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PSICOLOGIA, SAÚDE & DOENÇAS, 2011, 12(2), 267-279

O ESTADO PONDERAL E O COMPORTAMENTO ALIMENTAR DE CRIANÇAS E JOVENS: INFLUÊNCIA DO PESO E DAS ATITUDES DE CONTROLO DA MÃE Victor Viana (victorviana@fcna.up.pt), Tânia Franco, & Cecília Morais Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto, Porto, Portugal.

RESUMO: O estado ponderal das mães e o dos filhos encontra-se relacionado, o que apela à intervenção de factores hereditários e de factores ambientais como: hábitos alimentares, as atitudes perante os alimentos e estratégias de controlo da alimentação dos filhos. O objectivo desta investigação foi verificar a associação entre o estado ponderal das mães, as atitudes de controlo da alimentação dos filhos, e o comportamento alimentar e o estado ponderal dos filhos. Os participantes foram 204 mães e respectivos filhos de idades entre os 6 e 13 anos. As mães forneceram o seu peso e a altura sendo calculado o Índice de Massa Corporal (IMC), responderam ao Questionário Alimentar para Crianças (CFQ) e ao Questionário do Comportamento Alimentar da Criança (CEBQ). Os filhos foram pesados e medidos, foi calculado o IMC depois transformado em Z Score. Os resultados mostram que, em ambos os sexos, o IMC das mães, as suas atitudes de controlo alimentar e dimensões do comportamento alimentar dos filhos se associavam ao estado ponderal das crianças. As conclusões têm implicações no aconselhamento e intervenção em crianças e jovens em risco de obesidade e obesos, e suas mães. Palavras-chave: Comportamento alimentar, controlo alimentar, estado ponderal, obesidade, crianças e jovens. CHILDREN'S WEIGHT STATUS AND EATING BEHAVIOUR: INFLUENCE OF MOTHER'S WEIGHT AND FEEDING ATTITUDES ABSTRACT: The weight status of mothers and their children is related, calling for the involvement of hereditary factors and environmental factors, such as: food habits, the attitudes towards food and the child feeding control strategies. The purpose of this study was to investigate the association between weight status of mothers, the attitudes to control child feeding, and eating behavior and weight status of children. Participants included 204 mothers and their children aged between 6 and 13 years. The mothers provided data regarding their weight and height in order to calculate the Body Mass Index (BMI), answered the Child Feeding Questionnaire (CFQ) and the Child Eating Behaviour Questionnaire (CEBQ). The children were weighed and measured; the BMI was calculated and then transformed into Z-Score. Results show that for both sexes, the weight status of children was associated with the BMI of the mothers, mother’s attitudes to control child feeding, and dimensions of the children’s eating behavior. The conclusions have implications for counseling and intervention in children and youth at risk for obesity and obese, and their mothers. Key-words: Feeding attitudes, eating behaviour, weight status, obesity, children and youth.

Recebido em 1 de Junho de 2011/ Aceite em 10 de Dezembro de 2011

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Se esta prática das mães for habitual. Stein. é geralmente a mãe quem mais frequentemente se ocupa da alimentação dos filhos. Contento. et al. tendo como consequência a desregulação da ingestão energéticas conforme as necessidades. a pressão 268 . em Portugal a prevalência estima-se em 31. a própria história alimentar da mãe e preocupações com a saúde dos filhos. por exemplo os que decorrem da grande importância atribuída pelos mass media à nutrição e o preconceito social a propósito da obesidade. Scaglione. Cecil. impõem aos especialistas a necessidade de estratégias de prevenção mais eficazes. Embora não seja possível estabelecer uma relação de causa – efeito. . Clark.g. Fernandes. podem contribuir para a desregulação da ingestão promovendo o desequilíbrio entre necessidade e ingestão e tendo como consequência a obesidade (Farrow & Blissett.restritivas. Johnson & Birch. e as dificuldades em implementar mudanças socioeconómicas e comportamentais que permitam o controlo da situação. Os desafios colocados pela obesidade. & Zybert. Ventura & Birch. Este efeito verifica-se na medida em que estas atitudes poderão.pressão para comer. Candeias. 1991). para se regularem por estímulos externos como a presença de alimentos. Rego.INFLUÊNCIA DO PESO E DO CONTROLO DA MÃE EM CRIANÇAS E JOVENS O excesso de peso e a obesidade têm aumentado de forma assustadora nos países desenvolvidos. Os países do sul da Europa estão entre os que apresentam maior taxa de crescimento desta patologia. Entre estes contam-se: factores culturais. 2005. Algumas mães. implica pressão para ingerir alimentos mais saudáveis (frutas. As atitudes dos cuidadores. & Klesges. Bissel. Seja porque comeram o que sentiram como necessário e estão satisfeitos. o sabor etc. Moreira.. Nos últimos anos a investigação tem-se focalizado nas atitudes de controlo dos pais face à alimentação dos seus filhos (Viana. exigem que os filhos comam quando mesmo quando estes já não têm fome.vigilância ou controlo discreto (monitorização) implicam estar atento aos hábitos alimentares dos filhos e atitudes subtis de controlo tais como: não comprar para casa alimentos menos saudáveis e agir como modelo promovendo refeições saudáveis (Klesges. As atitudes de controlo têm sido classificadas (e. Entre estes últimos destacam-se o comportamento alimentar e os baixos níveis de actividade física. então é de esperar que estas crianças deixem de ser reguladas pelos mecanismos inatos de fome e saciedade. contribuir para a confusão entre os indícios internos de fome e da saciedade e os estímulos externos como a aparência e o gosto. 2009. enquanto que. Eck. 1992). vegetais. etc. principalmente em termos de saúde. envolvem a exclusão dos alimentos considerados menos saudáveis e redução da quantidade ingeridas pelos filhos. 2006. . Entre as principais causas do peso em excesso contam-se factores genéticos e factores ambientais. & Galimberti. & Silva. 2007). (Birch & Fisher. 2008). Blank.5% (Padez.) e mais quantidades. Isbell. & Rosado. Mourão. Goyder. As atitudes das mães face à alimentação dos respectivos filhos dependem de diversos aspectos. 2008) como: . Shea. em todas as idades mas. pelo contrário. 2004). seja porque simplesmente não lhes apetece. Basch. Salvioni. 2000. particularmente entre crianças e jovens. Stein. provavelmente por razões culturais. 1994. em alguns casos. & Peters. as atitudes restritivas surgem associadas a maior peso da criança.

As atitudes de controlo subtil e mais discreto (monitoring) parecem associar-se a um estado ponderal mais saudável. MÉTODO Participantes A amostra acidental foi obtida em escolas de ensino secundário da área do Porto. van Strien. Pretendemos verificar se o estado ponderal das mães se associa às suas atitudes face à alimentação dos filhos. Quadro 1 Características da amostra 269 .VICTOR VIANA.g. 2008). Niekerk. No entanto foram excluídos 34 sujeitos cujos questionários não se encontravam totalmente preenchidos. 204 mães que se dividiam em grupos iguais no que ao sexo dos filhos dizia respeito. tendo em conta o factor sexo. 2009). No Quadro 1 podem observar-se as características da amostra (mães e filhos). A associação entre as atitudes dos cuidadores e o peso dos filhos deve ser entendida no contexto de uma relação bidireccional entre estes factores (Ventura & Birch. b) investigar um modelo de associação destas variáveis. e considerando o estado ponderal das crianças e jovens como variável dependente. O grupo inicial era composto por 292 mães e os respectivos filhos de ambos os sexos. com idades entre os 6 e os 13 anos. Este trabalho tem como objectivo investigar qual a influência de alguns determinantes ambientais maternos no comportamento alimentar e no estado ponderal em crianças e jovens de ambos os sexos. & Ouwens. Restaram. Assim. TÂNIA FRANCO. foram objectivos específicos da investigação: a) conhecer as atitudes de controlo das mães face à alimentação dos seus filhos em função do sexo destes e o comportamento alimentar das crianças e jovens. então. Foram critérios de exclusão a mãe ter menos que o 4 º ano de escolaridade e a criança ter uma doença crónica. & CECÍLIA MORAIS para comer se associa a menor peso (e. e se ambos estes factores se encontram relacionados com o comportamento alimentar e o estado ponderal dos filhos. dos dois sexos.

o comportamento de crianças e jovens em contexto alimentar. responderam ao CFQ e ao CEBQ. Selectividade alimentar (FF). As restantes avaliam as atitudes de controlo dos pais com respeito à alimentação dos filhos e são: Restrição (RST) (8 itens). as crianças foram pesadas e medidas. foram calculados os IMC e os respectivos Z scores. 2008). são elas: Percepção da responsabilidade dos pais pela alimentação dos filhos (PR) (3 itens).INFLUÊNCIA DO PESO E DO CONTROLO DA MÃE EM CRIANÇAS E JOVENS Instrumentos O Questionário Alimentar de Crianças (Child Feeding Questionnaire . Procedimentos Tendo sido seleccionada a amostra. & Johnson. Resposta à saciedade (SR). 2011). Monitorização (MN) (3 itens). Desta validação obteve uma estrutura factorial que diferia da original no seguinte: a subescala de Restrição (RST) subdividia-se em duas. Todas as siglas utilizadas a propósito do CFQ e do CEBQ são as utilizadas internacionalmente e referem-se às iniciais das denominações em inglês.CFQ) (Birch. Percepção do excesso de peso dos filhos (PCW) (6 itens). pois é pedida a avaliação do estado ponderal ao longo de diferentes níveis etários relacionados com os anos de escolaridade. e Preocupação com o excesso de peso dos filhos (CN) (3 itens). 270 . 2001). O instrumento foi desenvolvido para estudar o estilo alimentar das crianças e jovens no contexto da obesidade (Wardle. Guthrie. 2001) original é composto por 31 itens que se distribuem por 7 subescalas. Obtidas as autorizações. Franco & Morais. Inclui oito dimensões relacionadas com o apetite que são: Prazer na comida (EF). com 2 itens (Viana. Percepção do excesso de peso dos pais (PPW) (4 itens). O número de itens respondidos na subescala PCW varia conforme a idade destes. O CFQ foi já validado para amostras portuguesas (Viana & Franco. a outra Comida recompensa (FRw) que se refere à utilização da comida como recompensa de outros comportamentos. Todos itens são cotados numa escala de Lickert de 5 pontos. O Questionário do Comportamento Alimentar de Crianças (Child Eating Behaviour Questionnaire . Sub-ingestão emocional (EUE) (perante os factores emocionais o sujeito perde o apetite e come menos do que o habitual) e Ingestão lenta (SE). forneceram o seu peso e a altura de modo a calcularmos os IMC. uma Restrição com 6 itens. Neste trabalho utilizou-se esta versão que inclui 8 subescalas. Sawyer. Resposta à comida (FR). Fisher. Markey. 2010). Sanderson. Pressão para comer (PE) (4 itens). Grimm-Thomas.CEBQ) é composto por 35 itens que avaliam. e Sobre-ingestão emocional (EOE) (perante a acção de factores emocionais o sujeito tende a comer mais do que o habitual) e Desejo de bebida (DD). discrimina o comportamento alimentar de crianças com diferentes estados ponderais (Viana. As mães responderam a algumas questões demográficas de modo a ser caracterizada a amostra. Sinde & Saxton. foram desencadeados os procedimentos do consentimento informado às mães. Quatro subescalas avaliam o risco e preocupação com o peso.& Rapoport. numa escala de Likert.

Quadro 2 No Quadro 3 podem verificar-se os resultados das atitudes maternas de controlo da alimentação dos seus filhos. No Quadro 2 podem verificar-se os resultados relativos às variáveis demográficas e do estado ponderal (IMC das mães e Z score do IMC das crianças). Também neste caso. ou entre os resultados obtidos pelas crianças do grupo masculino versus grupo feminino. não foram estatisticamente significativas. através do teste “t” de Student. RESULTADOS Os resultados das diversas variáveis foram separados em função do género das crianças e jovens e verificada a existência de diferenças. 271 . apenas os resultados da subescala PE (Pressão para comer) são estatisticamente diferentes quando separados por sexos. Como se observa neste quadro. Foi realizada a análise comparativa em função dos sexos dos filhos através do teste de “t” de Student e a análise de regressão linear. Tal como se observa.VICTOR VIANA. as diferenças entre os resultados das mães divididas em função do sexo dos seus filhos. & CECÍLIA MORAIS O tratamento estatístico implicou o cálculo de médias e desvios padrão dos resultados das subescalas do CEBQ e do CFQ. o resultado mais elevado é o obtido no grupo feminino. TÂNIA FRANCO. obtidos nas subescalas do CFQ. Constata-se que os grupos constituídos em função do género dos filhos são equivalentes no que diz respeito aos factores demográficos e “estado ponderal”.

Todas as 272 . método “stepwise”. Quadro 4 Notas nas subescalas do CEBQ por sexos das crianças (Médias e Desvios Padrão): Análise comparativa.INFLUÊNCIA DO PESO E DO CONTROLO DA MÃE EM CRIANÇAS E JOVENS Quadro 3 Notas nas subescalas do CFQ por sexos das crianças (Médias e Desvios Padrão): Análise comparativa. tomando como variável dependente o Z score do IMC das crianças e jovens. sendo que os resultados obtidos em ambas pelo grupo feminino são os mais elevados. Os resultados da regressão linear. apresentam-se nos quadros seguintes. Neste quadro constata-se que são estatisticamente diferentes em função do sexo os resultados das subescalas: SR (Resposta à saciedade) e SE (Ingestão lenta). Os resultados sobre o comportamento alimentar dos filhos descrevem-se no Quadro 4 e dizem respeito as notas das diversas subescalas do CEBQ.

No Quadro 5 estão os resultados do grupo masculino. respectivamente. Pode verificar-se que o modelo final aceitou como determinantes do Z score do IMC dos rapazes os factores: FR (Resposta à comida) e SE (Ingestão lenta). RST (Restrição) e MN (Monitorização) do CFQ.074 e p=0. escolaridade e IMC. p=. no do género masculino.54 (N=102. RST (Restrição) e MN (Monitorização) do CFQ. e ainda o IMC das mães. Nos quadros apresentam-se os resultados relativos ao modelo final. fora dos limites de significância. O 273 . entre outros.VICTOR VIANA. Variável dependente "Z score do IMC". estes apresentam valores de p=0. & CECÍLIA MORAIS variáveis do estudo (idade da mãe. sexo masculino R²=. ainda. Variável dependente "Z score do IMC". o IMC das mães e. Os determinantes do Z score do IMC das raparigas foram os factores: FR (Resposta à comida). ambos do CEBQ. TÂNIA FRANCO.138. os factores FR e SE (Quadro 5).016) No Quadro 6 estão os resultados da regressão linear relativa aos resultados do grupo feminino. PE (Pressão para comer). Quadro 5 Regressão linear. Quadro 6 Regressão linear. sexo feminino É de realçar que apesar de o modelo de regressão ter seleccionado como determinantes do Z score do IMC. idade das crianças. SR (Resposta à saciedade) e SE (Ingestão lenta) todos do CEBQ. PE (Pressão para comer). escolaridade e resultados nas diversas subescalas do CEBQ e do CFQ) foram consideradas como factores a incluir nesta análise.

corresponderá a diferenças socioculturais relacionadas com as representações da obesidade. são estatisticamente idênticas. O mesmo se verifica comparando as características do grupo de crianças. observam-se diferenças significativas apenas entre os factores Resposta à saciedade (SR) e Ingestão lenta (SE). Os determinantes negativos foram a Resposta à saciedade (SR). Quando comparamos o comportamento alimentar dos jovens em função do sexo. DISCUSSÃO As características do grupo de mães. do ponto de vista do género seriam de esperar diferenças entre os resultados de outros factores do CEBQ (Wardle.. Monitorização (MN) e IMC da mãe. em que os valores mais elevados se encontram nas raparigas. Pressão para comer (PE) e Monitorização (MN) foram factores negativos. escolaridade e IMC. dos dois sexos. Comparando as atitudes das mães face à alimentação dos filhos versus das filhas. No entanto. Estes resultados de p indicam que tomados individualmente estes determinantes não têm um peso significativo na variável dependente. Os resultados da presente investigação não diferem muito dos resultados de outras investigações (Viana & Sinde. idade. os factores contemplados no modelo Resposta à comida (FR). No sexo masculino.078) e SE (p=0. isso não se verificou.074) (Quadro 6). Esta preocupação está presente nos próprios e. Em geral as atitudes e preocupações com o peso são maiores entre as raparigas de todas as idades do que entre os rapazes.INFLUÊNCIA DO PESO E DO CONTROLO DA MÃE EM CRIANÇAS E JOVENS mesmo acontece no género feminino com as dimensões SR (p=0. 274 . agrupados com as demais variáveis. idade. Há que ter em conta que os factores FR e SE no modelo do género masculino e SR e SE no género feminino só tem relevância quando considerados no modelo no seu todo. escolaridade e Z score do IMC. também. No entanto. Ingestão lenta (SE). IMC da mãe e Restrição (RST) foram determinantes positivos. Ingestão lenta (SE) e a Pressão para comer (PE). verifica-se que apenas no que respeita à Pressão para comer (PE) as diferenças são estatisticamente significativas. 2001). Embora se esperasse que também a Preocupação com o peso (CN) e Restrição (RST) apresentassem diferenças significativas. contribuem de modo significativo enquanto determinantes do estado ponderal (o que é demonstrado pelo valor de R²). A análise de regressão foi realizada com o objectivo de se investigarem diferenças entre os géneros relativamente ao modo como o estado ponderal da mãe. nos pais. dada a diferente importância atribuída pelos pais ao peso das raparigas versus o dos rapazes. e uma vez estabelecidas a associação entre o peso e o comportamento alimentar. et al. Esta semelhança entre as características dos dois grupos permite concluir que se trata de grupos equivalentes relativamente às variáveis demográficas e de estado ponderal. No modelo do sexo feminino há a assinalar como determinantes positivos: Resposta à comida (FR). 2008). sendo as mães das raparigas as que exercem maior pressão. as suas atitudes de controlo e o comportamento alimentar dos jovens se associavam ao estado ponderal destes. quando separadas pelo género dos filhos.

Birch. Esta relação traduzirá a influência de factores genéticos no peso. Janssen. & Gibson. nesse caso ser vista como consequência do baixo peso. apontadas como um contributo para o excesso de peso. A criança teria assim dificuldade em parar de comer uma vez saciada. A restrição parece implicar uma maior apetência pelos alimentos “proibidos” ou eliminados da dieta. A primeira reflecte uma grande sensibilidade à comida e sugere uma ingestão determinada.. a pressão para comer teria como consequência a perda da sensibilidade aos sinais internos de fome e saciedade. 1991). provavelmente reflecte ainda características "obesogénicas" do ambiente. 2009). Neste. 2008. Quanto mais peso mais as mães procuram controlar a ingestão energética. Vogele. & van Strien. traduz um mecanismo de controlo da ingestão mais eficaz porque menos autoritário e mais discreto. A pressão para comer exercida pelas mães associa-se ao baixo peso dos filhos. Factores responsáveis pela transmissão transgeneracional da obesidade (Brown. Spruijt-Mertz. 2011). Restrição (RST) foi determinante positivo do estado ponderal no sexo masculino mas não se encontra no modelo feminino. As atitudes restritivas surgem frequentemente associadas à desinibição alimentar e à ingestão emocional a ao peso em excesso (Joyce & Zimmer-Gembeck. 2004. & Davison. MN é uma atitude da mãe. Ou seja. maior pressão associa-se a menor Z score do IMC. A pressão para que a criança ingira mais ou alimentos mais saudáveis traduz-se frequentemente na recusa desses alimentos. Joyce & Zimmer-Gembeck. Engels. 275 . No entanto. Lindquist. uma estratégia de controlo do baixo peso onde este já se verifique e. Fisher. Snoek. 1999). No caso de esta ser uma atitude frequente. nos rapazes as atitudes restritivas da mãe estão mais presentes quando o peso destes é mais elevado. cheirar a comida. 2003. Fisher & Birch. Klesges. também. ela poderá resultar em atitudes neofóbicas ou grande selectividade alimentar. Faith. encontrando-se esta relação bem documentada (Birch. também. envolvendo hábitos alimentares da casa. Birch. Verificam-se pequenas diferenças entre os modelos de regressão nos dois sexos. Ogden. atitudes de controlo.. Para van Strien e Brazelier (2007). A segunda dimensão reflecte desinteresse pela comida e menor envolvimento na refeição (Viana. 2009. 2007. O estado ponderal da mãe (IMC) está associado ao estado ponderal dos filhos de modo esperado (mães com maior IMC . Esta atitude tem sido identificada como um determinante do baixo peso. 2002. passando a ser regulada por factores externos ou pelas emoções. & CECÍLIA MORAIS As dimensões FR e SE. Scanlon. & Saxton. envolvendo o disponibilizar de alimentos mais saudáveis e a aprendizagem por modelagem (Klesges. et al. Francis. 1991). o factor Resposta à saciedade (SR) teve um impacto negativo e não se encontra no género masculino. Sinde. PE aparece como um determinante do estado ponderal numa relação inversa. et al.filhos maior Z score do IMC). do comportamento alimentar encontram-se associadas de modo inverso ao estado ponderal. A PE poderá ser. & Sherry. é de notar que as atitudes restritivas são. Provavelmente a relação entre a pressão para comer e o baixo peso serão bidireccionais. TÂNIA FRANCO. Fisher. pois traduz-se em recusa dos alimentos (Brown. atitudes em relação ao peso e à obesidade. 2008). Fisher & Birch.VICTOR VIANA. 2002. não pela saciedade ou pela fome. mas por indícios externos como ver. et al. & Goran.

e o controlo do peso (Carnell & Wardle. Os procedimentos estatísticos não permitem extrair uma estrutura de interacções de modo a se perceber uma relação hierárquica entre os diversos determinantes. Esta hipótese carece ainda de confirmação. Apesar de tudo. As escolhas dos pais constituem modelo para as escolhas dos filhos. 276 . e mães. de modo categórico. 1054-1061. As mudanças nos hábitos alimentares de crianças e jovens têm que ser antecedidas por mudanças no ambiente familiar. REFERÊNCIAS Birch. tal como para os demais domínios no contexto familiar e extra-familiar. devem permitir que estes escolham entre os alimentos disponíveis assim como decidam sobre as quantidades. Do ponto de vista da prevenção primária. será por isso. As ligeiras diferenças verificadas entre os modelos de regressão nos dois sexos sugerem um processo mais adaptado no caso do género feminino. estas atitudes contribuirão. American Journal of Clinical Nutrition. & Fisher. L. Como conclusões desta investigação. (2000). para a promoção de um comportamento alimentar das crianças e jovens característico. Por sua vez. este com implicações directas no estado ponderal. ou em risco de obesidade. no entanto. 71(5). que se coloque a hipótese de que o peso da mãe (e as preocupações inerentes) influencie as atitudes de controlo face à alimentação dos filhos. Os resultados permitem.. importa realçar que atitudes rígidas. Os resultados têm implicações para o aconselhamento e intervenção em crianças e jovens obesas. Mothers child feeding practices influence daughters eating and weight. O. Desde logo a compreensão de que o comportamento alimentar dos filhos depende. também. um caminho a explorar. que estas dimensões comportamentais actuam de modo muito diferente entre os dois sexos. 2007). os pais deverão providenciar alguma supervisão no domínio da alimentação.INFLUÊNCIA DO PESO E DO CONTROLO DA MÃE EM CRIANÇAS E JOVENS Nas raparigas a "Resposta à saciedade" (SR) poderá traduzir uma melhor capacidade para regular a ingestão energética conforme a fome ou as necessidades. ou restritivas (excluir drasticamente os alimentos mais energéticos) têm geralmente o efeito oposto ao pretendido. Constata-se que entre os determinantes do estado ponderal de crianças e jovens se contam o estado ponderal das mães. provavelmente. algumas das suas atitudes de controlo alimentar dos filhos e o comportamento alimentar destes. realçamos que as pequenas diferenças encontradas entre os resultados associados ao género feminino e a masculino não são consistentes com a bibliografia e não confirmam. É consensual a sugestão de que os pais devem ter em casa alimentos saudáveis e fornece-los aos filhos. tais como forçar para comer os alimentos mais saudáveis. J. por isso é fundamental incluir os pais no processo de intervenção na obesidade. Este mecanismo é associado na bibliografia a uma resposta melhor adaptada tendo em conta uma ingestão realizada em função dos indícios internos de fome e saciedade. do comportamento alimentar das mães. 2008. L.

Restricting access to foods and children’s eating. 32.. Parents and children's adiposity and eating style. Klesges. Pediatrics. Bissel.... (2008)... (2008). Scanlon. 302-308. 15 (1). J. Francis.. Wrieden. 226-231. Parent feeding restriction and child weight. K. Carnell. 36. M. 201-220. Fisher. Energy intakes of children after preloads: adjustment. Obesity Research. S. J. American Journal of Clinical Nutrition. L. O. Cecil. S. & Birch. 100-106. 50.. (2006). Palmer. R. & Klesges. (2007). 277 . Does maternal control during feeding moderate early infant weight gain? Pediatrics. L. L.. C. C. 53(4).. K. (2005). 215-220. L. The role of parental control practices in explaining children’s diet and BMI. & Blissett. R.. 405–419. D. 132-141. (2004). Grimm-Thomas.. J. L. Bolton-Smith. Reynolds. 1711-1722. Eating in the absence of hunger and overweight in girls from 5 to 7 y of age.. 94(5). 47. J.. 1-13. & Birch. K. origins and implications for intervention. Appetite. I. Markey.. W. Blank.. J. Ogaden. Eck. 726–734 Johnson. A.. C. P. L. Fisher. Ogden. & Zimmer-Gembeck.. & Sherry.. (1991). & Wardle. Clark.. American Journal of Clinical Nutrition. Birch. American Journal of Clinical Nutrition. 252-259. Vogele. J. How do parents’ child-feeding behaviour influence child weight? Implications for childhood obesity policy. K. M. J. Faith. 82.. not compensation.. Confirmatory factor analysis of the Child Feeding Questionnaire: A measure to parental attitudes. 653–661. (1999). C. J. Fisher. L. R. Appetitive traits and child obesity: measurement. 137-144.. TÂNIA FRANCO.. Joyce. L.. American Journal of Clinical Nutrition. & Smith.. B. beliefs and practices about child feeding and obesity proneness. Wallis.. Journal of Public Health.VICTOR VIANA. (2009). 52. Birch. Fisher. S. Brown. Appetite.. Murrie.. 29(2). (2001).. E. (2006). Isbell. (2007). The mediating role of child disinhibited eating and the moderating role of the parenting context. L. M. Proceedings of the Nutrition Society. & Davison. & Peters. Appetite. & Wardle. E. Obesity.. P. (2002). Parent-child feeding strategies and their relationships to child eating and weight status.. T. C... J. & Hetherington. Goyder. Stein.. L. & Gibson. & Birch. (2003). e293–298. & CECÍLIA MORAIS Birch. Learning to overeat: Maternal use of restrictive feeding practices promotes girls eating in the absence of hunger. 12. Carnell.. Farrow. 118(2). 76. Appetite. (1994).. Associations between multiple measures of parental feeding and children’s adiposity in United Kingdom preschoolers. 78(2). J. J. Sawyer. R. & Johnson. Expanding the concept of parental control: A role for overt and covert control in children's snacking behaviour? Appetite. Parental influence on food selection in young children and its relationships to childhood obesity. Watt. S. H. 859–64.

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