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Peter Pál Pelbart

A NAU DO TEMPO-REI
7 Ensaios sobre o Tempo da Loucura

— Série Logoteca —

Direção JAYME SALOMÃO

Imago

© Peter Pál Pelbart, 1993 Capa: Visiva Comunicação e Design Foto da capa: Ricardo Bhering CPI-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. Pelbart, Peter Pál, 1956A nau do tempo-rei: sete ensaios sobre o tempo da loucura/ Peter Pál Pelbart. — Rio de Janeiro: Imago Ed., f 993. 132 p. (Série Logoteca) Apêndice ISBN 85-312-0281-7 1. Psiquiatria - Filosofia. 2. Loucura. I. Título. II. Série.

P433n

93-0172

CDD-157 CDU-159.972

Todos os direitos de reprodução, divulgação e tradução são reservados. Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida por fotocópia, microfilme ou outro processo fotomecânico: 1993 IMAGO EDITORA LTDA. Rua Santos Rodrigues, 201-A — Estácio CEP 20250430 - Rio de Janeiro - RJ Tel.: 293-1092 Impresso no Brasil Printed in Brazil

A Lulu Porto

SUMÁRIO PRÓLOGO "Um pouco de possível.MANICÔMIO MENTAL 6 — Da loucura à desrazão 7 — A utopia asséptica 89 101 APÊNDICE HOMENAGEM A FÉLIX GUATTARI: Um direito ao silêncio 113 REFERÊNCIAS Textos desta edição (relação e especificação) 129 . senão eu sufoco" 11 I .TEMPO DOS ANJOS 1 — Um desejo de asas 2 — A nau do Tempo-rei 3 — Ecologia do invisível 4 — Rapsódia húngara 5 — O anjo de Swedenborg 17 29 47 63 71 II .

PRÓLOGO .

Talvez na seja loucura. SENÃO EU SUFOCO. mas seu propóA meio caminho entre do a filosofia.. mimetizando sistemas insossos e pseudocientíficos."1 Estas Este livro falas. . a clínica. qualificar pois. de ver como políticas. aos da transferência e da vida. mesmo quando atreladas a aparatos académicos rigorosos. clínica das loucuras com pacientes do Tempo. o manifesto. 34. enganoso Eis. Teriam um quê de razão. sobem. p. da soltos loucura. por anos do tempo de (con)vivência dos loucos.. 131. Peter Pál Pelbart. as inspira: São no a máximo partir das balões disrupções de ensaio. literatura. uns e outros. Ed.. tratou-se l Gilles Deleuze. caem existenciais). 1992. pelo caráter aleatório ou duvidoso. ade molecagem ensaios os filosófica textos aquique reunidos. ao invés de negar a dimensão ficcional do pensamento. o género híbrido corre o risco óbvio de desgostar a todos. desarrazoados. Foram redigidos por ocasião de colóquios diversos acerca tema da loucura."UM POUCO DE POSSÍVEL.. ao repensar vento com algumas o gostodas capeta clausuras (e incendiário) nossas (temporais. estéticas. a sito é pouco científico. Aos profissionais do conceito.secretamente de questionamento o beloeede infame estranhamento mercado daembutidas vida. Assim. fala embora dos anjos impregnadas de Wenders. somem. Conversações. visam simplesmente do invisível ereado cender intempestivo a potência que de frequentam evocação. trad. as experimentações teóricas comportam um quinhão irredutível de ficção. pelo aspecto ligeiro. ditos dos psicóticos. não fosse a circunstância particular de que determinadas experimentações teóricas e vitais têm na divagação e na digressão sua matéria-prima. Pois na sua textura mais íntima. ou explodem.

uma grande e nova leveza lúdica? E por que fazê-lo na vizinhança da loucura? Por ser ela o campo das questões limítrofes. inapagáveis. Brincar de desfazer certas ordens cristalizadas no espelho do Tempo. a fim de criar outras ficções de vida. das associações. É em parte o que se tentou aqui. é possível repensar aspectos de nossa temporalidade. a partir dela mesma. por exemplo. Ora. mas de infletir-nos a partir daquilo que o campo da loucura dispara e conturba em nós. São parte constitutiva de uma viagem. A partir do colapso psicótico. de "ouvir" a loucura. com tudo de ziguezagueante que isso implica. das visibilidades incontestes. aventuresco. elas precisam ser testadas e talhadas num processo paciente mas intempestivo. nem a estranheza nem a necessidade são dadas. incluindo aí novas e estranhas pedrinhas. ressonâncias caleidoscópicas. longe de estar esgotada. de nossas evidências lógicas. O tom oral e por vezes dema12 . É ali que se dá o entroncamento impensável entre a subjetividade. foi pouco explorada. diz Deleuze. certos conceitos insólitos e todas as insubordinações desarrazoadas. de nosso modo de vivenciar a história. É uma maneira entre outras. consensos políticos etc. outras vidas. dos contextos. constituem seu estofo romanesco. É preciso que um conceito tenha ao mesmo tempo uma estranheza e uma necessidade. contradições. não cabia ocultar as hesitações. mais. porém esquecida e valiosa. Não se trata de "usar" o sofrimento do louco para "fazer filosofia". a ruína. perguntas em suspenso que entremearam a feitura deste trabalho. Esta aventura. das conexões. de variação das condições. Não é este um dos sonhos do pensamento? O de insuflar na vida.aqui de construir brinquedos. As muitas referências a Gilles Deleuze c Félix Guattari se devem ao fato de terem eles (re)inaugurado a trilha do pensamento nas adjacências da esquizofrenia. Os conceitos de Deleuze-Guattari (e muitos outros) foram operados ao longo destes textos com a mesma desenvoltura que eles próprios sempre defenderam e exercitaram. Nesse sentido. O livro-caleidoscópio. a cultura.

siado coloquial tampouco foi alterado. com a ilusão. 13 . de que se pudesse preservar uma certa hecceidade da fala. Cuja beleza e tentação cabe reinventar. mas aos que alguma vez já desconfiaram que essa vida morna e tola que nos é oferecida e alardeada como a única possível. talvez. trabalhadores em saúde mental (embora a estes possa ser particularmente útil). desejável e saudável esconde outras tantas. psicanalistas. Este livro não é dirigido só a filósofos.

TEMPO DOS ANJOS .I .

l .UM DESEJO DE ASAS .

num mundo que não quer mais ouvir suas histórias. observando em silêncio o sofrimento dos mortais. devaneios. com o cabelo preso em rabicho. Os anjos 19 . O que faz uma anjo quando percebe que a desesperança invade a alma de um humano? Toca-lhe no ombro de leve. com a ponta dos dedos. Eles não podem tudo. que eles são muitos. Por exemplo. Nem sequer está ao alcance deles criar um público para um narrador envelhecido. Quando querem. Mas os anjos não são deuses. Não podem dar trabalho a um desempregado. Tampouco têm o poder de agenciar parceiro para uma trapezista solitária. Com Asas do Desejo ficamos sabendo. invisíveis. sente como que um farfalhar de folhas. Intui uma presença estranha mas nada vê. não podem estancar a queda de um suicida do alto de um arranha-céu. E aí seu corpo caído retoma um vigor inesperado. enfiados em grandes casacos. Perambulam pelas cidades meio ao acaso. pois prefere perder a memória. espantados.Wim Wenders mostrou pela primeira vez em circuito planetário como são e o que fazem os anjos numa metrópole contemporânea. inclinam a cabeça em direção ao ombro e escutam seus monólogos. mas não sabe ao certo o quê. Só em Berlim contam-se às dezenas. uma perturbação desconhecida. anseios. suas preces. e o sofredor se dá conta de algo a roçar-lhe o entorno. uma espécie de cintilância. o pensamento de repente bifurca para longe da morte. ouvem os pensamentos dos homens. ocorre-lhe como que um pequeno renascimento. Aproximam-se deles devagarzinho. mãos no bolso. mulheres e crianças.

seu eterno flutuar por sobre coisas e homens. do esfregar as mãos uma na outra numa madrugada gelada. Da sua fragilidade. do sentir fome. de morrer de amor e de ter medo da morte. da atemporalidade. mas os anjos. A imortalidade dos anjos é para eles um cárcere cruel. de uma ahistoricidade. ora com compaixão — mas sempre com uma pontinha de inveja. de sentir o calor de um copo de café esquentando o corpo. sua desencarnação assexuada. No filme de Wenders. sede. sua ahistoricidade. de uma existência sem concretude (ou com um excesso de concretude). incertezas. do sentir frio. Sua permanência tediosa sobre a face da Terra. para tocar. do sentir doce. No máximo podem tornar mais leve o fardo de uma ou outra vida. Um pouco como um terapeuta: essa disponibilidade para ouvir. ouvem tudo. podem estar em todos os lugares. na repetitividade sem história. de um ou outro momento de uma vida ou outra. como seria de se esperar. O que poucos sabem — e isto se aprende no filme — é que os anjos têm inveja dos homens. fome. para viver no lugar de. Pois há na loucura um sofrimento que é da ordem da desencarnação. da sua inscrição no tempo. num eterno presente que é em si a imagem cinza de uma morte sem desfecho. ora com admiração. observam os humanos ora com espanto. Do que têm inveja os anjos? Da finitude dos mortais. sangue e dor. tudo isso está muito mais próximo do sofrimento da loucura do que da disponibilidade dos terapeutas. de uma eternidade vazia. tudo aquilo a que nós temos direito cotidianamen20 . Eles vêem muita coisa. saudade.não podem mudar a face do Planeta nem dirigir o curso do Mundo. sem começo nem fim. essa presença discreta que pode às vezes suscitar um novo começo — mas também essa impotência para determinar. a dor maior de ter expurgado o devir e estar condenado a testemunhar com inveja silenciosa a encarnação alheia. Ela os aprisiona no tédio infernal do Mesmo. com frio. corn aquela dor terrível de não ter dor. Vira um mortal de carne e osso. Curiosa inversão: então não são os homens os infelizes do filme. para resolver. de ter saudades. um dia um anjo resolve encarnar.

o cinema. tudo isso oferece asas para um devir-anjo. é também o que a trapezista entristecida sempre buscara. É igualmente o que o narrador sem público buscava em sua nostalgia de história. embarcou no que se poderia chamar de um devir-anjo. Cada qual a seu modo buscava um devir-anjo. O que significa: merecem ser reconduzidos à condição de mortais. vago. Um Hospital-Dia lembra às vezes a Nau dos Insensatos que Foucault descreve no início de sua História da Loucura. um devir-anjo. em que sente ter descoberto pela primeira vez a verdadeira eternidade. e vive com ela um instante único. O exanjo-recém-encarnado apaixona-se então pela trapezista solitária. . para aí sim poderem constituir um deviranjo. mas a eternidade cravada na fugacidade de um devir. Um pouco como diz o poeta: eterno enquanto dura. Apenas os mortais têm acesso ao deviranjo. e no entanto nada mais perigoso. Parece óbvio. No fundo. ou os estudiosos da biblioteca gigante de Berlim. o que pretendemos com isso? Traduzindo em miúdos. no contexto de nossas cidades trata-se do seguinte: um Hospital-Dia para psicóticos. E alguns de nós.te e que é o nosso quinhão precioso sobre esse planeta. Não aquela eternidade vazia dos anjos. tinha um desejo de asas. terapeutas de psicóticos. A religião. a literatura. Em linguagem moderna diríamos: se sofrem. Ele não virou anjo. são infelizes. Os anjos mesmo estão condenados ao tédio eterno. o amor. Mas há uma condição: é preciso ser um mortal. merecem ser curados. primário. Os anjos não existem. fosse através de seus malabarismos circenses ou de sua letargia embalada em rock'n roll. ou um serviço público experimental podem ser muita coisa. mereceriam ser salvos. que nos encarregamos dessa tarefa insensata de ajudar a encarnar os anjos. entre outras coisas podem vir a ser um dispositivo institucional a mais de normalização do social. mas entrou num devir-anjo. E o ex-anjo-recém-tornado-mortal. Mas nós não acreditamos mais em anjos. mas que ao invés de vagar à deriva das águas. através desse instante diamantino. a menos que eles encarnem. Se existem. Se são infelizes. o que é diferente.

a criação. Daí a ideia de que é preciso criar muitos modos de devir-anjo. os mais variados. Uma nau atracada. Talvez ele efetivamente corra o risco de transformar-se num híbrido disso tudo se não conseguir refletir suficientemente sobre o seu lugar cultural numa sociedade que de algum modo tem coibido o devir-anjo de seus mortais. E isso tem tudo a ver com os terapeutas de psicóticos. Seria preciso engravidar o real com virtualidades desconhecidas de deviranjo. muitas dimensões. Um atendimento alternativo pode transformar-se facilmente numa extensão burocrática do Hospital ou do Estado urbano. um pouco como as barcas-casa nos canais de Amsterdã.como na Renascença. a encarnação seca que nós mesmos suportamos mal e que frequentemente pensamos transcender com nossas histórias. Não podemos oferecer-lhes. os modos de subjetivação. um tantinho flutuantes mas já sedentárias. em fazer proliferar o real para além da mortalidade mortífera que nos é proposta e imposta por todos os lados. para que o tédio de ser mortal não vire uma camisa de força ainda pior do que o tédio de ser anjo. a política. numa indústria de cura ou num depósito de estranhos personagens. cada vez menos e mais pobres formas de viver a familiaridade. que às vezes temos a mão leve e mágica dos anjos de Wim Wenders para a dor alheia. mas isso também porque o ser mortal em nossas sociedades foi de algum modo expurgado do devir-anjo. mas ao mesmo tempo vemos nos pacientes anjos desencarnados buscando imanência. como se assistíssemos a uma homogeneização 22 . Eu ousaria dizer que às vezes vira anjo quem não consegue suportar ser mortal. num jardim de infância pedagógico. O leque dos possíveis contém cada vez menos modelos de normalidade ou de anormalidade. aventuras. No fundo travamos uma briga encarniçada contra a pobreza de opções disponíveis no mercado da vida. com nosso esforço em multiplicar nossos devires-anjo. em viver várias vidas ao mesmo tempo. drogas. os mais múltiplos. a conjugalidade. porém. os mais diversos. com todas as promessas e riscos que isso implica. numa indecisão saborosa entre o fluxo do rio e a fixidez da cidade. aportou em solo urbano.

investimentos e modos de existencialização possíveis. Recusar a homogeneização sutil mas despótica em que incorremos às vezes. Pluridimensionar o campo. linguísticas. o multiplicar as formas de conexão. é preciso conseguir o n-1. sem querer. sonoras. espaciais.crescente de um social cada dia mais codificado. com essa tolerância neoliberal tão em voga. Se uma clínica tem n dimensões de funcionamento. ou a uma dimensão predominante. um dos diretores da Clínica de La Borde. de que a heterogeneidade precisa ser produzida. de linguagens. incitá-las. criá-las. o mais difícil é conseguir abrir esse leque em direção à sua pluralidade. que quando um grupo está demasiadamente bem sucedido alguma processualidade foi emperrada. Por isso. na França. 23 . Em ambos os casos tratase de combater uma espécie de entropia subjetiva e social. Ou seja. ao invés de reconduzi-la a uma unidade significativa qualquer. de abordagens. dramáticas. nos dispositivos que montamos quando os subordinamos a um modelo único. sobrecodifica e homogeneiza. que quando estamos muito sãos é porque já estamos muito é neuróticos. que quando entendemos muito bem é porque deixamos de entender um bocado. é preciso subtrair de um conjunto dado a unidade que o totaliza. Para retomar uma fórmula feliz de Jean Oury. não creio que se possa desvincular a criação de dispositivos os mais diversos de sustentação para experimentações pluridimensionais num espaço terapêutico e a mesma criação num espaço extraterapêutico. de entendimento. não porque sejamos estreitos ou mesquinhos. produzi-las. Aceitar esse paradoxo de que quando um dispositivo está dando certo demais é que eleja não serve mais. Não basta reconhecer o direito às diferenças identitárias. Daí o proveito que poderíamos tirar da ideia de Félix Guattari. mas porque nossa configuração sóciohistórica tem restringido e pasteurizado sua diversidade potencial. por exemplo. Talvez essa seja uma das coisas mais fascinantes e mais difíceis de fazer no trabalho com psicóticos. mas caberia intensificar as diferenciações. Nosso trabalho cotidiano mostra que socialmente temos pouco a oferecer como alternativas de vida a nossos pacientes.

James Joyce. Gilles Deleuze propôs substituir o que ele chamou de uma imagem do pensamento por um pensamento sem imagem. ideia todavia mais vertiginosa. porém mais rico e pluridimensional. Ao invés de um contorno para o mundo. uma política sem modelo. se ela a suporta. 24 . monstruoso.Mas por que será tão difícil assumir e intensificar essa multiplicação de dimensões? Parece haver nessa operação o risco de uma espécie de proliferação demoníaca. sem modelo. teríamos de fato um mundo sem uma imagem de mundo. linhas e uma série de virtualidades pictóricas até então aprisionadas debaixo da representação figurativa1. Sobre a clínica. é difícil saber se ela precisa de uma revolução destas. para ficarmos simplificadamente num exemplo eminente para cada domínio. Um pouco como fez a arte abstraia. O resultado é mais caótico e enlouquecido. Num dos belos livros de filosofia escritos no pósguerra (Diferença e repetição). ou. de uma imagem de mundo reasseguradora. Nietzsche. Isso que ocorreu na pintura também acontece na literatura e na filosofia. Bastaria citar Jackson Pollock. se ela a deseja. forjar um pensamento sem imagem de pensamento. sem forma nem finalidade. com o propósito exclusivo de introduzir a questão dos modelos teóricos através de um ângulo de abordagem "escancarado". cancerígena. isto é. uma política sem uma imagem de política a aprisionarlhe as virtualidades. Ao contrário. que ao dispensar a figuratividade pôde liberar cores. sobretudo. o caminho fica desimpedido para se inventar um outro modelo. porém. Mas também na política pode estar em curso algo semelhante: com o desmoronamento do modelo clássico de socialismo no Leste europeu. E a pergunta que imediatamente vem ao espírito é: Como fazer uma clínica sem l Em Deleuze não se confundem em absoluto a imagem do pensamento e o modelo. A extrapolação é abusiva e corre por minha conta. Imagem do pensamento significa grosseiramente uma forma à qual o pensamento está submetido. de um modelo. se é capaz de provocá-la e. sem uma imagem prévia do que seja pensar (será isto possível? ou trata-se apenas de outra imagem do pensar?) pode implicar em abrir mão de uma forma.

liberando tudo aquilo que um modelo encobre ou o que lhe escapa. o que parece evidente é que a expansão e a difusão de um modelo hegemónico de subjetividade e de sociabilidade meio esvaziado emperra e murcha nossos devires-anjo. com poucas chances de vingar. Nesse contexto uma coisa parece clara. antropológica etc). mas não de todo. e que em geral é o essencial. Talvez também fosse útil submeter a noção de modelo à ideia de perspectiva no sentido nietzscheano. e não especificamente da clínica. se "corresponde". a fim de que ele possa constantemente derivar para longe de seu equilíbrio ordinário. de que tipo de vida tal modelo é sintoma. e com que interesses. reativas?) forjaram tal perspectiva. como os anjos de Wenders. contornaríamos dilemas epistemológicos inúteis.um modelo de clínica quando no fundo está todo mundo atrás do melhor modelo? Quando já custa um esforço tão hercúleo achar um modelo. isto é. ao invés de perguntar se tal modelo "é verdadeiro". que é o pior modelo — talvez na clínica seja preciso de algum modo repensar o estatuto do modelo. Somos pequeninos e às vezes impotentes. perguntaríamos a que perspectiva tal modelo corresponde. Num âmbito mais geral. no interesse de qual tipo de vida? Caso remetêssemos os modelos aos tipos de "saúde" que eles implicam. "adequado". por que tornar-se iconoclasta? Deixemos um pouco em aberto essa questão provocativa. Por exemplo. se "representa" a realidade (psíquica. isto ao menos nos evitaria a ressonância pseudocientífica evocada pela ideia de modelo. ou quais forças (ativas. Mas a clínica talvez seja um lugar privilegiado para pensar essa intersecção entre políticas da subjetividade e virtualidades de devir-anjo. todo nosso esforço terá sido em vão. porém. não está ao nosso alcance mudar a face da Terra ou dirigir o curso do Mundo. E isso por uma razão óbvia: a saúde triste oferece menos 25 . Se na nossa clínica formos apenas os embaixadores de uma saúde triste e asséptica. Assim. injetando na própria ideia de modelo a precariedade que lhe é intrínseca. Mais do que abrir mão dos modelos — o que nos afundaria na intuição cega.

Não é necessário escolher o de ícaro. assim como não se deve abdicar das belas histórias. Mas. o psicanalista Gregório Baremblitt notou. assumindo o risco de alçar voos inusitados.atrativos do que o tédio angelical da loucura. Caberia dizer: tamanho pequeno não é documento. Os estudos de Michel Foucault mostraram de sobra que o poder é capilar. que ele não só incide como também em parte é engendrado na mais minúscula dimensão. Resignação por resignação. ou a facilitação de múltiplos devires-anjo é essencial para que a construção de um atendimento alternativo não vire apenas mais uma empresa. discutíveis. Penso que é esse um dos nossos mais caros alentos. que apesar da tentação crescente não aceita o papel exclusivo e perigoso de "operários da saúde". nem muito menos o de Santos Dumont. Sobretudo delas. de maneira graciosa: "Há infinitos modos de voar. por outro lado. a história mostra que também grandes revoluções às vezes começam em pequenos laboratórios. que num trabalho deste tipo só se consegue fazer quando se está devidamente acompanhado. O trabalho diário e a mão na massa são sempre mais maçantes do que as belas palavras. um pouco mais sofisticada. Num escrito sobre um trabalho meu. O fato de serem pequenas não necessariamente protege essas experiências inovadoras deste risco. ladeado por uma equipe audaciosa e tresloucada. muito menos das belas intervenções — o que não dizer das belas e desvairadas viagens. não há porque trocar um tédio pelo outro. de burocratização do desejo. com high technology. sem a tecnicidade da terminologia "psi" que às vezes nos dá a segurança de um modelo. Não é por outra razão que seria preciso retomar o leitmotiv inicial: o desejo de asas. na cabeça e na prática de alguns poucos desvairados. são questões polémicas. mas não se deve sob hipótese alguma abdicar das belas palavras. nem dos belos gestos." Caberia acrescentar o seguinte. Essas coisas formuladas aqui intencionalmente de um modo simplista. isto é. complexas. cheias de implicações teóricas e práticas da maior relevância. na mais microscópica das agitações. Talvez 26 .

ético. político. Ora estamos de um lado. clínico. Setembro/1990 27 . demiúrgico até. Necessitamos de muito espírito aventureiro para ir forjando asas. quando enlouquecemos. tanto no interior de uma instituição como fora dela. que nos permitam — a nós e a nossos pacientes — escapar a essa violência binária.nossa modernidade tenha reduzido esses infinitos modos de voar unicamente a esses dois. É preciso muito senso estético. para desmontar essa disjuntiva infernal. por exemplo. ora de outro. saúde sem desejo de asas nem um devir-anjo. quando tratamos. seja pelo suave paraíso asséptico de uma estranha saúde. que consiste em ter que optar sempre seja por um precipício abissal.

2-A NAU DO TEMPO-REI .

na sua l André Neher. 31 .Conta a tradição talmúdica que 26 tentativas malogradas precederam a criação deste mundo. Todo o contrário da representação que Dele se tem habitualmente: onipotente. remontagens. que não foi uma ordem. entre outras coisas porque houve. também ele estava (e continua) exposto ao risco do fracasso e do retorno ao nada: a qualquer momento o sucesso da empreitada pode desfazer-se e a obra vir abaixo. O Génesis não teria sido aquele milagroso instante inaugural tão celebrado. Os loucos. no momento desta tentativa. Mas que vingou. Deus atípico: bricoleur. fracasso. in As culturas e o tempo. desejante. "Oxalá se sustente" (Halevay sheyaamod). esperançoso — súdito do Tempo. experimentação. nosso mundo não possuía (e não possui ainda) nenhuma garantia. Foi e é sempre por um triz. mas um desejo1. mas tentativa e erro. uma torcida. Dono do Futuro e do Destino. por sua precariedade. Rei do Tempo. "Visão do tempo e da história na cultura judaica". de um início que poderia não ter vingado. publicação da UNESCO. levando a marca inapagável daquela incerteza originária. por parte de Deus. e sua obra respondeu afirmativamente a este voto. graças a um misto de engenhosidade e acaso que esse mundo se sustenta. nem a eclosão repentina de uma totalidade redonda saída do Nada através do Verbo. recolagens. exclamou Ele naquele instante. essa versão de um Génesis sempre inconcluso. Saído do seio caótico dos destroços anteriores. O mundo da loucura lembra às vezes.

porém de abolir o tempo. 1980. O ideal tecnocientífico contemporâneo consiste em absolutizar a velocidade a ponto de dispensar o próprio movimento no espaço. Para tanto. 32 . generoso. Ed. passando todos eles pelas modalidades mais diversificadas de encontro. 26 tentativas podem ser pouco para um louco. até mesmo os medicamentosos. ainda que incertas. Barcelona. Trata-se dos dispositivos institucionais. a esses fracassos. Lisboa. O lema do capitalismo foi outrora o do "tempo é dinheiro": era preciso fazer o máximo no mínimo de tempo. de muita engenhosidade. expressivos. de escuta. Um tempo sem medida. nem o do campanário. a esses acasos.fragilidade e inconsistência. O curioso é que no trato com a loucura precisamos dar um tempo que nós mesmos não temos. in Tradición. Crítica. revuelta y consciência de clase. sem o que nada seria possível: Tempo. É preciso dar tempo a essa gestação com que se confronta a loucura. l Para a análise histórica deste processo. tal como nesta versão do Génesis. também precisam. em suma. para sustentar-se. a essas tentativas. disciplina de trabajo y capitalismo industrial". sociais. in Para um novo conceito de Idade Média: Tempo. num processo constante de reconstrução a partir dos destroços anteriores. deslocar-se na maior velocidade possível. Não se trata mais de ganhar tempo. e frequentemente dez vezes isso ainda é insuficiente. trabalho e cultura no Ocidente. e de Thompson. com sua origem turva e nebulosa. maximizar a produtividade. 1989. acaso e amiúde uma boa torcida desejante. Estampa. mas aquela que nós podemos oferecer a partir dos dispositivos os mais diversos que conseguimos colocar à sua disposição para favorecer-lhes essa consistência e sobrevivência. muito menos o do computador. jurídicos. "Tiempo. "Na Idade Média: tempo da Igreja e tempo do mercador". a essa construção e reconstrução. amplo. nem o do sol. Ed. ver Jacques Lê Goff. Um tempo que não é o tempo do relógio. Mas nas últimas décadas assistimos a uma mutação a esse respeito que mal chegamos a entender. uma coisa aí é primordial. Não a torcida vinda da voz cavernosa de um Deus mandão. Mas nunca nada está dado de antemão e o futuro jamais está garantido. clínicos. economizar tempo em todos os sentidos1.

A tal ponto que. hoje. já vem antes. O futuro está presente e já não se apresenta como um desconhecido. na medida em que está estocado na memória do computador. É o ideal do tempo zero e da distância zero. conforme Jean 33 . que pode diluir pela sua força o advento do adverso. Fim das distâncias temporais e espaciais. mas sedentariedade onipresente. antes mesmo do presente. as garantias. Mas talvez a informática seja ainda mais exemplar para pensar o que está em jogo neste ideal de abolição do tempo. um nomadismo desenfreado. e privados do tempo e do espaço. a memória absoluta que pudesse não só prever um acontecimento. Não mais partir. o que vem depois do ponto de vista de uma cronologia linear. As tecnologias do pós-guerra criaram um novo veículo. sem espessura. O futuro antecede o próprio presente. através das vias de comunicação e dos veículos automóveis. O instante sem duração. Todas as companhias de seguro. de tempo e de duração. no limite. Não se trata mais. Não mais nomadismo. mas reagir a ele antecipando-se a seu advento. uma abertura. neutralizando-o. assistimos à verdadeira desmaterialização tecnológica. A ordem agora é habitar a velocidade absoluta no instante contínuo da emissão. como na primeira metade desse século. Até mesmo o capital é um futuro estocado em forma de dinheiro. as previsões são modos de prevenir-se contra o devir. estático: a televisão. O futuro aí está completamente predeterminado. porém deixar chegar. Instalados nessa instantaneidade. o audiovisual inaugurou um novo regime de temporalidade: a instantaneidade. Seu anseio é a informação total. de favorecer. mas a própria ideia de espaço. do ponto de vista tecnológico. uma espécie de eterno presente. É evidente: o que já é conhecido de antemão não pode ser experimentado como acontecimento. pura persistência da retina na fonte teleluminosa em meio a uma simultaneidade universal.anulando assim não só a geografia e o tempo de duração desse deslocamento. De propagação instantânea e indiferente à geografia. O sentido disso tudo. contra o advir.

2 Paul Virilio. que só integra o desconhecido enquanto probabilidade calculável. L 'inhumain. O paradoxo é que a desmaterialização provocada pela velocidade absoluta equivale a uma inércia absoluta. no seu ritmo. de quem extraio essas observações. suspensos no ar. mais do que controlar o tempo. Galilée. Um achatamento temporal que proporciona um presente eterno. Paul Virilio analisou magistralmente essa questão2 e concluiu: se ontem o sonho da onipotência do homem era o controle do espaço. um regime de temporalidade que tende a abolir a própria duração. sem história para trás nem para frente. A obsessão contemporânea. Estranha equação em que coincidem velocidade máxima e imobilidade total. Paris. 1984. 34 . presentificando-o como um já dado. dali a pouco numa rapidez inusitada. na medida do possível. Brasiliense. Às vezes lembra um aquário onde cada um desliza a seu modo. ou os trajetos vagarosos em percursos cuja lógica nos escapa. em 1 Jean François Lyotard. 1988. da extensão física da matéria. Paris.François Lyotard1. consiste em abolir o tempo. Vitesse et politique: essai de dromologie. desacelerada. Agora em câmara lenta. a morte e o imprevisto. seja um outro fazendo um gesto brusco para depois mergulhar numa lerdeza sonolenta. a militarização do cotidiano. Por outro lado. mas que implica necessariamente no declínio de uma profundidade de campo nas nossas atividades as mais cotidianas. outros jamais saberemos onde estão. São guetos lentificados. 1977. em nossas instituições de saúde mental assistimos a um outro regime de temporalidade. ou ainda aquelas falas entrecortadas por silêncios longos. Galilée. Seja um paciente que levanta os braços e de repente os imobiliza. é sempre. neutralizar o acontecimento abolindo a dimensão imprevista do futuro. hoje o homem realiza um sonho ainda mais demiúrgico. a seu tempo. trad. Uma cronopolítica está em curso cujos desdobramentos ainda são desconhecidos. ilusão da imortalidade que ignora o começo e o fim. causeries sur k temps. sem passado nem futuro. ou Guerra Pura. São Paulo. Uns estão estacionados num passado longínquo. de Elza Mine e Laymert Garcia dos Santos. Presente sem espessura.

até um projeto. mais profundamente. em que ainda não está configurada uma imagem do corpo. num estado de inacabamento radical. que é o momento adequado. de suspensão. Isso. das ordens. de onde pode surgir uma forma. onde não há contorno nem mesmo para o vazio. do futuro l Jean Ouiy. e caótico. num certo sentido. anterior mesmo a uma temporalidade. . dos projetos. Num belo artigo sobre o tempo e a psicose1. insípido. Mas talvez essa descrição externa seja enganosa e insuficiente para dar conta do que realmente está em jogo para os psicóticos na questão do tempo. a paciência. e com ele a possibilidade de alguma forma. no entanto. A ideia de Oury é que deveríamos poder sustentar para os psicóticos um ponto que é ao mesmo tempo de um esquecimento e de uma espera. um ponto de parada. Payot. É um ponto que corresponde ao jorrar do tempo. Como se devêssemos sustentar para o psicótico esse ponto de coincidência entre o aion e o kairos. e o kairos. 1977. é um ponto de paciência. deixar jorrar o tempo para que possa surgir o bom momento de se fazer alguma coisa. Armando Verdiglione (org. numa instantaneidade aflita. a fadiga. de alguma decisão. de tédio. o aion. onde não há esquecimento nem surgimento. o ponto do surgimento do tempo. Paris. Oury usa para explicá-lo dois tipos de tempo existentes no grego antigo. Onde coincidissem esquecimento e espera. o psicótico situa-se numa espécie de ponto de horror. como se nada lhes garantisse a continuidade temporal. Jean Oury diz que estamos em contato com certas subestruturas do tempo nos psicóticos. "La temporalité dans Ia psychose". outros ainda. Curiosamente. a usura. Nós não temos tempo nem paciência para sustentar este ponto. que é esse presente que faz jorrar de dentro de si o tempo. pois somos amantes das formas. é muito difícil de fazer. como o tédio. o bom momento para decidir e fazer. Deveríamos poder estar ali onde começa o tempo. porque em geral temos muita pressa. numa espécie de cronogênese primordial. Mas.).qual tempo. in La folie dans Ia psychanalyse.

não da abolição do tempo. mas ao menos tiveram a morte diferida. por outro. um gueto temporal. o surgimento do insurgente. Nosso sofrimento e angústia nesses momentos iniciais de um grupo expressivo com psicóticos. Uma inferência apressada poderia concluir: l op. Esta é a situação dos pensadores e escritores: confinados a um gueto temporal. de poder acolher o que não estamos preparados para acolher. retarda a morte. mas de sua doação. que se soubermos sustentar não passa de um caos-germe. nosso voluntarismo. 36 . dando lugar a outras aventuras temporais. É quase o esforço inimaginável. Daí nossa impaciência. Trata-se aí de um tempo que escaparia à presença. à presentificação. do acabamento. como quer a tecnociência. é-se atirado a um gueto. Do dar tempo e paciência para que o tempo e a forma brotem a partir do informe e do indecidido. estão ameaçados pelo reinado do tempo controlado. do indecidido. tanto no caso do pensamento como da criação. de uma gestação a partir do informe. porque este novo não pôde ser previsto nem programado. e não em sua antecipação. mas libertar o tempo. hoje"1 Lyotard diz que para se pensar ou escrever hoje. a possibilidade do impossível. à continuidade. O desafio é propiciar as condições para um tempo não controlável. cit. não programável. Não é inútil lembrar que o tempo da criação artística ou do pensamento também exige algo dessa ordem.já embutido no presente. que possa trazer o acontecimento que nossas tecnologias insistem em neutralizar. é ambíguo: por um lado representa uma violência. quando há uma espécie de suspensão caótica. onde os alemães confinaram os judeus. embora não evite a solução final. e como todo gueto. mas também no da loucura. pois é da ordem do tempo em sua vinda. Pois importa. nossa hipervalorização do trabalho. devolver-lhe a potência do começo. por exemplo. guardadas as diferenças. Não libertar-se do tempo. Num artigo intitulado "O tempo. Como o Gueto de Varsóvia.

retardam a morte dos reclusos e os protegem. Mas nada garante que nossa atenção não esteja dirigida a um monstro pré-histórico condenado pela modernidade.também os manicômios. Pois parece provável que as tecnologias políticas que se anunciam no horizonte dispensem totalmente a reclusão. afinal. Antes de comentá-lo. e denunciou incansavelmente a inadequação entre nossa representação já caduca do poder e as estratégias políticas efetivamente em exercício. em vista de seu gigantismo. Não cabe discutir aqui a justeza ou não desta crítica de Virilio a Foucault. Ora. de sua inoperância. de seu caráter ostensivo. ainda que lentificados. Foucault teria perdido o bonde da história? Teria errado de alvo? E acaso não estaríamos nós embarcando no mesmo erro. Para ficar no 37 . ao fazer pela milionésima vez a crítica de um modelo (o asilar) que. mas abertos. e que víamos na reclusão a quintessência da brutalidade institucional (cujo apogeu paradigmático é o campo de concentração nazista) talvez estejamos teoricamente desarmados em face das tecnologias emergentes. Esta crítica é de deixar perplexo. em seus estudos. pois interessa o seu pressuposto. Para articular a questão dos manicômios com a politização do tempo conviria relacionar e confrontar certas teses de Paul Virilio com análises já conhecidas de Michel Foucault. convém lembrar que Foucault passou sua vida limando ferramentas teóricas que lhe permitissem identificar as novas formas de poder vigentes. que crescemos respirando um certo furor libertário e antiautoritário. E nós. guetos de tempo lentificado. embora violentos. está fadado de qualquer modo à extinção? É bem verdade que se este modelo já estivesse completamente extinto não estaríamos sequer discutindo o assunto. debruçou-se erroneamente sobre espaços fechados (como a prisão. nós sabemos que os manicômios não passam de uma versão do tempo controlado em câmara lenta. de seu custo. o hospital. Virilio diz que Foucault. o manicômio) quando hoje em dia a mecânica do poder incide não sobre espaços fechados. Uma observação meio lateral de Virilio a respeito dos estudos de Foucault poderia fazer-nos avançar.

cuja genealogia ele próprio traçou em sua História da sexualidade. embora nós continuemos a vê-lo exclusivamente como aquele que coíbe. estavam dando lugar a outro dispositivo muito mais sutil. o da produção. Foucault insistiu em que o poder é produtivo. Claro. evidentemente. de neutralização do tempo. driblados por um poder mais manhoso do que supõe nossa vã politologia. mas o do controle do tempo. o que pode representar hoje uma política de resistência. Enquanto nós usamos o modelo da lei. O que está por trás do comentário de Virilio sobre Foucault parece ser uma divergência mais geral. uma cronopolítica que desafiasse o modelo dominante de controle do tempo. isto é. Foucault foi um dos primeiros a entender que o modelo concentracionário. trocar uma instituição fechada por uma semiaberta. dos espaços fechados. o das instituições totais. desde que se esteja submetido a um certo regime de temporalidade hegemónico. incita. do ideal de abolição do tempo. Caso a hipótese de Virilio aponte para uma tendência real.exemplo mais célebre. basta entrar 38 . não bastaria uma política do espaço. ele cria. castra. e não mais por manipulação prioritária do espaço. este é um tema de conceitualização difícil. Nesse sentido. invisível. instiga. mas seria preciso forjar uma política do tempo. no seu desaparecimento progressivo. a partir desta afirmação. por exemplo. A hipótese-questão que caberia testar. Para Virilio. ágil e poderoso. porém do tempo. num regime que funciona não mais por exclusão e reclusão. por ser também de difícil visualização contrariamente à questão do espaço. com o que estaríamos vivendo um logro. modelo jurídico por excelência. é a seguinte: Caso o fim dos manicômios represente uma estratégia de homogeneização do social. (por exemplo. ele funciona segundo um outro regime. mas por inclusão. E aí tanto faz onde se está. o campo de incidência do poder já não é prioritariamente o controle dos corpos no espaço (com seus dispositivos. tanto no campo da saúde mental como fora dele? Não basta. impede. numa instituição tal ou qual. de exclusão e reclusão). num espaço aberto ou fechado.

a interrupção. e todos os detalhes que uma leitura semiótica nos revela em estado bruto). as canaletas de banho. não é inútil lembrar que antigamente o poder produzia freios: muralhas. Nesse sentido. sistemas fortificados. acontece que há diversos modos de contrapor-se ao despotismo da máxima velocidade. a visibilidade panóptica. A tal ponto que a grande arma inventada na Revolução Industrial para combater o império da velocidade foi a greve. como diz Virilio? Aliás. mesmo que isso signifique — e necessariamente significa — um desafio à cronopolítica da tecnociência. interdições etc. mas também normas. no século XIX passou-se da Idade do Freio à Idade do Acelerador. não deveríamos abrir mão daquilo que no trato com a loucura existe de específico em relação à temporalidade. obstáculos. fortalezas. trincheiras. ao passo que a loucura não só encarna uma desaceleração (ou uma velocidade de outra ordem) mas também solicita uma desaceleração. Essa hipótese pode parecer meio fantasiosa. A cronopolítica hegemónica visa à aceleração máxima. A loucura tal como ela se apresenta hoje certamente é também isso: a recusa de determinado regime de temporalidade. Mas para além dessa dificuldade. importa o seguinte: se queremos acabar com o manicômio e a reclusão. Aqui se reencontrariam Foucault e Virilio. o protesto em forma de colapso frente ao império da velocidade. a criar velocidade.num hospital psiquiátrico tradicional para se entender facilmente o quanto a própria arquitetura encarna uma certa concepção de loucura. nesse particular é perfeitamente plausível relacionar a Idade do Acelerador com o caráter produtivo do poder tal como Foucault o postulou. absoluta. do mesmo modo que a revogada Idade do Freio corresponderia à ultrapassada (?) mecânica repressiva do poder. A primeira coisa que chama a atenção de um visitante num hospital psiquiátrico 39 . e a reivindicação de um outro tempo. mas não é absurda. Voltando à barricada no Tempo. Ora. a barricada no Tempo. e o que é a greve senão a parada. O poder passou a investir na velocidade. e nós deveríamos poder bancá-la. com as celas fortes.

ainda que da forma mais torpe e cruel. embora um funcione por congelamento e a outra por velocidade máxima.é essa lentifícação. Nisso os manicômios tradicionais e a televisão. por exemplo. reverberam numa aliança indireta. através da absolutização da velocidade. Os manicômios. às vezes isto se deve aos efeitos dos psicofármacos. que as grandes instituições não permitem porque repousam sobre a imobilidade paquidérmica. ainda que deslocado (daí também seu aspecto tão anacrónico hoje em dia. mas para além disso está a própria velocidade da . justamente. Para aprofundar um tema tão complexo. suscitam e solicitam. A questão seria saber como as propostas alternativas em saúde mental pensam preservar a possibilidade de uma temporalidade diferenciada.loucura e o outro regime temporal que os loucos vivem. onde a lentidão não seja impotência. Frente a isto. em certa medida constituíram uma espécie de freio frente à velocidade crescente. seria preciso voltar àquilo que a versão talmúdica do Génesis apresentada no início deste trabalho aponta como essencial: a doação do tempo. que sobreviveu um pouco na Idade do Acelerador. mas principalmente para a loucura. Aquilo. às vezes à lentidão burocrática das grandes instituições. Mas igualmente porque eram um instrumento de controle proveniente da Idade do Freio. 40 . mesmo do ponto de vista do poder). a possibilidade de resgatar o jorrar do tempo é uma necessidade para o pensamento. tende a extirpar. esse ritmo específico. esse regime temporal diferenciado. na medida em que ela. eles abrigaram muitos daqueles que não se submeteram ao ritmo e às exigências da produção. num primeiro momento. a possibilidade de uma cronogênese. assim como a derrubada do Muro de Berlim não deveria representar a vitória devastadora do capitalismo vigente. O fim dos manicômios não deveria representar a vitória devastadora da cronopolítica vigente. para as artes. Também porque. embora em ambos os casos este risco seja mais do que uma mera probabilidade. Mas que tampouco a tecnociência hegemónica permite. Sim.

que nós também sentimos no contato com os psicóticos. diz: "Isto do tempo é complicado. nem com o instante vazio e contínuo da televisão. mesmo que o recheio mude. centos e centos de fatos. onde os movimentos não ganhem sentido apenas pelo seu desfecho. "Blow up" in Blow up e outras histórias. por exemplo. um tempo não espacializado. abolição do tempo e espaço em favor de um vetor velocidade desmaterializante. Bruno? Cabem dois fatos e dois pares de sapato. Do mesmo modo. em que o saxofonista Johnny Cárter. Os assuntos não são levados a uma decisão final. Pois isso tudo 1 Clifford Gcrtz.onde a diferença de ritmos não seja disritmia. gordos. mais próximo da duração bergsoniana. e acabou-se. intensivo. instantaneidade e imobilidade. 2 Júlio Cortázar. Mas o melhor não é isso. Vês a minha mala. Uma espécie de anticlímax cotidiano. continuam. pode-se evocar este tempo muito distante do tempo do relógio. O melhor é quando percebes que podes meter uma loja inteira na mala. Os rituais às vezes consistem mais na preparação e limpeza do que no ato propriamente dito. Eis aí um instante intenso. Espetáculos artísticos começam. Pense-se nos balineses. agora imagina que a despejas e depois vais pôr de novo os dois fatos e os dois pares de sapatos. agarra-me por todos os lados. personagem baseado em Charlie Parker. Bom. Antropologia. para quem as discussões começam e bruscamente se esfumam1. Ainda não sabemos qual o melhor meio de resistir à violência da cronopolítica em que coincidem velocidade e inércia. como às vezes quando estou a tocar"2. um bolsão de tempo. e então percebes que só cabe um fato e um par de sapatos. com instantes que não são pontos numa sequência de pontos formando uma linha reta do tempo. inflado. porém instantes intensivos. param e recomeçam. Como no conto de Cortázar. na bolsa só cabe uma certa quantidade. Começo a perceber pouco a pouco que o tempo não é como um saco que nós enchemos. Quero dizer que. como eu meto a música no tempo. nem com o tempo imóvel do manicômio. 41 . que nada tem a ver com o tempo do relógio.

4) a relação entre essa temporalidade e outras temporalidades em campos diversos. sobreposições? Se eles já experimentam essas temporalidades. passados. deveríamos poder articular pelo menos os quatro seguintes aspectos: 1) a priorização do vetor temporal do poder. diz Virilio. nas guerras modernas importam as tendências. A começar por essa constatação banal de que assistimos a uma contração em todos os níveis: a velocidade reduz o tempo e o espaço ao mínimo. Contração da Terra e do Futuro. de um jorrar do tempo? Não há resposta clara para esta pergunta apressada e malformulada. mas uma tendência. um tempo vivido. tirania do movimento mas fim da moção. 2) o significado disso no discurso "espacializante" da luta antimanicomial. um território. e Virílio cita Churchill para dizer que ao contrário das guerras antigas. ao nada.não é um fato. em detrimento do espacial. mais do que os fatos. ficou com Nada: é difícil ter um espaço. Mas que sentido pode ter esta multiplicidade para os loucos? Eles já não vivem isso tudo. paradas. nos seus ritmos. vetores. Onde coubessem. É impossível realizar tal articulação neste espaço e no estágio embrionário em que se encontram essas questões. onde importavam os fatos. seria preciso um outro regime de temporalidade que restituísse ao homem sua condição de habitante do tempo. bolsões. uma história. e com maior intensidade. Assim mesmo é legítimo sugerir algumas linhas de pesquisa que indiquem em que direção esta articulação seria viável. 3) a especificidade da temporalidade da loucura. mas é possível que na loucura 42 . não as tendências. expandir-se etc. devires. vetores. com suas diferentes durações. Neste regime de temporalidade. acrescente-se. criando outras ondas. com que objetivo sustentar para eles este ponto tão difícil de uma cronogênese. Sim. os lençóis de passado (Deleuze) que conservariam suas virtudes de começo e de recomeço etc. Para elaborar uma estratégia deste tipo no campo da saúde mental. tendências. o nascimento. É preciso guerrear ondas. tendências. com o qual o homem pensou que iria ganhar o Tudo. com a morte. contração telúrica e histórica. os bolsões de tempo intensivo.

Ficam aqui como questões. por exemplo. 1989. S.esses modos de temporalização diversos sejam vividos a partir de um ponto de horror. não para aceitar a velocidade dominante. O problema é que isso só é realizável se conseguimos dilatar a contração do tempo que nos é imposta. l Gisela Pankow. pode permitir que esses modos de temporalização diversos não sejam mais vividos no horror. isto é. algumas incontornáveis até o presente momento. Campinas. e O homem e seu espaço vivido. aquela cronogênese de que fala Oury.. e isto por serem vivenciados como que por detrás de uma barricada erguida contra o tempo. Papirus. Campinas. O homem e sua psicose. ao desmontar esta barricada. A primeira delas diz respeito ao privilégio atribuído ao espaço numa certa concepção psicanalítica das psicoses. S. ideológicas. filosóficas. a partir do qual as possibilidades possam tomar um perfil temporal.P. diz ela. O homem entra em sua própria história como sujeito apenas através dessa imagem do corpo. e permitir-lhe desconstruir-se. Uma cronogênese. Isso tudo é muito interessante e na clínica parece fazer sentido. "Se conseguirmos relacionar as diversas partes do corpo umas com as outras". então o corpo é "habitável". Claro que há aqui inúmeras dificuldades. clínicas. diz que para um esquizofrênico construir alguma história precisa estruturar minimamente uma imagem do corpo1. e "a experiência espacial leva à experiência temporal". A fim de poder ver no devir não só uma fonte de ameaças e terror. novo. Gisela Pankow. Pode também abrir o acesso a um tempo onde haja começo. Papirus. Só assim. porém para desdobrar-se com mais desenvoltura em suas virtualidades temporais.P. deixando de lado tanto o tempo congelado do manicômio quanto o tempo inerte da tecnociência. O tempo só é acessível via espaço. podemos nos aproximar dessa barricada no tempo levantada pela loucura. como horror. 1988. outras inexploradas. mas seria preciso perguntar-se se esta espacialização não pressupõe uma doação do tempo. 43 . movendo-nos mas desacelerando. outras alheias aos limites deste trabalho.

extrapola os limites deste trabalho uma reflexão propriamente filosófica sobre o problema do tempo na sua extensão rigorosa e complexidade conceituai. e assim à possibilidade de uma história do sujeito. Há um viés heideggeriano em Virilio (e também em Lyotard). de progresso da consciência. e muitas outras entradas possíveis que este estudo não poderia abordar de frente. Cabe 44 . Claro que não é fácil manejar ao mesmo tempo conceitos provenientes de domínios tão diversos.E mais. a incidência dessa temporalidade da tecnociência e sua espacialidade específica na estruturação de uma imagem do corpo. Michel Foucault disse certa feita que é preferível pensar em termos de espaço. Como pensar. no seu vetor de exterioridade? Evidentemente. mas num presente esvaziado e sem espessura. perguntar também se o regime de temporalidade baseado na velocidade absoluta desmaterializante não barra o acesso ao espaço. que embutiu o futuro no presente. Como então pensar a questão do tempo sem recair no subjetivismo. tão fundamental na constituição imaginária do sujeito. e a estrutura de antecipação temporal. por exemplo. de continuidade. da estratégia. o de transpor uma teoria regional para fora de seu campo de aplicação. pois a linguagem do tempo nos tem levado à ideia de evolução. que é um fantasma pertencente exclusivamente à instância do psiquismo? Há aí vários riscos. um bergsonismo distorcido em Deleuze (muito distante desta visão "continuísta" criticada por Foucault). de desenvolvimento orgânico. Um outro problema nesta mesma linha seria verificar a relação entre esta temporalidade da tecnociência. Mas também é preciso poder pensar as intersecções. que é a linguagem da guerra. forçando enxertos descabidos. da exterioridade. no modelo da consciência ou mesmo no culto continuísta e progressivo da História? Como pensar estrategicamente o tempo. A manipulação de futuro que a tecnociência propõe está longe da possibilidade do futuro enquanto abertura temporal. por exemplo. com escalas de grandeza tão distintas. Eis outro risco presente em toda esta reflexão.

Seria preciso. 45 . pouco importa. por trás da volúpia apocalíptica que os caracteriza.assinalar. Ed. nas oposições aberto/fechado. tal como o saxofonista de Cortázar sopra a música no balão do tempo. a dificuldade maior talvez ainda seja nossa insistência no fator espacial. entretanto. desfalecimentos1. bizarros. É preciso dar à loucura (sem substancializá-la) espaços de temporalidade diferenciada. não oficialmente e não com este nome. banhado num complacente niilismo kitsch. Paris. Mas num nível mais imediato. reclusão/inserção. estrambólicos. em todos os movimentos ou grupos ou pessoas ou instituições que desafiam a homotemporalidade dominante. e nós não deveríamos ajudá-la a remover esse obstáculo inserindo-a simplesmente no ritmo generalizado. Outra armadilha ainda seria embarcar numa romântica nostalgia pré-tecnológica. inchando-o ao infinito. parece insuficiente. mas em face das novas tecnologias de poder (em que o lema não é mais "trancar" ou "excluir". ou na coexistência com os lençóis de passado. para loucos e não loucos. l Foi ainda Virilio quem melhor analisou essas paradas temporais em seu livro Esthétique de Ia disparítion. É uma luta importante. apesar das tendências hegemónicas da tecnologia apontadas acima. Para esta tecnologia. mas "acelerar"). seja nos seus saltos. Alguns pensadores da pós-modernidade (como Baudrillard. Deveriam existir ateliês de tempo. por exemplo) deixam transparecer. muro/não-muro. que este trabalho não se situa exclusivamente no plano do "tempo vivido". ou ainda. 1980. onde isso fosse possível. conseguir flagrar a multiplicidade dos novos espaços-tempos constantemente criados em nosso universo tecnológico. êxtases abruptos. a loucura representa um obstáculo. junto à lucidez política de que dão testemunho os autores utilizados neste ensaio. picnolepsias. um tom saudosista. no enfiar centenas de trajes e sapatos numa única bolsa. Bailai d. com seus devires atípicos. lugares onde um outro regime de temporalidade permita outras coisas. Em certa medida eles já existem. seja com suas barricadas no tempo.

Aí pode jorrar um tempo. em que uma modalidade temporal possa conectar-se com outra. mesmo contra a maré cronocida. Dezembro/1990 46 . Não para fazer bandinha. sabendo que lá na frente a água acumulada pode irromper numa nascente. contrapor-se. através da criação de diferentes temporalidades grupais. uma temporalidade morra estrangulada. Mas não deveríamos abrir mão de todos os diques que conseguirmos inventar. no convívio com os loucos. mas para não deixar que. cabe acrescentar que apesar de toda a variedade temporal já mencionada. que nos casos felizes. destoar. e por um certo curso de rio. num hospital às vezes é preciso suportar o tempo insípido como se aguenta uma chuvinha triste e interminável. por solidão. a fim de viabilizar. leva quem sabe a uma cascata de vida. Para nós é difícil não só respeitar essa heterogeneidade temporal.Para concluir. como também fomentá-la (o que seria desejável). pois o manicômio já é o despotismo do tempo morto. criando certos ritmos. Mas há também. a multiplicidade temporal que desafia a homogeneidade do relógio. Não é simples fazer isso tudo e ainda estar atento para as diferenças de tempo individuais. aquela vagabundagem do espírito que só é possível a bordo da nau do Tempo-rei. ou que um paciente sufoque no seu ponto de horror. pois nunca é pacífica a insubordinação ao tempo societal. Nós não precisamos do manicômio para estancar o despotismo da velocidade que mata o tempo. compor-se. combinar-se. para os loucos e os sãos. e esse desafio nunca é pacífico. ressoar.

ECOLOGIA DO INVISÍVEL .3 .

um lugar na polis. arriscaria uma generalização preliminar. na qual decerto incluiria de modo eminente Deleuze-Guattari. propondo uma tipologia da relação das culturas com o invisível. Eu diria. que uma certa corrente do pensamento contemporâneo. O invisível. Embora esquemática e provisória. Penso que foi em parte mérito seu o ter dado ao invisível uma dimensão propriamente política. e por conseguinte inseparáveis de regimes 49 . grosso modo. pode fazer com que esse tema tão invisível e indizível pareça menos inefável. Parece disparatado falar do invisível numa cidade tão bela como o Rio de Janeiro e em meio à violência mais crua. um tema como o invisível.Vocês hão de compreender o meu constrangimento ao lhes propor. no rastro da comunicação de Félix Guattari. ou melhor. Trata-se. Gostaria de mostrar em que medida uma politização do invisível está em curso e de que modo ela reverte ou pode infletir uma ou outra perspectiva cultural e ecológica. isto é. um pouco peremptoriamente demais. alterou o estatuto do invisível. em face da visibilidade a mais concreta. Mas antes de explicar em que sentido o entendo. é também sempre um pouco indizível. e já terei conseguido muito se puder roçá-lo de leve para indicar a relação fundamental que creio haver entre ele e uma reflexão sobre as ecologias. nos seus dois extremos de beleza e horror. além disso. Ainda que indissociáveis de configurações sociais e políticas bem determinadas. talvez. de quatro regimes de invisibilidade. de quatro tipos de relação cultural com o invisível.

Por quê? Pois a tradição desta comunidade recomenda que ela se desloque a cada vez que morre um índio. só pode significar um castigo. É o invisível habitando a Terra. com uma figura estranha que mereceria uma análise também estranha. é o invisível enredado na interioridade da alma e. nem planando acima deles. não mais subjetivo: o invisível estaria entrando num regime novo. coextensivo a ela e presente no meio dos homens. mas no meio aparece íambém a figura de um ancião morto nesse intervalo de um mês. a do invisível subjelivo. É o invisível transcendente. constituindo o domínio do psiquismo. e privatizado na forma do fantasma individual. tal como se vê nas grandes religiões monoteístas ou nas formações bárbaras despóticas. A hipótese um pouco extravagante que assedia este percurso grosseiro.de visibilidade também definidos. a equipe retornou à tribo e mostrou seu trabalho. e ali foram rodadas imagens para um filme. O primeiro tipo diz respeito ao invisível imanente. nem encarquilhado dentro deles. Um mês depois. mas substituído ou engolido pela visibilidade imaterial da imagem. em que está em jogo o aniquilamento progressivo do invisível. é que estaríamos assistindo agora à passagem desta última configuração. e se isso acontece. para uma outra forma. Pela primeira vez a tribo inteira assiste ao reaparecimento de um morto. por extensão. não mais transcendente. O segundo tipo de invisível habita o Céu. É o invisível habitando o Sujeito. Não mais presente entre os homens. acima dos homens. esses quatro tipos não devem ser entendidos como fases de uma história evolutiva. mais conhecido de nós. O terceiro tipo. função reservada exclusivamente ao pajé. A imagem do morto na tela é duplamente inquietante: ver a morte é interditado a quem não de direito. Não mais imanente. 50 . A tela de TV exibe aos índios surpresos sua própria imagem. Segue uma ilustração do que se trata. Um diário paulista noticiou que uma tribo indígena do baixo Xingu (os araweté) recebeu a visita amigável de uma equipe de cinema. tal como aparece nas culturas primitivas ou arcaicas. que eu gostaria de postular mas também de contestar.

Até aqui o noticiário veiculado pelo jornal. seriam apenas "nós mesmos". a demarcação de terras tem impedido essa mobilidade. havia humor na discussão. Enfim. e a tribo se viu obrigada a permanecer no mesmo lugar. Contudo. mas também. ali estavam em jogo vários elementos. o mais interessante é o seguinte: em araweté há um termo. Jorge Zahar ed. e não a alma. a visão do morto. que designa ao mesmo tempo sombra. houve toda uma discussão na tribo para esclarecer se isso que viam na tela era ou não um in. o corpo deles. Rio de Janeiro. é de se supor. o começo de uma reorganização do vocabulário psicológico. 1986. . que tem um trabalho volumoso sobre os araweté1. qualquer tipo de representação ou reprodução visível ou vocal. espécie de peifoimance mediúnica etc. e que presenciou o episódio. segundo o antropólogo. alma. tratava-se de uma brincadeira). o tipo de visão que o pajé tem da morte. muito mais ligada ao canto que à visão. como a relação de perigo que envolve a evocação dos mortos para os araweté. e certa inquietação. isto é. Viveiros conta que no momento da apresentação do filme. a importância do trabalho de luto para se evitar a doença mortal melancolia. Segundo ele. para os índios só podia significar uma punição sobrenatural infligida por conta de uma transgressão ritual coletiva. Araweté: os deuses canibais. segundo a expressão de um deles. diz o jornal. se o in do morto visível no meio deles poderia causar-lhes algum mal. ou se essas imagens. o in. Assim. O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. se essas imagens teriam ou não o poder de capturar suas almas matando a todos (isso foi levantado em tom jocoso. e daí a prescrição de deslocamento.. tem uma interpretação mais complexa. a teoria dos araweté sobre o duplo do morto.Ora. espécie de espectro a rondar a tribo pelo tempo suposto de descomposição do corpo. a tentativa de atribuição de algum estatuto no interior da cultura araweté para essa imaterialidade visível que de algum l Eduardo Batalha Viveiros de Castro. e também imagem.

sem mediação alguma. resíduos de uma relação relevante com o invisível. Essa historinha condensa muitos aspectos dramáticos da ecologia. 1988. o da invisibilidade imanente da ordem mítica. Adauto Novaes (org. como frisa Otília Arantes ao comentar um texto de Baudrillard e aproximá-lo de Walter Benjamin1. Imagem obscena. dessa promiscuidade tátil com elas.).modo poderia se confundir. de uma delas. oô-cena. em que há um jogo entre um revelado e um oculto presenciado pelo olhar de um espectador situado a uma certa distância da imagem. Aqui. subjetivo ou imagético. eu preferiria usá-la apenas para ilustrar de modo quase caricato o contraste entre esses dois regimes. 52 . Ed. o da visibilidade total. transcendente. supondo-se que ele exista? Se colocamos por um instante entre parênteses essa tipologia simplória do invisível como imanente. sobretudo no que diz respeito ao embate agônico entre as culturas primitivas e o Ocidente Tecnológico. e esse outro regime. "Arquitetura simulada" in O olhar. o que teria acontecido ao nosso invisível. Na convivência com comunidades de loucos sente-se de fato l Otília Beatriz Fiori Arantes. "representar". dizem alguns. por exemplo. onde aparecem de forma privilegiada. poderiam tornar este tema bem mais palpável. na visibilidade total. É o caso. também chamada de pornográfica. No entanto. na sua acepção mais vulgar de proteção aos índios. sem a cena que todo espetáculo pressupõe. em que a imagem mostra tudo. políticas. No nosso regime da visibilidade total. estéticas. comum a todos os trabalhadores "psi" que têm alguma intimidade com os espaços de confinamento da loucura. Companhia das Letras. em que a comunidade coabita com o invisível apesar do sistema de atualizações ritualísticas ou de mediações xamânicas. São Paulo. por razões históricas complexas. ou até mesmo substituir o invisível. da profusão infinita de imagens. sem cena. isto é. estaríamos mais próximos de uma promiscuidade tátil com as coisas. plena. do que se trata para nós? Certas experiências clínicas.

onde as virtualidades estão presentes num estado de oferecimento. nos lugares. miraculosas. mas é no meio de tudo isso que essa massa 53 . por exemplo. entre um e outro. eu diria que é nessa esfera do invisível que se passa o essencial. as transferências. Como se esse invisível fosse essa camada que envolve e permeia as coisas. ou leveza. que tem a ver com as imagens mas não deriva delas. tem a ver com as esferas políticas. Assim como o relógio configura uma imagem do tempo mas não é o tempo. inéditas.. ainda é insuficiente para roçar esse invisível maior que é o Tempo. uma camada intensiva. e os incrédulos e os estarrecidos da Terra. indivíduo ou parte de um indivíduo em conexão com parte de um outro extrai e constrói sua terra natal. como se esse invisível fosse outra coisa que um oculto. murmúrios. entre as palavras e as coisas. fantásticas. Como quando vemos um morto.. escoando. gestos. e que às vezes um anjo de Wenders ou um fragmento de Blanchot ou uma sonata em Proust evocam mais de perto. que tem a ver com a linguagem mas não deriva dela. e mesmo a pintura de um relógio derretido. brutas. os animais e os sons que o habitam. deixando-o desobstruído. Cuidar desse "meio ambiente" num hospital psiquiátrico. mas entre eles. entre um olhar e um objeto. Sim. outra coisa que um mistério acessível a um sujeito privilegiado. que está aí a matéria-prima da clínica. outra coisa que um segredo. e não é precisamente o que está na cabeça de cada paciente. seja ele médico ou louco. ou peso. proliferações. nos silêncios. a partir da qual certos processos de subjetivação podem desdobrar-se e ganhar consistência. mágicas. ou as torna relevantes. ritmos. risos. nas pessoas. entre um som e um retalho. inertes. e sim a morte. nas palavras. atualizações. à espera de enganches. todas as forças e afetos e elementos em jogo. ou que lhes dá espessura. é um trabalho imenso. ou as duplica. institucionais. Voltando ao exemplo do hospital psiquiátrico. paira sobre ele uma camada de invisível que não é o morto. de onde cada um. o dinheiro. esse acontecimento imemorial que sobrevoa todos os mortos e os vivos. por mais imaterial que ela seja. a arquitetura.uma espécie de densa invisibilidade entrelaçada nos objetos.

na mesma ordem de ideias. apenas fardo insustentável. Uma ecologia que pretendesse preservar o ar relativamente despoluído. que pode ser promessa ou. invisível. vacúolos de imagens. ou. por extensão. a rigor.invisível se oferece como um magma grávido de expressões. e seria preciso formar como que vacúolos (a expressão é de Guattari. O que experimentamos num nível mais imediato. é justamente isso: uma espécie de poluição do invisível. estamos cercados por todos os lados de uma quantidade demente de palavras e imagens. Para tomar dois exemplos pictóricos. deveria preocupar-se em manter arejado o invisível. O invisível é parte da realidade. ou. O invisível. tampouco foi capaz de coagular. não é da ordem da linguagem. É esse invisível. como de fato alguns cineastas e videomakers souberam cavar no interior de suas próprias criações. malgrado a tentação pós-moderna. apesar de todas as possibilidades alentadoras que as tecnologias inventam sem cessar. isto é. Talvez essas poucas divagações bastem para tentar concluir alguma coisa sobre o estatuto do invisível que a imagem. e muito menos do imaginário. Como quando Deleuze mesmo conta que não se desloca muito para não espantar os devires: não é assepsia. da ordem da Natureza. ele é bem capaz de o poluir. deformando-a por 54 . vacúolos de silêncio para que algo merecesse enfim ser dito. Pois se o regime da visibilidade total é incapaz de substituir o invisível. Técnicas de despoluição do invisível. pelo contrário. ele é da ordem da Cidade. ou a um imaginário social que se sobreporia à realidade. Como diz Deleuze. nem da imagem. esse entre. esse fora. para sermos mais espinosistas. assim como outrora a linguagem. singularizações. se não me engano). forçando-a a posições esdrúxulas. jamais será capaz de substituir. massa pesada e inerte. para que algo merecesse enfim ser visto. mas possibilitação. mas de possibilitação. Por isso é tão falaciosa sua redução a uma interioridade psíquica. de como isso se dá: um filme recente de Jacques Rivette (A bela intrigante) mostra um pintor maltratando uma bela modelo. esse meio. malgrado a tentação estruturalista. não num sentido asséptico de preservação. autopoieses etc.

universos. depende do caso. clínica. antes de pintar uma tela. já que busca nela o invisível. é sempre uma política concreta que altera situações concretas. as redistribui. de subjetividade.e constitutiva de realidade. decomposições. que reivindicava. filosófica. de espaçamento. e em meio a uma discussão com ela diz que não a está retratando. assim como se desafia um destino. falar daquilo que não é propriamente da ordem do Ser. novas processualidades. seu sangue. tal como o acontecimento. parte integrante. eu não diria prévio. O tema aqui é justamente este: o invisível. mas há como que um trabalho paralelo. estiramento e esgarçamento como o pintor de Rivette. recomposições. do recém-falecido pintor Francis Bacon. quase contrário. Tanto pior ou tanto melhor se isso pressupõe uma outra ontologia em que não está em jogo o Ser do ente. de sentido. deformá-la. embora à espera de uma atualização. aí sim visível^ expressiva. Um busca o invisível pela violência. que é de desobstrução. Para isso ele precisa virá-la do avesso. simultâneo. ou de produção. por rarefação como Bacon ou Becket. absolutamente reais. existencial. mas envolvendo sempre alguma reconexão com essa ordem do invisível virtual. atrelado que está às máquinas tecnológicas e sociais e seus agenciamentos. derivações. pois é entrelaçado a esse. É bem difícil. uma vez atualizada. extraindo dessa operação forças invisíveis que comporão outra visibilidade. Então. limpá-la de todos os clichés da história da pintura que pairavam acima dela. mas que ele atravessa as coisas como essa textura ou nervadura virtual que. desmembrá-la. inéditos. Claro. pela simples razão de que esse invisível é imanente às grandes máquinas técnicas e sociais. não bastaria dizer que o invisível plana sobre as coisas como uma espécie de incorporai. O outro opera por rarefação ou esvaziamento. em meio às guerras mais cruentas. bifurcações. ou de violência. através do desmembramento do corpo. mas também eminentemente política. seu fogo. deve ser 55 . Ou ainda um outro exemplo pictórico.inteiro. mas do Entre. mas o Entre do ser. provocando nelas desmembramentos. seu gelo. a fim de desobstruir as virtualidades presentes. Esta é uma operação estética.

sua distribuição esparsa. São Paulo. desimaginarizá-lo. para fazer brotar seu desvio intempestivo. drogados)" incluído na coletânea O olhar. arejado. Um hospital psiquiátrico precisa livrar-se do despotismo de um tempo homogéneo para deixar surgirem temporalizações e universos existenciais diferenciados. Mas penso que esse invisível. se fosse possível defini-lo em poucas palavras. videntes. profetas. é preciso desprivatizá-lo. ou de um imaginário coletivo. por esgarçamento. ou de uma imagem interna. mas que tem a ver com o coletivo e o singular. 2 Walter Benjamin. 56 . momentaneamente. que tem a ver com as palavras e as coisas e as máquinas sociais. do que se trata quando falamos de um invisível que não é da ordem de um visível oculto. de engendramento de realidade e de subjetivações. profetas. drogados. processual. É preciso conseguir não ruminar incessantemente a própria historinha pessoal para poder inventar um novo devir. "O surrealismo — o mais recente instantâneo da inteligência europeia". com o invisível1? Um invisível que não se limitasse a essas figuras de "iluminações profanas". mas ao mesmo tempo restituir-lhe sua densidade de acontecimento e de virtualidade. ou outros procedimentos? Seria precipitado arriscar uma resposta. singular. O pintor de Rivette precisa livrar-se de uma história do corpo para extrair dele uma derivação imprevista. Nós precisamos constantemente nos 1 José Miguel Wisnik trabalhou algumas destas figuras em seu belo ensaio "Iluminações profanas (poetas. que diz respeito ao subjetivo. Para tanto. embora todos esses possam desenvolver uma relação privilegiada. Brasiliense. Bacon precisa liberar a tela da história da pintura. e que deveria ser desobstruído.pensado politicamente. artistas. Sérgio Paulo Rouanet. que está entre elas. in Obras escolhidas vol l. psicanalisados. Mas o que significa um invisível que não fosse restrito aos alucinados. segundo a expressão de Benjamin? Sabemos que para ele estas experiências representavam uma espécie de prefiguração solitária de uma revolucionária experiência histórica coletiva2. rarefação. cit. tem a ver com o espaço reservado ao intempestivo. op. trad. 1987. Afinal.

no caso do adivinho. Numa outra ordem de ideias. Mito e realidade. do contra-tempo. II. 1988. para introduzir em nossas vidas o inédito. Mircea Eliade. Que me seja perdoado o pleonasmo: é claro que o devir já pertence à ordem do intempestivo. mostrou como para as culturas primitivas a relação mítica não é evocação de uma origem remota. imagem móvel de uma eternulidade. Por exemplo. subjetiva. todas as "iluminações profanas". Perspectiva. nem mesmo sobre uma prefiguração desse visível futuro na forma de um projeto acabado. De qualquer modo. Na linha dos pensadores que me inspiram. 1973. exercitam uma sabotagem na 1 Mareei Déticnne. já que a história não diz o que somos. dizia Foucault). com o futuro1. místicas. ontológica. Détienne e Vernant mostraram como a relação com o invisível na Grécia arcaica. 1972. do desvio na história. e Jean Pierre Vernant. São Paulo. da contra-efetuação. nem sobre um segredo invisível que ela ocultaria. o que oblitera sua relação essencial com esse intempestivo. drogaditas. ou mesmo as revolucionárias. e que não repousa sobre o visível da história. privilégio de alguns visionários. mas revivência dela sempre co-presente: a ritualização não é lembrança. do inatual. cap. mas aquilo de que estamos em vias de diferir. São Paulo. convém assinalar que a relação com o invisível sempre coloca em jogo o tempo e sua ordenação. Diferir dela não para descobrir o que se é. Rio de Janeiro. por sua vez. mas por inflação de uso o termo devir acabou sendo facilmente identificado com a simples mudança ou progresso ou evolução. 57 . É uma operação que exige a desobstrução de um invisível como campo virtual para um devir-intempestivo. DIFEL/Edusp. é preciso dizer também que não se trata de descobrir nossa identidade através desse visível que é a nossa história. in Mito e pensamento entre os gregos: estudos de psicologia histórica. mas efetiva reatualização2. analítica. com a memória e o passado. mas para experimentar o que se pode ser (desprender-se de si. Tarefa ética por excelência. mesmo dialética. 2 Mircea Eliade. "Aspectos míticos da memória e do tempo". expressava uma relação especial com o tempo: no caso do poeta.desgarrar desse presente sem espessura que a mídia nos oferece. Jorge Zahar. Os mestres da verdade na Grécia arcaica.

d espaço em que surge o tempo. 1987. em última instância a partir de fórmulas invisíveis. a um possível (e não a l Edmond Couchot. Sobre o mesmo tema.ordem do tempo. estudos recentes sobre a computação gráfica e a imagem numérica que ela sintetiza. in Cahiers Internationaux de Sociologie. contínua. ou em parte na televisão). segundo os estudos de Edmond Couchot1. substituindo-se ao que pode ser. A relação com o invisível. como faz a TV. é óbvio que o que aí fica obstruído é uma temporalização. não nos remete a um "já foi" do referente (como na fotografia. ver também Arlindo Machado. conforme mostrou Paul Virilio. em que ele brota e jorra e deriva e bifurca. o de que a onipresença da imagem televisiva e o regime da simultaneidade e da instantaneidade contínua que ela e a mídia em geral instauram. a um pode ser. que opera por saturação e achatamento temporal. quando a televisão (ou a máquina midiática da qual ela é apenas uma peça) nos oferece essa imagem plena. A manipulação interativa abre espaço para as diversas poéticas tecnológicas. ela pode tornar sensível o formal. mostram o quanto ela é diferente da televisão na relação que ela implica com o invisível e o tempo. Não é acidental o fato oposto. temporalmente nula. "Sujei. a um tempo em potência. não mostra tudo o que é. e em que ele se intempestiva a partir de uma espécie de cronogênese. objet. A realidade virtual criada pela imagem numérica. Edusp. Máquina e imaginário: os desafios das poéticas tecnológicas. Primeiro. mas. por exemplo. ao contrário. São Paulo. para usar uma imagem confusa. image". Por outro lado. com esse invisível desatrelado da visão ou do visionarismo. mas também instaura uma nova relação com o tempo. 58 . Então. imagem como função de equações matemáticas que lhe dão vida. ou os devires. é também. numa espécie de crànoddio. uma cnmoilógica. ou o intempestivo. mas atualiza visualmente aquilo que não podemos imaginar porque escapa a nossos hábitos sensoriais e perceptivos. com isso. ou seja. isto é. impliquem não nessa esqui/ofrenização temporal. mas. mas é próprio à sua forma atual de controle. vol LXXXII. Não é intrínseco à imagem televisiva.

59 . após tê-las experimentado todas: sobra delas o hábito. um possível em estado de permanente suspensão. Isto é. porém isso e muito mais. apto a fornecer visíveis. que se poderia abrigar sob o subtítulo de "Esquecer Bajudrillard". das simulações do inimaginável. como diz Virilio. seja a forma eternificada do universal. Mas com essas indicações sumárias e assumidamente superficiais sobre a tecnologia do virtual e a inteligência artificial. não se trata de resgatar uma presença imanente do invisível própria ao mito. mas através de um procedimento essencialmente construtivista. muito menos festejá-lo com um voluptuoso catastrofismo pós-moderno. ou ainda a nova forma modulada. Tudo isso é muito complexo. pois facilmente ela pode tornar-se aquilo que Burroughs concluiu das drogas. nessas visualizações a partir do invisível. e não mais epifânico? Obviamente. trata-se apenas de livrar uma política do invisível da sombra apocalíptica de uma Imagem monstruosa e cancerígena devorando o mundo. não cabe fazer da inteligência artificial a nova terra prometida. o não-intempestivo. a forma linear da evolução. nesse trabalho sobre o invisível entendido como o espaço de surgimento do intempestivo. apenas o hábito. Nessa realidade virtual. a forma achatada da emissão. numa reversibilidade temporal sempre aberta. Como vai ficando claro. não estaríamos paradoxalmente mais próximos desse espaço desobstruído para um devir-intempestivo? Mais próximos de uma imanência do invisível. ondulatória de controle. nem a nova modalidade de paraíso artificial. Mas trata-se sempre. pois não basta um trabalho epistemo-técnico. nas suas diversas formas de captura. e substituindo-se niilisticamente à realidade tanto visível quanto invisível. de desbloqueá-lo do tempo homogéneo. artificial no sentido até literal do termo. não basta um trabalho macro ou micropolítico. embora ele seja essencial. ou muito menos. nem de recusar as formas subjetivadas de invisível que nos estão coladas na alma. a um possível jamais totalmente chamado a tornarse presente. nem de diabolizar o universo tecnológico e sua profusão de signos.um futuro).

. 2 Eric Alliez desenvolveu esta noção num trabalho filosófico essencial. obstrução. que mostra um pouco o corte temporal em que sangramos quando diferimos de nós mesmos. de grande fôlego e riqueza. embora tenha a ver com o visível e o invisível. caso contrário nada acontece. imenso universo virtualmente cristalizável. Rio de Janeiro. o atual e o virtual. usando uma expressão cunhada por seu parceiro. se formos fiéis à metáfora do cristal. incompossibilidade. que o que ele fez em seus livros sobre o cinema não foi refletir sobre o imaginário. mas uma operação mais prática. no caso do cristal. artes. é a imagem virtual que cristaliza um meio anteriormente amorfo. saturação. a partir de um invisível qualquer (ou mesmo de um visível. São Paulo. Siciliano. absorvendo um meio material ou imaterial. não no sentido de endurecer.. nos domínios mais diversos. Deleuze diz. Bastaria indicar o seguinte. mesmo sob pena de deformar esta noção tão rica: disseminar cristais de tempo. assim como um germe. parece-me a operação intempestiva por excelência. o falso e a potência do falso. políticas. E quantas vezes o meio está aí. Tempos capitais: Relatos da conquista do tempo. O problema aqui é que esse meio deve ter uma estrutura virtualmente cristalizável. em A imagem-tempo. cinema II. Quantas vezes lançamos um pequeno germe cristalino e o meio não tem a virtualidade correspondente. um jorrar do tempo que desequilibra um sistema de trocas. 1990. desestabiliza um circuito de equivalências. disseminar cristais de tempo. O que acontece também quando cristalizamos um universo. aquela que.. isto é. que não cabe desenvolver aqui. mas de compor uma consistência. 1991. que é um visível invisível) introduz. 60 . práticas institucionais. por poluição.Numa entrevista sobre o imaginário. Brasiliense. Cristais de tempo é uma noção complexa1. Deveríamos supor o mundo como um reservatório de 1 Sobre esta noção de Deleuze ver o capítulo "Cristais do tempo". uma certa aberração temporal2. ciências. quando embarcamos numa diferenciação a partir de uma virtualidade. e não lançamos o germe. ou faz intervir. o tempo em estado puro.. o real e o irreal. ou o ritornelo etc.

o invisível está entrelaçado aos saberes. nem uma superestrutura ideológica ou imaginária. nem uma estrutura linguística ou inconsciente transcendente. mas só explorado. espécie de oscilação. Ele não pode ser programado. mas entre isso tudo. o que não dizer do praticá-lo. Ele é o grande Interstício. o tempo todo em estado de oferecimento às cristalizações que lhe são propostas. Mas importa o seguinte: disse no início que a meu ver uma politização do invisível estava em curso. digamos assim. embora muitíssimas vezes em estado de invisibilidade total e de disseminação coletiva. muito menos aos analistas ou estadistas. como um campo virtual. como diferenciação na qual estamos metidos. Quer dizer. não está reservado aos poetas nem aos videntes nem aos futurólogos. que nos circundam e nos fundam e também nos afundam. Interstício do Inimaginável. esse invisível não é uma cópia mental do universo material. uma raça que sempre existiu e sempre há de existir. e posso acrescentar que o invisível nosso não está no Céu nem na Terra. meio no ar. impessoal. Ele está nos grandes e minúsculos espaços de intempestivo.potencialidades cristalinas infinitas. assim no meio. de vertigem que nos toma e nos arrasta para longe de nós mesmos. nem na telinha de TV. rigorosamente da ordem da Realidade. poderes e modos de subjetivação bem como a seus dispositivos. inumana: a raça dos intempestores. ou suscitá-lo. entre o virtual e o atual. Maio/1989 61 . representacional. Isto é. da Natureza ou da Cidade. Mas também ter claro que no cristal do tempo está o tempo como cisão. como desdobramento. Requer. Isso tudo certamente não é fácil de pensar ou entender. nem nas nossas cabeças. muito menos de explicar.

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descontinuidades. sua calculabilidade. o abandono de uma certa concepção 75 . temos os dias. nesta operação. Será isso que os torna tão deleuzeanos? Anjos deleuzeanos avant Ia lettre . próprio dos homens. mas também — e talvez principalmente — a de Deleuze-Guattari consistiu num esforço incansável e generoso de espraiar essa distinção entre história e devir para além do domínio exclusivamente filosófico (ainda que sua explicitação nestes termos tenha sido tardia). sempre metidos em devir-alguma-coisa. é precisamente Deleuze quem nos alerta para a diferença entre história e devir. fazendo-a incidir no campo da clínica. por outro. em devir-algumestado-de-alguém-ou-de-alguma-coisa. Ora. da política. esta progressão que alguns chamam de histórica. Não são anjos metafísicos. seu acúmulo. da existência. Ou seja. Vivem as oscilações. em devir-algum-estado. Somos muito diferentes. próprio dos anjos. sua linearidade e continuidade. olheiros. estão constantemente tornando-se outra coisa. desses anjos de Swedenborg. intempestividades. esta homogeneidade que alguns chamam de científica. Nós temos os minutos. Ora. mas anjos crianças. os bruscos afastamentos e aproximações. Deleuze estaria sugerindo que é preciso pensar a diferença entre o tempo ou a continuidade do tempo. as estações do ano. o devir a outra. a sucessão do tempo. as horas.veis do grande e metafísico bocejo divino. uma cronoilógica. especulativos. os meses. para usar a terminologia de Swedenborg. por um lado. da estética. Não são anjos-filósofos. Para diferenciá-los. Talvez porque não estejam apenas observando o mundo. é necessário poder trabalhar com duas concepções distintas do tempo. ao contrário. Pois a história corresponde a uma certa concepção do tempo. a divisibilidade do tempo. estados: devires bem próximos da loucura. as intensidades. Está implícito. nós.. duas abordagens diferenciadas da temporalização.. os anjos de Swedenborg. uma disritmia. e estados e modificações de estado. nada têm de entediados ou repetitivos. Não creio estar exagerando ao dizer que a obra inteira de Deleuze. eternitários. Mas para que isso acontecesse era preciso que essa operação fosse também eminentemente filosófica.

Esta omissão. não é o momento aqui de seguir a análise de Agamben.corrente do tempo. não elaborou uma concepção de tempo correspondente. de urgência conceituai. de elaborar uma concepção de tempo que fosse à altura de sua concepção da história. Enfance et hisloire. Paris. cósmica. Payot. Do mesmo modo. Mesmo o materialismo histórico omitiu-se. p. de modo que coexistem nele uma concepção revolucionária da história e uma experiência tradicional do tempo. 76 . histórica. e sobretudo. 114. A representação vulgar do tempo. Por isso. mas também. Mas deixemos falar um autor que definiu com precisão a relevância política de uma subversão na ideia do tempo. obrigou-o a recorrer a uma concepção do tempo que domina a cultura desde há séculos. que acompanha qualquer cirurgia subjetiva. e sua subversão. de resto preciosa. de "mudar o tempo". A subversão de um conceito de tempo não é um luxo especulativo. fez com que o negro tomasse l Giorgio Agamben. que lhe é inerente. O pensamento político moderno. que concentrou sua atenção na história. Escreve ele: "A toda concepção de história está associada uma certa experiência do tempo. — o discreto estudioso de Walter Benjamin. conclui Agamben1. precisamente. a de um continuum pontual e homogéneo. pura e simplesmente. O que significa então a subversão na ideia de tempo que permita operar a diferença entre história e devir? Recorde-se o que aconteceu nas ruas brasileiras a respeito do impeachment do presidente Fernando Collor. acabou desbotando o conceito marxista de história". Um chamamento desastroso do primeiro mandatário para que o povo saísse às ruas em sua defesa com as cores verde-amarela. Giorgio Agamben. mas uma espécie de necessidade. toda cultura é primeiramente uma certa experiência do tempo. sem que ele desconfiasse. que a condiciona e que se trata. até o presente momento. Embora o messianismo histórico de Benjamin cruze da forma mais surpreendente as subversões deleuzeanas. o primeiro objetivo de uma verdadeira revolução jamais é de "mudar o mundo". de revelar. e não há cultura nova sem transformação dessa experiência. 1989.

Ali. E aos gritos. com suas correntes. graças a uma única cor: o preto. a lama tupiniquim. e os brandiram na mão como se fossem punhais. assumiu um estado. com a cidade. cada pessoa se transfigurou. Na falta de outra coisa. cada um fez do seu rosto uma superfície de inscrição (para o lema Fora Collor) ou uma máscara. um ritual incomum. a rua tomando um aspecto luxuoso. malha. hinos. sabe-se lá por quê. às vezes com faixas verdes e amarelas. com os corpos. Pareciam todos preparados para a mais elegante noitada. nessa irrupção criativa. cada qual fez de seu corpo uma obra de arte. para não falar nos sóbrios que sempre se escondem por trás do preto. Criou-se ali uma dramaturgia política específica. por essas poucas horas. 77 . Jamais se viu tantas mocinhas gorduchas virando esbeltas. Ao mesmo tempo. a extravagância e a morbidez. pois era preto. a bandeira brasileira. o carnavalesco debochado contagiou com uma graça juvenil uma multidão indignada. Mas também todos os negrófilos se achegaram. com as cores. Uma produção coletiva que em nenhum momento hesitaríamos em classificar de rigorosamente estética. as mais estranhas maquiagens davam a impressão de que se estava sobre um palco gigante. o teatro e a vida. devir-punk. do gesto intempestivo que inventa uma nova composição com a rua. a pele rugosa tornando-se diáfana. trapo. devir-índio. os que foram surpreendidos pela passeata improvisaram um utensílio preto qualquer. bolsa. uma coreografia particular. anarquistas de todo tipo. punks das mais diversas seitas. a máscara e o corpo. que fazia ressoar a elegância e o luto. numa encenação monstruosa —o grande teatro cívico. Mas não há como dizer que estava-se apenas protestando contra Collor. chinelo. o negro da alma. talvez para virarem um pouco invisíveis.conta das cidades. devir-noite. um estandarte. cabelos espetados ou carecas provocativas. o limpador de pára-brisa funcionando já bastava. um figurino inédito. bótons. devir-mago. igualmente alguns originalmente enlutados. alfinetes. danças. devir-saltimbanco. e cuja atmosfera era a da improvisação da arte. Os jovens pintaram o rosto com tinta preta e branca. risos. a tinta dos índios. Cada um embarcou em algum devir-negro.

não programável. as instituições incorporaram e deglutiram rapidamente esta modificação.). concertos metaleiros. a História do Brasil teve alterado o seu curso. É nesses momentos intempestivos que a suspensão da continuidade temporal vem interromper a mansa ou conflituosa sequência dos dias e noites. mas também com todos os enterros soturnos. 78 .. o inédito e ao mesmo tempo o imemorial. utópico. sem topos. com todos os negros túneis da história. com a indignação de todos os driblados e engabelados de todos os tempos. No entanto. porém um espaço-tempo com uma ressonância imemorial (todos os carnavais da história. Um acontecimento atravessou feito um raio as ruas do Brasil. por um instante ele esteve acima da história. de algum modo a massa negra e debochada enganchou-se com todos os carnavais da história. num autoposicionamento imanente que extrapolava em muito tudo o que o poderia explicar ou situar. não localizável.Paralelamente. este instantâneo desenganchado de qualquer inserção encadeada no tempo e ao mesmo tempo o ancestral ilocalizado. a-tópico. bailes noturnos. criou-se ali um espaço-tempo inédito (pois nunca o Brasil havia assistido a algo semelhante). pois o que se forjou ali nas ruas não foi apenas a preparação do impedimento jurídico de um corrupto. conturba a história. Ou seja. perturba a história. alçado numa autosuficiência. o luto de todos os homens por todas as mortes de todos os séculos. É nesses instantes de grande ou pequeno desvio que algo escapa à história. pouco depois o Supremo Tribunal Federal aprovava o rito de impeachment proposto pela Câmara. não deduzível ou desdobrável a partir do que precede (por isso mesmo não previsível. não historicizável) — um tempo sem lugar. O acontecimento recaiu na história. mas a invenção de uma cena nova. o Congresso votou contra Collor.Talvez seja o mais difícil de compreender. uma transformação de estados tomou conta das gentes. Claro. no dia seguinte o Brasil não era mais o mesmo. Engendra-se aí uma espécie de temporalidade não localizada. uma afirmação extemporânea disrompeu nossa tradição de contínua barbaridade política. não dialetizável.

isto é. faz o seguinte comentário (dirige-se diretamente a Deleuze): "Você sentiu os acontecimentos de 68 como o triunfo do Intempestivo. silenciosos. um pouco sem começo nem fim. só valem na medida em que.. Conversações.) o político é reconquistado por você como possibilidade. com seus contornos definidos. o ex-terrorista italiano exilado na França. no repertório humano. Há curto-circuitos que abrem o presente para o futuro. nos buracos de uma vida. Toni Negri. interrupções. sempre fica a pergunta de como se articulam esses acontecimentos. quando acontecem. com o curso da história. 79 . as diversas maneiras pelas quais os indivíduos e as coletividades se constituem como sujeitos. as instituições. no interstício das visibilidades. esta dos corpos embandeirados numa soturna alegria tirando a história dos trilhos. E a resposta de Deleuze não é menos magnífica: "os processos de subjetivação. dessa história visível. Seja como for. não raro são discretos. seu sentido. assim como não são necessariamente espetaculares as interrupções temporais. o Brasil." E aí vem a pergunta: "Qual política pode prolongar na história o esplendor do acontecimento e da subjetividade"?1 Prolongar na história o esplendor do acontecimento — a fórmula é belíssima.embora imemorial. Numa das mais belas questões feitas a Deleuze. op. na iminência prolongada de uma espera ou lentidão. exercendo a prática da interrupção (ou aceleração brusquíssima) do tempo. bem como nem sempre são visíveis os acontecimentos. acontecimento. escapam tanto aos saberes constituídos como aos l Gilles Deleuze. singularidade. suas progressões.. cit. nos tempos mortos. portanto. Com isso. E que modificam. simplesmente deixou de viver um dia depois do outro. (. especialista em Espinosa. formulável. Já nos anos que antecederam 68. uma festa de estados. inventando uma festa sem tempos. Não são sempre ruidosos os devires. como os anjos de Swedenborg. Muito pelo contrário. a realização da contra-efetuação. devires.

poderes dominantes. Mas naquele preciso momento eles têm efetivamente uma espontaneidade rebelde. [São] novos tipos de acontecimentos: acontecimentos que não se explicam pelos estados de coisas que os suscitam, ou nos quais eles tornam a cair. Eles se elevam por um instante, e é este momento que é importante, é a oportunidade que é preciso agarrar." Ora, se eles não se explicam pelo os que precede, é porque não estão encadeados, dialetizados, é porque obedecem a uma lógica outra da ruptura, que nada tem a ver com contradição, e sim com uma linha de fuga, uma invenção intempestiva, a criação inusitada, com aquilo que faz fugir a história e seus contornos. E a conclusão de Deleuze dá a essa ideia um desfecho inesperado: "Acreditar no mundo é o que mais nos falta, nós perdemos completamente o mundo, nos desapossaram dele. Acreditar no mundo significa principalmente suscitar acontecimentos, mesmo pequenos, que escapem ao controle, ou engendrar novos espaços-tempos, mesmo de superfície ou volume reduzidos." Como prolongar o esplendor do acontecimento na história, como prolongar o devir na história? pergunta Negri. Deleuze responde: criando outros acontecimentos, outros devires. E especifica: criar acontecimentos é engendrar novos espaçostempos. Diante de uma ideia assim enigmática, cabe-nos pacientar o pensamento. Para observar, primeiramente, que seria impossível engendrar novos espaços-tempos se nos mantivéssemos presos a uma representação vulgar, uniforme, homogénea, abstraia, linear, do tempo, numa cidade também vista como apenas um não-lugar de circulação, espaço vazio e homogéneo, geométrico. Pois de que modo se quer pensar novos espaçostempos se vemos constantemente um homem sem qualidades circulando num espaço sem qualidades em meio a um tempo sem qualidades? O homem qualquer, num instante qualquer, num lugar qualquer — eis o melancólico niilismo que certos cineastas souberam retratar tão bem, que nós vivemos com uma complacência tão morna, que suportamos tão tolamente como se fora um destino inelutável.

Em face disso, corno engendrar novos espaços-tempo, senão operando no mais fundo do tempo esta intervenção tão prática, pragmática, de liberar os estados de dentro dos tempos, de reencontrar no mais fundo da alma do "homem qualquer" um anjo de Swedenborg asfixiado...? É preciso acrescentar que quem contempla esta cena com compaixão quase divina é o anjo de Wenders? A eternidade vazia observa o devir saltando de dentro da história... Os gregos já entendiam que ao lado de Chronos — esse tempo da medida, que fixa coisas e pessoas, que desenvolve uma forma e determina um sujeito, que constitui um 'tempo pulsado' (que é o mais conhecido por nós, pois se assemelha à concepção vulgar ou histórica que temos do tempo) —, há um outro tempo, que eles chamam de Aion, que é um tempo sem medida, tempo indefinido, que não cessa de dividir-se quando chega, sempre já ali (o imemorial) e ainda não-ali (o inédito), sempre cedo demais e tarde demais, o tempo do "algo vai suceder" e simultaneamente o "algo acabou de acontecer", esse tempo dojorrar do tempo, bifurcado, tempo não métrico, não pulsado, feito de pura velocidade, tempo flutuante que vemos na psicose, na poesia, no sonho, nas catástrofes, em alguns videoclips, nas grandes e micro-rupturas, coletivas ou individuais; tempo do devir, diríamos, se não soubéssemos, já a esta altura, que o devir não é o tempo, nem o tempo irregular, nem mesmo o tempo efémero contraposto a uma suposta eternidade, nem a finitude travestida de castração, porém outra coisa, algo como a produção de velocidades e lentidões... Por comodidade e hábito dizemos ainda "tempo", embora já saibamos que este tempo não é mais cronológico, e não está referido a um movimento centrado, com suas invariantes (ponto de gravidade, pontos privilegiados por onde passa o móvel, ponto de fixidez em relação ao qual ele se move). Aqui, ao contrário, as aberrações do movimento ganham independência em relação aos invariantes, e temos um tempo não cronológico, mas crónico, que produz movimentos descentrados, com anomalias, aberrações nada acidentais porque constitutivas, essen81

ciais. A este tempo liberado de sua subordinação ao movimento centrado, Deleuze deu, em certa ocasião, o nome de tempo puro, mas que é também o devir na sua inocência sem centro, na sua potência de produção do falso, do desajuste, das metamorfoses, da confluência de universos ou tempos incompossíveis. Deleuze fez uma linda análise da passagem de um regime cronológico para um regime crónico no cinema, através dos cristais de tempo, indicando algumas das mutações do pensamento em que isso implica1. De qualquer modo, se é esta a subversão temporal implícita na ideia de devir, já é possível ao menos entender por que, embora aquilo que o devir produz recaia sempre na história, e possa assim formar um passado suscetível de ser lembrado e reativado, o devir mesmo nunca provém da história. O devir é trans-histórico, sub-histórico, supra-histórico, espacial, geográfico, intensivo, não está preso a coordenadas prévias de um pulsar do tempo, por isso é ele quem cria suas coordenadas (por exemplo a de um tempo flutuante, tempo não pulsante, tempo crónico), produzindo aberrações, desequilíbrios, conjunção de incompossíveis... Para usar termos mais consagrados e às vezes até banalizados, produzindo a diferença, o novo. Se à luz disso tudo retomamos a distinção entre história e devir, ganha densidade o dito de Foucault, segundo o qual a história não diz o que somos, mas aquilo de que estamos em vias de diferir. Ela não nos dá nossa identidade, mas na distância que tomamos dela liberamos nossa diferença. A história, diz Deleuze no mesmo sentido, é apenas o conjunto das condições quase negativas que possibilitam a experimentação de algo que escapa à história. Sem a história, a experimentação permaneceria indeterminada, incondicionada, mas a questão toda, acrescenta Deleuze, é saber, investigar, onde aparecem os germes de
l Gilles Deleuze, A imagem-tempo, op. cit. Estes temas estão desenvolvidos também em Mille Plateaux, juntamente com Cuattari, Paris, Minuit, 1980, sobretudo no capítulo "Devenir-intense, devenir-animal, devenir imperceptible", bem como num escrito mais antigo de Deleuze, intitulado "Do Aion", capítulo de Lógica do sentido, trad. Luís Roberto Salinas Fortes, São Paulo, Perspectiva, 1982. 82

numa brisa. os espaços-tempos distintos. A criação de novos espaços-tempos. Um tríptico de Bacon. pode ocorrer numa passeata. quando tudo isso é submetido às formas mais codificadas de informação. num surto. os séculos de 83 . Experimentação de algo que escapa à história. às formas mais universalizantes de subjetivação capitalística. nós o perdemos de vista. O que significa também produzi-los. com o que o reterritorializamos. É sempre a partir de uma linha de fuga. numa crise económica. E no entanto. comunitário ou individual. Deleuze de devir. ou acontecimento. e que se dá sempre a partir do intempestivo. O que escapa à história não é o eterno. por debaixo desta homogeneização generalizada.. das linhas de fuga ativas. numa batalha. na medida em que rompe uma temporalidade e faz fugir a história. Eis quatro exemplos tomados ao acaso. Foucault de atual. Foi uma das maiores contribuições de Deleuze-Guattari. num mocó de meninos de rua. num filme. na página em branco que enfrenta um poeta insone. num grupo psicoterápico ou expressivo. percebê-los. numa paixão. é um imenso espaço-tempo que reúne todas as coisas mas introduz entre elas as distâncias de um Saara. nós o submetemos a um mesmo modo homogeneizante de temporalização-espacialização. diferenciá-los.um novo modo de existência. o que interessa é que é nesse nível que se engendra o nascente. às formas mais serializadas do mercado. na percepção alterada de um drogadito. mas o que Nietzsche chamou de intempestivo ou inatual. um novo espaço-tempo.. num ritual. diz Deleuze. nós o tornamos equivalente. distantes deste espaçotempo homogéneo que nos é oferecido pelas laminações da tecnociência. Pouco importam os nomes. que se instaura um acontecimento. das tecnosubjetividades. cultivá-los. que é portanto também uma linha de fuga temporal. esta arte fina de detectar. eis uma fórmula que poderia soar enigmática caso não fosse colocada sob esse prisma temporal desenvolvido acima. num laboratório científico. das tecnocidades.

Logique de Ia sensation. Nesse sentido o ritornelo. Cada variedade de cobre recenseada na Suméria é uma hecceidade de espaço-tempo.). com suas estratégias de distribuição das peças num espaço aberto. Poderíamos multiplicar indefinidamente estes exemplos. à qual se referiu Guattari em seu último livro Caosmose? Que o ritornelo seja esta esponja que absorve. decomposições. Mas a surpresa filosó1 Gilles Deleuze. é um prisma. e assim constitui um território existencial. numa instituição ou fora dela? Há razões para supor que isso passe pelo ritornelo. o jogo chinês go. p. Hucitec. vários ritornelos. Simultaneamente. diz Mille Plateaux. O desejo investindo na percepção. São Paulo. António Lancetti (org. Como então criar. instaura um outro espaço-tempo. com devires. é um outro espaço-tempo2.um Aion1. numa instituição. dizem Deleuze-Guattari. entende-se. Ed. 1992. O ritornelo age sobre o que o rodeia. compõe e ritma componentes diversos. de Ia Différence. Os trabalhadores de saúde mental. O ritornelo é essa ritmação expressiva que encadeia melodicamente componentes heterogéneos. que desembocam na criação de novos espaços-tempos. Francis Bacon. vários cristais de espaço-tempo. 56. no trato com os psicóticos. 2 Gilles Deleuze. 1981. E qual é o segredo da criação de novos espaços-tempos. Sucintamente. num movimento perpétuo sem direções preestabelecidas. trata-se do seguinte. é "um cristal de espaço-tempo". como ocorre com as drogas. transformações. um universo. Caberia acrescentar que esta questão da criação de espaçostempos diferenciados é da maior importância na clínica institucional. ao mesmo tempo em que extrai daí vibrações. nas suas intervenções analíticas estão sempre provocando aberrações temporais. e portanto em tudo contraposto ao xadrez e suas regras imperiais. para que proliferem os espaços-tempos? Não será esta a arte do tratamento barroco de uma instituição. A tentação é levá-los de volta ao tempo da história. "Duas questões" in SaúdeLoucura 3. por exemplo. estão constantemente confrontados com anjos de Swedenborg. Paris. 84 .

a europeia. a nossa civilização é um tempo e um espaço cósmicos. de repente. O Japão.. Daí o desprezo de Deleuze pelo "futuro da revolução". de nossa identitária continuidade. no sentido de que hoje. Mille Plateaux. Por ora. A civilização grega se fez no tempo e no espaço gregos. Os desdobramentos desse escândalo teórico são muitos e mereceriam um estudo à parte. op. não está lá longe. 1985. Convidado pelos lacanianos para uma conversa e indagado sobre que ideia se fazia do Brasil. mas a priori que necessariamente é histórico. geográfico. eles nem sabiam que existiam outros lugares."2 Essa citação merece ser deixada como se deixa um presente. Talvez aí esteja uma das ideias mais radicais a respeito do tempo contidas neste livro: o ritornelo como o a priori. p. que são essas transformações de estado. se despeja tudo. 2 Joãozinho Trinta. essas criações de espaçostempos. A civilização chinesa: tudo ali é chinês. a mesma coisa. O que importa é a imanência do devir revolucionário das pessoas. que fabrica a cada vez tempos diferentes"1.fica vem quando Deleuze-Guattari postulam que "o ritornelo fabrica o tempo". Podemos concluir que a produção de um novo espaço-tempo não pode ser remetida para um radical e escatológico porvir além do tempo. 20. 85 . E todas as outras civilizações. Por quê? Porque a civilização chinesa se fez num tempo e num espaço chineses. basta-nos ilustrar parte destas reflexões com um depoimento do carnavalistajoãozinho Trinta. Rio de Janeiro. "Não existe o tempo apriori. A revolução.. Mas também de nossa estrutura eternitária. no fim da história. natal. mas o ritornelo é a forma a priori do tempo. espacial etc. Aí. aqui no Brasil. territorial. se ainda se quiser utilizar este termo. Aoutra. ou da fragmentária instan- 1 Gilles Deleuze e Félix Guattari.Joãozinho Trinta e os analistas do Colégio. de nossa mesmice. Nós estamos num tempo e num espaço abertos. p. respondeu: "Não será o Brasil um coração por onde vai passar tudo? Eu vou ser mais claro.. sem comentários. no topo do tempo. 430-1. Psicanálise Beija-flor. esses acontecimentos que nos liberam de nossa história. cit. sobre nós.

Outubro/1992 86 . oferecida. E isto para que atinjam o esplendor que lhes permita alterar o curso da história. os espaços-tempos heterogéneos proliferem. uma ininterrupta desobstrução. mas sobretudo inventar para nós novas formas de viver. para que tanto no plano individual de uma subjetividade como no plano coletivo. mas não se confunde com ela. como que alçada numa suspensão sempre incerta. O "devir revolucionário das pessoas" tal como foi exposto acima. para ser atualizada e explorada. os devires pulem da história e se multipliquem. os colapsos temporais tragam o acontecimento. de insubordinar-nos. está trançado ao tempo da história. Sua virtualidade está estendida aí. Exige.taneidade sem espessura que caracteriza este nosso regime tecnocientífico. na sua superfície. afirmando assim nosso próprio e demiúrgico esplendor. no meio da história. inesperada. inspirado em Deleuze. de subjeti-var-nos.

II .MANICÔMIO MENTAL .

DA LOUCURA À DESRAZÃO .6 .

mas ao fato de que isso possa soar como uma extravagância. como por exemplo: será que uma disciplina como a filosofia. Até porque a própria noção de loucura não é um invariante histórico. límpida e sempre bemsucedida. e é isso que deveria causar estranheza. O acoplamento entre dois domínios tão antitéticos por si soja levanta uma infinidade de problemas. E já que se está numa era psicanalítica. é preciso dizer que o esquecimento bimilenar da filosofia acerca da loucura significa bem mais do que um acidente — é uma escolha. O não-dito da filosofia sobre a loucura não obedeceu sempre às mesmas regras. é que essa 91 . tem condições de se debruçar sobre aquilo que por definição é justamente a ruína da razão e da coerência? Problema interessante. que por tradição cultiva o exercício da razão e do conceito.Um ensaio de filosofia sobre loucura pode despertar estranheza. e não sem motivo. Se há lugar para estranheza—e claro que há —. porém. Õ que surpreende. que na sua onipotência ilimitada ousou refletir e legislar ao longo da história sobre os domínios mais diversos e limítrofes. que certamente daria lugar a tratados volumosos — mas certamente não é esta a questão mais intrigante. tenha guardado um silêncio tão obstinado a respeito da loucura. não evitou sempre os mesmos perigos e não teve sempre o mesmo sentido. Não uma escolha inequívoca. A estranheza deveria recair sobre a constatação de que uma disciplina como a filosofia. desde a natureza do desejo até o sentido da morte. ela não se deve a que uma reflexão sobre a loucura se desenvolva no campo da filosofia.

O outro disparador situa-se fora do campo da filosofia. ao entrar num espaço cada vez mais tecnificado e gerível. No plano prático. Tudo se passa como se esse silêncio não fosse só um esquecimento. mas paradoxalmente. medicamentoso e outros. a sociologia das doenças mentais. ao que estaria por detrás de um silêncio. de um excesso e que poderia ser chamado. a antipsiquiatria. avanços da psicofarmacologia. de todos os pontos de vista. e que nós ainda conhecemos pelo nome de loucura. mais implementada em alguns países. o que parece estar resultando disso tudo é uma tendência mista. está deixando de ser uma questão para tornar-se um problema. aquilo que comumente chamamos de doença mental vai pouco a pouco se desfazendo da aura lírica e inquietante que antes a envolvia. de saturação discursiva e extradiscursiva acerca da loucura. como no primeiro caso. no sentido da desativação dos manicômios em favor de um atendimento mais socializado e descentralizado. passando pelo institucional. e diferentemente dosada segundo as circunstâncias. no fundo. uma medicalização mais modulada e uma terapêutica ao mesmo tempo mais abrangente e profunda. enfim. para ficarmos apenas no pós-guerra. e não diz respeito. Esse quadro verossímil e sob muitos aspectos alentador (no Brasil ainda estamos muito longe disso. a análise institucional. nem mesmo um esquecimento deliberado. obviamente) é um indício inequívoco de que a loucura. também pode servir como um de seus disparadores. mas pelo contrário. a título de exemplo. Isto é. menos em outros. a etnopsiquiatria. por comodidade. multiplicação das estratégias clínicas. pelo seu caráter intrigante e problemático. com os costumeiros avanços e retrocessos políticos.omissão tão persistente tenha sido problematizada tão poucas vezes ao longo da história. Tomemos. A evitação da filosofia acerca do desvario representa uma dificuldade para um estudo como esse. estudos históricos. a lista é longa e bastante conhecida. desde o sociopolítico até o intrapsíquico. para tornar92 . mas a própria condição do pensamento. os últimos 40 anos. A psicanálise.

assim como outrora sumiu a lepra ou a tuberculose? Por que então sustentar o contrário. edição de Histoire de Ia folie. e que a doença mental. o que está mudando fundamentalmente é a relação que nossa cultura mantém com aquilo que ela exclui. a seu impossível. incluído corno apêndice à 2. La table ronde. seja ela de natureza social. ou seja. como o faz Foucault. à sua dor sem corpo. os "sãos". não é verdade que nós consideramos ineliminável "a relação do homem a seus fantasmas. O que está l Michel Foucault. familiar ou mesmo subjetiva. 1'absence cToeuvre". diz ele. "La folie.se mais e mais uma variável no interior de uma equação. Por baixo disso tudo. que é a loucura que estaria se retirando de nossa paisagem cultural. Ainda segundo essa ótica. em 1972. passamos a reconhecer em nós mesmos nossa sombra de loucura. a respeito de um tempo em que a doença mental seria perfeitamente administrada e controlada. mas a todos. por sua vez. já que ela está sendo cada vez mais contida e esvaziada. por outro lado. à sua carcaça de noite". ao passo que. que as salas de agitados dos hospitais psiquiátricos se parecem cada vez mais com "mornos aquários"? Será que não deveríamos concluir dessas duas observações de Foucault que a loucura já não pertence apenas aos loucos. a loucura finalmente estaria sendo assumida como património universal do psiquismo humano. 93 . 1964. ao passo que todos nós. Afinal. Ao profetizar o desaparecimento iminente da loucura. em favor da exclusividade da doença mental? A análise de Foucault é categórica. segundo a qual é a doença mental que estaria se eclipsando. está sumindo. que nós consideramos irredutível nosso núcleo de loucura? E não é verdade também. estaria se desvanecendo de nossa cultura o rosto estranho da loucura. como diz Foucault. Foucault sabia estar se contrapondo a uma crença generalizada em nossos dias. numa época em que as patologias mais desviantes estariam sendo pouco a pouco neutralizadas. É como se estivéssemos nos aproximando da utopia asséptica prevista por Michel Foucault há mais de 20 anos1. em contrapartida.

Foucault escreve: "Tudo o que nós experimentamos sob o modo do limite. entenda-se. e isto sob as mais diversas formas que a história lhe l Idem. tendo em vista os mal-entendidos que pode suscitar. não era esse Exterior confinado a um personagem social recluso. Tese polémica. ou do estranhamento. o exterior ao homem. ainda mais radical e enigmática. no fundo. difícil de ser pensada e que interessa expor aqui porque serviu de ponto de partida efetivo para essa reflexão. também formulada por Foucault. essa questão. como o foi a loucura a partir da Idade Cássica. isto é. mas simplesmente o Exterior. Através dele e de sua dialética diabólica teremos conseguido o impossível: abocanhar nosso próprio Exterior. de "humanização" da loucura. terá adquirido a serenidade do positivo. irónico talvez. não mais intrigante do que aquela outra tese que a precede. essa Exterioridade. E o que para nós designa atualmente este exterior corre o risco um dia de nos designar a nós. que ele excluía mas na qual se reconhecia. Ao referir-se a esse futuro próximo em que a alteridade da loucura terá empalidecido. o seu Outro mas também o seu Mesmo. ou do insuportável. Processo ao qual demos o nome. e sob certos aspectos até perigosa. ibidem. 94 . agora.mudando. No entanto. a loucura deixará de ser esse estranho. já teria representado o encobrimento e o desvanecimento de uma forma de alteridade todavia mais extrema e irredutível — a Desrazão. problemática. Se até agora a loucura era para o homem essa Exterioridade enigmática. para incorporar-se ao humano como seu próprio mais originário. é a relação do homem com sua alteridade. diz Foucault. de internamento e de intervenção. que espelhava tudo aquilo que ele mais abominava mas também tudo aquilo que ele era na sua constituição mais original. nesse futuro que se avizinha. A Desrazão. Restará somente o enigma dessa Exterioridade"'. objeto de exclusão. Trata-se da hipótese de que o surgimento da própria loucura enquanto fato social.

com aquilo que não era ele. insensatez. "La pensée du dehors". E constata-se que nos domínios mais diversos. desatino ou muitos outros. Transcendência do Divino. Bestialidade do Humano etc. tomando por base esse conceito de Fora. É que a modernidade. n. e através dos personagens mais variados — como o poeta Mallarmé. O que se impôs. Critique. da filosofia e da arte. num vaivém que hoje nos parece quase impensável. Estas são algumas das diferentes maneiras através das quais o homem se relacionou. depois da morte de Foucault. seria aquela experiência que se dá sob o signo do Acaso. 299. da Ruína. então. Estranheza da Natureza. seja sob o modo da tutela clínica. da poesia. Sagrado dos Elementos. e que o personagem do louco evoca. aprendeu a domesticar o Estranho. com esse Fora. revela que são bem diferentes daquelas que em outros tempos levaram o nome de mania. A esse Exterior. em outro contexto.emprestou. o próprio escritor Maurice Blanchot. mas também confina. ao longo da história. foi trabalhar sobre a diferença sugerida por Foucault entre Desrazão e Loucura. da dominação técnica ou da oposição antitética. uma relação com esse Exterior. e que sob esse aspecto l Michel Foucault. ou ainda Nietzsche. o pensador místico-erótico Georges Bataille. para designar toda uma linhagem de pensadores que preservaram a muito custo — em geral às custas da própria sanidade — no seio da linguagem. seja como Caos do Mundo. O Pensamento do Fora. em todos eles ressoa um apelo do Fora. o pintor Francis Bacon. Fúria da Morte. junho de 1966. o quase filósofo Pierre Klossowski.. da Força ou do Desconhecido. Aventura da Linguagem. 95 . Um rastreamento de algumas formas que a cultura contemporânea oferece para se relacionar com esse Exterior. Foucault retomou esse termo e forjou a expressão de o Pensamento do Fora1. então. que caberia explorar. que Foucault foi buscar em Blanchot e que. o ensaísta francês Maurice Blanchot deu o nome de o Fora. ou mesmo Kafka —. Gilles Deleuze ampliou e enriqueceu. É esse Exterior com o qual uma cultura às vezes mantém um trânsito. tornando tudo familiar.

diria o seguinte. de troca. a ruína do Ser. entre loucura e desrazão. Em que consiste essa vizinhança e diferença? Se pudesse resumir esse tema complexo em poucas palavras. ao mesmo tempo ténue e abissal. a Memória. da Memória. ou. na medida em que não saem ilesos o Ser. Mas no que será que esse jogo com a Desrazão difere da Loucura? Não há na loucura também.se situa numa vizinhança assustadora com a experiência que nós fazemos da loucura. e mais além. emergem essas figuras estranhas como o filósofo-transgressor de Bataille. e da Obra? E muitas outras semelhanças? Para trabalhar a diferença. É o pensamento que não burocratiza o Acaso com cálculos de probabilidade. Foi preciso ler Foucault com os olhos de Deleuze. a História e nem mesmo a Obra. como na desrazão. explosivo às vezes. essas figuras da desrazão contemporânea citadas acima não são a loucura. o fílósofo-louco para cuja virtualidade Michel Foucault chamou nossa atenção. Muito pelo contrário. o fílósofo-celerado de Sade e Klossowski. o Sujeito. que faz da Ruína uma linha de fuga micropolítica. mas que mantém com ele uma relação de vaivém. de trânsito. não me bastaram as indicações contidas nos textos de Foucault. teria feito ecoar as vozes da desrazão. do Sujeito. outras apenas sussurrante. o pensador do Fora. da História. assimilar a maquinaria histórica foucaultiana tal como ele. e segundo a expressão consagrada. a reconstituiu. nome dado por Foucault a Blanchot e a toda essa dinastia maldita que. O Pensamento do Fora é aquele que se expõe às forças do Fora. aceitar a ampliação da noção de Fora proposta por ele. mais amplamente. da Identidade. nem o recurso a suas fontes de inspiração alinhadas no vetor-desrazão de sua obra. e assim situar a problemática da 96 . Desse jogo visceral. que transforma a Força em intensidade e que não recorta o Desconhecido com o bisturi da racionalidade explicativa. O Pensamento do Fora arrisca-se num jogo com a Desrazão do qual ele nunca sai ileso. a Identidade. Deleuze. de Holderlin a Nietzsche. Não obstante. de aventura.

Assim. de uma disponibilidade total a todos os enganches. a oposição que atravessa este percurso é entre o vaivém com o Fora. de forma sumária e esquemática. e entendendo-os na perspectiva do Fora. segundo estratificações de Saber. sonoros. do Poder e da Subjetividade. de a Clausura do Fora. por 97 . o sujeito ficaria exposto sem proteção alguma à violência desse Fora. já lhes fica alheio: impermeável permeabilidade. no rastro de Blanchot. e dá-se o que chamei. imobilismo e aceleração. Espantosa combinação de paralisia e mobilidade. Basta assinalar. Exposto de forma tão nua à indeterminação das forças. enclausurando-o. lugar imaginário da mãe. que é sua marca. ao qual temos acesso sempre historicamente. o louco acaba subtraindo-se a ele. é aquele que se enclausura nele. Abertura máxima ao Fora. Aí se conjuga o maior dos escancaramentos ao Fora. clausura e permeabilidade. imagéticos etc. de estereotipia e. circuito de circulação urbana restrito) e a mais desarticulada transversalidade. como na loucura. Na loucura. Paradoxo quase impensável: no momento mesmo em que a abertura a esse Fora é a mais absoluta das entregas. isto é. por um lado. do Acaso e do Indeterminado. e ao mesmo tempo extravio no temporal abstraio. cósmicos. O paradoxo está em que o louco. mas também perigosos e suicidários. que torna os devires da loucura tão insólitos e encantadores. Para Deleuze. políticos. a característica maior desse Fora é a de consistir no Jogo de Forças. numa estranha reversão o Fora desaba num Dentro total. que seria possível pensar a loucura como exposição total e sem mediação da zona de subjetivação ao Fora. Não é à toa que nos loucos coexistem de um modo tão surpreendente um lugar extremamente exíguo (lugar familiar.. diagramas de Poder e modalidades de subjetivação determinadas. referindo-a ao plano tríplice do Saber. e o rebatimento dele sobre o menor dos territórios. Não cabe discorrer aqui sobre essa construção complexa. dissoluto no Fora. Preso no Fora. lugar social. lugar mítico.loucura. e a adesão surda a ele. ao mesmo tempo. e sem condições de estabelecer com ele um vaivém ou uma relação.

às vezes. as tentativas de relação com o Fora a passarem por essas duas modalidades. no mesmo gesto. ainda. se a loucura ela mesma pouco a pouco vai deixando de significar o Fora. mas expressam a desrazão com as máscaras que esse século e outros lhe reservaram: a arte e a loucura. É sempre por um triz que um desarrazoado fica louco ou que um delirante vira um pensador do Fora. alguns tenham se perguntado se já não era hora de deixar vazar. ao engolfar o Fora e enquistá-lo em bolsões administráveis como a loucura e a arte. de dentro da loucura e da obra de arte. quase. Mas será que uma ideia assim romântica ainda faz sentido? Pois se o louco pouco a pouco vai abandonando os espaços de exclusão e internamento. uma 98 . enlouquecer para poder pensar arriscadamente. e que portanto estaríamos hegelianamente condenados a uma totalização em que teremos atingido. O colapso de Nietzsche em 1889 corresponde precisamente à passagem do pensador do Fora ao personagem social do louco. de relacionar-se com o Fora. É que em alguns momentos da história essas duas experiências — a da loucura e a da desrazão —coincidiram. É bem provável que este seja o motivo pelo qual. em tempo não muito remoto. por exemplo. já não rituais — como na Antiguidade grega — e quiçá não só literárias —como na Modernidade —. esse Fora do humano. que o mergulhou no silêncio e na imobilidade.outro. não será porque já não há para nós um Exterior. e mesmo ainda hoje. como se fosse preciso. com a esperança de que se pudessem inventar novas formas. também tenha obrigado. há sobretudo mutismo e impotência. através da incorporação do Outro. essa fronteira é praticamente invisível. Talvez porque nossa cultura. o tédio de nossa mesmice? Seria ir rápido demais. Em Artaud. A própria possibilidade de formular essa pergunta já constitui um indício de que esta é. Na adesão surda ao Fora que caracteriza a Loucura. No vaivém com a Desrazão que caracteriza o Pensamento do Fora há volúpia e risco. como disse Foucault. Os poetas loucos não realizam a síntese entre um género literário e outro psiquiátrico. com a finalidade de conjurar seus perigos.

São Paulo. a fim de reinventar a força do Fora. e se a Desrazão como tal é já um mero capítulo da história grega ou renascentista. à Ruína. E redescobrir com ele não a promessa nostálgica de que apenas o Fora poderia nos salvar. Mais do que isso. mas a relativização efetiva de nossa metafísica da Presença. banhando-o em Nietzsche. a meu ver ela passa por aí1. a permeabilidade ao Acaso. 99 . da Identidade e do Sujeito. Da clausura do fora ao fora da clausura: Loucura e desrazão. se há uma aventura possível e desejável para o pensamento hoje em dia. à Força e ao Desconhecido. uma vez mais. E se num futuro próximo não for mais na loucura que nossa cultura decidir confinar seu Exterior. pelo menos tudo isso ainda é pensável. Talvez seja preciso usar Foucault contra Foucault. Outubro/1988 l Algumas das reflexões aqui presentes estão desenvolvidas com mais vagar em meu outro livro. Penso que é possível ir ao encontro disso tudo sem soçobrar na loucura. Brasiliense. 1989. De todos modos. e se o Pensamento do Fora ainda secreta uma incerteza.questão em aberto. em favor de uma relação com o Fora de onde não estivesse excluído aquilo que precisamente sempre fizemos questão de excluir. por medo e insegurança — a saber.

7-A UTOPIA ASSÉPTICA .

A pergunta mais geral que merece ser colocada inicialmente é a seguinte: o que significa de fato. para que ao mesmo tempo se entendam os seus limites e se estenda o seu alcance. 103 . quando há coragem de levar as questões até seu extremo. se evitarmos que a ideia de uma sociedade sem manicômios se esgote em sua evidência primeira. como tentarei mostrar a seguir. aí o pensamento necessariamente deixa de ser um sonífero da prática para tornar-se ele mesmo ato político.recupere a força de uma questão candente. essa utopia asséptica de uma sociedade em que os loucos não mais estariam confinados nos asilos. A cada vez que se tenta problematizá-la em profundidade. nem discriminados nas famílias. Quando praticado com audácia. Não para que seus termos sejam recusados. o de ver um questionamento radical funcionar como um dormente ideológico. como a querer mostrar que talvez se esteja enriquecendo o pensamento. uma vertigem se insinua no discurso. Alguns dirão que essa desmobilização é própria do ofício de pensar. mas paralisando a ação. Risco constrangedor. a fim de que eles sejam radicalizados. O que só é possível. é das mais espinhosas. A ideia de uma sociedade sem manicômios mereceria enfim ser problematizada desde a base. sem dúvida.A consigna central de um evento favorável a uma sociedade sem manicômios. isto é. É preciso que este chamamento de apenas três palavrinhas — SOCIEDADE SEM MANICÔMIOS . embora óbvia e cristalina. Tolice. no plano da cultura. mas ao contrário. obviamente.

em suma. Por potencial de desterritorialização entenda-se esse poder secreto e admirável de embaralhar os códigos. esvaziando seu potencial de desterritorialização. sob pretexto de acolher a diferença. a uma estratégia de homogeneização do social? Com isso entro na segunda série de questões que caberia levantar. simplesmente abolindo-a? Não estaremos. subverter as regras do jogo e transpor ou deslocar os limites. com um carinhoso abraço de urso. até mesmo privilégios — mas ao mesmo tempo torná-los inofensivos. direitos. primeiramente. índios. crianças ou outras minorias — ou seja. de um devir-negro. o que restará da loucura. baseada na brandura e na diluição. se faremos com os loucos aquilo que já se fez com homossexuais. definir-lhes uma identidade. herege. quando os loucos passarem a fazer parte integrante de nossa paisagem cultural e antropológica a mais cotidiana — aí. no fundo. conjurando o perigo que os loucos representam? Não estaremos. seja através de um devir-bicha. Quando os loucos já forem nossos vizinhos pacíficos e estiver diluída sua singularidade. ou melhor. relativas à nossa cultura. e ora assumindo um rosto estranho. sacrílego. será que a libertação do louco não corresponde. Ao borrarmos essa fronteira simbólica e concreta entre a sociedade e seus loucos não estaremos. ora ameaçador. o que acontecerá efetivamente com os loucos.nem segregados no trabalho? Quando derrubarmos definitivamente os muros do manicômio e acolhermos entre nós seus inquilinos. atribuirlhes um lugar. de um devir-nômade ou de um devirlouco. domesticando a fera que os habita e nos livrando da estranheza que eles transmitem? Para dizê-lo de modo ainda mais incisivo. através de uma tecnologia soft. quando passarmos a considerá-los serenamente como nossos vizinhos. e com a loucura? Trata-se de saber. criminoso ou delirante. nesse futuro longínquo mas a cada dia mais próximo. sempre de outro modo. reconhecimento. da dimensão desarrazoada que até hoje tem sido monopólio quase que exclusivo dos próprios loucos? 104 .

95. é claro. Em épocas mais remotas essa dimensão estava embutida na Natureza (antes que ela se transformasse em mera reserva material disponível para uma dominação tecnológica). o seu contrário. o seu além. a transgressão absoluta. Será que nós realmente queremos que desapareça de nossa frente a estranheza. a disrupção do humano — tudo isso que por uma série de razões históricas tem sido o encargo simbólico dos loucos? Formulando todas essas perguntas desta forma e nesta sequência corremos. a concentração de parte dessa força de disrupção. esse tipo social criado e isolado a partir do século XVII e sobre quem depois se construiu um saber médico e psicológico. neste volume. ou no Sagrado (antes que a Ciência recentrasse nossa cosmovisão). O segundo é o de não l Da clausura . A desrazão não nasceu com o louco nem coincide com ele. em certos momentos de febre revolucionária. ver também. Por louco entendo esse personagem social discriminado.. Por loucura. com um certo esquematismo. Data de apenas três séculos a confluência de parte desse índice de desterritorialização ou. a ameaça. p. excluído e recluso. alguns riscos sérios.. ou no Judeu (ou até. recebeu a "incumbência" de levar em seu próprio corpo uma dimensão desarrazoada que o precedeu de muito. 105 . a alteridade radical. ou no Artista. a alteridade radical. Seria possível concluir. A pergunta provocativa que caberia relançar a partir dessa hipótese é se nós realmente desejamos eliminar de nosso horizonte aquilo que é o outro de nossa cultura — a desrazão. que o louco. ou na Mulher. para usar palavras mais simples.. o seu outro. op. entendo uma dimensão essencial de nossa cultura: a estranheza. predominantemente na figura do louco.Que me seja permitida uma pequena distinção conceituai entre louco e o que aqui chamei de loucura. Nem sempre coube ao louco a tarefa de encarnar a desrazão. no próprio proletariado). que em trabalho anterior designei por desrazão1. cit. O primeiro é o da mistificação e idealização da loucura. tudo aquilo que uma civilização enxerga como o seu limite.

o risco maior. "Cogito e História da Loucura". in A escritura e a diferença. ao mesmo tempo. E. E isto por uma razão histórica muito simples. Se deixamos aflorar este dilema absurdo. considerado hoje o fundador do moderno racionalismo. São Paulo. Michel Foucault mostrou que no mesmo século em que se decidiu pela primeira vez na história do Ocidente europeu enclausurar de forma sistemática os desatinados. 1971. nem mesmo relativizar a noção de loucura compreendendo seus determinantes psicossociais. nem que seja às custas do sofrimento deles próprios — ou evacuamos os manicômios e acolhemos os loucos entre nós. decretava a incompatibilidade absoluta entre a loucura e o pensamento1. Mas é preciso insistir desde já que não basta destruir os manicômios. trabalhadores em saúde mental. e essa é a questão central. l Ver Michcl Foucault. no mesmo século XVII Descartes. É óbvio que não se trata de fazer a apologia do confinamento manicomial. como se fazia na Renascença. que convivemos com eles diariamente. como se a loucura fosse só distúrbio e sintoma social. Enquanto a cidade trancafiava os desarrazoados. o pensamento racional trancafíava a desrazão. foi só para mostrar de forma mais aguda os riscos teóricos e práticos que rondam a questão em jogo. 706 . Perspectiva. espécie de ruga que o tecido social. Tampouco basta acolher os loucos. e o texto de Jacques Derrida. se ao livrarmos os loucos dos manicômios mantivermos intacto um outro manicômio.levar em conta o sofrimento concreto dos loucos que alguns de nós. ao invés de deixá-los vagando nos campos ou à deriva dos mares e rios. mental. conhecemos de perto. uma vez devidamente "esticado" através de uma revolucionária plástica sociopolítica. História da loucura. Nada disso basta. em que confinamos a desrazão. 1978. Perspectiva. o de chegarmos ao seguinte dilema estapafúrdio: ou mantemos os loucos confinados nos asilos e pelo menos alguém segura para nós a bandeira da desrazão. se encarregaria de abolir. São Paulo. da desrazão. Em seu •magistral estudo sobre a loucura. mas abrimos mão. finalmente.

mesmo quando ela é edulcorada pelos burocratas do desejo com uma terminologia inefável. de não recortar o Desconhecido com o bisturi da racionalidade explicativa. de uma nova forma de relacionar-se com o Acaso. Seria preciso desmontar essa racionalidade a fim de deixar o pensamento permeável à desrazão. com o Desconhecido. a forma hegemónica de racionalidade vigente é carcerária. poder enfim desarrazoar? Essa questão é a mais difícil porque não basta gritar novas palavras de ordem em substituição às antigas — como por exemplo. ou Viva o Devir. pois a desrazão não é uma nova ideologia. O que significa então. no seio do próprio pensar e das práticas sociais. Isso significa que no plano de nossa geografia cultural e política é preciso recusar o Império da Razão. poder pensar loucamente. mas praticar um trânsito com tudo aquilo que os loucos nos sugerem. se não foram o mesmo. a não ser de longe e residualmente. Viva a Multiplicidade. Talvez seja isso também que os loucos sempre quiseram nos dizer. e que nós ainda não conseguimos escutar. ou Viva a Diferença. de Raça ou de Religião). Isto não significa optar pela irracionalidade (que não passa de uma razão camuflada. para o pensar. embora eles mesmos.Esses dois gestos. de não fazer da Ruína um momento de uma superação dialética. muito menos uma nova tecnologia — mas o exercício. mas a morte). mas fazer do Acaso um campo de invenção e imprevisibilidade. Razão de Estado. tenham sido reduzidos a corpos passivos e impotentes (em sua forma manicomial cronificada os loucos não mais evocam a desrazão. e é a marca dessa solidariedade que chega a nós como uma urgência política. A nossa razão. ou Abaixo a Metafísica — isso tudo não muda absolutamente nada. ao menos foram solidários. mas uma linha de fuga micropo107 . Libertar o pensamento dessa racionalidade carcerária é uma tarefa tão urgente quanto libertar nossas sociedades dos manicômios. com a Força e com a Ruína. por estarem imersos nesse funcionamento exclusivo. Trata-se de não burocratizar o Acaso com causalidades secretas ou cálculos de probabilidade.

pois não pode ser atendida por decreto. significa poder levar o delírio à praça pública. É provável. porém. entre a subjetividade e a exterioridade. O direito à desrazão significa poder pensar loucamente. para que a "libertação" da desrazão não venha a ser mais uma astúcia da Razão — como talvez o seja a libertação dos loucos — é preciso evitar suas ciladas. ao indizível e até mesmo. e nós. Os 108 . se pudéssemos sugerir alguma reivindicação que não depende da aceitação de uma emenda legal. um direito à desrazão. entre os devires e o social. inventar uma nova relação entre corpo e linguagem. Platão resolveu banir dela os poetas. Trata-se enfim de um pensamento que não transforma a força em acúmulo. que não são poucas. já que eram mestres na arte da ilusão. significa devolver um direito de cidadania pública ao invisível. Enfim. entre a percepção e o invisível. significa fazer do Acaso um campo de invenção efetiva. significa liberar a subjetividade das amarras da Verdade. considerados por ele cidadãos nocivos. Há quase 2. mas igualmente fim do manicômio mental. ao impensável. mas em Diferença e intensidade. isto é. Libertar-se do manicômio mental é isso tudo e muito mais. seria preciso resumir tudo o que precede numa fórmula lapidar: sim. chamese ela identidade ou estrutura.500 anos atrás o fundador da Razão no Ocidente forjou uma utopia política que recebeu o nome de A República. fim do manicômio. No entanto. entre o humano e o inumano. Para preservar a perfeição e harmonia dessa cidade ideal. Talvez todas essas palavras amontoadas desse jeito façam pouco sentido. Isso tudo implica. bons cartesianos que somos. entre o desejo e o pensar. abominamos o não-sentido. E seria necessário acrescentar imediatamente: um direito à desrazão. naturalmente. por que não. que seja preciso incluir nesse programa insensato que acabo de esboçar sem nenhum rigor um lugar também para o não-sentido — um lugar que não seja mais o lugar do manicômio. onde ela costuma dormitar inofensiva.lítica. mas sem confiná-la àquele cantinho privado e secreto de nosso psiquismo chamado "nossas fantasias".

e com mestria inigualável. mas a serviço de uma modalidade inédita entre pensar. e se a humanização e homogeneização caminham juntas no combate aos riscos disruptivos da loucura. Maio/1989 109 . mas os loucos. lançou mão. Desta vez. justamente da arte sublime da poesia. se o fim dos manicômios é também uma forma dissimulada de borrar a Diferença que antes os loucos portavam.poetas foram expulsos da cidade de Platão pela porta da frente. deixemos ao menos que a desrazão — até recentemente "privilégio" quase que exclusivo dos loucos — vingue em nós. mas a poesia venceu. Os poetas perderam. Ora. mas voltaram pela porta dos fundos. isto é. não mais a serviço da razão. se a hipótese sugerida acima é verossímil. porém. como foi o caso da poesia em Platão. ao escrever sua utopia política. Nossa modernidade não expulsou os poetas. É que Platão. viver e desarrazoar. e com glória.

APÊNDICE .

HOMENAGEM A FÉLIX GUATTARI .

UM DIREITO AO SILÊNCIO .

da crispação. outras não. a intensidade. completou. Foi-lhe dito que ele corria o risco. nem pela significação.Numa conversa informal com Guattari. por exemplo. promovido pelo Núcleo de Estudos da Subjetividade. se não tivéssemos o direito de inventar palavras? E além disso. e realizada por Rogério da Costa ejosaida Condar. dos timbres. numa fala pública há muito mais do que as palavras. as expressões. de ser confundido com uma das inúmeras seitas locais. 117 . poucos dias antes de sua morte. evitando o excesso de neologismos que dificultavam a compreensão. um monte de coisas que não passam pelo compreender. subitamente. e não uma operação de marketing qualquer. do Programa de Pós-Craduação em Psicologia Clínica da PUC-SP. há os tons. Acrescentou que uma trajetória assim soberana muitas vezes c solitária. do ritmo. meus trocinhos) eram a sua aventura pessoal. e que os conceitos que vinha fabricando (que chamou de mês petits machins. perguntou então. os afetos. ocorrida antes de um périplo de conferências em São Paulo. das expressões. Nesta entrevista em vídeo que acabamos de assistir1 é particularmente marcante todo esse plano. da profusão. pelo caráter sibilino de sua fala. nem de comunicação. com poucos amigos. Disse que inventar conceitos era uma aventura. Guattari foi sereno na resposta. alguém sugeriu gentilmente que nas aparições públicas ele tentasse nuançar seu hermetismo. O que valeria a vida. especialmente para o Simpósio "A Pulsão e seus Conceitos". os gestos. Às vezes tinha-se eco. da atmosfera. l Trata-se de uma entrevista concedida por Félix Cuattari no dia 12 de agosto de 1992 em sua casa em Paris.

como um pedreiro atira a argamassa sobre o tijolo fresco. qualidades.. a morte. neste outro plano extra-discursivo. Ou um traço minúsculo na expressão do rosto. E não sabemos bem por quê. Universos incorporais. e este outro plano em que enxergamos atôni118 . uma pulverização. intensidades. dos mundos. acontecimentos. a boca se contraindo naquele biquinho tão francês como a querer dizer: "tantas coisas ignoramos. insinuando uma petrificação. uma apreensão pática. uma nova visibilidade. ou ainda o borramento das manchas numa superfície inexistente ao referir-se à caosmose. depois uma lassidão. mas subitamente tudo parece mais suave e mais complexo. em que o mundo parece tornar-se mais encantado. sabe-se lá".. um arabesco inédito no ar. o que parecia hierarquizado torna-se ramificado. cores. com a precisão rústica de um construtor. novas dimensões. o que estava subsumido a um Plano único vira um folheado. ali vem Guattari lançando em nossa cara conceitos maciços.. o mundo vira uma mistura discernível de múltiplos tons. reagrupamentos. de um fôlego só. Não é o milagre da multiplicação dos peixes. Isto por um lado. outras tantas. se a alegria dos signosGuattari corresponde ou não à secura dos conceitos-Guattari. de seres — multiplicação ontológica. ou a abundância alternada de balanceamentos para descrever a percepção extraordinariamente complexa dos bebés. Por outro. e aí de repente o corpo todo se empina para orquestrar. mais rico. mais polifônico.. Ou a lenta ritmação na hora em que fala do jazz.. reverberações. E então nos atrapalhamos com os funtores. É neste nível que corre a gesticulação musical de Guattari. O que era Um vira muitos. caso se queira captar o que está além das palavras.Um vídeo assim solicita do espectador uma atenção distinta. mas das espécies. como •quem vai catando no ar montinhos de invisível para depois recompô-los numa dispersão provocativa. Phylum maquínico. cadências. da significação. ritmos. Fluxos. e nos perguntamos se o que vemos e o que ouvimos procedem da mesma pessoa. Como conciliar aquele primeiro plano da apreensão pática. proliferações. Territórios existenciais etc.

acachapante? Difícil deixar de pensar numa inadequação originária. 119 . Não é à toa que Deleuze elogia esses descolamentos entre o som e a imagem em Syberberg. como que um pouco esquizofrenizados. Lembro da franqueza de Maria Rita Kehl. não é só pessoal. uma adequação. como é o caso de alguns amigos seus e outros tantos admiradores. acentuando a disjunção e fraturando nossa experiência estética. Instalar-se nesta defasagem. e evolui numa direção própria. de que ele dizia coisas interessantes por vias deselegantes. todos os mal-entendidos serão possíveis. ao dizer-lhe: "Gosto do que você diz. que resultou nessa sua "aventura pessoal". Tentar ler. ao invés de apenas aceitar a hipótese. não gosto de como o diz — é duro". eis o pequeno desafio que merece ser levado a sério. que com frequência se sentia em Guattari ao vivo.tos. uma maquinaria conceituai pesada. desse "entre". não improvável. ou a legenda explica a imagem. A começar pela constatação de que saímos dessa disjunção sempre perturbados. Caberia então instalar-se de chofre nesse interstício. claro. e ele respondendo: "ah. onde parece que cada uma dessas instâncias acaba ganhando independência. para tentar extrair daí uma lição. uma redundância. Esta disjunção. entre aquilo que ele encarna e suscita nos outros. O entroncamento teórico que obrigou Guattari a inventar uma saída original. é igualmente um indício relevante de um dos eixos essenciais de seu projeto teórico e de seu trajeto pragmático. autonomia. vindo em nossa direção. Creio que enquanto essa defasagem não for pensada. nesta inadequação entre o plano pático e o cognitivo. ao invés de fingir ignorá-lo ou tentar tamponá-Io. de resto. Talvez porque estejamos por demais acostumados a supor entre a imagem e a legenda uma correspondência. e a linguagem teórica turbilhonar e indigesta para certos estômagos despreparados ou delicados. ou uma sobredeterminação: a imagem ilustra a legenda. que talvez alguns experimentaram no vídeo. pudera fosse um poeta!". ver e ouvir a partir desse interstício. em Guattari. por um lado. e que.

de um certo reichianismo etc. Como sair de um estruturalismo generalizado sem recair num naturalismo energético. tanto políticos. que Guattari entendia como impasses políticos. como desfazer-se da ideia de uma infra-estrutura e de uma superestrutura? Como desvencilhar-se de um platonismo. sem atrelá-lo a uma instância fundadora? Como pensar esses objetos mentais. fosse ela material ou discursiva. o que dá no mesmo. Mas para além destas recusas. tanto em nossos jogos teóricos como em nossas aflições práticas. ele é desrealizado. sombra ou impossível. de um platonismo às avessas? Recusar a prevalência de uma instância ou de outra acarreta a rejeição de uma série de dicotomias: infra-estrutura e superestrutura. sem atrelá-los seja a uma cadeia significante. tomadas como um substrato infra-estrutural. Percebe-se que há aí muita coisa em jogo: a recusa de um certo lacanismo. e por extensão de certo estruturalismo. esse domínio incorporai se ofusca. cuja ingenuidade este mesmo estruturalismo havia ajudado a revelar e a denunciar? Como escapar ao despotismo do Significante sem retornar à inocência materialista? Como recusar a ideia de uma instância determinante. a fim de evitar todos os malefícios redutores daí decorrentes. se for submetido às coordenadas espaço-temporais-energéticas postuladas pela ciência. importa a saída que ele inventou para este enjeu. esses incorporais.poderia ser resumido em poucas palavras. em substi120 . Creio que o primeiro passo dado por Guattari para desbloquear esses impasses foi lançar a ideia de máquina. seja a coordenadas científicas do mundo natural. ou. saída própria. e bem grosseiramente da seguinte forma. tornado resto. de um certo marxismo. que está no interstício entre a ordem material e a discursiva. Por outro lado. já que essas duas maneiras de algum modo sobredeterminariam a especificidade e a autonomia daquele nível incorporai? Afinal. sob cujo efeito alguns de nós ainda nos movemos. então. históricos como subjetivos? Como pensar este "entre". história e estrutura etc. Natureza e Cultura. produção e desejo. original. Nessa linha. submetido à transcendência do simbólico.

já que faz do Universo uma grande fábrica. à ideia de autoengendramentos a partir de singularidades. finalmente. chegando até. as Máquinas abstraias. de equilíbrio. serviu de base para apreender de um modo novo o domínio não discursivo. autopoiese. de bifurcações. e apenas um quarto elemento representa uma abertura para o infinito. autoposicionamentos. mas. sem transcendências despóticas nem equilíbrios reasseguradores. um movimento próprio. Mas o que importa é o fato de que essa concepção maquínica. da existência como um todo. produtivo. Guattari pergunta-se: por que quatro? E responde: dois é dicotômico.tuição à noção de estrutura. para todos os níveis. Não pretendo entrar na definição deste operador extravagante. mas forja quatro pólos genéricos que são quatro novas instâncias: os Fluxos materiais e semióticos. e temporal. sem instância determinante. ao deixar de ser uma matéria informe à espera de uma estruturação significante. inclusive do desejo. basta assinalar que o maquínico (que é o contrário do mecânico) é processual. Caberia responder apenas no nível anedótico. Alguém poderia argumentar: sim. três leva a uma dialética fechada. de desequilíbrios criadores. O resultado foi um mundo material e imaterial sem centro. ele abole as instâncias determinantes. produção de produções. de reversibilidade. também amplia a noção de produção: produção não é só produção de coisas materiais e imateriais no interior de um campo de possíveis. do inconsciente. de intercambialidade. de irreversibilidades. produtor de singularidades. mas também produção de novos possíveis. essencial na máquina. Nesse sentido ele se opõe termo a termo à ideia de estrutura. ganhou uma potência infinita. os Universos incorporais de valor e os Territórios existenciais. por outro lado. nada "naturalista". 121 . O não discursivo. de homologia. Pela autopoiese algo se desdobra ganhando consistência. O diabolismo filosófico tem duas faces: consiste em estender a ideia de produção. de ahistoricidade etc. O diabolismo filosófico. estendendo a produção engendrante para todos os níveis. de engendramentos a partir de singularidades. autonomia. quer dizer.

em todos os planos. a constituição de universos. ou a laminação provocada pelo Significante. de processos de singularização. em que o ser-aí viraria o pastor do Ser. Como esses objetos-sujeitos e subjetividades de que Guattari fala no vídeo. se existencializando e até. e assim por diante. Não existe O SER. diversifiquem e multipliquem os modos de subjetivação. um engajamento ontológico. variedade. mas os seres. uma construção de existência. como equivalente ontológico geral. Essa operação que Guattari propõe consiste na destruição de todas as maiúsculas. que subsume sob seu filtro a totalidade do real. A ética guattariana é de opor a isso um construtivismo ontológico. quando Guattari diz que a pulsão na verdade é uma maquínica de existência. nas condutas. de fabricar mundos. da apreensão pática na 722 . da ética na política. significa optar pelas cartografias que enriqueçam. da função existencializante do rock para os jovens. de diferenciações. Não à maneira heideggeriana. de estar no mundo. Trata-se de diabolicamente intensificar a multiplicação das instâncias. dimensões. no limite. percebemos que ele está longe de um território estritamente psicanalítico no sentido clássico (é o mínimo que se pode dizer). ela é diabólica. mas Guattari está falando de uma ética em relação ao ser. ou de Razão. isto é. É a produção levada à sua radicalidade demiúrgica. de práxis ontológica. que soam como uma aberração conceituai. Num plano mais prático. de todos os despotismos reterritorializantes do Universal. e nesse sentido. ou de Comunicação.formando um universo a partir de seus componentes. ou de Energia. e que derivou para uma espécie de política da existência. tecendo uma subjetivação própria. ao contrário. Por isso. a heterogênese dos componentes da existência. ou de Informação. as maneiras de existir. O grande inimigo é sempre a laminação homogeneizante provocada pelo Capital. de criação de possíveis. Fala-se muito da ética do analista. a ética ontológica nada tem de sagrado. com todas suas imensidades. ou a laminação oriunda da ideia de Ser. conforme o exemplo de Stern. seja no caso da apreensão dos níveis etológicos no bebé. que torna tudo equivalente ou indiferente.

o grifo é meu): uma estranheza de ser tentada pelo dramaturgo polonês Witkiewicz. uma tragicidade também. mas também às máquinas técnicas e sociais. que inclui componentes semióticos os mais diversos.psicose. relações com o espaço arquitetônico. uma ontologia. Estas são algumas consequências deste produtivismo radical. mas supor engendramentos diferenciados de subjetivações. em que estamos sempre no mesmo lugar. aspirações estéticas. configurada por estruturas universais da psique. Isso tudo implica em não tomar a subjetividade como dada. Nessa exclamação creio que está condensada toda uma ética. éticas etc. ou da mídia. Para isso é preciso aceitar que a psique é resultante de componentes múltiplos. como elementos do romance familiar moderno etc. heterogéneos. vem a ser. que reinventa assim novas intensidades de mistério. comportamentos etológicos. conforme escritos recentes (os termos listados são todos de Guattari. um nomadismo existencial que fosse tão intenso quanto o dos índios da América pré-colombiana. como diz Guattari. seja da incorporação da ciência. É como se Guattari estivesse exclamando. uma estética. a consigna de produzir 123 . uma política. e que lhe escapava das mãos. senão eu sufoco". mencionadas ou apenas buscadas por Guattari. Daí também toda essa problemática que atravessa os últimos livros de Guattari. "um pouco de possível. estatutos económicos. a respeito desses limiares de consistência a partir dos quais alguma coisa nova ganha existência. não pode estar voltado exclusivamente para o passado. mas também deve sê-lo para o futuro. Eis então uma pequena lista de algumas dessas coisas inéditas encontradas. não pode estar referido apenas ao romance familar. a aspereza de ser rara hoje em dia. Por isso o inconsciente para Guattari não é estrutural. ao invés do falso nomadismo de nossas viagens modernas. ultimamente. as rupturas de simetria do arquiteto japonês Tadao Ando. mas também meios de comunicação não verbais. o registro da fala. Ela envolve. mas processual. como o fez Deleuze referindo-se a Foucault num outro contexto. Esse tema da passagem ao ser tem às vezes uma tonalidade estranhamente visceral.

desconhecido. Por exemplo. mistério e demoníaco. Ana Lúcia Oliveira e Lúcia Cláudia Leão. focos de eternidade aninhados entre os instantes. mistério. funcionam apenas como propulsores de um movimento conceituai. Ed. Portanto. para serem apreendidas. Galilée. que não mais emanarão de uma mesma aura totêmica. mas cujo sentido preciso fica claro depois de algum tempo. Paris. numa primeira leitura. Campinas. solicitam uma apreensão pática. esta sobre as entidades intensivas. um novo amor pelo desconhecido. magia. que nada tem a ver com a discursividade de uma cadeia significante ou das coordenadas energético-espaciais-temporais. há mais do que uma evocação aleatória e extravagante de uma suposta concepção "animista" do mundo. a "atmosfera" de uma manifestação. há todo um programa. Note-se alguns dos termos mencionados: estranheza e aspereza de ser. Claro. Daí resulta que essas entidades intensivas. e por aí afora. ou de Cartographies Schizoanalytiques. magia. exigem. para tornar a dar. que estão no entroncamento de elementos muito heterogéneos. como por exemplo. jamais sentidas1. 1992. algumas delas são palavras estranhas que num primeiro momento. 124 . o infinito a um mundo que ameaçava sufocar. para o qual Guattari não parou de inventar novas armas e ferramentas inusuais. Nessa profusão pinçada assim ao acaso. engendrar as condições de criação e de desenvolvimento de formações de subjetividade inusitadas. reencantamento. O programa de um criacionismo ontológico complexo. demoníaco. Há também certas sugestões mais fortes: passar pela báscula caósmica. Papirus. eternidade. ponto umbilical. trad.novos infinitos a partir de um mergulho na finitude sensível. jamais vistas. lógica das intensidades não discursivas. um reencanfamento das modalidades expressivas da subjetivação. ou de um l A maioria destas expressões foi extraída de Caosmose: um novo paradigma estético. 1990. que é aquela que apreende por exemplo um "clima" de uma festa. o que vem a ser uma ontologia fractal? Ou atratores de possível? Ou mesmo essas básculas caósmicas? E depois há as ideias as mais estranhas. infinito. Rio de Janeiro. de At três ecologias. 34. enfim. uma outra lógica. 1989.

e por último. incorporais. Siglo XXI Arg. ou de uma obra de arte. Ed. de ponta a ponta. ele fala em heterogênese. estes neologismos deveriam ser vistos não como desvios repulsivos de um psicanalista herege. A aglomeração neste ritmo denso de parte^dos neologismos de Guattari vai ironicamente contra aquele pedido mencionado no início para que ele nuançasse seu hermetismo. Segundo as palavras de Deleuze. duas observações circunstanciais. Prefácio a Psicoanalisisy transversalidad. e sim como desdobramentos múltiplos de um certo diabolismo demiúrgico. os objetos mentais. transversais etc. Se intensifico essa lista. No entanto. são focos autopoiéticos. Ele mesmo começa falando em sedução e a faz derivar para objeto-sujeito. Essas entidades intensivas. cheio de múltiplas vidas. É natural que os psicanalistas se sintam incomodados com essa profusão de operadores.. embora a atravesse e a implique. ele responde com a etologia na infância e na psicose. um Pierre e outro Felix (ele chamava-se Pierre-Félix Guattari). que os expulsam de um território teórico conhecido. Para finalizar. não é para assustar nem para dificultar."1 São as duas l Gilles Deleuze. mais radical. ela pergunta sobre a linguagem. um era "como uma cabeça catatônica. o outro. ataca. pasmem. "um brilho deslumbrante. já que. assim que opera. foram inventados (ou descobertos) pela psicanálise. a castração desemboca em autopoiese. segundo o próprio Guattari. 1976. pensa. componentes essenciais de subjetivação. "Três problemas de grupo". ela pergunta sobre ordem representacional e desordem pulsional. ele responde com caosmose. corpo cego e endurecido que se impregna de morte quando tira os óculos". Um texto de Deleuze sobre Guattari fala em dois Guattaris. ri. a cena primitiva se transforma na máquina de representação. Buenos Aires. mas para frisar que isso tudo poderia ficar mais claro se inscrevêssemos esse movimento geral nesse projeto ontológico mais amplo.psicótico. A entrevistadora pergunta o que é pulsão. diz Guattari. . e que necessariamente transborda a psicanálise.

Na verdade. desde então sempre invejei aquele estado catatônico e às vezes. A petrificação e o brilho. tudo bucólico até que topamos com um chiqueiro. mesmo acordado. assim. me vejo assim. Por fim Guattari entrou na conversa. eu escreveria um texto chamado "Um direito ao silêncio". Talvez eu não devesse terminar com uma anedota pessoal. resolvi sair com minha companheira para um passeio. seja irreversível. Em 1990 eu estava de visita à França e fui com Guattari conhecer a Clínica de La Borde. Mas a gente acaba fazendo muitas coisas que não deve. hoje. rumores longínquos. mesmo oferecendo uma cadeira a seu vizinho e amigo Jean Oury. petrificado. depois comecei com eles uma conversa. Ele pediu que eu guiasse. Petrificado. mesmo estatelado sobre um sofá diante da televisão. para infortúnio dos que me cercam. intrigado. se é isso que lhe dá na telha. Saímos de Paris de carro. enquanto dormia. foi se intensificando. quando Guattari morresse. Pena que esse momento tenha chegado tão logo e que esse silêncio. nas diversas viagens em que o acompanhei no Brasil. num verdadeiro deviranimal. Andamos em silêncio. Acho que nessa estada de um dia e meio em La Borde foi a única conversa que tivemos. Eu jamais o havia visto assim. Mas muita gente no sono vira pedra. fim de tarde. sobretudo quando se defronta com uma morte extemporânea. Segue então este breve relato. à minha revelia. mesmo comendo sobre a mesa longuíssima e monacal de sua casa em La Borde. no dia seguinte ele não estava diferente. com um coletivo de porcos. recíproco. no chiqueiro. Entretanto. de virar morto. Guattari quis vir conosco. O diálogo. um vizinho cumprimentando. a noite chegando. com os porcos. rindo muito.potências esquizofrênicas de um anti-Eu. sem óculos. primeiro em silêncio. conforme a descrição de Deleuze. grunhindo também. no pouco que sei grunhir. ouviam-se os passos. grunhida. No dia seguinte fui embora. Já um pouco aflito com a situação. de grunhir de vez em quando. Eu me dizia que um pensador tem o direito de ficar catatônico. 726 . Na época lembro de ter tido a fantasia de que. ao longo de uma vida. Ali ficamos.

de a potência do eterno retorno do estado nascente. desta báscula caósmica em que ficamos com o choque surdo de sua morte. a partir dele. Talvez o silêncio que Guattari deixa com sua morte também devesse ser tomado como uma espécie de báscula caósmica. de dissolução onde se engendra o que está por vir. 727 . deste silêncio. mas também imersão numa espécie de caosmose. fazer isto que ele propugnou e realizou tantas vezes. Quiçá pudéssemos. desta morte. e que ele chamou do jeito mais bonito. esse misto de caos e complexidade. entendi que aquele silêncio de La Borde não era só petrificação.Mas relendo recentemente alguns textos seus.

a partir do relato de Déborah Sereno sobre uma saída com paciente.TEXTOS DESTA EDIÇÃO (Relação e especificação) Os textos incluídos neste volume são versões modificadas de trabalhos apresentados em colóquios. e realizado na Universidade Estadual do Rio de Janeiro. e enriquecidos com enxertos de trabalhos contemporâneos a eles. Ecologia do invisível Apresentado no Colóquio Ecologias. Um desejo de asas Apresentado inicialmente no II Encontro Paulista de Psicose e Instituições. em São Paulo. Todos foram alterados para as necessidades desta edição. em maio de 1992. 729 . em junho de 1992. promovido pelo Hospital-Dia "A Casa" em conjunto com o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). em alguns casos já publicados. e realizado neste último. promovido pelo Colégio Internacional de Estudos Filosóficos Transdisciplinares como preparação crítica à ECO-92. no mês de setembro de 1990. no Rio de Janeiro. encontros ou eventos diversos. Rapsódia húngara Apresentado em encontro da Cooperativa de Acompanhantes Terapêuticos Estação. A nau do Tempo-rei Apresentado originalmente no seminário de encerramento do Curso Integrado em Saúde Mental promovido pelo Centro Psiquiátrico Pedro II. em dezembro de 1990. em São Paulo. com o apoio da Fundação Osvaldo Cruz.

1989. em outubro de 1992. 2. 2. n. 1990. Argentina. e também na Homenagem a Félix Guattari promovida pela Casa Brasil-França e Editora 34 Letras. em setembro de 1992. 730 .O anjo de Swedenborg Apresentado no "Primer Encuentro en el marco dei pensamiento de Deleuze-Guattari y nuestra Actualidad". do Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae. no Centro Cultural Gral San Martin.. Apresentado no Simpósio "A Pulsão e seus Conceitos". do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da PUC-SP. Um direito ao silêncio Comentário de uma entrevista em vídeo concedida por Félix Guattari pouco antes de sua morte. Ed. e publicado na revista Percurso. em outubro de 1992.P. por ocasião da apresentação da tese intitulada Da clausura do fora ao fora da clausura: Loucura e Desrazão. no Rio de Janeiro. Hucitec. S. promovido pelo Núcleo de Estudos da Sujetividade. e publicado em SaúdeLoucura n. em Buenos Aires. em 18 de maio de 1989. em comemoração ao Dia da Luta Antimanicomial. A utopia asséptica Apresentado inicialmente no encontro organizado em São Paulo pelo Plenário de Trabalhadores em Saúde Mental. Da loucura à desrazão Exposto originalmente ao Departamento de Filosofia da PUCSP em fins de 1988. promovido pelo grupo Plexus.