Somanlu

Revista de Estudos Amazônicos
ano 5, n. 1, jan./jun. 2005

Manaus-2006

Copyright © 2006 Universidade Federal do Amazonas SOMANLU – REVISTA DE ESTUDOS A MAZÔNICOS Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia, da Universidade Federal do Amazonas. (SOMANLU é um herói mítico da Amazônia criado pelo escritor Abguar Bastos) R EITOR Hidembergue Ordozgoith da Frota P RÓ-REITOR DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO Prof. Dr. Abraham Moisés Cohen DIRETORA DO INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E LETRAS Prof.ª Dr.ª Maria Izabel de Medeiros Valle COORDENAÇÃO DO P ROGRAMA DE PÓS-G RADUAÇÃO EM SOCIEDADE E CULTURA NA AMAZÔNIA Prof. Dr. Nelson Matos de Noronha Prof.ª Dr.ª Iraildes Caldas Torres Prof.ª Dr.ª Patrícia Maria Melo Sampaio Prof.ª Dr.ª Heloísa Helena Corrêa da Silva Orlando Melgueiro da Silva (Representante discente) COMISSÃO EDITORIAL Prof. Dr. Narciso Júlio Freire Lobo (Editor) Prof.ª Dr.ª Selda Vale da Costa (Editora) Prof. Dr. João Bosco Ladislau de Andrade Prof.ª Dr.ª Iraildes Caldas Torres Prof.ª Dr.ª Célia Regina Simonetti Barbalho Prof. Dr. Antônio Carlos Witkoski

DIRETOR DA EDITORA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAZONAS Prof. Dr. Renan Freitas Pinto COORDENADORA DE REVISTAS Prof.ª Dayse Enne Botelho DETALHE DE CAPA E PROJETO Verônica Gomes
Milton Hatoum)
GRÁFICO (MIOLO)

(Composição sobre imagens de capa das obras de

E DITORAÇÃO ELETRÔNICA Rogério Cordovil ELABORAÇÃO E REVISÃO DE ABSTRACTS Paulo Renan Gomes da Silva REVISÃO DE PORTUGUÊS Cynthia Alcântara Teixeira

A exatidão das informações, conceitos e opiniões são de exclusiva responsabilidade dos autores
Publicada em fevereiro de 2006
Somanlu: Revista de Estudos Amazônicos do Programa de Pós-graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia da Universidade Federal do Amazonas. Ano 1, n. 1 (2000 - ). --- Manaus: Edua/Capes, 2000 v.: il.; 17 x 24 cm. Semestral Até 2002 publicação anual e vinculada ao PPG Natureza e Cultura na Amazônia. Interrompida em 2001. ISSN 15118-4765 1. Cultura Amazônica 2. Amazônia – Sociologia 3. Amazônia – Antropologia I. Programa de PósGraduação em Sociedade e Cultura na Amazônia. CDU 316.722(811)

Editora da Universidade Federal do Amazonas Rua Monsenhor Coutinho, 724 – Centro CEP 69.010-110 Manaus/AM Telefax: (0xx) 92 3231-1139 e-mail: edua_ufam@yahoo.com.br

Universidade Federal do Amazonas Instituto de Ciências Humanas e Letras Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia – PPGSCA Av. Rodrigo Octavio Jordão Ramos, 3.000/Campus Universitário – ICHL CEP 69077 – 000 Manaus – Amazonas – Brasil Fone/Fax: 055 92 3647-4381/3647-4380 www.ufam.edu.br www.ppgsca.ufam.edu.br e-mail: ppgsca@ufam.edu.br

SUMÁRIO Apresentação Artigos
E tu me amas?
Aurélio Michiles

5

9

A narrativa poética em Dois irmãos – lugar de intercâmbio entre suportes arquivísticos
Allison Leão

21 35 47 63

A importância dos fatores socioculturais no processo da comunicação
Allan S. B. Rodrigues/Grace S. Costa

O modo de ser e viver o caboclo por Dalcídio Jurandir
Fabiane Maia Garcia/João Bosco Ferreira

Mercado faz a festa na floresta
Wilson Nogueira

Representações sociais das comunidades rurais amazônicas do conceito de ambientalismo ou preservação ambiental: os casos de Fátima e Livramento
Renan Albuquerque Rodrigues

81 95 115

O desafio ético do desenvolvimento com diversidade
Carlos Lopes

Nas margens do igarapé do Mindu: dois lados da história
Ângela Maria de Abreu Cavalcante

Desenvolvimento sustentável e ecodesenvolvimento: uma reflexão sobre as diferenças ideo-políticas conceituais
Marinez Gil Nogueira/Maria do Perpétuo Socorro R. Chaves

129 145

Afirmação étnica e movimento indígena em Tefé: o caso dos Cambeba
Benedito Maciel

A inserção do indivíduo em novos espaços sociais e a criação de novos papéis
Aldair Oliveira de Andrade

163 175

Dinâmica territorial na fronteira Brasil–Colômbia
Ricardo José Batista Nogueira

Resenhas
A contribuição seminal de Koch-Grünberg
Renan Freitas Pinto

201

Ponto e contraponto
Marcos Frederico Krüger

209 215

Homenagem Póstuma a Leandro Tocantins Dissertações Defendidas
Dissertações defendidas em 2004/2005 (1.º semestre)

237

Eventos
Cursos: Stop Making Sense! A crise dos paradigmas nas Ciências Sociais A Pesquisa em Ciências Humanas: regiões ou campos de pesquisa Palestras: Arte e Cultura Popular: Artesanato, Folclore ou Patrimônio Intangível de Culturas Dominadas? Poéticas Orais Amazônicas: algumas questões fundamentais Os vocábulos da ocidentalização da Amazônia

241

241 245 247

P ublicações Recebidas Roteiro para elaboração de artigos e Normas editoriais

4

Somanlu, ano 5, n. 1, jan./jun. 2005

Está neste número. Esse texto de Lopes. com a apreciação de seu terceiro livro. Com este número. romancista paraense. desde a capa. 2005 5 . procurando refletir a inquietação intelectual que emerge da curta vida do Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia. está destinado a desencadear pertinente e oportuno debate. sobre o segundo livro do autor. que oferece diferentes chaves para entender a obra desse amazonólogo. fronteiras. oferecendo-se um novo ângulo para a leitura dessa obra magistral./jun. Cinzas do Norte. afirmação étnica. igualmente. valendo destacar o artigo-manifesto de Carlos Lopes. no primeiro bloco de artigos. traz muitas referências à produção do romancista amazonense Milton Hatoum: logo após. na parte dos estudos comunicacionais. a importância dos fatores socioculturais. meio ambiente. 1. Somanlu. sobremodo original. vem “A narrativa poética em Dois Irmãos”. Outra grande surpresa para o crescente número de leitores desta revista: o Seminário-Homenagem dedicado a Leandro Tocantins (1929-2004). Discute-se também. que pintou com cores fortes o cotidiano caboclo e cedo se foi. o trabalho de Milton volta à tona. assim como as festas na floresta e suas implicações mercadológicas. ao mesmo tempo: Hanneman Bacellar (1948-1971). que nos oferece magnífica aula sobre o momento presente da humanidade. ano 5.Apresentação Este número. jan. temos o relato do cineasta Aurélio Michiles sobre essa figura enigmática. resultado do pensar coletivo. e amada. um artigo sobre o modo de ser e viver do caboclo em Dalcídio Jurandir. marcada por conflitos e desencontros. Desenvolvimento. transcrito na sua quase totalidade. temas recorrentes desde os primeiros números de Somanlu. que é visto a partir do entrecruzamento de suportes arquivísticos. que tentou compreender o Brasil a partir da Amazônia. mais um grande momento – estamos certos – na trajetória de Somanlu. Ainda nesse primeiro bloco. n. voltam a ocupar o espaço da indispensável reflexão. Na seção de resenhas. dedicado à arte e à comunicação. E muito mais. português com doutorado em História na Sorbonne e representante da ONU e do PNUD no Brasil. sem dúvida.

jan. n. 1. ano 5. 2005 .6 Somanlu./jun.

1. ano 5. jan. n./jun.Artigos Somanlu. 2005 7 .

jan. ano 5. n. 1.8 Somanlu./jun. 2005 .

E tu me amas? Aurélio Michiles* Resumo Através da memória do vivido. 1. Palavras-chave: cultura. jan. aos 23 anos./jun. the Amazonian plastic artist who died in tragic circumstances at the age of 23. art. Hanneman Bacellar. Abstract Though the memories of his life experience. in Brazil and in the world.com. A árvore da for tuna e O cineasta da selva. n. no Brasil e no mundo. ano 5. the author remakes the trajectory of the sixties in Manaus. o autor percorre a trajetória dos anos sessenta em Manaus. destacando a figura carismática do artista plástico amazonense Hanneman Bacellar. de Guaraná – olho de gente. falecido em circunstâncias trágicas. 60’s. Keywords: culture.br Somanlu. anos 60. e-mail: auryed@unisys. autor. 2005 9 . * Cineasta amazonense. Hanneman Bacellar. entre outros. highlighting the charismatic figure of Hanneman Bacellar. arte.

“O Elemento 106”2. Hoje sabemos que Paul. Parecia estar tomado por um personagem. 2005 . Mesmo assim. E começou a ler obsessivamente: “Ao despertar certa manhã após um sono intranquilo. invisíveis. somente por uma questão de curiosidade. ano 5. e como eu desconhecia então quem havia escrito aquele parágrafo. Fazendo o reencontro do Ocidente com o Oriente. uma metáfora para dizer que éramos muitos “especiais” – o mais novo elemento químico da natureza. com “uma história de horror”. não havia nenhum adulto para escutar meia dúzia de adolescentes entre treze e quinze anos. Havia sido tema de um filme-documentário. Hanneman Bacellar era um personagem célebre. “– Kafka. enquanto atravessávamos na catraia da Aparecida ao bairro de São Raimundo e ao mesmo tempo em que chamava a atenção para as novidades da música popular através dos The Beatles: “Presta a atenção no octeto de cordas à frente do conjunto na música Eleanor Rigby”. mas para todos nós ele foi uma espécie de irmão mais velho. George e Ringo estavam na mesma busca por outros paradigmas. “um pintor amazonense”. balançava-se entre exibir sua voz de barítono na banda de música pop “The Stteping Stones” e as primeiras leituras de “Os Sertões”3. do chiclete com a banana. John. a primeira festa “psicodélica” de Manaus – 1967. tão pouco comuns aos ouvidos do consumo popular. alguma coisa que fizesse da realidade algo semelhante ao balé aquático do Rio Negro com o Solimões. vamos chamar o vento”6. Tinha uma personalidade que transitava entre a timidez manhosa e a provocação. Hanneman gostava de cantar “cirandeiro. continuávamos no anonimato. 1. jan. n. ele apareceu na minha casa para revelar sua última e espantosa descoberta. e. naquela cidade. comecei a crer que ele pretendia me fazer sentir medo. Resolvemos.E tu me amas? Naqueles anos sessenta formávamos um bando1 empertigado. Ao contrário de todos nós. O escritor Milton Hatoum. cirandeiro ó. queríamos desafiar o desconhecido. É uma história kafquiana” – disse ele. Um dia. sem maiores comentários. Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num monstruoso inseto”4. por exemplo. enquanto na sua casa se organizava o evento mais comentado do ano. a pedra do teu anel brilha mais que o sol”5 ou assobiar “Vamos chamar o vento. colocar à prova os limites da realidade. O ritmo atonal em algumas das músicas do disco “Revolver”8 aguçou nossa curiosidade 10 Somanlu. editar um jornal estudantil. Paul havia assistido naquela época às apresentações de John Cage7 e resolveu utilizar aquelas experimentações sonoras. então./jun. Tínhamos fome pelo absoluto.

deliciava-se e zombava daqueles que recuavam ao tríptico jogo de seduções sugeridas pela imaginação prodigiosa de Bosch. modestas reproduções nos fascículos “Gênios da Pintura”. hoje Assembléia Legislativa). nos abria ao mundo de possibilidades. acima e abaixo. sem esquecer do Café do Pina ou a “República Livre do Pina”. da Editora Abril! “O Jardim das Delícias”. O centro histórico. as blasfêmias de Hanneman redobravam e detinha-se nos pormenores metafísicos e esotéricos da pintura “O Cego Guiando os Cegos”. jan. como se estivesse participando da cerimônia sádica entre açougueiros. como todos nós. 2005 11 . nos tempos áureos da borracha. Ninguém queria saber de arte. ao Cine Avenida. à Praia do Mercado. ano 5. Éramos um bando e não uma banda de jovens. como quase tudo. onde sua mãe espanava o pó da decadência. ao Colégio Estadual do Amazonas e às putas da Rua Frei José dos Inocentes. encontrava-se uma coleção de moedas. viu-se maravilhado com a capa do disco. a meio caminho das “lendas” manauaras. Polytheama e Guarany. ao Porto Flutuante. Não nos importava de onde vinha. o real e o surreal. Hanneman Bacellar foi um garoto negro e pobre dos anos 60. ao Hotel Amazonas. que vivia num porão palaciano. a qual. nesse Palácio (Rio Branco. Hanneman. o claro e o escuro. de Bosch. que penetrava nas metáforas sem medo e compaixão. sempre nos conduzia à beira do Rio Negro. o bizarro. n. Quando chegávamos ao fascículo dedicado a Pieter Bruegel. à Biblioteca Pública. o Velho. ao Teatro Amazonas. analogias e interpretações – o bem e o mal. de cultura e tampouco de história. Ao contrário de Hanneman. Mas quem em Manaus estava preocupado em preservá-la? O Palácio. chegou a ser uma das mais importantes da América Latina. à Praça da Matriz. a coleção do Museu de Numismática encontravam-se esquecidos. ao Mercado Público. o exótico. cujo desenho em bico de pena nos instigava a novos desafios estéticos. à Pinacoteca. Ah. tanto que o bando chegou a fazer parte de sessões “espí- Somanlu. aliás. o híbrido. o fantástico. Odeon./jun. Alguns de nós ainda freqüentávamos a igreja e nos encontrávamos submetidos aos dogmas da religião. Como esquecer do seu deslumbramento (que também era o nosso) diante das pinturas de Hieronymus Bosch9 e das de Pieter Bruegel10. que perambulavam pelas noites úmidas e calorentas de Manaus na busca de algum movimento. Como ironia do destino. 1.Aurélio Michiles e não foi somente isso. mas essa parte da história vamos deixar para depois. o sinistro. deus e o diabo.

no momento ocupava o fundo do quintal. Desejávamo-nos comunicar nem que fosse com o além do além. escritores e intelectuais parisienses e chamava-se Américo Antony. nos atraía. Ele nos recebeu com certa sofreguidão./jun. O Poeta não se incomodava. aliás. Na rua. como fossem animais amestrados. justamente aquele que as galinhas e os patos. livros fechados e abertos. jan. Seria assim a vida de um Poeta? Um cheiro de “sebo-de-holanda” misturava-se a outros cheiros nauseabundos. sabe lá porque. misturadas à saliva com o hálito de café e tabaco. 1. Nós. tentávamos nadar no meio daquele emaranhado de uma vida à margem da realidade. Ao fundo. que saíam tontas. um cheiro de bacuri nos acolhia piedosamente. Indiferente ao que pensássemos. havia um caos. num gesto sob o impulso da velocidade da luz. sai na busca de um poema escrito há pouco. freqüentado a roda de poetas. Ali. limpou-o num só movimento das mãos. nós. era como se estivéssemos no meio de uma selva de folhas. Naquela caverna íntima. alguns animais domésticos perambulavam livremente por entre e sobre seus escritos. francês. procurava as letras das palavras faladas. com uma disciplina de monge trapista. através dos seus óculos de grossas lentes. Ele recitava. “está em qualquer lugar. filhos da classe média. como náufragos. um exilado da ditadura salazarista. Ele havia estudado na Europa. revistas por todos os lados. lá estávamos diante de um Poeta. Finalmente o encontra. vivia sozinho. jornais. aos borbotões. tudo aquilo. acompanhado da mãe anciã. ao contrário. quem sabe. dando conteúdo e parceria. trechos dos seus poemas em português. Aquilo tudo fazia parte de uma descida às catacumbas de um imaginário que. um cipoal. com significados surrealistas. sozinho ele não anda”. O Poeta. finos e grossos. desenhavam com suas fezes um abstracionismo escatológico. se é que ele se deu conta da nossa presença. Não sei como chegamos até ao seu refúgio. O único que se dispôs a ouvir o bando foi o português Álvaro Páscoa. latim e. sequer havíamos imaginado. eram muitos papéis espalhados por todos os lados. que caminhava com a ajuda de duas muletas. Saímos sem bater a porta sob perplexidades e indagações. Numa outra oportunidade. ano 5. deram ouvidos a uma história sobre um poeta-de-verdade que vivia recolhido num sobrado afrancesado. o Poeta. escutávamos os sinos da Igreja de São Sebastião assinalarem o final da tarde. na nossa frente. grego. n. Sábado.E tu me amas? ritas”. páginas. A loucura tinha se tornado uma rotina naquela visita. eternizada numa das pinturas do 12 Somanlu. dona Maria. uma confusão. era sempre nesse dia da semana. 2005 . num idioma inventado. grandes e pequenos.

Depois. uma base musical para nossas perambulações a esmo naquela cidade silente. na Feira de Artes. do tipo “Boa noite Dona Maria. e ao mesmo tempo aquela atmosfera exalava um calor de alta afetividade. Desde quando se destacou como ganhador do grande prêmio “Clube da Madrugada”. comentou: – Quadros de uma Exposição. discutindo sobre tudo que se referia às artes. ele se encontrava escutando uma música que nos arrebatou. Na realidade. numa caixa de sapatos e saíamos sem cerimônia. Manaus exercia um fascínio nos seus trezentos mil habitantes. O Mestre Páscoa. mas cadenciada. apenas um troca-troca de histórias. particularmente. 2005 13 .11 Apesar daquele ar de cidade perdida. Sua generosidade nos transformou. Ainda não tínhamos trocado as saudações formais. Um ambiente impregnado pelas cores escuras sobre escuro. n./jun. dávamos uma passada em sua casa. boa noite Mestre Páscoa”.Aurélio Michiles Hanneman. Hanneman. e o Hanneman. Sem nenhum comentário. os seus comentários eram oblíqüos. Foi como um arco-íris que surge depois da chuva. jan. cruzávamos com sua mãe. que já havia chegado. no final da tarde. foi muito mais. como o chamávamos. sob a luz trêmula dos candeeiros. O encanto deste encanto encantou o garoto que ousou brilhar com suas próprias mãos e resolveu pintar diferente essa atmosfera. Foi como se tivéssemos encontrado uma trilha. revelou-se um menino prodígio. ele foi uma espécie de pai espiritual para todos nós. semelhante às pinturas de Caravaggio12. movimentávamo-nos pelos cubículos. um sábio. sempre silenciosa. por exemplo. se encontrava de pé. ele mexia em algum armário. Houve uma ocasião inesquecível e fundamental para sentirmos como valia a pena visitar o Mestre Páscoa. mas para o Hanneman. numa miscelânea de harmonias e colagens apontando para outras possibilidades. ano 5. onde passávamos grande parte da noite conversando. Ele era um artista. morava na rua Isabel. Diante do nosso deslumbramento. sugerindo a possibilidade concreta em se ver aquilo que as notas emitiam. aos treze anos. de Mussorgsky. Ensimesmado e zombeteiro. após um temporal. Ensimesmado com uma insinuação de sorriso nos lábios. nos acanhados dormitórios no alto do “Bar do Quintino”. uns e outros meninos. seus irmãos. Naquela noite. A impressão era que ele fosse um intruso. Durante nossa permanência. segurava a capa do long-play. Uma música com sonoridade variada. Nos desafiava a tomar atitudes. Aquelas pessoas eram personagens inspirados nas obras de Caravaggio ou vice-versa? Não lembro de Somanlu. mas a sua produção pessoal está nas suas esculturas e xilogravuras. quando as retratava em rascunhos. Não havia sexo. acompanhá-lo nas suas visitas às prostitutas (suas vizinhas) da rua Frei José dos Inocentes. 1.

sexo. estava colocada para destacar determinados personagens. o retrocesso e um recalcado provincianismo que se mesclaram aos “anos de chumbo”. Como Hanneman. o artista Caravaggio violentou os princípios do decoro da sua época. Ele se tornou um maldito e. ano 5. a cidade é assim: a iluminação pública parecia de ribalta. contaminando os cantos e as esquinas da paisagem urbana. ilusionistas.ª classe do navio Lobo D’Almada que muitos deles escapuliram. traficantes de drogas e escravos(as). Neste jogo. rufiões. talvez numa encruzilhada. vieram as trevas. foi na 3. A meio caminho de Brasília. Com certeza. ir além. ao tomar como modelos pessoas comuns para retratar as figuras sagradas. ladrões. prostitutas. encontrava-se num impasse. sacerdotes. Mas tudo isso estava com data marcada para terminar. Manaus noturna não é muito diferente do interior da casa-porão do Hanneman. No final dos anos 60. fugitivos da lei e de si mesmos. O seu “Cristo” se veste com indumentárias populares. para não cair morto. como faziam os jovens do mundo inteiro naquela época. n. no entanto. ou talvez o mundo fosse pequeno e estivesse dentro dele mesmo. Queria mais. caçadores de aventuras baratas. atravessadores. e o seu rosto não tem as referências e os traços da elite. A elite. dedos-duros. contrabandistas. místicos e profetas. mochileiros. cansada do isolamento. os personagens desaguavam em várias frentes e interesses. rock e desilusões. Logo a boçalidade da grana vinda com a Zona Franca de Manaus surgiria como uma névoa maléfica. E. mais parecendo uma pintura expressionista com o Cubismo. as suas vidas se cruzavam metaforicamente. 1. turistas estrangeiros. onde Caravaggio busca a ambigüidade da gênese humana. Apesar de em Manaus não haver estradas para se viajar de carona e fugir.E tu me amas? termos comentado a respeito desse pintor do final do século XVI e. que poderia ser uma prostituta. fez dele um alvo fácil para aqueles que têm como objetivo a intolerância. logo viu nesse evento a fórmula mais rápida para sair do esquecimento e da decadência. Em seguida. mata e vai para a cadeia. 2005 . um assassino ou uma mulher. Ali está o olhar de um homem que pode ser um ladrão./jun. jan. tudo isso acontecia logo depois do nosso Estado viver uma espécie de renascença cultural. como ironia. sob o governo do professor Arthur Cézar Ferreira Reis13. assim como a maioria da população amazonense. Hanneman desembarcou em Belém sob drogas. se 14 Somanlu. sobrevoar a floresta e conquistar o mundo. Num cruzamento de redes. sem respeito e sem cerimônia. atravessar o rio.

seja marginal”. que afirma ter ele sido vítima de agressões físicas. era negro. Não é coincidência que. iria se identificar com a pintura de Francesco Clemente14 e. que inventou o “tropicalismo”. sem saber. como havia medo e censura. não a paisagem do “realismo socialista”. escamoteando a verdadeira história. ano 5. falar da miséria e da pobreza era subversivo. como um trânsfuga. bateu boca. ele passou a ser relacionado às drogas e à agonia de uma Amazônia que dava adeus aos seus ritos tradicionais. num surto. tornou-se um homicida e depois se suicidou. trocou agressões físicas e. Na zona das sombras e da maldição. Tudo faz sentido. Tanto um como outro foram estigmatizados como “loucos e suicidas”. reinvenções e negações. Como artista. ele destruiu um aparelho de televisão. Somanlu. n. matar o tio (?). jan. não houve questionamento. emblemática para a década de 60: “Seja herói. 1. mais uma vez. aquela que tenta enfiar goela abaixo a mitomania. Na interpretação de qualquer coisa tinha que haver um subtexto político e ideológico. que não era o caso do Brasil. Falar da pobreza era ser comunista. obliqüamente. a arte que eles defendiam não era a mesma arte que a geração do Hanneman buscava. Dava cadeia. personagens fabulosos da mesma tragédia. Como seu ato foi espetacularmente trágico. É muito provável que ele tenha sido vítima desta lógica. Mas isso era para os países que viviam numa democracia. antecipava a sua tragédia e a mesma de Basquiat15. Hanneman Bacellar. Mas existe outra baseada no laudo médico. transgressões. assunto restrito à literatura. ao cinema e às ciências sociais. com afundamento do crânio. 2005 15 . Hanneman Bacellar é um personagem desse tempo. Mas Hanneman não era comunista no sentido partidário. Em Belém./jun. Esta foi a versão oficial e que saiu na primeira página dos jornais. ele quis retratar o que via e vivia de um outro jeito. afinal de contas.Aurélio Michiles encontrava totalmente identificado com a contracultura – o underground que. seguido de parada cardíaca. Os comunistas de carteirinha eram conservadores. onde. Estávamos no início dos anos 70. uma época de contestações. essa “máquina de fazer doidos” que fez com que toda a sociedade brasileira se tornasse refém da propaganda em massa do “regime militar”. Aí. Hanneman se desentendeu com o tio. O artista Hélio Oiticica17. como Eduardo 16 Ribeiro . A ditadura havia decidido eliminar fisicamente seus opositores. inclusive. A truculência e o escárnio aos direitos civis do cidadão eram a única verdade. criou uma obra de arte que trazia a provocadora frase. ele conhecia muito bem. quando se encontrava prisioneiro. A partir daí. mas o sentimento convulsionado do seu tempo. cometeu um crime. depois de ferir a avó.

“exótico” ou qualquer outra legenda editada nas academias – como “um autêntico herdeiro da arte regional”.E tu me amas? algo paralelo às metáforas de Jimi Hendrix e aoThe Who. Hanneman. o mesmo desejo dos artistas plásticos querendo extrapolar os limites da tela e propor uma outra monumentalidade relacionada à tridimensionalidade da criação. Ele não tinha consciência de tudo isso. o clássico e o moderno. ele foi mais realista e brutalmente assustador. artnouveau. de Deus e do diabo. ao pregar o anti-realismo. no final dos anos 60) e exibir uma outra inquietação. num verdadeiro encontro das águas. por mais paradoxal que tudo isso possa parecer. maldito. 16 Somanlu. ano 5. ele vai de encontro a uma mesma sintonia do movimento dos rios. Ele foi além da espantosa expressão pictórica de um Francis Bacon19. ao sugerir “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”. 1. Com certeza. mas éramos parte do painel cubista. surrealista. Ao rasgar e queimar seus desenhos. desde os porões onde nasceu e viveu. O Hanneman “black is beautiful” disse “não ao não” ao papel de “pitoresco”. Estávamos atravessando a linha que dividia o mundo entre cultura erudita e popular. e as conseqüências ninguém entendeu. como se fosse possível afirmar que Hanneman deixou de existir como pessoa para forjar a existência desses dois artistas. quando destruíam guitarras. resolveu expor toda a dor das suas inquietações. à promíscua onda da cultura pop-art. O cinema. Literalmente. Mas tudo isso é apenas um fotograma da metáfora que nós estávamos vivendo intensamente. volúvel. relacionado a sua história de vida pessoal. Não sabíamos. jan. tudo misturado ao lixo puro. onde pudessem exibi-lo como um troféu de uma suposta “democracia racial”. dadá. o artista Hanneman se encontrava num movimento que acabou sendo interrompido por sua própria pressa. quer dizer. queria que ele ficasse prisioneiro na roupagem de artista oficial. o teatro. do Ocidente e do Oriente. Mas a sociedade que permitiu a sua ascensão. Hanneman preferiu virar as costas (como Milles Davis18 fez num show do Teatro Municipal–RJ./jun. n. consumista e mistificador dos comerciais de propaganda. Algo como a “não-arte”. psicodélico. Hanneman causou uma ruptura social ao aceitável. Aquele outro Hanneman celebrado está mais perto da artista Rita Loureiro. prefigura a força poética e provocadora do artista Roberto Evangelista. do capitalismo e do comunismo. A nossa certeza é que ele teve a coragem de renegar aquele espaço permitido e conquistado. as “instalações” como um gesto criador capaz de incorporar o cotidiano mais desprezível. Mas. Ao utilizar as suas mãos de artista para matar. Neste sentido. 2005 . baixos e baterias durante as suas performances musicais. Esse gesto doeu.

o engenheiro e repórter Euclides da Cunha (1866-1909).Aurélio Michiles ele quis zerar tanto a arte como a vida que. Carlito Michiles. tive a certeza da presença do artista Hanneman Bacellar e da sua obra “Cafuné”. naquele momento. num texto metafórico e profano (ele morreu no carnaval). aos 23 anos. ele quis dizer: “Eu amo. recusara o chamado da menina mimada na poesia que numa certa época ele gostava de recitar: “Ó Fulô! Ó Fulô! (Era fala da Sinhá) Vai forrar a minha cama pentear os meus cabelos. quando no início do século XX declarou: “Viva a vida. 2005 17 .500 exemplares. abaixo a arte!”. Ele se foi acompanhado por Janis Joplin (1943-1970). e compreendi que ele. chegou ao terceiro número.. Jimi Hendrix (19421970). com uma tiragem de 1. Ilton Oliveira. Em fevereiro de 1971. Hanneman Bacellar. Plínio Jr. um e outro. ao fundo. Fulô! Essa negra Fulô!” [. Jim Morrison (1943-1971). “Tu me amas?”. 3 Em 1897. Trinta anos depois da sua morte. Narciso Lobo. Claudia Silva.. Hanneman sabia que a vida se escreve por linhas tortas e.] “Vem me catar cafuné” [. ajudar a tirar a minha roupa. Milton Hatoum.... França Moss. Eles amam”. todos eles. ocorreu-me lembrar do Hanneman. Torquato Neto (19441972). n. Enéas Valle. Obliqüamente. jovens para sempre. ano 5.]23. Notas O bando: Aurélio Michiles. um senhor de cabelos grisalhos tocar num sax os acordes de “The Celebration of the Lizard”22. jovens. muitas vezes. Mas que poderia perfeitamente estar reproduzindo Maiakovski20. O seu gesto tem tudo a ver com a expressão utilizada na época: “Já era!”. para ele./jun. antenados e destemidos. 1. escreveu uma série de reportagens sobre o conflito entre as forças governa1 Somanlu. era a mesma e única coisa. jan. 2 “O Elemento 106”. Regina Farias. ao visitar Canudos. Keith Moon (1947-1978). ao visitar o túmulo de Jim Morrison21. à sua maneira. Quando escutei.

33”. 7 John Cage (1912-1992). 11 “Quadros de uma Exposição” (1874). irritando uma parte da platéia. disse o escritor Umberto Eco. considerado o pai do LSD. de Thimothy Leary./jun. liderados pelo beato Antonio Conselheiro. 1. 8 Revolver. jan. mas. 6 “Vento”.E tu me amas? mentais contra um grupo de fanáticos religiosos. até mesmo ácida da natureza humana. o Velho (1525-1569). Cage é um músico poeta. artista nascido nos arredores de Milão. que é o título de um dos muitos livros que escreveu e publicou. de Dorival Caymmi. que. 13 Arthur Cézar Ferreira Reis (1906-1993). Apesar da situação institucional irregular. após o golpe militar de 1964 foi o interventor no Estado do Amazonas (1964-1967). o Amazonas vivenciou uma espécie de renascença cultural. Korsakov. 9 Hieronymus Bosch (1450-1516). “Silêncio também é música”. Essa reportagem resultou no livro Os Sertões. Este pintor tem como influência a obra de Hieronymus Bosch. 2005 . Balakiev e Cui). 18 Somanlu. nascido nos Países Baixos (Holanda e Bélgica). algo semelhante ao que conhecemos como surrealismo. de Edu Lobo e Capinan. o qual profetizava “que o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”. A composição de luz nas suas obras faz surgir uma outra denominação ao realismo. ao contrário deste. sob o seu governo. de Modest Mussorgsky (1839-1881). lançado em agosto de 1966. comentou. nascido na cidade de Hertogenbosch. na Holanda. 5 “Cirandeiro”. compôs “4. suas pinturas transmitem uma idéia irônica. 10 Pieter Bruegel. sob o mais absoluto silêncio. 4 A novela “A Metamorfose” foi publicada em 1912. pelo escritor checo Franz Kafka (1883-1924). Algumas das composições foram influenciadas pela leitura do livro The Psychodelic Experience. 12 Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610). n. subverteu aos estilos contemporâneos a sua geração (maneirismo e o renascimento pleno). disco dos The Beatles. ano 5. uma viagem pelo inconsciente da humanidade. dá seqüência às experiências sonoras do grupo. sua pintura é marcadamente relacionada ao mundo dos sonhos misturado aos pesadelos. Rimsky. que integrou o “grupo dos cinco” (Borodini. Inclusive programou uma aguda polêmica: “Amazônia e a Cobiça Internacional”. Em 1952. Nasce o “naturalismo”. “a figura mais paradoxal de toda a música contemporânea”.

Molière. Valendo-se desta situação. Uma frase do manifesto “Bofetada no Gosto Público”. Yves Montand. “Sem Título”. Ribeiro (1863-1900). 1983. em Paris. empreendeu um dos governos mais dinâmicos em toda história da região. Illinois.1986). 20 V. e que deflagra o movimento futurista russo. Com Wayne Shorter. É o mesmo título do livro publicado em 1928. The Doors. Morreu precocemente. Chopin. Edith Piaf. Marcel Proust. Maiakovsky (1893-1930). Faleceu aos 37 anos. Jean Michel Basquiat (1960-1986). numa época de prosperidade trazida pela economia da borracha. de 1969. tanto na vida pessoal como no seu trabalho” (H. ele rompeu definitivamente com a estética jazzística dos anos 50 e 60. Integrante do movimento “graffiti” e que alcançou notoriedade prodigiosa ao lado de artistas como Andy Warhol (1928-1987). nascido em Alton. nascido em Nova York.. 14 15 Somanlu.] 23 “Essa negra fulô”. rabid foaming / A beast caged in the heart of a city / The body of his mother / Rolling in the summer ground / He fled the town”. 16 Eduardo G. Mas ao lançar o álbum “Bitches Brew”. Foi governador do Amazonas entre 1892-1896. The Celebration of the Lizard: “Lions in the street and roaming / Dogs in heat. 22 Música que faz parte do álbum duplo “Absolutely Live”. n. do poeta alagoano Jorge de Lima (1895-1953). In: História da Arte. artista irlandês influenciado pelas obras de Velásquez e “que gosta de riscos. Artista negro norte-americano. [.Aurélio Michiles Francesco Clemente (1952).. 19 Francis Bacon (1909-1992). Herbie Hancock. ano 5. Tony Williams e Ron Carter. 17 Hélio Oiticica (1937-1980) foi e é um dos artistas mais radicais da neovanguarda brasileira. vítima de overdose de heroína. W. 1./jun. jan. em 1912. 2005 19 . 18 Miles Davis (1926-1991). formaram um dos mais excitantes e criativos grupos de jazz moderno. Janson. em circunstâncias até hoje não esclarecidas. de Mortalha Branca. 21 Cemitério do Pére Lachaise. Mas é o túmulo do ídolo da música pop Jim Morrison (1943-1971) que atrai milhares de pessoas vindas de todos os continentes a visitar esse lugar. Sarah Bernhardt. gravado ao vivo em 1970. desde criança se interessou em tocar trompete. onde estão sepultadas celebridades como Oscar Wilde.

20 Somanlu. n./jun. jan. 2005 . 1. ano 5.

archivistic support. Milton Hatoum.A narrativa poética em Dois irmãos – lugar de intercâmbio entre suportes arquivísticos Allison Leão* Resumo Breve reflexão sobre o entrecruzamento de suportes arquivísticos no romance Dois irmãos. From this intersection there seems to appear a poetical narrative that causes a change in the writing from itself. Keywords: poetical narrative. 2005 21 . Milton Hatoum. by Milton Hatoum. Doutorado em Literatura Comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais. suportes arquivísticos. * Mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia – ICHL/UFAM. bolsista pela Fapeam. Palavras-chave: narrativa poética. ano 5. jan. de Milton Hatoum. n./jun. Desse intercâmbio parece resultar uma narrativa poética que provoca uma mudança da escrita operada a partir da própria escrita. 1. Abstract Brief consideration about the intersection of the archivistic support in the novel Dois irmãos. Somanlu.

E mais que isso: a tristeza ou a alegria que nos causaram. pela imprecisão. Em que ponto pode haver uma subversão ou mesmo uma ultrapassagem da escrita operada a partir dela mesma? Ou seja. Em termos conceituais. numa perspectiva ainda mais sutil. Nora busca estabelecer uma distinção completa entre história e memória. jan. Em resumo. o suporte pode indicar para que lado tende a “memória”: se para a espontaneidade da “verdadeira” memória – através da oralidade. encontrada em sua pura forma nas sociedades arcaicas. Tomemos esta imagem: uma carta ou mesmo um bilhete escritos há muitos anos provavelmente repousam no fundo de alguma gaveta. Andreas Huyssen. Há. Isto é. se ligaria mais ao inapreensível da oralidade. o faz sempre com o olhar positivamente voltado para sociedades arcaicas. E aquela. leva o sentido de contato ao limite. por uma certa exteriorização. 1. por exemplo. propõe-se pensar os “lugares de memória” nas sociedades contemporâneas. típica das sociedades modernas. o cheiro da tinta e do papel. rodeada de outros suportes. n. pode-se contrariar a própria escrita? Quando Pierre Nora (1997).A narrativa poética em Dois irmãos . as diferenças se estabeleceriam especialmente. recordá-los seria lembrar a cor que as palavras tinham ou passaram a ter na memória. entretanto. especialmente documentais. suportes da historiografia. por exemplo./jun. aquele contato com a escrita. 2005 .. pela dinâmica e pelo caráter do inacabado em contraposição à fixidez. formas menos maniqueístas de se pensar a natureza de um suporte e sua relação com seu conteúdo. E recordar a escrita já não é mais tão-somente recordar a escrita. E. como. A escrita. às quais ele credita o uso de uma autêntica memória em contraposição à artificialidade dos chamados lugares de memória atuais. Recordá-los significaria acessar novamente seu conteúdo. a frustração ou o entusiasmo. enfim. nalgum longínquo arquivo pessoal. a textura. a palpitação ou o alívio. a luz daquele dia em que se leram e releram as palavras. No que se refere aos suportes. para Nora. escrevendo. talvez algum som. enquanto a história trabalharia com suportes de ordem material e institucional. ano 5. pela fluidez. pelos museus. a memória estaria longe de uma materialidade.. uma determinada informação. ao analisar a situação do museu num cenário pós-moderno de forte presença do pop e da cultura de massa – que faz do museu “um lugar de uma mise-en-scène espetacular e de 22 Somanlu. por exemplo – ou se para o engessamento de uma memória artificial – marcada pelos códigos historiográficos. à rigidez e à objetividade historiográfica. Esta. do lado da memória.

n. a princípio. a partir de uma cotidianização do que é museico. Nela. Mas não nos apressemos. ano 5. Mas a contradição se instalará à medida que nos lembremos daquela carta a que me referi no início deste artigo. que da concepção moderna para a pós-moderna de museu uma das diferenças fundamentais é que esta. indiscutível e autêntico pode nos fazer perceber como disso deriva uma marca da escrita – pelo menos grande parte dela – nas sociedades ditas ocidentais: a escrita seria. apesar de todas as ressalvas que aqui podem ser feitas. fica evidente como os suportes não existem sozinhos. pôde gerar algo como uma mediação entre o externo e o interno.Allison Leão exuberância operística” (1997. mas de perceber como essa materialidade pode ser ferramenta do juízo. 2005 23 . pelo seu caráter eminentemente artístico. Permanece a questão: como subverter a escrita de dentro dela? Proponho pensarmos a escrita como um suporte arquivístico. um desses suportes calcados na objetividade. se poderia pensar que a literatura se salva dessas pretensões. p. pois creio que ali estão tanto a escolha de uma Somanlu. De início. lembremo-nos ao menos da vontade de objetividade do Naturalismo. como acessar um significa acionar uma rede de suportes e os significados que disso possam derivar. jamais plenamente cumprida./jun. 1. com uma certa aura de autenticidade. A princípio. Lembrando de Platão no Fedro. entre poética e política. do escritor amazonense Milton Hatoum. no mínimo. Não se trata de glorificar um requerido grau mnemônico em todo objeto. jan. Nosso recorte é constituído pelo romance Dois irmãos (2000). sempre a espreitar. típica do museu e criticada por Nora. ganha aqui forças de dialogização. podemos vê-la como um tipo de suporte com tendência a fixar arquivos. Lembremos também da armadilha biográfica. A oposição que se percebe aqui é entre subjetividade e objetividade. no entanto. uma memória que aí também seria aurática. um enfraquecimento desta. A exteriorização da memória. objetivo. 223) –. os relatos sobre as pessoas “de verdade”. claro. Bezerra de Menezes (1999) chama de conservadora toda a crítica que deriva da tradição platônica que vê um irremediável divórcio entre técnica e conteúdo. exatamente como elas foram. Um balanço feito por Jacques Le Goff (2003) a respeito do valor dado ao documento como verdadeiro. quando o filósofo grego desqualifica qualquer suporte externo da memória. ao mesmo tempo uma reflexão e uma refração da memória. e para a qual a externalidade da memória já seria em si uma contradição ou. Ulpiano T. mostra.

o que não está dito no dito e o espaço. vindas de narradores indiretos. Mas uma narrativa poética. ou seja. em Dois irmãos. p. Pensemos inicialmente a imprecisão. a casa e o corpo –. ao acessar arquivos imprecisos – arquivos orais. do fazer.A narrativa poética em Dois irmãos . passa a ser a principal fonte de invenção para o narrador. O silêncio. sobre esta e outras questões./jun. a natureza. na superfície a brecha do sentido.. em termos nietzscheanos. chama-o a buscar diversas fontes de arquivo. é a narrativa que escreve contra a escrita. Nael recorre a narrativas indiretas. mas pode ser visto. como um espaço de intercâmbio: a princípio dos suportes. ele mesmo. n. compostas umas com as outras segundo relações múltiplas e mantidas ou não conforme regularidades específicas”. encontra na exterioridade. a coexistência conflituosa e transformadora dos enunciados presentes no arquivo. 1. sustentando-se no Foucault de Arqueologia do saber (rede de enunciados). narrativa poética quanto a de um narrador poético – tentarei explicar ambos os termos a seguir – que propiciam uma escrita da dispersão. o eu e o outro. O arquivo ficará. elencando uma série 24 Somanlu. como informa ainda Wander. Ou. O que importa nesta noção de arquivo é aquilo que Wander Melo Miranda (2003. ano 5. a partir de quando o narrador. assim. aciona diversos suportes distintos da escrita. arquivos espaciais como a cidade. Marcos Frederico Krüger Aleixo (2002) chamou atenção para isso. que não é dito. As principais características dessa narrativa poética seriam a imprecisão e o olhar e o ouvir como seus sentidos construtores. lhe dá licença para a invenção. enfim. se reconstituindo permanentemente. o que interessa aqui é a noção de arquivo como “sistema de discursos que encerra possibilidades enunciativas agrupadas em figuras distintas. Neste romance parece ocorrer um trabalho de (con)fusão de suportes efetuado pelo narrador. Ou.. jan. ou do que está se fazendo. da incerteza. se re-elaborando. A escrita. O silêncio. o jovem Nael. mas também lugar onde se entrecruzam os enunciados. 36) chama de “valor diferencial”. Poético vai aqui compreendido no sentido mesmo de poiésis. o narrador reconfigura a narrativa. O silêncio geral da casa. Nesse inventário – e aqui podemos brincar com a palavra: listar bens ou inventar –. entendido. Minha hipótese é de que. está diluída em narrativa. para escrever seu arquivo pessoal. 2005 . que a princípio chega a ser negativo porque nele está guardado o segredo da concepção de Nael – qual dos gêmeos seria seu pai: Omar? Yakub? –. a palavra e o silêncio. Ou seja. fazendo-a transcender o caráter de exterioridade.

traz retalhos. a fala voltava: membranas do passado rompidas por súbitas imagens (HATOUM. a narrativa escrita de Nael já se funda na incerteza. mas em vez de dar um exemplo de histórias contadas por ela. representantes de culturas cuja oralidade. em que Halim conta a Nael os primeiros dias depois de ter-se casado com Zana. Ainda que Nael não entenda o falar estrangeiro a ele. e Domingas. é uma fonte de narrativas orais para o narrador de Dois irmãos. Indo para uma visita no interior do Amazonas. alguma coisa nesse canto toca o narrador. Sobre o esquecimento. Domingas. 2005 25 . a mãe. 2000. acalentando Nael ou simplesmente cantando sozinha. p. destaco o seguinte trecho./jun. ano 5. dentre os quais destacam-se Halim. apressados. Importante destacar que esse canto às vezes é entoado em nheengatu (p. Assim. a fumaça cobria-lhe o rosto e a cabeça e o sumiço momentâneo de suas feições era acompanhado de um silêncio: o intervalo necessário para recuperar a perda de uma voz ou uma imagem. n. Aos poucos. Nael escreve: Ele abanava o tabaco de narguilé. Entretanto. de onde provém. índia que desde muito jovem prestava serviços na casa da família libanesa. o libanês avô de Nael. também. as histórias ancestrais transmitidas oralmente constituem traços marcantes. talvez fosse mais interessante lembrar os momentos em que ela canta.Allison Leão de narradores “afluentes” em Dois irmãos. existe a possibilidade de transformar isso em escrita. notaremos como o conteúdo aparente pouco importa. mas a dispersão da fumaça não traz certezas: traz “súbitas imagens”. Deles vem o contato com a narrativa oral. 55). Se ouvirmos o canto de Domingas junto aos gazais – dísticos que Halim utilizara na conquista amorosa de Zana e que o velho libanês às vezes repetia em árabe –. 1. O incerto transmutando o caráter da informação. E deles podemos destacar dois pontos fundamentais: o esquecimento e a dispersão da autoria. Num certo momento Halim pára a narrativa. pensaríamos. ambos ligados diretamente à idéia de imprecisão. mas dentro da Somanlu. 240). pois muito do que consta nesse inventário deve-se aos relatos de Halim e Domingas. a informação precisa de nada adianta. E a escrita nascendo fora do entendimento informacional. jan. essas passagens da vida devoradas pelo tempo. é desses retalhos que Nael constrói a rede de sua narrativa. Por detrás dessa fumaça da memória talvez estivesse um sentido original.

Porque. No entanto. Indo buscar esses arquivos orais. subversivamente alterada. E aqui em baixo. assumindo. roubando o arquivo alheio. A escrita documental./jun. Nael encontra uma certa solidariedade dos narradores indiretos. E é bom salientar: inventa. aqui. e a princípio é isso que interessa: contar e recontar. Daí eu ter chamado esse narrador de poético. e sabemos que esta última função tem na autoria uma forte marca de cerceamento da circulação do saber – como muito bem já observou Foucault (1987). dos sentidos é uma escrita alterada. nos dá a sensação de que está inacabado a cada instante. o apelo e a sedução do significante. Ao olhar e ouvir o outro. sustenta-se fundamentalmente pelas idéias de procedência – autêntica – e de autoria ou autorização para enunciar. escapa por entre os dedos. confundindo a fronteira entre os arquivos do eu e do outro. Eu gostava de ouvir essas histórias. além de a narrativa ir-se constituindo dinamicamente. sempre transitória. O que ele nos mostra de si é também o incerto. as narrativas subjacentes ganham outro sentido. gotas e vapor d’água. E constrói seu arquivo quase como se estivesse roubando histórias. jan. entretanto. que se pretende verdadeira. ano 5. Não cercam nem registram propriedade de suas histórias. 26 Somanlu. também ele. Ao entrar para os arquivos do narrador principal. Elaborar perdas. eles jogam seus relatos no ar. é o ouvido interessado. Diz Nael: “Eu não compreendia os versos quando ele falava em árabe. Mas o vigor narrativo torna isso convincente. de mãos espalmadas. Falam para ouvidos que os queiram ouvir. 2005 . Ressignificam seus traumas assim. a forma do recipiente em que esteja. a voz me chega aos ouvidos como sons da memória ardente” (p. 1. Nael colhe a evanescência da memória. 51). Ao falar. Nael. Memória líquida. o narrador. e vêm batendo nas pedras. Ao menos até que o próximo passo seja dado. E nas mãos.A narrativa poética em Dois irmãos . Das bocas de Halim e Domingas jorram as palavras como se viessem do alto de uma por sua vez muito alta cachoeira. Não assinam com caneta o que falam. Hoje. porque postas em nova rede de ressignificação. o jorro desfazendo-se em fios. Esse é um dos seus materiais. desvinculado do significado. com a noção de autoria dispersada pelo contato do olhar e do ouvir a possibilidade de trânsito entre os discursos e de mútua apropriação parece efetivar-se.. permitem que eles viajem. n. compreensão do ouvido. mas ainda assim me emocionava: os sons eram fortes e as palavras vibravam com a entonação da voz. sem forma fixa. Nael inventa a si mesmo. Notemos..

entre a perspectiva narrativa pós-moderna e a elaboração da crítica benjaminiana sobre a narrativa moderna – parece-me que aqui Milton Hatoum nos dá uma idéia do quanto sua geração pôde elaborar e transmutar a educação estética moderna que lhe foi prestada. mas o que ecoar aos nossos ouvidos. recupera metaforicamente sua distância. sua perspectiva de observador. com relação ao saber narrativo./jun. o narrador contemporâneo Nael encontra os narradores tradicionais. quando retorna ao pequeno quarto nos fundos do terreno. Portanto. porque enxerguei de fora aquele pequeno mundo. pois aqui o autêntico é uma construção que nasce da linguagem. que são os narradores de sua própria experiência. de fora e às vezes distante. É um narrador assim como Nael. Entra na casa. Outros observadores que somos – pobres em experiência tanto quanto o narrador –. O narrador de Benjamin é aquele que conta a experiência vivida. distancia-se pelo olhar. Sim. o alheio. 1. E sua procedência será o que ecoar disso. O projeto de narrativa de Nael se sustenta mais em ouvir e ver – em testemunhar –. 40). mas ainda o encontra em Domingas e Halim. Assim ele escreve: “muita coisa do que aconteceu eu mesmo vi. o que o aproxima muito do narrador contemporâneo. Isso redobra a fragmentação do conceito de autenticidade nessa escrita. advogado por Benjamin. “Ele não narra enquanto atuante”. para lembrar ainda Silviano. Dois irmãos promove o encontro de duas formas de narrar: aquela baseada no narrador benjaminiano e uma outra percebida por Silviano Santiago. elementos para sua composição narrativa – apesar de todas as diferenças entre este tipo de narrador e o tradicional. guardiães do saber – no sentido do que foi vivido. Nael não é esse narrador. quando escreve. passa a ser secundário no romance. como disse há pouco. n. 39). sobre o qual se deteve Silviano Santiago (1989). Mas fui o observador desse jogo e presenciei muitas cartadas. Nael narra o outro. ano 5. conforme escreveria Silviano (p. trabalha na casa. A primeira. ou seja. 29). pós-moderno como ele. Creio que esse encontro abre duas possibilidades que se interligam. mas à noite. sua sabedoria está em “dar conselhos” que resultaram de todo um acúmulo dessa experiência (1986). corretamente apontadas por Silviano Santiago. como diria Silviano Santiago (p. jan. Mesmo assim. Lembremos que Nael mora nos limites do quintal da família libanesa. a partir de que a narrativa pós- Somanlu. que busca no suporte oral. até o lance final” (p. para ter perspectiva. de um descobrir sua procedência. Ele se distancia do que narra. o que parecia ser aventura de um desvendar-se. 2005 27 . de leitores. O olhar e o ouvir de Nael estão completamente voltados para o outro. E a segunda.Allison Leão Desta maneira.

Nael. a dispersão da autoria e. para além da crítica sobre uma incerteza do saber nos tempos atuais. E neste ponto o romance de Milton Hatoum é bastante profícuo. Tratava-se de um aglomerado de casas erguidas sobre toras que por alguns anos constituíram um verdadeiro bairro de Manaus e que por medidas 28 Somanlu. que o espaço a gente ouve com os olhos.. Quanto ao interior.. 210). entretanto. chamo atenção para o seguinte: parece que na análise de Marcos o espaço não se expõe como um espaço. Evidentemente. ou como Marcos transcreve do romance. o que está à frente de nossos olhos é o soterramento de formas de espacialização tomadas por subalternas. nos exemplos que ele destaca. Há pouco destaquei dessa lista Domingas e Halim. percorre o espaço com os olhos. ano 5. fundamentalmente espaciais e também incertos. espionava Omar./jun. faz-se ouvir por vozes. o saber da incerteza – e os suportes caros à pós-modernidade.A narrativa poética em Dois irmãos . passagem retransmitida. o tempo se faz notar sobremaneira pelo espaço. via Marcos Frederico (p. no que se refere à cidade. 209–211) relaciona ainda alguns elementos no romance de Hatoum que funcionariam como narradores subjacentes a Nael. certamente em diferença. Marcos Frederico cita a Amazônia e a cidade de Manaus como espaços que falam na narrativa. o tempo e o espaço. ele aqui faz uma distinção entre o interior e a capital. Marcos Frederico Krüger Aleixo (2002. E parece fazê-lo com o que fica do cruzamento entre a tradição oral – a imprecisão. Zanuri. n. pensemos no espaço como arquivo. em Dois irmãos. Ainda para o crítico. Até porque poderemos ver que. a observar uma certa cidade a se desfazer também. o que demanda mais tempo do que espaço. com força de coisa veraz” (2002. mas a eles juntam-se. que. 211). segundo Aleixo. moderna elabora seu saber. p. 1. pelo seu olhar. Porém. Comecemos pela cidade. subnarradores como Yakub – quando conta ao pai porque não falara com Omar. “vinham dos beiradões mais distantes e renasciam em Manaus. justamente porque. teríamos as histórias que vêm descendo o rio. por encomenda de Zana. 2005 . jan. Conforme a narrativa de Nael acompanha o esfacelamento das relações entre a família de libaneses. o espaço fala. “As vozes das pessoas que contavam histórias logo ao amanhecer”. Creio. A chegada da parafernália moderna altera uma série de quadros. tais como a Cidade Flutuante. Por questões de recorte. a Nael –. nas palavras de Nael. pelo menos. p. em seus passeios. que percorremos juntamente com Halim. somos levados. também o boca-a-boca é a fonte narrativa. Sem nenhuma sombra de saudosismo. que aqui cito também no boca-a-boca.

o discurso espacial. a casa parecia um abismo. temos Omar. indo para o Norte. nem tão à vista como desejara Zana: no porto. corresponde ao afugentamento de toda uma história espacial da cidade. vai gradativamente tornando-se marginal. Quando ela desceu. e do balcão ela viu a lona verde que cobria os móveis de sua intimidade. No romance. Somos observadores também do espaço da casa. nem tão longe da cidade como imaginara Halim. refugiado no último. ou o arquivo espacial que Nael acessa para compor sua narrativa. Aliás. tendo na pele. E com outra. Manaus terminava. ano 5. roto e pequeno espaço que lhe resta. Nas paredes nuas. 1. Foi naufragado. Dália. diga-se de passagem. a sala. muito mais próxima à estética de Yakub. cujas aventuras se dão diariamente com suas saídas de casa para uma outra marginalidade.Allison Leão públicas – estéticas. para ser correto novamente. antes e depois do casamento com Halim. até a transformação completa da casa após a venda para o comerci- Somanlu. Nada restou da cozinha nem da sala. sanitárias e de segurança – naufragou. local de passagem. em relação a Omar. a agonia de Halim. que uma de suas amantes. a princípio cheia e depois a esvaziar-se de suas comemorações e de todas as suas presenças – “Zana passou a chave na porta do quarto. onde. e viu todos os objetos de sua vida. Na perspectiva oposta à de Nael. boêmia por excelência. Era a última casinha da vila. n. fruto da bastardia. morava num subúrbio distante: “uma casa derruída da Vila Saturnino. E corresponde também a uma cidade comprimida entre o arcaico e o moderno. Mas estes têm um poder de negociação diferente do de Nael – depois retomarei essa questão. com o avanço da sociedade tecno-burocrática. a Pau-Mulato. entre o fausto passadista e a promessa de glória num futuro próximo. para ser correto. as marcas de um presente aberto em chagas. Lembremos. já em sua velhice. 2005 29 . jan. entretanto forçada – se bem que a estética de vida que Omar escolhe para si./jun. seus móveis. a Mulher Prateada. Viu o altar e a santa de suas noites devotas. posta mais e mais em marginalidade. manchas claras assinalavam as coisas ausentes” (p. entretanto. situada num pequeno descampado cheio de carcaças de carroça e aros de bicicleta enferrujados” (p. ele escondera-se num limiar. 105). Somos levados a olhar a partir da perspectiva marginal de Nael. Um bairro que desapareceu. perdida numa Amazônia esquecida. nos altos da loja da família. 252) –. Desapareceram com o bairro. Caminhou pela sala vazia e pendurou a fotografia de Galib na parede marcada pela forma do altar. Marginais. é fundado nas relações de centro e margem. já são os migrantes.

A ruína das duas personagens espelha-se na ruína de suas casas. Chamo ainda atenção. 310). A aparência dos gêmeos. e Emilie. nota uma fusão de duas das mais fortes mulheres dos textos do escritor amazonense: Zana. confundindo-se no mesmo corpo. fixadas como fotografia (2002. Maria Zilda Ferreira Cury. mas também os seus opostos. E o desenho sóbrio da fachada. Mas é por seu olho e seu ouvido interessados que se costurará a narrativa. o narrador de Dois irmãos tem a peculiaridade de ser aquele que entra e sai da casa. sendo ele próprio” (p. ano 5. E em outro artigo. Interessa-lhe perceber as marcas que os corpos ganham e disso compreender algum sentido. p. O envelhecimento de Halim. no qual analisa Relato de um certo oriente. a resistência da beleza no rosto de Zana. jan. ele transita no espaço da casa como uma presença flutuante. ante Rochiram. de Dois irmãos. 1. 174). o mag30 Somanlu.A narrativa poética em Dois irmãos .. que era razoável. tornou-se uma máscara de horror.. em artigo sobre as personagens femininas na ficção de Milton Hatoum. paradoxalmente. quanto a esta impossibilidade de reconstrução. o motor principal da narrativa (2000. o refúgio e a proteção do seio materno. rebuscada. e a idéia que se faz de uma casa desfez-se em pouco tempo” (p./jun. no mesmo centro. Nael é da casa sem pertencer a casa. nesse discurso do espaço. sendo. mútuo-alimentando-se. Metáfora dos marginalizados da nação. a matriarca de Relato de um certo oriente. 135) –. 2005 . p. 255). para o corpo como um outro arquivo espacial acionado por Nael. primeiro romance do escritor amazonense: Ambas as personagens fundem-se aos sentidos mais comuns assumidos pela casa da infância: o feminino. Embora neste ponto haja uma aproximação dos dois romances. pesada nas suas tradições – metonimicamente diz da impossiblidade de reconstrução do eu narrador na escritura de memórias. n. ao mesmo tempo tão semelhantes e distintos – “na aparência podia ser o outro. Maria Zilda discorre sobre a significação da casa neste romance: A casa tem significação especial a definir inclusive o próprio relato: a impossibilidade de recuperar a moradia da infância – excessiva. ao menos até certo ponto. a pequena meia-lua na face de Yakub. “Os azulejos portugueses com a imagem da santa padroeira foram arrancados.

Tendo acessado diversos suportes arquivísticos para compor sua narrativa. é de decomposição e recomposição da escrita. no romance. se ficamos sabendo sobre seus efeitos. o ato de escrever. no entanto. arquivos cruzados. poemas apaixonados do jovem Halim para Zana. Nael talvez buscasse sua origem – o último lance do livro ainda é um encontro mínimo e ao mesmo tempo máximo com Omar. Nael não escreve para a verdade porque não acessa os arquivos como se fossem portadores da verdade. que o acompanhamos com os olhos. A observação do professor foi que a manchete dava uma medida do quanto a respeito dos arquivos pode-se ter uma idéia de origem pura e verdadeira. estamos repletos de imagens cruzadas. Trata-se de uma visão documental do documento. que vai envelhecendo e renovando-se por necessidade de que a narrativa prossiga. Eis o ponto onde os arquivos se entrecruzam. mas que. a escrita marginal e vigorosa do poeta e professor Antenor Laval. como se ali estivesse a verdade final sobre um fato ou uma pessoa. A escrita torna-se também ela um corpo. a invenção da e pela escrita foi o gesto principal da narrativa em Dois irmãos. o Somanlu. um de seus prováveis pais – mas. E usufruímos tanto do poder de um quanto do outro. nos chegam pela escrita. algumas indicações de como a escrita pode ser uma estética do inacabado ou uma estética da petrificação. soterrada pela violência do regime militar. 1. Seu trabalho narrativo. O trabalho do narrador Nael. n. na UFMG. recordando novamente Le Goff (2003). no entanto. foi de construção aberta da possibilidade de proveniências. Há. É claro que há a mediação da escrita de Nael. escritos pelo boêmio Abbas. já nos era possível perceber que. E a demanda temporal para o caminho do olhar sobre a escrita nos dá uma sensação espacial sobre o tempo. ano 5. exemplos da primeira estética. antes disso. É a escrita que o ajuda a matar um pai fantasma. portanto. muito além de encontrar uma suposta verdadeira origem. Chegamos a esse limite entre o olhar e a palavra. jan. o professor Reinaldo Marques comentou um artigo de jornal a respeito de arquivos inéditos do médico nazista Josef Mengele./jun. Os cálculos e projetos de Yakub. Os gazais. conforme observou Marcos Frederico. se o tempo narra. Mas há também espaços que só o olhar penetra. Num de nossos encontros nos seminários de literatura comparada a respeito dos arquivos literários.Allison Leão nífico e quase intocado corpo de Rânia. Nael chega a um ponto em que nós. Assim. São marcas em corpos que “falam” por si. 2005 31 . É quando percebemos como a escrita transubstanciou-se no decorrer da narrativa. é o espaço que nos informa sobre eles.

negociaram sua inserção na sociedade um bocado pelo comércio. do cânon. o corpo – e a tradição oral são seus materiais. como já vimos. O silêncio. Resulta a narrativa poética. ano 5. das letras. relatório que Zanuri fez para Zana. e sua matéria de negociação. A escrita que Nael empreenderá é de uma estética das sobras. 126-156). Perante nossos olhos. conforme igualmente observa Rama (p. como diria Ángel Rama (1985). é para escapar da amnésia que a cultura museológica intercambia-se contemporaneamente com a cultura de massas. comparando. vai nascendo aos poucos uma narrativa como arquivo misto. o espaço – a casa./jun. E o faz para escapar da amnésia. ganha de Halim: uma caneta. bem mais heterodoxas. Narrativa que nasce de negociação.. A própria narrativa vem das sobras que o tempo deixou na memória de Halim e de Domingas e das sobras no espaço. No contexto amazônico. recordando Andeas Huyssen (op. brasileiro e latino-americano. afirma ele – e da sua marginalidade retirar a possibilidade de troca. dado seu caráter de marginalidade – filho bastardo da casa –. Nael precisa achar sua forma de negociação – “me distanciei do mundo das mercadorias.. 1. nunca tinha sido” (p. Aliás. do documento.). Os libaneses. 2005 . também pela via escrita ou da cultura da escrita pôde-se dar uma medida de resistência. a cidade. Na busca pela sua procedência. que não era o meu. ao fazer dezoito anos. neste caso a escrita. cit. É assim que o 32 Somanlu. em detalhes inúteis e de intenções delatoras. Os livros de sua formação virão ora do que desprezara Omar – até seu uniforme de escola –. sobre Omar. Mas se foi todo um arsenal intelectual escrito que promoveu a imposição de certos códigos na história da América Latina.A narrativa poética em Dois irmãos . é interessante perceber a escrita como subvertedora da ordem de uma sociedade fundamentalmente escrita. Disso parece resultar nem mais a oralidade pura – ou as outras formas de arquivamento – nem mais a escrita rígida. n. Nael consegue perceber que. construir sua memória requer negociação entre os suportes tradicionais de arquivos. a incerteza. 262). Mas as trocas. Nael cruza formas conservadoras de arquivo com outras. ressignifica-as. enfim. representantes da segunda estética. como afirmei anteriormente. exatamente as formas subalternas de arquivamento. como outros migrantes. jan. foram bem maiores. Mas a narrativa de Nael utiliza todas. Um dos símbolos dessa resistência no romance de Milton Hatoum é o presente que Nael. intencionalmente ou não. ora do que lhe enviara Yakub.

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S. Keywords: comunication. sustentabilidade. n. 2005 35 . B. Palavras-chave: comunicação. allan_soljenitsin@yahoo.A importância dos fatores socioculturais no processo da comunicação Allan. O êxito nessa empreitada mundial depende da adoção de estratégias de comunicação que levem em consideração fatores socioculturais inerentes aos diferentes públicos-alvo do “discurso da sustentabilidade”. populações caboclo-ribeirinhas. S. Rodrigues* Grace. jan. * Bacharel em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo – e Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia – Universidade Federal do Amazonas (UFAM). The success in this worldwide enterprise depends on the adoption of appropriate communicative strategies which take into consideration sociolcultural peculiarities of each audience of this “sustainability discourse”. Abstract The dissemination of the discourse on the sustainable explotaition natural resource is a challenge for the government and non-governmental organizations (NGOs).com. riverine population. sustainability./jun. ano 5.br Somanlu.com. 1. Costa** Resumo A difusão do discurso pela exploração dos recursos naturais do planeta de forma sustentável apresenta-se como um desafio para governos e organizações não governamentais (ONG’s).br ** Bacharel em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo – Universidade Federal do Amazonas (UFAM). gracesoares@yahoo.

Quando a fonte seleciona o conteúdo. principalmente com o surgimento de inúmeras ONG’s dedicadas as mais variadas causas ecológicas. jan. com a realização da Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente (ECO-92) no Brasil. que compreende ainda a fonte (ou codificador). emerge o desafio enfrentado pelos governos e organizações não-governamentais (ONG’s) em todo o mundo em relação à difusão do discurso da necessidade de se adotar um sistema sustentável de exploração dos recursos naturais do planeta. não teria sentido uma mensagem ser formulada e transmitida se não houvesse um destinatário em condições de entendê-la e reagir ao seu conteúdo.. dando início a diversas frentes de defesa do meio ambiente. para a ocorrência da comunicação. Dessa premissa. A propagação desse “discurso da sustentabilidade” acontece tanto em direção a um público situado nos grandes centros urbanos quanto no sentido das comunidades caboclo-ribeirinhas1 residentes em áreas de relevante interesse econômico e ecológico. 2005 . de suas atitudes. sua disposição social no grupo em que estão inseridos e sua habilidade decodificadora para se comunicar se quiserem ser efetivos em seus objetivos: Quando a fonte escolhe um código para a mensagem. o canal (condutor das mensagens) e os ruídos (elementos diversos que podem prejudicar o entendimento da mensagem). Logo. as mensagens ecológicas ganharam força na mídia mundial. Afinal. O receptor-decodificador é o mais importante elemento de um processo básico de comunicação. como a Amazônia. seleciona um conteúdo que tenha significação para o receptor. parte desse tratamento é determinado pela sua análise das habilidades de comunicação (decodificação) do receptor. n. as estratégias comunicacionais elaboradas para atingir os receptores através dos veículos de comunicação de massa (TV´s. conhecimentos e posição no contexto sociocultural. No entanto./jun. a fim de refletir seu objeto. 1997. Internet e outros) chegaram de forma deficitá- 36 Somanlu. ano 5. é o receptor. 59). deve escolher um que seja conhecido do receptor. A partir de 1992.A impor tância dos fatores socioculturais. quando foi cunhado o conceito de desenvolvimento sustentável. A única justificação para a existência da fonte. o código (língua). o alvo ao qual tudo é destinado (BERLO. os esforços comunicacionais devem levar em consideração o nível de conhecimento dos receptores. sua cultura.. 1. p. Quanto trata a mensagem de alguma forma. Rádios.

no âmbito estadual. O objeto do projeto de pesquisa apresentado ao PPGSCA é instituir um modelo de desenvolvimento sustentável que possa ser adotado pelas RDS’s. N. às diversas restrições contidas na legislação ambiental sobre o uso dos recursos naturais. mais especificamente a de Mamirauá. Para fazer frente à tarefa de tentar conciliar a preservação do meio ambiente e a sustentabilidade das comunidades caboclo-ribeirinhas da Amazônia. Rodrigues/Grace. fornecer mais dados a respeito do projeto de pesquisa supracitado. Japurá e Auati-Paraná (à Somanlu. S. 2005 37 . Costa ria nos chamados “beiradões”. da pesca. localizada na confluência dos rios Solimões. Um deles é a criação de unidades de conservação de uso sustentável. Este quadro de desinformação pode ser creditado também a falhas nas estratégias (gestão) de comunicação dirigida a este público em particular. Antes de começar a citar alguns elementos que julgo importantes para a compreensão do contexto social destas comunidades caboclo-ribeirinhas da RDS Mamirauá. mas aprofundada no corpo da pesquisa) alguns elementos do contexto social em que estão inseridas as comunidades caboclo-ribeirinhas amazônidas. e as Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS). na maioria das vezes. e o que sabe está relacionado. a gênese do caráter multidisciplinar do projeto de pesquisa que apresentei ao Programa de Pós-graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia. o poder público tem empregado diversos esforços. Essas duas modalidades de reservas são áreas naturais protegidas que abrigam populações caboclo-ribeirinhas da várzea amazônica. onde residem pessoas com baixa escolaridade e que tiram o sustento da caça. pois produzem impactos diretos no seu modo de vida. neste ponto. cuja existência baseia-se em sistemas sustentáveis de exploração dos recursos naturais. C. S. ano 5. dos roçados e da atividade extrativa.). O caboclo da Amazônia pouco sabe hoje sobre esse “tal desenvolvimento sustentável”. 1.Allan. criado em 18 de julho de 2000. que devem ser considerados para o estabelecimento de um processo de comunicação efetivo em relação à difusão do discurso do desenvolvimento sustentável. jan. no âmbito federal. convém. U. para facilitar o entendimento do texto. como as Reservas Extrativistas (Resex). n. mais especificamente as residentes na RDS Mamirauá. previstas no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (S./jun. B. O objetivo desse artigo é evidenciar (de forma sucinta aqui. Reside. cujo título é “Gestão da Comunicação e Sustentabilidade: um estudo de caso sobre a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá”.

000 ha. 2005 . o objetivo da pesquisa é analisar o processo de comunicação estabelecido entre os gestores da RDS e as comunidades residentes de Mamirauá./jun. criada pelo Decreto estadual n. cabe averiguar como a comunicação contribuiu para a criação. na produção de conhecimentos relacionados a práticas de manejo como forma de obter sucesso em sua sustentabilidade.. o nível baixo de informação do público alvo. Levando-se em 38 Somanlu. Resumidamente. A escolha devese ao fato da RDS de Mamirauá. tornou-se vital o estabelecimento de um processo de comunicação entre o gestor da RDS. cujo objetivo foi internalizar nos moradores o discurso do desenvolvimento sustentável. Uma vez entendida a proposta da pesquisa. 1. Na medida em que Mamirauá apresenta-se para o público externo como modelo promissor no campo das unidades de conservação de uso sustentável. O estudo da gestão da comunicação em Mamirauá (estratégias.. que enfrenta obstáculos como as grandes distâncias entre o centro emissor das mensagens e as comunidades. para a criação de uma área de proteção para o primata Uacari branco (cacajao calvus calvus). os diferentes estágios de organização social das comunidades e fatores culturais. ter sido a primeira do gênero no país e já possuir uma trajetória de dezoito anos de existência se tomarmos como marco de sua implantação a solicitação encaminhada pelo biólogo José Márcio Ayres ao Governo do Estado do Amazonas. Também figura como fator importante na escolha da RDS de Mamirauá como objeto da pesquisa a sua proposta de preservação da natureza.124. ou seja. desenvolvimento e manutenção da reserva.A impor tância dos fatores socioculturais. métodos e instrumentos). o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM).836. pode apontar caminhos a serem aproveitados em outras unidades de conservação de uso sustentável ou até mesmo indicar pontos a serem corrigidos no sentido de corroborar para o melhor funcionamento da RDS Mamirauá. usuárias dos recursos naturais e no investimento. de 9 de março de 1990. n. e as diversas comunidades existentes dentro da Reserva.º 12. ano 5. convém trazer à tona alguns fatores importantes que devem ser considerados na elaboração de uma estratégia de comunicação visando atingir as comunidades caboclo-ribeirinhas. que contempla a permanência dos moradores na reserva e a melhoria das suas condições de vida. a necessidade deles manejarem os recursos naturais de forma a garantir tanto o seu sustento quanto a preservação do ecossistema local. a partir de pesquisas. em 1985. Mamirauá aposta na presença e na participação dessas populações residentes. jan. distância de 450 km de Manaus) e com uma área de 1. Para tal.

ano 5. é bem mais antigo. 2005 39 . um Estado-Nação de dimensões continentais localizado no hemisfério sul do Somanlu.. enquanto o conceito de região. a formação social daquela população e o perfil do homem da região (o caboclo). No entanto. 1996. S. historicamente recente. estes dois elementos (nação e região) são resultado de uma divisão criada pelos detentores do poder e pela prática social (decisões tecnocráticas e processos coletivos). principalmente os séculos XIX e XX. os canais que usam para esta ou aquela espécie de mensagem etc.] os sistemas social e cultural determinam em parte as escolhas de palavras que as pessoas usam. sem ser influenciada por sua posição no sistema sociocultural. Rodrigues/Grace. o mesmo acontecendo em relação ao receptor./jun. 57). Entre as informações básicas que julgo serem necessárias para tornar o processo de comunicação efetivo estão as características singulares daquela região frente ao contexto nacional (nação e região). O entendimento do sistema sociocultural da Amazônia começa pela compreensão da singularidade da região no contexto nacional. principalmente porque está em andamento um “processo de transformação profunda no planeta. aternos-emos aos conceitos já postos sobre nação e região. O termo “nação pertence a um período particular. os objetivos que têm para se comunicar. Japoneses e alemães podem codificar mensagens iguais para exprimir objetivos amplamente diversos. 103). o emissor de uma mensagem dirigida aos moradores de uma comunidade da Amazônia precisa conhecer basicamente o contexto social dos indivíduos que pretende atingir com seu discurso. p. S. o qual traz a hipótese de uma transformação dos conceitos de nação e região ainda não definida e imprevisível.. no Brasil e na Amazônia” (BECKER. p. encontramos o Brasil. como podem codificar mensagens totalmente diferentes para exprimir os mesmos objetivos (BERLO. 1997. as chances do discurso ser entendido aumentam consideravelmente. pois: [. que são sociedades locais variadas que constituem a dimensão territorializada do Estado-Nação.Allan. B. De posse destes dados. 1994). Costa conta que nenhuma fonte se comunica como livre agente. definido somente após a formação do Estado Territorial Moderno. 1. Um norte-americano não se comunica da mesma forma em que o faz um indonésio. n. Aplicando esses conceitos ao caso concreto da pesquisa. jan. SILVEIRA. Portanto. e se constitui como entidade social apenas quando relacionada à formação do Estado Nacional Moderno” (D’INÁCIO.

a planície amazônica já era ocupada por milhares de indígenas que se espalhavam por toda a sua extensão muito antes dos primeiros espanhóis e portugueses navegarem pelo rio Amazonas no século XVI./jun.. Isto a valoriza como capital-natureza. A ação dos atores e movimentos sociais que afetam e fragmentam a região amazônica. que se instalaram na Europa e nos Estados Unidos. o americano Charles Goodyear inventou o processo de vulcanização da borracha. assim. de uma valorização do ponto de vista geopolítico externo. o lugar de maior biodiversidade do mundo e. jan. durante o período das grandes navegações e da expansão dos dois impérios ibéricos. Outra forte corrente migratória para a região ocorreu no final do século XIX e nos primeiros anos do século XX. fonte primordial para a ciência e tecnologia. quando milhares de nordestinos vieram para a Amazônia atraídos pelo apogeu da economia da borracha. Com a chegada dos colonizadores. e a Amazônia. negro e o índio). viabilizando sua utilização em escala industrial. 1996. Anos depois. além da mestiçagem das três raças (branco. ano 5. deu-se início à ocupação conflituosa da região. no âmbito da geopolítica interna (D’INÁCIO. a utopia e a ideologia ecológica. n. citados acima por D’Inácio e Silveira.. Esse quadro fez da região amazônica a principal exporta- 40 Somanlu. envolvendo ao mesmo tempo a consciência. por ser o maior banco genético do planeta. com as invenções da bicicleta e do automóvel.] A Amazônia se tornou símbolo do desafio ecológico. criaram uma grande demanda de mercado para os produtos pneumáticos. portanto. para a biotecnologia. Em 1839. Ao mesmo tempo nossos atores e movimentos sociais afetam e fragmentam a região.A impor tância dos fatores socioculturais. que trouxeram consigo os negros escravos do continente africano para explorar a madeira e as chamadas drogas do sertão. uma região rica em recursos naturais e considerada crítica tanto no contexto geopolítico mundial quanto na estrutura transicional do Estado brasileiro: [. no desaparecimento de inúmeros povos indígenas e na perda da base cultural de boa parte dos sobreviventes. remetem a outro ponto importante para a melhor compreensão do sistema sociocultural da Amazônia: a sua ocupação e a conseqüente formação social de seus habitantes. 108). 2005 . SILVEIRA. Trata-se. milhares de indústrias de transformação. ou seja.. p. 1.. que resultou. Na verdade. continente americano.

a Guerra Mundial. Em pouco tempo. B. atingindo a marca de 1. onde as seringueiras foram adaptadas para uma cultura em larga escala. Estima-se que 20 mil Somanlu. o mercado foi dominado pelos ingleses. Foi neste contexto que.Allan. um inglês chamado Henry Wilckham deu início à derrocada da borracha. S. Rodrigues/Grace.o salário. A economia gomífera gerou um surto de desenvolvimento na região que. apesar das várias tentativas governamentais de evitar o colapso da economia gomífera. A rendição dos alemães em 1945 legou novamente o esquecimento aos seringais e aos soldados da borracha. devido à falência das firmas locais e à fuga das estrangeiras para países asiáticos. possessão inglesa na Ásia conhecida hoje como Sri Lanca. segundo o historiador Caio Prado Júnior (apud FIGUEIREDO. Costa dora mundial de borracha in natura. 2002). Os nordestinos voltaram a migrar em grande quantidade para a região durante a 2. Dez anos depois (1906). 2002. jogando a região em uma grande crise. denominados “soldados da borracha” (FIGUEIREDO. até hoje. 2005 41 . n. a Ásia tirou o monopólio da borracha da Amazônia. levou os Estados Unidos a firmarem um acordo com o governo brasileiro para reabrir os seringais abandonados da Amazônia. Wilckham coletou sessenta mil sementes de seringueiras e levou-as clandestinamente para o jardim de Kew. 1. na Inglaterra. aproximadamente 500 mil pessoas deixaram seus Estados em busca do “dinheiro fácil” da borracha. S. Sete mil sementes brotaram nos viveiros ingleses e foram transplantadas para o Ceilão. durou pouco. sem direito a 13. 79). que recebem. e nunca receberam o status de veteranos de guerra. tempo necessário para as árvores começarem a produzir. apenas dois salários mínimos de aposentadoria.395 toneladas em 1851. destaca-se o alargamento da miséria. Japão e Itália) interrompeu as rotas marítimas da borracha vinda da Ásia. quando o Eixo (formado pela Alemanha. cometendo o ato de biopirataria mais nocivo à região que se tem registro. dos quais 350 mil eram nordestinos. que se embrenharam na selva úmida com a promessa de serem recompensados financeiramente pelo governo e de receberem o mesmo reconhecimento dado aos combatentes (pracinhas) que lutaram no front de batalha. desencadeando a necessidade cada vez maior de mão-de-obra para extrair o látex das seringueiras. Em 1876./jun. A extração do látex ficou a cargo de cerca de 53 mil nordestinos. Entre as principais conseqüências. A necessidade de obter a matéria-prima para fabricar os pneus para seus veículos de guerra. ano 5. jan. p. todavia. gerando uma massa de desempregados nas cidades e o fechamento dos seringais no interior (grande parte nordestinos).

mas que não pertencem só a ela e sim a toda sociedade nacional” (BECKER.. A abertura de estradas facilitou a chegada de novas frentes migratórias vindas de outros Estados da federação. entre outras causas. o segundo foi a criação da Zona Franca de Manaus (ZFM). É nesse contexto 42 Somanlu. no Acre. de suas comunidades tradicionais. Durante os governos militares. conseqüentemente. uma massa de interioranos fugidos do isolamento e em busca de melhores condições de vida.A impor tância dos fatores socioculturais. Sudeste e Centro-oeste do país e os Estados amazônicos. p. a Porto Velho. seria necessário um trabalho investigativo específico apenas para citá-los e analisar seus impactos. ataques de animais selvagens. soldados da borracha tenham morrido nos seringais de doenças tropicais. mudou radicalmente a economia do Amazonas e trouxe para a capital. BR-010 (Belém/Brasília) e a BR-380 (Transamazônica). Cito apenas alguns com o objetivo de melhor ilustrar que: Os conflitos que ocorrem na Amazônia decorrem das contradições intrínsecas à inserção do Brasil no sistema capitalista mundial e à reorganização acelerada da sociedade brasileira. A ZFM. se constituem a partir de diferenças que apresentam em relação a outras e do papel diferenciado que exercem no conjunto da sociedade e do espaço nacional. 7). Cabe assim reiterar o conteúdo exótico com o qual são revestidos seus problemas. Essas duas iniciativas governamentais de “desenvolver” a região têm em comum o fato de terem implicado em mudanças profundas referentes à ocupação do espaço e ao modo de vida dos habitantes da Amazônia. 2005 . ano 5. 1994. Manaus. Muitos outros fatores influenciaram a formação do atual sistema sociocultural da Amazônia e. a região foi afetada pelos chamados “grandes projetos” para a Amazônia.. Daí surgiram rodovias como a BR-364 (que liga Rio Branco. que resultou no surgimento de um pólo industrial avançado em plena floresta. e tratava-se de abrir estradas de ligação entre o Sul. 1. tratados como mitos. jan. em Rondônia). Dessa forma. por sua vez. fica claro que: As regiões não são entidades autônomas. dois destes projetos merecem especial deferência: o primeiro veio com o slogan “Integrar para não entregar”. bem como impulsionou a extração de madeira e a supressão da floresta para dar lugar a pastos e plantações. n. Pelo contrário. Nas décadas seguintes. porém./jun.

meio ausentes. cujo perfil foi grandemente influenciado pelos fatores citados anteriormente referentes à ocupação da região. afeiçoados à terra. Senhores. 1997. São um produto típico das forças telúricas. como ninguém. Então toda aquela capa de docilidade desaparece violentamente (REIS. p. preferem retirar-se. S. 1997. A floresta e as águas não lhes oferecem segredos. se exasperam. p. cito a seguir mais algumas características descritas pelo autor sobre o homem da região amazônica: Plantam a mandioca. pimenteiras e pouco mais. 1. Ainda buscando na obra de Arthur Cézar Ferreira Reis subsídios para ilustrar de forma mais eficiente o caboclo. de quanto o meio possui de característico ou não. pescadores e sertanistas. paranás e pequenos sítios: Os caboclos amazônicos. trabalham a matéria-prima local com uma técnica admirável. a caça. Para Reis (1997). Costa que se pode entender a Amazônia. Remadores. é possível tentar entender um pouco sobre o homem da região. 232). com seus hábitos e particularidades. abstratos. com os pescados. n. bananeiras. Somanlu. Artesãos magníficos. De posse de informações a respeito da formação do sistema sociocultural da região. contentase com o pouco que obtém (REIS. Toda a flora e a fauna. Frugalíssimo. por isso. S. ou se sentem vítimas de exploração ou desprezo. Rodrigues/Grace. B. os lagos e a floresta. Manifestam aptidão invulgar para os ofícios mecânicos. os frutos. Sabem percorrê-las e sulcá-las sem hesitações ou receios. aos gestos de exaltação.. Dóceis.Allan. A alimentação é a que lhe fornecem os rios. com que preparam farinhas. Quando se aborrecem. vivem placidamente sem revelar ambições. quando na realidade o que lhes dá pinta exata é a desambição. permitem a impressão de indiferentes. rompendo com alguns mitos que a envolvem (BECKER. índios que deixaram a vida tribal e se estabeleceram ao longo dos rios. a grande maioria dos caboclos amazônicos descende dos “tapuios”. falam com brandura e escassamente. 1994. Só muito raramente. Vagarosos. igarapés. que comem ou de que fazem bebidas. aparentando displicência. 2005 43 . lagos. construtores de embarcações. p. ano 5. preguiçosos. 231). mantêmse de acordo com o próprio meio. eles identificam rápida e seguramente. jan. 8)../jun.

passa obrigatoriamente pelo conhecimento de quais conteúdos poderão ou não ser assimilados. regionais. p. não entenderá a mensagem. provavelmente não poderá entendê-la. seres capazes de reformular conceitos baseados em fatores individuais (cultura. Se nada sabe sobre o conteúdo da mensagem. n. a pesquisa em comunicação voltada para o pólo da recepção retoma a cultura como lugar onde se negociam os significados do intercâmbio social. Se não compreender a natureza do processo de comunicação em si. posição social etc. da formação de novos sujeitos – étnicos. levando-se em consideração uma gama de fatores socioculturais que o comunicador precisa ter conhecimento: Se (o receptor) não conhece o código.A impor tância dos fatores socioculturais. a partir da década de 80. religiosos. Os estudos da recepção. sua formação cultural. Assim como os estudos culturais. sim. 1989). A Teoria da Recepção pode oferece ferramentas teóricas para a identificação de quais elementos do discurso da sustentabilidade estão sendo assimilados ou rejeitados pelos comunitários. 1997. tire conclusões incorretas sobre os objetivos ou intenções da fonte (BERLO. sexuais – e de formas 44 Somanlu. Desta forma. 58). esta corrente teórica poderá fornecer uma “lente” capaz de considerar os fatores socioculturais envolvidos nas escolhas feitas pelos moradores sobre quais conteúdos assimilar ou rejeitar. são grandes as perspectivas de que entenda mal as mensagens... jan. 1. ano 5. Isso porque a elaboração de um discurso visando conquistar “os corações e as mentes” das populações cabocloribeirinhas da várzea amazônica no sentido delas se tornarem agentes de um modelo sustentável de desenvolvimento. demonstram que existe a necessidade de dar maior atenção ao papel da cultura na relação estabelecida entre emissores e receptores (OROZCOGÓMEZ. Isso porque os teóricos da recepção consideram os receptores das mensagens mais do que apenas depositários de informações. Perceber as dimensões do conflito social. mas. Retomando o objetivo delegado a esse artigo – evidenciar a importância de alguns elementos do contexto social em que estão inseridas as populações cabocloribeirinhas amazônidas da várzea amazônica no estabelecimento de um processo de comunicação efetivo em relação à difusão do discurso do desenvolvimento sustentável – é possível notar que as informações a respeito da região. finalmente./jun. o homem que nela habita.) (JAUSS. na perspectiva desenvolvida na América Latina. 1991). conflitos e. 2005 . são extremamente necessárias ao comunicador (emissor ou fonte do discurso).

seria possível. a recepção do discurso envolve diversas mediações: de referência. Notas 1 O conceito de populações caboclo-ribeirinhas utilizado neste artigo é o mesmo descrito por Fraxe (2004). De posse dessa informação. conseqüentemente. institucionais. S. compreender como se dá a recepção.Allan. 1. a constituição social dos sentidos e encontrar alternativas de comunicação é trabalhar para ampliar a troca cultural de maneira democrática. por exemplo: avaliar se as estratégias de comunicação empregadas estão ou não sendo efetivas. corrigir possíveis erros nos esforços de difusão do discurso do desenvolvimento sustentável. S. Somanlu./jun. 1999. sendo definido como o conjunto de influências provenientes tanto da mente do sujeito como de seu contexto sociocultural – incluindo as intervenções dos agentes sociais e das instituições – que estruturam o processo do conhecimento. cognoscitivas e culturais (COSTA. 2005 45 . jan. 126). Assim. o enfoque dos estudos da recepção está centrado no conhecimento dos hábitos cotidianos dos receptores e na exposição às mensagens. B. ano 5. Costa novas de rebeldia e resistência é pensar os processos de comunicação a partir da cultura. para fazer efetivas a pluralidade e a diferença que enriquecem a sociedade. situacionais. e compreender melhor por que algumas mensagens provocam ou não mudanças comportamentais nos receptores tendo em vista os fatores culturais envolvidos. o estudo das mediações socioculturais presentes no cotidiano das populações caboclo-ribeirinhas da várzea amazônica da RDS Mamirauá apresenta-se como uma ferramenta importante na compreensão de como o discurso do desenvolvimento sustentável veiculado pelo IDSM está sendo absorvido e. procurando compreender os usos que se faz dos conteúdos transmitidos e as reelaborações ocorridas em diferentes grupos sociais: O conceito de mediação é fundamental na proposta de OROZCO-GÓMES (1991). a apropriação das mensagens. Logo. p. Rodrigues/Grace. Em suma. n. Finalmente. reconstruído pelos receptores (moradores da reserva).

São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. ano 5. (Colección La Balsa de le Medeive. 1996. nação e região no final do século XX. 2)./jun. Aguinaldo Nascimento. Revista Brasileira de Ciências da Comunicação. n. História geral do Amazonas. jan. 31). O processo de comunicação: introdução à teoria e à prática. COSTA. O caboclo e o brabo: notas sobre duas modalidades de força-de-trabalho na expansão da fronteira amazônica no século XIX. (Cuadernos de Comunicación y Prácticas Sociales. João Pacheco de.A impor tância dos fatores socioculturais. Soraya Rodrigues. Rainer (Org. Cultura cabocla-ribeirinha: mitos. Região e nação na América Latina. Devid Kenneth. Amazônia. In: ZARUR. Amazônia e a crise da modernização. São Paulo. 1-112. lendas e transculturalidade. Therezinha de Jesus Pinto. v. ed. Nação e Região na identidade brasileira.: Universidad Iberoamericana. BECKER. FRAXE. Ruben George. p 65-80. 46 Somanlu. São Paulo: Editora Ática. SILVEIRA. Brasília: Editora Universidade de Brasília. La Ifigenia de Goethe y la de Racine.. 2004. Hans Robert. D. OROZCO-GÓMEZ. 1989. OLIVEIRA FILHO. São Paulo: Annablume. 8. Tradução de Ricardo Sanchez Ortiz. 1979. Manaus.). Estética de la receotión. Recepción televisiva: três aproximaciones y una razón para su estúdio. p. George de Cerqueira de Leite (Org. JAUSS. O seringal e o seringueiro. In: D’INÁCIO. 1997. 1994. 2000. 1999. Isolda Maciel. In: Encontros com a civilização brasileira. 1991. Rio de Janeiro. G. 11.. Estado. 101-140. 1-297. Méjico. p. mar.F. Referências BERLO. _______. p. 103-109. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi.). 1997. Madri: Visor. p. 2002. Berta. Entre o rural e o urbano: recepção de telenovela em Serra da Saudade – MG. FIGUEIREDO. OLIVEN. Arthur Cézar Ferreira. 2. Manaus: Editora da Universidade do Amazonas: Governo do Estado do Amazonas. São Paulo: Intercom. 2005 . In: WARNING. REIS. ed. 1. Maria Ângela.

enquanto parte da natureza que Dalcídio apresenta. * Este artigo é fruto dos estudos propostos na Disciplina Pensamento Social na Amazônia. terra.O modo de ser e viver o caboclo por Dalcídio Jurandir* Fabiane Maia Garcia** João Bosco Ferreira*** Resumo Fruto da análise do pensamento e da obra de Dalcídio Jurandir. caboclo. seu auto-retrato. Portrait is within Dalcídio’s work. Somanlu. his self. Nele estão as pistas de como um caboclo se vê. ano 5. woman. *** Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia da Universidade Federal do Amazonas. Neste trabalho. Heloísa Lara Campos da Costa. mulher. Enchanthent and unveiling are part of the context that juxtaposes the woman-mother within the same symbol ism. 2005 47 . levantando pontos que constituem a identidade do caboclo amazônico. Palavras-chave: natureza. The text is an appeal to unmask who is Dalcídio.ª Dra. raising aspects which constitutes the identity of the “caboclo”. The way the “caboclo” sees himself. Keywords: nature. Ernesto Renan Melo Freitas Pinto e pela Prof. water./jun. água. o texto retrata a constituição de sua vida enquanto parte da obra. enquanto justapõe a mulher-mãe em uma mesma simbologia. é retratado de forma lírica. 1. O texto é um apelo para desvendar quem é Dalcídio. jan. o homem. In this work the man as part of the nature that Dalcídio presents is portrayed in a lyrical fashion. Abstract Stemming from the analysis of the thought and work of Dalcídio Jurandir the text portrays the constitution of his life as part of the work. Dr. orientado pelo Prof. n. ** Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia da Universidade Federal do Amazonas. Encanto e desvelar fazem parte do contexto que busca ver o caboclo na natureza. caboclo. earth.

O modo de ser e viver o caboclo. com a mãe. seus campos molhados) que compôs todo o cenário de sua infância. n. na mesma ilha./jun. ano 5. algumas obras merecem um olhar. passando a ler os livros da biblioteca do próprio pai. em 1909. O olhar sobre a Amazônia e seus múltiplos significados na constituição da imagem do caboclo tem sido objeto de discussão e análise na academia. 48 Somanlu. suas palafitas. Dividir o que foi fruto da análise bibliográfica e das percepções que a obra de Dalcídio provoca supõe-se indispensável para as atuais discussões que retratam a vida e o modo de ser do caboclo. mas por usar uma linguagem que consegue realçar aspectos cotidianos e quase psicológicos de como o caboclo vive e sente sua vida em relação e como parte intrínseca da natureza. Ilha de Marajó. Dalcídio Jurandir nasceu na Vila de Ponta de Pedras. a justaposição de imagens da vida do caboclo é a visão externa que monta e apresenta o perfil de como o nosso povo se constitui. Aos nove anos mudou-se para Campos de Cachoeira (mais tarde Vila de Cachoeira).. O caboclo e seu retratar é tomado a partir dos cronistas e desemboca nas mais variadas formas de mídia que expõem para o mundo o modo de ser e de viver do amazônida. Obra e autor não se separam. Outro fator fundamental para se trazer à tona o pensamento dalcidiano é a pouca notoriedade que sua obra encontra no meio acadêmico. O retrato do caboclo pelo caboclo não tem fugido à homogeneidade de considerá-lo bandido. O conjunto da obra de Dalcídio Jurandir apresenta-se como uma porta para o adentrar e o compreender do caboclo amazônico. Foi a natureza primitiva de Cachoeira (com seu rio Arari. 1. Estado do Pará. o que possibilitou. aprendeu a ler e a escrever. desde cedo. 2005 . uma análise e um retratar específicos não apenas por fugir. Porém. O entendimento da obra pressupõe o entendimento da vida do próprio autor. nos momentos em que esta voltava dos afazeres no fogão ou da máquina de costura. desenvolver senso crítico acerca de tudo aquilo que observava. herói ou vítima de um processo histórico. No pequeno povoado de pescadores e criadores de gado. viveu até os treze anos e. jan.. Das percepções estereotipadas propostas no relato dos viajantes. É possível constatar que a maioria dos estudos no campo literário ou histórico não referenda o autor ou sua obra enquanto mecanismo de compreensão e dissociação do que é ser caboclo. Vida e obra constituem vertentes de um pensamento e viver do que é a Amazônia e do que é ser caboclo.

passou a trabalhar como lavador de pratos em um restaurante e. chocando a juventude pelo subúrbio” (PEREZ. nos dois meses em que ficou preso. conseguiu levar consigo Dom Quixote e. a evocação sentimental e o refinamento psicológico.Fabiane Maia Garcia/João Bosco Fer reira Em 1922./jun. E o próprio Jurandir lembra: “Era em junho de 1926. era o ano de 1928 quando viajou para o Rio de Janeiro. semanas depois. 2005 49 . serviu como copeiro. A maioria de seus “colegas” era formada por filhos de famílias abastadas pelo ciclo da borracha. onde se matriculou no terceiro ano do Grupo Escolar Barão do Rio Branco. ano 5. foi morar com parentes em Belém. onde passaram a se entrelaçar. no baixo Amazonas. concluiu um livro de contos e um romance no qual narra recordações da infância em Marajó. de volta a Belém. Lá chegando. o que lhe custou sua primeira prisão em 1936. Em Gurupá. conheceu a discriminação. por negócios da pesca ou outros extrativismos. Porém. Regressou para Belém no mesmo navio em que fora para o Rio de Janeiro. Guajarina e A semana. para pagar a passagem. foi admitido. O engajamento político de Dalcídio Jurandir o levou à militância no movimento Aliança Nacional Libertadora (ANL). incomunicável. Três anos depois de sua chegada a Belém. depois de ter deixado o emprego. foi nomeado pelo amigo Maroja. o que resultou em sua não ida para o Curso Ginasial. em 1931. escreveu a primeira versão de Chove nos campos de cachoeira e. o “Duque de Caxias” e. Tinha capiscado ano e meio de ‘humanidades’ e assim entrei no mundo. sem nenhuma letra. que era intendente municipal em Gurupá. tesoureiro da Intendência Municipal. jan. sem remuneração. fornecer ao romancista o mote para várias de suas páginas. o menino pobre de Cachoeira usou de sua precocidade crítica para compensar diferenças sociais. mais tarde. n. Sua produção literária não mais parou e. Na escola primária. Mesmo na prisão. sem recursos para sobrevivência. Enquanto isso. o amigo Dr. as dificuldades financeiras e a timidez de adolescente o inibiram para os exames preparatórios. Raynero Maroja emprestava-lhe livros de escritores clássicos portugueses e de poetas nacionais. 1. Senso crítico este que iria. Em 1929. 1971). a partir das observações do dia-a-dia. Sancho Pança e Dulcinéia foram suas companhi- Somanlu. passou a colaborar com os jornais O imparcial e Estado do Pará e com as revistas Escola. Entretanto. sem nenhuma aptidão. Aos dezoito anos experimentou a primeira grande aventura de sua vida. foi para o ginásio. Quixote. como revisor na redação da Revista Fon-Fon.

Marajó. onde passou a exercer o cargo de inspetor escolar. em 1972. conquistou o primeiro lugar em um concurso literário promovido pelo jornal Dom Casmurro e pela editora Vecchi. escreveu seu segundo romance./jun. Vencer o concurso rendeu-lhe o lançamento. Sua militância política não lhe rendeu apenas prisões. morreu. que conferiu a ele o prêmio “Machado de Assis”. Tendo deixado a prisão. publicado pela Editora Vecchi em 1941. no ano seguinte. Com Belém do Grão Pará.. Em 1950 Dalcídio Jurandir. Faziam parte da comissão julgadora Jorge Amado. onde participou do Congresso Continental de Cultura. Em 1939. concluído em 1955. conquistou o prêmio Paula Brito. foi novamente preso. apresentado por Jorge Amado.O modo de ser e viver o caboclo. ano 5. então repórter da Imprensa popular. 1. Marinatambalo. Além disso. romance lançado em 1960. colhendo subsídios para o livro que escreveria mais tarde Linha do parque. 50 Somanlu. publicado mais tarde com o nome de Marajó. jan. tendo ficado em reclusão por quatro meses. obra e autor foram reconhecidos pela Academia Brasileira de Letras. instituído pelo Pen Clube do Brasil. Também em Salvaterra colaborou em duas revistas: Terra imatura e Pará ilustrado. Marajó.. neste mesmo ano. Correio da manhã. nem revisitou sua Belém do Grão Pará para um último passeio pela Ponte do galo ou pela Passagem dos inocentes. n. Dalcídio Jurandir não voltou para seus Campos de cachoeira. 2005 . transferiuse para Santarém para exercer as funções de secretário da Delegacia de Recenseamento e. as diárias. de Chove nos campos de cachoeira. O conjunto da obra de Dalcídio Jurandir é tão vasto quanto foi intensa sua militância política e. no Rio de Janeiro. publicado em 1959. em Moscou. O jornal e A classe operária. em 1963. concorrendo com aproximadamente uma centena de escritores. continuou a militância contra o fascismo e. reescreveu Chove nos campos de cachoeira. No ano seguinte. tais como Diário de notícias. Tão aclamado pela crítica quanto o primeiro. Álvaro Moreyra e Rachel de Queiroz. Oswald de Andrade. mesmo ano em que voltou para aquela cidade e passou a colaborar em vários jornais e revistas. Foi graças a ela que viajou à União Soviética em 1952 e ao Chile no ano seguinte. foi para Salvaterra. oferecido pela Biblioteca do Estado da Guanabara e o prêmio Luiza Cláudio de Souza. Tribuna popular. foi publicado em 1947 pela José Olympio Editora. viajou para o Rio Grande do Sul onde pesquisou o movimento operário no porto de Rio Grande. em 16 de junho de 1979. no Rio de Janeiro. foi lançada a edição russa de seu livro Linha do Parque. não reviu as Ribanceiras. seu segundo romance. O cruzeiro.

Destaca. em termos de ficção. ainda. n. 2005 51 . a vida ribeirinha de Marajó e aspectos sociais de Belém nas últimas décadas. nem inferiorizá-lo em relação às demais regiões. Ao construir seu imaginário. Ainda a propósito da regionalidade. ele se refere à cultura amazônica – o rio.. O que o leitor vai encontrar é uma leitura que traz para a ficção valores culturais amazônicos que extrapolam fronteiras e se defrontam com outros valores. linguajares e viveres locais e regionais. recheada de aventuras e revestida de experiências interiores vividas por quem soube transformar em livros. tal fixação faz com que preocupações.]. o desconstruir freqüente do caos. sem tornar incompreensível a construção hiperbólico-metafórica rios de miséria e febres. interpretável mesmo pelo leitor que não tenha navegado pelos rios Arari e Marajó-Açu.Fabiane Maia Garcia/João Bosco Fer reira Sobre o pensamento dalcidiano A obra de Dalcídio Jurandir compõe um conjunto de ficções que apresenta um grande retrato da Amazônia sem ser exclusivamente regionalista ou excessivamente generalista. ano 5. sobrepor-se o regional acima do nacional.. de análise introspectiva. a que o linguajar pitoresco da região empresta cor local (PAES. ou de levantamento sociológico. ao destacar um pequeno trecho de Marajó: “Os japiins mais de longe teimavam disfarçar aquela solidão grande que espremia da terra aqueles rios de miséria e febres caminhando para a baía”. 1980). 1. no Pequeno dicionário da literatura brasileira. ao contrário. Trata-se de uma narrativa densa. jan. contudo. o boto – entremeada pela dor Somanlu. se tornem numa prosa difusa. encontra-se o seguinte registro: Com exceção de Linha do parque (1958). outras regiões numa relação dialética que consolida afirmação e negação desses mesmos valores sem. em caminhos que serão percorridos pelo leitor-viajante que desejar melhor conhecer a região e sua gente. num imaginário rico e diversificado. apresenta-se plena de modernidade. da morte e do desalento. os demais romances de Dalcídio Jurandir integram a série ‘Extremo Norte’ [. A prosa dalcidiana traz./jun. a cobra grande. a regionalidade ao comentar que o lexical regional japiins (pássaro de plumagem negra) referencia uma região brasileira. À base de reminiscências autobiográficas. como nos chama a atenção Sílvio Holanda (2001). A linguagem dalcidiana não é apenas um “falar pitoresco repleto de cores locais”. propõe-se o romancista a fixar. Nessa série cíclica.

contudo. meio sumida entre as folhas. trazida pela morte e por uma infância destruída. explicações que dêem conta da riqueza e da identidade cultural quer da ilha de Marajó. guardado pelos rifles dos coronéis. ele cria um texto que engloba o mítico e o não mítico. o imaginário traz consigo a crítica social como reflexo de sua vivência e militância política. Alaíde parecia possuída pelo 52 Somanlu. na certeza de que sem esse consórcio dialético e paradoxal não se pode compreender uma das formações sociais mais singulares da cultura amazônica. quer de Belém do Grão Pará. Pelo contrário. enganchada no galho. As imagens apresentadas por Dalcídio Jurandir surgem mais como a descrição do mundo. O autor de Três casas e um rio não precisa buscar. do que propriamente como uma poética mítica. elas incorporam-se à terra. 1.. na cobra grande ou nos encantos refletidos nos mistérios das águas de Guajará. num processo que chega aos dias de hoje.O modo de ser e viver o caboclo. provocada pela ordem senhorial. a mulher também extrapola o simples ornamento ficcional ou decorativo da narração. ao lodaçal e à vegetação como forma de resistência à opressão a que são submetidas. Suas construções lingüísticas não se resumem em meros ornamentos narrativos ou descrições de uma beleza vazia que tenta saciar a fome material ou cultural. O sobrenatural aparece não como determinador de fatalismos ou acomodações às explorações econômica. Suas personagens femininas não podem ser vistas apenas como retratos etnográficos da ilha de Marajó. mas no compromisso com o homem e na luta contra a opressão. à água.. balançando ao ramo. Pelo contrário. O leito das cobras grandes foi demarcado pelo latifúndio. 2005 . O entrelaçamento da mulher à natureza produz a erotização da personagem feminina pela sua integração a elementos naturais. uma resistência ao mito como justificativa para a injustiça social. uma prisão ou dependência absoluta de uma visão mítica da Amazônia. ele se apresenta como “poder natural” presente nos pajés. social e cultural. n. Este seu imaginário do caos e do desalento não traduz. no folclore ou nas lendas. como se nos apresenta Alaíde: Colada ao tronco. numa geografia que esconde as misérias contemporâneas entregues ao império da fome e do analfabetismo. Presença marcante na obra de Dalcídio Jurandir./jun. ao transportar para a literatura os aspectos sociais e culturais da região. O engajamento está presente não apenas no discurso. percebe-se uma empreitada na busca de libertação. ao contrário. quando se sabe que três ou quatro famílias dividem entre si a maior ilha flúvio-marinha do mundo. ano 5. jan.

procedente de branco).] Alaíde. p. os escritores detinham-se em descrever a fauna e a flora. fundem-se numa paisagem própria. A descrição do desalento e da morte. Alaíde tem consciência da sorte que cabe à mulher no mundo regido pelos coronéis e/ou fazendeiros: Missunga [./jun. o cheiro de aninga. sem..] as águas caíam da lua.. O homem branco jamais deve amá-la sob pena de cair sob o influxo de uma maldade atavicamente concebida [.. A mulher na obra de Jurandir traz força e potência ao se contrapor à submissão. [. em geral.Fabiane Maia Garcia/João Bosco Fer reira cajueiro. penetrar na vida do homem Somanlu. o corpo de peixe. Não pode evitar que Missunga a despisse. considera bárbaro. Sílvio Holanda chama a atenção para a condição da mulher: A mulher cabocla (do tupi kari’boca. no mundo dos valores de que faz parte o coronel Coutinho. 2005 53 . (HOLANDA. Até então. traz o estigma da mestiçagem (branco/índio). paradoxalmente.. marca de uma colonização portuguesa ainda presente nos nossos dias. ao buscar libertar-se de um mundo bárbaro e desvencilhar-se das estruturas socioeconômicas arcaicas impostas pela exploração que submete homens e natureza. 33-34). o homem. Até sua publicação... ano 5. a representação fantástica do feminino e a dimensão social integram-se e se fundem em uma unidade reveladora da hipocrisia social. e só a noite.. política e religiosa da elite paraense do início do século XX. 2001). Ao evidenciar a opressão denunciada por Dalcídio Jurandir. preso irremediavelmente a um mundo que..]. Homem e natureza. os cabelos de prata. branca era a terra. A supremacia do rio e da floresta subjugava o ser humano e.. esta percepção da Amazônia era quase que totalmente ignorada pela inteligência brasileira. presta-se tão-somente à gratificação sexual dos brancos. a região era conhecida pelo exotismo de sua paisagem: a Hiléia ou o Inferno Verde. era o que Alaíde cobria com as mãos (JURANDIR. com o peludo e escuro mistério. jan. como uma filha das águas brancas. como descascasse uma fruta [. Paisagem esta descrita como um enlace de sofrimento e magia. contudo. 1.] há de abandoná-la. Estes elementos. destoante dos padrões turísticos europeus. n. Essas revelações e a revelação do próprio território amazônico tornam-se evidentes em Chove nos campos de cachoeira.. 1978.

de inspiração amazônica. cenários por onde transitam suas histórias e vidas. como acontece freqüentemente nos escritos que o antecederam. 1. n. portuários. nas histórias. pescadores.] em Dalcídio. com rostos múltiplos. mas não se subjugam a ela. na gente miúda e insignificante que Dalcídio vai encontrar seus personagens principais: a massa miserável borbulha em suas páginas. Inglês de Souza escreveu sua obra envolto nos emaranhados deterministas e evolucionistas. Belém.. A alma das personagens dalcidianas humaniza. acotovelando-se à multidão de descendentes de índios. Paulo Nunes destaca que: É fato que Jurandir – de algum modo – caminhou pelas trilhas abertas por Inglês de Souza. de caboclos e de negros escravos. Comparando-o a Inglês de Souza. marítimos. no século XIX. artesãos. 2001).. 2005 . percebe-se a competência avassaladora em desnudar a alma das personagens. da floresta e do caos social onde se aglomeram os descendentes de senhores e de aventureiros. sem perscrutar sua alma e seus sentimentos. A cidade se humaniza na medida em que vai sendo descoberta e vivida. Passagem dos inocentes apresenta esta alma a humanizar cenário e trama narrativa. É na massa mestiça de camponeses. mais do que um lugar é uma personagem.O modo de ser e viver o caboclo. Mas [. também escritor amazônico e de quem Jurandir seguiu a trilha. formam um mosaico da vida cotidiana na Vila de Cachoeira. jan. amazônico. ela não é capaz de subjugar os homens e as mulheres que com ela contracenam. quando revela os perigos da iniciação da puberdade. Mesmo que a natureza tenha força dramática./jun. mesmo que se torne personagem. o que acabou limitando-lhe a criatividade. Com a chegada do Modernismo e de Dalcídio Jurandir. Percebe-se que Dalcídio introduz no cenário narrativo da literatura brasileira uma faceta inexplorada: as angústias e as pequenas felicidades do homem ribeirinho – interiorano ou citadino – da região Norte brasileira (NUNES. o fim da inocência e o despertar das inquietações da adolescência. a Amazônia pode ser lida visceralmente de dentro para fora... enfim. por exemplo. ano 5. na foz do rio Amazonas e na cidade 54 Somanlu. A própria Amazônia encontra-se nesse estado de transformação ao surgir das águas. por personagens e tipos que demarcam as cenas e os episódios narrativos. Os romances de Dalcídio Jurandir. As personagens de Jurandir contagiam-se com a natureza.

sua mãe preta. Os nove romances do ciclo “Extremo Norte” concentram-se em torno da vida de sua principal personagem. presente nos meios educacionais. costureiras. desde a infância até a juventude. sua moral ética e suas manifestações culturais quer no interior (Cachoeira). 1. de Cachoeira a Belém e de volta a Cachoeira. quer na capital (Belém). as percepções que dois irmãos possuem em relação ao espaço físico e social a que estão circunscritos. Belém do Grão Pará. Dalcídio Jurandir apesar de pouco conhecido na vida literária. seu foco narrativo é o viver do dia-a-dia numa pequena comunidade da ilha que lhe dá o nome e. em que há classes sociais em luta.Fabiane Maia Garcia/João Bosco Fer reira de Belém. ano 5. Portanto. suas estratégias de sobrevivência e redes de apoio coletivo./jun. nada mais é do que a evolução dos temas apresentados ou esboçados em Chove nos campos de cachoeira. Todos eles representam os pobres. na maior parte da obra. Somanlu. Narra. e a namorada Andreza. n. funcionários públicos de baixo escalão. Entretanto. O caboclo que pensa ser caboclo quando chove nos campos de cachoeira Reconhecido pelos pensadores que retrataram a Amazônia no último século como um dos mais ousados e promissores escritores da região. Marajó difere ligeiramente dos demais por ter outro conjunto de personagens. Primeira manhã. o pai branco. vários parentes e conhecidos. tão ninguém” sobre a qual o autor se sentiu compelido a escrever já que sua visão do mundo inspirava-se nesta vida em movimento. a pobreza de seus meios materiais. Ponte do galo e Os habitantes. em Belém. teve uma vida intelectual e política intensa. em cada um deles vivendo. enquanto sua mãe luta para mandá-lo para a cidade grande para que ele possa ter acesso à instrução de melhor qualidade. O romance Chove nos campos de cachoeira rompe com o conceito de romance literário em que as personagens principais são apresentadas a partir de virtudes e qualidades quase que inumanas. no conjunto de seus personagens há o fio condutor que estabelece a perfeita continuidade narrativa: o menino Alfredo de Chove nos campos de cachoeira vai aparecer em Três casas e um rio. cozinheiros. vendedores ambulantes. vagabundos – a “gente mais comum. testemunhando e reportando as tramas que tecem as histórias do “Extremo Norte”. Passagem dos inocentes. Seu principal assunto é a vida das pessoas de situação econômica menos favorecida: a definição social de tal grupo. Alfredo. pescadores. 2005 55 . jan. Outras personagens importantes entram e saem de cena: em Cachoeira. o ciclo completo. desempregados.

n. da febre.O modo de ser e viver o caboclo. dos campos queimados avançando para a vila dentro da noite no galope do vento. é rejeitada em função de sua cor. daquela carne escura. No texto. com suas pernas marcadas por ferimentos. compreendesse que tinha mãe.. a primeira e real sensação de que era filho. Ficar assim como se pela primeira vez de repente.]Alfredo achava esquisito que seu pai fosse branco e sua mãe preta. Os sentimentos ficam explícitos quando se expõem: [. Esse momento de rejeição da mãe em função da cor da pele é outro conflito que a personagem não pode sequer aceitar em função do grande amor que sente pela mãe. A condição física de Alfredo. jan. do colégio. Eutanásio e Alfredo estão em momentos diferentes de suas trajetórias pessoais. das feridas.]. ano 5. se esquecer do caroço. perna tuíra. e por mais que as mãos de D.. e aquele sinal pretinho que sua mãe tinha no pescoço lhe dava vagaroso desejo de o acariciar. 2005 . após a viuvez passara a viver com a cozinheira negra que. diferente em relação à dos filhos dos mais abastados.].. de súbito.. D. desde cedo. Envergonhava-se por ter de achar esquisito. beijando-lhe também os cabelos. A obra não apresenta linearidade temporal. característico às crianças da região. Amélia fossem leves e pacientes sentia que aquelas feridas nunca lhe deixariam de doer o desejo muito seu de partir daqueles campos. Alfredo é filho do Major Alberto que.. é o primeiro tormento na vida que percebe. mesmo sendo o ponto de refúgio e calmaria para Alfredo. atirada ao trabalho como um homem e.. São as lembranças e acontecimentos encadeados que remetem a uma nova apreensão que os irmãos possuem da realidade. 1. de parecer diferente do que era”. pretos os seios [. Amélia é uma pretinha de Mauaná. de que brotara. Por que sua mãe não nascera mais clara? E logo sentia remorso de ter feito a si mesmo tal pergunta.. mas é Alfredo quem lança seu olhar sobre o cotidiano e consegue narrar todo o sofrimento e introspecção a que ambos se submetem./jun. Eram pretas as mãos que saravam as feridas. A questão do tempo e de como se compõe é parte da identidade e da suposta indolência de qualquer caboclo. como na 56 Somanlu. dançadeira de coco. neta de escrava. este processo é retratado a partir da seguinte sensação: “Sentia-se humilhado quando sua mãe ia lavar-lhe as feridas. em alguns momentos. Mas podia a vila toda caçoar deles dois se saíssem juntos [.. de iguestes nas ilhas.

O carocinho tem a magia. aquela manga aqueles beijos. Seu pai era aquele homem que [.. Os meninos do mundo inteiro não conhecem o carocinho de tucumã de Alfredo [./jun. quando ela se mostra como a mulhermãe. jan.. Os dedos pareciam mais gostosos do que o próprio muruci. Honório.. roubados.] vivia entre os catálogos. Essa presença feminina em Chove nos campos de cachoeira apresenta-se às vezes como uma simbiose total com a natureza. Alfredo via-se solitário.. ano 5.. sem dar. a mesma mãe-natureza faz clara sua supremacia ao oferecer vida e morte: Para Clara o mundo era aquele taperebá. outras vezes.. O pai era indiferente. A presença forte da mulher no cotidiano de Cachoeira vai desde a ingenuidade da infância. que chega e engravida a moça do interior.... a mulher-amante. um a um. daquelas águas e daqueles peixes Somanlu. A mãe só dava pela existência da escola quando sentia a falta de Eutanásio em casa [. mesmo que nos sonhos. a um só tempo. a intimidade que o filho sonhava [. Ninguém se interessava por ele..].]. Deixa-se cair na rede desalentado [. 1. não por que fosse austero.Fabiane Maia Garcia/João Bosco Fer reira vida de qualquer caboclo. sabe dar o Universo a Alfredo [.].. dos murucizeiros. revela e denuncia a pureza de sentimentos quebrada pelo poder do menino rico da cidade. e tantos outros que. prossegue nas amarguras de um amor inconfessado e reprimido. Eutanásio. 2005 57 . A primeira sensação de que não era mais menino para ser embalado [.. É representada em função dos acontecimentos e da sensação de abandono em vários momentos da obra: Aquele sono sem cantiga foi o primeiro abandono.].. E lambia e chupava os dedos lambuzados de muruci e açúcar.]. chegando à maturidade de mãe-mulher a povoar corações e mentes de Alfredo.]. dos mururés. mais duro [. cada vez mais desconhecendo o que se passava em torno de sua solidão. Alfredo sentiu que o mundo tinha o seu lado cada vez mais injusto. das resinas.. Resendinho.]. Uma narrativa que. a mãe é também presença constante na vida de Alfredo.. traídos ou correspondidos. passa pelas descobertas adolescentes. n.. Era como uma criatura que tivesse nascido também das fruteiras. se encantam ou desencantam em amores sonhados. Dava para Alfredo muruci com açúcar amassado com as suas mãos.

que as grandes chuvas traziam para Cachoeira. com os pés nágua como raízes e pelo nu [. Amélia. mamãe? Perguntou Alfredo..] Quanto mais se apanhava fruta do corpo de Clara. sua mãe conversando com Major Alberto: Está aí o que Clara foi fazer no Araquiçaua.] as frutas nasciam já maduras. Alfredo.. Ler as trajetórias de Eutanásio.. [..] A pergunta voltou para dentro de si e ficou para sempre. Mas o que fascina nesta dalcidiana escrita é o fato de se perceber um estilo encharcado.. podia vir dos campos.. 2005 . A todo momento podia aparecer. curiosidades viciosas. assustado. desconfiado. 58 Somanlu. [. – Quem... [. sustenta-se pela poetização do discurso..] Ouviu também. [. como eram. a construção de parágrafos longos. viemos da água e. Clara ou a morte de Clara tinha de ficar mistério dentro de Alfredo.. A aquonarrativa.] Para onde teria ido o riso dos dentes de Clara? Sonhou: Clara.. enquanto estilo.O modo de ser e viver o caboclo.. Poderia Clara ficar reduzida a uma caveira? [.] Clara não era como as outras moças e meninas que vieram depois. à água voltaremos. é absorver mais coerentemente as dores do mundo. em muitas circunstâncias. lhe dando tentações. é solidarizar-se com os que possuem talento e o expressam com a mesma naturalidade que a natureza. é percorrer a trajetória cronológica do próprio romance Chove nos campos de cachoeira. faz-de-conta lhe fazendo cada vez mais entendido e triste. conforme suas necessidades. [. [.... A aquonarrativa é o sotaque literário dalcidiano que descreve coerentemente o estado anfíbio de ser do homem amazônico. n. Uma menina que sabia nadar tão bem. algumas vezes demarcados por uma pontuação que não obedece rigorosamente aos moldes gramaticais.] Com a morte de Clara as frutas deixaram de ser.. entre os matupiris e os morurés.] Se escondeu na esperança de um dia ver Clara estendida de novo na cama. homens e mulheres de papel exemplarmente tão bem construídos por Dalcídio Jurandir.... personagens. Na Amazônia. [./jun.... [.. associada ao uso equilibrado das linguagens popular e literária. Vir pela água com o vestido pesado.. Clara ou D. proibições. jan. as sanguessugas agarradas nas pernas o sorriso cheirando a bacuri e a boca cheia de resina. ano 5. tão gostosas.] Mas sua mãe não respondeu mais nada. uma tarde. em que o narrador manipula. amarelinhas.] Dona Amélia não gostava de recordar histórias de afogados. 1. mas nascia fruta.

n. Ao tomar conhecimento de sua biografia e saber que era de origem pobre. tratar de uma região a partir do que ela mais tem de próprio e universal a um só tempo. quer Somanlu. Embora permaneça relativamente desconhecido ou ignorado pela maioria dos críticos literários e editores. especialmente o regionalista. como. ano 5. quase toda a literatura de inspiração amazônica. em princípio pode não parecer tão importante. Este menino cresce. faz-se homem e continua sua trajetória perante o mundo natural e urbano. em especial o paraense. jan./jun. Entretanto. tomando. entretanto. sua vantagem é a capacidade de ser regional sem ser bairrista. sem ser exclusivamente regionalista nem excessivamente generalista. 2005 59 . Narra de forma clara e lúcida.Fabiane Maia Garcia/João Bosco Fer reira O que pensar sobre aquele que pensou e retratou o caboclo de maneira tão particular? Dalcídio Jurandir representa o pensamento amazônico. foi decisiva para a transposição da pobreza socioeconômica para as personagens. sequer pertencente à classe média. nos apresenta uma visão de dentro para fora sem ser introspectiva. estava em pleno desenvolvimento. Seus livros. A experiência de vida que. Jurandir. aos poucos. denuncia numa torrente apaixonada de vida em movimento. Sua narrativa oscila entre a ficção e a realidade. as experiências vividas pelo próprio autor não fazem de sua obra uma autobiografia nem um simples documentário. a qual consiste principalmente de obras de autores não amazônicos que apresentam uma visão de fora para dentro da região. descobrem o mundo e as mais injustas discriminações. entende-se melhor o seu realismo. A força e a beleza de seu texto fazem de Chove nos campos de cachoeira um clássico da ficção amazônica que não pode ficar obscurecido. aliás. gradativamente consciência da exploração a que é submetido. ambas retratadas dentro de um fluxo histórico coerente e sedimentado por personagens recorrentes que estabelecem o fio condutor entre as várias histórias. a trajetória de vida de um menino que é ele próprio e. 1. são todos os meninos pobres que. particularmente do ciclo “Extremo Norte”. Chove nos campos de cachoeira surgiu no momento em que o romance brasileiro. a obra de Dalcídio Jurandir é de importância ímpar para qualquer leitor que procure ter uma visão autóctone da Amazônia. em contrapartida. Trata-se de uma literatura que apresenta o contraponto à literatura naturalista dos primeiros trinta anos do século XX. ao mesmo tempo.

1976. em Jurandir. Várias décadas depois de lançado. como se apresentam na grande maioria da literatura que enfocou a vida amazônica até então. n. (Texto) JURANDIR. Escritor social e politicamente interessado. aos poucos./jun. Personagens não mais marcadas pelo embate com a natureza grandiosa. transforma-se na metalinguagem. 2001. Belém: Unama. Dalcídio. NUNES. Marajó. mítica.O modo de ser e viver o caboclo. Dalcídio Jurandir soube associar a grandeza de sua visão ao pulso do romancista nato. cujo conteúdo crítico é reforçado pelo acréscimo de um componente desmistificador da Amazônia. o pensar e o fazer de Dalcídio. 2001. de fora para dentro. ed. um quadro no qual pobres e excluídos pela sociedade burguesa em que estão inseridos transitam corroídos em um ambiente igualmente corroído: a Amazônia pós-ciclo da borracha. Aquonarrativa: uma leitura de Chove nos campos de cachoeira. ano 5. de Dalcídio Jurandir. Chove nos campos de cachoeira é vivo e atual como se tivesse sido escrito hoje. Chove nos campos de cachoeira. Referências HOLANDA. tomados separadamente ou em conjunto. Trazer à tona seu pensamento se compôs como algo tão valoroso que. mostram um padrão literário que os coloca entre os melhores da literatura brasileira pós-modernista. Silvio. A melhor maneira de explicar Dalcídio Jurandir é descrevê-lo como o criador de um quadro romanesco sobre a vida amazônica. Rio de Janeiro: Cátedra. nos tornamos íntimos e ao mesmo tempo parte do que. Mito e sociedade em Dalcídio Jurandir: anotações em torno de Marajó. Rio de Janeiro: Cátedra. situa-se na terra a olhar ao redor e para si mesma. 2. 1. O fato de relatar as conseqüências sociais do ciclo da borracha usando a mesma linguagem usada pelos naturalistas que descreveram. só quem o é pode perceber o ser. 1978. (Texto) 60 Somanlu. ed. Belém: Unama. ao invés de examinar a terra a partir do rio. a voz narrativa. jan. na qual as personagens se mesclam em autobiografia e ficção. 2. A imagem amazônica projetada por ele volta-se para o interior. 2005 . na maioria das vezes invencível. aquele ciclo econômico. _______.. demonstra uma apropriação daquela literatura como uma fonte que. lúcido e leal.. Paulo José Martins.

ed.ª série. PEREZ. Massaud (Org. 1929 1931 1939 1939 1941 1947 1950 1958 1959 1960 1961 1963 1967 1968 1968 1970 1971 1976 1976 1976 1978 1978 1984 1987 1991 Somanlu. Anexo Cronologia da obra dalcidiana Chove nos Campos de Cachoeira (1. 2.ª ed. mais tarde. n. José Paulo. 2. editado pela José Olympio) (*) Linha do Parque (coleta de dados) Três Casas e um Rio (publicado pela Marins Editora) (*) Linha do Parque (publicado pela Editorial Vitória) Belém do Grão-Pará (publicado pela Livraria Martins Editora) (*) Linha do Parque (lançado em Moscou) Passagem dos Inocentes (publicado pela Livraria Martins Editora) (*) Os Habitantes (conclui) Primeira Manhã (publicado pela Livraria Martins Editora) (*) Chão de Lobos (conclui) Ribanceira (conclui) Ponte do Galo (publicado pela Livraria Martins Editora) (*) Chove nos Campos de Cachoeira (2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. In: JURANDIR.ª Edição – Editora Cátedra) (*) Os Habitantes (publicado pela Artenova) (*) Chão dos Lobos (publicado pela Record Editora) (*) Ribanceira (publicado pela Record Editora) (*) Marajó (publicado pela Editora Cátedra) (*) Passagem dos Inocentes (publicado pela Editora Falangola) (*) Linha do Parque (publicado pela Editora Falangola) Chove nos Campos de Cachoeira (3. Dalcídio. São Paulo: Cultrix.Fabiane Maia Garcia/João Bosco Fer reira PAES. 1971. 2. MOISÉS. jan. 2005 61 . rev.ª versão) Conclui um livro de contos e um romance (lembranças de Marajó) Chove nos Campos de Cachoeira (reescreve) Marinatambalo (escreve e. revista – Editora Cejup) (*) (*) Publicações que compõem a série “Extremo Norte”. Pequeno dicionário de literatura brasileira. Escritores brasileiros contemporâneos. 1. publica sob novo nome) Chove nos Campos de Cachoeira (lançado pela Editora Vecchi) (*) Marajó (novo nome de Marinatambalo. ed.). 1980. ano 5./jun. Renard.

2005 . n.62 Somanlu. jan./jun. 1. ano 5.

bens simbólicos. Despite the fact that they have been satisfying the needs of a market involving millions of reais. Keywords: Amazon region. symbolic assets. 1. Palavras-chave: Amazônia.Mercado faz a festa na floresta Wilson Nogueira* Resumo Este trabalho trata da relação das festas populares amazônicas com o mercado capitalista por intermédio de pesquisa sobre o Boi-Bumbá de Parintins. Somanlu. Embora estejam satisfazendo as necessidades de um mercado que movimenta milhões de reais./jun. * Mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia – UFAM. the Ciranda in the city of Manacapuru and the Sairé in of village of Alter do Chão. who produce them. n. symbolic assets and globalization. capitalistic market. This article suggests changes in the production. mercado capitalista. bens simbólicos e globalização. 2005 63 . distribution and consumption of cultural assets in order to make them democratic and directed towards social compensation to the communities. distribuição e consumo dos bens culturais. as populações que produzem e legitimam os três eventos não são recompensadas com melhoria de qualidade de vida. ano 5. modern means of communication. a Ciranda de Manacapuru e o Sairé de Alter do Chão. Este artigo sugere mudanças nas relações de produção. para que se tornem democráticos e voltados à contrapartida social. Abstract This work focusses on the relationship between the Amazonian folk celebrations and the capitalistic market through a research work on the Boi-Bumbá ritual in the city of Parintins. the people who produce and legitimize these three events have not been compensated with an improvement in their living standards. meios modernos de comunicação. jan.

jan. Logo. todas essas questões tornam-se imprescindíveis à análise teórica. fricções e abalroamentos entre um modo e outro de produzir. ano 5. é um fato cultural-civilizatório. São eventos que vivem os confrontos entre os interesses do mercado e os dos que detêm o capital simbólico local – a tradição. porém insuficientes para dar conta do fenômeno. para se integrar ou até para construir uma provável autonomia no interior do capitalismo. Esses conceitos resultam da tentativa de compreender fenômenos culturais recorrentes no desenvolvimento do capitalismo. 2005 . o Sairé de Alter do Chão4 e a Ciranda de Manacapuru5 como festas que já ocorrem nos domínios do mercado. entretanto. como lazer. aquelas que se articulam com o mercado. Ou ainda: que são resultantes dos conflitos. de pensar e de se relacionar cosmologicamente. essa abordagem ganha mais interesse porque as contradições desse processo ocorrem de forma peculiar. por sua natureza. porém dentro de dimensões controláveis pelo ethos comunitário. contatos. caboclos e índios. que o mercado capitalista. por exemplo) articulam-se. No mercado. mas que se realizam sob uma dimensão desterritorializada2 e dominadas por leis mercadológicas. há algum tempo. as festas são feitas para ser consumidas como divertimento. em Alter do Chão e em Manacapuru. no segundo. Na Amazônia. As sociedades de tradição milenar e secular na Amazônia (ribeirinhos. Quando as vislumbramos na dimensão do mercado. e na perspectiva da preocupação do pesquisador. aquelas que expressam um sentimento local. Se quiséssemos encontrar o ponto zero desse processo. Pode-se dizer. mas que ainda sofrem influência comunitária. o seu abalroamento com outras culturas é constitutivo da sua própria existência. denominamos aquelas que atendem apenas às necessidades materiais e simbólicas dos que as realizam.Mercado faz a festa na floresta As festas populares podem ser compreendidas em três categorias em relação ao capitalismo: as que estão distanciadas. sem o controle social e econômico dos que as legitimam material e simbolicamente. Ou seja: se o capitalismo./jun. No primeiro caso. como modo de produção. as que estão em processo de integração e as que estão integradas1 às estruturas do mercado. Situamos o Boi-bumbá de Parintins3. 1. n. como possibilidade 64 Somanlu. esses fenômenos podem ser localizados e analisados em vários lugares. produz mais efeitos conflitantes que harmonizadores à ritualização do cotidiano comunitário. poderíamos apontar que essas festas foram herdadas de grupos sociais locais ou trazidas pelo colonizador e instaladas ali em Parintins. se comparadas às dos lugares onde o capitalismo se apresenta na sua versão mais desenvolvida. e por último.

a hegemonia. fetichizados. principalmente. o plantio e a colheita. têm ampla divulgação na mídia. A Somanlu. em Boi-Bumbá de Parintins. entes ideológicos que ressaltam até hoje as posições sociais internas e externas dos grupos humanos. Há um artifício6 que prende e distancia ao mesmo tempo lugares e grupos sociais no mundo do consumo. Uma das implicações desse fenômeno refere-se à produção de um espetáculo para a mídia eletrônica. jan. Então. essas festas foram admitidas pelo mercado. pelos recursos técnicos da mídia. são negociadas como produtos turísticos. especialistas e dirigentes das festas populares esmeram-se em produzir um espetáculo para os holofotes da televisão e para as lentes de jornais e revistas. e os relatos desde os primeiros viajantes. que é o resultado do processo de apropriação e fetichização da festa da comunidade pelo mercado. que. Os agenciadores de turismo criam e alimentam a expectativa de existência de um produto cultural característico de um lugar. As localidades e os grupos sociais que nelas vivem são referências imprescindíveis aos interesses do mercado. a guerra e a paz. No caso das três festas que estudamos. viviam em imensas festas tribais. Os índios amazônicos. onde celebravam a vida e a morte. Fala-se em Sairé de Alter do Chão. que é engendrado. segundo os registros orais e arqueológicos. pois. Não significa que sejam menos ou mais ideológicas que antes ou agora. e são realizadas de acordo com as exigências do mercado. ano 5. transformaram-se em instituições jurídicas (hoje são grêmios recreativos) para captar recursos. promete dar visibilidade aos lugares e aos grupos sociais envolvidos nessa empreitada. além de apropriados. 1. como contrapartida. de um determinado grupo social. elas apresentam as seguintes características comuns: têm origens em brincadeiras comunitárias. Se não existe uma medida para determinar se uma festa está ou não envolvida com ou pelo mercado. mobilizam simpatizantes por meio da disputa polarizada. também. há pelo menos fatores recorrentes que podem ser ressaltados e sustentados como próprios da articulação mercadológica. hoje elas se vinculam mais ao mercado que às necessidades ritualísticas das localidades onde ocorrem. Necessariamente./jun. devem atender aos padrões do meio mais imediato: a televisão. 2005 65 . em Ciranda de Manacapuru.Wilson Nogueira de status social ou de identidade cultural. n. Os artesãos. foram. Eles celebravam a coesão social. Essa reflexão conduz à necessidade de se verificar as mudanças que o fenômeno gera na produção simbólica dos grupos locais. porque desenvolveram tais características – assim. Denominam-se as festas e os lugares.

Produz-se. as do bumbódromo. apresentavam-se em terreiros apertados ou nas ruas. um “lugar para ver e ser visto”. O pesquisador Paes Loureiro (1995. São mais camarotes e arquibancadas para turistas. São lugares edificados pelo poder público. O Boi-Bumbá de Parintins pode. n. Bumbódromo. p. templo do carnaval carioca. a partir daí. às exigências de cada um dos segmentos envolvidos com o espetáculo. a cada ano. A estrutura arquitetônica desse espaço vem se aperfeiçoando. Pelos mesmos processos passam o Sairé de Alter do Chão e a Ciranda de Manacapuru: tiveram que deixar os terreiros acanhados para se apresentar em lugares mais convenientes aos espectadores. nesse caso. ouvintes e internautas. Os bumbás desenvolveram uma forma diferenciada de apresentação das alegorias e fantasias em relação à das escolas de samba. para abrigar espetáculos e. ser tomado como referência conceitual de precisão técnica e organizacional. 358) define o bumbódromo como um teatro. antes do festival folclórico. o sairódromo8 e o cirandódromo. leitores. Lourei- 66 Somanlu. onde está a matriz deflagradora da especialização televisiva das festas populares no Brasil.Mercado faz a festa na floresta televisão exige formato prévio. Quanto à apresentação dos bumbás. e modificações que facilitam a “evolução” (apresentação) dos bumbás e a cobertura dos meios. do sairódromo e do cirandódromo permitem que os brincantes (atores) construam e constituam a mesma pintura./jun. que trabalhou em escolas de samba do Rio de Janeiro. 1. jan. Foi no carnaval carioca que artistas de Parintins se inspiraram para pôr luxo nos bois-bumbás Garantido e Caprichoso. foi o precursor das alegorias e das fantasias de luxo nos bumbás. introduzindo-as primeiramente no Garantido. portanto. O artista plástico Jair Mendes. telespectadores. E por isso foram construídos. ano 5. um espetáculo dentro de uma arquitetura que atende às necessidades dos brincantes (foliões). semelhante ao filme que se movimenta na tela. dos patrocinadores e dos meios de comunicação. do público espectador. pois a qualidade das transmissões depende de equipamentos e de pessoal. também. o mesmo espetáculo. A arquitetura de Marquês de Sapucaí faz com que as escolas de samba passem – em desfile – pelos telespectadores. a exemplo das escolas de samba. apropriados como espaço do e/ou para o mercado. sairódromo e cirandódromo lembram sambódromo. que. É a partir do bumbódromo7 que os bumbás ganham projeção televisiva e se lançam para a aventura mercadológica na qual se encontram hoje. 2005 . os quais também fazem parte do espetáculo em qualquer produção direcionada ao público.

telespectadores. o Sairé (os botos) e a Ciranda perdem um pouco da consistência lúdica: a brincadeira torna-se um ato que exige de todos extremo desempenho profissional. A construção de um lugar para a apresentação das três festas populares causou uma mudança significativa na forma da composição e da apresentação dos grupos folclóricos aqui estudados. um veículo de entretenimento. nesse momento. A televisão é. O lúdico comunitário modifica-se – e às vezes se perde – nos meandros do espetáculo. se passam a sofrer a pressão do público pagante. O apresentador é o elo dos brincantes com os espectadores. Bumbódromo. Os ingredientes do espetáculo – fantasias. Cria-se no interior dos grupos de brincantes a disposição de se fazer sempre o melhor para encher os olhos do espectador e conquistá-lo como mais um admirador/torcedor/patrocinador. adereços. responsável pelo andamento do desfile de uma lista de personagens “testadas” ao longo dos anos. escapa à prática do ócio prazeroso e fica mais sob a influência e vigilância dos patrocinadores de alguns milhares de reais9.Wilson Nogueira ro assegura que é “uma pura fascinação de olhar o que passa a existir no momento em que é olhado”. – são produzidos dentro de uma racionalidade técnica/profissional que caracteriza a distância entre o que é feito pela e para a comunidade e o que é feito pela comunidade para turistas e platéias das mídias. sairódromo e cirandódromo são cenários e palcos para espetáculos especializados. por si só. Seus foliões esmeram-se para fazer um espetáculo tecnicamente perfeito. Há uma interação entre atores e espectadores. comprometer a qualidade midiática do espetáculo. Os grupos folclóricos devem se apresentar ao público de forma impecável sob pena de punição dos jurados que assistem ao espetáculo na função de delegados dos espectadores. uma fábrica de espetáculos: ela junta a imagem. 1. assim. alegorias. na prática. ouvintes e internautas. Introduziram na “brincadeira” o apresentador. o Boi-Bumbá. ano 5./jun. Esse problema está mais evidente no relacionamento das agremiações com a televisão. é evidente que adotem modificações para agradá-lo. coreografias e ritmos etc. Quando se transferem para esses lugares. que. é um animador. 2005 67 . eles não podem falhar diante do público. Então. juntos. eles se integram à platéia para realizar o espetáculo. que. n. constroem quadros no enorme palco até formar um todo apoteótico. Ou seja: os atores não passam. Os bumbás de Parintins foram os primeiros a aperfeiçoá-la para um novo modelo de espetáculo. texto e áudio/narração. Ninguém pode brincar sob pena de errar e. jan. A brincadeira. Os produtores dos chama- Somanlu. leitores.

O 68 Somanlu. Desse modo. torna-se uma falsa idéia do real. Investe-se no festival. os ancestrais amazônicos viviam em constantes celebrações. ano 5. Lévi-Strauss nos diz que são graus de complexidade distintos e que devem ser compreendidos dessa forma.Mercado faz a festa na floresta dos programas para as massas dizem. pode-se localizar o fio de Ariadne que os conduzirá às origens de cada uma das festas. porque ele mobiliza público consumidor e formadores de opinião pública. Aliás. esse fenômeno pode ser medido pelo volume de patrocinadores: políticos. Hoje não seria diferente. as festas encaixam-se na ritualização do cotidiano como uma reflexão sobre a realidade e seus mecanismos de sustentação do fazer e do refazer coletivo. A humanidade está cheia de festas e rituais com as mesmas finalidades. 2005 . Nos bumbás de Parintins. poder público e até multinacionais dos mais variados segmentos. que a televisão é um show permanente. devem prender a atenção do telespectador/consumidor. a televisão é o agente capitalista que age de maneira mais agressiva sobre as três festas estudadas. É a televisão como meio ágil e eficiente que atrai os demais agentes mercadológicos. telespectador ou leitor. necessariamente. como expressão máxima do meio. quando enquadrada no campo televisivo. as comparações entre culturas de sociedades primitivas e modernas ilustram essa dicotomia. Não se trata de uma ocorrência localizada. A espontaneidade da brincadeira. mas de uma recorrência histórica no refazer simbólico dos povos diante de conflitos dessa envergadura. Seguindo esse raciocínio. Nas sociedades denominadas primitivas. A televisão determina formatos para cada tipo de espetáculo. É possível identificar que o interesse da televisão pelas três festas populares tem um papel preponderante na sua ressignificação simbólica. se quisermos entender as festas populares como expressão da realidade social daqueles que as produzem. Existem regras preestabelecidas que devem ser cumpridas para que tudo ocorra de acordo com o que está no escript. Seria ingênuo imaginar que esse turbilhão de interesses não modificasse a constituição dos bumbás que brincavam nos terreiros e nas ruas./jun. 1. Por isso. aqui e acolá. n. dependendo da atenção do espectador. é possível dizer que o Boi-bumbá de Parintins. jan. e proporciona retorno financeiro e institucional aos patrocinadores. Não importa se o que está sendo veiculado é uma partida de futebol ou uma tragédia: as imagens. como já foi mencionado anteriormente. o Sairé de Alter do Chão e a Ciranda de Manacapuru não se desfizeram totalmente dos elementos simbólicos imemoriais – e que.

Eles adquiriram características inimagináveis em tão pouco tempo. como propriedades perceptíveis e imperceptíveis aos sentidos [. Afinal. Se decodificássemos essa reflexão em imagens. por ocultar. que está sempre grudado aos produtos do trabalho. instantaneamente. ano 5. Eles são capazes de mobilizar. ao se transformar em mercadoria. entretanto.Wilson Nogueira que nos surpreende são os meios pelos quais circulam os bens simbólicos hoje. 1. Através dessa dissimulação. 80). Sua preocupação não se localizava somente na obra de arte como mercadoria. nos trens. entre os produtos do seu próprio trabalho. à margem deles. n. Walter Benjamin já advertia sobre as transformações que viria sofrer a obra de arte por intermédio da reprodução em escada industrial. Podemos assistir às apresentações dos bumbás. nos regatões. quando são gerados como mercadoria (MARX. Se os bens simbólicos até então viajavam nas naus. p. como ameaça à obra de arte é a sua serialização por meio de sistemas mecânicos e eletrônicos. a arte é a produção da expressão simbólica das sociedades que se inserem. a relação entre trabalhos individuais dos produtores e o trabalho total. nos aviões ou nas ondas do rádio. jan. no ritual das trocas ou da comercialização.] Chamo isso de fetichismo.. dos foliões do Sairé ou dos cirandeiros em vários lugares do mundo no momento em que eles se apresentam nas suas localidades de origem – ou Somanlu./jun. os produtos do trabalho se tornam mercadorias. O que se caracteriza. nos moldes tratados por Karl Marx na sua definição de fetiche: A mercadoria é misteriosa simplesmente por encobrir as características sociais do próprio trabalho dos homens. tornando-a desprovida da aura do seu autor. poderíamos até deflagrar uma discussão para apocalípticos e integrados 10. portanto. 2005 69 . coisas sociais. É como se o objeto de arte perdesse sua alma. Ou nos tornaríamos eternos lunáticos ou nos enquadraríamos no contexto da aventura capitalista. como desprender essa reflexão do âmbito dos meios modernos que transportam os bens culturais.. Não há. a sua natureza cultural. Não é esse o propósito deste estudo. 1996. também. apresentando-as como características materiais e propriedades sociais inerentes aos produtos do trabalho. para o pensador alemão. olhares em dimensões planetárias. como ocorreu antes e como ocorre até hoje no capitalismo. hoje eles são transportados em alta velocidade e até de forma instantânea. ao refleti-la como relação social existente.

para a cidade de Parintins. jan. A mesma rede teve. nos souvenirs. nos jornais. Redes de TV do Pará e do Amazonas têm divulgado os dois eventos em transmissões ao vivo. por força de contrato previsto para se encerrar só em 2007. nas revistas. o direito exclusivo de transmitir e comercializar as imagens dos bumbás de Parintins. As festas populares atingem essa dimensão quando detêm um nível de profissionalização que atende aos interesses do mercado na forma de se apresentar e das relações comerciais. da Rede Calderaro de Comunicação (RCC). como se diz no jargão televisivo. cuja experiência com a mídia é mais longa. potenciais consumidores e eleitores. transmite ao vivo do Festival da Ciranda de Manacapuru. tornam-se eventos vistos por milhares de telespectadores. As festas que estudamos atingem uma dimensão desterritorizada a partir do momento em que são. espetáculos televisivos e produtos de consumo em vários lugares ao mesmo tempo. ano 5. Os negócios se concretizam de pessoa jurídica para pessoa jurídica. do dinheiro que movimentam e do poder político que passam a concentrar. n. em comerciais ou por meio de matérias jornalísticas./jun. também. porém. Afinal. Os produtores de TV precisam de imagens que justifiquem um show permanente. Desde 1999. nas fitas de vídeo. O deslocamento da organização da festa do âmbito da comunidade para o mundo da mídia (do qual a televisão é o principal agente) atiça interesses políticos e negócios de grande monta. A instantaneidade se constitui na principal características dos meios atuais. também. no 70 Somanlu.Mercado faz a festa na floresta ao vivo. A celebração do Sairé foi transferida recentemente de junho para setembro. o Amazonsat. 1. que escapam das mãos dos animadores culturais e políticos locais. na década de 1990. As disputas pelo controle da festa midiatizadas tornam-se inevitáveis em função da visibilidade social. Estão nos CDs. na programação das agências de viagens como itens de valor agregado de produtos turísticos. Incluem-se. A mesma emissora foi pioneira nas transmissões ao vivo. nos programas de TV e de rádio. há uma intensa mobilização dos agentes culturais na direção do Sairé de Alter do Chão e da Ciranda de Manacapuru. o “direito de arena” pertence. no bumbódromo. 2005 . nas capas de cadernos e nas agendas escolares. por cinco anos (1994-1999). Atualmente. Esse fenômeno é mais marcante no Boi-bumbá de Parintins. época em que banhistas procuram as praias ao redor de Alter do Chão para matar o calor escaldante da região. à TV A Crítica. Os patrocinadores exigem papéis (contratos e recibos) da burocracia contábil. canal UHF da Rede Amazônica de Televisão.

pela prefeitura. 2005 71 . pelos professores Maria do Perpétuo Socorro de Oliveira e José Silvestre do Nascimento e Souza. as cirandas estão vinculadas aos bairros onde se localizam as escolas das quais são originárias. que nas constantes rodopiadas exibem suas peças íntimas e. A ciranda de Manacapuru está longe de ser apenas “um bailado”. ano 5. onde organizaram vários grupos do bailado. Já estamos tomando as providências para que esses intervalos não ocorram. que o Sairé “é uma manifestação de caráter religioso e artístiSomanlu. uma vez que os cirandeiros acabam de se inserir nas transmissões ao vivo do canal Amazonsat: Eles (os técnicos da TV) disseram que não querem buracos (falta de atividades) no decorrer das apresentações. como a identificou Mário de Andrade por volta de 1927. ilustra essa abordagem. jan. 1. trata-se de uma dança sob música ao estilo do frevo pernambucano. ou apenas um “cordão amazônico”. eles desistem das transmissões. ambos com passagem pela cidade de Tefé. como a definiu Câmara Cascudo (1993. p. 143) afirma. baseado nos códices do padre João Daniel (1722-1976) denominados Tesouro descoberto no rio Amazonas. para que eles dêem retorno comercial e institucional aos patrocinadores. na década de 80. Não podemos perder a oportunidade de mostrar a nossa festa pela TV. Maria do Socorro Guimarães Silva. Paes Loureiro (1995./jun. As TV’s necessitam prender os telespectadores. as suas alegorias e fantasias que relembram às das escolas de samba cariocas e às dos bumbás de Parintins. para compor os três volumes de Danças dramáticas do Brasil (1982).Wilson Nogueira caso das transmissões ao vivo. Eles exigem muita movimentação. Os organizadores da ciranda são unânimes em assegurar que a brincadeira foi introduzida nas escolas pública de Manacapuru. n. O depoimento da presidente da ciranda Flor Matizada. Foi assim que os bumbás de Parintins se tornaram grandiosos . Em Manacapuru. A ciranda11 na sua versão amazônica incorporou elementos e movimentos das culturas correntes na região. A agregação de novos elementos e passos (coreografias) na brincadeira acentua-se com a criação do Festival da Ciranda. 231) ao descrevê-la em dicionário. onde se sobressai a sensualidade das cirandeiras. muita dança. O Sairé passa por processo idêntico. no qual cada grupo escolar esmerava-se para ganhar o título de campeão. Hoje. É por meio dela que conseguimos os recursos. na sua histórica viagem à Amazônia. mais recentemente. p. Se não for assim.

como vatapá. sensual e erótico ritmo e coreografia da lambada paraensebaiana. cânticos. umbigada.] culinária e na preparação de quitutes e quindins. cantores. 2005 . acarajé. clubes e danceterias. do carnaval dos morros cariocas e das escolas de sambas de Manaus e Belém. na apresentação de dois botos – o Boto Tucuxi e o Boto Cor-de-rosa12 – que encenam uma disputa pelo título de campeão com o desfile de alegorias. samba. orixás. cateretê. babalorixás. Hoje o Sairé se constitui. antropologia e sociologia brasileira. n. no saber de seus ilustres artistas. A procissão religiosa do Sairé nas ruas do vilarejo de Alter do Chão. pagode. p. de desenrolar simples. a influência e intercâmbio da cultura e valores dos negros africanos na cultura amazônica: Essa combinação tropicalista e eclética expressa-se através do lado afro-brasileiro através da [. a participação. bem como. Observa-se que os moradores de Alter do Chão. carimbó. intelectuais. bossa-nova. após releitura de clássicos da historiografia. no folclore dos bois-bumbás de Parintins. frevo.. ano 5. por força de estratégia de catequização. forró. do alucinante. capoeira. 107) credita. no mundo dos negócios e das empresas comerciais industriais. a partir do momento que se aproximaram de uma possível econo- 72 Somanlu.Mercado faz a festa na floresta co”. terreiros. Benchimol (1999. também. cientistas./jun. maracatu. cujas raízes estão fincadas na tradição indígena. Nunes Pereira. caruru. Os religiosos católicos transformaram. pais e mães-de-santo. baião. e que é realizada no “sairódromo”. registra o Sairé como originado de três fontes de emoção e de religiosidade: a do conquistador luso. fantasias e música tematizando a Amazônia e seus encantos. na religião com a presença do candomblé. e agora também. jan. em O Sairé e o marabaixo (1989). festas e ritmos de gafieiras.. toada. nas danças. transformou-se em acessório do espetáculo na versão que encena os botos. do escravo negro e do índio animista e curioso. os cantos do Sairé em cânticos de devoção cristã. azeite-de-dendê etc. que explodem nos salões. O historiador Mário Ypiranga Monteiro (2001) sustenta que a influência dos negros nas culturas amazônicas – dos índios e mestiços – não tem a consistência que lhe é atribuída nos eventos folclóricos por vários motivos: o número reduzido de escravos africanos devido à carência econômica da região e a permanente inimizade entre eles por interesses locais causadas pelo empreendimento capitalista. 1.

sindicados e intelectuais.Wilson Nogueira mia ancorada no turismo. Preliminarmente. com os lugares onde elas se realizam – isso levou. Modos de vida e festas populares tradicionais em qualquer lugar do planeta terão sempre espaço privilegiado na mídia13. que a televisão dos tempos neoliberais substituiu velhos agentes culturais e políticos. A chegada dos meios de comunicação modernos – em particular da televisão – na organização das festas populares suscita várias abordagens. que se perderam e se desacreditaram na lentidão da burocracia. e de instrumentos de sopro e percussão. se comparadas às modificações que sofreram por motivações religiosas – é pertinente considerarmos que o Sairé foi espetacularizado pelos missionários da fé cristã. O componente novo na circulação das culturas correntes na Amazônia é. p. a tendência é que fiquem supervalorizados devido aos interesses dos leitores. à reorganização das funções dos atores tradicionais que nelas atuam. ano 5. Uma delas diz respeito à evidência de um reordenamento das relações internas e externas de cada um dos eventos com o setor público. Ajustam-se mais rapidamente aos interesses do mercado. n. Quem investe em cultura popular na Amazônia está agregando à sua marca um produto conhecido em todo o planeta: a própria Amazônia. porém com efeitos diferenciados. As culturas correntes na Amazônia estão hoje no olho do furacão dos meios de comunicação modernos. espetacularizam o Sairé. podemos observar que as três festas estão absorvidas pelo mercado capitalista na forma de produtos destinados ao turismo e por isso vivem em processo acelerado de transformação. Mas. jan. comercializar e trocar experiências entre si. Através destes se articulavam para guerrear. que os primeiros habitantes da Amazônia mantinham uma enorme rede de comunicação constituída de rios e caminhos na floresta. também./jun. O problema se aprofunda ainda mais se considerarmos. como os partidos políticos. Os meios de comunicação alcançaram hoje a dimensão do tempo real e os impactos desse fenômeno alastram-se por todo o planeta. 1. transformando-o em valor agregado ao divertimento dos turistas que visitam as praias banhadas pelas águas verdes do rio Tapajós. com o setor privado. O resultado Somanlu. dos anunciantes. ouvintes e internautas por suas peculiaridades e. graças aos esforços da pesquisa científica. 50). por conseqüência. É a própria Amazônia uma marca fetichizada. Sabe-se hoje. 2005 73 . na Amazônia. a aceleração do transporte dos bens simbólicos em relação à noção de tempo e espaço das sociedades tradicionais. a meu ver. como a flauta e o trocano. telespectadores. como constata Canclini (1999. festejar.

O antropólogo mexicano está falando de povoados que margeiam os lagos de Pátzcuaro. cresce (dá lucros extraordinários) e se transforma. ano 5. Notas 1 Nestor García Canclini (1993. 2005 . acima de tudo. O que nos inquieta é que a massa crítica que se forma no interior das festas populares absorvidas pelo mercado precisa. para que não lhes sejam reservados apenas os papéis secundários na grande encenação para o mercado. O Boi-Bumbá de Parintins. Patamban e Ocumicho. Há. ente mercadológico que nasce (entra no mercado). Quando as festas populares alcançam níveis de complexidades desse porte. p. das idéias e das culturas às praticas de consumo. no centro do México. ainda que estas ganhem novos elementos e formas de expressão e visibilidade cultural. E mais: precisam. de capacidade organizativa para que as mudanças ocorram na medida das necessidades da produção simbólica de cada lugar. n. 13-14) refere-se à “região fortemente integrada ao desenvolvimento capitalista” e aquelas que “mantêm festas e feiras que apenas nos últimos anos começaram a receber turistas e produtos industrializados”. onde ele estudou as mudanças no artesanato e nas festas populares. espacializar e territorializar as festas populares. 1. focos de criticidade que identificam os impactos e engendram debates e atitudes que visam denominar. 74 Somanlu.Mercado faz a festa na floresta desse fenômeno foi o deslocamento do desempenho da cidadania da esfera pública. em cada uma delas. A prevalência desse aspecto sobre os demais institui uma visão verticalizada do produto. e não somente de acordo com os interesses dos agentes mercantis. jan./jun. o Sairé de Alter do Chão e a Ciranda de Manacapuru estão hoje no mercado. Isso não significa que essas festas fiquem menos comunitárias ou que estejam condenadas a se perder nas teias do estilo de vida dos globopolitanos14. que se autojustificam pelo consumo dos telespectadores. de poder de interação e intervenção na mesma proporção do dos mercadores de culturas. consolidando-se ou perdendo sua importância no mercado. os atores sociais dos lugares que as realizam precisam estar atentos aos desdobramentos nos quais vão se envolvendo. Tornaram-se alvos potenciais da mídia que caça turistas e patrocinadores interessados em intermediar com o mercado produtos simbólicos ou materiais. para obter eficácia no desempenho da sua função.

A multinacional Coca-Cola atesta um investimento de R$ 37 milhões no decorrer dos 11 anos de parceria com a festa dos bumbás. 1. n. 1997. quadra com arquibancada. Guerreiros Mura e Flor Matizada. 2 Somanlu. A partir de 1996. 4 A Festa do Sairé de Alter do Chão realizava-se no mês de janeiro. como opção de divertimento aos turistas que visitam as praias de Alter do Chão. em 16 de julho. O nome oficial da construção é Centro Educacional Desportivo Amazonino Mendes. segundo o Jornal Gazeta Mercantil Amazonas. segundo o Otavio Ianni (IANNI. o Governo do Estado comunicou que faria um investimento de R$ 6 milhões no festival. Nossa Senhora da Saúde. para abrigar as apresentações dos botos Tucuxi e Cor-de-Rosa. 32-33). criou-se o Festival de Cirandas. foi construído em 1997. a partir de 1999. O dinheiro foi empregado em infra-estrutura da cidade e na apresentação dos bumbás Garantido e Caprichoso. a 30 quilômetros da cidade de Santarém (PA). durante 39 anos. a 325 quilômetros de Manaus. 2005 75 . com realização na última semana de agosto. Manacapuru está localizada na margem direita do rio Solimões. a 80 quilômetros em linha reta de Manaus. pela Prefeitura de Santarém.Wilson Nogueira A desterritorialização é a denominação do deslocamento. A partir de 2004. os patrocinadores oficiais privados e públicos investiram R$ 28 milhões na realização do festival de bumbás de Parintins. Pode-se dizer que o encontro e o desencontro de culturas são constitutivos da grande aventura humana em diferentes níveis. como os do saber e do conhecimento técnico. passou a realizar-se em setembro. Parintins está localizada na margem direita do rio Amazonas./jun. ano 5. 9 Em 2001. por meio de aparato tecnológico. 8 O sairódromo. com a introdução da disputa entre o Boto Tucuxi e o Boto Cor-de-Rosa. 7 Arena no formato estilizado da cabeça de um boi onde são realizadas as apresentações dos grupos folclóricos em Parintins. 5 Os grupos cirandeiros de Manacapuru apresentavam-se no aniversário da cidade. ocorrerão no último fim de semana de junho. de culturas e línguas. Em 2004. inaugurado em 1988. para atender à conveniência dos agentes de turismo. nos três últimos dias de junho. 3 As apresentações dos bumbás Garantido e Caprichoso ocorreram. Participam três grupos: Tradicional. Depois transferiu-se para junho. juntamente com a festa da padroeira do vilarejo. jan. 6 Esse é um fenômeno não só relacionado ao advento das comunicações modernas. p. na margem direita do rio Tapajós. mercados e regimes de governo por entre fronteiras. e.

1995. 1994. Simão. Campinas: Papirus. Belo Horizonte: Itatiaia. Luiza Elayne Corrêa. Amazônia: olha-me pelos meus olhos. Monografia de graduação. na década de 80. ano 5. aqueles que acreditam que os meios de comunicação modernos colocam os bens culturais à disposição de todos. n. meios fluxos que se beneficiam do chamado processo de globalização. Lemos Daniela. ed. aqueles que não vêem salvação para os que se constituem em massa. Mário de. (Coleção Travessia do Século). 11 Câmara Cascudo (1993./jun. p. Marc. 2001. 2. 10 Referências ANDRADE.Mercado faz a festa na floresta Umberto Eco (1998) desenvolve esses conceitos ao fazer uma reflexão sobre o posicionamento otimista dos teóricos “integrados”. ASSAYAG. 2 e 3. Não lugares: introdução a uma antropologia de supermodernidade. jan. ó ciranda / vamos nós a cirandar / vamos dar meia volta / meia volta vamos dar / vamos dar outra meia e trocar de par”. Tomos 1. de roda. luz e pajelanças. vulgaríssima no Brasil e vinda de Portugal onde o bailado é de adultos. Danças dramáticas do Brasil. 2005 . Desportos e Turismo relacionou 121 festas populares para o catálogo de eventos turísticos no Amazonas. e dos pessimistas ‘apocalípticos’. A versão de Portugal tem a seguinte letra “ó ciranda. Dissertação de Mestrado em Marketing. 76 Somanlu. Paraíba: Universidade Federal da Paraíba. 13 A Secretaria de Estado da Educação. O Boi-bumbá de Parintins: cenários na pósmodernidade e sua inserção no marketing cultural. 231) define a ciranda como uma dança infantil. ASSAYAG. 1982. AZEVEDO. andanças. Boi-bumbá: festas. 2000. 1. 12 Boto Cor-de-Rosa é como se tornou conhecido o Boto-Vermelho no meio urbano por influência do documentário do oceanógrafo francês Jacques Custeau sobre a Amazônia. Manaus: Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Amazonas. AUGÉ. Rio de Janeiro: Funarte. 14 Termo utilizado pelo sociólogo Manuel Castells para designar “uma elite reduzida” de meios humanos.

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2005 .80 Somanlu. jan. ano 5. 1. n./jun.

sugere-se a verificação da disseminação desses atributos entre quatro conjuntos populacionais. e-mail: renanalbuquerque@hotmail. a partir do referencial teórico de Moscovici. subdivididos entre sexo e tempo de estada nas regiões. in Amazonas. representações sociais. in conjunction with the theories of Moscovici and environment psychology. social representations. Palavras-chave: meio ambiente rural. and suggested the verification of dissemination theses attributes in four populations groups. estudo qualitativo. was researched and answered a questionnaire about the disseminations of SR. Keywords: enviromental rural. Abstract This text analyses the social representations (SR) of the environment describing like semantics referential. Was utilized the method half-experimental of qualitative study in social psychology./jun. jan. em Manaus/AM. Somanlu. ano 5. Editor de opinião e capa do Jornal do Commercio. 2005 81 .Representações sociais das comunidades rurais amazônicas do conceito de ambientalismo ou preservação ambiental: os casos de Fátima e Livramento Renan Albuquerque Rodrigues* Resumo O trabalho propõe uma pesquisa exploratória de descrição dos atributos semânticos mais citados nas representações sociais do ambientalismo segundo moradores das comunidades rurais ribeirinhas de Nossa Senhora de Fátima e Nossa Senhora do Livramento. Servindo-se do modelo quase-experimental não probabilístico por cotas de estudo qualitativo em psicologia social.com. articulado à teoria da psicologia ambiental. n. subdivided in sex and time of resident of the regions. qualitative study. A population of the Manaus. * Especialista em Psicologia Social e Comunicação Empresarial. 1.

Nesse sentido. fez-se necessário uma pesquisa para se descrever quais as representações sociais correntes entre os comunitários no que tange ao meio ambiente. mas também do equilíbrio psicológico e espiritual do indiví- 82 Somanlu. foi desenvolvido o estudo aqui apresentado. jan. 2005 . que fossem exemplificadas as categorias de representações sociais erigidas ao longo do estudo que. ano 5. a relação homem versus natureza nas comunidades de Nossa Senhora de Fátima e Nossa Senhora de Livramento pôde ser compreendida como uma analogia baseada em interação e mutualidade. proposto sob a perspectiva de uma análise quase-experimental não probabilística casual simples3. A partir daí – para que fosse embasada tal descrição e trazido à baila exatamente o termo ecopsicologia – notou-se que esse conceito “é um campo de atuação que visa reconhecer a natureza como fator interveniente não só do equilíbrio físico. bem como a capacitação de moradores para ações ambientalistas... O projeto tem patrocínio do programa Petrobrás Ambiental1 e está sendo executado desde outubro de 2004 pela Associação dos Cientistas Sociais do Amazonas (ACISAM). 1. atualmente. Essa metodologia possibilitou. antes disso e para que essa atividade do “Água e Cidadania” fosse implementada./jun. Introdução O projeto “Água e Cidadania: por uma relação responsável entre homem e natureza” é uma ação que visa fortalecer a consciência do uso responsável dos recursos hídricos e contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos moradores das comunidades localizadas no igarapé do Tarumã-Mirim. Tendo como perspectiva de trabalho essa intervenção social estipulada. o “Água e Cidadania” está tendo como enfoque principal. priorizar e desenvolver2 atividades voltadas para o fortalecimento das organizações de base das referidas comunidades. Entretanto. em parceria com as associações de moradores das comunidades de Nossa Senhora de Fátima e Nossa Senhora do Livramento. no fim dos aportes teóricos de sustentação deste artigo. promoção da cidadania e valorização cultural do meio ambiente. veicula a correlação de poder entre grupos sociais como sendo esta um suporte básico às próprias representações sociais dos comunitários de Fátima e Livramento com o meio ambiente. A relação homem versus natureza à luz de uma metodologia em RS À luz da psicologia ambiental. em seu bojo. tendo em vista a vertente da ecopsicologia. n.Representações sociais das comunidades r urais.

de como um meio objetivo geral pode nutrir noções subjetivas de maneira particular nos indivíduos. 2003. tendo em vista análises oriundas da Teoria da Gestalt. 2005 83 . Assim. p. segundo a autora. É como o sujeito incorpora as suas experiências. RABINOVICH. as autoras serviram de esteio para se erigir a questão do ambiente (seja ele urbano ou rural) como um todo.Renan Albuquerque Rodrigues duo” (DANON. E é aí que se chama atenção para esse âmbito do trabalho. Ou seja. Assim. Tal como o exposto. foi proposta uma segunda questão. n. área que enfatiza a relação abstrata do eu com o meio. jan. como se temporaliza. fizeram-se notar as múltiplas formas de caracterização que a temática imprimiu no contexto coletivo. constitui-se como identidade. como se verificou no decorrer do trabalho. pois. como a meta foi discenir justamente a questão das representações sociais junto às comunidades de Fátima e Livramento. Sua identidade será como se espacializa. a partir daí. mas também na compilação de representações que sedimentam a mentalidade dos indivíduos do organismo social. houve a necessidade de se avançar no debate. 339). ano 5. tomando como base os juízos formados pelos próprios indivíduos e os anseios que se sucederam às necessidades deles para com o meio./jun. como constrói as narrativas de si próprio a partir desta espacialização e desta temporalização (TASSARA. da psicologia ambiental. E realmente assim se pôde compreender essa área de estudo. isso não foi o bastante para que se pudesse formar um maior entendimento sobre o objeto. foi possível notar que a compreensão das relações do homem com seu meio ambiente pôde ser delimitada via estudos voltados justamente para o campo das representações sociais. Além dessa possibilidade. a análise que deu suporte à vertente da psicologia ambiental também se formou a partir de uma interrelação de motes analíticos distintos: o psicológico e a percepção ambiental (ecológica). o sujeito sempre interpreta culturalmente e. Nesse âmbito. a natureza age não apenas na formação geo-estrutural da sociedade. 2005. conforme se salienta teoricamente por meio de Tassara e Rabinovich: A percepção ambiental é um fenômeno psicossocial. sobretu- Somanlu. para que fosse evidenciada a discussão. Não há leitura da objetividade que não seja ou não tenha sido compartilhada. 213-214). a preservação da natureza (ambiental) foi analisada como subtema concernente à vertente “ecologia”. Todavia. p. Desta feita. 1.

tomadas pela sociedade em determinada relação de 84 Somanlu. n. que vem se utilizando de ações lúdicoculturais direcionadas para os comunitários de Fátima e Livramento a partir de referenciais tanto das RS quanto da psicologia ambiental: A relativa ausência de teorias integradoras em Psicologia Ambiental pode ser considerada como uma conseqüência de não se levar em conta àquelas particularidades culturais. do diante da possibilidade de entendimento das próprias RS com a psicologia ambiental: Pesquisas de representações sociais são de particular importância para a disciplina (psicologia ambiental). fornecendo resultados promissores.. O que Moser defende é que existe a possibilidade das representações sociais (RS) darem alargamento de visão à psicologia ambiental. segundo ele. A dinâmica das relações pessoa-ambiente só pode ser compreendida através de estudos sistemáticos de representação social. Ou seja. Nesses termos. 2005 . ano 5. [. apud MOSER.. dão importante suporte aos estudos em psicologia ambiental e a reboque para a ecopsicologia. 2002. p. de estudos sobre atitudes e percepção para a avaliação de valores ambientais e seu contexto ideológico a fim de compreender o comportamento do indivíduo em um ambiente específico (MOSER. O autor trata de pôr em relevo as análises voltadas às representações sociais das populações rurais em geral. jan.Representações sociais das comunidades r urais. que..] A Psicologia Ambiental precisa efetuar uma correção de rota. 331). o autor afirma que o ato de descrever as RS de dada comunidade ou grupo populacional auxilia na compreensão das ações de conscientização ambiental que porventura possam ser executadas via políticas públicas ou parcerias público-privadas (PPP’s). Tentativas desse tipo têm sido realizadas com sucesso.. 1. em geral. Moser ressalta o alargamento das possibilidades que o aporte das representações sociais possibilita. p. Como “comportamento ecológico” o autor entende que são atitudes prómeio ambiente e pró-ecologia. 2003. como é o caso do projeto “Água e Cidadania”. 332). à teoria da psicologia ambiental../jun. como no caso das condições de comportamento ecológico (PORTINGA et al.

ano 5..Renan Albuquerque Rodrigues troca de referências subjetivas. no que concerne ao ambientalismo. valoração lingüística etc. dada a base descritivo-analítica na qual reside a raiz metodológica dessa formatação de categorias. foi considerada a possibilidade de estratificação na análise. que se completam nas fundamentações de base. mas que não se reduzem o se reduzem aos mesmos componentes cognitivos. n. relativo à construção interpretativa dos sujeitos enquanto indivíduos sociais que participam da realidade coletiva. com a integração das vertentes de representação social e psicologia ambiental. Da mesma forma. conceitos. Sobretudo. A meta da proposta não abarcou essa possibilidade. e c) categorização por atributos citados a partir das proposições emergentes de um grupo aleatório das populações. cuja meta atendeu às categorias que surgiram no levantamento quase-experimental casual simples4. ficou implícita a intenção de se avançar na pesquisa das formas de conhecimento que se manifestaram como elementos cognitivos (imagens. que demandaria Somanlu. teorias etc. cabe enfatizar que a proposta de análise nas comunidades rurais teve seu tratamento por meio do viés de Lourence Bardin (1997). Além do mais. 2005 85 . Postos de tal modo./jun. entendimento de mundo. de acordo com o que até este ponto foi estipulado. Moser acredita que tal “comportamento” pode ser verificado. Entretanto. ao se erigir a problemática das representações sociais dos ribeirinhos de Fátima e Livramento. Esse modelo de análise da autora é bastante usual em interpretações sobre cultura. jan. proporcionado pelos estudos sobre a construção da realidade comum do outro por meio vigente nas representações sociais. como é o caso dos estudos em RS. foram aqueles demonstrados pelas vertentes da teoria psicológica ambiental (como aspecto de análise subjetiva das formas. De forma alguma. E ainda conforme identificação de conteúdo das representações sociais e levantamento de categorias: a) entrevista. os aspectos das representações sociais que se pretendeu indicar. tornou-se evidente que a análise de fundo dos discursos em Bardin auxiliou de forma crucial no entendimento dos casos de Fátima e Livramento. b) associações livres por meio de análise do discurso. Sendo de tal forma. 1. ligada a pressupostos gestaltistas e de cunho ecológico) e outros compreendidos a partir do ideário cultural constituído na formação psicossocial dos coletivos. entretanto. foi inerente a verificação da transdisciplinaridade suscitada diante dessa perspectiva em voga. categorias. tendo em vista o discernimento sobre as duas teorias.). Assim. em sua maior ou menor amplitude.

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segmentação detalhada e subsídios canalizados de setores como a antropologia – o que não foi o caso neste trabalho. Até mesmo porque, levando-se em conta o universo em destaque, constituído por cerca de 2.000 famílias, optou-se por uma pesquisa de formato quase-experimental, porque ela abriu possibilidades para a não utilização de critérios de escolha. Esmiuçando essa vertente de estudo, a metodologia de suporte teve como objetivo servir de instrumentação para se destacar um grupo aleatório de moradores das comunidades. Daí, mediante observação, foram erigidos atributos para que se pudesse expandir a compreensão das representações sociais desse grupo, visando entender o funcionamento das relações homem/natureza em Fátima e Livramento de modo mais amplo possível. Por isso, levando em conta essas necessidades, e no que pesem as dicotomias inerentes ao sugerido modelo quase-experimental não-probabilístico acidental simples – escolhido para este trabalho – foi considerada apenas a cultura social dominante (sem estratificações para reclassificação) nas comunidades, tendo em vista auxiliar na pesquisa sobre o cotidiano multifacetado de interpretações psicossociais sobre o meio ambiente nas unidades rurais ribeirinhas do Tarumã-Mirim. O cerne do problema Diante da coleta de dados a partir das representações sociais de um grupo aleatório de moradores de Nossa Senhora de Fátima e Nossa Senhora do Livramento, pode-se constatar que, em primeiro plano, como atores sociais os comunitários vêm tendo a maior parte de suas experiências com o meio (natureza) pautada por correlações econômicas e de necessidade de trabalho. A funcionalidade da relação do homem com seu meio ambiente tem seu destaque mais importante naquilo que possibilita a subsistência das populações, no caso, as relações econômicas. Assim sendo, foi verificado que o homem, antes de tudo, atua em seu meio tendo como enfoque de interpretação causas e conseqüências monetárias. E, avançando nessa compreensão, foi determinante o entendimento dessa correlação econômica via representações em Fátima e Livramento para que se estipulasse aspectos intrínsecos que sedimentam o viés econômico em meio à problemática do ambientalismo. Para entender esse meio em seus aspectos intrínsecos, foi preciso levar em consideração que, sendo bastante rústico e guardando proporções de análise fundamentalmente alargadas, a perspectiva do viés das RS em Fátima e Livramento tenha
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sido primordial na desconstrução dos sujeitos, tendo em vista os papéis que eles exercem ao tomarem como base suas relações sociais para a utilização do espaço herdado da natureza, como ficou claro nos discursos. Ainda sobre essa categoria que foi erigida no processo de análise, a fundamentação econômica da relação homem/natureza acontece, em si mesma, via outra correlação, que é a do sentido da preservação. Esmiuçando o item, tem-se que é notória a importância do meio ambiente para os comunitários de Fátima e Livramento, entretanto o uso do meio para a sobrevivência coletiva faz com que as relações homem/natureza sejam arraigadas de interesses correlacionados. É preciso, entretanto, que se possa distinguir essa problemática sob a seguinte égide: a correlação é de sujeição, pois os comunitários utilizam o meio, de certa forma, para obter lucro (extrativismo, agricultura, queimada etc.). Todavia, sendo essa sujeição função sine qua non para a sobrevivência é quase que impossível de se determinar, de um momento para outro, uma mudança da forma de correlação entre homem e meio ambiente. Expliquemos melhor essa imbricada teia, surgida nas falas dos entrevistados tanto em Fátima quanto em Livramento5. Ficou evidente que a noção de ambientalismo como representação social para os comunitários existe por instrumentação da natureza para que dela se extraia a sobrevivência. Mas também foi notória a existência de uma espécie de círculo vicioso que faz com que esse tipo de mentalidade se multiplique, tanto em benefício quanto de forma maléfica aos comunitários. Em outras palavras, por círculo vicioso entende-se que seja a sujeição do aspecto ambiental à questão econômica. Entretanto, é preciso que se delimite que esta visão é oriunda de uma análise externa do problema. Levando a termo que os comunitários de Fátima e de Livramento interpretam essa sujeição como apenas um dos aspectos concernentes ao conceito ambientalismo, é importante que não se reduza a representação social do todo apenas a essa parte – apesar dela ter sido a mais veiculada nas entrevistas com as populações das comunidades rurais em destaque. Para que fosse eleita essa categoria de análise, foi estipulada, na qualificação das categorias, aquela mais relevante. Daí, notou-se que a categoria casual econômica, que possui duas vertentes em seu foco principal, foi a que mais surgiu nos discursos. Elencada como “categoria das necessidades econômicas de se preservar o meio ambiente”, ela foi analisada de tal forma que se tornou visível ser a relação homem

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e meio ambiente é de sujeição (FOUCAULT, 1979) e de simbolismo. Assim, ficou clara a montagem do tripé preservação, sujeição e simbolismo. Nesse âmbito, notou-se que, em primeiro plano, o meio ambiente, por si só, não vem dialogando tal qual um ser social com os coletivos que interferem em seu metabolismo. Desse ponto de vista, a tendência de uso/desuso do método de sujeição está sendo fortalecida diante das formas de poder entre homem e natureza e já tende a abastecer o sistema de influência correlacional indivíduo/meio ambiente. Em outras palavras, a sujeição da natureza por parte do homem vem acontecendo de forma indireta, via correlação simbólica. Nos discursos colhidos junto às comunidades, a clareza quanto a esse problema tornou-se iminente. Por dois fatores: 1) os moradores de Nossa Senhora de Fátima e Nossa Senhora do Livramento vêm ganhando mais senso de identificação cultural e histórica com sua terra com o passar do tempo; e 2) todavia, essa identificação não está ocorrendo de forma isolada, mas sim por conta da sujeição do meio ambiente às necessidades econômicas. Ainda tratando dessa questão, notou-se que, a partir da identificação com a terra, há um cuidado melhor para com a natureza, porém, esse cuidado mantém significados de fundo que necessitam ser examinados de maneira singular. Um dos tais cuidados de fundo, se assim forem reportados, por exemplo, é a compulsiva precisão de se explorar a terra – tendo em vista que ela foi identificada como pertencente ao próprio homem de Fátima e Livramento – para que se ganhe dinheiro com esse trabalho de manipulação. Aqui, diante desse contexto de correlação, temos que a categoria de identificação é subtraída para que, no âmbito geral, a categoria de sujeição econômica ganhe mais expressividade, por conta de sua variação ter sido mais iminente nos discursos. E, além do mais, por ter sido mais referendada pelos comunitários de Fátima e Livramento quando lhes foi questionada sobre as opiniões acerca do meio ambiente onde viviam. Essa categoria representativa deu mostras de que a estrutura interpretativa ligada ao meio ambiente teve sua recente formação coletiva cimentada com valores funcionalistas6, os quais, de forma alguma, corroboram de modo depreciativo na interpretação do conceito de ambientalismo junto aos comunitários de Fátima e Livramento. Contudo, essa categoria de correlação possibilitou a abertura para que novas análises mais abrangentes levem em consideração o processo de sujeição simbólica da “ética ambientalista” frente a um modus operandi econômico.

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Desta feita, note-se a opinião acerca do tema sujeição econômica da natureza por parte da sociedade:
O poder simbólico consiste em um poder exercido através do discurso, reconhecido pelos demais e legitimado devido à posição social de quem o profere. No entanto, somente recebe prestígio ou poder simbólico quem detém capital simbólico, ou é capaz de transformar alguma espécie de capital, como por exemplo, capital econômico, cultural ou social, em capital simbólico (BOURDIEU apud SMOLKA; GÓES; PINO, 1998, p. 218-238).

A passagem vem ao encontro da categoria que mais foi citada na pesquisa sobre representações sociais dos comunitários de Fátima e Livramento, a saber “ambientalismo”. E traz ainda o aporte da questão do prestígio via detenção do capital. Essa modalidade não foi discriminada diretamente, até mesmo porque só poderia ter aparecido mediante correlações, que não se evidenciaram no levantamento das categorias. Entretanto, ela foi delimitada por conta de seu conteúdo de fundo, que é o mais importante nas análises que têm como base Bardin. No que concerne à análise do conteúdo de fundo, a expectativa concentrou-se no simbolismo. E dentro desse contexto, em segundo plano verificou-se que essa categoria correlacionada inscreve-se no seio das representações sociais como um conteúdo intrínseco que influencia o conjunto das interpretações, sejam elas eu/ outro ou eu/natureza. O simbolismo pôde, ainda, dar acesso às interpretações sobre entendimentos ligados à possível sub-relação entre pobreza rural e degradação ambiental — tese já refutada por pesquisadores desse mesmo tema (WAQUIL; MARCUS; MATTOS, 2004). Nessa instância, foi necessário que se examinassem duas vertentes: 1) quanto mais pobre e desinformada, pode ser que mais uma população mantenha relações de afastamento com o meio ambiente, passando assim a degradar a natureza; 2) que riqueza ou pobreza, analisados por si só, não podem dar indicativos absolutos que reduzam a relação homem/meio ambiente a uma relação econômica em uma população rural (CAVENDISH, 1999 apud WAQUIL et al.). Desse modo, ao serem identificadas essas duas categorias como sendo as mais relevantes no levantamento das representações sociais do ambientalismo nas

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No primeiro caso. na pesquisa sobre as representações sociais do ambientalismo nas comunidades rurais ribeirinhas de Fátima e Livramento.. optou-se pelo agrupamento das categorias para que elas não fossem confrontadas no critério de seleção. n. “necessidade econômica” e “simbolismo para a não-degradação com o meio ambiente” foram as duas categorias que mais se destacaram. ano 5. por exemplo. a classificação no modelo casual simples teve como critério a escolha por citação dentro das entrevistas. 1. seria verificar o grau de disseminação das RS dentre comunitários de diferentes grupos sociais de Fátima e Livramento. Outra tarefa sugerida. Ou melhor. Considerações finais Em suma. avançar-se-ia de uma “análise quase-experimental casual simples” para uma “análise quase-experimental casual por cotas grupais”. por sua vez.Representações sociais das comunidades r urais. jan. caberia também verificar a influência de mitos ou lendas na formação das representações sociais do ambientalismo. Desta feita. destacou-se que o foco de análise das categorias emergidas diante das interpretações dos discursos das populações de Fátima e Livramento não pôde ser interpretado como um todo. 90 Somanlu. devido à delimitação que foi dada a este artigo. também são simbólicas). Desta feita. em segundo plano.. foram passíveis de identificação duas categorias de base e duas categorias de correlação. 1978). “sujeição de sobrevivência” e “identificação com o meio ambiente” se sobressaltaram no universo da pesquisa. 2005 . em Manaus./jun. Além dessa proposição. Assim. ficou clara a posição de que há trabalho ainda a ser feito quanto a esclarecimentos em relação à noção de ambientalismo. que comunidades pouco preservadas são aquelas onde há pouca influência de mitos e lendas (LÉVI-STRAUSS. Todavia. a importância primordial da pesquisa recaiu sobre as especificidades relatadas nas duas principais categorias de representações sociais levantadas no estudo e sustentadas com aportes teóricos: a) necessidade econômica (correlação de sujeição para sobrevivência) e b) simbolismo (identificação com o meio ambiente). de correlações. comunidades rurais de Nossa Senhora de Fátima e Nossa Senhora de Livramento. E sob a perspectiva da noção da correlação de categorias por conta da metodologia aplicada. tendo em vista a suposta noção de que a historicidade mítica da floresta e dos rios possui uma autofunção “protetora”. mas apenas por seu correlacionamento e suas categorias de sujeição (que.

1 Referências BARDIN.solaris.asp?Articolo=279>. Esse entendimento ocorreu partindo-se justamente da idéia de que a formação das representações sociais do ambientalismo em Fátima e Livramento ainda não se sedimentou devido às transformações sociais a que vêm sendo submetidas tais populações. atividades educacionais sobre o uso da terra e da água etc. atividade laboral ou qualquer que seja a preferência dos participantes. gincanas culturais sobre atuação pró-ambientalismo. 4 Ver nota 3.ª do Livramento. apesar de conceberem intrinsecamente a necessidade de preservação da natureza como premente. Lisboa: Edições 70. 6 Tendência de um grupo ou pessoa a se ajustar ao sistema em que vive por escolha ou necessidade. Somanlu. jan. que tem como meta destinar verbas a projetos ambientais em todo o Brasil que visam contribuir para o desenvolvimento da relação do homem rural com a natureza. n. Tais causas foram determinadas ao longo da pesquisa e pôde-se notar que a mais importante delas foi a causa econômica. Ecopsicologia . Lourence. Disponível: <http://www. 2 Tais como: seminários sobre o que é cidadania e extração responsável dos recursos naturais. no concernente à evolução espaço-temporal. 2005 91 . DANON. Essas causas sujeitam-nas a agir de modo tal que a questão do ambientalismo por vezes seja relegada ao segundo plano. sem distinção de raça. Notas O “Petrobrás Ambiental” é um programa social da estatal. S. S. 1. cor. que neste caso são as comunidades rurais ribeirinhas de N. 1977. também possuem causas externas. ano 5. 5 Verificar Anexo./jun. notou-se que essas populações. credo.Renan Albuquerque Rodrigues Como entendimento das prioridades que puderam ser analisadas mediante os discursos colhidos via análise de representações sociais do ambientalismo em Fátima e Livramento.ª de Fátima e N. Marcella. Análise de conteúdo.it/ indexprima. 3 Método em que são realizadas entrevistas diretas e individuais (gravadas ou escritas) com moradores do(s) local(ais).

MOSER. psicol. Sociol. Porto Alegre: Artmed. LÉVI-STRAUSS. também não deve ficar guardada”.. 2. L. WAQUIL. p. água em pneus. Perspectivas da Psicologia Ambiental. 2005 . v. Natal. Gabriel. 2. 2003. V. ISSN 1413-294X. abr. MATTOS.. Rural. Claude. Estud. ed. 8. jan. ). A. Elaine Pedreira. 339-340. Categoria ‘Trabalho’ (em Fátima). Pobreza rural e degradação ambiental: uma refutação da hipótese do círculo vicioso..Representações sociais das comunidades r urais. 2004. FOUCAULT. ed.. n. Anexo Trechos de alguns discursos de comunitários de Nossa Senhora de Fátima e Nossa Senhora do Livramento Questionamento: O que é ambientalismo? Categoria ‘Conscientização’. “Um dos problemas da falta de ambientalismo aqui em nossa região é a 92 Somanlu. São Paulo: Edições 70. psicol. Examinando a congruência pessoa-ambiente: o principal desafio para a Psicologia Ambiental. Rio de Janeiro: Edições Graal. p. (org.. Econ. Paulo D. v. 331-333. É não deixar vaso com água porque atrai doença. R. E costumamos usar muitas vasilhas para deixar apurar o suco do buriti. FINCO. A. BESSA. E eu não costumo deixar. 218-238. dos buritizais. v.. p. 317-340. 1978./jun. GÓES. J./jun. 8. mai/ago. A. ALVAREZ. p. “Ambientalismo é preservar o igarapé onde você mora. PINO. RÍO.. del. Aqui a gente vende vinho de buriti que colhe quando o rio está cheio ou seco. SMOLKA. Estud. Natal. Antonio Marques.. C. Rev. ano 5. com indicativos de ‘Identificação’ (em Fátima). Marcus V. 2. Campinas: Papipus Editora. n. 17. Claude. LÉVI-STRAUSS. O pensamento selvagem. Microfísica do poder. 1997. B. Michel. Mas a gente sabe que água parada. Estudos socioculturais da mente.. Eda Terezinha de Oliveira. 42. 1979. P. A. A constituição do sujeito: uma questão recorrente? In: WERTSCH. n. mai/ago. 1. Ely J. RABINOVICH. 1998. M. até ele virar vinho. n. Mito e significado. 2003. 2. TASSARA. ISSN 1413-294X.

/jun. Isso aqui onde nós estamos é uma área reservada para turistas. “Ambientalismo?! [. só cozinha. Aparecem muitas doenças hoje. Somanlu. Também faço farinha para vender. esta época está muito difícil para pescar de malhadeira agora. por exemplo (água do igarapé do Mari). Caça e mata o bicho para comer”. Quando tenho folga. compete com o animal. é onde nós moramos e por isso devemos preservar.Renan Albuquerque Rodrigues questão da matança ambiental e do afastamento da fauna. é ir para o mato.” Categoria ‘Lazer’. 2005 93 . “Hoje em dia as pessoas destroem o meio ambiente. Categoria ‘Trabalho’ com indicativos de ‘Identificação’ (em Fátima). para eles”. Essa água aí. O homem. você conhece? Agora minha idéia é de trabalhar na piscicultura”. com indicativos de ‘Trabalho’ (em Livramento). mas eu proibi todo mundo aqui em casa de desmatar. 1. Por isso eu estou criando peixes. porque eu planto orquídea e vendo em Manaus..] Eu moro aqui há 38 anos. ao povoar. n. jan. “Ambientalismo é tudo o que está ao nosso redor. Eu trato de galeânderas. por causa da competição entre espécies. Antes não era assim. meu lazer é plantar.. Categoria ‘Trabalho’ com indicativos de ‘Identificação’ (em Livramento). ano 5. a gente não toma mais dela.

acesso mais fácil a comunicações e a necessidade de entender esse mundo globalizado com abertura para a diversidade e liberdade cultural. the world does not go through a civilization shock. ano 5. communication. n. development. as the autor has demonstrated. Palavras-chave: globalização. agora invadidas por um acúmulo de informação. but diverse and plural human civilization that needs to be acknowledged all. in addition to an updating in morals and ethics. o mundo não vive um choque de civilizações. como demonstra o autor. * Formado em Economia do Desenvolvimento e Sociologia pela Universidade de Genebra e com PhD em História da Universidade de Paris 1. easier acess to communication and the need to understand this globalized world with opening towards cultural diversity and liberty. mas uma civilização humana diversa e plural. Pantheon-Sorbonne. Mesmo porque. 2005 95 . que precisa ser reconhecida. Abstract This article discusses the changes in the notion of space and time. 1. desenvolvimento. É atualmente o representante da ONU e do PNUD no Brasil./jun. além de uma atualização da moral e da ética. jan. Keywords: globalization. wich puts into check historical premises now invaded by a accumulation of information.O desafio ético de um desenvolvimento com diversidade Carlos Lopes* Resumo O presente artigo discute as mudanças na noção de espaço e tempo. Somanlu. More so. comunicação. que questionam premissas históricas.

e uma acentuação da polarização e heterogeneidade. A globalização é vista como um processo de riscos e oportunidades. As mudanças significativas na nossa noção de espaço e tempo questionam premissas históricas. As assimetrias que cria mudam os comportamentos e instituições e têm um impacto direto na vivência cultural. A adoção de políticas que respeitem a multi-identidade e multiculturalidade é a única abordagem sustentável de desenvolvimento. provocadas. não faz sentido. ano 5. ao mesmo tempo. A falta de preparação para enfrentar este admirável mundo novo pode resultar em formas novas de exclusão. É assim natural que os mecanismos de regulação reflitam estas prioridades assimétricas.. a que assistimos desamparados. acesso mais fácil a comunicações e uma revolução nos métodos quantitativos. pela grande mobilidade de capital. Esse é um cardápio complexo que obriga a refletir sobre a relação desenvolvimento e ética. e o caminho a seguir é o reconhecimento de uma dimensão singular a todas as manifestações de caráter 96 Somanlu. E assim floresce um crescente apelo a formas de cidadania global. Pretender que o seu locus se junte ao comércio e investimento. Contrariamente às teses sobre o choque de civilizações (HUTTINGTON. n. 1. nas outras formas de equilíbrio necessárias para expandir as oportunidades de todos. o mundo precisa é de reconhecer que não existem identidades puras. tensões palpáveis. fazendo-nos perder referências familiares e sentimentos confortáveis. A ética e sua releitura da moral podem ajudar a melhor definir o novo papel do desenvolvimento. O apelo à diversidade e o papel das imigrações contemporâneas têm de ser analisados com uma acuidade superior. agora invadidas por um acúmulo de informação. por exemplo. Vão-se gerando. 1996). Introdução Definida de forma vária. A globalização é um fenômeno multidimensional que se inscreve na internacionalização da economia mundial. caracterizada por desafios novos e fortes. desenhada em função de uma capacidade de inserção e aproveitamento da economia mundial../jun. enquanto se restringe a livre mobilidade da mãode-obra. já que tendem a privilegiar políticas macroeconômicas que obtenham uma adequada rentabilização e tributação do capital. Eles não garantem uma coerência na utilização dos preceitos de mercado. jan. bens e serviços. Estas deficiências repercutem nas formas de governabilidade dos problemas mundiais. finanças ou regimes macroeconômicos. 2005 . a transformação do mundo. provoca uma gravitação dos processes econômicos.O desafio ético de um desenvolvimento. sociais e culturais.

o grande Somanlu. Em vez da inspiração iluminista de uma sociedade mais integrada. Se a globalização é um processo de identificação das relações entre sociedades. repartindo os serviços de um Estado providência. O medo como conseqüência direta de uma distribuição desigual e de uma concentração de riqueza sem precedentes. Aliás. n. expansão do comércio ou maior intercâmbio entre os povos. Os debates recentes sobre a democracia representativa mostram que nem o sufrágio universal resolveu a questão dos direitos políticos e da plena cidadania. ou vantagens como a divulgação dos conhecimentos científicos. o alargamento da democracia para além dos eleitos cidadãos gregos da Antiguidade é um tema que ainda não se esgotou. 2003). ou das promessas do socialismo ou da social democracia de uma sociedade mais igualitária. cheia de acontecimentos únicos e marcantes. então temos que admitir que isso acontece há milhares de anos e já nos trouxe: dissabores históricos como o tráfico de escravos. Em termos de conteúdo universal. 2004). definido como uma constante expansão das oportunidades dos indivíduos e sociedades. O que nos faz ter a sensação de vivermos um momento paradigmático é o fato do poder enorme de destruição já não ser privilégio dos mais fortes.Car los Lopes identitário (RIBEIRO. ela se esconde em políticas de intolerância glorificadoras de tradições herdadas. estamos perante uma civilização do medo. Hoje. os dilemas das sociedades humanas muitas vezes são repetitivos. O desenvolvimento humano. ano 5. 2005 97 . O terrorismo contemporâneo introduziu o medo nas sociedades ocidentais e universalizou a insegurança humana para os territórios protegidos: cidades. Estudos recentes na Itália e Inglaterra mostram que existem muitas semelhanças entre a época atual e o final do século XIX1. mas muita dessa verdade também é ofuscada por uma sobrevalorização da diferença em relação a épocas passadas. jan./jun. A resistência xenófoba à diversidade cultural sustentou-se no passado pela defesa da autenticidade e do caráter nacional. 1. ou países ricos. Há um pouco de verdade nessa percepção. A proximidade que todos temos do tempo dos nossos avós e bisavós é bem maior do que normalmente admitimos (BURKE. merece e precisa da defesa das liberdades culturais de todos e de cada indivíduo. 1 Qual o legado histórico Os seres humanos inteligentes sempre acham que vivem numa época singular. subúrbios de classe média. Por exemplo. ou versões ortodoxas de catequeses religiosas.

com mais ou menos Estado. uma discussão dos princípios éticos das sociedades: a volta de Deus. 98 Somanlu. ano 5. Os grandes momentos da História estão marcados precisamente por terem trazido. 2002)2. 2003). serviram de árbitros para a construção desta arquitetura que tinha na Declaração Universal dos Direitos Humanos a sua página ética e moral. Num mundo em que qualquer grupúsculo pode se armar até os dentes e obter informações com intenções nocivas e letais. mais do que acontecimentos de monta. A mudança moral por sua vez nos coloca perante a necessidade de definir as causas e fatores que a determinam. segundo vários modelos. O projeto civilizatório ocidental não conseguiu. nem consegue. consagrados por uma panóplia de instrumentos jurídicos. que é saber se existe um progresso moral das sociedades (VASQUEZ. Estas três concepções procuram a moral fora do homem concreto. 1. do homem – isto na sua dimensão eterna e imutável de humanismo – ou da natureza. domar a revolta dos que não têm nada a perder e se refugiam na intolerância e recusa dos valores democráticos.. A moral muda e avança conforme as sociedades se desenvolvem (VASQUEZ. justamente. como fonte a-histórica da moral./jun.O desafio ético de um desenvolvimento. em relação à questão dos desejos e ao lado contemplativo da realidade humana (GIANETTI. os agentes reguladores de uma governabilidade mundial. O princípio de mercado orientou as receitas desenvolvimentistas. assumindo. A globalização causou – isso mesmo – uma crise de valores! Questionar os valores faz parte do percurso da humanidade. há necessidade de entender qual o desafio moral que nos levou a esta situação? Não estará a nossa crise de segurança relacionada com a nossa crise de solidariedade? Não estarão os nossos princípios de liberdades individuais distorcidos no básico respeito à diferença? Onde se coloca o limite ao individual? Serão estas questões realmente novas? A evolução do conceito de desenvolvimento tem muito a ver com estas interrogações. Também neste quesito a originalidade em relação ao legado histórico é diminuta. histórico e social. erro do projeto iluminista foi dar uma importância desmesurada à transformação e à conquista do mundo objetivo. Os organismos internacionais. O princípio da soberania serviu de base para as relações internacionais.. 2003). que o comportamento moral se encontra no homem desde que existe. entendemos e colocamos a discussão no trilho certo. Durante os últimos sessenta anos criaram-se expectativas enormes de propagação de uma regulação internacional baseada em princípios de direito. n. O recuo histórico é o primeiro passo: através deste. 2005 . jan.

Desprezível porque não se justifica que. ou o direito de resposta militar. A telescopagem histórica é tanto compreensível como desprezível. forte proteção aos direitos privados (incluindo os intelectuais) e uma regulação eficaz do mercado – sobretudo nas áreas financeiras. a liberalização do comércio internacional e dos investimentos. como se viu recentemente com a crise do Iraque. justamente. Um livro recente (CHANG. antes as adotaram à medida que se foram desenvolvendo. 2003). tal como um Banco Central independente. 1. Até que ponto não se está escondendo a receita do sucesso. 2003) apresenta uma argumentação interessante. é necessária uma boa governança que se caracteriza por uma democracia liberal. Para além destas políticas. Compreensível na medida em que com a integração dos debates globais e a velocidade da informação se tem muitas vezes a impressão de que todas as sociedades vivem no mesmo diapasão institucional e. os países em desenvolvimento sofreram. Estas recomendações estreitaram a margem de manobra dos países e diminuíram as opções de política pública que os Estados dependentes podem usar. ano 5. de uma sociedade. um judiciário independente. n. se chute a escada depois de subir. como metaforicamente classifica Chang a atitude arrogante do establishment. O fator paradigmático por detrás das manchetes dos noticiários sobre estes assuntos é a emergência de um debate ético e de teor moralista. também. Até que ponto se esquece o legado histórico da globalização em nome. O que muitas vezes se assume. de princípios éticos. uma série de pressões por parte do establishment econômico mundial. a não agressão.Car los Lopes O mundo foi mudando e hoje se interrogam princípios. com o grau de sofisticação de análise disponível. jan./jun. erradamente. para adotarem “boas políticas”. nas últimas décadas. Só que a moral assim vista tem ângulos tão opostos como a polarização provocada pela globalização. Entre estas políticas figuram políticas macroeconômicas restritivas. O que Chang demonstra minuciosamente é que tal se trata de um segredo de polichinelo: os países ricos não se enriqueceram com tais instituições ou políticas. 2005 99 . como o da soberania. dita do conhecimento? Somanlu. por conseqüência. uma boa burocracia. através da utilização de uma força reguladora internacional? (CHANG. Segundo Chang. a privatização e a desregulamentação. é que os países desenvolvidos se desenvolveram graças a essas características.

ano 5. 2004). Presume-se. Mas. está em moda propor às corporações e entidades públicas uma gestão do conhecimento. n. O conhecimento sobrevalorizado corresponde aos indivíduos e sociedades com maior poder 100 Somanlu. Na realidade. como parece ser hoje o foco. por obsolescência ou desgaste). 1. jan. mesmo que não codificada. As indústrias criativas são uma outra. o mesmo não acontece. o segundo é o resultado da acumulação de atos criativos de estruturação das idéias. ou o industrial no fordismo. uma vez mais. num mercado com regras próprias que delimitam o acesso em função de direitos privados de propriedade intelectual. graças à evolução das tecnologias de informação e comunicação. o saber tinha muito mais a ver com o ser do que com o ter e fazer. para responder a uma questão ou resolver um problema. enquanto o capital fixo se desvaloriza com o tempo (ou seja. Não é. Por exemplo./jun. pois. Durante muito tempo. O âmbito desta proposição é enorme. Enquanto o primeiro se relaciona com a dimensão criativa. a capacidade produtiva se deprecia. mas estes são hoje restringidos por regras sólidas de estruturação do acesso. Isto obriga a uma revisão da teoria do valor. Conhecimento pode assim ser visto quer como fluxo ou atividade. de admirar que o conhecimento se tenha transformado. quer como estoque dos produtos do fluxo. 2 Uma sociedade do conhecimento ou da ignorância? Podemos definir conhecimento como a organização da informação para responder a questões ou solucionar problemas.. O conhecimento implica capacidade para organizar a informação disponível. E aqui está o paradoxo: nunca circularam tanto a informação e o conhecimento no mundo. A deslocação do alto valor agregado do colarinho azul para o colarinho branco é a metáfora para a economia do conhecimento. Os logiciais são uma forma de segmentação de Mercado aos conhecimentos. Aprendizagem seria assim o acesso ao conhecimento (MURTEIRA. necessariamente.. que existe um nivelamento internacional e institucional que permitiria utilizar as mesmas técnicas de forma estandardizada. Assim. o conhecimento pode ser analisado em tempo determinado. a assimetria no acesso à informação tem repercussões na valorização do conhecimento. com o conhecimento.O desafio ético de um desenvolvimento. 2005 . Mas esta metáfora tem de ser cautelosa. Os inovadores do virtual são hoje o equivalente ao cambista no mercantilismo. A sua acumulação aumenta o valor. A natureza do conhecimento científico é uma demonstração desta concentração. tal como o investimento no chamado capital fixo.

Num estudo sobre o futuro do milênio. 2005 101 . jan. aos indivíduos e sociedades com fraco acesso à divulgação. cirurgia restaurativa do cérebro e dos olhos. então a forma como se organiza o acesso. evidentemente./jun. uma idêntica expansão das liberdades. 2004). Duas correntes ganharam força na tentativa de estabelecer os parâmetros da contribuição do conhecimento para o desenvolvimento: as teorias sobre o capital humano e organizacional e as relativas ao capital social. Se desenvolvimento humano tem a ver com a expansão de oportunidades. ano 5. A fronteira dos conhecimentos entre estes grupos e uma maioria de marginalizados será tão grande que. Sem querer entrar aqui no debate polêmico relativo a estas teorias. 2003) concluiu que a maioria das pessoas não tem idéia da velocidade dos avanços na ciência e tecnologia. demonstra que quanto mais se sabe mais se pode ignorar o outrem. falando-se agora de capital fixo não incorporado. a provocada pela divisão digital. O poder e a riqueza podem corroer esta interface. portanto. para aumentar a longevidade. inteligência artificial e ciências cognitivas terão progressos espetaculares nos próximos 25 anos. A produtividade de indivíduos e de grupos dominadores destas tecnologias será tão rápida que vai necessitar de novas interpretações éticas e morais. ou fatores residuais não diretamente mensuráveis. já o subvalorizado. 1. o pensamento econômico referia-se a bens tangíveis como terra. um grupo de cientistas (GLENN. isolados de várias formas de participação. interessa reter que a questão do conhecimento muda radicalmente o nosso entendimento de como conceber desenvolvimento. como explica Sen (2002). ao mesmo tempo em que se reconhece a sua centralidade (MURTEIRA. biotecnologia. o que pressupõe. enquanto uns estarão lidando com biométrica. n. outros continuarão a lutar pela sobrevivência. Áreas como a nanotecnologia. mais do que qualquer outra dimensão. A dimensão polarizante do conhecimento. capital e trabalho. O tratamento da evolução técnica e tecnológica perturbaram esta tríade. Deve-se olhar com cuidado a interface entre o negócio de jornalismo e a ética de reportar.Car los Lopes econômico. incluindo. para tentar captar o conhecimento. Quando antes se falava em fatores produtivos. Existe um fenômeno chamado Somanlu. A análise defronta-se de chofre com a intangibilidade de mensuração do conhecimento. Uma boa demonstração disso mesmo é a forma como a mídia está regulada. a divulgação e a partilha de conhecimentos é crucial.

caracteriza-se por laços de afetividade. 2003). Por vezes.. Muitas vezes. n. O Ibope passa a ser mais importante que o conteúdo. e a Assembléia Geral ou o Conselho de Segurança – órgãos deliberativos com poder desigual./jun.. o que dificilmente se coaduna com as tomadas de posição. são espontâneas. com múltiplas agências e opiniões. cinema. Mesmo acompanhando o raciocínio de Weber. televisão. segundo o qual as comunidades tendem a criar regras de racionalidade utilitária. regulamentação diplomática ou práticas correntes. As escolhas diminuem. a expressão comunidade internacional é usada para projetar antropomorficamente uma entidade imaginária por detrás daquilo que se pensa ser um consenso ou a opinião preponderante sobre determinado tema (CRAVINHO. que se presta a comunidade internacional.O desafio ético de um desenvolvimento. assim. por natureza. merchandising etc. 2002). Essa ignorância moral só pode ser corrigida através de princípios éticos comuns. 1.) que é incompatível com a ética jornalística como princípio estruturante (AULETTA. O que é? Quem define seu conteúdo e prioridades? Quem decide quem é membro ou excluído? Na mídia. em vez das afetivas. fica difícil imaginar que uma tal entidade internacional coesa exista. da opinião de alguns países com influência mundial. esta mesma subdividida entre o seu Secretariado. As concentrações do conhecimento e da informação permitem a grandes conglomerados decidir sobre o que divulgar. jan. jornal. baseadas na idoneidade. Outras vezes refere-se pura e simplesmente à opinião de um grupo majoritário de países. A idéia de comunidade. CD. paradoxalmente. apenas. definida por Max Weber. Ela deveria reger-se por comportamentos equivalentes à norma 102 Somanlu. é o resultado de um desdém por certo tipo de participação e conhecimento. Se existisse uma sociedade internacional ela teria regras como as do direito internacional. DVD. 2005 . sinergia que consiste em associar a mídia que chega ao indivíduo a toda uma cadeia de relações de dependência que permitem às mesmas autoridades decidir sobre a publicidade num veículo de mídia sobre o produto de outro (revista. normalmente sobre conflitos. As comunidades. refere-se a uma resolução ou tomada de posição das Nações Unidas. ouve-se muito falar de comunidade internacional. 3 Que é comunidade internacional? Em nome de princípios comuns. trata-se. para quem e a que custo: um mercado segmentado que. em sociedades. transformando-se. ano 5. Uma cultura de mercado substitui uma cultura de notícias.

1. À medida que os outros vão sendo poupados dos custos da manutenção da estabilidade (embora tirem partido dela). que visam à redução do fosso entre ricos e pobres. Em ambos os casos. tanto do ponto vista da segurança humana (a sociedade) como do da segurança pública (o indivíduo). Hoje em dia. por conseqüência. Até 2015 – a data fetiche de referida para atingir os Objetivos do Milênio – poderá se introduzir uma previsibilidade que talvez permita uma nova segurança humana e pública. Definiu-se um conjunto de objetivos.Car los Lopes social com princípios idênticos. numa rodada histórica. a previsibilidade está seriamente ameaçada./jun. sob a égide das Nações Unidas. Esta agenda visa emprestar um sangue novo. Essas conferências atingiram seu ápice em 2000 quando. sendo que o mais importante deles tem a ver com a preservação da vida e do bem-estar. mas pode também ser objeto de contenda pelas mesmas potências (CRAVINHO. digamos os Estados Unidos. 4 Que legitimidade emergirá no futuro próximo? No campo das redes internacionais uma das teses mais interessantes se inspira no argumento de que a uma ordem política internacional se sobrepõe outra. 2005 103 . ano 5. Trata-se de uma proposta moral. 2002). Uma das distinções entre a anarquia e a sociedade tem a ver com essa previsibilidade (CRAVINHO. Seguindo-se uma análise neo-realista chega-se à conclusão de que a estabilidade hegemônica. requer uma releitura do papel da estrutura mais próxima de sociedade internacional: as Nações Unidas. Para tanto. Para a última. inúmeras Conferências globais. n. uma nova bandeira ao trabalho das Nações Unidas. interessa uma estabilidade que é oferecida pelo investimento de um poder hegemônico. Caso contrário. Nas últimas décadas. 2002). jan. como pauta para esse convívio. instala-se uma certa crise. de cariz econômico. Nada impede que o conceito de estabilidade hegemônica – Somanlu. começa por interessar as potências mais fortes. tentaram mapear os déficits de previsibilidade: nas questões ambientais. não haveria incentivos para se cumprir normas e ter expectativas de comportamento por parte de outros. esta insegurança altera as regras de convívio social e. a Assembléia do Milênio aprovou uma declaração que define parâmetros de convívio para o futuro. torna-se necessário entender em que bases se legitimarão as novas hegemonias. mas que beneficia muitos outros. que é de natureza liberal. científicas e humanas. assim definida. que será julgada em termos morais.

permitirá construir discursos contra-hegemônicos a uma certa forma de globalização excludente. 2005 . que para além de força material ou militar.O desafio ético de um desenvolvimento. para cuja articulação a rede é fundamental. o combate ao efeito de estufa ou desmatamento das florestas. aqui tradicionalmente definida. controle de mercados e vantagens competitivas na produção de bens. ano 5. hegemonia pode ser definida como “o conjunto de pressões que define os limites aceitáveis para decisões autônomas e que produz. as novas formas de encarar o papel do gênero em relação ao trabalho e poder. por default. centrada na economia. nesta definição. como nos lembra Lins Ribeiro (2003). 104 Somanlu. jan. exerce-se uma certa hegemonia e vice-versa. 2002). O mundo está vivenciando um maremoto através dessas novas formas de hegemonia e legitimação. mas também uma nova ética. Estamos perante uma evolução do conceito de estabilidade hegemônica.. para incluir também conhecimento. As comunidades. Desde logo./jun. 1. os limites aceitáveis da exclusão. essas comunidades legitimam-se. tal como uma cibercultura está despertando uma ciber-ética. para algo substancialmente mais vasto e poderoso. acesso a capital e crédito. é possível detectar que a segmentação do acesso ao conhecimento delimita o grau de participação de uns e outros nas redes normativas que definem os conteúdos hegemônicos. podem se constituir em blocos de interesses epistêmicos4 a jusante da hegemonia. Só que estabilidade passaria assim a ter o conhecimento como centro. padrões repetidos de comportamento no plano internacional” (CRAVINHO. São elas que vão definir as fronteiras demográficas. 2002). Uma vez definidas novas normas. fundamentados em redes normativas – que não se reduzem necessariamente apenas à influência de Estados. n. por conseguinte.. não só uma nova arquitetura social mundial. O conceito pode ser alargado muito além das matérias-primas. mais do que a “comunidade internacional”. Para entender estes desafios é necessário ultrapassar a visão tradicional do imperialismo. segurança ou normas internacionais de comportamento (CRAVINHO. desta feita. introduzido por Charles Kindleberger3 para explicar a depressão econômica dos anos 30 – possa servir para revisar a própria globalização. A Internet potencia estas novas redes normativas e cria. Segundo este autor. existem hegemonias baseadas em corpos de idéias e de conhecimentos. a luta pelo acesso à água potável ou a definição de luta contra o terror. Na linha do alargamento do conceito. Onde há estabilidade. só o reconhecimento de novas cosmopolíticas. Está implícita.

fundou-se no Direito. para pior. e a homogeneidade de comportamentos sociais. por acharem que é uma demonstração pelos cidadãos da falta de entusiasmo para com o papel do Estado (BIGNOTTO. Definir ética é um passatempo filosófico importante que ocupou Aristóteles. da construção de valores de interesse público e tradições de humanismo cívico (BIGNOTTO. Desgastadas pela superexposição dos métodos quantitativos introduzidos pela sociologia americana. Todos precisamos estar conscientes disso. A República. o entendimento sobre os valores democráticos. jan. 2005 105 . ano 5. As elites souberam operar a transformação através do alargamento da participação. 2002). exceto quando se trata do somatório de vários interesses pessoais. Não é de bom tom falar de elite. exceto através da valorização da sociedade do espetáculo. ética pode ser definida como estudo dos limites entre o certo e o errado. 6 Que quadro ético se esboça? Do grego ethos. n. porque isolam a defesa do bem coletivo público. Somanlu. O culto à celebridade camufla a influência midiática na construção de novas formas de aculturação e simbologia. A reivindicação de espaço é constante. tem uma liderança natural nos processos de transformação. O papel da elite serviu de sustentáculo para a transformação operada pelo republicanismo. Com o controle do conhecimento e de redes normativas. 1. Mas as formas aglutinadoras de identidade nacional foram seriamente abaladas com um conjunto de desenvolvimentos políticos que mudaram. A distinção entre público e privado ficou mais tênue. que legitimarão essas escolhas. Estes desenvolvimentos são complicados. Max Weber. as elites jogam a defesa enquanto grupo./jun. para além do seu lugar funcional.Car los Lopes 5 Que papel para as elites no mundo de hoje? A elite é um grupo que. portadora dos valores de integração cidadã e de laicização do Estado. obrigações e valores morais de conduta coletiva. 2002). as elites poderão definir os novos valores morais. Karl Marx e muitos mais. Os novos liberais celebram a apatia política. dos costumes. Os pós-modernos acham que se chegou mesmo ao fim da política como terreno predileto de decisão. A pressão de novos movimentos e atores sociais criou uma sociedade civil ativa e participante.

do seu valor. ano 5. requer. O pensamento aristotélico gira em volta das escolhas e da necessidade de deliberar para que estas se processem. Princípios contrários à lógica marxista foram defendidos por Weber. jan. Como todos os atos morais pressupõem a necessidade de escolha. a ética teoriza o comportamento moral dos homens em sociedade. portanto. ou seja.O desafio ético de um desenvolvimento. para se ser feliz.. usufruir. diversidade e variedade: O que nela se afirma sobre a natureza ou fundamento das normas morais deve valer para a moral da sociedade grega. segundo o qual a ética protestante era a principal responsável pelo desenvolvimento capitalista de certos países. ou para a moral que vigora de fato numa comunidade humana moderna. 2003). n. fez-se apelo à ética janaísta do cultivo individual para explicar o boom indiano (MOHANTY. O que seria ético nem sempre seria o preferido pela lógica capitalista. 2003). estava-se a referir à noção de valor na sua dimensão material. A existência de uma ética própria serve para aumentar o sentido de comunidade e de auto- 106 Somanlu. e ter prazer (CHALITA. Mais recentemente. É isso que assegura o seu caráter teórico e evita a redução a uma disciplina normativa ou pragmática (VASQUEZ. uma moral igualmente segmentada e. Logo. por natureza. para além de possuir. É no de deliberar que se exercem as escolhas éticas. porque não. A essência do pensamento referencial de Aristóteles em relação à ética é a capacidade de buscar incessantemente o bem comum na base da virtude e excelência. Na realidade. Depois. a reorientação da estabilidade hegemônica. “Ter de escolher supõe. que preferimos o mais valioso ao menos valioso moralmente” (VASQUEZ. 2003). assimétrica. o desenvolvimento é o resultado de muitos fatores. E é por essa razão que precisamos constantemente atualizar nossas noções sobre a moral. Quando Marx se referia ao fetichismo da mercadoria. através de novas redes de influência. se disse o mesmo de Confucius para justificar o espetacular desempenho da Àsia do Sudeste e China. 1. A ética racionaliza uma experiência humana na sua totalidade./jun. Nós avaliamos as escolhas em termos axiológicos. mas igualmente ao papel desmembrador do capitalismo nas escolhas morais. 2005 . 2000). preciso entender que a segmentação do conhecimento.. Ou seja. temos de entender por que o mundo de hoje assiste a determinadas escolhas. são necessárias três realizações: possuir bens materiais.

6 Os desafios da diversidade e a liberdade cultural As reivindicações de reconhecimento e igualdade de diferentes grupos étnicos. fatores entre os mais valorizados na capacitação dos indivíduos. polarizar comunidades e nações inteiras./jun. 2005 107 . As grandes religiões universalistas.000 grupos étnicos vivem em aproximadamente 200 países. n.Car los Lopes estima. que provocou uma auto-ética específica de cada um. religiosos e lingüísticos compreendem uma das questões mais urgentes que afetam a estabilidade internacional e o desenvolvimento humano no século XXI (PNUD. Em tempos de imprevisibilidade. as lutas de hoje são mesmo contra poderes hegemônicos de vários campeonatos. 2004). Mas nenhuma sociedade está imune aos ventos da mudança provocados pelas novas formas de protesto e cidadania. não podem mais.5 As políticas de identidade podem. Mas existem sempre variações no discurso ético de qualquer sociedade. há. Um sétimo da população mundial – cerca de 900 milhões de pessoas – enfrenta uma ou outra forma de discriminação por causa da sua identidade étnica. pelo menos. jan. referências éticas importantes. um grupo étnico ou religioso minoritário substancial. aos grupos étnicos de África aos imigrantes da Europa Ocidental. no mundo contemporâneo. Onde estes tiverem espaço para o fazer está em atividade um tremor de terra. semeando o ódio e ameaçando a paz e o desenvolvimento. ano 5. Estas se têm exacerbado com a globalização. racial ou religiosa. Os grupos étnicos e religiosos excluídos pela sociedade mais ampla ou por ela denegridos estão a reagir através do ativismo. muitas pessoas estão atualmente a mobilizar-se segundo linhas Somanlu. funcionar na base de interpretações centralizadas de clérigos. Dos povos indígenas da América Latina às minorias religiosas do Sudeste Asiático e às minorias dos Balcãs. Enquanto nas sociedades ocidentais a tendência vai ser de uma individualização tamanha. 1. aos Xiitas. Em dois de cada três países. Ao contrário do que as notícias nos possam transmitir. A concentração no mais importante pode ofuscar outras redes contra-hegemônicas menos visíveis ou significativas. Nem mesmo a Arábia Saudita. nestas circunstâncias. mais de 5. o recurso à discussão ética é sinal de valorização e auto-estima. instituições e sociedades. aos Sunitas e aos Curdos do Iraque. No mundo de hoje. em muitas outras regiões do mundo a defesa da tradição vaise erguer em barreira contra essa possibilidade. representando 10 por cento da população ou mais.

outra área importante de diversidade e liberdade cultural diz respeito aos bens culturais. que cria. sem comprometer o seu empenho ou a sua lealdade para com os seus países de recente adoção – dizem os autores. citado no Relatório do Desenvolvimento Humano (PNUD. querem e devem ser capazes de continuar envolvidos com os seus países de origem.. um eleitorado que apóia as exigências de reconhecimento cultural. símbolos e estilos de vida e são parte intrínseca da identidade da comunidade que os produz” – dizem os autores./jun. Este fenômeno deve-se a muitos fatores convergentes. • O ritmo acelerado da migração internacional. as revoluções das telecomunicações e dos transportes tornaram possível aos imigrantes manter simultaneamente duplas ou até múltiplas identidades culturais e diferentes interesses. passando de 14 para 35 milhões. 2004). O número de imigrantes da Ásia. a estabilidade e uma governação democrática. raciais e culturais. 1. da Universidade de Maryland.O desafio ético de um desenvolvimento. étnicas. que criam novas redes e alianças. Defendem que os países que acolhem populações imigrantes precisam de se adaptar à diversidade e de introduzir novas políticas de reconhecimento cultural em vez de apostarem na assimilação. Hoje. religiosas. os imigrantes podem. que deu aos grupos excluídos mais espaço político e mais opções para protestos baseados em razões de queixa históricas. jan. A América do Norte testemunhou um influxo ainda maior. • Os progressos da globalização e da comunicação. mas também o papel transformador da tecnologia: em todo o mundo. 2005 .. O que distingue este fenômeno dos surtos migratórios dos séculos anteriores são não só os números elevados. Segundo um estudo do projeto Minorias em Risco. que defendem exceções para os 108 Somanlu. entre os quais: • A disseminação da democracia. 2004). A liberdade é tanto uma necessidade para o desenvolvimento humano como para a democracia e as oportunidades econômicas (PNUD. fora do país natal. com o número total de residentes estrangeiros nos Estados Unidos a aumentar 145% no mesmo período. entre 1980 e 2000. n. Nas últimas décadas do século XX. ano 5. Os bens culturais são diferentes de outros produtos comercializados porque “transportam idéias. assistiu-se a um dos maiores surtos migratórios da história mundial. da África e das Américas na União Européia deu um salto de cerca de 75%. As políticas que acolhem a diversidade e fomentam o multiculturalismo têm de ser integradas no processo de desenvolvimento para garantir o crescimento.

As contradições com o projeto de Estado-Nação desenhado após a Revolução Francesa são cada vez maiores. que fez mais de 1. 2005 109 . literatura. como o filme “Titanic”. de 1997. 2004). em primeiro lugar. apoiando mesmo assim as lealdades nacionais./jun. 1. se ficasse entregue apenas às forças do mercado (PNUD. Os dez filmes que mais receitas geraram desde sempre em mercados fora dos Estados Unidos são todos feitos nos Estados Unidos da América. liderados pelos Estados Unidos. passando de 95 mil milhões de dólares por ano para cerca de 380 mil milhões de dólares. São necessárias políticas assimétricas quando existem desvantagens coletivas. artes visuais – quadruplicou nas últimas duas décadas. A diversidade cultural nas artes diminuiria. n. Muitas experiências de ação afirmativa trouxeram ensinamentos importantes para que essas reparações não se transformem em caldeirões de tensão racial e de isolamento identitário. Quase todas as grandes democracias que são étnica ou lingüisticamente diversificadas praticam alguma forma de federalismo assimétrico: a Bélgica. O êxito dos arranjos federais depende de um plano cuidadoso e da vontade política de melhorar o funcionamento democrático do sistema. • Só as produções dos Estados Unidos representam atualmente cerca de 85% dos filmes exibidos em todo o mundo. excluídos de várias formas de poder e carregando ainda um legado histórico pesado. Somanlu. A prova econômica é convincente: • O comércio mundial de meios de entretenimento – cinema. música.2 mil milhões de dólares nos mercados internacionais. O que importa é se os arranjos acomodam diferenças importantes. Defender a diversidade cultural no mundo global não tem sentido se não se protegerem formas de participação e identidade no interior dos próprios países. a Federação Suíça e a Espanha são exemplos proeminentes. Um terreno importante de discussão sobre o tratamento assimétrico é a realidade dos negros e pardos no Brasil. radicalmente. Qualquer política de afirmação deve salvaguardar o conceito multiidentitário dos indivíduos. ano 5. radiodifusão. Cerca de 80% deste fluxo de comércio cultural tem origem em apenas 13 países. jan. O estatuto político das minorias é fundamental para alicerçar e preservar a democracia.Car los Lopes bens culturais nos acordos internacionais de comércio. O mundo tem de se preparar para viver o multiculturalismo.

/jun. n. Os Estados não discriminatórios devem proteger a liberdade religiosa e a escolha individual: • Todos devem ter o direito de criticar. O mundo vive uma civilização humana diversa e plural. a língua oficial é diferente da que é mais vulgarmente usada. mas também de a rejeitar e trocar por outra ou de ficar sem nenhuma. em Espanha. com o genoma humano. com a física 110 Somanlu. As limitações da capacidade das pessoas usarem a sua língua nativa – e a facilidade limitada de falarem a língua nacional dominante ou oficial – pode excluir as pessoas da educação. da vida política e do acesso à justiça. Conclusão O mundo não vive um choque de civilizações. ou o urdu. alterar ou por em causa o predomínio de uma interpretação particular de crenças fundamentais. Os Estados também têm a responsabilidade de proteger direitos e de garantir liberdades para todos os seus membros e de não discriminar ninguém com base na religião ou credo. mesmo assim. Nada é mais redutível a unidades celulares. A identidade cultural não é um jogo de soma zero. • As pessoas de uma religião devem ter a possibilidade de serem responsavelmente críticas em relação às práticas e convicções de outras religiões.500 línguas. sem uma atualização da moral e da ética. Em mais de 30 países da região.O desafio ético de um desenvolvimento. A África Subsariana tem mais de 2. Descobrimos. nos Estados Unidos da América – pode. Apenas 13% das crianças que recebem educação primária o fazem na sua língua nativa. a complexidade do que somos. 1. jan.. Descobrimos. Essa atualização deve comportar as cautelas aqui evocadas. ou o espanhol. na África do Sul. 2005 . e muito menos defendida. no Reino Unido. mas a capacidade de muitas pessoas usarem a sua língua na educação e nas relações com o Estado é particularmente limitada. Os falantes de uma língua materna que não seja língua dominante ou oficial de um país – seja ela o basco. o zulu. Essa atitude não pode ser entendida. ano 5. participar inteiramente na cultura e na política nacional. Entender este mundo requer uma abertura à diversidade e à liberdade cultural.. • As pessoas devem ser livres não só para criticar a religião em que nasceram. • Clero ou outras hierarquias religiosas devem ter o mesmo estatuto que os outros cidadãos.

Car los Lopes quântica. de um lado.. segundo o qual as nossas finalidades não irão inevitavelmente triunfar. porque a própria terminologia de globalização ou mundialização se presta a vários equívocos. paradoxalmente. 2005 111 .. é admitir estas diferenças e considerá-las enriquecedoras. a sua realidade. popularizado por Peter Haas em 1990. 4 Comunidades epistêmicas é um conceito muito utilizado em relatos internacionais. pois apenas estamos fazendo recurso a ela para elaborar um argumento conexo. Notas Num artigo assinado por Burke (2004). ou seja. 1. ele menciona as teses defendidas por Carlo Fumian. segundo as quais a globalização surgiu como tomada de consciência intelectual em 1870-1914 e logo foi catapultada por Theodore Levitt a uma dimensão mais midiática em 1980. ver Cravinho (2002). os seres humanos têm dificuldade em admitir que não existem identidades tão finamente definidas e classificadas. Existem muitas outras versões sobre o início da globalização. n. 5 Expressão de Edgar Morin (2000). Burke refere-se também a um livro recente. e o curso dos acontecimentos que nos afetam. 2 Segundo Gianetti (2002) “todo o sofrimento humano. esse passatempo dos filósofos. O desafio ético de hoje. ano 5. durante o qual a assimilação dos princípios da Revolução Francesa e o impacto do Império napoleônico criaram as condições para uma “grande aceleração” das transformações em 1890-1914. “nenhum homem jamais seria infeliz se ele pudesse alterar os seus sentimentos” ou. Mas. daí que devemos visualizar seu insucesso possível: justamente porque a incerteza sobre o real pode conduzir-nos à luta por nossas finalidades. 1 Somanlu. Para uma leitura sucinta dos pontos de vista de Kindlieberger e dos seus críticos. resulta de uma incongruência entre a nossa vontade e desejos. de outro”. onde este chama de crise o período 1780-1820. numa análise sobre cooperação ambiental no Mediterrâneo. onde demonstrava a relação de causa e efeito que une certos grupos de interesse em volta de uma mesma grelha de análise. a gama de atributos do universo./jun. não importa qual seja. 3 Não é o momento para entrar aqui em todos os elementos ou críticas desta teoria. jan. escrito por Christopher Baily.

GIANNETTI. 2000. 2003. CARDOSO. 2003. BURKE. Edgar. MAYOR. CHANG. 2003 State of the Future. Os dez mandamentos da ética. jan. Ken. p. (Org. New Dheli: Oxford University Press. 77-117. 2001.. Classical Indian Philosophy. 11 de julho. 2004. The World Ahead. Theodore. Londres: Unesco e Zed Books. A estratégia de desenvolvimento em perspectiva histórica. Gabriel. HUNTINGTON. São Paulo: Companhia das Letras. Eduardo. Sergio (Org. PNUD. Who are we? America’s great debate. 2002. Belo Horizonte: UFMG.). Felicidade.). Londres: Penguin Press. Frederico. 2004. MURTEIRA. MOHANTY. 2004. João Gomes. GORDON. _______. Referências AULETTA. CRAVINHO. Retorno ao Republicanismo. Backstory: the business of news. Folha de São Paulo. N. 2003. Londres: Simon & Schuster. Origens distantes da globalização. São Paulo. Londres: Simon & Schuster. 2004. 1996. Chutando a escada. 2003. número 1. n. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Harrison. J. Os valores que definem o progresso humano. 2000. Peter. HUTTINGTON. 112 Somanlu. Relatório de Desenvolvimento Humano 2004. CHALITA. Jerome. Lisboa. Belo Horizonte: UFMG. As relações internacionais e o mundo contemporâneo. Washington. MORIN. 2005 . Caderno Mais. Ha-Joon. The Clash of civilizations and the remaking of world order. Samuel P. Mario. ano 5. 2004. DC: American Council for the United Nations University. Economia e gestão do conhecimento: um ensaio introdutório. GLENN. Samuel P. E. 2002. Economia Global e Gestão. vol DC. 2002. LAWRENCE. Lisboa: Instituto de Ciências Sociais./jun. São Paulo: Unesp. A cultura importa.O desafio ético de um desenvolvimento. BIGNOTTO. Newton. abril. Visões do mundo. A ética do sujeito possível. São Paulo: Palas-Athena. 2002. Pensar a república. Our future in the making. Lisboa: PNUD e Mensagem. Rio de Janeiro: Record. 1.. In: Ética: solidariedade e complexidade.

Desenvolvimento como liberdade. n. p. 1. setembro-outubro. 59. TAVARES. 33-51. 2003. São Paulo. 2005 113 . Ética. Lisboa. Barcelona: Gedisa. Economia Global e Gestão. Armênio. abril. SEN. ROLLEMBERG. São Paulo. Amartya. n. 2003. VASQUEZ.Car los Lopes REGO. Ainda. RIBEIRO. ano 5. 2003. Pós-imperialismo. jan. 2002. Revista USP. São Paulo: Companhia das letras e Instituto Ayrton Senna. n. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira./jun. Culturas nacionais e índices de desenvolvimento econômico e humano. Gustavo Lins. Adolfo Sanchez. DC. p. 2004. Ética de papel. 258263. Somanlu. v. Marcello. 1.

n. 2005 . jan. 1./jun. ano 5.114 Somanlu.

The different types of public intervention in the Mindu area have failed to contribute towards the preservation/conservation of the environment and quality of life. ano 5. agressivas ao meio ambiente. n. destacando-se a transformação de um balneário público em alvenaria e asfalto. Mas as mudanças espaciais observadas vincularam-se a um conjunto de políticas urbanas. Abstract The industrialization and housing development policies introduced since the 70’s have been decisive in the urban structure process of Manaus. Somanlu. Manaus. The research was carried out from february to november 2002.Nas margens do igarapé do Mindu: dois lados da história Ângela Maria de Abreu Cavalcante* Resumo As políticas de industrialização e urbanização implantadas a partir dos anos 70 foram decisivas no processo de estruturação urbana de Manaus. Palavras-chave: meio ambiente. 2005 115 . the observed spacial changes are linked to a complex of urban policies./jun. aggressive to the environment highlighting the transformation of a public spa in to masonry and asphalt. Manaus. políticas públicas. However. Esta pesquisa foi realizada no período entre fevereiro e novembro de 2002. jan. 1. As diferentes formas de intervenção pública na área do igarapé do Mindu não contribuíram para a preservação/conservação do meio ambiente e qualidade de vida. public policies. Keywords: environment. * Mestre pelo Centro de Ciências do Ambiente da Universidade Federal do Amazonas. Falecida em 2003.

um milhão e quinhentos mil habitantes. a AM-010 (Manaus–Itacoatiara). Introdução Manaus. em água para abastecimento e consumo doméstico. Careiro e Iranduba ao sul. que não ocupam de maneira uniforme a sua superfície geográfica. na região do médio Amazonas. MONTEIRO. A cidade desenvolveu-se. rumo sudoeste./jun. mas perderam seu espaço como igarapé quando passaram a sofrer diferentes formas de intervenção em suas áreas marginais e no leito.. capital do Estado do Amazonas. ocupado. em cima de seis igarapés que drenavam a área central. pelas Avenidas Getúlio Vargas e Floriano Peixoto. Esses e os demais igarapés urbanos de Manaus constituíam-se em fonte primária de alimentos para uma fauna diversificada e para o próprio homem. bem no meio da maior bacia hidrográfica do mundo e da maior floresta equatorial-tropical úmida do planeta. Rio Preto da Eva e Itacoatiara a leste. ano 5.. 1994): o igarapé do Espírito Santo. igarapé dos Remédios ou do Aterro. Ocupa uma área de 14. O acesso ao município dá-se por meio fluvial e por um sistema de rodovias destacando-se. em fluxo de locomoção. Oswaldo Cruz e Quinze de Novembro. praticamente. o município possui. 1. a BR174 (Manaus–Boa Vista). é uma cidade entrecortada por rios e igarapés. 2005 . 1969. sendo que três desses cursos d’água sofreram aterramento (BITTENCOURT. aproximadamente.337 km². atualmente.Nas margens do igarapé do Mindu. De acordo com o censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE (2000). concentrando-se em núcleos periféricos. O Mindu é um desses corpos d’água que sofre ações “legais” do Poder Público e concentra em suas margens e leito grande parcela da população pobre da cidade. e faz limites com os municípios de Presidente Figueiredo ao norte. O objetivo dessa pesquisa foi verificar se as intervenções públicas realizadas ao longo do igarapé do Mindu contribuíram ou não para a preservação/ 116 Somanlu. cujas condições de vida e saneamento tornam-se insatisfatórias devido ao adensamento populacional sem planejamento e à implantação do pólo industrial que comprometeram a qualidade das drenagens superficiais da cidade. a BR-319 (Manaus–Porto Velho) e rumo leste. e Novo Airão a oeste. Localiza-se na parte norte do Brasil. ocupado pelas Praças do Comércio. n. igarapé da Ribeira das Naus. atual Avenida Eduardo Ribeiro. pelo rumo norte. jan.

também./jun. serviu de posto avançado da geopolítica portuguesa. 1999). ano 5. em 1967. palacetes. a Avenida Tarumã e o Boulevard Amazonas (DIAS. documental. 1992). em traçado xadrez. na construção de um conjunto de prédios como o Teatro Amazonas e o Palácio da Justiça. Enquanto tinha na borracha sua fonte financeira. vivenciou a “ilusão do fausto” como “capital do látex”. pelo surgimento de vilas. A imigração. Os migrantes chegaram em busca de uma melhoria da qualidade de vida. 2005 117 . com a instalação da Superintendência da Zona Franca de Manaus (SUFRAMA) e a implantação do Distrito Industrial possibilitaram um novo crescimento econômico e profundas alterações ambientais e territoriais à cidade (BENCHIMOL. o Cais do Porto e o Mercado Municipal e.Ângela Maria de Abreu Cavalcante conservação do meio ambiente e da qualidade de vida. os diferentes papéis desempenhados pela cidade marcaram de forma significante sua paisagem. lojas. durante todo o ciclo da borracha. Alfândega. fotográfica e de campo. formaSomanlu. A rede de igarapés. Manaus: urbanização e conseqüências Segundo Carneiro Filho (1998). que se tornaram referência. contribuindo para a problemática sócio-ambiental dos locais onde passaram a viver e a se relacionar. Durante o governo de Eduardo Ribeiro (1892–1896). quando foram ocupados os trechos compreendidos entre o rio Negro e a Sete de Setembro. desencadeada pela ZFM. n. hotéis. jan. Manaus continuou crescendo e embelezando-se pelo design europeu. Penitenciária do Estado. efetivada no início dos anos 70. mas acabaram por se instalar em áreas inapropriadas. A criação da Zona Franca de Manaus (ZFM). por exemplo. O trabalho baseou-se em pesquisa bibliográfica. bancos. Houve a definição do primeiro plano diretor da cidade. incluindo o mapeamento de todo o trajeto do igarapé e seleção dos trechos considerados relevantes para uma investigação mais profunda sobre as intervenções processadas pelo poder público. a vila provinciana transformou-se numa moderna cidade. a Biblioteca Pública. 1. constituiu-se num dos fatores principais do “inchaço” e da “remodelação” da cidade. no período extrativista. Na fase colonial.

/jun. Ponta Negra e Adrianópolis. além de provocarem a verticalização em áreas nobres. visando ao estabelecimento desse novo contingente. mas trouxe também os impactos ambientais que se refletiram na estrutura do espaço urbano. nas diretrizes estaduais de planejamento e nas ações interventoras do poder público. A Zona Franca trouxe melhoramentos para a cidade. verticalizaram-se mediante os megainvestimentos de grandes construtoras que conseguem a aprovação de seus projetos. Manaus atingiu. em apenas três décadas – de 1970 a 2000 –.Nas margens do igarapé do Mindu. da de pequenos cursos d’água que davam uma paisagem veneziana à cidade. 2005 .. 1996). conforme dados da Tabela 1. ano 5. Portanto. agravaram-se o problema ambiental e as condições de habitação da população. como Vieiralves. organização e um plano diretor. com as áreas protegidas por lei.. e com os serviços e equipamentos sociais básicos. o fazer e o desfazer da cidade produziram mudanças diversas nos espaços urbanos com vistas a atender a demanda do contingente populacional oriundo de lugares diferenciados do país. jan. sem nenhum condicionante de controle ambiental. nas relações funcionais de trabalho. foi desfeita pelos aterros e reformas urbanas. assim como as terras firmes foram sendo ocupadas sem planejamento. as formas de habitação improvisadas ampliaram-se. Já as áreas nobres que apresentavam características de horizontalidade na ocupação do solo. Manaus esparramou-se para todos os lados: o planejamento deu lugar à “desordem”. O assentamento da zona leste passa a ser definido pelas ocupações a “qualquer custo”. no que tange à infra-estrutura. Com o aumento das ocupações das margens e leitos dos igarapés. O “crescimento” acelerado da população na área urbana não foi acompanhado pelo poder público. mesmo desrespeitando a legislação vigente. 1. o mesmo se deu nas margens e nos leitos dos igarapés. 118 Somanlu. A cidade passa a sofrer investimento de grandes construtoras do país que. Logo. n. a condição de metrópole da Amazônia Ocidental. que até então tinham a característica da horizontalidade na ocupação do solo (IMPLAN. as favelas ao longo dos igarapés expandiram-se e os recursos naturais degradaram-se. sem que houvesse uma preocupação com os espaços verdes. desrespeitam a legislação vigente. por meio de aprovações negociadas ou clandestinas.

Mauazinho. são.: hab = habitante. Fonte: Prefeitura Municipal de Manaus/IMPLAN/IBGE. Tarumã.0 53. Distrito Industrial.9* * Dados aproximados. Zumbi dos Palmares. oeste. jan. Glória. Crespo. Colônia Santo Antonio. Jorge Teixeira. ha = hectare. Nova Esperança. Bairro da Paz. Tem como delimitação topográfica a rede de igarapés. Aleixo. Raiz. Planalto. da zona sul. correspondente ao maior segmento do espaço urbano manauense. D.737 45.178 1. Parque 10. Chapada. Betânia. São José. Novo Israel e Santa Etelvina. Santa Luzia. 2005 119 . Colônia Terra Nova.585 1. Petrópolis. n. cujas águas. Presidente Vargas. São Lázaro. Praça 14. centro-sul: Adrianópolis. Puraquequara. centro-oeste: Alvorada. Monte das Oliveiras. Cachoeirinha. Os bairros existentes na cidade foram distribuídos em seis zonas geográficas: norte. fazem parte os bairros: Cidade Nova. Lírio do Vale. São Geraldo (IMPLAN. centro-oeste.0 30. 1.Ângela Maria de Abreu Cavalcante Tabela 1 – Densidade populacional de Manaus –1970/2000 Ano População Área ocupada População/área (hab) (ha) ocupada 1970 1980 1991 1995 2000 283. Vila da Prata.000 37. Flores. ano 5. Redenção. possuindo a maior bacia fluvial do mundo.685 621.405. São Francisco.474* 112. sul. Manaus e seus igarapés O município de Manaus representa o portal de acesso a um dos mais ricos ecossistemas fluviais.006. leste: Armando Mendes. Educandos. Vila Buriti. sujeitos à retificação. considerada Zona Rural. Coroado. Morro da Liberdade.532 11. em Somanlu. Tancredo Neves. oeste: Compensa.545 30. os bairros: Aparecida. Da zona norte. Santo Antonio. São Jorge. Obs.138.2 30. tendo como base os estudos técnicos realizados pelo Implan (1996).835 2. centro-sul e uma área denominada de Expansão Urbana. Nossa Senhora das Graças./jun. São Raimundo. Ponta Negra. Japiim.763 1. ao invés de terem um fluxo permanente. Colônia Antonio Aleixo.0 33. 1996). Pedro. leste. Centro: Colônia Oliveira Machado. Santo Agostinho.

pois. e. grande parte. 120 Somanlu. 2002). Na Amazônia. com 11. e continua desenvolvendo-se. Esse fato somado a outros vem impossibilitando o uso desses canais fluviais pelo que se transformaram: galerias. ignorando a acidentada topografia do lugar. por efeito da elevação do nível do rio Negro. 2005 . jan. Manaus sofreu um gradiente de intervenções nem sempre adequadas às suas condições regionais. manganês) e de coliformes fecais devido aos detritos industriais e domésticos neles lançados. 1990). água para o consumo. a área absorvida pelos igarapés pode ser bem maior que a ocupada pelos grandes rios. poluídos e mortos. E. degradados. suas margens e leitos abrigam grandes parcelas da população. os igarapés naturais exercem funções diferenciadas no cotidiano dos habitantes da região. o crescimento urbano e o adensamento populacional traduzem a situação atual em que esses canais fluviais se encontram. Durante os seus mais de 300 anos de ocupação “branca”. devido ao pequeno volume de água. ferro. aterros e ambientes modificados.665 hectares. em áreas drenadas por igarapés ou em margens de rios. os igarapés são mais vulneráveis aos impactos ambientais naturais ou produzidos.. comunidades animais e vegetais que os habitam. SILVA.Nas margens do igarapé do Mindu. MOURA./jun. causados por diferentes intervenções quase sempre pontuais (AUGUSTO. servem como vias de locomoção. Pesquisas realizadas nos igarapés de Manaus têm detectado a presença de altas concentrações de metais pesados (zinco. onde os sistemas aquáticos têm sido muito alterados pelas atividades antrópicas. 1993). além de elementos importantes na composição do ecossistema. mas em todas as regiões. cobre. fontes de alimentos. uso doméstico e lazer (SILVA. Sua hidrologia e hidroquímica são facilmente alteradas pelo desflorestamento e poluição. a de São Raimundo.. 1. Entretanto. ano 5. por conseguinte. n. medindo 130 hectares. Essa rede de pequenos cursos d’água insere-se no traçado do sítio urbano de Manaus. represadas durante o período da enchente. a dos Educandos. Esses ecossistemas são basicamente as bacias hidrográficas da Área Central. mesmo assim. Fato que ocorre não só em Manaus. canais cimentados. os desmatamentos. Desenvolveu-se. atingindo. para formar o conjunto de elementos condicionadores do desenho da cidade e das formas de ocupação que deram margem à estrutura interna do espaço urbano (MELO. A área urbana de Manaus é drenada por cursos d’água superficiais dividindo-se em quatro grandes bacias hidrográficas que pertencem a uma só: a do rio Negro. Conforme Junk (1983).

MOURA. Convém destacar que o rio Negro. Bairro Novo. Armando Mendes. Alvorada. do Espírito Santo e toda a microbacia do Igarapé de Manaus. o igarapé dos Franceses. seguindo na rua Sete de Setembro. Redenção. após o Palácio Rio Negro. com uma extensão de 21. destino final das águas servidas da cidade. congrega os sistemas aquáticos seguintes: o igarapé do Sete. jan. mas desapareceram da visão com o crescimento da cidade: o de São Vicente de Fora. Na bacia da Área Central encontram-se os seguintes tributários: o igarapé de Manaus. da Paz. inadequadas e desprovidas de qualquer serviço de infra-estrutura básica. possuindo uma área de 21. que faz limite externo com o rio Negro a sudeste.02 km. cujos cursos d’água dividem e subdividem o perímetro urbano da cidade (MELO. da Bica da Boa Vista. o igarapé do Batalhão de Infantaria de Selva. o igarapé do Bittencourt atravessa a segunda ponte (Ponte Romana II) da Rua Sete Setembro. passando nos bairros Novo Israel.Ângela Maria de Abreu Cavalcante na faixa de 4. do Aterro ou dos Remédios. João Paulo. já que os demais sofreram intervenções ao longo do crescimento da cidade. Tancredo Neves. e a do Tarumã-Açu. compondo uma rede de drenagem bastante densa./jun.02 km. destacam-se os igarapés dos Educandos e de São Raimundo como os mais notados. é também o seu manancial de abastecimento. Na paisagem urbana. Dom Pedro. com ocupações de suas margens. As áreas de drenagem que concentram maior densidade populacional localizam-se nas bacias de São Raimundo e Educandos e têm como contribuintes inúmeros corpos d’água. Chapada. debaixo da terceira ponte (Ponte Benjamin Constant) da Rua Sete de Setembro. São José. ruma pelos bairros Cachoeirinha e Centro. ano 5. 1990). A rede de drenagem de São Raimundo. onde passa embaixo da primeira ponte (Ponte Romana I) localizada antes do Palácio Rio Negro. dando destaque aos mais importantes1.320 hectares. 2005 121 . Outros igarapés drenavam o centro. 1. atravessando os bairros Jorge Teixeira. rumando pelo bairro da Praça 14 de Janeiro e bairro de Cachoeirinha. com extensão aproximada de Somanlu. nos bairros Nova Esperança e Dom Pedro. com 1. da Ribeira das Naus. Cada uma delas conta com a contribuição de numerosos igarapés tributários e subtributários. passa na Manaus Moderna. n. possui aproximadamente 10 km de extensão e 18 afluentes principais. A Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Meio Ambiente – Sedema lista os igarapés de Manaus e respectivos bairros por aqueles cortados.380 hectares. da Bica do Monte Cristo. o igarapé do Mestre Chico.

o igarapé do Mindu. apesar das leis de proteção aos recursos hídricos. nos bairros Zumbi. 1. dada a sua importância para o sítio manauense. n. 18 km. Comunidade Santa Bárbara. N. recebimento de esgotos sanitários. Cachoeirinha. Jorge Teixeira. 122 Somanlu. Raiz. jan. nos bairros Cidade de Deus. Essa população possui uma renda familiar baixa. Entretanto observa-se que./jun.02 km². comerciais. o igarapé de São Raimundo.02 km².. Santa Luzia. São José. São Jorge. 30 afluentes principais e uma superfície de 38. sendo que quase 50% dos habitantes dividem a moradia com mais de cinco pessoas. observou-se que aquelas são construídas em madeira. Distrito Industrial. Pesquisa realizada em algumas áreas de igarapés. ano 5. o igarapé do Franco. o igarapé dos Educandos. Betânia. o igarapé da Vitória-Régia ou Bindá. Crespo. São Geraldo. nos bairros de Flores. no bairro de São Jorge. A bacia de Educandos limita-se a sudeste com o rio Negro.2 membros. o igarapé da Cachoeira Grande. São Francisco e São Lázaro. Valparaíso. Vila da Prata. já que aqueles não podem mais ser utilizados para abastecimento d’água e nem como fonte de alimento ou de lazer da população. Compensa. no bairro de Educandos. o igarapé do Quarenta. que essas famílias apresentam em média 4. Parque 10. Extensão aproximada de 10 km. Observou-se. possuindo aproximadamente oito quilômetros de extensão e 15 afluentes principais. considera todos esses cursos d’água como áreas de preservação. Areal. sendo constituída pelos seguintes cursos d’água: o igarapé do Japiim. A Lei Orgânica do Município de Manaus. concluiu que existem aproximadamente 70 mil famílias habitando as margens ou leitos desses corpos d’água. Sua extensão é de. domésticos. Cidade Nova. porque se constituem em espaços “propícios” para acumulação de lixos.. Morro da Liberdade.37 km². São Jorge. com uma área de 37. Coroado. S. em seu artigo 206. não são tratados como deveriam. Japiim.02 km². mesmo tendo toda essa proteção. ainda. possui 10 km aproximadamente e 18 afluentes principais. atravessando as pontes Fábio Lucena e São Raimundo. industriais e até hospitalares.40 km². com uma área de 21. Petrópolis. 40 afluentes principais e uma superfície de 66. possui uma superfície de 21. nos bairros Santo Agostinho. das Graças. domiciliares. 2005 . Tancredo Neves. Chapada. por técnicos da Sedema. Em relação às residências nessas áreas. o igarapé da Cachoeirinha. Santo Antonio. Armando Mendes. no bairro de mesmo nome. aproximadamente.Nas margens do igarapé do Mindu. Aleixo. Parque 10 de Novembro e Chapada. no bairro de mesmo nome. cinco quilômetros e 14 afluentes principais.

São José dos Campos. São Jorge) e 12 invasões (Cidade de Deus. Guanabara. Drena suas águas para o rio Negro. O Mindu é um dos principais afluentes da bacia do igarapé de São Raimundo. Comunidade Santa Bárbara. ano 5. as marcas de famosos balneários. Aleixo. apresenta ao longo de suas margens vegetação secundária. como todos os outros corpos hídricos da cidade. inclusive. Colônia Chico Mendes. Jacundá. Parque 10 de Novembro. Monte Sião. Jorge Teixeira. Em grande parte de seu percurso. mas. Vila Amazonas). A zona leste abriga suas nascentes mais distantes. porque áreas residenciais foram-se instalando ao longo de seu curso. São Geraldo. Atravessa as zonas leste. 2005 123 . as gramíneas compõem a vegetação (RADAMBRASIL. apresenta-se clara e límpida. 1976). Colina do Aleixo II. Nossa Senhora das Graças. norte. Bairro Novo. já começam a aparecer sinais do crescimento urbano. Tancredo Neves. porque recebe cargas de contaminantes produzidos por comunidades. centro-sul e oeste. localizadas em área de floresta primária. provocando. jan. Morro da Catita. Chapada. 1. lixo e despejos domésticos. que atraíam a sociedade para “banhos” nos fins de semana e feriados. enquanto nos trechos já urbanizados mostra-se branca ou barrenta. São José II. grande desmatamento de sua mata ciliar. Nas suas margens. na maior parte de sua trajetória. O acesso às habitações situadas nas margens ou áreas inundadas dá-se por meio de pontes construídas precariamente. Novo Aleixo. Nas faixas abaixo das cabeceiras. Mutirão. Parque 10 de Novembro. Devido grande parte de seu percurso localizar-se dentro do espaço urbano./jun. esgotos de empresas instaladas nas proximidades. e a baía do São Raimundo. como Muruama. Somanlu. Valparaíso. em plena região de floresta tropical úmida de terra-firme. localizados próximo às suas margens. com conseqüentes desmatamentos de sua área de entorno. passando por 10 bairros (Areal. zona oeste. Recebe. a sua foz. já sofreu retificação e contenção de seu leito. n. Cidade Nova. nos trechos inferiores e urbanizados.Ângela Maria de Abreu Cavalcante com parâmetros de qualidade e de segurança variando entre regular e ruim. O igarapé do Mindu O igarapé do Mindu situa-se no município de Manaus nas coordenadas 03º 08’ Sul e 60º 01’ Oeste. Sua água é heterogênea quanto à coloração: nas proximidades das cabeceiras. conjuntos residenciais e comércios em geral.

já se verificam em seu percurso efeitos de eutrofização antrópica provocada por inúmeros pontos de emissão de esgotos sanitários. possuindo uma base de 40 afluentes (SEDEMA. diversos bairros de classe média e classe média alta. mesmo nessas áreas consideradas nobres. 2005 . alguns clandestinamente ligados a galerias de águas pluviais. cujas moradias caracterizam-se pela ausência de infra-estrutura básica de saneamento. grande parte de sua bacia apresenta as margens ocupadas por residências. localizadas na periferia da cidade. da nascente à Cachoeira Grande. encontram-se relativamente protegidas. jan. Conforme dados da Sedema. de esgoto doméstico e de empresas tem favorecido forte degradação ambiental e um aumento na quantidade de matéria orgânica no Mindu. suas cabeceiras já exibem as áreas adjacentes degradadas. na cidade. Dentre os cursos d’água da cidade. invasões e desmatamento de suas margens protetoras. O lançamento de lixo. Suas nascentes. cerca de 66. aqueles 124 Somanlu. dos processos de degradação em função do crescimento urbano e populacional e das alterações provocadas pelo despejo de efluentes domésticos que criam condições sanitárias favoráveis para o aumento de doenças veiculadas pela água e para a sua degradação. dominados por conjuntos residenciais e condomínios de luxo. Embora atravesse bairros de classe média alta.Nas margens do igarapé do Mindu. Durante seu percurso pode-se ainda perceber pequenos trechos florestados e não impactados. 1. Os cursos médio e inferior passam por trechos urbanizados onde se encontram um Parque Municipal. Seu aspecto funcional é resultado das ações interventoras do poder público./jun. todavia.. sem muitas perspectivas para seus cursos d’água urbanos. por se acharem próximas ao jardim botânico Adolpho Ducke. pequenos comércios e por famílias de baixa renda. É intenção da Secretaria transformar a área em Unidade de Conservação. assoreamento. e trechos urbanizados inclusive nas cabeceiras. E é nesse cenário que Manaus desponta como um lugar sem dono. Entretanto. Inclusive. 2002).02 km². transformando o Mindu em espaço agressivo às populações que aí residem. de esgotos domésticos. ainda se pode encontrar famílias morando em palafitas e convivendo com o lixo e a sujeira. ou mesmo de problemas de desvios de cursos. ano 5. o Mindu é o que apresenta a maior área. n. visto que.. Seu trajeto corresponde a aproximadamente 18 km de extensão.

uma classe favorecida economicamente. antes um “cenário verde”. que provocaram a diminuição de suas atividades ambientais. não demonstra qualquer sentimento em relação às áreas do igarapé. como também mobilizar as comunidades para a tomada de novos hábitos que culminem em atitudes de cidadania e qualidade de vida. percebe-se que os moradores ainda não se conscientizaram de sua participação na melhoria da qualidade dos igarapés. e que. A área aloja. onde se concentra uma parcela da população excluída e apartada social e espacialmente. jan. visto que o lixo continua aparecendo em grande escala no seu leito. a Somanlu. como por particulares e pela população. quando não havia. As populações que antes habitavam o interior do Estado do Amazonas migraram para Manaus passando a viver nas chamadas faixas de irregularidade dos igarapés. no caso do Mindu. o Mindu passou a sofrer inúmeras intervenções. 1./jun. 2005 125 . é de 30 metros. também. que. apesar de ostentar riqueza. deve-se obedecer à faixa de preservação adotada para os cursos d’água com menos de 10 m de largura. A ausência de uma visão ambiental consistente colaborou com a ocupação do entorno do igarapé do Mindu. ano 5. Como conseqüência do adensamento e crescimento da cidade.º 4. florestas e demais formas de vegetação natural.771/65 (Código Florestal). Para que tal aconteça. ainda. hoje transformado num “cenário de miséria”. n. Apesar desse programa. representada por cursos d’água. a Prefeitura de Manaus criou o programa “SOS Igarapés”. tanto aquelas processadas pelo poder público. grandes preocupações com a questão ambiental. que proíbe a instalação de qualquer empreendimento próximo à área de preservação permanente. principalmente a partir da década de 70. Essa distância é considerada a contar da marca da maior enchente até o empreendimento ou atividade. em julho de 1999. visando não somente agir na retirada de lixo sob as palafitas e cursos d’água.Ângela Maria de Abreu Cavalcante não servem de obstáculos para o sonho de uma casa própria e nem para a especulação imobiliária que viabiliza a qualquer preço a transformação do traçado da cidade. Para minimizar a situação degradante dos vários igarapés da cidade. a proliferação de esgotos e efluentes domésticos em seu leito. Conclusão O igarapé do Mindu teve suas margens tomadas por diferentes formas de intervenção. contrariando a Lei Federal n. com uma concentração espacial de renda.

Tancredo Neves e Armando Mendes (Mutirão). estudo prévio de impacto ambiental e respectivo relatório. no bairro de São Jorge. responsável pela conexão entre áreas verdes. com lançamento de lixo nas cabeceiras do igarapé e árvores sendo derrubadas. Próximo à Cachoeira Grande. Algumas residências escoam seus esgotos diretamente para o leito do igarapé. sobretudo na Rua Recife e na Rua Paraíba. O igarapé nesse trecho está completamente degradado e com pouco volume d’água e nenhum cuidado por parte da população e das autoridades. absorvendo grande área de preservação permanente. Algumas ações já estão sendo realizadas. ano 5. provocando uma abertura no que seria um corredor de biodiversidade do município. 1. ao iniciar as intervenções. dando a impressão de que sabe do que a população precisa. Com referência à nascente. b) a descontinuidade da vegetação nativa causada pelo desmatamento. c) a ausência de avaliação ambiental. o igarapé sofre contínuo massacre. E. Na confluência dos bairros Jorge Teixeira. Notam-se resíduos sólidos presos nas paredes das residências construídas dentro dele. visando proteger a área. a área continua sofrendo intervenção de particular. o poder público promete implantar um parque. No trecho do Parque 10. sobretudo pelos usuários da feira do mutirão e adjacências. as preo- 126 Somanlu. faz as obras. visto que grande quantidade de lixo amontoa-se no leito e margens do curso d’água. outras utilizam-se da tubulação em cimento providenciada pelo poder público para aquele fim. jan.. A vegetação naquela margem foi completamente retirada./jun. causando-lhe problemas em cadeia como assoreamento. Apesar das irregularidades observadas e desobediência ao Código Florestal. 2005 . como a retirada da população concentrada nas zonas onde o projeto pretende alcançar. d) falta de licenciamento ambiental pelo órgão responsável. permitindo o deslocamento de espécies da flora e da fauna. já desprovido de qualquer vegetação. e a conversão das remanescentes em eixos de esvaziamento de tráfego. consideram-se alguns agravantes ambientais: a) a retirada de grande parcela da mata ciliar existente nas margens do Mindu. poluição de suas águas e a remoção de boa parte de sua mata ciliar. o empreendimento possui licenciamento ambiental. mesmo com as leis que regem o meio ambiente.Nas margens do igarapé do Mindu. elevação do seu leito e freqüentes cheias e alagações. n. o muro de um residencial cercou parte do entorno do igarapé. O poder público coloca as máquinas. altera o ambiente sem ouvir a sociedade.. Mesmo assim.

2005 127 . 1998. de 15 de setembro de 1965. Edinea Mascarenhas. Brasília: Diário Oficial. B. Agnello. Samuel. agravando-se a situação ambiental da cidade. somada à ocupação desordenada de suas margens. M. Manaus: fronteira do extrativismo – cidade.Ângela Maria de Abreu Cavalcante cupações com os impactos não são consideradas. Somanlu./jun. Metais pesados condenam igarapé do Quarenta. CENSOS DEMOGRÁFICOS. jan. Notícias da UFAM. n. (Orgs. ano 5. I. A. 13. Manaus. Referências AUGUSTO. já que se realizam sem estudos prévios de impactos ambientais. César. 1880–1920. BITTENCOURT. Manaus: IBGE.. 1969. vem intensificando o seu processo de degradação. a ocorrência das obras no Mindu. Notas 1 Por falta de dados. Amazônia: a guerra na floresta. CARNEIRO FILHO. causando efeitos negativos à utilidade pública. proporcionando graves danos à execução de projetos que. verifica-se a deficiência na política de conservação ambiental e um crescimento gradual de políticas voltadas exclusivamente ao desenvolvimento econômico. um histórico de dinâmica urbana amazônica. Lei n. Com isso. CÓDIGO FLORESTAL. uma vez que a retirada da mata ciliar promove o aumento da temperatura local e possibilita o assoreamento do igarapé. A ilusão do Fausto. TOLEDO. acarretando a diminuição da qualidade de vida. do ponto de vista ambiental. 1965. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. In: ROJAS. BENCHIMOL. L.771. deixou-se de apresentar os relativos à extensão de alguns dos igarapés citados na pesquisa.). Manaus. Manaus: Sérgio Cardoso. 1. 1999. L. Espaço e doença: um olhar sobre o Amazonas. 2002. p. Desse modo.º 4. DIAS. 1970-2000. v. Daí a comprovação de que as intervenções processadas ao longo do Mindu não contribuíram para a preservação/conservação do meio ambiente e nem para a melhoria da qualidade de vida. n. 48. Rio de Janeiro: Fiocruz. são nocivos. 1992. Fundação de Manaus: pródromos e seqüências. Manaus: Valer. 3. out/nov.

MONTEIRO..). 1994. Bases científicas para estratégias de preservação e desenvolvimento da Amazônia. Projeto de proteção e recuperação da nascente do igarapé do Mindu. 128 Somanlu. de. N.. de. A expansão de Manaus como exemplo do processo de extinção dos igarapés. 1996a. 2. MELO. ed. Manaus: IMPLAN. Recife: Massangana. INSTITUTO MUNICIPAL DE PLANEJAMENTO URBANO E INFORMÁTICA/Implan. (Orgs. S. P. 18. v. 1990. G et al. ano 5.). Inpa. Folha AS-20/Manaus. In: SALATI. MOURA. 1996. 1976. JUNK. integração ecológica. São Paulo: Brasiliense.º 1214/75. D. Manaus: Metro Cúbico. 1993. Manaus: SEDEMA. SILVA. E. 2002. _______.Nas margens do igarapé do Mindu. Mário Ypiranga.. 4. E. Rio de Janeiro: Departamento Nacional de Produção Mineral. As águas da região amazônica. A. Fundação de Manaus. SILVA. Legislação urbanística. CNPq. M. 1./jun. n. S. SECRETARIA MUNICIPAL DE DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE (SEDEMA). E.L. 2005 . Migrações para Manaus. Manaus: Implan. desenvolvimento. C. In: FERREIRA. v. jan. W. Amazônia. Base cartográfica da área urbana de Manaus. RADAMBRASIL. (Orgs. 1983. Atualização da Lei n. H. et al. Levantamento de recursos naturais.

Apresenta um resgate histórico da emergência do paradigma de sustentabilidade. Keywords: social and environment issue. sustainable development. professora do Departamento de Serviço Social da UFAM. Somanlu. buscando refletir sobre os desafios existentes para concretização dos princípios de sustentabilidade do desenvolvimento. 1. desenvolvimento sustentável. it approaches the main issues to be faced in the implementation of the sustainable development. Palavras-chave: questão sócio-ambiental.Desenvolvimento sustentável e ecodesenvolvimento: uma reflexão sobre as diferenças ideo-políticas conceituais Marinez Gil Nogueira* Maria do Perpétuo Socorro R. trying to reflect on the existing challenges for the execution of the development sustanaibility principles. Assim. Abstract This work analyzes the model of sustainable development. 2005 129 . aborda os principais problemas a serem enfrentados para a implementação do desenvolvimento sustentável. * Mestre em Ciências Sociais na Área de Desenvolvimento Regional – UFRN./jun. Chaves** Resumo Analisa o modelo de desenvolvimento sustentável. ano 5. n. It presents a historical rescue of the emergency of the sustainability paradigm. Thus. ** Doutora em Política Científica e Tecnológica – UNICAMP. ecodesenvolvimento. discussing the existing ideo-political differences. ecological development. between the conceptual approaches to sustainable development and ecological development. doutoranda do Curso de Biotecnologia na Área de Gestão – UFAM/INPA. jan. discorrendo sobre as diferenças ideopolíticas existentes entre as abordagens conceituais de desenvolvimento sustentável e ecodesenvolvimento. professora do Depar tamento de Serviço Social da UFAM.

130 Somanlu. tendo sido a última visualizada pela ótica da economia política tradicional como um “objeto das necessidades humanas” a ser dominado em favor do primeiro. para se refletir sobre temáticas relacionadas com a injustiça. a discussão ambiental sobre a sustentabilidade do desenvolvimento coloca em xeque o modelo civilizacional capitalista/industrialista (ou anticivilizacional). mas vive como se fosse um ser à parte. torna-se imprescindível correlacionar tais temáticas com a questão ambiental e a tão polêmica sustentabilidade do desenvolvimento. embutida na racionalidade econômica de “crescimento ilimitado” do capitalismo. tendo em vista que traz à tona o questionamento e o repúdio ao tradicional conceito de crescimento econômico e ao próprio conceito de desenvolvimento da economia política clássica. n. sobre a sua condição de vida inserida neste meio natural. revelou que a crise econômica dos anos 70 nos países de capitalismo avançado..Desenvolvimento sustentável e ecodesenvolvimento. conseqüentemente. respostas filosóficas e práticas para acabar com o antropocentrismo e o etnocentrismo” (idem. ou seja. baseado numa lógica destrutiva que ameaça o futuro do planeta e da humanidade. p. Introdução Atualmente. sobre os desafios postos às políticas públicas e às lutas sociais na contemporaneidade. o que está no cerne da questão ambiental é o questionamento da máxima capitalista de “crescimento ilimitado” e da pretensa dissociação da relação homem e natureza. revelando uma não compreensão da interação homem-natureza. “Esse distanciamento fundamenta suas ações tidas como racionais. Essa lógica é responsável pela destruição criminosa da força de trabalho (o que pode ser constatado pela lógica da acumulação flexível) e a devastação irresponsável da natureza. como se essa relação não fosse de reciprocidade dinâmica. A discussão ambiental que perpassa o conceito de desenvolvimento sustentável é complexa e causadora de muita polêmica. Observa-se que a visão que o homem construiu sobre o meio ambiente pauta-se numa ótica antropocêntrica. 11). mas cujas conseqüências graves exigem dos homens. As conseqüências dessa visão antropocêntrica e dualista sobre o meio ambiente. Segundo Reigota (1994). ou seja. 1. apenas observador e/ou explorador da mesma. pobreza. ano 5. Portanto. desvinculando os efeitos da ação humana sobre a natureza e. Assim. a qual dualiza e fragmenta o próprio conceito de meio ambiente. o homem vive na contemporaneidade profundas dicotomias. pois se considera como um elemento da natureza.. miséria e exclusão social. nesse fim de século./jun. jan. 2005 .

a contaminação tóxica dos recursos naturais. 241). p. ano 5. observou-se a partir deste contexto. os processos de urbanização acelerada. Ainda. despertando na sociedade uma nova consciência relacionada à dimensão ambiental da realidade. de acordo com Lima (1997). 1996. 207). o trabalho está estruturado em duas partes. buscar-se-á refletir sobre os principais problemas a serem enfrentados para a implementação do desenvolvimento sustentável. Chaves assim como nos países do chamado Terceiro Mundo. juntamente com a possibilidade de saturação dos recursos naturais. De acordo com Lima (1997. 2005 131 . tanto capitalista quanto socialista. até então pouco observada”. o qual estava relacionado “diretamente com a redução do índice de qualidade de vida de grande parte da população mundial: era a poluição que. Assim. o marco inicial da discussão sobre a questão ambiental e do surgimento do paradigma de sustentabilidade remonta ao ano de Somanlu. Na primeira. pois se intensificaram os problemas sócio-ambientais.Marinez Gil Nogueira Maria do Per pétuo Socor ro R. Desenvolvimento sustentável: desvelando as diferenças ideo-políticas conceituais O cenário histórico de surgimento do paradigma de sustentabilidade Do ponto de vista histórico./jun. a multiplicação de acidentes e problemas ambientais e a ação do próprio movimento ecológico (sobretudo a partir da década de 1970) impuseram com toda força um questionamento aos modelos de desenvolvimento industrial. visando refletir sobre os desafios e/ou entraves existentes para concretização dos princípios de sustentabilidade do desenvolvimento. discorrendo sobre a diversidade ideo-política existente entre as abordagens conceituais. tais como: o crescimento e a desigual distribuição demográfica. a geração do efeito estufa e a redução da camada de ozônio. Diante do cenário exposto. a emergência mundial da discussão sobre a questão ambiental. 1. n. o consumo excessivo de recursos não-renováveis. a redução da biodiversidade e da diversidade cultural. este trabalho tem como objetivo discutir o significado conceitual do desenvolvimento sustentável. Na segunda parte. o desflorestamento. interferia no presente e no futuro da humanidade” (LEONARDI. jan. p. que vêm trazendo implicações sobre o equilíbrio climático e têm causado impacto “na opinião pública mundial e atraído atenção para uma realidade. tinha um “novo ingrediente”. apresentar-se-á um resgate histórico da emergência do paradigma de sustentabilidade.

também. Meadows e uma equipe de pesquisadores. jan. 1995. a criação do PNUMA foi uma importante resolução da Conferência de Estocolmo. 1994. p. na Suécia. elaborado por Dennis L. Podemos então considerar que aí 132 Somanlu. da produção de alimentos versus a diminuição dos recursos naturais. 2000b. Apesar das polêmicas geradas em torno das conclusões fatalistas do estudo realizado pelo clube de Roma. da poluição. não se pode deixar de ressaltar que a partir dele foi reconhecido que “o desperdício e a poluição deixaram de representar apenas um problema referente às condições de vida e de consumo das populações humanas. o qual foi criado em 1973 com o objetivo de fomentar junto aos organismos internacionais a necessidade da educação e formação ambientais em todas as atividades exercidas pelos mesmos. 1968. em Estocolmo. a primeira Conferência Mundial de Meio Ambiente Humano.. p. Para Reigota (1994.Desenvolvimento sustentável e ecodesenvolvimento.]se continuarem imutáveis as tendências de crescimento da população mundial. Observa-se. 2005 . 13). tendo em vista que a partir das repercussões da discussão ambiental travada na referida reunião. ano 5. a questão do meio ambiente conquistou reconhecidamente um fórum político. 1. a qual divulgou a idéia “[. Com a realização da Conferência de Estocolmo. mas dizem respeito à própria base de reprodução da esfera produtiva” (FERREIRA. 19).... quando foi realizada em Roma uma reunião de cúpula entre cientistas dos países desenvolvidos para se discutir “o consumo e as reservas de recursos naturais não renováveis e o crescimento da população mundial até o século XXI” (REIGOTA. p. Como resultado dessa reunião foi publicado em 1972 no livro intitulado: Limites do Crescimento. p. como resultado da Conferência de Estocolmo definiu-se recomendar a criação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA. a Organização das Nações Unidas realizou em 1972. serão alcançados os limites do crescimento econômico (ANDRADE. da industrialização. cuja tese central pode ser resumida na seguinte assertiva: [. 15). a urgência da necessidade de se planejar meios para garantir a conservação dos recursos naturais e controlar o crescimento da população. Conforme Leonardi (1996). n./jun. Os resultados das discussões travadas no chamado clube de Roma revelaram em suas conclusões. 190). que um dos seus méritos foi o de inserir a discussão da problemática ambiental em nível planetário...] de que se deve educar o cidadão para a solução dos problemas ambientais.

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surge o que se convencionou chamar de educação ambiental”. A partir deste contexto, a Organização das Nações Unidas-ONU, através da Unesco (United Nation Educational, Scientific and Cultural Organization), foi a responsável pela divulgação e fomento da realização dessa nova perspectiva de educação. A reunião de Belgrado contou com especialistas em educação, biologia, geografia e história, entre outros, na qual foram definidos os objetivos da educação ambiental, os quais foram publicados no que se convencionou chamar “A Carta de Belgrado” (REIGOTA, 1994). O fato é que após a Conferência de Estocolmo realizaram-se vários encontros, conferências e reuniões em que a discussão ambiental buscou encaminhar as bases para a configuração da emergência de uma racionalidade voltada para o desenvolvimento ecologicamente viável, passando-se a discutir formas de prevenção e controle da degradação do meio ambiente. Desse modo, surge o paradigma da sustentabilidade do desenvolvimento.
Diferenças ideo-políticas conceituais

De acordo com Vieira (1995), a preocupação com a necessidade de um gerenciamento ecologicamente viável dos recursos da natureza foi pela primeira vez difundida na proposta de ecodesenvolvimento defendida pelo canadense Maurice Strong, em 1973. Esse conceito expressava uma concepção alternativa de desenvolvimento, que questionava o caráter tecnocrático do planejamento econômico tradicional, visando direcionar ações em zonas rurais dos países em desenvolvimento para a incorporação da racionalidade de prudência ecológica. Assim, o conceito de ecodesenvolvimento “preconizava uma gestão mais racional dos ecossistemas locais aliada à valorização do know-how e da criatividade das populações envolvidas no processo” (idem, p. 108). Contudo, o conceito de ecodesenvolvimento tornou-se amplamente divulgado a partir de 1974, quando foi reelaborado por Ignacy Sachs, num texto que hoje é considerado um clássico da discussão ambiental. Nesta nova versão, o conceito passa a expressar um estilo de desenvolvimento aplicável não só a projetos rurais, mas também urbanos, contrapondo-se às diretrizes da economia política tradicional e orientando-se pela busca de autonomia (ou self-realiance) e pela satisfação prioritária das necessidades básicas das populações envolvidas. Assim, define o ecodesenvolvimento:

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Desenvolvimento endógeno e dependendo de suas forças próprias, submetido à lógica das necessidades do conjunto da população, consciente de sua dimensão ecológica e buscando estabelecer uma relação de harmonia entre o homem e a natureza (SACHS, 1980).

É possível dizer que o conceito de ecodesenvolvimento de Ignacy Sachs ampliou a concepção anterior, pois além das variáveis econômicas passou a incorporar variáveis políticas, culturais, sociais, éticas, dentre outras. Os princípios básicos desta nova visão de ecodesenvolvimento estão esquematicamente condensados na citação a seguir:
a) a satisfação das necessidades básicas de todos os seres humanos no presente (solidariedade sincrônica); b) a solidariedade com as gerações futuras (solidariedade diacrônica); c) a participação da população envolvida em todos os programas de desenvolvimento; d) a preservação dos recursos naturais e do meio ambiente em geral; e) a construção de um sistema social com garantia de emprego, segurança social e respeito a outras culturas; f) programas de educação (ANDRADE, 2000a, p. 190).

De acordo com Andrade (2000a), os princípios do ecodesenvolvimento estão vinculados às idéias da teoria do self-realiance (auto-suficiência, auto-sustentação), as quais foram defendidas por Mahatma Gandhi no processo de luta pela libertação da Índia contra o domínio inglês. Tais propostas estão, também, vinculadas às preocupações pela soberania e autonomia dos países periféricos em relação aos ditames dos países centrais hegemônicos. Neste sentido, Vieira (1995) ressalta que os princípios do ecodesenvolvimento permitem o resgate da dimensão ecológica do desenvolvimento, fortalecendo a tese relativa à necessidade de uma luta contra a desigualdade social e a dependência no e sobre o Terceiro Mundo, demonstrando a formação de consciência dos limites e vulnerabilidade da base dos recursos naturais. A Declaração de Cocoyoc, resultante da Conferência de 1974 da UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e do Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (UNEP), e, também, o Relatório Que Faire apresentado no final de 1975 pela Fundação alemã Dag-hammarskjöld,

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reatualizaram o conceito elaborado por Ignacy Sachs sem dar visibilidade ao termo ecodesenvolvimento. Desta forma, conforme Vieira (1995), outro conceito passa a ser amplamente divulgado, isto é, o conceito de “desenvolvimento sustentável”, o qual se torna o conceito preferido no âmbito das organizações internacionais desse contexto, tendo em vista que o mesmo apresenta uma conotação ideológica menos radical que o anterior e mais coerente “com uma fase de experimentação com a idéia de uma nova ordem econômica internacional” (idem, p. 109). Outro estudo relacionado à problemática ambiental que se transformou em relevante documento para a discussão sobre o meio ambiente é o chamado Relatório Brundtland1, o qual foi apresentado por uma comissão da ONU em 1987, cujas conclusões foram publicadas em várias línguas no livro intitulado Nosso Futuro Comum. A partir desse relatório difundiu-se como desenvolvimento sustentável: “Aquele que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras satisfazerem as suas próprias necessidades.” De acordo com Vieira (1995), este relatório não acrescentou modificações substanciais ao conceito de desenvolvimento sustentável. Contudo, teve o mérito de reaquecer a discussão ambiental “em escala internacional sobre a caracterização precisa do critério de sustentabilidade” (idem, p. 113). Já para Andrade (2000a), os autores Acselrad (1997) e Leroy (1997) demarcaram uma nítida separação político-ideológica entre o conceito de ecodesenvolvimento e o de “desenvolvimento sustentável”. Este último foi amplamente divulgado, a partir deste contexto, como conseqüência do surgimento do setor empresarial verde no movimento ecológico. Embora se reconheçam alguns pontos comuns entre as referidas propostas, tais como: o princípio básico de defesa ao direito das gerações futuras e a criação de uma sociedade sustentável, torna-se necessário ficar atento às diferenças ideo-políticas:
Enquanto o ecodesenvolvimento coloca limites à livre atuação do mercado, o desenvolvimento sustentável afirma que a solução da crise ambiental virá com a instalação do mercado total na economia das sociedades modernas (LAYRARGUES apud ANDRADE, 2000a, p. 193).

O que se depreende da análise acima é que existe um conteúdo políticoideológico diferenciado entre os conceitos de ecodesenvolvimento e desenvolvi-

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mento sustentável. Estão implícitas perspectivas de desenvolvimento. Enquanto o primeiro busca a superação da lógica individualista/predatória do capital, o segundo conceito busca responder aos desafios da crise ambiental mediante mecanismos que consolidam o sistema vigente, isto é, visa ao mesmo modelo de desenvolvimento sob uma “nova roupagem verde”. Assim, o conceito de desenvolvimento sustentável é uma superação positiva para o capital dos princípios conceituais do ecodesenvolvimento, os quais representam um questionamento da lógica industrialista vigente num contexto de globalização econômica. Godard (1997, p. 122) ressalta que a ampla difusão de diversas noções de desenvolvimento sustentável significa que essa noção conceitual:
[...]pode satisfazer a projetos e valores de uma grande variedade de atores e de grupos sociais, e que ela prepara o terreno para a formação de novos compromissos em suas relações. Desse ponto de vista, o halo de incerteza que ainda envolve a noção corresponde exatamente à função exercida na fase atual: aproximar problemáticas e interesses diferentes, abrir caminho para novas relações e favorecer reorganizações.

Segundo Chaves (2004), entre 1973 e 1986, a equipe interdisciplinar de pesquisa do Cired e do Fipad (Fondation International pour um Autre Développement) ampliaram o debate sobre estratégias de desenvolvimento ecologicamente viável, chegando ao conceito de desenvolvimento sustentado. A sustentabilidade envolve a busca de construção de um novo paradigma de desenvolvimento. Tal processo de construção se afirma na luta político-ideológica de defesa de um desenvolvimento que leve em conta os limites ecológicos do planeta Terra. Assim, esse novo paradigma de desenvolvimento “abrange a integração entre questões econômicas, sociais, culturais, ecológicas e tecnológicas”. Obstáculos impostos à implementação do desenvolvimento sustentável: breve reflexão Depois da realização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e o Desenvolvimento (UNCED-92)2, que ficou mais conhecida pelo nome de ECO-92, e, também, da realização do Fórum Global3, as discussões sobre a

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no período de 26/08 a 04/09/02). Chaves problemática ambiental chegaram à conclusão de que se não for modificado “o atual modelo de desenvolvimento econômico e não se produzir uma aproximação entre critérios ecológicos e processos econômicos. pois nem o sistema internacional. 1995.Marinez Gil Nogueira Maria do Per pétuo Socor ro R. Chaves (2004) destaca algumas questões que vêm minando as possibilidades de implementação de um desenvolvimento sustentado. jan. suas instituições e políticas setoriais. 24). • A condição de subordinação dos países do Terceiro Mundo às orientações econômicas e políticas vindas do “Norte”. após dez anos foi realizada a Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável – Rio+10 (em Johannesburg/África do Sul. 2005 137 . a espécie humana corre sérios riscos de sobrevivência a médio prazo” (LEIS. tais como: • O mercado e a economia são categorias ainda centrais. As indicações da necessidade de transformar a lógica do modelo de desenvolvimento econômico vigente estão presentes em todos os temas da Agenda 214 aprovados na Unced./jun. p. Diante do quadro global de pouca concretização de políticas públicas voltadas para uma real sustentabilidade. vivencia-se um debate em torno das dúvidas sobre as reais possibilidades de inflexão do modelo atual de desenvolvimento. Observa-se a necessidade de uma real efetivação da construção de um novo paradigma de desenvolvimento que busque uma simbiose entre sociedade e Somanlu. possuem a chave-mestra para reverter e/ou solucionar os problemas societais. A referida autora também afirma que este quadro extenso de desafios não implica que não possam ser construídas ações direcionadas para o chamado desenvolvimento sustentável. • A necessidade de ampla articulação. Não há duvidas de que no grande encontro da ECO-92 se registrou ter havido um avanço na compreensão sobre os perigos do desenvolvimento capitalista-industrialista. com a sustentação dos Estados soberanos. onde verificou-se que houve pouca evolução nas políticas públicas dos países signatários da Agenda 21. as agências multilaterais. 1. Contudo. demonstrando que pouco se fez pela preservação do meio ambiente e a sustentabilidade do desenvolvimento. • Ênfase acentuada na mudança das técnicas de produção e inovação – vistas como solução para todos os problemas. nem a estrutura do Estado moderno. ano 5. • A existência de profunda debilidade das instâncias internacionais de regulação. n.

às práticas políticas e às políticas públicas./jun. em que a segurança ecológica seja “reconhecida como um importante aspecto da governabilidade do planeta. natureza. 1997. 1. levando em conta a velocidade da degradação ambiental ao nível mundial.. 1980). Eriksson (1997. p. n. ano 5. são necessárias políticas criativas preocupadas com o longo prazo (por exemplo mais de um século). usando seus estoques saudavelmente. Para Chaves (2004). • A formulação de questionamentos aos fundamentos da ciência moderna.Desenvolvimento sustentável e ecodesenvolvimento. Apesar de se compreender a questão da escala temporal posta no horizonte de uma política de desenvolvimento sustentável. concorda-se com a seguinte assertiva: O problema ambiental verdadeiro consiste precisamente em elevar a produtividade do capital da natureza. ao lado da paz e da redução da pobreza” (SACHS. a busca da implementação de um desenvolvimento que verdadeiramente busque a sustentabilidade requer: • Democratização do acesso ao poder para superação das disparidades econômicas e políticas. 138 Somanlu. 2005 .. • Políticas públicas integradas que possam promover a distribuição eqüitativa de recursos e renda para combater a pobreza e atender às necessidades humanas básicas. • A conservação da vida (espécies vegetais e animais). 106) ressalta que: A formulação de uma política para a sustentabilidade requer o uso da imaginação para se definir um estado do mundo no ( bem distante) futuro. Sob esta ótica. Mas é também um ponto de partida para a consideração da limitação ecológica imposta pela natureza ao processo econômico (CAVALCANTI. sem se sobrecarregarem as funções de suprimento. 25). p. jan. de fonte (de recursos) e de absorção ou de fossa (de dejetos) do ecossistema. Neste sentido. não haverá mais recursos para serem usados de forma sustentável. se nada mudar na lógica atual (predatória dos recursos naturais) do desenvolvimento econômico. que possamos considerar como uma meta ou telos. Para avançar em direção ao desenvolvimento sustentável.

/jun. Chaves • Ciência e Tecnologia sintonizadas com as políticas de desenvolvimento social. Analisando as questões acima apresentadas percebe-se que a busca de sustentabilidade do desenvolvimento requer uma verdadeira reforma institucional. para encorajar a regeneração dos recursos renováveis. centros de pesquisa e comunitários (programas voltados para apoiar e contribuir com projetos de desenvolvimento local). para manter constante o capital da natureza em benefícios das futuras gerações (NORGAARD apud CAVALCANTI.” Parafraseando Edgar Morin. Há que se criar os espaços que favoreçam – ou mesmo forcem – esta aproximação. portanto. p. “o diálogo entre ciências naturais e sociais é.Marinez Gil Nogueira Maria do Per pétuo Socor ro R. uma necessidade imediata. verifica-se o desafio imposto ao próprio paradigma de fragmentação e fechamento teórico-metodológico da Ciência Moderna. Tendo em vista que a crise ambiental não permite uma análise reduzida do problema da sustentabilidade mediante uma percepção por si e para si da questão da preservação da natureza. corrobora-se com a afirmação a seguir: Novas instituições são exigidas para a conservação dos ativos naturais. • Relação cooperativa entre universidades. 37). 314). Para Costa (2001. 1997. 2005 139 . n. isto posto. para promover estilos de vida menos intensivos no uso de energia e materiais. visando à construção de mecanismos que possam vislumbrar a concretização de um desenvolvimento ecologicamente viável e socialmente justo. o grande desafio coloca-se na busca de uma ciência do “complexo” e. • O fortalecimento e ampliação da capacidade interna de inovação e invenção. 1. ano 5. Dessa Somanlu. Além da necessidade de uma reforma institucional no seio da sociedade. Sob esse prisma. que tem que ser estabelecida politicamente e perseguida institucionalmente. • A participação da população na tarefa de propor e trabalhar na construção de um novo modelo de desenvolvimento. p. para gerar tecnologias mais ambientalmente benignas. jan. interdisciplinar. para proteger a biodiversidade.

mas é necessário se forjar um novo ethos sociocultural de comprometimento com as questões ambientais. exigindo novas formas de regulação democrática. No campo da economia política. visando promover um crescimento durável. que na verdade só faz sentido como problemática social” (COSTA. n./jun. Apesar das dificuldades impostas pela lógica política e econômica da globalização. o que está em cheque é a versão neoliberal da economia. ano 5. jan. verifica-se que são muitos os desafios postos para a construção de um novo paradigma de desenvolvimento pautado na noção de prudência ecológica. não se pode deixar de perseguir mudanças em busca de um novo arranjo societal ambientalmente viável. Diante do exposto. Somente com o envolvimento da população será possível construir um futuro de compromisso com as gerações futuras. faz-se necessário o engajamento de todos os setores da sociedade (empresários. 140 Somanlu. pelo menos três fatores devem ser levados em consideração na busca de concretização de um desenvolvimento sustentável: educação. 2005 . Sem uma política efetiva de educação ambiental esse compromisso não será concretizado na teia do tecido social. e dos próprios ditames do capitalismo. a sustentabilidade deve ser uma meta da política de governo. eqüitativo e de qualidade ambiental. 1997). 2001. forma. o compromisso do Estado para induzir políticas públicas ambientalmente responsáveis e articular a participação da sociedade civil nesse processo de construção de sociedades sustentáveis. Quando se fala de uma reforma institucional. Estado e sociedade civil organizada) na busca de um tipo de desenvolvimento sustentável. socialmente justo e ecologicamente viável. 1.Desenvolvimento sustentável e ecodesenvolvimento. observa-se que “este tipo de visão oficializa certos saberes – os saberes da natureza – diante de uma problemática. 315). o desenvolvimento sustentável. p. antes de tudo. Mas. Considerações finais Não há dúvidas de que a sustentabilidade do desenvolvimento depende de uma reforma institucional no âmbito do processamento das políticas econômicas e sociais públicas. Em suma... gestão participativa e um diálogo de stakeholders ou partes envolvidas (CAVALCANTI. Assim. depende de uma mudança de mentalidade da sociedade que implique na construção de um novo arcabouço sociocultural de respeito à natureza.

alterações na camada de ozônio e perda de bio e sociodiversidade. em um mundo governado pelos atores e regras do mercado e da política” (idem. p. 3 De acordo com Leis (1995). B. que propiciou a realização de reuniões em várias cidades do mundo. inclusive em São Paulo. Estima-se que esse Fórum atraiu um público aproximado de 500 mil pessoas. esse relatório foi patrocinado pela primeira ministra norueguesa Gro-Brundtland. recursos naturais. através de um processo preparatório que demandou dois anos de extensas negociações entre os países-membros.500 entidades não-governamentais de mais de 150 países. 2001. jan. alem de vários eventos não-oficiais. mares etc. realizando quase quatrocentas reuniões oficiais. 2 A Unced configurou-se como um encontro de governos convocado pela ONU para tratar da crise ecológica dos bens comuns da humanidade (atmosfera. A Agenda inclui uma declaração de objetivos e metas. 1. D. p. Chaves Notas De acordo com Reigota (1994).) As lideranças governamentais do mundo todo já não podiam mais negar a problemática ambiental. o Fórum Global convocou mais de 2. diante de um volume cada vez maior de evidências empíricas em relação à magnitude das chamadas “mudanças ambientais globais”. O processo de reestruturação e as novas demandas organizacionais do Serviço Social. 4 “A Agenda 21 global é um documento desenvolvido para a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento. 1 Referências ANDRADE. A Conferência foi apenas o primeiro passo de um longo processo de entendimento entre as nações sobre medidas concretas que possam “reconciliar as atividades econômicas com a necessidade de proteger o planeta e assegurar um futuro sustentável para todos os povos” (TRINDADE. ano 5. M./jun.Marinez Gil Nogueira Maria do Per pétuo Socor ro R. 36). tais como: efeito estufa. 2005 141 . Desta forma. n. diversidade biológica. de 1992. In: Capacitação em serviço social e política social: o traSomanlu. 265). visando discutir e encontrar soluções para a problemática ambiental levantada após a Conferência de Estocolmo. bem como um elenco de estratégias e ações a serem seguidas para alcançá-las. considera-se como resultado deste evento a “emergência e legitimação do papel da sociedade civil planetária frente à crise socioambiental global.

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144 Somanlu./jun. ano 5. 1. jan. 2005 . n.

principalmente. saúde. na Amazônia brasileira (médio Solimões) a partir da década de 1980. n. also known as Omágua in the Brazilian Amazon region (midSolimões) since the 80’s. o Movimento Indígena que vai procurar dar resposta a muitos problemas sociais. Abstract This article discusses the process of ethnical assertion and identity construction of the Cambeba Indians.Afirmação étnica e movimento indígena em Tefé: o caso dos Cambeba* Benedito Maciel** Resumo Este artigo discute o processo de afirmação étnica e construção de identidade dos Cambeba. ano 5. ** Mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia. Keywords: anthropology. identidade. na Universidade Federal do Amazonas (UFAM). professor substituto do Departamento de História da UFAM. terra. indigenism.ª par te do capítulo VI de minha disser tação de mestrado intitulada “Identidade como articulação de novas possibilidades: etno-história e reafirmação étnica dos Cambeba na Amazônia brasileira”. which have ocurred at a moment in which the Indigenous Movement that will try to give answers to many social problems. ocorrido num momento em que emerge em todo o país e na região de Tefé. health. 2005 145 . Cambeba indians. such as: education. * Este artigo está baseado na 1. indigenismo. índios cambeba. defendida em 2003. self-sustainability and. land arises in the whole country and in the Tefé region. dentro do Programa de Pós-Graduação “Mestrado em Sociedade e Cultura na Amazônia”. conhecidos também como Omágua. identitity./jun. jan. Palavras-chave: antropologia. como: educação. Somanlu. 1. chiefly. auto-sustentabilidade e.

1999. evidenciando uma realidade étnica regional mais complexa do que se pode imaginar. Neste texto. mas ajuda a compreender a situação étnica da Amazônia e a discutir esses novos fenômenos de reafirmação de identidade que estão ocorrendo em todo o país. mas como um processo de afirmação identitária que coloca para os povos indígenas novos problemas no campo político e recoloca outros no campo da memória coletiva e da articulação interétnica. os Ticuna e os Kokama.Afirmação étnica e movimento indígena. são fatores favorecedores desses fenômenos. verificados no plano local e que devem ser analisados. Os estudos desses novos processos de reafirmação de identidade no país ainda são incipientes e pouco divulgados.. relativamente favorável aos índios. os Mayoruna. trataremos do caso dos Cambeba. ano 5. Esse Movimento vai culminar na reafirmação étnica de muitos grupos na região como: os Cambeba. com apoio de missionários da Prelazia de Tefé. mas há outros fatores. p. de ordem interna e externa. 146 Somanlu. Introdução O objetivo deste artigo é analisar o processo de reafirmação étnica dos Cambeba verificado a partir do início dos anos de 1980 no médio Solimões. a “viagem da volta” não é um exercício nostálgico de retorno ao passado. o que vai dar origem ao Movimento Indígena na região e que teve a Terra como o principal elo articulador dos interesses e aspirações indígenas. o caso dos Cambeba não é único. amparadas numa legislação indigenista pós-1988. política e reelaboração cultural no Nordeste indígena”. A possibilidade de conquista da terra e melhorias no atendimento à saúde e à educação. políticos e econômicos: saúde. educação. 30-31). jan. município de Uarini./jun. Assim. 1. coordenada por João Pacheco de Oliveira. desarticulado do presente e das presentes questões políticas e sociais vividas pelos povos indígenas e até por isso “não é uma viagem de volta” (OLIVEIRA. Essa “viagem da volta” não pode ser vista como um “retorno” ao passado. onde estão publicados alguns resultados destas pesquisas no Nordeste brasileiro. alimentação e terra. intitulada “A Viagem da volta: etnicidade. n. algumas delas estão divulgadas na obra coletiva. os índios discutiam seus problemas sociais. Nessas reuniões. organizados pelos Miranha da aldeia Miratu.. quando estes índios começaram a participar de assembléias e encontros indígenas. Como já mencionamos. Mas já há algumas reflexões importantes. 2005 .

fato que decorre da implantação do SPI na região e do novo campo indigenista construído a partir do final dos anos 80. os processos econômicos e políticos que propiciam um aumento da pressão sobre a terra. os Cursos de Formação de Lideranças (agentes de saúde. CIMI e entidades não-governamentais (OLIVEIRA. as Viagens de Articulação. passassem a exercer um importante papel político de liderança em toda a região e. na região. o aparecimento. destacam-se: os Ajuris. ano 5. com a atuação da FUNAI. reelaborassem sua identidade étnica na relação com outros grupos da região. através desse “novo papel”. ocorridos dentro do Movimento Indígena no médio Solimões. com iniciativa dos proprietários no sentido da expulsão de “moradores” e a ruptura de alianças com grupos e famílias isoladas. Destaca-se também a relação da Uni-Tefé com o Cimi (Conselho Indigenista Missionário) e a Prelazia de Tefé e. de uma alternativa étnica para alguns setores ameaçados. cujas especificidades no médio Solimões corroboraram para que os Cambeba não somente se reafirmassem como indígenas. mas necessárias e apresentadas Somanlu. Foi a partir desses mecanismos que os Cambeba se projetaram etnicamente na região diante de outros grupos e da sociedade nacional demonstrando habilidades específicas – próprias e adquiridas –. 1. Neste sentido. 2005 147 . as Assembléias Indígenas. tuxauas) e a própria organização indígena Uni-Tefé (União das Nações Indígenas de Tefé) como mecanismo de representatividade política “para fora”. mas./jun. jan. p. sobretudo. o uso que os Cambeba fazem da infra-estrutura do Cimi para articular o Movimento e se comunicar com as aldeias em toda e região.Benedito Maciel Para João Pacheco de Oliveira: São dois os fatores que favorecem a recuperação étnica: de um lado. n. 1999b. em dissertação de Mestrado intitulada “Identidade como articulação de novas possibilidades: etno-história e reafirmação étnica dos Cambeba na Amazônia brasileira” sustento que a reafirmação étnica dos Cambeba se deu num contexto histórico marcado por uma importante mudança na política indigenista brasileira – tanto por parte do Estado como da Igreja e da sociedade de modo geral – onde emerge com bastante força o chamado “Movimento Indígena”1. professores. 327). de outro. através deste Movimento. Dentre os mecanismos de mobilização étnica.

sem que isso afete a identidade do grupo. o que pressupõe uma especial atenção ao problema das fronteiras étnicas. onde foi possível estabelecer relações de apoio e “parcerias” com os diferentes agentes políticos envolvidos no cenário político regional. Barth – retomando a concepção weberiana de comunidades étnicas que são vistas como grupos virtuais que se atualizam por intervenção de fatores políticos – entende que a cultura resulta da etnicidade e. a perspectiva primordialista não se sustenta uma vez que os grupos étnicos continuam existindo apesar das variações culturais e do intenso contato destes com grupos sociais dominantes (BARTH. 2005 . Essa perspectiva está. não o contrário. p. marcado por conflitos e tensões intra e interétnicas. Discutindo etnicidade Tomamos como referência os estudos sobre etnicidade desenvolvido por Fredrik Barth e Roberto Cardoso de Oliveira. 2000. capaz de saber avaliar o cenário indigenista dos anos 1980 como favorável para sair do silêncio secular e assumir sua identidade étnica (re)elaborando o seu mundo simbólico e cultural. 1. de forma convincente junto a seus pares.Afirmação étnica e movimento indígena./jun. Trata-se então de perceber a reafirmação étnica dos Cambeba não como um retorno ao passado por saudosismo ou por mero interesse econômico “imediatista” (terra. Segundo o autor. 26). O estudo de Barth parte de uma crítica à noção de grupos étnicos primordiais. traços culturais poderão variar no tempo e no espaço. educação. Trabalhar esta perspectiva implica reconhecer o papel do grupo Cambeba enquanto “sujeito”. em consonância com a que percebe a cultura como algo essencialmente dinâmico e perpetuamente reelaborado. mas como grupos que vão se definindo a partir das relações estabelecidas com outros grupos e com a sociedade nacional. A cultura. portan148 Somanlu. que entendem grupo étnico não como uma unidade cultural fechada ou delimitada rigidamente por fronteiras lingüísticas ou geográficas. mas como processo endógeno e exógeno de superação de estigmas. ano 5. que privilegia o estudo das variações e transformações culturais. saúde). assim. n. Manuela Carneiro da Cunha também corrobora com esta perspectiva ao afirmar que: Em suma.. Tratarei aqui apenas do processo de afirmação dos Cambeba deixando para outra oportunidade a análise dos mecanismos de mobilização étnica dentro do Movimento Indígena na região de Tefé. como de fato variam.. jan.

assim como definiu Barth. avaliar”. quando se afirmar como indígena pressupunha mais perdas que ganhos. “agir”. GOFFMAN.. 116). é de certa maneira produto deste (CUNHA. ou mesmo nenhum ganho: Somanlu. Para o autor. 1963. Ela se afirma “. Lembra também que ao se tratar de “valor” e tudo o que ele significa temos que discutir a questão da “escolha” e indaga: “[. 1976. Quando uma pessoa ou um grupo se afirma como tais. W. Para ele. Roberto Cardoso de Oliveira (1976) recupera as contribuições (GOODENOUGH. Uma avaliação dessa natureza foi feita também pelo grupo no passado. mas enfatiza também o sentido de “padrão”.Benedito Maciel to. o fazem como meio de diferenciação em relação a alguma pessoa ou grupo com que se defrontam. o autor trabalha a noção de “identidade contrastiva” e a vê como a essência da identidade étnica. ‘etnocentricamente’ por ela visualizada” (CARDOSO DE OLIVEIRA. jan. 2005 149 . Entre os “ganhos” está seguramente a Terra. Neste sentido. É uma identidade que surge por oposição”. p. MCCALL & SIMMONS. 5-6). M. Neste sentido. O reconhecimento do caráter processual realizado tanto por indivíduos como por grupos sociais permite verificar diferentes processos de identificação social. ano 5. a “escolha” em afirmar-se como Cambeba no médio Solimões está diretamente relacionada a uma “avaliação” dos prováveis resultados desse ato traduzidos em “perdas” e “ganhos”. 1963 e. MOERMAN. p. 1976. Buscando compreender a identidade étnica. 1976.. H.. 21). em vez de ser o pressuposto de um grupo étnico. cultura aqui significa “valores”./jun. onde as possibilidades de ganhos foram vistas como maiores pelo grupo. 1987. 4).. a importância de reconhecer esses níveis permite que antropólogos e sociólogos possam trabalhar o tema da identidade sem cair em certos “psicologismos”.. Para ele. “perceber”.. 1965.. a identidade é um fenômeno “bidimensional” que incorpora os aspectos individual e coletivo de forma “processual”. 1. E. p. pois ela: “implica na afirmação de nós diante dos outros. p. comuns em trabalhos interdisciplinares dessa natureza (CARDOSO DE OLIVEIRA.]por acaso não é a identificação étnica – nos contextos em que a temos examinado – de algum modo uma ‘escolha’?” (CARDOSO DE OLIVEIRA. a identidade étnica surge num processo dialético de enfrentamento de contrários e não em situação de isolamento. “crer”. ‘negando’ a outra identidade. 1966) para demonstrar como a Sociologia e a Antropologia têm buscado trabalhar a identidade combinando os aspectos social e individual. n.

Essa filosofia significou. ao que me parece. sugerindo. 2005 . criado em 1968. Oliveira (1999) identifica que os debates em torno da questão da etnicidade apontam para dois caminhos. Essa era a filosofia desde a época do SPI (Serviço de Proteção ao Índio) criado em 1910 e se estende até a Funai (Fundação Nacional do Índio) criada em 1967. O que seria própria das identidades étnicas é que nelas a atualização histórica não anula o sentimento de referência à origem. na prática. p. 1. por isso. Na mentalidade da sociedade brasileira e dentro da concepção da política indigenista brasileira vigente na época. retirar os indígenas das áreas de interesse do capital e colocá-los em Parques Indígenas ou “Área de Refúgio”. p. os índios ainda eram vistos como incapazes de gerir seu próprio destino./jun. de outro. as mobilizações indígenas davam-se de forma isolada e limitada às situações particulares de resistência regional ou étnica. o que só poderia se dar mediante um processo de “aculturação”.. É da solução simbólica e coletiva dessa contradição que decorre a força política e emocional da etnicidade (OLIVEIRA. uma correlação entre as duas correntes ao apontar que: A etnicidade supõe necessariamente uma trajetória (que é histórica e demandada por muitos fatores) e uma origem (que é uma experiência primária. estariam os primordialistas – Geertz e Keyes. freqüentemente.. sendo necessária a proteção do Estado através da tutela e sua integração à sociedade nacional. MACIEL.Afirmação étnica e movimento indígena. mas que também está traduzida em saberes e narrativas aos quais vem a se acoplar). ano 5. que analisam como lealdades primordiais. 150 Somanlu. Antes desse período. quando os Cambeba afirmaram que deixaram de falar a língua por medo de serem perseguidos e descriminados pelos “brancos” (Cf. Oliveira propõe uma superação dessa polaridade. individual. onde. 30). como Parque do Xingu. 56-79). 1999. Contextos histórico e social da identificação étnica dos Cambeba A emergência do chamado “movimento indígena organizado” no Brasil é relativamente recente e tem um contexto histórico determinado: as décadas de 1970 e 1980. jan. fragilizadas e sem muito poder de barganha diante do Estado. criado em 1951 e o Parque Indígena Aripuanã. que entendem como processos políticos que devem ser estudados de forma específica e. mas até mesmo o reforça. por exemplo –. de um lado. n. estariam os instrumentalistas – como Barth e Cohen –. 2003.

THOMÉ. que a terra indígena assume a conotação de “terras de ocupação tradicional”. 1991. redução brusca da população e do território como foi o caso dos Waimiri-Atroiri no Amazonas. cientistas. especialmente na Amazônia. como hidrelétricas. Aqui se trata de projetos econômicos de envergadura. mas que não tem por destinatárias as populações locais. [./jun. n. meios de existência material. em 1973. a Funai já nasce comprometida com a ideologia desenvolvimentista dos governos militares (Cf. não só econômica: terras e territórios. social. em vigor até hoje. sindicatos. jan. 1978. DAVIS. onde determinados Somanlu. Mas é somente com a Constituição de 1988. onde os índios têm o direito de se reproduzir física e culturalmente. igrejas e personalidades. cultural e política. Foi no período constituinte que os povos indígenas tiveram um dos seus momentos mais importantes de luta e resistência e onde conseguiram mobilizar a seu favor um maior número de aliados: ONG’s. 1999). mas de tirar-lhes o que têm de vital para sua sobrevivência. enquanto povos diferenciados. planos de colonização. A criação do Estatuto do Índio. 16. Sobre os chamados “grandes projetos”. É como se elas não existissem ou. Neste sentido. 1. demolindo as resistências e impedindo determinadas “presenças indesejadas” – de pessoas ou de grupos – especialmente aqueles ligados ao indigenismo alternativo que começava a ganhar força em todo o país. É a partir desse momento que os povos indígenas começam a lutar pelo reconhecimento de seus direitos e pelos seus territórios tradicionais ou recém-conquistados. SABATINI. reconhece a terra como o território tradicional dos grupos indígenas. Durante toda a década de 1970 são realizadas em todo o país as chamadas Assembléias Indígenas – num total de dez entre 1974 e 1977 –. no marco do Estado Nacional2. 1998.. ano 5. José de Sousa Martins (1991) assim percebeu o significado do seu impacto na região amazônica: Aqui não se trata de introduzir nada na vida de ninguém. Nesta perspectiva vemos que na geopolítica do governo militar a Funai tinha a missão de retirar os empecilhos aos grandes projetos econômicos. rodovias. de grande impacto social e ambiental. existindo. partidos políticos. p..Benedito Maciel extermínios de grupos inteiros ou. Os grifos são do autor). 2005 151 .] Não se trata de introduzir nada na vida dessas populações. não tivessem direito ao reconhecimento de sua humanidade (MARTINS.

além de denunciar as violências contra os povos indígenas. declara: “não aceitaremos ser instrumentos de sistema capitalista brasileiro”. A saída foi fortalecer as organizações e mobilizações em níveis local e regional. hoje. em 1980. tendo a questão da “terra” como o eixo articulador e mobilizador das demandas dos povos e comunidades em todo o país (CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO. a Opan (Operação Anchieta. ano 5. Assim. da igreja e de seguimentos profissionais.Afirmação étnica e movimento indígena. das Conferências Medellin (1968) e Puebla (1979). A partir do Concílio Vaticano II (1962-65). realizados entre 1982 a 1984: as tensões entre os indigenismos oficial e alternativo3 são evidentes. Como resultado de tensões entre diversos setores do Estado.. 58). 152 Somanlu. que vão multiplicar-se em todo o país as chamadas “organizações indígenas” legal e juridicamente constituídas com o papel de “representação” dos interesses indígenas junto ao Estado e a várias instâncias da sociedade nacional. jan. a igreja se abre para novas propostas e aceita os desafios vividos pelos cristãos na América Latina e a orientação da Teologia da Libertação.. É nesse momento. além de outras pastorais como a Operária e Estudantil. 2001. que traduzem uma nova postura da igreja católica diante dos problemas nacionais. Essas tensões e a própria dificuldade de organizar centenas de povos e milhares de comunidades – com diferentes relações de contato e. 2005 . a UNI (União das Nações Indígenas). como os de antropólogos. em 1989. a Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas Brasileira) e inúmeras outras organizações locais. O documento Y-Juca Pirama (1973) deixa clara a posição política da igreja. isoladas geograficamente – em todo o país. vão causar uma constante instabilidade no movimento em nível nacional. encontros e mobilizações indígenas e a representar os povos e comunidades junto ao governo e em vários espaços públicos onde a questão indígena era debatida. p. que. No final da década de 70 e início dos anos 1980 são criadas: a CPT (Comissão Pastoral da Terra). há uma reação de vários setores sociais “dominados”. 1. quase sempre./jun. final dos anos 1980 e início dos anos 1990. Operação Amazônia Nativa) e o Cimi. foi criada. grupos de comunidades de um povo ou de vários povos começam a discutir várias temáticas. que passou a articular as assembléias. A necessidade de articular um movimento em nível nacional levou os indígenas a criarem. n. A UNI nasce na crise do indigenismo brasileiro e suas contradições aparecem nos seus primeiros encontros em nível nacional.

em julho de 1980. incentivando a organização comunitária e criando as chamadas CEB’s (Comunidades Eclesiais de Base). a gente colhe muita castanha. Antes da presença do Cimi na região. Sr. O encontro de lideranças indígenas de Miratu Esse evento é considerado o 1. o que ocorreu somente a partir de 1979. A atuação da igreja. Adriano revela a situação socioeconômica em que os índios viviam e as alianças que estavam fazendo: [. Para o tuxaua de Miratu. Betel. O comércio corta tudo pela metade [paga metade do valor]. Nesse Encontro as lideranças realizaram um diagnóstico da situação indígena na região de Tefé. município de Uarini. Um grupo de antropólogos de todo o continente americano expressa.º Encontro de Lideranças Indígenas da Prelazia de Tefé e foi realizado na aldeia de Miratu dos índios Miranha. Somanlu. a gente corta tanto pau.. No depoimento abaixo. Marajaí. terra e organização das aldeias. os problemas só seriam resolvidos com a “união dos parentes”. 1. jan. Até o final da década de 1970. 2005 153 . mas não sem conflitos. A atuação da igreja em Tefé foi um dos fatores decisivos para a emergência de muitos grupos étnicos na região. onde foi dada especial atenção aos problemas de saúde. ano 5. n. também não dá pra nada. 4 quadra de roça. era o MEB (Movimento de Educação de Base) que atendia às comunidades Jaquiri. ou não é libertação”. Seu território foi demarcado no início do século pelo SPI./jun. A gente produz tanta farinha [mas] o preço é de nada. antes delas terem se identificado como indígenas4. Então é muito difícil a nossa vida. o que vai ser um eixo orientador de toda a prática indigenista não-oficial: “Ou a libertação dos índios é feita por eles mesmos. entre outras. desmata 3. quando é época de castanha. marcada já nessa época pela “opção preferencial pelos pobres” – orientação traçada em Medellin (1968) e adotada pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) Regional Norte I em 19725 –.] A gente precisa de tanta coisa. não dá pra nada. num processo de ação política inovadora.Benedito Maciel A comunidade científica também se mobiliza. somente os Miranha da aldeia Miratu eram tidos oficialmente como índios. na Declaração de Barbados (1970). buscava implementar um discurso político de transformação social. Adriano Pereira de Sousa. por não termos ajuda. mas a produção da gente não dá pra nada..

É muito longe essas madeiras. transporte etc) e.. 2003.. Já a partir deste momento. p... Por esse motivo eu faço um apelo pro lado dos missionários pra que eles ajudem a desenvolver a comunidade. A Terra é o escritório do pobre. mas não temos serra[.] é eles que conhecem a nossa realidade. a garantia da Terra passa a ser. O terçado é a lapiseira do pobre”. comunicação..] (Depoimento de Adriano Pereira de Sousa. Reafirmando a identidade étnica: um jeito de se “entrosar” e de vencer o medo A reafirmação étnica dos Cambeba ocorreu a partir do Encontro de Miratu. por outro lado. especialmente ligados ao MEB e ao Cimi eram pessoas interessadas e que conheciam os índios: “[.. sorva. eles não consegue alguma coisa pra nós? Porque a gente se vira pra um lado e outro e não consegue nada! [. Lembremos que no início da década de1980.]. Esse foi um momento importante. 1. n. 2003. ano 5. tem uma madeira de lei. 145). Cf. apenas as áreas dos Miranha de Méria e Miratu eram demarcadas. que andam tudo por aí com a gente”. MACIEL. aí acaba de matá. É a luta pela Terra que vai articular todo o movimento indígena na região a partir do Encontro de Miratu (MACIEL. Os índios perceberam a influência que a Igreja tinha em várias áreas sociais (saúde. no entendimento dos índios.] Eu vou me encostá do lado da Prelazia de Tefé. educação./jun. A proposta de “se encostá” na Prelazia era a saída encontrada pelas lideranças para buscar apoio para as aldeias e que vai ser assumida por outros grupos indígenas. como eu já falei pra seringa.] vamos lutá pra garanti a Terra.Afirmação étnica e movimento indígena.. A gente apela. Desde então esses índios começaram a participar de assembléias e encontros indígenas. Outras áreas do médio Solimões não haviam sido sequer identificadas. a única possibilidade de melhoria de vida. viam que os missionários.. jan. onde a gente não consegue trazê pra beira. onde os índios colocaram em comum seus 154 Somanlu.. 2005 .. Será que não é bom assim? Será que a gente se encostando do lado deles. Pode ser que assim eles possam conseguir alguma coisa pra gente. Mas o discurso em defesa da terra era firme e tinha um significado bem definido.. Nas palavras de Adriano: “[. Eles têm muito poder e intimidade com as entidades.. Pode ser que melhore alguma coisa[. p. não existe mais. 146).

. buscar parcerias. que eram diferentes dos outros. se conhecendo. na troca de experiências e na discussão dos problemas em comum. Fica claro no depoimento de André Cruz que os Cambeba tinham consciência de sua identidade indígena. p. assim se expressou Adriano. Numa série de encontros que sucederam este tomaram conhecimento dos direitos que os índios tinham na sociedade brasileira. através de palestras. Aí a gente vivia à vontade ali. que estamos conhecendo. 147). Ninguém pensava que existia índio lá. Perguntado por que os Cambeba não se identificavam como índios antes de chegar na aldeia Jaquiri. n. que se apresentava pela primeira vez como índio diante dos outros grupos. tuxaua Miranha: [. se “encostá” na Prelazia. passaram a conhecer outros “parentes” e a reconhecer-se neles também. traduzido na articulação dos povos e das aldeias. dia 03 de julho de 80. exibir pinturas corporais. você. Então. mas a discriminação e o medo não deixavam que eles se afirmassem diante dos outros como índios. índio Cambeba de Jaquiri. A razão da sociedade regional não perceber a presença dos Cambeba está seguramente associada ao fato dos índios não mais apresentarem aqueles traços distintivos (andar nu.. Todas as lideranças colocaram seus problemas e concluíram que não apenas tinham um passado em comum. Nasce o embrião do movimento indígena. André responde com clareza: “Porque não tinha quem chegasse lá pra perguntá. era mais que tudo isso. morar nas matas. não falar o porSomanlu. Embora cheio de problemas. se entrosar. hoje. Depois da apresentação de Raimundo Cruz. O Encontro de Miratu foi um marco na história dos Cambeba e dos índios do médio Solimões. ano 5.. Neste Encontro. É necessário lutar pela terra. debates e discussões coordenadas pelos missionários da Prelazia de Tefé. Seu Geraldo e agora estamos se entrosando. Que antes.]Pois é Seu [para designar Sr. MACIEL. 2003. Para os Cambeba./jun. que nós temos nos conhecendo.Benedito Maciel problemas. 2005 155 . mas com amigos. era porque ninguém dizia que existia etnia ali” 6. esse é o maior prazer que eu tenho de viver junto com vocês. 1.. ou seja. Não era porque a gente não se reconhecia. tomaram decisões e se alegraram de conhecer novos “parentes”.] Cruz. mas também um presente de sofrimento e exploração e que só a união das aldeias e dos povos e a busca de aliados poderiam tirá-los daquela situação. jan. ou seja. eu nem pensava de ter esse tipo de Encontro (Cf.

Por isso. os professores das aldeias Cambeba são todos do próprio grupo... seu filho. é necessário dizer que a identificação ou a reafirmação étnica apresentava-se como uma faca de dois gumes: se por um lado. 150). tuguês etc. p. dos seus direitos e a dominação exercida pelos brancos. O Movimento Indígena é um espaço privilegiado para essa busca: os cursos. Barreira da Missão) não tenha contrariado grandes interesses econômicos a ponto de provocar conflitos graves. Mesmo que a demarcação das terras Cambeba (Jaquiri. 62). Mas adiante. a expressão “buscar conhecimento” aparece com grande força no discurso dos Cambeba passando a ser uma determinação desses índios a partir dos anos 1980.]. n. no início das alianças interétnicas no médio Solimões que vai dar origem ao Movimento Indígena na região e mais tarde na própria criação da Uni-Tefé. o tuxaua Valdomiro Cruz designou André Cruz..]”7. 2005 . Hoje. 1.. Só que era como assim uma criança que vivia ali [.) tidos pela sociedade como definidores do índio. p. pescadores e donos de castanhais. para se formar professor. por outro lado. os encontros. A relação que André faz com a vida de uma criança quer enfatizar o não conhecimento da estrutura da sociedade brasileira. o caboclo. Segundo Faulhaber (1998. Aí.Afirmação étnica e movimento indígena./jun. é diferente dos habitantes dos 156 Somanlu. as viagens “para fora”[. que não têm estudo. ano 5. Assim que chegaram a Jaquiri. jan. Igarapé Grande. A identificação étnica dos Cambeba se dá. Mas não era só aí que os Cambeba “buscavam” conhecimento. regatões. Lembramos aqui também os conflitos que os Cambeba tiveram com Gonçalves e Litaiff pela posse de Igarapé Grande (MACIEL. Aí deu certo”8. criava a possibilidade de sair do silêncio secular e de poder barganhar o direito a terra e a melhores condições de vida. mesmo assim. como entidade responsável pela articulação desse movimento e pela defesa dos direitos de todos os povos indígenas da região de Tefé. Perguntado sobre qual razão teria levado o grupo a se identificar como Cambeba. A escola também passa a ter um papel importante na vida do grupo. Contudo.. André é bem sucinto: “Foi o conhecimento da realidade dos parentes da cidade que não têm emprego. na mentalidade de políticos e administradores regionais o morador do “beiradão”.. portanto. vamos nos identificar. pensamos: temos nossa etnia. a nova forma de ocupação e uso do território bem como dos lagos e recursos naturais não foi bem assimilada por comerciantes. os expunha a pressões e preconceitos de toda ordem. 2003. André Cruz complementa: “Nós sabia que nós era Cambeba. até mesmo por serem terras relativamente pequenas. nós falava a língua.

representado na figura do tuxaua. pelos agentes que as operacionalizam. Entre 1992 e 1995. 64). que tinham seu próprio governo. Para Faulhaber: Como as relações entre etnias são estabelecidas em campos políticos concretos. e não necessitariam mais de tutela”. É neste contexto. os organizadores procuravam-nos para solicitar que da próxima vez fosse alguém que “falasse língua” e que pudesse apresentar algum ritual “indígena mesmo!”. segundo o prefeito. através de relações políticas que se processam em campos de forças conjuntivas./jun. fugir do preconceito e da estigmatização por parte dos “brancos” passou a ser uma preocupação do grupo. Assim. portanto. Em muitas oportunidades. A partir do que foi exposto é possível pensar a reafirmação étnica dos Cambeba não como um retorno a formas culturais passadas. 2005 157 . o tuxaua de Jaquiri mandou prender seu próprio parente que se envolvera numa pequena briga nas vizinhanças. iguais às dos “brancos”. n. a identidade étnica é construída. 1. um Cambeba contou-nos que. Presume-se que. no campo de enfrentamento político. mas como uma reelaboração das relações sociais. ano 5. Uma vez identificados como índios. que eram organizados e que poderiam resolver seus problemas internos sem a intervenção da polícia. mas também o quanto ficavam desapontadas em saber que não falavam a língua materna e vestiam roupas iguais às suas. acompanhamos muitas vezes os coordenadores da UniTefé em palestras nas escolas públicas de Tefé. E lembra que “os índios de Tefé. com essa atitude. como eram vistos os índios. no sentido de conciliar interesse ou mesmo em uma “reinvenção” nos termos que propõe Faulhaber (1997b). p. 1987b. sendo deste modo a etnicidade definida na própria situação de confronto político (FAULHABER. E mais. no final das palestras. já estariam ‘perfeitamente integrados’.9 Em trabalho de campo que realizamos em 1997. os Cambeba queriam mostrar que não eram violentos e que não compartilhavam com atos de vandalismo e desordem como poderia constar no imaginário popular. a identidade é Somanlu. jan. numa complicada rede de relações e de conflitos internos (entre si) e externos (com outros indígenas e com os brancos). que os Cambeba vão construindo e reconstruindo sua identidade étnica. certa vez. Alvarães e Maraã e pudemos ver quanta surpresa dos estudantes quando descobriam que aquelas pessoas eram índias.Benedito Maciel “altos rios”.

mas como reelaboração constante das formas de conceber o mundo e de definir novas estratégias para melhorar as condições de vida e dar sentido aos propósitos comuns do grupo tendo. 1. É. enfim. as lutas e os conflitos do quotidiano./jun. talvez. Se não fosse essa identificação como indígena e entrá no Movimento. retirando do silêncio secular “pedaços esquecidos” de sua história e de sua tradição. deveríamos pensá-la. alianças e conflitos que os Cambeba vão se afirmando como indígenas e reelaborando seu mundo simbólico e cultural. nós estava pescando pira158 Somanlu. inserida nas histórias indígenas brasileira e regional.. Dentro desta mesma perspectiva está o estudo de Stuart Hall. O Movimento Indígena organizado é a maior expressão destas mudanças e significa.Afirmação étnica e movimento indígena. p. E nos aspectos do Movimento Indígena. portanto. É uma nova fase de sua história que se dá.. como palco. o Movimento Indígena é o palco principal deste processo de resistência e de afirmação de identidade. vão se reorganizar e planejar a vida e o futuro. passa. n. na medida em que ele considera que: Ao invés de tomar a identidade por um fato que. numa complicada rede de relações. 68). 1998. vista não como algo que se perpetua no tempo. 2005 . que está sempre em processo e é sempre constituída interna e não externamente à representação (HALL. jan. É um novo cenário político e social marcado por mudanças na relação dos povos indígenas com a sociedade nacional. com o Estado brasileiro e entre os próprios grupos indígenas. Como vimos. a ser representado pelas novas práticas culturais. André Cruz. ano 5. para os Cambeba. como uma ‘produção’ que nunca se completa. uma vez consumado. Chegamos até a sala de aula. melhorou porque chegamos a estudar mais e abranger outros pontos aqui na região. mas também significa a possibilidade de se projetar no cenário político da região do Solimões e se articular como um povo diferenciado. ter que fazer novas alianças com antigos e novos rivais. em seguida. é claro e conclusivo na resposta: Pra nós melhorou porque temos mais conhecimento político e também de vários pontos da aldeia. não por coincidência. Perguntado se havia melhorado alguma coisa na vida dos Cambeba depois de terem se identificado como indígenas.

até manifestações e mobilizações políticas mais amplas –. organização comunitária. durante 40 anos. na avaliação da Igreja. n. proteger e fazer respeitar todos os seus direitos”. e o segundo. competindo à União demarcá-las. e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam.] A gente não ia valer nada (Cf. assessoria a comunidades e organizações populares. 1 Somanlu. jan. costumes. p. 2005 159 . O Departamento do MEB em Tefé foi criado em 1963. 2 O Capítulo 231 da Constituição Brasileira reconhece os direitos sociais dos índios e atribui à União a obrigação de demarcar suas terras e proteger esses direitos. Em 2003. de algum modo. 1.. 2003. línguas. formação de lideranças. desenvolveu projetos de educação de jovens e adultos. eram adequadas para trabalhos nas áreas pobres de difícil acesso e comunicação. o Departamento de Tefé foi fechado. que. 174) Notas Faço aqui uma necessária distinção entre “Movimento Indígena” e “Organizações Indígenas”. Nós tava por aí[. crenças e tradições. ano 5. ocorridas localmente. seguindo as formalidades jurídicas da sociedade brasileira e que tiveram desde seu início uma forte influência de entidades da sociedade civil organizada. desenvolvidos pela CNBB nas Arquidioceses de Natal e Aracaju./jun. não tinha nenhum conhecimento. entendo como todas as formas de resistência exercidas pelos povos indígenas frente às situação de conflito interétnico – que vão desde as revoltas contra agentes da colonização regional. São “Organizações” criadas a partir do modelo sindical (de luta de classe). pelo bispo Dom Joaquim de Lange e. 3 Chamo de “indigenismo alternativo” o Movimento articulado a partir dos anos de 1970 pelos índios com apoio da sociedade civil organizada. como novas formas de organização criadas e recriadas pelos povos indígenas para articular suas lutas dentro das estruturas do Estado nacional brasileiro e que têm como marco os anos de 1980. apresentava uma outra perspectiva de organização e de enfrentamento diante da política indigenista do Estado brasileiro. 4 O MEB foi criado em 1961 em nível nacional a partir de experiências de projetos de Educação Radiofônica. MACIEL. O primeiro. “aliadas” aos índios. Diz o texto constitucional: “São reconhecidos aos índios sua organização social.Benedito Maciel nha. Essas experiências. entre outros..

José Aldemir. o iniciador e outras variações antropológicas. Etnia e Estrutura Social. 2003. Humberto (Org). OLIVEIRA. 5 Referências BARTH. Roberto. 148). 1. ano 5. 149. na sede da Uni-Tefé na cidade de Tefé (Cf. p. que pode ser transmitido através da linguagem e contaminar por igual todos os membros de uma família”. gravada em fita K-7. CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO. estigmatizado. p. crenças falsas e rígidas. “violento”. Pe. o segundo se refere às “culpas de caráter individual. em 23 de agosto de 2003. percebidas como vontade fraca. portanto. Tradução: John Cunha Comerford. CARDOSO DE OLIVEIRA. e o terceiro seria “os estigmas tribais de raça. A Igreja arma sua tenda na Amazônia: 25 anos do Encontro Pastoral de Santarém. GOFFMAM. Identidade. 9 Erving Goffman menciona três tipos de estigmas: o primeiro seria “as abominações do corpo”. p..Afirmação étnica e movimento indígena. “desonesto”. O estigmatizado seria “um indivíduo que poderia ter sido facilmente recebido na relação social quotidiana. nação ou religião. sendo. Rio de Janeiro: Contra Capa. 160 Somanlu. existente na sociedade faz com que o índio seja discriminado e não bem aceito em muitos espaços sociais. 2001. 14). jan. Roberto. 1988. O guru. Cf. Fredrik. 2005 . destruindo a possibilidade de atenção para outros atributos seus” (Cf. desonestidade”. São Paulo: Editora Salesiana. n. MACIEL. 8 Idem.. 6 Entrevista de André Cruz a Benedito Maciel. Rio de Janeiro/ Brasília: Tempo Brasileiro/UnB. “ignorante” etc. 1976. 7 Ibdem. paixões tirânicas ou não-naturais. GUIDOTTI. 2000. São Paulo: Pioneira. possui um traço que pode-se impor à atenção e afastar aqueles que ele encontra. “Outros 500”: construindo uma nova história. A idéia do índio como “preguiçoso”. Neste livro está publicado o conhecido Documento de Santarém bem como uma série de artigos que avaliam a atuação da igreja e a realidade socioeconômica dos últimos 25 anos. 2000./jun. 1978. CARDOSO DE OLIVEIRA. Sociologia do Brasil Indígena. Manaus: Edua.

O Navio Encantado: etnia e alianças em Tefé. p. Jean. ano 5. Vítimas do Milagre: o desenvolvimento e os índios do Brasil./jun. DAVIS. Nunes. In: HÉBERT. In: HÉBETTE.Benedito Maciel CUNHA. FALHAUBER. Shelton H. Anuário Antropológico/96. RJ: Fase/NAEA/UFPA/ Vozes. Mito. Ano. MACIEL. Manaus: Universidade do Amazonas. 1998. ed. 321-346. O Lago dos Espelhos: etnografia do saber sobre a fronteira em Tefé/ Amazonas. p. In: D’INCAO. Relatório de Final de Pesquisa. 1988. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi. Amazônia e a crise da modernização. Rio de Janeiro: Zahar Editores.). OLIVEIRA. Tradução: Jorge Alexandre F. João Pacheco de. L. Identidade como Articulação de novas possibilidades: etno-história e reafirmação étnica dos Cambeba na Amazônia brasileira. “Novas identidades indígenas: análise de alguns casos na Amazônia e no Nordeste”. Maria Ângela. MARTINS. n. 68-75. Manaus: Universidade Federal do Amazonas. Benedito. Vozes. 1997. 1978. Stuart. FALHAUBER. 1997a. Antropologia do Brasil. Tradução: Márcia Bandeira de M. 2005 161 . Isolda Maciel da (Org. p. Nº?. GOFFMAN. Somanlu. Dissertação de Mestrado. 4. 1987b. “A Reinvenção da identidade indígena no médio Solimões e no Japurá”. 2. (Org. “A segurança das faixas de fronteira e o novo indigenismo”. FALHAUBER. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. p. Resistência Silenciosa: estudo da retomada étnica dos Omágua. 2003. 1991. João Pacheco de. RJ: Fase/NAEA/UFPA. Priscila. O cerco está fechado. São Paulo: Brasiliense. história. Benedito. Jean (Org. MACIEL. Belém: Museu Goeldi.). Manuela Carneiro da. “Identidade cultural e diáspora”. Rio de Janeiro: Editora Guanabara. ed. O ceco está fechado. 1. OLIVEIRA. Priscila. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. 327.). p. 1533. Priscila. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi. “A chagada do estranho: notas e reflexões sobre o impacto dos grandes projetos nas populações indígenas e camponesas da Amazônia”. 1991. 83-101. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. jan. 1994. 1998. José de Sousa. HALL. Pontual. PIBIC/CNPq. SILVEIRA. etnicidade. Erving. 1987.

1998. THOMÉ.Afirmação étnica e movimento indígena. 2000. ano 5. Um grande projeto na Amazônia: hidrelétrica de Balbina um fato consumado. 1. A viagem de volta: etnicidade. Massacre. OLIVEIRA. política e reelaboração cultural no Nordeste indígena. Humberto (Org. A Igreja arma sua tenda na Amazônia: 25 anos do Encontro Pastoral de Santarém. Manaus: Edua. SABATINI. 1999./jun. 2005 . 1999.). jan. RJ: Contra Capa Livraria. 162 Somanlu. José Aldemir de. Silvano. José Lauro. SP: Conselho Indigenista Missionário.. Pe.. João Pacheco de (Org. OLIVEIRA. Manaus: Edua. GUIDOTTI.). n.

In this insertion process there is a kind individualization of the subject who starts to think and to be tought no longer as an individual but in detriment of the social role he performs. 1. some reflections on individual transformations are presented as they are inserted or are been inserted in to a new social space. Keywords: individual. Abstract In this article. jan. Palavras-chave: indivíduo. ano 5. que passa a pensar e ser pensado não mais como indivíduo. Thus. Somanlu./jun. este indivíduo marcado por tais transformações é forjado socialmente e a ele é atribuída uma identidade que ressignifica sua existência. person. Such social metamorphoses happens in the spaces wich used to identify him as belonging to a singular space where the work used to be part of life. Neste processo de inserção há uma espécie de desindividualização do sujeito. onde o trabalho era uma parte da vida. pessoa. * Mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia. is requirede of him. Horkheimer Aldair Oliveira de Andrade* Resumo Neste artigo. Esta metamorfose social se dá nos espaços que antes o identificavam como pertencente a um espaço singular. this person marked by such transformations is socially forged and identity that assigns a new meaning to his existence.A inserção do indivíduo em novos espaços sociais e a criação de novos papéis Os indivíduos foram domados. papéis. apresentam-se algumas reflexões sobre as transformações do indivíduo ao inserir-se ou ser inserido em novo espaço social. mas em detrimento do papel social que desempenha. n. 2005 163 . roles. professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas – UFAM. Neste sentido.

não se deixa dividir como o diamante. compreendendo o conceito humano como um elemento que pode ser encontrado em todos os homens. A defesa da existência de uma natureza humana serve para “legitimar a ideologia de uma essência individual humana predeterminada. O desenvolvimento histórico cultural da humanidade é também um contraditório processo de individualização. Esse conceito é corrente até Leibniz com as mônadas. sexuais. em suas diversidades concretas. em suas diferenciações sociais. 1. Diferentemente deste enunciado. jan. n. onde desenvolvia uma cultura de subsistência. em vez de uma essência historicamente formada. É a partir do Renascimento que o termo indivíduo assume claro significado. ano 5. entendido aqui como sujeito migrante de um espaço urbano-fabril. significa aquilo “o que não pode mais de nenhum modo ser subdividido. Busca-se discutir a construção de uma “nova pessoa” a partir da inserção desse sujeito num novo espaço social. como a unidade ou o espírito”. para um espaço geográfico. contrariando a idéia de uma predestinação ou essência dada pela natureza humana. Sartre (1987) afirma que não existe natureza humana. o que significa que cada homem é um exemplo particular de um conceito universal. o indivíduo se diz e se expressa pela sua solidez. p. falaremos de uma essência construída historicamente. segundo o qual o homem possui uma natureza humana./jun.A inserção do indivíduo em novos espaços. 8). para quem a metáfora do diamante só pode pertencer ao verdadeiro indivíduo – o superhomem (além-homem) e sua vontade de potência.. Na tradição latina o indivíduo é o átomo social dotado de uma individualidade e singularidade per si. firmando o conceito no homem singu- 164 Somanlu. mas do homem concreto. A articulação produtiva entre indivíduo e sociedade é certamente um ponto de partida originário da humanização do homem. 2005 . de acordo com Boécio (apud ADORNO. O presente texto apresenta uma reflexão sobre alguns aspectos da construção de novos papéis sociais. Essa visão universal do indivíduo é cindida em Nietzsche (1981). 1985.. que. cujo solo heurístico é o existencialismo sartreano de reflexão da liberdade e da essência como construção. atormentado e em grande parte desconhecido processo de cisão em face da natureza”. Esta perspectiva se coloca na contramão do pensamento do século XVIII. Se é que podemos falar de essência. não do homem social abstrato. onde passa a participar do processo de produção capitalista. mediante um longo.

jan. p. esse sujeito enfrentará uma exclusão substancial dentro das relações de produção da fase tardo-burguesa. O indivíduo só é chamado a existir para submeter-se aos ditames da lei que é feita para ele. com características e dizeres próprios. que não mais representa a si mesmo. bem definidos. caracterizada pela venda de sua força de trabalho. as regras. até chegar à descoberta e à formalização daquela substância secreta que legitima o reconhecimento da individualidade para alguns e a exclui para outros: a propriedade. pois a criação da pessoa é a negação do indivíduo. quando cooptado a exercer outra atividade para subsistir. os vícios privados sem utilidade pública. mais tarde. articulados com todos aqueles que detêm os mesmos elementos comuns. embora sua identidade particular restrita ao seio da família. A unidade da coletividade manipulada consiste na negação de cada indivíduo. os trabalhadores assalariados não foram identificados no conceito de indivíduo durante épocas inteiras. Ao deslocar-se o indivíduo do espaço em que está inserido. 2005 165 . concebendo-se como parte dos direitos formais. os marginalizados. para a configuração dos papéis sociais. perde sua individualidade e inicia o processo de assimilação e definição das características fundamentais de um novo papel social. portanto. Esse novo sujeito Somanlu. faz-se substância em si mesmo. os pobres. 9). Ao ser inserido no mercado de trabalho deixa de ser indivíduo e constrói ou assimila nova identidade. ano 5. Instaurase uma dialética entre autoconsciência do indivíduo e a autoconsciência social. a deformidade. instaura como norma sua própria autoconservação e seu próprio desenvolvimento” (ADORNO-HORKHEIMER apud CANEVACCI.Aldair Oliveira de Andrade lar que “se diferencia dos interesses e das metas alheias. os escravos. Mesmo na sua individualidade familiar. O privado é a zona reservada aos afetos familiares e a aventura etérea ao gozo artístico e ao recolhimento religioso. a anormalidade. um dizer e um processo e manifestação organizados. apenas carrega uma história. n. É por esse motivo que as crenças./jun. as mulheres. que permite ao indivíduo tomar consciência de si tão-somente em relação a um outro indivíduo. A inserção num novo espaço é determinante para a formação de um novo 1 ethos e. Assim. 1978. Todos foram privados daquele “espírito vivificador” e fundante que é a propriedade privada das relações sociais de produção. exercia papéis. foram generalizados como exclusão global da condição de sujeito socialmente individualizável numa primeira fase. Surge um sujeito coletivo. A sociedade que conseguisse transformar os homens em indivíduos era digna de escárnio. 1. e.

p. O que quero deixar claro é que. Podemos dizer que muito contrariamente (os movimentos de resistências estão para comprovar o que estou dizendo) passa por processo de esclarecimento. e a superposição de sua cultura. ano 5. com apenas uma arma para lutar. possibilita e arregimenta ao enfrentamento e ao embate aqueles que se sentem envolvidos e estão conscientes de seus direitos (consciência de classe). opõe-se. reflete sobre si mesmo. organiza-se. coletivo tem forma. n. objetivo. Sua postura de sujeito coletivo. une-se. encontra-se diante do grande mundo civilizado.. suas atitudes sob espreita com intuito de desmoralizá-lo. ainda que. não se exige e não anula sua individualidade. não se posiciona de forma passiva ou conformista. manifesta-se. ganha força. cria representatividade. aborda o surgimento da indústria e o processo de produção em série no Amazonas. que detém os meios de produção.. pois não se submete de pronto aos ditames do capital./jun.. o qual acredita possibilitar através dos embates e confrontos avanços e conquistas de novos espaços. que detém a força de trabalho. causa estranheza e rivalidade. 166 Somanlu. podendo lutar de forma mais organizada e consciente. A consciência de seus direitos. o faz criar mecanismos e alternativas. jan. o indivíduo. 1992. formal. só que agora. e o empregador. nas micro-relações. reduzindo o fosso entre ele. Alguns autores. reage. pois.A inserção do indivíduo em novos espaços. mesmo fazendo parte de um coletivo. possuidor de uma identidade de classe. mas principalmente na subjetividade.. atua. contudo participa de uma coletividade. mesmo submetido pela força do capital a vender sua força de trabalho e a garantir sua sobrevivência. descobrindo os pontos fracos e brechas por onde possa penetrar e conquistar ganhos pela correlação de forças. como o professor Salazar em sua tese de doutorado intitulada “O novo proletariado industrial de Manaus”. a consciência de fazer parte de uma classe que está em luta constante com sua oposição que não se vê nela. vender a sua própria força de trabalho”(SALAZAR. estando na maioria das vezes o seu posicionamento crítico sobre as relações sob o julgo da rebeldia. com aquele jeito de índio. Estando os seus atos sobre observação. ressaltando as alterações causadas nos indivíduos que começaram a fazer parte desse processo. haja vista sua postura. 1. 90). oposições. 2005 . Essa correlação não se dá apenas no aspecto legal. ataca e é atacado.]o caboclo . Conforme seu relato: “[. Sente-se como membro de um grupo forte.

1992. 1. adota de forma automática novos papéis. Este indivíduo desenvolve outros quereres e alimenta sonhos que. n. refletiram. familiares ou sociais em detrimento de seus projetos individuais. quase setenta e seis por cento de toda a população do Estado habitava o interior. próprios do novo modelo a que se submete. estão ligados à ascensão no emprego e ao conforto familiar como a compra de uma casa. condições de vida.Aldair Oliveira de Andrade uma cultura de subsistência por uma cultura capitalista. ano 5. enquanto Manaus apontava um aumento simetricamente proporcional[. saneamento e infra-estrutura urbana: [. por sua vez de acumulação. Agora os indivíduos estão diante de um mundo que se abre e altera de forma substancial a sua relação com o meio. mesmo que de forma inconsciente. 2005 167 . portanto. e de ascensão social. mudando assim o seu status social.] os parcos recursos deste [Estado] sempre foram insuficientes para atender a demanda crescente por obras de infra-estrutura reclamada pela população urbana que faz aparecer novas favelas e novos bairros do dia para a noite (SALAZAR. paradoxalmente. advindas por esta substituição. um meio de transporte próprio.] os efeitos perversos da Zona Franca. ao ser inserido num outro espaço. segundo dados do IBGE. o Censo de 1970 acusava um declínio de quase dez pontos percentuais daquela população. A cooptação do trabalhador pelo mercado de trabalho industrial criou inúmeras expectativas com relação aos progressos individuais prováveis. O indivíduo. aprofundando a problemática social da moradia. se submete a um novo estilo de vida. Às vezes. possa competir neste mercado. sobre as populações do interior do Estado até 1960. e as conseqüências ou alterações sociais. essas expectativas são adiadas em detrimento de novas necessidades que a “indústria de consumo” lança de forma maciça. A propaganda midiática vendeu a idéia de melhores condições de sobrevivência. jan... geralmente.. p. Observe-se neste quadro a rotina de um operário: Somanlu. o estudo para que esteja mais qualificado e. como operários. Com o advento da Zona Franca em 1967. 89)./jun.. levando-o a submeter-se a uma jornada de trabalho cada vez maior para suprir as novas demandas individuais.

da sua harmonia com a natureza. 436). não consegue mais. tomar banho e já são onze horas. O indivíduo denominado “caboclo” possui um ethos interiorano. explicando-as a partir dos princípios de organização social e do trabalho. A utilização de meios primitivos na agricultura de subsistência se torna necessária. uma vez que o lavrador é obrigado a produzir. pra levantar às quatro e meia. 1. pois já se desfez de seus valores. Revela a existência de uma grande uniformidade nas condições de vida da população rural brasileira. Esta ritualística não se transforma numa obrigação de fora para dentro. O mais perverso nisto é que o indivíduo não consegue mais viver como dantes. Já não pertence mais ao lugar de origem.. 2005 . p. no qual estão delineadas de forma clara suas práticas existenciais. Se não tomar o ônibus das cinco não dá prá chegar [. um ethos existencial. ano 5. n. Neste sentido. Você sabe que eu não durmo nem cinco horas? Vou deitar mais ou menos às onze horas. o pescar à tarde. que não tem condução! (SALAZAR./jun. de acordar cedo. o mais rapidamente possível. O modus vivendi. mas por uma prática de subsistência. não se dá pela necessidade ou pela imposição de um ordenamento social. perdeu sua identidade cultural de subsistência e se transformou em produto do capitalismo. Uma das principais características dessa economia é a “necessidade de obter. o essencial à própria subsistência” (RODRIGUES... p. os meios que garantam a sobrevivência biológica”. 79-80). 1992. da terra. jan. pelo próprio trabalho e o da família. 1978. E quando chove. característica essa observada por viajantes e cronistas que preconceituosamente denominaram de indolência esse ethos singularizante. mesmo que quisesse retornar ao estilo de vida anterior. dada a falta de crédito. o cuidar da roça. subjacente às variações regionais. Acordo à quatro e meia.A inserção do indivíduo em novos espaços. 168 Somanlu. vou jantar. é válido ressaltar que: Numa perspectiva mais antropológica. Chego às dez (22:00h).]. própria de uma economia de subsistência.. Eunice Durhan (1978) empreende uma análise de toda a configuração sócio-cultural e individual gerada a partir dessa modalidade específica de exploração da terra.

1992. a dependência da mulher era o fator norteador da vida conjugal. p. ocorre uma metamorfose embalada precipuamente pela questão econômica../jun. Essa postura que o operário adota altera de forma substancial sua forma de lidar com os outros. independentemente do sexo e da origem” (SALAZAR. ela interage diretamente na vida do grupo e da comunidade. Uma vez inserido nesse novo espaço surgem novos valores e.] forte desejo de melhoria de vida e de ascensão social que impregna os operários de todos os níveis. ano 5. “foi muita batalha”. novas ritualísticas. o indivíduo é compelido e obrigado a abandonar sua prática rudimentar de vida e se submeter a uma nova ritualística existencial. Por imposição dessa nova postura existencial é obrigado a desempenhar novos papéis e. jan. Quando não mais era possível a resolução ou equilíbrio. por sua vez. Ou seja. os valores éticos dantes pétreos são agora flexibilizados para que seja possível sua sobrevivência nesse novo ambiente. É notório também que essa nova configuração em relação ao outro pode ter ocasionado o processo de “rupturas”. 1. haja vista que não se configura mais uma relação de dependência econômica entre os gêneros. 312). haja vista a pressão exercida sobre ele pelo grupo social. O indivíduo de práticas de sobrevivência não tinha em si a preocupação com o desenvolvimento ou aprovação de saberes científicos. a necessidade de novas práticas de aprendizagem para que se adeqüe de forma satisfatória..Aldair Oliveira de Andrade Pelas novas imposições sociais. O indivíduo resolvia suas querelas baseado em códigos inerentes ao próprio grupo onde estava inserido. Agora a mulher já não está mais confinada ao lar. Na nova postura existencial surge um novo Somanlu. Outra forma de conduta que muda no indivíduo é sua forma de processar suas relações com seus pares. 2005 169 . o saber por ele adquirido é derivado de uma prática empírica. “do meu esforço”. Nesta lógica. pois. Nesse processo de adestramento do indivíduo ao ethos fabril surgem instituições como Senai e Senac para treinar esse sujeito em face deste novo papel. esse indivíduo assume uma conduta individualista do tipo “depende de mim”. o Estado surgia como intermediador. 312). p. A sua rotina de partilha que era inerente a seu modus vivendi na área rural não encontra lugar no espaço urbano-industrial. portanto. E isto associado a um “[. Em muitos casos. 1992. o operário é construtor de desenvolvimento de uma nova moral. Em face dessa interseção. consegue perceber que qualquer ação coletiva pode contribuir para solucionar sues problemas” (SALAZAR. n. aprendida nas práticas comuns de sobrevivência para a sua manutenção.

n. 2005 . são os profissionais técnicos./jun. 1978. o de industriário. a mãe é a gestora do lar e os filhos são colaboradores na provisão ou manutenção da família. às vezes. Ou seja. No contexto urbano. Os rituais e festas comuns eram fruto das relações de crença. o estabelecimento de uma linguagem comum e o “status comum”. A mulher adentra o mercado de trabalho. com normas e regras próprias. Tem-se o seguinte quadro: o pai é o provedor da família. Note-se que a administração do lar é de estrita responsabilidade da mulher. sim. Percebe-se claramente que a família cria um condicionamento e uma certa obrigatoriedade implícita no operário para fazê-lo participar desses eventos com o intuito de formar uma “família” ou um grande grupo. jan. sendo a diferença agora estabelecida não por prática mas por uma representação. porém. sindicalizados ou não sindicalizados. Os encontros de confraternização já não são mais criados espontaneamente pelo grupo. 170 Somanlu.A inserção do indivíduo em novos espaços. agora fazem parte de uma nova programação dos técnicos do lazer que buscam quebrar a rotina imposta pela fábrica aos seus. estabelecidas entre os indivíduos mobilizados pela questão econômica ou pelo interesse de manutenção dessa nova postura. porque é requisitada pelo capital industrial que necessitava dessa mão-de-obra. as novas relações são. a pesca e a roça. ano 5. portanto. Um universo singular. Sua relação com a família é comprometida ou quebrada. amizade e companheirismo na comunidade rural. agente que se ocupará da intermediação para garantia de seus direitos. após a inserção da família nesse novo modo de vida. não está em causa o interesse empresarial pelo lazer e entretenimento do indivíduo. em termos de subordinação das mulheres aos homens e dos mais jovens aos mais velhos”. mas. a mulher passa também a ser provedora juntamente com o marido e os filhos. p. Para Durhan (apud RODRIGUES. o que ele representa para a organização: mão-de-obra qualificada e necessária à manutenção de sua posição no mercado. haja vista que antes os papéis eram bem definidos internamente. “a família rural brasileira se estrutura de modo muito simples. O operário assume um novo papel.. aqueles que não conseguem aderir ou adentrar nesse novo círculo de relações são formadores de novos grupos. tida muitas vezes como dócil e barata. 1.. agora esses papéis são esquecidos. 80). fábrica nacional ou multinacional. que são requisitados para mediar conflitos dentro das relações econômicas e. Se antes a relação se dava pela execução de práticas comuns como a caça. agora dos “excluídos”. uma identidade. dentro de novas relações de direito.

assim. acentuando a concorrência entre os gêneros. a maneira como interage e age no mundo que conhece. Esse sujeito está inserido num espaço que. novos valores. luz. Com a inserção Somanlu. levando-o a criar novos círculos de amizades. Se antes a relação conjugal era centrada numa relação de dependência e submissão da mulher ao marido. que antes era prerrogativa do casal. e isto é um dos fatores que possibilita a emergência de um fenômeno que denominamos de apatia existencial-comportamento. O indivíduo consciente de si mesmo e dos outros constrói a sua “visão de mundo”. num outro espaço geográfico. na maioria das vezes. Trata-se de uma dicotomia entre um espaço e outro. o indivíduo passa a desenvolver novas formas de disfarces para mascarar sua mágoa ou impotência perante novos papéis sociais. agora fica restrita às mães e ao parente mais próximo que cuida da criança. de deslealdade talvez porque as novas necessidades lhes sejam agora mais importantes que sua relação com o outro. Ao adentrar a esfera pública como força produtiva o indivíduo. lealdade e solidariedade –. Muitas vezes é o filho mais velho que cuida dos irmãos mais novos. assepsia. ou seja. A pressão exercida pelos instrumentos de consumo o leva a relegar outros papéis. é diametralmente oposto ao ambiente em que vive: passa o dia em ambiente com condições modernas de “qualidade de vida”. Ao ser inserido num outro modo de vida. ar-condicionado. que antes não tinha ambições porque vivia a experiência do trabalho sob um outro ethos – fundado em relações de companheirismo. na medida em que ela não consegue se desvencilhar dos serviços domésticos e do cuidado dos filhos. assumindo uma responsabilidade que era de seus pais. água. acentuando nele a entrega ao trabalho para melhorar os rendimentos e. 2005 171 . O impacto dessa dicotomia assume contornos impressionantes no imaginário do operário que fica dividido entre o mundo da fábrica e o mundo da casa. não podendo concorrer de forma direta ou indireta. na qual mulher e homem primam pela sua autonomia. pois. 1. muitas vezes.Aldair Oliveira de Andrade A educação dos filhos. passa a assumir uma nova postura com ênfase na concorrência e. consumir mais e criar novas outras necessidades. ano 5. começa a questionar por que não tem o conforto que tem na fábrica. agora se estabelece uma relação de pretensa igualdade. No final das contas é a mulher que assume o ônus da dupla jornada de trabalho. enquanto a mãe trabalha fora. jan. que rebate de forma direta no padrão de vida que estava acostumado./jun. n. Por isso. diferente daquele a que estava acostumado é natural que altere sua visão de mundo.

jan. Na comunidade este indivíduo não sentia “necessidade” de uma formação educacional. passa a atuar em outro contexto social. Após essas particularizações sobre o novos papéis sociais que o indivíduo passa a desempenhar. essa inserção abrupta ou não altera a construção de mundo particular de cada indivíduo. visão de mundo e noção de tempo desse ator social inserido em outro contexto.A inserção do indivíduo em novos espaços. Segundo Adorno (1985. Buscou-se realizar uma digressão sobre o indivíduo que cooptado pelo mercado de trabalho. 1. o capital”. 1992. através de programas que preparem o indivíduo para atender às necessidades da própria organização. com suas regras já definidas. 312). p. ano 5. Seus valores que foram construídos através de tempos e passaram por todo um processo de construção são adulterados. portanto. É assim que esse indivíduo passa a adaptar e. alterando a sua compreensão de mundo sob o signo de um novo ethos. a incorporar todas essas regras e condições já postas pelas relações de trabalho próprias da sociedade de classes..]trabalho cansativo e os horários de turnos concorrem como forte obstáculo à continuação dos estudos” (SALAZAR. variando na complexidade desta “formação” o papel desempenhado por cada indivíduo na própria organização. 108). tanto no trabalho como fora dele” (ARAKCI./jun. que não visa conceitos e imagens. nesse novo mundo.. ideológicas. ao passo que no cotidiano fabril ele é compelido a adquirir uma qualificação profissional ou técnica que atenda à necessidade do mercado em que foi inserido. n. psicológicas. Ou seja. na sua maioria. 20) “a técnica é a essência desse saber. da caça. é forçado a criar mecanismos de defesa e alternativas que antes não pensava ou não sentia necessidade de fazê-lo. considerando-se que o “[.. 1978. do compadrio não são mais úteis. Se antes ele detinha o controle de todas as etapas e rumos de sua vida. a utilização do trabalho de outros. agora este novo indivíduo com seus novos papéis vive dentro da “fragmentação do universo. agora o útil é o saber técnico. Os saberes da pesca.. As organizações incentivam ou financiam o aprimoramento educacional. p. falseados e muitas vezes referendados. pois esses saberes não eram necessários de forma real. mas possibilitar a visualização das transformações sociais. um retorno efetivo para a própria organização. especificamente pelo Pólo Industrial de Manaus. objetivando. 2005 . Determinar quais os ganhos e perdas desse novo papel social que este indivíduo passa a desempenhar implica um trabalho mais detalhado com a utilização de 172 Somanlu. p. o que pretendemos demonstrar não é a relevância de um em detrimento de outro.

maneira de agir. Operária: estudo exploratório sobre o operariado industrial da Grande São Paulo. 1985. Rio de Janeiro. Belo Horizonte: Editora da Universidade de São Paulo. Charles. 4. Nicole. Somanlu. São Paulo: Símbolo. 1982. Uma comunidade amazônica: estudo do homem nos trópicos. 1. Terra de Quilombos. ed. O Existencialismo é um humanismo. O’DWYER. CANEVACCI. Os Pensadores). Mimeo. 1998. Referências ABBAGNANO. Associação Brasileira de Antropologia. ed./jun. SALAZAR. 1995. em que se verifique a vida do indivíduo antes e depois da inserção no mercado de trabalho. São Paulo: Editora Brasiliense. ed. comportamento de determinado grupo. Operário. jan. costume. Dicionário de Filosofia. As dicotomias ou comparações aqui expostas fazem parte das leituras adquiridas de alguns autores e de observações empíricas colhidas ao longo dos anos como sujeito partícipe e ator dos papéis ora analisados. 2. Notas 1 Prática. 1978. SARTRE. João Pinheiro. Tradução: Guido Antônio Almeida. n. 1987. São Paulo: Editora Mestre Jou. ADORNO/HORKHEIMER. Arakcy Martins. 2005 173 . Rio de Janeiro: Jorge Zahar. RODRIGUES. WAGLEY. 1978. Dialética do Indivíduo: o indivíduo na natureza. São Paulo: 1992. O novo proletariado industrial de Manaus e as transformações sociais possíveis: estudo de um grupo de operários. Jean Paul. Massimo. Tradução de Clotilde da Silva Costa. (Col. ano 5.Aldair Oliveira de Andrade parâmetros pré-estabelecidos e um processo investigativo mais amplo. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. 3. Remanescentes de Quilombos na Fronteira Amazônica: A Etnicidade como Instrumento de Luta pela Terra. São Paulo: Nova Cultural. história e cultura. Eliane Cantarino.

2005 ./jun. jan.174 Somanlu. 1. n. ano 5.

br Somanlu. uma fronteira percebida. Amazon region.com. 1./jun. and a lived frontier is also discussed. comprising the cities of Tabatinga and Leticia. Discute-se ainda a proposta de divisão territorial como forma de anular a hegemonia colombiana na fronteira. Our approach starts from the simultaneous existence of three frontier conceptions: a controlled frontier. Amazônia. jan. Keywords: frontier. da Universidade Federal do Amazonas – UFAM. n. The proposal territorial division as a way to nullify the Colombian hegemony in the Frontier. ano 5. Nossa abordagem parte da existência simultânea de três concepções fronteiriças: uma fronteira controlada. e-mail: nogueiraricardo@uol. starting from the experience developed in the frontier between Brazil and Colombia. 2005 175 . territory. e uma fronteira vivida. * Prof. Dr. a perceived frontier. território.Dinâmica territorial na fronteira Brasil–Colômbia Ricardo José Batista Nogueira* Resumo A pretensão deste trabalho é apresentar um desdobramento da concepção de Fronteira enquanto disjunção histórica a partir da experiência desenvolvida na fronteira do Brasil com a Colômbia. Abstract The aim of this paper is to show the consequences of the idea of Frontier is to as a historical disjunction. envolvendo as cidades de Tabatinga e Letícia. Palavras-chave: fronteira.

por conseqüência. 2005 . já sendo denominada na década de 1940 por Lisias Rodrigues como punctun dolens. Arthur Dix e outros estudiosos do passado. construídas desde Friedrich Ratzel. Jacques Ancel. ou ponto doloroso. além do fato de Letícia ser a capital do Departamento do Amazonas. fronteira percebida e fronteira vivida. La Pedrera (Colômbia) e Ipiranga (Brasil). passando por Camille Vallaux.Dinâmica ter ritorial na fronteira Brasil-Colômbia A extensão territorial do Brasil e. permite um abrangente estudo sobre as fronteiras e seus pontos de contato. Tarapaca (Colômbia) e Vila Bitencourt (Brasil). a extensa linha fronteiriça com dez outros Estados-Nacionais. vilas ou cidades que possuem uma convivência costumeiramente pacífica e que. que procura inovar apontando um caráter subjetivo às mesmas. ano 5. aquela que é composta. 1. Neste artigo trataremos apenas da fronteira do Brasil com a Colômbia. Embora existam inúmeras classificações de fronteira. Como dissemos acima. Destes. procuramos estabelecer algumas noções como fronteira controlada. lugares. só o último apresenta uma dinâmica fronteiriça com certa intensidade na medida em que reúne aproximadamente cinqüenta mil habitantes. que possui uma extensão de 1. n. fazendo fronteira também com o Peru. e. dez mil estão na Amazônia. cobrindo a região com menor densidade demográfica do país. que tentam abranger as diversas formas de como a fronteira se mostra. e isto constitui. ou seja. numa visão orgânica. Essa fronteira é./jun. deste modo. Dos quinze mil quilômetros de linha fronteiriça. um aspecto pre- 176 Somanlu. e Tabatinga a principal cidade do alto Solimões. vivida pela população. Em toda esta linha existem apenas quatro pontos de contato que são:Yauareté (Colômbia) e Iauaretê (Brasil). sendo por isso cotada para ser capital numa eventual divisão do Estado do Amazonas. e Letícia (Colômbia) e Tabatinga (Brasil). jan. portanto. a cidade brasileira de Tabatinga está hoje conurbada com sua vizinha colombiana Letícia. o principal centro de convergência de toda uma rede no interior da Amazônia. lugar merecedor de atenção do Estado-Nacional. Nossa intenção aqui é apresentar a parte ‘viva’ da fronteira. vista por quem está fora da fronteira como os defensores da pátria. são mais numerosos na Região Sul do Brasil. a nosso ver. em virtude da história do povoamento. do Estado de Rondônia até o Estado do Amapá.644 quilômetros. metade em cada cidade. ou seja. chegando até Michel Foucher na atualidade. com o menor número de pontos de contato fronteiriço.

em primeiro lugar.. para sua filial”1. viram também “ruínas de um belo edifício construído pela Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão. e que se consiga unir elementos distintos numa só cidade. o quartel da fronteira dos portugueses contra o Peru e distante de Belém quase quinhentas milhas francesas. jan. Lá encontraram um comandante de milícias com 12 soldados. contabilizavam os viajantes. ou seja: o funcionamento desta aglomeração urbana repartida por uma linha imaginária proporciona múltiplas relações que.. porque a condição fronteiriça sempre terá para o Estado-Nacional um significado particular. Construído em madeira. que também deixaram suas impressões. As cidades fronteiriças. Tabatinga: o ‘maior bairro de Letícia’ Originariamente um forte português. 1./jun. são reflexos das decisões tomadas nas capitais dos respectivos Estados-Nacionais.]mas. Relatam também o estado lastimável do forte com alguns canhões enferrujados. fazendo com que sua população possa usufruir determinadas circunstâncias. denominado São Francisco Xavier de Tabatinga. o lugar Tabatinga recebe a expedição de Louis e Elizabeth Agassiz. e importante nas discussões que começam a aparecer em torno da proposta de divisão territorial do Amazonas. Explicando a seus futuros leitores. ano 5. É preponderante. estava no ponto mais alto da margem do rio Solimões. nesta condição de geminação. No entanto. fundada no tempo de Pombal. em segundo lugar. 2005 177 . Não podiam deixar de perceber a presença dos Ticunas. em geral. Já na segunda metade do século (1865-1866). sendo fácil dominar a passagem do rio. Em virtude disso tem a honra de ser posto militar. situa Tabatinga como uma vila fronteiriça entre o agora Brasil e ainda o Peru. que legalmente são duas. enfim. Tabatinga já aparece nos relatos da viagem de Spix e von Martius ao alto Solimões nas primeiras décadas do século XIX. como o balanço de uma gangorra. movendo-se mais para um lado ou mais para outro. àquela época. quando se olha para os dois ou três pequenos caSomanlu. Ainda era. porque exige que se consiga separar elementos distintos em duas cidades que se parecem uma. n.Ricardo José Batista Nogueira ponderante na análise fronteiriça. que significa barro amarelo. porque a cidade de Tabatinga é apontada como aquela que reúne as condições infra-estruturais para sediar a capital do futuro território. nação indígena majoritária no rio Solimões. junção de um santo português com uma palavra nheengatu. diz Elizabeth: “[. terminam demonstrando o que se passa no país.

não pode dizer nada. As antenas de transmissão 178 Somanlu. ano 5. casas de comércio e outros negócios. foi Benjamin Constant que desde a sua criação recebeu dos governos estadual e federal dotação em infraestrutura. Durante a vazante dos rios. porque quando desceu do barco. da antiga companhia de aviação Panair do Brasil. Isto dinamizava a economia regional na medida em que se instalavam agenciadores. Como as cidades estão na mesma margem do rio Solimões. Sobre a vila. antiga aldeia de São José do Javari. jan. a travessia pode ser realizada a pé. localizada a poucos quilômetros da linha divisória. Atravessando o rio Solimões e chegando à boca do rio Javari. não há ‘fronteira’. para trabalharem em serviços diversos. 2005 . inúmeras casas de colombianos. encontra-se a cidade de Benjamin Constant. inclusive incorporar-se à colônia militar. a divisa do Brasil com a Colômbia. ao mesmo tempo em que servia para. a casa de barro que constitui o posto e os cinco ou seis soldados preguiçosamente deitados à sua sombra. associado às doenças e ao baixo preço do produto. à qual Tabatinga esteve vinculada como distrito até 1986. Eram os soldados da borracha. que chegavam nos navios da antiga companhia de Navegação SNAPP2. O pavor dos mosquitos à noite e os piuns durante o dia tornavam a vida intolerável. na visão dos militares. Hoje. Porém. As primeiras ruas do povoado civil de Tabatinga surgem às margens do Igarapé de Santo Antonio que é. passaram a fazer o percurso até aí. Recebeu também grande quantidade de migrantes durante a 2. p./jun. e ser composta de uma dúzia de casas em ruínas ao redor de uma praça central. e parte atravessa o rio rumo a Tabatinga e Letícia. 1981. o que se tornou um atrativo para a população local ver sua chegada. bem se pode de não considerar essa fortificação como formidável” (SPIX. todos os moradores já haviam se recolhido para se proteger dos mosquitos. vivificar a fronteira. 1. quem chega de barco não consegue definir onde começa uma ou outra. segundo os moradores que a receberam. convertem estes migrantes. chama a atenção de Agassiz o fato de estar num barranco de aluvião bem escavado e fendido em várias direções. o penoso trabalho da coleta da borracha na floresta. A rigor. brasileiros e peruanos ocupam o fundo do vale deste pequeno rio. Também os hidroaviões catalina.ª Guerra Mundial para trabalharem nos seringais dos altos rios. parte em população rural. Quanto aos habitantes. na origem. 135). à tardinha. Como município.Dinâmica ter ritorial na fronteira Brasil-Colômbia nhões em bateria sobre o rio. mais agrícola que extrativa. n.

o lazer já não era mais tão livre. em nosso entendimento. um porto e uma agência do Banco do Brasil criaram determinadas condições que. Não se podia jogar bola na rua e. uma pista de pouso. Do mesmo modo. Voltadas para o rio. abrigar o mercado público. Dentre as condições criadas para receber os militares foi construída uma escola para atender exclusivamente aos filhos de militares. os militares foram de bar em bar e destruíram todas as bebidas alcoólicas encontradas. jan. a porta de entrada e de saída da cidade. Contudo. consolidando até hoje a ocupação. Abrigando um efetivo mais numeroso. ou esconder-se. Encravada na faixa de fronteira. 1. polarizar a região do alto Solimões. restando para a população civil a alternativa de colocar os filhos nas escolas de Letícia. que é. da ‘beira do igarapé’ que constitui o limite. a alternativa era ir para Letícia. Na verdade. primeiro sinal da cidade quando vista de longe. todas as cidades ribeirinhas do Solimões apresentam uma característica que as assemelham3. na área de segurança nacional. As festas só podiam ser realizadas aos sábados até às 24 horas. as casas de comércio de venda de produtos para a população ribeirinha e outros serviços associados à vida ribeirinha4. foi administrada pelos militares até transformar-se em município. como toda chegada dos de fora. depois ampliada para um aeroporto internacional. composto por militares vindos transferidos de outras partes do país e por soldados recrutados em Benjamin Constant e em outras cidades do Amazonas. o ponto de contato com o mundo rural e regional. ou seja. a Base Aérea. n. tudo passava pela autorização do comandante da colônia. contam os mais velhos. em geral. foi necessário dar um suporte mínimo à colônia. em 1986. 2005 179 . eles sempre retornavam para o igarapé.Ricardo José Batista Nogueira de rádio ou tv. Uma das primeiras iniciativas dos militares foi retirar os moradores da linha de fronteira. O castigo comum Somanlu. aos gritos de ‘lá vem a patrulha’. ano 5. hoje. Ramon Castilla. por mais precário que seja. A construção de uma Vila Militar./jun. Tabatinga aparece como Colônia Militar em 1967. não possibilita distinguir a qual cidade pertence. não se podia usar vermelho. para beber. foram o ponto de partida para a transformação do distrito em futuro município e. têm no porto. recolhia-se a bola e os jogadores escondiam-se. Daí ser este lugar o catalisador de toda a produção rural. e levá-los para a proximidade do núcleo militar. vila peruana na outra margem do rio. Esta implantação. não foi tão tranqüila para a população civil já estabelecida. Do jogo de futebol a uma festa. Certo dia.

fronteira com o Peru. Outros órgãos do Estado brasileiro também se fazem presentes no município de Tabatinga. em 1973. no rio Japurá. A efervescência da questão ecológica no alto Solimões 180 Somanlu. Até então. e os P. que significava cavar valas de esgotos na colônia militar. a ampliação e asfaltamento da pista de pouso com vôos regulares para Manaus. saindo da colônia militar. O C. a gradativa expansão do efetivo militar. é realizado mais intensamente pelo Exército. Este exercício de controle numa região com as características singulares da Amazônia – água e selva. uma linha de transmissão de energia./jun. Sol. Com o hospital de Guarnição e suas máquinas contribuem com a saúde e a urbanização da cidade. E. para dar conta de milhares de quilômetros de fronteira. como é conhecido em Tabatinga – que traz em seu muro a inscrição de forte simbolismo “Aqui começa o Brasil”7 –. Mas a fronteira controlada não se manifesta apenas através das instalações e ações militares. Já na década de 80. da cidade de Letícia. de Ipiranga. na beira do igarapé Santo Antônio. Receita Federal. Ibama e culminou com a implantação do Sivam/Sipam5. com isto. tendo o maior número de militares.580 km)6. que abrigam os Pelotões Especiais de Fronteira em Estirão do Equador (460 km de Tabatinga) e Palmeiras do Javari (770 km). termina por caracterizá-la como fronteira controlada. que conduz também a uma atração maior de migrantes da região – brasileiros e peruanos – e. A reação a essas atitudes veio com a criação em 1972 do Conselho Comunitário do Desenvolvimento de Tabatinga. ambos no rio Javari. Polícia Federal. mesmo contra a vontade dos militares. com sede em Tabatinga. n. um dos grandes problemas do município de Tabatinga é a pressão social para o atendimento assistencial a brasileiros e peruanos que já habitam a cidade. 1. começa a autonomizar-se do município de Benjamin Constant. quando. no rio Iça (660 km) e Vila Bittencourt (1. Enfim.Dinâmica ter ritorial na fronteira Brasil-Colômbia para essas ‘desordens’ era ir para o valão. luz elétrica era privilégio da colônia militar. encontramse os Comandos de Fronteira do Solimões. Como fronteira. F. jan. merece atenção maior do Estado-nacional que. a construção do hospital de guarnição do Exército. 2005 . a própria expansão comercial do outro lado da fronteira. ao implantar estruturas de defesa para a segurança do território. Hoje. passam a ser determinantes na mudança estrutural de Tabatinga. consegue dinamizar a cidade. F. ano 5. chega à rua Marechal Rondon.

P. – Controle de Abastecimento e Pouso de Aeronaves. também responde por uma parcela ponderável da vida econômica em toda esta região internacional. Possuem. o trabalho exige maior sigilo para identificação de pessoas que possam participar da rede de narcotráfico e busca identificar não apenas pistas de pouso clandestinas. a partir de Tefé. 1. 2005 181 . ano 5. mas também à caça e à pesca. tanto colombianos como peruanos. indo do mateiro à grande serraria exportadora. fronteira com o Peru. não se restringe à fiscalização da exploração madeireira. atuando em diversas atividades como camelô. Esta última. A. do Departamento de Polícia Federal. Fazer uma Somanlu. a presença de peruanos./jun. quem sobe o Solimões começa a perceber. onde realizam a revista de todas as embarcações que descem em direção a Manaus. Do mesmo modo. não chega a ser difícil identificar as ‘mulas’ – pessoas que transportam drogas –. Com o programa denominado C. A. a economia local se viu abalada com a repressão dos órgãos fiscalizadores como o Instituto do Meio Ambiente (Ibama). reforçando o exército e a polícia federal. que internamente disputam os recursos destinados à repressão ao tráfico de drogas. embora venha sendo também freqüente a presença de médicos e odontólogos. jan. é possível detectar rotas e destinos suspeitos. cabe salientar. atuando profissionalmente nas mais diversas cidades da Amazônia Ocidental. De fato. o Estado brasileiro tem ampliado sua atuação nesta região. para isso. conhecida por Base Anzol. Ainda como fronteira controlada. o Estado brasileiro dispõe nesta região fronteiriça de policiais federais. um posto de fiscalização flutuante no rio Solimões à jusante de Tabatinga. Quanto ao tráfico de drogas.Ricardo José Batista Nogueira começou com a apreensão em 1996 de milhares de toras de madeira oriunda de terras indígenas. Historicamente vivendo das mais diversas formas do extrativismo. A atuação do Ibama. cujo encargo principal é a repressão ao tráfico de drogas e o controle de entrada e saída de estrangeiros. dos rios da bacia do Javari. como se sabe. Com o agravamento da crise colombiana. como veremos adiante. n. do qual o madeireiro tem uma importância substancial pela extensa rede de dependência que articula. mas aeronaves que usam a pista oficial. principalmente. pois numa cidade com população de baixa renda a realização de duas viagens aéreas num mesmo mês para Manaus já é suficiente para tornar suspeito. A própria Polícia Federal estima em 15 mil o número de clandestinos no Estado do Amazonas. pequenos comércios. ajudante de embarcações.

este lugar permanecerá ainda sendo visto pela sociedade do interior do Estado com reservas. entendendo esta como um lugar que é percebido. aos códigos de seu Estado torna-o cidadão de um Estado. a fronteira acaba sendo um lugar privilegiado de refúgio aos agentes das atividades ilícitas8. a exigência de sua vigilância é permanente. pelo centro do país. cujas leis são limitadas espacialmente. tal condição locacional permite o usufruto dessa diferença. alguma coisa já pode ser trabalhada a partir de informações de apreensões realizadas pelos órgãos competentes. evidentemente. e do mesmo modo. Como cidade de fronteira. Talvez a imagem mais corrente que se faz da fronteira seja aquela que a mostra como lugar onde o contrabando. jan. que aparecia até meados de 70 como um lugar em que era interessante para os pequenos comerciantes de ouro. Percebida como passagem pela sociedade do interior do Estado. o tráfico de drogas domina o cenário. pois sendo a fronteira do Estado o ‘ponto de contato’ com outras realidades jurídicas. pois ele deixa de ser lucrativo em pequena escala. dados concretos de atividades ilegais. A subordinação do cidadão às leis. criando um ar de suspeição sobre seus moradores. para só ganhar rentabilidade em grandes volumes transportados. comumente. lugar onde reina a contravenção. que recebe os clandestinos peruanos e colombianos que en- 182 Somanlu. Mas não só isso. No entanto. 1. à abertura comercial das fronteiras tenham promovido uma reorganização no tradicional contrabando. Deste modo. em parte. Esta percepção não poderia deixar de ser.Dinâmica ter ritorial na fronteira Brasil-Colômbia geografia do narcotráfico não é tão simples. 2005 . Aqui. Mais recentemente. legais inerentes a cada Estado-nacional. Tabatinga vem ganhando espaço não mais apenas na imprensa do Estado do Amazonas. o aglomerado urbano Tabatinga–Letícia passa a ser percebido na imprensa brasileira como um lugar onde o contrabando corre solto. produto que descia dos altiplanos peruanos e era negociado em Letícia. ou seja no nível dos grandes empreendimentos./jun. carrega. no nível do cidadão. o tráfico de produtos ocorre com maior freqüência em virtude do aproveitamento das diferenças dos regimes fiscais. na visão dos que estão de fora. real. n. o estigma de lugar perigoso. Assim. a partir da imagem construída sobre esta condição. os acordos internacionais de extradição de cidadãos tenham possibilitado a busca além fronteira. procuraremos enfocar a fronteira percebida. Embora as fortes mudanças ocorridas na economia mundial rumo ao liberalismo. ano 5. a guerrilha está ao lado. pois não há.

. Traz.. acompanhando a contenda. que só tem colombiano e peruano”. A prisão de colombiano é fato corriqueiro”. agora. em busca de trabalho e moradia. do Incra. um jornal de Manaus noticiou a ‘invasão de colombianos’ na fronteira. uma reportagem sobre o acordo antidrogas entre o Brasil e a Colômbia. A imagem de vulnerabilidade põe em evidência a necessidade da fronteira controlada e reforça o argumento da divisão territorial do Amazonas. alguns exemplos. o periódico. F. 17/10/97). Querari. já afirma que “a invasão dos colombianos não teve repercussão nas cidades de Tabatinga e Letícia”. ano 5. termina por justificar também a fronteira controlada. Dizia o periódico: “Cerca de 500 trabalhadores sem terra colombianos invadiram ontem pela manhã uma área de aproximadamente 5 mil hectares em Tabatinga [. cidade colombiana que faz fronteira com o Brasil” (A CRÍTICA. Depois de buscar compreender a fronteira enquanto espaço controlado e como espaço percebido por outro. consolidada. estimulado pelo combate ao narcotráfico e sua fusão com a guerrilha. resta-nos. trazendo um quadro com depoimento dos moradores de Tabatinga. o incidente já está praticamente resolvido com a retirada dos colombianos e a prisão de nove agricultores. outro incidente fronteiriço. Com um título de impacto: “ Colombianos criam tensão ocupando terras no Estado”. com a presença de ambos os presidentes na cidade de Letícia. n. numa ação de combate à guerrilha da FARC que atacava a cidade colombiana de Mitu.] Os invasores vieram de Letícia. jan. O periódico. noutra página. No dia seguinte. como o Tancredo Neves./jun. desta vez distante mais de 500 km das cidades: um avião da Força Aérea Colombiana usa a pista de pouso do exército brasileiro localizada no P. Como não houve autorização prévia para pouso.Ricardo José Batista Nogueira tram no Brasil. agricultores que ocuparam cerca de sete quilômetros do assentamento Urumutum. Somanlu. traz um quadro com depoimento dos ‘invasores colombianos’. A percepção assim estabelecida. Cinco dias após. plantando banana e macaxeira. tendo a maioria acompanhado os fatos pelo jornal. 2005 183 . causou certo malestar diplomático e grande divulgação nos meios de comunicação de todo o Brasil. a cerca de 50 km da fronteira com o Brasil. então. Não resta dúvida de que a saída do anonimato local para ingressar na mídia mundial não se fez por motivos mais generosos. Um taxista de Tabatinga diz “tudo isso é normal aqui. Poucos meses depois. E. 1. que falamos atrás. Já um agricultor afirma que “tem bairro na periferia. apresentar a fronteira vivida por seus cidadãos. Vejamos.

as relações estabelecidas com uma gama variada da sociedade fronteiriça permitiram-me um aprofundamento analítico. E isto vai desde o corte de cabelo na ‘peluqueria’ de Letícia ou uma visita ao zoológico também aí. dos quais 25 mil estão na zona urbana. conviver como um de seus habitantes. de militar a traficante.1952./jun. porque viria mais dinheiro do governo (federal). porque o Estado do Amazonas não dá muita atenção.Dinâmica ter ritorial na fronteira Brasil-Colômbia Contando com aproximadamente 37 mil habitantes. conseguimos ouvir e viver a fronteira. 184 Somanlu. Esta condição até contribui para a vida dos brasileiros de Tabatinga em virtude da maior oferta de serviços decorrentes da ação do governo de Bogotá para esta fronteira. Capital do Departamento do Amazonas. 254). n. Isto significa saber apropriar-se das mais diversas condições do cotidiano para aí viver. e poderia gerar mais emprego. Este cenário foi vislumbrado por Backeuser na década de 40. para a partir daí tentar compreender o lugar como seus habitantes os compreendem. as diversas permanências em Tabatinga e Letícia. jan. de professor universitário a índio. é de considerar como de certa ponderabilidade a pressão que a Colômbia possa exercer um dia no setor Norte e Noroeste do Brasil. até a compra de gás butano por leticianos nos armazéns de Tabatinga. estes habitantes vivem com a fronteira uma relação de complementaridade. 2005 . citando a existência de apenas uma viatura da polícia militar. Para um funcionário da prefeitura de Tabatinga. de solidariedade. quando previu o seguinte: Atendendo às sucessivas dilatações de território obtidas nestes últimos tempos por hábeis atuações do governo de Bogotá. p. circunstância tanto mais a considerar quanto está este setor muito distante da ação direta do governo federal e mesmo do governo de Manaus (BECKEUSER. seria bom para os dois lados. ano 5. 1. pois viria muita gente. É clara a hegemonia da cidade colombiana nesta tri-fronteira a despeito da diferença econômica entre o Brasil e a Colômbia. Apesar de não ser tão fácil inserir-se num lugar. de garçon a motorista de táxi. A grande diferença estabelecida pelos moradores de Tabatinga para com a cidade colombiana de Letícia é o fato desta ser Capital. Outros trabalhadores vêem como sendo a alternativa para aumentar o movimento comercial. De feirante a funcionário público. a divisão territorial seria muito boa.

civil e militar. pois termina sendo uma grande bandeira dos políticos para angariar votos na cidade e na região envolvida. cruza-se. dado o aumento de população. Mas a vida econômica de Tabatinga não pode ser confundida com o comércio de drogas. na verdade. talvez porque sua retirada não deixa marcas na paisagem. as vendas de bebidas alcoólicas e materiais de construção superavam a normalidade. de ambos os lados também contribuem com a dinâmica comercial. no rio Madeira”. como hoje falam os comerciantes. ou de couro. Na verdade. a fronteira para descarregar o peixe. não só do lado brasileiro como colombiano. no médio Solimões. também afirmam que esta discussão só aparece em época de eleição. Para este segmento. Freqüentemente. Além dele. a criação do Território Federal poderia contrabalançar o domínio comercial de Letícia. que./jun. O aumento da repressão. a quase totalidade dos barcos de pesca de peixe liso. jan. a criação do Território Federal mudaria esta situação. Podemos afirmar que da cidade de Tefé. comerciante local. cidade que possui uma oferta de energia muito maior que Tabatinga. Menos controlado do que a exploração madeireira. igualaria o status político a Letícia.Ricardo José Batista Nogueira Para os tabatinguenses. 1. afirma Saul. No entanto. Inúmeros barcos de pesca brasileiros têm em Letícia os seus principais compradores e financistas. apesar de terem a esperança na criação do Território. teria maior atenção do governo federal. O preço que pagam pelo quilo de pescado nesta cidade é mais estimulante que o preço pago em Manaus. na década de 80. a movimentação comercial era bem mais intensa nos dois lados da fronteira. como os frigoríficos estão em Letícia. a pesca tem sido um dos grandes suportes econômicos da população às margens do Solimões. até a fronteira. a questão passa pela distância do grande centro fornecedor do Brasil – de São Paulo para Tabatinga. denuncia-se esta prática como contrabando. vendem seus produtos para ‘os colombianos’. para o comércio. n. não deixa de ser. ano 5. necessariamente. Compreender esta fronteira requer adentrar no que há de mais tradicional na Amazônia: o extrativismo. Contudo. 2005 185 . Nos tempos de ‘muita cocaína’. alteraram a vida na cidade reduzindo o comércio. porque a cidade também seria Capital. cujo destino final são os restaurantes de Bogotá e Miami. funcionário público. “Muitas vezes a duplicata vence e o produto ainda está na balsa. correria mais dinheiro na cidade. Somanlu. os funcionalismos público.

/jun. costumes e parentesco disseminados ao longo do rio Solimões – acima e abaixo da fronteira estatal –. no dizer do ex-cônsul do Brasil em Letícia. ano 5. comprando produtos industrializados. legumes e peixes constituem uma das fontes de renda destes indígenas que também terminam por se inserir no mercado local. 147). para os índios ela é completamente ausente. 2000. o problema veio à tona. Se para os não índios a fronteira Brasil–Colômbia praticamente não existe. a fronteira para os índios Tikuna terminou por se expressar de outra maneira. Ibama. Com língua própria. Todavia. em parte. do rio e da terra”(GARCEZ. Ministério do Trabalho. contribuem com o abastecimento local de uma diversidade de produtos retirados da floresta. 1. compra-se outras mercadorias. numa viagem de caminhão até Porto Velho. Tikunas peruanos e somente os Tikunas brasileiros faziam jus ao benefício. Com apenas duas agências bancárias – Bradesco e Banco do Brasil. há também milhares de ribeirinhos que se envolveram com este tipo de pesca para vender aos barcos. daí até Manaus e Tabatinga de barco. O efetivo militar de Tabatinga. Isto reflete bem a concepção de fronteira para um agente do Estado. Isto tem alterado a organização da vida ribeirinha na medida em que já se percebe uma dedicação de tempo muito maior à pesca que a prática agrícola. jan. Frutos. O ‘sofrimento’. um 186 Somanlu. termina sendo. Funai. Quando a Funai – Fundação Nacional do Índio – resolveu estender os benefícios da aposentadoria para os índios. “não respeitam fronteira nenhuma”. principalmente militares e funcionários federais. recompensado pela gratificação de localidade. porque muitos eram Tikunas colombianos. raízes. 2005 . tradições. pois é assim que é vivida a fronteira por eles. dentre elas destaca-se o frango congelado que vem do Sul do Brasil. o banco oficial tem nos salários do funcionalismo cerca de 70% de sua movimentação bancária. Com o dinheiro da pesca. também apresenta aspectos peculiares. os Tikunas. n. senhor Darly Oliveira. A fronteira vivida para este segmento da população que vem de outros Estados da federação. Banco do Brasil – estaduais e municipais também contribuem com seus salários para a vida comercial das cidades.Dinâmica ter ritorial na fronteira Brasil-Colômbia Além dos pescadores embarcados. mais os funcionários dos órgãos federais – Polícia Federal. p. “Formando uma das maiores nações indígenas do Brasil. Receita Federal. Num outro circuito comercial estão os índios Tikuna. espalhados também entre Peru e Colômbia.

terminam por custar mais barato em Letícia por conta das isenções fiscais que o Estado colombiano concede às suas regiões de fronteira. essa vida comum na fronteira terminou por dar origem a mecanismos próprios de resolução dos problemas que também ocorrem aí. muitos deles viviam mesmo no Rio de Janeiro. tiveram sua participação reduzida. 2005 187 . Do lado brasileiro. não no sentido de fazer contrabando. jan. Indiscutivelmente. alho. açúcar e arroz. Outros viram na fronteira um meio de realizar falcatruas. Ponto de encontro de três Estados-nacionais. submetidas aos ministérios de relações exteriores. mas de. Porém. no entanto. em sua maioria. ano 5. bem como cenoura./jun. um dinheiro que fica na cidade. Tudo isto resulta das políticas adotadas pelos Estados-nacionais para suas fronteiras. para determinados assuntos. Do lado colombiano. em que fica bem marcado o limite de ação para determinados produtos e ramos de comércio. como cigarros cervejas e mesmo a coca-cola9. sob determinados aspectos. efetivado apenas quando há disponibilidade de militares de outros lugares para cobrir a vaga. originárias da fábrica da Honda da Amazônia. n. No entanto. A distância de cerca de três mil quilômetros do oceano Atlântico não impede que alguns restaurantes de Tabatinga e Letícia sirvam frutos do mar. uma grande contribuição do exército nesta fronteira termina sendo o pagamento do salário aos recrutados do lugar. como resultado da abertura comercial da Colômbia. Mesmo as motocicletas que são. Outros produtos brasileiros. no momento de ir para a reserva. Somanlu. 17/07/1999). 1. via aérea. encontram-se aí presente fluxos comerciais que possibilitam aos fronteiriços um abastecimento diversificado. montaram comércios e casaram. Mas alguns militares viram na fronteira um lugar de prosperidade: trouxeram parentes. Brasília ou Porto Alegre (A CRÍTICA. As mulheres que acompanham seus maridos transferidos também não vêem ‘a hora do retorno’. verduras e frutas e produtos frigorificados chegam diariamente de Bogotá. apontarem como endereço a cidade de Tabatinga para receberem determinados benefícios. oriundos da costa peruana. envolvendo seus habitantes. pois significa um rendimento muito superior à média salarial da cidade. Enquanto cidades de fronteira estão. em Manaus.Ricardo José Batista Nogueira valor a mais acrescentado ao salário. Tabatinga consegue oferecer produtos como óleo comestível. beterraba e cerveja que navegam pelo rio Marañon abaixo desde Pucalpa. laticínios.

visto que terminou por abrigar diversos colonos peruanos. Manoel Charon. saúde e transporte urbano. da associação de moradores e sindicatos. que desde o período colonial já havia definido sua possessão nesta área com a instalação do Forte São Francisco Xavier de Tabatinga. apontada como a mulher mais bonita 188 Somanlu. ou San Antonio. o outro lado permanecera indefinido em virtude das disputas internas entre as recémcriadas repúblicas saídas do domínio espanhol. Na verdade. 1. da região conhecida como Trapézio Amazônico. presidente peruano de meados do século XIX. pela atenção dada por este à banda oriental do país. fundado por Benigno Bustamante. a cidade de Letícia também tem na sua origem a marca do período da borracha. jan. 2005 .Dinâmica ter ritorial na fronteira Brasil-Colômbia A formação de uma “Comissão de Vizinhança”10 entre os prefeitos de Letícia e Tabatinga. Ao contrário do Brasil. em que o recurso da Colômbia à antiga Sociedade das Nações termina por ratificar este território como colombiano. ano 5. em honra a Ramon Castilla. quando o Peru constrói o Forte Gran Mariscal Ramon Castilla. pois o Brasil já havia colocado uma bateria de canhões em Tabatinga. composta de forma paritária por membros das prefeituras. Preocupado em assegurar o território. colombianos e brasileiros que aí chegaram em busca do látex. Para não recorrer aos escalões superiores dos respectivos Estados-nacionais. em 1932. e viabilizar a navegação no rio Amazonas. que exigia a denominação de General Castilla. n. alguns problemas são discutidos nas reuniões desta comissão. ter que enfrentar a lentidão da burocracia. tem por objetivo dar solução local a problemas que poderiam extrapolar esta esfera. Letícia: o “melhor bairro” de Tabatinga Principal cidade do extremo Sul colombiano. engenheiro que compunha a comissão. como poluição./jun. As primeiras referências a este lugar são de 1867. uma jovem de família anglo-peruana. A origem em si deste aglomerado urbano às margens do rio Solimões apresenta algumas polêmicas que envolvem tanto o seu pertencimento ao Peru ou a Colômbia assim como seu topônimo. A disputa entre aqueles países pelo Trapézio Amazônico resultou numa guerra. o Peru cria uma Comissão Hidrográfica para realizar o mapeamento da carta náutica dos rios da região. a insistência de Charon pelo nome Letícia devia-se à sua paixão por Letícia Smith Buitron. no que foi contestado pelo diretor da mesma. começa a denominar o lugar como Puerto Letícia nas correspondências enviadas à marinha peruana.

posteriormente. o engenheiro apaixonado não conseguiu conquistar o coração da bela jovem. provém das histórias contadas pelos mais antigos do lugar e aponta que o lugar tem este nome. segue-se à cadeia pública. A última versão. ponto de concentração da população. toda uma estrutura começou a ser montada para consolidar esta posição estratégica. embora o nome Letícia tenha permanecido. construída pelo exército na década de 80.Ricardo José Batista Nogueira de Iquitos. uma referência de encontro da população: “Vamos lá na Letícia”. com inúmeras obras públicas./jun. com o busto de Francisco Orellana. como aponta Návia (1994). Loureiro (1978). portanto. Letícia. ligando o Comando de Fronteira à fronteira com a Colômbia. historiador amazonense brasileiro. n. (NAVIA. em 1934. jan. Impõe. Uma das primeiras medidas é elevar. Avenidas são abertas e o pequeno povoado já ganha aspectos urbanos. que se casou com um comerciante escocês estabelecido em Iquitos. Não há um centro. a Avenida da Amizade. 1. porque nunca havia sido. Mais importante que a polêmica em torno da origem do nome ou a busca de uma data cívica para comemorar o aniversário da cidade. porque ali residia uma mulher com o nome de Letícia. uma presença militar e assentamento de população civil. 1994. que vendia. ladeadas por ruas que dão acesso ao rio Amazonas. portanto. abrigou o novo comércio e os principais órgãos públicos para suas margens. passa a se constituir no ponto nodal para a presença estatal colombiana nesta área trifronteiriça. enfim. com aproximadamente quatro quilômetros. o prédio do governo. a planta de energia etc. Donadio (1985) aponta que. em sua banca. p. Pelo menos duas outras versões ainda aparecem para a denominação deste lugar. A praça existente em frente à igreja católica – Diocese do Alto Solimões – foi construída ‘fora do lugar’. Ironicamente. ou seja. afirma que o nome Letícia originou-se em função da existência do entreposto de compra de borracha neste lugar pertencente à comerciante paraense Letícia Abensur. ano 5. “No final da década de 40 constrói-se o aquaduto e o aeroporto. Uma antena de comunicação instalada pelo Peru passou a ser usada para comunicar-se com Bogotá e hastear a bandeira colombiana. banana e outros alimentos para os habitantes. Uma praça central. o certo é que após a definição da soberania colombiana sobre esta área. pertencente ao Departamento de Putumayo. tapioca. à categoria de Comissaria Especial à antiga Intendência do Amazonas. sendo. Outros prédios em Letícia como o Comando Unificado Somanlu. dá a Letícia um aspecto de vida civil. ao contrário de Tabatinga em que a principal avenida. 2005 189 . 21). não se constituiu em ponto de encontro.

de um núcleo da Universidade Nacional da Colombia e a elevação desta Comissária. no estabelecimento de pelotões e o aumento do efetivo de soldados. exige uma presença maior do exército naquela área do que na fronteira11. 1999). sendo Letícia sua capital.Dinâmica ter ritorial na fronteira Brasil-Colômbia Del Sur. evidentemente. n. de um Centro de Investigações Amazônicas. ano 5. La causa. pouco a pouco. vai dando lugar a uma perspectiva civil de geopolítica. uma planta telefônica. cujo conflito. agora começa a ficar mais ‘blanca’ com o aumento da migração de civis de Bogotá. Enfim. muy difícil de revertir. torres de rádio e televisão já estão presentes desde a década de 80. que até a década de 60 era constituída em sua maioria por brasileiros e peruanos. Percebe-se que. estimulando a la sociedad civil para que lidere el desarrollo del municipio por medio de iniciativas particulares. é que esta fronteira no Sul da Colômbia. à categoria de Departamento pela Constituição colombiana de 1991. ancorada apenas na capacidade militar. Alguns autores colombianos definem isto como a ‘andinização’ da Amazônia. localizado na área central do país. termina 190 Somanlu. um novo porto. Esta fronteira é vista pelos colombianos do seguinte modo: Letícia siempre há ejercido um liderazgo económico y cultural sobre la triple frontera y sus áreas aledañas. antes pertencente ao Departamento do Putumayo. jan. algumas questões particulares à Colômbia que devem ser mencionadas. en trabajo conjunto con las autoridades religiosas y militares (DOMINGUEZ. a visão tradicional de geopolítica. concretiza não só a soberania colombiana como a hegemonia desta cidade nesta região internacional. dada a distância e o difícil acesso./jun. Há. no obstante las grandes inversiones hechas por el gobierno brasileño para convertir a Tabatinga y Benjamín Constant en los epicentros regionales. 1. a instalação da biblioteca do Banco a República. 2005 . pois talvez isso sirva para estabelecer um paralelo com o Brasil. principalmente no que diz respeito a uma concepção diversa de fronteira. que consiste em reforçar o aparato burocrático do Estado para a partir daí dinamizar comercialmente o lugar. A primeira delas seria o estado latente de guerra civil que vive este país há pelo menos quarenta anos. A população de Letícia. A segunda. como decorrência desta. es le preponderancia que siempre le ha dado el gobierno colombiano a la creación de frontera viva.

assim. jan. o Estado colombiano vem procurando ampliar sua atuação na região. contudo. culminou numa guerra. esta saída para o Atlântico pelo rio Amazonas era fundamental à Colômbia. como a ‘gobernación e assemblea’. termina sendo um lugar atraente ao morador do interior do país. absorvendo. Mesmo possuindo uma população equivalente à sua vizinha Tabatinga. A expansão comercial foi mais eficaz que a militar. 1. Veremos. como vimos. sendo os Tikunas majoritários. contraria o espírito ratzeliano de centralidade da capital. ao contrário do Brasil. sendo colonizável! Se o objetivo geopolítico do governo colombiano era tornar esta cidade fronteiriça como o grande pólo regional. o que é a fronteira vivida do lado de lá. Portanto. que. politicamente. produtos industriais. portanto. abriga quase todos os órgãos do poder central. quando esta área era reivindicada pelo Peru. Abriga. Geograficamente. Possivelmente a instituição de uma Capital nesta trifronteira deva ser explicada pela instabilidade fronteiriça desde o início do século XX. pois situada na linha fronteiriça. por exemplo. centralizando ordens e decisões. cuja preocupação é o reforço militar. aquele país está fortalecendo a administração local com o objetivo de apoiar o desenvolvimento integral desta área fronteiriça. Do mesmo modo que Tabatinga. Participam também da dinâmica comercial deste lugar na medida em que colocam seus produtos agrícolas ou artesanais no mercado. 2005 191 . Somanlu. tão absorvido pelos geopolíticos brasileiros das primeiras décadas do século XX. pois nem a criação de uma zona de livre comércio em 1991 produziu resultados favoráreis. por outro lado. A Lei de Fronteira colombiana assegura estímulos tão fortes que anula qualquer ação do governo brasileiro para Tabatinga.Ricardo José Batista Nogueira sendo vista como um lugar tranqüilo. sua representação possa ter um maior relacionamento com Bogotá. pacífico e próspero para muitos que querem sair das áreas conflituosas. a população de Letícia ainda possui na sua constituição uma parcela significativa de indígenas de etnias diversas. em torno de vinte mil habitantes. como ferramentas. o intento foi conseguido com sua perspectiva civil. Letícia não é uma cidade a mais na rede urbana colombiana. Sendo capital. n. é importante destacar sua localização. uma parcela correspondente ao poder./jun. ano 5. A condição de capital de Departamento – semelhante a Estados no Brasil – faz com que. enfim. Assegurar. e os órgãos inerentes aos departamentos. Como fronteira controlada.

outras duas situações. por exemplo. laticínios e outros produtos têm mercado certo nesta região. que exige apenas do novo cliente um fiador que também seja cliente. quando grande quantidade de pescadores brasileiros. deve-se lembrar que a própria moeda é. a atividade pesqueira consegue interferir na vida de toda essa população regional por meio de. nem na flutuação das moedas. e que para o comerciante fronteiriço. 1. ampliando. antes de tudo. ao mesmo tempo em que o próprio governo não interfere sobre a legislação de casas de câmbio. Porém. assim. a capacidade de diversificação das mercadorias para o mercado consumidor de Letícia e região. a maior responsável pela dinâmica econômica da cidade e que se espalha pela região amazônica é a atividade pesqueira. antes da nacionalidade. o cidadão. Deste modo.Dinâmica ter ritorial na fronteira Brasil-Colômbia No entanto. ao venderem sua produção em pesos colombianos. Constituindo-se na principal carga de compensação das companhias aéreas para o interior do país (Bogotá). 192 Somanlu. alteram as taxas de câmbio de acordo com. Frutas e verduras frescas. E é exatamente isto que faz com que Letícia torne-se atraente para a população brasileira – civil e militar – que lá se abastecem. Segundo um comerciante brasileiro. Dada a sua expressividade. A regra é desvalorizar a moeda brasileira não só neste período. ano 5. procura os cambistas para trocar o dinheiro. tendo Letícia abrigado. conhecendo seu mercado. termina por sucatear o comércio de Tabatinga. basicamente. A segunda diz respeito ao câmbio de moedas. este câmbio solto. ou nas proximidades das festas natalinas. Ainda com relação a finanças é importante considerar que as taxas de juros no comércio colombiano são bem inferiores àquelas praticadas no Brasil. Contando com diversos frigoríficos. A primeira diz respeito ao próprio processo de exportação. independente da cidade que reside. n. estes comerciantes de moedas. sendo 80% destinado à exportação. a ‘safra do pescado’. há também cambistas brasileiros e peruanos trabalhando com esta mercadoria especial. o que torna muito mais atraente a compra a crédito nesse lado da fronteira. a principal mercadoria./jun. sendo fronteira. sob controle dos ‘colombianos’. a quase totalidade das casas de câmbio e os mais fortes cambistas desta fronteira. Pudemos perceber a grande clientela brasileira da loja “Créditos Parra”. como também nos dias de pagamento do funcionalismo público no Brasil. é visto como consumidor. 2005 . isto permite baixar significativamente os custos do frete dos produtos vindos de Bogotá. historicamente. Numa região fronteiriça em que normalmente fala-se do controle do trânsito de mercadorias e pessoas. estima-se que os volumes extraídos alcancem aproximadamente 500 toneladas por ano. jan.

o homem mais endinheirado. o cônsul dos E. mais ativo e que tinha muita gente trabalhando para ele era Mike. em 1969. A. os aeroportos. assim. a falta de pagamento por parte da prefeitura levou à suspensão do fornecimento. ano 5. era Mike. o avião particular da cidade era de Mike. mais influente. com pouca fiscalização e nos rios menos ainda. Com relação a energia. 2005 193 . Quase vinte anos depois. a capacidade instalada é de 12. reduzindo. embora more na cidade de Tabatinga. papagaios e cobras eram dados por Mike. Letícia oferece à sua população um sistema de distribuição de água tratada que cobre 93% da mesma. uma vez que o salário mínimo instituído na Colômbia é de aproximadamente 150 dólares. conhecido como cartel de Letícia. como resultado da constituição de um pequeno cartel de cocaína. o custo de moradia. transbordando. cidade que até recentemente tinha uma política de doação de terrenos para famílias de baixa renda. lá instalado. Arbelaez se surpreende ao chegar em Letícia e descobrir que o melhor hotel da cidade era de Mike. Durante toda a década de 80. A pouca e difícil vigilância na selva possibilitou a expansão dos laboratórios de cocaína sob a floresta. Em fins da década de 60 e por toda a década seguinte. tendo como agente principal o ex-cônsul dos E./jun. No entanto. o que faz com que haja um contingente de trabalhadores brasileiros atuando principalmente nas áreas de construção civil e empregos domésticos. o destino dos macacos. para Tabatinga. Letícia viu seu movimento comercial aumentar de modo surpreendente. 1. como não poderia deixar de ocorrer. peixes ornamentais. U. n. Letícia dificilmente ficaria imune aos problemas associados às contravenções. o grande negócio era o comércio dos mais diversos produtos da floresta. já chegou a vender à cidade de Tabatinga nos períodos mais críticos de abastecimento de energia. com cobertura de 96% da população durante as 24 horas do dia. Possuindo um excedente de energia. Mike é preso com um carregamento de cocaína escondido num lote de madeiras para exportação em barco de sua propriedade. O exercício da hegemonia leticiana também se manifesta nas relações empregatícias. Como cidade de fronteira. U. Assim como o sistema de esgoto que cobre 78% da malha urbana. A. jan.Ricardo José Batista Nogueira Como os investimentos do governo colombiano para esta cidade foram destinados mais para as atividades civis. tendo ramificações por Manaus. facilitavam a circulação da droga e dos produtos químicos necessários à elaboração do produto. Num artigo escrito para o periódico de Bogotá El Tiempo. O Somanlu. a lancha mais bonita era de Mike.312kw/h. o lendário senhor Mike Tschalikis.

busca-se uma nova alternativa que inclui o rio Orenoco. é necessário encontrar meios de ‘lavar’ o dinheiro por ela gerado. Além disso. 194 Somanlu. Expressa-se também pelas condições de complementaridade de bens e serviços que uma cidade tem para com a outra em virtude do isolamento relativo vivido por ambas. Isto não elimina. A integração fronteiriça deste lugar permite que se denomine de ‘fronteira alegre’ visto que mesmo diante das múltiplas identidades existentes a identidade de ser ‘fronteiriço’ parece se sobrepor. O aumento da repressão em determinado lugar. 1. enfim. 2005 . além de centenas de comerciantes dos mais diversos produtos. a tristeza das famílias que se vêem envolvidas com o problema do tráfico de drogas. força a busca de novos caminhos. com membros pertencentes a ambas as nacionalidades. Esta condição é construída a partir das relações familiares. que agora. Ainda podemos apontar na dinâmica fronteiriça as inúmeras pequenas atividades que envolvem os serviços voltados à manutenção de motocicletas. à venda de alimentos em bancas montadas nas calçadas./jun. compreender esta fronteira vivida a partir do que Foucher denomina de caráter subjetivo da fronteira: alegria ou tristeza. segundo os próprios comerciantes. Isto provocou uma baixa no movimento comercial de Tabatinga e Letícia. à venda avulsa de gasolina. Com o reforço da fiscalização no Amazonas brasileiro a partir da “Operação Cobra”. tanto de um lado quanto de outro da fronteira como alternativa de renda encontrada por esta população multicultural que certamente não teria suas vidas alteradas com a propalada divisão do Amazonas. Eram narcodólares gerando narcotoyotas. está andando com os pés no chão. que nesta região alguns creditam à atividade pesqueira. A geografia do narcotráfico é extremamente móvel. Podemos. sem artificialidade. os belos e grandes carros adquiridos pelos narcotraficantes. entretanto. porque termina sendo um efeito permanente da ação dos órgãos repressores.Dinâmica ter ritorial na fronteira Brasil-Colômbia envolvimento de parcela da população jovem de ambas as cidades ampliou-se devido a rentabilidade do negócio numa zona urbana de pouca oferta de emprego. jan. rotas e circuitos que viabilizem a produção e a circulação da droga. n. e na Colômbia também. ou ponto da cadeia produtiva. ano 5. como afirma Machado (1998).

2005 195 . n./jun.Incc. jan.000.Ricardo José Batista Nogueira Fronteira Brasil – Colômbia Escala: 1: 3.info.00 Fonte: www. ano 5.br Somanlu. 1.

também com sede em Belém. 8 Na verdade. 3 Lucien Febvre quando faz seu estudo sobre o Reno. destaca a inscrição sobre a ponte do Reno: “Ici commence le pays de la Liberte”. Curso de Geopolitica geral e do Brasil. BACKHEUSER. 9 Este produto é fabricado em Letícia e dificulta a concorrência do produto fabricado em Manaus. Serviço de Navegação e Administração dos Portos do Pará. Esta companhia estatal funcionou até 1967 quando foi substituida pela atual Enasa – Empresa de Navegação da Amazônia. 2000. o transporte fluvial na Amazônia. 1952. 4 Sobre isto ver NOGUEIRA. comentando o espírito de fronteira. 6 As distâncias apontadas são medidas por via fluvial.Dinâmica ter ritorial na fronteira Brasil-Colômbia Notas Ver Spix e Martius – Viagem pelo Brasil. uma fronteira não é só linha de defesa. 11 Pelo menos nesta díade. 154). 7 Ratzel faz referência às inscrições sobre a ponte de Rensbourg “Eidora romani terminus imperii” (ver p. p. Itatiaia. 151. Paris: NRF. Por via aérea atingem-se os pontos extremos em uma hora de vôo. p. Ed. fala de um forte ‘ar de parentesco’ entre as cidades que margeiam este rio. Everardo. porque com o Equador e Venezuela. 196 Somanlu. ano 5. mas também linha de ataque. UNB. 1985. SP. 1938. em virtude da atuação de grupos guerrilheiros e para-militares. BRITTO. 1 2 Referências ANCEL. n. jan. Jacques. Política e Espaço Regional. 159-160. Ed. 2000. Sua existência é apenas verbal e seus membros mudam a cada período. 2005 . Civilização Brasileira. o contrabando tradicional tende a reduzir ou mesmo a desaparecer em virtude da abertura comercial entre países. p. Luiz Navarro. Ricardo – Caminhos que marcham. n. 10 Não há nenhum registro oficial desta comissão. Revista Terra das Águas. Géographie des frontiéres. 73). independente de sua nacionalidade. São Paulo: Nobel. Também Ancel (1938. a presença do exército colombiano é mais constante.º 2. 5 Ratzel afirma que do ponto de vista militar. 1. 1986. La Geographie Politique. Ver O Reno. Rio de Janeiro: Gráfica Laemmert./jun.

1994. VALLAUX. Manaus: Edua. Bogotá: Colômbia. DONADIO. GUHL. Paris: Fayard. Somanlu. Michel. 2. NAVIA. Brasília: UNB. ano 5. Geografia Social: El Suelo y el Estado. O controle intermitente do território amazônico. 1999. 1989. 2000. GARCEZ. 1978. Lucien. Madrid: Daniel Jorro. Rio de Janeiro: Biblioteca Militar./jun. 1. Gustavo. Revista Terra das Águas. 2005 197 . RATZEL. SPIX. A. Bogotá: Fondo Editorial Masayaki.º Semestre. 1914. n. Las fronteras politicas y los limites naturales. MACHADO. A síntese da história do Amazonas. jan. 1997. Ernesto. FOUCHER. NOGUEIRA. Geopolitica do Brasil. Claudia L. n. it El hombre y su médio. RODRIGUES. 2000. Ricardo. Belo Horizonte: Itatiaia. 1992. 1995. FEBVRE. Caminhos que marcham: O transporte fluvial na Amazônia. 2. Ticunas brasileros. Leticia Universidad Nacional de Colombia. Revista Território. 1999. NOGUEIRA. 242. Paris: Fayard. Alberto. 1. p. Amazonas: um estado ribeirinho. Lysias. São Paulo: Civilização Brasileira. Mitos e realidade. Manaus: Imprensa Oficial. Friedrich. Camille. 1991. Ricardo. 1981. Fronts et Frontieres. C. Bogotá: Planeta. La Geographie Politique. 1947. Johann Baptist Von. Etnicidad Y nacionalidad en la región del Alto Amazonas. LOUREIRO. Brasília:UNB/Marco Zero.Ricardo José Batista Nogueira DOMINGUEZ. Lia Osório. 1999. colombianos y peruanos. ed. Viagem pelo Brasil. O Reno: História. Conozcamos la selva amazonica. 4. et al. La guerra con el Peru. v.

ano 5. 1. 2005 ./jun.198 Somanlu. jan. n.

2005 199 . n. 1.Resenhas Somanlu./jun. jan. ano 5.

200 Somanlu./jun. 1. 2005 . ano 5. n. jan.

o que transparece através da presença de expressões da linguagem regional que. Somanlu. para mencionar nomes conhecidos. inicia um programa editorial idealizado para ser desenvolvido com a participação da Faculdade Salesiana Dom Bosco e a Universidade Federal do Amazonas. 2005 201 . e mesmo. realizado de forma paciente por Casimiro Beksta./jun. Passo decisivo para a efetiva realização desse empreendimento editorial foi sem dúvida o trabalho da tradução. Surpreende na verdade que esses e outros importantes antropólogos permaneçam com suas obras publicadas de modo descontínuo. n. de Theodor Koch-Grünberg. Nunes Pereira e Eduardo Galvão. jan. A presente edição brasileira da obra Dois Anos entre os Indígenas. Curt Nimuendaju.A contribuição seminal de Koch-Grünberg* Renan Freitas Pinto** Uma das principais e necessárias tarefas para a instituição e desenvolvimento de um núcleo forte de estudos antropológicos no Amazonas é a difusão das obras de autores fundadores como Koch-Grünberg. o que finalmente vem abrir uma possibilidade de corrigirmos essa grave ausência editorial da antropologia no Brasil e de modo especial em referência a esses antropólogos. 2005. simplesmente inéditos em português. cujas obras estão fortemente ligadas à Amazônia. em alguns casos. acrescenta-lhe esse toque particular de um livro produzido a partir de uma experiência de vida local. ** Renan Freitas Pinto é doutor em Ciências Sociais e professor do Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia da UFAM. 1. Manaus: Edua e Faculdade Salesiana Dom Bosco. * Resenha da obra Dois anos entre os indígenas. direta do original alemão. Viagens no Noroeste do Brasil (1903-1905). Viagens ao Noroeste do Brasil (1903-1905). auxiliado certamente por sua longa experiência entre os indígenas da região estudada e que terminou por imprimir ao texto traduzido a marca de algo enraizado na experiência vivida. ano 5. longe de comprometer o rigor esperado de um texto de cunho etnológico.

desapareceria inexoravelmente. A presente edição inspirou o pessoal do Instituto Dirson Costa. a mitologia e a cultura material e técnica das populações incluídas na narrativa da viagem.A contribuição seminal de Koch-Grünberg Outro aspecto igualmente digno de registro é o fato de que neste ano de 2005 a viagem que é documentada através da obra Dois Anos entre os Indígenas. entre as quais a de empreender. verificarmos o que permaneceu. pois torna possível a reconstrução histórica de seus movimentos em relação aos seus territórios e os processos demográficos dos seus respectivos grupos. a tomar a iconografia da obra para levar a efeito um trabalho de recriação. 2005 . onde funciona a Escola de Pintura Ye‘pá. Curt Nimuendaju e Nunes Pereira. Do ponto de vista dos povos indígenas. jan. e mesmo o que. entre os quais cabe mencionar Mário de Andrade. o que mudou. que seriam essenciais para fundamentar pesquisas e estudos de outros autores. 1. ao rigor de suas descrições técnicas e científicas. através dos toques diferenciados de cada um dos artistas indígenas. Ele apresenta. em especial pelas soluções cromáticas encontradas. como um leitor fascinado pela literatura dos viajantes. que resultou em um surpreendente conjunto de telas que expressam. na atualidade. daí havendo a possibilidade de resultar várias conseqüências. Viagens ao Noroeste do Brasil (1903-1905) completa seu centenário. a reconstituição dos trajetos percorridos. como temia na ocasião da viagem o próprio Koch-Grünberg. seu estilo pictórico. Seu talento de excelente observador e narrador se manifesta em vários momentos e passagens da narrativa. capazes de deslumbrar o leitor quando associa. ano 5. o que sugere várias idéias aos leitores. um processo de reelaboração do conjunto de ilustrações sob a forma de fotografias. Entre elas a de constatar as mudanças que certamente ocorreram no espaço desses cem anos. a publicação se reveste de significado singular. a leitura de Koch-Grünberg foi fundamental principalmente para duas de suas mais importantes obras: Macunaíma e Namoros com a Medici- 202 Somanlu. em especial por aqueles que deixaram relatos sobre os povos indígenas da América do Sul. em primeira mão. n. como sempre acontece com essas importantes expedições científicas. possibilitando. E esse é mais um aspecto que nos surpreende em relação ao fato de ter ficado sua obra inédita para nós durante todo esse tempo. Theodor Koch-Grünberg. No caso de Mário de Andrade. informações sobre a geografia. vai buscar ser fiel a essa tradição dos belos livros de viagem. desenhos e grafismos indígenas que adquiriram uma força expressiva./jun. resultando afinal em longa ausência para esse numeroso e crescente gênero de leitores.

cabe anotar os estudos etnográficos em que Koch-Grünberg descreve a produção da cerâmica. p. em especial. Somanlu. entre os quais dedicou especial empenho documental. e a própria pintura corporal. do curare e dos instrumentos musicais.Renan Freitas Pinto na. jan. as máscaras. n. da variedade de objetos de cerâmica e de um modo particular com a produção de objetos rituais da dança e dos diferentes procedimentos mágicos. paralisa logo o movimento voluntário do músculo nesta localidade. continuidade e aprofundamento a vários de seus estudos. Nunes Pereira tem na obra de KochGrünberg uma das suas fontes de documentação mais destacadas. da grande diversidade de artefatos utilizados na pesca. sem esquecer. (2005. 1. impede os movimentos da respiração e induz de repente uma morte indolor por meio da sufocação. Quanto a Curt Nimuendaju. Há nesse sentido. espalha-se o veneno e com ele a paralisação no corpo inteiro. de mencionar aspectos significativos da vida da mulher brasileira na região amazônica. 125) Há uma atenção especial do autor em destacar a situação da mulher nas sociedades indígenas. Os animais mortos com curare podem ser comidos sem receio. ao longo de sua obra. sob determinados aspectos./jun. Com o sangue que circula. ano 5. uma especial atenção para com o significado artístico e as técnicas de produção de artefatos indígenas como os teares usados na fabricação dos diferentes tipos de rede de dormir. Em Moronguêtá – Um Decameron Indígena. aos instrumentos musicais. Entre os aspectos que mais chamam a atenção do leitor. por exemplo. as cintas e outros adornos. O curare não produz um efeito danoso no estômago. entretanto. atinge finalmente os músculos do peito. Os indígenas até dizem que o veneno torna especialmente saborosa a carne dos animais. dos tecidos e trançados. observando-se apenas umas convulsões mais leves. as atividades rituais e as transações com outros grupos indígenas e com brancos. sua obra etnológica sobre a Amazônia dá. 2005 203 . assim como sua participação nos processos que envolvem a organização social. Destaca a atuação das mulheres indígenas na produção de artefatos de valor artístico e importância diferenciados. sem causar a perda da consciência ou aparecimento das manifestações do tétano. observa que sua eficácia já foi testada por muitas experiências. Se o curare penetra no sangue. Sobre o curare.

1. obra publicada em 1906 e que ainda espera ser traduzida para a língua portuguesa. O momento de sua viagem (1903-1905) ocorre em pleno apogeu do ciclo da exploração da borracha e sua obra termina por se transformar também em vivo documento dos processos violentos que caracterizam a incorporação compulsória dos indígenas como trabalhadores escravos nas frentes de extração do caucho. ano 5. mas a grande riqueza cultural dessas tão diferenciadas manifestações dos povos indígenas. são usadas para guardar água. n. potes e bacias. Sua compreensão da situação dos povos indígenas da Amazônia está informada por uma aguda percepção dos processos sociais e políticos que predominam na formação de tipo tradicional e patriarcal da sociedade regional com quem teve contato. embora este líquido alcoólico com o tempo destrua o verniz e a pintura. participando nessas condições da expansão da fronteira do extrativismo. 547) Sua obra dedicou uma atenção especial ao significado da arte para os povos indígenas. para conservar sua beleza. a partir dos quais ocorre regularmente o trabalho escravo indígena tanto na esfera da produção econômica extrativista quanto nas relações domésticas. Um dado bastante significativo quanto ao seu interesse especial devotado à arte dos povos indígenas da Amazônia é o de haver escrito um livro intitulado Anfänge der Kunst im Urwald (Começos da Arte na Floresta). sendo possível. por exemplo. 2005 . Somente nas recepções solenes e nas festas de dança usam também para oferecer bebidas de mandioca ou até mesmo do caxiri. Nesse sentido procura evidenciar que a situação dos indígenas é fortemente determinada pelos padrões de dominação tradicional predominantes. O que significa dizer que sua obra passou a se constituir numa das referências essenciais para o conhecimento da cultura material e simbólica desses povos. o que muito contribuirá para evidenciar o papel que possuía a arte indígena para a formação do pensamento antropológico sobre os indígenas por ele estudados./jun.A contribuição seminal de Koch-Grünberg Sobre a extremamente variada produção de peças de cerâmica ele observa. envolvendo de modo particular brasileiros e colombianos. 204 Somanlu. p. (2005. através da documentação que reuniu e organizou nesse particular. que: As vasilhas pintadas. identificar não apenas a complexidade de algumas dessas manifestações estéticas. jan.

em quatro volumes. sua primeira expedição ao noroeste amazônico. e em particular sobre o noroeste da região amazônica.Renan Freitas Pinto Há ao longo de suas obras sobre a América do Sul. É dessa viagem que finalmente dispomos. no dia 9 de abril de 1872. em Hesse. da qual em 1921 foi editada uma versão popular em um só volume. através de desenhos e fotografias. É nessa condição de pesquisador que empreende. *** Theodor Koch-Grünberg nasceu no seio de família protestante./jun. intitulado Tipos indígenas da região Amazônica. ano 5. região ainda relativamente pouco conhecida do ponto de vista etnológico. jan. A viagem à Amazônia que empreenderia a seguir resultaria na obra Do Roraima ao Orinoco. na realidade pretendia se dedicar ao conhecimento dos povos indígenas da América do Sul. com a presente edição em língua portuguesa. após o que foi convidado para trabalhar no Museu Etnográfico de Berlim. Iniciou sua formação acadêmica através dos estudos de filologia clássica que desenvolveu nas universidades de Giessen e Tübingen. Vale registrar que dessa viagem resultaram ainda vários pequenos trabalhos que foram publicados em revistas especializadas. aparecendo em 1899 a tão sonhada oportunidade de participar de uma expedição. pois havia sido convidado por Hermann Meyer para acompanhá-lo em sua viagem. além do álbum com cerca de 140 fotos. 2005 205 . na pequena localidade de Grünberg. ainda inédito em português. que Koch- Somanlu. em 1903-1905. editada originalmente em alemão. observações detalhadas sobre a alimentação. Venezuela e Guiana Inglesa. em especial do ponto de vista da documentação visual. patrocinada pelo Instituto Baessler do Museu Für Volkerkunde abrangendo áreas do Brasil. Sua edição original em alemão é de 1909-1910. Nessa primeira oportunidade já desenvolveu importantes estudos lingüísticos que se tornariam um dos principais fundamentos de seu trabalho antropológico. 1. n. a situação de saúde e as condições de existência das populações indígenas sofrendo o efeito do contato com os valores da civilização ocidental. Em 1902 obteve seu doutoramento na Universidade de Würzburg com trabalho de pesquisa intitulado O grupo Guaikuru. de uma de suas obras mais ricas. que passou a fazer parte de seu nome. É nessa viagem. Apesar de haver temporariamente se dedicado ao magistério logo depois de prestar seus exames.

2005 . vítima de malária na localidade de Vista Alegre. Ao retornar à Alemanha em 1913 passou a ministrar curso de Etnografia na Universidade de Freiburg.A contribuição seminal de Koch-Grünberg Grünberg trouxe consigo uma câmera cinematográfica com a qual produziu documentação que seria utilizada para a montagem de um filme que foi exibido em Caracas. A chalupa que regressou de Vista Alegre a 20 de outubro. situada no médio Rio Branco. membro da expedição. em 1924. sua atuação na Universidade de Heidelberg. entre suas atividades docentes. 24): Em Manaus. ano 5. passou por Belém do Pará para encontrar Hamilton Rice e os demais membros da expedição que teria seu início em Manaus. Seis semanas mais tarde morria Koch-Grünberg (9 de outubro). 206 Somanlu. Nessa sua última e fatal viagem. da Universidade de Harvard. para empreender sua última viagem. e a grande equipe de cientistas que mobilizou. chegou-nos a notícia da morte (9 de outubro) de Theodor KochGrünberg. patrocinada pelo Banco Central da Venezuela. n. A morte de Koch-Grünberg é relatada por Hamilton Rice em Exploração da Guiana Brasileira (1978. além de prosseguir realizando conferências e organizando escritos etnológicos sempre acompanhados de desenhos e fotografias para publicação. posição que ocupou até seu afastamento. trouxe-nos a notícia de que Koch-Grünberg morrera subitamente de um acesso de malária. a convite do geógrafo norte-americano Alexander Hamilton Rice. em Sorocaba. 1. entre os quais um hidroavião e uma possante câmera cinematográfica. entre os quais Silvino Santos. jan. um povoado cerca de 20 km abaixo de Vista Alegre. que se notabilizou pelos recursos técnicos que mobilizou. por ocasião do lançamento da edição em espanhol. pioneiro do cinema e da fotografia no Amazonas. A 19. Em fins de agosto. o rio Branco. portanto sem haver atingido a região em que se concentrariam os trabalhos de pesquisa. diversos obstáculos retardaram a volta da chalupa até 12 de outubro. p. Deve ainda ser destacado. Essa expedição. e a direção científica da seção da América do Sul do Linden-Museum de Stuttgart. tinha como principal objetivo explorar em detalhe as nascentes dos rios Orenoco e Negro. subiram o rio Negro e seu afluente./jun.

cujas contribuições seriam esclarecedoras para o conhecimento dos povos indígenas e para a publicação de novas obras./jun. e de modo particular. n. como foram aquelas que o consagraram como um dos fundadores da antropologia brasileira.Renan Freitas Pinto Sua morte prematura certamente o impediu de realizar importantes planos de pesquisa. jan. 1. Somanlu. 2005 207 . ano 5. dos povos indígenas da Amazônia.

ano 5. 2005 ./jun. 1. jan. n.208 Somanlu.

em que cada narrativa constitui um quadro. sua tia. Quem leu o Dois irmãos não pode deixar de perceber que se trata de Nael. Há um elo de ligação entre este romance e o anterior.Ponto e contraponto* Marcos Frederico Krüger** Entre o primeiro e o segundo romances de Milton Hatoum – respectivamente. o narrador principal. que não sabemos se terá seqüência em oportunidades futuras. No livro de estréia sua ação é intensa. Viera apanhar um tailleur e. Somanlu. O mesmo processo se observa agora. na recente tessitura de Cinzas do Norte. Ramira comenta com o sobrinho: “É o filho natural de uma família da rua dos Barés”. torna-se figurante na nova saga de Hatoum. filho da índia Domingas e de pai cuja identidade permanece oculta. Hatoum criou. indica uma construção literária peculiar: mais do que um romance em mosaicos. n. é referida sem o nome no “pórtico” da narrativa. Relato de um certo Oriente e Dois irmãos – há uma personagem que funciona como sutil elo de ligação entre os dois textos: a matriarca Emilie. com seus três enredos. do autor Milton Hatoum (São Paulo: Companhia das Letras. Também sem ter seu nome citado. Chega então à janela um rapaz com “rosto meio indígena” e “dois olhos graúdos e esgazeados”. indagou em árabe. Nael. se os filhos já haviam feito as pazes. conversa em determinada oportunidade com a costureira Ramira. 2005 209 . 1. portanto. após sua partida. ano 5. uma obrapainel. 2005)./jun. É quando Zana. Eis aí. O resultado nos mostra a pluralidade de uma cidade fracionada e ferida: a Manaus das primeiras décadas do século XX e a que se prostrou diante da ditadura militar. o narrador quase protagonista de Dois irmãos. * Resenha da obra Cinzas do Norte. no segundo. Sua tênue presença é assinalada quando Lavo. Esse processo de entrelaçamento de textos. um significado para o ato de transplantar personagens de um romance a outro. “para que só a filha e a amiga quase centenária” escutassem. uns poucos dias antes de sua morte. jan.

tal como aconteceu em relação a Nael. de onde se originou o primeiro. Em Dois irmãos. Assim. no Relato. Mundo é a forma aferética de Raimundo. filho do casal. Seu cão se chama Fogo – onomástica sugestiva de prepotência e de amizade com líderes militares. conhecido como Ran. a superfície e o forro. Os dois narradores estabelecem histórias diferentes. Neste novo trabalho. é o avesso. Ele casa-se com Alícia. Dessa forma. que vê no casamento a chance de sair da miséria. de Halim etc. mãe de Mundo. É esse o conflito principal do romance: Mundo contra Jano. 2005 . Muitos personagens.Ponto e contraponto Se essa técnica de transplante uniformiza os romances como facetas de uma só obra. o industrial o sufoca. distorcem e talvez até inventem acontecimentos. Ficaremos sem saber quem é seu pai. 1. Mesmo a cidade de Manaus se torna contadora de histórias através de milhares de vozes anônimas que reproduzem. vários são os narradores. jovem pobre e moradora de arrabalde deserto da cidade. e a supressão dos fonemas iniciais ressignifica o nome do protagonista. A voz do primeiro busca reconstituir a trajetória existencial de Mundo. desesperado artista sufocado por arbitrariedades de uma sociedade pragmática. porque intuímos que ele não é o pai biológico de Mundo e a dúvida nos acompanha por todo o romance. a diversidade das técnicas narrativas os torna diferentes. como pinturas feitas por escolas com percepções estéticas distintas. ilustram situações peculiares de Manaus. Incapaz de compreender o pendor artístico do filho. de Dois irmãos? 210 Somanlu. ano 5. a perspectiva de cada um cria efeitos dessemelhantes no leitor. E ainda: o tempo há pouco transposto é o lado direito e um tempo remoto. Dois são os personagens que se pronunciam: o principal é Lavo e o secundário (digamos assim) é seu tio Ranulfo. jan. em que pese o narrador ser apenas um – Nael –. n. Elas são como as roupas que Ramira costurava: o direito e o avesso do enredo. Jano é o industrial poderoso cuja empresa entra em decadência após os “novos tempos” surgidos com a implantação da Zona Franca. ou melhor. de Rânia. há nova técnica de utilização do foco narrativo. que se mesclam e constituem o ponto e o contraponto da mesma realidade. O segundo recupera principalmente o passado de Alícia. que sonhava com a arte e suas amplidões e não com as faturas e as notas fiscais da empresa do pai. para ele convergem as histórias e as visões de múltiplos subnarradores: da mãe Domingas./jun. A atitude de Jano se torna mais aviltante. sem que sejam alegóricos.

n. Jano. G. e um pintor que veio a conhecer. traços característicos. o artista a quem Mundo idolatrava e que se desvia do caminho da arte. Sempre apoiando o filho. ano 5. o obsessivo Mundo desenha o tempo todo. Cinzas do Norte é um roman à clef. Uma saída para o drama íntimo é o jogo.Marcos Frederico Kr üger As válvulas de escape para Mundo são Ranulfo. que é de ferir o pai. para desespero de Jano. na “vida real” um rico empresário. Como se vê. como a transferência dos moradores da Cidade Flutuante para um conjunto habitacional distante. nós o vemos como a síntese de dois artistas plásticos da cidade. Lavo. preferido do Comando Militar da Amazônia para ser o prefeito de Manaus. Assim. em atitude contraditória. preferimos não divulgar nossa percepção. motivo que o leva às rebeldes atitudes que toma depois. Alícia se opõe ao marido e entra em conflito com ele. Tais amizades não são do agrado do pai. jan. corrompendo-se e passando a criar enormes quadros para ilustrar empresas e repartições públicas.. O que dignifica o livro é a escrita vigorosa em que estão postos os confli- Somanlu. de Araújo Jorge. quadros quase sempre de mau gosto. admite ingressar no Colégio Militar e se integrar à dura e machista rotina militar. ganha outra dimensão. prática que se torna vício e a levará à miséria. próxima a Parintins. chamado Arana. as relações familiares no rico palacete de Jano se tornam impossíveis. que queria vê-lo no Exército. O pano de fundo para esse caos é a ditadura militar e as arbitrariedades cometidas contra a população. O coronel Zanda. cargos exercidos e atitudes conhecidas permitem a identificação. é a projeção de. Naiá.. Afinal de contas. é Jorge Teixeira. Mundo. ironicamente chamado de Novo Eldorado. a realidade do livro é ficcional e. por isso mesmo. tem um objetivo. O fato de ser à clef não enaltece nem avilta o teor do texto de Hatoum. Quanto a Mundo. Um deles é Hahnemann Bacellar. Não que sua trajetória de vida – a do personagem e a dos protótipos humanos – seja absolutamente igual. Já Arana. o exportador J. um romance em que os personagens (vários deles) podem ser identificados com pessoas da vida real./jun. porém. Levado com Lavo para a Vila Amazônia. o homem da ficção e o “personagem real” devastaram a cidade de Manaus. Mais tarde. se transmuda em Jano. Zanda. Tudo. Macau – são entes que só existem na narrativa. ou seja. 1. os quais muito sofreram com a incompreensão do meio. Ambos. em sonho alucinado de progresso. também na vida real da ficção o poderoso proprietário da Vila Amazônia. amante de sua mãe. 2005 211 . Entretanto.

Ou melhor. E ao tomarmos conhecimento do mistério. numa resenha como esta. não o faremos. mas um castigo. pois assim não seria surpresa. eis que somos colocados face ao inesperado. embora o seu sentido devesse ser debatido. Eis que nos aparece a surpresa que não deve ser revelada de antemão. quando já julgávamos o romance terminado e reduzido a memórias cuja razão de ser não estava bem clara. que corresponde ao lado direito das roupas costuradas por Ramira. não se pode ignorar o lado do avesso. 2005 . A mão do mestre nos reservava a cartada final e. onde estão os ódios e as tormentas. para quem não se preparou. Na superfície da vida. vem a cartada final do narrador. A surpresa que só pode conhecer com toda a intensidade quem para ela se preparou lendo o livro. há a aparência feliz. na maior parte das vezes – para todos. jan. para que o signo oculto só seja conhecido pelos que se aventurarem na leitura. percebemos que a vida é cruel e que viver não é um prêmio. 212 Somanlu. ano 5. como aquele em que Mundo fica marcado no pescoço pelo cinturão manejado com crueldade pelo pai. Sem que percebêssemos. Entretanto. Pelo menos assim foi para Mundo e assim é – um pouco menos. n./jun. Hatoum busca revelar o inferno existencial das criaturas. E quando se pensa que a tragédia terminou. ponto de partida de toda boa literatura. 1.Ponto e contraponto tos.

Marcos Frederico Kr üger Homenagem Póstuma a Leandro Tocantins Somanlu. 1./jun. n. ano 5. jan. 2005 213 .

ano 5. jan. 1. n. 2005 ./jun.214 Somanlu.

Quem lá não esteve. buscou explicar o Brasil. jan. Mas vale a pena. por Selda Vale da Costa e Narciso Lobo. no PPGSCA. n. autor. Leandro foi um pensador brasileiro. Fizemos algumas supressões. eis a chance de reencontrar essa figura complexa e ampla. dentre outros. que defendeu. o Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia reuniu o escritor Luiz de Miranda Correa. 1. daí que o material está robusto.Na tarde do dia 06/07. além de amigo de toda a vida de Leandro. do Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia. ano 5. o professor doutor Renan Freitas Pinto. a vastíssima obra do historiador. ainda sob o impacto da perda de Leandro Góes Tocantins (1929-2004). durante quase três horas. que. sociólogo. assim definida por um dos participantes deste Seminário-Homenagem: mais que um intérprete da Amazônia. Discutiu-se./jun. 2005 215 . Houve a saudável polêmica entre os palestrantes. ficcionista. dos livros O nascimento de uma cidade e A borracha da Amazônia e a II Guerra Mundial. Outro fato que liga o homenageado ao PPGSCA é a magnífica conferência que pronunciou para alunos e professores de nosso Programa quatro anos antes de seu desaparecimento. onde trabalha com a importante pesquisa/disciplina sobre o Pensamento Social da Amazônia. editores de Somanlu. Somanlu. amigo da cultura e da Amazônia. além de incansável homem de ação. a quem serviu como cioso intérprete. conjuntamente. poeta. A sessão foi organizada. através da Amazônia. e o também professor Odenei de Souza Ribeiro. Homenagem que agradaria a qualquer homem de pensamento. com o cuidado de manter a essência. dissertação de mestrado sobre a obra de Leandro Tocantins.

na verdade. 1. dado que compunha esse governo. onde este esboça um estudo ecológico da produção açucareira no Nordeste./jun. que creio serem fundamentais. mas também fundamentalmente na orientação política das instituições locais? É importante salientarmos que as idéias de Leandro Tocantins não estão presas apenas a um conjunto bibliográfico. Mas. como com o professor Renan. Então. Elide Rugai Bastos. a primeira coisa que nós também devemos salientar é: qual é a via de acesso para entrarmos no pensamento de Leandro Tocantins? E aí essa pergunta é fundamental para nós entendermos que este autor estabelece um diálogo diretamente com Gilberto Freyre e esse diálogo é fundamental. mas elas se transformaram em uma política de ação também do governo local à medida que ele teve um papel fundamental no governo de Arthur Cézar Ferreira Reis (1964-1967). porque ele vai tirar um elemento importante para orientar o conjunto de suas reflexões. selecionei uns temas vinculados ao processo de desenvolvimento da minha dissertação em alguns pontos. meu trabalho sobre Leandro Tocantins. criando características psicossociais nos indivíduos. ano 5.Odenei de Souza Ribeiro Na verdade. de 1937. Esse conjunto de reflexões está orientado por dois princípios fundamentais que vão orientar sua reflexão sobre a Amazônia. ele teve um papel fundamental na minha via de acesso a essa bibliografia. Que princípios são esses? São os princípios ecológicos. Na verdade. o impacto da lavoura canavieira sobre o meio ambiente e sobre a ação dos homens criando tipos psicológicos. n. Tanto como representante do Amazonas no Rio de Janeiro. de Gilberto Freyre. 2005 . modos de agir e de pensar que orientavam a conduta dos indivíduos e dos seus papéis sociais como atores que compunham a lavoura canavieira: 216 Somanlu. que muito me auxiliou com a bibliografia regional. Primeira coisa que devemos nos perguntar é o seguinte: qual é a relevância do Leandro Tocantins do ponto de vista não só da produção intelectual. padrões de comportamento. Tenho muito a agradecer a ele. Ora. Foi ele quem me colocou diante do pensamento de autores como Leandro Tocantins. como também participando diretamente e auxiliando Arthur Reis. mas que são princípios genéticos e ecológicos? Primeiro. eu o desenvolvi a partir de um diálogo tanto com minha orientadora. Os princípios ecológicos e os princípios genéticos vão orientar a reflexão. jan. Leandro Tocantins vai se basear na obra chamada Nordeste.

Genéticos por quê? Genéticos por causa do desenvolvimento das instituições dos homens no tempo e no espaço. nesse caso. de industrialização. dentro da perspectiva de Gilberto Freyre. que é um indivíduo marcado pela produção açucareira. é genético: desenvolvimento histórico das instituições. em O rio comanda a vida e também em Amazônia – natureza. a partir dos estudos genéticos e ecológicos. mas mantendo as raízes que foram construídas por negros./jun. n. Como é que os homens desenvolvem toda a técnica para se apropriar desse meio ambiente? Como é que ele interfere. a obra Casa Grande e Senzala significou um pacto de reconciliação. Como é que os homens utilizam a fauna. que ele está fazendo uma crítica à modernização que está acontecendo no Brasil e o regionalismo é justamente um diálogo com o modernismo mostrando o seguinte: é necessário nós nos modernizarmos. modifica e deforma esse meio ambiente? Então. classe média e proletariado.o curiboca. mas. E a obra de Gilberto Freyre – Casa Grande e Senzala – serviu na verdade como uma espécie de reconciliação entre os setores agrários tradicionais e os novos atores emergentes no plano urbano. como industriais. brancos e índios em solo brasileiro. justamente. Por quê? Porque. jan. nessa perspectiva. ano 5. só que acrescentando algo de si mesmo. vai justamente desenvolver estas teses regionalistas do Gilberto Freyre. com Gilberto Freyre e tentando mostrar que o extrativismo construiu seus próprios tipos sociais. O que significa isso? É preciso passar por um processo de transformação. a flora. diferente do processo de colonização do Nordeste.. por isso. justamente porque deforma o meio ambiente e altera significativamente os requisitos psicossociais de ação do homem naquele espaço social. Partindo desse princípio. que foi marca- Somanlu. porque essas raízes dão sustentáculo justamente à nossa identidade.. o negro. nesse aspecto. Então. justamente ao criar um pacto de reconciliação entre os setores extrativos tradicionais e os setores emergentes do processo do desenvolvimentismo. Todos esses personagens vão compor um cenário importante do desenvolvimento da lavoura açucareira. homem e tempo. Leandro Tocantins está dialogando. cultura e ação. é importante salientar. o senhor do engenho patriarcal... que estavam emergindo na década de 1930. Leandro Tocantins vai lançar mão. sua própria arquitetura. e ecológico. mantendo o núcleo da nossa identidade. na verdade. a negrinha. eu peguei a obra do Leandro Tocantins e comecei a verificar que ele teve um papel importante na nossa região. que são os três livros em que eu me fundamentei. 2005 217 . 1. assim como em Vida. Então. E Leandro Tocantins.

dialogando com essa nova matriz do pensamento regionalista. as memórias. diferentes de outros povos europeus. Leandro Tocantins. quando você se depara com a obra de Leandro Tocantins. E Leandro Tocantins. conseguiu absorver parte dessas culturas e a trouxe para o Brasil. pelo patriarcalismo e pelo negro. 1. vai dizer assim: olha. Então. Essa prosa é resultado de um conjunto de impressões da densidade literária que ele desenvolve também ao longo de sua obra. Porque Leandro Tocantins. Na nossa região.do por sedentarismo. na amazonotropicologia. 2005 . Esses três elementos constituem a plasticidade do português. jan. São esses três elementos que constituem o caráter específico do português. ou do etnoconhecimento. No dizer do Gilberto Freyre. Então. ano 5. as empatias. que são justamente as impressões. existe uma hispanotropicologia que estuda o processo de colonização ibérica nos trópicos. constitui uma “caldo cultural novo” que possibilita justamente uma nova civilização nos trópicos. Esse tipo novo de civilização requer mais do que aplicação dos métodos vindos da Europa e dos Estados Unidos. que é a lusotropicologia. Daí que nós temos que fundar uma nova ciência. junto com os métodos. Amazonotropicologia é. na Índia. a arquitetura. dos etnosaberes dos povos locais e também 218 Somanlu. sem espinhas. o tipo de alimentação que se desenvolve com a miscigenação portuguesa. indígena e negra. Esses tipos são fundamentais para criar justamente um tipo novo de civilização. E o português. Nesse aspecto. já está propondo uma ciência específica. quando esteve em Goa. Na verdade. vai dizer: olha. nós temos que criar uma amazonotropicologia. da cana-de-açúcar. “uma prosa sem osso. uma capacidade de miscigenar. n. Aí que entra justamente uma dimensão importante de Gilberto Freyre e de Leandro Tocantins. de tão leve que ela é”. segundo. oriunda das etnociências. o negro não teve um papel tão decisivo. que acreditam que o pesquisador deve acrescentar algo de si mesmo ao processo de pesquisa./jun. E terceiro: uma capacidade de mobilidade. pelo sistema de plantation. quando esteve na China e quando esteve nas outras regiões da Ásia e da África. principalmente no que diz respeito à ciência e à tecnologia para o desenvolvimento sustentável. na verdade. um diálogo interno entre essa obra do Leandro Tocantins e os princípios da Agenda 21. O que significa essa qualidade plástica? Em primeiro: uma capacidade de se aclimatar. você se depara com uma prosa muito leve. justamente. os tipos característicos foram constituídos a partir da miscigenação entre portugueses e índios. têm uma qualidade plástica. dialogando com o regionalismo. O que é essa hispanotropicologia? O que é a luz da lusotropicologia do Gilberto Freyre? Os portugueses.

homem e tempo. Então. que é “Arquitetura e paisagismo na Amazônia”. e vai ver que. Você entra num casarão ou num sobrado português do início do século em Manaus. estão plenamente adequadas à nossa cultura. n. porque o vidro acumula calor. Assim como Gilberto Freyre. próximo ao CIEC. E Leandro Tocantins mostra como os portugueses desenvolveram. 1. para forjar um conjunto de saberes e mostrar como essas técnicas. Eles não são adaptados e nem os arquitetos e nem os engenheiros aproveitam a luminosidade da nossa região e não aproveitam também a situação climática. temos que acender as luzes. que criou uma cultura e uma identidade local perfeitamente adaptada às condições regionais. nós não devemos esquecer essas tradições. Ele está fazendo uma crítica a uma modernização sem critérios. em alguns edifícios da nossa região. em pleno meio-dia. Leandro Tocantins já está estabelecendo diálogo com eles. e do Inpa. nessa perspectiva. ele acredita que a civilização do extrativismo. hoje. ano 5. forjados hoje. e tem que acender as luzes. Somanlu. E você entra em um edifício contemporâneo. As paredes grossas e o teto alto são justamente para impedir que o calor excessivo maltrate as pessoas. ele já fala isso nos livros dele. através dos pagodes. 2005 219 . que são desenvolvidas localmente. na verdade. ele acumula uma umidade dentro. em pleno dia de sol. Eles vão gastar muito mais energia. em pleno meio-dia. em Manaus. você percebe que Leandro Tocantins está discutindo justamente como essa modernização./jun. Aquele porão é justamente para acumular a umidade. principalmente na obra Amazônia – natureza. todos eles já estão inviáveis. assim como Gilberto Freyre já havia dialogado e discutido e desenvolvido um argumento sobre a arquitetura dos sobrados e dos mocambos plenamente adaptados ao clima tropical. é nesse texto onde ele dialoga justamente com as possibilidades de uma arquitetura local. toda uma arquitetura adaptada. porque elas são fundamentais. Que é modernidade sem critérios? É justamente a introdução de valores europeus e norte-americanos e o encobrimento de nossa identidade. no Amazonas. em dia de sol. através das varandas. ele tem um frescor interior.da etnobiologia. no apenso do O rio comanda a vida. Aí. Em síntese. o que vai ser essa amazonotropicologia? A amazonotropicologia vai se sustentar a partir do Museu Emílio Goeldi. através do concreto e do vidro. Aqueles edifícios que estão sendo construídos ali na Avenida Djalma Batista. que está justamente no final. jan. do Pará. Termos que nós imaginamos que são contemporâneos. criando um gasto adicional. eu deparo com um diálogo importante.

construiu requisitos psicossociais. Ele está criticando o quê? A Federação. ele desenvolve todo um trabalho. 1. e não de Estados. Poder-se-ia estabelecer uma via que são justamente os hábitos e os costumes.está justamente apagando uma dimensão fundamental da adaptação do homem aos trópicos. que é justamente a discussão do Porto Livre de Manaus. Por fim. ao longo das discussões. mas até que ponto o seu pensamento orientou o conjunto das instituições locais. cultura e ação. ou seja. n. Nesse aspecto. 220 Somanlu. O que significa isso? Em Vida. Ele vai chamar a atenção e dizer o seguinte: o Brasil./jun. regiões naturais. que vai desencadear o processo da Zona Franca. a amazonotropicologia teve um papel fundamental. é importante salientar que Leandro Tocantins teve uma passagem importante. é a ponta: o Brasil é feito antes de regiões. 2005 . ele cita Severiano Mário Porto como uma pessoa que veio para cá e compreendeu as dimensões históricas da adaptação dos portugueses aos trópicos e conseguiu desenvolver uma arquitetura inovadora. orientou o conjunto da obra de Severiano Mário Porto. mostrando o seguinte: que ao longo do processo do extrativismo. embora o extrativismo não tenha criado raízes sólidas como o processo de produção açucareira no Nordeste. E nesse texto “Arquitetura e paisagismo na Amazônia”. Ele teve um papel decisivo na discussão sobre a construção desse espaço do Porto Livre de Manaus que. modos de sentir que são típicos de um novo tipo de civilização. é importante analisarmos e pensarmos as idéias do Leandro Tocantins. um agente político importante para a constituição da Zona Franca. que foi justamente um estudo que fez nos EUA sobre o desenvolvimento regional. que é justamente a persistência da tradição. que tinha um diálogo com ele. agora. às quais se sobrepuseram regiões culturais. nesse aspecto. modos de pensar. Entramos. poucas pessoas citam Leandro Tocantins como um pensador. Nesse aspecto. ano 5. a amazonotropicologia é justamente um conjunto de investigações sobre as produções locais e de como atualizar essas produções locais em políticas de ação do Estado. assim como o regionalismo. as receitas de bolo. Como transformar o conjunto desses saberes locais em uma orientação política das instituições locais. ele construiu tipos. jan. numa terceira dimensão do pensamento do Leandro Tocantins. qual é a atualidade do pensamento do Leandro Tocantins? Você verifica que existem várias vias para entender seu pensamento. Assim. não enquanto apenas uma bibliografia. entra uma fase de Leandro Tocantins enquanto assessor do Arthur Cézar Ferreira Reis. modos de agir. Por isso.

então. em 1952 e 53. do protagonista de Il Gattopardo de Giuseppe Tomasi Di Lampedusa. jan. E diz o seguinte: nós temos que nos modernizar. a exemplo. Finalizo essa exposição mostrando que. enquanto os valores dos produtos industrializados subiriam aritmeticamente. não estão explícitos na obra dele. Ele mostra justamente o que Vargas disse: “olha. Ele tem um diálogo com o desenvolvimentismo tanto da Cepal como do Iseb. na relação internacional. E isso é importante justamente para regulamentar a dotação orçamentária de 3% do orçamento para a SPVEA – Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia. não se fecha. as lendas. Ela só será regulamentada no governo Getúlio Vargas. Você verifica esse diálogo implicitamente. na sua região ainda o rio comanda a vida dos homens. sua vida e a vida da natureza. que fala sobre a necessidade de mudança. um pensador liberal.. acreditava no seguinte: se os países periféricos se concentrassem na produção de produtos primários./jun. esses princípios. O que é essa teoria das vantagens comparativas? Samuelson. 1. Nesse momento. de Paul Samuelson. Por quê? Porque ele acreditava no seguinte: os produtos primários subiriam geometricamente. principalmente porque nós sabemos que na Constituição de 1946 foi criada justamente a dotação orçamentária para valorização da Amazônia. Inclusive ele cita em uns de seus prefácios esse diálogo que teve com Getúlio Vargas. Só que a obra de Leandro Tocantins é uma obra polifônica. só que não foi regulamentada. o desenvolvimentismo de Leandro Tocantins vai se sobrepor a essa visão e vai mostrar que é preciso criar raízes sólidas de industrialização na Amazônia. também Leandro Tocantins aponta Somanlu. quem levaria vantagem seriam os produtores de produtos primários. Por isso ele chama à persistência da tradição.” Essa dimensão poética também está no pensamento do Leandro Tocantins. E Getúlio vai chamar Leandro Tocantins para conversar justamente porque ele estava lançando O rio comanda a vida. Uma coisa que só me veio recentemente é um diálogo de Leandro Tocantins com a teoria das vantagens comparativas. mas sem apagar os traços culturais advindos dos processos do extrativismo.. eles iriam ganhar nas relações comerciais internacionais. para que tudo permaneça como está. ano 5. Então. mas sem deixar de lado nossas raízes extrativistas do ponto de vista da cultura e da identidade.os fuxicos. n. nós vamos fazer tudo para reverter esse quadro para que os homens possam comandar a vida. 2005 221 . que foi justamente influenciada também pelo O rio comanda a vida. os mexericos. Claro que você verifica que esse desenvolvimentismo. os folguedos.

para as mudanças da modernização: nós precisamos nos transformar, do ponto de vista da industrialização, mas nos mantendo os mesmos, do ponto de vista da identidade, porque essa identidade foi plenamente construída e adaptada ao meio ecológico da Amazônia. Renan Freitas Pinto Quero em especial cumprimentar um grande amigo, Luiz de Miranda Corrêa, que nos deu esse prazer e honra de tê-lo aqui conosco, nessa hora, quando buscamos homenagear essa grande figura que é o Leandro Tocantins. E também parabenizar o Odenei pelos seus sempre muito oportunos e competentes pronunciamentos a respeito do Leandro Tocantins. Mais uma vez ele confirma nossa idéia de que ele compreendeu de um modo profundo o sentido dessa obra e do papel desse homem de ação, que foi Leandro Tocantins. Além de um grande poeta, foi historiador e um cientista social. Enfim, essa figura, como ele muito bem mencionou, no final, complexa e múltipla. O quadro de idéias onde se movimenta o pensamento de Leandro Tocantins, na verdade, tem antecedentes, já na obra do próprio Montaigne, no início do século XVII, quando, ao escrever Os Canibais e um outro ensaio muito interessante, dedicado aos indígenas da América, ele estava, em certo sentido, fundando uma antropologia, que passou vários séculos não reconhecida; até derrotada, num certo sentido, mas que de repente, na obra de homens como Leandro Tocantins, renasce com toda sua força. Com certeza Leandro Tocantins leu Montaigne, como também leu muita coisa. Era homem de uma erudição e de um espírito extremamente aberto e, certamente, vale a gente lembrar: uma outra leitura muito importante que foi claramente expressa na sua obra, que foi a leitura de João Daniel. Ele a resgatou de uma forma extremamente original. Ao prefaciar a obra de João Daniel, a edição da década de 1970, aqui no Brasil (agora foi reeditada com a apresentação de Vicente Salles, historiador do Pará), Leandro Tocantins faz exatamente essa conexão do pensamento de João Daniel com isso que foi mencionado aqui como amazonotropicalismo ou lusotropicalismo, ou seja, ele encontrou na obra de João Daniel elementos que buscavam claramente, intencionalmente, valorizar os aspectos das culturas indígenas da Amazônia do ponto de vista de haverem essas culturas criado uma arquitetura, um

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modo de vida plenamente adaptado aos trópicos. Advertindo, inclusive, aos seus compatriotas portugueses que, quando viessem viver na Amazônia, por favor, não trouxessem roupas pesadas e não trouxessem os modelos de construção de casa, de prédios públicos etc., tais como se concebiam na Europa, mas que aqui havia todo o material necessário para se construir de uma maneira correta e adequada as habitações e as construções que fossem necessárias. E que os próprios indígenas já haviam fornecido as soluções construtivas para essa arquitetura. Tratava-se apenas de observar bem como viviam estas sociedades para aproveitar as soluções que haviam sido encontradas secularmente, milenarmente. Então, com observações desse tipo, ele resgata de uma maneira extraordinariamente original a obra, no caso eu estou mencionando João Daniel, mas na verdade é a leitura do Leandro Tocantins que foi extremamente completa, vasta, dos autores da Amazônia. Inclusive ele menciona nestes dois livros que estão aqui na mesa: O rio comanda a vida e Amazônia – natureza, homem e tempo, o que seria na verdade uma história das idéias na Amazônia. Ao mencionar, por exemplo, as obras dos viajantes, a concepção da Amazônia como o País da Canela, como o País das Icamiabas, como o País das Palmeiras, enfim, essa preocupação em construir uma obra onde basicamente o que estava em jogo era a valorização das culturas locais, das culturas que se desenvolveram e que forneceriam naturalmente a chave para o desenvolvimento de uma nova Amazônia. Ele não era um saudosista, um conservador. Era um homem extremamente envolvido com a modernidade, apesar de ter uma sensibilidade profunda em relação a esses valores do Brasil, digamos assim, porque não era só um homem ligado aos estudos regionais. Ele tinha uma compreensão do Brasil extremamente adequada e completa e, na verdade, não podemos dizer que Leandro Tocantins fosse apenas um intérprete da Amazônia. Na verdade, ele era um pensador brasileiro, que, através da Amazônia, buscava explicar o Brasil e, na verdade, tomando o ponto de vista inverso. Dificilmente o Brasil poderia ser explicado sem a contribuição de pensadores como ele, posicionando-se de um ponto de vista da Amazônia para ver o Brasil. E retomando aquela idéia de que as matrizes de seu pensamento estão colocadas ao longo dos séculos XVII e XVIII, vamos aqui mencionar, a respeito do lusotropicalismo, um aspecto que é certamente muito importante, que é o registro, por parte de Hegel, na sua obra Filosofia da História, de um conceito de que as colô-

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nias portuguesas, e a própria escravidão portuguesa havia sido mais suave do que as outras. Ora, esse conceito, emitido no seu curso, que na verdade foi um conjunto de três cursos proferidos por Hegel, em três diferentes momentos (1822, 1826 e 1828) e que os seus próprios alunos, através de notas desse curso, o submeteram a Hegel, surgiu essa obra, resultado de anotações de sala de aula, digamos assim. Nessas anotações há referências ao Novo Mundo e, particularmente, à Amazônia, onde Hegel faz essa referência de que os portugueses criaram um modo de relação com o indígena e os escravos, que era uma forma cordial. Essa idéia de cordialidade, esse tempero, suave, certamente ele a coletou. Colheu essa idéia em autores de seu tempo e colocou na sua obra. A partir de Hegel, podemos tomar como um ponto de referência que a noção de lusotropicalismo, certamente, tem um marco fundamental na obra de Gilberto Freyre, mas por esse registro de Hegel nós podemos, já numa perspectiva da história das idéias, ver que Gilberto Freyre certamente encontrou fundamentos em outros autores para construir suas hipóteses e esse arcabouço. Um dos arcabouços principais de sua obra, porque também, na verdade, a obra de Gilberto Freyre é bastante complexa e não pode ser reduzida a essa idéia da defesa da democracia racial e da atitude cordial dos portugueses. É uma obra extremamente ampla. A propósito, esse livro que o Odenei mencionou, Nordeste, acaba de ser reeditado. Portanto, vemos que o pensamento de Gilberto Freyre permanece vivo e certamente esse pensamento se construiu a partir de um diálogo constante com outros intérpretes brasileiros, inclusive intérpretes como Arthur Reis, o próprio Leandro Tocantins, Charles Wagley, que explicita em sua obra Uma Comunidade Amazônica. Ele manifesta claramente a sua identidade com as idéias de Gilberto Freyre, no que diz respeito à Amazônia. E vale a pena aqui destacar um aspecto que Gilberto Freyre é um pensador da Amazônia, ele possui, dentro de sua obra, um vasto conjunto de referências e de reflexões em torno da Amazônia. Temos inclusive, presentemente, um projeto de Iniciação Científica, que estamos começando agora, e que trata exatamente disso; é um aluno do departamento de Ciências Sociais, buscando levantar, no seu pensamento, a Amazônia de Gilberto Freyre. Então, no conjunto da obra há um cuidado, e uma atenção muito especial de Gilberto Freyre com relação à Amazônia, porque rigorosamente via na Amazônia uma chave para compreender o Brasil. Isso aí está fortemente exposto em vários momentos de sua obra.

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Voltando ao Leandro Tocantins, podemos ver claramente que ele contribuiu fortemente para uma história das idéias na Amazônia. A começar pelo fato que nós acabamos de mencionar: os seus comentários em relação a João Daniel, o primeiro autor que poderia ser, digamos assim, uma espécie de precursor da SPVEA. Um homem que pensou um plano de desenvolvimento e de prosperidade para a Amazônia. E eram planos bastante conseqüentes e factíveis, inclusive de possíveis realizações. Infelizmente, o projeto ao qual ele estava ligado, que era o projeto jesuítico, foi interrompido pela política pombalina. Era uma perspectiva mundial desses jesuítas, eles que possuíam intelectuais pensando várias regiões do mundo e construíram, por exemplo, toda a cartografia mundial. Isso foi iniciativa desse projeto jesuítico, inclusive aqui mesmo ao lado temos a exposição de Samuel Fritz, que foi o primeiro cartógrafo da Amazônia e está dentro desse projeto de se criar uma idéia de desenvolvimento da Amazônia. Mesmo que a palavra na época não fosse corrente, mas o que está em jogo é realmente isso: criar mecanismos, criar ações de natureza política que conduzissem a Amazônia a se tornar uma região próspera e capaz de, inclusive, solucionar o problema, ajudar a solucionar o problema da fome no mundo, a partir do momento em que pudesse receber migrantes e colonos de diversos lugares. Bem, certamente essa idéia de um historiador das idéias é uma idéia forte, mas podemos ainda mencionar, a esse respeito, a leitura que Leandro Tocantins fez de Euclides da Cunha, de quem foi um grande divulgador, senão o maior, da obra de Euclides no Brasil. Com certeza, em relação à obra relacionada com a Amazônia, foi ele o principal divulgador de Euclides da Cunha. Além de historiador das idéias, também teve esse papel de divulgar obras do peso da obra de João Daniel, de Euclides da Cunha... Cabe mencionar, em relação aos estudos sobre a arquitetura, a projeção que ele imprimiu à obra de Severiano Porto (que projetou o campus da Ufam), que certamente se inspirou fortemente, não apenas nos livros, mas no convívio com Leandro Tocantins e na obra do próprio Luiz de Miranda Corrêa, que se encontra presente aqui na mesa, que também produziu ensaios também sobre arquitetura e urbanismo de Manaus, da Amazônia, e que através dos seus estudos, na verdade, está dialogando certamente com Leandro Tocantins, de quem foi amigo. A sua presença aqui vai ser para fazer um depoimento da sua aproximação, ou seja, da sua amizade e admiração pelo Leandro Tocantins.

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É por essas. aos cientistas que conheceram a região e. Eu apenas me restringi. um intelectual que contribui fortemente para a história das idéias na Amazônia. que estamos reunidos. ele estava bastante inspirado. Essa é uma expressão do pensamento luso-tropicalista na própria sociologia estrangeira. para ser mais brando. um autor norte-americano que trabalhou na Amazônia e produziu um dos maiores trabalhos sobre a Amazônia rural. O seringal e o seringueiro. está essa perspectiva. na verdade. que num livro fantástico do professor Artur Cézar Ferreira Reis. 1. o Charles Wagley escreveu novo livro.. que é. dessas obras. por exemplo. Esse livro. que é um livro de um historiador. não se restringiu à Amazônia e chegou a influenciar fortemente a sociologia norte-americana. desses autores. mas a miscigenação cultural foi o elemento fundador da Amazônia. Mas acho que a maior homenagem é levantar e suscitar essas lembranças e essas referências ao que representou certamente a sua obra. Mas ele continua fazendo referências a essa perspectiva lusotropicalista ou lusotropical. um monumento da sociologia da Amazônia. ano 5. sobre as cidades brasileiras. Obra essa que. o livro Uma Comunidade Amazônica. possui uma familiaridade e uma conexão com o pensamento que é compartilhado com Luiz de Miranda Corrêa. com o Leandro Tocantins. particularmente nessa obra.. mas que nesse momento. à obra que Odenei já mencionou. Posteriormente. como já mencionava. jan. obra que compartilhava fortemente das idéias do professor Arthur Cézar Ferreira Reis. E é um elemento bastante valorizado. o lado do homem de ação. Ele foi uma figura presente em diversos momentos de se pensar e de se agir em relação à Amazônia. homenageando Leandro Tocantins. Charles Wagley. como um pensador social que nos presenteou com essa obra magnífica. referiu-se aos viajantes. certamente. a perspectiva de Leandro. não fez apenas uma leitura. 226 Somanlu. Eu me limitaria a fazer essas considerações lembrando./jun. mas incorporou elementos e valorizou determinados aspectos dessa produção que ele considerava importante para a compreensão da Amazônia tropical. aqui. que de fato ele foi. e por tantas razões. de que a miscigenação não foi apenas racial. esses aspectos de um autor. que é O seringal e o seringueiro. n. o que indica o seguinte: esse pensamento. como por exemplo.Então. mas não mais sobre cidades rurais. de Gilberto Freire e de Leandro Tocantins. 2005 .

Muito obrigado! Luiz de Miranda Corrêa Depois do pequeno grande recado que você deu. jan. e muito./jun. Foi o primeiro superintendente do Plano de Valorização Econômica da Amazônia – SPVEA. que muito pouco lidos para o que representam. 1. perdão. já recentemente. num certo sentido. são uma contribuição extremamente valiosa. na verdade. na verdade. esses dois trabalhos abrem perspectivas para várias pesquisas. infelizmente. no qual este falou para Leandro: “Quero que um dia o senhor me traga um outro livro dizendo que o homem é que comanda o rio. E. acho. nesse momento. e a respeito do qual ele me escreveu uma carta extremamente carinhosa: o que eu quero. essas sugestões que estão aí nessa obra. a pensar nas palavras daquela carta. que comanda a vida”. é ficar aqui. porque eu vivi mais parte desse tempo: o encontro com Vargas. na verdade. Mas. apresenta muitas situações caóticas. n. tivéssemos um meio de divulgar mais isso. Renan. vou começar fazendo pequenos reparos a você e ao Odenei. sinceramente. Ambos moravam no Rio de Janeiro. e. pretendi dar esse pequeno recado. hoje eu sinto muita saudade de uma pessoa que conheci. em sua homenagem. 2005 227 . Quem sistematizou o orçamento da SPVEA foi Arthur Reis. não apenas entre os arquitetos. enfim. Com isso. a ida do Leandro para a SPVEA. porque.Bem. o público que precisa conhecer melhor a Amazônia para até viver melhor nela. depois desse excelente trabalho do Odenei. Ambos tiveram que se mudar para Belém. para várias experiências no que diz respeito ao modo de viver da Amazônia e seria recomendável que também. porque. ano 5. eu fico sem saber o que falar. Somanlu. de fazer o prefácio da última edição do O rio comanda a vida. O Leandro foi levado como assessor dele. como Manaus. Eu me permito. exatamente. foram extremamente humanas e muito importantes para mim. mas entre a população. antecede. O Leandro foi para SPVEA levado por Arthur Reis. Porque nós sabemos que uma cidade. desconhece esses conselhos. mas que me cativou muito. editado pela Valer. Inclusive tive a satisfação. para finalizar. esses dois ensaios sobre a arquitetura.

n. não é? Lá. quando ainda era dirigida por Arthur Reis. Narciso. pediu-me para ir buscá-lo no aeroporto. a mulher dele. há dois séculos. que todo o problema do Leandro com a arquitetura ecológica da Amazônia. e uma filha na barriga da mulher. naqueles três “tijolos” editados pelo Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro. Porque foi uma presença marcante na minha vida há quarenta e cinco anos. E eu fui. porque o Marquês de Pombal também tentou fazer uma Superintendência de Valorização da Amazônia e. Tanto a ordem religiosa. E quem elogia Pombal odeia Jesuítas. 1. mas ele chegou aqui. a vontade de criar um plano de valorização econômica da Amazônia. parecia uma tribo: era ele. como jacamim. E o então chefe do escritório da SPVEA no Rio. uma outra coisa eu vou dizer para você. e a irmã solteirona. quem elogia os Jesuítas odeia Pombal. E Leandro fez muito a cabeça dele. porque isso era uma discussão em Portugal. e isso pode-se ver nos primeiros prédios que ele construiu. na correspondência dele. O que é uma tolice! Porque os dois lados tiveram erros e acertos. já foi uma política de governo e não foi uma política de uma ordem religiosa. Outra coisa que eu gostaria de lembrar ao Renan. apesar de que pode ter sido inspirado pelos Jesuítas e. a mãe dele. 2005 . aí. que era irmão dele. Chegou ele e. Severiano Porto veio para Manaus (ele era um arquiteto carioca com as idéias da Universidade Federal do Rio de Janeiro. que era a melhor escola de arquitetura do Brasil). porque ele não era arquiteto. mas ele era um homem de muita sensibilidade e acabou entendendo. Enfim. realmente. quanto do Mendonça Furtado. Mas. e Leandro continuava em Belém. jan. quarenta e 228 Somanlu. ano 5. uma possível arquitetura ecológica da Amazônia. Eu não compro a briga de quem é pró-Jesuíta é anti-Pombal. Eu o conheci quando ele chegava ao Rio. era uma coisa transplantada do Rio de Janeiro para Manaus. naturalmente. ele é o homem que criou uma espécie de arquitetura amazônica. Mas. a gente sente tanto do Pombal. você disse que eu fui amigo de Leandro Tocantins: eu vou ser amigo eternamente do Leandro Tocantins enquanto eu viver. jornalista Clóvis Barbosa. ou quem é pró-Pombal é anti-Jesuíta. era baseado exatamente em João Daniel e em correspondências de Mendonça Furtado com o Marquês de Pombal.Eu entrei na SPVEA dois anos depois. O Leandro antecede Severiano Porto. anteceder uma política de Estado. quanto a política de Estado do Pombal! Era basicamente isso que eu queria dizer. Ele criou./jun.

ela vai pensar que eu estou doido. escondia a idade: o Leandro nasceu em 1929. mas era de uma vaidade impressionante. Reis brigou com Gilberto até dizer chega. Saiu em todos os jornais como tendo oitenta e cinco. quando Gilberto Freyre escrevia certas maluquices da vida dele: quando ele conta.. Até tem um que o professor Artur Reis ficou zangadíssimo. Foi um momento em que os negócios da família não estavam muito bons e ele foi morar no rio Tarauacá. Um poema que ele chama. por ser dez anos mais velho do que a mulher dele. eu não me lembro em que livro. Ele. 2005 229 . Mas isso já existia em Portugal desde 1500. na época de Magalhães Barata.. Aprendi demais com Leandro. tem poemas absolutamente deslumbrantes sobre essa fase dele. Mas. Isso foi um insulto e Dr. talvez. Ele não negava. ano 5. porque achou que não era coisa de poeta. Leandro era um filho político de Getúlio Vargas. Ele foi. Os árabes que foram para Portugal e para a Espanha eram todos do Marrocos e eram negros. Veja a maneira como os portugueses miscigenaram com os árabes.. que a primeira experiência de sexo que ele teve foi com uma vaca. Talvez até antes. Era um homem desprovido de amor ao dinheiro. melhor dizendo. a conviver com os negros. Claro que Hegel. talvez./jun. O Leandro era uma pessoa absolutamente fantástica. jan. que eram negróides! Porque existiam áreas que eram de brancos e áreas que eram de negros. A partir daí. Não há absolutamente dúvidas.cinco anos atrás. Leandro nasceu em Santa Maria de Belém do Grão-Pará. o pai de Leandro foi prefeito de uma cidade na Ilha do Marajó. com menos de um ano para o Acre. como o espanhol.. 1. em seguida. ao falecer. Eu quero mandar os recortes para a mulher dele. Leandro era também um filho da sociologia de Gilberto Freyre. Eles brigavam por certas coisas. que era outro filho político de Getúlio Vargas. mas deve ter tido essa visão da amazonotropicologia ou lusotropicologia. Mas. O Dr. milhões de coisas. E também. num tal sobrado que tem problemas. n. tive uma grande ligação com Leandro. por exemplo. Cosmoinfância. E morou uns seis anos lá. Artur Reis brigava também com Gilberto Freyre. E o português estava muito acostumado. Naquele largo da Sé. portanto só tinha setenta e cinco anos.. tudo bem. para o seringal do pai dele. depois de Artur Reis. Até nas conversas do dia-a-dia era uma coisa que aparecia. Era uma cultura muito superior à deles. Inclusive. Aquele livro de poesia dele. quando foram para a África e chegaram Somanlu.. eu não conheço.

o português estava pronto para essa grande aventura africana e asiática e sul-americana. porque quer enriquecer para voltar e comprar um título de nobre. o português sempre foi muito preguiçoso. Ele nunca trabalhou. Você se lembra? Luiz: Não toque nesse assunto. ano 5. O que mais eu posso dizer do Leandro? Ah! Sim! Era até uma coisa que gostaria de perguntar. sobre isso. Renan: Mas a idéia é muito interessante de trazer a biblioteca e arquivos de Leandro. Português ficava ali no Porto e em Lisboa recebendo as coisas do Brasil e revendendo. uma quinta. Todos povos de cor. não existe essa tradição. Eu não falei ainda com dona Léa. e ponto final. muito boa. Inclusive Vasco da Gama disse que as negras eram mais bonitas do que as loiras. porque o doutor Reis não queria se ver livre da biblioteca dele antes de morrer. e o preto trabalhando aqui. eu me lembro que estivemos até empenhados naquela primeira compra. Eu queria trazer a biblioteca e os arquivos do Leandro para Manaus. inclusive. viúva de Leandro. Então. Eu lanço aqui a idéia. Ele foi 230 Somanlu. Luiz: O Leandro tem uma biblioteca boa.à Índia. que não quero falar. quando migra.. Gilberto (Freyre) disse bem isso.. Mas. E nós propusemos a ele ficar como o fiel depositário até sua morte. viria para Manaus... Mas era um povo chameguento com os negros. 2005 . Pagávamos a ele. o Dr. Reis e Leandro também. Vamos pensar nisso! O debate Renan: A propósito. né! Eu acho que disse o que queria dizer. ficávamos como fiel depositário e. jan. n. mas vou falar com ela. somos um povo de comerciantes e nada mais. como disse Camilo Castelo Branco../jun. Em síntese. Essa é uma grande mentira dizer que o português é trabalhador. apesar de ser absolutamente desorganizada. Então. logo em seguida. No entanto. o negro bonito. Portugal. Você cita o Leandro como um dos agentes da Zona Franca de Manaus. Como a gente vai fazer para conseguir isso? Lembro que já foi uma confusão para incorporar a biblioteca e arquivos do Arthur Reis! Eu não sei. apenas. eles achavam.. aí houve outros problemas. Porque o português estava aqui como feitor apenas. 1. muito importantes. hein! Eu fiquei com a cara de tacho porque consegui a coisa mais difícil. Eu não quero falar nisso. Acredito que ele deve ter coisas muito boas. Não é! Ele o é.

Luiz: . Tudo bem! O Leandro era uma pessoa boa. Participante: Os silêncios do canto. Gostaria de reforçar essa idéia de Luiz Maximino. tem outra coisa que eu quero falar e vocês dois esqueceram: Leandro também não pode deixar de ser lembrado pelo livro dele Formação histórica do Acre. um coração generosíssimo. um filme. Ele fez um trabalho excepcional pela Amazônia. sobretudo nós. n. da formação da região acreana. Aliás. Então. para um trabalho que ele estava fazendo sobre Plácido de Castro. O Acre não existe”. jan. que é um livro infantil. o histórico do Juruá é a história. acreano. autobiográfico. até porque 2004 e 2005 nós estamos festejando. Acre e Amazonas. literato. Esse é o livro que eu estava me esquecendo. Uma vez. Inclusive eu brincava muito com ele e dizia: “Leandro. que é belíssimo. Então.. Ele sempre teve um carinho muito grande pelo Amazonas. Ele tem a Aventura de Tizinho. poeta. apesar de ser paraense.tem editado em Portugal. 2005 231 . ano 5. amazonenses. no Brasil. e aí o Leandro vai e diz isso. que era meio grosso. literato. Ao Leandro Tocantins. além de Cosmoinfância. fomos ao Acre juntos. O governador.. Agora ele tinha isso: era vaidoso. Participante: Sobre a possível vinda da biblioteca de Leandro para o Amazonas. Depois ele foi adido cultural do Brasil em Portugal. e pequenas crônicas também.. acho que é um momento muito peculiar. Participante: Só gostaria de dizer que essa questão de comprar a biblioteca do Leandro vai gerar uma guerra civil na Amazônia entre Pará./jun. a confusão em que ele meteu tanta gente com relação à idade.. era para reforçar o registro do Leandro Tocantins escritor. é terrível! Participante: É apenas para registrar um agradecimento sobre a referência que o Luiz fez aos poemas. eu esqueci o nome. a Embrafilme havia me financiado o roteiro. na realidade. escritor. 1. Ele patrocinou exposições do Moacir Andrade em Portugal etc. A memória de viver. que é o livro mais importante escrito por ele.. Mas Somanlu. jornalista e poeta.muito importante. o reconhecimento dos rios Purus e Juruá. você inventou o Acre. que é um poema bonito. mande ele ir embora”. Eu acho que ele tem uma correspondência muito interessante e. disse: “Então. ele foi sempre muito ligado ao Amazonas. E ele tem uma grande documentação sobre isso. ele diz que o Acre não existe”.. na frente do governador do Acre: “Olha. memorialista. e o outro é Os silêncios do canto.

com todo o nexo que ela tem com o rio e com a natureza. 1. em relação a esse clima das idéias. Inclusive eu estava procurando aqui. Por isso. o homem e a cultura nos trópicos. tempo e homem. E. jan. da sociedade e da natu- 232 Somanlu. nos dedicarmos a estudos da Amazônia enfocando esses grandes autores. Acreditamos que se possa encaminhar um projeto nesse sentido para a Fapeam. eu não vejo muito nas obras de Gilberto Freyre. essas grandes interpretações e reflexões sobre a Amazônia.. uma passagem em que ele cita uma dimensão da obra de Gilberto Freyre. em que se desenvolveu a obra do Leandro Tocantins./jun. natureza e homem. do pensamento de Leandro Tocantins e também nesse sentido da concepção e da realização desses projetos de pesquisa na Universidade. 2005 . desse conjunto de idéias que nos moveu a desenvolver esse projeto com esse objetivo de ter a possibilidade de. seria mais um enfoque na própria concepção do curso e certamente na orientação de vários trabalhos de pesquisas que temos desenvolvido. Participante: Uma questão que eu queria conversar com o Odenei e com o Renan é sobre a tríade que aparece muito nas obras do Leandro. Essa é uma lembrança que talvez não pudesse deixar de ser feita. certamente o nosso próprio Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia está a par. Ele fala o seguinte: não há fato sociológico mais importante que a ecologia. a gente está entendendo essa assertiva dentro de toda problemática amazônica. na introdução do Leandro Tocantins. Somos herdeiros. o homem e a cultura na Amazônia. porque na ecologia você vê a relação do homem.uma coisa é certa. acho que podíamos aproveitar o momento em que temos uma Secretaria de Ciência e Tecnologia. ano 5. sinceramente. sobretudo nessas duas: O Rio comando a vida e Amazônia – natureza. dentro da Universidade. Fazer essa tríade de sociedade. que é importante. em relação à possibilidade de se comprar essa biblioteca.. que aparece nas obras. talvez isso nos assegure uma precedência. n. sociedade e natureza para mim parece clara na obra de Gilberto Freyre. Inclusive está hoje registrado no sítio do Jornal da Ciência. Renan: Bem. No fundo. uma Fundação de Amparo à Pesquisa. Odenei: Essa relação homem. ao ter concebido exatamente pegar relações entre sociedade e natureza. digamos assim. sem dúvida. a primeira homenagem nacional a Leandro Tocantins está sendo feita pelo nosso Programa. Eu acho que na verdade os livros do Leandro já estavam bastante presentes na perspectiva e no horizonte desse curso.

ele ouve poesia nas águas? Não. E tudo isso se transforma em quê? Em capital e transformação disso em recurso. o que é physis para o grego? O que será a natureza? Eu não consigo compreender a natureza sem o zero. Basta você verificar os dados da própria ONU. Um geólogo olha uma montanha. Como é que olhamos a natureza? Como uma mercadoria. e o Luiz falou apropriadamente do livro Santa Maria de Belém do Grão Pará. jan. O que que é a natureza hoje? Aí. O padrão de produção da lavoura açucareira degradou os rios e ele vai falar do beribéri. na verdade. das 18 espécies mais consumidas. e no caso da sociedade e homens que vivem na sociedade ocidentalizada. nesse processo. Esse é o grande impacto da sociedade capitalista. E ele faz um roteiro também mostrando. no Nordeste. interpreto e classifico as minhas impressões de sentido”. Mesmo porque os gregos não conheciam o zero. 2005 233 . e. e o nosso padrão de produção e de consumo? Do ponto de vista das tendências. n. 1. é que se dá justamente a apropriação do homem sobre essa natureza. Como mudar a nossa dimensão. identificarmos a physis para o grego. no litoral nordestino. vai ter um significado de acordo com a estrutura cultural. Essa questão da sociedade. Um engenheiro olha para um rio. mediada pelo capital. já está denunciando isso. para nós. por exemplo. Então a natureza. Ele vê metros cúbicos de madeira. éticos e o conhecimento estabelecido pela sociedade. natureza e cultura depende. No caso. segundo o Ibama. por exemplo. entra a dimensão de Marx e de Marx Weber de que a natureza foi desencantada. 8 estão em via de desaparecer. ele vai falar da infância. vai e se transforma em uma mercadoria. a autodestruição é inevitável.reza. mediada também pelas relações de produção. semelhante Somanlu. A natureza é vista como uma mercadoria. que foi onde o Leandro nasceu realmente. Ele vê apenas um potencial hídrico que ele pode represar./jun. Ele calcula quantos metros cúbicos tem de minerais. O que que é a natureza? A natureza. Não podemos esquecer o Marx. e essa concepção de natureza é interessante. Eu creio que Gilberto Freyre. “o que que é a natureza? É o modo pelo qual organizo. Mas os gregos tinham toda uma concepção de natureza. são assustadores: nos próximos 25 anos sumirão 30% das espécies de pássaros do mundo. esse homem deformador e transplantador de cultura. do grego: o que era a physis para o grego? É muito difícil. também. com os valores morais. de uma dimensão que eu creio que o Kant já até expôs. quanto ele diz o seguinte. ouve espíritos nela? Não. Um engenheiro florestal ouve e vê poesia na copa das árvores? Não. ano 5. E muitas vezes eu fico imaginando. para nós.

/jun. mas esse esforço de trazer os seus arquivos. 1. um ambiente de trabalho. que chamou a atenção para essa questão da memória da poesia: a obra eclética de Leandro é. toda ela. jan. aí. 2005 . Embora tenha dimensões que nós ainda precisamos avançar. a dimensão da professora. mas ela nos proporcionou. Entra. por assim dizer. Nelson Noronha (Coordenador do PPGSCA): Essa reunião se revelou bem mais que uma homenagem. até nós. também. n. Muito obrigado. ano 5. Ele tinha essa densidade e simplicidade que tem a obra de Gilberto Freyre. como a modernização destruiu vários locais importantes. A gente acaba assumindo o compromisso de reunir em torno da obra do Leandro Tocantins não só uma série de pesquisas. 234 Somanlu.ao Gilberto Freyre. Porque muitas vezes as pessoas confundem simplicidade com simploriedade. uma escrita sem peso. apesar de sua densidade. a sua biblioteca. é leve.

jan.Dissertações Defendidas Somanlu. n./jun. ano 5. 2005 235 . 1.

jan. 2005 . n. 1./jun.236 Somanlu. ano 5.

n. (Orientadora: Dra. paixões e cotidiano presentes na música brega em Manaus. João Bosco Ladislau de Andrade) Noélio Martins Costa: Essa música foi feita pra mim! Relações amorosas. Maximiliano Loiola P./jun. (Orientadora: Dra. (Orientador: Dr. (Orientador: Dr. Subjugação aos padrões globalizados e realização da liberdade possível. Nicia Petreceli Zucolo: Contos de sagração. ônibus de madeira e metálicos . Elenise Faria Scherer) Somanlu. (Orientadora: Dra.Ano de 2004 Soraia Pereira Magalhães: O transporte coletivo urbano de Manaus: bondes. Narciso Júlio Freire Lobo) Telemon Barbosa Firmino Neto: A segregação residencial e a gestão estatal na regulação do espaço urbano: um estudo descritivo do Conjunto Habitacional Nova Cidade e o Condomínio Ponta Negra Village.º semestre Raimundo Emerson Dourado Pereira: Cidadania: retórica e realidade nas políticas sociais de Manaus. jan. Uma iniciativa inovadora no âmbito da geração de renda. (Orientador: Dr. ano 5. José Aldemir de Oliveira) Maria das Graças Medeiros: Um estranho no espelho. (Orientador: Dr. Sérgio Ivan Gil Braga). de Souza: Violência e alcoolização no Alto Rio Negro. Maria Luiza Garnelo) Ano de 2005/1. (Orientadora: Dra. Elenise Faria Scherer) Ivanhoé Amazonas Mendes Filho: (In)Justiça ambiental: análise da problemática no Bairro de Novo Israel/Manaus-AM (Orientador: Dr. (Orientadora: Dra.(Orientador: Dr. Márcia Perales Mendes Silva) Elizabeth Duarte Cavalcante: Indústria fonográfica no Amazonas. Dorli João Carlos Marques: A pedagogia subjacente ao Programa Criança Urgente: um estudo de caso. Marcos Frederico Krüger Aleixo) Celso Augusto Torres do Nascimento: Experiência de cooperativismo em Manaus. Maria Izabel de Medeiros Valle). 2005 237 . 1. Marcos Frederico Krüger Aleixo).

Disser tações defendidas Fabiane Vinente dos Santos: Mulher que se admira. n. mulher que se deseja e mulher que se ama: secualidade e gênero nos jornais de Manaus (1890-1915). (Orientadora: Dra. 2005 . jan. 1. Heloisa Lara Campos da Costa)./jun. 238 Somanlu. ano 5.

Ev entos Eventos Somanlu. 2005 239 . 1. jan. n./jun. ano 5.

jan. ano 5.240 Somanlu. n. 2005 . 1./jun.

Eventos

Eventos do PPGSCA em 2005 Cursos
Professor Doutor Peter Schröder – UFPE ministrou o curso intitulado “Stop Making Sense! A crise dos paradigmas nas Ciências Sociais”, de 9 a 22 de abril de 2005. Professor Doutor Russell Parry Scott – UFPE ministrou o curso intitulado “A Pesquisa em Ciências Humanas: regiões ou campos de pesquisa”, de 8 a 15 de junho de 2005.

Palestras
Professora Doutora Maria Lúcia Aparecida Montes – USP proferiu a Palestra intitulada “Arte e Cultura Popular: Artesanato, Folclore ou Patrimônio Intangível de Culturas Dominadas?”, no dia 14 de junho de 2005, no Auditório Rio Alalaú – FACED. Professora Doutora Josebel Akel Fares – UEPA proferiu a palestra intitulada “Poéticas Orais Amazônicas: algumas questões fundamentais”, no dia 22 de junho de 2005, no Auditório Rio Negro – ICHL. Professor Doutor Auxiliomar Silva Ugarte proferiu a palestra “Os vocábulos da ocidentalização da Amazônia”, ICHL/UFAM, no dia 28 de março de 2005, no Auditório Rio Solimões.

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Publicações Recebidas

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Somanlu. 218 e 219. Paris. n. ano 5. n. 2005. n. 2002. 2003. 214 e 215. n. 8. SPBC. 7) Idéias e Debates. 53/ 54. 71 . Rio de Janeiro. 1. 2002. 14 (1 e 2). 11) Cahiers du Brésil contemporain. 2004. 7. 1. 12. 4. v. v. n. n. n. n. n. 7. 212. 10) Revista Ciência Hoje. v. v. Universidade de Brasília. 69. jun. 2005. 1. 1. Universidade Federal de Santa Catarina. jun. v. v. número especial. 3. n. 2002. n. jan.1) Revista Crítica de Ciências Sociais – Universidade de Coimbra./jun 2005. out/2003. n. 2005 245 . 2004. 2004. 9) Revista Saúde e Ambiente. n. 37. 49/50. 2005. 2005. 3) Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea./jun. 2. 16. 4. 8) Asas da Palavra./jul. v. 1. v. 6) Kalagatos. Universidade Federal de Pernambuco. 2. 1./2005. 2004. v. v. 2) Revista Antropológicas. 2003. 36. out. Universidade Estadual do Ceará. Universidade da Amazônia. jul/dez. 55/56. n. 15 (1). 5) Estudos Feministas. n. n. v. 2004. 2004. 2004. 25. 1. n. n. n. 2003. 2003. jan. Museu Paraense Emilio Goeldi. jan. 6. 51/52. 3. 2004. n. 2004. 4) Revista Brasileira de Inovação. Universidade de Joinville.

1. n. 2005 . jan./jun. ano 5.246 Somanlu.

1951]. 5. 8. 6. Para pensar o desenvolvimento sustentável. no máximo. 7. devem ser destacadas do texto. Rio de Janeiro: Zahar. A partir de quatro linhas. sem espaços. jan. p. área de estudo da titulação. na fonte Times New Roman. resumo em português e em inglês. n. São Paulo. palavras-chave e referências bibliográficas. Obs: só devem ser usadas notas explicativas – nunca nota para indicar a obra citada – sempre no final do texto. 30 mil caracteres.). 276-291. sem aspas. sem espaços. Os autores que tiverem artigos publicados receberão um exemplar da Revista. antes das referências bibliográficas. em corpo 12. Ignacy. 350 caracteres. O texto deve estar revisado pelo(s) autor(es). In: BURSZTYN. p. Estratégia de tradição para o século XXI. 2005 247 . o nome e a identificação do autor (titulação. Eduardo. Idéias sobre uma teoria crítica da sociedade. Marcel. p. 1972]. São Paulo: Brasiliense. Anexos: caso existam. v. n. Hebert. 2. 8. Obs.: O disquete e as cópias impressas devem ser entregues ou enviadas para a Secretaria do Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia. O artigo deverá conter. Somanlu. 29-56.]. ed. 1998. no máximo. Os trabalhos deverão ser enviados em disquete com etiqueta identificando o(s) autor(es) e em três vias impressas. título. professor do Departamento de Ciências Sociais/UFAM). os resumos devem ter. Boi-bumbá. 1993. 1. 157) ou (SOUZA. ano 5. p. (Org. 3. 4. entre parênteses. As referências devem obedecer aos seguintes modelos: [MARCUSE. As referências a obras vêm sempre no corpo do trabalho. vinculação profissional. 1998. versão do baixo Amazonas. [GALVÃO. como no exemplo: (SOUZA./jun. Os trabalhos que não obedecerem às regras serão devolvidos pela Comissão Editorial. 2. julho. em corpo 11. 155-157). 3.Roteiro para elaboração de artigos 1. Anhembi. As citações até três linhas são identificadas por aspas no texto. Ex.: Doutor em Sociologia. [SACHS. Os textos serão submetidos à análise de consultores de acordo com o tema abordado. devem vir depois das referências bibliográficas.

o autor deve fornecer dados relativos a sua maior titulação e à área em que atua. • Os trabalhos serão enviados aos pareceristas sem a identificação de autoria. respeitando. A data de aceite pelo avaliador estará indicada em cada trabalho. alterações de forma normativa./jun. • Ao final da 1. 1. • A EDUA se reserva o direito de efetuar. porém.. nos originais. ano 5. Os artigos serão encaminhados ao Conselho Editorial de cada revista que enviará a Editora da Universidade Federal do Amazonas. com vista a manter o padrão e qualidade da revista. para ser reformulado e novamente enviado para nova avaliação. o artigo será programado para publicação ou devolvido ao autor. autorizando a publicação e cessão dos direitos autorais.Normas editoriais Serão aceitos artigos considerados inéditos para a publicação os apresentados em congressos. • Aprovado o artigo. endereço eletrônica e telefone. Conforme a avaliação dos pareceristas.ª página do texto. 248 Somanlu. seminários etc. o estilo e opiniões dos autores. Caberá ao Conselho Editorial de cada revista enviar para aprovação de especialistas nos temas tratados. • Os originais serão publicados em português. n. • Cada autor receberá 03 exemplares da revista. 2005 . destacando o evento em nota de rodapé. jan. o(s) autor(res) deverá(ão) encaminhar à EDUA uma declaração. ortográfica e gramatical.