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A quem pertence conhecimento e cultura?

Uma reflexão sobre o discurso de legitimação do direito de autor

Karin Grau-Kuntz∗

Resumo Centrando-se no do discurso tradicional de legitimação do direito de autor e na disciplina da análise literária a autora demonstra a impossibilidade de privatização do conhecimento e da cultura. Palavras-chaves direito de autor, análise literária, cultura.

Who owns knowledge and culture? A reflection on discourse legitimating copyright

Abstract Focusing on the traditional discourse of the legitimation of cop right and on the discipline of literar theor the author demonstrates the impossibilit of privatization of !no"ledge and culture. Keywords cop right, literar theor , culture.

Introdução

# $ditorial desta publicação, reportando ao fato de %ue as criaç&es intelectuais protegidas por direitos de autor cont'm elementos pessoais, econ(micos e socioculturais, destaca o impacto desse )ltimo elemento e recorda a atualidade das preocupaç&es a ele referentes, como pauta moderna de discussão necessária da%ueles %ue trabalham com o instituto *ur+dico do direito de autor.

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-outora em -ireito pela .ud"ig /a0imilian 1niversit2t Coordenadora acad'mica e pes%uisadora do 3nstituto 4rasileiro de 5ropriedade 3ntelectual. .iinc em 6evista, v.7, n.8, setembro, 89::, 6io de ;aneiro, p. <9= > <:= - http?@@""".ibict.br@liinc

<9=

corretoH.ei não se esgota em uma obrigação legal. por fim. J palavra legitimação. %uais se*am:? aH bH cH do da validade *ur+dica. positivo. transforma a obediência devida no Bmbito de validade *ur+dica Gvalidade do dever-serH em convencimento jurídico. 8P: . %uando a norma foi produzida em consonBncia com as regras de produção legal GlegalidadeH. em consonBncia com a perspectiva de trabalho escolhida. propondo.eiI sC bastaria para e0plicar a obedi'ncia do destinatário das normas %uando movido pelo temor de conse%u'ncias. J formação do convencimento *ur+dico implica a satisfação de tr's n+veis de validade da norma.aneiro. partindo de uma perspectiva discursiva. e0plorarei a atualidade da consideração deste )ltimo. e0pressa o convencimento de %ue o comportamento determinado na . # %ue D legitimação e por %ue nos preocupamos em legitimar o direitoE 5artindo da segunda %uestão proposta. J interação harm(nica entre estes tr's n+veis da validade leva K formação da consciência jurídica %ue. oriunda do reconhecimento social da norma por seus destinatários. tomarei como ob*eto os elementos supra mencionados contidos nas obras intelectuais. 5or%ue mencionei acima a validade moral urge necessário frisar > bem sei %ue alguns mais afoitos reagirão de imediato K mera alusão ao vocábulo FmoralI > %ue não estou a%ui a dizer %ue a moral dos povos constituiria. %ue circunscreve o cumprimento fático da disposição legal. setembro. 899=.iinc em 6evista. : $stou a%ui a me reportar ao trabalho de 6LMN$6O. de plano e por Cbvio. nCs nos preocupamos em legitimar o -ireito por%ue afirmar %ue F-ireito D direito Gno sentido de algo positivo.http?@@""". sobre a %uestão da legitimação do -ireito. mesmo %ue breves. Sobre o discurso de legitimação 1ma refle0ão sobre o discurso de legitimação do direito de autor pede. do da validade fática. e do da validade moral. <9= > <:= . ou validade do ser. então. D o convencimento *ur+dico o elemento %ue permite %ue a lei se*a FsentidaI pelo destinatário não sC como coerção. p. especialmente os de natureza pessoal e sociocultural. p. mas %ue tambDm D comportamento socialmente dese*ado.br@liinc <9Q .ibict. $m outras palavras. algumas consideraç&es. a seu turno. v.7. corretoH sC por%ue D . e não o seu convencimento no sentido de %ue o fei0e de regras não D apenas -ireito em acepção legal. ou validade do dever ser. mas tambDm -ireito FdireitoI Gno sentido de positivo. 6io de . em uma relação hierár%uica. cu*o descumprimento resulta em sanção.Aa e0posição %ue se segue. 89::. n.8. mas tambDm como -ireito FdireitoI. uma instBncia superior ao -ireito. uma revisão do discurso de legitimação vinculado ao instituto *ur+dico.

o %ue implica necessariamente %ue este*a convencido não sC da validade *ur+dica da norma.e continua não sendo --.br@liinc <97 . Aessa relação de su*eição calcada na individualidade de alguDm. e em consideração K interação desses dois elementos. J diferença na relação de definição do autor em pressuposição K obra.compreendido como moralmente abominável.7.http?@@""". Ao mesmo sentido a definição do vocábulo obra pressup&e a consideração da figura do autor. isto D. # fiasco da . 899=. não obstante a independ'ncia de um frente ao outro. 89::. 6io de . <9= > <:= . base do entendimento de %ue o autor teria um direito de propriedade 8 # e0emplo clássico a%ui D o do episCdio da . %uais se*am autor e obra. P Side ainda 6LMN$6O. J definição de autor pressup&e o elemento obra. apesar dos conhecidos efeitos negativos K sa)de. o consumo de bebidas alcoClicas não era --. Ao %ue toca o tema desta e0posição. isto D. no homem como ser social e DticoP. mas por%ue está convencido %ue a . p. $ntão. mas antes a uma relação entre um su*eito e sua criação intelectual. Mreze anos apCs a sua promulgação esta lei foi abolida. i. /as ele não a respeitará > ou assim esperamos %ue se*a. mas tambDm FdireitosI Gno sentido de corretos. D fornecida pelo elemento da expressão da individualidade: por%ue a obra conteria a e0pressão da individualidade do autor. resta simples compreender a importBncia da%uilo %ue acima denominei discurso de legitimação. não obstante faltar relação hierár%uica entre -ireito e /oral. v. positivosH. a refle0ão %ue proponho cumprir a seguir compreenderá a análise cr+tica dos elementos %ue dão corpo ao discurso de legitimação tradicional do direito de autor e %uestionará sua ade%uação frente Ks transformaç&es na estrutura da sociedade de informação. mas sim a valores *ur+dicos. e não em um estado de terror > sC por%ue teme sanç&es.e pressup&e alguDm > o autor > %ue algo cria > a obra. mas tambDm de sua validade moral 8.ei Oeca nos $stados 1nidos da JmDrica.ibict.ei D -ireito FdireitoI.ei Oeca deveu-se ao fato de ter sido ela amplamente ignorada pelos cidadãos americanos. isto D. dos argumentos %ue suportam e fomentam a formação de consci'ncia e convencimento *ur+dico. # vocábulo autor não reporta. isto D. a um estado. Jpesar da Dtica puritana.aneiro./oral e -ireito manifestam-se de formas distintas e independentes. . # discurso tradicional de legitimação do direito de autor D constru+do a partir de dois elementos. m+nimo. este e0erceria um poder sobre a%uela e ela. encontramos entre eles um v+nculo difuso. %ue se manifesta em suas g'neses como sistemas. 87Q. assim. estaria su*eita K%uele. e da obra em pressuposição ao autor. %ue os valores *ur+dicos são não sC valores FlegaisI. se cremos em um estado de direito. O discurso de legitimação do direito de autor :. a importação ou e0portação de bebidas alcoClicas na%uele pa+s. setembro.iinc em 6evista. o destinatário de uma lei não D compelido a respeitá-la com o recurso a valores morais. p. Mendo-se em conta a perspectiva dos n+veis de validade das normas. o comDrcio. n. Como refle0o do pensamento puritano foram oficialmente proibidos em :R:R a fabricação.8. # conte)do da norma não foi reconhecido pelos seus destinatários. por conse%u'ncia.

ela se caracteriza por sua ubi%uidade ou. Com a previsão de um direito e0clusivo o legislador intervDm no estado natural da informação. especialmente. maior o espectro de criaç&es intelectuais %ue podem ser consideradas como obras intelectuais > e não poderei enveredar na %uestão de determinação do vocábulo Go %ue D originalidadeEH. por sua capacidade de estar ao mesmo tempo em diversos lugares. especialmente K%ueles %ue ainda não se preocuparam em refletir sobre a premissa. a se turno.br@liinc <9V .= 3sto posto. romperemos necessariamente com a construção dualista tradicional e. e %ue vem e0pressamente fincado na definição legal de obras protegidas como a%uelas expressas de alguma maneira7. por sua vez.e. isto D um conte)do e0presso %ue. considerarmos o homem em sua condição de ser social. Ao momento em %ue introduzirmos o elemento comunicação ao discurso de legitimação do direito de autor ou. = T poss+vel %ue cause surpresa. o p)blico. por%ue contDm traços de sua individualidade o %ue. por sua vez. D necessário recordar %ue em seu estado natural a informação > a menor unidade da obra > D livre. o direito e0clusivo sC lhe garante prerrogativas de controle de acesso K obra. elemento %ue. por e0emplo. setembro. criando uma possibilidade de controle em relação ao seu aproveitamento econ(mico. Side a%ui G6J1-K1AMU. $m s+ntese. se anteriormente não houver sido fornecido um conte0to cultural %ue permita %ue se compreenda a criação como tal.aneiro. em outras palavras. pelo contrário. 7 Side artigo 7 da . 89:9. em outras palavras. ainda. no sentido de %ue nada do %ue ele cria poderá ser compreendido como criação. mas a consideração do homem em sua individualidade como ponto de partida de sua relação com as criaç&es intelectuais não D condição sine qua non. mas ainda pressup&e um elemento comunicativo. ou ainda poder+amos partir da consideração da limitação criativa natural do homem. n. na obra intelectual.em relação K sua obra<. no momento %ue considerarmos o valor comunicativo da obra. su*eita ao autor. circunscrevendo no Bmbito do g'nero das criaç&es intelectuais a categoria de criaç&es intelectuais %ue podem ser protegidas pelo direito de autor ou. como < $m outra ocasião e0pli%uei por%ue ao autor não D garantido direito de propriedade algum. T interessante notar %ue essa formulação tradicional do discurso de legitimação > formulação %ue vem sendo repetida por muitas geraç&es > ignora completamente o elemento comunicativo das criaç&es intelectuais originais. legitima a garantia de um direito e0clusivo deste em relação K%uela. D hora de introduzir o elemento originalidade.8. o discurso tradicional de legitimação do direito de autor v'. um custo social. 89:9. $ssa intervenção no estado natural da informação implica. a categoria das obras intelectuaisQ. D pressuposto da prCpria estrutura do instituto *ur+dico do direito de autor.7. i. T importante ter em mente %ue a consideração do homem em sua individualidade traduziu uma opção ideolCgica. deverá necessariamente estar dirigido e voltado a alguDm. 8. 6io de . identificamos o ponto de partida na estrutura do pensamento? o homem considerado em sua individualidade. posto %ue compensado o seu custo social com o fomento cultural.ei R. por sua vez. p. %uem se*a. 89::. e0clusividade mediatamente positiva.http?@@""". <9= > <:= .iinc em 6evista.ibict. necessariamente uma criação original.Q:9@RV . %ue desponta no racioc+nio como um instrumento delimitador. v. %ue teve suas raz&es em um momento histCrico determinado. $sses aspectos *á foram tratados em outra ocasião por G6J1-K1AMU. 5or fim. custo %ue seria compensando com o enri%uecimento cultural. J definição normativa de obra não se dei0a assim esgotar na relação entre criador e criação original. ainda vinculado ao discurso de legitimação do instituto *ur+dico em %uestão. Q Aos limites desse ensaio não poderei me estender na erosão do critDrio da originalidade > %uanto menor o grau de originalidade. Aada obsta.

nesse sentido. %ue pode ser acessado gratuitamente a partir da plataforma do 3453. 6eporto o leitor a um comentário de minha autoria relativo a um te0to do escritor 5aulo Coelho.7. Aesse sentido. frágil. lanço a princ+pio mão de uma e0posição do formalista russo 4oris Momasevs!i* G8999H %ue serviu de impulso para discuss&es posteriores. *urista alemão %ue contribuiu sobremaneira para o desenvolvimento das noç&es %ue envolvem o conceito de direito moral de autor.3 G8999. apesar de distintos em suas estruturas e ob*etivos. R J t+tulo ilustrativo. p. p. especialmente.=9H situa as primeiras manifestaç&es de um v+nculo sub*etivo entre autor e obra na encenação de alguns autores em torno de sua prCpria pessoa e. 5elo contrário. no sentido de %ue esta estaria vinculada K%uele por conter os traços de sua individualidade.iinc em 6evista. OM3$G. o %ue tenho em mente %uando digo %ue o intDrprete recria o conte)do %ue lhe D comunicado pela obra. $ para ilustrar a discussão no Bmbito literário. F# %ue D um autorI:9. em outras palavras. n. %ue culminam no conhecido e citado trabalho de /ichel Foucault. a uma de suas grandes %uest&es de análise. a coincid'ncia desses elementos faz produtivo e didático um breve recurso K discussão literária e. 5artindo da compreensão tradicional do v+nculo entre autor e obra. J%ui entra em cena a figura do poeta romBntico %ue nos D corrente? sonhador. <9= > <:= . na má0ima e0pressão de sub*etivismo. 6$AA$6. necessariamente. publicado em seu blog. #bra e autor despontam como unidade de encenação estDtica? o autor D protagonista de sua criação intelectual ou.embrando %ue a pessoa do autor nem sempre esteve no alvo dos interesses do p)blico :: > ou como elemento na busca do sentido do te0to. :RRQ. %ue a interpretará Gi. noto %ue tal construção não se caracterizou por ser tema e0clusivo do direito de autor. :9 $u me refiro a%ui K tradução alemã da e0posição de Foucault. por conse%u'ncia. no endereço """.br@liinc <9R . ainda na linha de e0posição do linguista russo. ilustra o afirmado com as pessoas de Soltaire e 6ousseau. 8P8-8<7. v.ibict. Soltando os olhos K análise literária. culminará no ápice do 6omantismo %ue. a ninguDm. setembro. desvinculada da ob*etividade da realidade e0terna.demonstrarei a seguir. 6io de . P. foi ainda tema de preocupaç&es e discuss&es no Bmbito da análise literária. sem %ue se*a necessário lançar mão de e0plicaç&es comple0as. per+odo %ue tambDm coincidiu com a estruturação argumentativa tradicional do direito de autor R. o %ue pressup&e. -a leitura do breve comentário o leitor poderá entender. tinha as criaç&es intelectuais como fruto de vida interior intensa do autor.org. 3sto por%ue considerar o valor comunicativo da obra pressuporá trazer ao bo*o do discurso de legitimação o elemento do público como destinatário da e0teriorização e. lembro a%ui do trabalho de #tto von Gier!e. morrendo na misDria para alcançar fama pCstuma. D. como a seguir demonstrarei.http?@@""". organizado por K63//3CN. ambos publicados no n)mero < da 6evista $letr(nica do 3453. a aceitar a inevitável interação da obra com a%uele. por sua vez. %ue esta não este*a cimentada K individualidade de alguDm autor. 89::. p. . M#/JO$SOK. sua biografia e sua obra se fundem formando um todo. alme*ando um amor idealizado. seremos forçados a nos distanciar da ideia de su*eição da obra e0teriorizada K individualidade do autor.8.aneiro.ibpibrasil. # artif+cio da encenação pessoal. caracter+stica dos sDculos WS333@W3W. a compreensão dinBmica do processo de enri%uecimento cultural e na necessária conclusão de %ue conhecimento e cultura não pertencerão. $ essa perspectiva implicará ainda. *amais. %ue versou sobre a necessidade ou não do recurso K biografia Gou intençãoH do autor > recurso %ue podemos traduzir como manifestação de sua individualidade > na procura do sentido dos te0tos. a recriaráHV. situo a refer'ncia a biografia do autor em sua conotação romBntica. publicada no livro Texte zur iteraturt!eorie der "egen#art. V Aão me estenderei a%ui na determinação do conte)do do vocábulo interpretação. :: Side a%ui o e0celente trabalho de CJ64#A3 G89:9H .$6.

89::. tão destacada do autor como pessoa como o D a prCpria obra. p.http?@@""".aneiro. em dissemelhança ao leitor. Aesse sentido notava-se uma tend'ncia de mitificação da biografia do autor o %ue. posto serem documentais.8. será. por sua vez. nos casos em %ue e0ista Ghá autores com ou sem biografias encenadasH. não D a biografia do indiv+duo autor. e0igiam a figura de um autor %ue.#s refle0os do clima romBntico Gsub*etivistaH na interação entre biografia e literatura. por certo trará sempre consigo os traços genDticos de seu criador. n. como demonstrarei a seguir. ainda e0plica M#/JO$SOK.iinc em 6evista. posto %ue nela encontrar+amos e0pressão da individualidade da%uele. uma figura com personalidade de $ou mel!or como% autor. # %ue espanta D ver tal compreensão persistir imutável no Bmbito do discurso *ur+dico por tanto tempo. não causa surpresa ter sido ela estruturada e0atamente durante o per+odo histCrico altamente sub*etivista e fomentador da biografia encenada. passo a lançar mão da refle0ão do estruturalista checo . /as o %ue se afirma não implica a conclusão de %ue a criação intelectual original sC ganharia sentido em reporte aos traços genDticos %ue contDm Ga individualidade do autorH. Chegando ao Bmago do racioc+nio. não será poss+vel buscar na biografia pessoal Gou na individualidade do autorH o sentido da obra. T Cbvio %ue as tinham. $las não servem como elemento de interpretação da obra. p. por%ue criação intelectual de alguDm. <. o %ue restou evidente %uando surge o poeta de profissão. sem a capacidade de esclarecer o poder comunicativo da obra. não estaria condenado ao cotidiano e K normalidade. ao negar ver na obra refle0os da individualidade do autor como indiv+duo. na linha do %ue postulou Momasevs!*i.3 G8999. ver a obra ainda amplamente vinculada ao autor como pessoa. Q:H não afirmava %ue esses autores não tivessem biografia. no momento em %ue trazemos K consideração o elemento comunicativo ao discurso de legitimação do instituto *ur+dico. 6io de . mas biografia constru+da com os mesmos elementos contidos no te0to e. em trabalho intitulado FJ personalidade na arteI. =9H. .ibict. e0pressa a sua criação sem a intermediação da construção c'nica de personalidade de Gou comoH autor. 1ma das preocupaç&es de M#/JO$SOK. não se distinguindo das biografias de generais ou desportistas. $ntre pessoa privada e obra encontramos então uma figura biográfica c'nica. Aote porDm o leitor %ue com o afirmado não estou a negar %ual%uer v+nculo do autor com a obra. legenda %ue não se dei0ava confundir com a sua prCpria pessoa. autor sem biografia encenada. J diferença a%ui D sutilX compreend'-la. fundamental. 5ara sustentar o %ue acima afirmei.br@liinc <:9 . %ue %uer. um pressuposto da%uela e.3 G8999H no trabalho em tela foi demonstrar %ue biografia privada e biografia c'nica não se dei0am confundir. $ste.an /u!arovs! G8999H %ue. cuidou de afastar %ual%uer suspeita de %ue.3 G8999.embro a%ui %ue o direito D tão fen(meno cultural como o D o ramo da análise literária. J obra. p. v. setembro. Ao %ue toca K construção discursiva do direito de autor.7. /as demonstrava %ue as biografias privadas sC interessam K%ueles preocupados em proceder a uma análise de cunho histCrico-cultural. <9= > <:= . implicou na formação de uma legenda em torno dele Gdo autorH. Com isso M#/JO$SOK. assim. por essa razão. :8 . en%uanto há muito *á foi re*eitada em outros Bmbitos culturais:8. J biografia %ue dá sentido K obra em seu aspecto estDtico GinterpretativoH. mesmo apCs sua e0teriorização. estaria a considerar a pessoa do autor destacada da obra.

se*a no sentido literário ou. %ue /ichel Foucault conhecia.7.aneiro. J%ui. declararem a Fmorte do autorI :<. presos a um )nico sentido FcorretoI. %ue seriam os )nicos legitimados a renovarem o sentido dos seus te0tos. %ual%uer elemento vinculado Ks suas formas de compreensão dos te0tos. G:RRQ./u!arovs! . do conte)do. e a valorização da função comunicativa dos te0tos. em outras palavras. Aessa situação os te0tos não interagem com os leitores? são blocos estáticos :P. v. # %ue os te0tos dizemE J%uilo %ue o autor tinha como intenção dizer ou a%uilo %ue o destinatário deles retira GinterpretaHE Oe os te0tos sC dizem o %ue os autores %uerem %ue eles digam > ou se*a. <9= > <:= . p. Foi o distanciamento do elemento intenção do autor. en%uanto o segundo su*eito ocupa a posição de receptor do oferecido e. em ampla liberdade interpretativa. J relação fluida entre su*eito-conte)do-su*eito não poderá ser interrompida sob pena de perda do caráter comunicativo do conte)do.br@liinc <:: . então apCs a morte dos autores os te0tos dei0ariam de cumprir %ual%uer função comunicativa. D chegado o momento de trazer K baila o elemento intenção do autor. Ao Bmbito desse racioc+nio a obra desponta situada entre dois su*eitos? o primeiro su*eito se caracteriza por oferecer algo Gum conte)do originalH. no sentido *ur+dico. se estão cimentados na individualidade da%ueles > então os leitores não poderão trazer. J%ui não D o momento de me aprofundar nos trabalhos de 4arthes e Foucault. %ue levaram os franceses 6oland 4arthes e. não poderão interpretá-los. e ainda em consideração K discussão literária. uma obra. setembro. %ual se*a a%uele %ue os autores lhes deram.http?@@""". eu acrescento. conse%uentemente de int&rprete do conte)do original. logo em seguida /ichel Foucault a. p. sob pena de não permitir ser interpretada pelo destinatário.ibict. 3sso leva a uma infer'ncia um tanto absurda? se sC o autor D legitimado a renovar o sentido dos te0tos. e se a sociedade está em constante mutação cultural. 6io de . sem negar a importBncia do autor Ga%ui considerado em sua individualidadeH como sujeito da obra. principalmenteH. mas para fins de completude *ulgo importante destacar %ue o radicalismo dos franceses > sem %ue a palavra radicalismo se*a a%ui empregada em sentido negativo > veio posteriormente ser abrandado pelo professor italiano de semiCtica 1mberto $co.e. Side neste sentido a introdução %ue procede ao te0to de /ichel Foucault em tela. %uase cin%uenta anos apCs a publicação do trabalho de Momasevs!i*. Aestes trabalhos nos deparamos com discursos calcados em uma outra dualidade. :P $les sC não seriam blocos estáticos em relação aos seus autores. :R<H . deverão recorrer aos autores.iinc em 6evista. J criação intelectual não poderá. apesar de não mencioná-lo no seu FYuem D o autorI. posta a impossibilidade de se perguntar aos autores como devem ser compreendidos frente Ks transformaç&es dos valores socioculturais. perguntando a eles o %ue intencionaram dizer.8. e %uem comunica se dirige a alguDm. i. :< FJ morte do autorI D o t+tulo do trabalho do franc's 6oland 4arthes. no momento da leitura dos te0tos. responsável por ela se distinguir dos ob*etos da natureza ou. n. fonte do princ+pio de sua unidade. Jntes. a obra em sua relação comunicativa com o p)blico a %ue se destina. mas %ue consideravam apenas Gou melhor. depois de e0teriorizada. %ue não mais a%uela baseada na relação de su*eição da obra K personalidade@individualidade@intenção do autor. reportar a individualidade do autor. trou0e ao seu racioc+nio o valor comunicativo da obra? o autor cria para comunicar. caráter %ue faz dele. e vinte cinco anos depois da publicação do de /u!arovs! . 89::. então.

em sua manifestação como um organismo. p. 5orDm. a %uem pertencem conhecimento e culturaE $u relembro a%ui %ue o discurso calcado na dualidade Fautor @ obra.aneiro. como *á notei. Jdemais. $m outras palavras. urge revisar no Bmbito *ur+dico o discurso de legitimação do direito de autor. := Jssim creio ser o t+tulo da coletBnea em portugu's. 6io de . e0pressa no enri%uecimento cultural. um su*eito de uma intenção linguística despersonalizada. conse%uentemente. n. foi ultrapassada no in+cio do sDculo passado. mas antes empregado embutido em uma Fe%uaçãoI %ue envolve a intervenção do legislador no estado natural da informação e a contrapartida social. em consideração a seu potencial comunicativo. %ue não fala em intenção > quem usa o termo sou eu > parte de um escopo despersonalizado dessas limitaç&es. ademais. # professor de semiCtica italiano. temendo dificuldades de compreensão do racioc+nio de $co. 89::. mas nem por isso são manifestação da individualidade da%ueles. dando espaço K compreensão do te0to Ga obraH como produto de um esforço comunicativo de alguDm %ue. =. e principalmente.http?@@""". -ie Grenzen der 3nterpretation. Oem a%ui argumentar com a Fmorte do autorI. :<<H.7. em uma coletBnea de te0tos publicada pela primeira vez em :RR9 e intitulada F#s limites da interpretaçãoI:=. ou se*a. Mermino a%ui o breve e0curso pela análise literária? a noção dualista romBntica e sub*etivista. as obras trazem os traços genDticos dos pais. as obras são abertas a in)meras interpretaç&es e em momento algum $co defende %ue os limites dos te0tos estaria na intenção pessoal do autor Gna individualidade do autor pro*etada no te0toH. lembra %ue não seria correto interpretar um te0to como se procede a FleituraI do futuro com a borra do cafD turco. 3nsistindo. $u usei a%ui a tradução alemã? $C#. estará necessariamente aberto a ser recriada GinterpretadaH por seus destinatários. 6econhecer limites interpretativos ao te0to não significa. isto D. no sentido em %ue e0pressão D empregada no discurso do direito de autor. . mas antes são aut(nomas e fadadas a cumprirem com seus destinos comunicativos. Como os filhos. e ainda partindo de uma compreensão aberta da obra. para responder a pergunta %ue os organizadores desta publicação propuseram. :Q Aesse sentido $C# Gp. como um sistema de relaç&es. 5or sua vez o recurso a forma de e0pressão no Bmbito do direito de autor ocorre sempre em um contexto personalizado. noto %ue não seria correto se dei0ar tentar em %uerer ver na forma de expressão do te0to. v.iinc em 6evista. a necessidade de consideração dos destinatários da comunicação no discurso de legitimação do direito de autor Gmesmo por%ue.br@liinc <:8 . o valor comunicativo das obras intelectuais D pressuposto legal de proteçãoH. acredito restar claro ao leitor a importBncia da consideração do valor comunicativo da obra e. afirmar %ue eles dizem o %ue os autores %ueriam Gou %ueremH %ue dissessem G%ue digamH.8. estaria vinculada ao Bmbito dos limites dos significados das palavras escolhidas por a%uele:Q. dessa conclusão não D ainda poss+vel tirar conse%u'ncia alguma para a prática vinculada ao direito de autor e. uma intenção %ue. a Fintenção lingu+sticaI de $co. mas antes %ue eles sC podem dizer a%uilo %ue pode estar contido em sua estrutura orgBnica.$ste. como refle0o da individualidade da%ueleI não D simplesmente lançando no espaço. mas antes. 3sto posto. porDm. isto D. e a%ui ve*o o radicalismo dos franceses anteriormente citados abrandado. como tal. o italiano tem em conta no processo de interpretação procedido pelo leitor a presença da figura de um autor-modelo. a função deste )ltimo D limitada em relação K obra no sentido de ser este a fonte de sua unidade. de %ue o significado do te0to estaria e0presso na individualidade do autor. setembro. Numberto. limites %ue encontramos no prCprio te0to. <9= > <:= .ibict. mesmo por%ue o apresentei a%ui de forma muito simples e incompleta. defendeu limites interpretativos do te0to. receptiva a várias interpretaç&es. cum grano salis.

um plus social. J perspectiva %ue se adota nesse racioc+nio D estática? em mente temos o homem destacado de seu conte0to social.Oob essa perspectiva a compreensão dualista-individual do discurso tradicional de legitimação do direito de autor leva a inferir %ue o valor cultural da obra. %ue o simples ato de criação intelectual não representa plus social algum. Conhecimento e cultura não podem pertencer a ninguDm. como espero ter demonstrado com o recurso K discussão no Bmbito da análise literária. Q. v. a contrapartida K intervenção do legislador na natureza da informação. sua interação e recriação por ele Ginterpretação. 6io de .br@liinc <:P . # rompimento com o discurso tradicional de legitimação do direito de autor e sua conse%uente e necessária revisão. o valor cultural da obra não está na individualidade do autor. # plus cultural. onde os autores depositam suas criaç&es e são premiados pelo prCprio ato de depCsito. por%ue. mas no processo de interação da criação com seus destinatários. se a garantia patrimonial de controle e0clusivo relativo Ks condiç&es de acesso K obra se *ustifica pela necessidade de oferecer aos autores uma possibilidade de autodeterminação patrimonial > a%ui o elemento econ(mico vinculado K noção de direito de autor. trará consigo conse%u'ncias práticas significativas e salutares. 5atrim(nio cultural não D um ar%uivo dotado de mero valor %uantitativo. # %ue procuro frisar D %ue o enri%uecimento cultural. no sentido a %ue reportei o leitor na nota V.http?@@""". como o processo de absorção da obra pelo p)blico dei0a ilustrar. T necessário insistir a%ui %ue com o e0posto não estou a afastar a figura do autor desse processo dinBmico. # conhecimento D um dos elementos %ue comp&e a noção de cultura e essa. porDm. não encontramos assim no ato de criação em si considerado. 3H > e se algumas outras prerrogativas são garantidas em consideração ao fato de as obras trazerem em si um v+nculo genDtico com seus criadores. n. por sua vez. setembro. poderia ser encontrado no pr'prio ato da criação intelectual.aneiro. dei0ando K margem o elemento cultural. ao contrário do %ue a e0pressão Fpatrim(nio culturalI parece sugerir. mas antes no seu potencial comunicativo. #corre. <9= > <:= . por ser ela emanação em relação de depend'ncia com o autor. 89::. e somos obrigados a reconhecer no ato de criação original. %ue a%ui defendo com veem'ncia. %ue caracteriza o conceito de cultura. $m conta do e0posto D simples aduzir %ue o recurso discursivo K individualidade do autor sC D capaz de fornecer soluç&es %ue satisfaçam os interesses da@das parte@partes individuais envolvidas em conflitos %ue versem sobre o direito de autor.8. pressup&e uma sDrie de relaç&es dinBmicas de Ftoma lá.ibict.iinc em 6evista. em si considerado. p. . dá cáI. não se limita a um mero ato de contribuição individual. uma vez %ue a contrapartida do enri%uecimento cultural pressup&e a recepção do conte)do da criação pelo p)blico.7. supraH. ou com sua psi%ue. nada *ustifica se%uer cogitar serem eles titulares de direitos de controle sobre a interação cultural de suas obras. Aesse sentido. ao %ual o editorial dessa revista se refere Gvide supra. a contrapartida pelo custo social gerado pela intervenção do legislador no estado natural da informação.

um discurso reformado voltado a legitimar a proteção e0clusiva garantida pelo direito de autor. 6echtstheorie.7. e0ige. p.M.. um convencimento %ue > D imposs+vel negar > ho*e não encontramos *unto aos destinatários das normas autorais. Zas ist ein JutorE. . J transformação na estrutura econ(mica moderna. <9= > <:= . /ichel. não se fizeram sentir de forma aguda as conse%u'ncias da postura estritamente individualista de aplicação do direito de autor. em ignorBncia do instrumental de fomento cultural do instituto *ur+dico. /1KJ6#ZOK[. . v.an.8. %ue ampliaram o espectro das possibilidades de compartilhamento de conte)dos. %ue trou0e a informação ao centro de sua organização. setembro. #rg. mas uma e0pressão comunicativa e. Oimone Otuttgart? 6eclam G8999H.$u noto %ue. 8P88<7. e a revolução nas tecnologias de comunicação. ao contrário do %ue vem alcançando a argumentação dualistaindividual tradicional. -orothee@6$AA$6.J1$6. n. /atias@ Z3AK#.atin G89:9H F#1CJ1.aneiro. porDm. 4ernd. Referências CJ64#A3. 8] $dição. Gerhard@ /J6M3A$U.$6. /^nchen? C. 899= . 4ernd. 89::. Jrtigo recebido em 9:@9Q@:: e aprovado em :V@9Q@::. Guilherme. %ue a aplicação do direito de autor se afaste do discurso tradicional a%ui criticado. e %ue tenha a obra em consideração K%uilo %ue ela D? não a e0pressão da individualidade de alguDm. in Texte zur iteraturt!eorie der "egen#art. Fotis@. o %ue implicaria necessariamente na consideração da criação intelectual como um elemento de um processo comunicativo dinBmico. 6LMN$6O.br@liinc <:< . 4ec!.iinc em 6evista. #rg. -ie 5ers\nlich!eit in der Kunst. in Texte zur T!eorie der *utorsc!aft. por isso Ge sC por issoH culturalmente valorosa.N. K63//3CN. en%uanto a informação foi um mero acessCrio na estrutura de organização econ(mica das sociedades.ibict. poderá influenciar positivamente o processo de formação de convencimento *ur+dico dos destinatários. 6io de .@OM3$G. 6olf G.JAA33-3O. Otuttgart? 6eclam G:RRQH.http?@@""". Jssim atualizado e e%uilibrado. Q=-7R. (ireito autoral e autoria colaborativa na economia de informação em rede) Oão 5aulo? Yuartier . fazendo *us ao valor cultural da criação intelectual como limite dos interesses individuais.

.ibict. .iteratur und 4iographie. p.http?@@""".M#/JO$SOK3. setembro. /atias@ Z3AK#. 89::.iinc em 6evista.JAA33-3O.aneiro. <9= > <:= . Oimone Otuttgart? 6eclam G8999H. 6io de . Gerhard@ /J6M3A$U. #rg. Fotis@..J1$6.8. in Texte zur T!eorie der *utorsc!aft.br@liinc <:= . n.7. <R-Q:. 4oris. v. .