Manuela Santos Silva. bem definido o local e as pessoas junto de quem queria ser sepultada. por outro. 115). a preocupação centrava-se no ofício divino. ao longo dos tempos. pp. deveriam ser cumpridos para garantir a entrada no Céu. Beatriz entregou aos franciscanos de Bragança. Após a encomendação da alma e da disposição do corpo. 110. ou seja. através da oração. a manutenção da linhagem dos vivos na sociedade dos mortos. Não nos podemos esquecer que a redenção nunca estava assegurada. se limparem os males feitos em vida (…) considerou-se como absolutamente imprescindível garantir que. Deste encargo eram muitas vezes incumbidos os monges e os frades mendicantes. Era. pretendendo. o ajudavam a alcançar a bem-aventurança celeste. A rainha deixou. o marido e a neta. p. mandava entregar algumas das suas posses àqueles que. a companhia de familiares próximos e queridos. tanto no acto da morte como nas orações e rituais que. a prática de sufrágios e referências litúrgicas várias pelos defuntos constituíam cerimónias privilegiadas de intercessão e de expiação que se traduziam em recompensa espiritual no Céu842. Francisco de Santarém. D.16. n. p. “Contribuições para o estudo (…)”. Apesar de o significado e a forma terem variado ao longo dos tempos. Através do compromisso expresso pelo testamento. “Morrer e testar (…)”. a contiguidade das pessoas que marcaram o seu quotidiano constituía uma tentativa de recomposição da estirpe após a morte. necessário garanti-la.º4).sepultada no Convento de S. 840 839 Hermínia Vasconcelos Vilar. 50-54. “Contribuição para o estudo (…)”. por um lado. Gav. o culto dos mortos surge ligado às origens da Igreja841. p. 154-169. O homem deveria aproveitar os seus bens materiais para conseguir a salvação da sua alma. demonstrar a união e o poder dessa mesma linhagem e. Desta forma. Nesta ordem de ideias. m. após a morte do corpo. assim. para junto de si839. principalmente através das missas e das orações843. configurar para os “defuntos uma forma de obtenção de força para enfrentar o desconhecido que os esperava”840. Hermínia Vasconcelos Vilar e Maria João da Silva. através da oração de outrem (…). 841 “A partir do momento em que a igreja concedeu aos pecadores a possibilidade de. Coimbra. Procurou. pois. deste modo. “Façam alo levar a ossada da Infanta Dona Beatriz mha neta que jaz en Sam Francisco de Santarem e a metam no moymento en que eu jouver comygo” (TT. 229 . 843 842 Manuela Santos Silva. A vivência da morte (…).1. Assim.

6. 849 848 847 TT. Estão associadas ao ritual da morte porque iluminavam a alma no caminho para Deus. 2ª ou 3ª ordem. sem qualquer dúvida. Veja-se Hermínia Vasconcelos Vilar.Covilhã. Assim. eram símbolos de esperança. 846 “Os saimentos ou procissões fúnebres consistiam em cortejos mais ou menos longos em torno das igrejas. de Oliveira Marques. “Morrer e testar (…)”. daí que a rainha mandasse que o oitavário850 e o trintário851 fossem 844 TT. mandam os monarcas que sobre os seus “moimentos” sejam colocadas lâmpadas de prata que ardam sempre849. O culto dos mortos apresentava dois ciclos principais. n.º16. sucediam-se amiúde ao longo dos meses as intercessões. p.3. Estes cerimoniais tinham uma realização cíclica.º18 e m. as missas.º4. As lâmpadas.1.m. e algumas vezes se omite a própria comemoração. cujo 230 . 52.16. No caso que nos ocupa. Lisboa e aos dominicanos de Guimarães e de Lisboa a tarefa de rezarem pela salvação da sua alma [QUADRO XIII]. durante os quais se reza cada dia o ofício da respectiva festa ou pelo menos se faz dela comemoração. Gav. m. Gav. Deste modo. por sufrágio dos falecidos (…) Os sacerdotes empunhavam a cruz e aspergiam de água benta os adros e os cemitérios” (in A. Guimarães.º33). n.m. p. as missas foram. Guarda. fossem elas de requiem. os ritos mais requeridos nos testamentos846. nota n. A vivênia da morte (…). 217). 208. A sociedade medieval (…). Ainda durante o primeiro ano. estes rituais cingiam-se a um número restrito de cerimónias básicas845. pelo cantar de determinadas orações ou pela manutenção de lâmpadas848. simples. Obrigação igual existe no testamento de 1358. além de funcionarem como fonte de luz. onde tomavam parte clérigos e também populares. após os ritos do enterramento. n.1. sem dúvida. Assim. comuns. cujo ofício só se reza nos dias em que ocorrer outro de rito simples. “Espaço de oito dias de solenidades ou festas religiosas (…). as missas de diferentes tipos e as pitanças aos mosteiros e conventos davam lugar a um variado número de cerimónias que tinham início a partir do momento em que a rainha daria o seu último suspiro [QUADRO XIII]. 845 Segundo Hermínia Vasconcelos Vilar e Maria João da Silva “as cerimónias mais requeridas após o enterro eram.” (in Hermínia Vasconcelos Vilar e Maria João da Silva. a soberana ordena que “ se ponha na capella hu el rey e eu jouvermos de hu cantarem os seus capellães e os meus de guisa que aas festas principaaes e aos outros dias quando conprir paresca sempre na capella hu el rey e eu formos enterrados”844. Lamego. p. através da qual se pretendia a recordação perpétua do falecido. Distinguem-se os oitavários em categorias: privilegiados de 1ª. por “saimentos”847. Apesar da sua multiplicidade de formas. oficiadas ou caladas. H. sendo que um se estendia ao longo do primeiro ano e era normalmente preenchido por missas. 850 Oitavário – s.

tornando-se. 1993.1. TT. Gav. “Trintário”. de modo a que fossem doze aniversários por ano853. 59). fls. essencialmente.O trintário impôs-se como um dos sufrágios mais populares entre os crentes. Por isso. 2ª reimpressão.celebrados logo após a sua partida [QUADRO XIII]. 617). por um número bastante mais reduzido de ritos. pelo número de trinta missas. in Elucidário das palavras. que se limitavam. Por cada aniversário o cabido recebia em troca dez libras portuguesas da moeda que naquele tempo corria em Portugal854. p. Trintário – s. Liv. “Exéquias que se faziam no dia trigésimo. vol. Leitura Nova. 853 852 851 TT.m. TT. As caendas eram as comemorações que se faziam no primeiro dia de cada mês por algum defunto ou defuntos (cf. Livraria Civilização. e que não tem comemoração nos outros dias” (in GEPB.3. constituindo estas uma das melhores formas de não deixar cair no esquecimento a memória do defunto855. o julgamento individual seria efectuado logo após a morte. ordinariamente. Livraria Civilização. Era às instituições religiosas que pertencia a obrigação de rezar os ofícios por aniversário dos seus benfeitores. Os testadores pediam mais sufrágios nos dias imediatamente a seguir à sua morte porque. n. m. que o cabido de Lisboa fizesse. pela alma de algum defunto” (in Joaquim de Santa Rosa de Viterbo.º16. II.6. Porto. em geral. Porto. Francisco de ofício apenas se recita no oitavo dia. quando ocorrer outro de rito simples. o finado passa definitivamente para o mundo dos mortos. Liv. vol. fl. o cabido devia ir sobre os sepulcros régios com cruz. um aniversário por mês nas caendas852 do mês. ditas sucessivamente e sem interrupção. Este ciclo era também marcado pelas missas nas festas principais. contado desde aquele em que alguém faleceu da presente vida. 2ª reimpressão. 854 855 231 . “Caendas”. Com a missa do primeiro ano. Este ciclo comemorativo deveria ter início no mês seguinte ao falecimento. a rainha mandou. incenso. termos e frases. aquando da instituição da capela. seguindo a crença vigente. p. Os monarcas ordenavam ainda a reza de duas orações: Deus em proprivini est misere e Quesumos doe. in Elucidário das palavras. vol. 11 da Estremadura. a missas de aniversário. Foi ainda estipulado. que os frades do mosteiro de S. II. água benta e dizer responso cantado. Esta acumulação de cerimónias em doze meses é o reflexo da importância da crença de que a entrada definitiva do defunto no mundo dos mortos só se concretizava após o primeiro ano.º18 e m. p. n. Terminada a missa. O segundo ciclo do culto era marcado. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo. 11 da Estremadura. Leitura Nova. em 1357. 1993. era necessário interceder pela alma o mais rápido possível. termos e frases. XIX. 258). para assegurar a salvação da sua alma e obter o perdão das suas faltas. 286v-287v. 286v-287v. após a morte dos monarcas. No entanto.

Gav. 1982. as outras missas deveriam ser todas de requiem caladas. principalmente pela acção dos Mendicantes. cantarem responso e rezarem duas orações Deus. p. Lisboa. Assim. que seria por Santa Maria. foi solicitado um colégio de dez capelães. água benta. os capelães deviam rezar onde “nos jouveremos” todas as horas canónicas a seu tempo e quando o cabido saísse “de cada huas horas”.1. A. 382). assim como no oitavário. sessenta libras a cada um às terças do ano. Estampa. cui proprium e Quoesumus Domine.16. mas a rainha ordenava que a lâmpada de azeite estivesse no coro [QUADRO XV]. ainda. Homenagem a A. I – séculos X-XV. e esta ser do dia. que no dia da sua morte. Ordenou. m. A estes capelães mandavam dar. (…) A missa da capela era muitas vezes seguida de responso e orações e aspersão da sepultura com água benta” (in Maria Ângela Beirante. assim se iluminando o recinto sagrado. que os seus capelães cantassem sempre na capela onde ela e o rei estivessem sepultados [QUADRO XIII]858. 858 857 232 .Lisboa lhe disessem em cada dia um responso e que “me encomendem a Deus en todalas misas e horas que disserem”856. Mandou. o caminho que a alma deveria percorrer. Estipulavam que os clérigos que integrassem este grupo deveriam ter pelo menos quarenta anos. de boa vida e que “saibaõ bem o officio da Santa Igreja”. em cada ano. Afonso IV. m. no final de cada missa calada deveriam fazer 856 TT.1. Gav. excepto ao Sábado. Assim. Beirante. durante a vida dos monarcas deveriam dizer todos juntos diariamente uma missa cantada. Ed.16. de bons costumes. cinco pela rainha e cinco pelo rei.º4. H. a rainha procurava garantila com as disposições necessárias que deveriam ser cumpridas pelos membros da Igreja. simbolicamente. quais as orações que se pretendia que fossem rezadas. serem honestos.º4. Segundo M. após a missa deviam dirigir-se aos monumentos fúnebres dos monarcas com cruz. Beatriz e D. de Oliveira Marques. no aniversário e no dia da sua trasladação se associassem os frades de todas as Ordens Religiosas para lhe fazerem honra e rezarem uma missa oficiada [QUADRO XIII]. que cantassem na capela para sempre uma missa diária pelas almas de D. mas também. com muita precisão. Esta disposição era também referida no testamento de 1358. no trintário. vol. TT. Estas ladainhas eram acompanhadas pelo arder de “hua lampada de prata (…) d’azeyte (…) de guisa que arca (sic) para sempre assy de noyte como de dia”857. “a capela incluía celebração quotidiana da missa (…) e a recitação das horas canónicas no coro da igreja. in Estudos de História de Portugal. pois. Ficou ainda estabelecido. n. Como a salvação não estava assegurada à partida. “Para a história da morte em Portugal (séculos XII-XIV)”. n.

862 233 . p. de Carlos Moreira Azevedo. TT. quase sempre. Beatriz doou. “Salvação individual e o culto dos antepassados: a fundação de capelas de morgadio nos séculos XIV e XV”. capelas familiares e suas formas de organização)” 859 . dir.1. pp. Seguindo uma tradição que se encontrava nos testamentos mais antigos. 2ª série. de José Mattoso. de Bernardo Vasconcelos e Sousa. Francisco de Lisboa a sua cama mor e uma vestimenta perfeita862. Círculo de Leitores. n. Lisboa.º4. coord. Veja-se. m. D. Sobre a religiosidade dos leigos veja-se Maria de Lurdes Rosa.adoração de Santa Maria. cortejos fúnebres. dir. “Sociabilidades e espiritualidades na Idade Média: a historiografia portuguesa sobre os comportamentos religiosos dos leigos medievais”. vol. in História da vida privada em Portugal. Â. sempre presente. Beirante. p. I – Formação e limites da cristandade. 376380. dos mártires e de todos os fiéis em sacrifício. coord. Lisboa. mas também para sufragar as almas.º832. Estas dotações para a manutenção dos sufrágios colectivos pela alma do dotador Maria de Lurdes Rosa. rezando em cada uma um Salve sancta parens ou Rorate Coeli. M. D. Gav. 376). n. com laços fortíssimos com o terreno – os mortos pelos quais se rezava. principalmente as pp. a outorga à instituição religiosa de um bem que sustentasse os custos desse rito e assegurasse o cumprimento da celebração861. 2010. vol. “Sagrado. Beatriz procurou preservar a sua memória através do uso específico de práticas religiosas correntes e que deixou muito bem expressas nos seus testamentos.” (in Maria de Lurdes Rosa. Segundo Maria de Lurdes Rosa. A manutenção das cerimónias de intercessão pela alma do falecido implicava. e como legado simbólico. que circulavam. nem das estruturas materiais que proporcionavam a realização dos actos públicos da morte (exposição do corpo. “E existia. 2000. 16. um mundo do Além. in Lusitânia Sacra. 487. os santos que tinham poder de intercessão. 75-124. in História Religiosa de Portugal. Este elevado número de missas e de orações estipuladas obrigava a uma recordação quotidiana dos fundadores das capelas860. de Ana Maria Jorge e Ana Maria Rodrigues. os méritos de Cristo. em 1357. Também no final de cada missa calada deveriam ir aos “moimentos” régios com água benta e dizerem responso calado com Pater noster e com as ditas orações. devoções e religiosidade”. A dotação da sua capela funerária revelou-se uma das preocupações que a rainha teve nos seus dois testamentos. Círculo de Leitores. ao Mosteiro de S. 861 860 859 Veja-se nota supra n. anulando as penas. Todos estes rituais eram utilizados para preservar a memória do defunto. I – A Idade Média.º21. 2009. Observando o QUADRO XIV verifica-se que os bens doados à capela régia eram todos eles objectos de prestígio. “Para a história (…)”. “as obrigações pias não devem ser desligadas das indicações fúnebres.

os produtos das oficinas flamengas. rainha de Aragão. nota-se uma maior proximidade dos leigos face às ordens franciscanas. mas também castelhanas e italianas. Muitas vezes. A sociedade medieval (…). A sociedade medieval (…). m. representativos das duas coroas às quais a rainha estava ligada por laços de sangue. A. talvez. e IDEM. após a inumação na Sé de Lisboa. os têxteis produzidos em Portugal eram. vol. n. Isabel Castro Pina. A vivência da morte (…). Afonso IV. pp. que. p. A partir do século XIV. como já referiram alguns autores865. A colcha é ilustrativa da consciência de grupo e da afirmação ideológica patente nas principais linhagens medievais. 106. Ordenou que. Hermínia Vasconcelos Vilar. no qual mandou colocar três alfolas (colchas) novas feitas de panos de Granada864 [QUADRO XIV]. Era. pois. IV. Leonor. esquecidos.1. provocada. Mas a soberana não esqueceu o monumento do seu marido. sobretudo. devido à sua grande devoção a S. Beatriz pela sua filha D. 865 864 234 . Francisco. H. As disposições relativas ao monumento são muito semelhantes nos testamentos de 1357 e 1358 [QUADRO XIV]. pela proximidade que teve com a rainha Santa Isabel e com as clarissas de Santa Clara de Coimbra. Ambos eram decorados com sete escudos preenchidos com armas de Castela e de Leão. Nova História de Portugal. constatando-se. Exceptuando alguns veludos e sedas. Este era o espaço sagrado no qual ficava guardada a memória do prestígio. 211. 23-62. Isso mesmo sucedeu com a mulher de D. por regra. pp. Gav. Como já referimos. o que pressupunha essa dimensão comunitária. necessário importar os bons tecidos destinados ao vestuário. principalmente por parte das mulheres. H. inglesas. de Oliveira Marques. era impensável manter a caritas. De entre os vários países exportadores de boas manufacturas encontravam-se. o tecido era designado pelo nome da cidade onde havia sido fabricado. Sem ela. p.º4. p. panos de inferior qualidade (buréis ou estamenhas). Este pano foi oferecido a D. “Ritos e imaginário (…)”. A decoração dos túmulos e da própria Capela não foram. se colocassem sobre o seu moymento a “mha colcha assynada de castellos e de leoes e o pano que eu mandey fazer” 863. de Oliveira Marques. 466-470. Sobre o vestuário medieval vejam-se os estudos de A. a principal preocupação de D. a tomada do hábito destas ordens religiosas após a morte. da antiguidade e da história familiar do régio casal. Beatriz foi a escolha do local da sepultura. rogou aos frades 863 TT. 16. 130. uma vez que a salvação eterna dependia dos sufrágios e da oração dos vivos.devem ser vistas também como forma de ligação à sua comunidade. assim.

e q’ me enterrem no meu moimento. a opção de “tomar o hábito” mendicante por parte de pessoas que durante a vida não tinham professado a regra é bem elucidativa de “um acto propiciatório para a obtenção da salvação”867. desde os inícios do século XIII. Jacques Le Goff aponta como data para o nascimento doutrinário do Purgatório como lugar o ano de 1254 (in Jacques Le Goff. p. p. Foi necessário esperar pela redacção dos testamentos e codicilo desta rainha para compreendermos uma parte das suas práticas religiosas que estariam talvez ligadas à Observância mendicante. O nascimento (…). Estas características inseriam-se no propósito de atribuir a D. o qual moimento eu mando. p. 870 869 868 Carla Varela Fernandes. Crónicas dos sete primeiros reis de Portugal. Na centúria de Trezentos. p. e eu ouvermos de jazer. q’ eu mandei fazer. devocionalmente dinamizado pela pregação dos Frades Menores. porém ainda não se haviam fixado na sua localização definitiva869. certamente por influência de D. 344). q’se ponha em aquel lugar e Capella hu o dito Senhor Rey. uma vez que as almas do Purgatório necessitavam das orações e das esmolas dos vivos para a expiação dos pecados. II. em quanto se acabava sua sepultura. Segundo os testamentos da rainha. Foram somente os cronistas posteriores que relataram a estreita ligação existente entre D. 871 235 . Memórias de pedra (…). O mundo urbano encontrava-se. os sarcófagos régios já se encontravam concluídos. p. Beatriz são muito escassas na documentação. Os intercessores privilegiados. Beatriz e a rainha Santa Isabel. vol. 867 866 Hermínia Vasconcelos Vilar. A vivência da morte (…). Isabel a imagem de uma rainha cujas excelentes virtudes éticas e espirituais se prolongavam entre aqueles que a acompanhavam. hordenaram suas sepulturas”871. Como já referiu Hermínia Vilar. 329). Isabel. homde ele e a Rainha sua molher. “Primeiramente mando o meu corpo enterrar em aquel lugar e Capella. talvez devido às obras de conclusão da cabeceira da Sé. Rui de Pina deu notícia sobre a provisória sepultura do rei: “ffoy seu corpo sepultado no coro da See de Lixboa. Foi apenas neste momento que foram colocados Como já afirmámos. Porque ele tynha feyto seu solene testamento (…) em que mamdou que na dita See o sepultasem na Capella mayor. a crença no Purgatório868 veio acentuar a ligação deste com o céu e com o inferno. 31. o qual tenho na See de Lisboa. exaltando sempre a conduta moral e as vivências religiosas. Affonso meu Senhor a q’ Deos perdoe jaz ou ouver de jazer. João I870. Beatriz.que lhe dessem o seu hábito para ser sepultada866. que se iriam prolongar até ao reinado de D. como era o caso de D. as informações relativas à vivência mais íntima de D. hu el Rey D.” (in Testamento de 1358. porque eram os “detentores” do sagrado na Terra. entre os vivos e os mortos. 372. eram os clérigos e os monges ou frades. 106.

“D. não apresentavam as ditas janelas geminadas. 873 872 PHGCRP. Para manter todas estas indicações dos monarcas era necessário um provedor e financiamento adequado. escusado de ter cavalo. Sobre a administração da capela de D. Foi esta a forma concreta que a consorte encontrou para organizar a sua piedade e devoção. afirmar que a fundação da capela de D. uma vez que iam directamente ao rei.I. com todos os seus direitos e pertenças. Beatriz e D. II.definitivamente. Afonso IV. Vicente. Beatriz e D. Pedro de que os alvazis régios não deixavam as apelações dos feitos cíveis de Viana do Alentejo ir ao provedor. assim. Gilberto (do lado da Epístola). nem sequer qualquer porta. Liv. Assim. 874 236 . que foram então dispostos do lado do Evangelho e em frente ao relicário de S. Afonso IV e de D. Tinha como obrigação zelar pelo cumprimento e perpetuação das últimas vontades. excepto os feitos criminais que pertenciam ao monarca e os civis que deveriam primeiro ser apelados para o provedor que fosse do hospital e capela. porque se destinavam aos túmulos régios de D. mas também apresentar contas ao rei de Portugal874. após a morte de ambos os monarcas. p. bem como o túmulo do bispo D. o Arquivo da Casa da Coroa. deveria ser um homem de Lisboa bem rico. A escolha do provedor tinha de obedecer a um conjunto de características estipuladas previamente pelo régio casal. O monarca. Esta atitude contrariava a doação da consorte na qual concedeu Viana àquelas instituições. mas permite colocar a hipótese de ter sido adoptada a mesma solução para os tramos dos túmulos régios. bem como de se apresentar às hostes.” (in Carla Varela Fernandes. Após a morte de ambos os monarcas a escolha do provedor ficava a cargo dos reis vindouros. A sua função era muito importante. que se queixou ao rei D. Beatriz revela um projecto consistente e de grande empenho pessoal que se demonstrou caro e trabalhoso. Quanto ao primeiro. uma vez que lhe competia. e dele para o rei. de ambos os lados. 148). Podemos. Vicente872. p. No ano de 1360 era provedor do hospital e da capela da rainha D. 339. estava incumbido. “de boa nomeada”873. Afonso IV veja-se no Arquivo da Torre do Tombo. Esta última afirmação só se pode confirmar documentalmente para o tramo correspondente à arca das relíquias do santo e ao túmulo do bispo. T. os túmulos de D. de manter todas as diretrizes definidas pelos fundadores. que deveriam também zelar pelo cumprimento destas vontades. na capela-mor. na terra. Beatriz Vasco Eanes. assegurar o bem-estar do morto no Céu. Afonso IV e a Sé (…)”. porque eram abertos e protegidos por grades. vendo “Os dois tramos seguintes. Beatriz (do lado do Evangelho) e ao túmulo-relicário de S.

Os administradores iam-se sucedendo. no ano de 1362. inteirando-se da perda e do dano causado à capela e hospital de sua mãe. promover obras pias ou realizar saimentos. cavaleiro. Foram os rituais da memória bem patentes nas fundações perpétuas que permitiram fazer perdurar no espaço e no tempo a lembrança da nossa consorte. Pedro I. a qual nunca fora coutada. é também nítido o elo entre o património dos antepassados e a intercessão por sua alma. Beatriz. pois eram entendidas como um encargo do seu chefe. o provedor do hospital e da capela. E era ao herdeiro do trono que competia a gestão do culto dos mortos da sua linhagem877. 439. era condição sine qua nom deter riqueza e poder social. p. 877 237 . O sufrágio das almas e a preservação da memória eram feitos de acordo com o estado e a condição de cada um. por si só. os lavradores de Viana queriam sair da vila e deixar as herdades que aí tinham porque iriam receber daquele cavaleiro muitos agravos. extremamente significativa da sua posição como representante actual dos antepassados. mandou aos alvazis que as apelações dos feitos cíveis fossem enviadas primeiramente ao provedor875. mandou que a quintã fosse descoutada como sempre tinha sido876. 875 Chancelaria D. Deste modo. mas mantinham sempre a mesma preocupação: zelar pelas disposições de D. 655. Para isso. Pedro I. Chancelaria D. foi necessário apelar ao rei relatando os abusos cometidos e recebendo em troca privilégios para os moradores das terras afectas à capela e hospital. 481). O monarca. Gonçalo Domingues. Ao mesmo tempo. a capela e o hospital perderiam as rendas essenciais para a sua manutenção. doc. Para fundar capelas. 876 “Esta responsabilidade é. Era a religiosidade que impulsionava a redacção das disposições testamentárias. podemos verificar como as cerimónias de recordação e propiciação funcionavam como elemento agregador da família. disse ao monarca que após D. doc. as desigualdades na vida correspondiam às desigualdades na morte. ficando em perigo o cumprimento das últimas vontades de D.” (in Maria de Lurdes Rosa. tal como fizeram os provedores nos exemplos acima analisados. Beatriz.que a vontade de sua mãe não era cumprida. Assim. Mas os problemas com a vila de Viana continuavam. “A religião no século (…)”. mas o poder e a riqueza eram determinantes na perpetuação da memória. Ou seja. Pedro ter coutado a quintã de Água dos Peixes a Vasco Martins.

372. n. a rainha fez doação perpétua desta vila para que os rendimentos auferidos mantivessem para sempre a sua capela e o seu hospital882. A vila de Viana do Alentejo foi doada. I. pelo rei D.13. Gav. vol. 11 da Estremadura. bem como a manutenção dos homens e mulheres pobres do hospital884. no mesmo ano. 131-132).º4. TT. p.1. tornara para a Coroa. n. Liv. Mais tarde. fl. e jurdições. a rainha pediu ao novo monarca “que lhe outorgasse pera ssenpre a dicta meatade de que lhe o dicto meu padre ffezera doaçam em djas de ssa vida pêra os dictos sseus 878 Crónicas dos sete primeiros reis. 28. n. mas também com toda a jurisdição cível880. n. sucedida em fins de 1312 ou pouco depois.º4. m. E porque ha dita Capella mor da See (…) o dito Rey D. Já no reinado de D. que por sua vez a concedeu à infanta D.º4. Beatriz.Sobre o financiamento. Segundo a doação régia feita “em djas de ssa vida dela”.7.” (in BSS. vol. 288.º5. Beatriz e D. Gav.”878. juntamente com Terena. em 1314. m. Gav. Liv.13. II. com deuotas e samtas ymstituyções se mamtem e guovernam ymteyramemte.1.6. fl. n. Esta vila havia sido. e teras. sua mulher. Gav. Leitura Nova. Leitura Nova. por suas louuadas memoryas e por gramde mereçymemto de suas almas amte Deos. m.6. Afonso IV à rainha sua mulher todos os bens herdados pelo monarca de seu irmão Fernão Sanches. 880 879 TT. como a todos he notoryo.º5 e m. Martim Gil.º5 e m. 6 de Místicos. “e por sua morte. TT. esta doação foi concedida com o padroado das igrejas. A única condição imposta pelo infante era que.4. 2º conde de Barcelos. Dinis879 ao seu filho e herdeiro do trono. a terra ficasse para a coroa do reino881. aquando da morte de D. Pedro. localizados em Santarém e seu termo883. TT. relata-nos Rui de Pina que a rainha e o seu marido dotaram a capela e o hospital de rendas e jurisdições: “E ymstituyram as capelas e merçearyas que depois ate guora. 881 882 883 884 238 .5. Afonso IV. Como já analisámos anteriormente. porque eles ambos loguo pera sempre as dotarão de muytas remdas com vylas. n. seria com os rendimentos auferidos que se deveriam manter os capelães que asseguravam a celebração da missa na capela pelas almas dos monarcas. TT. Afomso a mamdou ffazer mayor e em mays perfeyção. pp. TT.7. m. pertença do conde D. Concedeu também D.

886 887 888 239 . 319. uma vez que o rei D.”888 Pouco tempo antes de morrer. doc. doc. algumas das herdades pertencentes à capela e hospital encontravam-se. refere os privilégios dos caseiros e foreiros “pella guisa que o som os caseyros e foreiros moradores nos lugares que perteencem e som das capeellas del rrey dom afomso meu padre E da Rainha dona briatiz mjnha madre”886. D. seu filho. Foram os rendimentos obtidos da exploração desta terra que permitiram aos testamenteiros e administrador da capela e hospital pagar todos os encargos afectos a estas instituições. a rainha solicitou ao rei D. encontravam-se em demanda perante as justiças régia. Além da vila de Viana. Pedro I. Constança. Deste modo. a rainha queixou-se ao rei que os lavradores e povoadores das quintãs. ficando em risco o mantimento dos capelães e pobres. Pedro. Pedro fez a doação dos bens para sempre. que ambas as instituições pudessem vender bens móveis e de raiz. Chancelaria D. doc. 1001. Pedro I. Chancelaria D. o que acarretava um avolumar de despesas que não eram pagas. doc. ao coutar uma quintã de Azeitão cujas rendas eram para manter a capela da infanta D. D.spital e Capelas poderem sseer manteudos”885. uma vez que ainda em vida recorreu ao rei D. por vezes. Pedro ordenou que “os proueedores que oram som dos dictos spitãaes e capeellas e forem daquj en diante posam per seu porteiro mandar uender por as diujdas dos dictos spitãaes e capeellas assy como uendem por as mjnhas os beens mouẽes a noue dias e a Raiz per tres noue dias. 1205. tal como estipulado em seu testamento. vinhas e herdades que estavam anexos ao hospital e capela 885 Chancelaria D. Assim. para obter dinheiro que pudesse manter as despesas das instituições. Pedro I. A preocupação da rainha por estas fundações é notória. para que se pudessem manter os capelães e os pobres do hospital e capela. arrendadas. 1204. seu filho. de modo a serem mantidos os capelães e os pobres. mas nem sempre o provedor conseguia obter as rendas “aos tempos que as os dictos arendadores ham de pagar”887. Pedro. Chanclaria D. outras terras deveriam estar ligadas à capela e hospital para seu mantimento. Pedro. Pedro I. Perante esta situação.

D. Pedro I. com o intuito de satisfazer as necessidades da capela de seus avós. 890 891 240 . A vila deve ter sido trocada por um conjunto de bens. deste modo.para mantimento dos capelães e pobres eram vítimas de extorsão de homens poderosos. Os monarcas que foram ocupando o trono do reino mantiveram a preocupação de zelar pelos interesses da capela e hospital instituídos por D. João Afonso Telo. por 889 Chancelaria D. antes do novo proprietário ter a possibilidade de pagar alguma coisa pelo bem adquirido. retiravam-lhes os mancebos e os filhos que com eles viviam e entregavamnos a outras pessoas. foi metida em pregão uma lezíria que Pedro Cabea tinha. tiravam-lhes roupa. doc. Chancelaria D. devia pagar às instituições trezentas libras da moeda antiga todos os anos. no ano de 1376. Fernando. acumulando. No entanto. I. mas havia três anos que não pagava. lenha. Por este motivo. essas terras não podiam ser lavradas e aproveitadas como deviam e. de maneira a que os referidos lavradores tivessem total liberdade para morar. o irmão de D. p. não eram pagos aos capelães e pobres os seus mantimentos. João I quando soube que um indivíduo. doc. assim. Porém. Perante tamanha adversidade. a fazerem diversos serviços. BSS. Fernando. João I. Assim. talvez de menor monta. 349. Beatriz. Beatriz e seu marido. além de “que os constragem outrossy que uaao com presos”889. galinhas e outros bens. 133. 349. O rei sentenciou que nenhum lavrador das ditas terras sofresse opressão da parte de poderosos. o infante faleceu e a capela não foi satisfeita como deveria ser. Devido a estes incidentes. de modo a que pudessem garantir a manutenção dos capelães e dos pobres890. por esse motivo. Vejamos como actuou D. 1º conde de Viana. o monarca. João I ordenou que “às Capelas voltassem e fôssem restituidos todos os prédios delas alheados no reinado de D.”891. mas também os constrangiam a morar com outrém. Esta vila pertenceu ao condado de D. uma dívida de novecentas libras da moeda antiga. esta rica povoação da alçada das instituições a que fora vinculada. contra suas vontades. saindo. Após a morte da rainha D. tomou para si e para a coroa a referida lezíria. lavrar e aproveitar as terras afectas à capela e hospital. Pedro I. Pedro Cabea. palha. com o objectivo de. vol. uma vez que D. a vila de Viana e as suas rendas para mantimento da capela voltam a fazer correr tinta nos diplomas medievais.

vinte e sete mil e quinhentas libras. 894 893 892 Chancelaria D. filho de Rodrigo Esteves. de que o monarca recebia o terço do quarto. Isabel Fernandes. por outro. I/I. catorze mil e cinquenta libras. Estevão Domingues. Duarte I. doze mil e quinhentas libras. O monarca reiterava ainda que a capela tivesse para sempre os referidos casais. D. Mor Fernandes havia no condado de Alverca (Cf. Catarina Esteves. Lourenço Domingues. Álvaro Pais dava de foro treze mil libras. Instituto Nacional de Investigação Científica/Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa. Luís Lourenço. seis mil libras. com o consentimento do provedor das capelas. que prontamente o monarca procurou obter. conqueiro. Uma vez mais. esta alienação necessitava da aprovação da cúria de Roma. boticário. outro casal que chamavam de Vicente Albarvas. pagava de foro cinco mil libras. treze mil e quinhentas libras. Pedro de Meneses. mercador. Lisboa. 1021). de acordo com o provedor. criado de João Afonso. outro casal à porta da Ilhanda. Vicente Rodrigues. três mil libras. ficou Viana separada da Capela e Foram esses bens: umas casas que foram de D. João de Arouca. sapateiro. como contrapartida. D. João Eanes. treze mil libras. mulher de Steu Eanes. Duarte fez doação para sempre da referida vila de Viana ao 2º conde de Viana. picheleiro. Lourenço Eanes. libertar a alma do irmão e. Álvaro Peres. Os moradores destas casas deviam pagar ao provedor das instituições o seu foro todos os anos no dia de São João Baptista894. conqueiro. o Papa escreveu ao bispo de Silves para que o rei concedesse às instituições proventos que em cada ano dessem de rendas sessenta coroas de bom ouro e justo peso. azeite e de frutas que D. dava de foro dezassete mil e quinhentas libras. mercador. Vasco Vicente. capitão e governador da cidade de Ceuta. 1998-2002. vinte mil libras. quinze mil libras. sapateiro. D. comprometeu-se com o Papa. conqueiro. de que o rei recebia o quarto do terço. doc. dezoito mil e quinhentas libras. 241 . vinte e cinco mil libras e cento e vinte e cinco soldos. 559). Mor Fernandes. Assim. João Regalados. doar à capela a dita lezíria e todos os bens que tinham sido de D. D. quinze mil e quinhentas libras. sapateiro. Leonor Vicente. 559. Álvaro Afonso. conqueiro. seu almirante. Inês Bernaldes e Gil Eanes. (Cf. doc. criado de Afonso Fernandes. assim de pão como de vinho. Catarina Eanes. Duarte. Maria Eanes. I/I. em conceder à capela posses e bens de raiz que corresponderiam aos rendimentos recebidos. outro casal de João Gonçalves. catorze mil e cinquenta libras. Estevão Domingues. mulher que foi de João Eanes. localizados no condado de Alverca892. e todos os outros bens e herdades. dava de foro quatro mil libras. “onde se chama a porta do ferro assy como uay a Rua djreita pera sa njcolaao”893. doc. quatro mil e quinhentas libras. Antoninho Fernandes. Perante tamanha disponibilidade. dezoito mil libras. dez mil setecentas e vinte e cinco libras. devido aos grandes merecimentos que o conde fizera ao rei. Assim. D. umas casas que traz a mulher que foi de João Gonçalves nove mil libras.um lado. um casal que chamavam Mata Coelhos. Vol. Todavia. Chancelaria D. de que o monarca havia o terço do quarto. decidiu. Duarte fez doação de casas em Silves. para remediar a perda. onze mil libras. pretender ele próprio fazer cumprir as vontades dos reis seus avós. dava de foro dezasseis mil duzentas e cinquenta libras. Maria de Aboim. Estas casas eram trazidas pelas seguintes pessoas: Vasco Eanes. bens e pertenças deles. Chancelarias Portuguesas. João I. João Vicente. herdades. II/II. vol. Vol.

Depreende-se. 896 895 Veja-se Hermínia Vasconcelos Vilar e Maria João M. da Covilhã. que não leixando a dita vila não poderia delo guarecer. em tanto que nos tempos passados muitos deles requereram aos Reis de ante nós. sendo-lhe dito por homens de boa vida. Beatriz. Beatriz é bem demonstrativa da grande importância que as ordens mendicantes alcançaram não só junto das populações. depois da posse da dita vila por sua parte tomada. ilustrada pelas suas disposições testamentárias. que lhe déssemos a dita vila de Viana em escambo por outra tanta renda em esta cidade de Lisboa (…). por ser muito boa e de frutos avondosa.do hospital da rainha. pois o conde faleceu e determinou D. João (é o futuro Marquès de Montemor). aos quais dotou também com 30 libras. pudessem delo tomar o exemplo (…). por pouco tempo. Sendo nós com grande instância requerido de D. por parte da rainha. Afonso V que a cobiçada vila ficará definitivamente na posse da Capela e hospital de D. por nos parecer coisa honesta e fazedoira. que lhes fizessem dela mercê. sendo a instituição das Capelas assim dotada por D. Será somente no reinado de D. Afonso IV e D. lho outorgámos (…). I. 134-136). 242 . E pero a alguns por suas importunidades tal mercê fosse feita. uma predilecção. Afonso IV e D. 44-47. Beatriz era devota de S. Todavia. e a dita vila de Viana por vezes da dita instituição indevidamente fôsse desmembrada e apartada (…). mas também dos mais destacados membros da sociedade896. pp. Porém. permitiu serem punidos por tal. assim. “Morrer e testar (…)“. querendo o nosso Senhor Deus em elo mostrar Seu milagre. contemplando os Frades de S. no seu derradeiro acto. não foi apenas às ordens mendicantes que a rainha legou dinheiro. os que depois viessem. da Silva. Beatriz. a qual. Talvez para rezarem pela sua alma ou por outros motivos não explicitados nos “A nossa notícia veio. que tal desmembração e apartamento contra serviço de Seu e saúde das bemaventuradas almas do dito Rei e Rainha era feita (…). Esta preferência de D. de muitos fidalgos e nobres foi sempre desejada. não deixou de privilegiar os frades desta Ordem Religiosa. pois acreditava-se que a desintegração do património das referidas instituições era amaldiçoada. não é de duvidar. Além destes. D.” (in BSS. uma vez que todos os seus antigos proprietários tinham padecido de grandes enfermidades e falecido pouco tempo depois da tomada de posse da vila895: Regressemos novamente às ordenações testamentárias. mui dorida e trabalhosas enfermidades padeceu. Duarte que a vila e seus termos. apenas distinguiu os Frades de S. pp. dalgumas terras e possessões para seu mantimento e governança …e entre elas assim foi a vila de Viana do Alentejo com toda a sua jurisdição. Como já referimos. de Lamego e de Lisboa com 30 libras a cada convento para cantarem missas. pelas ordens religiosas mendicantes e a permeabilidade à sua doutrina. Francisco de Bragança. da Guarda. rendas e jurisdições retornassem às referidas instituições. querendo-os da Sua vara ferir por seus indébitos requerimentos. que. vol. de Guimarães. Francisco e. vendo nosso Senhor Deus. Domingos de Guimarães. que.

Para o homem medieval. Após a entrega da alma a Deus e de cuidar do destino do seu corpo. A penitência mais comum era a esmola. Para não sobrecarregarmos o texto com um elencar descritivo de bens materiais nem com uma quantidade avultada de notas de rodapé elaborámos três quadros onde constam todos os bens detidos pela rainha D. 903 902 901 Veja-se Inocêncio Galvão Teles. 50 libras para resgatar cativos. Beatriz referidos nos seus três testamentos e no codicilo. progressivamente. convertida a favor do doador. ao dirigir as dádivas para os mais desvalidos e uma função espiritual. figuram no testamento da rainha os cativos897. que se encontram em anexo. Beatriz seguiu assim o que também fizeram os antigos reis nos seus testamentos. definido pelo direito sucessório903. as mulheres pobres e “envergonhadas”898. D. que surgia como um instrumento de redenção. À oração associava-se a esmola. mas esta quantia foi aumentada em 1358 para 950 libras. Este acto de expiação ajudava na caminhada para o Céu.diferentes testamentos. Além destes actos podemos também referir o apoio ao casamento de mulheres virgens899. Pobreza e morte (…). É normal que a rainha seguisse a regra do sistema jurídico que dava Deixa a rainha. Apontamentos para a história (…). 899 900 Maria José Ferro Tavares afirma que “os legados usufruíram sempre de um fim duplo: uma função social. ao lado das instituições religiosas. a rainha mandou entregar elevadas quantias monetárias às poderosas ordens militares [QUADRO I]. como receptores de bens pela alma. Como que ajudavam a alma na caminhada para o mundo celeste e para a vida eterna901. A concessão deste tipo de doações ajudava o defunto na conquista do Céu. era necessário deixar expresso como deveriam ser distribuídos os seus bens móveis902. 142-200. 243 . E os clérigos e os pobres participavam directamente nos rituais da morte. procurando garantir e tornar mais sólidos os laços de solidariedade existentes entre a Casa Real e as ordens militares. Deixa às suas donzelas 500 libras a cada uma para seus casamentos. Deste modo. 100). estando presentes desde o cortejo fúnebre até aos sufrágios perpétuos. no ano de 1357. Lega a quantia de 500 libras (tanto em 1357 como em 1358). pp. 898 897 Às quais em 1357 deixa todos os seus panos de lã. orações e caridade” (in Maria José Ferro Tavares. p. assim como a dádiva monetária legada para a construção de pontes900. a disposição das suas posses entre os herdeiros tornou-se um dever de consciência que foi sendo. através das missas.

Dinis.174). com D. D. 905 904 Este objecto havia pertencido ao Prior do Hospital. Inês de Castro. As doações ao filho e aos netos acentuam. que legou. ou. seu filho e herdeiro do trono. Dinis são em menor número e de menor valor do que aqueles que legou aos seus netos legítimos.preferência ao mais velho dos seus herdeiros. Poderá ter influenciado esta opção o facto de a rainha ter criado esta sua neta? Ou o procurar dotá-la com maiores atractivos patrimoniais. deste modo. como. a D. a rainha nunca quis acicatar a ira de seu marido. Ao outro neto. a rainha contemplava de forma privilegiada os da sua linhagem. foi ao infante D. esperando. no entanto. Beatriz transmitiu a D. deixou por herança. os bens que D. João e a D. pelo momento em que o rei não se encontrava já no mundo dos vivos para agraciar aqueles que considerava e eram também do seu sangue. o infante D. Pedro I. Beatriz. uma copa de prata esmaltada que D. apesar de sempre ter apoiado o seu filho na relação que manteve com D. Cristina Pimenta afirma que este infante faleceu pouco depois de nascer (Cristina Pimenta. Essa mesma ligação ressaltou no testamento de 1358. Beatriz a legar bens aos seus netos D. D. João e D. D. que recebeu em herança bens de grande monta comparados com os dos seus irmãos. por exemplo. o sentimento de união familiar da rainha. pois a rainha não faz menção a este seu neto. na sua maioria. Assim. 244 . Dinis. A excepção é feita à neta D. uma vez mais. as duas taças de prata que o Mestre de Avis ofereceu a D. Inês de Castro904. Beatriz. os de maior valor [QUADRO I]. os seus haveres repartiram-se também por um conjunto diversificado de pessoas e de entidades. Porém. o infante D. salientar que foi somente após a morte de D. João. Importa. deixou-as em testamento também a este seu neto e uma copa igual à de seu irmão. Afonso IV havia dado a D. Deste modo. o facto de o Bravo nunca ter reconhecido estes seus descendentes ilegítimos. associando a norma com o sentimento. Deixando transparecer o seu sentimento. Beatriz. Beatriz. visto tratar-se de um membro do sexo feminino? [QUADRO O primogénito nascido desta relação. p. a rainha D. Contudo. Deste modo. João. teria já falecido em 1358. os bens de que dispunha ou. Várias hipóteses explicativas poderíamos colocar. Estêvão Vasques. a soberana legou uma copa com sobrecopa de prata dourada e encimada por um botão grande905. e duas taças de prata que se encontravam em uso pela rainha (“das per que bevo”) [QUADRO I]. pelo menos. D. Afonso IV que a rainha contemplou estes seus netos. filhos de D. Beatriz deixou aos membros da sua estirpe os bens pessoais de maior valor. Pedro. Afonso.

pelo menos em parte.I].e IDEM. pelos quais D. Por vezes. covilheiras908 e mancebas. a clientela e criadagem que a rodeavam na sua vivência diária. Após a morte de D. uma grinalda de ouro com rosetas esmaltadas cada uma com um grão de aljôfar e. “Criada grave. D. 907 906 Sobre D. Beatriz estabelecera ligações com pessoas que podiam ser mais ou menos próximas. nominalmente referidos [QUADRO I]. Maria Afonso. podemos conhecer. filha bastarda do rei D. a relação de D. p. uma copa de prata dourada que pertencera a D. também. esmeraldas e rubis pequenos em redor. conseguimo-nos aperceber de quem eram as pessoas com as quais a testadora possuía laços mais fortes. safiras. para outra filha bastarda de um rei português. Beatriz pretendeu agraciá-los não só pelos seus serviços. veja-se José Augusto Pizarro. 202203. vol. evidentemente. Covilheiras (cuvilheira) – s. Vataça de Lascaris906. 327]. não se limitando. 33-77. aos seus parentes. Maria Afonso foram todos para Castela. 5-39. que Sobre esta dama vejam-se os trabalhos de Maria Helena da Cruz Coelho e Leontina Ventura. Dinis e casada com D.f. um relicário de camafeu. A sua rede de relações estendia-se. Efectivamente. a maioria dos objectos legados por sua avó parecem ser de grande valor. entre as rosetas. VIII. Os bens de Vataça (…). Muitos deles devem ter acompanhado a rainha durante anos. entre outros. Vataça – uma dona (…). através dos legados por ela concedidos a particulares. Maria Afonso. ainda. Esta peça possuía. o relicário passou. pp. Vataça estreitaram-se ainda mais. assim. mas com o campo em preto. criados. Ao longo da sua vida D. eram todos indivíduos que se encontravam ao serviço ou na esfera de influência da rainha. deixou-lhe. de um modo geral contemplados com legados em moeda. Pedro I. Talvez. aia. 908 245 . como se pode inferir pelo montante das dádivas. vol. Os restantes contemplados. Como os descendentes de D. João Afonso de Lacerda907. p. nobres damas. Algumas das suas damas são de alta estirpe. com a figura de Sansão sobre um leão. O relicário havia pertencido a D. Linhagens medievais (…). pp. Isabel. Aí encontramos clérigos. I. cubicularia)” [GEPB. mas também pela sua fidelidade e amizade. Dinis as relações entre a rainha Santa e D. Beatriz com esta dama provenha do facto de ambas serem próximas da rainha D. ambos em cor branca. Assim. a todos aqueles que com ela partilhavam o seu espaço residencial. e verificar quem a rodeava e quais as influências ou favores que tinha recebido ou prestado. Deste modo. camareira (lat.

Não podemos esquecer que os membros da Igreja eram os intermediários entre Deus e os homens e entre os vivos e os mortos. No testamento de 1349. as quais aumentou para 2000 libras em 1357 e 1358. tanto de criação. deixava a todas as suas covilheiras 300 libras a cada uma para seus casamentos. D. No testamento de 1358: Leonor Gonçalves. em 1349 e 1354. a rainha deixa expresso “que lhys dem seus casamentos”. No testamento de 1358: Maria Durães. A missão de confidente e conselheiro estaria a cargo de Gil Martins. Para todos os seus homens. definia-se «par de panos» (fato. seu clérigo.atingem as 200909. Tais damas acompanhavam a rainha no seu séquito e com ela partilhavam sentimentos. como de pé. a Velha. Maria Girona. Anã. subir a doação para 400 libras e. às quais ordenou que entregassem 100 libras (no testamento de 1349) para. Beatriz deixou a todas as suas covilheiras 100 libras. A todas as suas mouras e servas concedeu-lhes alforria. No testamento de 1357. Isabel de Cardona. fossem dadas 200 libras916. Esta quantia foi igual em ambos os testamentos de 1357 e 1358. atribuiu 200 libras a cada uma. 500911 e 1000912 libras [QUADRO I]. 300910. A sociedade medieval (…). Ordenou que a cada uma das suas mancebas. 912 913 “Em 1340. Nos testamentos de 1357 e 1358: Branca Lourenço do Avelar. Às suas donzelas deixou 500 libras915. em 1354. pp. No testamento de 1358: D. que recebeu como dádiva um montante não despiciendo de 200 libras913. Esta quantia seria aumentada para 300 libras a cada uma no codicilo de 1354. No codicilo de 1354: Maria Migueis. Mas entre as pessoas agraciadas estavam também algumas criadas que tinham servido a rainha realizando as mais diversas tarefas. a Velha. 915 914 No testamento de 1358 é expresso que as 500 libras são para os seus casamentos. também. D. Doação muito variável ao longo das últimas disposições da soberana tiveram todas as donas que andavam junto da rainha no momento da sua morte. Citam-se. 41-42). que lhes fossem dadas 1000 libras. a rainha ordenava. de Oliveira Marques. nos seus casamentos. em linguagem actual) como o conjunto das seguintes peças de vestuário: manto + pelote + saia ou então tabardo + capeirão + saia” (in A. como de cavalo. no derradeiro testamento. H. 911 910 No codicilo de 1354: Maria Rodrigues. No seu último testamento. No codicilo de 1354: Branca do Avelar. 916 246 . como membros do 909 No testamento de 1357: Leonor Gonçalves. às quais associava um par de panos914 de lã em 1357.

tesoureiro. destinados a parentes e a criados e não a instituições religiosas. o mestre da Ordem de Cristo era oriundo da alta nobreza e mantinha ligação à corte régia (cf. de sua mãe recebeu uma Sabemos muito pouco sobre D. São. Na sua vivência diária. o homem ou a mulher de Trezentos deixavam os seus legados àqueles que. através da memória a eles associada enquanto sinais de distinção social. em 1357917.seu séquito Mendo Afonso. a quem a rainha. 918 917 247 . Junto da alta nobreza. sendo. em 1358. foram distribuídos os de menor qualidade pelas donzelas e criadas da rainha918. Estes adornos tinham sido de várias pessoas da sua linhagem de sangue. além de ter sido testamenteiro da rainha D. avançamos o ano da sua morte para depois de Março de 1357. deixou 200 libras. No entanto. Segundo o mesmo autor. Rodrigo Eanes. 240 e 169. 103). parte da memória da linhagem e. D. mas também da sua nova parentela. Como já referimos. e o seu mordomo-mor. através da oração. as peças de melhor qualidade foram aquelas que D. todavia. p. Beatriz tinha em sua posse jóias de família que lhe transmitiam o carisma de antepassados ilustres. mestre da Ordem de Cristo. Rodrigo Eanes. como o impunha a sua condição social. a função do vestuário e dos adereços era cada vez mais de ostentação. a rainha circulava pelos diferentes espaços de uma forma que se traduzia em imagens de luxos sumptuosos e em ostentação de riqueza. como a “colcha assynaada de castellos e de leoes e o pano que eu mandey fazer (…)” [QUADRO V]. Beatriz e de se encontrar ligado à corte e à rainha. “Mando que todalas mhas donzellas que andarem comigo ao tempo do meu saymento (…) mando aas mhas covilheyras (…) senhos pares de panos sen penas veyras” (in Vanda Lourenço. Especial importância teriam os objectos que adornaram o corpo da rainha e a fizeram resplandecer com o seu brilho e fascínio. poucas as referências a peças de vestuário nos diferentes testamentos [QUADRO V]. por um lado. Beatriz mandou colocar sobre o seu “moymento”. Tomar medieval (…). permitindo ao seu portador afirmar o seu status. agraciado com 50 libras. na sua maioria. por outro. respectivamente). Assim. Esta separação dos objectos era sempre penosa. Tais bens eram. “O testamento da rainha (…)”. pp. Eram o traje e os seus adornos que distinguiam exteriormente os diferentes grupos sociais. Assim. D. Sílvio Conde refere-o como mestre da ordem de Cristo entre 1344 e 1356. Em 1357 a rainha referiu o seguinte: “Mando a Branca Lourenço do Avelaal mha criada (…) dous pares de panos de lãa huns com penaveyra e outros sem ela”. contribuíam para a salvação da alma. Era o despojamento de todos os bens materiais à hora da morte que podia trazer a salvação eterna da alma. Manuel Sílvio Alves Conde. através do testamento. Deste modo. parte da própria existência da rainha.

a rainha D. acima referida. Neles brilhavam o rubi. notamos que. Leonor de Aragão. Dentro da “Casa” de D. ao sentir a chegada da morte. Os legados monetários destinavam-se a quem se encontrava na sua dependência. Nos seus dedos eram os anéis que acentuavam todo o seu fascínio. por sua filha. principalmente. afectividade. e da rainha D. Maria. doadas por D. Leonor a sua mãe. criado da rainha. 103). Beatriz existiam indivíduos com os quais ela estabelecia relações de maior proximidade e. D. foram legadas. mas também um camafeu que legou ao infante seu neto. filha de D. Através dele sabemos que a rainha doou à mãe algumas das suas jóias e um pano onde estavam gravadas as armas dos reinos de Castela e de Leão. Uma foi Branca do Avelar. Estas jóias deixou-as a rainha aos seus mais próximos: a D. A relação desta criada com a rainha devia ser muito próxima.esmeralda. Isabel um relicário919 [QUADRO IV]. Estas taças foram oferecidas a D. por norma. 920 921 248 . Porém. no testamento de 1358. p. Fernando. Beatriz. existem duas excepções. D. Leonor de Aragão. mandou-as entregar. em 1358. do rei D. Afonso IV. Estes dois pichéis foram oferecidos pelo Bispo de Évora à rainha D. Fernando. As várias contas de corais com maçanetas de ouro. e ao seu filho e testamenteiro. a Branca Lourenço do Avelar. e a outra foi o Mestre de Avis. criada da rainha. aos infantes seus netos D. Beatriz. a seu neto 919 “O qual relicayro foy da reynha Dona Isabel e deu lho El Rey seu filho e El Rey o deu a mim” (in Vanda Lourenço. talvez. Beatriz pelo Bispo de Tuy. Dinis uma safira pequena e outra grande. a safira e a esmeralda. pelo filho e pelos vários netos. o que poderá explicar estas excepções. as três safiras que destinara a seu marido. “O testamento da rainha (…)”. em testamento. Pedro. A rainha D. a quem esta legou duas taças de prata dourada e trabalhadas920 e dois pichéis de prata dourados e ondados921. Fernando e D. pois normalmente os bens mais estimados e valiosos eram conservados na posse da família real e distribuídos. mandou redigir o seu testamento. No entanto. a pedra mais valiosa durante a Idade Média. Após uma análise aos três testamentos. as doações feitas em dinheiro são para quem não é do sangue da rainha. da infanta D. Constança recebeu uma cruz de ouro que deixou a D. Branca do Avelar recebeu bens que foram dados a D. Beatriz.

um anel com esmeralda. Afonso IV não conseguimos identificar a quem a rainha os mandou entregar em 1358. dos quais três estavam ornamentados com rubis (dois grandes e um pequeno). o seu maior rubi. que deixou “aa que for molher do dito Iffante Dom Fernando” [QUADRO I e V]. de relíquias924 e de um relicário925. por fim. legou-os a monarca portuguesa a D. Constança [QUADRO I e IV]. sua neta e filha de D. A este infante dotou-o com um conjunto de sete anéis que haviam pertencido a D. sua neta. Tais objectos denotavam uma piedade pessoal que se traduzia na 922 Os restantes bens que destinara a D. A soberana deixou ainda estipulado sobre este conjunto de anéis que D. A cintura de D. Para ela.D. esmeraldas e grãos de aljoufar. Filipe [QUADRO IV]. sua neta. grossos. 923 924 “Mando ao Iffante Dom Fernando meu neto as mhas religas que andam no cristal que me enviou …. uma safira da virtude. “hu relicayro de tres camtos e tem d’hu cabo hu roby no meyogeo e tres çaphiras nos camtos e grãaos de aljoufar grossas e meyãao en el e da outra parte tem imagem de Santa Maria com seu filho” (Testamento de 1357). Para completar a sua imagem. As suas acções diárias eram marcadas por esta característica. Era necessária uma exteriorização da virtude da fé. Estamos a referir-nos a um castelete com dois camafeus em figura de leão. o Infante D. Pedro. Afonso IV. Constança. provavelmente. D.. o Infante D. Deu à Infanta D. A conquista do Paraíso não se alcançava somente pelo arrependimento e pela penitência. este objecto era-lhe tão querido e tinha um tão grande valor afectivo que o legou ao filho. ou uma outra grinalda larga com rubi. Maria. Maria.Eram eles: uma esmeralda. D. e a uma dobra de ouro grande esmaltada. Maria. Pedro com D. Beatriz. filha de D. uma taça de pés com a sobrecopa e uma serpe com seu coral e escorpiões (testamento de 1357). Os bens que a rainha de Castela.“ (in Testamento de 1357). safiras. Pedro e D. três anéis com diamantes (um grande e dois médios) e. um branco e o outro enegrecido. Fernando. a sua vivência devota ficou documentada nos testamentos pela posse de uma cruz923. a rainha colocava nos cabelos uma grinalda de rosas esmaltadas que deixou à Infanta D. Vivendo numa sociedade onde era grande o peso da Igreja. seu neto. Beatriz foi adornada com uma cinta de prata toda esmaltada que lhe deu seu irmão. Fernando922. Fernando os legasse ao seu filho primogénito. “A cruz do ouro” que a rainha legou ao Infante D. Assim. 925 249 . havia dado à sua mãe. outras jóias não mencionadas nos testamentos que foram usadas pela rainha e a fizeram brilhar em toda a sua majestade. Foram estas e. Beatriz complementava o lado profano da sua função e da sua personalidade com uma forte devoção religiosa.

Hermínia Vasconcelos Vilar. mas também por averiguar se a parentela do falecido respeitava as decisões registadas no testamento. p.º4. Sendo relativamente vulgares os relicários. de todos os seus bens móveis. A Igreja procurou preservar e salvaguardar este estatuto de guardiã da vontade individual. Betriz mandou fazer um inventário. p. D. desde muito cedo. embora não dispusesse de qualquer direito de propriedade sobre os mesmos” (Hermínia Vasconcelo Vilar. D. pertencendo amiúde à sua família929. Liv. No testamento de 1358. II. A principal função do testamenteiro era “dividir os bens de acordo com a vontade do defunto. de atracção de fiéis que venerariam as relíquias aí guardadas. 352). com excepção de frei Bento. A vivência da morte (…). n. deste modo. com a sua proveniência. no sejam obrigados nem theudos. A rainha afirmava ainda que nem os bens da Coroa do Reino nem os dos seus testamenteiros fossem utilizados para pagar as suas cláusulas testamentárias927. I. p. 112. que é 926 TT. T. A vivência da morte (…). 250 . Assim. 929 928 927 Cf. logo após a sua morte. a rainha ordenou que o seu “barril longo do cristal com o pee de prata e he cheo de religas” fosse colocado na sua capela926. 112). Regra geral. procurando transformá-lo num objecto de devoção comunitária e. “Mando q’ os bens da Coroa do Regno. Este inventário tinha como objectivo elaborar um elenco de todos os seus bens. Nos seus dois testamentos e codicilo denota-se que a rainha preservou os mesmos testamenteiros. se no em quanto avondarem os meus bens. uma obrigação e um direito da hierarquia religiosa. m.1. assim como de todas as suas dívidas. 16. nem os outros bens dos ditos meus testementeiros.veneração destes sinais sagrados. Beatriz fazia assim uma distinção muito nítida entre os seus bens pessoais e os bens da Coroa. Gav. simultaneamente. a rainha possuía pelo menos um com adornos de pedras preciosas e no qual guardava as relíquias da sua veneração [QUADRO XIV]. para. se efectuar a distribuição ordenada sem sobressaltos. a couza nehuã. e colocar tudo num livro. O cumprimento da última vontade expressa no testamento foi. e as suas maos vierem” (in PHGCRP. Não é raro encontrar clérigos nomeados como testamenteiros928 que ficavam responsáveis pelo cumprimento dos últimos desejos do testador após a sua morte. as pessoas designadas eram de grande confiança do defunto.

mestre da Ordem de Cristo. em Canaveses. bem como o infante D. Subsídios para o estudo da acção política de um magnate português do século XIV. Inês de Castro. Diogo Lopes Pacheco. em Maio de 1357. pp. Rodrigo Eanes. porque já se “Faço meos testamenteiros Martim do Avelal meu Copeiro mor e Fr. que terá falecido entretanto. filho de Lopo Fernandes Pacheco. Pedro. Com a escolha de parentes tão próximos. entre outras coisas. p. Nota-se ainda que existem três testamenteiros de 1357 que não fazem parte do testamento de 1358. Fernando. no qual entregam mutuamente os respectivos refugiados. só regressando a Portugal no reinado de D. 1967 (dissertação de Licenciatura policopiada). que já leixo no dito meu testamento. Diogo Lopes Pacheco. participou pessoalmente no assassinato de D. Bento. Este nobre. quando voltou a ter novamente a confiança da coroa932. que revogo de testamenteiro” (in Codicilo de 1354.retirado no ano de 1354930. Porém. mas também à situação política que se vivia no país [QUADRO XII]. 943-991. com os outros testamenteiros. Afonso IV. que conseguiu fugir para o reino de Aragão. Afonso IV e a subida ao trono de D. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. “Los Pacheco (…)”. D. Afonso IV. Porém. A biografia desta personagem foi já traçada. as partes em conflito assinaram um acordo de paz. Pedro. Pedro. No entanto. os reis de Portugal e de Castela estabeleceram um acordo. Pedro comprometia-se. Assim. mas também. D. No entanto. Coimbra. Leonor Teles. Diogo Lopes Pacheco [QUADRO XII]. Pensamos que terá sido neste clima de concórdia. nesta permuta não vem para Portugal Diogo Lopes Pacheco. 342). a não perseguir os assassinos de D. que ocorreu no dia 7 Janeiro de 1355931. logo após a morte do rei D. Diogo Lopes Pacheco voltou a exilar-se em Castela devido a desavenças com o monarca português suscitadas pelo matrimónio régio com D. São eles: D. 168. Fernando. p. em 1360. Diogo Lopes Pacheco não figurava como testamenteiro. D. durante o reinado de D. veja-se também. falecido em Maio de 1357. Estevam Confessor de ElRey e meu. que a soberana terá escolhido o seu chanceler. Beatriz. Diogo Lopes Pacheco procurou exílio em Castela. Alfonso Franco Silva e Jose António Garcia Lujan. por último. em Agosto de 1355. existem outras excepções que se encontram ligadas às circunstâncias da sua própria vida. a rainha pretendia garantir que a proximidade familiar e afectiva assegurasse o cumprimento da sua última vontade. Beatriz escolheu como testamenteiros o cônjuge e o filho. nas suas linhas gerais. por um lado. No testamento régio de 1358. Como foi já referido anteriormente. 251 . para seu testamenteiro a 23 de Março de 1357. e. como forma de consolidar a paz. que se revoltou contra seu pai e encetou uma perseguição aos assassinos da sua amada. esta morte provocou a ira do infante D. seu neto. D. Fernando. Bernardo Vasconcelos e Sousa. Neste. por intercessão da rainha D. por Maria Yolanda Costa. D. Porém. Inês de Castro. 932 931 930 Com o objectivo de recuperar os seus traidores. tirado Fr. onde ficou ao serviço do rei Henrique de Trastâmara. no testamento de 1357.

2ª série. Lourenço Rodrigues como sendo Lourenço Martins de Barbudo. pp. em seu próprio nome. que pertencia ao conselho do rei937). p. 2 da Estremadura. D. Rita Costa Gomes. “Sobre as origens do executor (…)”. Inês de Castro. na parte final do reinado do Justiceiro (Cf. 2005. para junto do cabido da Sé de Lisboa tratar da celebração do aniversário mensal rezado por intenção do rei e da rainha (TT. Segundo este mesmo autor. Liv. este bispo é designado pela historiografia como Rodrigues referindo que existe “o erro de designar D. Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Gil Martins. em função da escolha do nome de baptismo ou do próprio patronímico do progenitor. Cristina Pimenta. p. pp. 3. dá cumprimento. sobretudo. entre clérigos (D. fls. Mas destaca-se.º239. Beatriz. Pedro I. É este seu conselheiro que o monarca nomeia como procurador régio. O cabido da Sé de Lisboa e os seus cónegos (1277-1377). Mário Farelo. 2004 (dissertação de Mestrado policopiada). Pedro iniciou aos assassinos de D. bispo de Évora. Beatriz designou em ambos os testamentos outros executores933 [QUADRO XII]. sendo lógico portanto que D. Este facto é particularmente visível no caso em apreço. 123e 172 nota n. bispo de Lisboa934. O desembargo régio (…).encontrava exilado e. esta concedeu a “O executor é (…) uma pessoa investida de um direito sobre os bens e que. no ano de 1354. A corte dos reis (…). nota 16. D.º2). (…) pensamos que essa divergência. Martim do Avelar. Beatriz) ou como «Rodrigues» (na bibliografia tradicional)” (in Mário Farelo. por outro. seu confessor936) e um leigo (mestre João das Leis. 286v-287). de Coimbra (1357-1359) e de Lisboa (13591364). seu clérigo. Pedro. o objectivo da rainha de manter a paz no reino havia sido frustrado com a perseguição que D. 22v-24). 2 vols.º238. em 1355 surge como testemunha de um documento onde são definidos os privilégios das capelas régias da Sé de Lisboa (TT. D. Lisboa. pp. 2008 (dissertação de Doutoramento policopiada). A corte dos reis (…). Com o intuito de cobrir os diferentes níveis dos laços familiares. aos desejos do defunto” (in Paulo Merêa. 123 e 172 nota n. Leitura Nova.343344. Lourenço Rodrigues. D. Tomo XVII. Mestre João era Doutor em Leis. Anísio Saraiva. Lourenço pudesse ser designado patronimicamente como «Martins» (como no testamento da rainha D. mais do que um erro. 11 da Estremadura. Lisboa. Desembargador e Conselheiro de D. Actualmente. 157 nota n. Lourenço Rodrigues. D. fls. pp. 936 935 934 933 Ao confessor estava também incumbida a tarefa de ministrar os últimos sacramentos a D. 937 252 . Leitura Nova. como titular desse direito. Recaindo sobre os seus testamenteiros a responsabilidade do cumprimento da vontade da rainha defunta. na medida em que sabemos que o pai de Álvaro Rodrigues se chamava Martim Rodrigues. “O quotidiano da casa de D. Bispo de Évora entre 1355 e 1356 e próximo do rei D. Afonso IV. A oligarquia camarária de Lisboa (1325-1433). Sobre o mestre João das Leis veja-se Armando Luís de Carvalho Homem. Mário Farelo identifica este D. bispo de Lisboa (1359-1364): notas de investigação”.. João Gomes de Chaves935. Segundo o mesmo autor. e Frei Estêvão da Veiga. Veja-se Rita Costa Gomes. A partir de 1330 é presença frequente nos diplomas régios. p. Lourenço Rodrigues ocupou sucessivamente as cátedras da Guarda (1347-1356). se deve a uma flutuação da construção patronímica. 9). Lourenço com o patronímico «Rodrigues». Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. 419-438. in Lusitania Sacra. mestre de Avis. Liv.

então. Dentro da administração central. o de sobrejuiz. como é o caso dos tabeliães de Alenquer (Domingos Vicente. todas as outras testemunhas variam nos diferentes testamentos [QUADRO XV]. Afonso IV. D. Veja-se a biografia deste ouvidor dos feitos e sobrejuiz de D. O desembargo régio (…). pp. estão todas identificadas. Afonso IV que estaria já falecido em Dezembro de 1359. O desembargo régio (…). 388-389. pp. Frei Estevão 100 libras (Testamento de 1349 e Testamento de 1358). ao Mestre João das Leis 300 e 1000 libras (Testamento de 1357 e Testamnto de 1358. Exceptuando as três pessoas que aparecem repetidas (Jorge Pires. o testamento escrito deveria servir o objectivo de alcançar a salvação da alma no Além. em Armando Luís de Carvalho Homem. o seu físico (Mestre Rodrigo) [QUADRO XV]. João Eanes e Pedro Aires). Existe. assim. com excepção para o testamento de 1349 [QUADRO XV]. Afonso IV e D. 941 253 . escrivão da chancelaria de D. Guilherme Eanes. Beatriz. No que concerne às testemunhas que atestaram o acto a mando e rogo da rainha. e Gonçalo Pais. respectivamente) e a Frei Rodrigo Eanes 50 libras (Testamento de 1357). um grupo de quatro elementos que tinha uma ligação ao rei e à administração central. 322-323. o de escrivão da chancelaria e. Mestre Vasco das Leis. p. Na sua maioria. cuja carreira poderá ter durado entre um a dez anos940. 306. que de alguma forma estavam ligados à soberana. Mendo Afonso e Estêvão Peres). A D. Pedro. o sobrejuiz Geraldo Esteves. cuja carreira durou entre onze a vinte anos939. Segundo Armando de Carvalho Homem941. ainda mais próximo do monarca. no entanto. Veja-se Armando Luís de Carvalho Homem. apesar de muitas vezes deterem uma longa carreira. compreender a preocupação em definir os responsáveis pela execução testamentária e em comprometer os testamenteiros com o cumprimento do que era disposto. a soberana escolheu para testemunhas deste importante acto indivíduos que pertenciam à sua “Casa” [QUADRO XV] ou. a Gil Martins 200 libras (Testamento de 1357 e Testamento de 1358). Beatriz escolheu como testamenteiro uma das figuras mais destacadas da corte de D. Recorde-se que esta vila se encontrava na posse de D. Poder-se-á. 940 939 938 Veja-se informação sobre este oficial régio em Armando Luís de Carvalho Homem. a quem incumbia o registo das cartas régias nos livros da Chancelaria. estes funcionários. ocupando cargos da administração régia como o de tesoureiro. O desembargo régio (…). pelo que o seu não cumprimento poderia colocar em causa esse desejo.alguns deles doações monetárias938 com o propósito de compensar o trabalho que os esperava. Como já referimos.

O objectivo de um fiel cristão seria morrer em paz com Deus. Beatriz sabia que somente a intercessão de um grupo de fiéis a podia salvar e. sendo quatro delas escritas em latim e três em português942. apenas ultrapassável se dispensada. assim. Os pobres possuíam um papel muito importante na salvação da alma: D. A distribuição da esmola representava a renúncia aos bens materiais e por isso era vista como um acto sagrado e solene. “Para a história da morte (…)”. É. São poucas as referências expressas nos vários testamentos de D. Estas eram. p. “Sagrado. 944 254 . Beatriz. o enterramento e a sepultura943. p.possuíam uma presença discreta. ocorrido em 1359. “O testamento da rainha (…)”. começavam-se a cumprir as disposições testamentárias. Após o falecimento da rainha. Essa conciliação só era possível através dos sacramentos e do testamento. Todo o cristão acreditava que Deus queria a conversão do pecador. Porém. era necessário tratar do cadáver. 107. Assim. seguindo esta regra. da mortalha e do ataúde. 376. 394. o moribundo deixava sempre marcada a manifestação da sua 942 Para a transcrição destas assinaturas veja-se Vanda Lourenço. só através da morte preparada havia a esperança de alcançar o paraíso celeste. Beatriz relativas aos ritos especiais no dia do enterro. “Sagrado. a mais valiosa era a dos pobres”944. “dentro destes. “Há assim uma relação antitética mas complementar entre a riqueza individual e a pobreza presente na comunidade. 394). Gostaríamos de salientar que todas as testemunhas de 1357 fizeram uma assinatura autógrafa no final do documento. Deste modo. Após estes momentos marcantes. as formalidades na igreja. Tornava-se imperioso efectuar o anúncio público do falecimento da mãe do rei. entregues aos pobres que estavam sempre presentes nos cortejos fúnebres. tornando-a mesmo obstáculo. surgindo normalmente na documentação como testemunhas de actos de relativa importância. Maria Ângela Beirante. devoções (…)”. por regra. que Gonçalo Pais surge como testemunha de D. Ou seja. o saimento e as esmolas. p. 943 Maria de Lurdes Rosa. As únicas que existem mencionam as missas cantadas e oficiadas. devoções (…)”. Um testamento dependia sempre de regras jurídicas e de costumes locais.” (in Maria de Lurdes Rosa. p. o testador teria sempre de seguir as normas vigentes. não podemos ver o discurso sobre a morte nem as disposições testamentárias como o resultado de uma pura e livre deliberação do testador. As cerimónias incluíam o cortejo fúnebre. que valoriza o poder intercessório desta como meio de acesso à salvação e desvirtualiza a primeira.

os seus desígnios revelam clareza e minúcia. Beatriz. D. muito do que sentia e pensava a rainha. As últimas vontades da soberana permitem-nos proceder não só a uma avaliação de alguns dos bens detidos pela rainha mas também descobrir uma parte do perfil humano da mulher que procurava garantir a salvação da sua alma. pois foi a este que deixou os seus objectos de maior valor. A transmissão das jóias. afirmar que este conjunto de testamentos nos revela. Nota-se também que existe o cuidado de valorizar. mas também as circunstâncias políticas ocorridas durante a década de cinquenta da centúria de Trezentos. principalmente os descendentes que teve com D. Os documentos são reveladores do sentimento de religiosidade que domina a pessoa que se prepara para partir para um outro mundo. A existência de sucessivas alterações efectuadas ao seu primeiro testamento reflecte claramente as mudanças não só na vida pessoal da rainha. os descendentes legítimos. às quais se atribuíu um peso simbólico. mas principalmente como mãe. Beatriz. Por outro lado. assim. Ao confrontar-se com a inevitabilidade da morte. documentos que nos descrevem o tesouro possuído por D. Beatriz foi dominada por uma intensa religiosidade. Beatriz como o testemunho de uma pessoa concreta que tem a sua personalidade e nos revela a sua atitude perante a morte. assim como o ramo primogénito. Nessa medida. A não existência de um inventário da “Casa” da rainha D. Podemos. familiares e clientelares de D.vontade individual. D. nas suas entrelinhas. Beatriz constitui uma lacuna que é colmatada pela subsistência do codicilo e dos testamentos objecto destas considerações. Pedro. face aos filhos ilegítimos do rei D. podemos olhar para o testamento de D. permite-nos entrever as redes de relações interpessoais. através dos legados. 255 . mas também por um forte sentimento de proximidade face a todos aqueles que a rodearam e que com ela viveram os seus anos de rainha de Portugal. Não descurando as preocupações religiosas. Inês de Castro. como avó. Beatriz revela-nos também o seu cuidado como mulher do monarca português. Fica clara a preocupação e o carinho que a rainha sentia pelo seu filho. é certo.

existiram. como sejam os hospitais. e “Em Lisboa. D. Em termos fundacionais e de gestão. Este espírito caritativo era fomentado pelas ordens religiosass que pregavam o socorro aos mais humildes e aos enfermos. Beatriz tinha provedor próprio na sua parte do hospital e pediu ao monarca D. gafarias. O hospital de Lisboa foi fundado simultaneamente com a capela régia pelo rei D. o rei mandou separar o seu hospital do da rainha948. 337. in João Afonso de Santarém e a assistência hospitalar escalabitana durante o Antigo Regime. no ano de 1342.º63). manifestou-se de várias formas a preocupação pela assistência aos mais necessitados. Colegiada de Santa Cruz do Castelo de Lisboa.9. grande parte tinha origem em legados pios destinados à criação de locais de assistência aos necessitados. TT.º24. – A instituição do hospital Ao longo da Idade Média. p. nota-se. seu filho. n. Afonso IV e por D. sendo que. um hospital “nas cazas que nos compramos na freguezia da See” mulheres pobres”947. “Entre a gestão e as ingerências”. que concedesse ao provedor do seu hospital e capela a mesma liberdade e isenções que tinha o provedor de D. Pedro Eanes. 2000. Beatriz mandou instituir. m.” (in Miguel Gomes Martins.VI. nos séculos XIII e XIV. Pedro. mas era também adoptado por leigos945. Beatriz. um crescendo de fundações de instituições de assistência. bem como ao aumento do número de pobres principalmente nos centros urbanos. Talvez devido à influência da acção pastoral dos mendicantes. PHGCRP.2. O requeixeiro de D. anos mais tarde. I. 122). Beatriz. retribuir com orações pela alma do instituidor da casa de assistência. Assim. I. D. m. Liv. 13. Todavia. Beatriz. Gav. uma casa que a Igreja de Santa Cruz de Lisboa tinha na alcáçova de Lisboa. Liv. entre hospitais. p. n. a par do hospital da rainha (TT. D. Santarém. em Portugal. T. destas. em duas vidas. Mas para um pobre beneficiar dos serviços e das condições de sobrevivência proporcionadas por estas instituições devia. Câmara Municipal de Santarém. de “homens. PHGCRP. II. Afonso 945 946 e que deveria albergar para sempre um conjunto de necessitados. como contrapartida. podiam ser religiosas ou laicas. T. 946 947 948 256 . 337. procurava também ela alcançar a vida eterna através da salvação da sua alma. cerca de 76 instituições de assistência (se bem que nem todas tenham funcionado em simultâneo) a que se juntavam mais 11 no termo. p. mercearias e albergarias. durante a Idade Média.1. ao fundar o hospital. tinha emprazada. II.

m. de modo a que fossem cumpridas todas as cláusulas estipuladas. e vergonha”952. Pedro I. “Dinheiro.I. Porém. Em ambos os documentos nunca é referido o momento exacto desta separação. II. in História Religiosa de Portugal. coord.13. para vestir. o tipo de pobre a auxiliar era bem específico: “doze homens bons. doc. pois.I.IV.º24. Gav. I – Formação e limites da cristandade. 351. a cada uma. p. cajas. 337. Circulo de Leitores. Beatriz alterou a quantia do mantimento das mulheres: passavam a receber dois soldos todos os dias e vinte libras. e doze boas mulheres (…) de bons costumes. 953 952 PHGCRP. vol. Os pobres envergonhados eram definidos como indivíduos sem riqueza suficiente para manter o estatuto social respectivo. 1203. de dezoito em dezoito meses.9. O facto deste processo fundacional entregar o encargo das mulheres pobres aos cuidados da rainha está relacionado com as novas características destas instituições de assistência que surgem na centúria de Trezentos950. a consorte deixou bens que foram geridos pelo administrador para fazer face às despesas. 949 Chancelaria D. Para esse efeito. cinco capelães e metade de todas as despesas. calçar e camisas954. D. aprovou o seu pedido949. poder e caridade: elites urbanas e estabelecimentos de assistência (1274-1345)”. Pedro. A cargo de D. 460-470. sendo no entanto impedidos de assumir publicamente a pobreza. Liv.I. de Carlos Moreira Azevedo. 337. Beatriz ficaram doze mulheres. no seu testamento de 1358. Pedro I. Lisboa. Cada um destes pobres recebia três soldos todos os dias para seu mantimento. T. excepto “se forem aleijados. 337. TT. 954 257 . T. II. e de boa fama. querendo fazer graça e mercê à sua mãe. Todavia. I. e para vestir recebiam treze côvados de volentina de dezoito em dezoito meses. Veja-se Maria de Lurdes Rosa. p. pp. n. 951 950 PHGCRP. necessário preservar o estatuto moral destas mulheres caídas na pobreza. PHGCRP. II. porque rapidamente poderiam ver-se em situações de acrescida degradação. Liv. Era. de Ana Maria Jorge e Ana Maria Rodrigues. Liv. D. T. O hospital instituído “a serviço de Deus”951 deveria sustentar perpetuamente vinte e quatro pobres. PHGCRP. apenas mencionam “e que depois mandou El Rej apartar o seu spital do da Rajnha” (in Chancelaria D. 1203). Este dinheiro deveria ser gasto da seguinte forma: pelotes. que tiveram algo e caíram em pobreza e que tenham mais de cinquenta anos de idade. Liv. II. T. dir. p. doc. uma vez que no meio urbano a sua posição era bastante frágil. 2000. ou em outra guiza doentes de tal dor que non seja esperança de guarida”953. p.

Ao serviço de cada conjunto masculino e feminino de pobres estava uma manceba. Liv. Todavia. I. e recebiam ainda quarenta e cinco soldos por ano para panos de linho. II. mas se tal acontecesse. II. nunca faltando nenhum cuidado até que o seu estado de saúde fosse restabelecido. T. Beatriz não esqueceu. e sendas cabeçaõs com penna. que se recusassem a cumprir os serviços religiosos na capela. II. camisas “e para o al que lhe comprir”956. T. cada uma. 337. Estas recebiam. o Provedor do hospital deveria repreender. durante a enfermidade os três soldos concedidos para mantimento não seriam dados. para que lhes daõ dinheiro”958. Os pobres dispunham na instituição de um dormitório com camas bem aparelhadas957. no momento da fundação do hospital. e a guiza que haja para sempre esse leyto. Caso não se emendassem e fossem reincidentes. e dous pares de Camões.” (in PHGCRP. II. enquanto as mulheres deveriam receber três libras cada uma por ano para vestirem “o que lhe cumprir”955. castigar e não dar a respectiva “ração” aos homens “ou mulheres [que] forem estragadoras. Liv. desde que fossem prestados os cuidados de saúde necessários. Liv. 956 “Mandamos que a cada hum desses pobres lhes dem sendos leitos e roupa aguizadamente em que durmaõ sendas colchas. D. 337). o provedor deveria expulsá-los do hospital e colocar outro pobre no seu lugar.copinetes e dois pares de calças para os homens. ou para calçar. p. 337. dois soldos para seu mantimento e soldada. PHGCRP. de acordo com o seu trabalho. o preceito da “anulação do pecado pela dádiva e a protecção de Deus e dos santos como 955 PHGCRP. e hum alfabar. p. e lleytos permussados em maneyra que non possom escuzadamente escusar outros.I. foi ordenado que quando algum adoecesse lhe fosse dado médico e fosse colocado num espaço diferente dos restantes. T. Liv. e camas em que durmaõ aguizadamente. almadragues sendas almuellas. A mesma pena era dada aos capelães.I. 258 . Os reis não descuraram também os cuidados de saúde dos pobres. Assim. principalmente se não fossem residentes. como dito he. e desque a esta roupa. Cada hospital de homens e das mulheres tinha direito a uma lâmpada que ardia toda a noite. p.I. ou para outras couzas. 337. 958 957 PHGCRP. os dinheiros recebidos não podiam ser mal gastos. No entanto. T. p. ou danadoras do dinheiro que lhes derem para mantimento. demlhes o nosso Provedor. e huã cuberta de bavel.

960 259 . 464-465.I. A constituição do hospital e da capela era feita segundo a vontade dos monarcas. no Mosteiro de S. Beatriz. sendo depois da morte dos monarcas uma carta entregue ao provedor da capela e hospital. referindo: “”Era de mil e trezentos e noventa e sete annos. Beatriz. Beatriz. deveriam. Beatriz. Liv. espiritualidade e caridade individual.recompensa da devoção dos homens”959. XXVº dias do mes dotubro pasou deste mundo a muy nobre e clara memoria Reyna de Portugal e do Algarve Dona Beatriz mulher que foy do muy nobre e Santa memoria Rey dom Alfonso o quarto Rey dos Alfonsos de Portugal e filha do muy nobre Rey dom Sancho de Castella a qual escolheo sa Sepultura em na 959 Maria de Lurdes Rosa “Dinheiro. era o provedor que zelava pelo cumprimento dos interesses régios e cuidava tanto da Capela como do hospital. Cada pobre deveria rezar todos os dias uma missa de Patres nostres pelas almas de D. Perante a falta de comparência a estas orações. Em sua memória e após a sua morte. A par da sua religiosidade. e fazer cumprir esta nossa ordenhaçaõ”960. todas com valor de original. Assim. D. seladas com o selo de chumbo do rei e o selo pendente de D. PHGCRP. p. outra ficando para os futuros reis “para poderem bem requerer. Afonso IV e D. mandou o monarca lavrar seis cartas. estipulou determinadas obrigações aos pobres. outra a D. II. As cartas foram entregues e guardadas no tesouro da Sé de Lisboa. salvo em situação de doença. Deste modo. estar presentes em todas as missas e às vésperas rezadas na Capela dos monarcas. assim. mas também seguindo os preceitos das ordens mendicantes. Trocou a sua esmola pela prece do pobre e. Todos estes cuidados serviam para a rainha estar preparada para a morte. Vicente de Fora. Afonso IV e D. Para dar mais firmeza às duas instituições. poder (…)”. naquele dia 25 de Outubro de 1359 terminava a caminhada terrena para D. Beatriz. 340. procurou garantir a salvação da sua alma. os pobres não recebiam os três soldos do mantimento desse dia. no Mosteiro de S. T. Afonso IV. Assim. Beatriz não deixou de exercer actos pios de forma indirecta através das instituições assistenciais que fundou e patrocinou. sem motivo justificável. considerada certa. Francisco de Lisboa. D. pp. A morte desta rainha ficou registada no Livro das Eras de Santa Cruz de Coimbra. uma entregue a D.

Como tivemos oportunidade de ver. uma trombeta ou buzina que fora trazida pelo monarca como troféu da vitória do Salado. Encontrava-se ainda pendurada na parede. II.). Beatriz. Beatriz foi irremediavelmente destruído no terramoto de 1755. com huma figura de pedra deitada. Vol. Júlio de Castilho descreveu os elementos que se encontravam na capela régia. Da sua memória restam-nos. a vida desta consorte não foi fácil. actualmente. O autor afirma que este epitáfio pode não corresponder ao medieval. aquando do pedido de ajuda militar contra a ameaça muçulmana que culminou na Batalha do Salado. Infelizmente. Num século marcado por guerras e epidemias. T. Assim. II. Epigrafia medieval portuguesa (…). Maria de Castela. dois painéis encimavam cada uma das sepulturas: um representava a vinda a Portugal da rainha D. Amen. Requiescat in Pace. II. Beatriz deixou o mundo terreno. p.. Affonso 4º. da parte esquerda. 1737. filha de D. Affonso 4º (. está o mauzuleo de duas sepulturaz. citando os Livros do Cartório da Sé. a imaginar o ambiente retratado. Apesar de não conhecermos o primitivo túmulo da rainha. 962 Mário Barroca. os registos documentais que chegaram até nós e a sua capela da Sé de Lisboa. em outra sepultura do mesmo feitio [com Estátua Jacente] está o corpo da Raynha D. Em huma está o corpo do Senhor Rey D. constituiu um feito. só por si. o túmulo de D.See de Lixboa apar de seu marido. mulher do dito Senhor Rey D. vol. principalmente a Peste Negra que tanta mortandade causou. por cima do túmulo de D. Mário Barroca dános a seguinte descrição: “Na Capella Mor. Actualmente o que podemos contemplar é o mausoléu do século XVIII. 1738. 260 . T. e hum letreiro que diz: BEATRIX PORTUGALIAE REGINA AFFONSI QUARTI UXOR”962. sobre a dita sepultura. 961 Citado por Mário Barroca.. mas sim a uma criação moderna elaborada provavelmente em meados do século XVI. deste modo. e tem também por baxo variaz figuraz pequenas. ter a rainha alcançado uma idade tão avançada para a época. ajudando. Foi após sessenta e seis anos sobre o seu nascimento que a rainha D. tendo mesmo passado por momentos muito conturbados. Epigrafia medieval portuguesa (…). Beatriz. o outro painel representava esta campanha militar. Afonso IV. p.”961. II.

os domínios territoriais de ambos os reinos. Todavia. principalmente. para o caso em apreço as fontes são omissas em relação à infância e educação de D. Beatriz foi mais uma consorte da qual não foi necessário preservar memória autónoma nas diferentes fontes narrativas. Beatriz. Sabemos que os rapazes e as raparigas pertencentes à aristocracia possuíam funções e papéis distintos e bem específicos na sociedade do seu tempo e para os quais eram preparados desde tenra idade. Beatriz chegaram-lhe pela realização do contrato de arras. juventude e educação das futuras rainhas são muito importantes para compilar uma biografia completa e bem fundamentada.CONCLUSÃO Ao longo deste trabalho propus-me. Beatriz. trazer mais dados e análises para de algum modo colmatar algumas falhas existentes na compreensão do estudo da queenship em Portugal. Beatriz foi cuidadosamente planeado pelos monarcas de Portugal e Castela. O contrato estabelecido não tinha como objectivo satisfazer as vontades e caprichos dos jovens nubentes. Assim aconteceu no encontro de Badajoz com o seu sobrinho e genro. D. podemos afirmar que o casamento de D. apesar de não se encontrar institucionalizada nem com regulamentos próprios. Porém. na sequência de algumas linhas de investigação anteriores. Deste modo. Pedro. Afonso IV e o filho D. bem como por doações régias. Analisámos que à sua guarda tinha D. Aos olhos dos cronistas contemporâneos. Todavia. Destas recebia a soberana os direitos reais e as rendas auferidas pelo exercício da jurisdição senhorial. ficou demonstrado o papel político desempenhado pela rainha como mediadora da paz. sendo aqui que encontramos as suas raízes. mas também na assinatura da Paz de Caneveses entre D. As informações relativas à infância. Consideramos que a “Casa” da rainha já existia ao tempo de D. sendo entre todos estabelecidos fortes laços de solidariedade e afinidade. ao 261 . mas sim proteger os interesses linhagísticos e. utilizadas posteriormente para a manutenção da sua “Casa”. considerámos necessário compreender as suas origens linhagísticas e tentar reconstituir o seu meio familiar. Consideramos que estes possam ter sido os momentos imediatamente anteriores à sua institucionalização. Muitas das terras em posse de D. Beatriz um conjunto de senhoras e homens que a acompanhavam e serviam.

seu marido. o facto de a soberana ser dotada de poder e autonomia garantiulhe uma certa independência face ao rei. Beatriz. assim como do hospital. as ladainhas. a corte dionisina e. aos quais devemos associar a celebração das missas de aniversário. Porém. mas a sua memória permaneceria para sempre recordada graças a todos os preparativos realizados em vida da consorte. por seu turno. Apesar de todo o esforço. Beatriz. as doações. muito ficou ainda por conhecer. principalmente sobre as rainhas medievais menos conhecidas. ficaram várias lacunas que impossibilitaram o conhecimento de toda a vida de D. Sabemos. foram muito importantes a instituição da capela na Sé de Lisboa. ou seja. Uma outra lacuna está relacionada com a “Casa” da rainha: a sua instituição. Aqui tivemos de nos socorrer do conhecimento que se tem sobre a corte e a época em estudo. a esfera de influência da rainha Santa Isabel. Com a morte chegou o fim da presença terrena desta mulher. A primeira e mais sentida é o total silêncio que existe sobre a infância e educação desta infanta. como era efectuada a transmissão dos bens. o grau de autonomia ou dependência face ao monarca. Assim. e disso tivemos consciência ao longo de todo o trabalho.qual devemos acrescentar a nova parentela na qual a jovem infanta foi inserida quando chegou a Portugal. o que permite que se encontrem alguns documentos que nos ajudam a reconstituir aspectos significativos da vida de D. existindo a falta de um estudo comparativo de várias rainhas para encontrar pontos de convergência e divergência. 262 . o que dificulta o trabalho heurístico. … Espero com este meu trabalho ter demonstrado que é errada a ideia relativamente generalizada de que não existem dados documentais suficientes para escrever sobre as mulheres. que a consorte vive sempre na sombra do monarca reinante. os membros que a compunham. assim como.

º186 Santa Maria do Castelo de Torres Vedras m. 72.º220 TORRE DO TOMBO (TT) Colecção Especial cx. n.1. m.24. n. 88 Santo Estevão de Alfama de Lisboa. n.17. n.27.º71 m.10. n. n.º16 m. 86. n.º20 m. n.º1 Colegiadas: Nossa Senhora da Várzea de Alenquer.6.º31 m. m. n.4.85. 72.º154 m. n. m.2. m.º59. n.17.º8 Colegiada de Santa Marinha de Lisboa m.º1 cx.º12 263 .º60 Santa Cruz do Castelo de Lisboa m.º23 Gaveta 1ª das Propriedades e Rendas do Cabido m. n. 70. n. 90 m. n.3.º100 Santo Estêvão de Lisboa. n.29. 73.5. n. 63.27. m.º36 m.22.11.3. n.º14 m. m.14. n. 106 Santa Maria da Alcáçova de Santarém m.º212 São João de Frielas.2. n.1.8.3.º10 m. FONTES MANUSCRITAS ARQUIVO DISTRITAL DE BRAGA (ADB) Gaveta dos Coutos e Honras m.º105.º6.1. 45 Santa Maria de Guimarães. n. m. Documentos Particulares. n.FONTES E BIBLIOGRAFIA I.2. n.

n. n.4.17. m. m.º2 Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.9. n.º52 m.17. n.10. n. m. n. n. 10 m. alm. m. m.º9 m.º1 m.1. n.29.35.º2 m. Liv. n. n.º15.São Lourenço de Lisboa.º7. pasta 9..º18. n. m.34.º51 São Martinho de Sintra m.1.º11 cx. m.º14 Mosteiro de Santa Eufémia de Ferreira de Aves. 30.º30 1ª inc.33.º279 m. m.577 Convento de S.º13 cx.25. m.17. m.9.14 Convento de S. Alm. 264 . m. 36 m.4. m. m. n. 34 m.1.º73 São Pedro de Torres Vedras.51.3. n. n.33. Alm.º16.º496 Mosteiro de Santa Ana de Coimbra cx.2. n. n. n. 61 m.. 2ª inc. n.54.7.2.7 m. Domingos de Lisboa. 28. n. n. m.16.7.2.º11 Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça Documentos Particulares m.31.5. alm.º22.º10 2ª inc. n. n.º334 São Miguel de Torres Vedras m.º33 Mosteiro de Santa Maria de Aguiar.1.3.1.28 Mosteiro do Salvador de Lisboa. m. m. n. n. 27. m. n.33. Domingos de Santarém 1ªinc.48.1. alm. n. m.9.º42.º225 Mosteiros e Conventos: Convento de Cristo em Tomar Documentos Particulares.º26 Liv.17.4.2.

º39 cx. n.6. n. m. m. n. m. 22 g. m. Vicente de Fora 1ª inc.13.1.12. n.º49 265 . n.º987.º861 m.º7 2ª inc.63. n.33.7.10. n.10.5.63.9.4.2.m. Cristóvão de Rio Tinto.9. n. m.º3/2. n.7. n.14.5.º12/1 g. 10 Mosteiro de Santa Maria de Almoster.º9. n.77.º21 g. 34 Mosteiro de Santa Maria de Celas de Coimbra.º657 m.º33 Mosteiro de S.º11 g. n.º914 m. n.6. n. n. n. n.18. n.11.º25. m.º12/1 g.3.º702 m.º8 g. 29 g. n.41.49. m.º24 Mosteiro de Santa Maria de Chelas m. n.º9.5.36. n.1331 m.º8.4. m.5.34.º214 m. n. 36 Mosteiro de Santa Maria de Arouca g. n.10.º28. n.º347 m.3. m.º45 m.12.66.º553 m. 251 m.2. m. m.º141 Mosteiro de S.42. 7/2 Mosteiro de Santos-o-Novo m.º20. n. n.º9.6. n.º1251 Mosteiro de Santa Maria de Lorvão g. m. m.º663 m.º9. 990.11. 32 m.5. 21. n.28. n. 1001 m.7.6. n. 22 m.4. n.º1542 Mosteiro do Salvador de Vairão. n. m.º32 m. n. n. cx.

.º4 Gav.13. m.1.17.2. m.º23 Gav. n.º1.º1069 m.4.º51 A cx. n.9. m. Província de Portugal.2.7. n.º4.13. 4 Gav. n. n. 2ªinc. n. n. n.13. n. m.cx.5.9. m.º22 Gav. n.º15 Gav.º21 Gav.º484 m.88.º24 Gav. n. m.º3. m. 7 Gav. m.º5. n.º32 Gav.º611 m. 16 Gav. m. n.º8 Gav.3.8.18. m. n.1. m. n.13. n.7. n.º9 Gavetas: Gav.21.13. m.13.º17 OFM.6. m. n. n.5.º13 Gav.º12 Gav. n. Convento de Santa Clara de Santarém m.17. m.1. n. n. n. 14 Fundo Vasconcelos e Sousa: cx.º8 Gav.º18 Gav. Convento de Santa Clara de Coimbra.4. m. m.º4121 Sé de Lamego.5. n. n. n. m.º5 Gav. m.º8 Gav. n.6.º20 OFM.º848 Dioceses: Sé de Coimbra.3. Liv.13. n. n. nº. 15 Leitura Nova: Místicos.12. m.4.4. m.º6 Gav.º13 Gav.10. n.6.13.10. m.11.16. m.10. m. Província de Portugal.3.º11 Gav.16. m.1.18.7.7 Gav.º4 Gav.13.29.21.2.4.º3 Gav. n.13.1. n.9. n.6.18.3.14. 6 266 .º26 Gav.4. 29. n. m. m. n. m. m.17.º1222 m.25. Doações e mercês régias.

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APÊNDICES

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ANEXO I ESQUEMAS GENEALÓGICOS

i

Esquema Genealógico I – ASCENDENTES DE D. BEATRIZ

ii

Esquema Genealógico II a – PARENTESCO ENTRE D. BEATRIZ E D. AFONSO IV – ANTEPASSADO COMUM (3º GRAU): D.

JAIME, O CONQUISTADOR

iii

Esquema Genealógico II b – PARENTESCO ENTRE D. O SÁBIO iv . AFONSO X. BEATRIZ E D. AFONSO IV – ANTEPASSADO COMUM (3º GRAU): D.

Esquema Genealógico II c – PARENTESCO ENTRE D. BEATRIZ E D. DE CASTELA v . AFONSO IX. AFONSO IV – ANTEPASSADO COMUM: D.

PEDRO E D.Esquema Genealógico III – ASCENDÊNCIA COMUM ENTRE D. INÊS DE CASTRO Sancho IV ::: ? ::: Maria Afonso Teles de Menezes ::: Maria Peres ∞ Maria Molina Tereza Sanches João Afonso Teles de Menezes ∞ Violante Sanches de Ucero Fernando de Castro Pedro Fernandes de Castro Afonso Sanches Maria Lopes de Haro Isabel Fernando Constança Afonso Henrique Pedro Maria ∞ ∞ ∞ ∞ Filipe Beatriz Afonso IV. de Portugal ∞ Afonso XI Maria Pedro 1º ∞ Branca 2º ∞ Constança ::: Inês de Castro Leonor Pedro II. de Aragão ::: Aldança Soares de Valadares ∞ ∞ Inês de Castro Luis Fernando Afonso João Dinis Beatriz vi .

Esquema Genealógico IV –LOPO FERNANDES PACHECO (segundo LL) João Fernandes ∞ Lopo Fernandes 1º Estevainha Lopes ∞ ∞ Maria Gomes Taveira 2º Maria de Vilalobos Diogo Lopes Violante Lopes 1º Guiomar Lopes ∞ Joana Vasques Pereira ∞ ∞ ∞ João Afonso Telo Martim Vasques da Cunha 2º Diogo Afonso vii .

Esquema Genealógico V – OS AVELAR Estêvão Dias de Mouriz de Sousa ∞ 1º Maria Martins do Avelar ∞ 2º Estevainha de Macieira Gil Esteves do Avelar ∞ Dórdia Afonso de Maçada Martim Esteves ∞ Sancha Gonçalves de Milheiros Martim Esteves ∞ Maria Martins I II Diogo Gil ∞ Maria Eanes de Cambra João Gil Sancha Gil ∞ Aldonça Anes de Castelãos João do Avelar Pedro Soveral ∞ Maria Lourenço de Portocarreiro Fernão Martins Martim Martins ∞ Aldonça Esteves [de Góis] João Martins Martim do Avelar I ∞ 1º Constança Esteves ∞ 2º Teresa Fernandes Teresa Martins ∞1º Vasco Raimundes ∞ 2º Lourenço Martins Buval Lourenço Martins I ∞ Beatriz Eanes III Estêvão Dias Beringela Martim Pires Dias Soveral ∞ 1º Martim B[randão] ∞ 2º João Afonso de Sanir João do Avelar Rui Pires do Avelar Estêvão Pires do Avelar Sancha Gil Martins Martins do Avelar ∞ ∞ Francisca Martim Pires Gonçalves de Paiva Joana? Martins Leonor Martins Lourenço Leonor Maria Martins II Vasques Lourenço de ∞ 1º Portocarreiro Maria Anes ∞ 2º Sancha Dias João Lourenço Buval Martim Leonor do Avelar II Martins ∞ Leonor Martins Branca Teresa Lourenço Lourenço ∞ Nuno Martins de Góis Joana Lourenço Beatriz Lourenço Gomes Martinho Lourenço IV Lourenço Martins III ∞ Inês Afonso Sancha Dias viii .

ANEXO II MAPAS ix .

BEATRIZ x .Mapa I – ARRAS RECEBIDAS POR D.

Mapa II – BENS DETIDOS POR LOPO FERNADES PACHECO xi .

Mapa III – BENS DETIDOS PELOS AVELAR Modiv as Terra d e Santa Maria? Paço de Sousa Rio Douro Arouca São João da Madeira Modivas Golegã Santarém Valada Torres Ved ras Matacães Turcifal Dois Portos Valverde Bucelas Sintra Loures Rio d e Mouro Lumiar Alcabideche Lisboa Lan çada Rio Tejo Paço de Sousa Terra de Santa Maria? ro Rio Dou Arouca São João da Madeira Rio Tejo Golegã Santarém Torres Vedras Turcifal Matacães Dois Valada Portos Valverde Bucelas Sintra Rio de Mouro Alcabideche Loures Lumiar Lisboa Lançada N xii .

Mapa IV – BENS DETIDOS PELOS AVELAR EM LISBOA E SEU TERMO Torres Vedras Turcifal Matacães Dois Portos Tejo Rio Bucelas Loures Sintra Rio de Mouro Lumiar Alcabideche Lisboa Lançada N Legenda * Ponto de referência Herdade Quintã Casa com sobrado e lojas Casal Vinha Pomar Casa x Courela Herdamento Azenha Lagar ? Desconhecido Martim do Avelar I Gil Martins Lourenço do Avelar I Branca Lourenço Teresa Fernandes Teresa Martins Lourenço do Avelar II xiii .

ANEXO III QUADROS xiv .

Maior rubi .Relicário de camafeu. tapadouro.As melhores contas de aljôfar que houver.Esmeralda . Afonso IV Infanta D. 400]. xv .Serpe com seu coral e scorpoens . e é figura de Sansão esee sobre um leão. neta .f. e em redor do camafeu esmeraldas e rubis pequenos.Taça dos pés com a sobrecopa963 Testamento de 1358 D. que tem camafeu figura de cabeça branca em campo preto.Copa de prata dourada .“Tres caphiras duas grandes e hua pequena” .Cruz de ouro. vol. copa.Uma grilanda de ouro com rozetas esmaltadas com safiras. entre cada roseta. e em cada roseta um grão de aljôfar . e o homem e leão brancos.100 libras Beatriz Martins [do Avelar] 963 s. Maria . XXIX.Quadro I – DISTRIBUIÇÃO DOS BENS MÓVEIS DE BEATRIZ Beneficiário ou destino Testamento de 1349 Codicilo de 1354 Testamento de 1357 . e tem esmeraldas e rubis pequenos em redor .“Çaffyra da vertude” . e o campo é preto. e nos cantos da cruz dois rubis e duas safiras 100 libras . o mesmo que tampa” [GEPB. fora as que deixo à infanta D. Beatriz. p. “Cobertura de vaso.

300 libras .Duas taças de prata .“Smeralda longa que anda en anel” .Cruz de ouro . frade da Ordem de S.. Francisco .Cruz de ouro que tem um rubi no meio e Infante D.300 libras .Seus casamentos: 300 libras a cada uma . filha do mestre João das Leis Todas as covilheiras Infante D. neto Fazer pontes Fr.“Camaffeu do Leom” .300 libras a cada uma .100 libras . Fernando.Uma esmeralda longa que anda em anéis (a melhor) .Seu casamento como donzela .Taça de ouro com sua sobrecopa que tem a figura do Agnus Dei dentro .500 libras .Duas safiras .100 libras . a qual é dourada e tem em cima da sobrecopa um botão grande . Dinis.“Taça de prata com sa sobrecopa” .“Cruz do ouro” .“Anel com hu roby” .Copa de ouro que tem uma safira em cima da sobrecopa .“Hu dos melhores diamaaes .Mil libras .“dous pares de panos de laa” .Outra copa.“Roby e hua çaphira en anees” .500 libras .Taça de ouro que tem um esmalte dos sinais de Portugal no meio .300 libras a cada uma . como a D.As suas relíquias que andam no cristal .Um rubi que está num anel em folhetas .Camafeu com figura de Leão . João .Copa com sua sobrecopa de prata.Contas dos corais e tem maçanetas de ouro .100 libras .“Hu par de panos de lãa” .100 libras .Branca Lourenço do Avelar Branca do Avelar e seus filhos Constança. neto xvi .“Religas” . seu confessor Frei Estevão. Estevão.

Uma turqueza em anel .30 libras .quatro safiras nos cabos .30 libras .Camafeu figura de homem bochechudo .Três safiras: duas grandes e uma pequena .Saquinho com anéis Frades de S. Francisco de Coimbra Frades de S. e dois grandes.30 libras .Sete anéis: três deles têm sete rubis. e um pequeno.Esmeralda que tem quatro grãos de aljôfar .Uma esmeralda em anel . Francisco da Guarda .30 libras xvii .Camafeu do leão .Cinta de ouro .30 libras . e um tem uma esmeralda . Francisco da Covilhã Frades de S. um grande. e dois meaaos. Domingos de Guimarães Frades de S.30 libras . e os três são de diamantes. Francisco d Bragança Frades de S.30 libras .

Francisco de Guimarães Frades de S. Francisco de Lamego Frades e convento de S.Copa de prata esmaltada .Outra copa de prata dourada .Cama mor .300 libras . seu clérigo Igreja da Sé de Lisboa D. Isabel de Cardona Joana Martins [do Avelar] Infante D.100 libras .300 libras . filho de Martim do Avelar .Frades de S. Francisco de Lisboa Gil Martins.Cama mor .30 libras . João.200 libras .100 libras .30 libras . das per que bevo .Duas taças das minhas de prata.30 libras .Vestimenta perfeita . criado João. neto João.200 libras .100 libras .300 libras .30 libras .400 libras .200 libras xviii .

filho de Martim do Avelar. Maria. rainha de Castela. Leonor Teles de Menezes Lourenço.Camafeu grande de colo que tem um baselisco.200 libras .Mil libras .Contas . e o campo xix . a Velha D. e figura de homem e de leão. neta . e a sua esposa Lourenço Martins.Quatro grãos de aljoufar muito grosso a redor .1000 libras .Safira D. Maria.“Hu par de panos de lãa” .Relicário que tem um rubi.Diamão .Contas de ouro .Donas .Contas dos azeviches longas com grãos de aljoufar grosso .Camafeu do galo . e com esmeraldas miúdas em redor.Mestre João das Leis Leonor Gonçalves. filha .300 libras .Grilandas .Dois anéis .300 libras D. filho do Mestre de Avis .Relicário .Um rubi que está numa cruz com quatro esmeraldas em redor .300 libras . e com pedras esmeraldas pequenas ao redor dele e noutro circulo tem quatro esmeraldas grandes e quatro grãos de aljôfar grosso .Esmeralda grande de colo .“Uma grinllanda ancha” .300 libras .200 libras .Safira encrostada em ouro com dois rubis e dois grãos de aljoufar .

e delas de láudano.Esmeralda longa em anel .200 libras .100 libras . e delas grandes vizes. com aljôfar e pedras finas.Contas que são de ouro picadas.As melhores contas de aljôfar que tiver Maria Durães.200 libras . Anã Maria Rodrigues.500 libras . um branco e outro tenado. seu tesoureiro Mestre de Avis.dobra de ouro grande esmaltada . a Aia Mendo Afonso. e tem uma calcedonea no meio .Carro de ouro com sua donzela que tem de amaaes e pedras e aljofar . sobrinha Maria Miguéis.1000 libras para seu casamento xx .e as figuras dele é pardo .Castelete e tem dois camafeus de figuras de leões. Maria Girona.300 libras . Fernando D. meu criado . e com um grão de aljôfar no cabo . miúdas em redor. cuvilheira do infante D.Dois pichéis de prata dourados e ondados .Duas taças de prata douradas e obradas .

xxi .“Smeralda da vertude” .Esmeralda grande que está em anel e é golpada D. .Uma cinta . Domingos A cada Mosteiro de S. VI.Arca do azeviche. neto Mulheres pobres. a qual tem pedras confeitas.1000 libras .Cinta de prata esmaltada .30 libras .1500 libras . fidalgas e vilãs Ordem de Avis Ordem de Jesus Cristo Ordem de Santa Cruz de Coimbra Ordem de Santiago . Pedro [I] 964 s. Francisco Mulher que for do infante D. 860].taça com sua sobrecopa e com seu capitel do cavaleiro do Cirne964 . “Forma antiga de cisne” [GEPB.1000 libras . p.“Todolloss meus panos de lãa” . Fernando.“Taça com sa sobrecopa e com seu capitel do cavaleyro do Cisne” . vol.Um pichel pequeno esmaltado .1000 libras .1000 libras . envergonhadas.Taça .1500 libras .“Pichel pequeno smaltado” .30 libras .1000 libras .1000 libras .m.“Robi e a smeralda encastoados em anees” .A cada Mosteiro de S.

“Duas taças” . safiras nomeiagoo. Rodrigo.O melhor saleiro que houver .“Melhor salleyro que eu ouver” . Rodrigo [Eanes] Fr.Uma safira grande em anel . Estevão Todas as donas que andarem com a rainha no momento da sua morte Todas as suas donzelas .200 libras a cada uma .50 libras .Dois texxes de pedras. e balayses pequenos.“Çafira grande encastoada en anel e tem letras no arco” .Rubi grande que está em anel .100 libras .500 libras a cada uma para seus casamentos xxii .Rubi encrostado em anel . filho de Leonor Martins Pedro Nunes.50 libras .400 libras a cada uma .“hua çaphira grande quadrada en anel” .300 libras .“Mayor diamante que ouver” Pedro.50 libras . e aljôfar de redor .Um ourental . companheiro de fr.“Hu par de panos de lãa” .“Roby quadrado encastoado en anel” .500 libras a cada uma .300 libras .950 libras .. filho de Nuno Martins e de Branca Lourenço Resgatar cativos Fr.

por todos .Que lhes dêm seus casamentos: 200 libras a cada uma .300 libras .Todos da criação da rainha assim de cavalo como de pé Todas as suas mancebas Todas as suas mouras e servas Vasco.1000 libras .1000 libras .2000 libras. filho de Leonor Martins Vasco. filho de Martim do Avelar Vasco.Forro .300 libras . filho de Esteve Anes .300 libras xxiii .“Que lhys dem seus casamentos” .“Forro” .2000 libras .

.º484 TT. Por 3 000 libras.14. n. fl. 1ª inc. Por 1 350 libras.13. 966 967 968 xxiv . mulher em outro tempo de Gonçalo Peres Ribeiro] Doação do Mosteiro de S.QUADRO II – BENS RECEBIDOS EM DOAÇÃO POR D. BEATRIZ ANO965 1297 BEM Senhorio Arras FORMA DE AQUISIÇÃO LUGAR / FREG. m. V.12. Gav.175v TT. m.º8 965 Esta data refere-se ao ano em que o documento foi emanado. Vicente de Fora de Lisboa. Gav.º8 TT. ?.º3 TT. m. / CONC.4. 2ª inc. Cabido da Sé de Coimbra. Vicente de Fora ML. Alenquer Melida.4. Mosteiro de S. m.. Constança. Évora966 Vila Viçosa967 Vila Real968 Gaia com Vila Nova Santarém Sintra Santarém e seus termos Sayes. Afonso IV) Doação régia Doação régia [dos bens que eram de Fernão Sanches] Doação particular [D. n. V. fl. n. termo de Sintra ML. n. 259 FONTE ? 1334 1335 1341 [1350] Herdades Lezíria dos Portos Senhorio Herdades Possessões Quintã Quintã Doação régia (D.10. Por 3 000 libras.

Gav. Chancelaria de D. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. m. m. Alm. Alm.4.º14 TT. 13. alm.. m..º18 xxv .13. n.35.54.10.º5. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. 2ª inc. m54. 2ª inc.. Gav.10. Pedro. Atouguia da Baleia.307 TT.16. n. m. n. 2ª inc. Peniche Torres Novas Ourém Porto de Mós Cheleiros Viana do Alentejo Enxara Lisboa Louriçal. Pombal TT. m.16. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. n. m. m. Afonso IV] Préstamo do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra Préstamo do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra Préstamo do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra Óbidos Atouguia. p.º14 TT.9.51. n.º4 TT.1357 Senhorio Doação régia 1357 1360 1360 1368 Senhorio Lugar … Casas ? Doação régia [D.5.

Convento de Santa Clara de Santarém. Pedro. n. n. cx.. xxvi .º21 TT. Colecção Especial. Mosteiro de Santos-o-Novo de Lisboa.7.QUADRO III – BENS DE D. Almada TT.º987 TT. OFM. n. Colegiada de Santa Maria do Castelo de Torres Vedras. Colegiada de Santa Maria da Alcáçova de Santarém. m.º14 ADB. Doações e mercês régias. 144 FONTE Alvisquer (termo de Santarém) Vila Real Panóias Sintra Almada Alcáçova de Lisboa Alenquer Torres Vedras Torres Novas Torres Vedras Termo de Santarém Bem Alfarra.º36 TT. m.14.10. n.1. m. 1009 969 Esta data refere-se ao ano em que o documento foi emanado. n. 1ª inc.17. 72.º106 TT. n. Mosteiro de Santos-o-Novo de Lisboa. n.3. Martinho de Sintra. n. m. m. n.1. n. m.49. Mosteiro de S.º990 TT. Sé de Lamego. Colegiada de Santa Cruz do Castelo de Lisboa. doc.49. Província de Portugal.2. m. BEATRIZ DE ORIGEM INDETERMINADA ANO969 ? 1338 1338 1342 1345 1348 1348 ? ? ? 1356 1357 1365 TIPO DE BEM Senhorio Vinha Senhorio Senhorio Paço Senhorio Paço Senhorio Senhorio Senhorio Vinha Lezíria Lugar Trancoso LOCALIZAÇÃO ML. Gavetas dos Coutos e das Honras.º36 TT. V.º611 Chancelaria de D. fl. n.º31 TT. m.º10 TT. Vicente de Fora de Lisboa.º1 TT. m. m. Colegiada de S.12. m.

Quadro IV – DOAÇÕES CONCEDIDAS A D. BEATRIZ (e que constam dos seus codicilo e testamentos) Doador Parentesco com D. Beatriz Doação Fonte “Camaffeu do Leom “Tres Caphiras” “Relicayro” “Camafeu figura de Leom” “Duas safiras” “Reliquario” Afonso IV Marido “Safira grande em anel” “Taça do ouro” “Copa do ouro” “Camafeu do Leom” “Turqueza em anel” “Camafeu figura de homem bochechudo” “Cinta do ouro” Testamento de 1358 Codicilo de 1354 Codicilo de 1354 Codicilo de 1354 Testamento de 1357 xxvii .

consultado em 26/01/2009. João de Castro970. Fernando Neto “Cruz do ouro” “Cinta he toda de prata smaltada” Infante D. Pedro) “Contas” D.diocesetuivigo. Bispo de Tuy João Gomes de Chaves. Constança Nora (mulher de D.“Sete anees” “Esmeralda longa em anel” “Copa de prata esmaltada” D.org/. Estevão Vasques. xxviii . Filipe Irmão “Cinta de prata esmaltada” Testamento de 1358 Testamento de 1358 Testamento de 1357 Testamento de 1358 Testamento de 1358 Codicilo de 1354 Testamento de 1357 Testamento de 1358 Testamento de 1358 Testamento de 1357 970 http://www. prior do Hospital “Copa com sa sobre copa de prata” “Cruz do ouro” Infante D. Bispo de Évora “Duas taças” “”Duas taças de prata douradas” “Dous pichéis de prata dourados. e ondados” “Cruz do ouro” Infanta D.

Leonor. e com hum pichel pequeno.“Roby e a smeralda encastoados em anees” “Serpe com seu coral e com seus scorpoens” “taça com sa sobrecopa e com seu capitel do cavaleyro do Cisne” “Pichel pequeno smaltado” “Esmeralda grande de collo” “Pano com sete escudos de Castellos e Leoens. e outros sete escudos desses mesmos sinaes no outro cabo. rainha de Aragão Filha xxix . esmaltado” “Robi encastoado em anel” “Esmeralda” “Arca do azeviche” “Contas dos coraees” Taça dos pees com sa sobrecopa “Um pano de laa de ffeguras” Lourenço Martins do Avelar “Taça de prata com sa sobrecopa” “Taça” Testamento de 1358 Testamento de 1357 Testamento de 1358 Codicilo de 1354 Testamento de 1357 D. no cabo contra a cabeceira. de contra os pes” “Taça com sa sobre copa. e com seu capitel do cavaleiro do Cirne.

“Camaffeu” D. Maria. Maria Afonso. João de Lacerda “Hu anel com hu roby” “Reliquario de camafeu” Mãe “Smeralda da vertude” “Smeralda que he tamanha” “Taças de prata” ? “Rubim e está em huma Cruz com quatro esmeraldas a redor” “Copa de prata dourada” Testamento de 1357 Testamento de 1358 Testamento de 1357 Maria de Molina Martim Esteves do Avelar. mulher de D. Mestre de Aviz Nuno Fernandes D. rainha de Castela Filha “Casteleta” Testamento de 1357 Testamento de 1358 “Dobra do ouro grande esmaltada” D. Vataça Testamento de 1358 Codicilo de 1354 Testamento de 1358 xxx .

vol. “pérolas miúdas (…) (do ár. e he cheo de Religas Testamento de 1358 Testamento de 1358 Testamento de 1358 Testamento de 1357 Testamento de 1358 971 (aljôfar) – s.964]. os dous grandes. hũ grande. e hũ tem hua esmeralda. I. e hua torqueza em anel” Testamento de 1358 Testamento de 1358 Estão num “saquinho” 2 1 1 1 Cristal Azeviche Cristal Cristal “Tem pedras confeitas” “Longo com o pé de prata e cheio de relíquias” “Longo com pe de prata. relicários e outros objectos valiosos Bem Quant. pedra preciosa. e os tres saõ de Diamaãs. p.m. joalharia. Aljauhar. xxxi . Ourivesaria. BEATRIZ 1. e os dous meaaos. jóia)” [GEPB. Material Descrição Fonte Aljôfar971 Anel Anel Anel Anel Anel Arca Arca Barril Barril 4 grãos 1 2 7 1 Turquesa “Muy grosso a redor” Com um robi Codicilo de 1354 Testamento de 1357 Codicilo de 1354 “Tres delles tem senhos robis.Quadro V – PATRIMÓNIO MÓVEL DE D. e hũ pequeno.

V. escolhendo-se para isso a ágata e suas variantes” [GEPB. (…) O camafeu também se usa como sinete. e tem duas safiras e dous rubins. e o campo. p. “Pedra composta de várias camadas de diferentes matizes e esculpida em relevo. e simitas de prata” “Do Leom e tem dous robis e duas çaphiras e quatro grãaos d’aljouffar” “He en anel e he fegura de cabeça d’homem branca e sta sobre smeralda” “figura de Leom. Dá-se este nome a toda a pedra fina esculpida em relevo. e quatro graõs de aljofar a redor” “Do Leom” “Figura de homem bochechudo” “Grande de colo. vol.Boceta Camafeu972 Camafeu Camafeu Camafeu Camafeu Camafeu Camafeu do galo Carro Cinta Cinta Cinta 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 Cristal “”que tem capitees. e pedras e aljofar” “Toda smaltada” “Toda esmaltada” 972 s. antigamente. e pees. e o Leom branco. e de Leom. e figura de homem. he pardo” Testamento de 1358 Testamento de 1357 Testamento de 1357 Codicilo de 1354 Testamento de 1358 Testamento de 1358 Testamento de 1358 Codicilo de 1354 Testamento de 1358 Testamento de 1357 Testamento de 1358 Testamento de 1358 ? Ouro Prata Prata Ouro ? “Com sua Donzela. o campo he de safira. preferiam-se as pedras de distintos tons a fim de que a imagem talhada realçasse sobre um fundo geralmente mais escuro. que tem hũ baselisco. xxxii .m. e com esmeraldas miúdas em redor. e as figuras del. e tem de amaaes. 548].

e dellas grandes vizes. he dourada. e a redor do camafeu Testamento de 1358 Testamento de 1358 Codicilo de 1354 Testamento de 1358 Testamento de 1358 xxxiii . e tem hua calcedonea no meios” Testamento de 1357 Codicilo de 1354 Codicilo de 1354 Codicilo de 1354 Testamento de 1358 Testamento de 1358 Testamento de 1358 “Tem maçanetas douro” “Que tem hua safira em cima da sobre copa” Testamento de 1358 Testamento de 1358 Testamento de 1358 Testamento de 1358 1 1 1 2 1 1 1 1 Ouro Prata esmaltada Prata dourada “Com sa sobre copa de prata. e tem em cima da sobre copa hum botom grande” Prata dourada Ouro Ouro Ouro “Tem hũ robi no meio goou.Cruz Contas Contas Contas Contas Contas Contas Contas Copa Copa Copa Copa Copa Cruz Cruz Cruz 1 ? Pl. e quatro safiras nos cabos” “Tem camafeu figura de cabeça branca em campo preto. e dellas de laudano. ? Ouro ? Azeviche Ouro Ouro Aljôfar Aljôfar Coraees “Tem hu roby no meyoge e quatro çaphiras nos cabos” ? “Longas com graõs de aljofar grosso” ? “Picadas.

e he golpada” “em anel” “Tem quatro grãos de aljôfar em da redor” “Longa em anel” “O mayor que ouver” “Dos melhores” Testamento de 1357 Testamento de 1357 Codicilo de 1354 Testamento de 1358 Testamento de 1357 Testamento de 1357 Testamento de 1357 Testamento de 1357 Codicilo de 1354 Codicilo de 1354 Testamento de 1358 Testamento de 1358 Testamento de 1358 Testamento de 1358 Testamento de 1357 xxxiv .esmeraldas. e robis pequenos. e nos cantos da Cruz dous robis. que andam em aneis” “Grande que esta em anel. e duas safiras” Diamante Diamante Diamaõ (diamante?) Dobra Esmeralda Esmeralda Esmeralda Esmeralda Esmeralda Esmeralda Esmeralda Esmeralda Esmeralda Esmeralda Esmeralda virtude da 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 Ouro “Grande esmaltada” “Da vertude” Que é tamanha como a outra da virtude “Longa que anda en anel en cambos” “Longa que he encastoada en carrolla” “Grande de collo” “Huma das longas.

e tem esmeraldas. e o campo he preto. e com pedras esmeraldas pequenas de redor del. e em outro circo tem quatro esmeraldas grandes. e o homẽ e Leom brancos. e hum rubim no meio grosso. e esta caza he chea de mui boas Reliquias” “Tem hũ robi. e de cassa huma Magestade de Santa Maria no collo.Lâmpada Passarinhas Pichel Relicário 1 4 2 1 Prata Prata esmaltada Prata dourada “Ondados” “De tres camtos e tem d’hũ cabo hu roby no meyogeo e tres çaphiras nos camtos e grãaos d’aljouffar grossas e meyãao en el e da outra parte tem imagem de Santa Maria com seu filho” “Tres safiras em cada canto huma. e quatro graõs de aljofar. e robis pequenos da redor” “Que andam no christal” Testamento de 1357 Testamento de 1358 Testamento de 1358 Testamento de 1357 Relicário 1 Codicilo de 1354 Relicário Relicário Relíquias Rubi Rubi Rubi Rubi Rubi Rubi 1 1 Testamento de 1358 Testamento de 1358 Testamento de 1358 Testamento de 1357 Testamento de 1357 Testamento de 1357 Codicilo de 1354 Codicilo de 1354 Testamento de 1358 1 1 1 1 1 1 “O mayor em anel e he golpado a logares” “Quadrado encastoado en anel” “Encastoado en anel en talho posponta” “Está em huma Cruz com quatro esmeraldas a redor” “que he posto em anel em folhetas” “Encastoado em anel” xxxv . e quatro grãos de aljôfar grosso” Camafeu “e he figura de Samsam esee sobre hũ Leom.

e he para o colo” “huma he talho de bellota.f. em hua boceta de cristal” Testamento de 1358 Testamento de 1357 Testamento de 1357 Testamento de 1357 Testamento de 1357 Testamento de 1357 Codicilo de 1354 Codicilo de 1354 Testamento de 1358 Testamento de 1358 Testamento de 1357 Testamento de 1357 Testamento de 1358 Testamento de 1357 Testamento de 1358 s. XXVIII.Rubi Rubi e esmeralda Rubi e safira Safira Safira Safira Safira Safira Safira Safira Safira da virtude Saleiro Saleiro Serpe973 Serpe 973 1 1 1 3 1 1 1 3 1 3 1 1 1 1 1 Prata esmaltada “Grande. em forma de serpente” [GEPB. e tem dous rubins. Serpente. e atalho de pesponta. e a outra talho de almendo” “Grande em anel “As duas grandes e huã pequena. “Port. e esta em anel” “Encastoados en anees” “En anees” “Duas grandes e hua pequena (…) para os olhos e hua delas ha talha de castanha e outra de bolota e a outra meor he longueta “Grande quadrada en anel” “Grande encastoada en anel e tem letras no arco” “Encastoeia (…) em ouro. xxxvi . e a hua dellas a talha de Castanha. e dous graõs de aljofar. 466-467]. linha de ornato. de boleta. vol. e a outra he longeta” “(…) para os olhos e tem letras a redor do castom” “Melhor que eu ouver” “Milhor que ouver” “Com seu coral e com seus scorpoens” “tem Religas. pp.

Taça Taça Taça Taça Taça Taça Taça Taça Taça Taça Taças Texees (?) 1 1 1 1 1 1 2 1 2 2 2 2 Pedras Ouro Prata Ouro Prata dourada Prata Prata “Dos pees com sa sobrecopa” Com a sobrecopa e com seu capitel do cavaleiro do Cisne e com um pichel pequeno esmaltado “Com sa sobrecopa” “Com sa sobre copa. e com hum pichel pequeno. e aljofar da redor” Testamento de 1358 xxxvii . esmaltado”. “Tem pe de prata e sobre copa dourada. e balayses pequenos. e com seu capitel do cavaleiro do Cirne. e esmaltada” Testamento de 1357 Testamento de 1357 Testamento de 1357 Testamento de 1358 Testamento de 1358 “Com sa sobre copa que tem a figura do Agnus Dei dentro” “Das per que bevo” “Tem hũ esmalte dos sinaes de Portugal no meio goou” “Obradas” Testamento de 1358 Testamento de 1358 Testamento de 1358 Testamento de 1358 Testamento de 1358 Testamento de 1357 “Safiras nomeiagoo.

e com hũ graõ de aljôfar no cabo” Assinada de castelos e de leões “De rosas smaltadas com pedras e com aljouffar” Testamento de 1357 Testamento de 1358 Testamento de 1358 Testamento de 1358 Testamento de 1357 Testamento de 1357 Codicilo de 1354 Testamento de 1358 Testamento de 1357 Testamento de 1357 ? 1 1 2 Lã Ouro ? “Com rozetas esmaltadas com safiras. p.f. e em cada hua rozeta hũ graõ de aljofar” “Com robis e çaphiras e smeraldas e grãaos d’aljoufar grosso” “Grandes com ssynaaes d’El rei e meus” 974 (alfola) – s. e hum almadraque dante o estrado” “”Tem dous camafeus de figuras de Leoens. I. 910]. vol. e ouro tenado. xxxviii . miúdas em redor. Têxteis Bem Quant. com aljôfar. Material Descrição Fonte Alfolos974 Alfolos Almadraque Castelete Colcha Grinalda Grinalda Grinalda Grinalda ancha Mantas 3 3 14 1 1 1 Pano de Granada Panos de Granada “Novos” “Novas” “Que andaõ nas minhas camas. antre cada hua rozeta. “Espécie de cortinado antigo” [GEPB. hum branco.2. e pedras finas.

e outros sete escudos desses mesmos sinaes no outro cabo. no cabo de contra a cabeceira.Pano Pano Panos Panos Panos Panos Panos Panos Panos 1 1 Sete escudos de castelos e de leões no cabo de contra a cabeceira e outros sete escudos de castelos e de leões aos pés “Tem sete escudos de Castellos e leoens. de contra os pés” Que pertencem para vestimentos Testamento de 1357 Testamento de 1358 Testamento de 1357 Testamento de 1357 Testamento de 1357 Testamento de 1357 Testamento de 1357 Testamento de 1357 Testamento de 1357 2 2 pares 1 par 1 par 1 par 1 par Lã Lã Lã “De ffeguras” “Huns com penaveyra e outros sem ela” “Com sa penaveyra” “Sen penaveyra “Sen penaveyra” “Sen penaveyra” xxxix .

Mosteiro de Santa Maria de Almoster.63. m.º214 TT. BEATRIZ Desembargo Chanceler DATA 1349 NOME Lopo Fernandes Pacheco FONTE TT. cx.. m. Colegiada de Santa Cruz do Castelo de Lisboa. T.º105 Fundo Vasconcelos e Sousa.º4 É mencionado como escrivão da rainha em Santiago do Cacém. n.2.I. n..º154 TT. m. Ordem de Cristo.1.Quadro VI – SERVIDORES DA RAINHA D.º4 TT.88. n. Gav.3. 2ª inc. Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça.9.º10 TT. Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. Part. n. m. 2ª inc. TT. Vicente de Fora de Lisboa.º28 e n. m.. m. m.º10 Chanceler-mor DATA 1358 NOME Lourenço Martins Barbudo. n. n. Convento de Tomar. n.º9 e 10 Eichão DATA 1331 1342 NOME Martim Peres Estêvão Martins FONTE TT. Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. m. 2ª inc.º4121 TT. Liv. n. p. Mesa da Consciência e Ordens. T. xl .8.. m. 2ª inc. n.. 2ª inc.16.º49 Escrivão DATA 1329 1330 1337 1344 1348 1348 1353 13541357 1357 975 NOME Vicente Domingues Estêvão Peres João Domingues975 Bartolomeu Domingues João Fernandes João Pires Estevão André Mendo Afonso Rui Vicente FONTE TT. n. II.29.342.º36 TT. m.º36 PHGCRP.º13 TT. Mosteiro de S.. n. Liv. n. n. 2ª inc.5. Gav. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. p.63.º9 e 10 TT. Cabido da Sé de Coimbra. n.I. Docs. Colegiada de Santa Maria da Alcáçova de Santarém.13. m. Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça.6.17. 1ª inc. bispo Lisboa FONTE de de PHGCRP. m.4.352 Contador DATA 1358 1358 NOME Gonçalo Martins Salomão Gualice FONTE TT. cx.1... II.

Martinho de Sintra.29. cx.º1 TT.106 Juiz DATA 1352 1354 1355 1355 1356 NOME João Afonso Domingos Bartolomeu Lourenço Esteves Rodrigo Esteves Estêvão Vicente LOCAL Sintra Torres Vedras Sintra Almada Sintra FEITOS ? Civis Criminais ? ? ? FONTE TT. Mosteiro de Santos-o-Novo. Liv. m. 1320 1333 1334-1336 1357 1358 NOME Pedro Afonso. conde de Barcelos João Afonso (bastardo D.17. n. Liv. Gaveta dos coutos e honras.42..175 Meirinho DATA 1363 NOME Gonçalo Fernandes FONTE TT. n. Mosteiro de S.. 990 e 1001 TT. cx. m. n.72.3. V. m. m. Afonso IV. n.º14. TT. Colegiada de S. n. Vicente de Fora de Lisboa.14. 30 ML.2. Mosteiro de Santos-o-Novo. n. m.I.1359 1359 Fernão Esteves Rodrigo Esteves TT. m.13. 29. n. ML.352 Ouvidor DATA 1338-1348 1348 NOME Gil Peres Estêvão Peres FONTE TT. m. Colegiada de S.41. V. Mosteiro de S.º334 TT.º61 TT. fl. m. Colecção Especial. TT. Doações e mercês régias. p. m. Martinho de Sintra.º23 TT.2. Colecção Especial. m. n. Sé de Lamego. p. 1ª inc.II. m. Vicente de Fora de Lisboa. Martinho de Sintra.7. 185v ADB. Colegiada de S.17.º20 TT.104 PHGCRP. Mosteiro de S. p. n.º1 xli .9. Domingos de Lisboa.º914 “O testamento da rainha”.º861. n.7. fl.º279 Escrivão do tesouro DATA 1357 NOME Mendo Afonso FONTE “O testamento da rainha”. n. n. p.72. Martinho de Sintra. T. m.º42 TT.º32 Mordomo-mor DATA 1307 c. Mosteiro de Chelas.49. p.º987. 2ª inc. cx. Dinis) Martim Eanes de Sousa Lopo Fernandes Pacheco Rodrigo Eanes Martim do Avelar FONTE D. n. Colegiada de S.

m. n. Lourenço de Lisboa.º71 TT. Colegiada de Santa Maria da Alcáçova de Santarém. n. Mosteiro de S.7. m.º45 TT. m. n.º45 TT. m. Mosteiro de Santos-o-Novo. m. m.24 n. Gaveta 1ª das propriedades e rendas do cabido. 1ª inc.º220 TT.5. m. Vicente de Fora de Lisboa.13. n. n. n.1.10. fl.º663 TT.º21.28.29. S.1. n. n. Colegiada de S. m. m.. n.4.34. m. Mosteiro de Santa Maria de Celas de Coimbra. n. g.49.34. Doc. Martinho de Sintra. n. 1ª inc.. Gav.11. m. m. Colegiada de N. Vicente de Fora de Lisboa.º60 TT. n.. Miguel de Torres Vedras.º186 e m. n.º1 e 15 TT.º990 TT.7.4. Liv. Colegiada de S.º1 e 15 TT.10. Domingos de Santarém.1. m. m.º73 TT.º21 TT.11. OC. Mosteiro de Santa Maria de Lorvão. Part. g. m. n.12.º22. n. Colegiada de santa Maria de Guimarães.º4 Porteiro-mor DATA 1336 1345 NOME Mem Lopes Lourenço Martins FONTE TT.º10 TT. Colegiada de S. n. Mosteiro de S. Mosteiro de S. n.º51 TT.º663 TT. 1ª inc. m.8 ADB.4.º22 TT. m.º3/2 TT. 1ª inc. Vicente de Fora de Lisboa.4.12. Gav. n..115v Tabelião DATA 1326-1329 NOME João Esteves LOCAL Vila Real Panóias Vila Real Panóias Vila Real Panóias Vila Real Panóias Alenquer FONTE TT.22.3.º24 TT. Colegiada de Santa Maria do Castelo de Torres Vedras. Sr.º36 Porteiro DATA 1328 1328 1334-1357 1359 1360 NOME João Eanes Lourenço Martins Domingos Eanes Domingos Fernandes Diogo Eanes FONTE TT. Mosteiro de Chelas. m.12.. m.º45 1328 1342 1346 1352 Viverão André Durão André Vasco Gonçalves Domingos Vicente 1352 1352-1355 1353 1354 1355 1355 1355 João Martins Guilherme Eanes Domingos Martins Fernão Garcia Guilherme Eanes Gonçalo Domingues Gonçalo Esteves Alenquer Alenquer Alenquer Alenquer Alenquer Torres Vedras Torres Vedras xlii . m.1348 1348 1357 Gil Peres Estêvão Peres Domingos Bartolomeu TT.10. m.21. n. n. g. n. ADB. m. m.ª da Várzea de Alenquer.21.6. Gav. Mosteiro de S. m. n.3.18. n. Gav.10. Mosteiro de Santa Maria de Arouca.º11. Mosteiro de Santa Maria de Arouca. n. Gaveta dos coutos e honras. Vicente de Fora de Lisboa. Mosteiro de Chelas.

º4 TT. n.º848 Vedor DATA 1345 NOME Gonçalo Martins FONTE TT.º22.13. Convento de Santa Clara de Santarém. Liv. n.I.3. II. Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. Colegiada de S.343 Vice-chanceler DATA 1344 1350-1358 NOME Francisco Esteves Gil Martins FONTE MPV.350 PHGCRP. n. Província de Portugal. m. n. Liv. m. Colegiada de S. p. m. n. Colegiada de S.1. Colegiada de S. m. II.º9 e n. T.1358 1358 NOME Gil Martins Gomes Martins FONTE TT.º10 Clérigos Clérigo DATA 1350.33. n.12.4.2. T. 1ª inc. Part. m.º225 TT. p. m.63. m.4. 28 TT.1356 1357 1357 1357 1357 1358 Domingos Gomes João Esteves Domingos Esteves Domingos Gomes Lourenço Eanes Estêvão Gonçalves Torres Vedras Óbidos Torres Vedras Torres Vedras Torres Novas Óbidos TT. Provas. Colegiada de S.º52 TT.1. Pedro de Torres Vedras. OFM. p.. Colegiada de Santa Cruz do Castelo de Lisboa.I.14. I. Martinho de Sintra. Liv. Colegiada de Santa Maria do Castelo de Torres Vedras. TT. n. Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. m. I.º22.1. m.º70 xliii . n.. n. n. T.354 Clérigo capelão DATA 1331 1333 NOME Domingos Peres Estêvão Tomé FONTE TT. m.º36 Vedor da Casa da Rainha DATA 1354 NOME João Afonso FONTE PHGCRP. m.2. 2ª inc. m. II.º30 TT. Martinho de Sintra. Gav. n. Martinho de Sintra. n. Miguel de Torres Vedras.º31 TT. Docs. Colegiada de Santa Cruz do Castelo de Lisboa. vol.º59 TT. p..

º4 Almoxarife DATA 1331 1349 1355 1357 1357 NOME Martim Vicente Martim Lourenço Vicente Domingues Domingos Martins Lourenço Martins Peixom LOCAL Gaia ? Torres Vedras Torres Novas Almada FONTE TT. Gav. m. T. n. n. cx. II.4.º45 TT. Mosteiro de s. m.Confessor DATA 1354-1358 NOME Fr. n.º9 Galinheiro DATA 1346 NOME Pedro Domingues FONTE TT.4. 1ª inc. Cristóvão de Rio Tinto.2.13. 350 e 352 Oficiais Alcaide DATA 1357 NOME Pedro Chaveiro LOCAL Torres Novas FONTE TT.I. m. n. m.. m.º90 Jugadeiro DATA 1341 NOME João Fernandes LOCAL Sintra FONTE TT. n. p. n..º6 TT.2. n. Colegiada de S. João de Frielas. 1ª inc.12.º12 Procurador DATA 1348 1350 NOME Martim Eanes Gomes Vasques LOCAL Casa da rainha ? FONTE TT. Gav. Gav. Liv.11. n.º7 TT.º141 TT.5.13. Gav. Fundo Vasconcelos e Sousa. Colegiada de Santa Cruz do Castelo de Lisboa. Vicente de Fora de Lisboa.º3. n. Colegiada de Santa Cruz do Castelo de Torres Vedras. m.º8 xliv . OSB. m.2. Vicente de Lisboa. Mosteiro de S. n.342. n. Estevão da Veiga ORDEM RELIGIOSA Franciscanos FONTE PHGCRP.4.3.º4 TT. e Mosteiro de S.29. m. m.13.13. m.

II. Martinho de Sintra.175 Chancelaria de D. Liv. m. Pedro I. n. Pedro I.9.II. m. n. p. Liv. p. II. TT. n. m. Mosteiro de Santa Maria de Arouca.º34. 350 PHGCRP.307 Tesoureiro DATA 1358 NOME Mendo Afonso FONTE PHGCRP. Mosteiro de Santa Maria de Arouca.1.I. NA.43-46v Copeiro-mor DATA 1345-1358 1354 NOME Lourenço Martins do Avelar Martim do Avelar FONTE TT. Provas.9.7. fl.Provedor DATA 1360 1362 NOME Vasco Eanes Gonçalo Domingues LOCAL Hospital e capela da rainha Hospital e capela da rainha FONTE Chancelaria de D. T. Pedro I.7.587-588 Camareira DATA 1377 NOME Maria Dias FONTE TT. pp.º36. Liv.350 Sacador DATA 1342-1343 NOME Gonçalo Mateus FONTE TT.º9 Oficiais próximos Aia DATA 1349 NOME Maria Rodrigues FONTE Testamento de 1349 Boticário DATA 1358 NOME Mestre Estêvão FONTE Chancelaria D. p. T.342 xlv . p. I. g.I. T. g. 276. p. Colegiada de S.

T. p. 30 ML. cx. n. n. p.I.. m.34. m.º39 e 1ª inc.º88 976 “João Fernandes. n. m.II.3. a Velha FONTE “O testamento da rainha”.9.16. p.350 PHGCRP. em 1323. 258v TT. p. Liv. p. II. T. m.14. Fernando.º4.Copeiro DATA 1323 NOME João Fernandes976 FONTE Santarém medieval. Gav.349 Estribeiro DATA 1365-1366 NOME Aires Eanes FONTE TT. Colegiada de Santa Marinha de Lisboa. I. Provas. Liv. 2ª inc. n. Liv. T.16.103. Do infante D.º4 PHGCRP. 2ª inc. Provas. Gav. V. p. m. II..2. n. V.349 Criada DATA 1287 c.48. Teresa Eanes Beatriz Eanes Branca Lourenço do Avelar FONTE ML. fl. n.349 Criado DATA 1357 1358 1358 1369 NOME Martim do Avelar João Mestre de Avis Francisco Domingues FONTE TT. Beatriz. p.198 Covilheira DATA 1358 NOME Maria Durães977 FONTE PHGCRP. Mosteiro de S.1. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.. Liv. mora.350 TT.I. Alm. m. T. p. copeiro da infanta D.I.º7. II.1. Vicente de Fora de Lisboa.1300 1357-1358 NOME D. TT.º34 “Dona” DATA 1357-1358 NOME Leonor Gonçalves. T.I. II. Liv. na freguesia do Salvador”. 977 xlvi .

º100 “Homem” DATA 1334 NOME Domingos Rodrigues FONTE TT.º63 Tecedeira DATA 1360 NOME Domingas Vicente FONTE TT.Físico DATA 1359 NOME Mestre Martinho Rosmaninhal do FONTE TT. anã Mouras Servas FONTE Testamento de 1357 Codicilo de 1354.. Convento de S. p. m. m. Colegiada de Santa Cruz do Castelo de Lisboa. n.106 Requeixeiro DATA 1332 NOME Pedro Eanes FONTE TT.º496 Funções desconhecidas NOME Beatriz Martins do Avelar Branca Lourenço do Avelar e seus filhos Constança.25.5. Colegiada de Santa Cruz do Castelo de Lisboa.2. Testamento de 1357 Testamento de 1358 Testamento de 1357 Testamento de 1357 Testamento de 1357 Testamento de 1357 Testamento de 1357 Testamento de 1358 Codicilo de 1354 Testamento de 1357 Testamento de 1357 xlvii . Colegiada de Santo Estêvão de Alfama de Lisboa. n.º72 Reposteiro-mor DATA 1353-1357 NOME Estêvão Peres FONTE TT.2. 1ª inc. m.º26. m. Convento do Salvador de Lisboa. sobrinha Maria Migueis. n. n. filha do mestre João das Leis Covilheiras Donzelas Isabel de Cardona Joana Martins do Avelar Mancebas Maria Girona.4. Domingos de Santarém. m. n. “O testamento da rainha”.

Colegiada de Santa Cruz do Castelo de Lisboa.º70. 342.2. m. Testamento de 1358. Testamento de 1357.Quadro VII – HOMENS E OBJECTOS DA CAPELA DA RAINHA D. n. BEATRIZ Tipologia dos seus componentes Sub-tipos dos componentes Capelães Domingos Peres Estevão Tomé Confessor Fr. T. 979 980 981 982 983 984 xlviii . n. e he cheo de Religas” Relíquias Objectos com relíquias 978 TT. pp. Liv. Colegiada de santa Cruz do Castelo de Lisboa. 978 979 980 981 982 983 984 Pessoal da capela Alfaias litúrgicas Objectos de uso litúrgico Relíquias Taça de ouro “com sa sobre copa que tem a figura do Agnus Dei dentro” “Que andam no christal” Barril de cristal “longo com o pé de prata e cheio de relíquias” Barril de cristal “longo com pe de prata. m. Estevão da Veiga Descrição Obs. Testamento de 1358.I. 350. Testamento de 1358. TT. II.2. 352.º59. Provas.

e o homẽ e Leom brancos.Serpe de prata esmaltada “tem religas. Testamento de 1357. Testamento de 1358. e com pedras esmeraldas pequenas de redor del. e robis pequenos da redor” 985 986 987 988 989 985 Testamento de 1358. e de cassa huma Magestade de Santa Maria no collo. Testamento de 1358. e quatro graõs de aljôfar. e o campo he preto. e quatro grãos de aljôfar grosso” Relicário de camafeu “e he figura de Samsam esee sobre hũ Leom. Codicilo de 1354. e em outro circo tem quatro esmeraldas grandes. e hum rubim no meio grosso. e esta caza he chea de mui boas Reliquias” Relicário “tem hũ robi. e tem esmeraldas. 986 987 988 989 xlix . em hua boceta de cristal” Relicário “de tres camtos e tem d’hũ cabo hu roby no meyogeo e três çaphiras nos camtos e grãaos d’aljouffar grossas e meyãao en el e da outra parte tem imagem de Santa Maria com seu filho” Relicário com “tres safiras em cada camto huma.

vol. pois estas pertenciam 1345 1348 1349 l . I. pp. 31 CUP. filho de Lourenço Martins Buval. Sentença a favor dde Afonso Martins e Maria Soares. vol.2. Súplica ao Papa: pede a dispensa de ilegitimidade para Diogo Gil e Gonçalo Afonso. I.º45 TT.Quadro VIII – DOCUMENTOS EMANADOS POR ORDEM DA RAINHA D. I. Carta aos corregedores para que estes não levassem.72. sobre o pagamento de soldos. bem como a absolvição para os que tivessem incorrido em penas ou irregularidade por terem entrado nos mosteiros indevidamente. Vicente de Fora de Lisboa. Súplica ao Papa: solicita que Martinho Lourenço. e para sua mulher a faculdade de altar portátil e de escolherem confessor. p. m. pp. Beatriz manda que o alcaide de Almada não cumpra a pena de excomunhão para com Afonso Martins e Maria Soares. e para Martinho Esteves.º7 1338 1344 Sentença relativa à contenda entre Fr. pp.11. m. n. cónego de Lisboa e embaixador da rainha ao Papa. Doações e mercês régias. Colegiada de S. Mosteiro de S.º14 MPV. vol. bispo de Lamego e da outra parte o concelho de Vila Real sobre a posse e jurisdição da aldeia de Canelas (fr. sua mulher. Súplica ao Papa: solicita benefícios para o seu vice-chanceler Francisco Esteves. Como testamenteira deu poder ao viúvo de Beatriz Eanes do Avelar para fazer a partilha dos seus bens.1. Súplica ao Papa: pede a dispensa de ilegitimidade para Vasco Lourenço. vol.º1 TT. escolar de Direito Canónico.º7 TT. Évora e Lamego. de Poiares. pp. Convento de Santa Clara de Coimbra. 30 MPV. Sentença: a rainha D.. mesmo com cura de almas.7. 1ª inc. n. clérigo do rei.2. m. Colecção Especial. m. Domingos e a faculdade de escolher confessor. n. 30 MPV.13. Peso da Régua). 30 MPV. Beatriz. I.17. Súplica ao Papa: pede a dispensa do exame dos clérigos ou que esse exame seja feito perante os bispos de Coimbra. n. Gav. Afonso IV porque não estava a receber as suas dízimas das suas vilas e lugares. Súplica ao Papa: solicita para Lourenço Martins do Avelar. Gav. cx. vol.º17 TT. Súplica ao Papa: pede indulto de entrar com a sua comitiva nos mosteiros de freiras de Santa Clara e de S. c. vol. I. copeiro-mor de D. Súplica ao Papa a favor de Lourenço Eanes. para este receber as Ordens sacras e benefício eclesiástico. Beatriz queixou-se a D. Salvado. sua mulher. vol. m. Queixa ao monarca: a rainha D. Afonso Anes. das suas terras. as dízimas. n. pp. n. I.13. BEATRIZ DATA TEOR DO DOCUMENTO Ordem de pagamento de mil libras à abadessa do Convento de Santa Clara de Coimbra FONTE TT. para Gil Martins.º36 TT. I. vol. Martinho de Sintra. I. m. m. 4. 30 MPV. para Vasco Martins. n.146 TT. pp. que desejam entrar na milícia clerical. Sé de Lamego. possa receber benefícios. pp. 27 MPV. 28 MPV.

Mosteiro de S. Colegiada de S. T.13. solicitou o canonicato e prebenda de Évora Súplica ao Papa: para mestre Martinho do Rosmanial. I. pp. do rei e dos netos. médico de D. 341 TT. 341-343 TT. pp. p. p. 278 MPV. Súplica ao Papa: para Gomes Lourenço do Avelar pede um benefício e o canonicato e prebenda de Coimbra. p. m. I. vol. 100-107 TT. seu ouvidor.º26 TT.13. Testamento da rainha D. PGCRP. pp. I. Carta de mercê para Lourenço Esteves. T. I. 277 MPV. 2ª inc. 1ª inc. 277 MPV. Martinho de Sintra.aos seus juízes. n.4. 277-278 MPV. Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. I.º22 TT. Beatriz.º8 MPV. n. 278 MPV. pede ao Papa que estenda a licença a homens de boa fama que a acompanhem.63. Súplica ao Papa: para Gil Martins. Gav. T. Gav. I. Liv. vol. Súplica ao Papa: a rainha tinha licença de entrar nos mosteiros de freiras de clausura. vol.º4 Testamento de 1357. m. Nomeou como procurador Domingos Bartolomeu. p. I. 1355 Juramento da rainha sobre as pazes de Canaveses. n. Liv.1. 1358 Testamento da rainha D. m. Codicilo ao testamento de 1349. II. n. p. sempre que lhe pareça oportuno. vol. pede o canonicato e prebenda de Lisboa. m. Súplica ao Papa: a rainha solicita a faculdade de escolher confessor. 1357 Testamento da rainha D. II. n. 278 HGCRP. m..9. I. Súplica ao Papa: para Vasco Martins.29.. apesar do impedimento de ilegitimidade.º9 e 10 HGCRP. Colegiada de Santa Maria do Castelo de Torres Vedras. pp. clérigo da diocese da Guarda. Beatriz. 1350 Sentença: a rainha manda que os tabeliães de Sintra registem como documentos as notas das pessoas que morreram de peste. Beatriz. 342-354 1353 1354 li . vice-chanceler da rainha. o qual lhe dê a absolvição geral da pena e da culpa. m. Liv. solicita que possa alcançar dois benefícios eclesiásticos. pp. juntamente com certas senhoras. vol. sobretudo oficiais e outros que se encontrem ao seu serviço. Sentença na qual confirma a sentença dada pelos seus ouvidores. n. II. vol.º6 TT. prior de Santa Maria do Castelo do Torres Vedras. Nomeou como procurador Gomes Vasques. I. Beatriz. Vicente de Fora de Lisboa.12.

T.º9.48. n.1. Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. m. Mosteiro de Santa Maria de Lorvão. n.. g. Pasta 9. p.º1542 TT.º9 TT.36.º32. m. 2ªinc. m.77.6.º702 TT. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.º251 TT. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. g. m. 2ªinc. n. n. m. 2ªinc. m.17. n.31.º12/1 TT.17.º861 TT. n. 2ªinc.º1542 TT. n. m. n.º7. Alm. Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. Docs. m. Mosteiro de Santos o Novo.3. n. Pasta 9. Alm.1.º2 TT.5. m.5.11.º9 e Alm. Alm. n. e Alm.º1542 TT.º16.º1 TT.º702 Clérigo Estevão Gomes.6.º1542 TT.º10 TT. g. Mosteiro de Santos o Novo. m. n.17.8. n. Mosteiro de Santa Maria de Lorvão.77. m.34. Gav.18. OC. Pasta 9. 2ªinc. n.566-575 TT. m. n.º9 e Alm.º7/2 TT. n. m. que mora em Tomar João Eugres Procurador Martim Lourenço Pedro Domingues Algoz Pedro de Lisboa Martim Lourenço Vassalo Rui Vicente Ouvidor lii . n. n. m. n.34.77.48.17.1. m.º861.17.33. Mosteiro de Santos o Novo. m. m. Mosteiro de Santos o Novo. Part.º27 TT.1. m.9. n. OC. 2ªinc.º10 TT. Mosteiro de Chelas. n. m. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. vol.º1.42.º1 TT. m. Mosteiro de Santa Maria de Lorvão. m. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. m. m.36. n.77.. n. Mosteiro de Santos o Novo. OC.1. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. m. 2ªinc. Mosteiro de Chelas.. 1ªinc. prior de la Mota João Eanes João Romeu Pedro Martins Vicente Gonçalves João Afonso Corretor Estevão Eanes Escrivão Aires Peres de Minho Escudeiro João Eanes Rui Vicente Pedro de Lisboa Homem Tomé Lopes Vicente Anes Afonso Domingues Afonso Esteves. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.5. m. G. n. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. m.. m.17. n. m.33. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.33.9. n. 2ªinc.17 e Pasta 9.42.Quadro IX – SERVIDORES DE LOPO FERNANDES PACHECO CARGO Gil Martins Camareiro NOME FONTE TT. m. n.T.º12/1 TT. n.º1 TT. 2ªinc.33.

S.º15. m. m. A. pp. 2ªinc. Mosteiro de Santa Eufémia de Ferreira de Aves. P. S.º1.11. Franco Silva. em Belas Idanha.33. Belas. João da Ribeira. Santarém Rua da Triparia na Ribeira. Santarém Quintal das Donas.11. Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. n. n. m. n. m. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. p. n. Sintra Ferreira de Aves.º1542 TT.21.º251 TT. Nicolau. n. Rio FORMAS DE AQUISIÇÃO / ALIENAÇÃO Dá em escambo Recebe em escambo FONTES TT. S. Satão Duas Igrejas.º33 TT.977-979) TT. Santarém A par da Rua da Triparia Malaqueijo. n.1.Quadro X – BENS DETIDOS POR LOPO FERNANDES PACHECO DATA ? ? TIPO DE BENS Vinha uma horta Parte e o direito do casal Casal Parte e direito que há no casal Herdade e vinhas Uma quintã e casais Morgado Quintã Quintã um chão um herdamento casas Casas Casas Casas Casas ? LOCALIZAÇÃO termo de Alenquer Alenquer Pedra Longa. Caja 1. Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça.10.º251 TT.21. m. Nicolau.º1 TT. m.17. Belas. Ferreira de Aves. OSB.77.10. Gav. 2ªinc. Santarém Beco na Atafona.7 1328-05-15 1328-05-15 1330-08-29 1332-02-24 1334-08-27 1365-04-03 Dá em escambo Recebe em escambo Doação régia Compra Compra Recebe em préstamo liii . Sintra Ventoso. Mosteiro de Santos o Novo de Lisboa. m. Gav.980-981 (trans. Sátão Margem de Arada. n. m. n. termo de Alenquer aquém do Ribeiro de Manços Manteigas A par da Porta da Inveja. Termo de Lisboa termo de Lisboa Belas. Los Pacheco. 2ª inc.º1 ADF. Alm.

m. Srª da Expectação. n. campos 35 hastis de herdade Herdamentos. Salvador. Mouriscas. Parte com Alpiarcinho Montijos Almonda Toxe. Santarém Ribeira de Calhariz Pereira.48. Cartaxo Mata. casas e suas pertenças Vinhas com a herdade toda Casal Lezíria Olivais. de S.17. Rio Maior a par de Santa Maria de Valada. Santarém Vale Covo. Cartaxo Capa Rota. N. S. m. Vicente do Paul. Chouto. termo de Santarém Além do rego de Manços. S. Santarém Recebe em préstamo TT. vinhas.º7. Azambuja.6 casais 18 hastis de herdade 10 hastis de herdade 18 hastis de herdade 18 hastis de herdade Olival 1 monte 1 monte 1 monte 1 herdade de pão ? Herdamento Herdamento Olival e pardo Herdamento Herdamento Quintã. n. Abrantes e a Gesteira Vale das Pegas Vale de Ossos. m. Alm. no lugar de Requeixado Esparagal Valada. 2ªinc. Santarém jazem a par Muje Moncam A par dos paços do bispo de Lisboa. S. Salvador. com sua vinha. termo e Santarém Montijos. vinhas e herdades Casas 1335-06-09 Maior Calhariz.º16 liv . hortas. Domingos. N. Srª da Expectação. Santarém Do Tejo Manteigas R.34. Santarém Vale de Ossos. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Achete. Chamusca Moncam.9. com suas casas.

Tancos. m. termo de Lisboa Almourol.1. Mosteiro de Chelas. rossios. Vila Nova da Barquinha Pias [Santarém] Compra Dá em escambo TT. 2ªinc. Pasta 9. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. 2ª inc. n.ª da Conceição.º1 TT. Mosteiro de Santos o Novo de Lisboa. Alenquer Belas. n. casas fontes. Tomar Atalaia.º914 TT. Abrantes Soianda. m. Abrantes Soianda. árvores Bens Quintã das lezirias Casais Casais Bens e heranças Herdade Alcáçova Velha.º10 1349-03-11 Dá em doação lv .17.Casa. m. m.48.º1542 TT. n. Martinxel. Casais.33. vinhas. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.1. m. e Alm. Mosteiro de Santos o Novo de Lisboa. m. Santarém Vale do Homem. Alm. n.41. Nicolau. n. casais. Srª da Assunção.34. N. n. m.17. Pasta 9. m. Santarém pelos bens que nós havemos em Torres Vedras e seus termos A par da ribeira de Odivelas margem de Arada.9. Meca. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. N. S. termo de Alenquer Lamarosa.º9.º9 e Alm.77. n. Santarém Cruz de S.77. n. Tomar Tomar Termo de Santarém Giesteira. Vila Nova da Barquinha Giesteira. 2ªinc.17.º28 1345-01-02 1345-01-23 ? Empraza TT.33. m.º1542 Recebe em escambo Compra TT. Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. termo de Alenquer margem de Arada. 2ªinc. n. com seus terreos e pertenças Casa 300 libras em cada ano 1336-05-02 1334-09-06 5 courelas de vinhas Quintã 2 casas de herdade uma grande seara de vinha e pomar e almoinha 5 courelas de vinhas duas courelas de vinha 1334-09-06 1345-01-01 Quintã Quintã das lezírias Casais Herdades.º1 TT. m. Martinxel. termo de Alenquer margem de Arada.

termo de Santarém Água de Abucela Usurpação Empraza TT. n. Alm.º2 (trans. Los Pacheco. m.º30 ADF. Franco Silva.980-981) lvi . Mosteiro Santa Cruz de Coimbra.9. n. Caja 1. A.48. P.34. p. 2ªinc. m.1355-05-27 1355-06-28 Herdades Quarta parte de dois moinhos Vale da Talha.

m. Mosteiro de Vairão. m. Mosteiro de Santa Maria de Arouca.10. g.10. n. cx. m. Colegiada de Santa Marinha de Lisboa. Mosteiro de Santa Maria de Arouca.Quadro XI – BENS DETIDOS PELOS AVELAR DETENTOR Branca Lourenço Gil Martins DATA 1375/07/21 1363/08/15 1356/02/16 1323/02/14 1356/2/16 1342/5/10 TIPO DE BENS Quintã Um casal de herdade Quintã Herdades Quintã Quintã Casas Casa Quintã Meio casal Vinhas Meio casal LOCALIZAÇÃO Melida. n.4. Alcabideche. Salvador.4.º20 TT. n. Colegiada de Santa Marinha de Lisboa. Espírito Santo. João da Madeira FORMAS DE AQUISIÇÃO Recebido em doação Venda Herança/Venda Recebeu em escambo ? ? ? Doação feita Venda Emprazamento Compra / Venda FONTE TT. g. Mosteiro de S.2.º86 TT. n. m. 2ªinc. n. m.1. m. n.2.21..º22 TT.º51 A TT. Vicente de Fora de Lisboa.º29 TT. Espírito Santo. Vila do Conde S.4.º8 TT.4. Loures Lisboa Modivas.º9 TT.3.16. Sintra Lançada. Lisboa Lançada. m. n. S. Montijo Valverde. n. Colegiada de Santa Marinha de Lisboa..º8 TT. n. m. termo de Sintra Alvide. n.3. Mosteiro de Santa Maria de Arouca. Mosteiro de S.4. Bucelas. Montijo Rio de Mouro. g. 1ªinc.º33 TT.3.º86 TT.6. OSB. m. g. Mosteiro de Santa Maria de Arouca. m. Vicente de Fora de Lisboa.º22 Inês Afonso Joana Martins Leonor Lourenço Leonor Martins 1332/01/28 1388/11/14 1340/07/08 1365/12/15 1340/07/08 lvii . g. n. João da Madeira Coroteal e o Raposal que são em Vila Boa [Arouca] S.

Mosteiro de Chelas de Lisboa. Cartaxo.º212 Chanc. Colegiada de Santo Estêvão de Lisboa. Castelo. Mosteiro de Chelas de Lisboa. Sintra Venda Partilhas TT. Torres Vedras Troviscal.º36 Rio de Mouro. m. Colegiada de S. Dois Portos. NA 176.Lourenço Martins I 1370/11/11 1345/08/04 1346/12/31 Lourenço Martins II 1364/04/05 Casas Vinhas Herdades Casal Duas partes de pomar Vinha com seus çarrado. n. Torres Vedras Casal de Pedrulhos. 426-428 1367/05/16 1457/05/07 ? Uma quintã Umas casas Casas de sobrados e lojas Outras casas.º657 TT. Rio de Mouro.11. N. Loures Rua Direita dos Mercadores. Santa Maria. Torres Vedras Alpilhão [Torres Vedras] Ferraria. m.º1251 TT. n. assim lojas e sobrados Uma quintã Umas casas repartidas em duas moradas Uma adega 3 pedaços de chão ? Herança TT.33. Castelo. Lisboa Ponte dos Paus. D. fl. Santarém Santarém Santarém ? Herança TT.1. Lisboa Avelar. n. ?. Sintra Torres Vedras Casal de Pedrulhos. Lisboa Asmafil. Charneca. Bucelas. Pedro. Santarém Ribeira. pp. m. m. n. Martinho de Sintra.70 lviii . Suas casas. Srª da Oliveira. Torres Vedras Valada. Loures Lisboa Rua das Esteiras. [Torres Vedras] Matacães.63. Todas as casas ? Casais Herdamentos Outros casais Um casal Um casal Uma courela de herdade Uma casa Granja.

Teresa Fernandes 1345/08/04 Uma courela de terra Um casal Azenha Terça parte do pomar. Rio de Mouro.º36 Venda ? Compra / Venda Recebeu em escambo TT.1.º8 TT. m. n. Colegiada de Santa Marinha de Lisboa. Santarém Asfamil.4.2. Rio de Mouro. Paço de Sousa. n. Sintra Asfamil. g. Mosteiro de Santa Maria de Arouca. casas A camara onde se faziam o lagar Quinta Casas ? 3 casais Casal Casal Vinhas 1352/08/29 Teresa Martins 1323/02/14 1323/02/14 Golegã. Rio de Mouro. m. n. na Terra de Santa Maria Mela. Martinho de Sintra. Colegiada de S. Santarém Golegã. vinha.3.2. Mosteiro de Santa Maria de Arouca. m. Sintra Asfamil. g. Penafiel Partilhas TT. Sintra Terra de Santa Maria Bucaqueira. Sintra Lançada. Montijo Lisboa Rio de Mouro.º85 TT. n.º8 lix . m.4. Espírito Santo.

Fernando Gil Martins D. Estevão. Estevão Martim do Avelar D. bispo de Lisboa D. mestre da Ordem de Cristo Fr. BEATRIZ Testamento de 1349 Codicilo de 1354 Testamento de 1357 Testamento de 1358 Fr.Quadro XII – TESTAMENTEIROS DA RAINHA D. Fernando Gil Martins D. Bento Fr. Francisco Infante D. João Gomes. mestre da Ordem de Avis Infante D. bispo de Coimbra D. Estevão. frade de S. João Gomes. Martim do Avelar. Lourenço. mestre da Ordem de Avis D. Francisco Infante D. frade de S. Afonso IV Diogo Lopes Pacheco Fr. Martim do Avelar. bispo de Évora Mestre João da Leis D. Lourenço Martins. bispo de Évora Mestre João das Leis D. Rodrigo Eanes. Pedro I lx . Pedro D.

Quadro XIII – MISSAS E ORAÇÕES Testamento de 1349 Codicilo de 1354 Testamento de 1357 Testamento de 1358 ? No dia da sua morte. da 990 Em troca a rainha deu-lhes a sua cama mor e uma vestimenta perfeita. Francisco de Guimarães. no aniversário e no dia da sua trasladação que cantem missas e dêm esmolas Cantem nas festas principais Cantem sempre Lhe digam em cada dia um responso e encomendem a sua alma a Deus em todas as missas e horas que disserem990 Cantem missas991 Cantem as festas principais Cantem sempre Capelães Capelães Frades do Mosteiro de S. Lamego. no oitavário. 991 lxi . no trintário. de Bragança. Em troca deixa-lhes 30 libras a cada mosteiro. Francisco de Lisboa Frades de S.

Domingos de Guimarães Frades de S. Francisco de Guimarães. da Guarda. de Covilhã Frades de S. no aniversário e no dia da trasladação Digam missas oficiadas Saiam sobre o seu monumento Hospital da Rainha Hospital do Rei Hospital de S. no aniversário e no dia da sua trasladação. de Coimbra Frades de S.Guarda. Domingos de Guimarães Frades de todas as Ordens Façam honra no dia da sua morte. Digam missas oficiadas Saiam sobre o seu monumento Que lhe digam todos os dias responsos e encomendem a sua alma a Deus em todas as missas e horas que disserem Lhe cantem missas lxii . de Lamego. no oitavário. assim como. Vicente Façam honra no dia da sua morte. no trintário. no trintário. assim como no oitavário.

Domingos Cantem missas Senhos trintários cantados Senhos trintários cantados Cantem missas Cantem missas lxiii . Domingos de Lisboa Mosteiro de S. Francisco Mosteiro de S. Francisco de Lisboa S. Domingos Todos os outros mosteiros de S. Francisco e de S.S.

para estar nela o Corpus Christi Capela Coro Coloquem sobre o monumento a sua colcha assinada com castelos e com leões Monumento Coloquem o pano que a rainha mandou fazer. pés e simitas de prata. Este pano tem sete escudos de castelos e de leões aos pés e à cabeceira Lâmpada de azeite sempre acesa Coloquem dois panos que têm sete escudos de castelos e leões aos pés e à cabeceira Coloquem sobre o monumento do Rei três alfolas novas feitas de panos de Granada lxiv .Quadro XIV – CAPELA DA RAINHA D. BEATRIZ Local Testamento de 1349 Codicilo de 1354 Testamento de 1357 Testamento de 1358 Barril grande de cristal com o pé de prata que é cheio de relíquias Coloquem uma lâmpada de prata que tenha sempre azeite para arder tanto de dia como de noite Barril grande de cristal com pé de prata que é cheio de relíquias Serpe de prata esmaltada que tem relíquias numa boceta de cristal Coloquem as duas arcas de cristal Coloquem a boceta de cristal que tem capiteis. e quatro passarinhas de prata esmaltada.

Alenquer João Eanes. físico do rei [latim] Mestre Vasco das Leis [latim] [todos assinaturas autografas] Afonso Domingues. reposteiro mor da rainha Guilherme Eanes. tam. Alenquer Jorge Pires. tam. abade de Alfandega e Vedor da Casa da Rainha Jorge Pires. tam. escrivão da chancelaria do rei [port] Mendo Afonso. escrivão da rainha Álvaro Pais. frade d rainha lxv . reposteiro mor da rainha [port] Geraldo Esteves. tam. tesoureiro do rei João Afonso. BEATRIZ Testamento de 1349 Codicilo de 1354 Testamento de 1357 Testamento de 1358 João Afonso.Quadro XV – TESTEMUNHAS NOS TESTAMENTOS E CODICILO DE D. Alenquer Fr. escrivão da rainha Mendo Afonso. Alenquer Estêvão Peres. escrivão da rainha Pedro Aires. que foi sobrejuíz do rei [latim] Gonçalo Pais. mantieiro da rainha Domingos Vicente. Rodrigo. escolar [latim] Estêvão Peres. escrivão do tesouro da rainha [port] Mestre Rodrigo.

Beatriz ………………………………. de Castela …………………….… ii Esquema Genealógico IIa – Parentesco entre D.. Afonso X. iv Esquema Genealógico IIc – Parentesco entre D.. o Conquistador ………. Inês de Castro .. o Sábio ……………….… iii Esquema Genealógico IIb – Parentesco entre D. Afonso IV – antepassado comum: D. Afonso IV – antepassado comum (3º grau): D. Beatriz e D.. Afonso IV – antepassado comum (3º grau): D. Afonso IX. v Esquema Genealógico III – Ascendência comum entre D.… viii lxvi .. Jaime.. Pedro e D.. Beatriz e D. vi Esquema Genealógico IV – Lopo Fernandes Pacheco (segundo LL) ………………… vii Esquema Genealógico V – Os Avelar ……………………………………………...INDÍCE DE ESQUEMAS GENEALÓGICOS Esquema Genealógico I – Ascendentes de D. Beatriz e D..

.……... x Mapa II – Bens detidos por Lopo Fernandes Pacheco ……………………….. Beatriz ………………………………………..……..INDÍCE DE MAPAS Mapa I – Arras recebidas por D.… xi Mapa III – Bens detidos pelos Avelar ………………………………………….. xii Mapa IV – Bens detidos pelos Avelar em Lisboa e seu termo ………………………..……. xiii lxvii .

... xxiv Quadro III – Bens de D.…. xl Quadro VII – Homens e objectos da capela da rainha D... xxvi Quadro IV – Doaçoes concedidas a D.. lxi Quadro XIV – Capela da rainha D.…. Beatriz ………………………………….. Beatriz …………. liii Quadro XI – Bens detidos pelos Avelar …………………………………………. lx Quadro XIII – Missas e orações …………………………………………………….... xv Quadro II – Bens recebidos em doação por D.. lxv lxviii . xxxi Quadro VI – Servidores de D.. l Quadro IX – Servidores de Lopo Fernandes Pacheco …………………………….......……. Beatriz ……………………………. xlviii Quadro VIII – Documentos emanados por ordem da rainha D.. lii Quadro X – Bens detidos por Lopo Fernandes Pacheco ……………………………..……... xvii Quadro V – Património móvel de D.….…….. Beatriz (e que constam dos seus codicilo e testamentos) ………………………………………………….. lxiv Quadro XV – Testemunhas nos testamentos e codicilo de D.…….... Beatriz ……………………………………….INDÍCE DE QUADROS Quadro I – Distribuíção dos bens móveis de D. Beatriz ………………………………………….…….. lvii Quadro XII – Testamenteiros da rainha D. Beatriz ……………………………….. Beatriz …………………..... Beatriz de origem indeterminada …………………. Beatriz …………….. Beatriz ……………………………..

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