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Transforma-se o amador na cousa amada, por virtude do muito imaginar; não tenho logo mais que desejar, pois

em mim tenho a parte desejada.

A vista em mim pousada, ora segura Podes fitar-me, e ouvir-me a ânsia revolta.

Olha do Sorge a montanhosa fonte E verás lá aquele que entre o prado e o rio

Se nela está minha alma transformada, que mais deseja o corpo de alcançar? Em si somente pode descansar, pois consigo tal alma está liada.

De recordar-te e de desgosto é insonte.

Onde está teu albergue, onde existiu O amor que abandonaste. E o horizonte De um mundo que desprezas, torpe e frio.

Mas esta linda e pura semidéia, que, como o acidente em seu sujeito, assim co’a alma minha se conforma, Alma minha gentil, que te partiste está no pensamento como idéia; [e] o vivo e puro amor de que sou feito, como matéria simples busca a forma. Tão cedo desta vida descontente, Repousa lá no Céu eternamente, E viva eu cá na terra sempre triste. (Petrarca)

(Camões)

Se lá no assento etéreo, onde subiste, Memória desta vida se consente, Não te esqueças daquele amor ardente

Alma tão bela desse nó já solta Que mais belo não sabe urdir natura, Tua mente volve à minha vida obscura Do céu à minha dor em choro envolta.

Que já nos olhos meus tão puro viste.

Da falsa suspeição liberta e absolta Que outrora te fazia acerba e dura

E se vires que pode merecer-te Alguma cousa a dor que me ficou

(Camões) . Da alma um fogo me sai. Se eu ardo por querer por que o lamento? Se sem querer o lamentar que val? Ó viva morte. um desconcerto. Agora desvario. Agora espero. chego ao Céu voando. por Deus. Que em vivo ardor tremendo estou de frio. Sem causa. justamente choro e rio. ó deleitoso mal. agora acerto. de perder-te. da vista um rio. porém suspeito Que só porque vos vi. Numa hora acho mil anos. Respondo que não sei. E se eu consinto sem razão pranteio. Se me pergunta alguém por que assim ando. Quão cedo de meus olhos te levou. Estando em terra. Tanto podes sem meu consentimento. sem remédio. Eu vou para o alto mar e sem governo. que cousa é a tal? Se boa por que tem ação mortal? Se má por que é tão doce o seu tormento? O mundo todo abarco e nada aperto. Soneto XXII Se amor não é qual é este sentimento? Mas se é amor. A tão contrário vento em frágil barca. minha Senhora. (Petrarca) Roga a Deus que teus anos encurtou.: Alude à barca (Camões) Tanto de meu estado me acho incerto. de ciência é parca Que eu mesmo não sei bem o que eu anseio E tremo em pleno estio e ardo no inverno. agora desconfio. Que tão cedo de cá me leve a ver-te. (1) N.Da mágoa. T. É tudo quanto sinto. e é jeito Que em mil anos não posso achar uma hora. (Camões) É tão grave de error (1).