Sobre a regulamentação da profissão de Paisagista no Brasil O Projeto de Lei 2043/2011

Júlio Barêa Pastore jbpastore@gmail.com
Agrônomo pela Universidade Federal de Goiás (UFG) Mestre em Arquitetura da Paisagem pela Universidade de Florença (UniFi) Doutorando em Paisagismo, Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo (FAUUSP)

O projeto de lei 2043/2011 do Deputado Ricardo Izar1, tem duas funções principais: - regula a profissão de paisagista; - estabelece os critérios para o exercício profissional. Trato aqui dos dois itens separadamente: o segundo é eventual decorrência do primeiro. Apenas se há acordo sobre a regulamentação de profissão de paisagista, faz-se necessário discutir as qualificações necessárias para exercê-la.

(O texto a seguir possui amplas notas de referencia, a fim de não deixar de fora as referências complementares úteis para o leitor mais interessado, sem que o texto resulte demasiadamente longo.)

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Projeto de Lei º 2043/2011, que “Regula o exercício da profissão de paisagista e dá outras medidas”. Câmara dos Deputados, Dep. Ricardo Izar (2011), disponível em: http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=909564&filename=PL+204 3/2011.

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1: Por que propor a regulamentação da profissão de paisagista

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no Brasil?

A profissão de paisagista foi amplamente regulamentada em nível internacional a partir da segunda metade do século XX3, acompanhando o crescente reconhecimento do tema. Sua importância vem sendo consagrada em documentos centrais para os governos nacionais e seus planos de desenvolvimento territorial. Exemplo disso é a “Convenção Europeia da Paisagem”, em Florença (2000), que reafirma o comprometimento dos signatários - estipulando objetivos e medidas específicas - em promover o desenvolvimento sustentável através da proteção, gestão e ordenamento territorial desses países, tendo como princípio norteador a centralidade da paisagem para a sociedade e o meio-ambiente: Constatando que a paisagem desempenha importantes funções de interesse público, nos campos cultural, ecológico, ambiental e social, e constitui um recurso favorável à atividade econômica, cuja proteção, gestão e ordenamento adequados podem contribuir para a criação de emprego; Conscientes de que a paisagem contribui para a formação de culturas locais e representa uma componente fundamental do patrimônio cultural e natural europeu, contribuindo para o bem-estar humano e para a consolidação da identidade europeia; Reconhecendo que a paisagem é em toda a parte um elemento importante da qualidade de vida das populações: nas áreas urbanas e rurais, nas áreas degradadas bem como nas de grande qualidade, em áreas consideradas notáveis, assim como nas áreas da vida quotidiana;

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Paisagista é o profissional que se ocupa do Paisagismo. O termo é sinônimo de arquiteto paisagista, assim como Paisagismo é sinônimo de Arquitetura da Paisagem e Arquitetura Paisagística. Esta dupla denominação ocorre porque estes termos se referem à convivência entre os termos Paysagiste e Architecte paysagiste. Esta última foi depois traduzida para o inglês como Landscape Architect (séc. XIX). A expressão Architecte paysagiste, assim como Landscape architect, sempre foram objeto de discussão, pois abarcam uma variedade de significados que aproximam projetos para jardins, parques e ordenamento territorial rural e urbano. Em inglês este termo veio se afirmando sobre o antigo Landscape gardener no decorrer do século XX às custas de muita polêmica. Na França, a Fédération Française du Paysage (FFP) tem adotado a expressão “Paysagiste concepteur”, ainda que a legislação francesa se baseie na denominação oficial da Organização Internacional do Trabalho, OIT, de arquiteto paisagista. Na Rússia, Landscape Architect é menos usado que Green Engineer. Note-se, portanto, que definir um profissional como arquiteto paisagista não significa qualificá-lo como um arquiteto. (Ver a este respeito o livro Landscape Architectural Graphic Standards, de Leonard J. Hopper, 2007, assim como o texto de Charles Waldheim, Landscape as Architecture, In Harvard Design Magazine, N36, pp 17-20, 2013, e o site do European Council of Landscape Architecture Schools (ECLAS): www.eclas.org.)

Alex P. Schatz, J.D. & Lafayette, Colorado. Regulation of Landscape Architecture and the Protection of Public Health, Safety, and Welfare. ASLA, 2013.

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Constatando que as evoluções das técnicas de produção agrícola, florestal, industrial e mineira e das técnicas nos domínios do ordenamento do território, do urbanismo, dos transportes, das infra-estruturas, do turismo, do lazer e, de modo mais geral, as alterações na economia mundial estão em muitos casos a acelerar a transformação das paisagens; […] Cada Parte compromete-se a: a) Reconhecer juridicamente a paisagem como uma componente essencial do ambiente humano, uma expressão da diversidade do seu patrimônio comum cultural e natural e base da sua identidade; b) Estabelecer e aplicar políticas da paisagem visando a proteção, a gestão e o ordenamento da paisagem […]; c) Estabelecer procedimentos para a participação do público, das autoridades locais e das autoridades regionais e de outros intervenientes interessados na definição e implementação das políticas da paisagem mencionadas na alínea b) anterior; d) Integrar a paisagem nas suas políticas de ordenamento do território e de urbanismo, e nas suas políticas cultural, ambiental, agrícola, social e econômica, bem como em quaisquer outras políticas com eventual impacto direto ou indireto na paisagem.4 A definição de arquiteto paisagista (landscape architect) aprovada pela IFLA no World Council 2003, em Banff, Canadá, reflete a formação de um profissional que tem o seu saber direcionado às questões acima: ““Arquitetos Paisagistas realizam pesquisa, planejamento, projeto e gestão do meio ambiente e espaços abertos, dentro e fora do ambiente construído, e sua conservação e desenvolvimento sustentável. Para a profissão de paisagista, uma graduação em Paisagismo é requerida.”(tradução nossa).5 Esta definição foi depois adotada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), e consta no Padrão Internacional de Definição das Profissões, que inclui também as tarefas (tasks) específicas do paisagista, as quais não incluo aqui em sua totalidade, mas que caracterizam a identidade desta categoria profissional:

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Convenção Européia da Paisagem. Concil of Europe, 2000. Disponível em: http://www.gddc.pt/siii/docs/dec4-2005.pdf
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IFLA News Nº48, Julho de 2003. P.8. Disponível em http://www.landscape.cn/special/ifla/down/ifla_news048.pdf.

- "Desenvolvimento teórico e técnico para promover a consciência ambiental e a prática do planejamento, design, restauração, gestão e manutenção das paisagens culturais e / ou históricas, regiões parques e jardins; - "Planejamento, design, gestão, manutenção e monitoramento de aspectos funcionais e estéticos do ambiente construído em áreas urbanas, suburbanas e rurais, incluindo espaços abertos públicos e privados, parques, jardins, praças, conjuntos habitacionais; - "Inspecionar locais, analisando fatores como clima, solo, flora, fauna, água de superfície e subsuperfície, drenagem; e consultoria com os clientes, fazendo recomendações relativas aos métodos de trabalho e sequencias de operações para projetos relacionados com a paisagem e com o ambiente construído; - "A realização de pesquisas, ensino, elaboração de documentos científicos e relatórios técnicos, aconselhamento em políticas públicas e sobre aspectos relacionados com arquitetura da paisagem, tais como a aplicação de sistemas de informação geográfica, sensoriamento remoto, direito, a interpretação e difusão cultural, e ecologia da paisagem." (tradução nossa) 6

Justamente por se colocar na intersecção entre o homem e a Natureza, a paisagem tem sido considerada como chave para o planejamento das ações que visam a preservação do meio ambiente, a qualificação dos espaços verdes e o planejamento territorial também atento aos seus aspectos históricos, sociais, culturais, ambientais, estéticos e econômicos. O Brasil tem um imenso território, pontuado por grandes centros urbanos, com histórico de busca pelo desenvolvimento econômico que muitas vezes ocorre com o prejuízo de nosso patrimônio social, ambiental e paisagístico. Porém, desenvolvimento, preservação do meio ambiente e qualidade de vida não podem ser termos autoexcludentes: só é possível haver desenvolvimento a longo prazo se preservarmos nossas riquezas naturais. E não se pode falar em desenvolvimento se há perda na qualidade de vida das pessoas. Sendo assim, parece justa – e urgente - a demanda para que o campo de saber da Arquitetura Paisagística obtenha o máximo reconhecimento no Brasil, tanto na prática profissional quanto nas leis que regem as atividades concernentes, assim como acontece em âmbito internacional. E isto inclui, certamente, autonomia deste campo de saber, fundamentada na instituição formal de um corpo acadêmico autônomo e inteiramente dedicado a este tema, com programas de graduação e pós-graduação nas universidades brasileiras.

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Organização Internacional do Trabalho (OIT). International Standard Classification of Occupations, 2008. Pp. 122-123. Disponível no site: http://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/---dgreports/--dcomm/---publ/documents/publication/wcms_172572.pdf.

No entanto, o PL 2043/2011 tem encontrado resistência dentro de um setor específico da sociedade: as instâncias representativas dos arquitetos brasileiros, como a Federação Nacional dos Arquitetos Urbanistas (FNA), Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (CAU/SP), Colegiado das Entidades de Arquitetura e Urbanismo (CEAU) (antigo Colégio Brasileiro de Arquitetos, CBA), Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), e também pela Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (ABAP)7. O que argumentam estas instituições contra um projeto que, aparentemente, não faz outra coisa que equiparar o Brasil a uma prática mundialmente reconhecida de planejamento e desenvolvimento atento às questões ambientais, econômicas, culturais e sociais mobilizadas pelo conhecimento paisagístico? ***

Note-se que entre as instituições se que posicionaram de maneira contrária ao PL 2043/2011 está a Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas. Neste texto procuro rebater os argumentos da ABAP, sem no entanto questionar a representatividade desta instituição. Escrevi uma carta, ainda na condição de sócio, questionando tal atitude e não obtive uma resposta. Esta carta está disponível em: http://www.scribd.com/doc/165523308/Carta-a-ABAP-Julio-Pastore.

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2: Os argumentos contrários

Nas manifestações oficiais8 do CAU/SP, do CEAU e da ABAP, o primeiro argumento é que as atribuições profissionais ligadas ao Paisagismo já são, desde 1933, parte da profissão do arquiteto urbanista (Lei nº 23.569/1933) e foram incluídas na Lei nº 12.378/2010 que criou o CAU9: “Internacionalmente o exercício profissional das três áreas correspondentes ao desenho do espaço é garantido a três categorias profissionais: Arquitetos, urbanistas e arquitetos-paisagistas. No Brasil, a regulamentação da profissão de Arquiteto e Urbanista existe desde 1933, e desde esta primeira Legislação (Decreto Federal n. 23.569 de 11 de dezembro de 1933) o exercício da Arquitetura Paisagística está especificado em seu artigo 30, item d, compondo, juntamente com outras atividades concernentes a arquitetura e urbanismo, o quadro das atribuições dos arquitetos e urbanistas brasileiros. […] Desta forma a profissão já existe há mais de setenta anos, e tem sua regulamentação, não havendo, portanto, justificativa para que, neste momento, se apresente uma proposta que somente acarretará perturbação no cumprimento da legislação em vigor." (ABAP, Manifesto contra o PL 2043/2011, 2012)

Documentos citados: ABAP. Manifesto Contra o PL 2043/2011, 2012. Disponível em: http://www.abap.org.br/pdfs/MANIFESTO%202012%20CONTRA%20O%20PL-2043.pdf; - CBA. Argumentação pela rejeição do PL-2043/2011. 11 de novembro de 2011. Disponível em: http://helenadegreas.wordpress.com/2011/12/09/argumentacao-pela-rejeicao-do-pl20432011/#comment-166; Em 16 de março de 2012, já como CEAU, esta instituição emitiu uma segunda carta onde a argumentação não se distancia, em substancia, daquela do CAU/SP que cito aqui. - CAU/SP. Manifestação do CAU/SP sobre o Projeto de Lei N2043/2011. CAU/SP. 07 de Maio de 2012. Disponível em: http://novo.causp.org.br/wp-content/uploads/2013/05/4-MANIFESTACAO-PLPAISAGISMO-CAU-SP-07-05-2012.pdf. Leis, decretos e resoluções citados: Decreto Federal Nº 23.569/1933, que regula o exercício das profissões de engenheiro, de arquiteto e de agrimensor. Lei nº 5194/1966. Resolução CONFEA Nºs 218/1973 e 1010/2005. Lei nº12.378/2010, que cria o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil. Resolução Nº21/2012 do CAU/BR, que dispõe sobre as atividades e atribuições profissionais do arquiteto e urbanista e dá outras providências.
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O mesmo argumento consta na carta do CEAU10 e no manifesto do CAU/SP11, com a exposição dos respectivos trechos das leis citadas. Se resumido ao fato da existência prévia de uma legislação para o tema (argumentando que seria equivocado um projeto de lei para regulamentar uma profissão que já está prevista nas atribuições dos arquitetos), não se explica a orientação assumida por estas instituições e pelas outras instituições citadas, porque uma lei nasce justamente para alterar e cobrir as eventuais deficiências da legislação vigente. Antes: sempre que exista um núcleo caracterizador de uma atividade profissional relevante e distinta, não contemplada em sua totalidade pelas demais categorias profissionais já regulamentadas no país, é papel do Estado proceder à sua regulamentação. Assim ocorreu no último século, por exemplo, com a profissão de arquiteto regulamentada pela Lei Federal nº 5.194/66. Não sendo assim, tal problema seria tratado como um direito adquirido, calcado na tradição, contrariando o dever das instituições, e das leis, de se adaptar para melhor cumprir seu papel social12 e 13.

“[…] é juridicamente inapropriado o PL-2043/2011 que trata da questão como se já não houvesse uma profissão de nível superior regulamentada pela legislação federal brasileira para a Arquitetura Paisagística.” (CBA- Argumentação pela rejeição do PL 2043/2011, 2011). “ […] desde 1933 até os dias de hoje, é a graduação em Arquitetura e Urbanismo que determina, no Brasil, a atividade de Projeto de Arquitetura Paisagística. […] Dessa forma a Lei Federal nº. 12.378/2010 foi aprovada em acordo com esse histórico de regulamentação das atribuições da profissão. Consequentemente, o que consta da recente Resolução nº. 21 do CAU/BR, aprovada em plenária e publicada no D.O.U., é o “detalhamento” dessas atribuições profissionais. Como se observa pelo breve histórico aqui apresentado, as atribuições profissionais dos Arquitetos e Urbanistas já estavam dadas muito antes da popularização, na mídia, dos conceitos hoje difundidos sobre a sustentabilidade das cidades e importância das áreas verdes. Diante dos aspectos elencados acima, O CAU/SP, de forma respeitosa porém firme, se vê na obrigação de recomendar a retirada do Projeto de Lei 2043/2011, por este conter diversos trechos que nitidamente confrontam com a legislação federal em vigor, igualando, de forma errônea graduações distintas e de perfis diferenciados na atuação interdisciplinar em relação às questões do meio ambiente e da estética.“ (CAU/SP, Manifestação do CAU/SP sobre o Projeto de Lei N2043/2011, 2012).
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No âmbito pessoal, é um direito dos profissionais serem tutelados para continuar exercendo as atividades que por ventura tenham dedicado à própria formação acadêmica e o trabalho até então, e que encontrem nessas atividades seu meio de sustento e seu interesse individual. Neste sentido, mais do que assegurar o direito adquirido dos profissionais já formados e dos universitários, como é de praxe nestes casos, a lei não retira dos profissionais formados em Arquitetura a prerrogativa de trabalhar como paisagista. (Artigos 3 e 4 do PL 2043/2011)

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Essa perspectiva a respeito do papel das instituições representativas das classes profissionais é reconhecida pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) como fundamento da própria Lei n 12.378 que o cria: "Não são os interesses corporativos dessa ou daquela categoria profissional que vêm em primeiro lugar, mas, ao contrário, deve prevalecer sempre a defesa e a proteção da sociedade, evitando-se que certas atividades técnicas sejam indevidamente exercidas por profissionais que não disponham de suficiente formação acadêmica que os credencie para tal exercício, o que viria

É necessário, portanto, reter destas passagens aquilo que constitui de fato o centro da discussão: estas instituições defendem que não é necessário que a profissão de arquiteto paisagista se constitua num campo técnico e científico autônomo no Brasil, posto que aqui já haja a graduação em Arquitetura e Urbanismo. Uma decorrência direta e fundamental desse argumento é que, neste caso, a formação universitária do arquiteto em nosso país deve contemplar os saberes necessários para que ele seja, a pleno título, um arquiteto paisagista, com conhecimentos equiparáveis àqueles dos arquitetos paisagistas formados em outros países. Do contrário, acarretar-se-ia um dano à sociedade brasileira, que não contaria com uma expertise fundamental para a sociedade, como afirmam os próprios arquitetos e urbanistas que elaboraram estes manifestos. Referências à efetividade da formação do arquiteto urbanista brasileiro enquanto paisagista ocorreram apenas na manifestação publicada pelo CAU/SP em 2011, que procura mostrar que a formação em Arquitetura e Urbanismo no Brasil é suficiente para que este profissional possa ser considerado também um paisagista: "[…] sabendo-se que o estudo intrínseco das plantas/vegetais e suas características botânicas ou condições de saúde e desenvolvimento precisam, sem dúvida, da contribuição de especialistas, sabe-se, também, que o PROJETO de tratamento e criação de espaços e conjuntos de espaços ajardinados ou edificados, impermeabilizados ou não impermeabilizados, na escala urbana ou pontual, privada ou pública, é matéria de atribuição clara dos arquitetos urbanistas, responsáveis, inclusive, pela elaboração dos planos e códigos que apresentam tais exigências, ao longo de nossa história. Além disso, o curso de Arquitetura e Urbanismo privilegia as atividades de projeto durante toda a formação da graduação, com milhares de horas aula distribuídas em cinco anos de curso, onde o Paisagismo é parte integrante desse currículo em praticamente todas as suas disciplinas projetuais, em suas diversas escalas. A presença e importância do ensino da Arquitetura Paisagística está expressa nas Diretrizes Curriculares Nacionais, com relevância equivalente ao urbanismo e a edificação: “(...) a proposta pedagógica para os cursos de graduação em Arquitetura e Urbanismo devem assegurar a formação de profissionais generalistas, capazes de compreender e traduzir as necessidades de indivíduos, grupos sociais e comunidade, com relação à
expor o usuário do serviço prestado a qualquer tipo de dano ou de risco à sua segurança ou saúde, ou ao meio ambiente.” (NOTA DE ESCLARECIMENTO: ATRIBUIÇÕES PRIVATIVAS DE ARQUITETOS E URBANISTAS, CAU/BR, 2013. Disponível em: http://novo.cauam.org.br/wp-

content/uploads/2013/07/Res_51-Nota_de_Esclarecimento-2013_07_27.pdf.) (grifo meu).

concepção, à organização e à construção do espaço interior e exterior, abrangendo o urbanismo, a edificação, o paisagismo, bem como a conservação e a valorização do patrimônio construído, a proteção do equilíbrio do ambiente natural e a utilização racional dos recursos disponíveis” (CAU/SP, Manifestação do CAU/SP sobre o Projeto de Lei N2043/2011, 2012) (grifos do CAU/SP). É muito pertinente colocar a discussão sobre a formação do paisagista de modo mais abrangente do que restringi-la às disciplinas especificamente direcionadas ao Paisagismo do curso de Arquitetura e Urbanismo. De fato, esta graduação tem em seu corpo conhecimentos que, fora das disciplinas específicas de Paisagismo, são fundamentais para a formação do paisagista. Mas é importante observar que o mesmo ocorre em outras graduações que têm saberes que constituem parte fundamental do campo do Paisagismo, e nem por isso poder-se-ia dizer que elas são suficientes para a formação de um arquiteto paisagista. De outro modo, da mesma maneira que o CAU/SP cita as Diretrizes Curriculares Nacionais do Ministério da Educação para o curso de Arquitetura e Urbanismo,14 os agrônomos poderiam com muita propriedade citar as próprias diretrizes curriculares, onde consta: Art. 7, item II – “O núcleo de conteúdos profissionais essenciais [para o agrônomo] será composto por campos de saber destinados à caracterização da identidade do profissional. O agrupamento desses campos gera grandes áreas que caracterizam o campo profissional e agronegócio, integrando as subáreas de conhecimento que identificam atribuições, deveres e responsabilidades. Esse núcleo será constituído por: Agrometeorologia e Climatologia; Avaliação e Perícias; Biotecnologia, Fisiologia Vegetal e Animal; Cartografia, Geoprocessamento e Georeferenciamento; Comunicação, Ética, Legislação, Extensão e Sociologia Rural; Construções Rurais, Paisagismo, Floricultura, Parques e Jardins; […] Manejo e Produção e Florestal. Zootecnia e Fitotecnia; Gestão Empresarial, […] Hidrologia, Manejo de Bacias Hidrográficas, Sistemas de Irrigação e Drenagem; Manejo e Gestão Ambiental; Microbiologia e Fitossanidade; Sistemas Agroindustriais; Solos, Manejo e Conservação do Solo e da Água, Nutrição de Plantas e Adubação; (…).”15 (Grifo meu).
Resolução nº2, de 17 de junho de 2010. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de graduação em Arquitetura e Urbanismo. Ministério da Educação. Publicada no DOU de 18/6/2010, Seção 1, pp. 37-38. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=12991. Resolução nº 1, de 2 de fevereiro de 2006. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de graduação em Eng. Agronômica ou Agronomia. Ministério da Educação. Publicada no DOU de 03/02/2006, Seção I, pp. 31-32. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=12991.
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Não se trata aqui de recair nos argumentos levantados nas disputas entre as categorias já estabelecidas no Brasil (agrônomos, arquitetos, engenheiros florestais, artistas, biólogos…), a respeito de qual destas categorias propicia a formação mais próxima à de um paisagista. Trata-se aqui de optar pela regulamentação ou não de uma nova profissão, então devemos procurar saber se a formação em Arquitetura e Urbanismo no Brasil equivale à formação em Arquitetura da Paisagem onde ela é ministrada, para poder efetivamente avaliar se é justificável ou não a criação de uma nova figura profissional. Alguns sites de associações ligadas à Arquitetura da Paisagem disponibilizam um serviço já catalogado de informações sobre cursos superiores em Paisagismo em vários países. Dentre eles cito o Degree programs by state, da ASLA – American Society of Landscape Architectures: http://www.asla.org/schools.aspx; e o Study Programmes, da ECLAS – European Council of Landscape Architecture Schools: http://www.eclas.org/study-programmes-courses.php. Muito resumidamente, é possível verificar que as graduações em Paisagismo se constituem dos seguintes eixos temáticos: - Ciências físicas e biológicas aplicadas: temas da geografia física, técnicas agronômicas e silviculturais, ecologia, botânica e técnicas de jardinagem; cartografia. - Fundamentação: história da arte e da representação da paisagem e dos jardins; geografia humana, teoria da paisagem; as relações entre natureza, meio ambiente, cidade e território; legislação; - Projeto de paisagismo: teoria e prática do projeto de paisagismo, metodologia, design gráfico, Computer aided design. Vejamos um exemplo de comparação direta entre os cursos de Arquitetura da Paisagem da Universidade do Porto, em Portugal (UP), realizado em 5 anos, (Licenciatura, 3 anos, + especialização, 2 anos), e o curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB), também de 5 anos de duração16:
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Os planos de curso assim como o conteúdo programático das disciplinas listadas estão disponíveis em: http://sigarra.up.pt/fcup/pt/cur_geral.cur_planos_estudos_view?pv_plano_id=3179&pv_ano_lectivo=2 013&pv_tipo_cur_sigla=&pv_origem=CUR; http://sigarra.up.pt/fcup/pt/cur_geral.cur_planos_estudos_view?pv_plano_id=5741&pv_ano_lectivo=2 013&pv_tipo_cur_sigla=&pv_origem=CUR e http://www.fau.unb.br/index.php/gadruacao#item2. Os dois cursos citados prevêem ainda um leque de disciplinas seletivas e opcionais para a complementação da graduação. Outros exemplos de programas de graduação em Arquitetura da Paisagem são: - École Nationale Supérieure de Paysage de Versailles – FR : http://www.ecolepaysage.fr/media/ecole_fr/UPL1068117720698116492_prog_ped_juin_2012_EN.pdf; - Berkeley, Universidade da Califórnia, EUA: http://ced.berkeley.edu/downloads/forms/academic/ced_landscape-architecture-majorhandbook_2012-13.pdf; - Universidade de Florença (UniFi), IT, disponível em: http://www.unifi.it/clmarp/upload/sub/PdS_B06708-10_coorte2010.pdf;

Universidade do Porto (UP) Arquitetura Paisagística Formação completa - 5 anos Biogeografia Biologia das Plantas Botânica Florestal Diversidade das Plantas Ecofisiologia Vegetal Ecologia Geral Agricultura I Agricultura II Elementos de Geologia Métodos em Cartografia Geológica Pedologia (Ciência dos solos) e Hidrologia Matemática I Desenho Gestão de espaços exteriores História da Arquitetura Paisagística História da Arte História e Crítica da Paisagem Introdução ao Ordenamento do Território Ordenamento do Território I Ordenamento do Território II Políticas da Paisagem Introdução ao Projeto em Arquitetura Paisagística I Introdução ao Projeto em Arquitetura Paisagística II Projeto - Técnicas de Construção Projeto - Vegetação em Espaço Urbano Projeto de Espaços Exteriores I Projeto de Espaços Exteriores II Projeto de Paisagismo Projeto - Aplicação de Material Vegetal Projeto - Espaço Público Projeto - Gestão da Paisagem Projeto - Paisagens Culturais Projeto - Qualificação Urbana Projeto - Impacto e Recuperação da Paisagem Técnicas de Gestão de Espaços Verdes Urbanística Dissertação Estágio

Universidade de Brasília (UnB) Arquitetura e Urbanismo Graduação - 5 anos Introdução à Arquitetura e Urbanismo Instalação de Equipamentos Sistemas Construtivos I Técnicas de Construção Projeto Arquitetônico Projeto de Arquitetura - Linguagem e Expressão Projeto de Arquitetura - Habitação Projeto de Arquitetura - Grandes vãos Projeto de Arquitetura de Edificações em Altura Projeto de Arquitetura de Funções Complexas Projeto de Urbanismo I Projeto de Urbanismo II Estágio Supervisionado em Obra Projeto Paisagístico Desenho Arquitetônico Desenho e Plástica I Desenho e Plástica II Geometria Construtiva Estudos Ambientais - Bioclimatismo Conforto Térmico Ambiental Sistemas Estruturais na Arquitetura Sistemas Estruturais em Concreto Armado Sistemas Estruturais em Aço Sistemas Estruturais em Madeira História da Arquitetura e do Urbanismo I História da Arquitetura e do Urbanismo II Arquitetura e Urbanismo da Sociedade Industrial Arquitetura e Urbanismo do Brasil Colônia Império Arquitetura e Urbanismo da Atualidade Ensaio de Teoria e História de Arq. e Urb. Introdução ao Trabalho Final de Graduação Computação Gráfica Aplicada à Arq. e Urb. I Infra-estrutura Urbana Conforto Sonoro Conforto Ambiental Luminoso Projeto de Arq e Urb. - Técnicas Representativas Estética e História da Arte Trabalho Final de Graduação Materiais de Construção - Teoria Materiais de Construção - Experimental

Contra a perspectiva que reduz o Paisagismo ao âmbito da jardinagem, deve-se notar que o foco do curso de Arquitetura da Paisagem é a relação entre natureza,

paisagem e projeto paisagístico, ou seja, o estudo profundo do território e da paisagem com o intuito de proteger, restaurar ou enriquecer e representar sua beleza e sua natureza em jardins, cidades e, principalmente, na escala territorial. Na comparação entre as duas grades formativas fica evidente que se tratam de programas distintos. Mesmo na parte onde há maior sobreposição, no grupo de disciplinas referente a projeto, é marcante a diferença de enfoque e mesmo de objeto estudado. Enquanto um é explicitamente direcionado ao projeto paisagístico, o outro trata de projeto arquitetônico e urbanístico. É bem verdade que parte fundamental dos conhecimentos em Paisagismo vem sendo desenvolvida no Brasil quase que exclusivamente nas faculdades de Arquitetura e Urbanismo, e muito do que temos nesta área deve-se ao trabalho de arquitetos e urbanistas. Mas mesmo reconhecendo a proximidade desta área com o Paisagismo, e o trabalho de excelência realizado dentro das (poucas) melhores escolas de Arquitetura e Urbanismo do Brasil para oferecer um leque amplo de disciplinas optativas17, inclusive com o apoio das atividades de ensino e pesquisa em nível de pós-graduação (da qual faço parte), é inegável que grande parte dos conhecimentos exigidos para a graduação em Paisagismo não é contemplada no currículo das graduações em Arquitetura e Urbanismo no Brasil. O argumento que resta destas passagens da ABAP, do CAU/SP e do CEAU (ou CBA) não é, portanto, a obrigatoriedade da formação em Arquitetura para um arquiteto paisagista, visto que a formação em Arquitetura não é obrigatória para paisagistas no resto do mundo, notadamente nos países que possuem a graduação específica em Arquitetura da Paisagem. Assim como tampouco argumentam que as graduações em Arquitetura e Urbanismo no Brasil incluem as várias áreas envolvidas na multidisciplinaridade dos conhecimentos necessários para o paisagista, ou mesmo que o programa formativo da Arquitetura possui a exclusividade dos temas relativos ao Paisagismo. O que argumentam, no fim das contas, a ABAP, o CAU/SP e o CEAU, é que a Arquitetura da Paisagem teria a centralidade de seu saber na concepção espacial e na elaboração de projetos, temas mais afins aos conhecimentos desenvolvidos nas graduações em Arquitetura em comparação a outras graduações disponíveis no Brasil. Esta afirmação poderia ser válida para contendas entre as categorias de arquitetos, agrônomos, engenheiros florestais, biólogos, etc., como têm ocorrido no Brasil já há bastante tempo. Mas ela não é suficiente para desautorizar a criação do campo autônomo da Arquitetura da Paisagem: não se prova que a graduação em Arquitetura inclui o corpo de saberes necessários à formação de um arquiteto paisagista.

Dentre elas, cito a Universidade de São Paulo (USP), cuja realidade conheço mais de perto. As disciplinas oferecidadas pela graduação estão disponíveis em: http://www.fau.usp.br/cursos/graduacao/arq_urbanismo/disciplinas/index.html.

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Certamente que um curso dedicado à Arquitetura da Paisagem deve prever toda a formação em projeto específica e necessária ao paisagista. Além disso, deve prever todas as outras disciplinas necessárias para esta profissão. Esta formação deve possuir uma carga horária equivalente à formação em Paisagismo onde ela ocorre: 5 anos. Seria, portanto, demasiadamente extensa para ser incorporada numa graduação em arquitetura e urbanismo. De fato, este campo profissional e científico é único: possui uma base de saberes suficientemente densa e autônoma para se equiparar – e não se confundir - com nenhum outro programa acadêmico, seja ele arquitetura, urbanismo, agronomia, artes, etc. A autonomia da Arquitetura Paisagística foi, ademais, reconhecida em documento específico assinado entre a IFLA e a União Internacional dos Arquitetos (UIA). Trata-se do Memorando de Entendimento (Agreement) em 2006 e 2012, onde estas duas instituições reconhecem o caráter distinto, único, separado e complementar das profissões de arquiteto paisagista e arquiteto.18 Vemos, portanto, que contrariam a argumentação apresentada pelo CAU, ABAP e CEAU: 1. O entendimento firmado pelo órgão máximo dos arquitetos no mundo (o agreement entre IFLA e UIA); 2. O padrão internacional das profissões estabelecido pela OIT; 3. A prática internacional de reconhecimento e regulamentação da profissão de paisagista; e 4. A comparação entre os programas formativos em Arquitetura no Brasil e a formação em Arquitetura da Paisagem. Devemos reconhecer: Arquitetura da Paisagem - ou Paisagismo – é um campo de saber autônomo e relevante, e não é contemplado suficientemente na graduação em Arquitetura e Urbanismo no Brasil. É necessário, portanto, que ele seja instituído, reconhecido e valorizado pelo governo e pela sociedade para que tais saberes possam contribuir para um futuro melhor para o Brasil. Diante disso, caem por terra os argumentos de que o PL 2043/2011 representaria um desrespeito aos arquitetos, como afirma o CAU/SP, ou um atentando contra a integridade profissional do arquiteto, como exposto na carta do CBA: “As representações nacionais dos Arquitetos Urbanistas encontram-se envolvidas na organização de seu novo conselho e atentamos para diversos projetos congêneres ao PL 2.043/2011, que surgem no sentido de retalhar as atribuições profissionais de Arquitetos Urbanistas.” (CBA, Argumentação pela rejeição do PL 2043/2011, 2011).
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Disponível em: http://www.scribd.com/doc/164890396/Ifla-uia-Mou-2012.

Se a Arquitetura da Paisagem se constitui num campo de saber que extrapola os limites da formação dos arquitetos urbanistas, assim como escapa a qualquer outra graduação no Brasil, seu reconhecimento não pode ser abordado pela ótica das categorias já estabelecidas, como se fosse um atentado à integridade de cada uma delas, ou um retalhamento de suas atribuições, mas deve ser defendido dentro dos seus próprios valores, que são o de afirmar e fazer valer a importância do saber paisagístico. A esta altura sobrou nos manifestos do CAU/SP, CEAU e ABAP apenas um argumento contra a regulamentação da profissão de Arquiteto Paisagista no Brasil19: “A existência de um Conselho é necessária para regulação das atividades profissionais em defesa da sociedade e dos consumidores e a correta fiscalização dessas atividades pelos profissionais com competência legal para tal.“ Nenhuma profissão pode ter um conselho antes de ser regulamentada. O que se pode esperar é que a nova profissão venha acolhida por um conselho existente ou que se crie um conselho próprio. A criação de um conselho é matéria de deliberação do poder executivo, e não pode ser prevista, portanto, no Projeto de Lei em questão.

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Em todos os documentos ocorrem referências à luta pela criação do Conselho independente para os arquitetos e urbanistas (CAU) e sobre o papel relevante que teriam tido neste processo o CEAU e da ABAP. Não se considera aqui que tais argumentos sejam pertinentes ao debate sobre o PL 2043/2011.

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3. Vantagens da regulamentação da Arquitetura Paisagística no Brasil

A falta de um curso específico e de uma base mais ampla de discussão a respeito da paisagem e da Arquitetura da Paisagem na maioria das instituições de ensino brasileiras e de seus cursos superiores (sejam de Arquitetura, Agronomia, ou outro qualquer), se reflete na legislação e no mercado de trabalho no Brasil. Não por acaso, não está adequadamente prevista em nosso país a centralidade do tema da paisagem e do trabalho do arquiteto paisagista no planejamento estratégico territorial, o que contrasta sempre mais no mundo de hoje com a prática internacional, com a demanda cada vez maior da sociedade por qualidade de vida nas grandes cidades, e com os problemas ambientais e paisagísticos de um enorme país em transformação acelerada e com a degradação de suas formações naturais e históricas. Tendo em vista esta realidade, penso que, para os interessados em defender a importância do campo da Arquitetura da Paisagem no Brasil, seria mister reconhecer que é justa - e urgente - a demanda pela implantação de cursos de graduação na área. Tais cursos deveriam funcionar como pólos de desenvolvimento deste tema e impulsionar as esferas governamentais e as próprias universidades em direção a um aprofundamento da pesquisa neste campo de saber - tão atual no mundo contemporâneo. É por isso que a IFLA tem defendido com veemência em todo o mundo: a formação em Arquitetura da Paisagem é essencial para o profissional paisagista e para os próprios países. Isto consta, por exemplo, na carta “Resolution in Support of Cau – Brazilian Council of Architecture and Urban Design and Landscape Architecture Education in Brazil”, que a ABAP disponibiliza no próprio site20: “Brazil to be one of the leading countries of this century, will greatly benefit on landscape architects effective capacity to publicly disseminate works concerned the realms of our professional practices or of academic reflection and research. This will be a task which will demand great work if we consider the difficulties due to the vast array of local projects that should be set; of the ever growing fragmentation, specialization and overlapping of professional attributions and of the increasing economic pressures on professional practice. However, these are the stimuli to the Country to be in a world of such intense diversity, soaring challenges but growing knowledge and expertise to respond to them in new forms that Landscape Architecture could deliver. Most of this work should begin preparing the next generations for these challenges. In this sense, IFLA strongly recommends a joint political and academic effort in the creation and implementation of Graduate

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Disponível em: http://www.abap.org.br/profissao.htm.

Programmes with a focus on Landscape Architecture, aiming at a specialized professional capacitation”. (IFLA, 2009) (Grifo meu) Por fim, é importante dizer que existe no Brasil um único curso superior na área do Paisagismo: o Curso Superior em Composição Paisagística, da Escola de Belas Artes (EBA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que funciona desde 1976. Os profissionais formados pela EBA – os únicos propriamente formados em Paisagismo no Brasil - têm encontrado dificuldade em exercer esta profissão, por não estar ela ainda regulamentada no Brasil. Várias outras instituições de ensino superior no Brasil têm apresentado propostas ao Ministério da Educação para a implantação de cursos de nível superior em Paisagismo. Tais propostas têm sido arquivadas pelo fato de que a legislação atual não prevê esse perfil profissional.21 Em ao menos uma ocasião a IFLA emitiu um documento oficial de apoio à criação do curso, em carta que disponibilizo ao final deste texto. Vê-se, portanto, que há demanda da sociedade e algumas universidades já estão se preparando para isso.

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Iniciativas que conheço: Pontífica Universidade Católica de Goiás (PUC-Goiás) , Universidade de Curitiba (UNIC); Universidade Veiga de Almeida (UVA), em curso foi coordenado pelo Arq. Fernando Chacel, um dos fundadores da ABAP e paisagista que deixou um enorme legado no Brasil.

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4: Critérios para o exercício profissional

Uma vez colocada a necessidade de haver no Brasil uma formação específica para arquitetos paisagistas, devemos passar aos critérios para o exercício desta profissão. Além, é claro, dos futuros portadores de diploma específico, devem ser considerados meios de assegurar que os profissionais hoje disponíveis no Brasil, oriundos de áreas afins ao Paisagismo (arquitetos, agrônomos, etc.), muitas vezes com experiência na área ou pós-graduação, continuem contribuindo para a estruturação desta área de conhecimento no Brasil. Este ponto foi tratado no projeto de lei original dentro do 3º artigo. As duas emendas propostas pelo Deputado Stepan Nercessian22, da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, alteraram as disposições iniciais. Tomemos como objeto de análise, portanto, o texto já com as emendas, (artigos 3º e 8º): "Art. 3º O exercício da profissão de paisagista, em todo o território nacional, é privativo dos portadores de diploma de curso reconhecido, se expedido por instituição de ensino no País, ou revalidado, se expedido por instituição de ensino do exterior, nos seguintes casos: I- curso superior de graduação em Paisagismo, Arquitetura da Paisagem ou Composição Paisagística; ou II- curso superior de graduação em Arquitetura, Urbanismo, Agronomia, Engenharia Florestal ou Artes Plásticas, e curso de pósgraduação em uma das áreas previstas no inciso I.” (PL 2043/2011, Art. 3º, Emenda Nº1, Dep. Stepan Nercessian, 2013). Vê-se que o ponto central, neste caso, é definir o acesso às atribuições de paisagista para aqueles profissionais não graduados nesta área. Este artigo não estipula um prazo limite para sua validade, e os parâmetros propostos consideram a graduação de origem e a realização de pós-graduação em Paisagismo. De acordo com o PL 2043/2011, poderão exercer a função de paisagista profissionais oriundos de áreas afins (arquitetura, agronomia, biologia, engenharia florestal ou artes plásticas) com pósgraduação na área de Paisagismo. Vale lembrar que a inclusão destas categorias citadas no rol dos paisagistas não é estranha à história da Arquitetura da Paisagem. Estas profissões também compartilham de parte da base de conhecimentos do Paisagismo. De fato, as academias de paisagismo tiveram origem a partir das academias de Arquitetura e Agronomia na maior parte dos países. Devido a esta ascendência, muitos agrônomos e arquitetos formavam – e formam ainda - o corpo de muitos dos afiliados da IFLA no mundo, como é o caso, por
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Texto com emendas do Dep. Stepan Nercessian disponível em: http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1087754&filename=EMR+2 +CE+%3D%3E+PL+2043/2011

exemplo, da Argentina, onde o Centro Argentino de Arquitectos Paisajistas (CAAP) possui, como membros, agrônomos, arquitetos e arquitetos paisagistas. No que concerne à possibilidade de complementação da capacitação em programas de pós-graduação, a fórmula apresentada pelo projeto de lei não constitui uma novidade em nível internacional, visto que seria similar ao modelo americano, onde o Bachelor’s Degree pode ser seguido de um Graduate Degree, ou europeu, onde a “graduação curta”, de 3 anos, é seguida de um Master de 1º nível, de mais 2 anos. Enfim, parece coerente a formação complementar dos profissionais que já tivessem tomado contato com parte relevante dos conhecimentos de base da Arquitetura da Paisagem (agrônomos, arquitetos, engenheiros florestais, biólogos, e graduados em artes plásticas) para que estes profissionais possam exercer as funções de paisagista, visto que nenhuma dessas graduações possui a totalidade dos conteúdos necessários à atuação na área do Paisagismo. Passemos então ao artigo 8º: "A aplicação do disposto no art. 3º observará as seguintes condições: I - o requisito de diploma de curso de pós-graduação, previsto no inciso II do art. 3º, será exigível somente a partir do décimo primeiro ano de vigência desta Lei. II – será admitido, durante cinco anos a contar da data de publicação desta Lei, o registro, como profissional paisagista, daquele que, sendo portador de diploma de curso superior de graduação em qualquer área, reconhecido, se expedido por instituição de ensino no País, ou revalidado, se expedido por instituição de ensino do exterior, for também portador de certificado de curso de especialização em Paisagismo, Arquitetura da Paisagem ou Composição Paisagística, expedido por instituição de ensino credenciada, nos termos da legislação educacional em vigor.” (PL 2043/2011, Art. 3º, Emenda Nº2, Dep. Stepan Nercessian, 2013). Com relação ao Item I, como este projeto de lei reconhece que os profissionais que temos hoje no Brasil devem continuar trabalhando na área de paisagismo, parece muito oportuno estipular um prazo para que tais profissionais procurem complementar sua capacitação na área. Com relação ao Item II, pode ser válido questionar-se a extensão da atribuição de paisagista a profissionais formados em áreas não afins ao Paisagismo, ainda que essa regra tenha caráter transitório, com prazo de 5 anos a partir da aprovação do projeto de lei.

Contudo, independentemente do posicionamento a respeito destes últimos pontos do PL 2043/201123, deveria prevalecer a necessidade imperiosa de se reconhecer e regulamentar a área do Paisagismo no Brasil. Acredito que todos que reconheçam este ponto central do PL 2043/2011 podem, ao tomar parte no debate, contribuir para definir se - e quais - outras categorias deveriam gozar o direito de exercer as atividades de paisagista e, nesta eventualidade, quais as recomendações adequadas para a capacitação suplementar direcionada aos já graduados e/ou para os futuros profissionais em áreas afins.

Júlio Barêa Pastore, Campinas, 09 de setembro de 2013

(Todos os documentos ou passagens citados nesta carta estão disponíveis na internet, de acordo com as
referências citadas, e foram acessados entre os dias 10 e 15 de agosto de 2013.)

Foi contra a extensão das atribuições de paisagista aos oriundos de outros programas formativos que não a Arquitetura e contra o reconhecimento da capacitação realizada em nível de pógraduação, que o CAU/SP, a ABAP e o CEAU direcionaram os argumentos restantes dos manifestos publicados. Cito aqui o documento da ABAP: “Pelo presente PL 2043/2011, estão sendo equiparadas diversas e distintas formações profissionais, de categorias diferentes (Artistas plásticos, biólogos, agrônomos, arquitetos, e outros). Além disso, esse PL considera os títulos de pós-graduação como válidos para formação de profissionais, o que nunca foi considerado por vários conselhos profissionais em nosso país, uma vez que as atribuições profissionais estão, tradicionalmente, vinculadas aos cursos de graduação.” (ABAP, Manifesto contra o PL 2043/2011, 2012). Como se vê, do modo como vem ocorrendo, estas instituições podem não só estar se colocando à margem dos interesses próprios da Arquitetura da Paisagem, como podem criar um pesado ônus para o futuro da Arquitetura da Paisagem no Brasil, pois, se esta graduação vier a ser criada – no infeliz caso de isso ocorrer à revelia das instituições ligadas à Arquitetura – é possível que transcorram muitos anos, senão décadas, para que estas categorias – arquitetos e paisagistas – reconheçam-se mutuamente e de boa vontade.

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