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ODES MODERNAS

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ODES
MODERNAS
POR
Anthero de Quental
SEGUNDA EDIÇÃO
C ONT UNDO V ARIAS C OMPOSIÇÕ ES INÉ DIT AS
LIV RARIA INT ERNAC IONAL
DK
ERNEST O C HARDRON
PORT O
EUGENIO C HARDRON
BRAGA
1875
PORT O
T Y POGBAPHIA DE ANT ONIO J OSÉ DA SILV A T E1X E1K A
6 2 , Hua da C anc ella V elha, 6 2
1875
1
Allein im Innern leuohtet liellc s Lic li'
Gc ec he : Faust.
9
iU
I
Panf Iteisma
Aspiração... desejo aberto todo
N uma anc ia insoffrida e mysteriosa...
A isto c hamo eu vida: e, d'este modo,
, ue mais importa a forma? silenc iosa
na mesma alma aspira c á luz e ao espaço
■ '
!Q
tornem igualmente e astro e rosa!
própria fera, c ujo inc erto passo
A vaga nos algares da deveza,
'or c erto entrevê Deus —seu olho baço
4 ODES MODERNAS
Foi feito para ver brilho e belleza...
E se ruge, é que a agita surdamente
T ua alma turva, ó grande natureza!
Sim, 110 rugido lia uma vida ardente,
Uma energia intima, tão santa
C omo a que faz trinar a avo innoc ente...
Ha um desejo intenso, que alevanta
Ao mesmo tempo o c oração ferino,
E o do ingénuo c antor que nos enc anta...
Impulso universal! forte o divino,
Aonde quer que irrompa! e bello e augusto,
Quer se equilibre em paz no mudo kymno
Dos astros immortaes, quer no robusto
Seio do mar tumultuando brade,
C om um furor que se domina a c usto;
Quer durma na fatal obsc uridade
Da massa inerte, quer na mente humana
Sereno asc enda á luz da liberdade...
ODES MODERNAS í >
É sempre a eterna vic ia, que dimana
Do c entro universal, do fóeo intenso,
Que ora brilha sem véos, ora se empana...
E sempre o eterno gérmen, que suspenso
No oc eano do Ser, em turbilhões
De ardor e luz, evolve, í nfimo e immenso!
Através de mil formas, mil visões,
O universal espirito palpita
Subindo na espiral das c reaçoes!
O formas! vidas! mysteriosa esc ripta
Do poema indec ifrá vel que na T erra
Faz de sombras e luz a Alma infinita!
Surgi, por c éo, por mar, por valle e serra!
Rolai, ondas sem praia, c onfundindo
A paz eterna c om a eterna guerra!
i
Rasgando o seio immenso, ide sahindo
Do fundo tenebroso do Possivel,
Onde as formas do Ser se estão fundindo...
0 ODES MODERNAS
Abre teu c á lix, rosa immàrc essivel!
Roc ha, c leixa banliar-tc a onda c lara!
Ergue tu, aguia, o vôo inac c essivel!
Ide! c resc ei sem medo! não é avá ra
A alma eterna que c m vós anda e palpita...
Onda, que vai e vem e nunc a pá ra!
Em toda a forma o Espirito se agita !
O immovel é um deus, que está sonhando
C om não sei que visão vaga, infinita...
Semeador de mundos, vai andando
E a c ada passo uma seara basta
De vidas sob os pés lhe vem brotando!
Essênc ia tenebrosa e pura... c asta
E todavia ardente... eterno alento!
T eu sopro é que fec unda a esphera vasta...
C horas na voz do mar... c antas no vento...
1
II
Porque o vento, sabei-o, é prégador
Que através das soidões vai missionando
A eterna Lei do universal Amor.
Ouve-o rugir por essas praias, quando,
Feito tufão, se atira das montanhas,
C omo um negro T itan, e vem bradando...
Que immensa voz! que prédic as estranhas!
E c omo freme c om terrí vel vida
A aza que o libra c m extensões tamanhas!
Ah! quando em pé no monte, e a fac e erguida
Para a banda do mar, esc uto o vento
Que passa sobre mim a toda a brida,
C omo o entendo então! e c omo attento
Lho esc uto o largo c anto! e, sob o c anto,
Que profundo o sublime pensamento!
8
ORES MODERNAS
Eil-o, o Aneião-dos-dias! eil-o, o Santo,
Que já na solidão passava orando,
Quando inda o mundo era negrume o espanto!
Quando as formas o orbe tenteando
Mal se sustinha e, inc erto, se inc linava
Para o lado do abysmo, vac illando;
Quando a Força, indec isa, se enrosc ava
Às espiraes do C hãos, longamente,
Da c onfusão primeira ainda esc rava;
J á elle era então livro! e rijamente
Sac udia o Universo, que ac ordasse...
J á dominava o espaço, omnipotente!
Elle viu o Princ ipio. A quanto nasc e
Sabe o segredo, o germon mystorioso.
Enc arou o Inc onsc iente fac e a fac c ,
Quando a Luz fec undou o T enebroso.
ODBS MODEliX AS 9
III
Fec undou!... Se eu nas mãos tomo um punhado
Da poeira do c hão, da triste areia,
.E interrogo os arc anos do seu fado,
O pó c resc o ante mim... engrossa... alteia...
E, c om pasmo, naa mãos vejo que tenho
Um espirito! o pó tornou-se idéa!
O profunda visão! mysterio estranho!
Ha quem habita alli, e mudo e quedo
Invisí vel está ... sendo tamanho!
Espera a hora de surgir sem medo,
Quando o deus enc oberto se revele
C om a palavra do immortal segredo!
Surgir! surgir! — é a arfeia que os impelle
A quantos vão na estrada do infinito
Erguendo a pasmosissima Babel!
10
Surgir! ser astro e flôr! onda e granito!
Luz o sombra! attrac ção e pensamento!
Um mesmo nome em tudo está esc ripto—
Eis quanto me ensinou a voz do vento.
186 5 — 1874.
ODES MODERNAS
II
A Mistoria
Mas o Iiomem, se ó c erto que o c onduz,
Por entre as c errações do seu destino,
Não sei que mão feita d'amor e luz
La para as bandas d'um porvir divino...
Se, desde Prometheu até J esus,
O fazem ir — estranho peregrino,
' O Homem, tenteando a grossa treva,
V ai... mas ignora sempre quem o leva!
ODES MODERNAS
Elie não sabe o nome de seus Fados,
Nem. vê de frente a fac e do sen guia.
Onde o levam os deuses indignados?...
Isto só lhe esc urec e a luz do dia!
Por isso verga ao peso dos c uidados;
Duvida c c alie, luc tando em agonia:
E, se lhe ó dado qu9 supplique e adore,
T ambém é justo que blaspheme e c hore!
J á que vamos, é bom saber aonde...
O grão de pó, que o simoun levanta,
E leva pelo ar o envolve e esc onde,
T ambém, no turbilhão, se agita e espanta,
T ambém pergunta aonde vai e d'onde
O traz a tempestade que o quebranta...
E o homem, bago d'agua pequenino,
T ambém tem voz na onda do destino!
Porque os evos, rolando, nos lançaram
Sobre a praia dos tempos, esquec idos,
E, naufragos d'uma hora, nos deixaram
Postos ao ar, sem tec to e sem vestidos.
Estamos. Mas que ventos nos deitaram
E c om que fim, aqui, meio partidos,
Se um Ac aso, se Lei nos c éos esc ripta...
Eis o que a mente humana em vão agita!
ODES MODEK NAS
O areias da praia, ó roc has duras,
Que também prisioneiras aqui estaes !
Entendeis vós ac aso estas esc uras
Razões da sorte, surda a nossos ais?
Sabel-as tu, ó mar, que te torturas
No teu c á rc ere immenso? e, aguas, que andaes
Eni voita aos sorvedouros que vos somem,
Sabeis vós o que faz aqui o Homem?
Fronte que banha a luz — e olhar que fita
Quanta belleza a innnensidão rodeia!
Da geração dos seres infinita
Mais pura forma e mais perfeita idéa!
No vasto seio um mundo se lhe agita...
E um sol, um firmamento se inc endeia
Quando, ao c larão da alma, em movimento
V olve os astros do c éo do pensamento!
E, emtanto, ó' largo mundo, que domina
Seu espirito immenso! elle é mesquinho
Mais que a ave desvalida e pequenina,
A que o vento desfez o estreito ninho!
Quanto mais vê da esphera c rystallina
Mais deseja, mais sente o agudo espinho...
E o c irc ulo de luz da alma pura
E um c á rc ere, apenas, de tortura!
ODES MODERNAS
Um sonho gigantesc o de belleza
E uma anc ia de ventura o faz na vida
C aminhar, c omo um ébrio, na inc erteza
Do destino e da T erra-promettida...
Sorri-lhe o c éo de c ima, o a natureza
Em volta é c omo amante appetec ida—
Elie porém, sombrio entre os abrolhos,
Segue os passos do sonho... e fec ha os olhos
Fec ha os olhos... que os passos da visão
Não deixam mais vestí gios do que o vento!
T u, que vaes, se te soí fre o c oração
V irar-te para traz... pá ra um momento...
Dos desejos, das vidas, n'esse c hão
Que resta? que espantoso monumento?
Um punhado de c inzas — toda a gloria
Do sonho humano que se c hama Historia. —
ODES MODERNAS
Oh! a Historia! A Penelope sombria,
Que leva as noites desmanc hando a teia
Que suas mãos urdiram todo o dia!
O alc himista fatal, que toma a Idéa,
E, nas c ombinações da atroz magia,
Só extrahe Pó! A fúnebre Medêa
Que das flores de luz do c oração
C ompõe seu negro philtro— a c onfusão!
Eis do trabalho sec ular das raças,
Das dôres, dos c ombates, das c onfianças,
Quanto resta a final... c inzas esc assas!
O tédio sobre o c éo das esperanças
Suas nuvens soprou! E odios, desgraças,
Desesperos, misérias e vinganças,
Eis a bella seara d'ouro erguida
Do c hão, onde iIlusões semeia a vida!
ODES MODEI1X AS
Os c ultos c om fragor rolam partidos;
E em seu altar os deuses c ambaleiam;
E dos lieroes os ossos esquec idos
Nem um palmo, sequer, do c hão se alteiam!
Os nossos Immutaveis c il-os idos
C omo as c hammas no monte, que se ateiam
Na urze sec c a. e a arage ergue um momento,
E uma liora após são c inza... e leva o vento!
Ó duração de sonhos! fortalezas
De fumo! roc has de illusão a rodos!
Que é dos santos, dos altos, das grandezas,
Que inda ha c em annos adorá mos todos?
As verdades, as biblias, as c ertezas?
Limites, fórmas, c onsagrados modos?
O que temos dc eterno e sem enganos,
Deus — não pôde durar mais que alguns annos
T hronos, religiões, impérios, usos...
Oh que nuvens do pó alevantadas!
C astc llos de nevoeiro tão c onfusos!
Ondas umas sobre outras c onglobadas!
Que longes que não tem estes abusos
Da forma! T roias em papel pintadas!
Babylonias de nevoa, que uma aragem,
Roçando, abala e lança na voragem!
ODES MODERNAS
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Sobro alic erc es d'ar as soc iedades
C omo sobre uma roc ha tem assento...
E os c ultos, as c renças, as verdades
Álli c resc em, lá têm seu fundamento...
Ó grandes torreões, templos, c idades,
Babeis de orgulho e força... sopre o vento
Sobre os pés do gigante que se eleva...
E era d'ar essa base... e o vento a leva!
E o vento a dispersou! Elie é seguro
O Forte da illusão... mas se a primeira
Rajada o c éo mandou, pedras do muro,
Não rolam mais que vós os grãos na eira!
V ê-se então a alma humana, pelo esc uro,
No turbilhão que arrasta essa poeira
Ruir também, desfeita e em pó tornada,
T é que se esvae... té que a sumiu o nada!
2
18
ODES SÍ ODERSAS
III
E isto no meio do infinito espaço!
Dos soes! c ios mundos! sala do fulgores!
Isto no c hão da vida... e a c ada passo
Rebentam sob os pés c autos e flores!
Quando abre a Natureza o seu regaço,
E o seio da Mulher os seu3 amores!
E tem beijos a noite... e o dia festas...
E o mar suspira... e c antam as florestas...
Por c ima o c éo que ri... e em baixo o pranto...
Harmonias em volta... e dentro a guerra...
Dentro do peito humano, o templo santo,
O vivo altar onde c ommungue a terra!
V ede! habita no altar o horror e o espanto,
E a Arc a-de-amor só podridão enc erra !
Que espantosa illusão, que desatino,
Ô luz do c éo! é pois este destino?
ODES MODERNAS jg
Os montes não entendem estas c ousas!
Estão, de longe, a olhar nossas c idades,
Pasmados c om as luc tas furiosas
Que os turbilhões, c hamados soc iedades,
Lhes revolvem aos pós! V ertiginosas
No mar humano as ondas das idades
Passam, rolam bramindo — elles, emtanto,
C om o vento erguem ao c éo sereno c anto!
Ás vezes, através das c ordilheiras,
C om ruido de gelos despregados,
Um exerc ito passa, e as derradeiras
Notas da guerra ec hoam nos vallados...
Então ha novas vozes nas pedreiras
E as boc c as dos vulc ões mal apagados,
De monte em monte, em ec hos vagarosos,
Perguntam —onde vão estes furiosos?— '
Sim, montes! onde vamos? onde vamos,
Que a c reação, em volta a nós pasmada,
Emmudec e de espanto, se passamos
Em novellos de pó sobre essa estrada?...
As aguias do roc hedo, e a flôr, e os ramos,
E a noite esc ura, e as luzes da alvorada,
Perguntam que destinos nos c onsomem...
E os astros dizem —onde vai o Iiomem?—
ODES MODERNAS
Porque o mundo, tão grande, é um infante
Que adormec e entre c antos noite e dia,
Embalado no etlier radiante,
T odo em sonhos de luz e de harmonia!
O forte Mar (e mais é um gigante)
T ambém tem paz e c oros de alegria...
E o c óo, c om ser immenso, é serenado
C omo um seio de heroe, vasto e pausado.
Quanto de grande ha ahi dorme e soc ega:
T udo tem sua lei onde adormec e:
T udo, que pôde olhar, os olhos prega
N'alguni í ris d'amor que lhe alvorec e...
Só nós, só nós, a raça triste e c ega,
Que a tres palmos do c hão nem apparec e,
Só nós somos delirio e c onfusão,
Só nós temos por nome turbilhão!
T urbilhão — do Desejos iusoffridos,
Que o sopro do Impossivel prec ipita!
T urbilhão — de Ideaes, lumes erguidos
Em frá gil lenho, que onda eterna agita!
T urbilhão — de Nações, heroes feridos
Em tragedia enredada e inlinita!
T ropel de lieis sem fé, que se espedaça!
T ropel de deuses vãos, que o nada abraça
ODES MODERNAS
2 1
Ha n'isto quanto baste para morte...
Para fec har os olhos sobre a vida
Eternamente, abandonando á sorte
À palma da vic toria dolorida!
Ha quanto baste por que já , se c orte
A amarra do destino, c mfim partida,
C om um grito de dor, que leve o vento
Onde quizer— a morte, e o esquec imento!
IV
Mas que alma é a tua então, IT omem, se ainda
Pódes dormir o sonho da esperança,
Em quanto a mão da c rueldade infinda
T en leito te sac ode e te balança?
Qne fada amiga, que visão tão linda
T e enlaça e prende na dourada trança,
Que não ouves, não vês o negro bando
Dos lobos em redor de ti uivando?
ODES MODERNAS
E persistes na vida... e a vida ingrata
Foge a teus braços trémulos de amante!
E abonçôas a Deus... Deus que te mata
T ua esperança e luz, a c ada instante!
Que thesouro de fé (que ouro nem prata
Não podem igualar, nem diamante)
É toa peito, que doura as negras lousas...
E c rês no c éo... e amal-o ainda ousas?
Passam á s vezes umas luzes vagas
No meio d'esta noite tenebrosa...
Na longa praia, entro o rugir das vagas,
T ransparec e uma forma luminosa...
A alma inelina-se, então, por sobre as fragas,
A espreitar essa aurora duvidosa...
Se é d'um mundo melhor a prophec ia,
Ou apenas das ondas a ardentia.
Sabe do c adinbo horrí vel das torturas,
Onde se estorc e e luc ta a alma humana,
Uma voz que atravessa essas alturas
C om vôo d'aguia e força soberana!
O que ha-de ser? que verbo d'amarguras?
Que blasphemia a essa sorte deshumana?
Que grito d'odio o sede de vingança?...
Uma benção a Deus! uma esperança!
ODES MODERNAS 2 3
Rasga d'entre os tormentos a esperança...
Dos c orações partidos nasc e um lirio...
Ó vic toria do Amor, da c onfiança,
Sobre a Dor, que se estorc e em seu delirio!...
A mente do homem, essa, não se c ança...
Sob o açoute, no c irc o, no martyrio...
E o esc ravo, sem pão, lar nem c idade,
C rê... sonlia um c ulto, um Deus — a Liberdade!
Flor c om sangue regada... e linda e pura!
Olho de c ego... que adivinha a aurora!
Oh! mysterio do amor! que á formosura
Exc eda muito o feio... quando c hora!
V ede, ó astros do c éo, o que a tortura
Espreme da alma triste, em c ada hora...
O Ideal — que em peito esc uro medra,
Bem c omo a flor do musgo sobre a pedra!
Por que se soffro ó que se espera... e tanto
Que as dores são os nossos diademas.
O olhar do homem que supplí c a é santo
Mais que os lumes do c óo, divinas gemmas.
Desgraças o que são? o que ó o pranto?
Se a flor da Fé nas solidões extremas
Brotar, e a c rença bafejar a vida...
É nossa, é nossa a T erra-promettida!
0 DE3 MODERNAS
V
Ó Ideal! se é c erto o que nos dizem,
Que é para ti que vamos, n'este esc uro...
Se os que luc tam e c horam e maldizem
Hão-de inda abençoar-te no futuro...
Se ha-de o mal renegar-se, e se desdizem
Ainda os Fados seu tremendo auguro...
E um dia havemos vêr, c heios d'espanto,
Deus desc obrir-se d'este negro manto...
Se o Destino impassivel ha-de, uma hora,
Desc ruzar os seus braços sobre o mundo,
E a sua mão rasgar os véos da aurora,
Que, alfim, luza também no nosso fundo...
Sc ha-de sec c ar seu pranto o olhar que c hoi
E exultar inda o insec to mais immundo,
Mostrando o c éo, á luz d'estranho dia,
As c onstellações novas da Harmonia...
2 5
Ah! que se espera então? O sangue c orre,
C orre em ribeiras sobre a terra dura...
Não ha já fonte, n'c sse c hão, que jorre
Senão lagrimas, dor, e desventura...
O ultimo lirio, a Fé, sec c ou-se... morre!...
Se não é esta a hora da ventura,
Do resgate final dos padec entes,
Por que esperaes então, c óos inc lementes?
Sim! por que é que esperaes? T em-se soffrido,
T emos soffrido muito, muito! e agora
Desc eu o fel ao c oração desc rido,
V em já bem perto nossa estrema hora...
Abale-se o universo c ommovido!
Deixe o c éo radiar a nova aurora!
Que os peitos soltem o seu longo em fim!
E o olhar de Deus na terra esc reva: Fim!
Fim d'esta provação, fim do tormento,
Mas da verdade, mas do bem, c omeço!
Erga-se o homem, atirando ao vento
O antigo Mal, c om trá gic o arremesso!
Na nossa tenda tome Deus assento,
Mostre seus c ofres, seus c orac s de preço,
Que se veja a final quanto guardava
Para o resgate d'esta raça esc rava!
2 6 ODES MODERNAS
Esc rava? esc rava que já parte os ferros!
Eu c reio 110 destino das nações:
Não se fez para dôr, para desterros,
Esta anc ia que nos ergue os c orações !
Hão-de ter fim um dia tantos erros!
E do ninho das velhas illusões
V er-se-ha, c om pasmo, erguer-se á immc nsidade
A aguia esplendida e augusta da V erdade!
ODES MODEBNAS
2 7
V I
Se um dia c hegaremos, nós, sedentos,
A essa praia do eterno mar-oc eano,
Onde lavem seu c orpo os pustulentos,
E farte a sede, emfim, o peito humano?
Oh! diz-me o c oração que estes tormentos
C hegarão a ac abar: e o nosso engano,
Desfeito c omo nuvem que desanda,
Deixará vêr o c éo de banda a banda!
Felizes os que c horam! alguma hora
Seus prantos sec c arão sobre seus rostos!
V irá do c c o, em meio d'uma aurora,
Uma aguia que lhes leve os seus desgostos!
Ila-dc alc grar-sc , então, o olhar que c hora...
E os pés de ferro dos tyrannos, postos
Na terra, c omo torres, e firmados,
Se verão, c omo palhas, levantados!
ODES MODEBNAS
Os tyrannos sem c onto — velhos c ultos,
Espec tros que nos gelam c om o abraço...
E mais renasc em quanto mais sepultos...
E mais ardentes no maior c ansaço...
V isões d'antigos sonlios, c ujos vultos
Nos opprimem ainda o peito lasso...
Da terra e c éo bandidos orgulhosos,
Os Reis sem fé e os Deuses enganosos!
O mal só d'elles vem — não vem do Iiomem.
"V em dos tristes enganos, e não vem
Da alma, que elles invadem e c onsomem,
Espc daçando-a pelo mundo além!
Mas que os desfaça o raio, mas que os tomem
As auroras, um dia, e logo o Bom,
Que enc obria essa sombra movediça,
Surgirá , c omo um astro de J ustiça!
E, se c uidas que os vultos levantados
Pela illusào antiga, em desabando,
Hão-de deixar os c éos despovoados
E o mundo entre minas vac illando;
Esforça! ergue teus olhos magoados!
V erá s que o horisonte, em se rasgando,
E por que um c óo maior nos mostre— e é nosso
Esse c éo e esse espaço! c tudo nosso!
ODES MODERNAS
2 9
É nosso quanto lia bello! A Natureza,
Desde aonde atirou seu c ac ho a palma,
T é lá onde esc ondidos na frieza
V egeta o musgo e se c onc entra a alma:
Desde aonde se fec ha da belleza
A abobada sem fim — té onde a c alma
Eterna gera os mundos e as estrellas,
em nós o Empireo das idéas bellas !
T emplo de c renças e d'amores puros!
C ommunhão de verdade! onde não lia
Bonzo á porta a estremar fieis e impuros,
Uns para a luz... e os outros para c á ...
Alli parec erão os mais esc uros
Brilhantes c omo a fac e de J ehová ,
C ommungando 110 altar do c oração
No mesmo amor de pai e amor dT rmão!
Amor dT rmão! oh! este amor é doc e
C omo ambrósia e c omo um beijo c asto!
Orvalho santo, que c hovido fosse,
E o lirio absorve c omo ethereo pasto!...
Diluvio suave, que nos toma posse
Da vida e tudo, e que nos faz tão vasto
O c oração minguado... que admira
Os sons que solta esta c eleste lyra!
30
Só elle pôde a ara sac rosanta
Erguer, e um templo eterno para todos...
Sim, um eterno templo e ara santa,
Mas c om mil c ultos, mil diversos modos!
Mil são os fruc tos, e é só uma a planta!
Um c oração, e mil desejos doudos!
Mas dá lugar a todos a C idade,
Assente sobre a roc ha da Igualdade.
1
É d'esse amor que eu fallo! e d'elle espero
O doc e orvalho c om que vá surgindo
O triste lirio, que este solo austero
Está entre urze e abrolhos enc obrindo.
D'elle o resgate só será sinc ero...
D'elle! do Amor!... em quanto vaes abrindo,
Sobre o ninho onde c hoc a a Unidade,
As tuas azas d'aguia, 6 Liberdade!
186 5.
31
III
à Ik'a
i
Pois que os deuses antigos e os antigos
Divinos sonlios por esse ar se somem...
E á luz do altar-da-fé, em T emplo ou Dolmen,
A apagaram os ventos inimigos...
Pois que o Sinay se enubla, e os seus pasc igos,
Sec c os á mingua d'agua, se c onsomem...
E os proplietas d'outr'ora todos dormem,
Esquec idos, em terra sem abrigos...
Pois que o c éo se fec hou, e já não desc e
Na esc ada de J ac ob (na de J esus!)
Um só anjo que ac eite a nossa prec e...
E que o lirio da Fé já não renasc e:
Deus tapou c om a mão a sua luz,
E ante os homens velou a sua fac e!
ODES M0 DEB2 Í AS
II
Pallido C liristo, ó c onduc tor divino!
A c usto agora a tua mão tão doc e
Inc erta nos c onduz, c omo se fosse
T eu grande c oração perdendo o tino...
A palavra sagrada do destino
Na boc c a dos orá c ulos sec eou-se:
E a luz da sarça-ardente dissipou-se
Ante os olhos do vago peregrino!
Ante os olhos dos homens — porque o mundo
Desprendido rolou das mãos do Deus,
C omo uma c ruz das mãos de um moribundo!
Porque já se não lê Seu nome c sc ripto
Entre os astros — e os astros, c omo ;$theus,
J á não querem mais lei que o infinito!
ODES MODERNAS
33
III
Força ó pois ir busc ar outro c aminho!
Lançar o arc o de outra nova ponte
Por onde a alma passe — e um alto monte
Aonde se abra á luz o nosso ninlio.
Se nos negam aqui o pão e o vinho,
Avante! é largo, immenso esse horisonte...
Não, não se fec ha o mundo! e além, defronte,
E c m toda a parte, ha luz, vida e c arinho!
Avante! os mortos fic arão sepultos...
Mas os vivos que sigam — sac udindo,
C omo pó da estrada, os velhos c ultos!
Doc e e brando era o seio de J esus...
Que importa? havemos de passar, seguindo,
Se além do seio d'elle houver mais luz!
3
ODES MODERNAS
X V
C onquista pois sósinho o teu Futuro,
J á que os c elestes guias te hão deixado,
Sobre uma terra ignota abandonado,
Homem — prosc ripto rei — mendigo esc uro
Se não tens que esperar do c éo (tão puro
Mas tão c ruel!) e o c oração magoado
Sentes já de illusdes desenganado,
Das illusões do antigo amor perjuro;
Ergue-te, então, na magestade estóic a
De uma vontade solitaria e altiva,
N'um esforço supremo de alma heróic a!
Faze um templo dos muros da c adêa...
Prendendo a iminensidade eterna e viva
No c irc ulo de luz da tua Idéa!
ODES MODEBX AS
V
Mas a Idéa quem é? quem foi que a viu,
J á mais, a essa enc oberta peregrina?
Quem lhe beijou a sua mão divina?
C om seu olhar de amor quem se vestiu?
Pallida imagem que a agua de algum rio,
K eflec tindo, levou... inc erta e fina
Luz que mal bruxulêa pequenina...
Nuvem que trouxe o ar... e o ar sumiu...
Estendei, estendei-lhe os vossos braços,
Magros da febre de um sonhar profundo,
V ós todos que a seguis n'esses espaços!
E, em tanto, ó alma triste, alma c horosa,
T u não tens outra amante em todo o mundo
Mais que essa fria virgem desdenhosa!
36
ODES MODERNAS
V I
Outra amante não ha! não lia na vida
Sombra a c obrir melhor nossa c abeça...
Nem balsamo mais doc e que adormeça
Em nós a antiga, a sec ular ferida!
Quer fuja esquiva, ou se offereça erguida
C omo quem sabe amar e amar c onfessa...
Quer nas nuvens se esc onda ou appareça,
Será sempre ella a esposa-promettida!
Nossos desejos para ti, ó fria,
Se erguem bem c omo os braços do prosc ripto
Para as bandas da patria, noite c dia...
Podes fugir... nossa alma, delirante,
Seguir-te-ha através do infinito,
Até voltar c omtigo, triumphante!
OnES MODERNAS
V II
Oli! o noivado barbaro! o noivado
Sublime! aonde os c éos, os c éos ingentes
Serão leito do amor — tendo pendentes
Os astros por doc el e c ortinado!
As bodas do Desejo, embriagado
De ventura, a final! visões ferventes
De quem nos braços vai de ideaes ardentes
Por espaços sem termo arrebatado!
Lá , por onde se perde a pliantasia
No sonho das bellezas— lá , aonde
A noite tem mais luz que o nosso dia,
Lá , no seio da eterna c laridade,
Aonde Deus á humana voz responde,
É que te havemos abraçar, V erdade!
>
38 ODES MODERNAS
V III
Lá ! Mas aonde 6 lá ? Aonde? — Espera,
C oração indomado! O c éo, que anc êa
A alma fiel, o c éo, o c éo da Idéa,
Em vlo o busc as n'essa immensa esphera!
O espaço é mudo — a immensidade austera
Debalde noite e dia se inc endêa...
Em nenhum astro, em nenhum sol se altêa
A rosa ideal da eterna primavera!
O Paraí so e o templo da V erdade,
Ó mundos, astros, soes, c onstellações!
Nenhum de vós o tem na immensidade...
A Idéa, o summo Bem, o V erbo, a Essênc ia,
Só se revela aos homens e á s nações
No c éo inc orruptí vel da C onsc iênc ia!
186 4 —1871.
ODES MODERNAS
1)9
IV
f ater
(A ADÍ LIO GUERRA J UNQUEIRO)
I
J á que os vejo passar assim altivos
E c heios de vangloria, c omo quem
Ao peito humano deu a luz que tem,
E a nossos c orações os lumes vivos;
J í Í que os vejo, assentados na c adeira
Da prudênc ia, {aliar c om voz segura,
Dar-se em adoração á gente esc ura
E doutrinar d'alli á terra inteira;
40 ODES MODERNAS
J á que os vejo, eo'a mão que ata e desata,
Entre os homens partir o mundo todo
E todo o c éo—e dar a este o lodo,
E á quelle o reino de saphira e prata;
Dizer a uns — fallai! o pôr na boc c a
Dos outros a mordaça c ia doutrina;
Dar a estes a espada de aço fina,
E, ao resto, pôr-lhe á c inta a estriga e a roc a;
J á que os vejo fazer a noite e o dia
C om o abrir e fec har dos olhos baços;
E pretender que o Sol lhes segue os passos,
E em seus sermões aprende a harmonia;
Dispor do c éo c omo de c asa sua,
A que pozessem Deus c omo porteiro ;
E rec eber c om rosto prazenteiro
Este— e á quelle deixal-o ahi na rua;
Eu quero perguntar aos Zoroastros
Do pôr-do-sol, videntes do passado,
Que medem, pelo rythino c ompassado
De seus passos, o gyro aos grandes astros:
ODES MODERNAS
Eli quero perguntar aos Sac erdotes,
Que, c hamando rebanho a seus irmãos,
C uidam que Deus lhes c abe em duas mãos,
E todo o c éo debaixo dos c apotes:
Quero-os interrogar — porque, em verdade,
Se saiba qual mais vai, se o pau se a c ruz?.
Se o sol ao c irio deu a sua luz,
Ou deu o c irio ao sol a c laridade?...
Se a c upula do C éo teve modelo
Na c upula da Igreja? e se as estrellas,
Para alc ançar lic ença de ser bc llas,
Foram pedir a alguém o santo-sello?
Se foi Deus, quando o sol sahiu do abysmo,
Que á luz do infinito o baptisou;
Ou se algum bispo foi que o sustentou,
Inda infante, nas fontes do baptismo?
Se ha quem tenha na terra monopolio
Do c ambio-livre, que se c hama Idóa?
Se a V erdade não vale um grão de arêa
Sem que, antes, a baptise o santo-oleo?
ODES MODERNAS
Se terá mais eommerc io c o'as estrelas
O velho livro ou o novo c oração?
Quem vai mais perto — a forma ou a inspiração—
Das grandes c ousas e c ias c ousas bellas?
Que, n'esta c onfusão, n'estas desordens,
Sq veja, emfim, bem c laro, â luz dos c éos,
Se o Messias nasc eu entre os J udeus,
Ou se, quando nasc eu, já tinha ordens?
Sim! que a final se saiba tudo isto,
E se veja o c aminho aonde vamos.
V er e saber — para que em fim possamos
Esc olher entre o Padre e entre o C hristo.
li
Padre?! Padre... é o Pai— só — que nos c obre,
E a todos c om a mão afaga e amima,
E em meio do c aminho nos anima,
E vai c omnosc o — o que está sob e sobre.
43
O que esc reve o Evangelho c ada dia
Ern nossos c orações — e em c ada hora,
A quanto olhar se eleva e mudo adora,
Diz a eterna missa da Harmonia.
O que veste a estola do infinito
Para deitar a grande benção— V ida—
E reza, lendo em pagina fulgida,
O que em letra de estrc llas anda esc ripto.
É quanto d'elle falia — o livre oc eano,
O psalmista das vastas solidões;
O que desenha a voz das orações
Sobre a tela do c oro soberano.
Padres, o mar e o c éo — apostolando
A T erra sempre c rente e sempre nova:
Um — que a força da c rença lhe renova...
O outro — o que está Deus sempre amostrando.
A aurora é o sursum-c orda do Universo;
A luz é oremus, por que c hóstia o Sol;
Quanto abre o olhar aos raios do arrebol
Eis o povo-c hristão ahi disperso,
ODES MODERNAS
Quando as flores, que se abrem, são espelhos
E a hervinha é berço, e berços os rosaes...
Quando são as florestas c athedraes...
Eis atai outros tantos Evangelhos!
O c edro na montanha apostolisa;
O vento préga á s livres solidões;
As estrellas do c éo são orações,
E o amor, no c oração, evangelisa!
O Amor! o evangelista soberano!
Para quem não lia tarde nem aurora!
O que sobe a pregar, a toda a hora,
Ao pulpito-da-fc ... o peito humano!
De dous raios de uns olhos bem-amados
E que se faz a c ruz que nos c onverte;
E a palavra, que a c rença á s almas verte,
Faz-se essa de suspiros abafados.
Esse é o C onfessor que absolve—c tem
Sempre o perdão eomsigo e a paz radiante...
Ou n'uns lá bios bem trémulos de amante,
Ou n'uns olhos bem húmidos de mãi.
ODES MODERNAS
Homens, olhai—que o seio maternal,
Em se abrindo, é o livro aonde Deus
Esc reve, c om a luz que vem dos c éos,
A eterna Biblia, a únic a immortal!
C ada lá bio de mSi esc reve um psalmo
Na fronte do filhinho, em o beijando...
Nem ha santo que tenha, radiando,
Uma aureola assim de brilho c almo!
Esses são Padres—porque são os Paes —
Os que do amor nos baptisaram na agua...
Os que, inc linados sobre a nossa magoa,
Bebem em nosso peito os nossos ais.
E tudo que tem voz que se ouça ao longe,
E c oração tamanho c omo a osphera:
A voz do inverno e a voz da primavera...
E a voz do peito humano... o grande monge.
Sim, monge! triste e só— porque o devora
A vaga nostalgia do deserto;
E vela a noite, e vai sempre desperto
A olhar de que banda venha a aurora.
ODES MODEBSAS
Padre... o Espirito! o que anda em nós—o auguro,
Que n'alma traça o c irc ulo divino;
A C umana, que em verso sibyllino
Dieta aos homens os c antos do futuro.
V ós, Poetas, vós sois também sibyllas,
Que adivinhaes e andaes c om voz fremente
Sempre a gritar — á vante! á vante! á gente,
Por c idades, por montes e por villas.
V ós sois os pregadores do Ideal,
Que lançaes a palavra aos quatro ventos:
A tribu de Levi, que em mil tormentos
Guarda a Arc a, dos filhos de Baal.
Sim, Padre! o poeta c rente, que alevanta,
C omo hóstias, as almas para os c éos!
O prégador, que falia, em quanto Deus
Lhe arma de c orações tribuna santa.
Os que na frente vão, bradando — á lerta!
Sentinellas perdidas do futuro...
Os que o c larim do abvsmo, pelo esc uro,
Faz em sonhos tremer, e emfim desperta.
ODES MODERNAS
A c okorte dos pallidos prosc riptos,
Que tem nos rostos estampada a fome;
Que, em quanto o frio os roe e os c onsome,
T razem no c oração deuses esc riptos.
Os heroes que, c om pulsos algemados,
V ão ao mundo prégando a liberdade—
Astros, a quem se nega a c laridade...
Nas trevas dos ergá stulos c errados.
Que — c m quanto os pés na terra, em c orrupio,
Llies fogem — impassí veis, firmes, altos,
Meditam, sem temor nem sobresaltos,
Risc ando as soc iedades no vazio.
Que— c m quanto a Lei os tem em fundas c ovas,
C omo traidores, impí os, embusteiros —
Sobre esse mesmo c hão dos c aptiveiros
Semeiam a seara das leis novas.
Os inventores, que, soltando ais,
Deixam das mãos c ahir obras gigantes;
E risc am templos sobre os c éos distantes...
Assentados á porta de hospitaes!
ODES MODEBNAS
Quem a estes lhes deu suas Missões
Foi o alto Messias — sofí rimento—
Por que possam o V erbo, o pensamento,
Abaixar sobre a fronte á s multidões.
Foi 0 Espirito, o fogo enc andeseente,
Que os baptisou ao lume da Idéa,
Por que possam pegar no grão de arêa,
E mudal-o n'um astro reluzente...
Que elles fazem milagres — desde o espaço
Galgado já e unific ada a terra,
T é aos irmãos, lia tanto tempo em guerra,
Que, a final, já se estreitam n'um abraço:
Desde a lepra, dos c orpos, e os abrolhos,
Dos montes, arranc ados... desde as flammas
T iradas ao trovão... té á s esc amas
Arranc adas aos c egos de seus olhos:
Elles fazem do mundo euc haristia,
Onde vêm ter os povos c ommunhão;
E, do génio assoprando-lhe o c larão,
Fazem da noite humana immenso dia.
ODES MODERNAS
Fazem nasc er, por entre espinhos bravos,
Flores, a um lado, e ao outro lado, fruc tos;
E os novos risos, dos antigos lutos,
E a liberdade, em c orações esc ravos!
Pois, se são operá rios do futuro,
Semeadores da seara nova,
Que lançam uma idéa em c ada c ova,
Da dura historia sobre o c hão esc uro;
Se vão na frente, e a bússola que os leva,
Para o pólo de Deus se inc lina e pende;
Busc ando o c ontinente que se estende
Além do soffrimento e além da treva;
Se a c ada voz de guerra dizem — basta!
Lançando-se entre os ferros dos irmãos;
E exc lamam — ainda!— pondo as mãos,
A c ada voz de amor serena e c asta;
São os grandes prophetas da c onsc iênc ia;
Biblias que o povo c om a mão folheia;
Reveladores santos da Idéa,
Que, em c ada hora, vão furtando á Essênc ia
ODES MODERNAS
São milí c ia sagrada — são c ohortes
Do c éo, passando aqui — são missioná rios
Amostrando J esus aos homens vá rios...
Ajudam pois a Deus! são sac erdotes!
Ill
AM tendes os Padres! que nos c obrem
Nossas frontes do mal, e nos desvendam
Os olhos por que vejam, amem, entendam...
Não os que o sol c o'as c apas nos enc obrem!
A Igreja dera o Inferno ao triste rio
(Que beijo maternal! e que olhar terno!)
Mas Dante, a pé enxuto, passa o Inferno,
Para, c hegando á porta, bradar c éo!
Desde essa hora... ac abou! abriu-se a porta
Os c ondemnados ruem para fóra!
O que era multidão ainda agora...
T ornou-se solidão deserta e morta.
ODES MODERNAS
51
Inda á s vezes os vemos ir na praça...
Mas no lá bio morreu-lh.es a palavra!
O inc êndio agora de outra banda lavra...
São c omo os restos de uma extinc ta raça.
Quando se ergue a um lado o olhar pasmado
Das gentes, que já c uidam enxergar
D'essa banda do c éo Deus assomar...
Heis de vêl-os olhar o opposto lado!
E quando as mães lhes vêm beijar os pés,
Erguendo um filho, c omo um raio a estrella,
Olhando o innoc ente o a mãi bella,
Não têm mais benção do que puhis es!
E, quando de uma amante o olhar velado
Se enc ontra, ac aso, c om o seu, passando,
Não tem aquelle espec tro miserando
Melhor saudação do que pec c ado!
Se o séc ulo so atira, c omo onda,
A praia do futuro, nos espaços,
C uidaes ac aso que lhe siga os passos?
Não! o moc ho não tem onde se esc onda!
*
52 ODES MODEBNA3
IV
Porque, pois, traz da sombra ides c orrendo,
Homens, que a luz no berço baptisá ra?
Quando c orreis assim viraes a c ara...
Pelas c ostas o sol vos vem nasc endo!
(3 vós I — ge ides em busc a da V erdade! —
Olhai bem... que essa mão, que assim vos leva,
Bem pôde ser que seja toda treva,
Quando se ac c lama toda c laridade!
V
Quando a sede nos sc c c a o paladar,
E o sol a pino o peito nos esmaga,
Se emí im se c hega á praia, junto á vaga,
Quem hesita entre a arêa e entro o Mar?
ODES MODERNAS
53
Deitai-yos a nadar, homens! e vede
Que a onda é que se c hama liberdade!
O Dogma ó a arêa, apenas — a verdade
É esse o Mar — que o Mar nos mate a sêde!
186 4: .
55
V
(a uns polí tic os)
Por que é que c ombateis? Dir-se-ha, ao ver-vos,
Que o Universo ac aba aonde c hegam
Os muros da c idade, e nem ha vida
Além da orbita onde as vossas giram,
E além do Fórum j;i não ha mais mundo!
T al é o vosso ardor! tão c egos tendes
Os olhos de mirar a própria sombra,
Que dir-se-ha, vendo a força, as energias
Da vossa vida toda, ac c umuladas
ODES MODERNAS
Sobre um só ponto, e a anc ia, o ardente vórtic e,
C om que giraes em torno de vós mesmos,
Que limitaes a terra á vossa sombra...
Ou que a sombra vos toma a terra, toda!
Dir-se-ha que o oc eano immenso e fundo e eterno,
Que Deus ha dado aos homens, por que banhem
O c orpo todo, e nadem á vontade,
E voguem a sabor, c om todo o rumo,
C om todo o norte e vento, vão e perc am-se
De vista, no horisonte sem limites...
Dir-se-ha que o mar da vida é gota d'agua
Esc assa, que nas mãos vos ha c ahido,
De avara nuvem que fugiu, largando-a...
T amanho ó o odio c om que a uns e a outros
A disputaes, temendo que não c hegue!
Homens! para quem passa, arrebatado
Na c orrente da vida, n'essas aguas
Sem limites, sem fundo—ha mais perigo
De se afogar, que de morrer â sede!
De que vai disputar o espaço estreito,
Que c obre a sombra da arvore datpatria,
Quando são vossos c inc o c ontinentes?
De que vai apinhar-se junto à fonte
Que—fininha—brotou por entre as urzes,
ODES MODERNAS
Quando ha sete mil ondas por c ada homem?
l)e que vai digladiar por uma fita,
Que mal c obre um botão, quando estendida
Deus poz sobre a c abeça de seus filhos
A tenda, do ouro e azul, do firmamento?
De que vai c onc entrar-se a vida toda
N'uma paixão apenas, quando o peito
É tão ric o, que basta dar-lhe um toque
Por que brotem, aos mil, os sentimentos?!
Oh! a vida é um abysmo! mas fec undo!
Mas immenso! tem luz — e luz que c egue,
Inda a aguia de Pá thmos— e tem sombras
E tem negrumes, c omo o antigo C há os:
T em harmonias, que parec em sonhos
De algum anjo dormido; e tem horrores
Que os nem sonha o delirio!
E immensa a vida,
Homens! não disputeis um raio esc asso,
Que vem d'aquelle sol; a tenue nota,
Que vos c hega d'aquellas harmonias;
A penumbfa, que esc apa á quellaa sombras;
O tremor, que vos vem d'esses horrores.
Sol e sombras, horror o harmonias,
De quem é isto, se não é do homem?!
58 ODF.S MODERNAS
Não disputeis, c urvado o c orpo todo,
As migalhas da mesa do banquete:
Erguei-vos! e tomai lugar á mesa...
Que ha lugar no banquete para todos:
Que a vida não é á tomo tenuissimo,
Que um feliz apanhou, no ar, voando,
E guardou para si, e os outros, pobres,
Desherdados, invejam—-é o ar todo,
Que respiramos; e esse, inda mais livre,
Que nos respira a alma—a terra firme,
Onde pomos os pés, e o c éo profundo
Aonde o olhar erguemos — é o immenso,
Que se infiltra do á tomo ao c olosso;
Que se oc c ultou aqui, e além se mostra;
Que traz a luz dourada, e leva a treva;
Que dá raiva á s paixões, e unge os seios
C om o balsamo do amor; que ao vic io, ao c rime,
Agita, impelle, anima, e que á virtude
Lá dá c onsolações—que beija as frontes
De povo e rei, de nobre e de mendigo;
E embala a flor, e eleva as grandes vagas;
Que tem lugar, no seio, para todos;
Que está no rir, e está também nas lagrimas,
E está na bac c hanal c omo na prec e!...
59
Eis a V ida! o festim que Deus, no mundo,
Para 0 3 homens armou! para seus filhos!
Forma mais pura do Universo augusto!
Da lyra universal nota mais alta!
Do c hão do infinito seara ardente!
Quando os orbes de luz, que andam na altura,
Sentem a fac e, á s vezes, ennublar-se
E o seio lhes revolve intima magoa,
É que n'c ssa hora uma anc ia de venturas,
Do amor mais vasto, de mais bella firma,
Uma aspiração vaga os ac ommette...
Pedem a Deus que estenda a mão piedosa
E os erga a luz maior, á luz do espirito,
E tem inveja ao homem, porque vive!
Da arvore do Eterno pendem fruc tos,
E fruc tos aos milhões — estrellas, astros,
Formas o c reaçoes que nem se sonham —
Mas só onde seus ramos se mergulham
No espirito vital do infinito,
Só onde o ar purí ssimo do Bello
Lhe beija as franças ultimas — sómente
Lá se abre o lirio augusto, o lirio únic o,
A flor dos mundos, que se c hama V ida!
Inundação de c renças... e diluvio
De duvidas fataes! hymno de glorias...
E rugido feroz! Sa ós fera, toma
6 0
ODES MODERNAS
A parte dos rugidos — c , sc c s homem,
Ergue ao ec o tua fac e, c entoa os kymnos!
Se ha valor em teu peito, c orta as aguas,
Nadando, d'esse mar de infindas duvidas:
Ergue-te, luc ta, arqueja, prec ipita-te,
Deixa as ondas lavar-te o c orpo, ou dar-te
A panc ada da morte — mas sê homem !
Sê grande sempre! e, ou Satan ou Anjo,
Blasphema ou exulta... mas não desças nunc a!
Porque desc er 6 morte, é sombra, é nada!
É a pedra que dorme: é lodo esc uro
Que sombrio fermenta! A alma, se é espirito,
É por que á farta possa enc her, c resc endo,
O espaço todo e todo o ar infindo!
E, bella ou triste, horrí vel ou sublime,
Santa ou maldita, a vida é sempre grande!
Roc ha por onde os tempos vão seguindo
No c aminho que os leva ao infinito...
E tão vasta, que os séc ulos marc hando
C om passos de gigante, ha milhões de evos,
Não poderam ainda vêr-lhe o termo,
Não poderam gastal-a um pouc o, apenas!
É tão fundo esse mar, é tão fec undo,
Que os homens todos, que ha milhões de séc ulos
ODES SIODEBNAS
6 1
Nasc em da espuma e vem enc her as praias,
Bebendo a longos tragos, não poderam
Fazel-o inda baixar, sequer um palmo!
E não vos c hega para vós? Os tempos
Deixaram c heia aquella taça immensa...
E estes tres homens já lhe vêem o fundo!
Ás idéas serenas e os c ombates
Da eterna liberdade; o amor e as luc tas
E as dores da verdade; as doc es lagrimas
E os rugidos altivos; o que os sá bios
Nos ensinam, e quanto o olhar ingénuo
Da mulher nos revela — tudo, tudo,
T udo isto, nos banquetes da existenc ia,
É um boc ado apenas para a boc c a
D'estes T itans immensos... de seis palmos!
Porque é que c ombateis? O mundo é vasto!
Dá para todos—todos, no seu pano,
Podem talhar á farta e á larga um manto
C om que c obrir-se... eque inda arraste... É vasto!
Erguei somente os olhos! alongai-os
Pelo horisonte! e, além d'esse horisonte,
Ha mil e mil c omo este!
Sc vós tendes
O olhar fito nos pés, aonde a sombra
ODES MODERNAS
Em volta de vós mesmos gira apenas,
O que podeis saber d'c sse Universo?!
Nâo ha olhos que c ontem tanto3 orbes!
E c ada um d'esses mundos tem mil vidas!
E c ada vida tem milhões de affec tos,
De paixões, de energias, de desejos !
C ada peito é um c éo de mil estrellas!
C ada ser tem mil seres! mil instantes!
E, em c ada instante, as c reações transformam
E c ousas novas a nasc erem sempre!
Desc ei, desc ei o olhar ao proprio seio!
C omo n'um espelho, esse Universo todo
Reflec te-se lá dentro! é c omo um c há os
Donde, ao fiat ardente da vontade,
Podem surgir as c reações aos c entos.
Podeis tirar d'ahi a luz e a treva!
Podeis tirar o bem, e o mal, e o justo,
E o iní quo, e as paixões torvas da terra,
E 0 3 desejos do c éo!
Pois não vos c hega?
Assim queiraes viver, que ha muita vida!
ODES MODERNAS
6 3
Alexandre! Alexandre! és tu que c horas
Não haver já mais mundo que c onquistes...
E sah.es d'aqui, ó triste! sem ao menos
T er olhado uma vez dentro em tua alma!
Alexandres inglorios! toda a terra
Ac abou, onde a vista vos alc ança!
C orreis... c orreis... c orreis... atraz de um á tomo...
E ides deixando, ao lado, os universos!
Mas vós não vede3 nada d'isto! nada!
E quereis aos homens ensinar a vida?!
186 3.
ODES MODERNAS
6 5
V I
Biaí oga
/
A c ruz dizia á terra onde assentava,
Ao valle obsc uro, ao monte á spero e mudo:
— Que és tu, abysmo e jaula, aonde tudo
V ive na dor, e em luc ta c ega e brava?
Sempre em trabalho, c ondemnada esc rava,
Que fazes tu de grande e bom, c omtudo?
Resignada, és só lôdo informe e rudo;
Revoltosa, ós só fogo e hórrida lava...
Mas a mim não ha alta e livro serra
Que me possa igualar!... amor, firmeza,
Sou eu só: sou a paz, tu és a guerra!
Sou o espirito, a luz!... tu és tristeza,
Ó lôdo esc uro e vil! — Porém a terra
Respondeu: C ruz, eu sou a natureza!
1870 .
5
ODES MODEBNAS
V II
Ic U£ òo sol, lu% òa ra^ão
(RESPOST A A. POESIA DE J OÃO DE DEOS, (l LUZ DA Pl5 » )
T u, sol, é que me alegras!
A mim e ao mundo. A mim...
Que eu não sou mais que o mundo,
Nem mais que o eéo sem fim, , .
Nem fec ho os olhos baços
Só porque os fere a luz...
Ergo-os a c ima—e embora
C egue, rec ebo-a a flux!
6 8
ODES MODEEX AS
C repusc ulos são sonhos...
E sonhos é morrer...
Sonhar é para a noite:
Mas para o dia, vêr !
Sim, vêr c om 0 3 olhos ambos,
C om ambos devassar
Os astros n'essa altura,
E os deuses sobre o altar!
V êr onde os pés firmamos,
E erguemos nossas mãos!
E quer nos montes altos,
Quer nos terrenos c hãos,
É sempre amiga a terra
E ó sempre bom viver,
Se a terra á luz da aurora
E a vida ao amor se erguer!
Em toda a parte as ondas
D'esse infinito mar,
Por mais que andemos longe,
Nos podem embalar!
ODES MODERNAS
6 9
Em toda a parte o peito
Sente brotar a flux,
E sempre e á farta, a vida...
V ida — c alor e luz!
Nos seixos d'essas praias,
Se o sol lá llies bater,
N'um á tomo de arêa,
Deus pôde apparec er!
Bata-lh.e o sol de c hapa,
E um deus se vê também
No pó, tornado um astro
C omo esses que o c éo tem!
Desprezos para a terra?!
T ambém a terra c c éo !
T ambém no c éo a impelle
O amor que a suspendeu...
E quem lá d'esse espaço
Brilhar ao longe a vir
Dirá que é paraiso
E um eden a sorrir!
ODES MODERNAS
Em baixo! o que é em baixo?
Em baixo estar que tem?
Ninguém á eterna sombra
Nos c ondemnou! ninguém!
Se até nos surdos antros,
Nas c ovas dos c hac aes,
Penetra o sol, vestindo-os
C om raios triumpliaes!
Se ao c éo até se viram
As boc c as dos vulc ões...
E tem os proprios c egos
Um c éo... nos c orações!
Não! não ha c éo e inferno:
Divino é quanto é!
Para que a roc ha brilhe,
Basta que o sol lhe dê...
Basta que o sol lhe beije
As c hagas que ella tem,
E a morta d'essa altura,
A lua, é sol também!
ODES MODERNAS
E as trevas da nossa alma,
A nossa c erração,
Oh! c omo as desbarata
A aurora da razão!
Mas se a razão, surgindo,
Nossa alma esc larec eu,
T ambém tu, sol, no espaço
Surges, razão do c éo...
Por isso é que me alegras,
Ó luz, o c oração!
Por isso vos estimo...
T u, sol, e tu, razão!
ODES MODERNAS
V III
\jP c c elum eí virí us
(a J AY ME BAT ALHA EEIs)
Dizem prophetas, que esse c éo persc rutam,
Que, âs noites, entre as trevas c ondensadas,
Se tem visto brilhar igneas espadas,
C omo d'anjos hostis que entre si luc tam...
E dizem que, na orla do infinito,
Entre os astros, se vê errar sem tino
Um espec tro que traz fulgor divino,
C omo o vulto d'um deus triste e proseripto...
ODE3 MODBRNAS
Entre os soes passa o espec tro gemebundo,
Murmurando morramos! aos soes vivos,
E empana o brilho aos astros primitivos
De sua boc ea o alento moribundo...
Onde passou fez-se silenc io e esc uro.
Seu manto sepulc ral varre 0 3 espaços,
E arrasta, entre os c elestes estilhaços,
A c rença antiga e os germens do futuro!
Ó c rença antiga! ó velho firmamento!
C omo as almas vac illam e baqueiam!
E as lúc idas plêiadas volteiam,
C omo a poeira que levanta o vento!
Mas quando o largo c éo da c rença avita
Desaba c om fragor e espanto e treva,
E a luz, a paz, a fé, tudo nos leva
Nas ruinas da abobada infinita;
ODES MODERNAS
75
Quando um sopro fatal nos deuses vivos
T oc a e em c inzas desfaz seus frios vultos,
E se ergue aquc lla voz c lieia de insultos
Que brada aos deuses pallidos: « sumi-vos! »
Homens de pouc a fé! não tenhaes susto:
Fec unda é essa treva e essa ruí na...
Palpita n'esse pó vida divina...
Rebentam fontes do areal adusto...
Sim, podeis c rer, ó gente pouc o c alma:
Não se aluiu no abysmo este universo,
Se entre as c inzas de Deus e o pó disperso
Fic ou de pé, heróic a e firme, uma alma!
Quem bem souber olhar verá no fundo
C essa alma forte outro infinito erguer-se...
Em espaços ideaes verá mover-se
Um Deus sem nome, ignoto ao velho mundo...
V erá , do interno c há os, c onstellada,
Surgir c reação nova e palpitante,
Ao sopro ardente, á voz c lara e vibrante
Do espirito de vida que alli brada...
76 ODES MODERNAS
V erá , por um c éo novo, novos soes
Que em novo firmamento o voo desprendem;
E astros de luz estranlia, que se ac eendem
Na c onsc iênc ia estrellada dos heroes!
1870 .
ODES MODERNAS
77
IX
1T rafanòa via
i
C om que passo tremente se c aminha
Em busc a dos destinos enc obertos!
C omo se estão volvendo olhos inc ertos!
C omo esta geração marc ha sósinha!
Fec hado, em volta, o c éo! o mar, esc uro!
A noite, longa! o dia, duvidoso!
V ai o giro dos c éos bem vagaroso...
V em longe ainda a praia do futuro...
78
ODES MODEBX AS
É a grande inc erteza, que se estende
Sobre os destinos d'um porvir, que 6 treva...
É o esc uro terror do quem nos leva...
O fruc to horrí vel que das almas pende!
A tristeza do tempo! o espec tro mudo
Que pela mão c onduz... não sei aonde!
—Quanto pôde sorrir, tudo se esc onde...
Quanto pode pungir, mostra-se tudo.
Não é a grande luc ta, braço a braço,
No c hão da Patria, á c lara luz da Historia...
Nem o gladio de C esar, nem a gloria...
É um mixto de pavor e de c ansaço!
Não ê a luc ta dos trezentos bravos,
Que' o solo amado beijam quando c abem...
C rentes que traz um Deus, e â guerra sabem,
Por não dormir no leito dos esc ravos...
É a luc ta sem gloria! é ser venc ido
Por uma oec ulta, súbita fraqueza!
Um desalento, uma intima tristeza
Que á morte leva... sem se ter vivido!
79
Não ha ahi pelejar... não ha c ombate...
Nem lia já gloria 110 fic ar prostrado —
São os tristes suspiros do Passado
Que se erguem d'esse c hão, por toda a parte...
É a saudade, que nos róe e mina
E gasta, c omo á pedra a gota d'agua...
Depois, a c ompaixão, a intima magoa
De olhar essa tristí ssima ruí na...
T ristí ssimas ruí nas! Entristec e
E c ausa dó olhal-as — a vontade
Amollec e nas aguas da piedade,
E, em meio do luc tar, treme e fallec e.
C ada pedra, que c ahe dos muros lassos
Do tremulo C astello do passado,
Deixa um peito partido, arruinado,
E um c oração aberto em dous pedaços!
80
ODES MODERNAS
IX
A estrada da vida anda alastrada
Do folhas sec c as e mirrhadas flôres...
Eu não vejo que os c òos sejam maiores,
Mas a alma... essa é que eu vejo mais minguada!
Ah! via dolorosa é esta via!
Onde uma Lei terrí vel nos domina!
Onde é força marc har pela neblina...
Quem só tem olhos para a luz do dia!
Irmãos! irmãos! amemo-nos! é a hora...
É de noite que os tristes se proc uram,
E paz e união entre si juram...
Irmãos! irmãos! amemo-nos agora!
E vós, que andaes a dores mais afeitos,
Que mais sabeis á V ia do C alvario
Os desvios do giro solitá rio,
E tendes, de soffrer, largos os peitos;
ODES MODERNAS 81
V ós, que lêdes na noite... vós, prophetas...
Que sois os louc os... porque andaes na frente...
Que sabeis o segredo da fremente
Palavra que dá fé — ó vós, poetas!
Estendei vossas almas, c omo mantos
Sobre a c abeça d'elles... e do peito
Fazei-lh.es um degrau, onde c om geito
Possam subir a vêr os astros santos...
Levai-os vós á Patria-mysteriosa,
Os que perdidos vão c om passo inc erto!
Sêde vós a c olumna do deserto!
Mostrai-lhes vós a V ia-dolorosa!
6
ODES MODERNAS
IX X
Sim! que é prec iso c aminhar âvante!
Ai^dar! passar por c ima dos soluços!
C omo quem n'uma mina vai de bruços,
Olhar apenas uma luz distante!
É prec iso passar sobre ruinas,
C omo quem vai pisando um c hão de flôres
Ouvir as maldições, ais e c lamores,
C omo quem ouve music as divinas!
Beber, em taça túrbida, o veneno,
Sem c ontrahir o lá bio palpitante!
Atravessar os c í rc ulos do Dante,
E trazer d'esse inferno o olhar sereno;
T er um manto da c asta luz das c renças,
Para c obrir as trevas da miséria!
T er a vara, o c ondão da fada aerea,
Que em ouro torne estas arêas densas!
ODES MODERNAS 83
E, quando, sem temor e sem saudade,
Poderdes, d'entre o pó d'essa ruma,
Erguer o olhar á c upula divina,
Heis de então vêr a nova-c laridade!
Heis de então vêr, ao desc errar do esc uro,
Bem c omo o c umprimento de um agouro,
Abrir-se, c omo grandes portas de ouro,
As immensas auroras do Futuro!
186 4.
ODES MODERNAS
85
X
Mais lu* í
(a guilherme d'azf, vedo)
Lasst melir Liebt hereinkommen
Ultimas palavras de Gc ethe.
Amem a noite os magros c rapulosos,
E os que sonham c om virgens impossivois,
E os que se inc linam, mudos e impassiveis,
A borc la dos abysmos silenc iosos...
T u, lua, c om teus raios vaporosos,
C obre-os, tapa-os, e torna-os insensí veis,
T anto aos vic ios c ruéis e inextinguí veis,
C omo aos longos c uidados dolorosos!
Eu amarei a santa madrugada,
E o meio-dia, em vida refervendo,
E a tarde rumorosa e repousada.
V iva e trabalhe em plena luz: depois,
Seja-me dado ainda ver, morrendo,
O c laro sol, amigo dos heroes!
1872 .
LIY RO SEGUNDO
C a lie visto, dic c , sefior, nuevos yerros
La noc he passada hac or los planetas,
C on c rines tendidos arder los c ometas
Y dar nueva lumbre las armas e kierros...
Ladrar sin herida los eanes y perros,
T riste presagio liac er de peleas
Las aves notiirnas y las funereas
Por essas alturas, C ollados y c erros!
J uan de Mena: Làberinto.
ODES MODERNAS
I
T lxese e anHflieae
i
J á não sei o que vale a nova idéa,
Quando a vejo nas ruas desgrenhada,
T orva no aspec to, á luz da barric ada,
C omo bac c hante após lúbric a c êa!
Sanguinolento o olhar se lhe inc endêa...
Aspira fumo e fogo embriagada...
A deusa de alma vasta e soc egada
Eil-a presa das fúrias de Medêa!
Um séc ulo irritado e truc ulento
C hama á epilepsia pensamento,
V erbo ao estampido de pelouro e obuz..
Mas a idéa é n'um mundo inalteravel,
N'um c rystallino c éo, que vive está vel..
T u, pensamento, não és fogo, és luz!
90
ODES MODERNAS
II
N'um c éo intemerato e c rystallino
Pode habitar talvez um Deus distante,
"V endo passar em sonho c ambiante
O Sor, c omo espec tá c ulo divino:
Mas o homem, na terra onde o destino
O lançou, vive e agita-se inc essante...
Enc he o ar da terra o seu pulmão possante...
C á da terra blasphema ou ergue um hymno...
A idéa inc arna em peitos que palpitam:
O seu pulsar são c hammas que c repitam,
Paixões ardentes c omo vivos soes!
C ombatei pois na terra arida e bruta,
T é que a revolva o remoinhar da luc ta,
T é que a fec unde o sangue dos heroes!
J 870 .
ODES MODERNAS
91
II
Sec ai' &x rmitoim
(ao* snr. j, p. oliveira martins)
I
Não sei que pó, na estrada do Infinito,
V ai andando, não sei! mas as C idades
E os T emplos o, nos altos minaretes,
A Meia-Lua, e a C ruz nas altas torres,
E os C astellos antigos e os Palac ios,
—T udo quanto ahi estava edific ado
E assente c omo a roc ha sobre o monte-
T udo sente pavor e se perturba
E tem tremor presago de ruina
E se esc urec e e teme...
Das alturas
Do passado, olha o abysmo do futuro
92 ODES MODERNAS
E, vendo-o a vez primeira tão c avado,
T ão livido por baixo e, por instantes.
C ortado de relampagos... anc êa
E tem vertigens de atirar-se ao pégo!
A ossada das Babeis do mundo antigo
Gemeu— c viu-so então esse esqueleto,
A luz de inc êndio estranho, c onc hegando,
C omo se fosse c arne aos ossos, restos
Da mortalha de purpura d'outr'ora...
Mas os vermes roeram-lhe a mortalha
E bem se vê a ossada nua...
II
Anc êam
Por enc obrir essa nudez aos olhos,
Ou por c egar então os olhos todos!
Porque se, um dia, os pés d'essas estatuas
Se virem ser de barro e não de bronze;
Se se vir que os J ardins de Babylonia
ODES MODE11NAS
93
Estão suspensos por uns debois fios,
E não assentes sobre pedra o abobada ;
Se se vir que as c olumnas d'esse templo
Não são má rmore rijo, mas formadas
De uns tronc os velhos meios podres, e o í dolo
Se c onhec er que já não faz milagres...
Em verdade, em verdade, que ha-de ouvir-se,
Sobre a fac e da terra, ao Sul e ao Norte,
Erguer-se, c omo o vento das tormentas,
E voar, c omo relampago nas ondas,
Bem estranho c lamor—mixto de c horos
E imprec ações e supplic as e brados
E odios, tudo a rugir!... e muita esc ama
Ha-de aos olhos c ahir... e muita fronte
Que beija o pó ha-de entestar c o'as nuvens!
Milito mac hado de aço, que anda agora
C ortando na floresta o c edro e o sandalo
Para a pyra dos í dolos, quem sabe
Se não ha-de voltar talvez o gume
C ontra esses pés myrrhados do esqueleto?
Muitos braços, que puxam hoje ao c arro,
Quem dos diz que não b.ão-de, emfim quebrando
As algemas servis, prec ipital-o?
E muitas postas mãos em prec e humilde,
T alvez erguer-se e dar na c ara ao morto?
E muito lá bio, que murmura a supplic a,
ODES MODEBNAS
Àbrir-se emfim para esc arrar o ultraje?
E muito olhar tremente soltar c hammas?
E muitos c urvos liombros, que ac arretam
0 ouro em pó e inc enso e myrrha, ainda
Quem o sabe? talvez ir-se de enc ontro
1 base da estatua—e derroc al-a?
iii
Eu tenho visto a pedra, desprendida
Da montanha, levar meia floresta
Na c arreira—e não ha-de esse granito
C olossal, que é o Povo, despregado _
Por mãos do tempo, c om trabalho í mmenso,
Ao rolar no dec live da historia
Esmagar, ao c orrer, os tronc os sec c os
E o myrrhado ossuario do passado?
Não ha-de o solo heroic o, que se agita,
Lançar ao ar c astellos e c idades?
Ha-de abrir-se o vulc ão só por que atire
Um só jac to c !e fumo e c inza apenas?
E a alma dos homens ha-de entrar nas dores
De um parto c rudelissimo, e volver-se
N'um leito de torturas, por que o feto
ODES MODERNAS
95
Predestinado, a pallida Esperança,
1
(
ruc to de mil angustias, em c hegando
A vêr a luz se c hame desespero?
Elles sabem que não. Sabem que o oc eano,
C hamado humanidade, gasta séc ulos
A revolver, lá dentro em si, uma idéa;
Mas que, se um dia c hega a vêl-a c lara,
A phrase c om que a deita ao mundo é o estrondo
Da tormenta... e é seu verbo o c atac lysmo!
IV
Elles sabem e temem.—
C omo ovelhas,
A quem faro de lobos poz espanto,
Uniram-se formando um grande c irc ulo.
'Stá no c entro o Pastor —bá c ulo de ouro
Por fora, mas por dentro ferro todo!
Em volta do c ajado da legenda
(C omo em volta ao bordão do Sete-estrello
As estrellas do c éo) é que se juntam
As estrellas fataes da treva humana.
ODES MODÉ BHAS
Os que trazem na mão a c ruz de C kristo
(Onde a C hristo pregaram!) e os que apertam
C om o guante ferrado a c ruz da espada!
Os que do peito humano fazem c unho
E, vasando-lhe prantos, -lhes sahe ouro!
Os c abos do exerc ito traidores,
Porta-bandeiras que o pendão venderam;
Que, vendo na auriflamma esta palavra
J ustiça esc ripta, vão (lí nguas de vibora)
Lambendo a letra de ouro, e a baba horrí vel
Deixa bordado a fio de peçonha
O mote d'elles Interesse! os sá bios
Que andam tapando o sol c o'a c apa negra!
Os C ains, que subindo sobre a espadoa
Dos irmãos, lhes deixaram c ada hombro
— Marc a de servidão—beijo do inferno
Ferido dos sapatos tauxiados !
Os leprosos que põem ouro nas c hagas!
Os que vendem a C hristo c ada dia,
E o renegam tres vezes c ada noite!
Os herdeiros do Abuso! oa feudatarios
Do C rime! os titulares da Ignominia !
Eis do inferno o rebanho, que obedec e
A um Pastor... herdeiro da Serpente!
ODES MODEBNAS
São estes que fizeram de c adaveres
O grande monte do Passado: estes
Que de ossadas fizeram os eastellos
E os púlpitos e os thronos — e fizeram
De prantos oleo santo e agua benta...
São estes que fizeram da c ruz negra
Do mau ladrão signal c om que se absolvem
Entre si: e, deitando a toga preta
Pelo espaço, fizeram Firmamento;
E c hamaram, ao sol, esc uridade;
E, ao pensamento, lepra; e á ignoranc ia
Elevaram altar; e á ignominia
C hamaram dignidade; e andam pedindo
Esmola para a T reva; e querem do homem
As lagrimas, apenas... c om que reguem
Do seu jardim roubado as negras flores!
ODES MODEBNAS
V I
E, emtanto, sabem (quem tem olhos vê-o...
V ê c om espanto!) que o tremor do solo
É largo e vem de longe; e que ha no espaço,
Fóra do mundo, mão que impelle as c ousas
E, c omo onda, as agita a ir de enc ontro
Á c idac lella das ruí nas! Sentem
J á sobre o c oração um frio horrí vel...
E, olhando em volta, vêem pelo esc uro
V ir essa negra mão, que traz erguida
A espada flammejante do Destino !
V êem... e luc tam! Deus é que elles tentam
E ao Destino é quem elles desafiam!
Mas têm medo—os c obardes—porque mentem
E não sabem bradar, olhando os astros,
« Nós c à somos o Mal... guerra de morte! »
Não sabem—mentem—dizem que o Passado
Era urze fraquinha que a Revolta,
ODES MODERNAS
Bem c omo golpe de alvião valente,
De uma vez arranc ou. Fazem-se humildes
E, c omo o c anavial, vergam gemendo...
E dizem meu irmão a c ada insec to...
E querem vêr se enganam a V erdade...
E querem vêr se Deus lhes c ahe no laço!
V II
O Passado! e3sa larva mac ilenta,
Mixto de podridão, tristeza e sombras,
Se morreu... resurgiu do seu sepulc hro!
Bem o vemos andar, pavonear-se
Entre nós, nos vestidos illusorios
Da triste morte, arremedando a vida,
Passar— e sobre a fronte d'esse espec tro
Bem se vê uma sombra de tiara
Ou de c oroa, ao longe, branquejando!
Mudou de roupa — mas o c orpo ainda
É o mesmo... é peor, que c heira á c ova!
O c astello feudal tinha raí zes
Bem fundas n'esse c hão: e a arvore heraldic a,
*
10 0
ODES MODEBNAS
Antes que a dec epassem, alastrou-se
Subterranea e botou rebento ao longe...
Se a regou tanto sangue e tanta lagrima!
T em muita vida ainda a arvore negra...
O velho mundo, a Babylonia antiga,
—Leviatban dos tempos—tem amarras
De ferro c olossaes que á praia o ligam:
C ada fuzil é um abuso; a anc ora
É a inérc ia das gentes; eéo interesse
A roc ha a que se prende. Ri dos ventos
E julga-se seguro... mas um dia
Ha-de estalar... e então! então o oc eano
T erá pouc a fundura para a c ova,
E pouc as ondas a deitar-lhe em c ima!
V IX X
O novo mundo é toda uma alma nova,
Um homem novo, um Deus desc onhec ido
No nosso sangue ha globulos legados
ODES MODERNAS
10 1
Pelo mysterio das idades idas:
Ha toda a podridão da arvore antiga,
Legada ao germen da arvore futura...
Ha o espirito e a fórma. A Authoridade,
Esse mysterio, espada de Dâmoc les,
Essa nuvem sombria onde se esc ondem
O Senhor do Sinay e as doze-taboas :
A rede de mil fios, que atirando
Uma ponta á familia, em mil meandros
V ai, desc e, sobe, some-se, apparc c e,
T é que prende no tkrono a ultima ponta,
Onde a Aguia-bifronte os fios une !
Ha o T error — a nuvem das alturas
T razida para aqui (ou aqui formada);
Raio de luz do eterno sanc tuario
Mettido no c andil d'estes Diógenes!
Uma ponta do véo azul do augusto
C obrindo a fronte c ynic a do eunuc o!
Deiis—o segundo termo do dilemma
Sempre apontado ao peito, c omo setta!
Não se poder andar, c orrer os c ampos,
Sem que, de um c anto esc uro, um vulto negro
Nos brade logo « arreda! aqui c omeça
O dominio do c éo—atraz, profano!»
ODES MODERNAS
O pensamento livre e illuminac lo
Mettido ao c anto d'essa jaula negra
De pedra e ferro! o c éo sempre na terra!
A tenda do deserto em mil retalhos
Partida! e a onda do mar pulverisada!
Ha de que perguntar porque é que os astros
Se põem a olhar assim c om tal c arinho
Para aqui, e temer que o sol, um dia,
Revolvendo o que viu, fuja no espaço
Ou se apague c o'as lagrimas c horadas...
Porque isto é baço e isto é atroz!
IX
Emtanto,
Da Historia o solo trá gic o, regado
C om o sangue dos tempos, anda em dores
C onc ebendo um mysterio—porque dentro
Em seu seio, n'um rego tenebroso,
Não sei que mão deitou uma semente
Esc ura mas divina, a do Futuro!
ODES MODERNAS 10 3
X
Ha-c le c resc er ató ao c éo essa arvore!
Ha-de vingar! o bafo, o ar que respira,
É o Desejo do homem, essa eterna
Aspiração, essa atmosphera ardente
Aonde bebe vida quanto ha grande,
Quanto de novo e estranho a luz se eleva!
Ha-de c resc er essa arvore divina!
Porque as raizes d'ella vão, na sombra,
Busc ar a vida á s duas largas fontes,
V erdade e Amor—e a seiva que a alimenta
E a Idéa... e é o c hão a Humanidade!
X I
Deixal-a ir! Os vermes que a rodêam
10 4
Querem c omer-lhe o tronc o—estes insec tos
São audazes... porque? porque são c egos!
Hão-de gastar os dentes n'essa lida;
Hão-de gastar, depois, ainda a c abeça;
Hão-dc por fim gastar o c orpo todo!
E ella c omo se vinga?
A essa poeira
Esc ura, que deixarem quando c xtinc tos,
Lá irá proc ural-a c o'as raizes,
E transformal-a em seiva; e d'essa seiva
Fazer ou folha ou ramo ou flor, ac aso,
E, generosa, ao sol do bello erguel-a
Que veja, ao menos uma vez, os astros!
Elles são fortes — elles têm o Mundo :
Ella, por si, apenas tem... o Espirito!
186 3.
ODES MODERNAS
10 5
III
C omo o vento á s sementes do pinheiro
Pelos c ampos atira e vai levando...
E, a um e um, até ao derradeiro,
V ai na c osta do monte semeando:
T al o vento dos tempos leva a Idéa,
A pouc o e pouc o, sem se vêr fugir...
E nos c ampos da V ida assim semêa
As immensas florestas do porvir!
186 4.
ODES MÒ DEK NA! 10 7
IV
lusftí ia mater
Nas florestas solemnes ha o c ulto
Da eterna, intima força primitiva:
Na serra, o grito audaz da alma c aptiva,
Do c oração em seu c ombate inulto:
No espaço c onstellado passa o vulto
Do innominado alguém, que os aoes aviva:
No mar ouve-se a voz grave e aí flic tiva
D'um deus que luc ta, poderoso e inc ulto.
Mas nas negras c idades, onde sôlta
Se ergue de sangue madida a revolta,
C omo inc êndio que um vento bravo atiça,
Ha mais alta missão, mais alta gloria:
O c ombater, á grande luz da historia,
Os c ombates eternos da justiça!
1870 .
ODES MODEBNAS
10 9
V
M0 T emplo
1
O Povo ha-de inda um dia entrai- dentro do T emplo,
E ha-de essa rude mão erguer-se sobre o altar;
E ha-de dar de piedade um grande e novo exemplo,
E, ao púlpito subindo, o mundo missionar.
Heis de essa voz solemne ouvir—na nave augusta
O c anto popular ao longe soará ;
E a pedra, c arc omida á s mãos do tempo e adusta,
Ànc iosa palpitando, o hymno esc utará !
110
ODES MODEBNAS
O Povo ha-de fazer-se, então, bispo e levita;
E será missa-nova a missa que disser:
E ha-de ac har ao sermão por thema o que medita
Hoje c onfuso e está na mente a revolver.
Então, por essa immensa abobada soando,
Ha-de c orrer o som de um orgão c olossal;
E uma outra c ruz no altar, outro esplendor lançando,
Ha-de radiar luz nova á s letras do missal.
Dia santo ha-de ser esse de festa estranha!
C om a c allosa mão o Povo toma a c ruz,
Amostra-a á multidão e—C hristo na Montanha —
Missiona... e a fronte, emtanto, inunda-se de luz!
Então o seu olhar será c omo o espelho
Dôc e, que o filho tem no olhar de sua mãi:
E, tendo n'uma mão erguido o Evangelho,
C om a outra aponta ao longe o vago espaço, além...
ODES MODERNAS
II
Ninguém o dia sabe ao c erto: emtanto, vemos
Pelos signaes do c éo que a aurora perto está ...
Pelas c onstellações é que esse espaço lemos...
A estrella do pastor desmaia... Eil-o vem já !
Sabeis que missa nova essa é que diz o Povo?
E o orgão c olossal que, em breve, vai soar?
Qual é o novo altar e o Evangelho novo?
E o thema do sermão que á s gentes vai prégar ?
O Evangelho novo é a biblia da Igualdade:
J ustiça, é esse o thema immenso do sermão:
A missa nova, essa é missa de Liberdade:
E orgão a ac ompanhar... a voz da Revolução!
186 4.
ODES MODERNAS jjg
V I
falawas iV um c erta morto
Ha mil annos e mais que aqui estou morto,
Posto sobre um roc hedo, á c huva e ao vento:
Não ha c omo eu espec tro mac ilento,
Nem mais disforme que eu nenhum, aboi-to...
Só o espirito vive: vela absorto
N'um fixo, inexorá vel pensamento :
« Morto, enterrado em vida! » o meu tormento
É isto só... do resto não me importo...
Que vivi sei-o eu bem... mas foi um dia,
Um dia só — no outro, a Idolatria
Deu-me um altar e um c ulto... ai! adoraram-me
C omo se eu fosse alguém! c omo se a V ida
Podesse ser alguém! — logo em seguida
Disseram que era um Deus... e amortalharam-me!
1873.
8
ODES MODERNAS
V II
à os miserá veis
V ós vêdes esses lobos c arnic eiros,
Que em volta dos redis andam bramindo?
Que onde se espalha o sangue são primeiros,
E últimos onde o Amor está sorrindo?
T remeis de medo ao vêl-os? ou, rasteiros,
Da vista d'elles vos andaes sumindo?
Ou, c heios de odio, estaes a invejal-os?
Pois, em verdade, que 6 melhor c horal-os!
*
116
ODES MODERNAS
Elles não vêem d'este grande mundo
Mais que os tec tos dourados de seus paços...
V ós tende3 todo o c éo largo e profundo
Por tec to, e por palac io esses espaços!
O que Deus dá a todos... o fec undo...
Que não se nega aos mais myrrhados braços...
O brado que de um peito amado sahe...
E o que do olhar das mães n'alma nos c alie...
A herança é bella, miserá veis! vêde...
Miserá veis! porque? porque no estio
Só piedoso olhar vos mata a sede?
Porque, quando tremeis de fome e frio,
Deus só seio de amigo vos c onc ede?
Só tendes a esperança, c omo rio,
Para banhar-vos no maior c alor?
Elles têm tudo... só lhes falta o Amor!
Nem têm Intelligenc ia ! a que vem d'alma!
Esse grande entender da Grande C ousa!
C ac ho nasc ido na mais alta palma!
C oroa de quem c rê e de quem ousa!
Sangue de irmãos a sêde lhes ac alma...
' Dão banquetes no má rmore da lousa...
È saber isto? é isto intelligenc ia?
Não ! que o Bem é o perfume d'essa essenc ia!
ODES MODERNAS
117
A eamphora... a balsamic a resina...
A essenc ia que distilla sobre os Povos,
Na fronte (T elles, c omo unção divina...
Quando o tronc o deitou rebentos novos,
E palpitou a ave pequenina
Por um leve rumor dentro em seus ovos,
Então c ahiu também da immensidade,
Sobre a fronte dos povos, a V erdade!
É Ella, que resalta, c omo lume,
Do c hoque das idéas e das c ousas!
Não ba grilhões que a prendam... que os c onsume!
Nem c ampa... que ella estala as frias lousas!
Mac hado de aço fino, c om o gume
A arvore dec epou onde te pousas
T u, negro moc ho da Hypoc risia,
E tu, aguia fatal da T yrannia!
118
ODES MODERNAS
Derruba c om seu pé thronos erguidos,
C om um sopro, no pó lança os c astellos,
E aos vermes que na sombra vrí o sumidos
É a quem ella c hama filhos bellos!
Os c ometas, que ao ar andam subidos,
Fez c ahir... e tomando uns alvos vellos
Pallidos e trementes, a V erdade
C om elles c onstruiu throno c c idade!
ODES MODERNAS 119
Nós vimos esse deus e a nossa boc c a,
Não sabendo quem é, c hamou-lhe Idéa:
N'um dia faz-se nada, e a si se apouc a...
No outro o mundo envolveu na immensa têa!
Parec eu bem mingoada e c ousa pouc a,
Quando c om C hristo se assentou á c êa...
No outro dia c hamava-se Marty rio...
Alma depois... depois c bamou-se Empyreo!
V ai indo e vai varrendo a c asa immunda
Que se c hama passado—e faz o novo
Da poeira, inda hontem infec unda,
E que jâ á manhã se c hama Povo.
E ella quem destroe e quem inunda;
E, entre as ruinas, faz c hoc ar um ovo
Onde se agita um feto, hoje inda esc uro,
Mas que é aurora e luz... porque é Futuro!
É gosto ver os tkronos abalados
Por essa ferrea mão, e vêr os c ultos
Por terra, e entre os altares alastrados,
V êr sob elles no pó deuses sepultos!
V êr os nomes dos grandes apagados,
E as sombras dos heroes c heias de insultos...
Porque esse sopro que o inc êndio atiça,
E essa mão e esse braço... é a J ustiça!
12 0
A J ustiça flammeja c omo a espada
Do arc hanjo invisí vel—resplandec e
C omo a c hamma dos fogos ateada,
Que, ao longe, nas montanhas apparec e.
V ela á porta dos grandes assentada:
Á mina dos maus c que ella desc e:
E tem por throno e solio soberanos
As ossadas c omidas dos tyrannos!
Ninguém a vê c hegar... mas, de repente,
Apparec e — e mudou a fac e á s c ousas!
Enc heu de prantos quem dormiu c ontente;
Dos felizes sentou-se sobre as lousas;
Do olhar do forte foz olhar tremènte;
.E a ti, ó miserá vel, que nem ousas
Do c hão teus tristes olhos levantar,
Foi quem ella tomou para beijar!
Não são c onsolações que dê o ac aso,
São leis mysteriosas c divinas...
A providenc ia oc c ulta em c ada c aso...
Presente na ventura e nas rSinas...
O que se ac hou no fundo d'esse vaso
Que se libou na vida... as surdas minas
Por onde o inc êndio lavra sem ser visto,
C hame-se embora Garibaldi ou C hristo !
ODES MODERNAS
III
Ó J ustiça! eu sorrio quando enc aro
Os semi-deuses d'esta terra ingrata,
Que c heios de vaidade e de desc aro
Se julgam feitos de ouro e fina prata...
Sorrio ao ver c omo em seu throno avaro
C uidam fallar c om voz dc c atarac ta,
E c rêem ser na altura uns Sete-estrellos...
Que eu bem sei que T u lias-de subvertel-os
ODES MODERNAS
Os T lironos c ahem sem ac harem ec lio,
E os deuses morrem sem fazer ruido;
É o Sc eptro ramo que só fruc to pec o
Dará , e o Montante de aço l> ui-!o
Não poda a vinlia... deixa tudo sec c o!
T udo isto morre e vai-se em pó sumido...
T hronos, tiaras, sc eptros, potestade,
Que pesam na balança da V erdade?
Mas a idéa, que sahe da nossa fronte;
E a dor, que irrompe e rasga o nosso peito;
Mas a agua, que tem n'uma alma a fonte;
E o feto, que nasc eu todo imperfeito;
E o ai de um triste em solitá rio monte;
E um pranto maternal em frio leito;
Eis quem pesa no prato da balança
Onde se mede o amor e a esperança!
Esperança! debalde não se soffre!
Ó vós que andaes c urvados, vêde a altura
E dizei-nos se pôde dar de c hofre
No lodo quem nasc eu da formosura?
E espalhar os brilhantes do seu c ofre
Entre as urzes, e pobre e em noite esc ura
Ir c urvado sem vêr a c ousa-bella
Quem nasc eu para andar de estrella em estrella?
ODES MODEBNA§ 12 3
C aminhai para a estrella da alvorada
. Que vos sorri de lá — nao tenhaes medo—
T é que se desembrulhe esta meada...
E ha-de desembrulhar-se, tarde ou c edo!
Miserá veis! segui na vossa estrada
Do miséria, segui, c om rosto ledo...
É a estrada real de um reino c erto!
V ai na frente a c olumna do deserto!
12 5
V III
A um c ruc ií ixa
lia mil annos, bom C hristo, ergueste os magros braços
E c lamaste da c ruz: ha Deus! e olhaste, ó c rente
O honsonte futuro e viste, em tua mente,
Um alvor ideal banhar esses espaços!
Porque morreu sem ec ho o ec ho de teus passos,
E de tua palavra (ó V erbo!) o som fremente?
Morreste ah! dorme empa, ! não volvas, que desc rente
Ariojá ras de novo á c ampa os membros lassos...
Agora, c omo então, na mesma terra erma,
A mesma humanidade é sempre a mesma enferma
Sob o mesmo ermo c éo, frio c omo um sudá rio... '
E agora, c omo então, viras o mundo exangue
E ouviras perguntar-de que serviu o sangue
C om que regaste, ó C hristo, as urzes do C alvario?—
186 2 .
12 6
ODES MODEBNAS
II
DOZE ANNOS DEPOIS
Não se perdeu teu sangue generoso,
Nem padec este em vão, quem quer que foste,
Plebeu antigo, que amarrado ao póste
Morreste c omo vil e fac c ioso.
D'esse sangue maldito e ignominioso,
Surgiu armada uma inveneivel lioste...
Paz aos homens e guerra aos deuses!—poz-te
Em vão sobre um altar o vulgo oc ioso...
Do pobre que protesta foste a imagem:
Um povo em ti c omeça, um homem novo:
De ti data essa tragic a linhagem.
Por isso nós, a Plebe, ao pensar n'isto,
Lembraremos, herdeiros d'esse povo,
Que entre nossos avós se c onta C hristo.
1874.
12 7
IX
S—S--*: --
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8
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D'um homem justo e Z '
Impoteat
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Na miséria, ^exilio, ou em
1873.
ODES MODERNAS
X
Sombra
(a baymc ndo db bulhão pato)
Quando C hristo sentiu que a sua hora
Em fim era c hegada, grave e c almo,
Sereno se ac erc ou dos que o busc avam.
A turba vinha em armas. Mas, de tantos,
Nem um só se atreveu a dar um passo,
A pôr a mão no Filho do Homem. — T odos
De olhos no c hão, as armas enc obriam
Ante J esus inerme.
9
130
ODIiS MODERNAS
Então aquelle
Que o tinlia de entregar, aproximando-se,
O tomou nos seus braços, murmurando:
Que Deus te salve, Mestre! e, sobre a fac e
O beijou, c omo fôra c ontrac tado:
Então os mais, c begando-se, o prenderam.
Mas J esus, sem os ver, lhes perdoava:
De ollios no c éo, seguia-os sereno.
Era duro o c aminho. Sobre um monte
Iam e, dos dous lados, lá em baixo,
C obria a treva a terra toda.
Quando,
Porém, sobre o mais alto d'esse monte
Foram emfim c hegados, de repente
V iu-se-lhe uma das fac es alumiar-se
De uma luz dôc e e branda, mas immensa!
E quanta terra, desde o monto ao oc eano,
Lhe fic ava do lado aonde virada
Lhe estava aquella fac e, reflec tindo-a,
T udo se esc larec ia—vàlle e serra
E a metade do c éo— apparec endo
C omo em puro luar, ou qual se fosse
V ir nasc endo uma aurora d'esse lado.
E essa fac e radiante era a que J udas
Não c hegá ra a toc ar.
ODES MODEBNAS
Porém a outra,
Que elle beijara, c onservou-se esc ura
C omo se o c rime c T elle alli guardasse...
Nem c lava luz; e o espaço, d'ossa banda
Onde a virava, era uma noite immensa,
C oberto o liorisonte de nevoeiro...
Partido o mundo em dous, essa metade
Era a que se fic á ra envolta em sombras.
Foi d'essas sombras que se fez a Igreja!
ODES MODERNAS
X I
C armen legis...
i
Muito ruido e pó, e muito esc uro!
É d'Í 8so que se vestem...
É d'esse ar que respiram e que vivem...
Salamandras da sombra!
C hamam-se Bispos, Reis, Imperadores,
Altos, Grandes e Ric os!
Pairam sobre uma nuvem sobranc eira,
E sobre as nossas frontes!
134
ODES MODERNAS
Agitam-se, revolvc m-se, remexem-se...
Ferem os grandes ec hos...
Enc hem de bulha e pasmo o universo...
Põem terror e espanto!
Alevantam o pó de toda a estrada...
E agitam toda a onda!
T em o sc eptro, a tiara, a espada, a bolsa.
Mandam nos c orpos todos!
V ê-os passar a gente, c omo uns astros,
E abaixa ao pó a fronte,
C om medo de ser visto e que se abraze
No rabo do c ometa!
ii
Pois bem! Grandes, Altivos, Poderosos,
E C ometas da altura,
E Senhores da terra e Semi-deuses...
V ós sois o pó e o nada!
ODES MODERNAS
Atroadores! o ruido immenso,
C om que abalaes o mundo,
É apenas frac asso e pó e estrepito
De c asa que se alue!
Ill
O espanto, que espalkaes, não vos pertenc e.
Não é a vossa força.
É o tremor do sólo, é o presagio
Do grande terremoto!
É o voo da aza poderosa
D'aqueUa aguia c ruenta,
Que vos lia-de abater, prec ipitando-vos
C o'a fac e c ontra o sólo!
É o ec ko longí nquo das revoltas!
É o grande rebate!
E o seio do povo, que c onc ebe »
Um feto monstruoso!
136
ODES MODERNAS
E a desillusão! são as esc amas
C ahindo d'esses olhos,
Ao vêr de perto os idolos antigos...
E ac hando-os terra e barro!
O nasc er da esperança n'esses c erebros,
Que nem d'ella sabiam!
Modo estranho de olhar o horisonte,
Ao vêr os astros novos!
É a onda, que sobe dos abysmos
E põe á luz a c oma...
Que abala... mas que vem lavando tudo.
E se c hama J ustiça!
São as vozes, que o ar pá vido esc uta,
Que nunc a ouvira d'antes!
E ao3 ec hos do espaço em vão pergunta
De d'onde aquillo sobe!
É a Revolução! a mão que parte
C oroas e tiaras!
É a Luz! a Razão! é a J ustiça!
É o olho da V erdade!
ODES MODERNAS
X V
Quem foi que disse aos povos estas c ousas?
Quem foi que disse ao Servo
Que Deus, quando o c reou, no seu registro
Lhe poz o nome de Homem?...
E disse que o viver é lei de todos,
E não só de alguns pouc os?
Para tudo beber, o mar? e a terra
Sóc c o da estatua humana?
Qual é a mão intrépida, que arranc a
De sobre os olhos d'elles
A venda negra, que amarrá ra, ha séc ulos,
A mão do sac erdoc io?
Quem é que diz á s fac es, ha mil annos,
C urvadas sobre a terra,
— « Erguei-vos para o c éo! o c óo ó vosso!
É essa a vossa herdade! » —?
ODES MODERNAS
Quem foi? fostes vós mesmos! Impellida
Por força que não vieis,
A vossa mesma mão foi esc revendo
Sua própria sentença!
T rabalhaes! e mal vêdes que trabalho!
Sois as rodas da mac hina
Que a si mesma se está esmigalhando!
E, Reis e Sac erdotes,
E Levitas do mundo! sois vós mesmos
Que abris a grande Porta,
Por onde ha-de ruir o mundo todo
No vosso templo egoista,
E deitar, sob o altar, as c ruzes todas,
E beber regalado
Esse nc c tar da vida—a Liberdade —
No vosso c á lix santo,
ODES MODERNAS
E esmigalhar, c o'a fronte do levita,
A fronte do seu idolo!
V êde o que ha-de saliir do liorrivc l c hoque
De santo c ontra santo!
V I
E sabeis vós porque? Por pouc o... apenas,
Porque o Deus da historia
T raduziu, n'uma lauda do seu livro,
A traduc ção estranha,
Que diz, em vez de rei— lobo e tyranno—
E em vez de sac erdoc io,
— Serpente, que se enrosc a ao mundo todo-
E, em vez de ric o— egoista—■
E ajuntou senhor e esc ravo, ambos
N'esta palavra — Homem —
E c asta c privilegio, traduziu-as
Ambas por — Igualdade —
140
X W
ODES MODERNAS
E, em vez de templo estreito, poz— espaço
Immenso e infinito —
E, em vez de rio, mar! e, das migalhas
Fez um grande banquete!
E á terra e ao homem, ambos eondemnados
A fixidez do má rmore,
Deu um sopro gigante, baptisando-os
C om um nome — Progresso—!
V II
Por isso os vossos thronos se rac haram,
E as c ruzes vão rolando,
E as libras se derretem c omo gelo...
E foi por isto, apenas!
18G3.
ODES MODERNAS
X II
A espada inexorá vel que flammeja
No liorisonte d'um povo impenitente,
E não poupa, na ameaça indifferente,
Nem tugurio, nem paço, nem igreja;
O gladio que enc oberto peregrino
Ergue, imprevisto, nas humanas liças,
A espada das históric as justiças,
A espada de Deus e do Destino;
De que pensaes que é feita? Por ventura
Pensaes que é feita d'um metal terreno,
C heio de jac a e fezes, e em veneno
lemperado talvez por mão impura?
Que é feita de c ubic a e violênc ia?
E de odios c egos, brutos, truc ulentos?
De c obardes e falsos pensamentos?
De ultraje, de furor e de demenc ia?
142
Quanto vos illudis, irmãos! Sabei-o,
Homens de pouc a fé! sabei que a espada
Sinistra e em c uja folha esbrazeada
Uma palavra em lingua estranha eu leio,
Que esse rubx
-
o signal de mudo espanto,
Fixo, pregado alli n'um c éo terrí vel,
C ontinuo, inquebrantá vel, inflexí vel
Á prec e, á ameaça, á dor, ao pranto,
Que essa espada da morte e do pavor
E só feita de Bem inalteravol,
De V erdade ideal e impec c avel...
E que esse açoute é feito só de Amor!
Sabei, povos, que em horas do demeneia
Amaldiçoaes a mão que vos c antiga:
Essa inflexí vel mão é mão amiga,
É a mão patornai da Providenc ia!
1873.
143
X III
T ersos esc rí pfos na margem bum missal
Bem pôde ser que nossos pés doridos
V ão errados na senda tortuosa,
Que o pensamento segue nos desertos,
Na viagem da Idéa trabalhosa...
Que a arvore da Sc ienc ia, sac udida
C om força, já mais deite sobre o c hão,
Aos pés dos tristes que alli 'stão anc iosos,
Mais do que o fruc to negro da illusuo...
144 ODES MODEll.riS
Que o livro do Destino esteja esc ripto
Sobre folhas de lava, em letra ardente,
E não c hegue a fital-o o olho humano
Sem que ao offusque e c egue de repente...
Pôde ser que, na luc ta tenebrosa
Que este séc ulo movo sob o c éo,
V enha a faltar-lhe o ar, por fim, faltando-lho
A terra sob os pés, bem c omo Anteo...
Que do sangue espalhado nos c ombates,
E do pranto que c ahe da triste lyra,
No á rido c hio da esperança humana
Mais não nasça que a urze da mentira...
Que o mysterio da vida a nossos olhos
Se torne dia a dia mais esc uro,
E no muro de bronze do Destino
Sc quebro a fronte— sem que c eda o muro...
Que o pensamento seja só orgulho,
E a sc ienc ia um sarc asmo da verdade,
E nosso c oração louc o vidente,
E nossas esperanças só vaidade...
ODES MODERNAS
E nossa lnc ta, vã! talvez que o seja!
C ego andará o homem c ada vez
Que vê no c éo um astro! e os passos d'elle
Errados pelo mundo irão, talvez!
Mas, ó vós que prégaes deseanço inerte
No seio maternal da ignoraneia,
E c ondemnaes a luc ta, e daes ao homem
Por seu c onsolo o dormitar da infanc ia;
Apostolos da c rença... na inérc ia...
V ós que tendes da Fé o ministério
E sois reveladores, dando ao mundo
Em lugar de um myeterio... outro mysterio;
Se quanto o Universo tem no seio,
E quanto o homem tem no c oração,
O olhar que vê e a alma que adivinha,
O pensar grave e a ardente intuição,
Se nada— em terra e c éo— pode ensinar-nos
Do fado humano o immortal segredo,
Nem os livros profundos da sc ienc ia,
Nem as profundas sombras do arvoredo,
10
146
ODES MODERNAS
Se não ha mão audaz que possa erguel-o
O tenebroso véo do Bem e Mal...
Se ninguém nos explic a este mysterio...
T ambém o não dirá nenhum missal!
186 5.
147
X IV
à Europa
{DURANT E A INSC I1K EIÇÃO DA POLON-I.V ESI 186 4}
La K iissic c 'c st lc c holora.
J IIC HELET .
Águia da França! que te vejo agora,
C omo ave da noite, triste e esc ura!
Ha pouc o ainda a olhar o sol — n'esta hora
Meia offusc ada ao resplendor da altura!
Subindo sem se ver já quasi, outr'ora,
E, hoje, tombada sobre a roc ha dura!
E quem por nome teve já Esperança,
C hamar-se Desalento... Águia da França!
Irma! Irma! Irmã! por ti c lamaram
Desde o desterro os miseros c aptivos!
Foi para ti que os olhos levantaram
Queimados da tortura aos lumes vivos!
Foi por ti, foi por ti que elles bradaram
Erguidos do sepulc ro e redivivos !
E tu dormes no ninho da c onfiança?!
São irmãos teus! ac orda, aguia da França!
ODF.S MODERNAS
Ah! a aguia-imperial inc la tem aza...
Mas o que ella não tem já é vontade!
Ha ainda algum fogo que a abraza...
Mas não é nem amor nem liberdade!
Inda tem garra c om que empolga e arraza...
Mas já não os véos negros da verdade!
Porque, abraçando-a, lhe hão roubado a ardênc ia
Dous amigos, o Egoismo e a Prudênc ia!
Ó Prudentes! não sei se mais me ria,
Se mais c hore de vêr vossa c egueira!
Pois vós, c uidando ter a luz do dia
Nas mãos, tendel-as c heias de poeira!
V ós c hamaes-vos a Ordem, a Harmonia...
Mas, nos frnetos, qualquer vê que a figueira
Que, em rebentando o estio, não rebenta
É porque apenas sobre a areia assenta!
A areia do Egoismo! E, se a vaidade
V os não c egá ra, virí eis que a semente
Que c ahiu sobre o c hão da Liberdade,
Em vez de ser perdida inutilmente,
Dá , por um grão, milhares. — E, em verdade,
Y erieis tudo isto simplesmente
Se, em vez de ter por lei o livro esc uro,
Só na J ustiça lesseis o Futuro!
ODES MODERNAS
Sim! o Futuro! V ós olhaes a um lado
E a outro lado — o vedes o horisonte...
Sabeis c omo passou quanto ó passado,
E que alic erc e teve c ada monte...
Por vossa mão o mundo está marc ado...
C ada mar, c ada rio, c ada fonte...
T udo sabeis — a noite e a manha —
Só vos esquec e... o dia de á manhã!
Quando a Águia da Rússia as duas garras
C ravar no c oração á liberdade,
T apando c om o vulto as c inc o barras
C esse V olga de luz, a humanidade;
Quando, emfim, estalar quantas amarras
A tem lá presa desde a velha idade,
E, tomando c o'a sombra toda a altura,
Se estender sobre a Europa a aza esc ura:
Quando o vento do Norte em nossos prados
T iver levado c om os grãos as flôres;
E, soprando nos ermos despovoados,
Semear a seara dos terrores;
Quando, emfim, sobre os sulc os arrazados,
Dormirem c om os bois os lavradores;
E só brotar no c hão da liberdade
— Só — a herva da Rússia, a esc uridade:
ODEB MODERNAS
V ós haveis exultar, então, prudentes,
E, sá bios, vêr o fruc to ao vosso ensino!
E á quelle velho c onto dos dormentes
T irar sua moral... que ó o Destino!
Então abrindo os olhos, ó videntes,
Sobre as c abeças heis de vêr a pino
O c ometa dos prosperos futuros...
Da negra Rússia sobre os c éos esc uros!
E, Diplomatas, heis de lêr as notas
Esc riptas nas muralhas derroc adas!
E das c idades nas bastilhas rotas
Heis de vêr as razoes alli gravadas!
E haveis de ouvir das boc c as mudas, bôtas,
A opinião extrema das espadas!
Lá quando no c ongresso se assentarem
As Potenc ias da Noite... e c onc ertarem!
Quando um povo se c hama, em vez de Gente,
C holera, peste, vento da Sibéria;
E uma nação é assim c ousa impudente
Que, em vez da veste virginal, aérea,
Só tem andrajos c om que aos olhos mente,
E é só, no fundo, esc ravidão, miséria;
E em vez de filho amado traz ao peito
Um monstro informe de horrido trejeito;
ODBS MODEBNAS
6 Naçõos, que dizeis abrir á vida
E á luz 0 3 olhos livres... ó Nações!
Quando 6 c om c ousa assim, c rua e desc rida,
Que se vão resgatar as oppressSes...
Não ha voz de justiça — a mais erguida—
Nem tratados, nem notas, nem razões...
Ha' uma folha só — a da espada—
Para o grande tratado — a c utilada — !
E vós passaes a mão sobre as esc amas
Do c roc odilo... e c redes c onvertel-o?
C redes ligal-o c om as finas tramas
Da palavra, mais frá geis que um c abello?
Ó homens há beis, que fallaes á s c hammas,
E ao mar bravo c o'a voz podeis c ontel-o,
Sois uns grandes apostolos por c erto...
Que até andaes prégando no deserto!
Apostolo! mas vede que no mundo
Não ha já hoje um só, c om este nome,
Sem que lhe apaguem c om um riso immundo
O nobre fogo em que arde e se c onsome!
Quanto valo a palavra n'este fundo
Poço da Europa de hoje, onde se some
A voz mais alta? quanto vale? olhai!
Inc lino o ouvido... mal esc uto um ai!
ODES MODERNAS
Apostolo— é a bombarda da metralha
Estalando as bastilhas dos tyrannos!
Apostolo— ó o forro, quando espalha
O terror sobre os peitos deshumanos!
E o c larim no meio da batalha
T oc ando a retirada dos enganos!
É a mão do Destino, que em seus ninhos
Esmaga a loba velha c o'os lobinhos!
C ontra a Rússia— a heresia das nações —
Um grande e forte apostolo de ferro!
Que vá direito dentro aos c orações
C om rijo abalo esmigalhar o erro!
Que, em vez da branda voz das orações,
Pregue a sua missão c om grande berro!
Não humilde, não dôc e, c omo os onze
De C hristo... mas apostolo de bronze!
Esse, sim! que c onverta o povo impio
Que ao Dagon da matança deu seu c ulto!
Que lhe faça c orrer o pranto em fio,
Mas um pranto de sangue! Um rude insulto,
Não palavras de amor a esse Gentio!
Um missioná rio de tremendo vulto
Que em fim lhe esc reva as letras da oração
(Mas c om ferro) no duro c oração!
ODES MODEBNAS
153
Essa é a únic a voz que se ergue e brada!
C om que pode prégar-se, a essa desc rida
Raça de Moabitas, a sagrada
Nova missão de Liberdade e V ida!
Nações da Europa! é ao c anhão e á espada
A quem deveis dar a palavra. Erguida
Essa voz soará por toda a terra
A doutrinar um Evangelho — a guerra!
Ah! se ha ainda olhos para verem,
Em despeito da venda, a luz infinda!
Se ha almas juvenis para se erguerem
C om o sublime vôo que já mais finda!
Se ha mãos ainda ahi para estenderem
Á luz da gloria um ferro — e se ha ainda
Povos livres na terra, e em peitos novos
Ha livres c orações — á guerra, ó Povos!
186 4.
ODES MODEBNAS 155
X V
Ha dous templos no espaço— um (T elles mais pequeno;
O outro, que é maior, está por c ima d'este;
T em por c upula o c éo, e tem por c andelabros
A lua ao oc c idente e o sol suspenso ao éste.
De sorte que quem 'stá no templo mais exiguo
Não pôde vêr nasc er o sol, nem pôde vêr
As estrellas no c éo — que os tec tos e as c olumnas
Nào o deixam olhar nem a c abeça erguer.
É prec iso abalar-llie os tec tos e as c olumnas
Por que se possa erguer a fronte até aos c éos...
E prec iso partir a Igreja em mil pedaços
Por que se possa vêr em c heio a luz de Deus!
18G4.
ODES MODERNAS
X V I
Pabres
(a joao de deus)
I
Eu quizera saber, ric os, se quando
Sobre esses montes de ouro estaes subidos,
V êdes mais perto o c éo, ou mais um astro
V os apparec e, ou a fronte se V 0 3 banha
C om a luz do luar em mór diluvio?
Se vos perc ebe o ouvido as harmonias
V agas do espaço, á noite, mais distinc tas?
Se quando andaes subidos nas grandezas
ODES MODERNAS
Sentis as branc as azas de algum anjo
Dar-vos sombra, ou vos roça pelos lá bios
De outro mundo ideal mystic o beijo?
Se, através do prisma de brilhantes,
V edes maior o Empyreo, e as grandes palmas
Sobre as mãos que as sustem mais luminosas,
E as legiões phantastic as mais bellas?
E, se quando passaes por entre as glorias,
O c arro de triumpho de ouro e sandalo,
Na c arreira que o leva não sei onde
Sobre as urzes da terra, borrifadas
C om o orvalho de sangue, ó homem fortes!
C orre mais do que o voo dos espiritos?
Ah! vós vêdes o mundo todo baço...
Pallido, estreito e triste... o vosso prisma
Não é vivo c rystal, que o brilho augmenta,
É o metal mais denso! e tão esc uro,
Que ainda a luz que vê um pobre c ego
Luzir-lhe em sua noite, e a phantasia
Em mundos ideaes lhe anda ac c endendo...
Esse sol de quem já não espera dia...
Ah! vós nem tendes essa luz de c egos!
Que! subir tanto... e estar c heio de frio!
Erguer-se... e c ada vez trevas maiores!
159
Homens! que monte, é esse que não deixa
V êr a aurora nos eéos ? qual é a altura
Que vela o sol em vez de ir-lho ao enc ontro?
Que azas são essas, c om que andaes voando,
Que só á s nuvens negras vos levantam?
C erto que deve ser o vosso monte
Algum poço bem fundo... ou vossos olhos
T em então bem estranha c atarata!
ODES MODERNAS
Ha á s vezes no c éo, c ahindo a tarde,
C ertas nuvens que segue o olhar do triste
V agamente a sc ismar... lia nuvens d'estas
Que o vestem de poesia e de esperança,
E lke tiram o frio d'este inverno
E o eneliem de esplendor e magestade...
Mais do que as vossas túnic as de purpura!
Eu, á s vezes, nas naves das igrejas
Lá quando desc e a luz c a alma sobe...
E entre as sombras perpassam as saudades.
E no seio de pedra tem o triste
11
ODES MODERNAS
Mil seios maternaes... eu tenho visto
Branquejar, nos desvão3 da nave obsc ura,
C omo as nuvens da tarde desmaiadas,
Uns branc os véos de linlio em frontes bellas
De umas pallidas virgens soismadoras,
Que, em verdade, não ha para c obrir-nos
À alma de mysterio e de saudade
Gaze nenhuma assim! V êde, opulentos,
C omo Deus, c om olhar de amor, as veste
A ellas, de uma luz de aurora mystic a,
De poesia, de únção e mais belleza
Que o véo tec ido c om o vello de ouro!
Os vossos c ofres tem thesouros, c erto,
Que um rei os invejá ra... Mas eu tenho
Às vezes visto o infante, em seio amado
De mai, dormir c oberto de um sorriso,
T ão guardado do mundo c omo a pérola
No fundo do seu golfo... e sei, ó ric os,
Que aquelle abrigo aonde a mai o fec ha
— Entre braços e seio — é prec ioso,
C erra um thesouro de mais alto preço
Que os thesouros que enc erram vossos c ofres!
r
1G3
Levitas do MILHÃO! o V 0 S80 c ulto
Pôde ter brilhos e esplendor e pompas...
Arrastar-se nas ruas da c idade
C omo um manto de rei... e sob os arc os
De má rmore passar, c omo em triumpko...
T er c olumnas de porfido luzente...
E ser o altar do vosso santuario
C omo o templo do Sol... c egar de luzes...
O vosso Deus pôde ser grande e altivo
C omo Baal... o Deus que bebe sangue...
Mas o que nunc a o vosso c ulto esplendido
Iia-de ter, c omo um véo para o sac rario,
A velar-lhe mysterios... é a poesia...
ODES MODERNAS
Esse mimo de amor... esses segredos...
O ingénuo sorriso da c riança...
O olhar das mães, espelho de pureza...
A flor que medra na soidão das almas...
O branc o lirio que, manhã e tarde,
Aos pés da V irgem, no oratorio humilde,
Rega a donzella, em vaso pobresinho!
Nunc a a vossa c ruz-de-ouro ha-de dar sombra
C omo a outra do Golgotha, —o allivio,
Sombra que busc am almas magoadas —
Onde os c ytisos pallidos rebentam...
C onsolações... saudade... e inda esperanças...
Podeis c avar... as minas são bem fundas...
C avai mais fundo ainda... ó já o c entro
Da terra, ahi! Mas onde, ó vós mineiros,
Por mais que profundeis não heis-de uma hora
C hegar jamais... é ao c oração...
E, emtanto,
É lá a únic a mina de ouro puro!
ODES MODERNAS
V I
O c oração! Potosi mysterioso!
O grande rio de areaes aurí feros,
Que vem de umas nasc entes ignoradas
Arrastando saphiras em c ada onda,
E depondo no leito finas pérolas!
O c oração! É ahi, ric os, a mina
Únic a digna de enterrar-se a vida,
C avando sempre alli... sem ver mais nada...
Foi lá , c omo na areia o diamante,
Que Deus deixou c ahir da mão paterna
As esmeraldas do diadema humano...
1(36
O Sentimento vivo... a Ac ção radiante...
E a -Idéa, o brilhante de mil fac es!
Foi lá que esse Mineiro dos futuros
Enc obertos andou c o'os braços ambos
Mettidos a busc ar—mas quando um dia
Do fundo as mãos ergueu... o mundo, em pasmo,
V iu-llie brilhar nas mãos... o Evangelho!
186 3.
ODES MODERNAS
X V II
Ãc c usação
(aos homens de sangue de vehsaiu.es em 1871)
Ergue-te em fim, J ustiça vingadora!
C orusque em breve a tua espada ardente!
Eu vejo a T yrannia omnipotente,
Em quanto ao longe a Piedade c hora...
Nasc e rubra do sangue eada aurora,
E o sangue ensopa a terra ainda quente...
É c ongresso de sangue o que esta gente
Abriu entre as nações, que o sangue irrora
Ante o altar enc oberto do Futuro
E ante ti, V ingadora, ac c uso e c ito
Estes homens de insidia e odio esc uro!
Endureça minh'alma, e c reia e espere,
C om um desejo estoic o e infinito,
Só na J ustiça que c ondemna e fere!
J unho dc 1871.
ODES MODERNAS
X V III
Ftelnuií euuí es
(AO SNR. ALEX ANDRE HERC ULANO)
T ambém sei, também sei o que são lagrimas
E sei quanto se deve
As c inzas dos Avós, quando as lançamos
Aos ventos do oc eano!
li
Eu fallo das ruinas do passado,
E de glorias futuras;
E meu peito está c heio de desejos
E aspirações immensas.
ODES MODERNAS
E solto o c anto, ébrio de esperanças,
Ao vêr a nova Aurora:
E ergo a fac e, e meus olhos são de c hamma,
Por saudar a J ustiça!
E ao vêr a grande Lei, que vem c orrendo
Pela enc osta dos tempos,
C omo c arro, e esmagando os tronc os velhos,
E desloc ando tudo;
Bato as mãos — porque o eixo d'esse c arro
É o braço da V erdade!
E o motor, que o impelle, é a c aldeira
Gigante do Progresso!
iii
Que muito que me esqueçam as tristezas,
Os ais dos que atropella
E esmaga a larga roda portentosa,
Em seu girar c onvulso?
ODES MODERNAS
Que só veja a vic toria, e não os mortos?
A Obra magestosa,
E nSo o c hão c avado, revolvido,
Onde tem alic erc es?
A pelle que a serpente vai largando,
E não as muitas dores?
E esses olhos que se abrem á verdade,
E não os que ella offusc a?
E, posto no c onvez da bella nave,
Que solta os largos pannos,
Em demanda de mundos enc obertos,
De mysterioso rumo,
E, mergulhando o olhar nos horisontes,
Busc ando nova Americ a,
Não ouça os ais saudosos dos que deixam
A patria, o berço, o ninho ?
Nem lembre, agora que a ruina é c erta,
(Revendo já na mente
Os palac ios-de-fadas, que hão-de erguer-se
De sobre esses destroços)
ODES MODERNAS
Os c orações, que estavam desc ançados,
E tinham travesseiro
E leito, no que vai ser revolvido
E ser despedaçado?
Os pendões que açoutavam, tremulando,
O ar, sobre os c astellos,
Que a J ustiça dos tempos vai agora,
C om mão rude, aluindo?
As c renças, que se herdaram? c as bebidas
Das mies no seio dôc e?
Essas louras c abeças, que sc beijam
Em sonho c ada noite?
E a c ruz, que c om seus braços, c ada dia,
Nos mostra a nossa estrada?
E o altar da nossa fé? e o berço amigo
Das illusões antigas?
ODES MODK RK AS
173
IV
T ambém sei o que é dor— e c omo as lagrimas
Sahem, arando o peito;
E o que é inc linar-se um triste, á s tardes,
Sobre gastas ruí nas!
E vêr os velhos idolos partidos;
E os pendões de outro tempo
Lambendo agora o c hão, c om o mesmo tope
Onde a gloria pousava!
E vêr-se só no inundo e c omo errante...
(C repúsc ulo das almas!)
Perdida a fé antiga, e ainda obsc uros
O Deus e os c ultos novos!
E não ter já o leito de inda hontem...
E não saber já agora
Se o peito do irmão, do pai, do amigo,
Ainda tem um nome!
174 ODES MODEBNAS
As almas, que c omo hera se enlaçavam
Ao c arvalho gigante...
As vidas, flores á antiga sombra
Nasc idas e medradas...
A tristeza do tempo... a dor dos séc ulos,
Que vão, c omo gemidos,
C ahindo e arrastando homens e c ousas...
Não se sabe a que abysmo!
v
Eu sei quanto se deve ao desamparo,
E âs tristezas profundas,
E âs saudades, que vem, c omo soluços,
Do fundo da historia!
Se sei o que é Aurora— essa poesia
Do que á luz vem nasc endo,
T ambém entendo o Oc c aso e as longas sombras...
— Poesia de ruinas ! —
ODES MODERNAS
V I
Immensa soledade e angustia immensa!
C omo Sião deserta,
C omo o Povo levado em eaptiveiro,
C omo os sós, c omo o exí lio!
V êde o que foi, e vêde o que é agora!
Os T hronos, lirios bellos
Nasc idos e medrando á sombra vasta
Da Igreja, essa arauc aria!
E o solo, em volta e ao longe, perfumado
Pelos lizes herá ldic os,
D'onde sahia o aroma grato aos povos...
O aroma do Heroí smo!
E o Povo—o c anavial humilde e tremulo,
Mas bom, porque era amado;
Porque as lagrimas d'elle eram o balsamo
C hamado Sac rifí c io!
ODES MODK BNAS
E as c renças, que brotavam aos c ardumes
D'esse c hão ferac issimo,
Onde Deus semeava (mão paterna!)
A Fé e a C aridade!
O Passado!—J ardim de sombra e aromas
C ota de c avalleiro,
E véo de santa e manto de sac rario!
—Mysterio e heroic idade —
O Passado! o Passado!—A nau gigante,
Firme, mas soc egada,
Porque a anc ora d'ouro que a 3ustinha
C hamava-se V irtude!
vxi
E agora... ok! agora... esta palavra c hora
Nos lá bios, quando os fere...
— Reflexo das grandezas que se somem
E ec ho das saudades —
ODES MODEBNAS 177
O solo soc ial todo alastrado
D'estes grandes destroços...
Um mysterio tristí ssimo pairando...
— Sombras entre ruinas—
O Presente disforme e c heio de iras,
E tremendo o Futuro...
O sol no oc c aso... os ventos gemedores...
E os c orações partidos!
V III
Quem não te havia amar, Igreja mystic a,
Magdalena do mundo,
Bella e piedosa em meio dos tormentos,
Ungindo os pés do C hristo?
E quem não ha-de agora dar-te lagrimas,
Ó triste pec c adora,
V endo o teu manto de ouro retalhado,
E mareida a c orôa?
12
ODES MODK K NAS
V endo os teus pés na borda já do abysmo,
E o hymno, o hymno santo,
Feito um threno de angustias e gemidos
E abafados soluços ?
E o vóo da virgindade agora feito
E talhado em sudá rio?
E a pompa feita agora saliimento?
E a c ruz c heia de luto?
Se eu não hei-de c horar!... Foi em teus br
Que dormi, ainda infante,
E, infante, me embalei ao som plangente
De teus hymnos sagrados!
T ive, c riança loura, por brinquedo
J asmins d'essa c oroa:
Deram-me sombra aos passos inda trémulos
Os teus longos c abellos!
E, quando ao seio maternal pendido,
Uma Lei soletrava
Nos olhos d'ella... eu lia nos seus olhos
T odo o teu Evangelho!
ODES MODEBNAS
179
E, balbuc iante ainda, me ensaiava
Dizendo uma palavra,
Ensinavam-me então os lá bios d'ella
A tua Ave-Maria!
Oh saudades! saudades ! Bem entendo,
Ó vós que estaes c horando,
O que estaes a c horar — são as saudades
D'essa immensa poesia!
Eu, filho de outros c éos e de outros c ultos,
Bem vos entendo o pranto;
E alevanto também meus olhos, húmidos
D'esta grande tristeza!
Bem vejo c omo hão-de ir as vossas almas
Desc endo na c orrente,
Que a leva a Ella— e a vós vos vai levando
Quanto tinheis de santo !
C horo— se hei-de c horar! — porque te vejo
T ão só, tão abatida,
E, Rac hel! ouço a voz que c hama os filhos...
Mas elles não respondem!
*
ODES MODERNAS
IX
E vós, T hronos, ó arvores gigantes!
Dormi, â vossa sombra,
Das c renças infantis o somno amigo...
C obristes-me a innoc enc ia!
Houve um tempo em que o c óo d'estes meus olhos
Era o doc ol de purpura!
Em que os brilhantes das c oroas regias
Me parec iam astros!
E, agora, vejo as pérolas manc hadas!
E está tudo partido!
E ha uma voz, que brada a tudo isto:
« Deu a hora ; sumi-vos! »
E ellc s vão—vai-se a arvore gigante...
Mas as raí zes d'ella
'Stavam fundas, c arranc am, levantando-se,
C orações gotejantes !
ODES MODERNAS
Ó c orações fieis! filhos da honra!
V estaes do fogo santo!
Eu bem entendo o vosso sac rifí c io
E o vosso desespero!
Porque é triste, bem triste essa ruina
—Ruina de dez séc ulos —
E vós tinheis alli a vossa vida,
E todo o vosso sangue!
x
Paladinos! — espadas de aço buido,
C orações de ouro fino ! —
Que eu vi, em volta de outro C arlos-Magno,
Outros Pares-de-França!
Ó lenda de Belleza e de Heroí smo,
Onde li, ajoelhado,
As c hronic as e os feitos de outra idade,
E soletrei as Glorias!
ODES MODERNAS
Ó valentes! tapai as vossas lagrimas
C om o punho das espadas!
C ahi, c omo se c alie sempre na pugna,
Dando um sorriso á morte!
V enc eu-vos, no torneio, espec tro estranho!
C ahi... erguendo os olhos
Á vossa Dama e ao vosso Deus... beijando
A c ruz da antiga c rença !
Da trompa de marfim, c omo Rolando,
T irai um som... o ultimo...
Que desperte as saudades d'esses ec hos,
No c hão dc Ronc esvalles !
E, agora, ac ompanhai o sahimento,
— V ossos velhos amigos —
Servi de guarda-d'honra, ó Paladinos,
E de esc olta ao Passado!
ODES MODERNAS 183
X I
Passado!! — Eu sei dar pranto a estas tristezas,
A estes restos saudosos
Do mundo velho. V ós, que estaes c horando,
São bellas essas dores!
Porque vós por altar, o fó, e c rença,
E sangue, e vida, e tudo...
T inheis tudo nos olhos d'esse enfermo...
E elle está c ondemnado!
X II
Nós damos â saudade o que é do tempo...
E á s c inzas esfriadas
Dos Avós damos honra e sahimento...
— O funeral das lagrimas! —
184
Depois, dvante! Os astros não se extinguem
Ha eéos e espaços novos!
Enterre-se o Passado c om piedade...
Mas o olhar... no Futuro!
X III
Se já desaba o tec to das Igrejas
E o doc el d'esses T kronos,
É porque um outro c éo maior nos c ubra...
O c éo da Liberdade!
186 4.
LIV RO pBrMurao
I — Pantheismo g
• II — A Historia .
m —A Idéa ' ]''
31
IV Pater gg
V — A uns politic os 55
V I — Dialogo. ... .J yV mlAfo "!!!!• 6 5"
V II — Luz do sol, luz da razão 0 7
V III —• Et c c elum et virtus 73
IX — T entanda via , 77
X — Mais luz! .. /SrQfa&fc á .... 85
LrV HO SEOUHBO
I — T hese e antithese.. ./yST X V }J c &: -. 89
II — Sec ol' si rinuova gj
III
C omo o vento á s sçmentes dp pinheiro 10 5
IV — J ustitia mater .. /Y lD?X a£> 10 7
18G
INDIIE
V —No T emplo • ,
10 9
V I — Palavras d'um c erto morto . H3
V II — Aos miserá veis H&
V III — A um C ruc ifixo Aí -WyC X -U 12 5
IX — Por mais que o mundo ac c lame os vãos trium-
phadores 12 7
X — Sombra
12 9
X I — C armen legis 133
X II — A espada inexorá vel, que flammeja 141
X III — V ersos c sc riptos n'um missal 143
X IV — Á Europa
147
X V — Ha dous templos no espaço 155
X V I — Pobres
157
X V II — Ac eusação I®
7
X V III — Flebunt euntes
i6 9