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ANÁLISE DO TEXTO: MEMÓRIA, ESQUECIMENTO, SILÊNCIO Michael Pollak

O artigo “Memória, Esquecimento, Silêncio” do austríaco Michael Pollak toma como ponto de partida o conceito de memória coletiva a fim de explorar os fatores que intervêm no processo de solidificação da memória. A priori, a memória pode ser compreendida como um fenômeno individual, algo relativamente íntimo, próprio da pessoa, que é determinada por diversos fatores predominantes, dentre eles as paisagens, as datas, personagens históricas, músicas, costumes, tradições, fatores esses que nos acompanham por toda a vida. No entanto Pollak enfatiza que a memória deve ser entendida também como um fenômeno construído coletivamente e submerso às transformações e mudanças, juntamente aos seus sentidos e funções que desempenham. O autor reforça a função da coesão social, sua adesão afetiva ao grupo e seus pontos similares que possam ser reconstruídos sobre uma base comum. Neste sentido a memória pode ser apreendida como importante fonte documental para o historiador que pretende trazer à tona histórias submersas, emergidas de grupos sociais marginalizados pela historiografia oficial, sendo substituída por vozes de grupos sociais e suas histórias vividas. No que se refere aos estudos relativos à memória, Gerson de Souza assim esclarece:
Lembrar é reviver o passado com a consciência e a contextualização histórica do sujeito no presente. A memória é a revelação e o trabalho do vivido pelo sujeito. Para que essas vozes sejam ouvidas por novos leitores nesta sociedade, esses grupos sociais têm que cada vez mais serem engajados na participação de pesquisas realizadas em universidades a partir das narrativas das experiências de vida. (SOUZA, 2013, p. 4)

Percebemos nesta perspectiva que a memória é socialmente construída e se configura como elemento teórico-metodológico importante na análise de pesquisas, como construção de identidade e valorização dos sujeitos mergulhados nas relações sociais. Pollak expõe que a memória é assim guardada e solidificada nas pedras: “as pirâmides, os vestígios arqueológicos, as catedrais da Idade Média, os grandes teatros, as óperas da época burguesa

em redes de sociabilidade afetiva e/ou política. coletivas. 1989). ainda hoje essas mães realizam manifestações na Praça de Maio buscando manter o desaparecimento de seus filhos vivo na memória do povo argentino. do não esquecimento de um período marcado pela guerra. ou da socialização histórica. sindicatos. indizíveis ou vergonhosas são zelosamente guardadas .do século XIX e. o silêncio tem razões complexas. Essas lembranças proibidas. tão forte que podemos falar numa memória quase que herdada. de modo que certos elementos são progressivamente integrados num fundo cultural comum a toda a humanidade”. o silêncio se interpõe àqueles que querem evitar culpar vítimas. Nesta perspectiva podemos entender que a vivacidade das lembranças sejam elas individuais. igrejas. a partir disso. Este movimento tem se tornado um símbolo. em associações. possível que. Sendo. um grupo de mulheres começou a se reunir com intuito de exigir notícias de seus familiares desaparecidos durante o período ditatorial na Argentina e que. documentário respectivo ao grupo de mães da praça de maio na Argentina. Há ainda as lembranças contra o esquecimento. que visa romper o silêncio. os edifícios dos grandes bancos. Em relação à conotação coletiva da memória. aldeias. reflexo de uma memória. atualmente. (POLLAK. portanto. De tal modo. Podemos citar como exemplo disso. Pollak expõe ainda que o silêncio sobre o passado também é uma forma de memória na medida em que. Pollak afirma que. subterrâneas são transmitidas no quadro familiar. face da lembrança traumatizante. ocorra um fenômeno de projeção ou de identificação com determinado passado. que desde a década de 1970. regiões. por meio da socialização política. ou ainda razões políticas como exemplo. esta se integra em tentativas mais ou menos conscientes de definir e de reforçar sentimentos de pertencimento e fronteiras sociais entre coletividades de tamanhos diferentes: partidos. uma pessoa que evita relembrar situações no intuito de querer poupar os filhos de lembranças das feridas dos pais. sendo que para relatar seu sofrimento uma pessoa precisa antes de qualquer coisa encontrar uma escuta. lembranças que se inscrevem contra o esquecimento. Quando vemos esses pontos de referência frequentemente os integramos em nossos próprios sentimentos de filiação e de origem.

de uma memória coletiva organizada que resume a imagem que uma sociedade majoritária ou o Estado desejam passar e impor. tanto os “ditos” e “não-ditos” ambos concorrem para a construção de sentidos. ao narrar o passado.em estruturas de comunicação informais e passam despercebidas pela sociedade englobante. mas também existem as “memórias subterrâneas”. A análise de reconstrução da história. (SOUZA. confessado ou não confessado separa uma memória coletiva subterrânea da sociedade civil dominada ou de grupos específicos. aquelas que guardamos recordações pessoais os pontos de referência. No entanto o que se averigua é que o problema de toda memória oficial é o de sua credibilidade. silêncios. O velho. ainda que seja difícil ou impossível captar todas as lembranças em objetos de memória confeccionados. Os filmes neste sentido são tidos como poderosos instrumentos para os rearranjos sucessivos da memória coletiva. de sua aceitação e também de sua organização. por meio das lembranças. esquecimentos e repressões. 10) Nas lembranças mais próximas. 2013. o compromisso do não-dito entre aquilo que o sujeito confessa a si mesmo e aquilo que ele pode transmitir ao exterior. ligadas a quadros familiares. Percebemos assim. reprimidas ou ignoradas. que. tomando sobre o entendimento de que a memória assume aqui um fator decisivo no contexto contemporâneo. está na transformação da consciência de viver a realidade. até que ponto a mídia passaria a se . políticos etc. que transmitem e conservam lembranças proibidas. Nesse sentido o autor conjectura o discurso interior. A partir do que vem sendo exposto é compreensível de se impugnar. se encontra totalmente na história subjetiva (no cotidiano) e objetiva (violência da estrutura). temos hoje o filme como melhor suporte para fazê-lo. além de auxiliar na percepção sobre como as versões históricas de um mesmo fato são construídas por diferentes sujeitos. A estruturação dessa memória coletiva postulada por Michel Pollak nos ajuda a compreender que existe uma “memória oficial” que seleciona e ordena os fatos segundo certos critérios como zonas de sombra. Como testemunha do resultado do conflito ou da negociação de sentidos da sua ação e da estrutura social. A fronteira entre o que pode e não pode ser dito. grupos étnicos. p. a fragmentação perde sustentação e ele se vê em sua totalidade.

BOSI. Um olhar que nos leve a perceber que os acontecimentos sociais não ocorrem de forma mecânica ou linear. Memória. ver o sujeito em sua totalidade. 3. Gerson de. Estudos Históricos. e trazer ao público o indizível. SOUZA. 1989. Memória e Sociedade: lembrança de velhos 3. 11. v. ed. Eclea. através de uma visão reducionista e bucólica de apenas mostrar a importância do sujeito em sua construção histórica. Referências: POLLAK. no entanto. partir para o campo com a perspectiva de valorizar o sujeito simples. 3-15.uepg. acesso em 17/11/2013. A memória subterrânea na narrativa do espaço urbano: contribuição teórica para a folkcomunicação. Mas que as experiências vividas pelos agentes sociais trazem uma diversidade de histórias e que estas podem ser construídas a partir dos conflitos que estimulam os grupos a buscar uma identidade própria. O que está em jogo na memória é o sentido da identidade individual e a identidade do grupo. n. que caberia ao pesquisador. Rio de Janeiro.revistas. 1994. p. Por fim cada vez mais as pesquisas se nutrem do objetivo de reconstruir a história social a partir do testemunho de homens e mulheres marginalizados. Acredita-se. 2. Esquecimento e Silêncio. sem. mas que precisam ser ouvidas para que possamos dar um outro olhar para a história. Contraditoriamente tratar o indivíduo enquanto sujeito social e histórico fazendo emergir histórias que não estão escritas.utilizar dessas memórias buscando construir um universo ficcional favorável aos seus produtos. valorizar sobremaneira o passado pelo passado. que trabalha com a proposta de construir a história negada pelo outro. portanto. Disponível em: www. No 22 (2013) › de Sousa. . sua experiência de vida. São Paulo: Companhia das Letras. Michel.br › Capa › Vol.