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QUAIS OS LIMITES DA INTERPRETAÇÃO?

1

“E falem dois ou três profetas, e os outros julguem”.
“profh,tai de. du,o ‘’h’' trei/j lalei,twsan( kai. oi`
a;lloi diakrine,twsan”
I Cor. 14:29

A que tipo de profecia refere-se Paulo neste texto? Que tipo de julgamento deve ser
feito quanto a esta profecia? Essas perguntas têm como núcleo duas palavras, profecia e jul-
gamento, que carecem de conceituação.
A partir da conceituação de profecia e julgamento, esta abordagem será ampliada para
considerações sobre a profecia do profeta Jeremias.
O raciocínio para o qual se chama a atenção neste artigo é o de que os cristãos possu-
em a autoridade para julgar o que qualquer profeta fala ou falou; seja no Antigo ou no Novo
Testamento; ou ainda no presente.
Pede-se ao leitor que o procedimento crítico seja reservado para o final desta leitura,
após haver uma visão de todo o conteúdo do argumento aqui apresentado.
A BLH 2 diz: “No caso de dois ou três receberem a mensagem de Deus, estes devem
falar, e os outros que pensem bem no que eles estão dizendo”. Nesta versão, “mensagem de
Deus” reporta-se a profecia; enquanto “pensem bem” é aponta para julgamento. A problemá-
tica se instaura se for aceito que o simples fato de pensar bem sobre o que foi dito implica
mesmo em julgamento do conteúdo recebido? A tradução “pensem bem” parece não fazer jus
ao sentido do texto original, visto este usar palavra que envolve uma atitude crítica.
Profetas são aqueles que recebem a mensagem de Deus para a transmitirem ao povo.
Nesse caso, esse pensar bem comportaria o sentido de verificação da validade do que está
sendo transmitido? Caberia aqui a “metáfora da peneira”? Ou seja, avaliar a palavra transmi-
tida pelo suposto profeta, implicaria em separar o joio cultural do trigo da revelação? E, nesse
sentido, caberia mesmo a possibilidade de não se reter nada do que foi transmitido pelo profe-
ta, pois que o julgamento abre a porta para a rejeição do que é julgado?
“profh,tai” e “diakrine,twsan” são as palavras usadas no texto grego. Generalizada-
mente, a palavra “profeta” recebe no Novo Testamento o sentido de “a person gifted for the
exposition of divine truth” (Uma pessoa dada (enviada) para (fazer) a exposição da verdade
divina) 3; “in N.T. a prophet, a divinel-commissioned and inspired person” 4 (no NT um profe-
ta, alguém divinamente comissionado e inspirado) 5. Profeta é, em tese, o porta-voz divino que
declara, solenemente ou não, a mensagem recebida por inspiração do Espírito Santo. A pala-
vra “diakrine,twsan” está no modo imperativo, 3ª pessoa do plural. Não se trata necessaria-
mente de uma ordem, mas de uma orientação exortativa. O verbo “diakri,nw” tem o sentido de
“separar”, “fazer uma distinção ou diferença”; “fazer um escrutínio”, “examinar”, “discrimi-
nar”. 6 Esse verbo é também usado em outro contexto literário com o sentido de “separar”. O
filósofo Aristóteles, na sua Metafísica, analisando o pensamento de Empédocles sobre a ori-
gem do universo, diz que no contexto do seu discurso, “a Amizade (amor) separa e a Discór-
dia (ódio) une” (h` me.n fili,a diakri,nei to. de. nei/koj sugkri,nei”. 7 A palavra que Aristóteles
usa para dizer que a amizade separa é a mesma que Paulo usa em sua carta. Permite-se assim

1
Pede-se ao leitor que o procedimento crítico seja reservado para o final desta leitura, após haver uma visão de todo o conte-
údo do argumento aqui apresentado.
2
Bíblia na Linguagem de Hoje (Sociedade Bíblica do Brasil – 1998 – Edição eletrônica – Bíblia Online. Versão 2.01).
3
Tradução nossa.
4
THE ANALYTICAL GREEK LEXICON OF THE NEW TESTAMENT. Pág. 354
5
Tradução nossa.
6
THE ANALYTICAL GREEK LEXICON OF THE NEW TESTAMENT. Pág. 92.
7
ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução de Giovanni Reale. São Paulo: Edições Loyola, 2002. Pág. 24-25.
a interpretação de que no ato de julgar, em I Cor. 14:29, cabe mesmo o ato de separar algo de
algo. Ou seja, avaliar o que merece e o que não merece ser recebido quando o profeta falar.
Dessa forma os dois termos, profecia e julgamento, são aplicados em I Cor. 14:29. Se
quisermos colocar o versículo em linguagem de hoje, a tradução pode aparecer da forma se-
guinte: “Quem tem mensagem de Deus para a igreja, fale. Aquele que ouve decida sobre a
validade do que ouve”. O foco deste texto recai sobre a necessidade de uma avaliação do que
é dito por aquele que ocupa o lugar de profeta.
Partindo destes fundamentos, pode-se entender que a orientação apostólica tratava da
necessidade de exercício da faculdade da razão ante a palavra dos profetas. Um exemplo con-
creto está em Atos dos Apóstolos, 17: 10-12. O texto relata que os bereanos “receberam a
palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram,
de fato, assim”. 8 O termo usado nesta passagem para examinar é “avnakri,nontej” que vem de
“avnakri,nw”, caracterizando também um procedimento racional no exame dos acontecimentos.
Tanto “diakri,nw””, como “avnakri,nw”, são verbos compostos por uma preposição e um verbo.
O verbo em causa é “kri,nw”, cujo sentido, no Novo Testamento, é o de “julgar” ou tomar
decisão discriminatória quanto a realidades envolvidas no exame. Envolve mesmo, em alguns
casos, a denotação de um ato judicial. 9 Os bereanos não se intimidaram quanto a julgar a pa-
lavra dos missionários, Paulo e Barnabé, usando como medida de aferição o referencial vete-
rotestamentário. Quantos cristãos imaginar-se-iam julgando um texto paulino, para decidirem
se aceitam ou se rejeitam o seu ensino? Julga-se antes que Paulo está no mesmo patamar dos
profetas do Antigo Testamento. Ora, desde que o próprio Paulo exortou o julgamento de pro-
fecias pela igreja (e isso incluiria julgar a própria palavra de Paulo), quantos se veriam na li-
berdade de julgar a profecia de profetas do Antigo Testamento, como por exemplo, Jeremias?
Não fica espaço nem mesmo para a objeção de que os profetas do AT são superiores aos cris-
tãos, diante de Deus. Isso seria aberração teológica. Pois que cristãos, pneumatologicamente,
têm maiores vantagens. O profeta Jeremias não viveu a experiência do Pentecostes; os cris-
tãos vivem esta experiência. E se estas afirmações parecerem heréticas para quem acredita
que os profetas recebiam o Espírito da mesma forma que os cristãos posteriormente vieram a
receber, melhor ainda para o argumento deste artigo: cristãos e profetas estão apenas nivela-
dos diante de Deus. Permanece a autoridade dos cristãos de julgar o que qualquer profeta
(mesmo os do AT) disse ou diz.
Há textos do Antigo Testamento que podem ser julgados sem maiores dificuldades.
O salmo 137 é um exemplo de texto que o cristão pode julgar como indevido à sua
prática. O escritor bíblico encontra-se eivado de ódio contra os seus inimigos. O ápice do ódio
acontece quando o escritor deseja o mau para os filhos de Babilônia: “Filha de Babilônia, que
hás de ser destruída; feliz aquele que te der o pago do mal que nos fizeste; feliz aquele que
pegar teus filhos e esmagá-los contra a pedra” (v. 8). Este mesmo espírito é encontrado no
livro de Apocalipse, 6: 9-10: “Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não jul-
gas 10, nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?”.
Seria o espírito cristão conivente com tais expressões de ódio? Deus inspiraria tais
comportamentos odiosos? Aquele que disse que devemos dar a “outra face” a quem nos fere
no rosto inspiraria tais textos? Aquele que disse: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que
fazem”, instigaria tais orações? Não seriam estes textos, antes, expressão de meros desejos
humanos, compilados como pura expressão da natureza humana? Chegando-se a estes extre-
mos, pode-se entender que até mesmo no céu há desejos de vingança. A doutrina da inspira-
ção vai ao banco dos réus. Mas é possível salvá-la. Basta que se entenda a inspiração pelo

8
BÍBLIA SHEDD. Antigo e novo testamento. São Paulo: Edições Vida Nova; Brasília: Sociedade Bíblica do Brasil, 1997.
9
THE ANALYTICAL GREEK LEXICON OF THE NEW TESTAMENT. Pág. 241
10
Julgar (grego: kri,nw) neste contexto tem o sentido de condenar; não meramente o sentido de separar. Embora o julgamento
sempre implique em condenação de algo.
prisma de que Deus, ao orientar a escrita de tal texto, intencionou mostrar até que ponto pode
chegar alguém que se diz religioso. Esta compreensão permite uma leitura de textos que con-
têm procedimentos humanos absurdos sem atribuir o aval divino aos mesmos. Talvez esta
solução não satisfaça, mas pode ser uma saída para alguns. Claro que tais textos têm contex-
tos. Mas o espírito de ambos não compactua com o espírito de Cristo. Disso fica patente a
necessidade de um julgamento do que o texto bíblico transmite. Há a necessidade de se enten-
der que a Bíblia é um depósito da existencialidade humana e que, por isso, pode apresentar os
mais indevidos exemplos de procedimentos. Julgue-se o texto; não a divindade.
O salmo 115 diz que “os mortos não louvam o Senhor, nem os que descem à região do
silêncio” (v. 17). Este texto choca-se com a doutrina do NT quanto à vida após a morte. Por
mais que se faça malabarismo exegético, o cristão afeito ao texto do NT não comungará desta
compreensão. O cristão está convicto de que, ao morrer, como Paulo, irá se encontrar com
Cristo (Fil. 1:21-23) 11. Não ficará em lugar de silêncio.
Agora vejamos um texto de Jeremias, sem maiores informações contextuais, a não ser
aquelas que, com o desenvolvimento da abordagem, façam-se necessárias.
Jeremias 3: 1-13. Atente-se aos comentários de roda-pé feitos ao texto.
1 ¶ Se um homem repudiar sua mulher, e ela o deixar e tomar outro marido, porventura,
aquele tornará a ela? Não se poluiria com isso de todo aquela terra? 12 Ora, tu te pros-
tituíste com muitos amantes; mas, ainda assim, torna para mim, diz o SENHOR.
2. Levanta os olhos aos altos desnudos e vê; onde não te prostituíste? Nos caminhos te as-
sentavas à espera deles como o arábio no deserto; assim, poluíste a terra com as tuas
devassidões e com a tua malícia.
3. Pelo que foram retiradas as chuvas, e não houve chuva serôdia; 13 mas tu tens a fronte
de prostituta e não queres ter vergonha.
4. Não é fato que agora mesmo tu me invocas, dizendo: Pai meu, tu és o amigo da minha
mocidade?
5. Conservarás para sempre a tua ira? Ou a reterás até ao fim? Sim, assim me falas, mas
cometes maldade a mais não poder.

6 ¶ Disse mais o SENHOR nos dias do rei Josias 14: Viste o que fez a pérfida Israel? Foi a
todo monte alto e debaixo de toda árvore frondosa e se deu ali a toda prostituição.
7. E, depois de ela ter feito tudo isso, eu pensei que ela voltaria para mim,15 mas não vol-
tou. A sua pérfida irmã Judá viu isto.
8. Quando, por causa de tudo isto, por ter cometido adultério, eu despedi a pérfida Israel e
lhe dei carta de divórcio, vi que a falsa Judá, sua irmã, não temeu; mas ela mesma se
foi e se deu à prostituição. 16
9. Sucedeu que, pelo ruidoso da sua prostituição, poluiu ela a terra; porque adulterou, a-
dorando pedras e árvores.
10. Apesar de tudo isso, não voltou de todo o coração para mim a sua falsa irmã Judá,
mas fingidamente, diz o SENHOR.
11. Disse-me o SENHOR: Já a pérfida Israel se mostrou mais justa do que a falsa Judá.

11
“Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho. Mas, se o viver na carne me der fruto da minha obra, não sei, então,
o que deva escolher. Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir e estar com Cristo, porque isto é ainda
muito melhor”.
12
Eis aqui uma censura moralista ao proceder humano. Por acaso, duas pessoas, antes casadas, não poderiam voltar a vive-
rem juntas? Por que coibir os sentimentos de reconciliação, mesmo que tivessem vivido com outras pessoas?
13
O texto é claro quanto a condicionar o fenômeno da natureza aos procedimentos morais da nação de Israel.
14
II Reis 22 e 23. Filho de Amom, Josias reinou em Judá de 639 a 608 a. C. No 18º ano do seu reinado, o Livro da Lei foi
descoberto. Depois disso, os altos de todo o país fora tirados. Ele foi derrotado e morto em Megido por Faraó-Neco. Sob seus
filhos Joacaz (609), Joiaquim (608-598), Zedequias (597-586) o reino de Judá estava sujeito, alternadamente, ao domínio
egípcio e babilônico até sua extinção em 586 a. C.
15
O próprio Javé contraria o costume da terra, esperando que a esposa traidora e devassa volte para ele.
16
Javé representa aqui o homem que tem duas esposas que são irmãs.
12 ¶ Vai, pois, e apregoa estas palavras para o lado do Norte e dize: Volta, ó pérfida Isra-
el, diz o SENHOR, e não farei cair a minha ira sobre ti, porque eu sou compassivo,
diz o SENHOR, e não manterei para sempre a minha ira.
13. Tão-somente reconhece a tua iniqüidade, reconhece que transgrediste contra o SE-
NHOR, teu Deus, e te prostituíste com os estranhos debaixo de toda árvore frondosa
e não deste ouvidos à minha voz, diz o SENHOR.

Fica patente o costume da poligamia como substrato do texto. No contexto histórico-
cultural de Jeremias era permitido a um homem ter mais de uma esposa. Isso transparece no
texto quando o próprio profeta apresenta a divindade como tendo duas esposas (as nações de
Israel e Judá). O profeta apresenta a divindade se lamentando de que as duas nações não cum-
priram o que era obrigatório aos indivíduos de sua sociedade - Jer. 3:1:

“Se um homem repudiar sua mulher, e ela o deixar e tomar outro marido, porventura,
aquele tornará a ela? Não se poluiria com isso de todo aquela terra? Ora, tu te prostitu-
íste com muitos amantes; mas, ainda assim, torna para mim, diz o SENHOR.”

Este texto do profeta Jeremias merece um julgamento segundo a exortação paulina de I
Cor. 14:29. Jeremias falou; o cristão julga a sua profecia.
Uma primeira diferença entre o contexto de Jeremias e o do cristão contemporâneo se
encontra no costume quanto ao casamento. A poligamia não cabe entre os cristãos. Se para os
contemporâneos de Jeremias não causava impacto falar sobre Deus como tendo duas esposas,
para o cristão atual falar assim seria absurdo. Um profeta contemporâneo não usaria do dispo-
sitivo cultural da poligamia para apresentar Deus. Poderia usar a monogamia. E olhe lá que
isto já seria incômodo, pois que para a teologia cristã Deus não tem esposa. Cabe essa esse
discurso quando se leva em consideração o Cristo e sua esposa, a igreja. Mas a Deus-Pai esse
discurso não se aplica.
Dessa forma, pode-se entender que o profeta enquadra a divindade em molde cultural.
Assim enquadrada, a divindade dá exemplo aos seus adoradores de uma prática de época que
pode não se adequar a outra época. Alguém poderia questionar hoje: se a divindade de Jere-
mias foi apresentada como tendo duas esposas, por que não poderia o cristão casar-se tantas
vezes ou mais? A pergunta é pertinente. Aqui entram em choque duas práticas culturais: a
poligâmica e a monogâmica. Qual das duas a divindade escolhe hoje? Será que no Antigo
Testamento Deus era polígamo e no Novo Testamento, ele se tornou monogâmico? Mesmo
recusando que Deus tenha esposas conotativamente, não há como fugir do fato de que Deus
em nenhum lugar do Antigo Testamento proibiu a poligamia. Pelo contrário, homens de Deus
(Abraão, Davi, Salomão, e outros) eram polígamos. No caso de Davi, Deus só se insurgiu
contra o rei quando este tomou a mulher alheia.
Julgando a profecia de Jeremias, contida no capítulo III, já se pode separar a analogia
de uma divindade que tem esposas 17. Pode-se até dizer que o profeta deveria ter sido mais
cuidadoso, evitando enquadrar Javé naqueles moldes culturais. O Deus de Jeremias naquele
texto aparece como um marido traído que se lamenta diante da população. Portanto, a imagem
do casamento, do modo como Jeremias a usou, foi inadequada para a divindade. Se Deus se
metesse nessa querela e, como se não bastasse, fosse machista, Jeremias teria recebido um
grande puxão de orelhas, para aprender a profetizar sem expor ridiculamente a imagem da
divindade.
Nesse julgamento do profeta Jeremias, pertine separar o dado cultural do conteúdo
teológico; ou seja, captar o conteúdo da revelação; se é que este escapa também ao julgamen-
to.

17
É mister lembrar que na antiguidade, outros povos também entendiam que os seus deuses tinham esposas.
No texto, o profeta enquadra a divindade em um preceito moralista que cerceia a sub-
jetividade dos humanos. No ponto 3:1 encontramos a regra: “Se um homem repudiar sua mu-
lher, e ela o deixar e tomar outro marido, porventura, aquele tornará a ela? Não se poluiria
com isso de todo aquela terra?”. Não se permitia tal prática de reconciliação entre os ex-
casados. A divindade de Jeremias diz que a volta a um ex-casamento ocasionaria uma polui-
ção (moral) da terra. A divindade censura suas esposas justamente por poluírem a terra. Não
porque Javé tenha voltado aos seus ex-casamentos com elas, mas por elas mesmas voltarem.
Mas, pelo preceito moral apresentado, Javé era tão censurável quanto suas esposas. A divin-
dade então castiga a terra por causa de suas esposas devassas. O texto diz das duas prostitutas
(Judá e Israel): “poluíste a terra com as tuas devassidões e com a tua malícia. Pelo que foram
retiradas as chuvas, e não houve chuva serôdia”. Eis aqui uma censura moralista ao proceder
humano. Ora, na contemporaneidade, que homem maduro, equilibrado do juízo e das emo-
ções, agiria tão odiosamente (tirando-lhe o sustento) em relação a uma mulher que fosse de-
vassa e o traísse? Este homem maduro poderia não mais a receber em seu seio, continuando
sua vida, sem despejar sobre a mulher castigo qualquer. Mas o que faz a divindade de Jeremi-
as? Despeja retaliações sobre as duas esposas. Esta imagem da divindade reflete mais o espíri-
to do machista da época que não suportava ser traído e, por isso, punia a mulher. Seria Deus
menos maduro que um homem emocionalmente equilibrado? E como nós, hoje, julgaríamos
um homem que agisse com retaliações contra sua ex-mulher, por mais que ela tivesse sido
devassa? Que fez Jeremias? Antropologizou 18 a divindade, descaracterizando, anacronica-
mente, o teor do espírito jesuológico encarnado na teologia neotestamentária, a qual, no agir
de um Jesus que salva a mulher adúltera do apedrejamento (a lei mandava matá-la), apresenta
um Deus compassivo e misericordioso, pronto jamais para descarregar sua ira sobre o huma-
no; antes um Deus que prescreve o “dar a outra face” ao malfeitor. Assim, toda e qualquer
imagem de uma divindade disposta a punir preconceituosamente o ser humano não cabe, pois,
na revelação divina.
Acrescente-se a tudo isso o problema que o preceito do não retorno de ex-casados à
relação anterior causa no coração humano. Por acaso, duas pessoas, antes casadas, não pode-
riam voltar a se amar e a viver juntas? Por que coibir os sentimentos de reconciliação, mesmo
que tivessem vivido com outras pessoas?
Haveremos de condenar o profeta Jeremias? De forma alguma. Mas a sua mensagem
nós a colocaremos na “peneira”.
Portanto, cabe ao exegeta evitar a transmissão de roupagens culturais de um texto para
uma época que não comporta mais tais apresentações. Tais roupagens podem, sim, deturpar a
imagem divina, atribuindo-lhe conteúdo contraditório à própria natureza do Deus da revelação
cristã.
Feita esta abordagem, neste passo cabe uma identificação dos princípios arquitetônico
e hermenêutico. Como também cabe a identificação do método de abordagem e do método de
procedimento usados para se chegar a tais conclusões.

18
Diferença entre antropologar e antropologizar. Antropologar é fazer antropologia; antropologizar é tornar algo ou alguém
humano.