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MATRIZES ESTÉTICAS: O ESPETÁCULO DA BAIANIDADE¹

A noção de matriz estética que dá título a esta palestra tem como base a ideia de que é possivel definir-se uma origem social comum, que se constituiria, ao longo da hist6ria, numa família de formas culturais aparentadas, como se fossem "filhas de uma mesma mãe", identificadas por suas características sensoriais e artísticas, portanto estéticas, tanto num sentido amplo, de sensibilidade, quanta num sentido estrito, de criação e de compreensão do belo. Esse duplo e interligado entendimento, digamos, matrilinear, se inscreve na tradiçãoo filosófica alemã do século XVIII, cujos padrinhos seriam Emmanuel Kant (1724-1804), com sua estética transcendental, e Alexander Baumgarten (1714-1762), com sua concepção de estética como ciência do belo.
1. 0 presente texto é resultado parcial de um projeto integrado de pesquisa desenvolvido no período de agosto de 1997 a julho de 1999, que gerou inúneros bancos de dados sobre espetáculos de teatro e de dança produzidos por 12 grupos de artes cênicas na Bahia, a1ém de análises, relatórios, publicações, duas dissertações de mestrado e um novo projeto integrado de pesquisa, intitulado Etnocenologia no Nordeste: Dramaturgia e encenação (para 0 qual este texto constitui em termo de referência), sempre com financiamento da CNPq, a quem devo sinceros agradecimentos. Intitulado Etnocenologia, culturas e encenação na cidade da Bahia, 0 primeiro projeto integrado de pesquisa que tive a honra e 0 prazer de coordenar, contou com urna grande equipe: docentes do Programa de Pós-Graduação em Artes cênicas da Universidade Federal da Bahia - os doutores Sérgio Farias, Leda Iannitelli, Suzana Martins, Ciane Fernandes e Ewald Hackler; e os pesquisadores do Grupo Interdisciplinar de Pesquisa e Extensão em Contemporaneidade, Imaginário e Teatralidade - Gipe-ClT, também da UFBA -particularmente os bolsistas de aperfeiçoamento Ana Luiza Friedmann, Cleverson Suzart e Urânia Maia - e os bolsistas de Iniciação Cientifica Andrá Mustafá, Cecília Ferreira, Renata Duarte, Tatiane Canário, Iara Vilaça, Dilson Costa, Zaida Amade e Marconi Araponga, todos esses, alunos dos cursos de graduação das escolas de teatro e de dança da UFBA, a quem também devo calorosos agradecimentos. Agradeço ainda aos colegas participantes dos ciclos de palestras

mais ainda que as roças dos terreiros de candomblé na Bahia). 4. geográficos e climáticos. por exemplo). poderíamos. Para configurarmos um conjunto de matrizes estéticas que. (no sentido clássico da antropologia como estudo sistemático do homem.Inicialmente. paralelamente. Considerando a amplitude da tel11atica e de sua abordagem. numa gradação ate os tabus (percepção olfativa em espaço consultivo-social. esperando que seus leitores revelem a eventual dificuldade de leitura que essa opinião poderá acarretar. de um modo muito geral e correndo o risco da generalidade inespecífica. pensar em uma matriz estética baseada na oralidade e em outra baseada na comunicação escrita. por enquanto. Sugestão do antropó1ogo de Palo Alto (EUA) Edward T. poderia ser subdividida em duas matrizes. que seria a proxêmica. olfativo. recorremos a uma proposição norte-americana dos anos 60. Cuernavaca. derivando fundamentalmente do grego clássico. a estreita associação entre visão e razão. o Campo Grande) são feitos para o deleite. uma tendo como referência a escrita definida . gerando. por outro lado. A matriz divina – ou sagrada – já se trata de uma referência interna à multiplicidade dos discursos humanos. teria um papel mais importante a desempenhar. estudante de graduação da Faculdade de Comunicação da UFBA).2). mas produzido nos anos 80. consultivo-social e pública) e de comunicação sensorial. Morelos. em contato de transculturação entre si. “um cheiro”? Em registro semelhante ao da proxêmica. entre a Europa e o Oriente.grosseiramente . a ambiência da oralidade original e a compreensão mais completa possível da temática tratada. que nos engloba e compreende. as ciências cognitivas)/do homem A partir de pesquisas de campo em diversos países. que dão conta. Ver Berque. por sua vez. primordialmente. constituída na interface das ciências da vida (o universo semântico da biologia. Vale salientar. por um lado. nas culturas de regiões tropicais e litorâneas. e em última instância. em comparação com os ingleses e os alemães. 1966: 126-7). O quadro é detalhado e contém marcos precisos em metros e centímetros (HALL. Hall. da visão. . como as anglo-saxônicas. do simbólico e da vivência multissensorial. para quem os jardins de modelo francês e também inglês (como é o caso. enquanto que os jardins japoneses apelariam para um espectro sensorial mais abrangente. segundo o antropólogo. ou mais extensamente no Nordeste brasileiro. Uma primeira obra em língua portuguesa dedicada a essa questão foi publicada pela editora Annablume (São Paulo: 1998): Etnocenologia textos selecionados.2. realizado em São Paulo de 15 a 17 de setembro de 1999.como fonética (que. ainda. trazem também uma comunicação de nossa autoria dedicada aos aspectos epistemológicos e metodo1ógicos do que poderá vir a ser uma cenologia geral. definiriam as artes baianas do espetáculo. que muito contribuíram com seus comentários e reflexões para as conclusões aqui apresentadas. compreendendo a filosofia. este texto encontra-se copiosamente repleto de notas (35). de uma disciplina voltada para 0 estudo dos usos do espaço e dos sentidos em situação de comunicação em 2 diferentes culturas. criando amplas possibilidades de zonas de sombra e de correntes de ar para o gozo cinestésico e térmico. no momento. Bahia. Os anais do I Congresso Brasileiro de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas. Tendo como variantes aspectos lingüísticos e religiosos. 1998.2 e 1999. recebesse. nossa matriz estética maior é a humana. Hall estabelece um quadro comparativo de classificação de distâncias progressivamente mais amplas (íntima. em primazia. de uma reedição revisada e ampliada. e mais largamente ainda a da vida animal. e não a considerarmos aqui. 1982 e também 1986. na linhagem de Kant e de Claude Lévi-Strauss. com seus obstáculos a perspectiva visual de grande alcance.4 Aí também a olfação. o que poderia nos levar a afirmar que os jardins da Europa ocidental seriam mais "racionalmente organizados" que os japoneses (ou. a faixa de variação em termos de distância pessoal confortável seria maior que em outras culturas. Brasil/l997). Esta ultima. Edward T. um estudo comparativo das sensibilidades francesa c japonesa centrado em questões urbanísticas e lingüísticas e belamente oferecido pelo geógrafo Augustin Berque. a respeito de um dos obejtivos originais do projeto. esses (em ambos os casos) mais organizados em função da irnaginação. a caracterização da baianidade. passaria pelo latim. Esse autor demonstra que. E isto visando contribuir para a construção de uma etnociência das práticas e comportamentos humanos espetaculares organizados. regional. França/1995. Assim. México/1996 e Salvador. das inúmeras digressões que ocorreram quando da realização da palestra e. que seria a etnocenologia termo forjado em Paris em 1995 e motivo da realização de três co1óquios internacionais (Paris. por exemplo. Escrito a partir de uma palestra (gravada em fita magnética e transcrita pela bolsista de Iniciação Científica do Gipe-CIT Juliana Gutmann. a sociologia do conhecimento e a hermenêutica)/ da arte (a estética). se tocam muito mais e suportam uma maior proximidade interpessoal. na Bahia. como cumprimento. pessoal. de indicações bibliográficas e detalhes informativos sobre 0 panorama das artes e do espetáculo na Bahia. segundo o intelectual francês. em três continentes. a médio prazo. nacional e internacional. da praça Dois de Julho. publicados em Memórias Abrace 1 (Salvador: Abrace 2000). térmico. 2. visando assegurar. bem como sua relativa atualização (a palestra que foi proferida em abril de 1998). como. esse texto será objeto. arriscaríamos afirmar. Os italianos e os franceses (mediterrâneos). as latinas. singularidade e capacidade de comunicação em níveis local. 1966. tentaremos no âmbito dessa palestra definir o que seria a baianidade. Que diria ele se. em geral. 3. sendo cinco os níveis de percepção: cinestésico. visual e oral-auditivo. a partir da identificação das matrizes estéticas que lhe deram consistência. na Bahia. Nossa muito ambiciosa intenção é a de definir as características fundamentais que dão sustentação às artes do espetáculo – e à cultura em geral como um todo – na Bahia contemporânea.³ Do Gipe-CIT (de 1998 e 1999) e a meus alunos de etnocenologia no PPGAC/UFBA (em 1997. bem como as condições em que foi elaborado (revisão da transcrição de uma palestra).

as pimentas (que atiçam o paladar). poderíamos opor a matriz católica sobretudo a da Contra-Reforma . e outra. precisaríamos identificar. "{útima flor do Lácio". mais particularmente do Recôncavo baiano e. E isso com os aportes orientais da China e da Índia. do Instituto McLuhan (Toronto. por exemplo. que fala alto e cantando.de uma grande multiplicidade de formas espetaculares (enquanto a matriz greco-latina criaria uma nova forma espetacular exemplar. etc. tendo a primeira como o elemento cristão fundamental e dominante que se combinou com os sistemas religiosos africanos recriados no Brasil e com os próprios sistemas religiosos nativos ameríndios.entre outras línguas. Sorbonne. o passado mas sobretudo o presente. afetado. simultaneamente. antes do surgimento das telemáticas globalizantes. pentes. a música e todos os espetáculos. A matriz da oralidade. 1979. de. trabalho e festa). a propósito do presenteísmo contemporâneo. reserva historicamente ainda grande poder a oralidade na constituição da cultura lusófona. instrumento de tortura . Ver também. os baianos seriam um povo dengoso (faceiro. travail. jovial.sem hierarquias . de preguiça. tem em comum com a matriz da comunicação escrita não totalmente fonética o envolvimento multissensorial necessário a comunicação. naturalmente. Pensando em termos geográficos e climáticos. na construção da baianidade. em Cachoeira. 0 tradicionalíssimo candomblé Axé Opô Afonjá de Mãe Estela de Oxóssi mantém um qual a dominância da oralidade será marcante. Canadá). werk). pois a língua portuguesa. 1990). desenvolve a idéia de que 0 século V a.trabajo. se pensamos nas matrizes estéticas formadoras da cultura baiana contemporânea.em oposição ao trabalho como ação no mundo anglo-saxão . manhoso. Paris 5. de "chinoiseries" encontrados em objetos trazidos pelos portugueses (leques. melhor dizendo. que adora ver e ser visto. birrento). na Grécia. enfeitado.5 • a convivência . por exemplo). dedico muitas páginas a esta questão.. associados historicamente.dos hemisférios cerebrais humanos (enquanto a matriz greco-latina tenderia a privilegiar o hemisfério cerebral esquerdo como espaço da racionalidade linear).7 teríamos uma equação na 5. duas dominantes principais. o teatro. é marcado pela perspectiva humanista valorizadora da intervenção humana na história e na construção do futuro. vêm revalorizando a multisensorialidade e favorecendo urna espécie de presenteísmo. sítio virtual disponível na internet. feiticeiro. a partir de sugestões de meu orientador Michel Maffesoli. no Recôncavo baiano. porcelanas. Por isso. A Universidade Federal da Bahia foi uma das primeiras do país a implantar sua rede de fibra ótica. ainda mais especificamente. com base na sugestão de Max Weber (O trabalho no mundo latino como penalidade . Derrik de Kerckhove.ou. Uma mais típica do litoral.a língua falada (o árabe.8 que implantaram a matriz católica barroca da teatralidade e da espetacularidade no Brasil. . ainda que com muitas nuanças entre as zonas de transição da mata. todos os santos. por exemplo. baseada na idéia de uma construção especial para sua realização num espaço construído em função do olhar do espectador). porta-jóias. no qual se valoriza: • a olfação. que identifica o conjunto de línguas africanas e ameríndias que formaram a baianidade contemporânea (associadas evidentemente ao português). constituindo-se em importante elo de ligação dessa rede com todo o Nordeste e Norte do país. o japonês e o hebreu. reintroduzindo ícones na comunicação visual "escrita" corrente. aí. talvez menos especializado . a audição e o tato (enquanto a matriz greco-latina privilegiaria o sentido da visão). a preguiça e a festa. aliás já perfeitamente incorporadas à baianidade. e de acordo com o imaginário brasileiro expresso em piadas. as figas e os balangandãs (que enfeitam e protegem). outra tendo como referência formas de língua escrita que não reproduziriam . pelo menos. que cultua: o aqui e o agora. o português). que se pega muito. um hedonismo feito.6 Mas. requebrado. que se singularizam por seus traços fisionômicos claramente reconhecíveis como orientais (chineses? japoneses?). singularizando uma matriz cultural totalmente diferente das demais suas contemporâneas. processados pelos "soldados" da Companhia de Jesus. privilegiaria o futuro). chegaríamos a uma caracterização mais precisa das matrizes estéticas definidoras da baianidade e. mais típica do interior da terra. as praias e as ladeiras. O público que freqüenta monumentos religiosos no Brasil conhece as imagens de santos católicos existentes no Museu da Ordem Terceira do Carmo.) e em elementos transculturais da decoração de templos barrocos do litoral e da zona da mata nordestina e do interior de Minas. Sobre as matrizes africanas já se definiram duas principais em relação ao povoamento da Bahia. que reconhece os lugares pelos cheiros de azeite.latina . em termos de temporalidade referencial. programas de televisão e canções.à protestante. Recorrendo as matrizes religiosas. a dança. do agreste e do sertão. igualmente muito ampla. Em minha tese de doutorado Thèâtralitè et spectacularité . além. do latim tripalium.work. 7. nos processos de educação formais e informais (enquanto que a matriz greco. É fato que as novas tecnologias de comunicação. 6. • um funcionamento aparentemente mais equilibrado . . efeminado. sobretudo no Nordeste e nas cidades históricas de Minas Gerais. de sujeira e de maresia. muito através da intervenção dos jesuítas. particularmente no que tange à questão da baianidade (que poderia ser compreendida como uma espécie de elogio ao aqui e ao agora. em todo o mundo contemporâneo conectado em redes. Há também inúmeros outros exemplos no Brasil. que a distanciariam de uma matriz fonética exclusiva.une aventure tribale contemporaine à Bahia (Université René Descartes. uma banto (correspondendo aproximadamente à 8. c. do complexo urbanístico de Salvador. no ensaio sobre a dramaturgia grega e suas formas correlatas de temporalidade "Synthèse sensorille et tragédie: I'espace dans Les Perses d'Eschyle" (1983: 69-83)..historicamente e integralmente . • a dominância do passado.

cuja primeira obra publicada data de J 857 (Le livres dos espirits).com as matrizes lingüísticas e religiosas nativas. a matriz africana seria dominante no litoral. associaria matrizes celtas. Yerushalmi (1998). 12. registra a canção “Isto é bom”. da Columbia University. 10 Com o processo de urbanização no Brasil. voltado a marcar profundamente a cultura espetacular no Brasil.¹¹ No século XX. “L’interface théâtrale” (Bião. para sempre a baianidade. a cidade se configurou num entreposto de tradições. uma de influência árabe muçulmana e outra . faz-se necessária uma referência a matriz judaica ibérica.de base tupi-guarani . para a substituição da chamada "língua geral" . subconjunto por sua vez de uma muito maior matriz ibérica. que seria a língua comum dos africanos e de seus descendentes no Brasil. relata sua surpresa quanto à insuspeita . contribuindo. É a conformação do estilo barroco que. 9. que acabava de conhecer em meados dos anos 60. uma verdadeira encruzilhada de artes. então debutando em carreira nacional. outra sudanesa (correspondendo muito grosseiramente a área ocupada hoje pela Nigéria e pelo Benim). reeditada em Estudos Lingüísticos e Literários n. quando da primeira viagem deste ao Rio. mais particularmente. gêtapuias. sempre em contato dinâmico com correntes rnigratórias internas e externas ao país. conforme é abundantemente documentado nesses ensaios. através da influência norteamericana na cultura brasileira após a Primeira Grande Guerra e. dei- xando profundas marcas no teatro brasileiro – e baiano – até hoje. hoje tão mais popular no Brasil que em sua pátria de origem. já aparece no Recôncavo baiano em 1865. ao longo do século XVIII. no Brasil. dedicada às relações França/Brasil.cultura cinematográfica e musical do jovem Caetano Veloso. realizada no Petit Pa1ais. mas que é hoje uma marca muito forte nas artes do espetáculo das Américas (o teatro musical da Broadway e o cinema industrial de Hollywood são testemunhas desse fato). música e rituais indígenas e. “tanto negócio e tanto negociante”). etnias. 1977. 1999). de 4 de novembro de 1999 a 6 de fevereiro de 2000. sobretudo em Salvador e em sua zona imediata de influência.12 muito presente na matriz portuguesa (e brasileira. marcada pelas grandes festas públicas espetaculares. daria espaço social mais amplo à prática teatral e mesmo ao surgimento de uma possível identidade brasileira . ver os cinco ensaios de Yosef H. as quais viria a incorporar em seu tecido urbano. 19-25). judaicas e latinas (pagãs e cristãs) as matrizes árabes muçulmanas (durante séculos presentes de modo dominante na península do sudoeste europeu). nosso quadro matricial panorâmico se completa com a situação político-administrativa e portuária de Salvador (em cuja "larga barra tem entrado". inicialmente em menor grau. no século XIX. adquiriu conotação pejorativa) e novos-cristãos da Península Ibérica. 1990). O catálogo da exposição "Brésil baroque. aliás. entre os séculos XVII e XVIII. gravada pelo cantor Baiano. 13 O espiritismo positivista (novidade francesa que se queria filosofia de bases científicas e conseqüências religiosas). exemplos paradigmáticos do barroco. poderíamos recorrer a uma já copiosa bibliografia. em Mata de São João. Para que se possa superar essa nossa grosseira simplificação.área ocupada hoje por Angola e Moçambique). complementarmente. se subdividiria ainda em duas. A matriz portuguesa. associado à matriz greco-latina. Fundada em 1549 sobre antigas aldeias tupinambás e nas mediações das vilas velhas de Catarina Paraguaçu e do capitão donatário Francisco Pereira Coutinho. Sobre os judeus sefardistas marranos (termo que. natural de 11. sendo que esta. feita no Rio de Janeiro no início deste século. 10. traz uma importante seleção de ensaios sobre o estilo barroco como fundador de culturas e sobre a influência da descoberta do Novo Mundo na crise do racionalismo renascentista que geraria a própria constituição desse novo estilo estético/artístico e de modo de vida (paris: Union Latine. A esse propósito ver Thales de Azevedo. Na Bahia. desde o século XVII. no domínio das artes do espetáculo. e nossa contribuição para a publicação da Banque de Donnés France-Brésil. tendo. o Recôncavo. No que diz respeito à cidade da Bahia de Todos os Santos.e baiana -. misturando-se as formas espetaculares de dança. por exemplo. 1985. uma influência francesa se faria sentir. sobretudo após a Segunda. seria a vez de uma matriz norte-americana se impor. O teatro. por eles difundida por todo o país. dirigido por Luiz Olímpio Teles de Menezes (ver “Almanaque de Armindo Jorge Bião". línguas e idéias13 ' A primeira gravação fonográfica brasileira. Em livro autobiográfico compositor. novas tecnologias e economia de mercado. e de expansão internacional do iluminismo.170 da coleção francesa Que sais-je. também africanas. Para completar este amplo panorama matricial. com o rádio e o cinema. ao longo de todo o período colonial) de modo mais ou menos difuso.majoritária . chega com força na terra fértil baiana com os jesuítas e sua preocupação catequética. Um bom ponto de partida poderia ser 0 número 3. notadamente tupi-guaranis. 1994.para ele .mais claramente marcada pelos sistemas religiosos dos cultos de possessão jeje e nagô. intitulado La civilisation afro-brésilienne (1997). cruzando-se às demais em todo território nacional – e na Bahia evidentemente também. p. in Verbo Encantado. ao longo dos séculos XVI e XVII. mas. acompanhando sua irmã Maria Bethânia. entre ciel et terre". por sua vez. religiões. 16 (Salvador: UFBA. na Bahia . outubro de 1971). enquanto as matrizes ibéricas e nativas dominariam no sertão. em Paris.de um modo ou de outro . e a seu desdobramento católico medieval. Ver também Lima. marcariam. critico e produtor musical carioca Nelson Motta (2000). do ator e músico mestiço baiano do século XIX Xisto Bahia. . ofícios.pelo português.9 Todas essa matrizes africanas se cruzariam no Brasil e. O discurso poético e a retórica de Gregório de Matos e Guerra e de Antônio Vieira. na forma de um Grupo Familiar de Espiritismo. visigodas. de fortes marcas espanhola e italiana. de acordo com Gregório de Matos e Guerra. no que se refere a baianidade.

Na mesma linha de trabalho. As escolas de teatro e de dança da Universidade Federal da Bahia. 1995. constantemente. Criadas em 1955. Tom Zé e outros no final dos anos 60. desempenhando seu papel de centros de formação de profissionais. a mesma cidade onde nasceria Caetano Veloso. 0 Bando de Teatro Olodum. a vida cotidiana da população afro-baiana. 1995: 15-21). que.norte-americana acompanhariam mais de perto a dinâmica cultural típica da baianidade. a Escola de Teatro da UFBA celebrou. Sobre 0 trio elétrico.15 Nesse contexto. mais ainda. 19. que integrou a guitarra elétrica e 0 rock 'n roll de matriz norte-americana à música popular brasileira (ver. 1994. ver Góes. ja desde o século XVII.. seus 40 anos de existência com a produção do espetáculo A casa de Eros. Sobre 0 interesse francês por essa inventividade. 1999.20 o primeiro.Abrace. eruditas. Yanka Rudzka.temáticas marcantemente negras. novidade tecnológica e comércio. no Rio de Janeiro. Martim Gonçalves (homem do teatro) realizou. tanto a popular quanta a erudita das mais diversas matrizes estéticas.14 A baianidade seria essa forma claramente mestiça. teremos uma configuração cultural singular e única. Eros Martins (Martim) Gonçalves. direção de José Possi Neto. curadora de exposições) e Vivaldo da Costa Lima (antropólogo). A propósito. Los Catedrásticos realiazaram o primeiro Recital da novíssima poesia baiana. quatro atores exploram ao máximo 0 humor de homens travestidos. Inúmeras obras que se reportam a cultura brasileira dos anos 60 registram 0 escândalo nacional provocado pelo tropicalismo. adaptado do repertório do teatro musical norte-americano (Nun Sense). 22 As peças do Bando tematizam. companhias teatrais baianas de grande sucesso. como a Companhia Baiana de Patifarial7 ou o grupo do 14.18 ou ainda o grupo Los Catedrásticos. a baianidade e sua negritude. 1982. e até mesmo a dança de caráter erudito e de matriz estética expressionista européia e modema . Os espetáculos do grupo continuam em cartaz.Santo Amaro da Purificação.21 a reunir um elenco e . citado na nota anterior). e Dantas. Risério 1993. Os cineastas baianos Glauber Rocha e Roberto Pires ficaram famosos com seus filmes e suas invenções de material e de técnicas de filmagem. dirigido por Márcio Meirelles. local e nacional. a criação do tropicalismo de Caetano. o espírito e o corpo mais tipicamente baianos. Uma brincadeira desenvolvida por atores da Escola de Teatro durante uma greve em 1989. com qual obteve grande sucesso também em todo 0 Brasil (Fernando Marinho recebeu da Associação Paulista de Críticos Teatrais 0 Troféu de Melhor Ator por seu trabalho nesse espetáculo). hoje em dia. desde os elencos profissionais mestiços com predominância negra do século XIX que proliferaram no Brasil. novas tecnologias e comércio somarmos as invenções tecnológicas do trio elétrico e do cinema novo baiano nos anos 50 e. incluiriam no panorama geral das artes cênicas baianas um forte elemento de ligação com as atuais tendências do teatro e da dança em todo o mundo. tendo como referência a criação da própria Escola e a gestão de seu primeiro diretor. muito humor e auto-referências22 identificariam assim a baianidade e o próprio teatro mais evidentemente característico dessa cultura. 1989. 23. 21 Ver. ampliado com muitas fotografias e reeditado pela Copene em 2000. começaram a funcionar em 1956. Com texto de Aninha Franco e direção de Fernando Guerreiro. conjuntamente com Lina Bo Bardi (artista plástica. desconstruindo 0 preconceito. em 1996. por exemplo. considerado como os anos dourados das escolas de arte da Bahia. espetáculo Os cafajestes. contribuiria para a criação de um teatro com a cara. como as de Gregório de Matos. se aproximariam mais claramente de um teatro que poderia ser considerado tipicamente baiano. coreografou ritmos do candomblé.e pós-modema .16 É fato que. sobre a ambiência cultural na qual se formaram os jovens artistas Glauber Rocha e Caetano Veloso. lideram a implantação e consolidação da Associação Brasileira de Pesquisa e PósGraduação em Artes Cênicas .19 com ênfase no humor e na musicalidade. em São Paulo e outras capitais e cidades de todo o pais. desde os anos 50. circulando pelo país e atualizando seu repertório e forma de encenação. segundo José Ramos Tinhorão (1988). Um espetáculo dessa companhia. se encontra em cartaz há mais de dez anos.23 com grande sucesso em Salvador. enquanto a música. utilizando letras de música carnavalesca da Bahia ao lado de poesias mais. através de seu Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas. no Rio de Janeiro e em São Paulo.. 0 mesmo diretor de A bofetada. exdiretor da Escola. de criação e difusão de conhecimentos novos. com dramaturgia original de Cleise Mendes e direção de Paulo Dourado. o teatro se desenvolveu como urna forma espetacular quase sempre anacrônica. As escolas de música e de belas-artes também continuam a ser referência nacional em sua área.eu traduzo.apenas no seu caso . 17. ver também Franck Ribard. criadora da Escola de Dança. a companhia se apresentou em Nova York com outro espetáculo. e continua em cartaz em tournées constantes pelo país. Gilberto Gil. que associa tradição. digamos. também nesse período. que vai aproximadamente de 1955 a 1960. Le Carnaval Noir'. com prefácio de Fernando Henrique Cardoso e introdução de Jean Duvignaud. nosso texto "Teatro e negritude na Bahia" (Meirelles et ai. Se a esse pequeno exemplo de boas relações entre tradição. Desde 1998. Uma cultura "novidadeira" e criadora de novidades. Chica Carelli e Ângela Andrade. explorando 0 humor de um jogral pretensamente sério. plural e diversificado. importante exposição sobre as artes da Bahia no Museu de Arte de São Paulo. Nele. A bofetada. Le Candomblé de Bahia (Rite Nagô). contribuindo para dotar a Bahia de um movimento artístico dinâmico. quando da criação das escolas de arte da Universidade da Bahia. ver Antonio Risério. 15. Ver Meirelles et aI. Los Catedrásticos usam a música popular baiana como material dramatúrgico de referência. Sobre baianidade e negritude ver ainda Barcelar. a propósito. texto de Cleise Mendes. 2000. Motta. Já 0 antropólogo francês Michel Agier (2000) fala de uma "inventividade sempre renovada da 'baianidade'" . este espetáculo utiliza como material dramatúrgico musicais e ditados brasileiros de caráter machista. 18. que procuramos aqui identificar. 1995. daria origem ao fado português. assim como os outros três grupos anteriormente citados. Mantêm cursos de graduação para . Recebeu 0 premio de Melhor Espetáculo de 1996. 20 O Bando estreou em 1991 e é hoje um dos grupos residentes do recentemente reformado e ampliado Teatro Vila Velha. as escolas de teatro e de dança da UFBA. Negritude. nos anos 50. 16. como costuma ocorrer praticamente em todo o mundo. e a nova edição da obra clássica de Roger Bastide. que definiiria a baianidade. tem feito temporadas de grande impacto também fora da Bahia. quando a Bahia teria exportado para Portugal a "fofa". O Bando.

a propósito de seu recém-recebido prêmio Grammy. definir matrizes estéticas com base em dados históricos. transbordando-se daí para os campos do esporte. 26 . ou a Cena Lusófona. com 0 qual foi premiado. por sua vez. 24. Brown ficou nu em cima de um trio elétrico no carnaval de 1998). aberta. Como figuras emblemáticas dessa baianidade espetacular. à colega Ângela Andrade (Universidade Federal da Bahia). diretores. mas também os espetáculos amadores e profissionais de música (estes compondo o subconjunto que movimenta o maior volume de recursos financeiros e o público mais numeroso). ohumor e um amplo espectro libertário de idéias. O artista e pesquisador nordestino Antonio Cadengue. o mercado. fechando-a (a cidade de Olinda.mais. ver Franco. Com uma média anual de cerca de l00 novas produções (60 de teatro para adultos. Salvador dispõe de cerca de 25 salas de espetáculos e de cerca de dez outros espaços culturais usados regularmente para a apresentação de montagens teatrais e de dança. anualmente. mais restrito ao Nordeste e mais apegado às matrizes ibéricas. remete à forma geográfica marítima côncava (da baía que lhe dá nome. das quais um quarto de caráter didático ou amador. que. atores. do sertão e do agreste. por exemplo. O Teatro Castro Alves (um dos maiores e mais bem equipados do país). cultos evangélicos e espíritas). 0 bi. a cidade recebe constantemente espetáculos nacionais e estrangeiros em excursão. um mês. modelos idealtipicos perfeitamente identificados com a matriz baiana litorânea de Salvador e de seu Recôncavo. • a capitania de Pernambuco foi mais próspera que a da Bahia. estimulando e contribuindo para a clarificação de algumas de minhas primeiras intuições comparativas a esse respeito. em seu arligo "Educação pela máscara: recortes de uma genealogia de Antonio Nóbrega" (in Folhetim 5. por exemplo. de especialização em coreografia (momentaneamente interrompido). Glauber Rocha. ambos artistas criadores de grandes obras de enorme valor estético e sociocultural. Paris V. geralmente de quinta-feira a domingo. também generosamente. mas foi na da Bahia que o governo colonial foi instalado. igualmente. 1999) sobre Antonio Nóbrega e Ariano Suassuna. a Alliance française. e institutos estrangeiros como o Goethe Institut. estendendo-se lingüisticamente – e geograficamente . que correspondiam ao que hoje é o Estado da Bahia.25 Procurando. micaretas. Para efeitos de comparação com uma matriz próxima. nos quais a musicalidade e os jogos corporais coreográficos e de papéis sociais encontram espaço e tempo. autoritário e intolerante revelado no discurso desses dois importantes artistas.mesmo até internacionais -. define muito bem esse caráter conservador. No entanto. ou a de Ilhéus e a de Porto Seguro. ambos constantemente exercitando 0 discurso provocativo (ainda bem recentemente. com sua expressiva forma lingüística feminina dcsignando a beleza da ambientação. mais uma vez. dentro das mais variadas tendências. essas escolas produzem cerca de 20 espetáculos por ano. numa média global. de aptidão para penetrar. a tolerância. eventualmente. em reação ao tropicalismo liderado pelos baianos no final dos anos 60. a pernambucana.a primeira . 1994.Terceira cidade do Brasil em população e em movimentação de espetáculos de teatro e dança. Sobre 0 teatro baiano. com uma relaço estreita com as novas tecnologias. embora progressivamente cada vez mais ousado formalmente . 20 infantis e 20 espetáculos de dança). conservador. as tradições. geográficos. o conjunto das artes do espetáculo na Bahia compreenderia não somente os espetáculos profissionais e amadores de teatro e de dança. carnaval) e os rituais públicos mais especificamente religiosos (procissões católicas. intolerante e de pouco humor. Caetano Veloso e Carlinhos Brown. os eventos lúdicos que se encontram na interface profano/sagrado (festas populares de largo. promovem. • a cidade de Salvador da Bahia de Todos os Santos. Agradeço ao colega Pierre Le Queau (Universidade René Descartes. Referências nacionais .em relação à outra que estaria mais associada à agressividade e à posição sexualmente mais ativa. que o Brasil já levara 0 tri e a Bahia. poderíamos pensar em Ariano Suassuna. cujas temporadas duram. na perspectiva etnocenológica que é a nossa. Agradeço.24 .à expressão de Recôncavo baiano). não chegou a ser identificada como capital de Pernambuco). e também grandes artistas criadores de importantes obras responderiam pelo contrário dessa matriz pernambucana. que generosamente compartilhou reflexões a propósito dessas questões. Caetano declarou à imprensa brasileira que criticara negativamente seu disco Livro. dançarinos e professores de teatro e de dança. rituais públicos do candomblé. poderíamos estabelecer alguns elementos dessa comparação entre a baianidade e o que seria uma possível identidade pernambucana:26 • o feminino Bahia e 0 masculino Pernambuco podem nos fazer pensar em uma forma lingüística que indicaria maior receptividade (aberta à penetração) . com a participação de artistas do Rio de Janeiro (Hélio Oiticica) e de São Paulo(José Celso Martinez Correia). enquanto a cidade do Recife remete aos arrecifes que protegem o litoral da cidade. que. podendo ser definidos como marcos da baianidade. lingüísticos e religiosos. além de mestrado e doutorado em artes cênicas. podríamos pensar nos compositores cantores artistas do espetáculo Caetano Veloso e Carlinhos Brown. transformando a região da Bahia de Todos os Santos (assim denominada por 25. aliás. proporia um outro movimento artísticocultural que ele denominou armorial. de caráter autoritário. da política e até mesmo do lazer na vida cotidiana (como a freqüentação de praias por exemplo). poderia ser uma figura emblemática da matriz do interior. a vinda de diretores e de outros profissionais da cena para participarem da produção de espetáculos na Bahia. quando da revisão da primeira versão desse texto. que tematicamente. com um caráter mais conservador que o de seus conterrâneos praianos. compartilhou reflexões sobre as questões mais polêmicas contidas neste texto. muito conhecida também como Bahia (cidade da Bahia). embora radicalmente diferente. Sorbonne).

Também no sentido de alegre empatia mas na direção inversa. recriadas na Bahia. essa opção estética. que visitou o carnaval de Salvador em 1949 "Varre varre varre. seria tão dada a opções estéticas. que deverá ser publicado em breve pela Fundação Cultural do Estado da Bahia. ao qual me refiro na nota 1 deste texto. inspirando Dodô e Osmar para a criação do trio e da guitarra baiana. na produção do grupo de música/dança É o tchan. de modo paroxístico. Ver. valorizando o ritmo. Pernambuco. e que. p. originalmente conhecido como Gerasamba. a pernambucana e a baiana. E identidades só podem ser definidas em relação a alteridades. situava a Bahia como parte da região Leste. Também sobre essa questão de alto-referências na produção espetacular baiana. no lundu. de modo definitivo. ou O tchan na boquinha da garrafa" in Repertório Teatro & Dança 1 (Salvador: PPGAC/Gipe-CIT/UFBA. varreu um dia as ruas da Bahia . dança e ritmo de grande expressão nos palcos baianos do século XIX (a atriz e cantora Joana Castiga chegou a ser proibida de se apresentar com seus lundus no Teatro São João). tendo judeus. Ver essa obra clássica sobre a formação da cultura brasileira. o país conheceu o mais tolerante dos sistemas políticos em relação à liberdade religiosa de sua época. e particularmente da cultura nordestina. assim como dos inúmeros grupos de pagode da Bahia. uma presença avassaladora de referências à Bahia. então.Américo Vespúcio em primeiro de novembro de 1501) no centro cultural. apresentando Casa grande e senzala. O sucesso do que ficou conhecido nos meios de cornunicação como axé music. teve parte de suas terras transferidas para o domínio baiano. que dirigiu esta Escola por cerca de cinco anos. Só para citar dois fenômenos de referência à matriz pernambucana na cultura espetacular baiana (que adora divulgar as múltiplas influências que recebe). vassourinha. Ruy. ficando Pernambuco como centro do Nordeste já então e ainda hoje.. gostaria de me referir à licenciosidade presente na poesia do "boca do inferno" Gregório de Matos. a tolerância associada ao elemento invasor. poderíamos lembrar que a música de trio elétrico. produzindo modos/modas de corpo e dança de grande penetração no mercado do entretenimento. médico e diretor teatral pernambucano Martim Gonçalves. . rituais e míticas na Companhia de Dança Balé Teatro Castro Alves. a musica emblemática de Morais Moreira a esse respeito contribuiu para a divulgação nacional do grupo carnavalesco pernambucano As Vassourinhas. de referência à cultura baiana na cultura acadêmica pernambucana. 29. 28. é de bom alvitre lembrar que a Escola de Teatro da Universidade da Bahia foi criação do artista plástico. uma vez derrotada essa pretensão. informa . um dos objetivos originais de nosso projeto integrado de pesquisa. Recife continua sediando os principais escritórios nacionais e consulados estrangeiros da região (como a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste. Esses elementos de comparação não são aqui apresentados no sentido de se opor urna matriz eticamente ou esteticamente mais importante a outra menos importante. atraves das letras de suas canções.28 À guisa de conclusão. que passou a incluir a Bahia no Nordeste. a propósito. Arte-educadora e dançarina. católicos e protestantes. Tive a honra e o prazer de participar do exame dessa dissertação. ficando assim. comercial e politico da colonia.27 O outro exemplo é o da belíssima dissertação de mestrado em antropologia. a convite de sua autora e de sua orientadora Danielle da Rocha Pita. que pretendia a independência de parte do Nordeste brasileiro do resto do país. por exemplo. Ver. do mestre Gilberto Freyre que. 23-6). e o Consulado Francês. lúdica e sensual da baianidade. defendida e aprovada com distinção na Universidade Federal de Pernambuco em 1999. para a circulação das mais contemporâneas matrizes do teatro universal nesse Estado. ampla liberdade de expressão e prática. No campo especificamente do teatro. o que se vê. foi centralizada em Pernambuco. gerando um sentimento histórico de perda e de injustiça. a autora desse trabalho. • a mais longa ocupação do território brasileiro.da feliz e propiciatória acolhida para si e para sua obra . mais adiante nesse mesmo livro. em geral. num fenômeno excepcional na colonização holandesa. de 1630 a 1654). 30. O primeiro. em seu esplendor. no período colonial (pela Holanda. • a divisão geográfica (geopolítica) do país.. ou na produção artística de Caetano . buscando nas origens étnicas dos negros transportados para cada uma das regiões razões que explicariam porque a Bahia. Morais Moreira e Caetano Veloso). podemos pensar no nome de artistas como Xisto Bahia. seria urna mistura do frevo pernambucano com a marchinha carioca. a esse propósito. à qual se referia Gilberto Freyre.³¹ a Bahia se transformou em marco fundamental do imaginário 27. revela. compõem o riquíssimo mosaico da cultura brasileira. meu artigo "0 obsceno em cena. contribuindo. revela.. mas no sentido de contribuir para a caracterização da baianidade.e agradece . aí. mais que o Recife. Baiano e Novos Baianos. " -. mesmo após a revisão dessa distribuição geográfica. da autoria de Márcia Virgínia Bezerra de Araújo. 1959. a famosa Sudene. ainda que momentaneamente. desenvolve comentários comparativos sobre os baianos e as populações do "extremo Nordeste". minha oração é a dança – dimensões étnicas.29 licenciosidade essa também muito presente em boa parte da música popular baiana contemporânea. 0 trabalho tem como horizonte teórico a antropologia do imaginário de Gilbert Durand e a socio1ogia do atual e do cotidiano de Michel Maffesoli. durante certo tempo. a musicalidade e as auto-referências.que recebeu na Bahia. de acordo com o discurso de seus criadores e grandes divulgadores (Dodô e Osmar. lúdicas e sensuais. intitulada Meu corpo é um templo. e aos próprios grupos musicais que as cantam. . 31. que se transformou em centro de resistência e reação. poderíamos citar dois exemplos. por exemplo). • sede da Confederação do Equador.30 Radicalizando os mimodramas sexuais encontráveis em certas danças africanas. Aliás. Ambas as matrizes estéticas. sobretudo na página 402 da edição José Olympio de 1964 (original de 1933). 1988.

de "cafajestes".involuntária . trata-se de "baianada" . Cap. cultural e religioso (Salvador foi capital do Brasil de 1549 a 1763. o espetáculo já foi assunto do programa de televisão da rede Globo Pequenas empresas grandes negócios. 35 Referência ao programa Bahia singular e plural do Instituto de Rádio-Difusão Educativa da Bahia .. Jefferson. 32. 1985. o programa comunitáriorio Tá Rebocado e a Escola de música Pracatum. . direção. por exemplo. ambos coordenados por Carlinhos Brown.similares a tantos outros existentes hoje em toto o Brasil . árabe. 33 O Projeto Axé. na qual o teatro é apenas um figurante. BACELAR. Inabilidade em montar a cavalo ou em manejar o laço e as boleadeiras.muito esperançosa e promissora aliança entre tradição e novas tecnologias. Trata-se. A francesa na Bahia de antanho. e por suas funções de entreposto e de sede de poder político. da musicalidade e da identidade nacionais. barroca. Esses trabalhos comunitários produzem arte com o valor simultaneamente ético e estético mais essencial. Talvez date dessa época a criação de um adjetivo pátrio que viria a definir a identidade baiana. p. operação de som e luz. o mais barato da cidade. e pelo espírito aproveitador bemsucedido). realizando a boa. a África e Oriente. de gente que vive em "bando". no panorama da baianidade da qual tentamos aqui apresentar o perfil. necessária e útil ética da estética. Publicação do Centro de Estudos' Baianos. Bras. 2. com direção de tv de Josias Pires. há quase dois anos.34 Trata-se de uma nova/velha matriz estética que se desenha no mapa cultural contemporâneo como. criando os espetáculos solo Blue marinho e Tabu. africanos e europeus que a conhecem e conheceram.brasileiro (a ala das baianas é obrigatória nas escolas de samba do Rio de Janeiro. Etnicidade. 0 ator Ricardo Castro mantém em cartaz no Teatro XVIII. Apreciado pelo público e pela crítica. Michel. na Vila Matos. por sua posição proeminente no imaginário dos grupos culturais brasileiros.o estilo autoreferencial e provocativo de uma retórica já tradicional. sujeira. 4. 34 Nosso famoso dicionário registra no verbete baianada: S. Fanfarrice. S. a Escola Criativa Oludum.. produção. dirigido pelo educador Cesare de la Rocca. coordenado por Paolo Marconi. um espetáculo no qual ele faz tudo. entre outros sentidos ainda mais crítico-negativos registrados no Aurélio). interpretação. da mais cínica à mais – inicialmente . intitulado 1.99. "singular e plural". conhecida como "Roma Negra". encontrando-se presente num sem número de letras da música popular do país e sendo considerada como berço da religiosidade. AZEVEDO. Bras. os projetos artístico-comunitarios dos grupos culturais Ilê Aye. sendo ainda hoje sede do arcebispado primaz do Brasil. caracterizada por suas matrizes africanas.no sentido paulistano du palavra (fanfarrice. Enfatizando . suja. 1989. simultaneamente. utilizando as artes.. é muito mais. Salvador: UFBA. grande aceitação. em torno das artes do espetáculo. Salvador: Penba/Ianamá. contribuindo. passando pelas tentativas frustradas. Os grifos sao meus. Male Debale e Araketu. as Américas. no Teatro Dan Dan. que pode funcionar. impostura de baiano (4). pela impotência de muitas iniciativas no campo do teatro e da dança. de Carlinhos Brown. Bras.. Anthropologie du carnaval . o espetáculo radicaliza o caráter pretensioso da baianidade e sua bem humorada e irônica relação com o dinheiro.35 pretensiosa e servil. 61-83. Ainda que não se constitua urn verdadeiro "grande negócio". patifaria. queda no adversário. Paris : Parenthèses.Haroldo de Campos alertava os baianos na capa do disco Tropicália sobre essa possibilidade -. quando a cidade de Salvador começava a se consolidar como a maior metrópole de todo o hemisfério sul do planeta e Portugal era dominado pela Espanha. por exemplo).]. que vem produzindo discos e programas de televisão sobre formas de espetáculo tradicionais da Bahia e contribuindo para uma já antiga e – para mim . como Nizan Guanaes. sem dúvida. 3.e buscando utilizar também aqui . judia. poderíamos afirmar que a baianidade seria essa coisa de "patifes". para a organização da sociedade civil e para a redução das gravíssimas disparidades socioeconômicas que. outro nas margens da sociedade. De fato. bilheteria etc. infelizmente. Bras. são alguns excelentes exemplos . 2000. ambiciosamente inteligente e comercialmente bruta. que ganha dinheiro com arte32 (num amplo leque de possibilidades. "boa terra" e pólo turístico). patifaria: fez uma baianada comigo. africana. de uma identidade dinâmica já há mais de três séculos. f.R$ 1. ainda caracterizam o país. pela troca entre elas . se dedicam à atuação pedagógica no seio de comunidades ricas em carências de toda ordem. Talvez uma proto-idéia de baianidade tenha surgido entre 1580 e 1640.IRDEB. Duda Mendonça.que. que tem "boca de inferno". S. que produz trabalhos comunitários de Veloso e da Timbalada. bárbara e altamente civilizada/civilizatória. ibérica.99. assim. 1. comercial. a baianidade parece soar bem em espanhol: la baianidad.33 com um pé na escola e nas "cátedras" universitárias.La ville.. 5..entre si e todas as outras que com elas tiveram relações comerciais e artísticas. n. Grupo de baianos [V. ibéricas e indígenas. por exemplo. Ação desleal. é um espectador total! Bibliografia AGIER.. o mundo é barroco e nao é só um teatro. Sérgio Amado e Haroldo Cardoso. De 197'1 a 1976. Thales de. como cimento comunitário e instrumento de melhoria da qualidade de vida e renda da absoluta maioria da população. que a caracteriza como criação humana para a superação da dor e da desagregação social. eu mesmo experimentei a primeira parte dessa intuição. baiano (6). Na Bahia. concepção. nativa. la fête et l 'Afrique à Bahia. referência ao preço cobrado . O humorista carioca Millôr Fernandes divulgou no famoso jornal dos anos 60 e 70 0 Pasquim a idéia de que a Bahia seria a maior agência de propaganda do país. sobre o fato de constituir-se esse locus em singular nó da rede de relações culturais entre a Europa. 0 valor dessa piada poderia ser avalizado por alguns publicitários baianos de grande sucesso nacional. 110. Ser negro em Salvador. S. que se aplica puxando-lhe a bainha das calças.

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