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Aprcscntação

Este é o seu livro de História do Brasil. Nele,
você encontrará os textos que serviram de base para os programas de TV.
Como aproveitar ao máximo este livro?
A primeira coisa que as pessoas que gostam dos livros fazem quando
compram um é folheá-lo sem pressa, sem maiores compromissos.
Sugerimos que você faça isso. Passe os olhos nele despretensiosamente.
Veja como as aulas estão organizadas.
Já nesse primeiro contato, você perceberá que as aulas seguem um
determinado modelo. Todas elas são divididas em seções. Há também algumas
interrupções no texto.
Vejamos o que significa cada uma das seções e o porquê dessas interrupções.
Cada aula é dividida em três seções.
Na primeira seção, Abertura Abertura Abertura Abertura Abertura, está enunciado o tema da aula. Muitas
vezes, um documento de época abre essa seção. Leia com atenção esse
documento. Nele estão contidas as questões que serão desenvolvidas no
decorrer da aula. Outras vezes, as aulas começam contando um determinado
caso que se relaciona, de alguma forma, com o tema da aula.
Na segunda seção, Movimento Movimento Movimento Movimento Movimento, o tema da aula é desenvolvido. Ali
aparecem os agentes sociais em ação, em movimento. O texto, em geral,
é dividido em três ou quatro itens. Em cada um deles, procura-se explorar
um determinado aspecto do tema. É também nessa seção que o texto sofre
algumas interrupções interrupções interrupções interrupções interrupções, que têm por objetivo levar você a pensar sobre um
determinado assunto relacionado ao tema da aula:
Em cada Pausa Pausa Pausa Pausa Pausa, você encontrará um exercício-desafio para responder.
Consulte seus colegas e companheiros. Comente e discuta suas respostas.
Como diz o ditado, “duas cabeças pensam melhor que uma”...
Em cada Em Tempo Em Tempo Em Tempo Em Tempo Em Tempo, procuramos acrescentar alguma informação que
seja importante para o entendimento do texto. Por exemplo: dados
numéricos, trechos de documentos históricos significativos e assim por
diante.
Com a terceira seção, Últimas Palavras Últimas Palavras Últimas Palavras Últimas Palavras Últimas Palavras, finalizamos o texto e levamos
você para o tema da próxima aula.
Você vai reparar também que em todas as aulas há algum tipo de
ilustração: mapas, desenhos, fotografias. Todo esse material também
é importante para o seu estudo. Às vezes, uma boa imagem vale por muitas
palavras.
Queremos que você fique atento à interação entre texto e ilustrações.
Há algumas ilustrações que são importantes documentos de uma determinada
época.
É preciso que você as explore em seus mínimos detalhes. Perceba a época
em que a ilustração foi produzida, e guarde na memória o seu autor. Essas
ilustrações são patrimônios da nossa cultura. Cuidar delas e valorizar seus
autores é preservar nosso patrimônio.
Finalizado esse contato inicial com o seu livro, esperamos que você faça
muito bom proveito dele. Aceitamos, de bom grado, críticas, elogios e sugestões.
Os autores Os autores Os autores Os autores Os autores
REALIZAÇÃO REALIZAÇÃO REALIZAÇÃO REALIZAÇÃO REALIZAÇÃO - Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea
do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas.
COORDENAÇÃO COORDENAÇÃO COORDENAÇÃO COORDENAÇÃO COORDENAÇÃO GERAL GERAL GERAL GERAL GERAL DO DO DO DO DO PROJETO PROJETO PROJETO PROJETO PROJETO - Helena Bomeny
CONCEPÇÃO CONCEPÇÃO CONCEPÇÃO CONCEPÇÃO CONCEPÇÃO E EE EE SUPERVISÃO SUPERVISÃO SUPERVISÃO SUPERVISÃO SUPERVISÃO - Aline Lopes de Lacerda, Américo Freire,
Helena Bomeny, Marly Silva da Motta, Mônica Almeida Kornis
AUTORES AUTORES AUTORES AUTORES AUTORES DO DO DO DO DO VOLUME VOLUME VOLUME VOLUME VOLUME 1 11 11 - Américo Freire, Helena Bomeny, Marly Silva da Motta
AUTORES AUTORES AUTORES AUTORES AUTORES DO DO DO DO DO VOLUME VOLUME VOLUME VOLUME VOLUME 2 22 22 - Alexandra de Mello e Silva, Alzira Alves de Abreu,
Américo Freire, Celso Castro, Dulce Pandolfi,
Fernando Lattman-Weltman, Letícia Pinheiro,
Marieta de Moraes Ferreira, Mário Grynszpan,
Mônica Almeida Kornis, Mônica Velloso
EDIÇÃO EDIÇÃO EDIÇÃO EDIÇÃO EDIÇÃO DO DO DO DO DO TEXTO TEXTO TEXTO TEXTO TEXTO ORIGINAL ORIGINAL ORIGINAL ORIGINAL ORIGINAL: Dora Rocha
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Partc l
CoIûnia, ou quando
sc constrúi a Amórica
Portugucsa (1S00-1822)
Na primeira parte do nosso curso vamos examinar os principais desafios
enfrentados pelos portugueses na tarefa de conquistar, ocupar e explorar as suas
terras na América. Nosso ponto de partida será a grande viagem grande viagem grande viagem grande viagem grande viagem, que trouxe
portugueses e espanhóis a um mundo que lhes era totalmente novo, chamado
por eles de América. Vamos ver como foi o encontro desses dois mundos o encontro desses dois mundos o encontro desses dois mundos o encontro desses dois mundos o encontro desses dois mundos tão
diferentes, de que modo os europeus e os povos da América se relacionaram.
Queremos que você compreenda como se deu o processo de construção da construção da construção da construção da construção da
América Portuguesa América Portuguesa América Portuguesa América Portuguesa América Portuguesa, de que modo foram resolvidos os problemas de sua
colonização. Problemas como o tipo de exploração econômica da terra,
sua organização política e administrativa, mão-de-obra utilizada, formação
religiosa, ocupação e configuração do território. Observe como a América
Portuguesa foi-se compondo de regiões diferentes regiões diferentes regiões diferentes regiões diferentes regiões diferentes Amazônia, litoral nordestino,
o sertão, as Minas Gerais, São Paulo, o extremo sul , cada uma delas com um tipo
de ocupação e exploração próprio. Venha conosco... Vamos conhecer as raízes
de uma terra que só muito tempo depois virou nação, virou Brasil.
Neste módulo, acompanharemos a viagem e a chegada dos europeus
à América. Vamos analisar as novas condições econômicas, políticas, culturais
e sociais que possibilitaram a expansão marítima e comercial européia dos expansão marítima e comercial européia dos expansão marítima e comercial européia dos expansão marítima e comercial européia dos expansão marítima e comercial européia dos
séculos XV e XVI séculos XV e XVI séculos XV e XVI séculos XV e XVI séculos XV e XVI, Portugal e Espanha à frente. Vamos ver de que modo
espanhóis e portugueses se relacionaram com a terra e os povos da América,
e quais foram os resultados desse encontro de mundos tão diferentes.
MúduIo 1
O cncontro
dc dois mundos
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Durante um ano, um grupo de professores
se empenhou em fazer um programa de História do Brasil que fosse bom
e interessante para você. Pensamos em um programa que tivesse como motivação
o tema da viagem viagem viagem viagem viagem.
Queremos que você viva essa viagem como uma grande aventura:
uma aventura pelo tempo tempo tempo tempo tempo, porque a História trata de coisas que já se
passaram, mas que permanecem em diversos registros, e também de coisas
que estão à nossa volta;
uma aventura pelo espaço espaço espaço espaço espaço, porque a História se movimenta por lugares
muito distintos, nem sempre próximos uns dos outros;
finalmente, uma aventura pela cultura cultura cultura cultura cultura, porque a História se faz das
pequenas e das grandes invenções dos homens. As invenções políticas,
os avanços tecnológicos, as mudanças econômicas, as criações artísticas,
as notícias de cada dia...
A História se faz de tudo aquilo que deixa de ser apenas do mundo
da natureza. Você sabe o que é isto?
Tudo aquilo que o homem toca e transforma em algo que tem sentido
e utilidade para ele passa a fazer parte da História.
Quer um exemplo?
Uma casca de árvore é apenas uma casca de árvore até que alguém
a transforme em um casco de barco, e com ele atravesse o rio, pesque, se mova
nas águas.
Quer mais um exemplo?
Da mesma árvore, podemos tirar dois pedaços de madeira e com eles fazer
um objeto em forma de cruz. Esse objeto pode não significar nada para muitas
A grandc avcntura
da Histúria
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pessoas. Para os cristãos, no entanto, ele é um símbolo importante. Os cristãos
o associam a Cristo.
A cruz não é apenas um objeto feito de elementos naturais: ela tem um
sentido sentido sentido sentido sentido, um significado significado significado significado significado especial, pelo menos para aqueles que comungam
a mesma crença.
A História trata, assim, de um conjunto de pequenas e grandes coisas que
passaram a ter um sentido diferente para os homens porque foram fruto de sua
própria invenção.
Diante disso, você pode estar pensando: ora, tudo à minha volta é História,
então...
Bom raciocínio, esse. Quem sabe poderíamos iniciar nossa conversa
convidando você a pensar sobre o sentido que as coisas à sua volta têm para você
e para a sua comunidade.
O que é apenas natural?
O que já tocamos e trouxemos para o nosso mundo humano, cultural?
Você também poderá perguntar: como conhecer outros tempos, outros
espaços, culturas diferentes? Há um meio.
É que as pessoas passam, mas o que elas fizeram permanece. E como
permanece? Pelo que chamamos de documentos documentos documentos documentos documentos. Documentos são registros
visuais, como desenhos, pinturas, fotos, filmes. Registros escritos, como cartas,
leis, contratos. Registros orais, como entrevistas ou depoimentos. Mas existem
também registros arquitetônicos: prédios, ruas, monumentos. E há ainda os
registros tecnológicos: as máquinas, os instrumentos de trabalho.
Veja só quantos registros. É através deles que vamos viajar.
Você está convidado a embarcar, nas 40 aulas que se seguem, na aventura
dessa grande viagem. A História, como você já deve estar pensando, é feita de
movimento. Venha conosco para o embarque. Preste atenção! Serão muitos
personagens, muitos lugares, muitas imagens, muitas associações, muita cor...
Venha!
Por ondc viajarcmos!
Iniciaremos nossa viagem por um momento em que o Brasil ainda não
era Brasil.
Isso mesmo. O Brasil não nasceu Brasil. Ele foi se tornando Brasil. Era antes
um “maravilhoso” pedaço de terra, como disseram os viajantes que aqui
chegaram, cheio de coisas desconhecidas para os que o viam pela primeira vez.
Mas, para os que já habitavam a terra, tudo era familiar.
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Nossa primeira parada, portanto, será para assistir a uma cena singular:
estrangeiros encontrando-se com estranhos... Aqueles homens da Europa,
brancos, que se puseram ao mar com a ajuda do rei de Portugal, encontraram
uma terra para eles desconhecida e, ao mesmo tempo, viram-se diante de
pessoas diferentes, com hábitos muito diferentes dos seus.
Depois desse primeiro encontro, muitos outros aconteceram, devido
ao interesse dos estrangeiros, que queriam levar daqui produtos valiosos para
o mercado europeu. Os portugueses começaram a se preocupar com a segurança
da terra, e se apressaram em fazer dela uma colônia.
Chamaremos essa colônia de América Portuguesa América Portuguesa América Portuguesa América Portuguesa América Portuguesa. Esse primeiro ponto
da viagem está longe de nós no tempo, mas foi o de mais longa duração.
A colônia portuguesa na América durou três séculos. Você sabe o que são
três séculos? São 300 anos de convivência.
Vamos pensar um pouco sobre isso? Se os europeus chegaram aqui em
1500, e só três séculos depois o Brasil se tornou independente, muito do que
somos hoje deve ter suas raízes ali, no período colonial. Muitos dos nossos
hábitos, crenças e comportamentos nasceram naquela época.
No segundo grande momento da nossa viagem, assistiremos a uma
transformação: a América Portuguesa se torna independente de Portugal,
e surge um país chamado Brasil.
Quem, que instituição, que legislação iria organizar esse novo país?
Veremos como o Império cuidou de fazer da colônia um Estado nacional Estado nacional Estado nacional Estado nacional Estado nacional.
Se, no período colonial, tudo girava em torno da economia que produtos
levar daqui para o mercado europeu, quantos escravos africanos comprar, que
lucro tirar das vendas , agora a política política política política política ocupará o lugar central.
Daquele período herdamos muitas das nossas convicções de hoje.
Por exemplo: a idéia de que uma autoridade central deve conduzir a sociedade,
de que todas as soluções para os nossos problemas devem vir do Estado.
Pois bem. Chegamos a um ponto em que já sabíamos o que o que o que o que o que produzir para
alimentar nossa economia, já tínhamos um Estado Estado Estado Estado Estado para garantir a ordem
da sociedade e a unidade do território, mas ainda não tínhamos nossa cara
própria... Quem somos nós? O que faz os brasileiros diferentes dos outros?
Como devemos nos apresentar?
A última etapa da nossa viagem será a República República República República República, uma época em que nos
preocupamos em definir nossa imagem, nossa identidade identidade identidade identidade identidade.
O que faz o Brasil ser Brasil? Somos uma nação de brancos? De pretos?
De índios? Somos uma mescla de povos dos mais distantes lugares, que aqui
se enraizaram?
Uma coisa que sabemos do Brasil é que o país é grande e, por isso mesmo,
diferente em suas características locais. Como se desenha então a fisionomia
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de um país grande, variado, complexo? Com todos os grupos que ali vivem?
Com todas as invenções que esses grupos criam?
O que mais se parece com o Brasil, os nordestinos ou os sulistas?
O Pantanal ou o litoral? A Bahia? O Rio de Janeiro? Juazeiro? São Paulo?
Qual a festa que mais representa o Brasil? A do bumba-meu-boi? O baile funk?
A quadrilha de São João? Ou as procissões do Divino? O que dizer das festas
da Umbanda?
Tantas perguntas, e estamos longe de dar conta desse imenso território
que é o Brasil... Você mesmo, aí em sua cidade, pode reclamar de termos
deixado escapar uma festa importante da sua cultura local...
Essas perguntas sobre o que mais fielmente traduz a fisionomia do Brasil
borbulharam nas primeiras décadas da República. Era preciso saber não só
o que mais traduzia o jeito de ser do país, mas também qual qual qual qual qual região melhor
expressava a identidade nacional.
Chegava a vez de os Estados se apresentarem. A política republicana,
diferente da imperial, se caracterizou pela descentralização. Vem daí um dos
traços da nossa cultura que até hoje se manifesta vivamente: o regionalismo regionalismo regionalismo regionalismo regionalismo.
Que Estado influi mais na política, que região mais se assemelha ao que
chamamos Brasil, de onde vem a maior riqueza?
O último ponto da viagem nos deixará em nosso tempo presente.
As perguntas que nos fazemos hoje são essas que mencionamos e muitas
outras que, esperamos, você fará a partir do curso.
O que temos aprendido com nossa História? Como nos tratamos uns
aos outros? Que lugar as mulheres ocupam na sociedade? Como escolhemos
quem vai nos governar? Que respeito temos pelos nossos velhos? Como
tratamos nossas crianças?
Como evoluímos desde que aqui chegaram os europeus? Como tratamos
o que construímos ao longo de toda a nossa História? Guardamos na nossa
memória tudo aquilo que nossos ancestrais fizeram antes de nós? Sabemos
o que temos? Conhecemos o Brasil? O que sabemos do nosso país?
Antes de começar a viagem, deixamos para você a sugestão gráfica
do roteiro que vai percorrer. Preste atenção na distribuição dos pontos da
viagem. Pense sobre ela, e tire suas conclusões.
Será que o que somos hoje tem relação com o que o quadro abaixo
nos mostra?
VIAGEM PELA HISTÓRIA DO BRASIL
PERÍODO COLONIAL
Monarquia e escravidão
1500 1822
322 anos
IMPÉRIO
Monarquia e escravidão até 1888
1822 1889
67 anos
REPÚBLICA
República e trabalho livre
1889 aos dias de hoje
106 anos
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MÓDULO l
Navegar é preciso, viver não é preciso...
É possível que você reconheça a frase em destaque como um trecho da música
Os argonautas, de Caetano Veloso. O que você talvez não saiba é que esse era
o lema dos antigos navegadores portugueses. As grandes navegações inspira-
ram muitos autores. Um deles foi Luís de Camões, considerado o maior poeta
da língua portuguesa. Camões viveu no século XVI, entre 1524 e 1580.
Em Os Lusíadas, procurou louvar as grandes conquistas de Portugal por “mares
nunca dantes navegados”.
Você aprendeu quando criança que, em 1500, depois de uma longa viagem,
a esquadra comandada por Pedro Álvares Cabral chegou a uma “graciosa” terra
que mais tarde se chamaria Brasil. Nesta aula você também vai viajar... Por meio
dos mapas, vai conhecer as rotas das especiarias. Vai navegar com os portugue-
ses pelos caminhos da África e das Índias.
Abcrtura
A grandc viagcm
Veneza
Gênova
Lisboa
Constantinopla
Trípoli
Damasco
Bagdá
Alexandria
Calicute
Pequim
Túnis
Ceuta
PORTUGAL
MAR
BÁLTICO
Flandres
MAR DO
NORTE
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Navcgar ó prcciso
A relação dos portugueses com o mar é muito antiga: vem desde o século
XIII (1201-1300), fruto da pesca e da extração do sal. Pequenas cidades surgiram
no litoral português, e um intenso comércio aí se desenvolveu, fazendo crescer
um ativo grupo de comerciantes.
No resto da Europa, embora a maior parte da população vivesse da
agricultura, a atividade comercial também se expandia. Esse crescimento
do comércio europeu se devia ao reatamento das relações com o Oriente
e à crescente navegação pelo mar Mediterrâneo, no sul da Europa.
Do Oriente eram comprados, além de artigos de luxo seda, porcelana, jóias
, outros produtos muito procurados pelos europeus: arroz, laranja, damasco,
figos, pau-brasil, algodão.
Mas as mercadorias que despertavam maior interesse eram as especiarias especiarias especiarias especiarias especiarias:
cravo, canela, pimenta, gengibre, açúcar. Usadas na alimentação, na perfumaria
e como remédio, as especiarias eram fáceis de transportar e proporcionavam um
lucro imenso.
Para o Oriente eram vendidos tecidos de lã, madeira de construção e armas.
Olhe o mapa e observe a localização geográfica das cidades italianas de
Gênova Gênova Gênova Gênova Gênova e Veneza Veneza Veneza Veneza Veneza. Não parecem bem localizadas para controlar o comércio no
Mediterrâneo? Mas, preste atenção... É verdade que a boa situação geográfica
ajuda muito, mas não é tudo. Os ativos mercadores de Gênova e Veneza já
mantinham, havia muito tempo, relações comerciais com os orientais, principal-
mente com os muçulmanos muçulmanos muçulmanos muçulmanos muçulmanos, que dominavam a navegação no Mediterrâneo.
Seguidores da religião islâmica e inimigos ferozes dos cristãos europeus,
contra quem guerrearam durante séculos, nem por isso os muçulmanos deixa-
ram de comerciar com os italianos. Intermediárias do comércio entre a Europa,
o Oriente próximo e as Índias distantes, as cidades italianas enriqueceram.
Os lucros eram enormes: as mercadorias orientais eram compradas por um
preço e revendidas, no resto da Europa, por preços muito mais altos.
No norte da Europa, o comércio também era intenso, embora não tão rico
quanto no Mediterrâneo. No mar do Norte e no Báltico, os navios iam de um
ponto a outro para apanhar peixe, madeira, peles e couros. O mais importante
centro desse comércio era a região de Flandres Flandres Flandres Flandres Flandres, na atual Bélgica, onde se
desenvolveu uma poderosa manufatura de tecidos de lã. Mercadores e artesãos
flamengos logo conquistaram fortuna e poder.
Olhe outra vez o mapa do comércio internacional. Observe como foi possível
o estabelecimento de rotas ligando Flandres às cidades italianas do sul. Imagine
a grande quantidade de artigos produzidos no norte que poderia ser negociada
com os produtos caros e diferentes do Oriente. Era preciso, no entanto,
escolher uma região central onde mercadores do norte e do sul pudessem
realizar seus negócios. Foi escolhida a planície de Champagne, que fica na
França de hoje, onde se realizavam grandes feiras feiras feiras feiras feiras anuais.
Você pode imaginar o desenvolvimento do comércio sem moeda? Você acha
simples trocar um barril de vinho por um saco de trigo? Pense...
O dinheiro é aceito por todos: pode ser trocado por qualquer coisa. Por isso,
a moeda moeda moeda moeda moeda foi ganhando cada vez mais valor. E, pouco a pouco, foi crescendo
o poder da burguesia burguesia burguesia burguesia burguesia. A burguesia grupo social composto de comerciantes,
banqueiros, artesãos possuía riqueza em moeda e habitava as cidades,
também chamadas burgos burgos burgos burgos burgos.
Movimcnto
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Segundo Leo Huberman, nas feiras eram realizados muitos negócios
em dinheiro.
No centro da feira, pesavam-se, avaliavam-se e trocavam-se as muitas varieda-
des de moedas; negociavam-se empréstimos, pagavam-se dívidas antigas. Aí os
banqueiros da época efetuavam negócios financeiros de tremendo alcance. Suas
operações cobriam negócios que se estendiam por todo o continente. Entre seus
clientes contavam-se papas e imperadores, reis e príncipes, Estados e cidades.
Leo Huberman Leo Huberman Leo Huberman Leo Huberman Leo Huberman, História da riqueza do homem , História da riqueza do homem , História da riqueza do homem , História da riqueza do homem , História da riqueza do homem, ,, ,, p. 35 p. 35 p. 35 p. 35 p. 35
Vamos fazer uma viagem no tempo...
Voltemos à Europa do século XIII. Encontraremos a maior parte da popu-
lação morando no campo, explorando a terra, vivendo da agricultura, da caça
e criação de animais.
Os nobres feudais nobres feudais nobres feudais nobres feudais nobres feudais duques, condes, barões, marqueses, príncipes eram
os senhores da terra, o chamado feudo feudo feudo feudo feudo. Os nobres tinham enorme poder sobre
os servos servos servos servos servos. Em troca do uso da terra para produzir alimentos, os servos deviam
obediência e pagavam pesados impostos ao senhor feudal.
A Igreja Católica Igreja Católica Igreja Católica Igreja Católica Igreja Católica era a maior senhora feudal da Europa Ocidental e, além
de deter o poder espiritual, era muito rica.
Mas você já sabe que algo de novo aconteceu nessa Europa feudal. Volte
ao texto. Releia com atenção e veja que transformações marcaram a sociedade que transformações marcaram a sociedade que transformações marcaram a sociedade que transformações marcaram a sociedade que transformações marcaram a sociedade
européia européia européia européia européia e portuguesa, é claro nesse momento.
Seria natural pensar que no século seguinte, o século XIV (1301-1400),
o comércio tivesse crescido ainda mais. Mas não foi bem assim... Você vai ver que
a história do homem se faz por avanços e recuos. No século XIV, o comércio
europeu encolheu. O que teria provocado esse declínio?
Vários fatos podem explicar a crise do século XIV, conhecido como o século século século século século
da fome da fome da fome da fome da fome. Guerras devastaram a Europa; a mais terrível foi a Guerra dos Cem Guerra dos Cem Guerra dos Cem Guerra dos Cem Guerra dos Cem
Anos Anos Anos Anos Anos que, de 1337 a 1453, colocou ingleses contra franceses. Os servos
se rebelaram contra o aumento da exploração que sofriam dos nobres.
Os campos foram abandonados, a produção de alimentos diminuiu, as pessoas
morriam de fome. Doenças, como a temida peste negra peste negra peste negra peste negra peste negra, chegaram a eliminar
um terço da população européia.
Você acha que as feiras, as rotas do comércio que atravessavam a Europa
de norte a sul, puderam ser conservadas? Muito difícil, com todas essas guerras,
rebeliões, epidemias... Como, então, manter o comércio entre o norte e o sul
da Europa?
Voltando aos mapas, é fácil observar que, por via marítima, era possível
fugir da devastação que arrasava as estradas. Veja que essa solução vai se revelar
bastante favorável a Portugal. À beira do oceano Atlântico, a meio caminho entre
o norte da Europa e as cidades italianas do sul, Portugal tornou-se passagem
obrigatória para as embarcações que trafegavam nos dois sentidos.
Os portos portugueses passaram a abrigar comerciantes e navegadores
de todos os pontos da Europa, favorecendo o intercâmbio de mercadorias e de
informações. Iniciava-se, então, o deslocamento do centro comercial do Mediter-
râneo para o Atlântico.
No século XV (1401-1500), beneficiado pelos lucros e pela experiência que
obteve como intermediário no comércio do Atlântico norte, Portugal pôde
Pausa
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lm tcmpo
se dedicar a um empreendimento mais importante, e mais arriscado também.
Seu objetivo agora era deixar de ser intermediário e partir para a conquista de
novas terras, novas fontes de comércio e de exploração de riquezas. O primeiro
alvo dessa expansão foi a cidade de Ceuta Ceuta Ceuta Ceuta Ceuta, no norte da África norte da África norte da África norte da África norte da África.
A escolha de Ceuta deveu-se a vários motivos. Consultando o mapa, você
pode perceber um deles: a proximidade geográfica proximidade geográfica proximidade geográfica proximidade geográfica proximidade geográfica. Para quem estava come-
çando, o primeiro passo deveria ser pequeno.
Mas isso não era o principal. Os interesses comerciais falaram mais alto.
Ceuta era um importante centro de comércio de mercadorias orientais de luxo
e de produtos africanos como ouro e marfim que possuíam enorme valor
para o comércio europeu.
A conquista dessa cidade africana, em 1415, significaria a obtenção de
enormes lucros para o rei, a nobreza e os comerciantes portugueses, que uniram
seus recursos para financiar a viagem e a guerra contra os mouros.
Você já deve ter ouvido a expressão “trabalhar como um mouro”, indicando
uma pessoa que trabalha de sol a sol.
Mouros eram populações que habitavam o norte da África e que seguiam
a religião muçulmana. Inimigos dos cristãos, durante séculos ocuparam a
península Ibérica, onde se localizam Portugal e Espanha.
Derrotados pelos portugueses no século XIII, muitos mouros se tornaram
escravos. Daí vem a palavra “mourejar”, que significa trabalhar muito.
A vitória contra os mouros, habitantes de Ceuta, tinha um outro importante
significado para os portugueses, especialmente para a rica e poderosa Igreja
Católica. Essa vitória foi vista como uma forma de destruir os “infiéis”, ou seja,
aqueles que não seguiam a fé católica. Derrotar os infiéis em Ceuta, portanto,
significou glória para a Igreja, terras e títulos para os nobres, poder para o rei,
fortuna para os burgueses e, para os marinheiros e soldados, a perspectiva de
uma vida melhor e mais cheia de aventura.
Primeiras viagens portuguesas à África
e às ilhas do Atlântico: 1415-1456
Viagem de Bartolomeu Dias: 1488
Viagem de Cabral: 1500
Primeira viagem de Colombo: 1492
Viagem de Fernão de Magalhães: 1519-1522 Viagem de Vasco da Gama: 1498
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O sucesso em Ceuta animou Portugal a prosseguir a expansão por outros
pontos da África, começando pelas ilhas da Madeira Madeira Madeira Madeira Madeira (1419) e dos Açores Açores Açores Açores Açores (1432).
Nelas, os portugueses adquiriram enorme experiência colonizadora, posterior-
mente aplicada na América. Utilizando a mão-de-obra escrava dos habitantes
das ilhas e contando com investimentos de capital de Gênova, os portugueses
estabeleceram ali uma lucrativa produção açucareira. Os lucros obtidos nessa
atividade é que permitiram a continuação da expansão africana.
O próximo alvo foi o litoral africano litoral africano litoral africano litoral africano litoral africano, onde os portugueses construíram uma
série de feitorias feitorias feitorias feitorias feitorias fortes destinados ao comércio. Os portugueses não pretendi-
am ocupar a África: o que eles desejavam era estabelecer relações comerciais com
os chefes africanos, a fim de obter ouro, marfim e, principalmente, escravos, que
eram levados para trabalhar em Portugal.
Em 1443, o navegador Nuno Tristão atingiu a baía de Arguim, terminal de
uma rota que levava a Tombuctu, um dos centros do comércio africano em que
se encontravam escravos, sal e ouro.
Volte ao mapa e siga o caminho da expansão portuguesa rumo ao sul
da África. Observe como, pouco a pouco, a chegada às Índias Índias Índias Índias Índias por via marítima
foi se tornando possível. Acompanhe... Em 1498, dez anos depois de Bartolomeu
Dias contornar o temido Cabo das Tormentas que então passou a ser
chamado de Cabo da Boa Esperança , a esquadra do navegador Vasco Vasco Vasco Vasco Vasco
da Gama da Gama da Gama da Gama da Gama chegou a Calicute Calicute Calicute Calicute Calicute. Esse era um importante ponto do comércio
de especiarias controlado pelos muçulmanos.
Mais uma vez, os portugueses deviam enfrentá-los. A tentativa de estabe-
lecer relações comerciais com o chefe de Calicute fracassou. Usando de violência,
Vasco da Gama acabou trazendo para Lisboa uma verdadeira fortuna em
especiarias e demais produtos orientais. Estava aberta, assim, uma nova rota
para as Índias, mais rápida e mais barata. Isso significou fortuna e poder para
os portugueses, crise e decadência para as cidades italianas e para o norte
da Europa.
Sabcr para navcgar
Entendeu agora por que, para os portugueses, navegar era mais importante
do que viver? O mar não era só promessa de riqueza; era também perspectiva
de aventura, oportunidade de conhecer novos mundos. Para além da Europa
rural, onde a Igreja controlava tudo e todos, deveria haver novas terras e novos
povos.
O medo caminhava junto com a esperança. Medo do desconhecido, dos
mares bravios e distantes que engoliam embarcações e homens. Esperança
de enriquecer, de fazer uma vida diferente. O importante era ter fé no poder poder poder poder poder
do homem do homem do homem do homem do homem e no progresso da ciência progresso da ciência progresso da ciência progresso da ciência progresso da ciência.
Em 1961, o russo Yuri Gagarin foi o primeiro homem a fazer uma viagem
espacial. Oito anos depois, em 1969, os americanos chegaram à Lua. Para isso,
foi necessário muito investimento em ciência e em tecnologia.
As viagens espaciais eram diferentes de tudo quanto até então se conhecia.
Novas naves foram desenhadas. Roupas, alimentação e objetos foram especial-
mente criados. Astronautas rigorosamente treinados pilotavam as naves utili-
zando computadores modernos. Tudo mudou. E o que mais mudou foi a crença
do homem em sua própria capacidade. Para o poder da criação humana, nem
o céu era mais o limite.
lm tcmpo
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A U L A
Para se lançar às grandes
navegações, os portugueses tam-
bém precisavam mudar. Não
bastava a proteção de Deus.
Eles precisavam de boas embar-
cações como a caravela caravela caravela caravela caravela, leve
e veloz, própria para aproxima-
ções em terra firme. Precisavam
de mapas mapas mapas mapas mapas mais detalhados, car- car- car- car- car-
tas náuticas tas náuticas tas náuticas tas náuticas tas náuticas mais precisas e ins-
trumentos de navegação mais
desenvolvidos, como a bússola bússola bússola bússola bússola.
Precisavam de armas mais po-
derosas: o uso da pólvora pólvora pólvora pólvora pólvora lhes
deu as armas de fogo com
as quais seriam capazes de en-
frentar os perigos do desconhe-
cido. E precisavam, sobretudo,
confiar na capacidade do ho-
mem de dominar a natureza.
Isso parece fácil, hoje. Mas
nos séculos XIII e XIV era muito difícil. E você sabe por quê? A maioria das
pessoas achava que o homem, cheio de pecados, só deveria existir para a glória
divina. A Igreja Católica, muito poderosa, glorificava Deus (teocentrismo;
teo = Deus). A fé valia mais que a ciência. Como, então, o homem poderia
navegar? Pense... Era preciso mudar. E mudou.
Desde o século XIV, desenvolvera-se nas cidades italianas o humanismo humanismo humanismo humanismo humanismo,
movimento de um grupo de homens cultos que pregava a glorificação do glorificação do glorificação do glorificação do glorificação do
homem homem homem homem homem. Para eles, o homem era o centro do universo (antropocentrismo;
antropo = homem).
Esses humanistas humanistas humanistas humanistas humanistas buscavam inspiração na antiga cultura greco-romana,
que tinha o ser humano como valor máximo. Por isso, Renascimento Renascimento Renascimento Renascimento Renascimento foi o nome
dado ao movimento que, nas artes, na ciência e na literatura, buscou divulgar
valores mais ligados à vida terrena, ao individualismo, ao racionalismo,
à experimentação e ao espírito científico. Indagava-se, duvidava-se, experimen-
tava-se, confiava-se na capacidade do homem de pensar e fazer coisas novas.
Era todo um modo novo modo novo modo novo modo novo modo novo de ver e viver o mundo, mais de acordo com a nova
economia comercial e monetária. O homem, agora, não sonhava apenas com
o paraíso no céu: passou a buscar o paraíso na terra.
Entendeu por que as grandes viagens atraíam tantas pessoas para o mar?
Você já deve estar se lembrando do nosso grande poeta português, Camões, que
tanto acreditava no poder do navegador luso de conquistar o mundo. Camões
foi o principal escritor do Renascimento em Portugal.
Muitas invenções e descobertas. Novas idéias e ideais. Os europeus come-
çavam a pensar diferente.
Mas... como tudo isso seria conhecido? Os meios de comunicação da época
eram muito simples; na maior parte das vezes, a transmissão de conhecimento
era feita de boca em boca.
Por tudo isso, a invenção da imprensa imprensa imprensa imprensa imprensa, em 1455, foi um fato fundamental.
Volte ao texto e reflita sobre a importância da expansão da comunicação escrita
nesse momento.
P a u s a
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A U L A
Pouco a pouco estamos completando o quadro que permite compreender
por que um pequeno país do oeste europeu tornou-se o pioneiro da expansão
marítima. Falta ainda uma peça muito importante, da qual falaremos logo
adiante.
Comandar para navcgar
Mais uma vez, voltemos a Camões. Em Os Lusíadas, ao narrar a epopéia
portuguesa na conquista dos mares, o poeta destacou o papel do rei rei rei rei rei nesse
processo. Pense um pouco... Você já deve ter observado que a expansão
portuguesa foi um processo caro e complicado, que exigia muitos recursos
financeiros e humanos: dinheiro para construir e equipar as caravelas, para
contratar os melhores navegadores, geógrafos, cartógrafos, físicos...
Os historiadores Janaína Amado e Luiz Carlos Figueiredo destacam que
na Europa de então, somente esse reduzido grupo de homens tinha intimidade
com os segredos do oceano ventos, marés, influência dos astros, sinais de terra,
cheiros, correntes e tempestades e experiência em lidar com as novas rotas,
com instrumentos náuticos, com as caravelas, com os povos, animais e pai-
sagens encontrados havia pouco. Somente os marinheiros reuniam coragem
suficiente para se aventurar durante meses, nas piores condições possíveis,
em direção ao desconhecido, com as cabeças povoadas de lendas sobre aterrorizantes
monstros marinhos, sereias traiçoeiras, abismos logo após o fim da Terra, zonas
tórridas que queimavam os miolos e enegreciam os seres humanos...
Janaína Amado e Luiz Carlos Figueiredo, Janaína Amado e Luiz Carlos Figueiredo, Janaína Amado e Luiz Carlos Figueiredo, Janaína Amado e Luiz Carlos Figueiredo, Janaína Amado e Luiz Carlos Figueiredo, No tempo das caravelas No tempo das caravelas No tempo das caravelas No tempo das caravelas No tempo das caravelas, p. 69-70 , p. 69-70 , p. 69-70 , p. 69-70 , p. 69-70
Montar uma esquadra, portanto, exigia anos de preparação para a acumu-
lação de capitais e a formação de pessoal técnico. O comando de todo esse
processo devia ficar nas mãos fortes do rei rei rei rei rei.
Em torno da Coroa, organizaram-se os setores sociais mais importantes da
sociedade portuguesa: a nobreza, a Igreja, os comerciantes, os funcionários
públicos. Nisso, mais uma vez, Portugal foi pioneiro. No século XIV, enquanto
outras regiões da Europa, como a França e a Inglaterra, dividiam-se em guerras
entre nobres e o rei, a Coroa portuguesa pôde unificar o país e colocá-lo sob seu
comando. O estabelecimento do poder absoluto do rei nos outros países
da Europa foi um processo longo e difícil, que só se consolidou no século XVI.
As iniciativas da Coroa portuguesa para favorecer as grandes navegações
foram decisivas. Um exemplo: o príncipe d. Henrique (1394-1460) organizou,
em Sagres, um centro de encontro de estudiosos e técnicos em navegação, para
que fossem discutidos os rumos futuros da expansão. Comandante da Ordem
de Cristo, o rei português podia mobilizar recursos da Igreja. Arrecadador
de impostos dos ricos burgueses, o Tesouro Real era o único capaz de bancar
um empreendimento tão arriscado.
É claro que, como maior investidora, a Coroa era também quem mais
deveria ganhar com a expansão. Daí a presença constante do próprio rei no porto
de Lisboa, à espera das caravelas que vinham da África, das Índias e da América.
lm tcmpo
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A U L A
Você deve estar se perguntando: e a América?
Afinal, você sabe desde criança que a América foi descoberta pelos espa-
nhóis, sob o comando de Cristóvão Colombo, navegador de Gênova.
Como os espanhóis chegaram à América antes dos portugueses?
Que condições permitiram à Espanha disputar com Portugal a supremacia
da conquista do “novo mundo”? Como se deram os primeiros contatos entre
culturas tão diferentes, a espanhola e a nativa? Quem eram os nativos?
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Releia o item Navegar é preciso Navegar é preciso Navegar é preciso Navegar é preciso Navegar é preciso. Faça uma relação das principais transfor-
mações que ocorreram na economia e na sociedade da Europa, entre
os séculos XIII e XV.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Faça um resumo das etapas da expansão marítima portuguesa.
Exercício 3 Exercício 3 Exercício 3 Exercício 3 Exercício 3
Releia o item Saber para navegar Saber para navegar Saber para navegar Saber para navegar Saber para navegar e enumere as invenções e descobertas
científicas que permitiram aos europeus se lançar às grandes navegações.
Exercício 4 Exercício 4 Exercício 4 Exercício 4 Exercício 4
Releia o item Comandar para navegar Comandar para navegar Comandar para navegar Comandar para navegar Comandar para navegar e explique a importância do papel
do rei no processo de expansão marítima portuguesa.
UI t i ma s
p a I a v r a s
lxcrcícios
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MÓDULO l
Entendeu ainda que, mais além, havia homens
com um olho só, e outros com focinho de cão.
Quem entendeu tais prodígios foi o “almirante”. Era assim que Cristóvão Cristóvão Cristóvão Cristóvão Cristóvão
Colombo Colombo Colombo Colombo Colombo chamava a si próprio. A frase foi tirada das anotações feitas por ele em
seu diário, no dia 4 de novembro de 1492. Colombo “viu” coisas ainda mais
extraordinárias naquela terra desconhecida, à qual chegara no dia 12 de outubro.
Viu sereias, amazonas, homens com cauda... Tudo registrado em detalhes nos
seus muitos escritos pois, além do diário, Colombo escreveu cartas a amigos
navegadores e enviou longos relatórios aos reis da Espanha, que patrocinaram
sua viagem.
Você pode até achar que se tratava de uma imaginação muito fértil.
Mas... pense um pouco. Os europeus sempre souberam da existência da África
e das Índias. Mas a América, para eles, só poderia mesmo existir na imaginação.
A chegada de Colombo à América foi, sem dúvida, o encontro mais surpreen- o encontro mais surpreen- o encontro mais surpreen- o encontro mais surpreen- o encontro mais surpreen-
dente da nossa História. dente da nossa História. dente da nossa História. dente da nossa História. dente da nossa História.
Nesta aula vamos falar de Cristóvão Colombo, que era navegador
de Gênova, e da Espanha Espanha Espanha Espanha Espanha, país que financiou os seus projetos de chegada às
Índias. Levaremos você a viajar com o genovês e a conhecer as dificuldades
da viagem. Depois da viagem, a chegada a surpresa, o encantamento,
a vontade de conhecer e de contar o que havia na “nova” terra a vontade de conhecer e de contar o que havia na “nova” terra a vontade de conhecer e de contar o que havia na “nova” terra a vontade de conhecer e de contar o que havia na “nova” terra a vontade de conhecer e de contar o que havia na “nova” terra.
Finalmente, descobriremos o “velho” mundo que era a América, e suas
antigas civilizações: os incas incas incas incas incas, os maias maias maias maias maias e os astecas astecas astecas astecas astecas.
A viagcm
Quem era Cristóvão Colombo?
Em 1992, por ocasião da comemoração dos 500 anos do “descobrimento” da
América, apareceram vários filmes e livros contando a história do “descobridor”.
Talvez você já tenha visto um desses filmes, ou lido algum livro sobre o assunto.
Vamos, então, resumir essa história.
Colombo nasceu na cidade italiana de Gênova que, como você viu na aula
anterior, era um dos mais importantes centros de comércio com o mundo
oriental. Desde pequeno, Colombo ouvira falar de Marco Polo Marco Polo Marco Polo Marco Polo Marco Polo, comerciante de
Veneza que durante longos anos percorrera o império chinês, mantendo
contatos com o imperador, o Grande Can. Chegar ao Extremo Oriente
A chcgada à Amórica:
nomcs, rcIatos
c imagcns
Abcrtura
Movimcnto
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A U L A
as famosas Índias Índias Índias Índias Índias por um novo caminho tornou-se o grande sonho do jovem
Colombo.
Conhecer novas terras, contar as aventuras aventuras aventuras aventuras aventuras vividas nas longas viagens eram
fortes incentivos para os navegadores do século XV. Mas não era só isso.
Volte à aula anterior e veja que outros interesses igualmente atraíam os europeus
para regiões distantes.
Colombo não era diferente. Ele também ambicionava o ouro ouro ouro ouro ouro e acreditava
na expansão da fé cristã expansão da fé cristã expansão da fé cristã expansão da fé cristã expansão da fé cristã em terras pagãs que não conheciam a palavra de
Deus ou em terras habitadas por infiéis, como os muçulmanos.
É possível que você já esteja se perguntando por que Colombo não conse-
guiu apoio financeiro para a sua viagem na própria Gênova, que era um
importante centro de navegação e de comércio. Pense um pouco no que falamos
sobre Gênova na aula anterior. Será que interessaria aos comerciantes genoveses
investir no projeto de Colombo de encontrar um novo caminho para as Índias?
Lembre-se: junto com os comerciantes de Veneza, os genoveses já controlavam
a rota das especiarias.
Além do desinteresse, havia também a desconfiança de que as idéias
de Colombo estivessem erradas. Partindo da crença de que o mundo era
redondo naquela época, não se tinha certeza da forma da Terra , Colombo
acreditava que poderia chegar ao Oriente navegando em direção ao Ocidente.
Difícil entender? Imagine para os genoveses!
Uma outra pergunta deve estar martelando a sua cabeça: por que a Coroa
espanhola resolveu financiar Colombo, permitindo que ele pusesse em prática
seu projeto? Para responder a essa questão é preciso entender a situação da
Espanha no século XV. Observe, abaixo, o mapa da Espanha. Note que, ao lado
de vários reinos cristãos, havia, no sul, uma área dominada pelos mouros.
O mapa maior
mostra a presença
dos muçulmanos
na Europa cristã.
No círculo, a divisão
da península Ibérica
entre muçulmanos
e cristãos.
O mapa menor
mostra, ao norte,
os reinos cristãos
na península
Ibérica. As rotas
representam
as campanhas
de conquista
dos muçulmanos
nos séculos IX e X.
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A U L A
Aragão e Castela eram regiões prósperas, pois possuíam cidades portuárias
onde se desenvolviam atividades marítimas e comerciais. No litoral atlântico da
África, os castelhanos conquistaram as ilhas Canárias, em aberta concorrência
com os portugueses. O casamento de Fernão (príncipe de Aragão) com Isabel
(princesa de Castela), em 1469, e a expulsão dos mouros de Granada, em 1492,
deram aos espanhóis a unificação política necessária à expansão marítima.
Depois de muita dúvida e incerteza, com poucos recursos e sem um projeto
definido, a Coroa espanhola acabou patrocinando a esquadra de Colombo,
que partiu do porto de Palos em agosto de 1492. Os objetivos dos espanhóis
eram semelhantes aos dos portugueses: descobrir novas rotas de comércio,
explorar terras ricas em ouro, expandir a fé cristã e viver aventuras. Na cabeça
de todos, o sonho de encontrar o paraíso na terra paraíso na terra paraíso na terra paraíso na terra paraíso na terra.
Vamos prosseguir na comparação entre a expansão marítima portuguesa
e a espanhola.
Você já comparou os dois planos de viagem e percebeu que eram bem
diferentes. Outras diferenças, ligadas à situação interna dos dois países, marca-
ram os dois processos de expansão marítima.
Mas você deve ter notado, também, que havia semelhanças entre eles.
Releia o texto e faça um breve levantamento dessas semelhanças e diferenças.
Enfrentar os oceanos era uma tarefa arriscada. É certo que os novos
conhecimentos, os mapas, as cartas de navegação, os instrumentos de orienta-
ção (como a bússola e o astrolábio) e as caravelas, principalmente, trouxeram
maior segurança às longas viagens. Tempestades, ondas, correntes marítimas
e ventos contrários eram grandes perigos. Mas o maior deles era a duração
da viagem, meses a fio sem ver terra.
Segundo os historiadores Janaína Amado e Luiz Carlos Figueiredo
(No tempo das caravelas, p. 66-67), em cada caravela comprimiam-se, durante
meses, entre 40 e 60 homens, mais os animais destinados à alimentação: perus,
patos, carneiros e porcos, vivos, para serem abatidos na viagem. E ainda barris
de água (pegavam água da chuva), ferramentas, estoques de madeira, bóias,
lampiões, varas de pescar...
A disciplina era severa, e motins contra o comandante poderiam ser puni-
dos com a morte. A tripulação, toda masculina, era composta de marinheiros
experientes e jovens aprendizes, grumetes de até 12 anos de idade. Além dos
marinheiros, viajavam também padres, funcionários reais, comerciantes,
escrivães, médicos e aventureiros em busca de uma nova vida.
As condições de vida nas caravelas eram muito difíceis: pouca comida
e pouca água, falta de higiene, doenças e morte. Ia-se para o mar em busca de
riquezas e aventuras, e também porque a vida na terra não era muito melhor.
Foi com a promessa de ouro que Colombo acalmou os marinheiros em
momentos difíceis da longa viagem, de agosto a outubro. Em seus diários,
o almirante deixou registrado o seguinte:
lm tcmpo
Pausa
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A U L A
(...) neste dia, eles perderam completamente de vista a terra. Temendo não
tornar a vê-la por muito tempo, muitos suspiravam e choravam. O almirante
reconfortou a todos com grandes promessas de muitas terras e riquezas, para que
eles conservassem a esperança e perdessem o medo que tinham de um caminho
tão longo. Os homens não agüentavam mais.
A viagem foi longa e difícil. Mas a chegada a uma pequena ilha do Caribe,
no dia 12 de outubro, foi marcada por encantamento e surpresa diante de um
mundo totalmente desconhecido.
O Novo Mundo
Imagine, por um momento, que você é um marinheiro espanhol e, depois
de três meses de viagem, chegou a essa terra desconhecida. Como você descre-
veria as novas coisas e as novas pessoas que aí encontrou, e que nunca vira antes?
Que palavras e imagens você usaria para retratá-las? Nós estamos tão acostuma-
dos a ouvir falar da América e dos índios que nem paramos para pensar que,
em 1492, não havia nem América e nem índios.
Os espanhóis acabavam de chegar a um grande continente, habitado de
norte a sul por vários povos profundamente diferentes aliás, como é natural
em qualquer outra região do mundo. Lembre-se de que, nessa mesma época,
a Europa era igualmente habitada por povos diferentes, em diferentes etapas de
desenvolvimento.
Vencidos os primeiros momentos de surpresa , Colombo sentiu necessidade
de escolher nomes nomes nomes nomes nomes para indicar tudo de novo que via diante de seus olhos.
Nomear para entender e explicar, e para tomar posse também. Ao descer
à primeira ilha, chamada de Guanaani pelos nativos, Colombo fez registrar, por
escrito, a posse da ilha, à qual deu o nome de San Salvador San Salvador San Salvador San Salvador San Salvador. Era uma
homenagem a Sua Majestade. As outras ilhas próximas ele chamou de Santa
Maria de Concepción, Fernandina, Isabela e Juana.
E os nativos de Guanaani? Como chamá-los? Colombo chamou-os de
índios índios índios índios índios, pois acreditava firmemente que a ilha seria parte das Índias. Colombo
achava que, em breve, chegaria ao ouro e às especiarias. Mais tarde, percebeu-
se que Guanaani não pertencia às Índias. Mas o nome índios índios índios índios índios permaneceu,
para designar os nativos da América.
E o nome América?
Segundo Janaína Amado e Luiz Carlos Figueiredo (No tempo das caravelas,
p. 54), o primeiro mapa a registrar a palavra América foi o do cartógrafo Martin
Waldseemüller (1507). Ele era fascinado pela figura e pelos escritos do navega-
dor Américo Vespúcio, piloto da terceira viagem de Colombo à América.
Quando Waldseemüller se convenceu de que Américo Vespúcio não fora
o primeiro europeu a chegar ao novo continente, mandou apagar a inscrição
América do mapa. Mas era tarde demais. Colombo, que tanto buscara glória
e fortuna, não conseguiu nem dar nome ao continente ao qual chegou antes
dos outros navegadores europeus.
lm tcmpo
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A U L A
Além de nomear, era preciso descrever tudo o que de novo e surpreendente
havia nesse mundo: a terra, a gente, a fauna, a flora. Os relatos de Colombo e de
outros membros da tripulação mostram como era poderosa a crença cristã em
um paraíso terrestre paraíso terrestre paraíso terrestre paraíso terrestre paraíso terrestre. Veja o que eles deixaram escrito sobre a América:
Toda esta terra é de montanhas muito altas e muito belas. Como as
montanhas, os vales são repletos de árvores altas e frescas. Aqui os peixes são
enfeitados das mais lindas cores do mundo. Há também baleias. Aqui, e por
toda a ilha, as árvores são verdes e as ervas também, como no mês de abril,
na Andaluzia. O canto dos passarinhos é tal que pareceria que jamais o
homem desejaria partir daqui. Os bandos de papagaios escondem o Sol.
É certo que a beleza destas ilhas, com seus montes e suas serras, suas águas
e seus vales regados por rios caudalosos, é um espetáculo tal que nenhuma
outra terra sob o sol pode parecer melhor ou mais magnífica.
A presença de índios nus, com os “belos” corpos pintados de cores fortes,
era outro poderoso motivo para Colombo acreditar que havia chegado
ao paraíso. Ainda mais que pareciam pacíficos e generosos.
Na falta das palavras nativos e espanhóis falavam línguas diferentes ,
foram trocados objetos. Na maioria das vezes, conta Colombo, os índios, como
“bestas idiotas”, trocavam tudo o que tinham por coisas sem nenhum valor.
Você também acha que essas trocas eram uma atitude idiota dos índios?
Reflita um pouco.
Cada povo tem sua própria cultura. O que é muito valorizado numa cultura
pode não ser valorizado em outra.
Pense no mundo de hoje. Repare que as diferenças culturais entre os povos
ainda são muito grandes.
Escolha um exemplo de diferença cultural e conte-o em poucas linhas.
As narrativas dos espanhóis tinham ainda uma forte dose de imaginação, pois
eles viam as coisas e as gentes da América não apenas com os olhos. Sereias,
homens com cauda e focinho de cão, árvores com ramos diferentes saindo
de um mesmo tronco, tudo isso fazia parte das lendas e fantasias que
povoavam o imaginário europeu no século das navegações.
As terras desconhecidas eram o lugar do diferente, do estranho,
do inesperado. Foi nos trabalhos artísticos, em geral usados como
ilustrações de livros e de mapas, que essa representação fantástica
da América e dos americanos apareceu mais claramente.
Observe com cuidado:
índios com cara e corpo
de europeu numa cena de
canibalismo...
Pausa
Urna funerária
L
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A U L A
Os diários e as cartas de Colombo, os escritos de Américo Vespúcio sobre
suas viagens à América, os desenhos e as gravuras tudo isso teve grande
repercussão na Europa, por causa da recente invenção da imprensa. Esses
trabalhos, que na época conquistaram a imaginação popular, são hoje uma
importante fonte histórica fonte histórica fonte histórica fonte histórica fonte histórica que nos permite conhecer os fatos desse passado.
Colombo realizou outras três viagens à América. Apesar disso, não chegou
a conhecer as antigas e ricas civilizações que habitavam o continente.
O VcIho Mundo: incas, astccas c maias
Para Colombo e sua tripulação, a América era um novo mundo. No entanto,
como você sabe, o grande continente era habitado havia muitos séculos por
variados povos, donos de culturas diferentes.
Três regiões foram especialmente povoadas por sociedades que apresenta-
vam um alto grau de desenvolvimento, como mostram os templos e palácios
que deixaram. Essas ruínas ainda hoje podem ser visitadas.
No atual México México México México México, os astecas astecas astecas astecas astecas dominavam militarmente um conjunto de
outros povos. Estes eram obrigados a pagar pesados impostos aos astecas,
em forma de milho, feijão, cacau, algodão. Além disso, eram obrigados a ceder
trabalhadores e soldados sempre que os astecas precisassem.
Os astecas possuíam um Estado organizado, com a capital na cidade
de Tenochtitlán. O Estado era comandado por um imperador, e os militares
e os sacerdotes tinham grande influência nele.
A maior parte da população vivia da agricultura, trabalhando em terras
da comunidade o calpulli calpulli calpulli calpulli calpulli. Durante quatro ou cinco meses do ano,
os agricultores cuidavam da colheita, que lhes fornecia alimentos para
a própria subsistência e para manter a comunidade. Tinham ainda de fornecer
produtos para sustentar aqueles que se dedicavam às atividades militares
e religiosas. Nos outros meses, os agricultores eram convocados para trabalhar
em grandes obras abertura de estradas, irrigação e preparação de terrenos
para novas áreas de plantio, entre outras.
Pirâmide do México
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A U L A
Uma extraordinária produção agrícola de milho, batata, mandioca e feijão
possibilitou a subsistência, no império asteca, de uma população estimada
em 25 milhões de pessoas. Construtores de palácios e templos que até hoje
nos encantam pela beleza e grandiosidade, os astecas possuíam sólidos conhe-
cimentos de matemática e de astronomia, além de desenvolver uma produção
artística de grande valor em tecidos, cerâmica e metais preciosos.
O império inca império inca império inca império inca império inca se estendia da Colômbia ao Chile, ao longo da cordilheira
dos Andes. Tal como o império dos astecas, o império inca era formado por
vários povos, englobando perto de 15 milhões de pessoas.
Embora conhecessem a mineração, sua atividade econômica principal
era a agricultura. Lá também a terra era da comunidade, de base familiar
(o ayllu ayllu ayllu ayllu ayllu), e devia garantir a sobrevivência dos agricultores. Parte da produção
era entregue como pagamento de impostos para manter o Estado (imperador,
militares, funcionários) e os sacerdotes.
Além do trabalho na agricultura, os habitantes do império ainda se encarre-
gavam de abrir e manter estradas e de explorar minas. Como os astecas, os incas
construíram palácios e templos e deixaram tesouros de arte em objetos de prata,
vasos de cerâmica e tecidos.
Ao contrário dos impérios inca e asteca, que estavam em pleno desenvolvi-
mento por ocasião da chegada dos espanhóis, os maias maias maias maias maias, que habitavam o norte
da América Central, encontravam-se em decadência, por causa de nume-
rosas lutas internas.
Com uma estrutura econômica e social semelhante à dos incas e astecas,
os maias possuíam um extraordinário conhecimento de matemática e de astro-
nomia, e chegaram a desenvolver um calendário muito preciso.
Você deve estar curioso para saber como conseguimos todas essas informa-
ções sobre esses povos, já que, ao contrário de Colombo e de Vespúcio, eles não
puderam deixar por escrito as suas histórias.
De fato, quase tudo o que sabemos sobre os índios americanos nos foi
passado pelos europeus. E você sabe: quem conta um conto, aumenta um ponto.
Ou seja quem fala, quem escreve, é o dono da História.
As terras a oeste da linha de Tordesilhas (à esquerda, no mapa) pertenciam à Espanha.
E as terras a leste (à direita, no mapa), pertenciam a Portugal.
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A U L A
A chegada de Colombo à América estourou como uma bomba em Portugal.
Disputando a supremacia na expansão marítima, a Coroa portuguesa procurou
preservar seus interesses. Depois de difíceis negociações, assinou com a Espanha,
em 1494, o Tratado de Tordesilhas Tratado de Tordesilhas Tratado de Tordesilhas Tratado de Tordesilhas Tratado de Tordesilhas. Observe o mapa da página anterior e veja
como os dois países dividiram o mundo entre si.
Resolvidas as divergências com a Espanha, os portugueses partiram para
as Índias, lá chegando em 1498. A necessidade de consolidar as conquistas
de Vasco da Gama fez com que Portugal preparasse, em dois anos, a maior
esquadra jamais vista em toda a Europa: eram treze navios. Em março de 1500,
a esquadra partiu de Lisboa. Em 22 de abril, chegou a uma parte da América que,
de acordo com o tratado de Tordesilhas, já pertencia à Coroa portuguesa.
Na próxima aula, falaremos da chegada dos portugueses a uma terra
americana que, mais tarde, receberia o nome de Brasil.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Releia o item A viagem A viagem A viagem A viagem A viagem e faça um resumo das diferenças e semelhanças entre
o projeto de Colombo, patrocinado pela Coroa espanhola, e o projeto
português de chegar às Índias.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
No item O Novo Mundo O Novo Mundo O Novo Mundo O Novo Mundo O Novo Mundo, você percebeu o impacto que representou
a chegada dos europeus à terra que, depois, foi chamada de América.
As diferenças entre as duas culturas eram muito grandes. Depois de ler
o texto com atenção, cite duas dessas diferenças.
Exercício 3 Exercício 3 Exercício 3 Exercício 3 Exercício 3
No mundo de hoje, as diferenças culturais entre os povos também são muito
grandes. Escolha um exemplo de diferença cultural e conte-o em poucas
linhas.
Exercício 4 Exercício 4 Exercício 4 Exercício 4 Exercício 4
Releia o item O Velho Mundo O Velho Mundo O Velho Mundo O Velho Mundo O Velho Mundo e discuta a afirmativa de que todos os índios
eram culturalmente atrasados.
UItimas
paIavras
lxcrcícios
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Esta terra, Senhor (...), traz ao longo do mar,
em algumas partes, grandes barreiras, umas vermelhas, e outras brancas;
e a terra de cima é toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta
é toda praia (...) muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista
do mar, muito grande; (...) a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados
(...). Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo;
por causa das águas que tem!
Você já deve saber que esse é um trecho da carta que o escrivão Pero Vaz
de Caminha mandou para d. Manuel I, rei de Portugal, prestando contas
da longa viagem e contando a novidade do encontro da nova terra.
Nesta aula, você vai viajar com Cabral e Caminha, e observará que
os portugueses, tal como os espanhóis, também acharam que haviam chegado
ao paraíso. Verá ainda quais foram os primeiros experimentos de ocupação
da terra. Conhecerá os motivos que determinaram a efetiva colonização dessa
parte portuguesa da América, que passou a ser conhecida com o nome de Brasil.
Primciras imprcssõcs do paraíso
Pero Vaz de Caminha era um dos 1.200 homens
que, em 9 de março de 1500, embarcaram em Lisboa,
sob o comando de Pedro Álvares Cabral.
Eram treze naus, com uma tripulação composta
pelos melhores pilotos, além de geógrafos, cartógrafos,
padres, comerciantes, marinheiros, todos à cata de aven-
tura e riquezas.
A viagem de um mês e meio ocorreu sem grandes
sobressaltos, pois os portugueses, ao contrário de
Colombo, conheciam a região por onde navegavam.
A 22 de abril de 1500 se deu a primeira vista de terra,
a atual região de Porto Seguro, no litoral sul da Bahia.
Aqui também foi preciso nomear. A nova terra, chama-
da inicialmente de ilha de Vera Cruz, posteriormente
virou Terra de Santa Cruz. O nome Brasil, é provável
que você já saiba, deveu-se à existência do pau-brasil
no nosso litoral.
Abcrtura
Visõcs do paraíso
Movimcnto
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A carta de Caminha ao rei português registrou todo o encantamento que essa
terra até então desconhecida despertou nos recém-chegados. A extensão, o clima
fresco, a abundância de água e de vegetação, tudo indicava que os viajantes
haviam encontrado o paraíso paraíso paraíso paraíso paraíso.
Observador atento, esforçando-se para descrever da melhor maneira possí-
vel a nova conquista dos portugueses no além-mar, Caminha registrou cuidado-
samente as condições da terra e dos seus habitantes; os contatos entre
os portugueses e os nativos, aqui também chamados de índios; e as possibilida-
des de exploração de riquezas e de expansão da fé católica.
A carta de Caminha é, pois, um documento histórico documento histórico documento histórico documento histórico documento histórico, uma fonte que nos
permite conhecer os fatos do passado.
A carta de Pero Vaz de Caminha só foi encontrada em 1817, na Torre
do Tombo, em Lisboa. Nesse mesmo ano foi publicada pelo padre Aires Casal,
no livro Corografia Brasílica.
Refletindo a moral do século XIX, os trechos da carta em que Caminha falava
das “vergonhas” dos índios foram cortados pelo padre.
A partir de então, a carta de Caminha passou a ser considerada o registro
de nascimento do nosso país.
A idéia de chegada ao paraíso era reforçada pela presença dos nativos, que em
nada se pareciam com os europeus. Observe como o encantamento pela exposição
do corpo nu do índio é semelhante ao anteriormente demonstrado por Colombo:
A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos
e bons narizes, bem-feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem
fazem caso de encobrir ou deixar de encobrir suas vergonhas do que de
mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência (...). Neste dia
os vimos mais de perto e mais à nossa vontade, por andarmos quase
misturados: uns andavam quartejados daquelas tinturas, (...) os beiços
furados, (...) rapados até por cima das orelhas (...). Seus corpos são tão
limpos e tão gordos e tão formosos que não pode ser mais...
Você já sabe como eram profundas as diferenças entre as duas culturas,
a portuguesa e a nativa. Era, no entanto, a especial relação que a gente da terra
mantinha com o corpo a nudez, as pinturas, os banhos a principal marca
dessa diferença.
Para uma sociedade como a européia, que via o corpo como sinal do pecado
e da tentação, o encontro com um povo diferente, numa terra diferente, represen-
tou a sensação de chegada ao paraíso. Foi essa imagem de uma terra “formosa
e extensa”, habitada por uma gente cuja “inocência é tal que a de Adão não seria
maior”, que alimentou os sonhos de aventura aventura aventura aventura aventura de quem veio para cá em busca
do paraíso perdido.
Os primeiros contatos com os nativos, feitos no dia seguinte à chegada,
foram assim descritos por Caminha:
E dali avistamos homens que andavam pela praia, uns sete ou oito (...).
O Capitão mandou em terra a Nicolau Coelho para ver aquele rio.
E tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia homens aos
dois ou três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, já lá
estavam dezoito ou vinte. Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes
cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos e suas setas. E Nicolau
Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os depuseram...
lm tcmpo
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A U L A
O caráter não-violento não-violento não-violento não-violento não-violento dos primeiros contatos com os índios, tão bem
destacado por Caminha ao longo de toda a sua carta, é outro elemento poderoso
a comprovar o caráter paradisíaco da terra americana. Aqui, a relação inicial
entre as duas culturas foi amistosa, ao contrário do que ocorrera nas Índias.
Como vimos na Aula 2, as relações de Vasco da Gama nas Índias foram
marcadas pela violência. Explique as diferenças entre os primeiros contatos dos
portugueses nas Índias e na América.
Domingo de Páscoa, dia 26 de abril,
foi rezada uma missa pelo frei Henrique
Soares. Uma outra missa realizou-se
em terra firme no dia 1º de maio,
quando então Cabral tomou posse
oficial da terra em nome do rei portu-
guês, com a presença da tripulação
e dos nativos. Você seria capaz de ima-
ginar tal cena?
Vários pintores do século XIX pro-
curaram representar esses momentos
iniciais da chegada dos portugueses à
América. Um deles, Vítor Meireles, pin-
tou um quadro representando a “pri-
meira missa”.
Veja a reprodução do quadro e
observe se era assim que você faria.
Se a expansão da religião católica era importante para os portugueses
daquela época, eles também estavam preocupados em investigar o aproveita-
mento econômico da terra, ou seja, a existência de metais preciosos e as
possibilidades de comércio. Tal preocupação fica clara nas palavras de Caminha:
Pausa
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A U L A
Em seguida, o Capitão foi subindo ao longo do rio, que corre rente
à praia. E ali esperou por um velho (...) mas ninguém o entendia,
nem ele a nós, por mais coisas que a gente lhe perguntava com respeito
a ouro, porque desejávamos saber se o havia na terra (...). Até agora
não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal ou
ferro; nem lha vimos...
Imagine o rei português d. Manuel lendo a carta de Caminha com as notícias
da terra encontrada. Você acha que as perspectivas de aproveitamento econô-
mico dessa terra animaram o rei?
Pense um pouco e resuma a sua resposta.
Primciras cxpIoraçõcs
A esquadra de Cabral tinha, na verdade, uma dupla missão. Em primeiro
lugar, verificar as possibilidades de exploração da parte da América que coubera
a Portugal pelo Tratado de Tordesilhas. Em seguida, era indispensável dar
continuidade à expansão comercial dos portugueses nas Índias, iniciada por
Vasco da Gama em 1498.
Para se ter uma idéia de quanto isso era importante, só na revenda da pimenta
lá comprada Portugal obtivera lucros de até 6.000%. Lembre-se também de que
fora muito alta a quantia investida para a composição da grande esquadra.
Por isso, em 2 de maio, depois de dez dias na terra recém-conhecida, a frota de
Cabral rumou para as Índias, em busca das lucrativas especiarias e dos artigos
de luxo do Oriente.
O tempo passado na nova terra não fora suficiente para o levantamento de
informações sobre as suas riquezas. O clima fresco, a água abundante, a flora
e a fauna maravilhosas, os nativos encantadores, nada disso era garantia
de aproveitamento econômico.
Vamos repetir: os portugueses estavam preparados para obter lucro imedia-
to, praticando o comércio ou explorando metais preciosos. Era isso o que eles
faziam nas Índias e na África. Na América, a terra sem ouro aparente e os nativos
sem nada para vender não despertaram o interesse do maior dos comerciantes
de Portugal, o rei. Daí por que a África e as Índias continuaram a ser o centro
da atenção dos investimentos portugueses, já que ofereciam negócios muito
mais lucrativos do que a América.
De qualquer modo, era preciso saber o que havia na terra, além de árvores,
aves, águas e índios estranhos. Para isso, foi enviada, em 1501, uma pequena
esquadra sob o comando de Gaspar de Lemos, que aqui já estivera com Cabral.
Em agosto, a expedição atingiu o litoral do atual Rio Grande do Norte.
Daí rumou para o sul, percorrendo o litoral e batizando os lugares por onde
ia passando com o nome do santo do dia:
cabo de São Roque 16/8;
cabo de Santo Agostinho 28/8;
rio São Francisco 4/10;
baía de Todos os Santos 1º/11;
cabo de São Tomé 21/12;
Rio de Janeiro 1º/1/1502;
Angra dos Reis 6/1;
ilha de São Sebastião 20/1;
porto de São Vicente 22/1.
Pausa
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A U L A
Encarregada de explorar a costa, essa primeira expedição oficial enviada
à América Portuguesa observou aí a existência de grande quantidade de
pau-brasil pau-brasil pau-brasil pau-brasil pau-brasil. Até então importado do Oriente e largamente usado na Europa para
a tintura de tecidos, o pau-brasil era um produto que atendia aos interesses
comerciais portugueses. Enfim, era encontrada alguma coisa que poderia fazer
a América Portuguesa render algum lucro. Nada que chegasse perto das Índias,
mas, ainda assim, melhor que nada....
Mais interessada no comércio oriental, a Coroa cedeu o direito de explo-
ração do pau-brasil a comerciantes portugueses. Estes, além de proteger a terra
com a construção de fortalezas, deveriam pagar o quinto quinto quinto quinto quinto (20%) de imposto
ao Tesouro Real.
Em 1503, chegou à colônia portuguesa a primeira expedição financiada por
Fernão de Noronha, um dos comerciantes de pau-brasil, com a tarefa de
estabelecer as bases da exploração dessa madeira. Exploração que só foi possível
graças à participação dos nativos, ,, ,, por meio do sistema de escambo escambo escambo escambo escambo: em troca do
trabalho de derrubar as árvores, limpá-las, arrumá-las em toras e embarcá-las
nas naus, os índios recebiam machados e instrumentos de metal, além de outros
pequenos objetos que os encantavam, como colares e tecidos, entre outros.
Para guardar a madeira e abrigar a tripulação das naus que vinham
transportá-la para a Europa, os “brasileiros” (comerciantes de pau-brasil)
construíram várias feitorias feitorias feitorias feitorias feitorias ao longo do litoral.
Percebeu como as relações dos portugueses com os habitantes da terra
se modificaram? Pense um pouco... Na chegada, foi a surpresa, o encantamen-
to diante de um povo tão diferente dos portugueses. Agora era a utilização
da capacidade de tra-
balho dos nativos, a
exploração da sua
mão-de-obra.
Os índios
Os nativos que ha-
bitavam o litoral eram
em sua grande maio-
ria do povo t upi - t upi - t upi - t upi - t upi -
guarani guarani guarani guarani guarani.
Observando o ma-
pa, você percebe que
foram os tupis que en-
traram em contato com
Cabral e sua tripula-
ção. Outros povos, cha-
mados de jês, habita-
vam o interior. Os ca-
raíbas e os nuarua-
ques, por sua vez, vi-
viam na Amazônia
e no Centro-Oeste.
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A U L A
As informações que temos sobre esses primeiros habitantes da América
Portuguesa são muito precárias. E você pode até saber por quê. Tal como na
América Espanhola, aqui também foram os conquistadores brancos que conta-
ram a história dos índios. Pode-se bem imaginar o que acontece quando uma
cultura procura descrever e analisar uma outra cultura que tem hábitos, costu-
mes e valores completamente diferentes.
Preconceitos e incompreensões estão presentes nos relatos escritos por
cronistas, viajantes e padres. Além dos preconceitos, existe ainda a falta de dados
sobre os índios. É difícil, por exemplo, avaliar quantos eram os habitantes da
terra quando os portugueses aqui chegaram. O número varia de 2 milhões
a 5 milhões, conforme a fonte consultada.
O historiador Boris Fausto (História do Brasil, p. 38) observa que os aimorés,
rebeldes e guerreiros, foram sempre apresentados de forma negativa. Segundo
os relatos, os aimorés viviam como animais na floresta; eram canibais, porque
gostavam da carne humana. Quando a Coroa portuguesa publicou a primeira lei
em que se proibia a escravização dos índios (1570), só os aimorés foram
especificamente excluídos da proibição.
Na América Portuguesa não havia nenhum grande império, como vimos na
América Espanhola. Os grupos tupis viviam da caça, da pesca, da coleta de
frutas e da agricultura. Tinham, portanto, uma íntima relação com a natureza.
Se ocorresse qualquer desequilíbrio nas condições naturais, como seca,
exaustão da terra, redução de animais, os tupis partiam em busca de outra região
para viver. Isso podia acontecer porque os índios costumavam derrubar árvores
e fazer a queimada para, em seguida, plantar feijão, abóbora e mandioca
alimentação que, posteriormente, sustentou a colônia. Com atividades limitadas
à própria sobrevivência não comercializavam nada e donos de técnicas
simples, os tupis não causavam danos ao meio ambiente.
Os portugueses ganharam muito na relação com os nativos. Além de
aprender com eles os segredos de sobreviver numa terra desconhecida, ainda se
utilizaram de sua capacidade de trabalho para aqui se estabelecer.
Já para os índios, você sabe, a história foi muito diferente. Foi uma história
de fuga, violência, escravização, doença e morte. Dos milhões que havia no
século XVI, restam hoje apenas alguns milhares.
A exploração do pau-brasil não demorou a entrar em crise, em parte pela
baixa lucratividade do negócio muito risco e pouco dinheiro. Isso fez com que
os comerciantes não se interessassem em renovar os contratos com a Coroa
portuguesa.
Outro motivo do desinteresse foi a concorrência que os comerciantes comerciantes comerciantes comerciantes comerciantes
franceses franceses franceses franceses franceses faziam na exploração da madeira. A França não tinha comércio direto
com o Oriente e precisava de tinta para suas manufaturas de tecidos. Decidiu
apanhar aqui o pau-brasil, devido ao pequeno interesse de Portugal pela terra,
e também porque os franceses não respeitavam a idéia do “mar fechado”,
determinada pelo Tratado de Tordesilhas. Sabe o que dizia o rei da França,
Francisco I? Que ele desconhecia o testamento de Adão que dividira o mundo
entre Portugal e Espanha.
lm tcmpo
UItimas
paIavras
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A U L A
Desde 1504, quando aqui esteve Binot Paulmier de Gonneville, a presença
de franceses foi constante no litoral da América Portuguesa. Eles construíam
feitorias e utilizavam a mão-de-obra nativa. A ameaça francesa fez com que o
governo português para aqui mandasse, entre 1516 e 1528, expedições guarda- expedições guarda- expedições guarda- expedições guarda- expedições guarda-
costas costas costas costas costas. Essas expedições, sob o comando de Cristóvão Jacques, deveriam expulsar
os invasores do litoral, destruir suas feitorias e queimar suas naus.
Além do medo de perder a colônia americana para os franceses, dois
outros motivos fizeram com que Portugal voltasse sua atenção para cá.
Em primeiro lugar, as notícias da existência de fortunas fabulosas no interior
do continente o famoso Eldorado atraíram espanhóis para o litoral sul,
em busca da região da prata. Mas foi principalmente o declínio do comércio com
as Índias, em virtude da concorrência dos holandeses na região, o que levou
os portugueses a modificar a sua política de ocupação colonial. Era preciso
colonizar a América.
Em 1530, o rei d. João III, que sucedera a d. Manuel no trono português,
determinou a organização de uma nova expedição para lançar os fundamentos
do povoamento povoamento povoamento povoamento povoamento da terra. A questão era como fazê-lo.
Na próxima aula, falaremos do desafio de transformar a terra nativa na
América Portuguesa. Que atividades econômicas seriam aqui desenvolvidas?
Quem viria para cá morar, viver, trabalhar? Como o Estado português admi-
nistraria uma colônia tão distante? Que tratamento seria dado aos nativos?
Essas e outras questões você discutirá no próximo módulo: Construindo Construindo Construindo Construindo Construindo
a América Portuguesa a América Portuguesa a América Portuguesa a América Portuguesa a América Portuguesa.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Justifique o título que foi dado a esta aula.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Você viu, na Aula 2, que as relações de Vasco da Gama nas Índias tiveram
marcas de violência. Na América, os contatos com a gente da terra foram
amistosos. Explique as diferenças entre os dois relacionamentos.
Exercício 3 Exercício 3 Exercício 3 Exercício 3 Exercício 3
O rei português d. Manuel leu a carta de Caminha com as novas do
“achamento” de uma nova terra para os domínios da Coroa portuguesa.
Você acha que as perspectivas de aproveitamento econômico dessa terra
animaram o rei? Pense um pouco e resuma sua resposta.
Exercício 4 Exercício 4 Exercício 4 Exercício 4 Exercício 4
O nome “terra do brasil” passou a ser dado à América Portuguesa por causa
da grande quantidade de pau-brasil que havia em seu litoral. Faça um
resumo de como era feita a exploração da madeira.
Exercício 5 Exercício 5 Exercício 5 Exercício 5 Exercício 5
Discuta a seguinte afirmativa: os nativos da América Portuguesa eram
muito mais atrasados do que os da América Espanhola, e, por isso, não
tiveram nenhuma participação no processo de exploração da terra.
Exercício 6 Exercício 6 Exercício 6 Exercício 6 Exercício 6
A partir de 1530, a Coroa portuguesa começou a mudar sua política em
relação à América, preocupando-se em ocupá-la e colonizá-la. Explique por
que isso ocorreu.
lxcrcícios
S
) 7 )
MúduIo 2
Construindo a
Amórica Portugucsa
No primeiro módulo você acompanhou a viagem viagem viagem viagem viagem dos europeus à América,
ao Novo Mundo Novo Mundo Novo Mundo Novo Mundo Novo Mundo. Neste segundo módulo, vamos examinar o processo de
ocupação das terras americanas pelos europeus. Como conviver com os povos
nativos? Como explorar as riquezas das novas terras? Como transformar essas
terras em colônias colônias colônias colônias colônias européias?
Esses e outros desafios enfrentados pelos europeus fazem parte da história
que vamos acompanhar a partir de agora.
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A U L A
O que significava, na Época Moderna, criar
uma colônia? Será que era simplesmente enviar populações para ocupar
as terras conquistadas? Ou era uma tarefa muito mais complicada?
Afinal, a disputa era grande entre os países da Europa, e a rivalidade comercial
crescia cada vez que novas mercadorias vindas das colônias apareciam como
novidade. Portanto, era preciso não só explorar, como garantir a posse das terras
de além-mar.
Nesta aula, vamos examinar as soluções que o Estado português encontrou
para iniciar o processo de colonização das terras brasileiras.
McrcantiIismo c coIonização
Hoje, quando você vai ao mercado, encontra grande quantidade de produtos
industriais e agrícolas. A maior parte desses produtos é produzida aqui no Brasil.
Atualmente o Brasil é um país de produção bastante diversificada, que possui
uma conjunto de atividades econômicas capazes de atender às necessidades
fundamentais de sua população, apesar dos contrastes de renda e de consumo.
Na época colonial, a história era bem diferente. Em geral, produzia-se um
número reduzido de gêneros para o mercado externo. Por que isso ocorria?
Para responder a essa pergunta, precisamos viajar novamente pelo tempo
e pelo espaço. Vamos desembarcar na Europa, na passagem do século XV
para o século XVI.
Você já estudou, em aulas anteriores, que a Europa passava por importantes
transformações nos séculos XV e XVI. O fortalecimento do Estado, o avanço
comercial, a nova mentalidade e, finalmente, a expansão pelos “mares nunca
dantes navegados” eram mostras significativas de que muita coisa estava
mudando. Depois da chegada às novas terras, era hora de integrar a América
ao mundo comercial europeu.
Vivia-se a era do comércio e dos metais preciosos. A descoberta de ricas
minas de ouro e prata pelos espanhóis, na América, deu nova força à economia
européia. Criavam-se bancos, companhias de comércio e navegação. Os comer-
ciantes tornavam-se cada vez mais importantes para a economia dos nascentes
Estados europeus.
Para os reis, dois cuidados eram necessários: garantir a segurança das suas
fronteiras e fortalecer o Tesouro Real. Para isso, eles se valeram de um conjunto
O início da
coIonização portugucsa
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MÓDULO 2
Abcrtura
Movimcnto
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de novas idéias que, em geral, valoriza-
vam a preservação dos metais preciosos
nos reinos. Com os cofres cheios, o Esta-
do se envolvia diretamente nas ativida-
des econômicas.
Esse corpo de idéias e práticas eco-
nômicas foi chamado por alguns auto-
res de mercantilismo mercantilismo mercantilismo mercantilismo mercantilismo. Assim, na era era era era era
mercantilista mercantilista mercantilista mercantilista mercantilista, o fundamental era ga-
rantir a segurança e a riqueza do reino e
a glória de seu monarca. Medidas foram
tomadas para aumentar e controlar a aumentar e controlar a aumentar e controlar a aumentar e controlar a aumentar e controlar a
produção e a comercialização no reino produção e a comercialização no reino produção e a comercialização no reino produção e a comercialização no reino produção e a comercialização no reino,
e para assegurar novas rotas comerciais novas rotas comerciais novas rotas comerciais novas rotas comerciais novas rotas comerciais
obtidas muitas vezes pela conquista e obtidas muitas vezes pela conquista e obtidas muitas vezes pela conquista e obtidas muitas vezes pela conquista e obtidas muitas vezes pela conquista e
exploração de terras fora da Europa exploração de terras fora da Europa exploração de terras fora da Europa exploração de terras fora da Europa exploração de terras fora da Europa.
Foi nesse contexto que a Coroa por-
tuguesa iniciou o processo de ocupação
da sua colônia na América. Mas o Esta-
do português precisava encontrar uma
forma de manter a posse das terras.
Uma boa saída era criar atividades que atraíssem e fixassem os portugueses
aqui. Estamos começando a colonização. Para iniciar qualquer empreedimento,
a primeira questão é saber o que produzir. Isso, a Coroa portuguesa já sabia.
A produção de açúcar açúcar açúcar açúcar açúcar no arquipélago da Madeira, já no século XV, tornara-
se altamente lucrativa para o Estado português e seus sócios, especialmente
os comerciantes e banqueiros da região de Flandres Flandres Flandres Flandres Flandres. Quando o Estado
português se decidiu pela produção do açúcar nas terras brasileiras, estava
decidindo também reproduzir aqui um modelo de exploração já desenvolvi-
do em outros lugares.
A Coroa promovia a distribuição de terras (sesmarias) a particulares, que
se responsabilizavam pela produção.
A produção era concentrada nos engenhos.
A distribuição e o financiamento do que se produzia ficavam por conta
especialmente dos comerciantes e banqueiros flamengos (de Flandres).
Finalmente, a mão-de-obra mão-de-obra mão-de-obra mão-de-obra mão-de-obra utilizada seria a escrava africana escrava africana escrava africana escrava africana escrava africana.
Como destaca o historiador Francisco Carlos T. da Silva (Conquista
e colonização da América Portuguesa, p. 28), não se deve esquecer que a escravi-
dão era uma instituição forte em Portugal, e era considerada justa, pois trazia
os infiéis para o seio da Igreja.
Inicialmente foram utilizados como escravos os mouros e habitantes das
ilhas do Atlântico. Serviam como mão-de-obra doméstica em Portugal e, mais
tarde, nas plantações das colônias atlânticas portuguesas.
Posteriormente, com o avanço da presença dos portugueses na África,
iniciou-se a escravização dos africanos. Entre 1450 e 1500, segundo o mesmo
autor, o número de negros apresados chegou a 150 mil, numa prova da
associação íntima entre colonização e escravismo colonização e escravismo colonização e escravismo colonização e escravismo colonização e escravismo.
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Os cambistas
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A experiência portuguesa na produção do açúcar, a existência de redes de
distribuição e a possibilidade de utilização de mão-de-obra escrava das colônias
africanas foram, portanto, razões decisivas que levaram à implantação da
empresa açucareira nas terras brasileiras. Em 1533, em São Vicente (atual Estado
de São Paulo), foi construído o primeiro engenho na América Portuguesa.
Estavam definidas as linhas gerais, e o primeiro passo já fora dado. Tratava-
se agora de fazer com que esse novo pólo produtivo crescesse e fosse adminis-
trado. Quais seriam as atribuições do Estado e da iniciativa particular? Era hora
de atrair membros da elite portuguesa e capitais para as terras brasileiras.
Capitanias c Govcrno-GcraI
A fórmula encontra-
da pela Coroa portuguesa
para iniciar a colonização
foi a adoção do sistema de
capitanias hereditárias capitanias hereditárias capitanias hereditárias capitanias hereditárias capitanias hereditárias.
O território da colônia foi
dividido em quinze gran-
des faixas de terra que
passaram a ser adminis-
tradas, cada uma, por um
capitão-donatário capitão-donatário capitão-donatário capitão-donatário capitão-donatário, como
mostram estes mapas:
o da direita é uma repro-
dução de mapa da época.
Ao donatário foram dados amplos pode-
res administrativos e econômicos. Só o dona-
tário podia exercer a justiça na sua faixa de
terra. Além disso, ele recebia parte dos impos-
tos recolhidos. A ele cabia também a distri-
buição de terras (sesmarias).
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A U L A
O monopólio do sal e das especiarias manteve-se com a Coroa portuguesa,
que procurou, nesses primeiros tempos, criar um conjunto de regras com
o objetivo de estimular a iniciativa particular sem, no entanto, abrir mão
da soberania sobre as terras brasileiras.
Durou pouco tempo essa experiência, que dava grandes poderes à iniciativa
particular. Apenas duas capitanias, São Vicente e Pernambuco, conseguiram se
transformar em importantes centros de produção de açúcar.
A falta de estímulos da Coroa às capitanias, o abandono, a carência de
recursos e ainda a resistência indígena foram algumas razões que obrigaram
o Estado português a criar uma estrutura administrativa mais centralizada,
na figura de um governador-geral governador-geral governador-geral governador-geral governador-geral. A ele caberia auxiliar o esforço colonizador
das capitanias, combater as rebeliões indígenas e defender o território das
invasões estrangeiras.
Em 1549, chegava à América Portuguesa o fidalgo português Tomé
de Sousa, primeiro governador-geral. Junto com ele vinham também os jesuítas jesuítas jesuítas jesuítas jesuítas,
principais responsáveis pela evangelização dos nativos e pela educação
na colônia. Aos poucos, os donatários foram perdendo poder para o governa-
dor-geral e seus auxiliares: o ouvidor-mor (justiça), o provedor-mor (fazenda)
e o capitão-mor (defesa).
Naquele mesmo ano de 1549, Tomé de Sousa fundava a cidade de Salvador,
o centro político-administrativo da colônia. Com a formação dos primeiros
núcleos urbanos, fazia-se necessário ordenar o poder local. Daí a criação das
câmaras municipais câmaras municipais câmaras municipais câmaras municipais câmaras municipais, responsáveis pela administração local, obras públicas,
regulamentação do comércio e ofícios e abastecimento.
As câmaras municipais, que logo se tornaram a base da administração
na colônia, eram formadas por membros eleitos por uma assembléia de proprie-
tários locais.
Com o decorrer do tempo, as câmaras transformaram-se em local privilegia-
do de atuação dos proprietários de terras e de escravos. Esses proprietários,
muitas vezes, entraram em choque com os comerciantes portugueses, respon-
sáveis pelos preços dos produtos de exportação.
Câmara municipal
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A U L A
Francisco Carlos T. Silva nos conta também da existência de um “juiz do
povo”, que era eleito pelas associações locais com o intuito de representar,
na câmara, todos os casos que requeressem providências para o bem comum.
O mesmo autor nos relata uma revolta ocorrida em Salvador, nos anos de
1710 e 1711, em que o “juiz do povo” liderou um levante popular contra o preço
do sal (que era monopólio da Coroa) e pela expulsão dos franceses que, naquele
momento, dominavam o Rio de Janeiro.
A reação da Coroa foi pronta e dura: em 1713 são suprimidos os juízes
do povo.
Francisco Carlos T. da Silva, Francisco Carlos T. da Silva, Francisco Carlos T. da Silva, Francisco Carlos T. da Silva, Francisco Carlos T. da Silva, Conq Conq Conq Conq Conquista e colonização da América Portuguesa uista e colonização da América Portuguesa uista e colonização da América Portuguesa uista e colonização da América Portuguesa uista e colonização da América Portuguesa, ,, ,, p. 37 p. 37 p. 37 p. 37 p. 37
Medidas mais rígidas, como a extinção dos “juízes do povo”, foram
se acentuando especialmente na segunda metade do século XVIII. Naquele
momento, conhecido como a época pombalina época pombalina época pombalina época pombalina época pombalina, ocorria um processo de forte
centralização do poder em Portugal.
Em razão do que se passava na metrópole, importantes alterações adminis-
trativas e políticas aconteceram na colônia: extinguiram-se as capitanias heredi-
tárias (transformadas em reais) reais) reais) reais) reais), a autonomia das câmaras municipais dimi-
nuiu, e os jesuítas foram expulsos das terras brasileiras.
Chegava ao fim uma experiência administrativa de dois séculos. Até então,
existira uma administração que se baseava num poder local e num poder
regional relativamente fortes. Em grande parte, isso se devia às enormes
dificuldades da Coroa portuguesa e do governador-geral para controlar o vasto
território da colônia. Agora, em meados do século XVIII, tentava-se um novo
modelo de administração, com maior interferência do poder público maior interferência do poder público maior interferência do poder público maior interferência do poder público maior interferência do poder público.
A cmprcsa açucarcira c a coIonização
Estamos vendo, então, como foi se firmando o processo de colonização:
com uma produção agrária voltada para a exportação (agroexportação) e muitas
medidas de administração e controle da vida dos colonos.
Com o declínio de São Vicente, Pernambuco tornou-se, na segunda metade
do século XVI e no decorrer século XVII, o centro da principal área produtiva
da colônia. Era o núcleo da região escravista e mercantil região escravista e mercantil região escravista e mercantil região escravista e mercantil região escravista e mercantil que se desenvolveu
especialmente no Nordeste Nordeste Nordeste Nordeste Nordeste das terras brasileiras. O açúcar foi a base da ocupação
dessa região. O número de engenhos em Pernambuco cresceu rapidamente:
de cinco, no ano de 1550, subiu para 66 em 1584.
O açúcar brasileiro transformara-se em um negócio altamente lucrativo.
A participação dos comerciantes flamengos, especialmente holandeses, am-
pliou-se bastante ao longo do século XVI. Eram eles os maiores responsáveis pelo
transporte, refino e distribuição do produto.
Em torno da região do açúcar se desenvolveram algumas atividades que
gradativamente foram assumindo maior importância. Entre outras, destacaram-
se a pecuária (voltada para o consumo interno) e o plantio do tabaco (que servia
para a troca com as áreas fornecedoras de escravos na África).
Os portugueses, ao mesmo tempo em que foram tomando posse das terras
brasileiras, aumentavam suas riquezas com os lucros e impostos que recolhiam
na grande região escravista.
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Os objetivos da política mercantilista portuguesa haviam sido atingidos.
A colônia, agora, tornara-se um negócio capaz de se manter, além de represen-
tar uma fonte de renda para o Tesouro Real e para os comerciantes portugue-
ses. E era um negócio tão lucrativo que a Coroa portuguesa tratou de segurá-
lo para si.
Uma forma de fazer isso foi estabelecer leis que obrigavam os produtores na
colônia a vender seus produtos apenas aos comerciantes que tinham a permissão
da Coroa portuguesa. Criou-se com isso o monopólio monopólio monopólio monopólio monopólio ou exclusivo comercial exclusivo comercial exclusivo comercial exclusivo comercial exclusivo comercial,
parte de um conjunto de relações econômicas e políticas que recebeu, mais tarde,
o nome de pacto colonial pacto colonial pacto colonial pacto colonial pacto colonial.
Nas próximas aulas, estudaremos com mais detalhes os mecanismos
do pacto colonial.
Em 1608, o governador-geral d. Diogo de Menezes e Siqueira assim escreveu
ao monarca português: “As verdadeiras minas do Brasil são o açúcar e o pau-
brasil que Vossa Majestade tem tanto proveito, sem lhe custar da fazenda um só
vintém”.
Você concorda com a afirmativa de d. Diogo? Justifique sua resposta.
Esta aula tratou do início da transformação das terras brasileiras em América
Portuguesa. As principais decisões por parte da Coroa portuguesa foram
tomadas então, e a empresa açucareira tornou-se a base do processo de coloni-
zação. Mas muita coisa ainda estava para acontecer.
Na próxima aula, vamos estudar mais de perto as relações de trabalho
na colônia que, como vimos, se caracterizaram pela utilização da mão-de-obra
escrava. Por que foi necessário o trabalho escravo? O que era o trabalho no
engenho colonial? O trabalho escravo deixou marcas na sociedade brasileira?
É o que você vai ver a seguir.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Releia o item Mercantilismo e colonização Mercantilismo e colonização Mercantilismo e colonização Mercantilismo e colonização Mercantilismo e colonização e explique como a Coroa
portuguesa procurou manter a posse das terras brasileiras.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Releia o item A empresa açucareira e a colonização A empresa açucareira e a colonização A empresa açucareira e a colonização A empresa açucareira e a colonização A empresa açucareira e a colonização e comente a seguinte
frase: “O açúcar foi a base da colonização portuguesa em terras brasileiras”.
Pausa
UItimas
paIavras
lxcrcícios
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MÓDULO 2
Você aprendeu, na Aula 5, que a cana-de-
açúcar foi o produto mais importante da economia colonial brasileira. Na fase
da ocupação da colônia, a partir de 1530, a plantação da cana ocupou uma grande
parte do litoral nordeste. A colonização pelo litoral tinha uma forte razão de ser.
Era a região mais próxima da metrópole portuguesa. Estavam ali as grandes
fazendas, e também os maiores e mais ricos engenhos engenhos engenhos engenhos engenhos. Os engenhos eram
conhecidos como fábricas de açúcar fábricas de açúcar fábricas de açúcar fábricas de açúcar fábricas de açúcar.
Nossa aula de hoje é uma viagem ao interior dessas fábricas. Falaremos
da produção e do trabalho nos engenhos. Conheceremos também outras formas
de trabalho que se desenvolveram ao redor dos engenhos ou em outras partes do
território colonial, nas quais a cana-de-açúcar não foi o produto mais importante.
No intcrior da fábrica dc açúcar
Comecemos esta aula penetrando num grande engenho de açúcar localiza-
do na capitania da Bahia, no início do século XVIII. Seu nome era Sergipe do
Conde. Nosso guia será um importante cronista daquela época: o padre jesuíta
italiano João Antônio Andreoni, também conhecido como Antonil.
Antonil nos conta que o primeiro passo para uma boa produção de açúcar era
a escolha da terra: “As que chamam massapés, terras negras e fortes, são as mais
excelentes para a planta das canas”. Depois disso, era necessário roçar, queimar
e limpar a terra, prepará-la para o plantio.
Na Bahia, era no mês de agosto que começava o corte da cana. Como tudo
na vida, o corte também tinha sua ciência. Era necessário cortar primeiro as canas
velhas e, depois, as mais novas. O transporte da cana, por terra, era feito nos
carros de bois. Por mar, ela vinha “nas barcas sem velas, com quatro varas que
serviam em lugar de remos”.
O engenho, para onde se levava essa carga, era um conjunto de casas e
oficinas nas quais se faziam a moagem da cana, o cozimento e a purificação do
açúcar. No engenho real de Sergipe do Conde, utilizava-se a força da água para
moer a cana.
Moem-se as canas metendo algumas delas (...) entre dois eixos, onde,
apertadas fortemente, se espremem (...); e, depois delas passadas, torna-se de
outra parte a passar o bagaço, para que se esprema mais, e de todo sumo,
ou licor que conserva.
TrabaIho c cscravidão
na Amórica Portugucsa
Abcrtura
Movimcnto
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Era assim que se extraía o caldo. Depois de
acondicionado em grandes recipientes, o caldo
era guindado para a casa das caldeiras para se
iniciar o cozimento.
A moagem era acompanhada pelo feitor da
moagem e pelo mestre do açúcar, responsáveis
pelo ritmo e pela organização do trabalho.
A moenda era o lugar mais perigoso no engenho,
(...) porque, se por desgraça a escra-
va que mete a cana entre os eixos, ou
por força do sono, ou por cansada,
ou qualquer outro descuido, meteu
desatentadamente a mão mais adi-
ante do que devia, arrisca-se a pas-
sar moída entre os eixos, se não lhe
cortarem logo a mão ou o braço apa-
nhado, tendo para isso junto à moenda
um facão (...). E este perigo é ainda
maior à noite, em que se mói igual-
mente como de dia (...)
Só na casa da moenda, eram necessários
de sete a oito escravos. Uns eram responsáveis
pela moagem, e outros pelo transporte do caldo
até a casa das caldeiras.
Ao lado da casa da moenda, localizava-se
a casa das fornalhas, chamadas por Antonil de
“bocas tragadoras de matos, cárcere de fogo e fumo perpétuo e viva imagem dos
vulcões, Vesúvios e Etnas e quase disse, do Purgatório ou do Inferno”. Nela
trabalhavam os escravos considerados perigosos, os condenados, “presos em
compridas e grossas correntes de ferro”.
Acima das fornalhas estava a casa das caldeiras. Nelas trabalhavam cerca
de oito caldeireiros. Depois de purificado, o caldo era acondicionado em grandes
tachos, nos quais era levado ao cozimento.
O açúcar era cozido e batido por quatro tacheiros. Todo esse trabalho era
supervisionado pelo mestre do açúcar. Corria por sua conta verificar a limpeza
do caldo e o ponto de cozimento do produto.
Finalmente, fora do conjunto de casas que formavam o engenho, encontra-
va-se a casa de purgar local em que o açúcar, já acondicionado em fôrmas
de barro, era purificado e separado segundo a qualidade. Mais tarde, o produto
era pesado e encaixotado para a venda.
Na casa de purgar trabalhavam os escravos que produziam as fôrmas
de barro, as “mães do balcão” (responsáveis pela separação do açúcar) e também
os responsáveis pela pesagem e pelo encaixotamento.
Terminamos aqui nossa rápida visita a um engenho no período colonial.
Aprendemos com Antonil muitas coisas. Pudemos ver que a produção de açúcar
era uma atividade que requeria muitos recursos e organização.
Produzir e transportar a cana de açúcar até o engenho já exigia um
grande número de trabalhadores. No transporte, utilizavam-se os carros carros carros carros carros
de bois de bois de bois de bois de bois: daí a necessidade de se desenvolver também, no interior da
fazenda, a criação de gado.
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A U L A
No interior do engenho, o trabalho era dividido. Conviviam escravos,
feitores e o mestre do açúcar. Em geral, o mestre do açúcar era um trabalhador
que recebia bom salário.
Em um grande engenho, como pudemos ver, o trabalho era intenso e,
algumas vezes, varava a noite.
Será que o mesmo acontece hoje nas nossas usinas de açúcar? Você conhece
uma usina de açúcar?
Pesquise. Pergunte aos seus amigos e companheiros de trabalho como
se organiza o trabalho em uma usina de açúcar.
Em todas as fases da produção estava a mão-de-obra escrava africana.
Na moenda e nas fornalhas, as condições de trabalho eram extremamente
precárias. Nosso guia, Antonil, talvez impressionado com o trabalho na casa das
fornalhas, chega a compará-la ao inferno.
O grande engenho colonial, portanto, era moderno e escravista. Nele estavam
presentes traços típicos das manufaturas que, naqueles séculos XVI e XVII,
avançavam na Europa: divisão do trabalho, trabalho assalariado, produção para
o mercado. Ao mesmo tempo, porém, o trabalho era fundamentalmente escravo.
Segundo Antonil, “os escravos eram os pés e as mãos do senhor de engenho”.
Mas por que, no coração econômico da colônia coração econômico da colônia coração econômico da colônia coração econômico da colônia coração econômico da colônia, utilizou-se a mão-de-obra
escrava africana? Para tentar responder a essa pergunta, precisamos voltar ao
início da colonização portuguesa nas terras brasileiras.
Da cscravidão indígcna à cscravidão africana
Você aprendeu em aulas anteriores que, quando os portugueses chegaram
à nossa terra, encontraram aqui os nativos. Deram a eles o nome de índios,
porque os grandes navegadores que aqui desembarcaram acreditavam estar
chegando às Índias.
Pois bem, os nativos foram os primeiros grupos a ser capturados para
o trabalho forçado. A primeira iniciativa comercial da colônia, a exploração do
pau-brasil, foi feita com a ajuda dos índios. Eram eles que conheciam as matas,
que sabiam a maneira correta de cortar a madeira. Se a terra recém-encontrada
pelos portugueses era nova para eles, era inteiramente conhecida pelos nativos
que aqui viviam. Os colonizadores perceberam logo o quanto precisariam da
população local para explorar as terras que eles desconheciam.
A comunicação com os índios foi facilitada pelo trabalho dos jesuítas nas
missões missões missões missões missões. As missões eram os aldeamentos feitos pelos jesuítas para os índios,
que ali aprendiam ofícios úteis à colonização (carpintaria, tecelagem, cestaria
e outros).
Os jesuítas protegiam os índios dos colonos que queriam escravizá-los.
Mas prestavam também um grande serviço ao governo e aos senhores, pacifi-
cando tribos inteiras que se revoltavam contra os portugueses.
Para facilitar a comunicação entre os nativos e os colonizadores, os jesuítas
criaram uma língua comum, chamada de língua geral língua geral língua geral língua geral língua geral, que era uma adaptação
dos termos tupis à gramática do latim.
Você saberia citar algumas palavras da nossa língua que vieram desse
cruzamento dos termos tupis com a gramática do latim?
Pausa
lm tcmpo
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Com o grande desenvolvimento da cultura açucareira, começou a faltar
gente, isto é, mão-de-obra, para o trabalho. Os portugueses tentaram continuar
a se servir dos índios, mas estes não estavam rendendo tanto quanto pretendiam
os colonizadores. Resistiam àquela forma de trabalho forçado, adoeciam pelo
contato com os colonizadores, morriam ou fugiam para o interior. Os jesuítas,
por sua vez, contribuíram para uma falta ainda maior de mão-de-obra, atraindo
os índios para as missões. Por essas razões, a Coroa portuguesa, que estava
interessada no aumento da produção do açúcar, favoreceu a importação
de escravos negros da África.
Já em princípios do século XVI foi iniciado o comércio de escravos para
o Novo Mundo. A Espanha os introduziu na América Espanhola (Antilhas)
e Portugal os introduziu no Brasil. A partir de 1549 foram importados negros em
maior quantidade para as capitanias da Bahia e de Pernambuco. Os comercian-
tes traziam os negros da África e os vendiam aos senhores e aos lavradores por
preços vantajosos. Com os lucros da venda do açúcar, os senhores compravam
mais escravos, aumentando a produção do engenho. Os negros vinham como
escravos de uma região que também praticava a escravidão.
Os escravos que chegavam ao Brasil procediam de diferentes regiões
da África. Vinham de Angola, Mina, Cabinda, Congo, Moniolo.
A transição da escravidão indígena para a africana não foi muito rápida
nos primeiros tempos. Segundo Boris Fausto,
(...) nas décadas de 1550 e 1560, praticamente não havia escravos
africanos nos engenhos do Nordeste. A mão-de-obra era constituída por
escravos índios ou, em menor escala, por índios provenientes das aldeias
jesuíticas, que recebiam um salário ínfimo. Tomando o exemplo de um
grande engenho Sergipe do Conde, na Bahia (...) podemos ter uma
idéia de como se processou a transição. Em 1574 os africanos representa-
vam 7% da força de trabalho; em 1591 eram 37% e, em torno de 1638,
africanos e afro-brasileiros compunham a totalidade da força de trabalho.
Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, História do Brasil História do Brasil História do Brasil História do Brasil História do Brasil, p. 79-80 , p. 79-80 , p. 79-80 , p. 79-80 , p. 79-80
Como você explicaria a transição da escravidão indígena para a africana?
lscravos, Iavradorcs c indígcnas
A escravidão africana firmou-se, no final do século XVI, como a mão-de-obra
básica na grande região escravista do Nordeste brasileiro. Nessa região forma-
ram-se grandes fazendas que também passaram a ser chamadas de engenhos.
Mas, além da fábrica de açúcar, o que mais compunha o mundo do engenho?
Em volta da produção da cana, nas grandes fazendas, encontramos a casa-
grande, residência do senhor e da família colonial. Encontramos também
a senzala, moradia dos escravos, e a capela, onde se realizavam os cultos
religiosos católicos. Quanto mais rico fosse o fazendeiro, maior era o engenho
e maior o número de escravos para plantar e colher a cana, preparar, transportar
e embarcar o açúcar produzido.
Mas era preciso também um bom pasto, para alimentar os bois. E também
eram necessárias matas que fornecessem lenha. A lenha era queimada nas
fornalhas para fazer ferver o caldo da cana que, depois, se transformava em açúcar.
Estamos vendo, portanto, que muitas atividades foram surgindo em volta
da produção do açúcar.
Pausa
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Nem todos os agricultores que plantavam cana tinham condições de manter
um engenho. Esses lavradores lavradores lavradores lavradores lavradores levavam as suas canas a um engenho próximo
e, em troca, o senhor daquele engenho dava-lhes uma parte, geralmente a
metade, do açúcar produzido com elas.
Com o aumento do número de engenhos, aumentou também a população
brasileira. As áreas de terra colonizada ampliaram-se cada vez mais.
Nas primeiras décadas do século XVII havia cerca de cem engenhos apenas
na capitania de Pernambuco, a mais importante da região açucareira.
Fora dos engenhos e das plantações de cana, uma população menor
se espalhava pelas áreas de criação de gado. Estamos penetrando agora no
interior da colônia: no caminho do norte, o sertão nordestino; pelo sul, as terras
do oeste, entrando pela capitania de São Vicente, onde hoje é São Paulo.
As zonas de pastoreio não rendiam os mesmos lucros
que os engenhos traziam aos seus donos. Os escravos eram
em número bem menor, pela própria natureza da atividade
do pastoreio, e pelo fato de predominar ali uma agricultura
de subsistência.
Nas regiões que cercavam os engenhos, no interior,
encontramos mestiços livres, brancos pobres, escravos li-
bertos, lavradores mais modestos — enfim, aqueles que
trabalhavam nas atividades econômicas voltadas para
o atendimento da própria colônia.
Era preciso muito dinheiro para entrar no tráfico de
escravos. Os senhores da região açurareira participavam
ativamente desse mercado. Já os senhores das capitanias
do sul da colônia não podiam pagar o custo da compra
de escravos.
Outra forte razão fez com que as capitanias do sul não
prosperassem da mesma forma que as do norte e nordeste.
Eram mais distantes da metrópole portuguesa, e o governo
em Portugal não pretendia gastar com uma capitania que
não pudesse controlar bem.
Havia ainda a serra do Mar, que dificultava o acesso
às capitanias do sul. Por tudo isso, essas capitanias não
podiam comprar escravos negros que custavam caro.
Qual foi a solução encontrada pelas capitanias do sul?
Intensificar a busca aos índios Intensificar a busca aos índios Intensificar a busca aos índios Intensificar a busca aos índios Intensificar a busca aos índios. Os bandeirantes bandeirantes bandeirantes bandeirantes bandeirantes, em sua
aventura de exploração do interior da colônia, seguiam
a rota dos rios, penetravam no território e caçavam
impiedosamente os índios que ali habitavam.
Foram muitos e violentos os confrontos entre os bandeirantes e os jesuítas
que protegiam os índios nos territórios das missões. Em São Vicente, o trabalho
escravo indígena foi largamente utilizado.
O açúcar, o tabaco, a pecuária e o comércio mudaram a face da colônia.
Em 1600, ou seja, cem anos depois da chegada dos portugueses em terras brasileiras,
a colônia contava com 100 mil habitantes. Desse total, 30 mil eram brancos e 70 mil
eram mestiços: negros e índios agregados. Milhares de pessoas chegaram atraídas
pelas possibilidades de enriquecimento que tanto se comentavam na Europa.
UItimas
paIavras
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As atividades econômicas foram se diversificando para atender à população
que aumentava ano a ano. Essas atividades podem ser classificadas em dois
grupos: as que tinham grande importância para o mercado europeu (produção
de pau-brasil, cana-de-açúcar e tabaco e, ainda, mineração) e as que tinham
grande importância para os que habitavam a colônia (agricultura de subsistên-
cia, pecuária, drogas do sertão, como guaraná, castanha, cravo, pimenta etc).
SÉCULO XVII
SÉCULO XVI
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Veja, nos mapas da página anterior, como as atividades econômicas
se distribuíram na colônia portuguesa. Espalhados pelo território, encontramos
homens livres, escravos libertos, lavradores e mestiços livres trabalhando
em suas respectivas atividades. Mas a maior parte do trabalho era mesmo feita
por escravos, índios e negros.
No regime escravista, a pessoa do escravo é propriedade de outro homem;
sua vontade está subordinada à autoridade de seu dono, o que quer dizer que
ele não tem o direito de exercer sua vontade própria; por fim, seu trabalho
é obtido mediante coação.
A escravidão marcou a sociedade brasileira, que, naquele momento, come-
çava a se formar. Possuir um escravo passou a ser muito importante. O escravo
era um bem que servia para medir a riqueza do senhor. Quanto mais escravos
um senhor pudesse comprar, mais rico demonstrava ser para a sociedade.
Além de indicar riqueza, ter escravos era sinal de prestígio. Um homem de
bem era aquele capaz de ter escravos em casa. Isso deixava claro para os outros
grupos que era ele bem-sucedido ou capaz de subir na vida.
No período colonial, era comum que pequenos lavradores tivessem um
ou dois escravos. Não havia reprovação pelo fato de se comprar e escravizar
um homem. A Igreja aprovava, a sociedade aprovava, a justiça garantia,
e os países de origem dos negros não reprovavam.
Durante quase trezentos anos a colônia se manteve graças ao trabalho
escravo, não só de negros, mas também de índios.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Leia o item No interior da fábrica de açúcar No interior da fábrica de açúcar No interior da fábrica de açúcar No interior da fábrica de açúcar No interior da fábrica de açúcar. Descreva as características
de um engenho de açúcar na América Portuguesa do século XVII.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Explique a afirmativa final da aula: “Durante quase trezentos anos
a colônia se manteve graças ao trabalho escravo, não só de negros,
mas também de índios”.
lxcrcícios
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MÓDULO 2
Abcrtura
Nas duas primeiras aulas deste módulo,
você acompanhou a construção da América Portuguesa. Nesta aula, vamos
estudar como outras metrópoles européias, Espanha e Inglaterra, ocuparam
e exploraram suas colônias americanas.
Esse percurso pela América colonial nos será útil para perceber as diferentes
modalidades de colonização e seus diferentes impactos na história das socieda-
des americanas.
A cmprcsa coIoniaI cspanhoIa
Vamos iniciar esta aula contando uma pequena história.
Com os primeiros alvores da madrugada o general espanhol já
estava de pé, inspecionando as suas tropas. Estas se reuniam, com
o coração palpitante, sob as respectivas bandeiras, enquanto
a trombeta emitia notas excitantes que (...) iam morrer em ecos
distantes nas montanhas. As chamas sagradas nos altares (. . . )
indicavam o sítio da capital, até que templos, torres e palácios
se revelaram em toda a plenitude (. . . ). Era o dia 8 de novembro
de 1519, um dia notável na história aquele em que os europeus
pi saram pel a pri mei ra pri mei ra vez na capi t al do mundo
ocidental.
Citado por W. Ceram, Citado por W. Ceram, Citado por W. Ceram, Citado por W. Ceram, Citado por W. Ceram, Deuses, túmulos e sábios Deuses, túmulos e sábios Deuses, túmulos e sábios Deuses, túmulos e sábios Deuses, túmulos e sábios, p. 279-80 , p. 279-80 , p. 279-80 , p. 279-80 , p. 279-80
Esse pequeno trecho, escrito em linguagem rebuscada por um historiador
do século passado, refere-se à chegada do exército do conquistador espanhol
Cortês à capital do império asteca, a cidade de Tenochtitlán chamada, pelo
autor, de capital do Ocidente.
Você pode perceber que o autor, com a utilização de diversos adjetivos,
fala ao mesmo tempo do deslumbramento e do temor que os conquistadores
sentiram ao entrar naquela grande cidade onde encontrariam o chefe asteca
Montezuma. Um ano após esse histórico encontro, o chefe Montezuma seria
morto. Algum tempo depois, todo o império asteca estaria destruído.
Sob seus escombros, na região que hoje compreende o México, foi montada
a colonização espanhola.
A coIonização
cspanhoIa c ingIcsa
na Amórica
Movimcnto
Arte asteca
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Os acontecimentos narrados acima foram típicos da colonização espanhola
na América. Não que a violência não tenha ocorrido também nas colonizações
portuguesa, inglesa ou francesa. Mas em nenhuma delas encontraram-se so-
ciedades com o grau de organização dos astecas, maias e incas presentes nos
domínios espanhóis (lembre-se da Aula 3). A existência dessas sociedades fez
com que a presença dos nativos fosse um traço fundamental na construção presença dos nativos fosse um traço fundamental na construção presença dos nativos fosse um traço fundamental na construção presença dos nativos fosse um traço fundamental na construção presença dos nativos fosse um traço fundamental na construção
da América Espanhola da América Espanhola da América Espanhola da América Espanhola da América Espanhola. Vejamos como isso ocorreu.
Você já deve saber que a colonização espanhola foi precedida de uma
verdadeira guerra de conquista do território americano. Alguns historiadores,
tentando traduzir em termos numéricos a extensão da conquista européia na
América não apenas a espanhola , chegam a afirmar que, por volta de 1492,
havia cem vezes mais nativos do que hoje.
Estimativas para todos os nativos da América em 1492 variam de 50
a 100 milhões, contra 60 a 70 milhões [de habitantes] em toda a Europa
à mesma época. A redução dos indígenas foi drástica. Foram dizimados pelos
maus-tratos, assassinatos, fome e, de modo especial, pelas doenças européias
e africanas, contra as quais não possuíam anticorpos.
Janaína Amado e Luiz Carlos Figueiredo, Janaína Amado e Luiz Carlos Figueiredo, Janaína Amado e Luiz Carlos Figueiredo, Janaína Amado e Luiz Carlos Figueiredo, Janaína Amado e Luiz Carlos Figueiredo, Colombo e a América Colombo e a América Colombo e a América Colombo e a América Colombo e a América, p. 62 , p. 62 , p. 62 , p. 62 , p. 62
Da mesma forma como aconteceu com a ocupação portuguesa, também
a Coroa espanhola precisava definir as linhas gerais do processo de colonização.
Algumas questões estavam em jogo, no final do século XV e início do século XVI.
Como extrair as riquezas americanas? O Estado criaria empreendimentos próprios
ou atuaria apenas no controle administrativo e no recolhimento de impostos?
Como a Coroa espanhola percebeu que não conseguiria promover a explo-
ração das novas terras apenas com seus recursos, em pouco tempo permitiu
a atuação da iniciativa privada. A questão da utilização da mão-de-obra nativa
teve então de ser enfrentada: os nativos poderiam ou não ser escravizados?
Para os colonizadores, a escravidão representava a única forma de explorar
as terras conquistadas. Já a Igreja Católica mostrava-se contrária à escravização
dos nativos: defendia que o papel fundamental da Espanha na América era
a salvação das almas pagãs salvação das almas pagãs salvação das almas pagãs salvação das almas pagãs salvação das almas pagãs.
A questão transformou-se em um grave problema político, que o Estado
espanhol tentou contornar ao longo do século XVI. A legislação espanhola
procurou, inicialmente, atender às exigências da Igreja. Mas, ao mesmo tempo
que atendia à Igreja, criava outras formas de satisfazer aos interesses dos
conquistadores e colonos.
A guerra justa guerra justa guerra justa guerra justa guerra justa foi uma dessas formas. Regulamentada em 1513, ela
permitia que populações nativas consideradas hostis fossem escravizadas.
Dessa forma, um grande número de nativos foi feito escravo. Mas as pressões
da Igreja sobre o Estado cresceram até que finalmente, na década de 1540,
a escravidão foi declarada inteiramente ilegal.
Todo esse conflito não impediu, no entanto, que a colonização espanhola
avançasse quando foram descobertas grandes minas de prata no Peru
e no México. Era o início da empresa mi neradora empresa mi neradora empresa mi neradora empresa mi neradora empresa mi neradora na América Espanho-
la. O problema da mão-de-obra teve de ser novamente enfrentado: a solução
encontrada foi o recolhimento forçado de nativos recolhimento forçado de nativos recolhimento forçado de nativos recolhimento forçado de nativos recolhimento forçado de nativos, que tinha origem em
formas de exploração da mão-de-obra já praticadas nos impérios inca e asteca,
antes da presença dos espanhóis nas terras americanas.
lm tcmpo
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Pausa
Mais uma vez buscava-se contornar a legislação contrária à escravização
dos nativos. Apesar das críticas e denúncias por parte de alguns religiosos,
o trabalho compulsório dos nativos foi um dos fundamentos da empresa o trabalho compulsório dos nativos foi um dos fundamentos da empresa o trabalho compulsório dos nativos foi um dos fundamentos da empresa o trabalho compulsório dos nativos foi um dos fundamentos da empresa o trabalho compulsório dos nativos foi um dos fundamentos da empresa
mineradora espanhola na América mineradora espanhola na América mineradora espanhola na América mineradora espanhola na América mineradora espanhola na América.
Como era o trabalho nas minas? O documento a seguir, de um contem-
porâneo, pode nos auxiliar:
O trabalho é duro: o índio passa oito horas na mina, mas as dimensões
da galeria só permitem quatro horas de trabalho por trabalhador.(...)
O trabalho é insano: o que ameaça o índio que trabalha no fundo, a curto prazo,
é a pneumonia, ao sair do calor da mina e encontrar-se nessa montanha exposta ao
vento, a 4.000 metros de altitude (...) . Não se deve acreditar que o trabalho forçado
seja gratuito; não é uma escravidão. O mitayo mitayo mitayo mitayo mitayo (...), isto é, o requisitado, tem direito
a um jornal em prata com o qual deve alimentar-se (...).
Citado por M. L. Belloto e A. M. Correa, Citado por M. L. Belloto e A. M. Correa, Citado por M. L. Belloto e A. M. Correa, Citado por M. L. Belloto e A. M. Correa, Citado por M. L. Belloto e A. M. Correa, A Améri ca Lat i na de col oni zação A Améri ca Lat i na de col oni zação A Améri ca Lat i na de col oni zação A Améri ca Lat i na de col oni zação A Améri ca Lat i na de col oni zação
espanhola. espanhola. espanhola. espanhola. espanhola.
Com base nessas informações e nos seus conhecimentos, escreva um peque-
no texto sobre a situação das populações nativas na América Espanhola.
A descoberta e extração de enormes
quantidades de metais preciosos levaram
a Coroa espanhola a aumentar o controle
das atividades comerciais de suas colônias
americanas.
Foram fixadas regras bastante rígidas.
Todo o comércio com as colônias passou
a ser centralizado na cidade espanhola de
Sevilha. Só comerciantes com permissão
da Coroa poderiam participar do comércio
colonial e deveriam integrar-se às duas fro-
tas anuais que eram enviadas à América,
exclusivamente exclusivamente exclusivamente exclusivamente exclusivamente para três portos, em toda
a colônia: Cartagena (Colômbia), Porto Belo
(Panamá) e Vera Cruz (México).
Essa organização, obviamente, enfren-
taria muitos problemas. As dificuldades
de abastecimento e fiscalização fizeram
com que o contrabando contrabando contrabando contrabando contrabando se tornasse uma
realidade freqüente em grande parte da
América Espanhola.
A mineração favoreceu a expansão de
atividades agropastoris em regiões próxi-
mas ao mercado criado pelas minas.
Mais tarde, com o declínio da mineração,
em meados do século XVII, essas regiões
tenderam a voltar sua produção especial-
mente para a metrópole.
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A U L A
Para concluir, tratemos agora de estabelecer algumas comparações entre as
colonizações portuguesa e espanhola. A primeira fundou-se na agroexportação
e a segunda, na empresa mineradora.
Esses dois empreendimentos se articulavam aos objetivos gerais da política objetivos gerais da política objetivos gerais da política objetivos gerais da política objetivos gerais da política
mercantilista mercantilista mercantilista mercantilista mercantilista das Coroas portuguesa e espanhola.
Esses objetivos eram impulsionar as atividades comerciais e garantir um
fluxo de metais preciosos que favorecessem o fortalecimento econômico
e político dos respectivos reinos. Não foi, portanto, por acaso que as Coroas
ibéricas se preocuparam em estabelecer regras rígidas na relação com as suas
colônias. O exclusivo comercial exclusivo comercial exclusivo comercial exclusivo comercial exclusivo comercial, o controle dos portos, o combate ao contraban-
do, as limitações à produção de manufaturados e à circulação de idéias e ainda
as exigências fiscais e administrativas constituíram um conjunto de medidas
representativas do pacto colonial pacto colonial pacto colonial pacto colonial pacto colonial.
Dessa maneira, o açúcar brasileiro e o ouro e a prata das colônias espanholas
representaram o ponto de partida para a formação do sistema colonial sistema colonial sistema colonial sistema colonial sistema colonial
mercantilista mercantilista mercantilista mercantilista mercantilista na América, que integrou também algumas colônias francesas
e inglesas, especialmente nas Antilhas.
A Amórica ingIcsa: povoamcnto c divcrsidadc
Em outras partes da América, no entanto, a história foi bastante diferente.
Em algumas regiões da América do Norte formaram-se colônias inglesas bem
mais autônomas que as colônias ibéricas. Vejamos, mais de perto, essa nova
modalidade colonial.
Seja em razão dos graves conflitos político- graves conflitos político- graves conflitos político- graves conflitos político- graves conflitos político-
religiosos religiosos religiosos religiosos religiosos ocorridos no território inglês, seja
devido ao maior interesse dos comerciantes in-
gleses nos negócios do Oriente negócios do Oriente negócios do Oriente negócios do Oriente negócios do Oriente, o fato é que
a colonização da América do Norte pela Ingla-
terra ocorreu de forma lenta e descontínua,
e com menor presença do Estado menor presença do Estado menor presença do Estado menor presença do Estado menor presença do Estado.
Na maior parte das vezes, foram empresas
particulares inglesas ou ainda os próprios colo-
nos que promoveram a ocupação inicial e deter-
minaram as formas de exploração da riqueza
e a utilização da mão-de-obra.
Essa situação, e ainda as diferentes condi-
ções climáticas, fizeram com que as colônias
inglesas na América passassem a apresentar
características bem diversificadas.
No sul sul sul sul sul, o clima quente permitiu a forma-
ção de uma economia agrária de base es-
cravista, voltada para o mercado externo,
especialmente para a Inglaterra. As grandes
plantações de tabaco e de algodão favorece-
ram a emergência de uma sociedade aristocrá-
tica e escravocrata, semelhante a muitas colô-
nias ibéricas. A Coroa inglesa, no decorrer
do século XVII, tendeu a ampliar o controle
da produção e da comercialização dos pro-
dutos agrícolas do sul.
7
A U L A
Já a ocupação da região norte norte norte norte norte obedeceu a critérios muito diferentes
dos estabelecidos em outras regiões americanas. Ali foram criadas colônias colônias colônias colônias colônias
de refugiados políticos e religiosos de refugiados políticos e religiosos de refugiados políticos e religiosos de refugiados políticos e religiosos de refugiados políticos e religiosos, interessados em construir uma nova
sociedade, voltada para os seus próprios interesses e baseada na sua cons-
ciência religiosa.
O clima temperado também inviabilizava a criação de empresas agrícolas
voltadas para o mercado externo. O resultado foi a formação, nas regiões norte norte norte norte norte
e centro, e centro, e centro, e centro, e centro, de uma economia agrária de base familiar ou servil, mais voltada para
o consumo interno. O trabalho servil era temporário e regido por contratos.
Aquele trabalhador sem recursos que desejava vir para a América pagava
a passagem e a hospedagem com o seu trabalho, por um determinado tempo
(cinco a sete anos), às empresas de colonização.
Mais interessada na produção de gêneros tropicais, a Coroa inglesa não
procurou proibir que se desenvolvessem, nessas duas regiões, atividades
manufatureiras e comerciais capazes de atender ao consumo local. Essa maior
liberdade permitiu o surgimento de um forte grupo mercantil que teve até
mesmo condições de impulsionar atividades comerciais com portos de várias
partes do mundo. Era o comércio triangular comércio triangular comércio triangular comércio triangular comércio triangular, que interligava a economia
americana com a África e a Europa. Mais tarde, a Coroa inglesa tratou de adotar
medidas que visavam terminar com essa liberdade comercial liberdade comercial liberdade comercial liberdade comercial liberdade comercial.
A relativa autonomia econômica mais presente, como vimos, nas regiões
norte e centro norte e centro norte e centro norte e centro norte e centro foi acompanhada de uma certa liberdade política, que permitiu
a criação de órgãos representativos dos próprios colonos. Mesmo com
as limitações que foram sendo impostas a esses órgãos, eles se tornaram
muito importantes para a garantia de algumas liberdades políticas e econô-
micas perante a política colonial inglesa.
Para explicar a realidade colonial da América, alguns autores dividiram as
colônias americanas em dois tipos: as colônias de exploração colônias de exploração colônias de exploração colônias de exploração colônias de exploração, vinculadas ao sistema
mercantilista, e as colônias de povoamento colônias de povoamento colônias de povoamento colônias de povoamento colônias de povoamento, colocadas à margem desse sistema.
A América Portuguesa seria o exemplo mais significativo do primeiro tipo,
enquanto o norte da América inglesa representaria o exemplo típico das colônias
de povoamento.
Faça um quadro estabelecendo as principais diferenças entre essas duas
modalidades de colonização.
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em troca de escravos negros, que são
carregados nos mesmos navios para
trabalhar nas fazendas das

ESQUEMA DO COMÉRCIO TRIANGULAR
NOVA INGLATERRA
ÁFRICA
A
N
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Pausa
7
A U L A
Nesta aula você acompanhou o início do processo de colonização das terras
americanas pelos europeus, e pôde perceber as diferentes estratégias utilizadas
pelas metrópoles européias para empreender essa gigantesca iniciativa.
De modo geral, as Coroas européias tiveram por objetivo transformar
os territórios dominados em área de exploração econômica exclusiva área de exploração econômica exclusiva área de exploração econômica exclusiva área de exploração econômica exclusiva área de exploração econômica exclusiva.
Fizeram isso por meio da criação de economias especializadas, voltadas para
a produção de matérias-primas e metais preciosos.
Na Europa da época mercantilista, as colônias americanas passaram a
desempenhar um papel fundamental para o desenvolvimento das economias
metropolitanas. Formava-se, assim, um sistema colonial mercantilista sistema colonial mercantilista sistema colonial mercantilista sistema colonial mercantilista sistema colonial mercantilista,
constituído pelas metrópoles e pela grande maioria das suas colônias.
À margem desse sistema estiveram apenas algumas colônias inglesas À margem desse sistema estiveram apenas algumas colônias inglesas À margem desse sistema estiveram apenas algumas colônias inglesas À margem desse sistema estiveram apenas algumas colônias inglesas À margem desse sistema estiveram apenas algumas colônias inglesas
na América do Norte na América do Norte na América do Norte na América do Norte na América do Norte.
No decorrer da Era Moderna, nos séculos XVII e XVIII, as colônias deixaram
de ser vistas apenas como fonte produtora de matérias-primas e metais.
As metrópoles passaram também a encará-las como um possível mercado
consumidor de seus produtos manufaturados. Daí a ampliação das restrições
ao desenvolvimento das manufaturas nas colônias.
Em 1747, o inglês Postlethwayt resumiu assim o que as colônias deveriam
representar para suas metrópoles:
As colônias devem: primeiro, dar à metrópole um maior mercado para
os seus produtos; segundo, dar ocupação a um número maior dos seus
(da metrópole) manufatureiros, artesãos e marinheiros; terceiro, forne-
cer-lhe uma maior quantidade dos artigos de que precisa.
Mas será que as colônias americanas em geral, e a América Portuguesa,
em particular, viviam apenas para as suas metrópoles? Certamente, a história
não foi assim tão simples. A colônia era uma realidade social viva, que se
transformava em meio às restrições metropolitanas.
É exatamente isso o que você verá nas próximas aulas.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Releia o item A empresa colonial espanhola A empresa colonial espanhola A empresa colonial espanhola A empresa colonial espanhola A empresa colonial espanhola e identifique traços comuns
entre as colonizações espanhola e portuguesa na América.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Releia o item A América inglesa: povoamento e diversidade A América inglesa: povoamento e diversidade A América inglesa: povoamento e diversidade A América inglesa: povoamento e diversidade A América inglesa: povoamento e diversidade e descreva
a vida em uma colônia inglesa do norte.
UItimas
paIavras
lxcrcícios
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Em aulas anteriores, vimos que a América
Portuguesa foi ganhando contornos mais nítidos no final do século XVI.
No litoral nordestino formava-se uma sociedade escravista, sob o domínio
dos senhores de engenho. Em outras regiões da colônia, mais para o interior,
conviviam lavradores, mestiços, colonos e indígenas.
Mas não bastava apenas organizar a economia e a administração nas terras
brasileiras. Era necessário, também, ordenar a transmissão dos valores europeus
naquela sociedade bastante diversificada. Quem faria esse papel? Como romper
com a barreira da língua? Como as populações nativas e os escravos compreen-
deriam os principais elementos da cultura européia?
Nesta aula, vamos estudar a atuação do principal agente cultural na
América Portuguesa: a Igreja Católica. Esse estudo será feito examinado-se
as relações da Igreja com o poder colonial, representado pelos altos funcionários
da Coroa portuguesa.
O lstado portuguôs na coIûnia
O ano é 1549. O local: porto da Baía de Todos os Santos, capitania da Bahia,
América Portuguesa. A cena: um pequeno número de pessoas acompanha
o desembarque de dois importantes personagens para o desenrolar da nossa
história: Tomé de Sousa, primeiro governador-geral, e Manuel da Nóbrega,
chefe da primeira delegação dos jesuítas nas terras brasileiras.
Na cabeça de um dos espectadores poderiam estar passando as seguintes
perguntas: quem são eles? O que querem nestas terras? Vão atuar em conjunto
ou separadamente? Para responder a essas perguntas, tratemos de apresentar
nossos personagens. Vamos acompanhar como se relacionaram Estado e Igreja
Católica nas terras brasileiras, em sua aventura colonizadora.
Tomé de Sousa era um experimentado funcionário da Coroa portuguesa.
Já havia combatido os mouros na África e participado de uma expedição ao Oriente
antes de desembarcar em terras brasileiras. Fundou a cidade de Salvador, comba-
teu e destruiu aldeias tupinambás e buscou assentar populações na nova colônia.
Mas ficou pouco tempo por aqui. Em 1553, retornou a Portugal, sendo
substituído por Duarte da Costa, segundo governador-geral.
Sousa e Costa não vieram para a colônia como exploradores, nem eram
donatários que aqui chegaram para fixar raízes e contribuir na colonização. Mais
lstado c lgrcja na
avcntura coIonizadora
Abcrtura
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MÓDULO 2
Movimcnto
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do que isso, eram funcionários reais funcionários reais funcionários reais funcionários reais funcionários reais. Altos funcionários da Coroa. Isso
significa que a Coroa portuguesa possuía recursos e poder suficientes para
manter um corpo de funcionários próprio, civil e militar. Como isso era possível?
Não é difícil responder a essa pergunta, se voltarmos nossos olhos para a
Europa naquele momento. Em Portugal e em vários países do “velho continen-
te”, vivia-se a época de afirmação do poder real. Formava-se o Estado centrali-
zado, que passou a concentrar o poder na figura do monarca: era o absolutismo absolutismo absolutismo absolutismo absolutismo
monárquico monárquico monárquico monárquico monárquico.
O regime absolutista foi muito forte na Europa, de meados do século XVI até
o final do século XVIII. Veja como Miguel Suriano, embaixador de Veneza
na França, descreveu, em 1546, a extensão do poder real naquele país:
Quanto à autoridade daquele que governa, direi apenas que este reino
tão grande (...) depende apenas da vontade suprema do rei, que é amado
e servido por seu povo e que possui uma autoridade absoluta. (...) O rei
que distribui um sem-número de empregos, de dignidades, de cargos
(...). (...) tudo depende dele e somente dele: a paz e a guerra, os impostos
e os tributos, os favores, os benefícios, os cargos, o governo e a adminis-
tração do reino inteiro.
Citado por Ilmar Mattos e outros, Citado por Ilmar Mattos e outros, Citado por Ilmar Mattos e outros, Citado por Ilmar Mattos e outros, Citado por Ilmar Mattos e outros, História História História História História, p. 87 , p. 87 , p. 87 , p. 87 , p. 87
Todas essas funções obrigavam o monarca a criar um grande corpo de
funcionários no reino e nas suas colônias. Em Portugal, esse corpo de funcioná-
rios incluía também os membros da Igreja Católica pois, pelo regime de
padroado padroado padroado padroado padroado, a Igreja subordinava-se ao Estado, isto é, era parte integrante parte integrante parte integrante parte integrante parte integrante dele.
Cabia ao Estado português nomear os bispos, remunerar o clero e recolher
os tributos (dízimos) dos fiéis à Igreja. Por outro lado, o Estado se comprometia
a assegurar e preservar a presença da Igreja nas terras descobertas. Essa relação
de subordinação não iria significar, como veremos mais tarde, total submissão
da Igreja aos interesses do Estado português.
O amplo poder do monarca era demonstrado, na colônia, por meio de seus
funcionários e de uma extensa legislação. Mas, lembra o historiador Boris Fausto,
não se deve imaginar o Estado português na colônia como uma máquina
administrativa esmagadora. As dificuldades impostas pela extensão do territó-
rio da colônia fizeram com que o raio de ação do Estado ficasse limitado
à principal região econômica das terras brasileiras, isto é, ao litoral nordeste.
Isso aconteceu pelo menos até o século XVIII, quando a descoberta de metais
preciosos na região das Minas Gerais obrigou a Coroa a criar uma estrutura
administrativa mais rígida para impedir o contrabando e assegurar o pagamen-
to de impostos, o chamado quinto quinto quinto quinto quinto.
Em várias outras regiões da colônia predominaram os proprietários rurais
(por intermédio das câmaras municipais) e as ordens religiosas, especialmente
a ordem dos jesuítas. Tudo isso fazia com que o papel da Igreja na colônia fosse
de extrema importância para a Coroa portuguesa.
Vejamos como a Igreja desempenhou um papel fundamental na construção
da América Portuguesa. Para isso, é necessário que voltemos à nossa cena inicial.
lm tcmpo
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lgrcja CatúIica c coIonização
Fixemos agora nosso olhar no desembarque do jesuíta Manuel da Nóbrega.
Nóbrega era português, e chegou às terras brasileiras com pouco mais de 30
anos. Junto com ele vieram mais cinco religiosos, todos jesuítas, que faziam parte
de uma ordem criada apenas nove anos antes: a Companhia de Jesus Companhia de Jesus Companhia de Jesus Companhia de Jesus Companhia de Jesus.
Essa nova ordem possuía como principal missão a difusão do evangelho em
todos os povos. Marcada por uma rigorosa disciplina, logo tornou-se um
poderoso instrumento da Igreja Católica na luta contra o avanço do protestan-
tismo na Europa, naquela primeira metade do século XVI.
Vivia-se a época da Reforma protestante. Reforma protestante. Reforma protestante. Reforma protestante. Reforma protestante. Na Alemanha, na Suíça,
na Inglaterra, na França e em vários países europeus, a Igreja havia sido
obrigada a recuar. Surgiam novas religiões, como o luteranismo, o calvinismo,
o anglicanismo e o anabatismo. A Reforma questionava tanto a atuação como
a organização da Igreja Católica. E exigia o fim da corrupção na Igreja e o retorno
a uma religiosidade mais pura, baseada na fé.
A Reforma protestante do século XVI abriu caminho para a multiplicidade
de religiões que existem hoje em dia no mundo e no Brasil.
Você certamente conhece pessoas de diferentes religiões. Faça uma pequena
pesquisa com essas pessoas. Pergunte-lhes sobre as principais características
de suas religiões. Depois, faça um pequeno quadro comparativo.
Diante da Reforma protestante, a Igreja Católica reagiu, contra-atacou.
Era a Contra-Reforma Contra-Reforma Contra-Reforma Contra-Reforma Contra-Reforma. A Igreja Católica manteve seus dogmas e sua organiza-
ção hierarquizada, reforçou suas posições nos países católicos, como Portugal
e Espanha, e ainda intensificou a luta contra as heresias e o protestantismo,
por intermédio do Tribunal do Santo Ofício (Inquisição). A criação de uma
ordem rigidamente organizada e disciplinada como a Companhia de Jesus,
uma espécie de milícia da fé milícia da fé milícia da fé milícia da fé milícia da fé, fez parte dessa reação católica.
A presença de jesuítas como Manuel da Nóbrega nas terras brasileiras,
portanto, tinha por objetivo conquistar súditos para um Estado em expansão
e fiéis para uma Igreja envolvida em uma enorme crise. Mas nem sempre foi
possível atender a essas duas exigências.
Se ao Estado cabia organizar a economia e a administração da colônia,
à Igreja coube o papel de agente educacional e cultural. E, nisso, os jesuítas foram
rápidos e eficientes. Quinze dias após a sua chegada, já funcionava a primeira
escola de ler e escrever. Era o passo inicial para a criação de uma rede de ensino
formada por escolas, colégios e seminários.
A instrução elementar para nativos e colonos era feita nas escolas.
Os colégios e seminários eram responsáveis pela formação de sacerdotes
para atuar na evangelização. Mais tarde, os colégios foram também abertos
aos colonos interessados em continuar seus estudos. Aqueles que não seguiam
a carreira religiosa e desejavam formar-se em direito ou medicina eram obriga-
dos a estudar na Universidade de Coimbra, em Portugal, ou na Universidade
de Montpellier, na França.
A preocupação central dos jesuítas quanto ao ensino foi criar na colônia uma
elite culta, letrada e religiosa. Nos colégios, a formação era dividida em dois
níveis. O primeiro era um curso de humanidades no qual se estudavam
disciplinas básicas, como gramática e retórica. O segundo era um curso de
filosofia, com estudos de lógica, moral, física e matemática. A formação do
Pausa
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lm tcmpo
religioso envolvia ainda um terceiro curso: o de teologia e ciências sagradas.
Os cursos jesuíticos não se caracterizaram pelo livre-exame, pelo desejo de novas
descobertas científicas, pelo espírito de análise e crítica que avançava na Europa
naquele século XVI. Ao contrário: como ordem criada no espírito da Contra-
Reforma, a Companhia de Jesus tinha por objetivo fundamental formar um formar um formar um formar um formar um
homem culto e disciplinado, defensor dos dogmas e da autoridade homem culto e disciplinado, defensor dos dogmas e da autoridade homem culto e disciplinado, defensor dos dogmas e da autoridade homem culto e disciplinado, defensor dos dogmas e da autoridade homem culto e disciplinado, defensor dos dogmas e da autoridade.
O mesmo não aconteceu nas colônias inglesas da América, como nos
descreve Fernando de Azevedo:
As diferenças de idéias e processos de educação, na América do Sul e na do Norte,
provêm (...) da oposição entre duas concepções cristãs a que se manteve fiel
à ortodoxia católica, e a que implantou o cisma religioso (...). ... é preciso
reconhecer no [cristianismo] inglês, como até certo ponto no protestante da
Inglaterra e de outros países, maior independência de espírito. Em teologia,
como em política e em ciência, o inglês recusa-se a aceitar as opiniões recebidas,
tendendo a formar ele mesmo uma opinião. Longe de proibir o livre-exame,
o protestantismo o exige. Ele é bastante largo para permitir o uso da razão,
bastante simples para seguir melhor a evolução das idéias modernas, retendo,
contudo, o essencial da fé (...).
Fernando de Azevedo, Fernando de Azevedo, Fernando de Azevedo, Fernando de Azevedo, Fernando de Azevedo, A cultura brasileira, A cultura brasileira, A cultura brasileira, A cultura brasileira, A cultura brasileira, p. 517 p. 517 p. 517 p. 517 p. 517
O mesmo autor destaca, no entanto, o importante papel civilizador
e unificador dos jesuítas na colônia. Segundo Azevedo, foram eles os principais
responsáveis não só por despertar aqui o gosto pelas “coisas do espírito”, mas
principalmente pelo processo de unificação lingüística, religiosa e cultural unificação lingüística, religiosa e cultural unificação lingüística, religiosa e cultural unificação lingüística, religiosa e cultural unificação lingüística, religiosa e cultural
na América Portuguesa, o que foi decisivo na construção da identidade na América Portuguesa, o que foi decisivo na construção da identidade na América Portuguesa, o que foi decisivo na construção da identidade na América Portuguesa, o que foi decisivo na construção da identidade na América Portuguesa, o que foi decisivo na construção da identidade
nacional brasileira nos séculos XIX e XX nacional brasileira nos séculos XIX e XX nacional brasileira nos séculos XIX e XX nacional brasileira nos séculos XIX e XX nacional brasileira nos séculos XIX e XX.
Esse papel unificador dos jesuítas se desenvolveu também nos aldeamentos
ou missões. As missões eram áreas livres, intocáveis, e os indígenas ali reunidos
não podiam ser escravizados.
Missão religiosa
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Inicialmente, as missões localizavam-se no litoral; muitas tribos indígenas
eram obrigadas a descer do interior até elas. Como muitos índios morriam nesse
“descimento” e nos contatos com as doenças dos europeus, os jesuítas trata-
ram de afastar os aldeamentos do litoral. O movimento em direção ao interior
não foi feito apenas pelos jesuítas. Destacaram-se nisso, entre outras,
as franciscana e carmelita.
A interiorização dos aldeamentos também era estimulada pela Coroa
portuguesa, interessada em ocupar parte da região norte da colônia, ameaçada
por invasões.
O movimento missioneiro também ganhou grande expressão no extremo
sul da colônia.
Os aldeamentos eram de vital importância para as ordens religiosas
na colônia. Nas missões, a catequese era desenvolvida sem a intervenção do
Estado ou dos “hábitos desregrados” dos colonos. Utilizando-se do trabalho
indígena, as ordens impulsionaram deter-
minadas atividades econômicas agricultu-
ra ou coleta que lhes permitiram um grau
maior de independência econômica em rela-
ção ao Estado português.
A expansão do movimento missioneiro
para o interior não foi feita sem problemas.
O maior deles eram os constantes assaltos de
colonos, que atacavam as missões em busca
de escravos indígenas para as suas lavouras.
Isso ocorreu especialmente no norte da
colônia, onde os colonos não possuíam re-
cursos para comprar escravos africanos.
Na luta para preservar a missão e assegurar
o que denominavam “liberdade indígena”,
algumas missões jesuítas chegaram a criar
milícias armadas de indígenas para comba-
ter os invasores.
Esses conflitos, que perduraram por boa
parte do século XVII e início do século XVIII,
inquietaram o poder colonial, também preo-
cupado com o crescente fortalecimento dos jesuítas na colônia. Tudo isso
contribuiu para a expulsão da ordem da colônia, no ano de 1759.
Missões e fortes do
Norte e do Nordeste
Missões do Sul
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A maior independência das ordens religiosas e os conflitos crescentes entre
colonos e religiosos não devem, no entanto, ser interpretados como um total
afastamento da Igreja da obra colonizadora. A Igreja Católica e suas ordens,
é certo, possuíam interesses próprios que podiam se chocar com os do Estado
e dos colonos, como na questão indígena. Mas, em sua atuação geral, seja nos colégios
ou nas missões, a Igreja cumpriu seu papel de agente cultural da colonização.
É bom lembrar que foram os religiosos que criaram uma língua geral língua geral língua geral língua geral língua geral para
promover a catequese nas aldeias e nas missões. Tomando como base o tupi,
missionários como o padre Anchieta tentavam transpor para a língua indígena
a mensagem católica.
O deus Tupã, relacionado ao poder dos trovões, passava a representar
o deus católico; os rituais de culto aos mortos expressos em cantos, danças
e transes, que ligavam o indígena ao passado de sua comunidade, eram agora
tratados como malignos, diabólicos. Por meio do teatro, com os autos autos autos autos autos, os jesuítas
representavam a luta do bem contra o mal, da palavra de Deus contra o demônio
dos antigos rituais.
Tudo isso tinha como resultado a desintegração dos antigos laços entre os
indígenas. Acentuavam-se a destribalização e a descaracterização do indígena.
O modelo que se queria formar era o de um índio dócil, religioso e disciplinado.
Veja a imagem de índio ideal expressa no seguinte trecho do padre Anchieta
sobre o trabalho dos jesuítas nas aldeias indígenas:
Os padres, além de instruir os índios nas coisas necessárias à sua salvação,
ensinam aos seus filhos (...) ler, escrever, contar e falar português que aprendem
e falam em graça, a dançar à portuguesa, a cantar e a ter seu coro de canto e flauta
para suas festas.
Citado por Fernando de Azevedo, Citado por Fernando de Azevedo, Citado por Fernando de Azevedo, Citado por Fernando de Azevedo, Citado por Fernando de Azevedo, A cultura brasileira A cultura brasileira A cultura brasileira A cultura brasileira A cultura brasileira, p. 508 , p. 508 , p. 508 , p. 508 , p. 508
A Igreja Católica teve também um papel importante na justificação da
escravidão africana na colônia. Um argumento corrente no século XVII, desen-
volvido pelo jesuíta Antônio Vieira, era o de que a escravidão foi a forma criada
pela Divina Providência para retirar os negros do pecado (na África) e levá-los
até a palavra de Deus nas terras brasileiras.
A escravidão, assim, seria um “meio de salvação” da alma do africano.
Esse raciocínio, que deve ser entendido como fruto de uma determinada época
histórica, favoreceu a aceitação da escravidão como uma prática natural
na colônia.
A sociedade que foi sendo formada nos séculos XVI e XVII nas terras
brasileiras sofreu forte influência da atuação do Estado e da Igreja. O primeiro
atuou fundamentalmente na organização da economia e da administração.
Sua preocupação básica foi criar e impulsionar atividades econômicas que
garantissem a colonização. Daí sua maior presença no litoral nordestino, região
da grande lavoura escravista. Com o desenrolar dos tempos, o Estado foi se
tornando mais presente e mais importante em outras regiões coloniais, mas
sempre como cobrador de impostos e regulador.
As questões de natureza educacional e cultural ficaram a cargo da Igreja
Católica. Tendo à frente os jesuítas, e monopolizando o ensino, a Igreja atuou
lm tcmpo
UItimas
paIavras
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63
com desenvoltura em praticamente toda a colônia. Seu trabalho evangelizador
nas missões contribuiu para a formação de uma sociedade um pouco mais
homogênea do ponto de vista lingüístico e cultural. Para isso, foi fundamental
sua atuação na destribalização e descaracterização das comunidades indígenas.
Nesta aula concluímos o segundo módulo do nosso curso, que tratou das
bases da colonização na América Portuguesa. Nas próximas aulas, vamos
percorrer de norte a sul as várias regiões da colônia. A partir daí, poderemos
examinar mais de perto a diversidade econômica, social e cultural da sociedade
que se formava nas terras brasileiras.
Sobre o papel da Igreja para a sociedade que se formava na América
Portuguesa, assim escreveu o historiador Boris Fausto:
Como tinha um instrumento em suas mãos, a educação das pessoas, o “controle
das almas” na vida diária, [a Igreja] era um instrumento muito eficaz para
veicular a idéia geral de obediência e, em especial, a de obediência ao poder do
Estado. Mas o papel da Igreja não se resumia a isso. Ela estava presente na vida
e na morte das pessoas, nos episódios decisivos do nascimento, casamento
e morte. O ingresso na comunidade, a partida sem pecado deste “vale de
lágrimas” dependiam de atos monopolizados pela Igreja: o batismo, a crisma,
o casamento religioso, a confissão, a extrema-unção na hora da morte, o enterro
em um cemitério designado pela significativa expressão “campo santo”.
Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, História do Brasil História do Brasil História do Brasil História do Brasil História do Brasil
Com base na aula e no trecho acima, escreva um pequeno texto explicando
a importância da Igreja Católica para a sociedade que se formava nas terras
brasileiras.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Releia o item O Estado português na colônia O Estado português na colônia O Estado português na colônia O Estado português na colônia O Estado português na colônia e justifique a afirmativa
presente no texto: “Não se deve imaginar o Estado português na colônia
como uma máquina administrativa esmagadora”.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Releia o item Igreja Católica e colonização Igreja Católica e colonização Igreja Católica e colonização Igreja Católica e colonização Igreja Católica e colonização e explique a importância
da língua geral língua geral língua geral língua geral língua geral para a atuação dos jesuítas na colônia.
Pausa
lxcrcícios
9
) 7 )
MúduIo 3
Tcrritúrio c rcgiõcs da
Amórica Portugucsa
Neste terceiro módulo, você vai viajar pela América Portuguesa e entender
o processo de expansão territorial empreendido pelos portugueses na conquista
de terras antes pertencentes aos espanhóis. Vamos ver, ainda neste módulo,
os primeiros movimentos ocorridos em algumas regiões da América Portuguesa
que lutaram pelo fim do domínio colonial português fim do domínio colonial português fim do domínio colonial português fim do domínio colonial português fim do domínio colonial português.
9
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9
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MÓDULO 3
O Brasil é um dos maiores países do mundo.
Você já deve ter ouvido essa frase muitas vezes. Desde pequenos, aprendemos
que uma das principais características do nosso país é o seu grande e belo
território. Como diz a letra do Hino Nacional, o Brasil seria um “gigante
adormecido em berço esplêndido”.
No entanto, é fácil verificar que, pelo Tratado de Tordesilhas, a colônia de
Portugal deveria ter ocupado um território bem menor na América. Consulte
novamente o mapa da página 28.
Nesta aula, mais uma vez, você vai viajar. Agora, a viagem é pela América:
pelo sertão, pela Amazônia, pelo sul... Vamos entender como a América
Portuguesa conseguiu ampliar o seu território. Vamos acompanhar como
os portugueses conquistaram e ocuparam áreas antes pertencentes à América
Espanhola. Venha...
Carangucjos no IitoraI
Ao escrever a primeira História do Brasil, em 1627, frei Vicente do Salvador
observava que os colonos portugueses não haviam ainda conseguido conquistar
o interior da colônia, e “arranhavam o litoral como caranguejos”.
Vejamos por quê.
Volte às Aulas 5 e 6 e verifique que a principal atividade econômica da
América Portuguesa a agroindústria açucareira havia se localizado no litoral
nordestino, por causa, principalmente, da maior proximidade com a metrópole
portuguesa. A pecuária, com pouca gente e poucos recursos, ocupava áreas
isoladas do interior.
Não era só isso. No sertão havia muitos perigos, como os ataques dos índios
que haviam fugido do litoral para escapar da escravidão. O que mais assustava
os colonos era a enorme dificuldade de sobreviver numa região desconhecida,
tendo de vencer rios, serras, matas, e de enfrentar animais ferozes, fome e febres
mortais.
Mas, se o medo e o perigo eram grandes, também havia atrativos. Ora, o que
poderia atrair os colonos portugueses para o sertão, levando-os a enfrentar
os índios, as doenças, a fome e a morte? Justamente aquilo que não havia sido
encontrado no litoral, decepcionando o próprio Pero Vaz de Caminha: o ouro o ouro o ouro o ouro o ouro,
a prata a prata a prata a prata a prata, as pedras preciosas as pedras preciosas as pedras preciosas as pedras preciosas as pedras preciosas.
Abcrtura
O tcrritúrio sc ampIia
Movimcnto
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Corriam lendas em torno da existência de um Eldorado, região supostamen-
te localizada no coração da América, onde tudo seria feito de ouro. Além disso,
as grandes minas de prata do Potosi, exploradas pelos espanhóis, indicavam que
o interior era uma área de grandes riquezas à espera de quem tivesse coragem
e audácia para conquistá-las.
Ao longo do século XVI, a ocupação portuguesa não se estendeu muito além
dos núcleos de povoamento no litoral açucareiro do Nordeste principalmente
nas capitanias de Pernambuco (Olinda e Recife) e Bahia (Salvador) e em alguns
pontos do Centro-Sul, como São Vicente e Rio de Janeiro. Mas a União Ibérica União Ibérica União Ibérica União Ibérica União Ibérica,
ocorrida em 1580, iria tornar possível a expansão dos colonos portugueses sobre
áreas da América Espanhola.
Salvador foi a capital do Brasil até 1763. Embora os dados não sejam muito
seguros, calcula-se que tinha 14 mil habitantes em 1585, 25 mil em 1724 e cerca
40 mil em 1750, a metade dos quais eram escravos.
Segundo o historiador Boris de Fausto (História do Brasil, p. 77), São Paulo
tinha menos de 2 mil habitantes em 1600.
A União lbórica c os ataqucs cstrangciros à Amórica Portugucsa
Mas o que teria sido essa União Ibérica, que tantas conseqüências trouxe
para a América Portuguesa? Ibérica Ibérica Ibérica Ibérica Ibérica é o nome da península situada no extremo
oeste da Europa, onde se localizam Portugal e Espanha. A União Ibérica foi
a união de Portugal e Espanha sob o comando de uma só Coroa.
Em 1578, a morte de d. Sebastião, jovem rei português sem filhos, deixou
vago o trono de Portugal. Primo de d. Sebastião e neto materno de d. Manuel,
o poderoso Filipe II, rei da Espanha, reivindicou o direito à Coroa portuguesa.
Contando com força militar e apoio dentro de Portugal, o rei espanhol impôs
a União Ibérica, ou seja, a união das duas Coroas sob o domínio espanhol.
Vejamos agora os efeitos dessa união que vigorou por sessenta anos, de 1580
a 1640, sobre os rumos da colonização luso-espanhola na América.
Apesar da promessa de não intervir nas áreas coloniais portuguesas,
a Espanha passou a participar do comércio do açúcar. Inimiga da Holanda,
localizada na região de Flandres, a Coroa espanhola foi, aos poucos, proibindo
a participação dos holandeses (flamengos) nessa atividade tão lucrativa.
Como reagiram os holandeses?
Volte à Aula 5 e verifique a marcante presença dos holandeses (flamengos)
no comércio açucareiro. Quase dois terços do comércio e do transporte do açúcar
estavam nas mãos da Holanda, que possuía 29 refinarias em 1622.
Faça um resumo das principais áreas de atuação dos holandeses no comér-
cio do açúcar.
A princípio, os holandeses partiram para o contrabando; depois, sentiram
a necessidade de manter um comércio mais regular. Isso só seria possível com
a conquista da região produtora, ou seja, o litoral nordestino da América
Portuguesa.
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Pausa
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Seis anos depois de uma tentativa frustrada de conquistar Salvador (em
1624), os invasores holandeses invasores holandeses invasores holandeses invasores holandeses invasores holandeses dominaram a capitania de Pernambuco, onde
se localizavam os mais ricos engenhos da colônia. De Pernambuco, ocuparam
outras áreas do litoral, estendendo-se de Alagoas ao Rio Grande do Norte.
Preocupados com a produção do açúcar, os holandeses procuraram se entender
com os senhores de engenho, a quem continuaram emprestando dinheiro para
reaparelhar as fábricas de açúcar, recuperar os canaviais e comprar escravos.
Para administrar os territórios conquistados, a Holanda mandou Maurício
de Nassau, que permaneceu no Recife de 1637 a 1644. Nassau trouxe artistas
e cientistas que deixaram registrados, em quadros e livros, aspectos da vida
colonial. Em 1654, depois de 24 anos de permanência no litoral nordestino,
os holandeses foram expulsos.
A longa presença holandesa, que tantas marcas deixou no litoral nordestino,
foi a mais forte ameaça estrangeira sofrida pela colônia portuguesa. Mas não foi
a única. A rica e poderosa Espanha tinha muitos outros rivais na Europa
principalmente ingleses e franceses , que viam nos ataques aos domínios
espanhóis na América a possibilidade de abalar o poderio do império espanhol.
A área mais visada era a boca do rio Amazonas, de onde se poderia atingir as
ricas minas de prata do Potosi.
Consultando o mapa da página 61, você pode acompanhar a preocupação
dos espanhóis em ocupar o litoral norte e nordeste litoral norte e nordeste litoral norte e nordeste litoral norte e nordeste litoral norte e nordeste da América Portuguesa,
ao norte da capitania de Pernambuco.
O aspecto militar da ocupação do território fez com que fortes e fortalezas
se tornassem a origem das capitais nordestinas: forte de Filipéia de Nossa
Senhora das Neves, João Pessoa; forte dos Três Reis Magos, Natal; fortaleza de
Nossa Senhora do Amparo, Fortaleza; forte do Presépio, Belém. Alguns deles
existem ainda hoje, e podem ser visitados.
No Maranhão, em 1612, os franceses estabeleceram-se na ilha a que deram
o nome de São Luís. Foram expulsos três anos depois. A reação dos nativos
tabajaras, potiguaras, cararijus foi violenta, e estabeleceram-se muitas missões
religiosas na região para apaziguá-los.
Porta de entrada para o coração da América, a Amazônia Amazônia Amazônia Amazônia Amazônia permitia
a extração de madeiras e a coleta das chamadas drogas do sertão drogas do sertão drogas do sertão drogas do sertão drogas do sertão, como cacau,
cravo, castanha e ervas medicinais que podiam substituir as especiarias
orientais.
Volte ao mapa da página 61 e acompanhe a quantidade de fortes e missões
religiosas que se estabeleceram ao longo do rio Amazonas. A grande quanti-
dade de índios que viviam na região atraía as chamadas tropas de resgate tropas de resgate tropas de resgate tropas de resgate tropas de resgate,
encarregadas de arrebanhar os nativos para trazê-los às missões ou, o que era
mais comum, aprisioná-los para vendê-los como escravos para as plantações
de algodão algodão algodão algodão algodão e açúcar açúcar açúcar açúcar açúcar do Maranhão Maranhão Maranhão Maranhão Maranhão.
A respeito do uso da mão-de-obra indígena no Maranhão, veja o que disse
o padre jesuíta Antônio Vieira:
No Estado do Maranhão, Senhor, não há outro ouro nem prata mais que
o sangue e o suor dos índios: o sangue se vende nos que cativam e o suor
se converte no tabaco, no açúcar e demais drogas que com os ditos índios
se lavram e fabricam...
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Volte aos mapas e observe como os colonos da
América Portuguesa aproveitaram bem as condi-
ções favoráveis da política espanhola de incentivo
à ocupação territorial do Norte e Nordeste.
E o Centro-Sul? Aí também a União Ibérica
favoreceu a expansão portuguesa sobre terras da
América Espanhola? Como se deu a ocupação da
região das Minas? Como foi conquistado o extre-
mo sul?
Os pauIistas dobraram TordcsiIhas
Quando você ouve falar de “capital bandei-
rante”, “time de futebol bandeirante”, você já sabe
que estão falando de São Paulo São Paulo São Paulo São Paulo São Paulo. Paulista e bandei-
rante são sinônimos, significam a mesma coisa.
Bandeirante Bandeirante Bandeirante Bandeirante Bandeirante, você deve saber, foi aquele que
penetrou nas matas atrás do índio e do ouro; foi
o desbravador dos sertões. Vamos ver como
foi mesmo essa história.
Localizado no interior da capitania de São
Vicente, o povoado de São Paulo foi fundado
em 25 de janeiro de 1554 pelos padres jesuítas
Manuel da Nóbrega e José de Anchieta, atraídos
pelos numerosos índios que ali viviam.
Os moradores da vila de São Paulo, isolados
da vila de São Vicente pela serra do Mar, volta-
ram-se para a produção de subsistência. A pobre-
za da agricultura de exportação, a falta de recur-
sos para a compra de braços negros, a forte pre-
sença dos índios, tudo isso obrigou os paulistas
a desenvolver uma vida própria, pouco ligada
à metrópole portuguesa.
Hoje é fácil se o trânsito estiver bom a viagem entre a cidade de São Paulo
e o litoral. Mas, naquela época, era muito difícil escalar os 800 metros da serra do
Mar, subindo por antigas trilhas indígenas, até chegar ao planalto de Piratininga.
Você deve estar comparando a colonização da região do planalto paulista
com a do litoral nordestino, e percebendo como são diferentes. É isso mesmo.
Cada região da América Portuguesa teve uma forma diferente de ocupação.
Volte à Aula 6. Depois, releia esta Aula 9. Faça um resumo das diferenças que
marcaram a colonização do litoral nordestino e do planalto paulista. Observe
e compare o tipo de produção, a mão-de-obra utilizada, o tipo de colono, as
relações com a metrópole.
Agora, veja o seguinte: se a serra do Mar era um obstáculo físico
ao contato dos paulistas com o litoral, a penetração para o interior foi facilitada
pelos rios, principalmente o Tietê.
A União Ibérica, de outro lado, intensificou as relações dos paulistas com
a América Espanhola, e era freqüente o intercâmbio comercial com o vice-
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reinado do Prata. A moeda e a língua espanholas eram de uso comum na vila
de São Paulo. Famílias castelhanas, como os Bueno e os Camargo, instalaram-
se cedo na região e aí conquistaram fortuna e prestígio.
Além da presença espanhola, a influência indígena foi outro elemento
fundamental na formação da sociedade paulista. A mão-de-obra indígena era
o “remédio” para a pobreza dos colonos. Era o índio quem trabalhava nas roças,
nos pastos, na casa; era o índio quem ensinava a caçar, a pescar, a entrar nas
matas, a enfrentar os animais, a conhecer as plantas e os alimentos.
O tupi, junto com o espanhol, era a língua mais falada em São Paulo. A falta
de mulheres brancas resultou num intenso cruzamento entre índias e colonos,
gerando uma grande quantidade de mestiços, os chamados mamelucos mamelucos mamelucos mamelucos mamelucos.
Como diz o historiador Boris Fausto,
(...) os portugueses de São Paulo adotaram muitos dos hábitos e habili-
dades indígenas, tornando-se tão capazes de usar o arco e a flecha como
as armas de fogo.
Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, História do Brasil História do Brasil História do Brasil História do Brasil História do Brasil, p. 93 , p. 93 , p. 93 , p. 93 , p. 93
Entendeu, agora, por que os paulistas foram os desbravadores do sertão?
Eles aprenderam com os nativos a conhecer os segredos da terra. Mas o que
atrairia o paulistas para o interior? O ouro, você deve estar pensando. Sim,
e também a caça de mais índios. Índios que seriam vendidos como escravos para
os engenhos de São Vicente, do Rio de Janeiro e até mesmo do litoral nordestino.
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As populosas missões dos jesuítas espanhóis no sul, com milhares de
guaranis catequizados, eram o alvo principal do ataque dos “caçadores” paulistas.
Para essas operações de guerra organizavam-se bandeiras bandeiras bandeiras bandeiras bandeiras, expedições com
milhares de pessoas, que passavam anos, sertão adentro, atrás de metais
preciosos e de índios para escravizar. A grande bandeira de Manuel Preto
e Antônio Raposo Tavares que, em 1629, atacou a missão de Guairá, no oeste
do atual Paraná foi composta por 69 brancos, 900 mamelucos e 2 mil indígenas.
A experiência militar dos bandeirantes, desenvolvida na caça aos índios,
passou a ser valorizada no combate aos índios rebeldes e também aos quilombos quilombos quilombos quilombos quilombos,
povoados formados de escravos negros fugidos das plantações.
O paulista Domingos Jorge Velho comandou, de 1690 a 1695, a destruição
do quilombo de Palmares Palmares Palmares Palmares Palmares, localizado entre Pernambuco e Alagoas. Era o mais
importante quilombo formado na colônia até então. Em troca, o bandeirante
recebeu terras no Piauí, onde se tornou um grande criador de gado.
Atrás do índio, veio o ouro. Primeiro, o ouro de rio. Depois, as minas de
ouro. Enfim, o velho sonho dos portugueses, desde Caminha, se realizava.
Depois de quase um século varando os sertões atrás de índios, esmeraldas
e aventura, os paulistas encontraram o Eldorado. Não era o ouro da lenda, mas
aquele que tinha de ser tirado do fundo da terra.
As primeiras notícias sobre a descoberta de metais preciosos na região
do atual Estado de Minas Gerais chegaram ao Rio de Janeiro em 1695. Começava
a febre do ouro febre do ouro febre do ouro febre do ouro febre do ouro, que iria atingir a colônia logo no início do século XVIII.
Mas isso fica para o próximo capítulo, ou melhor, para a próxima aula.
Aguarde...
As novas frontciras da Amórica
A região sul da colônia sempre mereceu certa atenção por parte da adminis-
tração portuguesa. Portugal, desde cedo, considerava a possibilidade de ocupar
a região do Prata região do Prata região do Prata região do Prata região do Prata. Esse era o escoadouro dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai,
por onde então circulava quase toda a produção da parte sul da América. E mais:
havia notícias de que, tal como Potosi, a área era muito rica em prata.
Como você já sabe, os moradores de São Vicente e de São Paulo mantinham,
havia muito tempo, intenso intercâmbio comercial com os vizinhos da América
Espanhola, especialmente Buenos Aires. As notícias da descoberta de metais
preciosos na região do Prata, e mais o incentivo do governo português, interes-
sado na ocupação do extremo sul, fizeram com que, a partir da segunda metade
do século XVII, colonos vicentinos se deslocassem para o sul, fundando as vilas
de Paranaguá, São Francisco do Sul, Curitiba e Laguna.
Em 1680, Manuel Lobo, governador das Capitanias do Sul, fundou,
em frente a Buenos Aires, a Colônia do Sacramento. Era a expansão portuguesa
numa área estratégica da América Espanhola.
Continuando a ocupação do extremo sul, fez-se o povoamento do Rio
Grande de São Pedro, atual Rio Grande do Sul. Em 1740, a região começou a ser
povoada por imigrantes da ilha dos Açores e por moradores de Laguna. Fixando-
se às margens do rio Guaíba, eles fundaram a vila que foi chamada de Porto
dos Casais, origem da futura Porto Alegre.
Enquanto o interior do Rio Grande foi ocupado economicamente pela
pecuária, no litoral a agricultura de subsistência espalhou-se por pequenas
propriedades.
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De norte a sul, de leste a oeste, o território da América Portuguesa foi sendo
ampliado. Como você pôde perceber, de região para região variou o tipo de
ocupação econômica, de colono, de mão-de-obra.
Faça um quadro comparativo das várias regiões da América Portuguesa
(Amazônia, Maranhão, litoral nordestino, São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande)
e resuma suas principais diferenças.
Você deve estar se perguntando: e a linha de Tordesilhas? Não era mais
respeitada? Não, não era. O que fazer, então? Negociar novas fronteiras entre
as duas Américas, retraçando os limites da América Portuguesa e da América
Espanhola. Para isso, vários tratados foram assinados entre as duas Coroas:
o Tratado de Madri (1750), o Tratado do Pardo (1761); o Tratado de Santo
Ildefonso (1777) e o Tratado de Badajoz (1801).
Nesses tratados, duas regiões mereceram atenção especial. Uma delas foi
a Colônia do Sacramento, da qual os espanhóis não abriram mão, visto ser uma
região fundamental para a segurança de seus domínios na América. A outra
região abrigava os Sete Povos das Missões Sete Povos das Missões Sete Povos das Missões Sete Povos das Missões Sete Povos das Missões, aldeamentos dos jesuítas espa-
nhóis habitados pelos guaranis.
Inconformados por terem de passar para o domínio da América Portuguesa,
os índios partiram para a guerra. As chamadas guerras guaraníticas guerras guaraníticas guerras guaraníticas guerras guaraníticas guerras guaraníticas dificul-
taram a delimitação das fronteiras na região.
No início do século XIX, com exceção do Estado do Acre, todo o território
brasileiro já estava delimitado. Essa é mais uma diferença do Brasil em relação
aos Estados Unidos da América do Norte. Quando os Estados Unidos
se tornaram independentes, em 1776, ainda possuíam pequeno território,
formado por treze colônias. Só ao longo do século XIX os norte-americanos
conseguiriam expandir o seu território.
Na próxima aula, falaremos da febre do ouro em Minas Gerais e dos
diamantes de Goiás. Mostraremos também como se formou na região mineradora
uma nova sociedade, mais urbana, que atraiu milhares de pessoas, principal-
mente escravos negros e reinóis reinóis reinóis reinóis reinóis.
Veremos como cresceram, no século XVIII, os conflitos de interesses entre
a colônia e a metrópole portuguesa resultado do rigor das práticas monopolistas
e do arrocho na cobrança de impostos, sobretudo nas áreas mineradoras.
Em algumas regiões da América Portuguesa, como Ouro Preto, Salvador,
Rio de Janeiro, começou a brotar o sentimento de que era possível romper
com a metrópole.
Pausa
UItimas
paIavras
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Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Justifique a expressão “caranguejos no litoral”, usada por frei Vicente
do Salvador para se referir à ocupação portuguesa na América.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Associe o Tratado de Tordesilhas, a União Ibérica e a expansão portuguesa
na América.
Exercício 3 Exercício 3 Exercício 3 Exercício 3 Exercício 3
A União Ibérica provocou as chamadas invasões holandesas no nordeste
da América Portuguesa. Explique, resumidamente, por que isso ocorreu.
Exercício 4 Exercício 4 Exercício 4 Exercício 4 Exercício 4
Explique a frase: “Os paulistas dobraram Tordesilhas.”
Exercício 5 Exercício 5 Exercício 5 Exercício 5 Exercício 5
Complete o quadro abaixo, identificando o tipo de ocupação de cada uma
das regiões da América Portuguesa:
ATIVIDADE ATIVIDADE ATIVIDADE ATIVIDADE ATIVIDADE ECONÔMICA ECONÔMICA ECONÔMICA ECONÔMICA ECONÔMICA
Agroindústria açucareira
Pecuária
Drogas do sertão
Caça ao índio;
busca de ouro
Busca de riquezas
minerais
Tropas de mulas,
pecuária; agricultura
de subsistência
Algodão
MÃO MÃO MÃO MÃO MÃO- -- --DE DE DE DE DE- -- --OBRA OBRA OBRA OBRA OBRA
Escravo negro
Trabalho livre
(brancos, negros e índios)
Índios
Trabalho livre
(brancos, índios mestiços)
Escravo negro
Brancos e mestiços
Negro, índio
REGIÕES REGIÕES REGIÕES REGIÕES REGIÕES
Litoral nordestino
Sertão nordestino
Amazônia
São Vicente/São Paulo
Minas
Sul
Maranhão
lxcrcícios
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MÓDULO 3
O fato de ser alferes influiu para transfor-
mar-me em conspirador, levado a tanto que fui pelas injustiças que sofri,
preterido sempre nas promoções a que tinha direito. Uni as minhas amargu-
ras às do povo, que eram maiores, e foi assim que a idéia de libertação tomou
conta de mim.
Assim falou o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, durante
o inquérito sobre a sua participação, e de outros habitantes de Vila Rica (atual
Ouro Preto), numa conspiração contra a Coroa portuguesa.
Todo o processo da Conspiração Mineira, que levou três anos de 1789,
quando os conspiradores foram presos, até 1792, quando foram julgados , está
descrito nos vários volumes dos Autos da Devassa. Por esse documento
histórico, que pode ser consultado em bibliotecas, ficamos sabendo que o
“abominável” crime dos conspiradores mineiros foi o de querer romper os laços
de dependência que a região das Minas mantinha com a metrópole portuguesa.
Nesta aula, vamos discutir as grandes mudanças que o século XVIII trouxe
para a América Portuguesa. Comecemos pelas Minas Gerais, e veremos que
aí se formou uma sociedade diferente, com mineradores, comerciantes, artesãos,
todos atraídos pela febre do ouro febre do ouro febre do ouro febre do ouro febre do ouro.
Essa riqueza da colônia exigiu uma política mais firme de vigilância
e de repressão por parte de Portugal. As insatisfações dos colonos cresceram,
e ocorreram conspirações contra o domínio português em vários pontos, além
de Vila Rica. As novas idéias de liberdade que corriam a Europa chegavam
à América Portuguesa.
A scdc do ouro
A sede insaciável do ouro estimulou tantos a deixarem suas terras
e a meterem-se por caminhos tão ásperos como são os das minas,
que dificultosamente se poderá dar conta do número das pessoas que
atualmente lá estão.
Quem nos conta sobre a corrida do ouro é o jesuíta italiano Antonil, o mesmo
que descreveu em detalhes, na Aula 6, o funcionamento de um engenho de açúcar.
Antonil esteve na América Portuguesa no início do século XVIII. Deixou um
livro intitulado Cultura e opulência no Brasil por suas drogas e minas, que
é uma importante fonte para a história do período colonial.
CoIûnia c mctrúpoIc,
uma rcIação cm crisc
Abcrtura
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Se você se lembra do garimpo de Serra Pelada, até pode imaginar o que
aconteceu no sertão das Minas, ocupado por multidões de aventureiros vindos
de São Paulo, do Rio de Janeiro, da Bahia, de Sergipe. Da serra da Mantiqueira
até Cuiabá, a terra foi ocupada por homens de poucos recursos, porém desejosos
de riqueza fácil. De 1700 a 1760, só de Portugal vieram mais de 10 mil reinóis reinóis reinóis reinóis reinóis,
como eram chamados os originários do “reino”.
Segundo a historiadora Laura Vergueiro (Opulência e miséria das Minas
Gerais, p.17), muitos navios foram abandonados nos portos de Santos e do Rio
de Janeiro pela tripulação, a quem os trabalhos nos garimpos pareciam mais
promissores que as longas travessias marítimas.
Desesperados, os comandantes recorriam às autoridades locais, que por sua
vez escreviam ao rei, dando queixa da situação.
A realidade da região das Minas era menos dourada do que se esperava. Não
havia alimentos suficientes para sustentar tanta gente. Nos anos de 1697-98
e 1700-01 ocorreram terríveis crises de fome, e, conta Antonil, “acharam-se não
poucos mortos com uma espiga de milho na mão”.
A comida, a bebida, a roupa, tudo era lá vendido a peso de ouro.
Os comerciantes foram os que mais enriqueceram, trazendo de São Paulo, do Rio
de Janeiro e de Salvador artigos como milho, trigo, frutas. Muito procurados
eram os animais domésticos e de carga vindos do Sul e, ainda, produtos
importados da Europa, como sal, ferramentas e tecidos.
Pouco a pouco, foram se desenvolvendo na região mineradora as roças de
alimentos e a criação de animais domésticos. Carpinteiros, alfaiates, ferreiros,
pedreiros, pintores aí foram se instalando.
Mas o artigo indispensável nas minas como em qualquer outra região da
colônia era o escravo negro. Milhares deles foram levados à região mineradora
para trabalhar numa atividade completamente diferente da agricultura.
Eles tinham agora de encontrar nos rios, ou arrancar da terra, o ouro
e os diamantes. Para incentivá-los, os mineradores, em troca da descoberta
de um veio, prometiam alforriá-los. Outras vezes, a liberdade era comprada
com o ouro escondido nos cabelos ou algum diamante engolido.
Você já deve ter ouvido falar de Chico Rei Chico Rei Chico Rei Chico Rei Chico Rei, o negro que achou ouro e passou
a comprar cartas de alforria para outros escravos. Ou ainda de Chica da Silva Chica da Silva Chica da Silva Chica da Silva Chica da Silva,
a negra e rica mulher do português João Fernandes de Oliveira, poderoso
contratador de diamantes da região do Tijuco, no Distrito Diamantino.
A população de Minas Gerais, por volta de 1770, era superior a 300 mil
habitantes. Os mulatos representavam pouco mais de um quarto da população
mineira; só uma pequena porcentagem era escrava.
Se a esse número se somar a quantidade de negros (escravos e forros), sobe
para quase 80% a população não-branca nas Minas.
Percebeu como a sociedade mineira era bem mais diferenciada que
a açucareira, que se desenvolveu no litoral nordestino? Nas cidades de Vila Rica,
Ribeirão do Carmo e Sabará, além da maioria negra e mestiça, conviviam lado
a lado ricos mineradores, comerciantes e fazendeiros, padres, militares e fun-
cionários da Coroa, artistas e artesãos.
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lm tcmpo
Utensílios
artesanais feitos
de madeira.
Utensílios
artesanais feitos
de palha e vime.
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Lá se construíram, com o poder do ouro, muitas igrejas barrocas barrocas barrocas barrocas barrocas, ponto de
atração dos turistas que hoje visitam as cidades históricas mineiras.
Lá, Aleijadinho esculpiu suas estátuas, integrando-as a um conjunto
arquitetônico que é hoje patrimônio da humanidade.
O ouro trouxe para as Minas uma grande quantidade de reinóis reinóis reinóis reinóis reinóis. Para
lá foram, além de funcionários encarregados da administração e da cobrança
dos impostos, milhares de aventureiros em busca do Eldorado.
Como reagiram os paulistas diante da ocupação da região das Minas, por
eles descoberta? Os paulistas não aceitaram os emboabas emboabas emboabas emboabas emboabas, como eram denomi-
nados todos os forasteiros, principalmente os reinóis, que tinham mais facilida-
de de conseguir terras e escravos. As tensões entre paulistas e emboabas
geraram um grave conflito nas Minas, em 1708-09, e a Coroa teve de intervir na
região, enviando um governador para a recém-criada capitania de São Paulo
e Minas de Ouro. Batidos pelos emboabas, muitos paulistas rumaram para Goiás
e Mato Grosso, onde também descobriram ouro e diamantes.
Para Portugal, o fundamental era que as Minas continuassem a produzir.
Em sérias dificuldades econômicas desde meados do século XVII, a partir
da queda do preço do açúcar no mercado internacional, a Coroa portuguesa logo
percebeu que o ouro brasileiro seria a solução de seus problemas. Com ele,
poderia cobrir o desequilíbrio da balança comercial com a Inglaterra, para quem
vendia vinhos e de quem comprava tecidos de lã e de algodão.
Igreja de São Francisco, em Ouro Preto.
Estátua do profeta Daniel,
em Congonhas do Campo.
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É comum ouvir que o ouro abriu buracos no Brasil, construiu palácios em
Portugal e financiou indústrias na Inglaterra. Ou, ainda, que o ouro passava pela
garganta de Portugal, mas acabava no estômago da Inglaterra.
Como você explicaria essas afirmativas?
ControIando a coIûnia
A produção aurífera alcançou níveis extraordinários, atingindo seu ponto
máximo entre 1741 e 1761, quando de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso foram
extraídas cerca de 290 toneladas de ouro.
Achado o ouro, o importante agora era organizar e controlar a sua explora-
ção. Já em 1702 era criada a Intendência das Minas Intendência das Minas Intendência das Minas Intendência das Minas Intendência das Minas, dirigida por um funcionário
da Coroa e a ela diretamente subordinado. Ao intendente caberia estabelecer
as normas para a distribuição das terras a serem exploradas e administrar
os conflitos numa região tão violenta. Essa intervenção da metrópole na região
das Minas visava sobretudo garantir que o ouro se dirigisse aos cofres do reino
e não se perdesse nos descaminhos. Foi então criada uma casa de fundição,
no Rio de Janeiro, para transformar o ouro em barras e controlar a arrecadação
do quinto quinto quinto quinto quinto, um imposto de 20%, que caberia à Coroa portuguesa.
Como reagiram os colonos a essa rigorosa política de fiscalização
da metrópole? Apelaram para a falsificação e o contrabando contrabando contrabando contrabando contrabando, freqüentemente
com a cumplicidade dos intendentes e outros funcionários da Coroa.
Segundo o historiador Carl Boxer (A idade de ouro do Brasil, p. 163), foram
descobertas, em Vila Rica, uma casa da moeda e uma fundição clandestinas.
Operadas por quadrilhas de falsários, contavam com o apoio do próprio secre-
tário do governador da capitania, e, segundo corria à boca pequena, com a
proteção de d. Fernando, irmão do rei português, d. João V.
Presos em flagrante, os falsários foram enviados a Lisboa, mas nada lhes
aconteceu. Tempos depois, voltaram às Minas.
Como o governo metropolitano reagiu às tentativas dos colonos de fugir da
pesada carga de impostos e da fiscalização implacável? Você talvez até saiba
a resposta... A Coroa portuguesa criou novos impostos e aumentou a vigilância.
Os mineradores tinham de pagar taxas sobre os escravos, além de pedágios
para transitar nas estradas que iam para as Minas. E não parava por aí. Havia
ainda os donativos donativos donativos donativos donativos, que eram uma espécie de imposto provisório para atender
a um objetivo específico, mas que depois se tornavam permanentes.
Para resolver o problema do descaminho do ouro entre as Minas e o Rio de
Janeiro, o governo português determinou a instalação de casas de fundição
em Vila Rica. Aí o ouro seria transformado em barras e selado, depois de retirada
a quinta parte que cabia ao governo português. O contrabando ficou mais difícil,
e as punições aos contrabandistas aumentaram. A inquietação tomou conta
da população de Vila Rica.
Em 1720, uma rebelião liderada pelo rico minerador Pascoal da Silva
Guimarães e pelo fazendeiro Filipe dos Santos tomou conta da cidade por vinte
dias, exigindo a suspensão das casas de fundição. Filipe dos Santos foi preso
e sumariamente condenado à morte por enforcamento. Seu corpo foi esquarte-
jado e espalhado pelos quatro cantos da cidade para servir de exemplo.
Mesmo assim, a arrecadação dos impostos continuava a cair. O que fazer?
A Coroa resolveu adotar o sistema de cota fixa no valor de cem arrobas por ano
Pausa
Pausa
10
A U L A
(cerca de 1.500 quilos de ouro)
por área mineradora. No caso
de o tributo ser pago atrasado,
ou não atingir a quantidade
desejada, Portugal poderia pro-
ceder à derrama derrama derrama derrama derrama, obrigando
cada morador da região a pagar
esse imposto atrasado.
Já deu para sentir que as
relações entre a colônia e a me-
trópole portuguesa modifica-
ram-se muito ao longo do sécu-
lo XVIII. Cada vez mais depen-
dente dos recursos gerados
em suas áreas coloniais, a Coroa
portuguesa procurou tirar delas
o maior rendimento possível.
Essa foi a marca da política
de Sebastião José de Carvalho
e Melo, o marquês de Pombal marquês de Pombal marquês de Pombal marquês de Pombal marquês de Pombal,
que, de 1750 a 1777, foi primei-
ro-ministro do rei d. José I.
A preocupação central de
Pombal era tornar mais eficiente a exploração da colônia, centralizando
sua administração nas mãos da Coroa.
Para tanto, Pombal tomou várias medidas. Procurou marcar as novas
fronteiras da América Portuguesa, com atenção especial para a Amazônia.
Acabou definitivamente com as capitanias hereditárias criadas nos primeiros
anos da colonização. Expulsou os jesuítas de Portugal e das colônias, já que
os considerava um poder que fazia sombra ao próprio rei.
Mais de quinhentos religiosos foram expulsos da América Portuguesa.
Com isso, o ensino na colônia ficou muito prejudicado, já que era quase
totalmente monopolizado pelos jesuítas.
Foi criado então um imposto, o subsídio literário subsídio literário subsídio literário subsídio literário subsídio literário, para manter as aulas aulas aulas aulas aulas
régias régias régias régias régias o ensino mantido pelo Estado.
Tornar a colônia mais eficiente significava fazê-la render mais para Portugal.
Era preciso acabar com o contrabando, restaurar o exclusivo exclusivo exclusivo exclusivo exclusivo português
no comércio colonial e ter um estreito controle das riquezas coloniais,
em especial do ouro. A colônia teria de produzir cada vez mais, e essa produção
deveria se dirigir para a metrópole.
Você já aprendeu que a relação entre a América Portuguesa e a sua
metrópole se modificou ao longo do século XVIII. Releia o texto e faça um
resumo das principais mudanças.
lm tcmpo
lm tcmpo
A região das Minas
Gerais, com seus
ricos veios
de diamantes
e de ouro,
foi o palco da
Inconfidência
Mineira, no final do
século XVIII.
10
A U L A
Mas qual seria a reação dos colonos a essa política pombalina de arrocho do
pacto colonial? O pacto colonial, você se recorda, foi explicado na Aula 5.
Pombal convocou vários brasileiros para trabalhar em órgãos da admi-
nistração do Estado. Mas os membros da elite colonial poderosos fazendei-
ros, ricos comerciantes e mineradores não viam com bons olhos as inicia-
tivas da metrópole para estabelecer maior controle e exploração sobre
a colônia. Começaram a crescer, entre eles, as novas idéias de liberdade que
corriam a Europa no final do século XVIII.
CoIûnia c mctrúpoIc: uma rcIação cm crisc
Desde a época de vossa gloriosa independência, os bárbaros portugueses
não poupam nada para nos fazer infelizes, com receio de que sigamos
os vossos passos. E como sabemos que esses usurpadores, contra a lei
da natureza e da humanidade, não pensam senão em nos abater, decidimo-
nos a seguir o admirável exemplo que acabais de nos dar...
Esse é um trecho da carta que, em 1786, José Joaquim Maia, estudante
mineiro da Faculdade de Medicina de Montpellier, enviou a Thomas Jefferson,
embaixador americano na França e um dos líderes do movimento que,
dez anos antes, em 1776, conduzira à independência dos Estados Unidos
da América do Norte.
Essa presença de mineiros nas universidades européias em 1786 havia
doze mineiros entre os 27 brasileiros matriculados na Universidade de Coimbra
deveu-se, é claro, à riqueza que conseguiram acumular. Foi essa elite rica
e letrada que, em contato com as novas idéias “iluministas” francesas, liderou
uma conspiração contra o domínio português nas Minas. Mas o que eram essas
idéias iluministas francesas idéias iluministas francesas idéias iluministas francesas idéias iluministas francesas idéias iluministas francesas, que tanto encantaram os conspiradores de Vila Rica?
Ao longo do século XVIII, principalmente na França, começou-se a criticar
o absolutismo e o poder divino dos reis, a falta de liberdade econômica e a força
da nobreza. Os grupos burgueses, ligados ao comércio, à indústria e às finanças,
defendiam a redução dos monopólios controlados pelo rei e pediam mais
liberdade para realizar seus negócios. Intelectuais lutavam pela igualdade
de todos perante a lei, pelo direito de voto e por uma Constituição que
determinasse os direitos e os deveres dos cidadãos.
Você já deve estar entendendo por que essas idéias “francesas” faziam tanto
sucesso nas cidades mineiras. Para a elite rica e letrada, significavam o fim
da “opressão” metropolitana e o desaparecimento das “terríveis” desigualda-
des entre colonos e reinóis.
Repare como José Joaquim Maia se refere aos “bárbaros” e “usurpadores”
portugueses. Verifique as queixas de Tiradentes quanto à “injustiça” de ter
sido sempre “preterido nas promoções” a oficial, porque era nascido na terra,
e não no reino.
Nos Autos da Devassa estão relacionados os nomes dos participantes
da conspiração. Comecemos por Tiradentes, alferes (suboficial) do Regimento
dos Dragões de Minas, entusiasmado ativista do movimento. Bem-relacionado
com membros da elite de Vila Rica, Tiradentes era, no entanto, homem de poucas
posses e origem social simples. Foi preso no Rio de Janeiro, quando tentava fazer
contatos com outros conspiradores e conseguir armas. Foi o único que recebeu
a pena máxima, a condenação à forca e ao esquartejamento. Seus restos foram
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A U L A
expostos ao longo da estrada que liga-
va o Rio a Minas, para que sua punição
servisse de exemplo. Esse ato, que hoje
consideramos chocante, era uma prá-
tica usual da justiça, naquela época.
Membros de destaque da elite in-
telectual de Vila Rica aparecem tam-
bém na Devassa: o rico advogado Cláu-
dio Manuel da Costa, o desembargador
e poeta Tomás Antônio Gonzaga,
o médico Domingos Vidal Barbosa,
o comandante dos Dragões, Francisco
de Paula Andrade, os padres Correia
de Toledo, Oliveira Rolim e o cônego
Luís Vieira de Toledo, dono de uma
vasta biblioteca com obras dos ilumi-
nistas franceses e sobre a indepen-
dência norte-americana.
A chegada do visconde de Bar-
bacena, o novo governador das Minas,
e as notícias de que logo seria decreta-
da a derrama, mobilizaram um outro
grupo formado por fazendeiros
e mineradores, grandes devedores
do Tesouro Real que temiam perder
suas propriedades.
Em troca do perdão das suas dívi-
das, Joaquim Silvério dos Reis denun-
ciou, em março de 1789, os nomes
e os planos da conspiração. A idéia central era a proclamação de uma república
na região das Minas, cuja capital seria São João d’El Rei.
Os denunciados foram presos, e, com exceção de Cláudio Manuel da Costa,
que teria se suicidado na prisão, e de Tiradentes, que foi executado, os demais
foram perdoados ou degredados para a África.
Cem anos depois, com a proclamação da República, em 1889, Tiradentes se
transformou em herói, em “mártir” da independência nacional. A data de sua
morte, 21 de abril de 1792, virou feriado nacional. A cena do seu suplício foi
imaginada por vários pintores, como Pedro Américo, Eduardo Sá e Rafael Falco.
Em outros pontos da colônia houve também manifestações de insatisfação
em relação à “opressão” da metrópole.
A crise da mineração e a perda da condição de capital para a cidade do Rio
de Janeiro haviam empobrecido a população baiana, às voltas com a carestia
e a falta de alimentos. Em agosto de 1798, em Salvador, apareceram panfletos
conclamando o “magnífico povo bahiense” a se levantar contra o domínio
português. Inspiradas pela Revolução Francesa (1789), propostas como a procla-
mação da República, o fim da escravidão e das diferenças raciais e o livre
comércio eram os principais pontos defendidos pelos conspiradores baianos
muitos deles alfaiates, carpinteiros, soldados, sapateiros. A repressão agiu
rapidamente, e logo começaram as prisões. Dessa vez, foram quatro
os condenados à morte. Punição muito severa, devida sobretudo à origem
mais humilde dos conspiradores e ao medo das rebeliões de negros e mulatos.
Tiradentes
10
A U L A
Na cidade do Rio de Janeiro, elevada à condição de capital colonial desde
1763, alguns intelectuais, reunidos na chamada Sociedade Literária Sociedade Literária Sociedade Literária Sociedade Literária Sociedade Literária, foram
acusados de discutir as “abomináveis” idéias da Revolução Francesa. Presos em
1794, ficaram dois anos na cadeia.
No final do século XVIII, novas idéias corriam a Europa e a América
Portuguesa. Idéias que falavam de liberdade, igualdade e fraternidade.
Na França, o rei e a rainha foram presos e guilhotinados. Os privilégios
da nobreza e da Igreja foram extintos. O povo passou a ser tratado como cidadão.
Na América Portuguesa, a elite colonial começava a achar que era chegada
a hora da separação da metrópole. Queria liberdade para comerciar, pagar
menos impostos, ocupar o governo.
A independência só veio em 1822. Tal como no século XVI fora enfrentado
o desafio de montar a América Portuguesa, agora era o tempo de construir
uma nação, o Brasil. É o que veremos na segunda parte do nosso curso.
Acompanhe-nos.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Justifique a expressão “sede de ouro”, utilizada por Antonil para se referir
ao que ele viu na região das Minas no início do século XVIII.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Releia o item A sede de ouro A sede de ouro A sede de ouro A sede de ouro A sede de ouro e observe que a sociedade mineradora
apresentava características diferentes das demais regiões da colônia. Rela-
cione algumas dessas características.
Exercício 3 Exercício 3 Exercício 3 Exercício 3 Exercício 3
Releia o item Controlando a colônia Controlando a colônia Controlando a colônia Controlando a colônia Controlando a colônia e relacione as principais medidas que
a Coroa portuguesa adotou para garantir que o ouro da colônia não se
perdesse nos “descaminhos”.
Exercício 4 Exercício 4 Exercício 4 Exercício 4 Exercício 4
É comum ouvir que o ouro da América Portuguesa passava pela garganta
de Portugal, mas acabava no estômago da Inglaterra. Explique essa afirma-
tiva.
Exercício 5 Exercício 5 Exercício 5 Exercício 5 Exercício 5
Justifique o título da aula Colônia e metrópole, uma relação em crise Colônia e metrópole, uma relação em crise Colônia e metrópole, uma relação em crise Colônia e metrópole, uma relação em crise Colônia e metrópole, uma relação em crise.
UItimas
paIavras
lxcrcícios
11
) 7 )
Partc ll
lmpório, ou quando sc
constrúi o ßrasiI
Estamos iniciando a segunda parte do nosso curso. Vamos juntos exa-
minar os principais desafios enfrentados pelos brasileiros brasileiros brasileiros brasileiros brasileiros na construção do construção do construção do construção do construção do
Império do Brasil Império do Brasil Império do Brasil Império do Brasil Império do Brasil.
Nosso ponto de partida será uma nova viagem: a da Corte portuguesa para
a sua colônia americana, no início do século XIX. A presença da Corte mudou
inteiramente a dinâmica da vida na colônia, e não apenas pela chegada de
novos e ilustres visitantes. Muito mais do que isso, a colônia agora se vestia vestia vestia vestia vestia
de metrópole de metrópole de metrópole de metrópole de metrópole, isto é: a partir daquele momento, o vasto império português
passava a ser comandado não mais por Lisboa, mas pela Corte instalada no Rio
de Janeiro. Esse fato foi fundamental para que várias mudanças fossem
impulsionadas, o que muito contribuiu para a transformação da colônia
em país independente.
Mas como organizar a economia do novo país? Como enfrentar as pressões
internacionais? Que tipo de Estado atenderia aos objetivos dos diversos
grupos que lideraram a independência?
Essas e outras questões precisavam ser enfrentadas. Como era uma época
de transformações no Brasil e em praticamente todo o mundo ocidental,
havia modelos que poderiam inspirar nossas elites dirigentes. Grande parte
da América trilhava o caminho aberto pelos Estados Unidos no final do
século XVIII: a formação de uma República presidencialista e federalista.
Mas essa não seria a opção fundamental de grande parte de nossas elites.
Para elas, a idéia de República era alguma coisa vinculada às sangrentas lutas
políticas por que passava a maioria das ex-colônias espanholas. A alternativa,
então, seria a criação de um Estado imperial que afastasse a “anarquia”
e assegurasse a estabilização, mantendo-nos vinculados à tradição monárquica
européia. O Império do Brasil, assim, assumiria um caráter particular naquele
continente americano republicano.
MúduIo 4
Dc Amórica Portugucsa
a lmpório do ßrasiI
Este módulo trata do processo de emancipação política nas Américas
Portuguesa e Espanhola. Tal processo será examinado tendo-se em vista
o quadro de profundas transformações que atingiam o mundo ocidental
na passagem do século XVIII para o século XIX.
11
A U L A
Em 1818, o príncipe regente foi coroado rei
de Portugal e recebeu o título de d. João VI. O acontecimento já era esperado
desde a morte de dona Maria I, dois anos antes. Até aí, portanto, nada de novo. Foi
uma sucessão sem sobressaltos. Mas havia algo de diferente naquela cerimônia.
Ela não se passou em Lisboa, como as demais cerimônias da antiga
monarquia portuguesa, mas na cidade do Rio de Janeiro cidade do Rio de Janeiro cidade do Rio de Janeiro cidade do Rio de Janeiro cidade do Rio de Janeiro, sede da Corte sede da Corte sede da Corte sede da Corte sede da Corte
desde a vinda da família real para a América Portuguesa em 1808 desde a vinda da família real para a América Portuguesa em 1808 desde a vinda da família real para a América Portuguesa em 1808 desde a vinda da família real para a América Portuguesa em 1808 desde a vinda da família real para a América Portuguesa em 1808.
O que explica o coroamento de um rei em uma terra distante do seu país
de origem? E mais por que a cidade do Rio de Janeiro era agora a sede do vasto
império português?
Nesta aula, vamos estudar tudo isso. Veremos as razões da transferência
da Corte portuguesa para as terras brasileiras e seu impacto na vida colonial. Depois
dessa nova viagem, a história seria muito diferente...
A coIûnia sc vcstiu
dc mctrúpoIc
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A U L A
MÓDULO 4
Abcrtura
Aclamação
de d. João VI.
11
A U L A
Uma nova viagcm
No início do nosso curso, estudamos as grandes viagens marítimas euro-
péias dos séculos XV e XVI. Vimos que os portugueses se destacaram naquele
momento. Era uma época de desbravamento, de aventura e de busca de merca-
dos e metais.
Estamos agora examinando o significado de uma outra viagem, que resul-
tou em importantes mudanças tanto para Portugal como para a sua colônia
americana: a transferência da Corte portuguesa para as terras brasileiras
no início do século XIX.
Vejamos como um historiador português, Oliveira Martins, relata os dife-
rentes sentidos dessas duas viagens para a história portuguesa:
Três séculos antes, Portugal embarcara cheio de esperanças e cobiça,
para a Índia; em 1807 (...), embarcava em um préstito [procissão]
fúnebre para o Brasil. (...) Desabava tudo a pedaços; e só agora, final-
mente, o terremoto começado pela natureza (...) se tornava um fato
consumado (...). Era um afã, como quando há fogo; e não havia nem
choro nem imprecações; havia apenas uma desordem surda. Embarca-
vam promiscuamente, no cais, os criados e os monsenhores, as freiras
e os desembargadores (...). Era escuro, nada se via, ninguém se conhecia
(...). O príncipe regente e o infante de Espanha chegaram ao cais na
carruagem, sós: ninguém dava por eles; cada um cuidava de si, e tratava
de escapar.(...) E por fim a rainha, de Queluz, a galope. Parecia que
o juízo lhe voltava com a crise. “Mais devagar!”, gritava ao cocheiro;
"diria que fugimos!" (...) Tudo o mais era vergonha calada, passiva
inépcia, confessada fraqueza.
Oliveira Martins, Oliveira Martins, Oliveira Martins, Oliveira Martins, Oliveira Martins, História de Portugal História de Portugal História de Portugal História de Portugal História de Portugal, , , , , p. 516-517 p. 516-517 p. 516-517 p. 516-517 p. 516-517
Oliveira Martins, utilizando-se de uma linguagem vigorosa, procura
relatar o segundo embarque como uma tragédia tragédia tragédia tragédia tragédia, como um terremoto terremoto terremoto terremoto terremoto que se
abateu sob o reino de Portugal. Os portugueses fugiam desesperados da
invasão francesa invasão francesa invasão francesa invasão francesa invasão francesa, que já estava alcançando Lisboa naquele mês de novembro
de 1807. Após intensas negociações, a Corte resolvera partir para sua colônia
americana. Em 29 de novembro, os abarrotados navios portugueses partiram
de Lisboa, sob a proteção da esquadra britânica.
As condições da viagem foram as piores possíveis. Boris Fausto nos conta que
uma tempestade dividiu a frota; os navios estavam superlotados, daí
resultando falta de comida e água; a troca de roupa foi improvisada com
cobertas e lençóis fornecidos pela marinha inglesa; para completar,
o ataque dos piolhos obrigou as mulheres a raspar o cabelo.
Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, História do Brasil História do Brasil História do Brasil História do Brasil História do Brasil, p. 121 , p. 121 , p. 121 , p. 121 , p. 121
Movimcnto
lm tcmpo
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A U L A
O transtorno que representou aquela viagem durou pouco mais de um
mês. Em janeiro do ano seguinte, a Corte chegou a Salvador e, dias depois,
partiu para a cidade do Rio de Janeiro, onde foi recebida com festas. Mas
deixemos de lado o relato da tragédia portuguesa e das festas brasileiras. Vejamos
por que tudo isso estava acontecendo.
A Europa estava agitada pela guerra, naqueles primeiros anos do
século XIX. As tropas de Napoleão Bonaparte, herdeiras dos princípios
da Revolução Francesa Revolução Francesa Revolução Francesa Revolução Francesa Revolução Francesa, ganhavam terreno na luta contra os seus principais
inimigos: as monarquias absolutistas da Áustria, Rússia e Prússia e a poderosa
Inglaterra, berço da Revolução Industrial Revolução Industrial Revolução Industrial Revolução Industrial Revolução Industrial.
Nesse jogo de gigantes, o Estado português encontrava-se pressionado
pelos dois lados: pela França napoleônica, interessada em que a Coroa portugue-
sa respeitasse o bloqueio continental bloqueio continental bloqueio continental bloqueio continental bloqueio continental contra a Inglaterra, e pela própria
monarquia britânica, tradicional aliada de Portugal, que o pressionava para que
mantivesse abertos seus portos aos navios ingleses. A opção portuguesa de não
aderir ao bloqueio continental desencadeou a invasão francesa.
A cidade do Rio de Janeiro, que recebeu os “novos visitantes”, estava em
franca expansão no início do século XIX. Sua população havia crescido de
30 mil para cerca de 60 mil pessoas entre 1750 e 1808. Mantinha, porém,
características de cidade colonial, como nos relata Ilmar Mattos:
Ruas estreitas, escuras e sujas; não havia remoção de lixo, sistemas
de esgotos, qualquer noção de higiene pública. As casas eram térreas,
em sua maioria ocupadas pelos próprios donos. Obras públicas, somente
o passeio público e o aqueduto do Carioca. (...) As mulheres andavam
sempre embuçadas [cobertas], sentadas no chão ou sobre esteiras;
os homens com um poncho ou um manto, e os nobres com espada
à ilharga [na cintura].
Ilmar Mattos, Ilmar Mattos, Ilmar Mattos, Ilmar Mattos, Ilmar Mattos, Tempo saquarema Tempo saquarema Tempo saquarema Tempo saquarema Tempo saquarema, ,, ,, p. 30-31 p. 30-31 p. 30-31 p. 30-31 p. 30-31
Por mais trágica que fosse a situação portuguesa, a vida continuava.
O príncipe regente, d. João, tratou logo de adotar novas medidas que pudessem
organizar a vida da Corte na colônia.
Uma das mais importantes foi a abertura dos portos às “nações amigas”.
A medida era muito importante por alguns motivos. Primeiro: assegurava
rendas ao Tesouro Real, o que era fundamental para fixar o governo
na colônia. Segundo: atendia aos objetivos ingleses de abrir o mercado brasileiro
aos seus produtos, naqueles anos de bloqueio continental. Terceiro e último:
na prática, terminava com o monopólio comercial um dos principais mecanis-
mos das relações entre a metrópole portuguesa e sua colônia americana até então.
O efeito foi imediato. Apenas naquele ano de 1808, chegaram aos portos
brasileiros noventa navios estrangeiros. Vinte anos depois, esse número já havia
subido para 315, sendo 195 ingleses (Ilmar Mattos e Luiz Affonso de Albu-
querque, Independência ou morte, p.18)
A maior presença estrangeira, e especialmente britânica, no comércio
brasileiro não foi bem recebida pelos comerciantes portugueses, interessados
em preservar antigos privilégios obtidos antes da abertura dos portos. D. João,
atendendo aos seus reclamos, assegurou-lhes o monopólio do comércio entre
Bloqueio
continental:
política francesa
que exigia o
fechamento dos
portos de todas as
nações européias
aos navios
ingleses.
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A U L A
as capitanias e reduziu o imposto de importação dos produtos portugueses
quando estes ingressavam nos portos brasileiros.
O fim do monopólio comercial fim do monopólio comercial fim do monopólio comercial fim do monopólio comercial fim do monopólio comercial agradou em cheio aos produtores coloniais
de gêneros para a exportação. A partir daí, haveria maior liberdade na venda de
seus produtos, o que poderia significar também melhores preços.
Outra medida liberalizante da administração do príncipe regente foi a
revogação dos decretos que proibiam a produção de manufaturados na colônia.
Caía por terra, assim, mais uma das restrições impostas pelo pacto colonial.
A historiadora Emília Viotti nos revela que as leis decretadas pelo príncipe
regente, embora contribuíssem para liquidar o sistema colonial,
não foram capazes de modificar todo o sistema, e nem mesmo tinham a
intenção; daí a persistência de privilégios e monopólios. Permanecia
(...) a emperrada máquina administrativa, as inúmeras proibições:
proibição de se deslocar livremente, de abrir caminhos, discriminações
e privilégios que separavam portugueses e brasileiros, criando animo-
sidade entre eles.
Emília Viotti da Costa, Emília Viotti da Costa, Emília Viotti da Costa, Emília Viotti da Costa, Emília Viotti da Costa, " "" ""Introdução ao estudo da emancipação política Introdução ao estudo da emancipação política Introdução ao estudo da emancipação política Introdução ao estudo da emancipação política Introdução ao estudo da emancipação política
no Brasi l no Brasi l no Brasi l no Brasi l no Brasi l" "" "", p. 82) , p. 82) , p. 82) , p. 82) , p. 82)
Com a Corte estabelecida na colônia, a Coroa britânica tratou de defender
seus interesses comerciais. Por meio de seu representante no Rio de Janeiro,
lorde Strangford, passou a cobrar caro pela proteção que até então dava
a Portugal. Strangford propôs um acordo: o império britânico se comprometia
a manter a proteção e a continuar reconhecendo a dinastia de Bragança dinastia de Bragança dinastia de Bragança dinastia de Bragança dinastia de Bragança como
legítima governante de Portugal. Em troca, exigia privilégios comerciais privilégios comerciais privilégios comerciais privilégios comerciais privilégios comerciais
e políticos e políticos e políticos e políticos e políticos.
Nos tratados firmados em 1810, as exigências britânicas foram atendidas.
Os produtos ingleses passariam a receber um tratamento especial: pagariam
apenas 15% de tarifa alfandegária. Isso significava uma tarifa mais baixa até
do que a imposta aos produtos portugueses quando entravam nos portos
brasileiros. Os súditos britânicos protestantes poderiam exercer livremente
sua religião. Além disso, a Coroa portuguesa se comprometia a reduzir gra-
dualmente o tráfico intercontinental de escravos para a América Portuguesa.
Esses tratados foram recebidos com muitas reservas por vários setores
na colônia, especialmente pelos comerciantes portugueses, que viam seu antigo
mercado exclusivo ser rapidamente ocupado pelos produtos britânicos, com
a garantia do governo português.
Mas não foi apenas a economia colonial que passou por transformações.
A cidade também ganhou nova vida. No porto, a cada dia chegavam novos
visitantes. Muitos estavam interessados em negócios naquela América Portu-
guesa, longe da guerra européia e das guerras de independência na América longe da guerra européia e das guerras de independência na América longe da guerra européia e das guerras de independência na América longe da guerra européia e das guerras de independência na América longe da guerra européia e das guerras de independência na América
Espanhola Espanhola Espanhola Espanhola Espanhola. Outros eram cientistas e artistas que vinham para pesquisar
e conhecer as terras brasileiras. Na dinâmica das estreitas ruas da cidade do
Rio de Janeiro, a antiga cidade colonial estava se transformando em sede
do império português.
lm tcmpo
A baía de
Guanabara.
11
A U L A
Se você acompanha os mais recentes acontecimentos no Brasil, essa
história de liberalização da economia brasileira não lhe deve soar muito
estranha. Desde o início da década de 1990, os governos brasileiros têm
adotado uma série de medidas destinadas a abrir a economia brasileira para o
exterior. Alguns jornais chegaram a anunciar que estava ocorrendo uma nova nova nova nova nova
abertura dos portos abertura dos portos abertura dos portos abertura dos portos abertura dos portos. Com a redução das tarifas alfandegárias, os produtos
importados puderam entrar bem mais baratos no mercado brasileiro.
Esse fato tem alertado setores do empresariado sobre a importância
de modernizar o nosso parque industrial para concorrer em melhores condi-
ções com os produtos estrangeiros.
A °nova tisboa"
A guerra continuava a varrer a Europa no início da segunda década do
século XIX. Na América Espanhola cresciam os movimentos autonomistas,
especialmente no Vice-Reino do Prata (Paraguai, Uruguai e Argentina).
Na cidade do Rio de Janeiro, a monarquia portuguesa não dava o menor sinal
de que em pouco tempo retornaria a Portugal. Ao contrário, a tendência naqueles
anos foi transferir e mesmo criar órgãos administrativos que pudessem conso-
lidar a cidade do Rio de Janeiro como capital do Império português capital do Império português capital do Império português capital do Império português capital do Império português.
Um importante órgão transferido para a nova sede da Corte foi o Ministério
da Guerra e Assuntos Estrangeiros, responsável pela política externa do império
português. Foram criados, naquele momento, o Banco do Brasil, a Biblioteca
Real, o Real Horto e as Academias Militar e de Medicina.
A presença da Corte na cidade também impulsionou o surgimento
de teatros, academias literárias e artísticas. A vinda da Missão Artística Francesa
favoreceu o florescimento das artes plásticas. Um de seus membros, Jean-
Baptiste Debret, fixou, em suas aquarelas, diversas cenas do cotidiano
da vida brasileira.
Essa movimentação cultural foi acompanhada da criação do primeiro jornal
editado na colônia: a Gazeta do Rio de Janeiro. Tudo isso permitiu uma maior
circulação de idéias. Mas a censura continuava presente.
lm tcmpo
Cena de rua do
Rio de Janeiro,
registrada em
aquarela de
Debret.
11
A U L A
Boris Fausto nos conta que a Gazeta do Rio de Janeiro
tinha um caráter quase que oficial e estava sujeita, como todas as demais
publicações, a uma comissão de censura encarregada de examinar
os papéis e livros que se mandassem publicar e fiscalizar que nada
se imprimisse contra a religião, o governo e os bons costumes.
Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, História do Brasil História do Brasil História do Brasil História do Brasil História do Brasil, p. 127 , p. 127 , p. 127 , p. 127 , p. 127
Como não poderia deixar de ser, a cidade do Rio de Janeiro cresceu bastante,
acompanhando todas aquelas mudanças. A população havia duplicado entre
a chegada da Corte e o ano de 1819. Dados aproximados nos revelam um
aumento de 50 mil a 60 mil pessoas, em 1808, para 100 mil a 120 mil pessoas,
em 1820. Tudo isso fazia com que a cidade vivesse um enorme crescimento
físico, com a ocupação de locais bastante distantes do centro. O centro
político permaneceu na praça composta pelo Paço dos Governadores, pelo
Senado da Câmara e por sobrados de famílias importantes.
Esses elementos dinamizadores tomaram ainda maior vulto a partir de 1815,
com a elevação da colônia a Reino Unido a Portugal. A sede do novo reino passou
a receber delegações estrangeiras e a abrigar grande parte da administração
portuguesa. Aos olhos de muitos, o Rio de Janeiro transformava-se em uma
cidade portuguesa. Mais do que isso, surgia o que alguns denominavam
a “nova Lisboa” “nova Lisboa” “nova Lisboa” “nova Lisboa” “nova Lisboa”.
lm tcmpo
Debret também
retratou várias
cenas com a família
real, como esta
em que aparece
d. João VI.
11
A U L A
Chamar a cidade do Rio de Janeiro de “nova Lisboa” podia não representar
grande novidade, pois havia algum tempo ela já era a sede do império portu-
guês. Mas, exatamente naquele momento, essa denominação poderia estar
dizendo uma outra coisa. Vejamos.
Naquele ano de 1815, as tropas napoleônicas haviam sido derrotadas
na Europa. As potências vencedoras promoviam uma mudança substancial
no mapa europeu. Era, portanto, o momento de a família real retornar a Portugal.
Mas, como vimos, não foi isso o que ocorreu. Por quê? O que estava
acontecendo? Uma possível resposta para essa pergunta é simples: a situação
portuguesa e européia ainda era instável, e no Reino do Brasil a família real não
encontrava maiores problemas. Vejamos uma outra hipótese, bem mais interes-
sante, e que vem sendo, nos últimos tempos, bastante explorada pelos histo-
riadores. O que ocorreu é que a política de d. João produziu muito mais do que
uma renovação cultural na cidade do Rio e Janeiro.
O príncipe regente implementou um conjunto de medidas que fixaram fixaram fixaram fixaram fixaram,
enraizaram enraizaram enraizaram enraizaram enraizaram muitos funcionários e negociantes portugueses na cidade e em
regiões próximas. Grandes parcelas de terras foram doadas; títulos de nobreza
foram distribuídos. Esses setores, obviamente, não viam com bons olhos
o retorno a Portugal, e pressionaram a Coroa portuguesa a permanecer no Rio.
O mesmo ocorria com setores das elites econômicas interessados em interessados em interessados em interessados em interessados em
preservar os espaços e privilégios obtidos com a política de liberalização preservar os espaços e privilégios obtidos com a política de liberalização preservar os espaços e privilégios obtidos com a política de liberalização preservar os espaços e privilégios obtidos com a política de liberalização preservar os espaços e privilégios obtidos com a política de liberalização
econômica e concessão de créditos e títulos desenvolvida pela Corte econômica e concessão de créditos e títulos desenvolvida pela Corte econômica e concessão de créditos e títulos desenvolvida pela Corte econômica e concessão de créditos e títulos desenvolvida pela Corte econômica e concessão de créditos e títulos desenvolvida pela Corte.
Assim, na cidade do Rio de Janeiro, formou-se uma aliança de portugueses
e brasileiros com interesses comuns no plano econômico e político.
Para todos eles, a permanência da Corte na “nova Lisboa” era um sinal
de que a monarquia portuguesa via com bons olhos a criação de um império
luso-brasileiro com sede no Rio de Janeiro. Um império americano império americano império americano império americano império americano.
A coroação de d. João VI na cidade, em 1818, também reforçava essa tendência.
A história, no entanto, não se resumia apenas aos interesses desses grupos
sediados no Rio de Janeiro e nas suas proximidades. D. João enfrentaria graves
problemas políticos no Nordeste brasileiro e em seu próprio país. As pressões
para que a família real retornasse a Portugal ganharam vulto. Era hora
de definições.
O príncipe
regente
d. João.
11
A U L A
A aliança política entre portugueses e brasileiros foi assim descrita por Ilmar
Mattos e Luiz Affonso de Albuquerque:
A política joanina propiciava (...) a formação de um poderoso bloco de
interesses no Rio de Janeiro interesses econômicos, financeiros,
políticos e sociais. E seria justamente esse bloco que apoiaria
a elevação do Brasil à categoria de Reino Unido a Portugal e Algarves,
em 1815. Era esse bloco de interesses que sustentava a idéia de um
Império Americano.
Ilmar Mattos e Luiz Affonso de Albuquerque, Ilmar Mattos e Luiz Affonso de Albuquerque, Ilmar Mattos e Luiz Affonso de Albuquerque, Ilmar Mattos e Luiz Affonso de Albuquerque, Ilmar Mattos e Luiz Affonso de Albuquerque, Independência ou morte Independência ou morte Independência ou morte Independência ou morte Independência ou morte, p. 34 , p. 34 , p. 34 , p. 34 , p. 34
Que interesses econômicos e políticos uniam portugueses e brasileiros
no Rio de Janeiro? Explique sua resposta.
Como vimos, a nova viagem trouxe muitas modificações para a América
Portuguesa. Alguns setores beneficiados pela política joanina trataram de dar
corpo a um projeto inteiramente original na América: a criação de um império império império império império
luso-brasileiro luso-brasileiro luso-brasileiro luso-brasileiro luso-brasileiro, com sede definitiva no Rio de Janeiro.
Essa proposta era radicalmente contrária àquelas que animavam a luta
de independência na América Espanhola. Lá, o objetivo era romper com
a metrópole e instaurar preferencialmente o regime republicano.
Na próxima aula, vamos estudar como se processou a ruptura política
na América Espanhola e como foi criado não um império luso-brasileiro, sob
as ordens de d. João VI, mas o Império do Brasil Império do Brasil Império do Brasil Império do Brasil Império do Brasil, comandado pelo príncipe
português d. Pedro.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Releia o item Uma nova viagem Uma nova viagem Uma nova viagem Uma nova viagem Uma nova viagem e identifique as principais conseqüências
da abertura dos portos promovida por d. João VI em 1808.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Releia o item A “nova Lisboa” A “nova Lisboa” A “nova Lisboa” A “nova Lisboa” A “nova Lisboa” e justifique a seguinte afirmativa contida
no texto: “Aos olhos de muitos, o Rio de Janeiro transformava-se em uma
cidade portuguesa”.
lxcrcícios
Pausa
UItimas
paIavras
Vista do
Rio de Janeiro.
Jean-Baptiste Debret
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A U L A
Abcrtura
Você já reparou que, de vez em quando,
parece que tudo acontece ao mesmo tempo na nossa vida? Algumas vezes,
dá tudo errado. Nessas horas, é comum ouvirmos que “um problema puxa
o outro”, ou, como dizem no Nordeste brasileiro, “além de queda, coice”. Outras
vezes, ocorre exatamente o contrário: dá tudo certo. Em todos esses momentos,
temos a impressão que estamos vivendo em outro ritmo, muito mais acelerado.
Na História, também há momentos em que muita coisa acontece, e muda, com
uma velocidade impressionante.
Nesta aula, vamos estudar um desses momentos. Em pouco mais de duas
décadas, três séculos de colonização espanhola e portuguesa caíram por terra
na América. Surgia a América independente América independente América independente América independente América independente.
kcpúbIica pcrnambucana
Na aula anterior, nossa atenção se voltou para o significado da presença
da Corte portuguesa no Rio de Janeiro. Vimos como a elevação da colônia
à categoria de Reino Unido a Portugal fez com que o projeto de formação
de um império luso-brasileiro com sede na “nova Lisboa” ganhasse força.
Esse projeto reconhecia algo que já estava ocorrendo havia algum tempo:
a inversão brasileira inversão brasileira inversão brasileira inversão brasileira inversão brasileira, ou seja, o fato de que a colônia havia se transformado
na metrópole do império português.
A fusão fusão fusão fusão fusão de interesses portugueses e brasileiros, entretanto, não ocorria
em todo o reino do Brasil. No Nordeste, a situação era muito diferente.
Em Pernambuco, no ano de 1817, explodiu um forte movimento regional
de contestação à política joanina. Foram muitas as motivações daquele movi-
mento, que foi chamado de Insurreição Pernambucana Insurreição Pernambucana Insurreição Pernambucana Insurreição Pernambucana Insurreição Pernambucana.
Na província de Pernambuco, e em boa parte do Nordeste, havia um forte
sentimento antilusitano. Isso, em parte, era explicado pelo fato de os portugue-
ses dominarem o comércio varejista e ocuparem importantes postos militares.
O aumento dos impostos para manter a Corte no Rio de Janeiro também era
motivo de descontentamento naquele momento de crise das lavouras de expor-
tação, especialmente açúcar e algodão. A circulação e o comércio enfrentavam
ainda sérios problemas em razão das restrições da legislação portuguesa.
Um dos principais locais de discussão de todos esses problemas eram
as casas maçônicas, casas maçônicas, casas maçônicas, casas maçônicas, casas maçônicas, que reuniam diferentes setores das elites pernambucanas.
A Amórica
indcpcndcntc
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A U L A
MÓDULO 4
Movimcnto
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A U L A
As casas maçônicas havia
quatro apenas em Pernambuco
eram sociedades secretas que
difundiam os ideais liberais.
Em reuniões geralmente regadas
a aguardente nacional (excluía-
se deliberadamente o vinho
europeu), combatia-se a tirania
real e faziam-se planos para
a derrubada do governo local.
E foi isso o que ocorreu em
março de 1817. Foi deposto
o governador Caetano Monte-
negro, e instalou-se um governo
provisório em Recife. Entre
os líderes rebeldes havia comer-
ciantes, fazendeiros, militares e
padres. O movimento contou
com a rápida adesão de outras
províncias nordestinas: Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Até aquele
momento, era a mais importante rebelião já ocorrida em terras brasileiras mais importante rebelião já ocorrida em terras brasileiras mais importante rebelião já ocorrida em terras brasileiras mais importante rebelião já ocorrida em terras brasileiras mais importante rebelião já ocorrida em terras brasileiras
contra o domínio português contra o domínio português contra o domínio português contra o domínio português contra o domínio português.
Alcançado o poder, o governo provisório de Pernambuco tratou de estabele-
cer uma nova ordem legal. A república república república república república foi proclamada. Foram asseguradas
a tolerância religiosa, a liberdade de consciência e a igualdade de direitos.
Os estrangeiros que aderiam ao chamado “partido da regeneração e “partido da regeneração e “partido da regeneração e “partido da regeneração e “partido da regeneração e da liber da liber da liber da liber da liber- -- --
dade” dade” dade” dade” dade” eram considerados “patriotas” “patriotas” “patriotas” “patriotas” “patriotas”. Além disso, aumentou-se o soldo da tro-
pa e eliminaram-se alguns impostos. Garantiu-se a propriedade e manteve-se
a escravidão africana.
Para expressar a mudança, nada como uma nova linguagem. Buscava-se
romper com as antigas hierarquias por meio de um novo vocabulário que
ressaltasse a igualdade entre os homens. A fonte de inspiração era a Revolução
Francesa. Veja o que nos conta Tollenare, um cronista francês que acompanhou
todas essas mudanças:
Em lugar de “Vossa mercê”, diz-se “Vós”, simplesmente; em lugar de Senhor
é-se interpretado pela palavra Patriota, o que equivale a cidadão e ao tratamento
de tu [...] As Cruzes de Cristo e outras condecorações reais abandonam
as botoeiras; fez-se desaparecer as armas e os retratos do rei.
Citado por Ilmar Mattos e Luiz Affonso de Albuquerque, Citado por Ilmar Mattos e Luiz Affonso de Albuquerque, Citado por Ilmar Mattos e Luiz Affonso de Albuquerque, Citado por Ilmar Mattos e Luiz Affonso de Albuquerque, Citado por Ilmar Mattos e Luiz Affonso de Albuquerque, Independência ou Independência ou Independência ou Independência ou Independência ou
morte morte morte morte morte, p. 49-50 , p. 49-50 , p. 49-50 , p. 49-50 , p. 49-50
A expansão do movimento por outras províncias alimentou a idéia de
criação, no Nordeste, de uma república em moldes federativos federativos federativos federativos federativos, como já ocorria
nos Estados Unidos da América (EUA). Na federação, cada Estado possui uma cada Estado possui uma cada Estado possui uma cada Estado possui uma cada Estado possui uma
ampla autonomia perante o poder central ampla autonomia perante o poder central ampla autonomia perante o poder central ampla autonomia perante o poder central ampla autonomia perante o poder central. Pensou-se, inclusive, na constru-
ção de uma capital para esse novo país. Tudo isso, no entanto, durou muito
pouco. A repressão organizada pelo governo joanino foi eficaz e, em maio,
a revolução já havia sido derrotada em todo o Nordeste.
Recife, no início
do século XIX
(1817), foi palco
da Insurreição
Pernambucana.
lm tcmpo
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A U L A
Mas não bastava a derrota militar. O movimento havia tomado uma
dimensão que inquietara o governo. Era importante reafirmar o controle sobre
a região. Daí a necessidade de uma repressão exemplar: esquartejamentos,
fuzilamentos e prisões.
Apesar disso, o clima revolucionário em Pernambuco não se esgotou em o clima revolucionário em Pernambuco não se esgotou em o clima revolucionário em Pernambuco não se esgotou em o clima revolucionário em Pernambuco não se esgotou em o clima revolucionário em Pernambuco não se esgotou em
1817 1817 1817 1817 1817. Vários líderes da insurreição, mais tarde libertados e anistiados, iriam ter
um importante papel nas lutas pela ruptura política com Portugal e em outro
grande movimento de caráter republicano: a Confederação do Equador (1824).
Esse fato pode ser explicado, entre outras coisas, pelo avanço de uma
consciência antilusitana na província, difundida especialmente por uma insti-
tuição que formava parte da elite pernambucana: o Seminário de Olinda Seminário de Olinda Seminário de Olinda Seminário de Olinda Seminário de Olinda,
também chamado de “ninho de idéias liberais”. Ocorria o que o historiador
Carlos Guilherme Motta denominou a “descolonização das consciências” “descolonização das consciências” “descolonização das consciências” “descolonização das consciências” “descolonização das consciências”.
Ainda em 1817, o sonho da República pernambucana, ou nordestina,
foi desfeito. Mas, em grande parte da América, naquele mesmo momento,
o sonho republicano estava virando realidade, como veremos, com a ajuda
de alguns revolucionários de 1817.
kcpúbIicas amcricanas
O trabalho do historiador, como você tem visto, é baseado em fontes
históricas. Em todas as nossas aulas, você vem tomando contato com algumas
delas. Mas não basta reunir um grande número de fontes para, então, escrever
História. O fundamental do trabalho do historiador é obter e reunir fontes para
responder a uma determinada questão, a um determinado problema responder a uma determinada questão, a um determinado problema responder a uma determinada questão, a um determinado problema responder a uma determinada questão, a um determinado problema responder a uma determinada questão, a um determinado problema.
Senão, a História seria simplesmente uma mera reunião de dados. Além disso,
as questões que o historiador procura responder estão, em geral, relacionadas
com as preocupações do seu próprio tempo.
Imagine-se, agora, tendo de escrever a história da independência da Amé-
rica Espanhola. Se você quisesse escrever sobre tudo, certamente seria soterrado
pelas fontes. Existem milhares delas. Além disso, a independência, apesar de ter
sido um processo interligado, teve características particulares em cada colônia.
Como sair dessa? Há apenas dois caminhos: ou escolher um caso que sirva
de modelo ou partir para explicações de natureza geral. Qual você escolheria?
Depende, é claro, das questões que você deseja responder. Nossa preocupa-
ção central, nesta aula, é tentar compreender por que a América seguiu
o caminho da república caminho da república caminho da república caminho da república caminho da república e não o da monarquia, como o Brasil. Ora, como esse
fenômeno foi geral, a melhor estratégia será escolher a segunda das opções
propostas. Você não faria o mesmo?
Em aulas anteriores, já estudamos que as principais características
da América Espanhola foram a utilização do trabalho compulsório indígena
e o rígido controle do comércio externo das colônias (ver Aula 7).
No século XVIII, essa situação começou a se modificar. O exclusivo comer-
cial foi sendo gradativamente superado, seja por pressões de outras potências
européias em busca de mercados, seja por necessidades da própria metrópole,
que se mostrava incapaz de abastecer e manter seu enorme império colonial.
Isso significou a extinção do sistema de portos únicos e um maior intercâmbio
comercial entre as próprias colônias. A situação política, no entanto, manteve-
se inalterada: os principais cargos administrativos continuavam nas mãos
dos espanhóis.
12
A U L A
Como na América Portuguesa, as elites nativas da América Espanhola (os
chamados criollos) começaram a se afastar cada vez mais dos interesses metro-
politanos no final do século XVIII. Por outro lado, a independência dos Estados , a independência dos Estados , a independência dos Estados , a independência dos Estados , a independência dos Estados
Unidos Unidos Unidos Unidos Unidos, a Revolução Francesa Revolução Francesa Revolução Francesa Revolução Francesa Revolução Francesa e o avanço do liberalismo avanço do liberalismo avanço do liberalismo avanço do liberalismo avanço do liberalismo abriram-lhes novas
possibilidades de atuação. Não havia, no entanto, nenhum elemento que
reunisse os diferentes interesses das elites criollas que, quando muito, expres-
savam seu descontentamento por meio de movimentos de caráter regional.
Foram as mudanças na conjuntura externa, ou seja, os graves conflitos
internos vividos pela Espanha entre 1807 e 1815, que modificaram substan-
cialmente a dinâmica das lutas pela independência na América Espanhola.
A intervenção direta de Napoleão Bonaparte na política espanhola, que culmi-
nou na escolha de seu irmão José Bonaparte para o trono da Espanha, em 1810,
desencadeou uma violenta reação de setores da sociedade espanhola vinculados
à dinastia Bourbon, derrubada pelo imperador francês.
As repercussões no mundo colonial foram imediatas. Ainda em 1810,
em diversas colônias foram organizadas juntas governativas com o intuito
de assegurar a liberdade comercial e a autonomia administrativa. A situação,
no entanto, estava longe de ser resolvida. Um dos motivos era a atitude ambígua ambígua ambígua ambígua ambígua
de parte significativa das lideranças criollas, que oscilavam entre a defesa
da dinastia espanhola deposta por Napoleão Bonaparte e a ampliação da luta
para confirmar a separação do império espanhol.
Esse duplo j ogo político duplo j ogo político duplo j ogo político duplo j ogo político duplo j ogo político permaneceu, em grande parte da América
Espanhola, pelo menos até os anos de 1814-1815. E contribuiu para que a Coroa
espanhola novamente sob o domínio da dinastia Bourbon, após a queda
de Napoleão retomasse o controle de grande parte de seus domínios america-
nos por volta de 1815-1816.
As derrotas militares alertaram as lideranças criollas para a importância
de definir com maior clareza os rumos da luta pela independência. Entre
aqueles que se preocupavam em produzir uma estratégia que pudesse reunir
diferentes setores sociais e políticos estava o líder criollo Simón Bolívar Simón Bolívar Simón Bolívar Simón Bolívar Simón Bolívar.
Em seus escritos, ele defendia o princípio da autodeterminação autodeterminação autodeterminação autodeterminação autodeterminação da América.
Dizia ele, no ano de 1815, que “esta metade do globo pertence a quem Deus
fez nascer em seu solo”. Para Bolívar, havia uma unidade americana que
ultrapassava classes, cor ou raça:
Estamos autorizados, desse modo, a crer que todos os filhos da América
Espanhola, quaisquer que sejam sua cor e condição, estão ligados por um
afeto fraternal e recíproco, que nenhuma maquinação poderá alterar. (...)
Até o presente, admira-se a mais perfeita harmonia entre os que nasceram
neste solo, no que diz respeito à nossa questão; não é de se temer que no
futuro aconteça o contrário, porque então a ordem estará estabelecida (...).
Equilibrada como está a população americana, seja pelo número, pelas
circunstâncias, seja, enfim, pelo irresístível império do espírito, por que
motivo não se poderão estabelecer novos governos nesta metade do mundo?
Simón Bolívar, Simón Bolívar, Simón Bolívar, Simón Bolívar, Simón Bolívar, Escritos políticos Escritos políticos Escritos políticos Escritos políticos Escritos políticos, p. 78 , p. 78 , p. 78 , p. 78 , p. 78
Em suas palavras, Bolívar fazia questão de não mencionar os históricos
conflitos sociais e raciais existentes na América Espanhola. O momento agora era
de unidade política. Portanto, era preciso envolver toda a América América América América América, do indígena
ao criollo, na luta pela libertação.
Simón Bolívar
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A U L A
Bolívar era também um árduo defensor da república. Acreditava que
o melhor caminho da América Espanhola era a formação de pequenas repúbli-
cas. O que distinguia as pequenas repúblicas era a conservação das suas
fronteiras e a sua permanência permanência permanência permanência permanência, ao contrário dos grandes impérios, propensos
à expansão territorial, à decadência e à tirania expansão territorial, à decadência e à tirania expansão territorial, à decadência e à tirania expansão territorial, à decadência e à tirania expansão territorial, à decadência e à tirania.
Muito diferente, afirmava Bolívar, era a política de um rei,
(...) cuja inclinação constante se dirige para o aumento das suas possessões,
riquezas e poderes: com razão, porque sua autoridade cresce com essas aquisi-
ções, tanto em relação a seus vizinhos como a seus próprios vassalos, que nele
temem um poder tão formidável quanto seu império (...). Por tudo isso penso que
os americanos, desejosos de paz, ciência, artes, comércio e agricultura, preferi-
riam as repúblicas aos reinos (...)
Simón Bolívar, Simón Bolívar, Simón Bolívar, Simón Bolívar, Simón Bolívar, Escritos políticos Escritos políticos Escritos políticos Escritos políticos Escritos políticos, p. 68-69 , p. 68-69 , p. 68-69 , p. 68-69 , p. 68-69
A crítica de Bolívar tinha endereço certo: as monarquias européias, espe-
cialmente a espanhola. Mas também pode ser interpretada como um recado
a algumas lideranças criollas que insistiam na defesa do regime monárquico na
América. Segundo ele, a monarquia não traria, como se dizia, a tranqüilidade
política, e sim a guerra guerra guerra guerra guerra entre as nascentes nações americanas. A formação
de pequenas repúblicas poderia acomodar melhor os diferentes interesses
das elites criollas.
Em 1816, após um breve exílio na Jamaica e no Haiti, Bolívar voltou
à Venezuela para liderar a luta pela independência em grande parte do
norte da América Espanhola. Em seus exércitos havia soldados ingleses,
irlandeses e até brasileiros, que tinham participado da Insurreição
Pernambucana de 1817. Um desses brasileiros, José Inácio de Abreu e Lima José Inácio de Abreu e Lima José Inácio de Abreu e Lima José Inácio de Abreu e Lima José Inácio de Abreu e Lima,
tornou-se importante liderança militar no exército do líder criollo.
Enquanto Bolívar obtinha vitórias no norte, San Martín San Martín San Martín San Martín San Martín, outra importante
liderança criolla, libertava do domínio espanhol a Argentina e o Chile. O maior
problema para os exércitos rebeldes era a conquista do Vice-Reino do Peru,
fortaleza do domínio espanhol na América. Tal feito só foi alcançado em 1825,
sob a liderança de Bolívar. Àquela altura, San Martin já havia se afastado da luta,
por discordar das idéias republicanas de Bolívar.
Estava extinto, assim, na América do Sul, o império espanhol. O projeto
de Bolívar de formação de pequenas repúblicas havia sido implantado em
praticamente todo o continente. Mas uma parte importante desse projeto não
teve condições de se concretizar: Bolívar sonhava também com uma América América América América América
unida unida unida unida unida, com uma confederação Americana confederação Americana confederação Americana confederação Americana confederação Americana. Nesse ponto, o general vitorioso
em tantas batalhas sofreu uma importante derrota. Provavelmente não perce-
beu que, para as lideranças criollas, o que interessava agora era “arrumar a casa”,
isto é, formar em cada nova república o Estado nacional.
Será que conseguiriam? Deixemos para depois essa questão. Tratemos
de voltar para as terras brasileiras, ou melhor, para a América que estava
começando a deixar de ser portuguesa....
Releia a aula e explique de que forma Simón Bolívar defendia o regime
republicano.
Pausa
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A U L A
lmpório do ßrasiI
As revoluções não estavam ocorrendo apenas na América Espanhola.
Na Europa, novos movimentos revolucionários eclodiram no ano de 1820.
Lutava-se contra o absolutismo monárquico. A onda revolucionária atingiu
também a península Ibérica. Em Portugal, o movimento vitorioso desencadeado
na cidade do Porto defendia a elaboração de uma Constituição Constituição Constituição Constituição Constituição para o país, e
exigia o imediato retorno imediato retorno imediato retorno imediato retorno imediato retorno de d. João VI.
A reação inicial de d. João VI foi permancer no Reino do Brasil e acompa-
nhar os acontecimentos. Afinal, seu retorno imediato significaria reconhecer
o poder das Cortes portuguesas, o órgão encarregado de elaborar uma
Constituição para o país. O rei português tinha consciência de que sua volta
poderia representar o fim do seu poder absoluto em Portugal. As Cortes
exigiam que ele aceitasse e respeitasse a futura Constituição.
Por mais que d. João tentasse
adiar sua decisão, as pressões foram
maiores que o seu desejo de perma-
necer em terras brasileiras. Em abril
de 1821, oito meses após a eclosão
do movimento conhecido como Re- Re- Re- Re- Re-
volução volução volução volução volução do Porto do Porto do Porto do Porto do Porto, d. João VI retornou
a Portugal. Mas deixou aqui seu filho
e herdeiro: o príncipe d. Pedro.
A revolução em Portugal foi muito
bem recebida por militares e comer-
ciantes portugueses sediados no Reino
do Brasil. Era a possibilidade de se
decretar o término da concorrência
estrangeira, com o restabelecimento restabelecimento restabelecimento restabelecimento restabelecimento
do pacto colonial do pacto colonial do pacto colonial do pacto colonial do pacto colonial e do exclusivo comercial exclusivo comercial exclusivo comercial exclusivo comercial exclusivo comercial. Já os grupos que haviam sido
beneficiados pela política de d. João de concessão de títulos, empregos e terras
mostravam-se contrários ao retorno da família real para Lisboa. Temiam perder
seus privilégios e seu poder, com uma possível recolonização recolonização recolonização recolonização recolonização. Isso poderia
significar, também, o fim da política de abertura econômica iniciada com
a abertura dos portos brasileiros.
O retorno de d. João VI representou uma importante derrota desses grupos.
E agora? Que caminho seguir? Como garantir a relativa autonomia adminis-
trativa, política e econômica obtida com a presença de d. João VI em terras
brasileiras? Quais eram as alternativas?
Segundo o historiador José Murilo de Carvalho, as opções eram apenas
duas: manter a união com Portugal ou partir para a independência. Em favor da
primeira solução,
argumentava-se que ambos os países eram fracos para enfrentar o jogo
duro da política internacional da época (...). Sem o apoio de um país
europeu, o Brasil ficaria exposto aos perigos da fragmentação e das
guerras civis, a exemplo do que ocorrera na América Espanhola (...).
(...) A união dos dois países em bases igualitárias seria, assim, benéfica
para ambos os lados. Esta era uma posição que agradava a membros da
elite brasileira integrados ao sistema administrativo colonial e aos
portugueses já presos ao Brasil por laços econômicos e familiares.
José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, A monarquia brasileira A monarquia brasileira A monarquia brasileira A monarquia brasileira A monarquia brasileira, p. 17 , p. 17 , p. 17 , p. 17 , p. 17
O príncipe d. Pedro
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A U L A
Essa orientação, no entanto, logo foi superada pelos acontecimentos.
As Cortes portuguesas resolveram partir para a radicalização. Exigiam
o imediato retorno do príncipe d. Pedro. Como este se recusava a atender
às exigências, iniciou-se um processo de esvaziamento de sua autoridade.
Não restava alternativa, portanto, senão partir para o confronto aberto: para
a independência. Mas que independência seria essa? Independência com
república, nos moldes da América hispânica, ou uma independência que
preservasse a tradição monárquica?
O projeto republicano não vingou. Era visto com enorme desconfiança por
setores expressivos das elites políticas, especialmente aqueles com base no Rio
de Janeiro.
Um dos seus maiores opositores era o paulista José Bonifácio de Andrada e
Silva, que via na república o caminho mais curto para a anarquia e a fragmenta-
ção política, como estava ocorrendo na América Espanhola independente.
A unidade política unidade política unidade política unidade política unidade política deveria ser preservada pela monarquia.
Os escritos de José Bonifácio foram muito além da defesa da monarquia,
como nos conta a historiadora Emília Viotti da Costa. Em 1821, em trabalho
a ele atribuído, denominado Lembranças e apontamentos, o professor, cientista
e burocrata Bonifácio
falava na criação de colégios e de uma universidade, sugeria a fundação
de uma “cidade central no interior do país” com o fito de desenvolver
o povoamento, (...) apresentava sugestões sobre o tratamento dos índios
(...); pleiteava enfim a igualdade de direitos políticos e civis. Defendia
ainda a necessidade de emancipar os escravos gradualmente e [sugeria]
uma política de terras que impedisse a concentração de terras nas mãos
de alguns, (...) recomendando que todas as terras doadas que não se
achassem cultivadas fossem reintegradas à massa de bens nacionais.
Emília Viotti da Costa, Emília Viotti da Costa, Emília Viotti da Costa, Emília Viotti da Costa, Emília Viotti da Costa, Da monarquia à república, Da monarquia à república, Da monarquia à república, Da monarquia à república, Da monarquia à república, p. 56 p. 56 p. 56 p. 56 p. 56
Das palavras, José Bonifácio partiu para a ação. Em janeiro de
1822, teve importante participação no Dia do Fico Dia do Fico Dia do Fico Dia do Fico Dia do Fico episódio
em que o príncipe d. Pedro resolveu permanecer no Brasil, apesar
das pressões portuguesas. Logo depois, tornou-se ministro de
d. Pedro e esteve no centro dos acontecimentos até a proclamação
da independência, em 7 de setembro daquele mesmo ano.
Sua estratégia foi isolar e reprimir tanto setores portugueses
contrários à independência (os chamados pés-de-chumbo pés-de-chumbo pés-de-chumbo pés-de-chumbo pés-de-chumbo) como
aqueles grupos liberais que, apesar de reconhecer a importância
da participação de d. Pedro na luta pela autonomia política,
exigiam que o poder do príncipe fosse limitado por uma Consti-
tuição. Eram os chamados democratas democratas democratas democratas democratas. Bonifácio temia que essas
propostas afastassem do movimento o príncipe e membros
do Apostolado Apostolado Apostolado Apostolado Apostolado, sociedade secreta que reunia importantes fazen-
deiros e políticos de projeção.
Como as Cortes portuguesas trataram de partir para o con-
fronto direto, retirando do controle do príncipe o poder sobre
várias províncias brasileiras, Bonifácio e o Apostolado, com
o apoio dos democratas, democratas, democratas, democratas, democratas, pressionaram d. Pedro. Este, finalmente,
lm tcmpo
José Bonifácio
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A U L A
resolveu promover a ruptura, proclamando a independência brasileira.
Três meses depois, em dezembro, d. Pedro era aclamado imperador e defensor
perpétuo do Brasil. Começava a história do Império brasileiro.
Em viagem pelo Brasil, entre os anos de 1816 e 1818, o cronista francês
Tollenare observava o quanto era difícil [para d. João] ser ao mesmo tempo
rei de Portugal e do Brasil e agir paternalmente para com os dois povos que
tinham interesses opostos. “Um, dizia ele, não pode viver sem o monopólio,
o progresso do outro exige sua supressão.” (Citado por Emília Viotti da Costa,
Da monarquia à república, p. 36-37)
Escreva um pequeno texto comentando as afirmativas de Tollenare.
Você, que acompanhou atentamente esta aula, percebeu que a independên-
cia na América passou por diferentes caminhos.
O caminho republicano, tentado no Nordeste brasileiro em 1817, foi consa-
grado na América Espanhola. A república norte-americana havia sido o princi-
pal modelo seguido.
Já na América Portuguesa, optou-se pela trilha da monarquia constitucio-
nal. A Europa era ainda a nossa fonte de inspiração.
Apesar dessas diferenças, todos os novos países americanos iriam enfrentar
desafios semelhantes: a construção do Estado, a manutenção da ordem social
e a estabilização econômica.
Nas próximas aulas, vamos estudar como o Império do Brasil enfrentou
essas e outras questões.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Releia o item República pernambucana República pernambucana República pernambucana República pernambucana República pernambucana. Identifique as principais mudan-
ças na ordem legal estabelecidas pelo movimento revolucionário que,
em 1817, instituiu uma república em Pernambuco.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Releia o item Império do Brasil Império do Brasil Império do Brasil Império do Brasil Império do Brasil e explique por que José Bonifácio combatia
a forma republicana de governo.
UItimas
paIavras
lxcrcícios
Pausa
Aclamação
de d. Pedro.
13
) 7 )
MúduIo S
lmpório do ßrasiI:
unidadc, ordcm
c civiIização
Em 1823, um ano depois da proclamação da independência, um atento
observador estrangeiro deixou algumas anotações sobre as dificuldades que
a antiga colônia portuguesa teria de enfrentar para se tornar uma nação.
Vejamos o que ele disse:
O Brasil é um país nascente, um povoado de habitantes de diversas cores
que se aborrecem mutuamente. As capitanias não se podem auxiliar
mutuamente, por estarem separadas por setores imensos, de modo que
aquele país não forma ainda um reino inteiro e contínuo (...).
Formar um reino inteiro e contínuo. Sabe o que isso significava? Significava
unificar aquelas diversas regiões que constituíram a América Portuguesa.
O Brasil não deveria repetir a América Espanhola que, como você viu na aula
anterior, se dividiu em uma série de pequenos países. A unidade unidade unidade unidade unidade do território
brasileiro teria que ser preservada a qualquer preço.
O segundo desafio era enfrentar a questão da participação política, num país
onde a maior parte da população era formada por pretos livres e escravos, índios
e mulatos. Teriam eles os mesmos direitos que os brancos? Como transformar
essa massa de “diversas cores” num povo? Acima de tudo, era preciso garantir
a ordem social ordem social ordem social ordem social ordem social.
Havia ainda um terceiro desafio. Como se poderia construir, na região
tropical, uma civilização civilização civilização civilização civilização? Com que cara o Brasil iria fazer parte do conjunto
das nações civilizadas? Que modelo seguir? O americano ou o europeu?
Veja bem. Postos os desafios, o problema era como enfrentá-los. É disso que
vamos tratar neste módulo. Nas três próximas aulas, veremos como a elite elite elite elite elite
imperial imperial imperial imperial imperial manteve o Brasil unido manteve o Brasil unido manteve o Brasil unido manteve o Brasil unido manteve o Brasil unido, impôs a ordem impôs a ordem impôs a ordem impôs a ordem impôs a ordem e ee ee construiu uma construiu uma construiu uma construiu uma construiu uma
civilização civilização civilização civilização civilização.
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A U L A
Segui, ó brasileiros, o exemplo dos bravos
habitantes da zona tórrida; imitai os valentes das províncias que vão estabelecer
seu governo debaixo do melhor dos sistemas o representativo.
Esse é um pequeno trecho do manifesto do pernambucano Manuel
de Carvalho Pais de Andrade, conclamando as outras províncias a seguir
o exemplo do Nordeste, que ele chama de “zona tórrida”.
Em julho de 1824, as províncias do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba
e Pernambuco haviam formado a Confederação do Equador Confederação do Equador Confederação do Equador Confederação do Equador Confederação do Equador. Inspirados
no movimento de 1817, os revolucionários nordestinos queriam separar a região
do Império, e aí instituir o regime republicano. A repressão do governo imperial
foi violenta, e os principais chefes da Confederação foram condenados à morte.
Em outras regiões do país, também estouraram movimentos separatistas.
Nos anos que se seguiram à independência, cresceu o perigo de desintegração
do território brasileiro.
Nesta aula, veremos como o governo imperial conseguiu derrotar as rebe-
liões provinciais e preservar a integridade territorial da jovem nação.
kio dc }anciro, a °nova tisboa"!
Um dos principais líderes da Confederação do Equador foi frei Joaquim
do Amor Divino Rabelo, conhecido como frei Caneca frei Caneca frei Caneca frei Caneca frei Caneca. Crítico do governo de
Pedro I, Caneca considerou a Constituição imperial, outorgada em fevereiro
de 1824, “autoritária” e “centralizadora”. Autoritária, porque havia dado
um poder excessivo ao imperador. Centralizadora, porque havia negado auto-
nomia às províncias, tornando-as dependentes do poder central.
Caneca afirmava que, para os pernambucanos, a “opressão” e a “explora-
ção” continuavam só que não vinham mais de Portugal, e sim do Rio
de Janeiro, que ele chamava de “nova Lisboa”.
Para os revolucionários da Confederação do Equador, a independência
ainda não chegara. Independência, para eles, era sinônimo de república federa-
tiva, conforme o modelo norte-americano. Sabe o que isso significava? Segundo
esse modelo, o país seria governado por um presidente eleito para um mandato
determinado. As províncias teriam liberdade de se organizar livremente.
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A U L A
MÓDULO 5
Mantcndo a unidadc
Abcrtura
Movimcnto
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Por que esse caminho não foi seguido pelo Brasil independente? Por que
nos tornamos uma monarquia unitária monarquia unitária monarquia unitária monarquia unitária monarquia unitária, com o poder centralizado no Rio de
Janeiro? Para muitos, a figura do imperador, conhecida em todas as regiões do
país, era a garantia da manutenção da integridade do território brasileiro.
O fantasma da América Espanhola independente, republicana e dividida,
assustava a elite política brasileira.
Desde as “guerras da independência”, era grande a preocupação com
a preservação do território. Você deve estar se perguntando: mas a independên-
cia brasileira não foi conquistada sem “derramamento de sangue”? Não foi bem
assim. No Pará, no Maranhão e, principalmente, na Bahia, as tropas portugue-
sas resolveram não aceitar a independência proclamada por d. Pedro I. Foram
então contratados oficiais estrangeiros para comandar o Exército brasileiro,
que impôs às províncias a aceitação da independência e manteve a unidade
territorial do Império.
As lutas da independência da Bahia se estenderam por quase um ano.
No fim de outubro de 1822, d. Pedro enviou tropas do Rio de Janeiro,
sob o comando do general Pedro Labatut. Este isolou as tropas portuguesas
em Salvador, comandadas pelo general Madeira de Melo.
Em maio de 1823, a esquadra do almirante Cochrane cercou Salvador,
que se rendeu em 2 de julho. Por isso, esse é o dia das festas da independência
na Bahia.
A Confederação do Equador não foi o único movimento separatista que
o governo imperial teve de reprimir a ferro e fogo. Em 1825, a Província
Cisplatina, no extremo sul, proclamou sua independência do Império brasileiro,
com o intuito de se incorporar às Províncias Unidas do Rio da Prata futura
Argentina. A guerra durou três anos, ao fim dos quais a Cisplatina se tornou
um país independente com o nome de República Oriental do Uruguai.
A derrota na Cisplatina aumentou a crise financeira do Império e o descon-
tentamento dos brasileiros contra o “imperador português”. Crescia a insatisfa-
ção com os privilégios dispensados aos interesses portugueses no Brasil, princi-
palmente no comércio interno. Era preocupante, para os proprietários de terra
e escravos, o acordo que d. Pedro fizera com os ingleses, comprometendo-se
a acabar com o tráfico de escravos para o Brasil.
lm tcmpo
Vista do largo
do palácio do
Rio de Janeiro
(século XIX).
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A U L A
A perda de apoio militar e político fez com que, em 7 de abril de 1831,
o imperador renunciasse ao trono brasileiro em favor de seu filho Pedro, então
um menino de apenas 5 anos de idade, deixando-o entregue aos cuidados de
José Bonifácio. Feito isso, retirou-se para a Europa, onde morreu em 1834.
Com a renúncia de Pedro I, encerrou-se o período que é conhecido como
Primeiro Reinado (1822-1831) Primeiro Reinado (1822-1831) Primeiro Reinado (1822-1831) Primeiro Reinado (1822-1831) Primeiro Reinado (1822-1831). Volte ao texto e faça um breve levantamento
dos movimentos que, nesse período, ameaçaram a integridade do território
nacional.
As rcvoItas provinciais
Um menino de 5 anos poderia assumir o trono brasileiro? Certamente, não.
O que a Constituição de 1824 previa nesses casos? O imperador era menor até
a idade de 18 anos completos. Durante a sua menoridade, o Império seria
governado por uma Regência Regência Regência Regência Regência, composta de três membros e nomeada pela
Assembléia Geral, ou seja, pelos deputados e senadores.
Assim foi feito, ao menos de 1831 a 1840 1831 a 1840 1831 a 1840 1831 a 1840 1831 a 1840, quando Pedro II, antes
do previsto, assumiu o trono. Tinha apenas 14 anos. Esses nove anos consti-
tuem o chamado Período Regencial Período Regencial Período Regencial Período Regencial Período Regencial. A partir de 1834, a regência passou
a ser exercida não mais por três pessoas, mas por uma só.
As mudanças foram grandes, não é? Em vez de um imperador todo-
poderoso, o país passou a ser governado por regentes, cuja autoridade
era muitas vezes contestada. Para alguns, era a oportunidade de se proclamar
definitivamente a república. Para outros, era chegada a hora de as províncias
terem mais autonomia. O Estado Imperial, até então encarnado na figura
de Pedro I, estava enfraquecido. Um fantasma começava a rondar o jovem
país: o perigo da desintegração territorial e da rebelião social.
D. Pedro I deixa
o trono do Brasil
para o príncipe
d. Pedro.
Pausa
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Foram anos agitados, os da Regência. Em 1831 e 1832, só no Rio de Janeiro,
estouraram cinco levantes populares em protesto contra os altos preços dos
alimentos cujo comércio era controlado pelos portugueses. As forças milita-
res da capital reagiram com violência, e as revoltas foram sufocadas.
Nas outras regiões do país, de norte a sul, também pipocaram conflitos.
O Exército Imperial, desorganizado e mal-equipado, não merecia a confiança
do governo. A saída foi criar a Guarda Nacional Guarda Nacional Guarda Nacional Guarda Nacional Guarda Nacional − milícia armada, dirigida
pelos grupos dominadores locais −, incumbida de manter a ordem no municí-
pio onde fosse formada.
Cabanagem Cabanagem Cabanagem Cabanagem Cabanagem, no Pará (1835-1840); Sabinada Sabinada Sabinada Sabinada Sabinada, na Bahia (1837-38); Balaiada Balaiada Balaiada Balaiada Balaiada,
no Maranhão (1838-1840); Revolução Revolução Revolução Revolução Revolução Farroupilha Farroupilha Farroupilha Farroupilha Farroupilha ou Guerra dos Farrapos Guerra dos Farrapos Guerra dos Farrapos Guerra dos Farrapos Guerra dos Farrapos,
em Santa Catarina e Rio Grande do Sul (1835-45). Essas foram as principais
revoltas que explodiram nas províncias durante a Regência. Os motivos
que provocaram esses movimentos variaram de região para região: brigas
políticas locais; descontentamento com a situação social; defesa de idéias
republicanas. As notícias que chegavam dessas províncias eram preocupantes.
Pará
Cabanagem
Bahia
Sabinada
Maranhão
Balaiada
Santa Catarina e
Rio Grande do Sul
Revolução Farroupilha
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Num relatório enviado ao governo regencial, assim era descrita a situação
do Pará, durante a Cabanagem:
A insurreição foi geral. Por toda parte aonde houve um homem branco
ou rico a quem matar e alguma coisa que roubar aparecia logo quem
se quisesse encarregar desse serviço, e deste modo ainda hoje estão
em rebeldia todo o Alto e Baixo Amazonas(...) Todas as mais vilas,
lugares, fazendas, casas e choupanas desta Província, ou ficaram habi-
tadas por cabanos, se seus donos o eram; ou seus donos, se não fugiram,
foram mortos e as casas ficaram ocupadas por cabanos...
Citado por Ilmar Mattos e Márcia de A. Gonçalves, Citado por Ilmar Mattos e Márcia de A. Gonçalves, Citado por Ilmar Mattos e Márcia de A. Gonçalves, Citado por Ilmar Mattos e Márcia de A. Gonçalves, Citado por Ilmar Mattos e Márcia de A. Gonçalves, O império da boa O império da boa O império da boa O império da boa O império da boa
sociedade sociedade sociedade sociedade sociedade, p. 55 , p. 55 , p. 55 , p. 55 , p. 55
As revoltas que envolveram as províncias do norte Maranhão e Pará
e do sul Santa Catarina e Rio Grande do Sul foram as mais graves e as que
mais preocuparam o governo central.
No tempo da América Portuguesa, essas regiões ligavam-se diretamente
a Lisboa. Agora, era preciso integrá-las ao novo território nacional. Distantes
do Rio de Janeiro, as dificuldades de comunicação e transportes eram muito
grandes, e o perigo de se separarem do resto do Império, maior ainda. Principal-
mente no sul, a proximidade com as repúblicas vizinhas Argentina, Uruguai,
Paraguai era um grande incentivo para as províncias adotarem o regime
republicano. Os farroupilhas chegaram a proclamar a república por duas vezes.
Em 1836, no Rio Grande do Sul, fundaram a República Rio-Grandense,
e três anos depois, em Santa Catarina, a República Catarinense.
Anarquia e desordem: era isso o que mais preocupava a elite política.
Tente se colocar no lugar desses homens que tinham terras, escravos, comércio,
que eram deputados, senadores, presidentes de província, juízes, militares,
advogados. Essas rebeliões ameaçavam os seus bens, a sua segurança,
e a integridade territorial do país.
lm tcmpo
D. Pedro II,
ainda criança.
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A saída foi fortalecer o poder central fortalecer o poder central fortalecer o poder central fortalecer o poder central fortalecer o poder central. Em maio de 1840, com a aprovação
da Lei de Interpretação do Ato Adicional proposta pelo regente conservador
Pedro de Araújo Lima, foram retiradas das províncias várias de suas atribuições,
principalmente no que se referia à nomeação de funcionários públicos. Em julho,
graças à iniciativa dos liberais, foi decidida a antecipação da antecipação da antecipação da antecipação da antecipação da maioridade maioridade maioridade maioridade maioridade
de Pedro II de Pedro II de Pedro II de Pedro II de Pedro II, que, assim, pôde subir ao trono. Dessa forma, estava de volta
a autoridade imperial.
D. Pedro II não estava, contudo, livre das agitações. A Revolução Farroupilha
ainda ameaçava transformar as províncias do sul em repúblicas independentes.
Em 1842, foi necessário esmagar revoltas liberais em São Paulo e Minas Gerais.
A Guerra dos Farrapos se encerrou, finalmente, em 1845. A Revolução Praieira,
de 1848, em Pernambuco, foi a última manifestação da agitação dos primeiros
tempos do Brasil independente.
Até 1850, todas as revoltas provinciais foram controladas. Foi a vitória
do projeto centralizador posto em prática pelos políticos conservadores, entre
os quais podemos destacar Paulino José Soares de Sousa, o visconde de Uruguai;
Joaquim José Rodrigues Torres, o visconde de Itaboraí; e Eusébio de Queirós.
Graças a essa política centralizadora e conservadora, o Estado Imperial pôde
manter a integridade do território nacional.
Na próxima aula, vamos examinar outros desafios que se colocavam para
a jovem nação. Um dos maiores era definir o “povo brasileiro”. Quem faria parte
da sociedade, e quem ficaria fora dela? Quem seria cidadão? Quem teria direito
de voto? Que significava, afinal, ser liberal ou conservador? Acompanhe-nos.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Enumere os três principais desafios que a ex-América Portuguesa, recém-
independente, tinha de enfrentar para se tornar Brasil.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
O primeiro imperador brasileiro, d. Pedro I, teve de enfrentar alguns
movimentos que colocaram em risco a unidade territorial. Enumere-os.
Exercício 3 Exercício 3 Exercício 3 Exercício 3 Exercício 3
Releia o item As revoltas provinciais As revoltas provinciais As revoltas provinciais As revoltas provinciais As revoltas provinciais e responda:
a) a) a) a) a) Por que ocorreram tantas rebeliões nas províncias durante o período
regencial?
b) b) b) b) b) Qual a solução que a elite política imperial escolheu para enfrentar
o perigo da desintegração teritorial?
UItimas
paIavras
lxcrcícios
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Abcrtura
Amalgamação muito difícil será a liga de
tanto metal heterogêneo, como brancos, mulatos, pretos livres e escravos, índios,
em um corpo sólido e político.
Essas palavras são de José Bonifácio de Andrada e Silva, um dos mais
próximos conselheiros de Pedro I. A preocupação de Bonifácio, e de outros
políticos brasileiros também, era como organizar um país com uma população
tão “misturada”. Como integrar índios, brancos, pretos e mulatos, livres
e escravos, num só povo? Seriam todos brasileiros, com iguais direitos e deveres?
Nesta aula, veremos como foi elaborada a nossa primeira Constituição primeira Constituição primeira Constituição primeira Constituição primeira Constituição,
e o que ela determinou sobre a organização política do país organização política do país organização política do país organização política do país organização política do país e a extensão extensão extensão extensão extensão
da cidadania e do voto da cidadania e do voto da cidadania e do voto da cidadania e do voto da cidadania e do voto.
A Constituição impcriaI
No dia 3 de maio de 1823, reuniu-se no Rio de Janeiro a Assembléia Assembléia Assembléia Assembléia Assembléia
Constituinte Constituinte Constituinte Constituinte Constituinte. Advogados, juízes, religiosos, militares, alguns poucos médicos,
proprietários rurais e funcionários públicos ali estavam para redigir a primeira primeira primeira primeira primeira
Constituição Constituição Constituição Constituição Constituição do Brasil independente.
Constituição, você sabe, é o conjunto das leis maiores que governam o país.
As outras leis não podem contrariar o que está escrito na Constituição.
Na Assembléia Constituinte, havia grupos que defendiam posições opostas.
O grupo mais fraco, o dos democratas democratas democratas democratas democratas, lutava pela diminuição do poder
Executivo, exercido pelo imperador, que devia jurar obediência à Constituição.
Os democratas queriam que o Poder Legislativo, o Parlamento, fosse o poder
principal, porque representava a vontade da maioria vontade da maioria vontade da maioria vontade da maioria vontade da maioria. Alguns membros desse
grupo, como Gonçalves Ledo e José Clemente Pereira, que tiveram uma ativa
presença no movimento da independência, estavam presos ou exilados naquela
época.
Um outro grupo, forte, bem-organizado e liderado por José Bonifácio José Bonifácio José Bonifácio José Bonifácio José Bonifácio,
temia a democracia. O Poder Legislativo, formado por deputados eleitos nas
províncias, poderia não ter força para garantir a unidade do território.
Para governar um país tão “misturado”, seria melhor que o poder se concen- poder se concen- poder se concen- poder se concen- poder se concen-
trasse nas mãos fortes do imperador trasse nas mãos fortes do imperador trasse nas mãos fortes do imperador trasse nas mãos fortes do imperador trasse nas mãos fortes do imperador.
As desavenças entre a Constituinte e o imperador foram crescendo.
Os deputados queriam reduzir as atribuições de Pedro I. Não aceitavam, por
exemplo, que ele tivesse o poder de dissolver a Câmara de Deputados. Nesse
lmpondo a ordcm
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Movimcnto
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ponto, até mesmo José Bonifácio rompeu com o imperador, que se aproximou
cada vez mais do meio militar, no qual os portugueses tinham grande influência.
Em novembro de 1823, a disputa entre os dois poderes acabou com
a Constituinte sendo fechada por tropas militares. Muitos deputados foram
presos, inclusive Bonifácio. D. Pedro convocou um conselho de dez membros
para elaborar a Constituição imperial, que foi outorgada em 25 de março de 1824.
Você sabe a diferença entre uma Constituição outorgada outorgada outorgada outorgada outorgada, como a de 1824,
e uma promulgada promulgada promulgada promulgada promulgada, como a de 1988? A de 1824 foi outorgada porque não foi
feita pela Assembléia Constituinte; ela foi simplesmente aprovada pelo Poder
Executivo no caso, pelo imperador.
A Constituição de 1988, você deve lembrar, foi elaborada e aprovada pelo
Congresso Nacional; logo, ela foi promulgada. Das Constituições que o Brasil
teve, foram outorgadas as de 1824, de 1937 e a Emenda Constitucional de 1969,
e promulgadas as de 1891, 1934, 1946, 1967 e 1988.
Você deve estar pensando que começamos mal, com o autoritarismo de
d. Pedro se impondo sobre a Constituinte. Mas, veja bem: a crise do poder
absoluto dos reis, provocada pela Revolução Francesa de 1789, era muito recente.
Também era nova a constituição de três poderes independentes entre si, Execu-
tivo, Legislativo e Judiciário. Mesmo na Europa, a idéia de que o rei ou o im-
perador deveria se submeter a uma Constituição feita pelos representantes
do povo era vista com desconfiança por muitos que tinham medo desses novos
princípios democráticos.
A Constituição de 1824 pode ser consultada em qualquer biblioteca. Lá você
verá que, pelo artigo 3º, o Brasil se tornou uma monarquia hereditária monarquia hereditária monarquia hereditária monarquia hereditária monarquia hereditária
e constitucional e constitucional e constitucional e constitucional e constitucional. Ou seja: o imperador, que deveria governar de acordo com
a Constituição, passaria o trono a seu filho mais velho.
Já o artigo 11 determinava que os representantes da nação brasileira seriam
o imperador e a Assembléia Geral, composta pela Câmara dos Deputados
e pelo Senado. Veja, no esquema abaixo, como se organizaram os poderes:
lm tcmpo
PODER MODERADOR = IMPERADOR
PODER LEGISLATIVO PODER EXECUTIVO PODER JUDICIÁRIO
CÂMARA DOS
DEPUTADOS
MINISTROS IMPERADOR
CONSELHO DE
ESTADO
SENADO
PRESIDENTES DE PROVÍNCIAS CONSELHOS PROVINCIAIS
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O Poder Legislativo Poder Legislativo Poder Legislativo Poder Legislativo Poder Legislativo, você sabe, é formado pelos deputados e senadores deputados e senadores deputados e senadores deputados e senadores deputados e senadores,
eleitos para representar o povo. A esse poder cabe fazer as leis do país.
A Constituição de 1824 determinou que a Câmara de Deputados Câmara de Deputados Câmara de Deputados Câmara de Deputados Câmara de Deputados fosse
constituída por representantes eleitos nas províncias para um mandato
de quatro anos. O número de deputados por província variava de acordo com
a população províncias mais populosas tinham mais deputados do que outras
menos habitadas.
A composição e a formação do Senado Senado Senado Senado Senado eram diferentes. O número de
senadores de cada província seria a metade do número de deputados daquela
mesma província. O cargo de senador era vitalício vitalício vitalício vitalício vitalício, ou seja, era exercido até
a sua morte. Quando algum senador morria, fazia-se nova eleição. Os nomes dos
três candidatos mais votados eram levados ao imperador, que escolhia um deles
para assumir a cadeira no Senado. Nas províncias, o Poder Legislativo era
exercido pelos Conselhos Provinciais Conselhos Provinciais Conselhos Provinciais Conselhos Provinciais Conselhos Provinciais.
O Poder Executivo Poder Executivo Poder Executivo Poder Executivo Poder Executivo era exercido pelo imperador imperador imperador imperador imperador, pelos ministros ministros ministros ministros ministros por ele
escolhidos e pelo Conselho de Estado Conselho de Estado Conselho de Estado Conselho de Estado Conselho de Estado. Nas províncias, esse poder era exercido
pelo presidente de província presidente de província presidente de província presidente de província presidente de província, nomeado pelo imperador.
O Poder Judiciário Poder Judiciário Poder Judiciário Poder Judiciário Poder Judiciário era formado pelos tribunais e juízes tribunais e juízes tribunais e juízes tribunais e juízes tribunais e juízes.
Como nos informa o historiador Boris Fausto,
(...) o Conselho de Estado era um órgão composto por conselheiros
vitalícios nomeados pelo imperador dentre cidadãos brasileiros com
idade mínima de 40 anos (idade avançada para a época), renda não
inferior a 800 mil-réis e que fossem “pessoas de saber, capacidade
e virtude”. O Conselho de Estado deveria ser ouvido nos “negócios graves
e medidas gerais da pública administração”, como declaração de guerra.
Boris Fausto Boris Fausto Boris Fausto Boris Fausto Boris Fausto, , , , , História do Brasil, História do Brasil, História do Brasil, História do Brasil, História do Brasil, p. 152 p. 152 p. 152 p. 152 p. 152
Você deve estar se perguntando: e o Poder Moderador Poder Moderador Poder Moderador Poder Moderador Poder Moderador? Essa era uma idéia
do pensador francês Benjamin Constant, cujos livros influenciaram D. Pedro
e muitos políticos da época. Acima dos outros poderes, o Poder Moderador
era um poder pessoal do rei ou do imperador poder pessoal do rei ou do imperador poder pessoal do rei ou do imperador poder pessoal do rei ou do imperador poder pessoal do rei ou do imperador, que tinha o direito e o dever
de intervir nas questões mais sérias de “interesse nacional”.
Vejamos o que diz o artigo 98 da Constituição que criou o Poder Moderador:
O poder moderador é a chave de toda a organização política,
e é delegado privativamente ao Imperador como chefe supremo
da Nação e seu primeiro representante, para que incessantemente
vele sobre a manutenção da independência, equilíbrio e harmonia
dos mais poderes políticos
O caráter centralizador da Constituição de 1824 desagradou a muitos
brasileiros. Como você viu na aula anterior, no Nordeste estourou a Confedera-
ção do Equador. Releia o que foi dito sobre essa revolta e sobre o Poder
Moderador, pense se uma coisa tinha a ver com a outra e escreva suas
conclusões.
Pausa
lm tcmpo
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Reis e imperadores não são eleitos, mas deputados e senadores são.
No Brasil imperial, quem podia ser eleitor? Quem podia ser eleito? Vamos
consultar a Constituição. Escravos, índios, mulheres, menores de 25 anos,
criados de servir e todos aqueles que tivessem uma renda anual inferior
a 100 mil-réis não podiam votar não podiam votar não podiam votar não podiam votar não podiam votar nas eleições primárias, quando eram escolhi-
dos aqueles que teriam o direito de eleger os deputados e senadores. Para ser
candidato nas eleições primárias, era necessário ter uma renda de 200 mil-réis
e não ser liberto (ex-escravo). Para ser candidato na segunda etapa, ou seja,
para conseguir ser deputado ou senador, era preciso ter uma renda de 400 mil-
réis, ser brasileiro e católico. Complicado, não é?
No Império, o direito à cidadania política cidadania política cidadania política cidadania política cidadania política foi muito restrito, e a grande
maioria da população não podia votar. Dar o direito de participar do processo
político-eleitoral a uma pequena minoria foi uma das soluções para impor
a ordem num país tão “misturado”.
Em 1844, segundo o historiador Ilmar Mattos (Tempo saquarema, p. 142),
a cidade do Rio de Janeiro possuía em torno de 170 mil habitantes, dos quais
cerca de 50% eram escravos, e tinha apenas 256 eleitores inscritos.
Os direitos individuais direitos individuais direitos individuais direitos individuais direitos individuais o direito à liberdade, à propriedade, à livre
manifestação de idéias eram garantidos pela Constituição imperial. Mas, num
país escravista, com uma população pouco alfabetizada, a maioria vivendo
no campo, esses direitos de cidadão cidadão cidadão cidadão cidadão quase não eram respeitados.
Mesmo porque no Brasil, você sabe, só muito poucos tinham liberdade,
propriedade e idéias.
No Brasil imperial, poucos brasileiros tinham direito à participação política.
Volte ao texto e veja quais foram os principais obstáculos que impediram
o exercício da cidadania.
}urujubas, chimangos c caramurus
Vamos recapitular um pouco do que foi dito na aula anterior. O governo de
d. Pedro I se encerrou a 7 de abril de 1831, em meio a uma grave crise. Sem apoio
político e militar, o primeiro imperador do Brasil renunciou em favor de seu
filho, então com 5 anos de idade, e voltou para Portugal.
Pelo artigo 123 da Constituição, durante a menoridade do príncipe,
o Império seria governado por uma Regência composta por três membros,
nomeada pela Assembléia Geral, ou seja, pelos deputados e senadores.
Essa regência trina regência trina regência trina regência trina regência trina durou até 1834, quando a Constituição passou
por uma reforma. Por meio do Ato Adicional Ato Adicional Ato Adicional Ato Adicional Ato Adicional, a composição da regência regência regência regência regência
passou a ser una una una una una, ou seja, um só regente seria eleito pela Assembléia para
um mandato de quatro anos. O Conselho de Estado foi extinto e as províncias
conquistaram maior autonomia, com a criação das Assembléias Provinciais Assembléias Provinciais Assembléias Provinciais Assembléias Provinciais Assembléias Provinciais
no lugar dos Conselhos. Essas mudanças buscavam reduzir a agitação
que abalava o país de norte a sul.
Os nove anos da regência (1831 40) foram muito agitados. A rebelião social
foi ameaçadora, com a população sem posses e sem voto se envolvendo em
conflitos de rua no Rio de Janeiro. Como também vimos na aula passada, várias
lm tcmpo
Pausa
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A U L A
revoltas estouraram nas províncias, trazendo o risco de fragmentação
do território. Era grande a preocupação dos políticos com o futuro da ex-colônia
portuguesa na América. O que fazer para pacificar o jovem país?
No Rio de Janeiro, políticos de várias correntes de idéias defendiam
propostas diferentes para salvar o país. Os jurujubas jurujubas jurujubas jurujubas jurujubas, considerados liberais
exaltados, defendiam a implantação da república e uma organização mais
democrática da sociedade. Os chimangos chimangos chimangos chimangos chimangos propunham uma monarquia
liberal, e acusavam os jurujubas de querer a anarquia. Já os caramurus caramurus caramurus caramurus caramurus
sonhavam com a restauração de d. Pedro I no trono brasileiro, e pretendiam
a imposição do absolutismo imperial.
Com a morte de Pedro I, em 1834, e a repressão aos radicais republicanos,
a luta política ficou reduzida a dois grupos: os regressistas regressistas regressistas regressistas regressistas e os progressistas progressistas progressistas progressistas progressistas.
Regressistas eram aqueles políticos que queriam o regresso, ou seja, a volta
da centralização política, com o fim da autonomia das províncias dada pelo
Ato de 1834. Achavam eles que essa autonomia provincial favorecia as
rebeliões, que ameaçavam a unidade nacional. Defendiam ainda a volta da
autoridade imperial, cuja ausência seria causa maior da “anarquia”
e da “desordem” do período regencial. Posteriormente, esses políticos vieram
a formar o Partido Conservador Partido Conservador Partido Conservador Partido Conservador Partido Conservador.
Em 1838, o líder regressista Bernardo Pereira de Vasconcelos fez um impor-
tante discurso na Câmara dos Deputados:
Fui liberal: então a liberdade era nova no país, estava nas aspirações de
todos(...). Hoje porém é diverso o aspecto da sociedade: os princípios
democráticos tudo ganharam e muito comprometeram; a sociedade que
então corria risco pelo poder, corre risco pela desorganização e pela
anarquia(...). Quero salvá-la; por isso sou regressista.
Os progressistas progressistas progressistas progressistas progressistas, que depois orga-
nizaram o Partido Liberal Partido Liberal Partido Liberal Partido Liberal Partido Liberal, defendiam a
descentralização política. Apesar disso,
foram eles que encaminharam a pro-
posta de antecipação da maioridade de
Pedro II. No dia 23 de julho de 1840, com
apenas 14 anos de idade, Pedro II pres-
tou juramento na Assembléia Geral como
segundo imperador do Brasil. A inexpe-
riência política do jovem imperador dei-
xava-o, porém, nas mãos de servidores
que lhe eram mais próximos.
Passaram-se apenas dois anos até
que os liberais, afastados do governo,
promovessem revoltas em São Paulo e
Minas Gerais, duramente reprimidas
pelas forças armadas.
Pausa
D. Pedro II.
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Segundo o historiador Ilmar Mattos (Tempo saquarema, p. 104), os liberais
mineiros, derrotados pelas forças do futuro duque de Caxias no combate de
Santa Luzia, passaram a ser chamados pelos adversários políticos de luzias luzias luzias luzias luzias,
nome do local onde tiveram a sua maior derrota. Aos liberais de São Paulo,
igualmente derrotados, passou-se a atribuir a denominação de Venda Gran- Venda Gran- Venda Gran- Venda Gran- Venda Gran-
de de de de de, local do triunfo conservador.
A derrota das rebeliões liberais marcou a vitória política dos conservadores.
Sabe o que isso significou? Maior centralização do poder nas mãos do imperador
e maior rigor na imposição da ordem. Pouco a pouco, a estrutura política
conservadora iria se impor.
Faça um quadro resumido das principais correntes políticas surgidas
no Brasil depois da saída de D. Pedro I. Aponte as principais idéias que essas
correntes defendiam.
A vitúria dos saquarcmas
A partir de 1850, o país entrou numa fase de estabilidade política, com base
no projeto conservador projeto conservador projeto conservador projeto conservador projeto conservador. Mas quem eram esses políticos conservadores?
Eram chamados de saquaremas saquaremas saquaremas saquaremas saquaremas, porque dois dos maiores líderes do partido
os viscondes de Uruguai e de Itaboraí tinham terras e força política
na localidade de Saquarema, na província do Rio de Janeiro.
Grandes proprietários de terra na região fluminense, muitos dos
“saquaremas” eram bacharéis em direito, formados na Universidade
de Coimbra, em Portugal. Tinham em comum, portanto, uma determinada
visão de como deveria ser o novo país. Para eles, a centralização política
e administrativa, imposta a ferro e fogo, era a garantia da manutenção da
unidade territorial e da ordem social.
Para evitar que desavenças políticas entre liberais e conservadores pudes-
sem gerar outras rebeliões, fora adotado, a partir de 1847, o regime parlamen- regime parlamen- regime parlamen- regime parlamen- regime parlamen-
tarista tarista tarista tarista tarista, copiado do modelo inglês.
No parlamentarismo, o Conselho de Ministros era chefiado pelo primei- primei- primei- primei- primei-
ro-ministro ro-ministro ro-ministro ro-ministro ro-ministro, indicado pelo partido que tivesse mais representantes na Câma-
ra. Por exemplo: quando os liberais ganhavam a eleição legislativa, caberia
a eles indicar o ministério e governar o país
Você deve estar se perguntando: e o imperador, não mandava em nada?
Ao contrário. Lembre-se de que d. Pedro II tinha o Poder Moderador, e estava
acima dos outros poderes. Sempre que o ministério e a Câmara se desenten-
diam, o imperador podia dissolvê-la e convocar novas eleições. Ou então
demitir o ministério, e pedir ao partido majoritário que apontasse novo
primeiro-ministro.
O parlamentarismo é hoje adotado por todos os países do Primeiro Mundo,
com exceção dos Estados Unidos, que adotam o presidencialismo. Alguns
desses países são monarquias, como a Inglaterra, o Japão, a Suécia, a Espanha,
e outros são repúblicas, como a França, a Alemanha, a Itália. Em todos eles,
porém, quem governa o país não é o rei ou o presidente, e sim o primeiro-
ministro, indicado pelo partido que ganha as eleições.
No Brasil, em 1993, houve um plebiscito para que o eleitorado opinasse se
queria a substituição do presidencialismo pelo parlamentarismo. A manutenção
do presidencialismo foi vitoriosa por larga margem de votos.
lm tcmpo
Pausa
lm tcmpo
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A U L A
Com o parlamentarismo, as elites políticas imperiais conseguiram impor
uma certa ordem ao país. Dominaram os levantes populares e afastaram
o fantasma da desintegração territorial. Apesar da sucessão de 36 ministérios
em 50 anos, liberais e conservadores concordavam que a política não deveria
ser feita por meio de revoltas e rebeliões.
Depois da turbulência das três primeiras décadas de país independente,
o Brasil entrou numa fase de estabilidade política. No topo, o Poder Moderador
conferido ao imperador; no meio, os partidos Liberal e Conservador, alternan-
do-se no governo; na base, a Guarda Nacional e a polícia. Do ponto de vista
interno, a cada estava arrumada. E as relações do Brasil com o exterior?
Na próxima aula, vamos ver de que maneira a ex-colônia portuguesa,
escravista e mestiça, ia entrar no mundo dito civilizado. Novos desafios, novas
soluções... Acompanhe-nos.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
No dia 25 de março de 1824, a primeira Constituição brasileira foi outorgada
por d. Pedro I. Releia o item A Constituição imperial A Constituição imperial A Constituição imperial A Constituição imperial A Constituição imperial e relacione os artigos
que mais de perto marcaram a organização política do Império brasileiro.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Releia o item Jurujubas, chimangos e caramurus Jurujubas, chimangos e caramurus Jurujubas, chimangos e caramurus Jurujubas, chimangos e caramurus Jurujubas, chimangos e caramurus e faça um quadro
resumido das principais correntes políticas surgidas no Brasil depois
da saída de d. Pedro I, em 1831, apontando as principais idéias que elas
defendiam.
Exercício 3 Exercício 3 Exercício 3 Exercício 3 Exercício 3
A partir de 1850, o Brasil entrou em uma fase de estabilidade política com
base no projeto “saquarema”, como era chamado o Partido Conservador.
Releia o item A vitória dos saquaremas A vitória dos saquaremas A vitória dos saquaremas A vitória dos saquaremas A vitória dos saquaremas e anote os principais pontos
desse projeto.
UItimas
paIavras
lxcrcícios
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Pintor de teatro, fui encarregado de nova
tela, representando a fidelidade geral da população brasileira ao governo impe-
rial, sentado em um trono coberto por rica tapeçaria estendida por cima de
palmeiras. A composição foi submetida ao ministro José Bonifácio, que a apro-
vou. Pediu-me apenas que substituísse as palmeiras naturais por um motivo de
arquitetura regular, a fim de não haver nenhuma idéia de estado selvagem.
Coloquei então o trono sob uma cúpula sustentada por cariátides douradas(...).
Esse é um trecho do livro Viagem pitoresca e histórica ao Brasil, no qual
o pintor francês Jean-Baptiste Debret relata o episódio da pintura do pano de
boca do Teatro da Corte, por ocasião da coroação de d. Pedro I.
Como você viu na Aula 11, Debret foi um dos pintores e arquitetos da
Missão Artística Francesa, contratada por d. João VI para dar uma face européia
ao Rio de Janeiro colonial. Debret deixou muitas pinturas representando a terra
brasileira e sua gente. Outros visitantes estrangeiros que estiveram no Brasil
ao longo do século XIX também registraram, em seus livros e pinturas, a paisa-
gem tropical e os habitantes negros e mestiços.
No entanto, brasileiros como José Bonifácio não tinham orgulho nem dessa
natureza “selvagem”, nem desse povo “misturado”. Achavam que, para ingres-
sar no mundo considerado civilizado, o Brasil teria de construir aqui uma
civilização copiada da Europa civilização copiada da Europa civilização copiada da Europa civilização copiada da Europa civilização copiada da Europa. Por isso, Bonifácio não queria as palmeiras
“selvagens”: preferia as cariátides gregas.
Construindo
a civiIização
Abcrtura
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MÓDULO 5
Cariátide:
figura esculpida em
pedra, com
a função de dar
sustentação a parte
de uma construção,
sendo também
um elemento
decorativo.
A ilustração
à esquerda
é uma reprodução
da pintura descrita
por Debret,
com as cariátides
ao lado dos anjos.
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A U L A
Movimcnto
Nesta aula, veremos como o Brasil ingressou no mundo civilizado
e se relacionou com os demais países americanos e europeus.
A mcmúria da nação
O que faz de nós brasileiros? Você vai dizer que, para ser brasileiro, é preciso
nascer no Brasil e falar português. Mas isso não é tudo. Ser brasileiro é ter
em comum a mesma memória do passado. É comemorar os acontecimentos que
marcaram a nossa história, como o 7 de Setembro ou o 21 de Abril. É identificar
o gesto libertador de d. Pedro I no quadro O grito do Ipiranga. É reconhecer
nos museus e monumentos históricos as marcas do nosso passado nosso passado nosso passado nosso passado nosso passado.
Para o Brasil ser uma monarquia centralizada e unitária, como queriam
os conservadores, era preciso que a jovem nação escrevesse a sua história história história história história.
Nação sem história não é nação.
Em 1838, o regente conservador Pedro de Araújo Lima criou o Instituto Instituto Instituto Instituto Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro Histórico e Geográfico Brasileiro Histórico e Geográfico Brasileiro Histórico e Geográfico Brasileiro Histórico e Geográfico Brasileiro e o Arquivo Nacional. Arquivo Nacional. Arquivo Nacional. Arquivo Nacional. Arquivo Nacional. O primeiro tinha
o objetivo de explicar a evolução do Brasil, desde as suas origens; o segundo
devia guardar para o futuro os documentos produzidos no presente.
Para escrever a história de um país é preciso, em primeiro lugar, reunir
um grande número de fontes fontes fontes fontes fontes.
Ao longo do curso, você conheceu algumas importantes fontes históricas.
Volte às aulas e faça um levantamento dessas fontes.
Pausa
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A U L A
Escrever História é mais do que juntar documentos. Cabe ao historiador
selecioná-los, organizá-los e interpretá-los. Francisco Adolfo Varnhagen Varnhagen Varnhagen Varnhagen Varnhagen
é considerado o primeiro historiador primeiro historiador primeiro historiador primeiro historiador primeiro historiador do Brasil. Reunindo uma vasta docu-
mentação sobre a América portuguesa, Varnhagen escreveu uma monumen-
tal História geral do Brasil, em dois volumes, que abrangia do “descobrimento
até a independência”. O primeiro volume foi publicado em 1854, e o segundo,
três anos depois.
A preocupação principal dessa história foi mostrar as origens origens origens origens origens do Brasil.
Para Varnhagen, os í ndi os “sel vagens” í ndi os “sel vagens” í ndi os “sel vagens” í ndi os “sel vagens” í ndi os “sel vagens” não poderiam ser considerados
raízes dignas de um país que pretendia ingressar no mundo civilizado,
pois representavam o “atraso e a barbárie”. Além disso, não tinham o senti-
mento de “patriotismo”, fundamental para a construção de uma nação.
Veja o que disse Varnhagen sobre os índios:
Nos selvagens não existe o sublime desvelo que chamamos patriotismo,
como um sentimento elevado que nos impele a sacrificar o bem-estar pela
glória da pátria(...). Nem poderiam possuir instintos de amor de pátria
gentes vagabundas que, guerreando sempre, povoavam o terreno que
hoje é do Brasil(...). Assim, tais rixas perpetuariam neste abençoado solo
a anarquia selvagem, ou viriam a deixá-lo sem população, se a Providên-
cia Divina não tivesse acudido a dispor que o cristianismo viesse ter mão
a tão triste e degradante estado!
Citado por Nilo Odália em Citado por Nilo Odália em Citado por Nilo Odália em Citado por Nilo Odália em Citado por Nilo Odália em Varnhagen Varnhagen Varnhagen Varnhagen Varnhagen: História : História : História : História : História, p. 37-38 , p. 37-38 , p. 37-38 , p. 37-38 , p. 37-38
Com relação aos negros africanos negros africanos negros africanos negros africanos negros africanos, que vieram para a América Portuguesa
como mão-de-obra, Varnhagen foi ainda mais severo:
Colonos de nações igualmente bárbaras e mais supersticiosas, essen-
cialmente intolerantes, inimigas de toda liberdade(...) sem identidade
de língua, de usos e de religião entre si, só a cor e o infortúnio vinham
a unir estes infelizes (...).
Varnhagen: História Varnhagen: História Varnhagen: História Varnhagen: História Varnhagen: História, p. 72 , p. 72 , p. 72 , p. 72 , p. 72
Consulte a obra de Varnhagen nas bibliotecas. Você perceberá que
a escravidão africana praticamente não foi estudada por ele. É como
se o historiador quisesse apagar de nosso passado o que ele considerava
uma “mancha negra”.
Na história que Varnhagen escreveu, a base de nossa evolução foi
o elemento português elemento português elemento português elemento português elemento português, europeu e cristão europeu e cristão europeu e cristão europeu e cristão europeu e cristão, que introduziu a “superioridade
e os encantos da civilização sobre a barbárie”.
Faça um pequeno texto, mostrando como essa história escrita por Varnhagen
contribuiu para a afirmação do projeto conservador.
O Guarani c a Primeira Missa
Você já deve ter lido ou visto na televisão O Guarani, a história do valente
índio Peri que se apaixona pela loura Ceci. Essa história de amor e de aventura,
passada no século XVI, na América Portuguesa, foi escrita por José de Alencar José de Alencar José de Alencar José de Alencar José de Alencar
em 1857. Naquele momento, artistas e escritores brasileiros estavam muito
influenciados pelo Romantismo Romantismo Romantismo Romantismo Romantismo, que tanto sucesso fazia na Europa.
Pausa
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A U L A
Os ideais românticos valorizavam a aproximação com a natureza natureza natureza natureza natureza e a busca busca busca busca busca
das origens nacionais das origens nacionais das origens nacionais das origens nacionais das origens nacionais. Para os europeus, isso significava trazer de volta
os heróis da Idade Média, corajosos cavaleiros como o inglês Robin Hood.
Como nós não tínhamos cavaleiros medievais, escritores como José de Alencar
resolveram fazer do índio o símbolo da nacionalidade brasileira índio o símbolo da nacionalidade brasileira índio o símbolo da nacionalidade brasileira índio o símbolo da nacionalidade brasileira índio o símbolo da nacionalidade brasileira.
Veja como José de Alencar descreve Peri:
Uma simples túnica de algodão, apertada à cintura por uma faixa de penas
escarlates, caía-lhe dos ombros até ao meio da perna, e desenhava o talhe
delgado e esbelto. Sobre a alvura do algodão, a sua pele, cor de cobre,
brilhava com reflexos dourados; os cabelos pretos cortados rentes,
a tez lisa, os olhos grandes; a pupila negra, cintilante; a boca forte mas
bem modelada e guarnecida de dentes alvos, davam ao rosto pouco oval a
beleza inculta da graça, da força e da inteligência. Era de alta estatura;
tinha as mãos delicadas; a perna ágil e nervosa (...).
José de Alencar, José de Alencar, José de Alencar, José de Alencar, José de Alencar, O Guarani O Guarani O Guarani O Guarani O Guarani, p. 24 , p. 24 , p. 24 , p. 24 , p. 24
Observe que o “forte” e “inteligente” Peri, saído da imaginação de Alencar,
nada tinha a ver com os índios “bárbaros” de Varnhagen, descritos pelos
documentos históricos. O índio criado por Alencar, representante da natureza,
estava mais próximo dos heróis românticos europeus. Peri podia encarnar
as raízes da nação brasileira que se queria civilizada, porque era um índio com
alma de europeu. A união do índio Peri e da loura Ceci representava, por sua vez,
a “harmonia” que teria marcado as relações entre índios e brancos.
Essa integração entre o elemento nativo o índio e o colonizador branco
o português apareceu também nas pinturas históricas da Academia Impe- Academia Impe- Academia Impe- Academia Impe- Academia Impe-
rial de Belas Artes rial de Belas Artes rial de Belas Artes rial de Belas Artes rial de Belas Artes. Volte à Aula 4, página 32, e veja A Primeira Missa
no Brasil, quadro de V VV VVí íí íítor Meireles tor Meireles tor Meireles tor Meireles tor Meireles, e observe que nativos e portugueses
são retratados em ambiente de perfeita harmonia, ajoelhados diante da cruz,
símbolo maior da civilização cristã que chegava à América.
No Brasil “civilizado” que se criava no século XIX só havia lugar para
o branco e o índio “pacífico”. Excluídos estavam os negros e mulatos: formavam
a maior parte da população, mas não apareciam na história, nos livros, e nem
nos quadros. Apareciam nos cafezais, nos canaviais, nas minas, nas cidades...
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A U L A
CiviIização X barbáric
O Brasil independente precisava enfrentar ainda um outro desafio: como se
relacionar com os países estrangeiros, americanos e europeus?
Desde a época colonial, as nossas relações com a Europa eram muito fortes.
Você viu na Aula 11 que a Inglaterra Inglaterra Inglaterra Inglaterra Inglaterra era a nossa maior fornecedora de
manufaturados e uma grande consumidora das nossas matérias-primas.
Nas aulas seguintes, você aprenderá que, durante todo o Império, e mesmo
depois, a presença inglesa na nossa economia foi extraordinária.
Da França França França França França, o Império brasileiro importava a moda, o gosto, os costumes
refinados, a língua, os livros, a música, tudo que pudesse representar a marca
do mundo civilizado civilizado civilizado civilizado civilizado.
Já o relacionamento do Brasil monárquico com a América republicana América republicana América republicana América republicana América republicana
foi muito difícil. Ao norte, os Estados Unidos da América Estados Unidos da América Estados Unidos da América Estados Unidos da América Estados Unidos da América buscavam afastar
a influência européia no continente, tendo como lema “A América para
os americanos”. Para atrair a simpatia do Império brasileiro, os Estados Unidos
foram o primeiro país do mundo a reconhecer a nossa independência. Durante
o período regencial, vários políticos brasileiros viram nos Estados Unidos
o modelo a ser seguido pelo Brasil.
Apesar dos esforços norte-americanos, as relações políticas com o Império
brasileiro não se desenvolveram bem. Só na República haveria uma maior
aproximação entre os dois países.
Com seus vizinhos do sul as repúblicas do Paraguai as repúblicas do Paraguai as repúblicas do Paraguai as repúblicas do Paraguai as repúblicas do Paraguai, do Uruguai do Uruguai do Uruguai do Uruguai do Uruguai
e da Argentina e da Argentina e da Argentina e da Argentina e da Argentina , o Império brasileiro manteve um relacionamento de força.
Saiba que a rivalidade entre brasileiros, argentinos, uruguaios e paraguaios vai
além do futebol. Na verdade, muita coisa sempre nos separou. Vamos lembrar?
Volte à Aula 9 e veja que, desde o período colonial, o interesse português na
região do Prata era grande. O objetivo de Portugal era tirar da Espanha o controle
do comércio e das riquezas que circulavam pelos rios Paraná, Paraguai
e Uruguai. Em 1821, por ocasião das lutas de independência da América
Espanhola, d. João VI anexou a Banda Oriental do Rio Uruguai ao Reino Unido
de Portugal e Algarves. Durante sete anos, a Província Cisplatina Província Cisplatina Província Cisplatina Província Cisplatina Província Cisplatina, como
passou a ser chamada, fez parte do território brasileiro. Você viu na Aula 13 que,
em 1828, o Império Brasileiro, derrotado na guerra, foi obrigado a reconhecer
a independência da Cisplatina, que se transformou na República do Uruguai República do Uruguai República do Uruguai República do Uruguai República do Uruguai.
Até 1850, o governo brasileiro ficou mais preocupado com os problemas
internos, ou seja, manter a ordem e preservar a unidade. A partir de então,
com a casa sob controle, o Brasil resolveu voltar a ter uma presença mais atuante
na política do Prata. Qual era a situação dos nossos vizinhos? Qual o interesse
do nosso país no Prata?
Enquanto a América portuguesa conseguiu se manter unida e se transfor-
mou no Império do Brasil, o Vice-Reinado do Prata se dividiu em vários países
republicanos: a Argentina, o Uruguai e o Paraguai. País pequeno e sem saída
para o mar, o Paraguai Paraguai Paraguai Paraguai Paraguai, governado por ditadores que se mantinham no poder
por longo tempo, tinha poucas relações com o exterior. Já a Argentina Argentina Argentina Argentina Argentina
e o Uruguai Uruguai Uruguai Uruguai Uruguai, por meio dos portos de Buenos Aires e Montevidéu, dominavam
o comércio platino. Nesses portos havia muitos comerciantes e banqueiros
estrangeiros. A política argentina e uruguaia era muito instável, e havia perma-
nentes lutas entre grupos rivais.
Pausa
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A U L A
Você viu na Aula 12 que os países da antiga América Espanhola se orga-
nizaram em repúblicas. Tinham constituições republicanas e realizavam elei-
ções presidenciais.
Apesar disso, o caudilhismo caudilhismo caudilhismo caudilhismo caudilhismo foi muito comum nesses países. Caudilhos
eram chefes locais que, pela força, conseguiam dominar todo o país. Foram
caudilhos: Francia, no Paraguai; Santa Cruz, na Bolívia; Portales, no Chile;
Juárez, no México; Moreno, no Equador; Guzmán Blanco, na Venezuela, entre
outros. (Delgado de Carvalho, História da América, p. 157)
Que interesses brasileiros estavam em jogo no Prata? O primeiro deles
era garantir a livre navegação pelos rios da região. Eram muito difíceis
as comunicações por terra entre o oeste das províncias de Santa Catarina, Paraná
e Rio Grande do Sul, o sudoeste da província de Mato Grosso e as províncias
do sudeste, em especial o Rio de Janeiro. Para vencer as grandes distâncias,
eram usadas a navegação de cabotagem (pela costa) e a navegação fluvial,
subindo os rios da bacia Platina.
Outra preocupação do governo imperial era evitar que a Argentina
se tornasse muito poderosa e acabasse por dominar os outros países da região.
Ao Império não interessava que o Prata voltasse a se unir, pois isso ameaçaria
a supremacia brasileira na América do Sul. Como dizia o barão de Mauá, rico
empresário brasileiro, “o Brasil tem o dever de exercer no rio da Prata a influência
a que lhe dá direito sua posição de primeira potência da América do Sul”.
Por várias vezes, o governo imperial interveio militarmente na Argentina
e no Uruguai. O objetivo principal dessas intervenções era tirar do poder
governantes argentinos e uruguaios que se colocavam contra os interesses
brasileiros. Em 1851, com o Exército sob o comando de Caxias, o Brasil declarou
guerra ao uruguaio Oribe e ao argentino Rosas. A vitória brasileira assegurou
que o Uruguai e a Argentina ficariam em mãos de políticos simpáticos ao Brasil.
Essas difíceis relações entre brasileiros e seus vizinhos do Prata não se
deviam apenas a problemas políticos e econômicos. Muita coisa mais nos
separava. Pense um pouco... O Brasil havia conseguido manter a integridade
lm tcmpo
Navegação
de cabotagem
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A U L A
do seu território, se transformara numa monarquia centralizada e estável
e construíra uma civilização européia nos trópicos. Já o Prata não se mantivera
unido. A Argentina, o Uruguai e o Paraguai tornaram-se repúblicas instáveis,
cujos presidentes eram freqüentemente substituídos por caudilhos.
Ora, afirmavam as elites brasileiras, se o Brasil era o representante da
civilização civilização civilização civilização civilização, nossos vizinhos representariam a barbárie barbárie barbárie barbárie barbárie. Em vários documentos
da época está declarado que a guerra entre o Brasil e os países do Prata era a luta
entre a “civilização” e a “barbárie”.
E o que argentinos, paraguaios e uruguaios achavam dos brasileiros?
Eles também não nos tinham em boa conta. Éramos acusados de “dominadores”
e de “país de escravos”, de “macaquitos”.
Foi nessa região do Prata que o Brasil se envolveu na mais dura guerra da
sua história: a Guerra do Paraguai Guerra do Paraguai Guerra do Paraguai Guerra do Paraguai Guerra do Paraguai (1864-1870). Essa guerra enfraqueceu
o Império e acabou levando à proclamação da República. Mas isso é assunto
para depois... Aguarde.
Proclamada a independência, em 1822, a ex-colônia portuguesa precisava
enfrentar o desafio de se transformar em um país. E enfrentou.
Trinta anos depois, a elite política brasileira, com base no projeto conserva-
dor, havia desenhado um país, o Brasil. Ela enfrentou a ferro e fogo as rebeliões
nas províncias e evitou a desintegração territorial. Impôs a ordem social e excluiu
a maior parte da população do direito de participar da política. Estabeleceu uma
monarquia centralizada e deu poder ao imperador. Introduziu, finalmente,
o Brasil como uma civilização européia nos trópicos.
Você deve estar se perguntando: e em termos econômicos, como se desen-
volveu o Brasil? Ainda era o ouro que o sustentava?
Na próxima aula, você vai ver como o Brasil se tornou o Império do Café Império do Café Império do Café Império do Café Império do Café.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Lendo o item A memória da nação A memória da nação A memória da nação A memória da nação A memória da nação, você ficou sabendo que Francisco
Adolfo Varnhagen escreveu a primeira história do Brasil, mostrando
as origens de nosso país. Explique por que Varnhagen eliminou índios
e negros da nossa história.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Releia o item Civilização X barbárie Civilização X barbárie Civilização X barbárie Civilização X barbárie Civilização X barbárie. Faça um resumo das relações do
Império brasileiro com seus vizinhos americanos.
UItimas
paIavras
lxcrcícios
16
) 7 )
MúduIo 6
lconomia c socicdadc
no lmpório do ßrasiI
Estamos em pleno século XIX. As ondas liberais varrem a Europa Ocidental
e põem por terra os regimes absolutistas. A Inglaterra consolida sua posição de
“oficina do mundo” e disputa com a França os mercados e matérias-primas
asiáticos e africanos. Nos Estados Unidos, a descoberta das minas de ouro na
Califórnia multiplica por dez a produção do metal entre os anos de 1850 e 1860.
Um historiador chegou a dizer que aquele era o momento da conquista do conquista do conquista do conquista do conquista do
mundo mundo mundo mundo mundo pelos burgueses.
O Império do Brasil não ficou de fora desse movimento de mudanças.
No dizer do historiador Caio Prado Jr., o Brasil, naquela segunda metade do
século XIX, pela primeira vez tomou “conhecimento do que fosse progresso progresso progresso progresso progresso
econômico econômico econômico econômico econômico e uma certa riqueza material”.
Mas, dirá você: como isso foi possível? Como uma economia agroexportadora
de base escravista teve condições de se modernizar modernizar modernizar modernizar modernizar?
Nas próximas três aulas estudaremos as bases desse processo de moderni-
zação. Veremos que tudo isso, em grande parte, foi resultado da expansão
cafeeira e das mudanças por que passava o sistema escravista no Brasil. Estava
aberto o caminho para a utilização da mão-de-obra livre. E os imigrantes teriam
um importante papel nessas mudanças.
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MÓDULO 6
O lmpório cra o cafó
Nossa viagem agora será pelos cafezais.
Percorreremos antigas regiões de café dos atuais Estados do Rio de Janeiro
e São Paulo. Veremos como um produto pode transformar um lugar, pode
criar novos hábitos, novas fontes de empregos, novas formas de comunicação
e novas relações sociais.
A formação da cconomia cafccira
Criar uma grande fazenda de café no século XIX não era nada fácil. Requeria
terras, capitais, mão-de-obra, transporte e mercado. Vejamos como foi possível
reunir todos esses fatores. Depois, vamos acompanhar as mudanças promovidas
pela expansão da lavoura cafeeira no país.
No interior da província do Rio de Janeiro, o café encontrou ótimas condi-
ções para se desenvolver. Da cidade do Rio de Janeiro, ele subiu a serra e alcançou
o vale do rio Paraíba.
Abcrtura
Movimcnto
Zona do Rio de Janeiro
Zona de Santos
Ferrovias
A expansão
cafeeira
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Ali havia um clima favorável e terras disponíveis... Mas não tão disponíveis
assim. Muitas vezes, a formação dos grandes cafezais no meio rural flumi-
nense foi precedida de uma grande luta pela posse das terras. A região, conta
Ilmar Mattos,
(...) era área de “fronteira aberta”, isto é, de estrutura fundiária ainda
não definida, até mesmo em termos jurídicos.
Os conflitos em razão da aquisição e mesmo dos limites das propriedades
rurais eram, muitas vezes, resolvidos pela força. Conquistada a proprie-
dade pelas armas, tratava-se de legalizá-la.
Esse era um problema geral, não apenas daquela região. Tanto é que,
em 1850, o governo imperial resolveu regular a disponibilidade de terras por
meio da Lei de Terras. Só que, naquele momento, boa parte dos cafezais
fluminenses já estava assentada.
Mas não bastava apenas “conquistar a propriedade”. Era necessário prepa-
rar a terra, promover o plantio, adquirir equipamentos e mão-de-obra escrava
e comercializar a safra. Tudo isso requeria uma grande soma de capitais grande soma de capitais grande soma de capitais grande soma de capitais grande soma de capitais.
Grande parte deles veio ou da transferência de recursos de outras culturas,
como a do açúcar, ou das atividades comerciais impulsionadas com a chegada
da família real ao Brasil. D. João VI, por sinal, foi um dos incentivadores
da lavoura cafeeira no Brasil, promovendo, em 1817, uma distribuição de
sementes entre os grandes proprietários de terras. Com o tempo, no entanto,
a lavoura cafeeira passou a ser mantida com as próprias rendas.
A escravidão africana foi outro traço fundamental da lavoura cafeeira
fluminense. Apesar das constantes pressões inglesas, que vinham desde
o início do século XIX, o fluxo de escravos para o Brasil se manteve crescente
até 1850. Esse fato favoreceu a utilização, em larga escala, da força de trabalho
escrava africana.
Nesses primeiros tempos de lavoura cafeeira, o café era transportado
por tropas de burros do interior até a cidade do Rio de Janeiro. Mais tarde,
a introdução das ferrovias facilitaria enormemente o escoamento da produção.
Quando chegava à capital do país, a produção era adquirida pelo comissário
de café e, daí, vendida ao exportador.
Boris Fausto nos fala um pouco sobre o comissário e suas relações com
o produtor de café:
(...) a príncípio no Rio de Janeiro e depois também em Santos, o comissário
atuava como intermediário, entre produtores e exportadores. (...)
Por conta da mercadoria que lhe era entregue, (...) fornecia os bens de
consumo e os instrumentos encomendados pelo fazendeiro, ganhando
comissões sobre o negócio. Estabelecia-se, assim, uma relação de confian-
ça entre fazendeiro e comissário. (...) Produtores e comissários eram,
em regra, brasileiros, mas a exportação de café esteve desde os primeiros
tempos em mãos de grandes organizações [norte-]americanas e inglesas.
Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, História do Brasil História do Brasil História do Brasil História do Brasil História do Brasil, , , , , p. 189 p. 189 p. 189 p. 189 p. 189
lm tcmpo
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A presença de ingleses e norte-americanos na exportação de café não era
fruto do acaso. O café significava bom negócio, e um negócio em expansão. Na
década de 1820, correspondia a cerca de 18% das nossas exportações. Na
década de 1830, esse número já subira para cerca de 43%. O principal impor-
tador do café brasileiro eram os Estados Unidos da América.
Na primeira metade do século XIX, não se plantava café apenas
na província do Rio de Janeiro. Os cafezais seguiram o curso do rio Paraíba
e alcançaram as terras paulistas. Em 1836, a província de São Paulo produzia
cerca de 25% do café brasileiro.
O café também avançou por terras mineiras, no sul e na Zona da Mata,
que se transformaram, no dizer do historiador Ilmar Mattos, em uma extensão extensão extensão extensão extensão
do vale fluminense do vale fluminense do vale fluminense do vale fluminense do vale fluminense. Embora a província de Minas Gerais possuísse um grande
número de escravos durante boa parte do Império, a produção cafeeira mineira
era pequena se comparada à produção fluminense.
O predomínio da província do Rio de Janeiro permaneceria ainda por
algum tempo. Em 1865, os cafezais fluminenses eram responsáveis por “mais
3/4 partes de todo o café que se exporta” (dados de Sebastião Soares citados
por Ilmar Mattos, Tempo saquarema, p. 61)
A primeira grande onda verde onda verde onda verde onda verde onda verde do café teve importantes efeitos econô-
micos. O primeiro deles foi o reequilíbrio da balança comercial brasileira.
Depois de um longo período de déficits déficits déficits déficits déficits, as nossas exportações passaram,
a partir da década de 1860, a superar as importações.
Ocorreu também o que o historiador Caio Prado Jr. chamou de melhor
aparelhamento técnico do país aparelhamento técnico do país aparelhamento técnico do país aparelhamento técnico do país aparelhamento técnico do país:
Refiro-me a estradas de ferro e outros meios de comunicação
e transportes, mecanização das indústrias rurais, instalação
de algumas manufaturas (...).
Caio Prado Jr., Caio Prado Jr., Caio Prado Jr., Caio Prado Jr., Caio Prado Jr., História econômica do Brasil, História econômica do Brasil, História econômica do Brasil, História econômica do Brasil, História econômica do Brasil, p. 173 p. 173 p. 173 p. 173 p. 173
A expansão urbana foi outro importante efeito do impulso modernizador impulso modernizador impulso modernizador impulso modernizador impulso modernizador
produzido pela economia cafeeira. Nas aulas seguintes, veremos como tudo isso
contribuiu para criar inúmeras cidades e modificar a face de algumas delas,
como foi o caso da cidade do Rio de Janeiro.
A expansão cafeeira contribuiu também para a mudança do eixo econômi- mudança do eixo econômi- mudança do eixo econômi- mudança do eixo econômi- mudança do eixo econômi-
co brasileiro do Nordeste para o Sudeste co brasileiro do Nordeste para o Sudeste co brasileiro do Nordeste para o Sudeste co brasileiro do Nordeste para o Sudeste co brasileiro do Nordeste para o Sudeste. É bom lembrar que o avanço dos
cafezais pelo vale do Paraíba fluminense e depois paulista ocorreu em meio
a sucessivas perdas de mercado sofridas pela lavoura açucareira principal
produto de exportação nordestino.
Isso não quer dizer, no entanto, que a lavoura açucareira tenha deixado
de ser importante para a economia brasileira. É só acompanhar o quadro abaixo
para perceber que café e açúcar juntos, em 1860, representavam cerca de
60% das nossas exportações.
1831-1840
Café ................. 43,8%
Açúcar .............. 24,0%
Algodão ............ 10,8%
Couros e peles .. 07,9%
PORCENTAGEM DOS PRINCIPAIS PRODUTOS DE EXPORTAÇÃO
1821-1830
Açúcar .............. 30,1%
Algodão ............ 20,6%
Café ................. 18,4%
Couros e peles . 13,6%
1841-1850
Café ................. 41,5%
Açúcar .............. 26,7%
Couros e peles .. 08,5%
Algodão ............ 07,5%
Fonte: Nelson Werneck Sodré, História da burguesia brasileira,
Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1964, página 78.
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Todo esse processo de modernização teve por base uma lavoura que preser-
vou as principais características da tradicional estrutura produtiva brasileira:
a grande propriedade monocultora e escravista. Pelo menos até a primeira metade
do século XIX , a cafeicultura, mais do que simplesmente manter, teve o papel
de reforçar o sistema escravista de produção. Nas palavras de Caio Prado Jr.:
Graças ao amparo de um artigo como o café, de largas facilidades
de produção no país e de considerável importância comercial
nos mercados mundiais, aquela estrutura [tradicional], momentanea-
mente abalada pelas transformações sofridas pelo país na primeira parte
do século, consegue se refazer e prosperar mesmo consideravelmente
ainda por muito tempo.
Caio Prado Jr., Caio Prado Jr., Caio Prado Jr., Caio Prado Jr., Caio Prado Jr., História econômica do Brasil História econômica do Brasil História econômica do Brasil História econômica do Brasil História econômica do Brasil, p. 173 , p. 173 , p. 173 , p. 173 , p. 173
A existência de terras e escravos disponíveis fez com que a produção cafeeira
do vale do Paraíba assumisse características tradicionais. Não houve grandes
preocupações com o aumento da produtividade e com a introdução de maqui-
narias mais modernas. O café ainda era o escravo.
Mas quem agia e pensava dessa forma? Quem era esse fazendeiro de café?
Tratemos agora de estudar alguns dos principais agentes dessa primeira onda
cafeeira.
Releia a aula e estabeleça relações entre a expansão cafeeira e o processo
de modernização da economia brasileira.
Pausa
O cafezal
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Os barõcs do cafó
Quanto mais me aproximo da capitania do Rio de Janeiro, mais consi-
deráveis se tornam as plantações. Várias delas existem, também muito
importantes, perto da vila de Resende. Proprietários desta redondeza
possuem 40,60, 80 e até 100 mil pés de café. Pelo preço do gênero, devem
estes fazendeiros ganhar somas enormes.
Como se pode perceber pelas palavras de Saint-Hilaire, a expansão cafeeira
não produziu apenas riqueza material para o Império do Brasil. Com ela surgiu,
especialmente na província fluminense, uma nova elite econômica.
Nos diversos centros produtores da província do Rio de Janeiro (como
Resende, Barra Mansa, Vassouras, Valença e Cantagalo) formaram-se impor-
tantes famílias que logo se tornaram, nas palavras de Ilmar Mattos, verdadei-
ras dinastias cafeeiras dinastias cafeeiras dinastias cafeeiras dinastias cafeeiras dinastias cafeeiras. Os chefes dessas famílias passaram a ter influência
no poder local e regional.
Eles participavam das reuniões das câmaras municipais; elegiam-se
para a Assembléia Provincial; formavam na Guarda Nacional; casavam
suas filhas com bacharéis que deveriam representá-los junto ao governo
geral; (...) recebiam ou compravam títulos de nobreza, tornando-se
‘barões do café’; construíam luxuosos palacetes ou casas sólidas e vastas
na Corte. Como Estêvão Ribeiro de Resende, barão, conde e marquês de
Valença; como Peregrino José de Américo Pinheiro, barão e visconde
de Ipiabas; como Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, barão de Pati
de Alferes; ou como Francisco José Teixeira Leite, barão de Vassouras.
Ilmar Mattos e Márcia de Almeida Gonçalves, Ilmar Mattos e Márcia de Almeida Gonçalves, Ilmar Mattos e Márcia de Almeida Gonçalves, Ilmar Mattos e Márcia de Almeida Gonçalves, Ilmar Mattos e Márcia de Almeida Gonçalves, O O O O O i ii iimpério da boa sociedade mpério da boa sociedade mpério da boa sociedade mpério da boa sociedade mpério da boa sociedade, p. 50 , p. 50 , p. 50 , p. 50 , p. 50
Mais do que proprietários de terras e escravos, os barões do café barões do café barões do café barões do café barões do café foram se
constituindo em importante força social e política. Em geral, defendiam
o governo imperial e a ordem escravista. Em pouco tempo, tornaram-se uma das
principais bases políticas do Partido Conservador.
Mas alguns deles não perdiam de vista
determinados problemas. Na década de 1840,
em pleno apogeu da produção cafeeira do
vale do Paraíba, o problema da substituição
da mão-de-obra escrava pela livre estava na
ordem do dia. A Inglaterra pressionava for-
temente pelo fim do tráfico internacional de
escravos, e estavam sendo iniciadas algu-
mas experiências de imigração estrangeira.
Para algumas lideranças dos barões do barões do barões do barões do barões do
café café café café café, como Francisco Werneck, o problema
não era de fácil solução. Werneck, em 1847,
chamava a escravidão de
gérmen roedor do Império do Brasil,
que só o tempo [poderia] curar.
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Ele afirmava que não havia condições para a adoção do trabalho livre, pois
o imigrante logo fugiria e iria trabalhar por conta própria. Assim, dizia ele,
vê-se a necessidade de continuar com esse cancro roedor, cujo preço não
está em harmonia com a renda que dele se pode tirar; ainda mais
se acresce a imensa mortandade a que estão sujeitos e que devora
fortunas colossais (...).
Francisco P. de L. Francisco P. de L. Francisco P. de L. Francisco P. de L. Francisco P. de L. Werneck, citado por Ana Luiza Martins, Werneck, citado por Ana Luiza Martins, Werneck, citado por Ana Luiza Martins, Werneck, citado por Ana Luiza Martins, Werneck, citado por Ana Luiza Martins, O império do café O império do café O império do café O império do café O império do café, p. 63 , p. 63 , p. 63 , p. 63 , p. 63
O problema estava na mesa. Para Werneck, a questão era ou permanecer
com o peso de uma mão-de-obra cara e atrasada cara e atrasada cara e atrasada cara e atrasada cara e atrasada, como a escrava africana,
ou então partir para uma experiência pouco segura, inquietante pouco segura, inquietante pouco segura, inquietante pouco segura, inquietante pouco segura, inquietante, com
a utilização da mão-de-obra livre. Nos cafezais do vale do Paraíba, como
veremos nas próximas aulas, a tradição falou mais alto e a escravidão
africana permaneceu preponderante.
Releia a aula e explique a expressão: “O Império era o café e o café era
o vale do Paraíba”.
Nesta aula pudemos estudar como o café do vale do Paraíba se tornou a base
de sustentação econômica do Império brasileiro. Vimos que a produção cafeeira
estruturou-se em moldes tradicionais, possibilitando, inclusive, a ampliação
da utilização do trabalho escravo.
Acompanhamos ainda a formação de um importante núcleo econômico
e social, que teve importante papel na afirmação do projeto conservador projeto conservador projeto conservador projeto conservador projeto conservador
instituído por determinados setores das elites imperiais.
Finalmente, pudemos verificar que, em plena ascensão da produção cafeeira,
colocava-se na ordem do dia a questão da substituição da mão-de-obra escrava
pela livre. Nosso maior aliado externo, o Império Britânico, endurecia o jogo
e exigia o fim do tráfico negreiro.
Como o Império encaminhou esse problema? Como seria possível manter
em plena carga a produção cafeeira e, ao mesmo tempo, atender às exigências
britânicas?
Na próxima aula, acompanharemos tudo isso. E mais: veremos que, em meio
a esse intenso jogo de poder, a sociedade brasileira passava por importantes
mudanças.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Releia o item A formação da economia cafeeira A formação da economia cafeeira A formação da economia cafeeira A formação da economia cafeeira A formação da economia cafeeira e identifique os principais
fatores responsáveis pela expansão da lavoura cafeeira fluminense
no decorrer século XIX.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Releia o item Os barões do café Os barões do café Os barões do café Os barões do café Os barões do café e explique por que cafeicultores como
Francisco Werneck defendiam a permanência da escravidão africana
nas fazendas de café.
lxcrcícios
UItimas
paIavras
Pausa
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Abcrtura
Art. 1º As embarcações Brasileiras encontradas em qualquer parte,
e as Estrangeiras encontradas nos portos, enseadas, ancoradouros ou
mares territoriais do Brasil, tendo a seu bordo escravos, cuja importação
é proibida pela Lei de sete de Novembro de 1831, ou havendo as desembar-
cado, serão apreendidas, e consideradas importadoras de escravos.
Art. 4º A importação de escravos no território do Império fica nele considerada
como pirataria (...).
Art. 6º Todos os escravos que forem apreendidos serão reexportados
por conta do Estado para os portos donde tiverem vindo, ou para qualquer
ponto fora do Império (...).
Você já deve ter ouvido falar que o Brasil é o “país das leis”. Aqui, há “leis
para tudo”. E, muitas vezes, uma lei “não pega”, por um motivo ou outro.
Não vamos entrar agora nessa discussão. Mas pense um pouco: por que isso
ocorre tanto em nosso país?
O fato é que não foi isso o que aconteceu com a lei acima, a chamada
Lei Eusébio de Queirós, de 4 de setembro de 1850. O tráfico de escravos afri-
canos realmente foi reprimido e reduzido a níveis irrisórios. Milhares de escravos
africanos, de um momento para o outro, deixaram de entrar no nosso país.
Este é o tema desta aula. Inicialmente vamos ver por que o governo
brasileiro, com o apoio do Congresso, terminou com o tráfico negreiro interna-
cional. Depois, acompanheremos a estratégia adotada pelo governo imperial
para enfrentar o problema da substituição da mão-de-obra escrava pela livre.
A tci lusóbio dc Qucirús
A situação dos governantes brasileiros na década de 1840 não era das mais
confortáveis. A expansão cafeeira pelo vale do Paraíba, como sabemos, desa-
fogava um pouco a crise econômica; mas as pressões inglesas pelo fim
do tráfico negreiro tenderam a crescer ao longo daqueles anos.
Desde 1810, a Coroa inglesa insistia para que o então governo joanino
tomasse algumas medidas que restringissem o tráfico internacional de escra-
vos. Alguns acordos foram feitos, mas o tráfico para o Brasil continuou
em franca expansão.
Dcsafios c mudanças
no lmpório do ßrasiI
Movimcnto
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Em 1826, a pressão inglesa foi mais incisiva, e d. Pedro I comprometeu-se
a extinguir o tráfico em três anos. Passaram-se os três anos, o imperador
renunciou em abril de 1831, e em 7 de novembro seguinte o governo regencial
assinou uma lei proibindo o ingresso de escravos africanos no país.
Mais uma vez, a medida foi inócua: a cada ano aumentava a entrada de
escravos, impulsionada pela expansão cafeeira no Sudeste e ainda pelo medo
do fim efetivo do tráfico negreiro.
Na década de 1840, a Coroa inglesa resolveu endurecer o jogo. Sem ouvir
o governo brasileiro, adotou, em 1845, o Bill Aberdeen Bill Aberdeen Bill Aberdeen Bill Aberdeen Bill Aberdeen , que permitia à Marinha
inglesa deter os navios negreiros para o Brasil e até mesmo
(...) comprá-los para o serviço de Sua Majestade, pagando-se por ele
a soma que o Lorde Grande-Almirante [ou seus substitutos] julgarem
conveniente ser o preço justo do mesmo navio; e se assim não for
comprado, será desmantelado completamente, e seus materiais vendi-
dos em leilão.
Bill Aberdeen Bill Aberdeen Bill Aberdeen Bill Aberdeen Bill Aberdeen, 8 de agosto de 1845 , 8 de agosto de 1845 , 8 de agosto de 1845 , 8 de agosto de 1845 , 8 de agosto de 1845
Apesar dos protestos brasileiros, a Coroa inglesa manteve os termos da lei.
Em alguns momentos, a Marinha inglesa chegou mesmo a invadir águas
territoriais brasileiras na repressão ao tráfico. Entre 1849 e 1851, foram condena-
das e destruídas pela Marinha inglesa cerca de 90 embarcações suspeitas
de tráfico. Havia ameaças, até mesmo, de bloqueio dos portos brasileiros.
A situação tornara-se muito delicada.
Além da ameaça militar concreta, não se pode esquecer a forte influência
que a Inglaterra tinha, naquele momento, na economia brasileira.
Os ingleses, nas décadas de 1840-1850, praticamente dominavam
o comércio de importação e exportação do país; nos anos de 1840, firmas
britânicas controlavam 50% das exportações brasileiras de café
e 60% das de algodão. Da mesma maneira, os bancos ingleses, através
de empréstimos externos ao Estado, se faziam presentes na economia
colonial.
Francisco Silva e João Fragoso, em Francisco Silva e João Fragoso, em Francisco Silva e João Fragoso, em Francisco Silva e João Fragoso, em Francisco Silva e João Fragoso, em História geral do Brasil História geral do Brasil História geral do Brasil História geral do Brasil História geral do Brasil, , , , , p. 183 p. 183 p. 183 p. 183 p. 183
lm tcmpo
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Tudo isso levou o governo brasileiro, naquela época dominado pelo Partido
Conservador, a defender, no Congresso, o fim do tráfico negreiro. A Lei Eusébio
de Queirós foi aprovada e, mais importante do que isso, realmente aplicada.
O ingresso de escravos no Brasil caiu a níveis baixíssimos. Os importantes
traficantes de escravos do exterior agora eram tratados como piratas.
lm dcfcsa da ordcm
Vejamos, agora, dois lados dessa importante questão. Primeiro: por que
a Inglaterra queria terminar com o tráfico? Segundo: por que o governo
brasileiro cedeu?
Comecemos pela questão externa. Isso nos obriga a uma nova viagem no
tempo e no espaço. Vamos desembarcar na Inglaterra do começo do século XIX.
Inglaterra das fábricas, das máquinas, da produção. Inglaterra da Revolução Revolução Revolução Revolução Revolução
Industrial Industrial Industrial Industrial Industrial.
A Revolução Industrial, você já deve saber, mudou a face do mundo.
A produção atingiu níveis até então inimagináveis. As grandes fábricas favore-
ceram a expansão urbana, dando origem à sociedade urbano-industrial.
Mudavam as relações de trabalho, que passaram cada vez mais a ser Mudavam as relações de trabalho, que passaram cada vez mais a ser Mudavam as relações de trabalho, que passaram cada vez mais a ser Mudavam as relações de trabalho, que passaram cada vez mais a ser Mudavam as relações de trabalho, que passaram cada vez mais a ser
regidas não pelo contato direto entre o patrão e o empregado, e sim por regidas não pelo contato direto entre o patrão e o empregado, e sim por regidas não pelo contato direto entre o patrão e o empregado, e sim por regidas não pelo contato direto entre o patrão e o empregado, e sim por regidas não pelo contato direto entre o patrão e o empregado, e sim por
um contrato em que o trabalhador vendia ao empresário a sua força de um contrato em que o trabalhador vendia ao empresário a sua força de um contrato em que o trabalhador vendia ao empresário a sua força de um contrato em que o trabalhador vendia ao empresário a sua força de um contrato em que o trabalhador vendia ao empresário a sua força de
trabal ho trabal ho trabal ho trabal ho trabal ho. Ao mesmo tempo, avançavam as idéias liberais, antiinterven-
cionistas. Pregava-se a liberdade de produção e o livre comércio.
Era o momento, portanto, de terminar com tudo aquilo que poderia repre-
sentar algum entrave ao desenvolvimento daquele novo conjunto de relações
econômicas e sociais que se convencionou denominar de sistema capitalista sistema capitalista sistema capitalista sistema capitalista sistema capitalista.
Isso significava combater os monopólios, os protecionismos, o tráfico negreiro
e a escravidão.
As pressões inglesas pelo fim do tráfico surtiram efeito: em 1815, o tráfico
foi proibido ao norte da linha do Equador. Mas, ao sul do Equador, ele se
manteve, especialmente dirigido para o Brasil.
É nesse quadro geral, portanto, que podemos entender as pressões inglesas
pelo término do tráfico negreiro. Em uma abordagem mais específica, alguns
historiadores afirmam que o agravamento das pressões da Inglaterra na década
de 1840 pode ser relacionado ao interesse da burguesia industrial inglesa
em baratear o preço da cesta de alimentos do operariado inglês.
A adoção do trabalho livre no Brasil tornaria mais baratos os produtos
coloniais, o que possibilitaria aos industriais ingleses pagar salários
mais baixos aos operários e, assim, ampliar seus lucros.
Ilmar Mattos e Márcia de A. Gonçalves, Ilmar Mattos e Márcia de A. Gonçalves, Ilmar Mattos e Márcia de A. Gonçalves, Ilmar Mattos e Márcia de A. Gonçalves, Ilmar Mattos e Márcia de A. Gonçalves, O império da boa sociedade O império da boa sociedade O império da boa sociedade O império da boa sociedade O império da boa sociedade, p. 34 , p. 34 , p. 34 , p. 34 , p. 34
Voltemos agora nossa atenção para o Império do Brasil. Estava claro, para
o governo brasileiro, que aquele não era um jogo de iguais. Sabia-se da
superioridade econômica e militar da poderosa Inglaterra. O jogo tornou-se
extremamente perigoso após o Bill Aberdeen Bill Aberdeen Bill Aberdeen Bill Aberdeen Bill Aberdeen.
Por outro lado, os interesses escravistas no Brasil ainda eram bastante
poderosos. Muitos sabiam que o término do tráfico negreiro internacional
condenaria a própria escravidão, uma das bases da economia brasileira desde
os tempos coloniais.
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O governo foi obrigado a agir com habilidade para contornar o problema.
Com o apoio do Congresso, venceu as maiores resistências e aprovou o fim do
tráfico negreiro. Para isso, contou também com dois importantes argumentos: a
defesa da soberania nacional e da ordem interna.
O governo logo percebeu que a situação tornara-se insustentável.
O melhor a fazer era tomar ele mesmo a iniciativa de reprimir com maior rigor
o tráfico internacional. Com isso, procurava preservar a imagem do Brasil preservar a imagem do Brasil preservar a imagem do Brasil preservar a imagem do Brasil preservar a imagem do Brasil
como país independente como país independente como país independente como país independente como país independente. Dava-se a entender, assim, que a medida havia
resultado de uma ação inteiramente nacional, e não da “política do canhão”
da Inglaterra, tão comum naquele século XIX.
A medida teve também, segundo o governo, o objetivo de preservar
a ordem interna e proteger a sociedade. Segundo Ilmar Mattos e Márcia
de A. Gonçalves (O império da boa sociedade, p. 74), a grande expansão
da escravidão, ocorrida na década de 1840, teria sido a origem de alguns
acontecimentos considerados “gravíssimos”, que estavam se passando em
várias regiões do país: as insurreições de escravos.
O que se percebe, nos dois argumentos, é que o governo procurava alertar
a sociedade para uma questão fundamental: o país estava momentanea-
mente perdendo o controle da situação controle da situação controle da situação controle da situação controle da situação, seja em razão das pressões externas,
seja pela ação dos escravos. O fim do tráfico representaria a reafirmação reafirmação reafirmação reafirmação reafirmação
da ordem da ordem da ordem da ordem da ordem.
Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Castro Alves Castro Alves Castro Alves Castro Alves Castro Alves, , , , , Navio negreiro Navio negreiro Navio negreiro Navio negreiro Navio negreiro
A poesia de Castro Alves ilumina um outro lado dessa questão: a tragédia
dos escravos nos tumbeiros, o horror do tráfico negreiro. Tendo como referência
as fortes palavras do poeta, escreva um pequeno texto sobre o tráfico negreiro.
Dctcrminar o ritmo da transição
Vejamos agora qual foi a estratégia dos governos imperiais para enfrentar
aquele novo momento aberto pela Lei Eusébio de Queirós.
O término efetivo do tráfico negreiro não foi o fim do mundo para
a economia brasileira. É bom lembrar que a escravidão africana continuava
a existir, assim como o tráfico interno tráfico interno tráfico interno tráfico interno tráfico interno que, a partir daquele momento, tornou-
se ainda mais importante. A economia nordestina, em crise, supria de A economia nordestina, em crise, supria de A economia nordestina, em crise, supria de A economia nordestina, em crise, supria de A economia nordestina, em crise, supria de
escravos as províncias cafeeiras do Sudeste escravos as províncias cafeeiras do Sudeste escravos as províncias cafeeiras do Sudeste escravos as províncias cafeeiras do Sudeste escravos as províncias cafeeiras do Sudeste.
O eixo econômico do país não sofreu, portanto, grandes abalos. O café
continuava a impulsionar importantes mudanças: melhoramento de portos,
estradas de ferro, novos serviços urbanos.
O governo sabia, no entanto, que o término da escravidão no país era questão
de tempo. Interessado em determinar a forma e o ritmo da transição para a mão-
de-obra livre, tomou a iniciativa de adotar algumas medidas. Uma das mais
importantes foi a Lei de Terras Lei de Terras Lei de Terras Lei de Terras Lei de Terras. Vejamos.
Pausa
17
A U L A
No final da Aula 16, pudemos ver que para Francisco Werneck, um dos
barões do café, barões do café, barões do café, barões do café, barões do café, a utilização da mão-de-obra livre e imigrante trazia um grave
problema: a possibilidade de o imigrante sair da grande fazenda e passar
a trabalhar por conta própria, cultivar sua própria roça. Para enfrentar essa
situação, foi criado um mecanismo legal, que determinava que as terras públicas
passariam a ser vendidas
por um preço suficientemente elevado para afastar posseiros
e imigrantes pobres. Estrangeiros que tivessem passagens financiadas
para vir ao Brasil ficariam proibidos de adquirir terras, antes de três
anos após a chegada.
Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, História do Brasil História do Brasil História do Brasil História do Brasil História do Brasil, , , , , p. 196-197 p. 196-197 p. 196-197 p. 196-197 p. 196-197
Com isso, o trabalhador livre e imigrante era praticamente obrigado
a trabalhar nas grandes fazendas para sobreviver.
Esse estímulo do governo à imigração não significava, no entanto, que seu
objetivo era apressar o fim da escravidão no país. Nada disso. A estratégia
governamental era manter um “olho no futuro”. Daí a modernização das
relações de trabalho, sem perder de vista o presente, ainda marcado pela forte
presença do trabalho escravo. Daí a política de preservar a escravidão,
ou quando muito, partir para uma transição bem lenta transição bem lenta transição bem lenta transição bem lenta transição bem lenta.
Um exemplo dessa estratégia de término gradual da escravidão foi
a aprovação, em 1871, da Lei do Ventre Livre Lei do Ventre Livre Lei do Ventre Livre Lei do Ventre Livre Lei do Ventre Livre.
Após a Guerra do Paraguai (1865-1870), o debate sobre o fim da escravidão
ganhou corpo. Surgiam clubes e associações que defendiam as idéias abolicionistas.
Mais uma vez, antecipando-se às mudanças e ao movimento de parte da
sociedade, o governo imperial, novamente nas mãos dos conservadores, resol-
veu tomar a iniciativa de propor uma medida que tornaria livres os escravos
nascidos no Brasil a partir daquele momento.
Na proposta do governo, o escravo ficaria em poder do proprietário até
a idade de 8 anos, quando seria entregue ao Estado em troca de uma indenização.
Se preferisse, o proprietário poderia utilizar o trabalho do escravo até 21 anos,
quando então o entregaria ao Estado sem nenhuma compensação. Estava pre-
vista, também, a criação de um fundo de emancipação com o objetivo de levantar
recursos para o pagamento das indenizações.
IMPORTAÇÃO DE ESCRAVOS
1845 ......................... 19.453 peças
1846 ......................... 50.325 peças
1847 ......................... 56.172 peças
1848 ......................... 60.000 peças
1849 ......................... 54.000 peças
1850 ......................... 23.000 peças
1851 ......................... 03.278 peças
1852 ......................... 00.700 peças
1853 ......................... 00.00 peças
1856 ......................... 00.512 peças
Fonte: Virgílio Noia Pinto, em Brasil em pers-
pectiva, página 137.
17
A U L A
O projeto governamental foi aprovado no Congresso, apesar da forte
oposição de representantes de setores escravistas, principalmente do Sudeste
cafeeiro. A medida foi duramente criticada por importantes lideranças das áreas
do café. Paulino Soares de Sousa, da elite política da província do Rio de Janeiro,
chegou a apelar ao governo para que não tomasse mais nenhuma nova medida
diante do problema da escravidão. Disse ele:
O que pedimos, não a esse gabinete, mas ao governo do Brasil, é que não
agite sob qualquer pretexto, de novo, tão grave questão, que na ordem
social se entende por paz doméstica, na ordem jurídica, com direito de
propriedade, na ordem econômica com organização do trabalho e com
a riqueza particular e pública.
Citado por Hamilton Monteiro, Citado por Hamilton Monteiro, Citado por Hamilton Monteiro, Citado por Hamilton Monteiro, Citado por Hamilton Monteiro, Brasil Império Brasil Império Brasil Império Brasil Império Brasil Império, p. 68 , p. 68 , p. 68 , p. 68 , p. 68
A Lei do Ventre Livre não desorganizou a produção e nem abalou muito
a nossa “paz doméstica”. Poucos escravos foram entregues ao Estado. A grande
maioria dos proprietários preferiu manter seus escravos até 21 anos. Vários
deles, talvez, estivessem contando que a nova lei fosse apenas uma formalidade,
algo que rapidamente se transformaria em “letra morta”, como muitas leis
na história brasileira.
O governo imperial cumpriu seu papel. Com a medida, dava uma resposta
às pressões externas, especialmente dos países europeus. O Brasil era um dos
últimos países que ainda mantinham a escravidão. Na América, além do Brasil,
apenas Cuba mantinha o trabalho escravo africano. Poucos anos antes, os Estados
Unidos haviam abolido o trabalho escravo, logo após a Guerra de Secessão.
LEI DO VENTRE LIVRE
A Princesa Imperial Regente, em Nome
de Sua Majestade o Imperador o Senhor
D. Pedro II, Faz saber a todos os súditos
do Império que a Assembléia Geral
Decretou e Ela Sancionou a Lei seguinte:
Art. 1º. Os filhos de mulher escrava, que
nascerem no Império desde a data desta
lei, serão considerados de condição livre.
Parágrafo 1º. Os ditos filhos menores
ficarão em poder e sob a autoridade dos
senhores de suas mães, os quais terão
obrigação de criá-los e tratá-los até
a idade de oito anos completos.
28 de setembro de 1871.
17
A U L A
Além de tentar impedir o isolamento externo, o governo pretendia tam-
bém dar uma resposta ao movimento abolicionista. Estava disposto a acabar
com a escravidão, mas a seu modo, isto é, de maneira lenta e gradual. Estudos
da época calculam que a escravidão, se a lei fosse aplicada, terminaria apenas
por volta de 1940. Adiava-se, assim, para um futuro longínquo futuro longínquo futuro longínquo futuro longínquo futuro longínquo a resolução
daquele grave problema.
Nem tudo correu segundo a estratégia governamental. Nas décadas seguin-
tes, o movimento abolicionista ganhou maior consistência. Eram cada vez mais
freqüentes os crimes e fugas de escravos. A expansão do café necessitava de
braços, e a escravidão, em franco declínio, não dava conta de fornecê-los.
O trabalho livre crescia em importância, especialmente nas áreas mais novas do
café na província de São Paulo. A situação se agravou na década de 1880,
e o governo foi praticamente empurrado a terminar com a escravidão em 1888.
Nas próximas aulas, você estudará com mais detalhes o término da escravi-
dão e seu significado para a história brasileira.
Releia a aula e faça um pequeno texto comentando a estratégia do governo
de terminar lentamente com a escravidão. No seu texto, procure se utilizar
da seguinte frase, de um político imperial da década de 1880, que bem resumia
o que o governo estava querendo naquele momento: “Nesse assunto,
nem retroceder, nem parar, nem precipitar”.
Nesta aula, vimos que a segunda metade do século XIX foi uma época
de mudanças no mundo e no Brasil. O fim do tráfico negreiro colocava sérios
desafios para uma economia até então baseada fundamentalmente na mão-de-
obra escrava.
O governo imperial foi obrigado a agir em duas frentes. De um lado,
procurando resolver as questões do presente, ou seja, atuando para manter, por
um tempo relativamente longo, o trabalho escravo. Essa estratégia, expressa em
parte na Lei do Ventre Livre, teve condições de subsistir apenas até meados da
década de 1880, quando foi extinta a escravidão.
Por outro lado, o governo atuava com os “olhos no futuro”. Como tinha
plena consciência de que o trabalho escravo estava condenado a desaparecer
mais cedo ou mais tarde, fazia-se necessário adotar medidas que modernizas-
sem as relações de trabalho no Brasil. A Lei de Terras, impossibilitando que
o imigrante se transformasse em proprietário, poderia garantir um bom fluxo
de mão-de-obra para a grande fazenda de café.
Na próxima aula, acompanharemos uma nova viagem: a dos imigrantes
para o Brasil. Veremos o seu papel no conjunto das mudanças por que passava
a sociedade brasileira naquelas últimas décadas do século XIX.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Releia o item A Lei Eusébio de Queirós A Lei Eusébio de Queirós A Lei Eusébio de Queirós A Lei Eusébio de Queirós A Lei Eusébio de Queirós e explique o significado
do Bill Aberdeen Bill Aberdeen Bill Aberdeen Bill Aberdeen Bill Aberdeen.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Releia o item Determinar o ritmo da transição Determinar o ritmo da transição Determinar o ritmo da transição Determinar o ritmo da transição Determinar o ritmo da transição e identifique as princi-
pais conseqüências do fim do tráfico de escravos no Brasil
UItimas
paIavras
lxcrcícios
Pausa
18
A U L A
Os altos preços atingidos pelo café no merca-
do internacional, a melhoria das vias de comunicação, o aperfeiçoamento dos
meios de transporte, a possibilidade de empregar, cada vez em maior escala,
processos mecanizados para o beneficiamento do café, o fenômeno da urbaniza-
ção característico da segunda metade do século, o crescimento da população,
modificavam as condições econômicas das áreas cafeeiras, criando novas pers-
pectivas para o trabalho livre. (Emília Viotti da Costa, Da senzala à colônia, p. 188).
Muitas vezes, um pequeno texto diz muita coisa. É o caso do texto acima.
Ele nos servirá de roteiro para a aula de hoje. Seguiremos a sua ordenação.
Inicialmente, veremos a modernização da economia cafeeira. Depois, estu-
daremos o que a autora denominou “fenômeno da urbanização”, e que também
podemos chamar de expansão urbana. Finalmente, veremos aspectos importan-
tes da introdução do trabalho livre e imigrante na economia brasileira, particu-
larmente na grande lavoura cafeeira.
A nova onda vcrdc cm tcrras pauIistas
A onda verde nasceu humilde nas terras fluminenses. Tomou vulto,
desbordou para São Paulo (...). Aí começa o mestre Café a perceber
que estava em casa (...). A região era toda um mataréu virgem
de majestosa beleza.
Trecho de Trecho de Trecho de Trecho de Trecho de A onda verde A onda verde A onda verde A onda verde A onda verde, de Monteiro Lobato, citado por Ana Luiza Martins, , de Monteiro Lobato, citado por Ana Luiza Martins, , de Monteiro Lobato, citado por Ana Luiza Martins, , de Monteiro Lobato, citado por Ana Luiza Martins, , de Monteiro Lobato, citado por Ana Luiza Martins,
O império do café O império do café O império do café O império do café O império do café, p. 36 , p. 36 , p. 36 , p. 36 , p. 36
As palavras do escritor Monteiro Lobato relatam um pouco da marcha
do café em direção ao oeste paulista. Ali, naquela grande região, o café encontrou
condições ótimas para se desenvolver: bom clima, excelente solo, terras
em abundância. O café encontrava-se realmente em casa.
Agora, na segunda metade do século XIX, a produção cafeeira concentrava-
se em duas grandes regiões: no vale do Paraíba e no oeste paulista.
A primeira das regiões citadas manteve-se como principal área de produção
cafeeira até as últimas décadas do século. A partir daí, o vale do Paraíba esbarrou
em seus próprios limites. A grande maioria dos produtores rurais não apostou
na modernização da produção. As tentativas de criação de colônias de imigran-
tes não vingaram na província fluminense.
Modcrnização
c imigração
Abcrtura
18
A U L A
MÓDULO 6
Movimcnto
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A U L A
Muitos ainda desconfiavam das possibilidades da utilização da mão-de-
obra livre e imigrante. Lacerda Werneck, filho de Francisco Werneck, seguindo
os passos do pai, afirmava em 1855:
Força é confessar que a grande cultura só pode ser sustentada pelos
agricultores que possuíam escravos em número suficiente para o custeio
das suas fazendas. Tempo virá por certo em que a produção, fazendo
crescer a população livre, autorize a abolição da escravidão, mas atual-
mente, sem pessoal livre no país, os instintos de nossa conservação
nacional nos aconselham por certo o incremento da população escrava.
Citado por Emília Viotti da Costa, Citado por Emília Viotti da Costa, Citado por Emília Viotti da Costa, Citado por Emília Viotti da Costa, Citado por Emília Viotti da Costa, Da senzala à colônia, Da senzala à colônia, Da senzala à colônia, Da senzala à colônia, Da senzala à colônia, p. 129-130 p. 129-130 p. 129-130 p. 129-130 p. 129-130
Eram palavras que confiavam na permanência do trabalho escravo. Não foi,
portanto, a carência de mão-de-obra que abalou o dinamismo do vale do Paraíba.
Para vários autores, o problema central era a disponibilidade de terras.
Como o café era uma cultura extensiva, necessitava de uma “fronteira aberta”.
A partir de um determinado momento, isso não foi mais possível.
(...) o vale do Paraíba tinha limites geográficos claros e não havia muito
por onde avançar. Como resultado, as terras cansadas, atingidas pela
erosão, tornaram-se de baixa rentabilidade e seu valor declinou.
Às vésperas da abolição da escravatura, o grande investimento dos
fazendeiros da região era constituído de escravos, fato que por si só
demonstra o impacto aí causado pela chamada Lei Áurea.
Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, História do Brasil História do Brasil História do Brasil História do Brasil História do Brasil, ,, ,, p. 201 p. 201 p. 201 p. 201 p. 201
Já a situação do oeste paulista era bastante diferente. Como vimos, a região
contava com um “matagal virgem” à sua frente. A produção extensiva pôde
encontrar ali seu livre curso.
O trabalho escravo também estava presente.
Mas a “falta de braços” era um problema que, aos
poucos, se tornava mais visível. Daí a necessidade de
um maior investimento em tecnologia. O trabalho
livre e imigrante também passava a ser visto,
por vários produtores, de forma mais positiva.
Na década de 1880, boa parte dos fazendeiros
do oeste paulista investia em máquinas. Em muitas
fazendas,
o café era transportado para a casa de máqui-
nas, pilado, descorticado, escolhido, brunido
e ensacado e pesado, tudo mecanicamente.
Emília Viotti da Costa, Emília Viotti da Costa, Emília Viotti da Costa, Emília Viotti da Costa, Emília Viotti da Costa, Da senzala à colônia Da senzala à colônia Da senzala à colônia Da senzala à colônia Da senzala à colônia, , , , , p. 187 p. 187 p. 187 p. 187 p. 187
A grande melhoria dos transportes, com a cria-
ção das estradas de ferro, foi outro importante fator
de modernização da economia cafeeira. A Estrada
de Ferro D. Pedro II tornou-se fundamental para
o escoamento da produção do vale do Paraíba;
já a Estrada de Ferro SantosJundiaí foi a primeira
da importante ferrovia que passou a ligar o oeste
paulista ao litoral.
Terreiro para
a secagem de café.
18
A U L A
Os capitais advindos do café impulsionariam também atividades urbanas.
É o que veremos a seguir.
No final do século XIX, o vale do Paraíba e o oeste paulista apresentavam
grandes diferenças econômicas e sociais. Alguns historiadores, ao analisar essas
diferenças, passaram a tratar a primeira região como sinônimo do atraso,
e a segunda como lugar do progresso.
Mais recentemente, essa interpretação vem sendo questionada. Boris Fausto
afirma:
Seria ilusório pensar que os grupos sociais do vale do Paraíba e do oeste
paulista fossem inteiramente diversos, um representando o “velho”,
a aristocracia decadente, e o outro o “novo”, a burguesia empreendedo-
ra. Até porque membros da família do vale (...) abriram fazendas nas
áreas novas.(...)
Na realidade, os dois grupos partiram de pressupostos comuns
e se diversificaram em função de realidades diferentes do meio físico
e social. Ambos praticaram a agricultura extensiva e utilizaram ampla-
mente a mão-de-obra escrava. Os fazendeiros paulistas não se voltaram
para o imigrante porque acreditavam nas virtudes ou na maior rentabi-
lidade do trabalho livre, mas porque a alternativa do escravo desaparecia
e era preciso dar uma resposta para o problema.
Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, História do Brasil, História do Brasil, História do Brasil, História do Brasil, História do Brasil, p. 203 p. 203 p. 203 p. 203 p. 203
Vida urbana
A expansão cafeeira produziu riquezas e cidades. Na Aula 16, vimos que
a marcha do café na província fluminense favoreceu a criação e o desenvolvi-
mento de vários núcleos urbanos (Vassouras, Resende, Cantagalo). Na provín-
cia de São Paulo, o fenômeno se repetiu. Entre as décadas de 1850 e 1880,
formaram-se cidades como Ribeirão Preto, Barretos, São José do Rio Preto
e muitas outras.
A cidade de Santos transformou-se em grande porto exportador de café.
A capital, São Paulo, crescia, no final do século, a taxas impressionantes.
A grande arrancada se deu entre 1890 e 1900, período em que
a população paulistana passou de 64.934 para 239.820 habitantes,
registrando uma elevação de 268% em 10 anos (...). Em 1890, São Paulo
era a quinta cidade brasileira, abaixo do Rio de Janeiro, Salvador, Recife
e Belém. No início do século chegaria ao segundo lugar, embora ainda
muito distante dos 688 mil habitantes da capital da República.
Em comparação com o Rio de Janeiro, São Paulo continuava a ser apenas
a capital de uma grande província.
Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, História do Brasil História do Brasil História do Brasil História do Brasil História do Brasil, p. 286 , p. 286 , p. 286 , p. 286 , p. 286
A cidade do Rio de Janeiro, a capital do Império, foi a que mais se modificou
naquela segunda metade do século XIX. No centro da cidade, foram introduzi-
dos importantes melhoramentos urbanos (calçamento, limpeza das ruas, ilumi-
nação a gás e esgotos sanitários).
lm tcmpo
Fábricas,
transportes
coletivos e reformas
urbanas eram sinais
da grande
modificação pela
qual o Brasil
passava.
18
A U L A
Em grande parte, esses serviços eram criados e mantidos por empresas de
capital externo. As grandes casas comerciais, os consulados, os bancos e com-
panhias de navegação localizavam-se, em geral, nessas áreas mais beneficiadas.
No centro, viviam também as populações mais pobres.
Estas, sem nenhum poder de mobilidade, dependiam de uma loca-
lização central, ou periférica ao centro, para sobreviver. Com efeito,
para muitos, livres ou escravos, a procura do trabalho era diária,
e este apenas era encontrado na área central.
Maurício de Almeida Abreu, Maurício de Almeida Abreu, Maurício de Almeida Abreu, Maurício de Almeida Abreu, Maurício de Almeida Abreu, Evolução urbana do Rio de Janeiro, Evolução urbana do Rio de Janeiro, Evolução urbana do Rio de Janeiro, Evolução urbana do Rio de Janeiro, Evolução urbana do Rio de Janeiro, p. 42 p. 42 p. 42 p. 42 p. 42
Com a adoção de novos meios de transporte (como trens e bondes) nas
décadas de 1860 e 1870, essa situação foi, em parte, modificada.
Um dos responsáveis pela melhoria dos serviços na cidade do Rio de Janeiro
foi Irineu Evangelista de Sousa, o barão de Mauá. Vale a pena conhecer um pouco
a trajetória deste que foi um dos primeiros empresários brasileiros.
Nascido no Rio Grande do Sul, em família de poucos recursos, empregou-se
ainda jovem em estabelecimentos comerciais. Logo tornou-se sócio de uma firma
inglesa chamada Carruthers & Cia. Aos 33 anos, em 1846, criou a fundição
de Ponta d’Areia, no Rio de Janeiro, a qual, com apenas um ano de funciona-
mento já havia produzido
(...) tubos para encanamento d’água, caldeiras para máquinas a vapor,
(...) guindastes, prensas (...) e outra coisas mais, além de 72 navios.
Heitor Ferreira Lima, Heitor Ferreira Lima, Heitor Ferreira Lima, Heitor Ferreira Lima, Heitor Ferreira Lima, Mauá e Roberto Simonsen Mauá e Roberto Simonsen Mauá e Roberto Simonsen Mauá e Roberto Simonsen Mauá e Roberto Simonsen, p. 17 , p. 17 , p. 17 , p. 17 , p. 17
Mauá também foi responsável pelo incremento dos serviços de gás e de
bondes na cidade do Rio de Janeiro. Criou ainda bancos, empresas de navegação
e estradas de ferro. Seus empreendimentos, no entanto, não tiveram vida muito
longa. Não resistiram à falta de apoio governamental e à concorrência externa.
NÚMERO DE PATENTES
INDUSTRIAIS EXPEDIDAS
Até 1850...... 015
18511855 .... 040
18561860 .... 027
18611865 .... 041
18661870 .... 053
18711875 .... 061
18761880 .... 194
18811889 .... 955
LINHAS TELEGRÁFICAS
1864 ..... 00.187 km
1875 ..... 06.285 km
1889 ..... 18.925 km
* lonto dos quadros: Caríos Cuìíhormo Mota, om *H=IE A FAHIFA?JEL=, São Pauío, Dìloí, l968.
Os quadros*
revelam os
números da
modernização
do país, nessa
época.
Estação da Estrada de Ferro d. Pedro II
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De qualquer forma, o país se modernizava. O fim do tráfico negreiro
internacional havia liberado muitos capitais que puderam ser investidos em
outras atividades, inclusive industriais. Apenas nas décadas de 1850 e 1860,
foram fundadas
62 empresas industriais, 14 bancos, três caixas econômicas, 20 compa-
nhias de navegação a vapor, 23 companhias de seguros, 8 estradas de
ferro, além de uma empresa de mineração, transporte urbano, gás e etc.
Antônio Mendes Jr. e outros, Antônio Mendes Jr. e outros, Antônio Mendes Jr. e outros, Antônio Mendes Jr. e outros, Antônio Mendes Jr. e outros, Brasil História Brasil História Brasil História Brasil História Brasil História Império Império Império Império Império, , , , , p. 294 p. 294 p. 294 p. 294 p. 294
Na capital do Império, os hábitos também se modificavam. Os grandes
fazendeiros mudavam-se para a cidade do Rio de Janeiro para aproveitar melhor
a vida. Eram construídos hotéis, teatros, jardins e cafés. Surgiam novos jornais.
A rua do Ouvidor tornara-se o ponto nobre da cidade.
Escreva um pequeno texto comentando a modernização econômica brasilei-
ra ocorrida na segunda metade do século XIX.
lmigrantcs no ßrasiI
A segunda metade do século XIX marcaria também o início de uma política
mais agressiva de estímulo à imigração européia para o Brasil. Essa política teve
duas vertentes: uma voltada para a ocupação de áreas estratégicas ou pouco
povoadas; e outra orientada fundamentalmente para as grandes fazendas de café.
Naquela época, iniciava-se a maior migração dos povos até então já ocorrida
na História. Apenas entre 1846 e 1875,
(...) uma quantidade bem superior a 9 milhões de europeus deixou
a Europa, e a grande maioria seguiu para os Estados Unidos.
Isto equivalia a mais de quatro vezes a população de Londres em 1851.
No meio século precedente tal movimentação não deve ter sido superior
a um milhão e meio de pessoas no todo.
Eric J. Hobsbawm, Eric J. Hobsbawm, Eric J. Hobsbawm, Eric J. Hobsbawm, Eric J. Hobsbawm, A era do capital A era do capital A era do capital A era do capital A era do capital, p. 207 , p. 207 , p. 207 , p. 207 , p. 207
Os europeus emigravam fundamentalmente por razões econômicas.
Naquela Europa em transformação, faltavam empregos e havia enormes dificul-
dades de acesso à terra. Quem sabe em outro lugar América, Austrália não
seria possível viver com dignidade?
A criação de colônias de imigrantes europeus em território brasileiro era um
projeto que remontava aos tempos de d. João VI. Em 1818, foi fundada,
na província do Rio de Janeiro, a colônia suíça de Nova Friburgo. Os colonos
receberam terras para abastecer a Corte. Mas o isolamento e a falta de maiores
estímulos prejudicaram o desenvolvimento da colônia. Vários colonos foram
obrigados a buscar terras melhores em outras localidades.
A política de colonização ganhou maior impulso na região Sul do país.
Em 1824, fundou-se a colônia de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul.
Lá, imigrantes alemães inauguraram um tipo de colonização que se baseava
no trabalho familiar e na policultura. São Leopoldo serviria de modelo para
Pausa
18
A U L A
a criação de diversos outros empreendimentos alemães na serra gaúcha, confor-
me Maria Tereza Petrone (O imigrante e a pequena propriedade, p. 27). Mais
tarde, a colonização italiana ganhou impulso na região de Campos
dos Bugres, que daria origem à importante cidade gaúcha de Caxias do Sul.
A formação de colônias em terras gaúchas e catarinenses tinha por principal
objetivo promover a ocupação de regiões pouco povoadas e consideradas
estratégicas para a integração e a segurança do território brasileiro.
Já no Sudeste cafeeiro, a colonização imigrante esbarrou em alguns proble-
mas: apesar do interesse dos governos provinciais, tanto em Minas Gerais
como no Rio de Janeiro, o grande número de escravos africanos supria as
maiores necessidades da lavoura.
O trabalho imigrante seria mais valorizado em São Paulo, especialmente
nas áreas mais novas do café, onde a “falta de braços” tornara-se um grave
problema. Mas, mesmo em São Paulo, a substituição do escravo pelo homem
livre não foi muito fácil. O fracasso da experiência do sistema de parceria,
adotado no final da década de 1840, desmoralizou os esforços dos defensores das
colônias de imigrantes.
As colônias de parceria foram estabelecidas em São Paulo nas décadas de
1840 e 1850. Em tese, o lucro líquido da venda do café seria igualmente dividido
entre o fazendeiro e o colono. Na prática, porém, não foi isso que ocorreu.
O colono era onerado com várias despesas, a principal das quais era
o pagamento do transporte e gastos de viagem dele e de toda a sua
família, além da sua manutenção até os primeiros resultados
do seu trabalho (...). Quando não estava satisfeito com um patrão,
querendo mudar de fazenda, só podia fazê-lo procurando “para si um
novo comparador e proprietário”, isto é, alguém que saldasse seus
débitos para com o fazendeiro.
José de Souza Martins, José de Souza Martins, José de Souza Martins, José de Souza Martins, José de Souza Martins, O cativeiro da terra O cativeiro da terra O cativeiro da terra O cativeiro da terra O cativeiro da terra, p. 63 , p. 63 , p. 63 , p. 63 , p. 63
Na década de 1870, a situação se modificou. O governo provincial de
São Paulo passou a arcar com os custos da mão-de-obra imigrante. Iniciava-se
a imigração subsidiada imigração subsidiada imigração subsidiada imigração subsidiada imigração subsidiada. Até mesmo hospedarias foram criadas para receber
os imigrantes.
A Hospedaria de Imigrantes do Brás, completada em 1888, (...)
foi edificada por iniciativa do presidente da província, Antônio
de Queirós Teles. O prédio até hoje existente tinha capacidade para
abrigar cerca de 4 mil pessoas.
Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, História do Brasil, História do Brasil, História do Brasil, História do Brasil, História do Brasil, p. 206 p. 206 p. 206 p. 206 p. 206
A partir daí, a imigração cresceria rapidamente. Melhores condições
de trabalho passaram a ser oferecidas aos imigrantes.
Começou a generalização de um regime misto, pelo qual o imigrante
recebia casa, pasto e um hectare de terra para plantar o necessário ao seu
sustento, e mais 50$000 por ano, para tratar de mil pés de café (...).
Com esse sistema de remuneração e as novas possibilidades oferecidas
pela imigração, o fazendeiro de café encontrou a maneira de substituir
vantajosamente o escravo pelo trabalhador livre.
Emília Viotti da Costa, Emília Viotti da Costa, Emília Viotti da Costa, Emília Viotti da Costa, Emília Viotti da Costa, Da senzala à colônia Da senzala à colônia Da senzala à colônia Da senzala à colônia Da senzala à colônia, , , , , p. 196-197 p. 196-197 p. 196-197 p. 196-197 p. 196-197
lm tcmpo
18
A U L A
Todo esse longo processo de subs-
tituição da mão-de-obra escrava pela
livre foi acompanhado de uma enor-
me discussão entre as elites brasilei-
ras. Para alguns, a escravidão africana
era um mal necessário mal necessário mal necessário mal necessário mal necessário. Para outros,
apenas o imigrante poderia “melho-
rar nossa população”, “aprimorar
nossa raça”.
Era a defesa da tese do bran bran bran bran branquea quea quea quea quea- -- --
mento mento mento mento mento, só possível com a vinda do
“sangue europeu”. Muito poucos de-
fendiam o trabalhador livre nacional.
Para a grande maioria, o homem livre brasileiro era “dominado pela
preguiça, pela aversão ao trabalho”. A força dessas idéias racistas, tão comuns
naquele final de século XIX, certamente foi também um dos fatores que
estimularam a vinda de imigrantes europeus para o Brasil.
Estas ilustrações mostram
escravos e imigrantes que,
no final do século XIX,
constituíam a mescla de
mão-de-obra para a agricultura
brasileira. Aos poucos,
a imigração se transformou na
principal fonte de trabalhadores
para nossas lavouras.
18
A U L A
Releia a aula e escreva um pequeno texto estabelecendo relações entre
a modernização da economia brasileira e o avanço do trabalho livre e imigrante
no Brasil.
Esta aula tratou de alguns aspectos importantes da modernização
da economia e da sociedade brasileiras na segunda metade do século XIX.
O país, ou pelo menos o Centro-Sul, mudara sua face.
Nas próximas aulas, estudaremos a crise da ordem monárquica e o estabe-
lecimento da República. Acompanharemos os últimos momentos do Império
do Brasil. Não perca.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Releia o item A nova onda verde em terras paulistas A nova onda verde em terras paulistas A nova onda verde em terras paulistas A nova onda verde em terras paulistas A nova onda verde em terras paulistas e identifique os
principais fatores responsáveis pela modernização da economia cafeeira
no oeste paulista.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Releia o item Imigrantes no Brasil Imigrantes no Brasil Imigrantes no Brasil Imigrantes no Brasil Imigrantes no Brasil e caracterize as duas vertentes da
política governamental de estímulos à imigração européia para o Brasil.
Pausa
UItimas
paIavras
lxcrcícios
19
) 7 )
MúduIo 7
Anos dc ruptura
c inccrtcza
Em seu livro História do Brasil (p. 245), Boris Fausto afirma: Como episódio,
a passagem do Império para a República foi quase um passeio. Em compensação,
os anos posteriores ao 15 de novembro se caracterizaram por uma grande
incerteza.
Alguém já disse que é muito mais fácil destruir do que construir. Esse
alguém está coberto de razão, você não concorda? Neste módulo, estudaremos
dois momentos da história brasileira: a derrubada do Estado Imperial um
“passeio” das forças vencedoras, nas palavras de Boris Fausto e o início
da construção da ordem republicana, marcada por “incertezas” de toda a sorte.
Por que o Império brasileiro, lenta e duramente construído, caiu
sem maiores resistências? E por que a República brasileira demorou a encontrar
seu rumo?
Essas questões serão desenvolvidas aqui. Vamos acompanhá-las.
19
A U L A
Conta-se que, no dia 13 de maio de 1888,
quando o chefe do gabinete de ministros, o barão de Cotegipe, se aproximou
para beijar a mão da princesa Isabel, ela lhe perguntou:
Então, sr. barão, ganhei ou não ganhei a partida?
Ele respondeu:
Ganhou a partida, mas perdeu o trono.
Se esse diálogo entre o barão e a princesa de fato existiu, ninguém sabe.
O fato é que o barão estava com a razão. Um ano e meio depois da Lei Áurea,
a 15 de novembro de 1889, foi proclamada a República no Brasil.
Mas a monarquia brasileira não caiu apenas por causa da abolição
da escravatura. Outros acontecimentos favoreceram a substituição do regime
monárquico pelo republicano.
Nesta aula discutiremos como, a partir de 1870, surgiram as condições
de declínio do Império.
A aboIição scm indcnização
Você viu, nas Aulas 17 e 18, que a questão da mão-de-obra preocupava
bastante a elite política e econômica do Brasil. Em 1850, pressionado pelo
governo inglês, o governo imperial decretara o fim da entrada de novos escravos
africanos no país. Com a Lei do Ventre Livre, em 1871, o Império indicava que
pretendia acabar com a escravidão, mas de maneira muito lenta e gradual.
A estratégia era empurrar, para o mais tarde possível, o fim dessa instituição
que já durava mais de três séculos. Mas isso não foi possível: a partir de 1880,
a pressão pelo fim da escravidão cresceu sem parar.
Crescia também, sem parar, a preocupação dos senhores de escravos.
Ficariam sem trabalhadores? Perderiam o capital investido na compra dos
escravos?
Anos dc ruptura
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A U L A
MÓDULO 7
Abcrtura
Movimcnto
19
A U L A
Sobre a futura abolição do trabalho escravo no Brasil, veja o que disse o barão
de Cotegipe:
Eu estou convencido de que o Brasil não há de morrer por falta
de escravidão, mas não posso deixar de ter na maior consideração
as dificuldades desta liquidação que a política aconselha que se faça
com o menor prejuízo das fortunas adquiridas em boa fé (...). Eu me
refiro às grandes desgraças no sul dos Estados Unidos. Se aquela grande
nação pôde resistir à extinção brusca e violenta do elemento servil
é porque a parte importante do Norte não dependia do trabalho escravo;
mas as desgraças que pesam sobre o Sul são tantas e tamanhas que
em meio século talvez não possam ser reparadas.
Citado por Luiz Koshiba e Denise M. F. Pereira Citado por Luiz Koshiba e Denise M. F. Pereira Citado por Luiz Koshiba e Denise M. F. Pereira Citado por Luiz Koshiba e Denise M. F. Pereira Citado por Luiz Koshiba e Denise M. F. Pereira, , , , , História do Brasil História do Brasil História do Brasil História do Brasil História do Brasil, ,, ,, p. 238-239 p. 238-239 p. 238-239 p. 238-239 p. 238-239
O exemplo norte-americano era constantemente lembrado pelos brasileiros.
Nos Estados Unidos, o trabalho escravo existia apenas nos estados do Sul,
e era usado principalmente nas grandes plantações de fumo e algodão.
No Norte, industrial, não havia escravidão. Em 1860, tomou posse o presidente
Abraham Lincoln, defensor do abolicionismo. Os Estados do Sul resolveram
romper com os “Estados Unidos” e formaram a Confederação do Sul Confederação do Sul Confederação do Sul Confederação do Sul Confederação do Sul. Numa
violenta guerra civil, a chamada Guerra de Secessão Guerra de Secessão Guerra de Secessão Guerra de Secessão Guerra de Secessão, enfrentaram-se
os nortistas da União e os sulistas da Confederação. Após quatro anos de guerra,
o Norte venceu, e a escravidão acabou nos Estados Unidos.
lm tcmpo
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A U L A
Havia o perigo de acontecer o mesmo no Brasil? Pense um pouco... No Brasil,
a escravidão estava em todo lugar. Onde quer que se andasse, permanecia-se
em uma sociedade escravista. Além do mais, o uso do trabalho escravo era
generalizado, não existia apenas nas grandes lavouras. Até mesmo pessoas
de pequenas posses possuíam um ou dois escravos. Era comum, principal-
mente nas cidades, colocar-se escravos e escravas “no ganho”, ou seja, alugá-los
como carpinteiros, pedreiros, cozinheiras, prostitutas... Também era comum
que ex-escravos, libertos, comprassem escravos. Ter escravo, no Brasil, não dava
só poder econômico: representava também prestígio social prestígio social prestígio social prestígio social prestígio social.
Já deu para perceber que a escravidão norte-americana foi bastante diferente
da brasileira. Escreva um pequeno texto, alinhando as principais diferenças que
marcaram as duas sociedades escravistas. Explique por que, no Brasil, a escravi-
dão não terminou da mesma maneira que nos Estados Unidos.
A partir de 1880, o movimento abolicionista movimento abolicionista movimento abolicionista movimento abolicionista movimento abolicionista se intensificou. O objetivo
era conseguir apoio para acabar com a “mancha negra”. Os advogados não
defenderiam os senhores de escravos; os militares não perseguiriam os escra-
vos fugidos. Gente de condição social diversa participou do movimento:
de Joaquim Nabuco, parlamentar pertencente a uma família de grandes
proprietários rurais de Pernambuco, até pessoas negras ou mestiças,
de origem pobre, como José do Patrocínio, André Rebouças e Luís Gama.
Os abolicionistas fundaram clubes, jornais e associações, como a Sociedade
Brasileira contra a Escravidão, o Clube Abolicionista dos Empregados do
Comércio e a Sociedade Libertadora da Escola de Medicina.
Um grupo de grande importância que se formou na época, em São Paulo,
foi o dos Caifazes. Liderados pelo advogado Antônio Bento, o grupo organizava
fugas e sublevações de escravos nas fazendas. (Francisco Alencar, Lúcia Carpi
e Marcus Venício Ribeiro, História da sociedade brasileira, p.166)
O sentimento geral era o de que a escravidão não tardaria a ser extinta.
Em 1880, havia um milhão e duzentos mil escravos; oito anos depois, esse
número caíra para cerca de 750 mil. Ao mesmo tempo, crescia a quantidade de
imigrantes que vinham para o Brasil: só em 1888, entraram cerca de 130 mil,
principalmente italianos.
Duas eram as preocupações dos senhores de escravos. Em primeiro lugar,
como obrigar os ex-escravos a continuar trabalhando? Para a maior parte deles,
liberdade era sinônimo de não trabalhar. Como transformá-los, então,
em trabalhadores disciplinados e ordeiros?
Um outro ponto era o da indenização pela perda da “propriedade”.
Os donos de escravos haviam investido capital na compra dos escravos,
e achavam-se no direito de ser indenizados pelo Império. Apesar das pressões,
a abolição foi feita sem nenhuma indenização.
Você acha que os proprietários de escravos, sentindo-se prejudicados,
continuariam a apoiar o Império?
Pausa
lm tcmpo
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A Gucrra do Paraguai c o braço fortc dos miIitarcs
Apesar da vitória brasileira, a Guerra do Paraguai Guerra do Paraguai Guerra do Paraguai Guerra do Paraguai Guerra do Paraguai foi outro acontecimento
que enfraqueceu o Império. Vejamos por quê.
Você viu, na Aula 15, como eram difíceis as relações do Brasil com
os vizinhos do Prata. Com o Paraguai, o Brasil sustentou uma longa e terrível
guerra de seis anos.
Com um país sem saída para o mar, bloqueado pelo Brasil e pela Argentina,
o presidente paraguaio, Francisco Solano López, ordenou a invasão do Mato
Grosso, no Brasil, e das províncias de Entre-Rios e Corrientes, na Argentina.
O Exército paraguaio estava
bem treinado e bem armado, e le-
vou de roldão o desorganizado
Exército brasileiro. Sentindo-se
ameaçados pelo expansionismo
do Paraguai, a Argentina e o Uru-
guai resolveram formar com o Bra-
sil a Tríplice Aliança Tríplice Aliança Tríplice Aliança Tríplice Aliança Tríplice Aliança.
O então marquês de Caxias
assumiu o comando das forças
aliadas, reorganizou-as e obteve
a vitória de Humaitá, em 1867.
A partir daí, o Exército paraguaio
foi perdendo terreno. Em 1869,
a capital paraguaia, Assunção, foi
invadida e ocupada. No ano se-
guinte, o próprio Solano López
morreu nos combates.
A ilustração acima retrata
a batalha do Riachuelo,
na Guerra do Paraguai.
O mapa mostra o território
pretendido pelo Paraguai.
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A U L A
Veja algumas das amargas lembranças de Dionísio Cerqueira, ex-combaten-
te brasileiro na Guerra do Paraguai:
Perdemos cem mil dos nossos melhores irmãos, heróis ignorados;
e quase consumamos o extermínio de um povo valoroso que soube
defender heroicamente o solo sagrado de sua pátria. Antes da guerra,
o Paraguai tinha um milhão e trezentos mil habitantes; depois dela não
iam muito além de duzentos mil! Mais de um milhão pereceram nessa
campanha duríssima.
Citado por Elza Nadai e Joana Neves Citado por Elza Nadai e Joana Neves Citado por Elza Nadai e Joana Neves Citado por Elza Nadai e Joana Neves Citado por Elza Nadai e Joana Neves, , , , , História do Brasil História do Brasil História do Brasil História do Brasil História do Brasil, ,, ,, p. 163 p. 163 p. 163 p. 163 p. 163
A Guerra do Paraguai fortaleceu o sentimento nacionalista dos brasileiros,
em especial dos militares. Encarregado da defesa do Império “civilizado” contra
o “bárbaro” Paraguai, o Exército brasileiro começou a exigir uma participação
mais ativa na política.
Os políticos do Império, no entanto, não viam com bons olhos o crescimento
da influência militar. Tinham medo de que os generais brasileiros, a exemplo do
que acontecia na América Espanhola, viessem a se tornar caudilhos e ameaças-
sem a estabilidade do Império, tão duramente alcançada.
Pouco a pouco, uma parte da oficialidade brasileira foi aderindo à República.
Era influenciada pelas idéias novas que entraram no país a partir de 1870.
Ordem e progresso Ordem e progresso Ordem e progresso Ordem e progresso Ordem e progresso eram as palavras de ordem da filosofia positivista filosofia positivista filosofia positivista filosofia positivista filosofia positivista.
Benjamin Constant, tenente-coronel e professor da Escola Militar, foi um
dos principais propagandistas dessas idéias no Exército. Em suas pregações
aos cadetes, Constant defendia a necessidade de uma República militar
e autoritária para que houvesse progresso no país.
Considerando-se verdadeiros patriotas, os militares chamavam os políticos
civis de “casacas”. Escreva um pequeno texto apontando os principais motivos
que levaram o Exército a deixar de apoiar o Império.
Contra o ccntraIismo impcriaI
Você deve estar pensando: quanta gente importante insatisfeita com
o governo imperial! Espere um pouco, porque ainda tem mais...
As idéias republicanas entraram também nas faculdades, e muitos
intelectuais passaram a fazer propaganda das vantagens do regime republi-
cano em comparação ao monárquico. Em 1870, foi organizado, na cidade do
Rio de Janeiro, o Partido Republicano Partido Republicano Partido Republicano Partido Republicano Partido Republicano que, em dezembro, lançou o Mani Mani Mani Mani Mani- -- --
festo Republicano festo Republicano festo Republicano festo Republicano festo Republicano. Veja alguns trechos desse manifesto:
Neste país, que se presume constitucional, acontece por defeito do
sistema que só há um poder ativo, onipotente, perpétuo, superior à lei
e à opinião, e é esse justamente o poder sagrado, inviolável e irrespon-
sável (...). A própria guerra exterior que tivemos de manter por espaço
de seis anos deixou ver (...) o quanto é impotente e desastroso o regime
da centralização para salvaguardar a honra e a integridade nacional.
A autonomia das províncias é para nós (...) um princípio cardeal
e solene que inscrevemos em nossa bandeira (...). Somos da América
e queremos ser americanos.
Citado por Luiz Koshiba e Denise M. F. Pereira, Citado por Luiz Koshiba e Denise M. F. Pereira, Citado por Luiz Koshiba e Denise M. F. Pereira, Citado por Luiz Koshiba e Denise M. F. Pereira, Citado por Luiz Koshiba e Denise M. F. Pereira, História do Brasil História do Brasil História do Brasil História do Brasil História do Brasil, p. 239 , p. 239 , p. 239 , p. 239 , p. 239
lm tcmpo
Pausa
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Havia muita reclamação das províncias, principalmente de São Paulo São Paulo São Paulo São Paulo São Paulo,
em relação à centralização imperial. Embora fosse a área economicamente mais
ativa, graças ao café, São Paulo tinha menos expressão política que o Nordeste.
Essa centralização conservadora, que garantira a unidade e a estabilidade
do Império, agora não era mais necessária. São Paulo queria autonomia para
administrar seus negócios, sem tanta interferência da Corte. Por isso, os fazen-
deiros de café do oeste paulista apoiaram, em 1873, a fundação do Partido
Republicano Paulista.
República, para os paulistas, era sinônimo de federação federação federação federação federação. Nas repúblicas
federativas, os Estados têm autonomia. Autonomia significaria o controle, pelos
Estados, das forças militares, da cobrança dos impostos, da importação de
imigrantes. Isso era tudo o que São Paulo queria.
“Somos da América e queremos ser americanos.” Qual a intenção
dos redatores do Manifesto Republicano ao fazer essa afirmação?
Se o Império passou a representar o atraso, a República era a esperança de
progresso. Ainda mais que a perspectiva de um Terceiro Reinado não animava
ninguém. Imagine o desânimo com o governo da princesa Isabel, casada com
um conde francês bastante antipatizado pela população do Rio de Janeiro.
O governo imperial ainda tentou estabelecer uma série de reformas, por
meio do ministério liberal comandado pelo visconde de Ouro Preto. Mas, nada
feito. No dia 11 de novembro de 1889, civis e militares reuniram-se com o
marechal Deodoro da Fonseca, figura de prestígio no Exército, para convencê-
lo a liderar o movimento de derrubada do regime.
Conservador, amigo de Pedro II, Deodoro resistia à idéia de pôr fim
à monarquia. Para ele, o problema era apenas de ordem militar. Mas, diante de
boatos sobre a reação agressiva do visconde de Ouro Preto, que teria mandado
prendê-lo, Deodoro marchou para o Ministério da Guerra, à frente da tropa,
na manhã de 15 de novembro. No dia seguinte, a queda do império estava
consumada. Dias mais tarde, a família real partia para o exílio na Europa.
Derrubada a monarquia, grandes desafios esperavam os republicanos
vencedores. O principal deles era construir uma nação republicana. Vários eram
os projetos; diferentes eram as propostas. O que fazer? Veja na próxima aula.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Releia o item A abolição sem indenização A abolição sem indenização A abolição sem indenização A abolição sem indenização A abolição sem indenização e enumere as principais diferen-
ças entre as duas sociedades escravistas, a norte-americana e a brasileira.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Releia o item A Guerra do Paraguai e o braço forte dos militares A Guerra do Paraguai e o braço forte dos militares A Guerra do Paraguai e o braço forte dos militares A Guerra do Paraguai e o braço forte dos militares A Guerra do Paraguai e o braço forte dos militares e cite
os principais motivos que levaram parte do Exército a deixar de apoiar
o Império.
Exercício 3 Exercício 3 Exercício 3 Exercício 3 Exercício 3
Releia o item Contra o centralismo imperial Contra o centralismo imperial Contra o centralismo imperial Contra o centralismo imperial Contra o centralismo imperial e explique por que,
para os paulistas, república queria dizer federação.
lxcrcícios
Pausa
UItimas
paIavras
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No final da Aula 19, você acompanhou
os eventos que marcaram o fim do Império. Pôde perceber que a derrubada
da monarquia foi um acontecimento incruento, sem grandes conflitos e sem
maior participação popular. Muitos confundiram a deposição do governo com
uma parada militar. Passada a vitória, restava saber o que fazer com ela - o que
fazer com o poder.
Nesta aula, veremos que os diversos grupos civis e militares que proclama-
ram a República tiveram uma enorme dificuldade de produzir um acordo
duradouro que pudesse ordenar o novo regime. Foram quase dez anos de crise,
anarquia, incertezas. A República ainda não encontrara o seu rumo.
A Constituição dc 1891
“Rei morto, rei posto”. Esse velho ditado, utilizado nas monarquias para
tratar da sucessão, não servia mais para o Brasil republicano. Rei deposto, vida
nova, era o que se anunciava.
Ainda no dia 15 de novembro, foi organizado um governo provisório
encarregado de estabelecer a República em nosso país. Sua composição refletia,
de certa forma, a heterogeneidade heterogeneidade heterogeneidade heterogeneidade heterogeneidade do movimento republicano:
· na chefia, o marechal Deodoro da Fonseca, “herói da proclamação”;
· no ministério, uma divisão de pastas entre os principais focos republicanos:
São Paulo, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro;
· destacava-se ainda a presença de Benjamin Constant, professor e doutrinador
positivista na Escola Militar.
Militares e civis dividiam o poder. Para Deodoro e vários colegas de farda,
a República era sinônimo de recuperação da honra militar recuperação da honra militar recuperação da honra militar recuperação da honra militar recuperação da honra militar. Segundo eles,
o regime monárquico era dominado por uma elite de bacharéis inteiramente
contrária aos interesses militares.
A posição do grupo pode ser assim resumida: a Repúbllica era a salvação
do Exército.
José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, A formação das almas A formação das almas A formação das almas A formação das almas A formação das almas, , , , , p. 40 p. 40 p. 40 p. 40 p. 40
Anos dc inccrtcza:
a impIantação
da ordcm rcpubIicana
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Abcrtura
Movimcnto
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Entre os militares - especialmente os mais jovens -, e também entre os civis,
desenvolveu-se a corrente positivista. Para eles, a República era a
salvação da Pátria. (...). A história tinha suas leis, seu movimento
predeterminado em fases bem definidas, mas a ação humana, especial-
mente a dos grandes homens, poderia apressar a marcha evolutiva
da humanidade. Essa marcha, no caso brasileiro, passava pelo estabele-
cimento de uma república que garantisse a ordem material(...),
e a liberdade espiritual, isto é, a quebra dos monopólios da Igreja
e do Estado sobre a educação, a religião e a ciência.
José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, A formação das almas A formação das almas A formação das almas A formação das almas A formação das almas, p. 42 , p. 42 , p. 42 , p. 42 , p. 42
A corrente positivista, mesmo dividida, teve ativa influência na vida política
brasileira na primeira década republicana. Essa corrente, em geral, discordava
das idéias liberais de representação política e defendia um governo forte
e centralizado, capaz de garantir a ordem e o progresso.
Já para grande parte das elites civis, o importante, naqueles primeiros
tempos de República, era promover a institucionalização do regime institucionalização do regime institucionalização do regime institucionalização do regime institucionalização do regime, isto é:
caminhar para a criação de leis e instituições que afastassem qualquer ameaça
de ditadura militar de Deodoro ou de qualquer outro.
Para essas elites, o modelo republicano passava necessariamente pelo
ideário liberal. Defendia-se a ação individual, o mercado, a liberdade política,
a divisão do governo em poderes e, finalmente, o sistema federalista sistema federalista sistema federalista sistema federalista sistema federalista, capaz de
assegurar autonomia aos interesses regionais.
A convocação de uma Assembléia Constituinte e a consagração dos prin-
cípios liberais na Constituição de 1891 foram as principais vitórias das elites
liberais no início da República.
A aprovação da nova Constituição, em fevereiro de 1891, reordenou
a vida política brasileira. O Estado imperial e suas instituições de inspiração
européia foram substituídos pelo modelo republicano norte-americano modelo republicano norte-americano modelo republicano norte-americano modelo republicano norte-americano modelo republicano norte-americano.
O país finalmente tornava-se americano, como reivindicara o Manifesto
Republicano de 1870.
Além da forma de governo republicana, típica da América, a Constituição
consagrou o princípio federalista, que garantia ampla autonomia aos Estados
(antigas províncias). O federalismo expressava-se na possibilidade de os Esta-
dos organizarem forças militares próprias, criarem impostos sobre a exportação
e ainda estruturarem uma justiça estadual. Ao governo federal cabia a organi-
zação das forças armadas, a emissão da moeda e o poder de intervenção nos
Estados em caso de perigo para a ordem republicana.
Essas foram as mais importantes alterações estabelecidas pela nova Cons-
tituição na vida política brasileira. O Estado brasileiro, criado no Império
sob a égide da centralização, buscava agora outro ponto de equilíbrio,
que obrigatoriamente deveria levar em conta os interesses regionais,
os interesses dos Estados.
Como era de esperar, a nova Carta pôs fim ao Poder Moderador, exclusivo
do imperador. Estabelecia a divisão em três poderes: Legislativo, Executivo,
e Judiciário.
O Poder Legislativo passou a ser composto por uma Câmara dos Deputa-
dos, com deputados eleitos proporcionalmente à população dos Estados, e um
Senado Federal que deixava de ser vitalício, com três senadores por Estado.
Os Estados com maior população - como Minas Gerais, São Paulo e Bahia -
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A U L A
foram bastante beneficiados pela nova legislação, pois formavam grandes banca-
das na Câmara dos Deputados. Isso lhes garantia amplas parcelas de poder.
O Poder Legislativo ganhou consistência política. O Poder Executivo não
possuía mais o direito de dissolvê-lo. O Poder Executivo passava a ser
chefiado por um presidente da República, auxiliado por ministros nomeados
diretamente por ele. Adotava-se o sistema presidencialista sistema presidencialista sistema presidencialista sistema presidencialista sistema presidencialista. Estava extinta
a experiência parlamentarista do Império.
O sistema eleitoral também passou por mudanças. O voto agora passava
a ser universal universal universal universal universal, substituindo o censitário, que exigia uma renda mínima para
a participação na eleição. As eleições passaram a ser diretas para a presidência
da República, para os governantes dos Estados e para os órgãos legislativos
federal e estaduais.
Essas importantes novidades, no entanto, não foram acompanhadas
de medidas que pudessem ampliar substancialmente a participação popular
nas eleições. Foram mantidas as restrições ao voto das mulheres e dos analfa-
betos. Permaneceu ainda o voto aberto, ou seja, público, não secreto.
O historiador José Murilo de Carvalho nos conta que desde a reforma
eleitoral de 1881, ainda no Império, houve uma importante redução no número
de eleitores no Brasil. Foi introduzido o voto direto e alfabetizado, o que fez com
que a participação eleitoral caísse de cerca de 10% para menos de 1%.
A República não alterou esse quadro.
Com a República houve um aumento pouco significativo para 2% da
população (eleição presidencial de 1894).
José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, Os bestializados Os bestializados Os bestializados Os bestializados Os bestializados, , , , , p. 43 p. 43 p. 43 p. 43 p. 43
A Constituição republicana, mesmo não incorporando amplos setores
da população, produziu importantes mudanças políticas. Introduziu um
novo modelo político descentralizado. Garantiu amplos poderes aos Estados
e ao Poder Legislativo. Necessariamente, o presidente da República teria de
ser capaz de negociar com essas duas forças.
Mas, como veremos, não foi bem isso o que ocorreu nos primeiros governos
republicanos.
Releia a Aula 14 e compare as Constituições de 1824 e 1891.
SimboIogia rcpubIicana
A República necessitava não apenas de um pacto político. Precisava também
tocar os corações de todos os brasileiros, ou melhor, “formar suas almas”,
como disse um historiador. Para isso, nada melhor do que interpretar e recons-
truir o passado segundo os seus objetivos. Nada melhor do que criar um
conjunto de símbolos.
Na construção da simbologia republicana, também esteve presente o confli-
to entre as diversas facções políticas. A corrente positivista obteve algumas
vitórias importantes. A mais significativa delas aconteceu no episódio
da mudança de um importante símbolo nacional: a bandeira.
lm tcmpo
Pausa
20
A U L A
No dia da proclamação da República, alguns repu-
blicanos empunharam pelas ruas da capital uma ban-
deira semelhante à norte-americana, com faixas hori-
zontais nas cores verde e amarela, que ficou conhecida
como “bandeira americana”. Os positivistas não gos-
taram e conceberam uma nova, que tivesse maiores
ligações com a nossa história. O modelo positivista
tomou por base a bandeira imperial.
Conservaram o fundo verde, o losango amarelo
e a esfera azul. Retiraram da calota os emblemas
imperiais: a cruz, a esfera militar, a coroa,
os ramos de café e tabaco. As estrelas que circula-
vam a esfera foram transferidas para dentro
da calota. A principal inovação, que gerou maior
polêmica, (...) foi a introdução da divisa “ordem
e progresso” em uma faixa que, representando
o zodíaco, cruzava a esfera em sentido descendente
da esquerda para a direita.
José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho,
A formação das almas A formação das almas A formação das almas A formação das almas A formação das almas, , , , , p. 112-113 p. 112-113 p. 112-113 p. 112-113 p. 112-113
Apesar das resistências de alguns liberais,
a bandeira positivista foi adotada como oficial ainda
em novembro de 1889.
A mais importante construção simbólica republi-
cana foi, no entanto, a recuperação da figura de
Joaquim José da Silva Xavier - o Tiradentes, propo-
sitadamente esquecido na época imperial.
A monarquia, como sabemos, construíra em tor-
no de d. Pedro I a aura de herói da independência.
Mas, no final do Império, a história do Tiradentes
mártir da luta contra o domínio português já havia
sido recuperada pelos republicanos.
Surgira, no Rio de Janeiro, o Clube Tiradentes,
que passara a cultivar a memória do herói. Todos os
anos, no dia 21 de abril, data do enforcamento de
Tiradentes, seu nome e seu sacrifício eram relembrados.
Nas homenagens, muitas vezes, utilizava-se
a imagem do herói como o Cristo crucificado. Com a República, a data se
transformaria em feriado nacional, e essa imagem seria reforçada.
José Murilo de Carvalho, com base em jornais de época, assim descreve
as homenagens prestadas a Tiradentes no feriado de 21 de abril de 1890:
O préstito saiu dos arredores da Cadeia Velha, em que Tiradentes
estivera preso, prosseguiu até a Praça Tiradentes e daí até o Itamaraty,
onde Deodoro saudou os manifestantes. Acompanhavam o desfile repre-
sentantes dos clubes abolicionistas e republicanos, (...) e, em destaque,
os positivistas, levando em andor um busto do mártir esculpido
por Almeida Reis. (...) Era a celebração da paixão (Cadeia Velha), morte
(Praça Tiradentes) e ressureição (Itamaraty) do novo Cristo.
José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, A formação das almas A formação das almas A formação das almas A formação das almas A formação das almas, , , , , p. 64-65 p. 64-65 p. 64-65 p. 64-65 p. 64-65
lm tcmpo
Deodoro da Fonseca
20
A U L A
A criação da figura de Tiradentes
como herói cívico deu resultado.
Sua imagem firmou-se no imaginário
popular. Para isso, contribuíram os fa-
tos de ele nunca ter exercido violência
contra outras pessoas, de ter sido víti-
ma de uma traição de Silvério dos Reis,
o novo judas novo judas novo judas novo judas novo judas, e de ter assumido toda
a culpa da conspiração. Tudo isso
(...) calava profundamente
no sentimento popular, mar-
cado pela religiosidade cristã.
Na figura de Tiradentes todos
podiam identificar-se, ele ope-
rava a unidade mística dos
cidadãos, o sentimento de par-
ticipação, de união em torno
de um ideal, fosse ele a liber-
dade, a independência ou
a república. Era o totem cívi-
co. Não antagonizava nin-
guém, não dividia as pessoas
e as classes sociais, não divi-
dia o país, não separava o pre-
sente do passado nem do
futuro.
José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho, José Murilo de Carvalho,
A formação das almas A formação das almas A formação das almas A formação das almas A formação das almas, , , , , p. 68 p. 68 p. 68 p. 68 p. 68
Pense um pouco, pesquise, e procure identificar personagens importantes
da história brasileira que também foram marcados pela imagem do sacríficio
pessoal em defesa da nação.
Todos contra todos
A mudança de regime, em qualquer país, não é algo fácil. Em geral, há um
certo tempo de acomodação dos diversos interesses dos grupos vencedores.
Na República brasileira, esse tempo foi relativamente longo, cerca de dez anos.
Nem mesmo a Constituição de 1891 conseguiu sanar a crise. Foram anos
de incerteza e conflito.
Na raiz de tudo isso estava, entre outras coisas, a falta de uma melhor
definição sobre o papel que o Poder Legislativo e os Estados deveriam ter
no novo regime republicano.
O primeiro presidente da República (eleito pelo Congresso), Deodoro da
Fonseca, não conseguiu conviver com um Legislativo forte e indissolúvel indissolúvel indissolúvel indissolúvel indissolúvel.
Em novembro de 1891, fechou o Congresso, com o objetivo de fortalecer
Pausa
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A U L A
as atribuições do Poder Executivo. Sem apoio político e militar, foi obrigado
a renunciar três semanas depois.
Com a renúncia, tomou posse o vice-presidente, Floriano Peixoto, militar
como Deodoro. No seu curto governo (1891-1894), Floriano enfrentaria vários
problemas militares e uma dupla revolta: da Marinha e dos federalistas no
Rio Grande do Sul. Floriano pôde contar com apoio do Congresso, comandado
pelas oligarquias regionais que queriam manter a ordem republicana. Contaria
ainda com a adesão de grupos na capital federal, os chamados “jacobinos”,
interessados em combater os monarquistas e todos aqueles considerados
“inimigos da República”.
Nem a eleição do civil e pau-
lista Prudente de Morais conse-
guiu acalmar aos ânimos. O clima
permanecia tenso; nas ruas, os
jacobinos denunciavam as indeci-
sões do governo no combate aos
monarquistas; havia a fragmen-
tação política no Congresso e, no
interior da Bahia, as sucessivas
derrotas do Exército perante os re-
beldes de Canudos, liderados pelo
beato Antônio Conselheiro, que
pregava a criação de uma comuni-
dade livre de pecados e criticava
a ordem republicana. Em meio
a tudo isso, conspirações políticas
tentavam derrubar o governo.
Floriano Peixoto
Revolta da Armada
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A U L A
Em novembro de 1897, a crise atingiu o ápice: o presidente Prudente
de Morais sofreu um atentado político. Conseguiu sobreviver, e em seu lugar
morreu o ministro da Guerra, Machado Bittencourt.
A fracassada tentativa de assassinato do presidente promoveu uma comple-
ta reviravolta política. Prudente de Morais conseguiu terminar seu mandato
e eleger seu sucessor, o paulista Campos Sales.
Nesta aula, estamos concluindo a segunda parte do nosso curso.
Em dez aulas, percorremos os diversos momentos da construção do Estado
monárquico brasileiro. Tivemos também a oportunidade de estudar as princi-
pais razões que levaram à queda do Império.
Na última década do século XIX, com a República, o Brasil iniciava uma nova
experiência política. Como vimos, foi uma árdua experiência. Foram anos
difíceis. Houve conflito para todo gosto: militares contra militares, civis contra
militares, civis contra civis, problemas regionais e outros. A República ainda não
encontrara seu leito natural. O Estado republicano ainda estava por ser construído.
Como isso seria feito? Como seria possível criar instrumentos que assegu-
rassem a estabilidade política? É o que veremos nas próximas aulas.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Releia o item A Constituição de 1891 A Constituição de 1891 A Constituição de 1891 A Constituição de 1891 A Constituição de 1891 e explique a seguinte afirmação
contida no texto: “O Estado brasileiro, criado no Império sob a égide
da centralização, buscava agora um outro ponto de equilíbrio, que obriga-
toriamente deveria levar em conta os interesses regionais, os interesses
dos Estados”.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Releia o item Todos contra todos Todos contra todos Todos contra todos Todos contra todos Todos contra todos e identifique algumas dificuldades
encontradas pelos primeiros governos para construir a ordem republicana.
UItimas
paIavras
lxcrcícios
AuIa 2 - A grandc viagcm
1. 1. 1. 1. 1. Aumento do comércio com o Oriente; uso crescente da moeda nas transações
comerciais; surgimento de importantes centros de comércio no Mediter-
râneo e no mar do Norte; crescimento da riqueza e do poder da burguesia.
2. 2. 2. 2. 2. Norte da África: a conquista de Ceuta e a luta contra os mouros.
Litoral africano: os interesses comerciais ouro, marfim, escravos e açúcar.
Índias: o controle da rota das especiarias.
América Portuguesa: a colonização.
3. 3. 3. 3. 3. Caravela; mapas e cartas náuticas; bússola; pólvora; imprensa.
4. 4. 4. 4. 4. Em torno do rei se organizaram os diversos setores sociais a nobreza,
a burguesia, a Igreja, a burocracia , no intuito de mobilizar recursos
humanos e financeiros para levar adiante o caro processo da expansão
marítima. À Coroa cabiam especificamente as tarefas de arrecadar
os impostos e preparar a força militar, componentes indispensáveis para
a realização das grandes navegações.
AuIa 3 - A chcgada à Amórica
1. 1. 1. 1. 1. Os portugueses pretendiam chegar ao Oriente contornando a África;
Colombo, acreditando que a Terra era redonda, achava que alcançaria
as Índias navegando em direção ao Ocidente. Os portugueses estavam
na África desde o início do século XV; os espanhóis se atrasaram na corrida
da expansão marítima, porque só em 1469, com o casamento dos príncipes
Fernão e Isabel, tiveram uma Coroa forte para comandar a expansão.
Portugueses e espanhóis tinham, no entanto, os mesmos objetivos: descobrir
novas rotas de comércio, explorar terras ricas em ouro, expandir a fé cristã
e viver aventuras.
2. 2. 2. 2. 2. A relação com o corpo e a maneira de se vestir; a língua falada; a relação com
o dinheiro e a posse de objetos.
Gabaritos
das auIas 2 a 20
3. 3. 3. 3. 3. Poderão ser citados exemplos de diferenças entre países (Brasil e Estados
Unidos); entre regiões (Oriente e Ocidente); dentro do mesmo país (sul
e nordeste).
4. 4. 4. 4. 4. Não é verdade. Os incas, maias e astecas construíram impérios desenvolvi-
dos na América, com agricultura próspera, alto grau de conhecimento
em matemática e engenharia, além de uma produção artística de grande
valor e beleza.
AuIa 4 - Visõcs do paraíso
1. 1. 1. 1. 1. A carta de Caminha mostra todo o encantamento que a terra desconhecida
despertou nos portugueses. O clima agradável, a grande extensão de terras,
a abundância de água e de vegetação, a beleza dos habitantes, tudo indicava
que os viajantes haviam chegado ao paraíso.
2. 2. 2. 2. 2. Nas Índias, o objetivo dos portugueses era controlar o rico comércio
lá existente, precisando, para isso, dominar os chefes locais. Na América,
os portugueses não encontraram inicialmente nada que precisassem
conquistar, pois a gente da terra não possuía produtos que pudessem
interessar ao comércio europeu.
3. 3. 3. 3. 3. D. Manuel não ficou animado com as notícias da terra, porque nela não
parecia existir nenhuma riqueza mineral. A terra também não oferecia
nenhum produto atraente para o mercado europeu.
4. 4. 4. 4. 4. O direito de explorar a madeira foi aberto a comerciantes portugueses, que
tinham de pagar o quinto (20%) de imposto ao Tesouro Real. Por meio
do sistema de escambo, os nativos derrubavam as árvores, arrumavam-nas
em toras e as embarcavam nos navios, recebendo, em troca, machados,
facas, colares e tecidos. A madeira era guardada em pequenos fortes,
chamados de feitorias, onde também se abrigavam os tripulantes dos navios
que vinham buscar o pau-brasil.
5. 5. 5. 5. 5. Apesar de não terem constituído grandes impérios, os habitantes da “terra
do brasil” tiveram presença marcante tanto nos momentos iniciais
de exploração da América Portuguesa quanto no processo posterior
de colonização. Ao contrário do que se afirma, o indígena foi uma mão-de-
obra fundamental no aproveitamento econômico da colônia.
6. 6. 6. 6. 6. A crise da exploração do pau-brasil; a ameaça estrangeira na região;
as notícias da existência de riquezas minerais no sul da América; o declínio
do comércio com as Índias.
AuIa S - O início da coIonização portugucsa
1. 1. 1. 1. 1. A estratégia da Coroa portuguesa foi impulsionar a ocupação da sua colônia
americana. Para isso, tratou de estimular a criação de um importante pólo
produtivo baseado na produção do açúcar.
2. 2. 2. 2. 2. O desencolvimento da empresa açucareira modificou a face de uma impor-
tante região na colônia. Os lucros do açúcar foram fundamentais para
assegurar a posse das terras brasileiras para a Coroa portuguesa. A econo-
mia açucareira também foi importante na geração de outras atividades
econômicas na colônia.
AuIa 6 - 1rabaIho c cscravidão na Amórica Portugucsa
1. 1. 1. 1. 1. Em geral, eram grandes unidades produtivas. Nelas, houve o predomínio
do trabalho escravo africano. Trabalhadores livres participavam de algu-
mas fases da produção. Havia divisão de trabalho, e a matéria-prima
era transformada no interior do engenho. A produção era voltada para
o mercado externo.
2. 2. 2. 2. 2. O trabalho escravo foi uma das bases da colonização portuguesa. Apesar
da resistência dos próprios índios e dos jesuítas, a escravidão indígena
permaneceu em diversas regiões coloniais por larga margem de tempo.
O trabalho escravo do africano esteve presente nas principais atividades
econômicas (rurais e urbanas) durante a maior parte da época colonial.
AuIa 7 - A coIonização cspanhoIa c ingIcsa na Amórica
1. 1. 1. 1. 1. Formação de colônias voltadas para a metrópole européia; controle rígido
da produção colonial; controle da circulação de idéias; fortes exigências
fiscais e controle político-administrativo.
2. 2. 2. 2. 2. Em linhas gerais, poderiam ser citados os seguintes traços básicos: economia
agrária de base familiar; forte importância da religião nos hábitos e costu-
mes; presença dos “servos por contrato”; desenvolvimento de atividades
comerciais e urbanas.
AuIa 8 - lstado c tgrcja na avcntura coIonizadora
1. 1. 1. 1. 1. A extensão do território colonial obrigou o Estado português a delegar
poderes às ordens religiosas e às Câmaras Municipais.
2. 2. 2. 2. 2. Por meio da língua geral, os jesuítas promoveram a catequese e divulgaram
os valores da cultura européia e cristã, o que contribuiu para a desagregação
das antigas culturas indígenas.
AuIa 9 - O tcrritúrio sc ampIia
1. 1. 1. 1. 1. Até o século XVII, os portugueses não haviam conseguido conquistar
o interior da colônia. O interesse na exploração da agroindústria açucareira
no litoral nordestino, associado aos perigos do sertão (os ataques dos índios
e as dificuldades de sobreviver numa terra selvagem), fizeram com que
os colonizadores se fixassem na costa.
2. 2. 2. 2. 2. O Tratado de Tordesilhas foi um acordo assinado em 1494, entre os reis de
Portugal e Espanha, tratando da divisão das “novas” terras da África, da
Ásia e da América. Em 1580, o rei espanhol Filipe II ocupou o trono
português, ocorrendo a chamada União Ibérica. A partir de então, todas as
terras americanas ficaram sob o domínio de uma só Coroa, o que facilitou a
penetração de portugueses em regiões que pertenciam ao domínio espanhol.
3. 3. 3. 3. 3. Inimiga da Holanda, a Coroa espanhola proibiu a participação dos holande-
ses no lucrativo negócio do açúcar. Inconformados com essa proibição,
os holandeses resolveram ocupar a principal área produtora de cana,
o litoral nordestino. Primeiramente, ocuparam Salvador, capital da colônia,
onde ficaram por um ano (1624-1625). Em 1630, dominaram a capitania
de Pernambuco, de onde partiram para ocupar o litoral de Alagoas
ao Rio Grande do Norte. Permaneceram no Nordeste até 1654, quando
foram expulsos.
4. 4. 4. 4. 4. Isolados do litoral pela serra do Mar, e tendo facilidade de penetrar no
interior por causa dos rios que partiam da vila de São Paulo, os paulistas
buscaram no sertão o “remédio” para a sua pobreza: a caça ao índio e a busca
do ouro. Organizando as chamadas bandeiras, os paulistas ocuparam
regiões que, pelo tratado de Tordesilhas, deveriam pertencer aos espanhóis.
5. 5. 5. 5. 5.
ATIVIDADE ATIVIDADE ATIVIDADE ATIVIDADE ATIVIDADE ECONÔMICA ECONÔMICA ECONÔMICA ECONÔMICA ECONÔMICA
Agroindústria açucareira
Pecuária
Drogas do sertão
Caça ao índio;
busca de ouro
Busca de riquezas
minerais
Tropas de mulas,
pecuária; agricultura
de subsistência
Algodão
MÃO MÃO MÃO MÃO MÃO- -- --DE DE DE DE DE- -- --OBRA OBRA OBRA OBRA OBRA
Escravo negro
Trabalho livre
(brancos, negros e índios)
Índios
Trabalho livre
(brancos, índios mestiços)
Escravo negro
Brancos e mestiços
Negro, índio
REGIÕES REGIÕES REGIÕES REGIÕES REGIÕES
Litoral nordestino
Sertão nordestino
Amazônia
São Vicente/São Paulo
Minas
Sul
Maranhão
AuIa 10 - CoIûnia c mctrúpoIc, uma rcIação cm crisc
1. 1. 1. 1. 1. As primeiras descobertas de ouro atraíram milhares de pessoas para a região
mineradora descoberta na América Portuguesa. Eram pessoas de diferentes
profissões e classes, que vieram da metrópole e de diversos pontos da
colônia em busca de riqueza fácil. Ao contrário da lavoura canavieira, que
exigia alto investimento, a mineração oferecia oportunidades de enriqueci-
mento rápido mesmo àqueles com poucos recursos.
2. 2. 2. 2. 2. Relações econômicas com as outras regiões da colônia, e não apenas com
Portugal; crescimento urbano, com o surgimento de vilas e povoados;
possibilidade de ascensão social até mesmo para os escravos, que podiam
conquistar a sua liberdade; surgimento de uma sociedade mais diferenciada,
com pessoas de diferentes profissões, origens e classes.
3. 3. 3. 3. 3. Criação da Intendência das Minas, encarregada de administrar as áreas
mineradoras; criação de casas de fundição, no Rio de Janeiro e em Vila Rica,
para transformar o ouro em barras e controlar a arrecadação do quinto (20%)
devido à Coroa; cobrança de taxas sobre os escravos e pedágios nas estradas;
cobrança de uma cota fixa de 100 arrobas por ano por área mineradora.
4. 4. 4. 4. 4. Em sérias dificuldades econômicas desde a queda do preço do açúcar no
mercado internacional, Portugal cobria, com o ouro saído das Minas Gerais,
suas dívidas comerciais com a Inglaterra, de quem comprava manufatura-
dos, principalmente tecidos de lã e algodão.
5. 5. 5. 5. 5. O Pacto Colonial, que estabelecia a relação de dependência e submissão da
colônia em relação à metrópole, estava em crise. À medida que a sociedade
colonial se desenvolvia e se diversificava, e que o controle da metrópole se
intensificava, organizaram-se em algumas regiões (Vila Rica, Salvador, Rio
de Janeiro) movimentos com o objetivo de acabar com o domínio português.
AuIa 11 - A coIûnia sc vcstiu dc mctrúpoIc
1. 1. 1. 1. 1. A importante medida deu maior dinamismo à economia colonial, pois
favoreceu a entrada legal de mercadorias estrangeiras, principalmente
inglesas, na colônia. Permitiu ainda maior liberdade econômica aos produ-
tores coloniais, uma vez que extinguiu o monopólio comercial português.
2. 2. 2. 2. 2. A presença da Corte na cidade modificou a face da antiga capital colonial.
O Rio de Janeiro agora era a “nova Lisboa”, a sede do governo imperial e da
Corte. As ordens para todo o império emanavam do Rio de Janeiro. Esse fato
era visto com desconfiança, especialmente pelas elites de outras regiões
da colônia, que se sentiam marginalizadas pelo poder real.
AuIa 12 - A Amórica indcpcndcntc
1. 1. 1. 1. 1. A República pernambucana estabeleceu a defesa de princípios liberais como
tolerância religiosa, liberdade de consciência e igualdade de direitos.
2. 2. 2. 2. 2. Principal articulador da independência, o paulista José Bonifácio de Andrada
e Silva acreditava que a instituição de uma ordem republicana no Brasil
resultaria em anarquia e fragmentação política, a exemplo do que já estava
acontecendo em alguns países da América Hispânica. O estabelecimento de
um novo governo, baseado na tradição monárquica, poderia preservar
a unidade e a ordem política.
AuIa 13 - Mantcndo a unidadc
1. 1. 1. 1. 1. Unificar as diversas regiões, impedindo a desintegração do território
do grande país; garantir a ordem social em um país onde a maioria da
população era formada por negros, índios e mestiços; construir uma nação
civilizada nos trópicos.
2. 2. 2. 2. 2. As guerras de independência, principalmente na Bahia (1823), provocadas
pela recusa do comandante das tropas portuguesas em aceitar a indepen-
dência proclamada por d. Pedro a 7 de setembro; a Confederação
do Equador (1824), ocorrida em várias províncias nordestinas que deseja-
vam separar a região do resto do Império; e a Guerra da Cisplatina (1825-
1828), quando a Província Cisplatina se separou do Brasil e formou
a República do Uruguai.
3. 3. 3. 3. 3. a) a) a) a) a) Crise econômica; crise política, com a falta de autoridade que emanava
da figura do imperador; desejo de mais autonomia para as províncias;
defesa de idéias republicanas; rivalidades políticas locais; insatisfação
da população com a alta generalizada de preços dos produtos de maior
necessidade.
b) b) b) b) b) O fortalecimento do poder central. Para tanto, foi antecipada a maiori-
dade de d. Pedro II, que, com apenas 14 anos, subiu ao trono como
o segundo imperador brasileiro. Estava assim, de volta, a autoridade
imperial.
AuIa 14 - tmpondo a ordcm
1. 1. 1. 1. 1. a) a) a) a) a) A atribuição do Poder Moderador ao imperador. Este, além de ter o Poder
Executivo, era o responsável pelo equilíbrio entre os outros poderes,
o Legislativo e o Judiciário. Esse artigo conferia um caráter centralizador
e autoritário à organização política brasileira.
b) b) b) b) b) As limitações à participação de grande parte da população no processo
eleitoral. Só podia votar e ser votado quem possuísse uma determinada
renda. A cidadania política foi muito restrita durante o Império.
2. 2. 2. 2. 2. Os jurujubas, liberais exaltados, defendiam a república e uma organização
mais democrática da sociedade brasileira; os chimangos propunham uma
monarquia liberal; os caramurus queriam a volta do ex-imperador ao trono
brasileiro e a imposição do absolutismo imperial.
3. 3. 3. 3. 3. a) a) a) a) a) Centralização do poder nas mãos do imperador, que, por meio do Poder
Moderador, estava acima dos outros poderes; b) b) b) b) b) manutenção da unidade
territorial, com redução da autonomia das províncias e centralização do
poder no Rio de Janeiro, onde estava a Corte; c) c) c) c) c) repressão violenta
às rebeliões sociais, com o emprego do Exército, e, principalmente,
da Guarda Nacional.
AuIa 1S - Construindo a civiIização
1. 1. 1. 1. 1. Para Varnhagen, índios e negros eram “bárbaros”. Por isso, não podiam
fazer parte da história de um país que desejava ser considerado “civilizado”.
Varnhagen considerava que o português, branco, trouxera a civilização
cristã para o Brasil.
2. 2. 2. 2. 2. Com os Estados Unidos da América do Norte, as relações políticas foram
difíceis: o modelo norte-americano, republicano e federativo, não era bem
visto pela elite política brasileira, que preferia a monarquia e a centralização
unitária.
Com os vizinhos do sul Argentina, Paraguai e Uruguai , o Império
brasileiro manteve um relacionamento de força, com a ocorrência de vários
conflitos na região, em especial a guerra contra o Paraguai.
As diferenças entre o Império brasileiro e as repúblicas do Prata eram
muito grandes. Enquanto o Brasil havia conseguido manter a integridade
do seu território, transformando-se em uma monarquia centralizada
e estável, a região do Prata se dividira em várias repúblicas, freqüentemente
governadas por caudilhos que se impunham pela força das armas.
AuIa 16 - O tmpório cra o cafó
1. 1. 1. 1. 1. Clima favorável e terras disponíveis; capitais advindos da transferência
de recursos de outras culturas e de atividades comerciais; abundante mão-
de-obra escrava africana; presença de capitais norte-americanos e europeus
na exportação do produto; melhoria no sistema de transportes, com
a introdução da estrada de ferro.
2. 2. 2. 2. 2. Francisco Werneck, barão de Pati de Alferes, criticava a escravidão africana.
Denominava-a “gérmen roedor do Império do Brasil”. Mesmo assim,
não via com bons olhos a substituição do trabalho escravo pelo livre nas
grandes fazendas de café. Acreditava que o homem livre logo se deso-
brigaria do trabalho na fazenda para trabalhar por conta própria.
AuIa 17 - Dcsafios c mudanças no tmpório do ßrasiI
1. 1. 1. 1. 1. A medida, adotada em 1845, permitia à Marinha inglesa apresar navios
negreiros que rumassem para o Brasil. Foi um importante momento
da estratégia inglesa de acabar rapidamente com o tráfico de escravos
africanos para o Brasil.
2. 2. 2. 2. 2. O avanço do tráfico interno (do nordeste para o sudeste); a Lei de Terras,
que teve por objetivo facilitar a maior utilização do trabalho livre nas
grandes fazendas; o estímulo à imigração; a adoção, pelo governo, de uma
estratégia de extinção gradual da escravidão africana.
AuIa 18 - Modcrnização c imigração
1. 1. 1. 1. 1. Grande disponibilidade de terras para o avanço da economia cafeeira na
região; investimentos em tecnologia devido ao problema da “falta
de braços”; avanço na utilização de mão-de-obra livre e imigrante; melhoria
no serviço de transportes, com a criação de importantes ferrovias.
2. 2. 2. 2. 2. Uma delas foi a ocupação de áreas pouco povoadas, ou estratégicas, por
colônias estrangeiras. Essa política colonizadora ganhou maior impulso no
extremo sul do país (nos atuais Estados de Santa Catarina e Rio Grande
do Sul). A outra vertente foi o estímulo à vinda de imigrantes para as re-
giões cafeeiras. O objetivo era resolver o problema crônico da “falta
de braços”, agravado pelo declínio da escravidão africana.
AuIa 19 - Anos dc ruptura
1. 1. 1. 1. 1. Nos Estados Unidos, o trabalho escravo só existia nos Estados do sul,
onde era usado nas grandes plantações de fumo e algodão; no norte, não
havia escravidão. No Brasil, a escravidão estava em toda parte: o uso do
trabalho escravo era generalizado. No Brasil, a escravidão terminou em
1888, com uma lei encaminhada pela princesa Isabel. Nos Estados Unidos,
a escravidão só terminou após uma terrível guerra entre o norte e o sul.
2. 2. 2. 2. 2. A partir da Guerra do Paraguai, os militares passaram a exigir participação
mais ativa na política, o que não era bem visto pela elite política imperial.
Além disso, foi grande a divulgação, nos meios militares, das idéias
positivistas, que pregavam a necessidade de uma república militar
e autoritária para levar adiante a ordem e o progresso no país.
3. 3. 3. 3. 3. Região mais próspera do país, São Paulo queria autonomia para administrar
seus negócios, sem tanta interferência da Corte. Nas repúblicas federativas,
os Estados têm autonomia para cobrar impostos, organizar forças armadas,
importar imigrantes. Era tudo o que São Paulo queria.
AuIa 20 - Anos dc inccrtcza: a impIantação da ordcm rcpubIicana
1. 1. 1. 1. 1. A Constituição de 1891 consagrou o princípio do federalismo, que garantiu
amplos poderes aos Estados. O poder central, a União, necessitava agora,
mais do que nunca, negociar com os governadores dos Estados para poder
governar o país.
2. 2. 2. 2. 2. Havia enorme fragmentação política. Não existia o mínimo de consenso.
As lideranças militares encontravam-se divididas. Houve, inclusive, uma
rebelião da Marinha contra o governo do marechal Floriano Peixoto.
Grupos políticos gaúchos também pegaram em armas contra o governo de
Floriano. Outro elemento desestabilizador foi a ação de grupos radicais (os
“jacobinos”) que lutaram contra um possível retorno da monarquia. Tudo
isso animava muitos grupos políticos a tentar tomar o poder pelas armas.
19 19 19 19 19 Partida de Estácio de Sá de Bertioga
para o Rio da Janeiro (detalhe) - BENEDITO CALIXTO
26 26 26 26 26 Urna funerária indígena - JEAN-BAPTISTE DEBRET
Américo Vespúcio em contato com índios - Autor desconhecido
31 31 31 31 31 Tipos indígenas - JEAN-BAPTISTE DEBRET
32 32 32 32 32 Primeira missa - VÍTOR MEIRELES
39 39 39 39 39 Os cambistas - QUINTIN MATSYS
41 41 41 41 41 Casa do Conselho - J.WASTH RODRIGUES
44 44 44 44 44 Barcaça sem vela - JEAN-BAPTISTE DEBRET
45 45 45 45 45 Moagem de cana no engenho (detalhe) - BENEDITO CALIXTO
48 48 48 48 48 Tipos africanos - JEAN-BAPTISTE DEBRET
60 60 60 60 60 Missão - J.WASTH RODRIGUES
68 68 68 68 68 Batalha de Guararapes (detalhe) - Autor desconhecido
69 69 69 69 69 Soldados índios de Moji das Cruzes - JEAN-BAPTISTE DEBRET
72 72 72 72 72 Acampamento com mulas - JEAN-BAPTISTE DEBRET
75 75 75 75 75 (lateral) Trabalhos em cestaria - JEAN-BAPTISTE DEBRET
(pé da página) Trabalhos em madeira - JEAN-BAPTISTE DEBRET
78 78 78 78 78 Extração de diamantes - CARLOS JULIÃO
80 80 80 80 80 Tiradentes ante o carrasco (detalhe) - RAFAEL FALCO
84 84 84 84 84 Aclamação de d. João VI - JEAN-BAPTISTE DEBRET
87 87 87 87 87 Baía de Guanabara - JEAN-BAPTISTE DEBRET
88 88 88 88 88 Mucamas na rua - JEAN-BAPTISTE DEBRET
89 89 89 89 89 D. João chegando à igreja do Rosário - JEAN-BAPTISTE DEBRET
90 90 90 90 90 O regente d. João - JEAN-BAPTISTE DEBRET
91 91 91 91 91 Vista do Rio de Janeiro - JEAN-BAPTISTE DEBRET
Auto-retrato - JEAN-BAPTISTE DEBRET
93 93 93 93 93 Recife, Pátio do Terço - AUTOR DESCONHECIDO
97 97 97 97 97 O príncipe d. Pedro - JEAN-BAPTISTE DEBRET
Página Página Página Página Página
tIustraçõcs
098 98 98 98 98 José Bonifácio de Andrada e Silva (detalhe) - OSCAR PEREIRA
DA SILVA
099 99 99 99 99 Aclamação de d. Pedro I - JJEAN-BAPTISTE DEBRET
103 103 103 103 103 Vista do largo do palácio do Rio de Janeiro - JEAN-BAPTISTE
DEBRET
104 104 104 104 104 Abdicação do primeiro imperador
do Brasil, d. Pedro I - AURÉLIO DE FIGUEIREDO
106 106 106 106 106 Pedro II, ainda criança - AUTOR DESCONHECIDO
112 112 112 112 112 Pedro II, jovem - FRANÇOIS RENÉ MOREAUX
115 115 115 115 115 Coroação do imperador d. Pedro I - JEAN-BAPTISTE DEBRET
116 116 116 116 116 O grito do Ipiranga - VÍTOR MEIRELES
118 118 118 118 118 Caboclo - JEAN-BAPTISTE DEBRET
120 120 120 120 120 Vista da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro,
a partir da Ilha das Cobras - AUTOR DESCONHECIDO
127 127 127 127 127 Cafezal - PERCY LAU
128 128 128 128 128 Socando café no pilão - J. LAURENS
131 131 131 131 131 Colar de ferro - JEAN-BAPTISTE DEBRET
139 139 139 139 139 A fábrica de gás do Rio de Janeiro - AUTOR DESCONHECIDO
140 140 140 140 140 Estrada de Ferro Pedro II - SISSON
143 143 143 143 143 Tipos africanos - JEAN-BAPTISTE DEBRET
O operário - QUIRINO CAMPOFIORITO
Imigrantes - ANTONIO ROCCO
146 146 146 146 146 Tração animal para moagem - JEAN-BAPTISTE DEBRET
147 147 147 147 147 Três cenas com escravos - JEAN-BAPTISTE DEBRET
149 149 149 149 149 Batalha naval do Riachuelo - BERNARDO DE MARTINO
155 155 155 155 155 Proclamação da república (detalhe) - HENRIQUE BERNARDELLI
156 156 156 156 156 Tiradentes ante o carrasco (detalhe) - RAFAEL FALCO
157 157 157 157 157 Marechal Floriano Peixoto - ALMEIDA JR.
Página Página Página Página Página
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Para suas anotaçõcs
Para suas anotaçõcs
Para suas anotaçõcs
Para suas anotaçõcs
Para suas anotaçõcs
Para suas anotaçõcs
O que é uma república? Esta pergunta tem sido respondida de diversas
maneiras pelas sociedades humanas através dos tempos. Nos dias de hoje, no
Brasil, como poderíamos respondê-la? Vamos supor que estamos fazendo uma
pesquisa de opinião e ouvindo as pessoas na rua sobre esse tema. Podemos
imaginar uma resposta. Por exemplo: “É a forma de governo em que os cidadãos
elegem os seus governantes por um prazo determinado, ao contrário da monarquia, em
que o poder é hereditário e vitalício.” Uma boa definição, mas que se mostra pouco
informada a respeito dos modernos regimes monárquicos em que o povo, apesar
de não escolher seu rei ou rainha, elege o chefe de governo e os membros do
Poder Legislativo. Mesmo assim, continua sendo uma boa resposta, pois iden-
tifica dois princípios gerais do regime republicano: a soberania popular soberania popular soberania popular soberania popular soberania popular − isto é,
o poder é do povo, cabe a ele a decisão final sobre a melhor forma de organização
do país − e a provisoriedade dos representantes eleitos provisoriedade dos representantes eleitos provisoriedade dos representantes eleitos provisoriedade dos representantes eleitos provisoriedade dos representantes eleitos por esse mesmo povo.
Na história do mundo ocidental, os regimes monárquicos absolutistas
predominaram durante muito tempo. No século XIX, como uma conseqüência
das revoluções liberais, o absolutismo foi sendo substituído por monarquias
constitucionais ou por repúblicas. Enquanto as primeiras permaneceram muito
fortes na Europa até a Primeira Guerra Mundial, na América as repúblicas
dominaram o cenário político desde a primeira metade do século XIX.
No Brasil, a república tornou-se realidade no final do século XIX. A mudança
de forma de governo trouxe, como vimos nas últimas aulas, desconfianças e
conflitos para todos os gostos. Mas, com ela, novas esperanças de participação
também vieram à tona. Será que agora, com o fim da escravidão e com a Será que agora, com o fim da escravidão e com a Será que agora, com o fim da escravidão e com a Será que agora, com o fim da escravidão e com a Será que agora, com o fim da escravidão e com a
possibilidade de maior envolvimento político, o país encontraria seu rumo e possibilidade de maior envolvimento político, o país encontraria seu rumo e possibilidade de maior envolvimento político, o país encontraria seu rumo e possibilidade de maior envolvimento político, o país encontraria seu rumo e possibilidade de maior envolvimento político, o país encontraria seu rumo e
se tornaria uma nação moderna? se tornaria uma nação moderna? se tornaria uma nação moderna? se tornaria uma nação moderna? se tornaria uma nação moderna?
Essa questão marcou, e marca, toda a nossa trajetória republicana, que já
dura um pouco mais de cem anos. Nas próximas aulas, você acompanhará os
diversos momentos da nossa história republicana. Verá que a república que
construímos teve muitas caras, muitas faces. A república dos brasileiros foi, e
tem sido, marcada pela instabilidade instabilidade instabilidade instabilidade instabilidade e pela diversidade diversidade diversidade diversidade diversidade. Afinal, nossa
república teve de formar os estados da federação, os diferentes grupos sociais
(que se espalharam e ganharam força), os costumes políticos e as invenções
culturais. São muitos e muito distintos os personagens e as situações. Nossa
viagem agora é pelas diferenças. De agora em diante, você percorrerá um
longo e sinuoso trajeto. Um caminho que continuamos a trilhar e a construir.
Partc lll
A rcpúbIica dos
brasiIciros
MúduIo 8
As bascs
da Primcira kcpúbIica
Em aulas anteriores, você pôde perceber que foi muito mais fácil para os
republicanos civis e militares promover a derrubada do Estado monárquico do
que construir a nova ordem republicana. O que fazer? Como o governo federal
poderia recuperar o controle da situação política, até então marcada pela
instabilidade?
Nas próximas três aulas, você poderá acompanhar essa questão. Verá ainda
que o país passava por um importante processo de modernização econômica.
Naqueles tempos de predomínio do café, surgiam as indústriais e cresciam as
cidades. E, com elas, ganhavam força novos segmentos sociais: os industriais e
os operários.
Em nossa viagem, estamos desembarcando no século XX.
21
) 7 )
A esta altura, você já pôde perceber que
iniciamos o terceiro bloco de nosso curso. Entramos na República, depois de
viajar pela Colônia e pelo Império.
Há muitas maneiras de iniciar nossa passagem pela República. Escolhemos
um ditado que já se tornou popular no Brasil: “É ÉÉ ÉÉ dando que se recebe dando que se recebe dando que se recebe dando que se recebe dando que se recebe”.
Em situações de disputa pela distribuição de cargos públicos ou de verbas
para a realização de obras, volta e meia esse princípio é utilizado. Significa que,
em troca do apoio de um político a alguma lei enviada ao Congresso pelo
Executivo, alguma recompensa o político deve receber.
Esse assunto tão importante e atual tem raízes antigas na história do Brasil,
atravessa a República e permanece em nossa memória. Vamos entender suas
origens?
Vamos acabar com a instabiIidadc! A poIítica dos govcrnadorcs
Os primeiros dez anos da República brasileira caracterizaram-se por inten-
sos conflitos entre diferentes grupos da sociedade: dos representantes políticos
da classe dominante com os militares, dos próprios políticos entre si, e entre os
políticos e o povo. Todos queriam controlar o poder, tinham interesses diversos
e discordavam em suas concepções de como organizar a República.
Acrescente-se a isso a existência de uma crise econômica e financeira
constante, caracterizada por inflação, endividamento externo, gastos excessivos
do governo e declínio dos preços dos produtos de exportação.
Como resolver todos esses problemas?
Depois de muitos conflitos, e com o fortalecimento dos grupos políticos
ligados aos cafeicultores de São Paulo, algumas saídas começaram a ser pensa-
das: a volta dos militares aos quartéis, o controle da participação das camadas
populares e dos conflitos entre grupos dominantes e, por fim, o desenvolvimen-
to de uma política de saneamento da crise financeira.
No fim do governo de Prudente de Moraes (1894-1898), alguns desses
desafios já tinham sido contornados, com a derrota dos militares jacobinos e seu
afastamento do palco dos acontecimentos políticos. Também a revolta de Canu-
dos foi sufocada, eliminando um foco de contestação ao regime na área rural.
°l dando quc sc
rcccbc"
Abcrtura
Movimcnto
21
) 7 )
Mas muito restava para ser feito quando, em 1898, Campos Sales foi eleito
presidente. Era preciso consolidar a República, e o novo governo direcionou sua
atuação para dois objetivos:
a renegociação da dívida externa do país com os banqueiros estrangeiros e
a elaboração de um plano para equilibrar as finanças brasileiras;
adoção da política dos governadores política dos governadores política dos governadores política dos governadores política dos governadores.
Na aula de hoje, vamos estudar a montagem e o funcionamento da política da política da política da política da política
dos governadores dos governadores dos governadores dos governadores dos governadores. Essa política caracterizou a Primeira República, ou República
Velha − o período que se estende de 1889 até a Revolução de 30. O que vem a ser
isso?
A idéia central que presidiu a organização da política dos governadores foi
o compromisso compromisso compromisso compromisso compromisso. Conforme já dissemos, as oligarquias, isto é, os grupos de
políticos que dominavam os Estados, viviam brigando entre si pelo controle do
poder. Essas disputas se expressavam especialmente nos momentos de eleições,
tanto para o Executivo como para o Legislativo, nos municípios, nos Estados e
no país.
Na Primeira República não havia Justiça Eleitoral independente nem voto
secreto. Sempre, ao final das eleições, havia dúvidas acerca de que candidatos
haviam sido legitimamente eleitos. Isso gerava conflitos intermináveis e uma
forte instabilidade do Congresso. E o presidente da República tinha dificuldades
de construir uma base de apoio sólida para garantir a aprovação de seus projetos.
Esse problema não era uma novidade da República, pois conflitos semelhan-
tes já ocorriam no Império. A grande diferença era que no regime monárquico
existia um grande árbitro − o imperador, que, no exercício do Poder Moderador,
controlava os conflitos entre os diferentes grupos e promovia seu revezamento
no poder.
lm tcmpo
O caricaturista retratou
Campos Sales voltando
da Europa e dizendo
aos concidadãos que
havia muita esperança
no futuro da república.
Fonte: Isabel Lustosa
21
) 7 )
Na ausência da Justiça Eleitoral, desenvolveram-se inúmeras formas de
fraude que receberam nomes engraçados. Você conhece as expressões curral curral curral curral curral
eleitoral eleitoral eleitoral eleitoral eleitoral e degola degola degola degola degola?
curral curral curral curral curral eleitoral eleitoral eleitoral eleitoral eleitoral: na República Velha, era um lugar próximo do local de
votação, para onde eram levados os eleitores das áreas rurais, no dia de
eleição. Cada “coronel”, ou chefe local, tinha o seu curral, e aí distribuía aos
eleitores envelopes fechados contendo as células dos candidatos em que
eram obrigados a voltar. Era o voto conhecido como “de cabresto”, porque
o eleitor era dominado por um freio, como uma montaria, ou “marmita”,
porque já vinha pronto. Depois da votação, os eleitores recebiam uma
refeição e eram levados de volta para casa.
degola degola degola degola degola: era a eliminação dos candidatos ao Legislativo que não tinham sido
aprovados pelos governos dos Estados. O problema era que não bastava
ganhar a eleição, era preciso ser confirmado. E nem sempre os vitoriosos
eram aprovados. Ganhavam, mas não levavam!
Embora já se votasse desde o período colonial, o título de eleitor só foi
instituído em 1881. Nele só constavam nome, data de nascimento, filiação,
estado civil e profissão. Mas, note bem, não havia o retrato do eleitor! Essa
situação permaneceu na República, o que dava margem a inúmeras fraudes. No
momento do alistamento, na votação, na contagem dos votos e na elaboração das
atas com os resultados finais das eleições, criavam-se nomes falsos, votavam
defuntos, somava-se errado. Era a chamada eleição a “bico de pena”.
A política dos governadores tinha como objetivo en-
contrar uma saída para esses problemas. Ela deveria, antes
de mais nada, fortalecer a posição do presidente da Repú-
blica e dos governadores de Estado em face dos deputados.
Mas como isso seria feito? Mediante um acordo que elimi-
naria as brigas, mas não necessariamente as fraudes.
No momento das eleições para o Legislativo federal, os
governadores fariam a lista dos candidatos dos seus respec-
tivos Estados que deveriam ser eleitos. Uma vez eleitos,
esses parlamentares tinham a obrigação de apoiar sempre
o presidente da República. Em troca, o governo federal
dava total liberdade ao governador do Estado que o estava
apoiando para controlar seus opositores e promover perse-
guições políticas e violências. Além disso, também eram
concedidos, ao governador, verbas para a realização de
obras e o direito de nomeação para cargos públicos.
Esse tipo de acordo também acontecia entre os gover-
nadores e os chefes municipais − os prefeitos − e entre os
prefeitos e os seus amigos “coronéis”, grandes proprietári-
os rurais que controlavam os eleitores.
Como você pode perceber, existia uma corrente em que
cada um trocava favores com outros. O nome desse acordo
era pacto oligárquico pacto oligárquico pacto oligárquico pacto oligárquico pacto oligárquico. Ele tinha por base o compromisso
coronelístico, ou seja, a troca de favores políticos entre as
oligarquias e os coronéis.
lm tcmpo
O jogo de cartas
marcadas nas
eleições da Primeira
República.
Fonte: Isabel Lustosa
21
) 7 )
Esse tipo de comportamento foi retratado em muitas obras da literatura literatura literatura literatura literatura
brasileira brasileira brasileira brasileira brasileira e em programas de TV programas de TV programas de TV programas de TV programas de TV. A novela Gabriela, inspirada num livro de
Jorge Amado, nos mostra a atuação de vários personagens desse sistema. Ramiro
Bastos, grande fazendeiro de cacau e chefe político do município de Ilhéus,
controla toda a vida local, lidera outros coronéis e persegue duramente seus
adversários políticos, com a concordância do governador.
Você conhece outros exemplos?
O fcdcraIismo dcsiguaI
Mas é importante compreender que nesse acordo entre as oligarquias não
havia uma igualdade em todo o país. Existiam grupos regionais que eram muito
mais poderosos que outros, dependendo dos Estados que controlavam. Por
exemplo: as oligarquias de São Paulo e Minas Gerais tinham uma posição
privilegiada, e por isso esses Estados eram chamados de “primeira grandeza”.
A seguir, tínhamos os Estados de “segunda grandeza”. O Rio Grande do Sul
ocupava uma posição especial nesse grupo, que compreendia ainda os Estados
da Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco. Por fim, vinham os chamados “estados
satélites”, de poder político e econômico reduzido.
Como você pode ver, existia uma hierarquia hierarquia hierarquia hierarquia hierarquia entre os Estados. Conseqüen-
temente, o grau de autonomia de cada um era diferente. De fato, a descentralização
definida pela Constituição de 1891 estabelecia um federalismo desigual, pois os
Estados mais fracos não tinham autonomia e sofriam constantes intervenções do
governo federal, controlado em geral pelas oligarquias de Minas e São Paulo.
Na obra Terras do sem fim, ao relatar conflitos políticos em Ilhéus, o autor
Jorge Amado usa o personagem Virgílio, advogado contratado pelos coronéis,
para anunciar esta ameaça:
O governo estadual se afastava cada vez mais do federal e era certo para
quem tivesse visão que não ia poder se manter no poder nas próximas eleições.
Ou talvez caísse antes. Havia na Bahia quem falasse que haveria intervenção
federal no Estado.
lm tcmpo
lm tcmpo
À esquerda, a
caricatura de
Nogueira Accioly,
“dono do Ceará”.
À direita, caricatura
do oligarca
pernambucano,
Rosa e Silva,
abraçando o Piauí.
21
) 7 )
A política dos governadores foi eficaz porque conseguiu resolver alguns
problemas que ameaçavam a estabilidade da República brasileira. Ao mesmo
tempo, seu funcionamento resultou no enorme fortalecimento dos grupos leais
ao governo − a situação situação situação situação situação − em detrimento dos grupos de oposição oposição oposição oposição oposição. Com isso,
tornava-se praticamente impossível o rodízio do poder, um dos fundamentos do
Estado democrático.
Essa forma de fazer política dificultou muito a organização e o fortalecimen-
to dos partidos políticos no Brasil. Durante a Primeira República, não se desen-
volveram partidos nacionais, apenas partidos regionais, com programas não
definidos. Esses partidos baseavam suas práticas na troca de favores, no “é
dando que se recebe”. Outra conseqüência foi a exclusão da participação política
imposta às camadas populares, que se sentiam pouco estimuladas e muito
restringidas.
É verdade que o crescimento das cidades e a diferenciação das atividades,
especialmente a expansão da indústria e do comércio, permitiram o desenvolvi-
mento de movimentos da classe trabalhadora, como greves, “quebra-quebras”,
iniciativas de organização sindical. Nos centros urbanos, a liberdade de circula-
ção de pessoas e de idéias era muito maior. Mas, com tudo isso, a vida política
não se diferenciava muito daquela que vigorava no interior rural.
Mesmo no Rio de Janeiro, capital da República e principal centro do país, as
eleições, como diz o historiador José Murilo de Carvalho, eram “uma operação
de capangagem”, pois os chefes políticos das diferentes freguesias da cidade
criavam constantes tumultos para evitar a participação de seus opositores,
especialmente se pertencessem às camadas populares.
Hoje vimos o modo de fazer política na Primeira República. Na próxima
aula, examinaremos como os grupos dirigentes brasileiros enfrentaram as
questões econômicas que ameaçavam a estabilidade do regime republicano.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Releia o item Vamos acabar com a instabilidade! A política dos governado- Vamos acabar com a instabilidade! A política dos governado- Vamos acabar com a instabilidade! A política dos governado- Vamos acabar com a instabilidade! A política dos governado- Vamos acabar com a instabilidade! A política dos governado-
res res res res res e explique por que a política dos governadores eliminou as brigas mas
manteve as fraudes.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Dê um novo título a esta aula.
UItimas
paIavras
lxcrcícios
22
) 7 )
Alguém já disse, com razão, que todo
brasileiro é, ou gostaria de ser, técnico de futebol. Basta a seleção brasileira jogar
para todo mundo começar a dar palpite. Somos grandes palpiteiros.
Ultimamente, uma das manias nacionais tem sido falar também sobre a
economia brasileira. Em todos os telejornais existe a figura do comentarista
econômico. Muitos de nós já estão mais familiarizados com a difícil linguagem
dos economistas, o “economês” “economês” “economês” “economês” “economês”. Nestes tempos de sucessivos planos econômi-
cos, de forte presença do Estado na definição dos rumos da economia, muitos
sabem que qualquer medida do governo pode afetar a vida de muita gente. É
natural, por conseguinte, tanto interesse.
Na Primeira República, a história era outra. Política econômica era um tema
para poucos. O café era o eixo fundamental da nossa economia, e o poder público
interferia bem menos que nos dias de hoje.
Nesta aula, veremos como o Estado se fazia presente naquela economia
agroexportadora. Examinaremos ainda os principais fatores responsáveis pela
expansão da indústria nas primeiras décadas do século XX.
SaIvar o cafó
O Império caiu, mas o “rei café” não perdeu a majestade. Na década de 1890,
a produção cafeeira viveu um crescimento vertiginoso. A produção média
aumentou de 6,5 milhões de sacas entre 1891 e 1895 para 11,7 milhões entre 1896
e 1902.
Esse fato certamente está relacionado, entre outros fatores, ao aumento da
procura do produto no plano internacional e, ainda, ao grande movimento de
imigração naquela última década do século XIX.
Entre 1888 e 1900 [ingressaram no Brasil] cerca de 1.400.000 pessoas, das quais
890.000 se fixaram em São Paulo.
João Manuel Cardoso de Mello, João Manuel Cardoso de Mello, João Manuel Cardoso de Mello, João Manuel Cardoso de Mello, João Manuel Cardoso de Mello, O capitalismo tardio, O capitalismo tardio, O capitalismo tardio, O capitalismo tardio, O capitalismo tardio, p. 124 p. 124 p. 124 p. 124 p. 124
Estava finalmente equacionado o problema da falta de braços para a lavoura
cafeeira, que por muito tempo havia atormentado o espírito dos produtores.
lstado c cconomia
na Primcira kcpúbIica
22
) 7 )
Abcrtura
Movimcnto
22
) 7 )
A euforia expansionista logo enfrentaria problemas. O grande aumento da
produção, ao lado da diminuição da procura, foi responsável por uma queda
acentuada dos preços no mercado internacional. O recurso utilizado para
compensar as perdas eram as constantes desvalorizações da moeda nacional que
ocorriam naqueles difíceis anos iniciais da República.
A desvalorização da moeda nacional tem reflexos importantes na economia
de um país. Um deles é o encarecimento dos produtos importados, o que
prejudica os importadores e consumidores desses bens.
Já para os exportadores, a desvalorização torna-se lucrativa, pois lhes
garante mais recursos na conversão da moeda internacional pela nacional.
Assim, naqueles tempos de queda nos preços do café, a desvalorização da
moeda era muito bem vista pelos cafeicultores. Dessa forma, eles podiam manter
suas margens de lucro. Isso não ocorreria se houvesse uma política de valoriza-
ção da moeda, pois eles seriam obrigados a arcar com seus prejuízos.
Essa situação, no entanto, não durou muito tempo. Na gestão do presidente
Campos Sales (1898-1902), adotou-se um rígido programa econômico voltado
para enfrentar os problemas decorrentes do desequilíbrio das contas do governo
e da virtual incapacidade do país de honrar seus compromissos externos.
Para isso, Campos Sales obteve um empréstimo externo de 10 milhões de
libras. Em troca, o governo comprometeu-se a acertar as contas externas e a
estabilizar a economia por meio de uma política contencionista, deflacionária deflacionária deflacionária deflacionária deflacionária,
que retirava parte do papel-moeda de circulação.
Isso significava, também, uma política de valorização da moeda valorização da moeda valorização da moeda valorização da moeda valorização da moeda. Essa
política, como sabemos, afetava a já debilitada debilitada debilitada debilitada debilitada economia cafeeira.
A situação do café tornou-se ainda mais crítica no governo de Rodrigues
Alves (1902-1906). A queda acentuada de preços não abalou a decisão do
presidente da República, que se recusava a proteger o produto por meio da
desvalorização da moeda ou de qualquer outro mecanismo de natureza econô-
mica.
Diante disso, os Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro
reuniram-se na cidade paulista de Taubaté para adotar uma nova política
cafeeira. Foi então assinado o Convênio de Taubaté Convênio de Taubaté Convênio de Taubaté Convênio de Taubaté Convênio de Taubaté (1906), que estabeleceu as
seguintes diretrizes:
a crise era de tal ordem que se fazia necessária a intervenção do intervenção do intervenção do intervenção do intervenção do
poder público no mercado poder público no mercado poder público no mercado poder público no mercado poder público no mercado;
os Estados deveriam obter um empréstimo externo para comprar e estocar comprar e estocar comprar e estocar comprar e estocar comprar e estocar
os excedentes de café os excedentes de café os excedentes de café os excedentes de café os excedentes de café;
era necessário criar mecanismos que impedissem a excessiva valorização excessiva valorização excessiva valorização excessiva valorização excessiva valorização
da moeda da moeda da moeda da moeda da moeda e novas crises de superprodução novas crises de superprodução novas crises de superprodução novas crises de superprodução novas crises de superprodução.
Esboçava-se aí uma política de valorização do café política de valorização do café política de valorização do café política de valorização do café política de valorização do café. Mas, como os Estados
de Minas Gerais e Rio de Janeiro não assumiram de fato a orientação do
convênio, São Paulo tratou de agir. Obteve empréstimos externos e,
em fim de 1907 (...) comprou cerca de 8,2 milhões de sacas [de café], que foram
armazenadas nas principais cidades da Europa e dos Estados Unidos.
Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, História do Brasil, História do Brasil, História do Brasil, História do Brasil, História do Brasil, p. 267 p. 267 p. 267 p. 267 p. 267
lm tcmpo
Desvalorizar
nossa moeda quer
dizer que ela valerá
menos em relação
à moeda de outro
país, no caso,
o dólar.
Deflacionar
quer dizer diminuir
a quantidade de
dinheiro em
circulação. Quanto
mais dinheiro
houver em
circulação, maior
a chance de
aumentar a
inflação.
Pintura a óleo de
Cândido Portinari
22
) 7 )
Só em 1908, no governo do presidente Afonso Pena (1906-1909), o governo
federal avalizou o empréstimo de 15 milhões de libras que o Estado de São Paulo
requereu para intervir com maior rigor no mercado do café.
Os resultados foram imediatos. Já em 1909, os preços começaram a subir e se
mantiveram em alta até 1912. O sucesso do empreendimento consolidou a
presença federal no setor cafeeiro. As crises do café, a partir de então, deixaram
de ser apenas um problema dos cafeicultores e do Estado de São Paulo: transfor-
maram-se em uma questão nacional, assumida pelo governo federal.
A força dos interesses cafeicultores expressou-se também em 1921, quando
novamente o governo federal interveio no mercado e promoveu novas valo- valo- valo- valo- valo-
rizações do produto rizações do produto rizações do produto rizações do produto rizações do produto.
Em síntese, como se percebe, não foram muito fáceis as relações do governo
federal com os interesses do café. Entre 1898 e 1906, o poder público federal optou
por adotar ou manter programas de estabilização econômica. Com isso, teve de
enfrentar fortes pressões do setor cafeeiro, interessado em medidas que prote-
gessem o produto, como a desvalorização da moeda. Após o Convênio de
Taubaté, o setor obteve vitórias expressivas até assegurar a garantia do governo
federal.
A partir daí, a política econômica brasileira adotou uma postura de maior
proteção ao café até meados da década de 1920, quando o Estado de São Paulo
assumiu a defesa permanente do produto.
Nas próximas aulas, você verá que ocorreram novos embates entre o setor
cafeeiro e o governo federal no final da década de 1920.
Tudo isso nos leva a duas importantes conclusões sobre as relações do
Estado com os interesses cafeeiros nas primeiras décadas republicanas. Primei-
ra: eram inegáveis a força e a importância do setor cafeeiro, que teve na elite
política paulista seu principal porta-voz. Segunda: não houve, por parte do
governo federal, mesmo nos governos de presidentes paulistas, uma defesa
intransigente e permanente do café. Ocorreu o que o economista Winston Fritsch
chamou de uma “política cambiante”, que ora agia no sentido de garantir o
equilíbrio econômico, ora protegia o café (Winston Fritsch, Sobre as interpretações
tradicionais sobre a lógica da política econômica na Primeira República, p. 342).
Isso nos leva a crer, portanto, que o governo federal, mesmo reconhecendo
a força do café e atendendo várias vezes às suas reivindicações, não podia deixar
de levar em conta o equilíbrio econômico − e outros interesses que também o
pressionavam, no plano externo e interno.
Fazendeiro de
café inspeciona
a plantação.
22
) 7 )
Explique o que você entendeu por política de valorização do café.
lxpansão industriaI c urbana
Na passagem do século XIX para o século XX, outros produtos primários
se destacaram na nossa pauta de exportações. Dois deles merecem ser citados:
o cacau e a borracha. O primeiro cresceu no sul da Bahia, embalado pelo aumento
do mercado externo.
A produção baiana atingiu a marca de 13.000 toneladas, recriando passageira-
mente, com as importações inglesas, a prosperidade dos latifundiários daquela
região. Logo depois [por volta de 1900], os ingleses, que haviam investido na
Costa do Ouro, sua colônia, deixaram de importar, o que levou à estagnação e
à crise da produção baiana.
Francisco Alencar e outros, Francisco Alencar e outros, Francisco Alencar e outros, Francisco Alencar e outros, Francisco Alencar e outros, História da sociedade brasileira História da sociedade brasileira História da sociedade brasileira História da sociedade brasileira História da sociedade brasileira, p. 191 , p. 191 , p. 191 , p. 191 , p. 191
A produção da borracha na Amazônia não foi muito diferente da do cacau
baiano. Após um breve período de grande expansão, que se prolongou do fim do
século passado até 1914, a produção entraria em franca decadência como
resultado da forte concorrência externa das colônias inglesas, francesas
e holandesas.
Mas, se nessas regiões parecia que a história brasileira se repetia como nos
tempos da América portuguesa, em algumas grandes cidades do Sudeste a
situação era bem diferente.
Vivia-se uma época de transformações nos costumes, no comportamento,
muito impulsionadas pelas novas tecnologias e pelo clima de otimismo
que aqui chegavam.
Era a época do progresso, no mundo e no Brasil.
A euforia tomou conta do planeta. (...) Os povos saúdam, cheios de encantamen-
to, o advento do século XX.
(...) De repente, após milênios de civilização, o homem tinha em seu poder
engenhos inacreditáveis: um carro que anda sem precisar de cavalos, um fio que
instantaneamente transmite mensagens de um continente a outro, uma lâmpa-
da sem gás, nem pavio, um aparelho para conversar com pessoas a longa
distância, outro para tirar retratos perfeitos como um espelho, (...) uma tela
mágica onde são projetadas imagens de pessoas, bichos e coisas movendo-se
animadamente, igualzinho à vida real... E para coroar este festival de deslum-
bramento, vira realidade o mais caro sonho do ser humano: voar!
Nosso Século: 1900-1910, Nosso Século: 1900-1910, Nosso Século: 1900-1910, Nosso Século: 1900-1910, Nosso Século: 1900-1910, p. 55 p. 55 p. 55 p. 55 p. 55
Em meio a tudo isso, cresciam também as atividades industriais, especial-
mente nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. Pouco a pouco, a economia
agroexportadora brasileira se modernizava.
Na Aula 18, vimos que, na segunda metade do século XIX, surgiram
alguns empreendimentos industriais. No final do século, com o avanço da
imigração estrangeira, a atividade industrial brasileira ganhou corpo. As cida-
des cresciam de importância e, com elas, ampliava-se o mercado consumidor.
Foi na maior dessas cidades, o Rio de Janeiro, que a atividade industrial se
desenvolveu com maior força naquele final do século XIX e início do século XX.
lm tcmpo
Pausa
22
) 7 )
Além do mercado consumidor em franca expansão, havia, na capital federal,
comerciantes e banqueiros que se interessavam em investir parte de seus capitais
em novas atividades, como as industriais.
Formaram-se, assim, tanto grandes fábricas produtoras de tecidos e cerveja
e grandes moinhos de trigo como pequenas e médias oficinas produtoras de
calçados.
Em São Paulo, a indústria também acompanhou a expansão da cidade. Boris
Fausto afirma que, de 1890 para 1900,
a população paulistana passou de 64.934 para 239.820 habitantes, registrando
uma elevação de 268% em dez anos...
Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, História do Brasil História do Brasil História do Brasil História do Brasil História do Brasil, p. 286 , p. 286 , p. 286 , p. 286 , p. 286
Esse espetacular crescimento se relacionava ao enorme impulso que o café
alcançara nas terras paulistas naquela passagem do século XIX para o XX.
E, à sombra do café, cresceria a indústria paulista à sombra do café, cresceria a indústria paulista à sombra do café, cresceria a indústria paulista à sombra do café, cresceria a indústria paulista à sombra do café, cresceria a indústria paulista. Vejamos como isso ocorreu.
Como você já deve saber, formou-se
em São Paulo um conjunto de atividades
econômicas que giravam em torno do café.
Alguns autores chamaram esse conjunto,
que envolvia a produção, a distribuição, o
financiamento e a comercialização do pro-
duto, de complexo cafeeiro complexo cafeeiro complexo cafeeiro complexo cafeeiro complexo cafeeiro.
Todas essas atividades foram funda-
mentais para a criação de fatores respon-
sáveis pela expansão industrial. Por
exemplo: com a grande imigração para as
atividades cafeeiras, criava-se um merca-
do consumidor para os produtos industri-
ais; com a expansão das estradas de ferro,
ampliava-se o mercado para o interior do
Estado.
Além disso, os capitais investidos no
café passaram também a ser aplicados na
indústria.
Expansão urbana
no começo do
século XX.
Fonte: Nosso Século
Fábrica em
São Paulo.
22
) 7 )
O papel dos imigrantes na industrialização de São Paulo foi dessa forma
descrito por Boris Fausto:
Os imigrantes surgem nas duas pontas da indústria, como donos de empresa e
operários. (...) Eles tiveram um papel fundamental nas empresas manufatureiras
da cidade de São Paulo, nas quais, em 1893, 70% de seus integrantes eram
estrangeiros.
Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, História do Brasil, História do Brasil, História do Brasil, História do Brasil, História do Brasil, p. 287 p. 287 p. 287 p. 287 p. 287
A indústria paulista, que pela força do café logo tornou-se a mais importante
do país, também se caracterizou como uma indústria de bens de consumo não-
duráveis (tecidos, alimentos).
Com a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), esses ramos da indústria
brasileira ganharam maior força. O conflito internacional diminuía a concorrên-
cia externa e permitia uma ocupação maior do mercado brasileiro por produtos
nacionais.
Mas foi apenas no pós-guerra que se iniciou um processo mais consistente
de mudança do perfil limitado da nossa indústria. Na década de 1920, foi criada
a primeira indústria siderúrgica no país, a Belgo-Mineira. Iniciava-se assim a
implantação da chamada indústria de base indústria de base indústria de base indústria de base indústria de base, fundamental para romper com a
dependência externa e garantir um ritmo mais acelerado de desenvolvimento.
Você saberia dizer quais são os limites de uma industrialização baseada
apenas nos bens de consumo não-duravéis?
Sabe de cabeça?
Ótimo! Responda logo para não esquecer.
Não sabe ainda? Pense um pouco, discuta com seus companheiros de
trabalho, pesquise nos livros de História.
Para finalizar, voltemos ao Estado.
O Estado procurou, muitas vezes, proteger o café. O que dizer de sua relação
com a indústria? O Estado também protegeu, ou simplesmente desconheceu a
importância das atividades industriais?
Essa é uma antiga controvérsia entre os historiadores, que se prolonga até
hoje. Há os que afirmam o caráter inteiramente antiindustrializante da política
governamental, e os que dizem que não era bem assim, que a política de
desvalorização do câmbio encarecia os produtos importados e assim defendia a
indústria nacional.
Em um ponto, porém, há consenso: não havia uma política de estímulos à não havia uma política de estímulos à não havia uma política de estímulos à não havia uma política de estímulos à não havia uma política de estímulos à
indústria indústria indústria indústria indústria. Ela não era a prioridade do governo naquelas décadas de predomínio
da agroexportação.
Na próxima aula, estudaremos um pouco a vida da sociedade industrial
brasileira: o empresariado e o mundo do trabalho. Não perca!
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Releia o item Expansão industrial e urbana Expansão industrial e urbana Expansão industrial e urbana Expansão industrial e urbana Expansão industrial e urbana e explique a frase contida no
texto da aula: “...à sombra do café, cresceria a indústria paulista”.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Releia o item Salvar o café Salvar o café Salvar o café Salvar o café Salvar o café e explique por que os Estados de São Paulo,
Minas Gerais e Rio de Janeiro promoveram uma ampla intervenção no setor
cafeeiro no governo do presidente Rodrigues Alves.
lm tcmpo
UItimas
paIavras
lxcrcícios
lm tcmpo
Chamamos
indústria de base
aquela que cria as
condições para o
desenvolvimento
industrial. São as
que operam a
extração de
minérios para
outros setores
industrias.
23
) 7 )
Vamos viajar hoje pelo mundo da fábrica.
Imagine-se como um trabalhador que ingressa pela primeira vez em uma grande
indústria. Você, como qualquer outro novato, ficaria certamente atordoado com
o barulho daquelas máquinas modernas e com o trabalho incessante dos operá-
rios. Tudo funciona como um relógio; cada minuto é importante; o tempo é
racionalizado; as máquinas ditam o ritmo da produção; o trabalho é coletivo e
disciplinado.
Se, nos dias de hoje, tempo das novas tecnologias e da informática, ainda nos
impressionamos com tudo isso, imagine o impacto que a introdução do sistema
de fábrica deve ter causado muito tempo atrás − na Europa, no início do século
XIX, e no Brasil, cerca de cem anos depois.
Como será que era viver essa nova realidade? Um importante escritor
francês, perplexo com a grande indústria inglesa, assim descreveu o mundo
fabril:
Desta vala imunda a maior corrente da indústria humana flui para fertilizar o
mundo todo. Deste esgoto imundo jorra ouro puro. Aqui a humanidade atinge
o seu mais completo desenvolvimento e sua maior brutalidade; aqui a civilização
faz milagres e o homem civilizado torna-se quase um selvagem.
Alexis de Tocqueville, 1835, citado por Eric Hobsbawm, Alexis de Tocqueville, 1835, citado por Eric Hobsbawm, Alexis de Tocqueville, 1835, citado por Eric Hobsbawm, Alexis de Tocqueville, 1835, citado por Eric Hobsbawm, Alexis de Tocqueville, 1835, citado por Eric Hobsbawm, A era das A era das A era das A era das A era das
revoluções revoluções revoluções revoluções revoluções, p. 43 , p. 43 , p. 43 , p. 43 , p. 43
Nesta aula, vamos estudar algumas características básicas da sociedade
industrial. Vamos ver também como determinados segmentos da sociedade
brasileira viveram todas essas transformações no início do século XX.
Socicdadc industriaI
Charles Chaplin lançou, em 1936, uma de suas obras-primas: o filme
Tempos Modernos. Nele, Chaplin apresenta o mundo moderno industrial de
forma poética e crítica. Há cenas que se tornaram clássicas na história do cinema
mundial; em uma delas, o protagonista, Carlitos, se vê engolido pelas enormes
engrenagens industriais; em outra, enlouquece e sai apertando parafusos imagi-
nários por toda parte. No filme, não são os homens, mas as máquinas que
emitem sons.
23
) 7 )
Abcrtura
Movimcnto
A formação
da socicdadc
industriaI brasiIcira
lm tcmpo
23
) 7 )
Os dramas contidos no filme de Chaplin eram parte constitutiva daquela
nova sociedade urbano-industrial que se gerara na Europa desde a Revolução
Industrial. Com a introdução da máquina no processo produtivo, as sociedades
humanas mudaram o rumo da história, pois tornaram-se
capazes da multiplicação rápida, constante e até o presente ilimitada, de homens,
serviços e mercadorias.
Eric Hobsbawm, Eric Hobsbawm, Eric Hobsbawm, Eric Hobsbawm, Eric Hobsbawm, A era das revoluções A era das revoluções A era das revoluções A era das revoluções A era das revoluções, p. 44 , p. 44 , p. 44 , p. 44 , p. 44
Com a Revolução Industrial, a fábrica transforma-se na sede da nova
sociedade. Nela são geradas muitas mudanças. O trabalho torna-se cada vez
mais coletivo e intenso. O mercado em expansão exige novos métodos que
racionalizem o esforço dos operários. O tempo passa a ser visto como o tempo da
fábrica.
Na sociedade pré-industrial, a noção de tempo era bem diferente. A vida e
o trabalho não tinham o caráter de regularidade como na fábrica. Depen-
dendo da atividade, o trabalhador poderia passar determinadas épocas sem
nenhuma ocupação. Era muito comum o trabalho por tarefas, e muitas pessoas
faziam seu próprio horário.
Essa cultura não condizia com a sociedade industrial. Com a fábrica, criou-
se um discurso em favor do tempo útil, contra a ociosidade. Repare no texto a
seguir:
Preguiça, silenciosa assassina, não mais tenhas minha mente aprisionada
Não me deixes nenhuma hora mais contigo, sono traidor
Citado por Edgar de Decca, Citado por Edgar de Decca, Citado por Edgar de Decca, Citado por Edgar de Decca, Citado por Edgar de Decca, O nascimento da fábrica, O nascimento da fábrica, O nascimento da fábrica, O nascimento da fábrica, O nascimento da fábrica, p. 16 p. 16 p. 16 p. 16 p. 16
Em meio a tudo isso, formava-se o empresariado industrial, que se apro-
priou das idéias baseadas na livre iniciativa livre iniciativa livre iniciativa livre iniciativa livre iniciativa para romper com os monopólios e
entraves produzidos pelo Estado.
As relações de trabalho também sofreram profundas alterações no mundo
da fábrica. Entrou em cena o contrato de trabalho contrato de trabalho contrato de trabalho contrato de trabalho contrato de trabalho entre o empresário e o
trabalhador. Nele, estabeleceu-se um acordo com regras fixas e objetivas (valor
do salário, horas de trabalho, punições).
Agora, a tendência era o afastamento do empresário do contato direto com
seus empregados. Reduziu-se o caráter paternalista tão presente no mundo pré-
industrial. Estavam fixadas as bases da sociedade liberal-capitalista.
Essas transformações não foram vividas sem problemas nas sociedades
européias. Na Inglaterra, no final do século XVIII e início do século XIX, iniciou-
se um movimento de quebra de máquinas; protestava-se contra a perda de
postos de trabalho e contra a rígida disciplina estabelecida pela fábrica; nesse
movimento,
os quebradores de máquinas distinguiram entre aqueles tornos de fiar
(...) apropriados para a produção doméstica, e que não destruíam, e
aqueles outros mais amplos, apropriados exclusivamente para a sua
utilização em fábricas, que destruíam
David Dickson citado por Edgar de Decca, David Dickson citado por Edgar de Decca, David Dickson citado por Edgar de Decca, David Dickson citado por Edgar de Decca, David Dickson citado por Edgar de Decca, O nascimento da fábrica, O nascimento da fábrica, O nascimento da fábrica, O nascimento da fábrica, O nascimento da fábrica, p. 31 p. 31 p. 31 p. 31 p. 31
lm tcmpo
Livre iniciativa
é uma crença
na liberdade de
comércio e
de produção. De
acordo com ela,
cada vez menos o
Estado intervém
nas atividades
econômicas da
sociedade.
23
) 7 )
Gradativamente, o operariado inglês buscou novas formas de organização
para resistir às enormes jornadas de trabalho e às péssimas condições de vida.
Era o início do movimento sindical movimento sindical movimento sindical movimento sindical movimento sindical, que se desenvolveu na Inglaterra e em
vários outros países europeus no decorrer do século XIX.
Paralelamente, surgiram correntes ideológicas anticapitalistas, organiza-
das em movimentos ou partidos políticos, que passaram a exercer forte influên-
cia no movimento sindical. Entre outras, destacaram-se as correntes anarquista anarquista anarquista anarquista anarquista
(que defendia a supressão do Estado) e socialista-marxista socialista-marxista socialista-marxista socialista-marxista socialista-marxista (que propunha a
revolução proletária e a instalação de um governo de trabalhadores).
No final do século XIX e início do século XX, o movimento sindical já ganhara
maior densidade social e política, o que resultou em importantes conquistas para
os trabalhadores.
Primciros industriais no ßrasiI
Como vimos na Aula 22, foi no final do século passado e nas primeiras
décadas do século XX que a indústria tornou-se uma realidade na vida de
algumas cidades brasileiras. A partir daí, iniciou-se a formação da sociedade
industrial brasileira, fruto especialmente da ação de dois novos agentes sociais:
o empresariado industrial e o operariado.
No interior daquela sociedade fundada na agroexportação, cresceram as
primeiras indústrias no Brasil. No país dos bacharéis e dos grandes proprietários
rurais, começava a ganhar forma a figura do industrial. Muitos deles, especial-
mente em São Paulo, eram imigrantes que chegaram ao Brasil com algum capital
e muita disposição de ganhar dinheiro. Outros tinham origem na agroexportação
e nas casas comerciais.
Não foram poucos os problemas enfrentados pelos primeiros industriais.
Um deles era a concorrência externa, em razão da falta de uma política do
governo federal para proteger a indústria nacional. Outro, contraditoriamente,
era a crítica, feita por vários setores, de que a indústria brasileira era “artificial”,
dependente do governo e responsável pela carestia. Finalmente, os industriais
enfrentavam a luta operária por melhores salários e condições de trabalho.
Correntes
ideológicas são
formas de
expressão de
idéias, de
propostas, de
visões de mundo
ou de governo.
Jorge Street, um dos pioneiros da industrialização brasileira.
23
) 7 )
Em meio a tudo isso, os empresários industriais trataram de criar associações
de classe para a defesa de seus interesses. Passaram também a participar de
forma mais ativa no debate sobre o papel da indústria no desenvolvimento
brasileiro. Naquele começo do século XX, destacaram-se alguns políticos e
líderes de classe que defendiam, além de tarifas protecionistas, uma política
governamental de amparo à indústria como forma de reduzir a dependência do
país em relação aos capitais externos.
Perante a opinião pública em geral, e em particular perante os trabalhadores,
os industriais tentavam convencer a sociedade de que seu capital, sua riqueza,
era fruto exclusivamente de seu esforço pessoal, e não de privilégios governa-
mentais. Eram divulgadas histórias de imigrantes que aqui chegaram pobres e
que, com seu suor, alcançaram o sucesso.
Vida opcrária
Fábricas de tecidos em São Paulo. Ano: 1912.Inspeção de funcionários do
Departamento de Trabalho. Trechos do relatório:
Uma fábrica: A duração do trabalho diário é de 11 horas úteis. O
trabalho é interrompido pelo almoço, que dura uma hora e meia, e pelo
café, para o qual os operários têm direito a um quarto de hora. Trabalham
nesta fábrica 500 operários, na maioria italianos e espanhóis. (...)
Impressão desagradável causa ao visitante o excessivo número de meno-
res em trabalho (...).
Outra fábrica: Os contramestres são todos adultos, de nacionalidade
italiana e em número de 20. Entre os 374 operários recenseados, a
nacionalidade predominante é italiana, vindo em seguida a espanhola e
depois a brasileira: dos brasileiros, 44 são menores de 12 anos.
Esqueléticos, raquíticos, alguns! O tempo de trabalho varia para as
seções de onze horas e meia a doze horas e meia por dia. (...).
Boletim do Departamento Estadual do Trabalho citado por Maria Auxiliadora Boletim do Departamento Estadual do Trabalho citado por Maria Auxiliadora Boletim do Departamento Estadual do Trabalho citado por Maria Auxiliadora Boletim do Departamento Estadual do Trabalho citado por Maria Auxiliadora Boletim do Departamento Estadual do Trabalho citado por Maria Auxiliadora
Guzzo de Decca, Guzzo de Decca, Guzzo de Decca, Guzzo de Decca, Guzzo de Decca, Indústria, trabalho e cotidiano Indústria, trabalho e cotidiano Indústria, trabalho e cotidiano Indústria, trabalho e cotidiano Indústria, trabalho e cotidiano, p. 39-40 , p. 39-40 , p. 39-40 , p. 39-40 , p. 39-40
Você, que leu com atenção o documento, percebeu que estamos diante de um
bom ponto de partida para estudar o que era a vida operária naquele início do
século XX. Vejamos algumas informações contidas no relatório acima.
Nas duas fábricas visitadas, há algumas características comuns: predomínio de
estrangeiros entre os operários, longa jornada de trabalho e presença significativa
de menores de idade. Na descrição, percebe-se ainda uma certa crítica à utilização
do trabalho infantil; não há, no entanto, nenhuma menção a multas ou punições.
Esses dados já nos permitem esboçar um breve perfil do operário de São
Paulo naquelas primeiras décadas republicanas. Como veremos adiante, a
composição e a atuação dos operários na cidade do Rio de Janeiro tinham
características um pouco diferentes.
O grande número de estrangeiros entre os operários de São Paulo tem sido
destacado por diversos estudiosos. Com a grande imigração ocorrida no final do
século XIX em direção às fazendas de café, muitos trabalhadores tomaram o
rumo da cidade em busca de melhores condições de vida. Destaca-se a forte
presença de italianos entre os primeiros operários.
O impacto da presença de imigrantes na formação da classe operária em São
Paulo foi expressivo. Foram principalmente eles que difundiram no meio
23
) 7 )
operário as idéias de transformação radical da sociedade pela via revolucionária,
socialista ou anarquista.
O anarquismo ganhou força e logo se transformou na principal corrente
política de base operária. E não era difícil entender por quê.
Naquela sociedade com um mercado de trabalho em formação, em que
praticamente inexistia qualquer proteção ao trabalhador; em que a utilização do
trabalho infantil era justificada como forma de se retirar os meninos da rua; em
que, em suma, eram extremamente duras as condições de trabalho, as idéias de
supressão do Estado supressão do Estado supressão do Estado supressão do Estado supressão do Estado e de todas as formas de repressão todas as formas de repressão todas as formas de repressão todas as formas de repressão todas as formas de repressão encontravam boa
receptividade. Governo e patrões eram vistos como inimigos que deveriam ser
combatidos a todo custo.
Os anarquistas não confiavam nas instituições liberais. Desprezavam os
políticos, os partidos e o parlamento. Defendiam a atuação sindical de resistência
e combatiam tanto as correntes que defendiam a existência de um partido operário
como os sindicatos ou associações de caráter assistencialista. Tiveram ainda um
importante papel nas tentativas de organização operária em nível nacional.
Por tudo isso, as lideranças anarquistas foram bastante perseguidas pelos
empresários e pelo governo. Na grande imprensa, sua imagem era apresentada
como a de um terrorista estrangeiro que vinha destruir a paz existente nas
relações entre os operários brasileiros e seus patrões. Até foram criadas nessa
época leis de expulsão do país de lideranças operárias estrangeiras, com o
objetivo de enfraquecer a corrente anarquista.
Imagem do
anarquista terrorista.
Fonte: Nosso Século
23
) 7 )
A educação do trabalhador era outra preocupação básica do anarquismo.
Para os anarquistas,
a luta só se faria, e principalmente a nova sociedade só se implantaria, se
houvesse uma transformação profunda no homem trabalhador. O que o projeto
anarquista almejava era uma revolução social e não apenas uma revolução
política. Daí o privilégio da educação entendida como ampla formação cultural.
O fato de terem sido os anarquistas os principais pioneiros em atividades como
teatro, educação musical, práticas de leitura, criação de escolas e universidades
populares, não é casual. E, por esta razão, não é casual também que velhos
militantes operários, anarquistas ou não, considerem até hoje que foi educando
que os libertários mais contribuíram para a constituição da identidade da classe
trabalhadora..
Angela Gomes, Angela Gomes, Angela Gomes, Angela Gomes, Angela Gomes, A invenção do trabalhismo A invenção do trabalhismo A invenção do trabalhismo A invenção do trabalhismo A invenção do trabalhismo, p. 92 , p. 92 , p. 92 , p. 92 , p. 92
Já na cidade do Rio de Janeiro, houve maior diversidade entre as correntes
que disputavam o controle do movimento operário. Para o historiador Boris
Fausto, a menor presença do anarquismo na capital pode ser explicada pelo fato
de que o operariado carioca
se concentrava em atividades vitais dos serviços (ferroviários, marítimos e
doqueiros), [sendo por isso] tratados com um mínimo de consideração pelo
governo. Havia também no Rio maior contingente de trabalhadores nacionais
imbuídos de uma tradição paternalista nas relações com os patrões e o governo.
Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, Boris Fausto, História do Brasil, História do Brasil, História do Brasil, História do Brasil, História do Brasil, p. 209 p. 209 p. 209 p. 209 p. 209
Esse fato foi, em parte, responsável também pela emergência de correntes
políticas não revolucionárias, que buscavam menos o confronto e mais a nego-
ciação. Eram chamados, pejorativamente, de “amarelos” pelas tendências mais
radicais.
Everaldo Dias Evaristo de Morais José Oiticica Antonio Piccarolo
Todos esses
homens eram
anarquistas, menos
Antonio Piccarolo e
Evaristo de Morais,
que eram
socialistas.
lm tcmpo
Gigi Damiani Edgard Levenroth Otávio Brandão Astrojildo Pereira
23
) 7 )
A despeito da repressão governamental e patronal e das enormes dificulda-
des de organização daí resultantes, os movimentos sindicais paulista e carioca
tiveram condições, no decorrer da década de 1910, de obter maior apoio entre os
trabalhadores, tornando-se, inclusive, capazes de liderar importantes movi- importantes movi- importantes movi- importantes movi- importantes movi-
mentos grevistas entre os anos de 1917 e 1920 mentos grevistas entre os anos de 1917 e 1920 mentos grevistas entre os anos de 1917 e 1920 mentos grevistas entre os anos de 1917 e 1920 mentos grevistas entre os anos de 1917 e 1920.
Para isso, foi importante a divulgação, pelos anarquistas, de um conjunto de
idéias que procurava reforçar uma imagem positiva do trabalhador como
um homem honesto, mas explorado econômica e socialmente e, por isso mesmo,
digno do maior respeito e atenção por parte da sociedade em geral..
Angela Gomes, Angela Gomes, Angela Gomes, Angela Gomes, Angela Gomes, A invenção do trabalhismo A invenção do trabalhismo A invenção do trabalhismo A invenção do trabalhismo A invenção do trabalhismo, p. 90 , p. 90 , p. 90 , p. 90 , p. 90
Dessa forma, combatia-se a imagem, difundida pelo governo e pela grande
imprensa, que apresentava o trabalhador brasileiro como vítima da ação de
“baderneiros e terroristas”.
A ascensão do movimento sindical brasileiro, é bom lembrar, não foi um fato
isolado: naqueles anos, em boa parte da Europa, explodiam movimentos de
trabalhadores impulsionados pela vitória do socialismo na Rússia. *Por sinal,
como resultado direto da implantação do socialismo naquele país europeu,
criou-se, em 1922, o Partido Comunista do Brasil (PCB) que, em pouco tempo,
passou a disputar, principalmente com os anarquistas, o controle do movimento
sindical.
A maior presença do movimento operário na cena política teve por resultado
a aprovação, pelo Congresso, de algumas leis trabalhistas, como a lei de férias
para trabalhadores da indústria e do comércio e as limitações ao trabalho dos
menores. A regulamentação e aplicação dessas leis encontrou forte resistência
do empresariado.
Vejamos agora, para finalizar, alguns aspectos da vida operária fora das
fábricas e dos sindicatos.
Nas grandes cidades, a habitação típica dos trabalhadores urbanos era a casa
de cômodos ou cortiço, localizada, em geral, em áreas centrais próximas aos
locais de trabalho. Em algumas fábricas mais distantes do centro, e mesmo no
interior, muitas vezes foram criadas vilas operárias que permitiam melhores
acomodações que os cortiços e uma maior possibilidade de controle da mão-de-
obra por parte dos empresários.
Nos cortiços e vilas, os operários utilizavam seu tempo livre nos times de
futebol, nas associações recreativas, casas de jogos, cordões carnavalescos etc.
Vila operária
e chaminé da
Cia. Nacional de
Tecidos de Juta,
em São Paulo.
23
) 7 )
Em seu bairro ou em sua cidade, é possível que exista ainda hoje, funcionan-
do ou não, uma fábrica que foi fundada nas primeiras décadas do século XX. Faça
uma pequena pesquisa sobre ela. Verifique se existia, nas proximidades, uma
vila operária. Anote o ano da fundação da fábrica, seus fundadores, o número de
operários, e como era a vida daquela comunidade.
Às vezes, com algumas entrevistas, você pode conseguir essas e muitas
outras informações.
Nesta aula, vimos que o final do século XIX e as primeiras décadas do século
XX foram anos de mudança no Brasil. A extinção do trabalho escravo, a grande
imigração e ainda os recursos acumulados no comércio e na agroexportação
criaram condições para o surgimento e expansão da indústria em nosso país.
A partir daí, iniciou-se um processo de modernização que teve por base,
fundamentalmente, dois novos atores sociais: o empresariado industrial e o
operariado. O primeiro ganhou força e organização nas lutas contra a tese do
artificialismo da indústria brasileira e ainda nos embates diretos com o movimento
operário. O segundo ator social, o operariado, procurou forjar sua identidade seja
no enfrentamento diário com empresários e forças policiais do governo, seja na
criação de um discurso que construía uma imagem, ou seja, criar sua própria
feição positiva do trabalhador.
O resultado de tudo isso foi a formação de uma sociedade mais diversificada
e complexa que, na década de 1920, passou a se mostrar cada vez mais descontente
com o predomínio dos grupos oligárquicos. É o que veremos nas próximas aulas.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Releia o item Sociedade industrial Sociedade industrial Sociedade industrial Sociedade industrial Sociedade industrial e identifique três características bási-
cas da sociedade industrial.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Releia o item Vida operária Vida operária Vida operária Vida operária Vida operária e caracterize duas correntes políticas que
participaram do movimento operário na Primeira República.
Pausa
ORÇAMENTO FAMILIAR
Em 1918, o salário mensal de um trabalhador rural ou urbano variava entre 80$000 e 120$000.
Segundo pesquisa de Hélio Negro e Edgard Leuenroth, o consumo mínimo de uma família
operária pequena (homem, mulher e duas crianças) nunca era menor que 207$650,
o que obrigava quase todos os seus membros a trabalhar.
lxcrcícios
DESPESAS MENSAIS
ALIMENTAÇÃO
12 kg de arroz de 2ª ........................ 9$600
12 kg de feijão .................................. 4$200
18 kg de batatas .............................. 5$400
15 kg de pão .................................... 7$500
10 kg de farinha de mandioca ......... 4$000
5 kg de macarrão ............................. 5$000
10 kg de carne .............................. 10$000
7 kg de toucinho ou banha ........... 11$200
7,5 kg de açúcar .............................. 7$000
3 kg de café ...................................... 3$000
15 litros de leite ............................... 9$000
Verduras ........................................... 6$000
Cebola, alho, sal,
pimenta, vinagre,
querosene, vassoura etc. ............ 28$000
ALUGUEL
(2 cômodos, com cozinha) ........... 45$000
OUTRAS NECESSIDADES
Sabão ............................................... 6$000
3 sacos de carvão ............................ 9$000
Fósforos, cigarros,
barbeiro e sociedade de
socorros mútuos ........................... 17$000
SOMA MENSAL ................................. 166$900
DESPESAS ANUAIS (VESTUÁRIO)
HOMEM:
2 ternos ......................................... 80$000
2 pares de sapatos ....................... 24$000
2 chapéus ...................................... 14$000
3 camisas ...................................... 12$000
3 ceroulas ......................................... 9$000
Meias etc ....................................... 12$000
MULHER
3 vestidos de chita ........................ 60$000
2 pares de sapatos ou chinelos ... 24$000
3 camisas ...................................... 15$000
3 saias brancas ............................. 21$000
12 pares de meias ........................ 18$000
2 CRIANÇAS
Roupas e calçados ..................... 100$000
DESPESAS ANUAIS (OUTRAS NECESSIDADES)
Móveis, louça e outros objetos .. 100$000
TOTAL DAS DESPESAS ANUAIS........... 489$000
ou seja, por mês ........................... 40$750
SOMA:
DESPESA MENSAL ........................... 166$900
PARCELA MENSAL DA DESPESA ANUAL . 40$750
TOTAL DE GASTOS POR MÊS ............. 207$650
UItimas
paIavras
80$000 lê-se
oitenta mil réis
F
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N
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1
9
1
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1
9
3
0
)
MúduIo 9
A crisc da rcpúbIica
oIigárquica
A Primeira Guerra Mundial, que se desenro-
lou entre 1914 e 1918, marcou o início de um novo tempo. Para alguns historia-
dores, foi a partir daí que começou o século XX.
No Brasil, esse sentimento de mudança, de transformação, também se fez
presente durante e após o grande conflito mundial. Para intelectuais e políticos,
aquela República das oligarquias, que você conheceu nas três aulas anteriores,
mostrava-se incapaz de acompanhar os novos tempos.
Era preciso construir a nação, criar novas referências, repensar a cultura.
No quadro político, os anos 20 foram anos de radicalização. O governo
enfrentaria, a todo momento, levantes e conspirações.
Em 1930, os grupos dirigentes da República oligárquica venceram no voto,
mas perderam nas ruas o controle da vida política. Era a Revolução de 30.
Tudo isso você estudará nas próximas duas aulas.
24
) 7 )
Pátria, morrer por ti
ou pelo menos te
ofertar este ramo
de palavras ardentes.
Vou à rua, peroro
com voz de calça curta
ordeno ao município
que marche resoluto
a combater os boches.
Carlos Drummond de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, 1914 1914 1914 1914 1914
Os versos de Carlos Drummond de Andrade falam da guerra, dos senti-
mentos de um garoto pelo seu país. Num rompante de patriotismo, ele pede a
entrada do país na guerra. A voz desse menino não é um fato isolado.
Em outubro de 1917, quando os submarinos alemães bombardearam os
nossos navios mercantes, ocorreu uma verdadeira explosão de patriotismo.
Nas praças públicas, multidões se acotovelaram exigindo uma posição do
governo.
Todo esse clima de exaltação patriótica já vinha sendo preparado anterior-
mente. Em 1916, Olavo Bilac dera início à campanha cívica. Ele viajou por todo
o Brasil fazendo inflamados discursos em que defendia o serviço militar obriga-
tório e a mobilização do Exército.
O que mobilizava os corações e mentes era a idéia de defender as fronteiras
da nacionalidade. Para esse nacionalismo militarista, defender as fronteiras
significava defender a nossa língua, os nossos costumes e a nossa cultura:
“esta guerra universal e minha”, diz a poesia de Drummond.
Essas idéias fizeram época. Foi por causa delas que o Brasil afinal foi para a
guerra, ao lado dos Aliados. Em defesa da civilização civilização civilização civilização civilização.
Nesta aula, você vai ver como o final da guerra, em 1918, modificou o nosso
país. Mudou o cenário internacional, mudaram as ideologias, mudou o Brasil. É
nessa roda viva que vemos aparecer uma nova imagem do país.
Que imagem é essa?
Você vai ver também o que significou “lutar pela civilização”. Que realidade
estava por trás dessa palavra?
Quando o Brasil entrou na guerra, em 1917, entrou defendendo os ideais da
civilização francesa. A influência dessa cultura era muito forte, não só no nosso
ßrasiI:
a nação rcvisitada
Abcrtura
24
) 7 )
24
) 7 )
país, mas no mundo inteiro. Paris era o centro exportador da literatura, da
pintura, das operetas e dos cafés-concertos.
Esse período da influência francesa durou mais de trinta anos e ficou
conhecido como a Belle Epoque. Os nossos intelectuais viviam voltados para a
“Cidade Luz”, como era chamada Paris.
O escritor Lima Barreto fez uma piada sobre o assunto, dizendo que o
intelectual brasileiro “anda, come, dorme e sonha em Paris”.
O que vinha da França era civilizado. O que estava aqui era primitivo e não
prestava. Essas idéias acabaram quando acabou a guerra. Terminado o conflito,
que durou quatro anos, a Europa já não era a mesma. Ruínas. Desolação. Cidades
inteiras desapareceram. A “Cidade Luz” já não brilhava.
Muita gente perdera a vida, muita gente perdera a ilusão de ver um mundo
melhor. Desmoronara a idéia de progresso indefinido. Desmoronara a Europa
como modelo de civilização e desenvolvimento.
O fim da guerra foi o fim dessa ideologia chamada liberalismo liberalismo liberalismo liberalismo liberalismo. Afinal de
contas, que comunidade era essa, na qual os irmãos se matavam nos campos de
batalha? Que liberdade mais enganosa fazia alguns países enriquecerem à custa
de outros? Que igualdade de condições permitia que uns tivessem todos os
direitos e outros mal conseguissem sobreviver?
Em 1916, um escritor chamado Spengler escreveu um livro que ficou famoso:
A decadência da civilização ocidental. Esse livro anunciava a decadência da
Europa e a aurora do Novo Mundo. Era na América que ia surgir a nova
civilização.
Era mais uma utopia! Mas essa imagem tão promissora teve papel importan-
te. Levou os brasileiros a se olharem. Perplexos, eles chegaram à conclusão de
que quase nada sabiam sobre a nossa cultura!
Mais uma vez foi o escritor Lima Barreto quem chamou a atenção para o fato:
“Nós não nos conhecemos uns aos outros, dentro do nosso próprio país.”
Era necessário encarar o país. Até então, o Brasil tinha, ou desejava ter, a cara
da França. Podia ser uma máscara bonita, de Pierrô. Mas o que estava por trás
dela?
Movimcnto
Utopia é uma
referência
imaginária a uma
situação perfeita.
De tão perfeita, é
sempre irrealizável.
Café no Rio de
Janeiro, onde se
reuniam artistas e
intelectuais.
24
) 7 )
Se nós dermos um salto na história e chegarmos a 1992, vamos ver os
estudantes que saíram de cara pintada para as ruas. Eles reivindicavam um
Brasil melhor e mais justo.
Os caras-pintadas usaram máscaras para expressar o seu protesto. Nas
máscaras dos estudantes estava uma das caras do Brasil dos anos 90.
As expressões variam de acordo com a época...
A década de 1920 foi uma época de intensas inda-
gações e descobertas. Os artistas e intelectuais busca-
ram um novo jeito de expressar o país por meio da
literatura, das artes plásticas, da música e da pintura.
Esse movimento ganhou o nome de modernismo modernismo modernismo modernismo modernismo. O
que é ser moderno ser moderno ser moderno ser moderno ser moderno? É estar de acordo com a moda? É
copiar modelos? Ou será que ser moderno é só se
atualizar atualizar atualizar atualizar atualizar sem precisar copiar?
Eram essas perguntas que estavam na cabeça dos
nossos artistas e intelectuais. Eles queriam atualizar atualizar atualizar atualizar atualizar a
nossa cultura. Mas, para isso, era preciso descobri-la.
O marco simbólico do modernismo brasileiro foi a
Semana da Arte Moderna, que se realizou em São Paulo
em fevereiro de 1922. Mas esse foi só um marco simbó-
lico. O modernismo já vinha acontecendo antes da
Semana e iria continuar acontecendo depois dela, como
vamos ver adiante.
No Rio da Janeiro, desde o final do século XIX, já
se percebia um interesse pela música popular, como o
maxixe, o corta-jaca e as modinhas. Alguns artistas
compreendiam que a cultura negra devia ser respeitada como expressão do
Brasil. Também em São Paulo, Minas e outros Estados essa atitude começava
a existir.
Mas, afinal de contas, o que aconteceu em São Paulo na Semana de Arte
Moderna?
Entre os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal, foram
realizados concertos, exposições, palestras. No seu concerto, o maestro e compo-
sitor Heitor Villa-Lobos causou grande impacto ao incorporar à orquestra
instrumentos de congada, tambores e uma folha vibratória de zinco.
Na época, esses instrumentos eram considerados populares e não deviam
fazer parte de uma orquestra. A congada e os tambores pertenciam às culturas
negra e indígena, vistas como primitivas e bárbaras. Os modernistas mostraram
que eram justamente essas culturas que tornavam o nosso país original e
diferente.
Esse era o espírito do movimento: mostrar uma nova imagem do país, uma
nova fisionomia cultural. O que antes era escondido, agora era mostrado. Por que
negar as culturas africana e indígena, se elas faziam parte da nossa realidade?
Na Semana de Arte Moderna também foram expostas as pinturas de Anita
Malfatti, Di Cavalcanti, Goeldi. Mário de Andrade, Oswald de Andrade e
Ronald de Carvalho apresentaram ao público os seus escritos.
lm tcmpo
24
) 7 )
A Semana funcionou como um estopim. A arte buscava refletir as transfor-
mações por que passavam o mundo e o país. Em meio a um acelerado processo
de industrialização e urbanização, surgiam nas grandes cidades edifícios, letrei-
ros luminosos, viadutos, máquinas e fábricas.
O tempo corria mais rápido. A arte precisava acompanhar o “fluxo da vida
moderna”, diziam os modernistas. Para isso, era necessário mudar a maneira
tradicional de se expressar. Mais ousadia criativa, mais rebeldia e menos
formalidade. Mas era necessário, também, responder a algumas perguntas.
Que país é este? Quem somos nós? Os modernistas contaram uma outra
história do Brasil. Não aceitavam mais a história “balofa” dos heróis, dos grandes
feitos, dos monumentos e medalhas, e então usaram o humor humor humor humor humor e a sátira sátira sátira sátira sátira.
A história que contaram falava da cobiça dos povos, da exploração dos índios e
negros, da depredação de nossas riquezas. Vejamos como Oswald de Andrade
contou sua “História pátria”:
Lá vai uma barquinha carregada de
aventureiros
Lá vai uma barquinha carregada de
bacharéis
Lá vai uma barquinha carregada de
cruzes de cristo...
Essas barquinhas eram as caravelas da colonização portuguesa, escrevendo
a nossa história. Uma história de altos e baixos, aventura e violência, amor e ódio.
Mas repare como essa história era contada agora com humor e criatividade! Esse
era o estilo dos modernistas.
Oswald de Andrade (sentado no chão), em foto com outros
organizadores da Semana de 22.
24
) 7 )
Em 1928, Mário de Andrade publicou Macunaíma, cujo personagem-
título era a cara do Brasil. Macunaíma nasceu índio, depois virou negro e depois
branco. Essa era a imagem do nosso país na sua diversidade de culturas.
Macunaíma sobrevoou o país num pássaro chamado tuiuiú. Ele viu o país
lá do alto. Viu como as regiões são diferentes, mas viu também que são essas
diferenças que fazem o Brasil.
Mário de Andrade mostrava que nós não somos completamente brancos,
nem completamente negros, nem completamente índios. Somos um povo em
formação. Com muito mais perguntas do que respostas...
Mas os escritores modernistas não pensavam sempre igual. Dentro do
movimento existia um grupo chamado Verde Amarelo, ao qual pertencia o
escritor Cassiano Ricardo. Na mesma época em que Mário de Andrade escreveu
Macunaíma, Cassiano Ricardo escreveu Martim Cererê. O personagem-título era
agora um herói bem comportado, sério e patriota. Você se lembra do nacionalis-
mo de Olavo Bilac? Pois Martim Cererê era uma espécie de soldado sempre
defendendo as nossas fronteiras. Ele não olhava do alto, como Macunaíma.
O que estamos querendo mostrar é como o modernismo iria construir
diferentes visões da nacionalidade. Alguns viam o país como uma interrogação,
um desafio. Já outros preferiam vê-lo como realidade pronta a ser louvada em
versos. Mas, apesar dessas diferenças, o modernismo teve um saldo muito
positivo: mostrou como era importante pensar a nossa cultura e ousar novas
formas de expressão.
Desenho de
Cícero Dias para
o livro Macunaíma.
24
) 7 )
O jeito rebelde que caracteriza a maior parte dos artistas modernistas é uma
marca da nossa cultura. Ela reaparece na década de 1970 com o movimento
tropicalista.
Também na música de Raul Seixas vemos essa atitude de indagação:
Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo...
Essa foi uma das propostas do modernismo: acabar com as velhas opiniões
sobre o Brasil, sobre a nossa cultura. Ser moderno era estar a par das inovações
artísticas e intelectuais. Mas ser moderno era, sobretudo, absorver essas informa-
ções de forma criativa e crítica.
A cultura exprime o jeito de ser de cada nacionalidade. Ela não está só nos
livros, mas nas cirandas, vaquejadas, marujadas; está no vatapá, tacacá, arroz de
cuxá; nas histórias de botos encantados, da mula sem cabeça, do Saci Pererê.
Também são cultura o casario colonial, as igrejas barrocas e as carrancas do rio
São Francisco...
O que o modernismo mostrou é que a cultura não está apenas nas grandes
cidades, mas nas várias regiões brasileiras. Na década de 1930, o modernismo
tomou grande impulso no Nordeste. Foi o movimento do regionalismo literário regionalismo literário regionalismo literário regionalismo literário regionalismo literário.
Os romances de Jorge Amado falam da Bahia, José Lins do Rego descreve os
engenhos de açúcar; Graciliano Ramos conta a vida de Alagoas, Érico Veríssimo
a do Rio Grande do Sul. Já em Pernambuco é Gilberto Freyre quem busca uma
nova interpretação sociológica para a cultura brasileira. Esse movimento deu
origem a uma nova imagem nova imagem nova imagem nova imagem nova imagem do Brasil.
Na década de 1920, os nossos artistas e intelectuais estavam construindo
uma nova imagem do Brasil. Nessa imagem, eles mostraram que o Brasil se
caracterizava por muitas culturas.
Dê uma olhada no texto e responda: que cara ou que caras você acha que o
Brasil deve ter? Brasil-Pierrô? Brasil-Macunaíma? Brasil-Cererê? Brasil-cara-
pintada?
Explique por que você escolheu uma dessas caras como expressão do país.
Nesta aula, vimos como as mudanças ocasionadas pela Primeira Guerra
Mundial afetaram culturalmente o nosso país. Vimos também como os nossos
artistas e intelectuais construíram uma nova imagem do Brasil, de acordo com
os tempos modernos.
Mas os efeitos da guerra não pararam por aí. Em 1929, a crise econômica
mundial gerou uma onda de desemprego nos campos e fábricas. O governo
republicano caiu no descrédito popular.
É dessa crise política que vamos falar na nossa próxima aula...
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Explique a frase de Lima Barreto: “O intelectual brasileiro anda, come,
dorme e sonha em Paris”.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Identifique uma proposta do movimento modernista.
lm tcmpo
lxcrcícios
UItimas
paIavras
Pausa
Interpretação
sociológica quer
dizer interpretação
mais fiel às
características de
uma sociedade.
2S
) 7 )
2S
) 7 )
Os anos 20 trouxeram profundas transfor-
mações para a sociedade brasileira. Nessa década se manifestaram a crise do
pacto oligárquico pacto oligárquico pacto oligárquico pacto oligárquico pacto oligárquico, a demanda de maior participação política dos setores urbanos
e a insatisfação dos militares.
O ano de 1922, em especial, reuniu uma sucessão de acontecimentos que
mudaram de forma significativa o panorama político e cultural do país. Não foi
apenas o ano da Semana da Arte Moderna. Foi também o ano de uma disputada
sucessão presidencial que revelou divergências sérias entre as oligarquias, o ano
da criação do Partido Comunista do Brasil, e o ano do início do movimento
tenentista.
O ano do centenário da Independência indicava, em suma, que novos ventos
estavam soprando sobre o país.
As oIigarquias dcsafinam
Vamos começar a aula de hoje estudando a crise do acordo entre as oligar-
quias, manifestada na sucessão presidencial de 1922. Na Aula 21, você estudou
o pacto oligárquico. Volte lá e confira.
Você aprendeu também que a política dos governadores, com o propósito de
reduzir a instabilidade política que ameaçava a República brasileira, neutralizou
as oposições oposições oposições oposições oposições e criou mecanismos para garantir que as forças da situação situação situação situação situação
fossem sempre vitoriosas.
O resultado foi que, durante vários anos, as eleições para presidente da
República tiveram um candidato único, oficial, e não houve uma verdadeira
disputa eleitoral. A exceção foi a sucessão presidencial de 1910 sucessão presidencial de 1910 sucessão presidencial de 1910 sucessão presidencial de 1910 sucessão presidencial de 1910, quando Rui
Barbosa, candidato de oposição ao marechal Hermes da Fonseca, lançou a
Campanha Civilista e foi derrotado. Após as eleições, contudo, não houve
contestação dos resultados finais.
Já em 1922, a situação seria diferente. Pela primeira vez, o confronto entre os
grandes Estados e os Estados de segunda grandeza se apresentou claramente
numa disputa pela presidência da República, revelando os conflitos regionais
entre as oligarquias e os problemas do federalismo desigual brasileiro.
Esse confronto assumiu sua forma plena com o movimento da Reação Reação Reação Reação Reação
Republicana Republicana Republicana Republicana Republicana, que lançou a candidatura dissidente de Nilo Peçanha em oposição
à candidatura oficial de Artur Bernardes. Enquanto Bernardes contava com
Abcrtura
Movimcnto
Os anos Ioucos: a crisc
da dócada dc 1920
2S
) 7 )
o apoio de Minas Gerais, São Paulo e pequenos Estados, uniram-se em torno
da Reação Republicana Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco
e Distrito Federal. Esses Estados tentavam construir um eixo alternativo eixo alternativo eixo alternativo eixo alternativo eixo alternativo
de poder de poder de poder de poder de poder.
A plataforma da Reação Republicana defendia a regeneração dos princípios
republicanos e a formação de partidos políticos nacionais. Criticava a forma
como se desenvolvia o federalismo no Brasil, que beneficiava apenas os grandes
Estados.
Para enfrentar a ameaça permanente que rondava a candidatura da oposi-
ção, que antes mesmo da disputa já tinha sua derrota traçada, a Reação Republi-
cana desencadeou uma forte propaganda eleitoral, coisa pouco comum nas
eleições da Primeira República. E, o que é muito importante, buscou também
apoio militar.
No carnaval de 1922, às vésperas das eleições presidenciais, a população
carioca, engajada na campanha eleitorial, cantava a seguinte marchinha: “Ai, seu
Mé! Ai, Mé, Mé! Lá no Palácio das Águias, olé! Não hás de pôr o pé!”
O Palácio das Águias era o Catete, sede do governo.
E “seu Mé” era o apelido de Artur Bernardes...
Os miIitarcs voItam à ccna
Apesar do clima de intensa agitação política que marcou os primeiros meses
de 1922, as eleições se realizaram na data prevista, em 1 de março. Os resultados
eleitorais, controlados pela máquina oficial, deram a vitória a Bernardes, com 466
mil votos, contra 317 mil de Nilo Peçanha. Mais uma vez, o esquema eleitoral
vigente na República Velha funcionou para garantir a vitória do candidato
da situação.
Mas, diferentemente das eleições anteriores, a oposição não aceitou
a derrota. A Reação Republicana desencadeou uma campanha para manter
a mobilização dos seus aliados e estimular a insatisfação militar. A falta
de prestígio e poder que os militares enfrentavam havia algum tempo era
a responsável por essa insatisfação.
Os militares ocuparam, sem dúvida, um lugar importante durante toda a
Primeira República (1889-1930). Mas a força que tiveram na primeira década
republicana, ou seja, de 1889 a 1899, foi decrescendo, consideravelmente,
depois. O fechamento da Escola Militar da Praia Vermelha após sua
última revolta, em 1904, e a criação da Escola Militar do Realengo
alteraram profundamente a formação da oficialidade do Exército.
O propósito da nova escola não era formar soldados-cidadãos, com
um pé no Exército e outro na sociedade e na política. A idéia era
formar soldados profissionais.
Contudo, uma série de incidentes ocorridos no início dos anos 20
iria recolocar na ordem do dia a participação dos militares na política.
Um desses incidentes foi o episódio das chamadas “cartas falsas”,
que estourou ainda antes das eleições presidenciais, e permitiu que
dois movimentos distintos, a rebeldia militar e a Reação Republicana,
se articulassem para contestar as estruturas políticas da Primeira
República.
lm tcmpo
Arthur Bernardes.
2S
) 7 )
Você sabe o que eram essas famosas “cartas falsas”? Eram cartas que haviam
sido supostamente enviadas pelo candidato Artur Bernardes ao líder político
mineiro Raul Soares, contendo ácidas críticas à corporação militar. O conteúdo
de uma das cartas era o seguinte:
Estou informado do ridículo e acintoso banquete dado pelo Hermes [referência
à comemoração da posse do marechal Hermes da Fonseca na presidência do
Clube Militar], esse sargentão sem compostura, aos seus apaniguados e de tudo
que nessa orgia se passou. Espero que use de toda energia (....) pois esta canalha
precisa de uma reprimenda para entrar na disciplina (...). A situação não admite
contemporizações, os que forem venais, que é a quase totalidade, compre-os com
todos os seus bordados e galões.
lm tcmpo
A Marcha dos 18
do Forte de
Copacabana.
Mapa do
trajeto da
Coluna
Prestes.
2S
) 7 )
lm tcmpo
A publicação dessas cartas, em outubro de 1921, pelo Correio da Manhã,
jornal carioca que apoiava a Reação Republicana, caiu como uma bomba, criando
uma indisposição completa entre o candidato da situação e segmentos militares.
Bernardes venceu a eleição, mas estava preparado o caminho para a eclosão da
primeira revolta tenentista, em julho de 1922.
O tenentismo foi um conjunto de movimentos militares que se desenvolve-
ram ao longo de toda a década de 1920, até 1932, liderados pela jovem oficiali- jovem oficiali- jovem oficiali- jovem oficiali- jovem oficiali-
dade das forças armadas dade das forças armadas dade das forças armadas dade das forças armadas dade das forças armadas. Os chamados “tenentes” tinham como objetivo
moralizar os costumes políticos, defender o voto secreto e advogar a criação de moralizar os costumes políticos, defender o voto secreto e advogar a criação de moralizar os costumes políticos, defender o voto secreto e advogar a criação de moralizar os costumes políticos, defender o voto secreto e advogar a criação de moralizar os costumes políticos, defender o voto secreto e advogar a criação de
um Estado centralizado que pudesse modernizar o país um Estado centralizado que pudesse modernizar o país um Estado centralizado que pudesse modernizar o país um Estado centralizado que pudesse modernizar o país um Estado centralizado que pudesse modernizar o país.
Esse primeiro levante foi derrotado, assim como o foram as iniciativas de
contestação da Reação Republicana. Em novembro de 1922, Bernardes tomou
posse como presidente da República sob estado de sítio, desencadeando forte
repressão contra todos aqueles que se haviam oposto à sua candidatura.
Desse modo, as oligarquias conseguiram temporariamente administrar sua
crise interna e neutralizar os conflitos dos setores urbanos, que pleiteavam maior
participação política. Em 1926, nova sucessão presidencial ocorreria sem maio-
res problemas, tendo como candidato único Washington Luís, governador de
São Paulo.
Se a pacificação dos grupos oligárquicos foi conseguida rapidamente com a
marginalização, mais uma vez, das oposições, os levantes tenentistas continua-
ram ainda por algum tempo. Em 1924 eclodiu a revolta de São Paulo, e a seguir
teve início a marcha da Coluna Prestes Coluna Prestes Coluna Prestes Coluna Prestes Coluna Prestes, movimento militar desencadeado
contra o governo Bernardes.
A Coluna Prestes originou-se de um grupo de militares rebeldes que tinham
participado de levantes contra o governo federal em 1924, no Rio Grande do Sul
e em São Paulo. Formou-se em dezembro daquele ano e percorreu a pé cerca de
30 mil quilômetros, por treze Estados, com o objetivo levar uma mensagem
revolucionária a todo o país.
Expressão mais radical dos movimentos militares da década de 1920 que
pleitearam reformas políticas, a Coluna Prestes foi combatida por diferentes
adversários arregimentados pelo governo federal, mas venceu grande parte dos
combates que travou.
Ainda assim, em 1927, contando com poucos remanescentes, refugiou-se na
Bolívia e depôs as armas.
l chcgaram os gaúchos
O governo de Washington Luís iniciou-se em clima de estabilidade política
e econômica. Como já vimos, os desafios colocados pelas oligarquias no início da
década de 1920, questionando a maneira como funcionava a política dos
governadores, pareciam estar resolvidos definitivamente.
Mas era apenas uma impressão. Logo, novas nuvens se formaram anuncian-
do tempestade... Era a Revolução de 1930 que se aproximava.
Em 1929, iniciou-se mais um vez um processo de sucessão presidencial.
Tudo indicava que as regras que norteavam o funcionamento da política na
Primeira República seriam mais uma vez cumpridas − as forças da situação, por
meio do presidente da República, indicariam o candidato oficial, que deveria ser
apoiado por todos os grupos dominantes nos Estados.
Estado de
sítio: suspensão
temporária de
direitos individuais
e coletivos
previstos na
Constituição de
um país.
2S
) 7 )
lm tcmpo
Mas, dessa vez, o “racha” não se deu entre candidatos representantes dos
Estados dominantes e dos Estados de segunda grandeza. Aconteceu no coração
do próprio grupo dominante. Washington Luís desejava fazer seu sucessor e
indicou Júlio Prestes − que, como ele, era representante de São Paulo. Acontece
que Minas acreditava estar no direito de ocupar a presidência da República.
Essa divergência entre Minas e São Paulo logo abriu espaço para que outras
divergências latentes, sufocadas no passado, pudessem ressurgir. E a oligar- oligar- oligar- oligar- oligar-
quia gaúcha quia gaúcha quia gaúcha quia gaúcha quia gaúcha não ia perder essa oportunidade.
Em julho de 1929, com o apoio mineiro, foi lançada a candidatura do gaúcho
Getúlio Vargas, tendo como vice o governador da Paraíba, João Pessoa. Estava
formada a Aliança Liberal Aliança Liberal Aliança Liberal Aliança Liberal Aliança Liberal, cuja base de sustentação eram Minas, Rio Grande
do Sul, Paraíba e mais alguns grupos de oposição ao governo federal de
vários Estados − tais como o Partido Democrático de São Paulo e outros
grupos de civis e militares descontentes.
A plataforma da Aliança Liberal estava voltada para conquistar a
simpatia das classes médias e de alguns setores operários. O programa
propunha medidas de proteção ao trabalhador (aplicação de lei de férias,
regulamentação do trabalho do menor e da mulher) e a reforma política do
país (voto secreto, justiça eleitoral e anistia aos presos políticos).
11 - João Pedro
12 - Paulo Krüger da
Cunha Miranda
13 - Ari Salgado Freire
14 - Nélson Machado
15 - Manuel Lima
Nascimento
16 - Sadi Vale Machado
17 - André Trifino Correia
18 - Ítalo Landucci
1 - Miguel Costa
2 - Luís Carlos Prestes
3 - Juarez Távora
4 - João Alberto
5 - Siqueira Campos
6 - Djalma Dutra
7 - Cordeiro de Farias
8 - José Pinheiro Machado
9 - Atanagildo França
10 - Emídio da Costa Miranda
2S
) 7 )
lm tcmpo
A acirrada disputa eleitoral iniciada em 1929 seria agravada pela profunda
crise econômica mundial. Essa crise foi provocada pela quebra, em outubro, da
bolsa de Nova Iorque.
No final do ano, já havia centenas de fábricas fechadas no Rio e em São Paulo,
e mais de um milhão de desempregados em todo o país. A crise atingiu também
a cafeicultura paulista, provocando uma queda dos preços do café e liquidando
o programa de estabilização financeira do governo.
As eleições se realizaram em março de 1930 e, conforme era esperado, a
vitória coube a Júlio Prestes, que recebeu 1.091.000 votos contra 737 mil dados a
Getúlio Vargas.
Nas eleições de 1930, o Bloco Operário Camponês (BOC), patrocinado pelo
Partido Comunista, lançou um candidato a presidente da República. Obteve
uma votação simbólica, mas que expressava a demanda concreta de participação
política das classes trabalhadoras.
Divulgados os resultados, parecia mais uma vez que a regra de ouro da
política dos governadores seria mantida, e que a vitória do candidato oficial seria
reconhecida. Mas, em pouco tempo, estava em marcha um movimento
conspiratório para depor Washington Luís pela força das armas e liquidar o
regime oligárquico da Primeira República.
Um acontecimento inesperado deu força à conspiração revolucionária. Em
26 de julho, João Pessoa foi assassinado em Recife e, assim, transformado em
mártir. Nos meses seguintes cresceu a articulação revolucionária, com a adesão
de importantes quadros do Exército. O comando geral do movimento armado foi
entregue ao tenente-coronel Góis Monteiro.
Comício da
Aliança Liberal.
2S
) 7 )
A revolução estourou em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul em 3 de
outubro de 1930. Depois de algumas resistências, a situação no Nordeste
também pendeu para os revolucionários. A 24 de outubro, os generais Tasso
Fragoso, Mena Barreto e Leite de Castro e o almirante Isaías de Noronha
depuseram o presidente Washington Luís no Rio de Janeiro e constituíram uma
junta provisória de governo.
A junta tentou permanecer no poder, mas a pressão dos revolucionários
vindos do Sul e das manifestações populares obrigaram-na a entregar o poder a
Getúlio Vargas, que tomou posse na presidência da República a 3 de novembro
de 1930.
Estava encerrada uma fase da história política brasileira, com o fim da
República Velha.
Segundo Boris Fausto, um dos principais estudiosos da Primeira República,
a Revolução de 1930 não foi feita por representantes de uma suposta
nova classe social: a classe média ou a burguesia industrial (...). Os
vitoriosos de 30 compunham um quadro heterogêneo tanto do ponto de
vista social como político. Eles tinham-se unido contra um mesmo
adversário, com perspectivas diversas.
A heterogeneidade dos grupos revolucionários e a dificuldade de cada um
se sobrepor aos demais criariam problemas para a reorganização do novo Estado
brasileiro. Esse assunto será objeto da nossa atenção na próxima aula.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Releia o item As oligarquias desafinam As oligarquias desafinam As oligarquias desafinam As oligarquias desafinam As oligarquias desafinam e explique o que foi a Reação
Republicana.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Releia o item Os militares voltam à cena Os militares voltam à cena Os militares voltam à cena Os militares voltam à cena Os militares voltam à cena e explique as principais
propostas do movimento tenentista.
UItimas
paIavras
lxcrcícios
Você pôde ver, pelas aulas anteriores, que a sociedade brasileira ganhou
uma vibração importante nas primeiras décadas deste século. A efervescência
dos anos 20 não ficou reduzida ao panorama cultural, que foi riquíssimo.
Também tomou conta da política, pela voz de novos atores, de grupos de
oposição aos velhos costumes. Parecia que viveríamos prolongados tempos de
participação. Parecia que experimentaríamos o momento democrático.
Mas não se faz uma democracia da noite para o dia.
Nas próximas três aulas você vai aprender como, em nosso país, os políticos
resistiram à experiência democrática.
MúduIo 10
Tcmpos sombrios
da dcmocracia
26
) 7 )
Na Aula 25 você viu que, graças ao movi-
mento conhecido como Revolução de 30 Revolução de 30 Revolução de 30 Revolução de 30 Revolução de 30, Getúlio Vargas tornou-se presidente
da República. E agora vai ver como, durante quinze anos consecutivos, ele
manteve esse título.
Mas, afinal, o que foi a Revolução de 30? Quais as forças vitoriosas em 30 e
que projetos estavam em disputa? Quais as principais transformações ocorridas
no país? Como foi possível a permanência de Vargas no poder durante quinze
anos?
A kcvoIução dc 30 c o novo pcrfiI do lstado
Com a Revolução de 30, o Brasil transformou-se. Modificações importantes
ocorreram nos campos político, econômico e social. Uma das primeiras medidas
adotadas pelo governo revolucionário foi o fechamento do Congresso Nacional
e das assembléias legislativas estaduais e municipais.
Getúlio Vargas passou a governar por meio de decretos-leis. Limitou o poder
dos Estados. Os governadores, que haviam sido eleitos pelo voto direto, foram
substituídos por interventores nomeados diretamente pelo presidente da Repú-
blica. O Executivo federal tornou-se todo-poderoso. Uma ditadura ditadura ditadura ditadura ditadura foi instalada
no país.
Diferentemente da República Velha, o Estado implantado no pós-30 era mais
intervencionista e mais centralizador. Havia maior integração nacional e menor
autonomia estadual. As tradicionais oligarquias rurais continuaram fortes, mas
foram vendo seu poder diminuído a cada dia.
A economia permaneceu voltada basicamente para a agricultura, mas havia
uma preocupação em acelerar a industrialização do país. O papel das Forças
Armadas, em especial do Exército, foi redimensionado. Além de garantir a
ordem interna, as Forças Armadas deveriam ser um suporte para a criação de
uma indústria de base nacional.
A questão social, considerada na República Velha como “caso de polícia”,
passou a ser vista como uma questão política. Reconhecia-se a importância da
classe operária. Ao mesmo tempo que adotava uma legislação que atendia a
antigas reivindicações dos trabalhadores, o governo passou a intervir na ativi-
dade sindical.
As inccrtczas da
dcmocracia
26
) 7 )
Abcrtura
Movimcnto
Quando o
presidente governa
por decretos-leis,
ele toma para si,
como presidente,
as funções que
cabem ao
Poder Legislativo.
26
) 7 )
Os sindicatos ficavam vinculados diretamente ao Ministério do Trabalho.
Adotou-se o princípio da unicidade sindical: legalmente, só era possível a
existência de um único sindicato por categoria profissional.
A sindicalização não era obrigatória. Mas, se a sindicalização não era
obrigatória, por que o movimento operário aceitou esse enquadramento?
No início, a resistência contra o enquadramento sindical foi grande. Houve
muitos protestos e, conseqüentemente, muitas prisões. Mas, aos poucos, os
trabalhadores foram cedendo. Além da repressão governamental, houve pres-
são das próprias bases operárias. Isso porque só os trabalhadores que fossem
oficialmente sindicalizados poderiam gozar dos benefícios sociais criados no
pós-30: férias, regulamentação do horário de trabalho, regulamentação do
trabalho do menor, criação dos institutos de Aposentadoria e Pensões e possibi-
lidade de lutar por direitos perante as Juntas de Conciliação e Julgamento.
Você conhece os direitos sociais que você tem como trabalhador? Liste
quais são os seus direitos e verifique se estão sendo cumpridos.
Ditadura X dcmocracia: a rcconstitucionaIização do país
Conforme você viu na aula anterior, os vitoriosos em 1930 compunham
um quadro heterogêneo. Diferentes forças políticas e variados segmentos
sociais haviam participado da revolução. À medida que o governo Vargas
adotou propostas mais centralizadoras e autoritárias, setores mais liberais
começaram a fazer oposição ao regime.
Em julho de 1932, São Paulo levantou-se em armas. Os paulistas sentiam-se
preteridos pelo governo federal. Exigiam o fim da ditadura e maior autonomia
estadual. Afinal, São Paulo, o Estado mais poderoso da federação, vinha perden-
do poder político.
Pausa
Getúlio Vargas em
caravana pela
Revolução de 1930,
saindo de Porto
Alegre em direção ao
Rio de Janeiro.
26
) 7 )
A chamada Revolução Constitucionalista de 1932 Revolução Constitucionalista de 1932 Revolução Constitucionalista de 1932 Revolução Constitucionalista de 1932 Revolução Constitucionalista de 1932 mobilizou os mais
variados setores da sociedade: cafeicultores, classe média, industriais. O Partido
Democrático, uma das principais forças da Revolução de 30, também
aderiu ao movimento. A luta durou três meses.
São Paulo foi derrotado militarmente, mas conseguiu importantes ganhos
políticos. O processo de constitucionalização do país acelerou-se. Em maio de
1933 ocorreram as eleições para a Assembléia Nacional Constituinte, instalada
no dia 15 de novembro do mesmo ano.
A nova Constituição, aprovada em julho do ano seguinte, foi orientada
predominantemente por princípios liberais-democráticos. Ampliou os direitos
políticos da população, estabeleceu eleições diretas para todos os níveis. Pela
primeira vez na história do Brasil, as mulheres podiam votar.
A Constituição também retomou o princípio da liberdade e da autonomia
sindical, existente no país antes de 1930. O Brasil era definido como uma
República federativa. Projetos mais centralizadores conviviam com projetos que
asseguravam mais poder aos estados.
Adotavam-se algumas medidas nacionalistas. As jazidas minerais e quedas
d’ água, julgadas básicas para a defesa econômica ou militar do país, deveriam
ser nacionalizadas progressivamente.
A Assembléia Nacional Constituinte foi instalada com a finalidade de
elaborar uma nova Constituição para o país e eleger um presidente da República.
Em julho de 1934, Getúlio Vargas foi eleito presidente da República com a
maioria dos votos dos deputados constituintes.
Com o encerramento dos trabalhos, a Assembléia Nacional Constituinte foi
transformada em Congresso ordinário. As eleições diretas para a presidência da
República estavam marcadas para 3 de janeiro de 1938.
De acordo com as regras estabelecidas, Vargas não podia ser candidato. Para
modificar a Constituição era necessário o apoio de 2/3 do Congresso. Em seu
primeiro discurso como presidente constitucional, Vargas não escondeu sua
insatisfação com a nova Constituição e privadamente disse: “Serei o primeiro
revisor dessa Constituição.”
MobiIização popuIar c Iimitcs do IibcraIismo
A Constituição liberal de 1934 teve, na realidade, vida curta. Com o fim da
Primeira Guerra Mundial, idéias autoritárias e totalitárias proliferaram em todo
o mundo. A democracia liberal entrou em crise. Era responsabilizada pela
situação de desemprego e de miséria que assolava diversos países capitalistas.
O nazismo nazismo nazismo nazismo nazismo, o fascismo fascismo fascismo fascismo fascismo e o comunismo comunismo comunismo comunismo comunismo surgiam como alternativas ao
modelo liberal-democrático. Em 1922, o líder fascista Mussolini assumiu o poder
na Itália. Em 1933, com a ascensão de Hitler, o nazismo se tornou vitorioso na
Alemanha. Nesse mesmo período, Stalin, o principal dirigente comunista da
União Soviética, vivia seus dias de glória.
No Brasil, com o fim do regime ditatorial e a implantação de um regime
constitucional, o processo político radicalizou-se. A vida sindical renasceu.
Greves eclodiram por toda parte. Dois importantes movimentos mobilizaram as
classes médias.
De um lado, a Ação Integralista Brasileira Ação Integralista Brasileira Ação Integralista Brasileira Ação Integralista Brasileira Ação Integralista Brasileira (AIB), criada em 1932 com um
caráter profundamente nacionalista e antiliberal. O lema da AIB, dirigida por
Plínio Salgado, era “Deus, Pátria e Família”.
lm tcmpo
26
) 7 )
De outro lado estava a Aliança Nacional Libertadora Aliança Nacional Libertadora Aliança Nacional Libertadora Aliança Nacional Libertadora Aliança Nacional Libertadora (ANL), criada em
março de 1935. Era inspirada na proposta das frentes populares frentes populares frentes populares frentes populares frentes populares da Europa, que
tinham o objetivo de deter o avanço do nazi-fascismo em escala mundial.
Composta por socialistas, comunistas, católicos e liberais, a ANL combatia
o governo Vargas e se propunha defender os interesses ameaçados das classes
populares por meio da luta contra o imperialismo e o latifúndio. Tendo como
presidente de honra o líder comunista Luiz Carlos Prestes, a ANL rapidamente
conseguiu mais de cem mil filiados.
Como resposta às mobilizações populares, o governo ace-
nou com uma série de medidas repressivas, entre elas a Lei de
Segurança Nacional. Em julho de 1935, quatro meses após a sua
fundação, a ANL foi colocada na ilegalidade.
A partir daí, a proposta de derrubar o governo Vargas por
meio de uma insurreição armada, que vinha sendo veiculada
pelo Partido Comunista, foi ganhando força. A proposta rece-
beu a adesão de alguns militares remanescentes do tenentismo.
Em novembro de 1935, eclodiu a revolta liderada pelos
comunistas. A rebelião, restrita às cidades de Natal, Recife e
Rio de Janeiro, foi rapidamente debelada, mas acarretou gra-
ves conseqüências para o país. O comunismo passou a ser
considerado o inimigo número 1 do governo.
Milhares de pessoas foram presas em todo o país.
O Congresso passou a aprovar todas as medidas repressivas
solicitadas pelo Executivo. Gradativamente, o Legislativo foi
recuando e cedendo espaço para o fortalecimento de Vargas.
Passeata dos integralistas.
A revolta comunista.
26
) 7 )
Em setembro de 1936 foi criado o Tribunal de Segurança Nacional, para
julgar os crimes das pessoas acusadas de envolvimento com o levante comunis-
ta. Entre elas estava Pedro Ernesto, o prefeito do Distrito Federal.
Inflando o fantasma do comunismo, Vargas consolidou sua aliança com os
militares, com os empresários, com a Igreja e com os integralistas. Para fortalecer
seus planos continuístas, ou seja, de permanecer no poder, Vargas interveio em
Estados que demonstravam maiores resistências e afastou diversos oficiais
legalistas dos cargos de chefia.
O clima golpista voltou a se acender em setembro de 1937, quando foi
apresentado à nação um documento, forjado pelo próprio governo, sobre uma
nova revolta comunista que supostamente eclodiria em breve no país. Esse
documento falso ficou conhecido como Plano Cohen Plano Cohen Plano Cohen Plano Cohen Plano Cohen.
No dia 10 de novembro, tropas militares cercaram o Congresso. Vargas
apresentou à nação uma nova Constituição. Por meio de um golpe, tinha início
o Estado Novo Estado Novo Estado Novo Estado Novo Estado Novo.
Na próxima aula, você vai aprender o que foi o Estado Novo. Quais as
principais medidas adotadas pelo novo governo? Quais os aliados de Vargas?
Por que Vargas foi deposto, em outubro de 1945?
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Releia o item A revolução de 30 e o novo perfil do Estado A revolução de 30 e o novo perfil do Estado A revolução de 30 e o novo perfil do Estado A revolução de 30 e o novo perfil do Estado A revolução de 30 e o novo perfil do Estado e identifique duas
importantes mudanças que ocorreram na vida política e social do Brasil, nos
primeiros anos da década de 1930.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Releia o item Mobilização popular e limites do liberalismo Mobilização popular e limites do liberalismo Mobilização popular e limites do liberalismo Mobilização popular e limites do liberalismo Mobilização popular e limites do liberalismo. Identifique
duas razões que levaram o governo a fechar o Congresso Nacional e a
implantar o Estado Novo
UItimas
paIavras
lxcrcícios
27
) 7 )
Vivemos num país em que é bastante difun-
dida a noção de direitos sociais direitos sociais direitos sociais direitos sociais direitos sociais, principalmente os trabalhistas e previdenciários.
É certo que, ainda hoje, existem trabalhadores que não têm conhecimento dos
seus direitos e, assim, deixam de lutar por eles. Trata-se, porém, de uma minoria.
Mas, se os direitos sociais direitos sociais direitos sociais direitos sociais direitos sociais são em geral conhecidos, a grande maioria dos
trabalhadores desconhece a sua origem. Ou atribui essa origem, simplesmente,
à generosidade de Getúlio Vargas, que ficou também conhecido como “pai dos pai dos pai dos pai dos pai dos
pobres pobres pobres pobres pobres”.
Nesta aula, você verá como a criação dos direitos sociais direitos sociais direitos sociais direitos sociais direitos sociais, ao lado de uma
série de outras medidas, fez parte de um amplo projeto de construção nacional
realizado, justamente, num período em que se restringiu a cidadania política cidadania política cidadania política cidadania política cidadania política.
A restrição se deu por meio da eliminação de direitos políticos direitos políticos direitos políticos direitos políticos direitos políticos, como os direitos
de manifestação, de participação, de voto e de organização partidária.
Esse período ficou conhecido como o Estado Novo.
Dcmocracia X dcscnvoIvimcnto
O Estado Novo, como você pôde ver na última aula, teve início no dia 10 de
novembro de 1937, com um golpe liderado por Getúlio Vargas, com o apoio das
forças armadas. Com o golpe, o Congresso Nacional, as assembléias legislativas
e as câmaras municipais foram fechados; os governadores tornaram-se ou foram
substituídos por interventores interventores interventores interventores interventores nomeados diretamente por Vargas, e foi imposta
uma nova Constituição.
Em sua “Proclamação ao povo brasileiro”, transmi-
tida pelo rádio na noite do próprio dia 10, Vargas
definiu o golpe como a única atitude possível, diante da
situação em que se encontrava o país. E que situação era
essa?
Era uma situação, segundo ele, de perigo, de desa-
gregação, de afronta à autoridade. Uma situação, enfim,
em que o Estado, fraco, ameaçado, se encontrava impe-
dido de promover medidas necessárias ao bem-estar e
ao desenvolvimento da nação.
Entre os perigos que ameaçavam a nação, na pers-
pectiva dos promotores do golpe, estava o comunismo.
A nova ccntraIização:
o lstado Novo - l
Abcrtura
Movimcnto
27
) 7 )
Revolucionários na capital federal.
27
) 7 )
Ele teria se infiltrado em vários setores da vida do país, inclusive o militar, como
evidenciava o levante ocorrido em novembro de 1935. Cabia, portanto, extirpá-lo.
Além do comunismo, contudo, haveria razões de ordem política e institucional
pesando para que a situação do Brasil se tornasse caótica. De acordo com Vargas,
a Constituição liberal de 1934 impunha sérios limites ao Poder Executivo,
conferindo grande força ao Legislativo e aos partidos políticos. E, como os
partidos eram controlados por oligarquias oligarquias oligarquias oligarquias oligarquias estaduais, o Congresso havia se
tornado um lugar onde se expressavam não os interesses gerais da nação, e sim
os de grupos regionais que competiam entre si. Leia o trecho da proclamação de
Vargas transcrito abaixo. Procure ver qual era a sua avaliação da democracia democracia democracia democracia democracia e do
sufrágio universal sufrágio universal sufrágio universal sufrágio universal sufrágio universal, ou seja, do direito de voto válido para todos, naquele momento:
Nos períodos de crise, como o que atravessamos, a democracia de partidos, em
lugar de oferecer segura oportunidade de crescimento e de progresso, dentro das
garantias essenciais à vida e à condição humana, subverte a hierarquia, ameaça
a unidade pátria e põe em perigo a existência da Nação, extremando as
competições e acendendo o facho da discórdia civil. (...)
O sufrágio universal passa, assim, a ser instrumento dos mais audazes e
máscara que mal dissimula o conluio dos apetites pessoais e de corrilhos. Resulta
daí não ser a economia nacional organizada que influi ou prepondera nas
decisões governamentais, mas as forças econômicas de caráter privado, insi-
nuadas no poder e dele se servindo em prejuízo dos legítimos interesses da
comunidade.
Getúlio Vargas, Getúlio Vargas, Getúlio Vargas, Getúlio Vargas, Getúlio Vargas, A nova política do Brasil, A nova política do Brasil, A nova política do Brasil, A nova política do Brasil, A nova política do Brasil, v. 5, p. 21 e 22 v. 5, p. 21 e 22 v. 5, p. 21 e 22 v. 5, p. 21 e 22 v. 5, p. 21 e 22
O que se pode perceber é que a avaliação de Vargas era a de que a
democracia democracia democracia democracia democracia, o sufrágio universal sufrágio universal sufrágio universal sufrágio universal sufrágio universal, o amplo direito de participação política, não
funcionavam de fato como instrumentos por meio dos quais a maioria do povo
manifestava a sua vontade, intervindo nas decisões governamentais. Segundo
Vargas, eles eram, isso sim, meios pelos quais as minorias impunham os seus
interesses à nação como um todo.
Esse tipo de análise era relativamente difundido naquele momento. Como
você viu nas aulas anteriores, o final da década de 1920 e o início da de 1930
foram marcados por uma forte crise do sistema capitalista
mundial, o que resultou em críticas ao liberalismo liberalismo liberalismo liberalismo liberalismo e ao
sistema representativo sistema representativo sistema representativo sistema representativo sistema representativo. Propunha-se o fortalecimento do
Poder Executivo e uma intervenção maior do Estado na
economia.
Nos Estados Unidos, essa intervenção se deu por
meio de uma série de políticas implementadas pelo então
presidente Franklin Roosevelt. Essas políticas ficaram
conhecidas como o New Deal New Deal New Deal New Deal New Deal. Nos Estados Unidos,
a presença mais firme do Estado se deu sem que fossem
abandonados os princípios democráticos. Mas o mesmo
não ocorreu em alguns países da Europa, como a Itália
e a Alemanha, onde foram impostos regimes totalitários regimes totalitários regimes totalitários regimes totalitários regimes totalitários o fascismo fascismo fascismo fascismo fascismo
e o nazismo nazismo nazismo nazismo nazismo.
No Brasil, com Vargas, assim como na Argentina, com Juan Domingo
Perón, também se observou a instalação de regimes de força, ainda que não
totalitários totalitários totalitários totalitários totalitários. Esses regimes suprimiram os direitos políticos direitos políticos direitos políticos direitos políticos direitos políticos e o sistema repre- sistema repre- sistema repre- sistema repre- sistema repre-
sentativo sentativo sentativo sentativo sentativo. A democracia democracia democracia democracia democracia era vista como obstáculo, e não como condição básica
para o desenvolvimento e a modernização.
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V
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Getúlio Vargas falando
à nação por ocasião
da instauração
do Estado Novo,
10 de novembro
de 1937.
27
) 7 )
No Brasil, a centralização centralização centralização centralização centralização do poder, com o fortalecimento do Executivo, foi
acompanhada de um sistema de censura aos meios de comunicação que se
encarregou de silenciar eventuais manifestações de descontentamento.
Ao mesmo tempo, um forte esquema de repressão foi empregado para
neutralizar a oposição. Não só os comunistas foram atingidos pela repressão
política. Ela alcançou todos aqueles, mesmo liberais, que eram considerados
contrários ao regime.
Na ausência de um Poder Legislativo, o Executivo passou a concentrar
também as suas funções, elaborando leis e constituindo-se na única fonte
geradora de políticas para o país. Durante todo o período do Estado Novo,
Vargas governou por decretos-leis decretos-leis decretos-leis decretos-leis decretos-leis, isto é, todos os decretos presi-
denciais valiam automaticamente como lei, independentemente de qualquer
avaliação. Até mesmo porque não havia quem os avaliasse.
Como você pode perceber, as leis, num regime autoritário como o Estado
Novo, são impostas sem discussão e sem crítica.
Compare essa situação com a que se observa num regime democrático, como
o que vivemos hoje.
Modcrnização com tradição
Com o Estado Novo, os poderes executivos estaduais passaram a ser
ocupados por interventores interventores interventores interventores interventores homens de confiança, indicados e diretamente
subordinados a Vargas. No lugar das assembléias legislativas, foram criados
departamentos administrativos, cujos membros eram nomeados também pelo
presidente da República e que, em alguma medida, exerciam um controle sobre
os atos dos interventores interventores interventores interventores interventores.
Aos departamentos administrativos cabia, entre outras coisas, aprovar os
decretos-leis decretos-leis decretos-leis decretos-leis decretos-leis dos interventores interventores interventores interventores interventores, aprovar e fiscalizar os orçamentos dos Estados
e avaliar o desempenho e a eficácia dos órgãos estaduais, apresentando suges-
tões de mudança.
Se as decisões do Executivo, com o fechamento do Legislativo, passaram a
ser impostas, é preciso ver, contudo, que elas não eram fruto apenas das
vontades ou dos caprichos individuais do presidente, dos ministros, e mesmo
dos interventores interventores interventores interventores interventores ou dos secretários estaduais. Uma série de conselhos e órgãos
técnicos foi criada, durante o Estado Novo, tendo como função promover
estudos e discussões, propor medidas e assessorar o governo na elaboração e na
execução de suas decisões.
Alguns desses órgãos foram o Conselho Técnico de Economia e Finanças do
Ministério da Fazenda, o Conselho Nacional do Petróleo, o Conselho de Águas
e Energia e a Comissão Executiva do Plano Siderúrgico Nacional.
Não se pode esquecer, também, o importante papel que os militares −
que foram uma peça-chave no golpe de 1937 − passaram a desempenhar na
definição de prioridades, na formulação e na implementação de políticas.
Na visão das Forças Armadas, o Estado brasileiro devia investir em ativida-
des estratégicas que garantissem a sua soberania e que, por isso mesmo, eram
consideradas questão de segurança nacional.
Entre essas atividades estava o desenvolvimento de indústrias de base,
como a siderurgia, e o suprimento de recursos energéticos, como o petróleo.
Pausa
27
) 7 )
Você já deve ter-se dado conta, a esta altura, de que uma boa parte das
reformas que o governo propõe, hoje, está ligada a processos e idéias que tiveram
origem, justamente, no Estado Novo. Questiona-se hoje aquilo que, naquela
época, era considerado condição necessária à própria sobrevivência da nação:
um Estado grande, altamente centralizado, interventor e agente fundamental da
produção e do desenvolvimento econômicos.
Não por acaso, o presidente Fernando Henrique Cardoso declarou que, com
o seu governo, chegaria ao fim a Era Vargas.
Juntamente com a interrupção do jogo político representativo representativo representativo representativo representativo, a centraliza- centraliza- centraliza- centraliza- centraliza-
ção ção ção ção ção administrativa administrativa administrativa administrativa administrativa promovida por Vargas era apresentada como requisito
básico para o aumento da eficiência e da racionalidade do Estado. Defendia-se
também que era a única forma de eliminar a influência de grupos privados, como
as oligarquias oligarquias oligarquias oligarquias oligarquias regionais, sobre os processos decisórios nacionais.
O governo passou a privilegiar, na composição e na ascensão de seus
quadros, não os critérios da filiação partidária ou da indicação política, mas o do
mérito, da formação profissional e da capacidade técnica. Foram instituídos
concursos para o acesso a cargos públicos. Foi inclusive criado, em 1938, um
órgão especialmente voltado para a reforma e a modernização da administração
pública: o Dasp Dasp Dasp Dasp Dasp, Departamento Administrativo do Serviço Público.
Será que o Estado Novo conseguiu finalmente tornar mais justo o acesso aos
cargos públicos, eliminando por completo o favorecimento, o nepotismo e o
clientelismo? O Estado Novo pôde atender aos anseios gerais da nação, colocan-
do-se, efetivamente, acima dos interesses particulares? É claro que não.
Apesar de terem sido feitas mudanças importantes, e apesar de o país
ter, de fato, adquirido uma face moderna, é preciso destacar que o Estado Novo,
além de autoritário autoritário autoritário autoritário autoritário, tinha características fortemente tradicionais. Não se deve
esquecer que as oligarquias oligarquias oligarquias oligarquias oligarquias regionais continuavam bastante poderosas e que
Vargas, ele mesmo, era originário da oligarquia gaúcha.
Esses grupos tinham a sua base de poder no campo, no controle que exerciam
sobre as grandes propriedades e as populações rurais. Essa base de poder não foi
ameaçada pelas principais medidas implementadas pelo Estado Novo, porque
a ação direta deste se deu na área urbana. Mais do que isso: se as oligarquias
tiveram que abrir mão de parte da sua influência, elas, por outro lado, também
foram beneficiadas por políticas, obras e investimentos, além de cargos públicos.
Os próprios interventores interventores interventores interventores interventores acabaram constituindo vínculos estreitos com as
oligarquias regionais, utilizando os recursos de que dispunham de forma
clientelística. Vários deles criaram fortes bases políticas nos Estados, afirmando-
se como grandes lideranças.
Você pode estar se perguntando: afinal, pelo menos o Estado Novo represen-
tou os interesses gerais da nação, como prometera de início?
Infelizmente, não. É preciso ver que, com Vargas à frente, era um grupo
específico, que não havia sido eleito e que havia tomado o poder por meio de um
golpe, que dizia falar em nome da nação. E, como o país se encontrava sob
censura, com direitos políticos direitos políticos direitos políticos direitos políticos direitos políticos suspensos e ameaça permanente de prisão, é
difícil avaliar se havia mesmo, desde o início, uma sintonia efetiva entre governo
e povo entre Estado e nação.
lm tcmpo
27
) 7 )
O pai dos pobrcs
Ainda que não houvesse, desde o início, uma sintonia efetiva entre Estado
e nação, o importante é perceber como ela foi sendo construída ao longo do
tempo, de maneira tal que Vargas terminou se afirmando como uma das maiores
lideranças políticas da história do Brasil. Isso se deu por meio de alguns
mecanismos básicos, entre eles a educação.
O Ministério da Educação e Saúde, chefiado por Gustavo Capanema, desem-
penhou um papel fundamental no projeto político desenvolvido pelo Estado
Novo. Sua ação foi dirigida, principalmente, para criar e afirmar
uma nova idéia de nacionalidade.
À educação coube a importante função de formar os cidadãos
brasileiros, dotando-os de valores e noções comuns a toda a nação.
E por educação, nesse caso, deve ser entendida não apenas aquela
formal, que se dava dentro das salas de aula, mas também a que se
chamava de extra-escolar extra-escolar extra-escolar extra-escolar extra-escolar. Foi assim, por exemplo, que se criou o
Instituto Nacional do Livro. Entre outras coisas, o instituto foi
responsável pela disseminação de bibliotecas no país.
A propaganda política foi muito utilizada no período do
Estado Novo. Por meio dela, o governo queria divulgar, no rádio
e na imprensa, uma nova maneira de pensar o Brasil, de criar
uma imagem de sociedade brasileira. Falava-se muito na criação
de um “homem novo” para um “Estado Novo” de uma “Nova
Nação”. A propaganda ficou a cargo do DIP, o poderoso Depar-
tamento de Imprensa e Propaganda, criado em 1939.
A presença forte do DIP se fez sentir em áreas e meios
bastante diversos, que iam desde o cinema até a literatura,
passando pelo rádio, a imprensa e o teatro.
O DIP não apenas se encarregava da censura, filtrando aquilo
que poderia ser dito, como também produzia seus próprios
materiais de divulgação e propaganda: cartazes, fotos, filmes,
notícias, revistas, livros e cartilhas escolares, entre outros.
A máquina de propaganda do Estado Novo foi, de fato, empregada para
impor a figura de Vargas como grande líder, benfeitor e condutor dos destinos
da nação, identificando-o com o próprio Estado. Era como se Vargas e o Estado
fossem inseparáveis.
Entre as realizações, uma que foi sem dúvida mais enfatizada pela propa-
ganda, e que gerou a visão de Vargas como pai dos pobres pai dos pobres pai dos pobres pai dos pobres pai dos pobres, foi a legislação legislação legislação legislação legislação
trabalhista trabalhista trabalhista trabalhista trabalhista. Na verdade, mesmo antes do Estado Novo mais especificamente,
a partir de 1930, e já, portanto, com Vargas à frente do governo do país podiam
ser percebidas iniciativas mais significativas em relação aos direitos dos traba-
lhadores e à sua organização em sindicatos.
Foi sob o Estado Novo, no entanto, que se organizou a Justiça do Trabalho
(1939), que se criou o salário mínimo regional (1940), que se estabeleceu o
imposto sindical (1940) e que surgiu a Consolidação das Leis do Trabalho CLT
(1943).
A ordem e a harmonia eram garantidas pela própria estrutura sindical
criada. A Constituição de 1937 dizia que a organização em sindicatos era livre,
mas acrescentava que apenas os sindicatos reconhecidos pelo Estado teriam,
legalmente, o direito de representação de uma categoria.
Além disso, ficavam proibidos a greve greve greve greve greve e o locaute locaute locaute locaute locaute (locaute, do inglês
lock-out, quer dizer greve patronal), que eram considerados nocivos aos interes-
Jovens carregam estandarte de Getúlio
Vargas em manifestação cívica.
27
) 7 )
ses da nação. Se acrescentarmos, ainda, o fato de que se tratava de um momento
de intensa repressão política, veremos que a margem de atuação dos sindicatos
era bastante reduzida.
Não pense você, entretanto, que tudo isso não passava de uma estratégia
para iludir os trabalhadores, fazendo-os acreditar que tinham direitos quando,
na realidade, as coisas não eram bem assim. Mais do que criar direitos, o governo
buscou garantir a sua aplicação, o que gerou descontentamentos em alguns
setores do empresariado.
Esses descontentamentos, contudo, foram sendo neutralizados pelo forte
estímulo à industrialização, dado pelo Estado Novo. Uma das expressões desse
estímulo foi o pesado investimento feito pelo governo na criação de uma
indústria de base no país, cujo exemplo maior era a Companhia Siderúrgica
Nacional, de 1941. Desse processo também resultou a criação do Serviço Nacio-
nal de Aprendizagem Industrial (Senai), em 1942, com o objetivo de formar
mão-de-obra para a indústria.
Na realidade, é no próprio esforço de industrialização desenvolvido pelo
Estado Novo que a legislação trabalhista se inclui. O que se buscou com ela, em
larga medida, foi regulamentar as relações de trabalho, além, é claro, de controlar
a atividade sindical, eliminando a possibilidade de conflitos e perturbações.
É preciso acentuar, contudo, que, se alguns direitos foram criados e garan-
tidos, eles se restringiram, unicamente, aos trabalhadores urbanos. Os trabalha-
dores rurais continuaram sujeitos aos grandes proprietários, excluídos da cida- cida- cida- cida- cida-
dania dania dania dania dania representada pelos direitos trabalhistas direitos trabalhistas direitos trabalhistas direitos trabalhistas direitos trabalhistas.
O mesmo governo, portanto, que promoveu a industrialização e que
regulamentou as relações de trabalho e a organização sindical nas cidades,
absteve-se de intervir no campo, deixando intacto o controle das oligarquias oligarquias oligarquias oligarquias oligarquias
rurais sobre os camponeses.
Foi apenas no governo João Goulart, em 1963, que alguns dos direitos
básicos passaram a ser efetivamente estendidos ao campo, por meio da lei
chamada Estatuto do Trabalhador Rural.
Nesta aula, você viu como a criação dos direitos sociais direitos sociais direitos sociais direitos sociais direitos sociais esteve associada à
política de promoção da industrialização feita pelo Estado Novo. Mas o que foi
essa política de industrialização?
Esse será o tema da próxima aula. Nela, você também verá, entre outros
assuntos, como a legislação trabalhista e a estrutura sindical propiciaram a
criação de um movimento chamado “trabalhista”, ligado à imagem e à liderança
de Vargas. Esse movimento serviu de base, às vésperas da queda do Estado
Novo, para a formação do PTB, Partido Trabalhista Brasileiro.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Releia o item Democracia X desenvolvimento Democracia X desenvolvimento Democracia X desenvolvimento Democracia X desenvolvimento Democracia X desenvolvimento e explique a frase contida no
texto da aula: “A democracia era vista como obstáculo, e não como condição
básica para o desenvolvimento e a modernização.”
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Releia o item O pai dos pobres O pai dos pobres O pai dos pobres O pai dos pobres O pai dos pobres e explique como o governo procurou cons-
truir a imagem de Vargas como grande líder popular e condutor da nação.
lxcrcícios
lm tcmpo
UItimas
paIavras
28
) 7 )
Na aula anterior, você viu como Getúlio
Vargas organizou o regime do Estado Novo Estado Novo Estado Novo Estado Novo Estado Novo, em sua face política, cultural e
social. Nesta aula, você verá em que base econômica esse projeto se assentava,
e como o governo organizou as relações entre o capital e o trabalho.
Deve-se ter em mente que os anos 30 testemunharam a reorganização
econômica do país no sentido da industrialização e da urbanização. Além disso,
você verá que o regime do Estado Novo foi contemporâneo às transformações
políticas por que passavam os países da Europa. Foram transformações que
levaram o mundo à Segunda Guerra Mundial.
Como o Brasil se inseriu nesse conflito? Quais foram as conseqüências da
guerra para o país, tanto na área econômica quanto política?
A crisc dc 1929 c a industriaIização brasiIcira
Na Aula 25, vimos que, em outubro de 1929, após um período de relativa
prosperidade na economia mundial, a bolsa de valores de Nova York teve uma
queda sem precedentes na história.
Como conseqüência, diversas instituições financeiras foram à falência. A
produção industrial e agrícola retrocedeu, e houve uma altíssima elevação da
taxa de desemprego, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, com repercus-
sões sobre a economia internacional como um todo. As conseqüências foram
duras para o Brasil. Os países industrializados (Estados Unidos, Inglaterra e
outros) diminuíram muito a compra dos produtos agrícolas que nós exportáva-
mos. Com isso, atingiram nosso principal produto de exportação: o café.
Você sabia que, na década de 1920, o café era responsável por 70% da renda
obtida pelo Brasil com exportações?
Com a redução de suas vendas de café para o exterior, assim como de outros
produtos primários, o Brasil não conseguia recursos para equilibrar suas contas
e, portanto, não podia importar os produtos industrializados necessários à
economia. Aliás, os produtos industrializados que o Brasil importava também
ficaram mais caros.
A nova ccntraIização:
o lstado Novo - ll
28
) 7 )
Abcrtura
Movimcnto
lm tcmpo
28
) 7 )
Começou aí o processo de substituição de importações substituição de importações substituição de importações substituição de importações substituição de importações. Isto é: o Brasil
passou a produzir mercadorias que antes eram compradas no exterior.
O país já contava então com indústrias de bens de consumo, principalmente
têxteis e alimentos, e com uma pequena indústria de base. A necessidade de
substituição de importações de produtos mais sofisticados levou o governo a
utilizar a capacidade ociosa do parque industrial.
Nessa estratégia, foi muito importante a política de intervenção estatal na
economia inaugurada pelo Estado Novo. Ela permitiu o controle e o
direcionamento da produção, sob forte regulamentação.
Você deve estar se perguntando: como os empresários e os trabalhadores se
inseriram nessa política do governo?
No caso dos empresários, foi fundamental a contribuição dada ao Estado por
organizações como a Fiesp Fiesp Fiesp Fiesp Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).
A Fiesp apoiava o controle estatal sobre a política econômica do país, que
protegia as indústrias existentes e favorecia as novas iniciativas.
Se as classes empresariais se organizavam em torno do Estado e participa-
vam diretamente na definição da política econômica do país, qual era a posição
das classes trabalhadoras? O que fez o Estado para atraí-las?
Um dos recursos de que o Estado lançou mão foi a ideologia do trabalhismo trabalhismo trabalhismo trabalhismo trabalhismo.
Criar uma imagem positiva do trabalhador era uma meta importante do Estado
Novo. Com isso, o governo pretendia também disciplinar a relação entre
empregadores e operários e diminuir o conflito entre capital e trabalho.
Dizia Vargas em discurso pronunciado no 1 de Maio de 1943:
(...) à medida que impulsionamos as forças produtoras para favorecer o progres-
so geral e unificar economicamente o país, organizamos o trabalho, disciplina-
mos sem compressões inúteis, afastando a luta de classes e estabelecendo as
verdadeiras bases da justiça social.
Getúlio Vargas, Getúlio Vargas, Getúlio Vargas, Getúlio Vargas, Getúlio Vargas, A nova política do Brasil, A nova política do Brasil, A nova política do Brasil, A nova política do Brasil, A nova política do Brasil, v. 10, p. 51 v. 10, p. 51 v. 10, p. 51 v. 10, p. 51 v. 10, p. 51
lm tcmpo
Getúlio Vargas em
reunião com seu
ministério por
ocasião da
declaração de
guerra aos países
do Eixo. Rio de
Janeiro, 31 de
agosto de 1942.
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a
28
) 7 )
Durante o Estado Novo, foi aprovada uma série de leis trabalhistas que
organizariam as relações entre capital e trabalho por muitos anos no Brasil. Foi
abolida a pluralidade sindical pluralidade sindical pluralidade sindical pluralidade sindical pluralidade sindical. O que isso significa? Significa que o Estado só
reconhecia a existência legal de um um um um um sindicato por categoria profissional. Foi
instituído o imposto sindical, de recolhimento obrigatório, sobre o salário do
trabalhador. Esse dinheiro iria para o Ministério do Trabalho, que então o
repassaria aos sindicatos.
Controlados pelo Estado, os sindicatos perderam sua força política
reivindicatória e passaram a funcionar como associações recreativas e
assistencialistas. A relação trabalhador-sindicato passou a ter o Estado como
intermediário. Em outras palavras, as leis sindicais colocaram os sindicatos sob
a tutela tutela tutela tutela tutela do Estado.
Note que a instituição do imposto sindical imprimiu uma falsa imagem de
representatividade aos sindicatos. Por quê?
Ao ser descontado compulsoriamente da folha de pagamento, o imposto
garantia recursos à direção sindical independentemente do grau de participa-
ção dos trabalhadores nas atividades da organização e do apoio das massas
a seus dirigentes.
Foi também nesse período, precisamente em maio de 1940, que se instituiu
a lei do salário mínimo salário mínimo salário mínimo salário mínimo salário mínimo. Essa lei estipulou um mínimo de remuneração para
satisfazer as despesas de alimentação, vestuário, habitação, higiene e transporte
do trabalhador.
Finalmente, em 1943, um decreto presidencial criou a Consolidação das Leis
do Trabalho, a CLT CLT CLT CLT CLT. Por meio dela, como o próprio nome indica, as leis
trabalhistas antes adotadas foram sintetizadas e finalmente consolidadas.
Em seu conjunto, as leis trabalhistas instituídas durante o período de
intervenção estatal na economia garantiram ao governo de Getúlio Vargas o
controle do movimento sindical durante a passagem de uma economia
agroexportadora para uma economia urbano-industrial.
Gucrra no horizontc
Você viu que a substituição de importações no Brasil teve como uma de suas
origens a desaceleração da economia mundial. No entanto, após um período de
crise internacional, os Estados Unidos e a Alemanha começaram a competir
pelos mercados latino-americanos. Consideravam os países da América Latina
excelentes fornecedores de matérias-primas e compradores de produtos manu-
faturados.
Que fez o Brasil, que desejava se industrializar, diante dessa disputa entre
Estados Unidos e Alemanha pelo mercado brasileiro?
Adotou uma política de assinar acordos comerciais com os dois países,
procurando obter os recursos necessários para o seu desenvolvimento econômi-
co. Na lista das reivindicações brasileiras, destacava-se o financiamento de uma
grande usina siderúrgica. Tratava-se de uma peça fundamental para a indus-
trialização do país, já que lhe daria autonomia na produção do aço.
Embora não interessasse aos Estados Unidos promover a industrialização
brasileira, a possibilidade de o Brasil estreitar suas relações com a Alemanha fez
Pausa
28
) 7 )
com que o governo norte-americano garantisse os empréstimos necessários para
a construção da usina de Volta Redonda (RJ).
Mas o panorama internacional estava longe de ser tranqüilo. Em setembro
de 1939, um novo conflito mundial rebentou na Europa e, em dezembro de 1941
os Estados Unidos declararam guerra aos países do Eixo (Alemanha, Itália
e Japão), unindo-se aos Aliados.
Com isso, Getúlio Vargas viu chegar ao fim seu poder de barganha com
relação à Alemanha e aos Estados Unidos. Agora, era preciso definir-se com
relação à guerra mundial: ou ficava ao lado de um, ou ao lado do outro.
Em janeiro de 1942, o governo brasileiro rompeu relações diplomáticas com
a Alemanha e a Itália. Em conseqüência da decisão do governo, a frota mercante
brasileira seria alvo de diversos ataques de submarinos alemães.
Você sabia que, só entre os meses de junho e agosto de 1942, cerca de dez
navios foram torpedeados na costa brasileira?
Por causa desses ataques, e graças à forte campanha política e ideológica dos
Aliados, dia a dia aumentava a simpatia da população brasileira pela luta contra
os regimes nazista e fascista nazista e fascista nazista e fascista nazista e fascista nazista e fascista da Alemanha e da Itália.
lm tcmpo
Manifestação pela
entrada do Brasil na
Segunda Guerra
Mundial.
Na Segunda
Guerra Mundial,
Aliados eram os
países que se
associaram contra o
Eixo (Alemanha,
Itália e Japão).
Inicialmente os
Aliados eram França
e Inglaterra.
Posteriormente
contaram com
a entrada dos
Estados Unidos.
28
) 7 )
O nazismo foi a versão alemã da ideologia autoritária fascista surgida na
Itália nos anos 20. Semelhantes em sua oposição à ordem liberal-democrática e
em seu culto à nação, às virtudes militares e à obediência a um líder, apresenta-
vam, porém, uma grande diferença: na ideologia nazista era o racismo central
a crença na superioridade de uma raça.
Com Adolf Hitler à frente, o Partido Nacional-Socialista alemão, porta-voz
do nazismo, chegou ao poder no ano de 1933. Dali até o final da guerra, em maio
de 1945, estima-se que seis milhões de judeus foram mortos nos campos de
concentração.
Finalmente, em 22 de agosto de 1942, o Brasil declarou guerra à Alemanha
e à Itália. Começaram então os planos de enviar tropas brasileiras para lutar ao
lado dos Aliados do outro lado do Atlântico. A Força Expedicionária Brasileira
(FEB) foi criada em abril de 1943. Em junho de 1944, o primeiro contingente
partiu para a Itália.
Nossos pracinhas lutaram ao lado das forças norte-americanas contra posi-
ções alemãs em território italiano. Entre suas principais vitórias, destacam-se
Monte Castelo, Castelnuovo e Montese.
Nesse esforço, mais de quatrocentas vidas se perderam, abatidas pelas
tropas inimigas e pelo intenso inverno europeu que nossos pracinhas não
estavam preparados para enfrentar.
A qucda dc GctúIio Vargas ou o fim do lstado Novo
Vimos que a população brasileira foi gradualmente se aproximando da
causa aliada na luta contra os regimes autoritários do Eixo. Pois bem: ao declarar
guerra à Alemanha e à Itália, Vargas criou para si um grave problema. Afinal,
havia uma incoerência! Como apoiar os Aliados em defesa da democracia e
manter um regime autoritário no país? Por toda parte começaram as manifesta-
ções pelo fim do regime do Estado Novo.
Procurando reverter essa tendência, Vargas adotou algumas medidas polí-
ticas liberalizantes. Em fevereiro de 1945, convocou eleições presidenciais e
legislativas, em data a ser marcada 90 dias depois. Em abril, concedeu anistia a
todos os presos políticos. Em maio, marcou as eleições para o mês de dezembro.
Paralelamente, iniciou-se o processo de constituição dos partidos políticos.
Mas começou, também, o chamado movimento queremista queremista queremista queremista queremista.
lm tcmpo
Embarque de
tropas brasileiras
para a guerra.
28
) 7 )
A palavra queremista queremista queremista queremista queremista se originou da palavra de ordem “Queremos Getú-
lio”, usada nas manifestações de rua por aqueles que desejavam que Getúlio
continuasse presidente ou se declarasse candidato nas próximas eleições.
Outro slogan que se ouvia na época era “Constituinte com Getúlio”. Ou seja,
Getúlio podia ficar, bastava que se fizessem eleições para uma Assembléia
Nacional Constituinte.
Apoiavam o movimento queremista as massas populares ligadas ao
trabalhismo e os comunistas anistiados. Os trabalhistas compunham a corrente
mais fiel ao ditador. Mas, para os comunistas, a eleição de um novo presidente,
com a Constituição de 1937 ainda em vigor, era vista com desconfiança.
As elites conservadoras que ainda apoiavam Vargas viram na aliança do
presidente com os comunistas, e nas supostas intenções de Vargas de perma-
necer no poder, razão indiscutível para o golpe que o destituiu, em 29 de
outubro de 1945.
Nesta aula você acompanhou os últimos momentos do regime do Estado
Novo. Viu que a derrota do nazi-fascismo na Europa teve forte influência sobre
a queda de Getúlio Vargas.
A seguir, você verá como se processou a redemocratização política brasilei-
ra. Quais foram os principais partidos políticos então criados? Quais eram as
suas bases eleitorais?
Você viu também que, a partir de 1942, o Brasil se alinhou às democracias
lideradas pelos Estados Unidos. Quais as conseqüências políticas e econômicas
desse alinhamento para o Brasil? Como se organizou o mundo no pós-1945,
e qual a posição do Brasil frente às novas potências?
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Releia o item Guerra no horizonte Guerra no horizonte Guerra no horizonte Guerra no horizonte Guerra no horizonte e explique por que o governo brasileiro
declarou guerra à Alemanha
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Releia o item A queda de Getúlio Vargas A queda de Getúlio Vargas A queda de Getúlio Vargas A queda de Getúlio Vargas A queda de Getúlio Vargas e identifique uma razão que
contribuiu para a queda de Vargas e o fim do Estado Novo.
lm tcmpo
UItimas
paIavras
lxcrcícios
Manifestação
queremista.
29
) 7 )
Este módulo levará você a um momento importante de nossa história
republicana − o da redemocratização redemocratização redemocratização redemocratização redemocratização do país, com a queda do governo
ditatorial de Vargas.
Nas três aulas seguintes, você vai entrar em contato com os surpreendentes
caminhos da política. Verá, por exemplo, como um ditador deposto pôde voltar
ao governo pelos votos, ou, como ele mesmo diria, “nos braços do povo”.
Venha...
MúduIo 11
A voIta dc Vargas
ao podcr
29
) 7 )
Na aula passada vimos que, em 1945, Vargas
convocou eleições para a presidência da República. Mas o regime do Estado
Novo chegou ao fim antes que elas se realizassem, com o golpe de 29 de outubro.
Nesta aula, você verá como o país se organizou, a partir de então,
no caminho da redemocratização política. Além disso, saberá de que forma
o alinhamento aos Estados Unidos condicionou as opções políticas do Brasil
no plano internacional. Você vai conhecer também as opções de política
econômica do governo Dutra. governo Dutra. governo Dutra. governo Dutra. governo Dutra.
Partidos poIíticos c AsscmbIóia NacionaI Constituintc
Com o golpe de 29 de outu-
bro de 1945, o então presidente
do Supremo Tribunal Federal,
ministro José Linhares, foi
empossado na presidência da
República. Sua principal ta-
refa foi a condução das elei-
ções legislativas e presiden-
ciais marcadas por Getúlio
Vargas quando ainda esta-
va no poder, em maio da-
quele ano.
Os principais parti-
dos políticos em disputa
eram a União Democrá-
tica Nacional (UDN), o
Partido Social Demo-
crático (PSD), o Parti-
do Trabalhista Brasi-
leiro (PTB) e o Partido
Comunista Brasileiro
(PCB).
A ordcm
IibcraI-dcmocrática
29
) 7 )
Abcrtura
29
) 7 )
A UDN UDN UDN UDN UDN nascera como uma verdadeira frente de oposição ao regime do
Estado Novo, reunindo aqueles que já não pertenciam, ou jamais haviam
pertencido, à máquina de governo getulista. O PSD PSD PSD PSD PSD, ao contrário, nascera a partir
dessa mesma máquina. Era um partido de natureza conservadora, e se apoiava
nas chamadas interventorias estaduais. Já o PTB PTB PTB PTB PTB era a expressão política do
sindicalismo sob a tutela do Estado.
Você deve notar que, pela primeira vez na história do país, os partidos
deveriam ter representação nacional. Na República Velha, as bancadas partidá-
rias eram de natureza estadual ou regional. Essa situação se manteve depois de
1930, até a dissolução dos partidos, em 1937. Note também que, de meados da
década de 1930 até 1945, o eleitorado brasileiro aumentou de 1,5 milhão para
7,5 milhões de pessoas.
Os candidatos que disputavam a presidência da República eram o brigadei-
ro Eduardo Gomes, antigo líder das revoltas tenentistas, da UDN, e o general
Eurico Gaspar Dutra, ex-colaborador de Vargas durante o Estado Novo, lançado
pelo PSD e apoiado igualmente pelo PTB. O PCB também lançou um candidato,
Yedo Fiúza. Embora pouco conhecido das massas populares, ele obteve cerca de
10% dos votos.
Veja só os caminhos da política. Dutra, um dos articuladores do golpe de
outubro de 1945 contra Vargas, foi o candidato do PSD e obteve apoio do PTB.
Então, veja bem: embora o governo Dutra não deva ser visto como mera
continuidade do anterior, a derrubada de Vargas também não significou a
derrota das forças conservadoras que o apoiavam. O alvo do golpe fora a pessoa
do presidente e suas vinculações com as forças trabalhistas e comunistas, e não
os interesses da oligarquia que ele também representava.
O fraco desempenho de Dutra durante a campanha presidencial o levou
a buscar o apoio do PTB. Em troca do apoio à candidatura Dutra, o PTB exigiu
a nomeação de um dos membros do partido para o Ministério do Trabalho.
Dessa forma, Vargas obteve uma dupla vitória nas eleições de 1945: alguns
de seus antigos colaboradores permaneceram no poder, e a política trabalhista
sob tutela estatal teve garantia de continuidade.
O governo de Dutra, eleito com cerca de 55% dos votos, foi marcado
politicamente pela promessa da redemocratização. Na realidade, porém, de 1946
a 1951, o país foi administrado de forma elitista e conservadora.
Veja, por exemplo, os trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte,
iniciados em 2 de fevereiro de 1946. O partido majoritário na Assembléia era o
lm tcmpo
Grupo de
manifestantes pró-
Eduardo Gomes.
29
) 7 )
PSD, seguido da UDN. A maioria conservadora evitou que fossem dados passos
largos no sentido da democratização. A despeito da adoção de eleições diretas
para o Executivo e o Legislativo, a nova Constituição manteve intactos os
principais aspectos da carta estadonovista.
Embora a Assembléia Nacional Constituinte de 1946 tenha representado
um avanço democrático na vida política do país, deve-se ter em mente que a sua
composição social estava longe de ser pluralista. Veja o que disse Aliomar
Baleeiro, ele mesmo representante da oligarquia baiana:
Se se fizer um inquérito da composição social e profissional desta Assembléia,
verificaremos que todos nós, ou pelo menos nossos parentes, saímos das classes agrárias,
que se têm libertado sempre do pagamento de impostos, que então passam a recair sempre
diretamente sobre o proletariado.
Citado por Leôncio Basbaum, Citado por Leôncio Basbaum, Citado por Leôncio Basbaum, Citado por Leôncio Basbaum, Citado por Leôncio Basbaum, História sincera da República, História sincera da República, História sincera da República, História sincera da República, História sincera da República, p. 179 p. 179 p. 179 p. 179 p. 179
O traço conservador do governo foi acompanhado de forte oposição ao
comunismo. O movimento trabalhista, que desde o ano de 1945 ia ganhando
força, tinha como um de seus objetivos a recuperação do poder de compra dos
salários. Mas era visto, pelo novo governo, como sendo manipulado pela mão do
comunismo internacional. Isso refletia a incapacidade dos governantes de
perceber o sentido social das greves. A reação do governo foi implacável. Estima-
se em 400 o número de intervenções federais em sindicatos, entre 1947 e 1950.
Houve também inúmeras detenções.
Terminados os trabalhos da Constituinte, a oposição aos partidos de esquer-
da no Brasil, e mais particularmente ao PCB, se intensificou. Em outubro de 1947,
cinco meses antes de o Brasil romper relações diplomáticas com a União
Soviética, o PCB teve cassado o seu registro. A seguir, começou a batalha da
cassação dos mandatos de todos os parlamentares comunistas eleitos em 1945,
que os tirou do Congresso e os jogou na clandestinidade.
lm tcmpo
Parlamentares
protestando
contra a
cassação
do PCB.
29
) 7 )
lm tcmpo
Em toda a sua história, o PCB esteve quase sempre na ilegalidade. Criado em
março de 1922, foi fechado pelo governo logo a seguir, em junho do mesmo ano.
Em janeiro de 1927, retornou à legalidade por apenas alguns meses. Ao fim da
Segunda Guerra Mundial, pelo fato de o Brasil ter-se unido às forças aliadas de
que fazia parte a União Soviética, foram restabelecidas relações diplomáticas
com Moscou e o PCB obteve seu registro no Tribunal Superior Eleitoral. Depois
de ter seu registro cassado em 1947, somente em 1985 o partido voltou à
legalidade, embora bastante debilitado após tantos anos na clandestinidade.
Será que o anticomunismo do governo Dutra coincidiu com a reversão da
aliança Estados Unidos-União Soviética? Ou foi, na realidade, resultado desse
processo? Vejamos, então, como o Brasil se inseria no mundo do pós-guerra.
A Gucrra lria chcga ao ßrasiI
Você já ouviu falar em “guerra fria”? Guerra Fria foi o nome dado à disputa
político-ideológica entre os mundos capitalista e comunista, iniciada poucos
anos depois do término da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Durou mais de
quarenta anos. Os personagens principais foram os Estados Unidos da América
do Norte e a União Soviética. A guerra entre esses dois países nunca chegou às
vias de fato, mas produziu inúmeros conflitos em diversas partes do mundo.
Finda a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos e a União Soviética
surgiram no cenário internacional na qualidade de grandes potências. Mas
concretamente, no pós-guerra imediato, seus recursos de poder não eram
equivalentes. Ao contrário da União Soviética, os Estados Unidos não sofreram
ataques militares a seu território. Além disso, desde 1945, podiam contar com
um importante instrumento de poder: a bomba atômica bomba atômica bomba atômica bomba atômica bomba atômica.
Em 6 de agosto de 1945, os Estados Unidos lançaram sobre a cidade japonesa
de Hiroshima a primeira bomba atômica, matando cerca de 80 mil pessoas e
ferindo outras 90 mil. A seguir, em 9 de agosto, outra bomba foi lançada sobre
o Japão, desta vez sobre a cidade de Nagasaki, igualmente com altíssimo número
de vítimas. Só em 1949 a União Soviética explodiu experimentalmente
sua primeira bomba atômica, seguida pela Inglaterra, em 1952, a França, em 1960
e a China, em 1964.
Como se combinavam a política interna e a política externa do governo
Dutra? Internamente, o presidente Dutra se preocupava com a ação do comunis-
mo internacional. Externamente, o governo brasileiro se associou à política do
governo norte-americano de contenção da União Soviética.
Havia, assim, uma sintonia entre política interna e política externa. Portan-
to, enquanto o alinhamento do Brasil aos Estados Unidos foi um instrumento
utilizado por Vargas para obter momentaneamente vantagens políticas, eco-
nômicas e militares, para Dutra ele foi um objetivo permanente objetivo permanente objetivo permanente objetivo permanente objetivo permanente de política
exterior. Nas relações bilaterais e multilaterais, o Brasil procurou adequar suas
demandas e interesses aos objetivos de conter o comunismo internacional,
sempre ao lado dos Estados Unidos.
lm tcmpo
29
) 7 )
DcscnvoIvimcnto cconûmico:
IibcraIismo ou intcrvcnção!
No que diz respeito à economia, o gover-
no Dutra foi caracterizado pela aplicação de
uma política liberal, permeada por algumas
intervenções do Estado. Ao sabor das neces-
sidades, as posições liberais cediam o lugar a
medidas intervencionistas.
No início de seu governo, como forma de
deter a inflação, Dutra adotou uma política
econômica liberal que incentivava a importa-
ção de bens manufaturados. Como conseqüência, em pouco tempo esgotaram-
se as reservas cambiais.
O governo decidiu então adotar uma política de maior controle das impor-
tações. Passou a beneficiar apenas os artigos essenciais, como equipamentos,
maquinaria e combustível. As medidas tomadas nesse sentido resultaram em
incentivo à produção industrial interna, dando início ao período de “industria-
lização espontânea”. Mas, e a inflação?
Como a estratégia anterior não resolveu o problema inflacionário, o governo
procurou coordenar os gastos públicos por meio do chamado Plano Salte Plano Salte Plano Salte Plano Salte Plano Salte o
nome vem das letras iniciais de s ss ssaúde, al al al al alimentação, t tt ttransporte e e ee eenergia.
O fracasso desse plano determinou o arrocho salarial como saída para conter
a espiral inflacionária. Dutra permanecia, dessa forma, fiel aos postulados
clássicos do liberalismo econômico.
Nesta aula você viu como a redemocratização veio acompanhada de uma
forte dose de conservadorismo, tanto na área política quanto econômica. Na aula
seguinte, você acompanhará o retorno de Getúlio Vargas ao poder. Tendo-se
mantido por um bom tempo ao largo das disputas políticas, o então senador pelo
PSD foi dia a dia articulando sua candidatura à presidência da República pelo
partido criado à sua semelhança, o PTB.
O retorno de Vargas “nos braços do povo”, os principais traços de seu
segundo governo (de 1951 a 1954) e as disputas políticas que o levaram ao
suicídio serão objeto de nosso próximo encontro. Até lá.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Explique por que, naqueles anos de construção da democracia no país, o
governo Dutra rompeu relações diplomáticas com a URSS e cassou o registro
do PCB.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Releia o item Desenvolvimento econômico: liberalismo e intervenção Desenvolvimento econômico: liberalismo e intervenção Desenvolvimento econômico: liberalismo e intervenção Desenvolvimento econômico: liberalismo e intervenção Desenvolvimento econômico: liberalismo e intervenção
e explique a frase contida no texto da aula: “Dutra permaneceu fiel
aos postulados clássicos do liberalismo econômico”.
lxcrcícios
Eurico Gaspar Dutra (centro) assiste a manifestação em palanque.
Reservas
cambiais são os
recursos em moeda
estrangeira e ouro
de um país
destinadas a cobrir
eventuais prejuízos
das contas
internacionais.
UItimas
paIavras
30
) 7 )
Em dezembro de 1994, quando foi eleito pre-
sidente da República, Fernando Henrique Cardoso foi ao Senado para se
despedir de seus colegas e fez um discurso. Afirmou que, para construir o futuro
do Brasil, era preciso fazer um acerto de contas com o passado. E explicou que
passado era esse:
(...) um pedaço do nosso passado político que ainda atravanca o presente e
retarda o avanço da sociedade. Refiro-me ao legado da Era Vargas, ao seu modelo
de desenvolvimento autárquico e ao seu Estado intervencionista.
E continuou:
Esse modelo, que à sua época assegurou progresso e permitiu a nossa indus-
trialização, começou a perder fôlego nos final dos anos 70.
Na Aula 28, falamos sobre a política econômica do primeiro governo Vargas.
Na aula 29, sobre a do governo Dutra. Vamos falar agora sobre uma ampla
discussão que estava acontecendo nos anos 40 e 50, sobre o tipo de desenvolvi-
mento que deveríamos adotar. Vamos procurar entender, na aula de hoje, o que
foi esse modelo de desenvolvimento da Era Vargas que, segundo Fernando
Henrique Cardoso, permaneceu quase cinqüenta anos em vigor.
O modcIo dc dcscnvoIvimcnto da lra Vargas
Ao final da Segunda Guerra Mundial, enquanto o mundo se dividia em dois
blocos que se manteriam em permanente tensão na Guerra Fria, acalorou-se no
Brasil a discussão sobre os rumos que deveríamos seguir em nosso esforço de
desenvolvimento.
Um grupo liderado pelo industrial paulista Roberto Simonsen dizia que era
importante o país continuar a se industralizar e abrir mais fábricas para produzir
aquilo que até então vinha de outros países, como máquinas, tratores, cami-
nhões, automóveis.
Além de investir mais na indústria, era preciso também abrir novas estradas,
aumentar as linhas ferroviárias, melhorar os portos. Tudo isso para que as
matérias-primas pudessem chegar até as fábricas. E, depois, para que os produ-
tos das fábricas pudessem chegar até os consumidores de todo o país.
30
) 7 )
Abcrtura
Movimcnto
O lstado na diantcira:
intcrvcncionismo c
dcscnvoIvimcnto no
scgundo govcrno Vargas
30
) 7 )
Era preciso ainda que o Brasil explorasse o seu petróleo, o seu carvão, o
manganês, o ferro e outros produtos minerais. A agricultura também tinha de se
modernizar. O agricultor precisava de tratores, de sementes de melhor qualida-
de, de irrigação.
Tudo isso, para se concretizar, exigia o planejamento das medidas a serem
tomadas e grande soma de capitais. Mas os nossos empresários não tinham
grandes recursos, e faltavam também conhecimentos técnicos. Era preciso
importar novas tecnologias. Os empresários precisavam da ajuda do governo ou
de empresas e empresários estrangeiros.
Esse grupo liderado por Roberto Simonsen contava com o apoio de muitos
industriais, militares, jornalistas, professores, trabalhadores, escritores e outros.
A proposta que defendiam foi chamada de modelo desenvolvimentista modelo desenvolvimentista modelo desenvolvimentista modelo desenvolvimentista modelo desenvolvimentista.
Pouco tempo depois, esse grupo se dividiu. De um lado, ficaram aqueles que
pensavam que, se o Brasil precisava desenvolver a sua indústria, não importava
quem iria investir: podiam ser os empresários brasileiros, os estrangeiros ou o
governo. De outro lado, colocaram-se os que acreditavam que só os empresários
brasileiros e o governo é que deveriam explorar os nossos recursos naturais.
Este último grupo não aceitava a participação do capital estrangeiro no
nosso desenvolvimento. Argumentava que os estrangeiros só queriam explorar
os nossos produtos naturais e nos vender os seus produtos industrializados. Não
acreditava que empresas estrangeiras pudessem vir para o Brasil e produzir
aqui. Integrado também por muitos políticos, militares, jornalistas, escritores e
outros, esse grupo ficou conhecido como o dos nacionalistas nacionalistas nacionalistas nacionalistas nacionalistas.
Mas havia ainda um grupo que não concordava nem com os
desenvolvimentistas nem com os desenvolvimentistas-nacionalistas. Era o gru-
po liderado pelo economista Eugênio Gudin. Esse grupo entendia que o Brasil
não deveria se preocupar com a industrialização, e sim incentivar a agricultura,
melhorar e diversificar a produção agrícola. Dizia que nós, brasileiros, tínhamos
demonstrado que éramos capazes de produzir bem na agricultura, pois conse-
guíamos exportar café, cacau, açúcar, algodão e outros produtos agrícolas. Com
os recursos da venda desses produtos no exterior poderíamos comprar automó-
veis, geladeiras, máquinas etc. Se os estrangeiros quisessem vir aqui abrir
fábricas, ótimo para nós. Se os nossos empresários conseguissem produzir bens
com custos baixos, ótimo também. Mas o governo não deveria entrar na produ-
ção, nem planejar a economia. A produção deveria ser deixada para os empre-
sários privados.
Essa posição, ou modelo de desenvolvimento, foi chamada de neoliberal neoliberal neoliberal neoliberal neoliberal.
O grupo defensor desse modelo reunia grande número de exportadores, repre-
sentantes de empresas estrangeiras, jornalistas, escritores e políticos.
GctúIio Vargas voIta ao podcr
Em 1950, no meio dessa discussão toda, deveria ser feita a eleição do
presidente da República que iria substituir o presidente Eurico Gaspar Dutra.
Os partidos políticos apresentaram os seus candidatos. A UDN lançou o
mesmo candidato que havia concorrido em 1945, o brigadeiro Eduardo Gomes.
O PSD lançou o mineiro Cristiano Machado. O PTB e o Partido Social Progres-
sista (PSP) lançaram juntos Getúlio Vargas, o ditador do Estado Novo que fora
derrubado pelos militares em 1945.
Em sua campanha eleitoral, nos comícios que fez ao percorrer todos os
Estados da federação, Vargas garantiu ao povo que, se fosse eleito, iria continuar
30
) 7 )
incentivando a industrialização, como fizera durante seu primeiro governo.
Dizia que só a indústria permitiria que o Brasil atingisse a sua independência
econômica e se tornasse um país desenvolvido como os Estados Unidos, a União
Soviética e outros países importantes da Europa. Era favorável à exploração dos
nossos recursos naturais, como petróleo, manganês, ferro, carvão, por empresá-
rios nacionais ou pelo governo, embora aceitasse a participação dos capitais
estrangeiros em outros setores da economia.
Vargas defendia também a maior intervenção do Estado na área econômica,
o que significava que o governo deveria estabelecer as regras da produção e
também produzir. Como se vê, seu discurso de campanha estava próximo do
modelo desenvolvimentista-nacionalista desenvolvimentista-nacionalista desenvolvimentista-nacionalista desenvolvimentista-nacionalista desenvolvimentista-nacionalista.
Outra promessa que Vargas fez durante a campanha foi continuar sua
política de defesa dos direitos dos trabalhadores. Agora, prometia aos trabalha-
dores rurais os mesmos direitos que tinham os das zonas urbanas. O fato é que
Getúlio Vargas ganhou as eleições de 3 de outubro de 1950 com 48,7% do total
de votos.
Essa vitória foi muito mal recebida pelos perdedores, especialmente a UDN,
que não perdoava Vargas por ter governado, durante o Estado Novo, sob um
regime de ditadura. A oposição não acreditava que ele pudesse governar dentro
de um regime democrático. Tentou, então, impedir a sua posse. O argumento
usado foi o de que Vargas não conseguira a maioria absoluta de votos, ou seja,
a metade dos votos mais um. Ocorre que a legislação eleitoral daquela época não
exigia isso.
Hoje, para ser eleito presidente da República, o candidato precisa obter
maioria absoluta de votos. Se nenhum candidato obtiver essa quantidade de
votos na primeira eleição, a lei exige um segundo turno de disputa para os dois
primeiros candidatos mais votados. O candidato que tiver 50% mais um dos
votos é o vencedor.
Em 1950, portanto, a UDN não tinha razão quando contestou a vitória de
Vargas. A Justiça não concordou com o pedido de anulação do resultado, e
Getúlio tomou posse no dia 31 de janeiro de 1951.
Você já votou para presidente no Brasil? De quantas eleições para presi-
dente já participou? Quando foram as eleições? Quais foram os candidatos?
A que partidos eles pertenciam?
lm tcmpo
Pausa
Charge da fácil
vitória de Getúlio
Vargas nas
eleições.
30
) 7 )
Você já está entendendo que Getúlio assumiu o governo enfrentando uma
forte oposição. Mas ele era um político que sabia conciliar, procurava sempre
contemporizar, harmonizar. Essa era uma das características da sua maneira de
agir politicamente. Ele formou o seu ministério, inclusive, com políticos da
oposição, e procurou trazer para o governo a UDN, o partido que mais o criticava.
Em contrapartida, convidou para o Ministério da Guerra que atualmente se
chama Ministério do Exército um militar nacionalista, o general Estillac Leal.
Essa escolha foi muito criticada por seus opositores, que já temiam que ele
adotasse uma política nacionalista.
Para o Ministério da Fazenda foi nomeado o empresário paulista Horácio
Lafer. Para o Ministério das Relações Exteriores, João Neves da Fontoura. Ambos
eram favoráveis ao desenvolvimento da indústria nacional com o apoio do
governo, mas aceitavam a participação do capital estrangeiro no nosso desenvol-
vimento. Não se pode dizer que fizessem parte do grupo dos nacionalistas.
Mas como foi o scu govcrno!
Logo no início do seu governo, Vargas criou uma Assessoria Econômica da
Presidência da República. Esse tipo de órgão era uma novidade na época.
Significou o começo da valorização do técnico, do especialista, do economista, na
indicação de soluções para os problemas do país.
Esses técnicos foram introduzindo novos métodos de trabalho, preparando
planos de desenvolvimento. A Assessoria Econômica era coordenada pelo
economista Rômulo Almeida e dela participaram Jesus Soares Pereira, João
Neiva de Figueiredo, Inácio Rangel, Tomás Pompeu Acióli Borges, Otolmi
Strauch, Cleanto de Paiva Leite, Mário da Silva Pinto e Saldanha da Gama.
Eles ajudaram o governo a preparar muitos projetos, principalmente para
resolver problemas como os do petróleo, do carvão e da electricidade. Também
prepararam um programa de preservação, ampliação e melhor utilização das
reservas florestais. Como você vê, a preocupação com o meio ambiente já existia:
tentou-se iniciar uma política para impedir a devastação das nossas florestas.
Um projeto muito importante elaborado pela Assessoria Econômica foi
o de criação de uma empresa nacional para explorar o nosso petróleo.
O Congresso aprovou a criação da Petrobrás em 3 de outubro de 1953, como
uma empresa que detinha o monopólio estatal do petróleo monopólio estatal do petróleo monopólio estatal do petróleo monopólio estatal do petróleo monopólio estatal do petróleo.
Getúlio Vargas e
Tancredo Neves
(à direita).
30
) 7 )
Isso significava que nenhuma outra empresa poderia fazer concorrência à
Petrobrás. A ela cabiam a pesquisa e exploração das jazidas de petróleo
existentes no Brasil; o refino do petróleo tanto nacional como estrangeiro, e o
transporte do petróleo bruto e seus derivados.
A discussão sobre a criação da Petrobrás envolveu muita gente. O debate
saiu dos gabinetes, dos ministérios, e foi para as ruas. A população participou
de comícios, encontros, manifestações. Os nacionalistas, que defendiam a
criação de uma empresa nacional para explorar o petróleo, foram os responsá-
veis pela campanha “O petróleo é nosso.” Eles apelidaram as pessoas que eram
contrárias à solução nacionalista de “entreguistas”. Quer dizer: seriam pessoas
que queriam entregar os nossos recursos naturais para os estrangeiros, e, por
isso, deviam ser consideradas traidoras da pátria.
Além da Petrobrás, o governo Vargas propôs ao Congresso o Plano Nacional
de Eletrificação e a criação da Eletrobrás. Mas esse projeto encontrou muitas
resistências, e só seria aprovado no ano de 1961. Em 1953 foi aprovado o Plano
do Carvão Nacional, que procurava resolver as dificuldades do país na obtenção
de carvão para a indústria siderúrgica.
Outra preocupação do governo foi a de estudar e dar solução aos problemas
da Amazônia. Ainda em 1953 foi criada a Superintendência do Plano de
Valorização Econômica da Amazônia, a SPVEA, que deveria coordenar todas as
medidas necessárias para desenvolver a produção extrativa, a produção agríco-
la, a pecuária e a instalação de indústrias nessa região.
O plano para a Amazônia incluía desde a abertura de estradas, a utilização
dos rios como vias de navegação, a ampliação da capacidade de produção de
energia elétrica, a defesa contra as inundações, até pesquisas sobre o solo,
os vegetais, os animais, o clima e a população.
Também o desenvolvimento do Nordeste foi objeto de preocupação, como
demonstra a criação do Banco do Nordeste do Brasil, em 1952.
lm tcmpo
Campanha
“O Petróleo é nosso”
30
) 7 )
O governo instituiu ainda uma comissão para estudar e planejar a fabricação
de jipes, tratores e caminhões. O trabalho dessa comissão teve continuidade no
governo de Juscelino Kubitschek, e foi a partir dele que se originou a indústria
automobilística no Brasil.
O Instituto Brasileiro do Café (IBC) também surgiu durante o governo
Vargas. Seu objetivo era realizar a política cafeeira, tanto interna como externa-
mente, e fazer pesquisas e experimentações para criar novos arbustos, mais
resistentes a pragas e a geadas e que dessem um melhor café. Cabia ao IBC
defender os preços do café no mercado internacional, já que a competição era
muito grande: outros países, principalmente os africanos, começavam a produ-
zir em grande quantidade.
Ao lado do trabalho da Assessoria Econômica, o ministro da Fazenda,
Horácio Lafer, preparou o Plano Nacional de Reaparelhamento Econômico,
conhecido como Plano Lafer Plano Lafer Plano Lafer Plano Lafer Plano Lafer.
O plano deveria contar com a cooperação financeira dos Estados Unidos.
Dele faziam parte projetos para a criação de novas fontes de energia elétrica, a
modernização da rede de transportes ferroviários e rodoviários, a construção de
armazéns e frigoríficos, a criação e ampliação dos serviços portuários e a
introdução de novas técnicas na agricultura. Esse plano encontrou muitos
obstáculos para ser executado, principalmente porque dependia de financia-
mentos que foram prometidos mas que não chegaram na quantidade esperada.
Para financiar e receber os empréstimos estrangeiros obtidos para os proje-
tos do Plano Lafer, foi criado o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico,
o BNDE. Hoje ele se chama Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
e Social, BNDES. É um órgão que financiou e continua a financiar projetos
de modernização do país.
No ano de 1954 já começavam a aparecer os primeiros resultados da
administração Vargas. A Petrobrás entrava em funcionamento, era inaugurada
a Companhia Siderúrgica Mannesmann, em Minas Gerais, e a usina de Paulo
Afonso, no Nordeste, começava a produzir energia para a Bahia e Pernambuco.
Ao mesmo tempo, com as medidas de incentivo e o apoio do governo, as
indústrias trabalhavam a todo vapor.
Você certamente já entendeu o discurso do presidente Fernando Henrique
Cardoso. Vargas adotou uma política em que o governo investia na industriali-
zação, criando empresas para produzir
bens e serviços. Ao mesmo tempo, pro-
mulgava leis e regulamentos para con-
trolar as atividades econômicas.
Essa política, que é chamada de
autárquica autárquica autárquica autárquica autárquica, intervencionista intervencionista intervencionista intervencionista intervencionista e centra- centra- centra- centra- centra-
lizadora lizadora lizadora lizadora lizadora, caracterizou a chamada Era
Vargas.
Hoje, esse modelo econômico está
sendo criticado. Seus críticos dizem que
o governo investiu em muitas áreas em
que os empresários privados tinham ca-
pacidade de entrar. Consideram que o
governo só deve investir em serviços
públicos, ou seja, naqueles que não po-
dem dar lucros e que são essenciais para
a população, como educação básica, saú-
de, segurança e outros.
Brasil
industrial.
30
) 7 )
lm tcmpo
O argumento mais importante contra a manutenção do modelo da Era
Vargas é o de que o governo não dispõe atualmente de recursos para fazer tudo.
Aquelas empresas estatais que tiveram bom desempenho, como a Petrobrás,
hoje precisam de muitos recursos para continuar a atender às novas exigências
do país. Nosso desenvolvimento industrial é muito maior e mais complexo do
que nos anos 50 e 60. Portanto, é preciso mudar o modelo, para nos adaptarmos
aos novos tempos.
Vamos observar um pouco os números, porque eles nos ajudam a entender
como o Brasil mudou. Para começar, nós tínhamos em 1940 uma população de
41.236.315 habitantes; em 1950, quando Vargas voltou ao poder, essa popula-
ção já era de 51.944.397. Em 1991, quando foi feito o último recenseamento,
nossa população já era de 146.917.459.
Ao longo desses anos, não apenas a população cresceu, como mudou a
proporção das pessoas que moram no campo e das que moram na cidade.
Quando Vargas governou, a maior parte da população vivia nas zonas rurais.
Agora, vive nas zonas urbanas.
Em relação à população adulta que trabalha e produz riquezas, ganha
salários, paga impostos a chamada de população economicamente ativa ,
em 1950, 59,9% se dedicavam à agricultura; hoje, somente 22,8% trabalham
nessa área econômica.
Enquanto isso, os 14,2% que trabalhavam na indústria em 1950 passaram
para 22,7% em 1991.
Esta aula tratou do governo democrático de Vargas, período de muitas
iniciativas. O governo criou empresas e, com empréstimos, estimulou os empre-
sários nacionais a investir na construção de novas fábricas e a ampliar as já
existentes. Essas iniciativas permitiram que o Brasil deixasse de ser um país de
economia agrícola para se transformar em um país industrial.
A política de Vargas teria continuidade no governo de Juscelino Kubitschek,
quando foram feitos muitos investimentos na industrialização. Mas, apesar
disso, o período terminou em meio a uma grande crise política que culminou com
o suicídio de Getúlio.
É o que você vai ver na próxima aula.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Releia o item Modelo de desenvolvimento do Governo Vargas Modelo de desenvolvimento do Governo Vargas Modelo de desenvolvimento do Governo Vargas Modelo de desenvolvimento do Governo Vargas Modelo de desenvolvimento do Governo Vargas e
estabeleça comparações entre as propostas desenvolvimentista,
nacional-desenvolvimentista e liberal.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Releia o item Mas como foi o seu governo? Mas como foi o seu governo? Mas como foi o seu governo? Mas como foi o seu governo? Mas como foi o seu governo? e explique o que significa
modelo autárquico de desenvolvimento.
UItimas
paIavras
lxcrcícios
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) 7 )
31
) 7 )
No dia 24 de agosto de 1954, entre 8h25
e 8h40 da manhã, o presidente da República, Getúlio Vargas, se suicidou com
um tiro no coração. Deixou uma carta-testamento dirigida ao povo brasileiro.
Em um dos trechos dessa carta, ele diz:
Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos
internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de
garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso.
Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis
criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através
da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma.
A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o povo seja
independente (...)
Na aula de hoje, vamos tentar explicar o que aconteceu para que Vargas
se suicidasse. E entender o significado da carta que ele deixou.
Vargas cnfrcnta a oposição
Na última aula, vimos que a volta de Vargas ao poder, em 1951, provocou uma
reação contrária de muitas pessoas, que tentaram inclusive impedir a sua posse.
Isso, em grande parte, estava ligado ao fato de ele ter governado durante o período
do Estado Novo como o ditador que suprimiu as liberdades democráticas, impôs
censura rigorosa à imprensa, pôs os adversários do regime na cadeia.
Havia ainda outro aspecto da sua forma de governar que não era muito bem
aceito pela oposição: ele se dirigia diretamente ao povo, fazia grandes comícios
em que prometia melhorar a situação dos trabalhadores, em vez de utilizar
instituições como partidos políticos, sindicatos, associações. Ele não estimulava
o fortalecimento dessas instituições.
Como está dito na carta-testamento, Vargas voltou em 1951 como presidente
eleito pelo povo e com as instituições democráticas em pleno funcionamento.
Mas os antigetulistas não acreditavam que ele fosse respeitar as regras democrá-
ticas. Entre os maiores adversários civis do governo estava a UDN, que formou
um bloco oposicionista junto com o Partido Libertador (PL), o Partido Republi-
cano (PR) e o Partido Democrata Cristão (PDC).
O suicídio dc Vargas
c a carta-tcstamcnto
Abcrtura
Movimcnto
31
) 7 )
Os jornais de maior prestígio também não apoiavam o governo. O principal
líder e porta-voz da oposição era o jornalista Carlos Lacerda, diretor do jornal
Tribuna da Imprensa. Lacerda se destacou por suas posições radicais e por ter uma
grande capacidade verbal. Seus discursos eram inflamados, tinham um tom
emocional e causavam forte impressão.
A política de desenvolvimento do governo Vargas provocava muitos confli-
tos dentro da própria equipe de governo. De um lado estava a Assessoria
Econômica, com uma posição mais nacionalista. De outro lado, o grupo do
ministro da Fazenda, Horácio Lafer, e do ministro da Relações Exteriores, João
Neves da Fontoura, favorável a uma maior participação do capital estrangeiro na
nossa economia.
Além disso, Vargas teve de enfrentar outras dificuldades. Uma delas foi o
aumento da inflação. Quando ele assumiu o governo, em janeiro de 1951, a taxa
anual de inflação era de 12,34%. Mas, em 1954, chegou a 25,86% o que, para a
época, era muito.
A explicação para esse aumento está no fato de que, para industrializar o
país, era necessário fazer muitas compras de máquinas e matérias-primas no
exterior, ou seja, aumentar as importações aumentar as importações aumentar as importações aumentar as importações aumentar as importações.
Nessa época houve também um grande aumento dos preços no
mercado internacional, devido à Guerra da Coréia. O conflito entre a
Coréia do Norte e a Coréia do Sul durante os anos de 1950 e 1953 foi
o ponto culminante da chamada Guerra Fria. A China apoiou a
invasão da Coréia do Norte à Coréia do Sul, e os Estados Unidos
apoiaram a Coréia do Sul. O conflito termina em 1953 com o
reconhecimento das duas Coréias pelos Estados Unidos e pela
União Soviética.
O Brasil tinha de pagar mais caro pelos produtos que com-
prava no estrangeiro. Dos produtos que exportávamos, o único
que permitia o equilíbrio das nossas contas externas era o café.
O algodão, que figurava como segundo produto de exportação
brasileiro, teve uma queda enorme de preços no mercado
internacional.
Além disso tudo, o Brasil também se endividou interna-
mente. O Banco do Brasil foi muito generoso, nesse período,
com os empresários nacionais. Financiou a instalação, a
expansão e a modernização de muitas indústrias. Conclu-
são: o Estado aumentou muito os seus gastos e, quando
o Estado gasta mais do que arrecada, vem a inflação.
Com o aumento da inflação, aumentou o custo de
vida: os salários perderam valor, e os trabalhadores e os
sindicatos começaram a pedir reajustes salariais.
Em janeiro de 1953, irrompeu no Rio de Janeiro a
primeira de uma série de greves de trabalhadores: foi
a dos têxteis, pedindo um aumento salarial de 60%.
Em março foi a vez dos operários paulistas, que
decretaram uma greve geral.
Os empresários acusavam Vargas de respon-
sável pela série de greves que começavam a
eclodir. Diziam que ele utilizava o PTB para insu-
flar essas greves. Seu objetivo seria estabelecer um
clima de desordem no país e, com isso, favorecer um golpe
para continuar no poder.
A crise na
imprensa.
31
) 7 )
Para solucionar as dificuldades econômicas e os problemas sociais e dimi-
nuir a pressão que lhe faziam a oposição e a imprensa, ainda em 1953 Vargas
resolveu mudar o seu ministério.
Para ser ministro do Trabalho, convidou João Goulart um jovem político
gaúcho, do PTB, que tinha boas relações com os líderes sindicais. Para
o Ministério da Fazenda, convidou seu amigo Osvaldo Aranha, que se dedicou
ao combate da inflação.
Mas a escolha de Goulart foi a que trouxe os maiores problemas. Provocou
descontentamento entre os opositores, principalmente entre os políticos da
UDN e os militares antinacionalistas. A imprensa começou a divulgar que essa
escolha tinha outras intenções. Uma delas seria formar, no Brasil, uma “repúbli-
ca sindicalista”.
Essa “república” seria um governo no qual os sindicatos de trabalhadores
teriam grande poder. Dizia-se na época que Vargas estava tentando fazer uma
aliança com o presidente da Argentina, Juan Domingo Perón, para estabelecer
aqui um regime sindicalista sob seu controle. Com isso, os antigetulistas queriam
dizer que Vargas estava tramando derrubar o regime democrático.
Sempre a desconfiança, o medo de que ele repetisse o golpe de 1937. Ou seja,
o passado de Vargas o condenava. E os udenistas conspiravam para afastá-lo
do governo.
João Goulart, em fevereiro de 1954, procurou acalmar os sindicatos e os
trabalhadores que haviam deflagrado numerosas greves propondo um aumento
de 100% para o salário mínimo. Essa proposta teve uma repercussão negativa
entre os empresários, os políticos antigetulistas e os militares.
Logo a seguir, 42 coronéis e 39 tenentes-coronéis do Exército divulgaram um
documento que ficou conhecido como manifesto dos coronéis manifesto dos coronéis manifesto dos coronéis manifesto dos coronéis manifesto dos coronéis. Nele, reclama-
vam que o governo não tinha se preocupado em melhorar a situação do Exército.
Seus equipamentos eram velhos e seus salários, muito baixos. Diziam ainda que,
se fosse dado um aumento de 100% para os salários dos trabalhadores, um
operário não qualificado passaria a ganhar mais que um cidadão com nível
universitário.
lm tcmpo
Vargas e a imagem do “bom velhinho”.
31
) 7 )
Havia, assim, um descontentamento no meio militar, sobretudo entre os
oficiais anticomunistas e antipopulistas que não aceitavam a forma de governar
de Vargas. Com todas essas críticas, João Goulart pediu demissão do Ministério
do Trabalho, saindo com uma imagem de político que queria favorecer
os trabalhadores.
Vargas busca uma saída
Diante de uma oposição cada vez mais bem organizada e mais agressiva,
Vargas achou que a saída era ter uma postura mais nacionalista e mais popular.
No dia 1 de maio de 1954, assinou um decreto aumentando afinal o salário
mínimo em 100%. Vargas se refere a esse fato na carta-testamento, dizendo que
o aumento desencadeou ódios.
É verdade que esse sentimento existia, tanto da parte dos militares como dos
políticos e empresários, que passaram a se organizar para tirar Vargas do
governo. E as posições nacionalistas do presidente também provocavam a
desconfiança dos capitais e das empresas estrangeiras.
Por outro lado, Vargas não conseguia convencer os nacionalistas das suas
intenções. A sua forma de agir, tentando sempre conciliar, fazendo concessões
aos adversários, trazia desconfianças para os seus próprios aliados.
Os jornais de maior circulação no Rio de Janeiro como O Globo, Correio da
Manhã, Diário de Notícias, Diário Carioca e O Jornal e em São Paulo como
O Estado de S. Paulo e a Folha da Manhã não davam notícias sobre as realizações
do governo: só apresentavam críticas e aspectos negativos.
Vargas procurou solucionar essa dificuldade de comunicação com o público
ajudando na criação do jornal Última Hora. O Banco do Brasil fez empréstimos
vantajosos para o seu proprietário, o jornalista Samuel Wainer, que era amigo de
Vargas. Era um jornal popular muito bem feito. Em pouco tempo, alcançou
grande número de leitores. Os outros jornais desconfiaram que Wainer recebera
ajuda do governo e começaram a buscar provas para incriminar Vargas. Mas não
conseguiram.
Vargas sofria cada vez mais acusações de estar favorecendo os amigos, de
que seu governo cometia muitos erros, de que havia muita corrupção. Carlos
Lacerda fazia grandes discursos, nos quais atacava de maneira agressiva a figura
de Vargas. A Tribuna da Imprensa era o mais violento dos jornais contra Getúlio.
Nesse ambiente de paixões, em 5 de agosto de 1954, ocorreu o chamado
atentado da Toneleros atentado da Toneleros atentado da Toneleros atentado da Toneleros atentado da Toneleros.
Você sabe o que foi o atentado da Toneleros?
O jornalista Carlos Lacerda foi alvo de uma tentativa de assassinato:
ao chegar em casa, na rua Toneleros, em Copacabana, no Rio de Janeiro,
um desconhecido atirou contra ele. Mas foi um amigo do jornalista o major
da Aeronaútica Rubem Florentino Vaz quem foi atingido e morreu. Lacerda
foi ferido no pé.
A oposição atribuiu a responsabilidade por esse atentado ao governo
Vargas. Foi instalada uma comissão de inquérito que rapidamente chegou à
identificação dos culpados. O responsável direto era o chefe da guarda pessoal
de Vargas no palácio do Catete, Gregório Fortunato.
lm tcmpo
31
) 7 )
A partir daí, os acontecimentos se precipitaram. Vargas procurou demons-
trar que não tinha conhecimento prévio desse atentado, e que tudo faria para
esclarecer a situação e punir os responsáveis.
Mas os políticos principalmente da UDN e os militares passaram a exigir
a sua renúncia ao governo.
Foi sobre Vargas que recaíram todas as responsabilidades pelos males que
afligiam o país. Foi na sua pessoa que se concentraram todas as críticas e todos
os ódios, tanto dos políticos, dos militares como dos empresários.
Os momentos finais da vida do presidente Vargas foram marcados pelo
tumulto, pela agitação nacional. A minissérie Agosto, baseada num romance de
Rubem Fonseca e exibida pela TV Globo, relata aqueles acontecimentos.
Procure conversar com pessoas à sua volta que viveram aquele período.
Vamos ver como anda a memória brasileira?
°Saio da vida para cntrar na histúria"
As pressões para deixar o Palácio do Catete levaram Vargas ao suicídio, no
dia 24 de agosto de 1954. O suicídio teve enorme impacto na população e
provocou forte reação popular. A carta-testamento, encontrada na mesa de
cabeceira do presidente morto, foi lida e divulgada pela Rádio Nacional, chegan-
do rapidamente a todos os recantos do Brasil.
Nessa carta, da qual você já conhece um trecho, Vargas se apresentava como
o grande defensor da classe trabalhadora e como o político que tudo fizera para
tornar o Brasil um país desenvolvido. Apresentava-se também como vítima de
grupos nacionais e estrangeiros que não aceitavam que os trabalhadores tives-
Pausa
Getúlio Vargas e
Gregório Fortunato
(atrás, de chapéu).
31
) 7 )
sem garantidos os seus direitos sociais. Esses grupos, dizia o presidente, faziam
tudo para impedir que o Brasil se tornasse independente economicamente.
Vargas, mais uma vez, explorava a figura do “pai dos pobres”, daquele que
concedera aos trabalhadores os seus direitos. Com a carta-testamento, deixou
uma imagem de herói, daquele que lutou pelo bem do país mas que teve de se
sacrificar, porque perdeu a batalha final.
Vejamos o que dizia Vargas em outros trechos dessa carta:
Nada mais vos posso dar a não ser meu sangue.
Se as aves de rapina querem o sangue de al-
guém, querem continuar sugando o povo bra-
sileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.
Escolho este meio de estar sempre convosco.
Quando vos humilharem, sentireis minha alma
sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à
vossa porta, sentireis em vosso peito a energia
para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos
vilipendiarem, sentireis no pensamento a for-
ça para a reação. Meu sacrifício vos manterá
unidos e meu nome será a vossa bandeira de
luta. Cada gota de meu sangue será uma cha-
ma imortal na vossa consciência e manterá a
vibração sagrada para a resistência. Ao ódio
respondo com perdão. E aos que pensam que
me derrotaram respondo com a minha vitória.
Era escravo do povo e hoje me liberto para a
vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo
não mais será escravo de ninguém. Meu sacri-
fício ficará sempre em sua alma e meu sangue
será o preço do seu resgate.
Lutei contra a espoliação do Brasil. Tenho
lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a
calúnia não abateram o meu ânimo. Eu vos dei
a minha vida. Agora vos ofereço a minha mor-
te. Nada receio. Serenamente dou o primeiro
passo no caminho da eternidade e saio da vida
para entrar na história.
Você pode imaginar que sentimentos essa carta despertou na população.
Ao tomar conhecimento do suicídio e dessa mensagem, o povo foi para
as ruas chorar a morte do seu líder e se vingar dos seus opositores, daqueles que
foram identificados como os responsáveis pela sua morte.
No Rio de Janeiro, uma multidão foi para o palácio do Catete para prestar a
última homenagem ao presidente. No centro da cidade, grupos se formaram
para apedrejar e incendiar os jornais de oposição. Foram feitas tentativas de
apedrejar a embaixada americana e empresas estrangeiras.
Em São Paulo, milhares de operários entraram em greve de protesto e se
manifestaram contra os opositores de Vargas. Em Porto Alegre, foram queima-
dos os jornais anti-Vargas e foram atacadas as sedes da UDN e do Partido
Libertador. Em Belo Horizonte e Recife, a população também foi para as ruas se
manifestar contra os opositores do presidente morto.
31
) 7 )
A emoção, a tristeza e o desespero popular foram tão fortes que atemoriza-
ram e desconcertaram os antivarguistas, que esperavam, com o afastamento de
Vargas, liquidar o getulismo.
A Era Vargas, na verdade, não terminou em 1954. Sob muitos aspectos, ela
sobrevive até hoje, como nós já vimos. A forma como Getúlio decidiu sair da vida
para entrar na história permitiu a sobrevivência da democracia até 1964. Permi-
tiu também a continuidade da sua política desenvolvimentista com Juscelino
Kubitschek.
A carta-testamento, como ele queria, transformou-se em bandeira de luta
para o PTB e para todos os getulistas.
Vargas é um dos raros personagens da nossa história que ficaram na
memória popular. Muitas são as razões que podem explicar esse fenômeno. Uma
delas é o fato de ele ter permanecido longo tempo no cenário político. Governou
o Brasil durante quase 19 anos. Uma segunda razão foi o fato de que com ele, e
por meio do seu governo, o Brasil entrou na era da industrialização, deixou de
ser um país agrícola.
Mas é preciso também levar em consideração as suas relações com o povo,
com os trabalhadores urbanos, a forma como ele se dirigia às massas, e, princi-
palmente, a implantação da legislação trabalhista entre nós, nas décadas de 1930
e 1940. Nessa época, ainda era difícil, para as elites brasileiras, a aceitação dos
direitos sociais como algo fundamental nas sociedades modernas.
O suicídio foi outro elemento que, sem dúvida, contribuiu para a permanên-
cia tão forte da imagem de Vargas no seio da população. Esse gesto, junto com
a carta-testamento, transmitiu a imagem do sacrifício, do homem que deu a vida
pelo bem do Brasil e pelo povo brasileiro.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Releia o item Vargas enfrenta a oposição Vargas enfrenta a oposição Vargas enfrenta a oposição Vargas enfrenta a oposição Vargas enfrenta a oposição e explique a frase contida no
texto da aula: “O passado do presidente Vargas o condenava”.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Explique por que o suicídio de Vargas provocou forte reação popular.
UItimas
paIavras
lxcrcícios
32
) 7 )
Este módulo levará você a um momento da história do Brasil que ficou
conhecido como os anos dourados os anos dourados os anos dourados os anos dourados os anos dourados. Depois do dramático final do governo
Vargas, entraremos no período JK tempo do otimismo desenvolvimentista, da
mudança da capital, da efervescência cultural. Tempo de um presidente risonho,
alegre, “pé-de-valsa”, que queria fazer o país progredir “50 anos em 5”...
Vamos ver por que esse período ficou na memória de tantos brasileiros como
os “bons tempos” que não voltam mais...
MúduIo 12
Os anos dourados
32
) 7 )
O período de 1956 a 1961 aparece no cenário
político brasileiro como o da estabilidade política. Juscelino Kubitschek foi o
único presidente civil que, entre 1930 e 1994, conseguiu manter-se até o fim do
mandato presidencial por meios constitucionais.
A população brasileira viveu uma fase de muito otimismo. O país alcançava
altos índices de crescimento. Novas indústrias eram criadas e, muito importante,
ampliava-se consideravelmente o número de empregos. Além de tudo isso,
dava-se início à construção e inauguração da nova capital, Brasília.
Como explicar a estabilidade política em um país que saía de uma crise que
levara um presidente ao suicídio? Como Juscelino Kubitschek conseguiu con-
quistar o apoio dos políticos, dos militares, dos empresários, da população?
Como, e a que preço, executou seu programa de desenvolvimento econômico?
Um comcço difíciI: a cIcição c a possc
Com a morte de Vargas, subiu ao poder o vice-presidente João Café
Filho, que deveria preparar as eleições de outubro de 1955 para um
novo mandato presidencial. O seu governo foi formado por muitos
antigetulistas e tinha vários políticos da UDN.
Em fevereiro de 1955, o PSD lançou oficialmente o seu candidato
à presidência: o então governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek
de Oliveira. Imediatamente surgiu uma oposição a essa candidatura,
por parte da UDN e dos grupos antigetulistas. Eles começaram a
defender a intervenção dos militares para impedir a realização das
eleições, pois viam na possível vitória de Juscelino um retorno ao
passado, ao período Vargas.
A situação se complicou ainda mais com o lançamento da candida-
tura de João Goulart à vice-presidência, pelo PTB, na chapa de Jusce-
lino. Isso porque a união dos dois partidos, PSD e PTB, reforçava as
chances de vitória eleitoral de seus candidatos.
Havia ainda um outro problema: o nome de Goulart, ex-ministro
do Trabalho de Getúlio, fornecia fortes argumentos para que se iden-
tificasse a chapa PSD-PTB como a ressurreição do que havia de mais
negativo no governo Vargas.
O nacionaI-
dcscnvoIvimcntismo
32
) 7 )
Abcrtura
Movimcnto
Juscelino Kubitschek
32
) 7 )
Para complicar de vez a situação, o Partido Comunista Brasileiro, mesmo
clandestino, resolveu lançar um manifesto de apoio à chapa PSD-PTB.
Volte à aula anterior e veja quais as razões que justificavam a reação dos
antigetulistas contra João Goulart, o popular Jango. Faça um pequeno resumo.
Outros candidatos também disputavam essa eleição. A UDN, junto com
outros pequenos partidos como o Partido Democrata Cristão (PDC), o Partido
Socialista Brasileiro (PSB) e o Partido Libertador (PL), lançou o nome do
general Juarez Távora. Concorriam ainda o paulista Ademar de Barros, pelo
Partido Social Progressista (PSP), e Plínio Salgado, antigo líder do movimento
integralista, pelo Partido de Representação Popular (PRP).
Afinal saiu vitoriosa a chapa Juscelino-Jango, com 36% dos votos. Abriu-se
então um período de contestação desse resultado. Mais uma vez, os perdedores
invocaram a tese da maioria absoluta: a chapa do PSD-PTB não tinha alcançado
a metade dos votos mais um. A oposição também usou como argumento o fato
de que Juscelino se elegera com os votos dos comunistas, o que feria a legitimi-
dade da eleição.
Você sabe o que isso significa? Significa que o Partido Comunista, conside-
rado um partido ilegal em 1947, não poderia eleger um candidato.
Ainda para tentar impedir a posse dos eleitos, falava-se muito em fraude e
corrupção durante a eleição. Na verdade, os grupos que haviam trabalhado para
afastar Vargas do poder e que tiveram o apoio de lideranças militares estavam
novamente perdendo a chance de assumir o controle do governo. Por isso, a
oposição começou a fazer todo o possível para impedir a posse dos vencedores.
Abriu-se então uma nova crise política, que teve o seu ponto culminante no
chamado movimento do 11 de novembro movimento do 11 de novembro movimento do 11 de novembro movimento do 11 de novembro movimento do 11 de novembro.
Esse movimento foi liderado pelo general Henrique Teixeira Lott, ministro
da Guerra do presidente Café Filho. Tudo começou quando, no início de
novembro de 1955, morreu o general Canrobert Pereira da Costa, presidente do
Clube Militar e um dos mais importantes opositores de Vargas nos meios
militares. Durante o enterro, o coronel Bizarria Mamede, um dos que haviam
assinado o manifesto dos coronéis (volte à Aula 31), aproveitou para fazer um
discurso violento contra a eleição de Juscelino e Goulart.
O general Lott, tentando evitar a politização dentro das forças armadas,
pediu ao presidente da República a punição de Mamede. Naquele momento,
ocupava interinamente a presidência o presidente da Câmara dos Deputados,
Carlos Luz. Luz estava substituindo Café Filho, que fora hospitalizado por
problemas cardíacos.
Carlos Luz negou-se a punir o coronel Mamede. O general Lott então pediu
demissão; a seguir, mudou de idéia e encabeçou um movimento que destituiu
Carlos Luz e colocou no governo Nereu Ramos, presidente do Senado.
Essa intervenção militar − ou “contragolpe preventivo”, como foi chama-
da − teria por objetivo neutralizar uma suposta conspiração tramada no
interior do próprio governo com o fim de impedir a posse do presidente eleito.
Nereu Ramos exerceu a presidência até Juscelino e Goulart tomarem posse,
em 31 de janeiro de 1956, numa situação de censura à imprensa, estado de sítio
− enfim, de grande tensão política.
Você já percebeu que Juscelino teria de ser muito habilidoso para superar
todas as crises que iriam se manifestar durante o seu governo. Mas era um
homem que sabia lutar pelos seus objetivos.
Pausa
32
) 7 )
Ele mesmo assim se definia:
De meu governo nunca se poderá dizer que não soube o que queria e que
não soube querer. Quando assumi a Presidência da República, tinha
perfeitamente definidos os objetivos a que me lançaria, com todo empe-
nho que me fosse dado concentrar, com a firme determinação que, mercê
de Deus, nunca me faltou (...). Sempre soube o que queria. Sempre soube
querer.
A cstabiIidadc: a aIiança PSD-PTß c as forças armadas
JK, nome pelo qual ficou conhecido Juscelino Kubitschek, iniciou o seu
governo com um apoio maciço no Congresso. Esse apoio veio da aliança entre
o PSD e o PTB, que se fizera durante a eleição e que permaneceu durante todo
o seu governo.
Juscelino formou o seu ministério com uma maioria de políticos do PSD,
partido que tinha o maior número de deputados no Congresso. Reservou para
o PTB seis ministérios, entre eles o do Trabalho e o da Agricultura. Para
o Ministério da Guerra, convidou o general Henrique Teixeira Lott.
Veja só a habilidade do presidente JK! Compôs seu ministério de forma a
controlar possíveis conflitos. O PSD dava apoio para a sua política econômica e
mantinha o controle sobre as bases rurais. O PTB, controlando o Ministério do
Trabalho, os sindicatos e os institutos de previdência, poupava o governo de
tomar medidas repressivas ou antipáticas em momentos de reivindicação sala-
rial. Assim, Juscelino protegeu-se de problemas vindos dos dois lados: do campo
e da cidade.
O general Lott foi uma peça-chave no controle dos militares. Era um homem
que não demonstrava simpatias partidárias, o que permitia neutralizar todas as
divisões entre a oficialidade. Além disso, Juscelino procurou atender às reivin-
dicações da corporação militar.
Você está lembrado de que uma das críticas que os militares fizeram ao
governo Vargas no manifesto dos coronéis era a de que eles eram mal remune-
rados, seus equipamentos eram velhos, ultrapassados etc. Pois bem: Juscelino
procurou equipar melhor as forças armadas, destinando recursos para a produ-
ção de material bélico; deu aumentos salariais, promoveu mesmo aqueles que
lhe faziam oposição, deu recursos para a ampliação dos colégios e academias
militares, investiu na modernização dos fortes, reaparelhou a Força Aérea
Brasileira (FAB).
Essas medidas foram mudando a imagem de Juscelino junto aos milita-
res, que inicialmente o viam como o herdeiro de Vargas e, por isso, não
o aceitavam.
A poIítica cconûmica: o PIano dc Mctas
O Brasil não produzia automóveis quando se iniciou o governo JK. No
entanto, ao se encerrar o seu mandato presidencial, a nova indústria automobi-
lística já produzia 81.753 automóveis e 51.325 caminhões.
lm tcmpo
32
) 7 )
A política adotada por Juscelino, que permitiu um salto na economia
brasileira e foi chamada de nacional-desenvolvimentista nacional-desenvolvimentista nacional-desenvolvimentista nacional-desenvolvimentista nacional-desenvolvimentista, baseou-se em três
orientações:
aumento da intervenção do governo na economia;
incentivo aos empresários nacionais para que ampliassem e abrissem novas
indústrias;
incentivo aos empresários estrangeiros para que viessem instalar aqui seus
empreendimentos.
Vimos que, até o governo Vargas, os grupos que discutiam a orientação a ser
dada ao nosso desenvolvimento ainda não aceitavam juntar esses três parceiros.
Mas Juscelino conseguiu fazê-lo. Recebeu o apoio de políticos, empresários,
militares, jornalistas e intelectuais para a sua política econômica. É verdade que
os grupos nacionalistas olhavam para ela com desconfiança mas percebiam
que o país estava se desenvolvendo.
Foi no Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) que um grupo de
intelectuais formulou muitas das idéias sobre o desenvolvimento nacionalista.
Eles defendiam que a industrialização deveria ser feita pelos empresários
nacionais, pois essa seria a única maneira de o Brasil se tornar um país autônomo,
independente.
Esse grupo não aceitava que os empresários estrangeiros explorassem
determinadas indústrias que eram vistas como suporte para outras, como a
siderurgia, por exemplo. Mas, de toda forma, o grupo apoiou a política adotada
por Juscelino, por ver nela pontos em comum com as suas idéias.
Juscelino Kubitschek na
Caravana de Integração
Nacional, fevereiro de 1960.
32
) 7 )
Por outro lado, o programa de desenvolvimento de Kubitschek ia ao encon-
tro dos desejos dos militares, que queriam que o Brasil deixasse de ser pobre para
evitar a penetração de idéias comunistas.
A Escola Superior de Guerra (ESG) foi um dos centros de estudo nos quais
se defendeu a tese de que era preciso um desenvolvimento rápido para que
o Brasil garantisse sua segurança nacional. Para isso, teríamos de nos aliar aos
países que combatiam o comunismo, ou seja, os Estados Unidos e os países da
Europa Ocidental. Não é difícil perceber que os militares da ESG eram favoráveis
à vinda de capitais estrangeiros para ajudar o Brasil a se desenvolver.
A política econômica do governo Kubistchek ficou definida no Plano de Plano de Plano de Plano de Plano de
Metas Metas Metas Metas Metas. Esse plano continha trinta objetivos, ou metas, que deveriam ser atingi-
dos em cinco anos. O plano previa integrar o desenvolvimento industrial com
o desenvolvimento de setores como estradas, energia, transportes, portos
e educação. Previa também a construção da nova capital, Brasília, que era
chamada de meta-síntese meta-síntese meta-síntese meta-síntese meta-síntese. Para fazer o Plano de Metas, o governo JK criou os
Grupos Executivos Grupos Executivos Grupos Executivos Grupos Executivos Grupos Executivos, órgãos administativos especiais que se
encarregavam de todas as providências necessárias para
que as metas fossem cumpridas.
Esses grupos eram integrados tanto por administrado-
res públicos como por industriais e especialistas da área em
que o grupo atuava. Ficavam ligados diretamente ao presi-
dente da República, o que lhes dava autonomia e agilidade
para trabalhar. Com isso, os ministérios e o Congresso não
podiam interferir nas orientações e decisões. O que Jusceli-
no queria era que as metas fossem cumpridas, que não
sofressem atraso por razões políticas.
A criação dos Grupos Executivos Grupos Executivos Grupos Executivos Grupos Executivos Grupos Executivos foi uma inovação
política e administrativa. Além desses grupos, o governo
criou outros órgãos paralelos aos que já existiam na admi-
nistração pública, também como forma de agilizar soluções
e resolver problemas.
Foi no governo JK que muitos órgãos bem conhecidos hoje foram criados.
Entre eles, a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene Sudene Sudene Sudene Sudene), que
surgiu ao lado do Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs Dnocs Dnocs Dnocs Dnocs).
A Sudene pretendia incentivar a industrialização do Nordeste. Era forma-
da por técnicos competentes e estava ligada diretamente ao presidente
da República.
A política econômica do governo Juscelino Kubitschek provocou, de fato,
grandes mudanças no país. Os números ajudam a entender melhor os resultados
alcançados pelo Plano de Metas e o que ocorreu nos anos JK.
Pelo quadro abaixo, você pode acompanhar o sucesso de algumas das metas
propostas pelo governo:
Presidente
Kubitschek na usina
hidrelétrica de
Furnas, Minas
Gerais.
lm tcmpo
1961 1961 1961 1961 1961
5.000.000 kw
3.000.000 t
75.500 barris/dia
200.000 t
2.000.000 t
1956 1956 1956 1956 1956
3.000.000 kw
2.000.000 t
6.800 barris/dia
90.000 t
1.000.000 t
Energia elétrica
Produção de carvão mineral
Produção de petróleo
Celulose e papel
Produção siderúgica
32
) 7 )
ßrasíIia c a infIação
Juscelino escolheu como símbolo do seu período de governo a construção da
nova capital no interior do país. O urbanista Lúcio Costa e o arquiteto Oscar
Niemeyer foram convidados a conduzir os trabalhos de criação e realização do
projeto.
A construção de Brasília provocou um grande entusiasmo na população, que
via surgir, no meio do cerrado do Centro-Oeste brasileiro, uma nova cidade.
Para lá se deslocou enorme quantidade de trabalhadores, principalmente do
Nordeste. Eram os candangos candangos candangos candangos candangos, como foram chamados os operários da constru-
ção civil que ergueram Brasília.
Prepare-se para um exercício mental.
Vamos imaginar a construção de uma cidade. O que é preciso existir em uma
cidade?
Sabe por que nós não pensamos nisso com freqüência? Porque, em geral,
uma cidade se faz aos poucos. É preciso que tenha serviços públicos, escolas,
hospitais, ruas, locais de moradia, de diversão...
E se essa cidade for construída para ser a capital de um país do tamanho do
Brasil? Precisará ter todos os serviços do governo, as repartições... Os ministérios
terão de se deslocar da antiga para a nova capital...
Pense sobre isso para entender por que os anos JK foram tão falados.
O próprio presidente confessou que a construção da nova capital foi tarefa
dura.
Não foi fácil. Nem esperava eu que o fosse. Não me habituei, desde a
infância, às coisas fáceis. Tudo que consegui foi lutando decididamente,
à custa de trabalho e sacrifício, não sei se mais trabalho ou mais
sacrifício, mas ambos igualmente porfiados e duros. Posso assegurar,
todavia, que a luta por Brasília foi um dos combates mais árduos de
minha vida. A medida de minha determinação de levar a cabo a constru-
ção da nova capital pode ser dada por um simples exemplo: assoberbado
Pausa
Aspecto da construção de Brasília.
Ao lado, o projeto da cidade.
32
) 7 )
por problemas de toda a ordem, com
trinta metas a cumprir, viajei, du-
rante os 41 meses da construção de
Brasília, quase trezentas vezes para
o local das obras. Não parei, não
descansei, não ouvi os críticos nem
os temerosos. E o resultado aí está:
Brasília Capital da Esperança.
Mas a construção de Brasília des-
viou a atenção da população de outros
problemas que estavam ocorrendo. Um
deles era a inflação, provocada pelos
gastos excessivos do governo.
Quando Juscelino assumiu o poder,
os preços subiam 12,5% ao ano; quando
deixou o governo, essa taxa tinha subido
para 30,5% ao ano.
Entretanto, foi nesse período que o salário mínimo teve o seu mais alto
poder aquisitivo. Os 3.800 cruzeiros de 1957 compravam 22% mais que os 240
cruzeiros de 1940, ano de criação do salário mínimo.
O fato de o governo gastar mais do que arrecadava de impostos fazia com
que aumentasse a dívida do Estado. Você sabe que, se gastamos mais do que
ganhamos, o resultado é dívida!
Além de gastar muito para construir Brasília, o governo também gastou
muito aumentando os salários dos funcionários civis e militares. E, mais ainda,
gastava dinheiro porque emprestava aos empresários com juros baixos.
Como nessa época não existia correção monetária, os empresários recebi-
am empréstimos dos bancos e, quando iam pagar as dívidas, acabavam
pagando muito menos do que haviam tomado de empréstimo, porque com
a inflação a moeda tinha se desvalorizado.
Um outro problema que JK teve de enfrentar foi o dos produtos agrícolas que
eram exportados. O Brasil foi recebendo cada vez menos pela mesma quantidade
que vendia no exterior seja porque os preços estavam baixando no mercado
internacional, seja porque começaram a surgir concorrentes, como no caso da
produção de café.
Todas essas dificuldades levaram JK a tentar diminuir o déficit ou seja, a
dívida, pois as críticas à sua política começavam a aumentar. Essas críticas não
eram apenas internas: também vinham dos organismos internacionais que
estavam dando empréstimos ao Brasil para financiar parte do Plano de Metas.
Juscelino preparou então um programa de estabilização que pretendia
restringir o crédito aos empresários. Mas estes, imediatamente, se organizaram
contra o governo.
Para que o Brasil continuasse recebendo empréstimos estrangeiros, o Fundo
Monetário Internacional (FMI) teria de concordar com essa política de estabili-
zação do governo. E o FMI fez numerosas exigências para aprová-la.
Acontece que, nesse momento, os nacionalistas e os comunistas passaram a
fazer severas críticas a JK, acusando-o de se submeter às decisões estrangeiras.
Os nacionalistas e os comunistas estavam convencidos de que isso levaria
o Brasil a se tornar dependente dos Estados Unidos, a perder a sua soberania.
Aspecto do prédio do Congresso Nacional em Brasília.
O FMI é uma
organização
financeira
internacional criada
em 1944. Trata-se
de uma agência
especializada da
Organização das
Nações Unidas
(ONU), que faz
parte do sistema
financeiro
internacional. O
FMI foi criado com
o fim de promover
a cooperação
monetária no
mundo capitalista e
levantar fundos
para auxiliar os
países que
encontrem
dificuldades nos
pagamentos
internacionais.
Correção
monetária quer
dizer correção do
valor do dinheiro,
ou seja, o
acréscimo pela
depreciação do
valor original.
32
) 7 )
Ao final de seu governo, Juscelino queria fazer o seu sucessor. Preferiu
ganhar as simpatias dos militares, empresários, comunistas, nacionalistas, e
rompeu as negociações com o FMI. Abandonou, assim, o programa de estabili-
zação. Ele queria que o seu sucessor fosse o general Lott, candidato do PSD-PTB,
mas não obteve sucesso. O eleito foi Jânio Quadros, que teve o apoio da UDN.
A política nacional-desenvolvimentista definida no governo JK não se
encerrou com o fim do seu mandato. Ela teria continuidade, principalmente
durante os governos militares após 1964.
Mas a Era JK Era JK Era JK Era JK Era JK não foi só de desenvolvimento econômico. Foi uma época de
grande criatividade cultural, em que surgiram movimentos como o Cinema
Novo, a Bossa Nova. Foi uma fase de muitos debates de idéias.
Foi ainda durante o governo de JK que o Brasil ganhou a Copa do Mundo na
Suécia, em 1958!
Agora, você certamente já começou a entender por que o governo JK deixou
boas lembranças, por que esse período é visto como os “anos dourados”...
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Releia o item A estabilidade: a aliança PSD/PTB e as forças armadas A estabilidade: a aliança PSD/PTB e as forças armadas A estabilidade: a aliança PSD/PTB e as forças armadas A estabilidade: a aliança PSD/PTB e as forças armadas A estabilidade: a aliança PSD/PTB e as forças armadas.
Explique como o presidente Juscelino Kubitschek conseguiu obter apoio
político e militar.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Explique a frase contida no texto: “O governo Juscelino Kubitschek provo-
cou, de fato, grandes mudanças no país”.
UItimas
paIavras
lxcrcícios
33
) 7 )
33
) 7 )
Na aula anterior, vimos como as bases de
sustentação política do governo Juscelino Kubitschek garantiram-lhe estabilida-
de e permitiram-lhe levar adiante um plano econômico baseado nos princípios
do nacional-desenvolvimentismo. Nesta aula, vamos ver como o desen-
volvimentismo tomou conta da sociedade brasileira dos anos 50.
Aqui, como em toda parte, depois do final da guerra, em 1945, era possível
sentir uma tendência ao otimismo e à esperança. Veremos de que forma esse
clima se consolidou no Brasil, por meio de novas formas de expressão cultural
− na música, no cinema, no teatro, nas artes plásticas e na literatura − voltadas
sobretudo para as camadas urbanas da nossa sociedade.
Apús a gucrra, a utopia dc construção dc um novo mundo
O final da Segunda Guerra Mundial impôs grandes mudanças no cenário
internacional, inclusive no Brasil. A mesma coisa acontecera em 1918, ao término
da Primeira Guerra, como você já viu na Aula 25.
As duas superpotências emergentes, Estados Unidos e União Soviética,
engajadas na Guerra Fria, procuravam ampliar suas áreas de influência. Era
preciso reconstruir os países destruídos da Europa Ocidental. A ajuda financeira
para isso veio dos Estados Unidos, por meio do chamado Plano Marshall.
Aos poucos, ao longo dos anos 50, junto com o apoio financeiro, o estilo de
vida e a cultura dos americanos foram penetrando em vários países.
Socicdadc c cuItura
nos anos dourados
Abcrtura
Movimcnto
Propagandas veiculadas em revistas ao longo da década de1950.
33
) 7 )
Era um momento de grande prosperidade econômica dos Estados Unidos.
Houve um grande aumento da produção, acompanhado de um aumento da
capacidade de consumo. Com materiais desenvolvidos durante a guerra, como
o plástico ou o nylon , a indústria americana passou a produzir em massa objetos
de uso pessoal e doméstico.
Cada vez mais chegavam às lojas geladeiras, máquinas de lavar, barbeado-
res, televisores, rádios portáteis, automóveis e outros bens. Com um custo
de fabricação mais baixo, esses produtos podiam ser vendidos mais barato
e traziam a marca do prático prático prático prático prático, do eficiente eficiente eficiente eficiente eficiente e do moderno moderno moderno moderno moderno.
Era exatamente esse novo estilo de vida, que vinha com tais produtos, que
passava a ser praticado no mundo ocidental. Acompanhava-o um sentimento de
esperança e otimismo trazido pelo final da guerra e pelo conseqüente desejo de
uma vida melhor. Prezava-se o maior conforto propiciado pelos novos objetos,
que simplificavam o trabalho no cotidiano doméstico e abriam maior espaço
para o lazer.
As inovações científicas e tecnológicas desenvolvidas durante a guerra e ao
longo da década de 1950 chegaram para ficar. Novas formas de pensar e agir se
consolidaram a partir do uso da energia nuclear e dos grandes computadores, da
produção de antibióticos, do lançamento dos primeiros satélites artificiais.
Falava-se do renascimento de um novo homem e de um novo mundo.
Os Estados Unidos, no esforço de afirmar seu poderio econômico e político-
ideológico, procuraram dominar também os países não-europeus. O Brasil,
aliado declarado dos norte-americanos desde a Segunda Guerra, situava-se em
sua área de influência.
A política do governo brasileiro voltava-se expressamente para a difusão de
ideais e valores norte-americanos, e, ao longo da década de 1950, essa influência
se ampliou. Um novo estilo de vida e de comportamento passou a ser exaustiva-
mente mostrado pelas revistas, pelo cinema e pela televisão, o mais novo meio
de comunicação de massa.
A introdução da televisão no Brasil ocorreu em 1950, na cidade de São Paulo,
seguindo-se depois o Rio de Janeiro (1951), Belo Horizonte (1955) e Porto Alegre
(1959). Não havia ainda, naquele momento, um sistema de redes nacionais.
As câmeras eram pesadas, os recursos técnicos mostravam-se precários. Havia
muito improviso, e eram os atores e diretores do rádio que trabalhavam para a
televisão. A programação era quase toda ao vivo, e os principais programas eram
os telejornais, teleteatros, programas musicais e de variedades, muitas vezes
patrocinados por empresas que, assim, começavam a fazer a publicidade de seus
produtos. Esse foi o caso do Repórter Esso e do Teatrinho Trol, entre outros.
Em 1956, já funcionavam aproximadamente 250 mil televisores nas três
maiores cidades do país; em 1959 acelerou-se a fabricação nacional de aparelhos
de televisão.
Foi durante a década de 1950 que se consolidou no Brasil a chamada
sociedade urbano-industrial. Uma das conseqüências desse fenômeno foi o
desenvolvimento de uma cultura de massa, traduzida pelo aumento do consu-
mo de programas de rádio (era o tempo das radionovelas e dos programas de
humor), de jornais, revistas, filmes americanos e também nacionais − o destaque
ia para as chamadas chanchadas chanchadas chanchadas chanchadas chanchadas, que tratavam dos temas do cotidiano sob
a forma de comédia, ao som de músicas de carnaval.
lm tcmpo
33
) 7 )
As casas e os edifícios dos grandes centros urbanos como Rio de Janeiro, São
Paulo e Belo Horizonte, assim como o mobiliário dessas construções, passaram
a privilegiar formas mais livres, mais funcionais e menos adornadas, com curvas
e volumes não habituais. Você conhece os móveis de pé-palito e as luminárias
com hastes longas, finas e coloridas? Era o moderno moderno moderno moderno moderno invadindo a vida
nas cidades.
A juventude passou a ser agente de um novo comportamento. Blusas e calças
de fibras sintéticas, como a helanca helanca helanca helanca helanca e o ban-lon ban-lon ban-lon ban-lon ban-lon, jaquetas de couro e calças de
brim de origem tipicamente norte-americana compunham o vestuário dos
jovens. Eles dançavam um novo ritmo, o rock and roll rock and roll rock and roll rock and roll rock and roll, e andavam de lambreta lambreta lambreta lambreta lambreta.
A influência francesa na nossa cultura perdeu pouco a pouco seu espaço,
permanecendo intensa apenas nos círculos de elite. De qualquer forma, popula-
rizou-se um novo estilo de vida nos centros urbanos, que tinham como modelo
a cidade do Rio de Janeiro, capital da República até 1960, e, dentro dela, o bairro
de Copacabana.
Seus bares, cinemas e lanchonetes, ao lado de sua famosa praia, atraíam
jovens e adultos, políticos, turistas e artistas de cinema de todo o mundo. Em
Copacabana surgiu o primeiro supermercado com auto-serviço, e abriram-se as
primeiras lojas de eletrodomésticos da cidade.
A fabricação nacional de geladeiras, televisores, rádios portáteis, máquinas
de lavar e barbeadores, e ainda o aumento do parque automobilístico, garanti-
ram a difusão desse novo estilo de vida nos centros urbanos brasileiros.
Isso foi possível devido à política do governo Juscelino Kubitschek, que se
preocupou em fazer do Brasil um país industrializado e dinâmico, nos moldes
dos ideais desenvolvimentistas. Consumir produtos “modernos”, “práticos”,
“funcionais” e “dinâmicos”, como dizia a propaganda dos meios de comunica-
ção, era estar em compasso com a vida moderna dos países desenvolvidos.
Roupas de fibras sintéticas tornaram-se
moda nessa época.
33
) 7 )
Como você pode ver, vários aspectos − de ordem econômica, política,
ideológica, social e cultural − fortaleceram os sentimentos de otimismo e espe-
rança que caracterizaram o governo Kubitschek.
Com base nos elementos expostos nesta aula e também na anterior, explique
por que esse momento da história do país recebeu o rótulo de “anos dourados”.
VoItar-sc para o ßrasiI scm dar as costas para o mundo
A possibilidade de produzir algo novo mobilizou também o meio cultural.
Vários movimentos no campo artístico nasceram ou tomaram impulso no Brasil
ao longo da década de 1950.
Surgiram novas formas de pensar e fazer cinema, teatro, música, literatura
e artes plásticas. A própria arquitetura se renovou, por meio de uma revisão do
que fora feito até então.
Todas essas experiências possuíam um objetivo em comum: identificar e
trazer à tona elementos da cultura popular e da nacionalidade brasileira,
integrando-os a expressões artísticas inovadoras que vinham surgindo em
alguns países do mundo.
O vigor do movimento cultural encontrava eco junto às camadas médias
urbanas em franca expansão, sobretudo universitárias. Estava em sintonia não
só com o espírito nacionalista da época, mas também com a crença nas possibi-
lidades de desenvolvimento e transformação do país.
Vejamos, com mais detalhes, como isso ocorreu em
cada uma das áreas artísticas.
O cinema cinema cinema cinema cinema feito no Brasil durante a década de
1950 procurou retratar aspectos da realidade do país.
Essa, aliás, era uma tendência inaugurada no pós-
guerra pelo cinema italiano, que, com o movimento
do neo-realismo neo-realismo neo-realismo neo-realismo neo-realismo, se preocupava em documentar os
problemas sociais e humanos.
Assim, tanto um jovem cineasta independente,
como Nelson Pereira dos Santos, quanto os filmes da
Vera Cruz, o grande estúdio da época, construído
nos moldes da indústria cinematográfica norte-ame-
ricana, buscavam abordar temas da cultura popular.
Até mesmo as chanchadas, em tom de comédia,
traziam às telas temas do cotidiano urbano.
O neo-realismo italiano, juntamente com a reno-
vação dos cinemas francês e japonês, influenciou
decisivamente um importante movimento do cine-
ma brasileiro no final da década de 1950 e início dos
anos 60: foi o chamado Cinema Novo Cinema Novo Cinema Novo Cinema Novo Cinema Novo, que alcançaria
repercussão internacional.
O Cinema Novo pretendia ser um instrumento
de reflexão sobre a realidade brasileira. Os cineastas
traziam para a tela os problemas do povo e do
subdesenvolvimento. A nova linguagem, além de
utilizar poucos recursos de produção, criava uma
forma diferente de contar essas histórias.
Pausa
Cena da peça Revolução
na América do Sul, de
Augusto Boal. Teatro de
Arena, 1960 (em cima).
Cena do filme Rio 40 graus, de
Nelson Pereira do Santos (embaixo).
33
) 7 )
A renovação cultural também se processou no teatro teatro teatro teatro teatro, não só em relação
à temática, mas também em relação à encenação. Com um despojamento
semelhante ao do cinema, as montagens se faziam sem cenários, com um
palco no centro da platéia e com os atores interpretando seus personagens de
forma mais realista. Essa foi a marca do Teatro de Arena de São Paulo Teatro de Arena de São Paulo Teatro de Arena de São Paulo Teatro de Arena de São Paulo Teatro de Arena de São Paulo, que em
meados da década de 1950 desenvolveu uma temática voltada para os
problemas sociais e políticos, dentro de um projeto de conscientização e de
criação de um teatro popular.
Esses objetivos inspiraram tam-
bém o Grupo Oficina Grupo Oficina Grupo Oficina Grupo Oficina Grupo Oficina, formado em
1958 por universitários da Faculdade
de Direito do Largo de São Francisco,
na capital paulista. Tanto o Teatro de
Arena quanto o Oficina, liderados res-
pectivamente por Augusto Boal e José
Celso Martinez Correia, desenvolve-
ram suas experiências por influência
dos teatros de vanguarda norte-ame-
ricano e europeu e da obra do drama-
turgo alemão Bertolt Brecht. Novos
autores surgiram na dramaturgia bra-
sileira, como Oduvaldo Viana Filho e
Gianfrancesco Guarnieri.
A música brasileira música brasileira música brasileira música brasileira música brasileira também se
revitalizou com o movimento conhe-
cido como Bossa Nova Bossa Nova Bossa Nova Bossa Nova Bossa Nova, que se iniciou
em 1958. Os músicos incorporaram à
canção popular brasileira algumas ma-
nifestações da música popular estran-
geira, sobretudo de ritmos norte-ame-
ricanos como o jazz e algumas de suas
modalidades, como o be-bop.
A Bossa Nova trazia consigo uma
nova forma de interpretação, mais
intimista. Trazia também uma nova orquestração, um novo ritmo e uma integração
estreita entre letra e música.
A indústria do disco, em franca expansão, logo divulgaria novos composi-
tores, como Antônio Carlos Jobim, João Gilberto e o poeta Vinícius de Moraes,
e novas cantoras, como Silvinha Teles e Nara Leão. Proliferavam as apresenta-
ções nos bares de Copacabana e os espetáculos nas universidades cariocas.
Você conhece a letra da música Desafinado, de João Gilberto, feita em 1958?
A letra diz:
Se você insiste em classificar
Meu comportamento de antimusical
Eu, mesmo sentindo, devo argumentar
Que isso é bossa nova
Que isso é muito natural
A música Desafinado dá o tom do impacto produzido por essa nova forma
de cantar e de compor.
Pausa
Reprodução de capa de disco.
33
) 7 )
Já vimos como Brasília expressava uma nova concepção de vida urbana. Era
o projeto de uma cidade moderna, sem contrastes sociais. Seus idealizadores,
Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, são a expressão máxima da arquitetura moderna
brasileira, diretamente ligada aos fundadores da arquitetura moderna européia,
como o suíço Le Corbusier e os alemães Walter Gropius e Mies Van der Rohe.
Mas não foi só a capital do país que mudou de cara: as casas, os edifícios
residenciais ou de escritórios, alguns edifícios públicos como o Museu de Arte
Moderna do Rio de Janeiro, alteraram a paisagem urbana ao longo da década de
1950. Nos seus interiores, via-se uma concepção também moderna de decoração
e mobiliário, que utilizava materiais locais com um desenho prático, leve e sem
enfeites.
Foi no início da década de 1950 que se consolidaram no Brasil os conceitos
fundamentais da arte moderna, que já vinham sendo difundidos no exterior. A
arte figurativa arte figurativa arte figurativa arte figurativa arte figurativa cedeu lugar à arte abstrata arte abstrata arte abstrata arte abstrata arte abstrata, muitas vezes geométrica geométrica geométrica geométrica geométrica. Arte Arte Arte Arte Arte
abstrata abstrata abstrata abstrata abstrata é uma forma de expressão artística que rejeita a representação da
realidade exterior como faz a arte figurativa como faz a arte figurativa como faz a arte figurativa como faz a arte figurativa como faz a arte figurativa concebendo a arte como uma
organização de formas e cores puras. A sua vertente geométrica geométrica geométrica geométrica geométrica privilegia a
relação forma e cor organizadas a partir dos princípios da geometria. O que
interessava não era a arte como representação e sim como um processo de
conhecimento.
Sob a influência das artes plásticas, alguns poetas, chamados de concretistas concretistas concretistas concretistas concretistas,
procuraram associar o sentido de sua poesia ao próprio aspecto material das
palavras. Os concretistas faziam uma poesia fora das estruturas tradicionais da
língua, utilizando as próprias palavras como objetos concretos, isto é , conside-
ravam entre outros aspectos o espaço gráfico; a cor, o tamanho e a forma da letra
etc... . Veja como exemplo este trabalho de Haroldo de Campos, intitulado
“ nascemorre”, de 1958.
Mas surgiu também uma outra poesia, que, demonstrando seu compromis-
so com os problemas sociais, se voltava para temas regionalistas. É o caso de João
Cabral de Melo Neto, que em 1955 publicou Morte e vida severina. Eis aqui um
trecho de Morte e Vida Severina: Essa cova em que estás,/ com palmos medida,/
é a conta melhor / que tiraste em vida./ É de bom tamanho,/ nem largo nem
fundo,/ é a parte que te cabe/ neste latifúndio./ Não é cova grande, é cova medida,
/ é a terra que querias/ ver dividida.
se
nasce
morre nasce
morre nasce morre
renasce remorre renasce
remorre renasce
remorre
re re
desnasce
desmorre desnasce
desmorre desnasce desmorre
nascemorrenasce
morrenasce
morre
se
Haroldo de Campos, nascemorre, 1958
33
) 7 )
Na prosa, João Guimarães Rosa despontou com Grande sertão: veredas. Essa
obra, utilizando uma temática regional, inovou a própria linguagem inovou a própria linguagem inovou a própria linguagem inovou a própria linguagem inovou a própria linguagem, por meio
de uma fusão entre o falar do sertão e dos índios, o latim e o português arcaico.
O outro Iado da mocda
A preocupação com a pobreza, com o atraso e com as condições de vida do
homem brasileiro tema dos filmes do Cinema Novo, da literatura e do teatro
politicamente engajados refletia os problemas que os movimentos sociais,
urbanos e agrários, também procuravam enfrentar.
Ocorreram, assim, protestos nas cidades e no campo. Houve uma intensifi-
cação de greves a partir de 1958. Sindicalistas, petebistas e comunistas reivindi-
cavam aumentos salariais diante do aumento da inflação e da alta do custo de
vida. Os estudantes, por sua vez, promoviam manifestações por meio da União União União União União
Nacional dos Estudantes Nacional dos Estudantes Nacional dos Estudantes Nacional dos Estudantes Nacional dos Estudantes, a UNE UNE UNE UNE UNE.
A questão da reforma agrária transformou-se na principal bandeira do
movimento das Ligas Camponesas Ligas Camponesas Ligas Camponesas Ligas Camponesas Ligas Camponesas, lideradas por Francisco Julião. A reivindi-
cação de reforma agrária consistia na luta pela distribuição das terras improdu-
tivas em poder dos grandes proprietários entre uma massa de trabalhadores
rurais que não dispunham de área para produzir. Os políticos começaram a
incorporar em seus discursos o tema da reforma agrária, mesmo que não
houvesse uma real intenção de atender às reivindicações dos homens do campo.
Os problemas que atingiam a maior parte da população brasileira contri-
buíram para o agravamento das tensões no campo e na cidade. A radicalização radicalização radicalização radicalização radicalização
política política política política política dos primeiros anos da década de 1960 seria o resultado das tensões não
resolvidas.Essa será a matéria da próxima aula.
Como já foi dito aqui algumas vezes, o que ficou como lembrança dos anos
50, e sobretudo da chamada Era JK, foi a idéia de que aqueles foram “anos
dourados”.
Havia o otimismo e a esperança que refletiam profundas alterações na vida
das pessoas, em termos mundiais. Uma parcela da população dos centros
urbanos pôde consumir mais produtos, novos e melhores.
Mas, como em todos os países subdesenvolvidos, aqui no Brasil, palco da
pobreza, do atraso e de acirradas diferenças sociais, também crescia o sentimento
de que era necessário caminhar na direção de uma sociedade mais justa. Reverter
aquela situação de pobreza, atraso e diferenças sociais foi desejo de estudantes,
trabalhadores, intelectuais e artistas. Como esse movimento foi vivido no
Brasil?É o que veremos no próximo módulo.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Releia o item Após a guerra, a utopia de construção de um novo mundo Após a guerra, a utopia de construção de um novo mundo Após a guerra, a utopia de construção de um novo mundo Após a guerra, a utopia de construção de um novo mundo Após a guerra, a utopia de construção de um novo mundo
e caracterize o novo estilo de vida que passou a ser difundido pelos meios de
comunicação no Brasil dos anos 50.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Releia o item Voltar-se para o Brasil sem dar as costas para o mundo Voltar-se para o Brasil sem dar as costas para o mundo Voltar-se para o Brasil sem dar as costas para o mundo Voltar-se para o Brasil sem dar as costas para o mundo Voltar-se para o Brasil sem dar as costas para o mundo e
identifique um elemento comum presente nos vários movimentos culturais
brasileiros da década de 1950.
UItimas
paIavras
lxcrcícios
34
) 7 )
Os caminhos da democracia têm muitos obstáculos a ultrapassar. Construir
uma sociedade com os direitos dos cidadãos respeitados, com a liberdade
garantida e os deveres cumpridos, é uma tarefa longa e freqüentemente
descontínua. Os anos 60 da história do Brasil nos colocam diante desse desafio.
Uma sociedade viva, plural, muitos grupos se manifestando. Uma incapacidade
de conviver com todas essas manifestações.
Este módulo trata dos dois movimentos: o de manifestação das diferenças −
portanto, da democracia − e o de repressão das diferenças − portanto,
do autoritarismo.
MúduIo 13
Os dcsafios
da dócada dc 1960
34
) 7 )
Na aula passada, fizemos uma pequena vi-
agem pelo final da década de 1950, quando encontramos variadas manifesta-
ções da cultura brasileira, popular e erudita. Essa efervescência era, em grande
parte, um produto da “euforia” desenvolvimentista. No entanto, o clima de
otimismo foi quebrado pelos grandes desafios que a nova década nos trouxe.
Nesta aula, você vai ver de que forma as conjunturas política e econômica do
início dos anos 60 foram marcadas pela herança herança herança herança herança − positiva e negativa − do
período desenvolvimentista. Vamos acompanhar a eleição e o governo de Jânio
Quadros, o presidente que obteve o maior número de votos que o Brasil jamais
tinha dado a um candidato até então. Pois esse presidente tão votado renunciou
ao cargo com menos de oito meses de governo.
A °vassoura" chcga ao PIanaIto
As eleições presidenciais de 3 de outubro de 1960 deram uma espetacular
vitória a Jânio Quadros, ex-prefeito e ex-governador de São Paulo. Jânio foi
candidato de uma ampla união de partidos. Veja só quantos se juntaram para
elegê-lo: UDN, PTN, PDC, PR e PL. A esses partidos uniram-se as dissidências
do PTB, PSD, PRP, PSP e PSB.
Os anos radicais: o
govcrno }ânio Quadros
34
) 7 )
Abcrtura
Movimcnto
Campanha
presidencial de
Jânio Quadros.
34
) 7 )
Jânio obteve 48% (quase seis milhões) dos votos válidos, contra os 32% dados
ao marechal Henrique Teixeira Lott. Como você viu na Aula 32, Lott era ministro
da Guerra do governo Kubitschek e candidato oficial do governo pela aliança
PSD-PTB. Outro ex-governador de São Paulo, Ademar de Barros, também
candidato, obteve 20% dos votos.
A eleição de Jânio teve o comparecimento de 80% do eleitorado. Até então,
nunca tantos eleitores haviam dado seu voto no Brasil.
Para a vice-presidência, foi novamente eleito João Goulart, candidato da
coligação PSD-PTB e ex-vice presidente de Kubitschek.
Você deve estar perguntando: como podem ser eleitos um presidente de um
partido e um vice-presidente de outro?
Uma boa pergunta, essa. Acontece que, pela legislação eleitoral da época, ao
contrário da atual, o eleitor podia votar em candidatos à presidência e à vice-
presidência de chapas diferentes, como se fossem duas eleições distintas.
Vimos que Jânio Quadros se elegeu como candidato de oposição a Juscelino
Kubitschek. Mas como explicar uma vitória tão consagradora, se o governo
Juscelino havia sido, aparentemente, tão bem-sucedido, cumprindo sua promes-
sa de realizar “50 anos em 5”?
Pense um pouco...
Volte à aula anterior e tente expor sua opinião.
Voltemos juntos à “herança” do governo JK. Só no final do governo foi
possível sentir as principais conseqüências negativas do desenvolvimento eco-
nômico acelerado daquele período. Os grandes investimentos necessários à
realização do Plano de Metas criaram um desequilíbrio entre as receitas obtidas
(basicamente dos impostos) e as despesas efetuadas pelo Estado. Como não
podia obter mais receitas, o governo tentou cobrir esse “rombo” com a emissão
de papel-moeda.
O que significa isso? Significa que, como o governo gastava mais do que
recebia, começou a fabricar dinheiro para pagar o que devia. Parece uma solução
mágica, não é? Mas, na realidade, é uma armadilha.
Esse “excesso” de dinheiro em circulação acabou provocando um fenômeno
por nós bastante conhecido: a inflação inflação inflação inflação inflação. Em 1960, a taxa inflacionária anual
chegou a mais de 30%.
Você pode achar que é um índice pequeno, comparado às taxas de inflação
que nos afetaram tanto na década de 1980. Mas começava ali o nosso grande
problema de controlar a inflação e os gastos exagerados do governo. Outra
conseqüência negativa do Plano de Metas foi o crescimento da dívida externa.
Você sabe o que é isso? É quanto o Brasil tem de pagar aos países desenvolvidos
que nos emprestam dinheiro. No período de 1955 a 1960, nossa dívida externa
cresceu em 60%!
Jânio Quadros se aproveitou desses problemas do governo anterior e fez
uma campanha eleitoral com muitas críticas ao governo JK. Prometia um
governo austero e moralizador. A vassoura vassoura vassoura vassoura vassoura, símbolo de sua campanha, servia
para mostrar sua intenção de fazer uma verdadeira “limpeza” na administração
pública: acabaria com a corrupção e com o empreguismo.
Outra imagem que Jânio usava desde os tempos de prefeito em São Paulo −
o “tostão contra o milhão” − ilustrava o desejo do presidente de se apresentar
como o candidato das camadas mais pobres. Prometia ao povo lutar contra os
Pausa
34
) 7 )
privilégios dos poderosos. Com isso, ele conseguiu conquistar votos de muitos
eleitores de camadas sociais diferentes às vezes, até mesmo de camadas
opostas. Mas era difícil atender a reivindicações tão diferentes sem que ninguém
“pagasse a conta”.
O govcrno }ânio Quadros
Quando tomou posse, em 31 de janeiro de 1961, Jânio Quadros quis marcar
seu governo com uma política de “arrumar a casa”. Prometeu corrigir os
desequilíbrios internos e externos antes que o país voltasse a um novo ciclo de
desenvolvimento econômico. As prioridades eram o combate à inflação, por
meio do controle dos gastos públicos, e o reequilíbrio das contas externas.
A primeira medida importante ocorreu já em março de 1961. O governo fez
uma maxidesvalorização maxidesvalorização maxidesvalorização maxidesvalorização maxidesvalorização de 100% do cruzeiro em relação ao dólar, ou seja,
reduziu o valor da moeda brasileira em relação ao dólar. A moeda brasileira
passou a valer menos 100% do valor do dólar. Passou a valer a metade do que
valia antes. Além disso, cortou a ajuda para as importações de trigo e petróleo.
A conseqüência imediata dessas medidas foi uma alta generalizada do custo
de vida. Todos os produtos cuja fabricação dependia de insumos (máquinas,
matérias-primas) importados aumentaram de preço. Aí estavam incluídos pro-
dutos essenciais derivados do trigo e do petróleo, como pão e gasolina.
Na política, Jânio Quadros tomou outra decisão de grande impacto. Quis
romper com a tradição de alinhamento permanente com os Estados Unidos.
Agora, o Brasil pretendia conduzir suas relações internacionais em função
exclusivamente dos seus próprios interesses, mesmo que estes não se ajustassem
e, em alguns casos, até mesmo se opusessem aos objetivos de Washington.
Sabe o que aconteceu? O Brasil reatou relações diplomáticas e comerciais
com diversos países socialistas, inclusive a União Soviética.
Jânio Quadros com
Che Guevara, um dos
principais líderes da
revolução cubana.
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Os jornais da época mostravam em primeira página foto do presidente Jânio
com o líder da revolução cubana Che Guevara.
Pesquise as relações do governo Jânio com países do Terceiro Mundo,
especialmente com os Estados africanos e com os nossos vizinhos latino-
americanos. Essa política ficou conhecida como política externa independente política externa independente política externa independente política externa independente política externa independente.
Por sinal, ela teve continuidade mesmo após a saída de Quadros da presidência,
já que foi plenamente incorporada por seu sucessor.
O que dizer de um governo que, com menos de oito meses, se interrompe por
vontade própria? No dia 25 de agosto de 1961, menos de oito meses após tomar
posse, Jânio Quadros encaminhava ao Congresso um documento comunicando
a sua renúncia ao cargo de presidente da República.
Mas como um presidente eleito com tanto apoio popular pôde frustrar as
esperanças de quase seis milhões de eleitores? Como um governo que se iniciou
com o apoio de tantos e variados partidos e grupos pôde, em tão curto espaço de
tempo, sentir-se isolado a ponto de tomar uma atitude tão dramática?
Isso ocorreu porque a força política de Jânio acabou se transformando em sua
fraqueza. Como poderia um governo atender a tantos grupos, cada qual com
interesses tão diferentes? Durante a campanha eleitoral foi possível conciliar os
diversos interesses em jogo. Mas, quando o discurso transformou-se em ação, os
problemas se complicaram.
Em primeiro lugar, o presidente não contava com o apoio da maioria dos
deputados para aprovar suas propostas. Os maiores partidos, o PSD e o PTB,
tinham-se transformado em oposição. Ao mesmo tempo, algumas atitudes
tomadas por Jânio contribuíram para desgastar ainda mais o governo junto aos
parlamentares oposicionistas.
Fiel às promessas de campanha e procurando comprometer a administração
Kubitschek, Jânio promoveu uma verdadeira devassa na administração pública.
Instalou dezenas de inquéritos administrativos que atingiram justamente aque-
les setores da administração que serviam de base política para o PSD e o PTB.
E fez mais: conseguiu, brigar também com a UDN, partido que havia
contribuído para a sua eleição e que esperava, enfim, chegar ao poder. O
presidente não consultava as lideranças, quer para a distribuição de cargos e
vantagens dentro do governo, quer para a definição de políticas. Assim, a UDN
viu-se na delicada posição de ter de apoiar um governo do qual, de fato,
participava muito pouco.
O que aconteceu foi que algumas lideranças, como Carlos Lacerda, passaram
decididamente para a oposição. Por sinal, o relacionamento de Jânio com a UDN
e com os partidos políticos em geral é também revelador de uma outra caracte-
rística de seu governo: o forte personalismo personalismo personalismo personalismo personalismo. O presidente governava aparente-
mente acima dos partidos, da burocracia estatal e dos grupos sociais organiza-
dos. Jânio acreditava que sua autoridade vinha exclusivamente dele e do poder
que lhe fora dado pelo voto popular.
Quando você ouve falar de “governo”, o que lhe vem à cabeça?
Um governo é o Poder Executivo, ou seja, o presidente e os ministros? Ou
o governo é o Executivo se relacionando com os outros poderes, o Legislativo
e o Judiciário?
Releia a aula e veja de que maneira o presidente Jânio Quadros entendeu
essa questão. Como você avalia o comportamento político de Jânio? Seria de
um democrata?
lm tcmpo
Pausa
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E como ficou a relação do Brasil com os outros países? Aqui também os
problemas foram aparecendo. Os setores mais conservadores da sociedade
brasileira, civis e militares, justamente aqueles que eram a base de sustentação
política do governo, começaram a desconfiar da política externa independente política externa independente política externa independente política externa independente política externa independente.
Para eles, o presidente estaria conduzindo nossa política externa para rumos
“comunizantes”.
Nem mesmo a política econômica de Quadros conseguiu apoio generaliza-
do, pois os salários foram congelados, enquanto a inflação e o custo de vida
continuaram subindo.
A rcnúncia
A esta altura você já deve estar suspeitando de que muita coisa ia mal. Menos
de um ano após o início do mandato, o presidente se deparava com um quadro
de crescente oposição e isolamento político. Foi o que, afinal, levou Jânio ao gesto
da renúncia.
Em carta dirigida ao povo brasileiro, o presidente atribuía as dificuldades
enfrentadas por seu governo à ação de forças ocultas. Mas não esclarecia
exatamente a que ou a quem estava se referindo.
Fui vencido pela reação e, assim, deixo o governo. (...) Sinto-me, porém,
esmagado. Forças terríveis levantam-se contra mim e me intrigam ou me
infaman, até com a desculpa da colaboração. Se permanecesse não manteria a
confiança e a tranqüilidade, ora quebradas, indispensáveis ao exercício da minha
autoridade. (...) A mim não falta a coragem da renúncia.
Esses são trechos da carta do presidente Jânio Quadros à nação no ato de sua
renúncia. Visivelmente, ela se inspirou na carta-testamento de Vargas, que você
viu na Aula 31. Em que aspectos as duas são comparáveis?
Os estudiosos consideram que os objetivos não declarados de Jânio eram
bem mais ambiciosos. Ele contava que seu pedido de renúncia fosse negado
pelo Congresso. Assim, ele voltaria “nos braços do povo”, reassumindo a
presidência com poderes muito maiores e com o apoio das massas populares
e dos militares.
No caso dos militares, Jânio avaliava − e com razão, como veremos adiante
− que haveria um veto militar à posse do vice-presidente João Goulart na
presidência da República.
Mas o que ocorreu, de fato, foi a pronta aceitação da renúncia pelo Congres-
so. De acordo com a lei, tomou posse do governo o deputado Ranieri Mazzilli,
presidente do Congresso, tendo em vista que João Goulart se encontrava fora
do país, chefiando uma missão comercial brasileira na China.
Também a população, perplexa, não esboçou qualquer reação ao gesto
do presidente.
Poucos dias depois, os ministros da Marinha, do Exército e da Aeronáutica
divulgaram um manifesto em que vetavam a posse do vice-presidente ausente.
Por trás do veto dos militares estavam as desconfianças que estes nutriam
em relação à figura de Jango e à sua trajetória política, fortemente associada
ao getulismo e ao sindicalismo do PTB.
Pausa
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Você lembra que João Goulart já fora motivo de uma crise com os militares
durante o segundo governo Vargas, quando era ministro do Trabalho e quis
elevar em 100% o salário mínimo? Desde aquela época se dizia que ele tinha a
intenção de transformar o Brasil numa “república sindicalista”, nos moldes do
que fizera Perón na Argentina.
Apesar de ser um grande proprietário de terras, e de defender a propriedade
privada e um capitalismo “humano” e “patriótico”, Jango era acusado pelos
setores mais conservadores de “tendências comunistas”. Para esses segmentos,
sua ascensão à presidência da República, apesar de garantida pela Constituição,
significaria a “comunização” do Brasil.
Estabeleceu-se então um impasse que, por alguns dias, dividiu o país em
duas correntes opostas. De um lado, ficaram os que achavam que se deveria
obedecer à Constituição e dar posse governo a Jango. Nesse campo estavam os
sindicatos de trabalhadores, as organizações estudantis, algumas entidades
empresariais, deputados federais e estaduais nacionalistas e de centro-esquerda
e vários governadores de Estado. Do outro lado, estavam os que se colocavam
contra a posse de Jango e defendiam a realização de novas eleições presidenciais.
O Congresso se reuniu e aprovou uma solução de conciliação entre as duas
correntes. Foi votada a Emenda Constitucional n.º 4 Emenda Constitucional n.º 4 Emenda Constitucional n.º 4 Emenda Constitucional n.º 4 Emenda Constitucional n.º 4, que alterou a Constitui-
ção de 1946 para instituir no país o parlamentarismo parlamentarismo parlamentarismo parlamentarismo parlamentarismo. Com isso, foi aceita a
posse de João Goulart.
Nesta aula, você viu que, apesar da “euforia desenvolvimentista”, a herança
do governo JK também teve seu lado negativo, deixando diversos problemas
pendentes para o governo seguinte resolver.
Você viu também que Jânio Quadros, apesar do apoio popular, não conse-
guiu cumprir as promessas de campanha. E acabou mergulhando o país numa
crise política, ao renunciar à presidência. A solução encontrada para sair da crise
foi a adoção do parlamentarismo.
Mas você agora deve estar se perguntando: quais foram as mudanças
introduzidas pelo parlamentarismo? Por que essas mudanças permitiram supe-
rar o veto à posse de João Goulart? Essas são boas questões para você refletir
enquanto aguarda a próxima aula.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Releia o item O governo Jânio Quadros O governo Jânio Quadros O governo Jânio Quadros O governo Jânio Quadros O governo Jânio Quadros e explique o significado da
política externa independente.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Releia o item A renúncia A renúncia A renúncia A renúncia A renúncia e identifique duas razões que contribuíram
para a renúncia do presidente.
UItimas
paIavras
lxcrcícios
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Na aula passada, vimos que o governo de
Jânio Quadros evoluiu rapidamente do otimismo inicial para uma grave crise
política. A renúncia do presidente dividiu a sociedade brasileira em pólos
opostos, e a fórmula encontrada para superar o impasse foi a implantação do
parlamentarismo.
Nesta aula, veremos como funcionou o novo sistema de governo durante
o curto período em que esteve em vigor. Veremos ainda que a sua implantação
não foi suficiente para impedir a crescente radicalização dos grupos políticos
e sociais, que acabou levando à derrubada derrubada derrubada derrubada derrubada do governo de João Goulart.
ParIamcntarismo c prcsidcnciaIismo
No sistema de governo presidencialista, que era o que o Brasil possuía até
então, o poder Executivo se concentra na figura do presidente da República.
Mas o que significa isso? Significa que cabe ao presidente tomar as principais
decisões e iniciativas para governar o país.
Já no parlamentarismo, quem detém esse poder é o parlamento, ou Con-
gresso. O partido ou a coligação partidária que tem a maioria no parlamento
escolhe, entre os parlamentares eleitos, o chefe de governo chefe de governo chefe de governo chefe de governo chefe de governo, também chamado
de primeiro-ministro primeiro-ministro primeiro-ministro primeiro-ministro primeiro-ministro.
O primeiro-ministro, por sua vez, organiza um conselho de ministros conselho de ministros conselho de ministros conselho de ministros conselho de ministros,
também chamado de gabinete ministerial. Seus membros devem ser, igual-
mente, escolhidos entre os parlamentares eleitos. O primeiro-ministro e seu
gabinete são responsáveis pelo desenvolvimento de todas as políticas do
governo e pelo comando da administração federal. Mas têm de prestar contas
ao parlamento.
O parlamento pode apoiar dando um voto de confiança ou derrubar −
dando um voto de censura o gabinete. Quando um gabinete é derrubado,
tenta-se formar outro e, caso isso não seja possível, convocam-se novas eleições
parlamentares para a formação de uma nova maioria partidária.
O cargo de presidente da República não desaparece no sistema parlamen-
tarista, mas seus poderes são muito reduzidos. O presidente da República,
nesse caso, é considerado chefe de Estado chefe de Estado chefe de Estado chefe de Estado chefe de Estado. É eleito pelo voto direto, e a ele
cabe nomear o primeiro-ministro e seu gabinete.
Os anos radicais:
o govcrno
}oão GouIart
Abcrtura
Movimcnto
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Algumas das democracias mais desenvolvidas do mundo adotam o parla-
mentarismo. É o caso da Alemanha, da Itália, do Canadá, da Suécia, do Japão e
da Inglaterra. Os três últimos países − isto é, Suécia, Japão e Inglaterra − são
exemplos de monarquias parlamentares: nelas, o cargo de chefe de Estado
é exercido pelo rei (ou imperador) ou pela rainha.
Lembre-se de que o Brasil também já foi uma monarquia parlamentar.
A redução dos poderes presidenciais, trazida pelo parlamentarismo
instituído pela Emenda Constitucional n 4, diminuiu a resistência dos grupos
de oposição à posse de João Goulart na presidência, depois da renúncia
de Jânio Quadros.
Mas a Emenda Constitucional também previa a convocação, algum tempo
depois, de um plebiscito plebiscito plebiscito plebiscito plebiscito. Por meio dele, o eleitorado decidiria se o sistema
parlamentar deveria ser mantido ou se devíamos retornar ao presidencialismo.
Assim, os que defendiam que Goulart assumisse a presidência com plenos
poderes passaram a concentrar seus esforços na realização do plebiscito.
Você sabe o que quer dizer plebiscito plebiscito plebiscito plebiscito plebiscito?
Procure a palavra no dicionário. Que relação se pode estabelecer entre
plebiscito e democracia?
Durante o curto período em que esteve
vigente − apenas 14 meses −, o novo siste-
ma de governo deu lugar à formação de
três gabinetes ministeriais. O primeiro (se-
tembro de 1961/julho de 1962) foi chefiado
pelo primeiro-ministro Tancredo Neves
(PSD); o segundo (julho/setembro de 1962),
por Brochado da Rocha (PSD); e o terceiro
(setembro de 1962/janeiro de 1963), por
Hermes Lima (PSB).
Mas a principal medida implementada
durante esse período foi a antecipação da
data do plebiscito, que foi marcado para
janeiro de 1963. Os setores que haviam de-
fendido a posse de Goulart novamente se
mobilizaram em uma intensa campanha
nacional para que a população votasse “não”
ao parlamentarismo.
Ao final, a volta ao presidencialismo venceu por esmagadora margem
de votos − quase 9,5 milhões, contra cerca de 2 milhões dados à manutenção
do sistema parlamentar.
O PIano TricnaI c as rcformas dc basc
Voltamos, portanto, para o regime presidencialista, ou seja, aquele que
confere maiores poderes ao presidente da República.
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Pausa
Reunião ministerial
do governo João
Goulart (o 2º da
esquerda para a
direita). O 1º é
Tancredo Neves.
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Tendo recuperado plenamente os poderes executivos que a Constituição de
1946 lhe garantia, Jango lançou então as primeiras medidas para enfrentar os
sérios problemas econômicos e sociais que o Brasil vivia.
Na realidade, enquanto durou o parlamentarismo, o governo ficara prati-
camente paralisado. Isso agravou ainda mais a situação econômica: a taxa
de inflação pulou de 37% em 1961 para 51% em 1962, enquanto a taxa
de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) desceu a 5,4% em 1962, contra
os 7,3% de 1961.
Para atacar de frente esses problemas, o governo lançou o Plano Trienal de Plano Trienal de Plano Trienal de Plano Trienal de Plano Trienal de
Desenvolvimento Econômico e Social Desenvolvimento Econômico e Social Desenvolvimento Econômico e Social Desenvolvimento Econômico e Social Desenvolvimento Econômico e Social. Elaborado pelo economista Celso Furta-
do, que ocupava então o cargo de ministro extraordinário do Planejamento,
o Plano Trienal tinha dois objetivos difíceis de conciliar:
em primeiro lugar, queria reduzir a tendência à aceleração inflacionária,
que, se continuasse, poderia resultar num total descontrole das taxas de
inflação;
o segundo objetivo era o de voltar às taxas de crescimento econômico
alcançadas no período “de ouro” do desenvolvimento (entre 1957 e 1961),
que giravam em torno de 7% anuais.
A manutenção do crescimento econômico era necessária, pois somente
assim se poderiam criar empregos e assegurar a distribuição de renda, fatores
indispensáveis para uma melhoria das condições de vida dos brasileiros.
Para alcançar o primeiro objetivo, ou seja, controlar a inflação, o governo
pretendia adotar medidas como a redução dos gastos públicos, a contenção do
crédito ao setor privado e a renegociação da dívida externa.
Em relação à dívida, em março de 1963 o ministro da Fazenda, San Tiago
Dantas, visitou Washington, lá obtendo empréstimos de cerca de US$ 400
milhões. Entretanto, somente uma pequena parcela foi liberada imediata-
mente. O restante ficava condicionado à evolução da situação econômica
brasileira.
De fato, nem o governo norte-americano, nem o Fundo Monetário Interna-
cional (FMI), nem os credores internacionais estavam convencidos da viabilida-
de do Plano Trienal, preferindo uma atitude de “pagar para ver”. E já em meados
de 1963 o próprio governo brasileiro tomava medidas que comprometiam os
objetivos do Plano. Concedeu um reajuste salarial de 60% ao funcionalismo
público (quando o previsto era de apenas 40%) e relaxou o controle sobre
a concessão de empréstimos bancários aos empresários.
Nem os empresários nem os sindicatos dos trabalhadores viam com bons
olhos o Plano Trienal. Ambos achavam que esse plano levaria o país para
à recessão recessão recessão recessão recessão. Você já deve saber que recessão significa uma diminuição de ritmo
em todas as atividades econômicas. Geralmente ela é acompanhada de queda na
produção industrial, desemprego, redução salarial e queda no consumo
e nas vendas.
Assim, já no segundo semestre de 1963 ficou evidente que o governo não
tinha apoio suficiente para implantar o Plano Trienal. O resultado disso é que
a inflação continuou a subir e também as taxas de crescimento econômico
despencaram (0,6% do PIB em 1963), chegando ao seu nível mais baixo desde
o início da Segunda Guerra Mundial.
Outra medida importante do governo Jango foi o compromissso assumido
com a realização das chamadas reformas de base reformas de base reformas de base reformas de base reformas de base, consideradas essenciais para
uma transformação profunda das estruturas econômicas e sociais brasileiras.
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As reformas de base incluíam as reformas do sistema bancário; urbana e
administrativa; da legislação eleitoral, prevendo, entre outras coisas, a extensão
do direito de voto aos analfabetos; universitária; fiscal, ou seja, do sistema de
cobrança de impostos; a regulamentação da remessa de lucros para o exterior, e,
principalmente, a reforma agrária. Esta última só poderia ser realizada com
alterações na Constituição de 1946.
A Constituição estabelecia que as desapropriações de terras só poderiam ser
feitas mediante a “prévia e justa indenização em dinheiro”. Na prática, essa
exigência impedia a realização de uma reforma agrária ampla, porque o governo
teria de gastar muito dinheiro com as indenizações.
Para contornar esse problema, o presidente enviou ao Congresso um projeto
de emenda constitucional. Mas o projeto foi vetado pela maioria conservadora
do PSD e da UDN.
Como você vê, o tema da reforma agrária é muito antigo em nossa história,
e sua solução não parece ser tão fácil!
O objetivo das reformas de base era ampliar a participação dos trabalhadores
na vida política e cultural, melhorar a distribuição da terra e da renda e eliminar
obstáculos ao desenvolvimento econômico do país.
As reformas não tinham, portanto, um caráter anticapitalista. Ao contrário,
pretendiam aprofundar o desenvolvimento capitalista brasileiro em bases
nacionais. Para isso, era preciso aumentar o mercado interno e controlar mais os
investimentos externos.
Mas nem todos viam as reformas com simpatia, e muitos não concordavam
com a sua implantação. O debate a esse respeito − na imprensa, no Congresso,
nos sindicatos − agravou ainda mais a polarização política e ideológica que já
vinha crescendo na sociedade brasileira. A divisão da sociedade entre os setores
a favor e contra as reformas foi ficando cada vez mais radical.
Mas como se posicionavam os partidos políticos em relação a essa divisão?
Você deve lembrar que o presidente João Goulart pertencia ao PTB, que
apoiava as reformas.
Mas será que o PSD, bem mais conservador, ainda mantinha a antiga aliança
com o partido do presidente?
E quanto à UDN, que voltara a ser oposição?
Na realidade, a divisão da sociedade em pólos opostos era facilitada pelo
fato de que os três grandes partidos políticos surgidos em 1945 (PSD, PTB e UDN)
passavam por uma verdadeira “crise de identidade”.
Tanto no PSD como na UDN surgiram dissidências que reuniam os parla-
mentares mais progressistas: a ala moça ala moça ala moça ala moça ala moça do PSD e a bossa nova bossa nova bossa nova bossa nova bossa nova da UDN. Essas
dissidências apoiavam as reformas de base e outras propostas de conteúdo
nacionalista. Ao mesmo tempo, assistia-se ao crescimento eleitoral do PTB
e ao surgimento, também dentro desse partido, de uma ala mais moderada
(os chamados “fisiológicos”) e uma ala mais radical (o “grupo compacto”
ou “ideológico”).
A polarização política estendia-se também aos setores organizados
da sociedade, como os sindicatos, as agremiações estudantis e as associações
de empresários e profissionais liberais.
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Pausa
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Entre 1961 e 1963, o movimento sindical viveu um momento de intensa
organização e mobilização. Nesse período, foram deflagradas 435 greves, con-
tras as cerca de 177 ocorridas entre 1958 e 1960. Além disso, o envolvimento dos
sindicatos nas lutas políticas abriu espaço para o surgimento de organismos que
coordenavam a ação de sindicatos de diversas categorias sob uma mesma
orientação política.
Assim, em fins dos anos 50 e início dos 60 surgiram entidades como o PUA
(Pacto de Unidade e Ação) e o Fórum Sindical de Debates. Em 1962, surgia o
Comando Geral de Greve, que pouco depois se transformou no Comando Geral
dos Trabalhadores (CGT) e comandou duas grandes greves gerais de caráter
político. O CGT era ilegal, segundo a legislação sindical da época, que proibia a
criação de centrais sindicais horizontais, isto é, sindicatos de diferentes catego-
rias profissionais não podiam se reunir numa mesma organização.
Ainda assim, o governo “fechou os olhos” para a atuação do CGT, que era
controlado por lideranças sindicais ligadas ao PTB e ao PCB (outro partido que
também era ilegal, mas tinha sua atuação tolerada pelo governo).
Mas não eram apenas os trabalhadores urbanos que se mobilizavam. Tam-
bém os trabalhadores rurais avançavam na sua organização, representados pelas
Ligas Camponesas e pelos sindicatos rurais. As ligas camponesas foram associa-
ções de caráter civil que se difundiram a partir da área canavieira de Pernambuco.
Criadas com o objetivo de garantir os direitos dos trabalhadores rurais, elas se
afirmaram nacionalmente já no início dos anos 60, colocando-se à frente da luta
por uma reforma agrária, cunhando o mote “Reforma Agrária na Lei ou na
Marra”.
Em 1963, diversas federações de trabalhadores rurais fundaram a Contag
(Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura), que logo a seguir se
filiou ao CGT. A defesa da “reforma agrária radical” transformou-se, então, na
principal bandeira da confederação.
Também os estudantes, representados pela UNE (União Nacional dos
Estudantes), mobilizavam-se em todo país na defesa das reformas de base,
especialmente a reforma universitária.
No pólo oposto, surgiram organismos como o Ibad (Instituto Brasileiro de
Ação Democrática) e o Ipes (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), que
reuniam empresários, tecnocratas, professores universitários, jornalistas, eco-
nomistas e profissionais liberais em geral. Esses institutos foram criados com o
objetivo de defender a livre empresa e a economia de mercado. Defendiam um
capitalismo moderno e totalmente aberto ao capital estrangeiro. Suas atividades
eram estudos e debates, e também a propaganda política junto aos empresários,
às forças armadas, à Igreja, ao Congresso, aos sindicatos etc.
Assim, os dois institutos se transformaram no centro da oposição civil às
reformas de base. Mas o Ipes e o Ibad também atuavam cada vez mais entrosados
com os círculos de oposição militar que teriam participação decisiva na derruba-
da do governo Jango.
Vamos ver outra vez como se movimentava a sociedade? Olhe bem quantas
associações, organizações e entidades!
Volte ao texto e confira o que são esses grupos e siglas: ala moça do PSD;
bossa nova da UDN, CGT, Contag, Ibad, Ipes...
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lpíIogo: o movimcnto miIitar dc 1964
Em setembro de 1963, um episódio grave revelou o grau de radicalização
política em que o país mergulhara. Cerca de 500 sargentos do Exército, da Marinha
e da Aeronáutica se revoltaram em Brasília. Protestavam contra uma decisão do
Tribunal Superior Eleitoral que anulava a eleição de candidatos-sargentos (proi-
bida pela legislação eleitoral da época) ocorrida nas eleições de 1962.
Apesar de a rebelião ter sido reprimida em poucas horas, o episódio teve
reprecussões muito graves. Para os altos escalões das Forças Armadas, aquilo
representava claramente uma quebra da disciplina e da hierarquia militares.
Por essa época, cresciam as articulações para derrubar João Goulart.
Setores civis e militares se uniam para a derrubada. À frente do movimento
conspiratório estava o general Humberto de Alencar Castelo Branco, chefe
do Estado-Maior do Exército, que tinha o apoio dos oficiais da Escola Superior
de Guerra (ESG) e dos civis do Ipes.
Os conspiradores contavam ainda com a adesão dos governadores dos
principais Estados: Carlos Lacerda (Guanabara), Magalhães Pinto (Minas
Gerais), Ademar de Barros (São Paulo), Ildo Meneghetti (Rio Grande do Sul) e
Ney Braga (Paraná). E tinham o apoio de oficiais que ocupavam postos
importantes na hierarquia militar, como o general Olímpio Mourão Filho
(chefe da 4 Região Militar) e o general Justino Alves Bastos (comandante
do IV Exército, sediado no Nordeste).
O governo de João Goulart sustentava-se com muita dificuldade. Os setores
nacionalistas e de esquerda mais radicais exigiam a implantação imediata das
reformas de base. Os moderados começavam a olhar com desconfiança.
Um novo acontecimento acabou demonstrando que o governo cedera às
pressões dos radicais. Durante o chamado comício da Central comício da Central comício da Central comício da Central comício da Central, em 13 de março
de 1964, que contou com a presença do próprio presidente da República e foi
assim chamado por ter sido realizado diante da estação ferroviária da Central
do Brasil, no centro do Rio de Janeiro, cerca de 250 mil participantes manifes-
taram apoio popular às reformas de base. Estavam ali para pressionar
o Congresso a aprová-las.
Comício de 13 de março de 1964, que
reuniu 250 mil pessoas na Central do
Brasil. Na foto à esquerda, o
presidente João Goulart e sua
esposa Maria Theresa.
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No discurso de encerramento da manifestação, Jango
anunciou os decretos de desapropriação de terras e
estatização das poucas refinarias de petróleo privadas
nacionais, anteriores à criação da Petrobrás. Prometeu
ainda que enviaria ao Congresso o projeto de outras
reformas e decretaria, nos dias seguintes, medidas como
tabelamento de aluguéis e controle de preços.
Mas as oposições também saíam às ruas em todo o
país. A mais importante dessas manifestações foi a Mar-
cha da Família com Deus e pela Liberdade, realizada em
São Paulo, que reuniu cerca de 500 mil pessoas. Organi-
zada por movimentos femininos, com a total colaboração
do governo de São Paulo, de setores da Igreja Católica e
de entidades empresariais como a Fiesp e a Sociedade
Rural Brasileira, a marcha demonstrava o descontenta-
mento das classes média e alta com os rumos que vinha
tomando o governo Goulart.
Finalmente, uma nova rebelião militar, dessa vez
envolvendo marinheiros e fuzileiros navais, precipitou o
movimento para depor o presidente da República. Na
madrugada de 31 de março, tropas militares vindas de
Minas Gerais começaram a se movimentar na direção do
Rio de Janeiro. Em todo o país, diversas outras forças
militares apoiaram o golpe de Estado. O presidente se
recusou a estimular qualquer resistência armada ou civil, para evitar o “derra-
mamento de sangue inocente”. Aceitando a deposição, Jango voou para o exílio
no Uruguai. Já na madrugada de 2 de abril, o Congresso declarava vaga a
presidência da República e empossava o deputado Ranieri Mazzilli como o novo
presidente. Encerrava-se, assim, a experiência democrática iniciada em 1945.
Nesta aula, vimos como o governo de João Goulart foi marcado pela
polarização que dividia toda a sociedade brasileira, inclusive os grandes parti-
dos políticos. Também pudemos acompanhar como a mobilização pró ou contra
as reformas de base foi tomando rumos cada vez mais radicais, até ser interrom-
pida pelo movimento civil e militar que depôs o presidente João Goulart.
Na próxima aula, entraremos em uma nova etapa da história da sociedade
brasileira, caracterizada pelo regime militar que vigorou de 1964 a 1985.
A consolidação política e institucional do novo regime, bem como as importan-
tes medidas tomadas no plano econômico, serão objeto de nosso estudo.
Mas você deve estar se perguntando: qual foi a reação da sociedade a uma
mudança tão profunda? E quanto aos setores que apoiavam o governo deposto,
e agora se viam na oposição?
Os diversos rumos tomados pela oposição ao regime militar também serão
analisados a seguir.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Releia o item O plano Trienal e as Reformas de Base O plano Trienal e as Reformas de Base O plano Trienal e as Reformas de Base O plano Trienal e as Reformas de Base O plano Trienal e as Reformas de Base e explique por que
o governo João Goulart apoiou as Reformas de Base.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Releia o item Epílogo: o movimento militar de 64 Epílogo: o movimento militar de 64 Epílogo: o movimento militar de 64 Epílogo: o movimento militar de 64 Epílogo: o movimento militar de 64 e explique a seguinte
frase contida no texto: “O governo de João Goulart sustentava-se com muita
dificuldade”.
UItimas
paIavras
lxcrcícios
Marcha da Família com
Deus e pela Liberdade,
manifestação ocorrida
em São Paulo que
levou às ruas cerca
de 500 mil pessoas.
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Você certamente já ouviu a expressão “regi-
me militar”. Ela se refere ao período que se iniciou com o golpe de 1964 e que
continuou, em sucessivos governos chefiados por militares, até 1985, quando o
poder retornou aos civis. A expressão “regime militar” significa que as Forças
Armadas, nesses 21 anos, estiveram no controle do poder político no Brasil.
Já tivemos ocasião de conhecer, neste curso, diversos episódios em que os
militares intervieram no processo político por meio de golpes de Estado. O ano
de 1964 representa, no entanto, um marco na história política do Brasil, pois os
militares não apenas assumiram, como permaneceram no poder.
Compreender por que isso ocorreu, e conhecer o que se passou no país
durante esse longo período, é o objetivo desta e da próxima aula.
A impIantação do rcgimc autoritário
Os militares envolvidos no golpe de 1964 justificaram sua ação afirmando
que o objetivo era restaurar a disciplina e a hierarquia nas Forças Armadas
e deter a “ameaça comunista” que, segundo eles, pairava sobre o Brasil.
Uma idéia fundamental para os golpistas era que a principal ameaça à ordem
capitalista e à segurança do país não viria de fora, por meio de uma guerra
tradicional contra exércitos estrangeiros. A ameaça viria de dentro do próprio
país, com brasileiros que atuariam como “inimigos internos”, para usar uma
expressão da época.
Esses “inimigos internos” procurariam atingir seu objetivo − que seria
a implantação do comunismo no país pela via revolucionária − por meio
da “subversão” da ordem existente. Daí serem chamados, pelos militares,
de “subversivos”.
Diversos exemplos internacionais, como as guerras revolucionárias ocorri-
das na Ásia, na África e principalmente em Cuba, com Fidel Castro, serviam
para reforçar essa visão de mundo. Ela estava na base da chamada doutrina doutrina doutrina doutrina doutrina
de segurança nacional de segurança nacional de segurança nacional de segurança nacional de segurança nacional e das teorias de “guerra anti-subversiva” ou “anti-
revolucionária” ensinadas nas escolas superiores das Forças Armadas.
Os militares que assumiram o poder em 1964 acreditavam que o regime
democrático que vigorara no Brasil desde o final da Segunda Guerra Mundial,
em 1945, havia se mostrado incapaz de deter a “ameaça comunista”. Deu-se
início, então, à implantação de um regime político marcado pelo autoritarismo autoritarismo autoritarismo autoritarismo autoritarismo,
O rcgimc
miIitar - l
36
) 7 )
Abcrtura
Movimcnto
36
) 7 )
isto é, um regime político que privilegiava a autoridade autoridade autoridade autoridade autoridade do Estado em relação
às liberdades individuais, e o Poder Executivo em detrimento dos poderes
Legislativo e Judiciário.
Em aulas anteriores, você tomou conhecimento de como se governa nos
regimes democráticos. Os três poderes − Executivo, Legislativo e Judiciário −
têm pesos importantes no funcionamento do governo.
Volte às aulas anteriores para perceber a diferença entre a forma democrática
de governar e a que você está conhecendo agora.
Logo após a derrubada do governo Goulart, foi organizada uma junta
militar que tinha como “homem forte” o general Artur da Costa e Silva. Essa
junta se autodenominou Comando Supremo da Revolução Comando Supremo da Revolução Comando Supremo da Revolução Comando Supremo da Revolução Comando Supremo da Revolução e permaneceu
duas semanas no poder.
Nesse período, foi baixado um Ato Institucional Ato Institucional Ato Institucional Ato Institucional Ato Institucional, uma invenção do gover-
no militar que não estava prevista na Constituição de 1946 nem possuía
fundamentação jurídica. Seu objetivo era apenas justificar os atos de exceção
que se seguiram.
Houve muitas prisões de pessoas ligadas à esquerda ou vistas pelos militares
como “subversivas”. Surgiram acusações de tortura em diversos pontos do país.
Ao longo do mês de abril de 1964 foram abertos centenas de Inquéritos
Policiais-Militares (IPMs). Esses inquéritos, chefiados em sua maioria por coro-
néis, tinham o objetivo de apurar atividades consideradas subversivas pelo
Estado.
Inúmeras pessoas foram atingidas em seus direitos: parlamentares tiveram
seus mandatos cassados, cidadãos tiveram seus direitos políticos suspensos e
funcionários públicos, civis e militares foram demitidos ou aposentados.
Entre os cassados, encontravam-se personagens que ocuparam posições de
destaque na vida política nacional, como João Goulart, Jânio Quadros, Miguel
Arraes, Leonel Brizola e Luís Carlos Prestes. No decorrer do regime militar,
seriam cassados também Juscelino Kubitschek, Ademar de Barros e Carlos
Lacerda.
Pausa
Cartaz com retrato de
terroristas procurados
(à esquerda) e
repressão policial nas
ruas (à direita).
36
) 7 )
Os políticos mencionados permaneceram de forma viva em nossa história
política. Você sabe dizer quem são eles? Faça este exercício pesquisando as aulas
anteriores.
No dia 15 de abril de 1964, assumiu a presidência da República o general
Humberto de Alencar Castelo Branco, que havia sido eleito indiretamente,
dias antes, por um Congresso já bastante afetado pelas cassações. Além de
conseguir o consenso das Forças Armadas e de boa parte da sociedade civil,
Castelo Branco contava também com o apoio de diversos governadores civis
e importantes empresários. O novo presidente assumia o poder prometendo
o retorno do país à normalidade democrática e a retomada do crescimento
econômico.
A nova poIítica cconûmica c as divisõcs cntrc os miIitarcs
Na área econômica, o governo Castelo Branco lançou o Programa de Ação
Econômica do Governo (PAEG), cujo objetivo principal era o combate à inflação.
Para isso, o governo reduziu o déficit do setor público, diminuiu o crédito para
o setor privado e comprimiu os salários. Outras medidas importantes foram a
criação da correção monetária, do Banco Nacional de Habitação (BNH), e a
renegociação da dívida externa.
Quanto à política salarial, a estabilidade no emprego foi substituída pelo
Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). O governo conseguiu derrubar
as taxas de inflação e preparar o país para o crescimento econômico dos anos
seguintes. Isso foi facilitado pela adoção de medidas duras na área econômica,
especialmente para a classe trabalhadora.
Desde o início do regime militar, podia-se perceber uma divisão entre dois
grupos de militares. Havia aqueles que defendiam medidas mais radicais no
combate à “subversão” e a continuidade dos militares no poder por tempo
indeterminado. Mas havia também os que pregavam o retorno à normalidade
política e jurídica, bem como a devolução do poder aos civis em um futuro
próximo. O primeiro grupo, mais radical, ficou conhecido como a “linha dura”.
Esse grupo se aglutinou em torno do ministro da Guerra, Artur da Costa e Silva.
O outro grupo, mais moderado, permanecia próximo ao presidente Castelo
Branco. Incluía militares que participavam do governo, como Ernesto Geisel,
Cordeiro de Farias e Golbery do Couto e Silva.
Castelo Branco, no início de seu governo, deu alguns sinais importantes de
que pretendia cumprir, ao menos em parte, suas promessas de fazer retornar o
país à normalidade política. Os poderes de exceção previstos no Ato Institucional,
como a cassação de mandatos de parlamentares e de direitos políticos, e a
demissão de servidores públicos, deveriam durar apenas alguns meses. Castelo
Branco cumpriu esses prazos, apesar dos pedidos da linha dura para que eles
fossem prorrogados. Além disso, foram mantidas as eleições diretas previstas
para os governos de onze Estados. As eleições foram realizadas em
3 de outubro de 1965, apesar da oposição da “linha dura”.
Nessas eleições, candidatos oposicionistas venceram nos Estados mais
importantes. Foi o caso do então Estado da Guanabara, com Negrão de Lima, e
de Minas Gerais, com Israel Pinheiro. Considerando as vitórias da oposição uma
ameaça para o governo, a “linha dura” passou a pressionar o presidente Castelo
Branco no sentido de um maior fechamento do regime. O ministro da Guerra
Pausa
36
) 7 )
Costa e Silva tornou-se porta-voz dos oficiais mais radicais, chegando a criticar
publicamente as eleições.
O processo culminou na promulgação de um novo ato institucional,
batizado como AI-2 AI-2 AI-2 AI-2 AI-2. O novo ato estabelecia eleições indiretas para presidente,
que seriam realizadas por um colégio eleitoral formado por deputados e senado-
res, e reabria o processo de cassações de mandatos e de suspensão de direitos
políticos.
Os partidos políticos foram extintos. Em lugar do pluripartidarismo pluripartidarismo pluripartidarismo pluripartidarismo pluripartidarismo −
sistema que permitia a existência de diversos partidos políticos −, surgiu no
Brasil o bipartidarismo bipartidarismo bipartidarismo bipartidarismo bipartidarismo, com a criação de apenas dois partidos: de um lado, a
Aliança Renovadora Nacional (Arena), de apoio ao governo; de outro, o Movi-
mento Democrático Brasileiro (MDB), de oposição.
O retorno à normalidade democrática prometido por Castelo Branco torna-
va-se, dessa forma, mais distante.
O fcchamcnto do rcgimc
Pelo que estamos vendo, a “linha dura” militar foi aumentando sua influên-
cia no interior do regime. Uma decorrência disso foi a vitória da candidatura de
Costa e Silva à presidência da República, mesmo não sendo essa a opção desejada
pelo presidente Castelo Branco e pelos oficiais a ele ligados.
Em 15 de março de 1967, Costa e Silva assumiu a presidência, após ter sido
eleito indiretamente pelo Congresso Nacional. O segundo presidente do regime
militar prometeu, também, restabelecer a ordem jurídica e retomar o desenvol-
vimento.
Os anos de 1967 e 1968 foram de intensa radicalização política. Do lado do
governo, houve um aumento do aparato repressivo, tendo setores das Forças
Armadas assumido funções antes reservadas à polícia. Novos órgãos de infor-
mação e repressão foram criados.
O sistema político reduziu extremamente a voz da oposição dentro do
governo. A oposição ao regime passou a ser manifestada por meio de diversos
movimentos sociais. Houve uma tentativa de reorganização do movimento
operário, com greves nas cidades industriais de Contagem (MG) e Osasco (SP),
as primeiras desde o início do regime militar.
Surgiu também, de forma cada vez mais clara, uma ala progressista ala progressista ala progressista ala progressista ala progressista da
Igreja católica. Essa parte do clero, embora minoritária no interior da Igreja,
apelava pela não-violência e denunciava a falta de liberdade no país.
Em 1967 e, principalmente, em 1968, o movimento estudantil atingiu o
ponto mais alto de oposição ao regime militar, realizando diversas manifes-
tações de protesto e passeatas. Em um desses eventos, ocorrido em março de
1968, no centro da cidade do Rio de Janeiro, a repressão da Polícia Militar
resultou na morte do estudante Édson Luís de Lima Souto. Seu enterro e sua
missa de sétimo dia reuniram multidões e foram duramente reprimidos pela
polícia.
Mesmo assim, a oposição não retrocedeu. Em seguida, o Rio de Janeiro foi
palco dos maiores atos públicos até então realizados contra o regime militar:
a Passeata dos 100 Mil, em junho, e a Passeata dos 30 Mil, em julho.
O governo reagiu, proibindo todas as passeatas e aumentando a repressão.
O processo de “endurecimento” do regime culminou com o Ato Institucional
n 5, o AI-5 AI-5 AI-5 AI-5 AI-5, baixado na sexta-feira, 13 de dezembro de 1968. Esse ato, o mais duro
de todo o período, conferia poderes quase absolutos ao presidente da República.
36
) 7 )
Os °anos dc chumbo"
O AI-5 abriu caminho para uma
maior utilização do aparelho repressivo.
A censura atingiu pesadamente a im-
prensa, que não podia mais divulgar no-
tícias consideradas “indesejáveis” pelo
governo.
O Congresso foi novamente expur-
gado, em mais uma onda de cassações, e
o Poder Judiciário também foi atingido.
As forças policiais estaduais passaram
ao controle do Ministério da Guerra.
Com o AI-5, as possibilidades de
oposição se tornaram muito difíceis.
O Brasil entrou num dos períodos de
maior falta de liberdade política de sua
história contemporânea.
Nessa conjuntura, uma parte dos movimentos de esquerda viu na luta luta luta luta luta
armada armada armada armada armada a única alternativa possível de enfrentamento do regime militar. Surgiu
uma guerrilha urbana, dividida em diversas organizações.
Os guerrilheiros conseguiram levar a cabo diversas ações que desafiaram o
governo, como assaltos a banco, roubos de armas e seqüestros de aviões e de
diplomatas estrangeiros, que seriam trocados por presos políticos.
A escalada das ações guerrilheiras coincidiu com um aparente momento de
crise no regime militar, ocasionado pelo afastamento de Costa e Silva da
presidência da República, em agosto de 1969, por problemas de saúde. Em seu
lugar, assumiu uma junta militar que governou o país por dois meses. Ao final
de longas deliberações, o Alto Comando das Forças Armadas escolheu o general
Emílio Garrastazu Médici para ocupar a presidência.
O novo governo intensificou a luta contra a guerrilha, de modo que, em
pouco mais de um ano, os principais grupos envolvidos na luta armada foram
derrotados. Diversos de seus líderes, como o ex-deputado Carlos Marighella e o
ex-capitão do Exército Carlos Lamarca, foram mortos. Uma última tentativa de
guerrilha ocorreria mais tarde na região do rio Araguaia, sendo finalmente
derrotada, no início de 1974.
O período que se seguiu ao AI-5 ficou conhecido, como “anos de chumbo”,
não apenas devido ao fato de ocorrerem confrontos armados entre pequenos
grupos guerrilheiros e forças policiais e militares, nos quais ocorreram mortes de
ambos os lados, mas principalmente em uma alusão à falta de liberdade política
e à repressão que atingiu um setor muito mais amplo da sociedade brasileira do
que aquele envolvido na luta armada. A repressão desencadeada pelo governo
resultou em prisão de opositores do regime, tortura e desaparecimento
de pessoas.
Para você compreender melhor o que se passou no Brasil nesse período vale
verificar a situação política da América Latina, nessa mesma ocasião. Procure
também se informar, ler sobre o confronto EUA-URSS, a chamada “Guerra Fria”,
bem como obter informações sobre o movimento estudantil de contestação
aos governos, particularmente o da França em 1968.
lm tcmpo
Presidente Costa e Silva.
36
) 7 )
UItimas
paIavras
lxcrcícios
O °miIagrc cconûmico"
c o ufanismo
Enquanto isso, ocorria, na área econô-
mica, aquilo que ficou conhecido como o
“milagre brasileiro”. A inflação permane-
ceu controlada e a economia cresceu em
níveis elevados. A euforia tomou conta do
mercado financeiro. Para acelerar o desen-
volvimento do país, o governo investiu
pesadamente em diversas obras de im-
pacto, como a construção da rodovia
Transamazônica e o início da construção da
usina hidrelétrica de Itaipu.
Aproveitando o sucesso do campo eco-
nômico, que situou o país como 8ª econo-
mia do mundo, o regime militar promoveu
manifestações ufanistas, isto é, que vanglo-
riavam as riquezas e as realizações nacio-
nais e apelavam para o sentimento patrióti-
co. O tricampeonato de futebol conquista-
do pelo Brasil na Copa do Mundo de 1970,
realizada no México, também foi utilizado
pelo governo para promover a imagem
de um “Brasil Grande”.
Acompanhamos, nesta aula, os dez primeiros anos do regime militar, que
vão de março de 64 até o fim do governo Médici, no início de 1974. Vimos a
ascensão, no interior do regime, da “linha dura” e a forte repressão sofrida pela
oposição. Falamos, também, das ações de guerrilha desencadeadas pelos
opositores do regime. Verificamos que ao mesmo tempo em que o país vivia um
dos períodos de maior fechamento político de sua história, a economia crescia
aceleradamente. Neste contexto, o governo investiu na propaganda ideológica.
Na próxima aula, iremos acompanhar os dez anos finais do regime militar,
até seu encerramento em 1985.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Releia o item A implantação do regime autoritário A implantação do regime autoritário A implantação do regime autoritário A implantação do regime autoritário A implantação do regime autoritário e explique de que
maneira os militares procuraram justificar a implantação de um regime
autoritário no país.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Dê um novo título ao item Os “anos de chumbo” Os “anos de chumbo” Os “anos de chumbo” Os “anos de chumbo” Os “anos de chumbo”.
Propaganda política.
37
) 7 )
Nos dez anos finais do regime militar,
o Brasil foi governado pelos generais Ernesto Geisel e João Batista Figueiredo.
A volta dos civis ao poder se deu em 1985.
Como foi possível a “abertura” política? Que novos caminhos foram segui-
dos pela oposição? O que aconteceu com a economia brasileira? É o que você
verá nesta aula.
O projcto dc °abcrtura" c a oposição da °Iinha dura"
O quarto presidente do regime militar, general Ernesto Geisel,
assumiu a presidência prometendo promover, na área política,
uma distensão “lenta, gradual e segura”.
Vimos que todos os presidentes militares anteriores haviam
assumido a presidência com a mesma promessa de normalizar
politicamente o país. Durante o governo Geisel, no entanto, dife-
rentemente de seus antecessores, esse discurso transformou-se em
um projeto de liberalização política efetivo. Tal projeto ficou
conhecido como “abertura”. Ele representou o início do fim do
regime militar. Como foi possível essa mudança de rumo?
Para responder a essa pergunta, devemos em primeiro lugar
perceber que Ernesto Geisel não pertencia à “linha dura” militar,
preponderante nos governos de Costa e Silva e Médici. Vimos, na
aula anterior, que Geisel participou do governo Castelo Branco, da
mesma forma que seu principal assessor na presidência, o general
Golbery do Couto e Silva.
Ambos apoiavam as posições mais moderadas de Castelo
Branco, opondo-se às medidas mais radicais preconizadas pela
“linha dura” militar. É por isso que a ascensão de Geisel e
Golbery marcou o retorno ao poder dos remanescentes do
grupo castelista grupo castelista grupo castelista grupo castelista grupo castelista, ou seja, do grupo alinhado a Castelo Branco.
Para levar adiante o projeto de “abertura”, tornava-se
necessário vencer as resistências da “linha dura” militar, que
continuava localizada principalmente nos órgãos de informação
e repressão.
O rcgimc
miIitar - ll
37
) 7 )
Abcrtura
Movimcnto
Posse de João Figueredo na
Presidência da República.
37
) 7 )
Vimos na aula anterior que esses órgãos foram ganhando grande poder e
autonomia no interior do regime militar. Recuperar o controle efetivo sobre a
área repressiva se tornou, dessa forma, a principal tarefa dos partidários da
“abertura”.
O primeiro grande enfrentamento de Geisel com a “linha dura” ocorreu em
outubro de 1975, após a morte do jornalista Vladimir Herzog em dependências
do DOI-CODI do II Exército, em São Paulo. A morte de Herzog, ocorrida durante
violenta sessão de tortura, foi divulgada como tendo sido “suicídio por enforca-
mento”. Já que Herzog era judeu, foi realizado um culto ecumênico, celebrado
por d. Paulo Evaristo Arns, da Igreja Católica, pelo rabino Henry Sobel, da Igreja
Israelita, e pelo pastor Jayme Wright, da Igreja Evangélica. Essa cerimônia
reuniu uma multidão na praça da Sé, centro de São Paulo, e transformou-se em
uma grande manifestação política.
Poucos meses depois, em janeiro de 1976, o operário Manuel Fiel Filho
também foi morto nas dependências do DOI-CODI de São Paulo, nas mesmas
condições. Mais uma vez, a versão oficial foi de “enforcamento”. Mas o presiden-
te Geisel agiu com rapidez, exonerando o comandante do II Exército. Era um
claro aviso à “linha dura” de que atos da mesma natureza não seriam
mais tolerados.
Esses episódios revelam a violência do poder sobre os cidadãos.
Um regime democrático é aquele no qual os cidadãos têm direitos que devem
ser respeitados.
Você conhece seus direitos como cidadão? Como empregado? Faça uma lista
do que você conhece como direitos seus. Compare com a lista de um colega.
O enfrentamento decisivo de Geisel com a “linha dura” ocorreu em 1977.
O ministro da Guerra, general Sílvio Frota, ficou conhecido por sua atuação no
combate ao comunismo e à subversão. Em seus pronunciamentos e relatórios,
esses temas sempre apareciam e, neles, Frota chegou mesmo a criticar a orienta-
ção do governo. Assim como ocorrera no governo Castelo Branco, os militares
mais radicais passaram a se reunir em torno do ministro da Guerra. O general
Frota se tornou provável candidato à sucessão, contra a vontade do próprio
presidente Geisel.
Dessa vez, no entanto, a história não se repetiria. Geisel demitiu Frota no dia
12 de outubro de 1977, alegando que as diferenças de opinião entre os dois
quanto à orientação política do governo haviam chegado ao limite. Apesar de
alguns militares mais radicais terem se disposto a contestar a demissão de Frota,
a maioria do Alto Comando do Exército acabou ficando ao lado do presidente
Geisel. Com isso, na área militar, o caminho para a “abertura” ficou livre.
Os novos caminhos da oposição
Mas em diversas ocasiões a liberalização política do governo Geisel usou os
instrumentos autoritários, como a censura e o AI-5. O governo procurava deixar
claro que pretendia manter o controle sobre o processo de “abertura”.
Em abril de 1977, por exemplo, após o Congresso ter se recusado a aprovar
um projeto de reforma do Poder Judiciário elaborado pelo governo, Geisel
fechou o Congresso por duas semanas e, nesse período, baixou uma série
de medidas que ficaram conhecidas como Pacote de Abril Pacote de Abril Pacote de Abril Pacote de Abril Pacote de Abril.
Pausa
37
) 7 )
Tais medidas destinavam-se principalmente a garantir a maioria do partido
do governo, a Arena, sobre o partido de oposição, o MDB, que vinha apresentan-
do considerável crescimento eleitoral.
Durante o governo Geisel, a oposição teve grande crescimento e passou a
utilizar novos métodos de luta e resistência. Ao final do governo, sua principal
bandeira era a luta pela anistia.
Ao mesmo tempo, ressurgia o movimento operário, com uma grande greve
dos metalúrgicos do ABC paulista em maio de 1978. Essa greve, que projetou
nacionalmente o líder sindical Luís Inácio Lula da Silva, marcou o nascimento
do novo sindicalismo novo sindicalismo novo sindicalismo novo sindicalismo novo sindicalismo, surgido a partir das bases operárias e desvinculado
dos sindicatos oficiais ligados ao Estado.
A crisc cconûmica
Quando Geisel assumiu a presidência, os anos do “milagre econômico”
haviam ficado para trás e o país começava a viver um longo período de crise
econômica. O mundo inteiro sofrera, em finais de 1973, o impacto do aumento
do preço do petróleo, determinado pelos países produtores. Essa crise do
petróleo também atingiu profundamente o Brasil, que importava mais de 80%
do petróleo que consumia.
Apesar disso, o governo procurou evitar a recessão apostando no crescimen-
to. O plano econômico elaborado pelo governo Geisel dava grande destaque ao
papel do Estado como promotor do desenvolvimento. Em seu governo, empre-
sas estatais como a Petrobrás, a Eletrobrás e a Embratel registraram grande
crescimento. Isso gerou oposição de círculos empresariais privados, que critica-
vam o intervencionismo do Estado na política econômica e pediam
a “desestatização” da economia.
Exilados políticos
começam a voltar
para o Brasil,
principalmente a partir
de 1975.
37
) 7 )
Os resultados da política econômica do governo Geisel são controversos,
inclusive entre os economistas. O que se pode perceber com clareza é que
fracassaram alguns projetos de grande porte, como a Ferrovia do Aço e o
Programa Nuclear.
Em outras áreas, como nas indústrias de aço, alumínio e na produção de
petróleo, o crescimento foi significativo. A economia manteve um índice de
crescimento razoável, embora a inflação tenha se elevado e a dívida externa
tenha crescido muito.
O úItimo govcrno miIitar
Ernesto Geisel foi o único presidente do regime militar que conseguiu eleger
o sucessor de sua preferência. O general João Figueiredo, chefe do SNI durante
o governo Geisel, era um auxiliar afinado com o projeto de “abertura”.
Seu governo já se iniciou sem o AI-5. O bipartidarismo foi extinto. Surgiram
novos partidos. Outra medida de grande importância foi a aprovação de um
projeto de anistia política para os condenados por atos praticados contra o
regime. Os responsáveis pela repressão aos presos políticos também foram
perdoados, anistiados por essa medida.
No entanto, o governo Figueiredo teve seu início marcado por diversos atos
terroristas de direita. Eram principalmente atentados a bomba contra pessoas e
organizações ligadas à defesa da democracia e contra bancas de jornal que
vendiam publicações de esquerda.
A escalada terrorista culminou no chamado caso Riocentro caso Riocentro caso Riocentro caso Riocentro caso Riocentro. Em 30 de abril
de 1981, durante a realização de um festival de música no centro de convenções
do Riocentro, no Rio de Janeiro, uma bomba explodiu acidentalmente em um
carro ocupado por dois militares, matando um e ferindo gravemente o outro.
A versão oficial distorceu os fatos, procurando caracterizar os dois militares
como vítimas de um atentado, e não como terroristas.
Veja você como são frágeis as convicções democráticas e como é difícil
o caminho para a democracia! O presidente Figueiredo, ao assumir o governo,
fez um pronunciamento a favor da abertura política dizendo que “prendia
e arrebentava” os que fossem contra a democracia. O episódio terrorista
do Riocentro era a chance de ele cumprir sua ameaça.
Apesar desses eventos, a normalização política continuou, com a realização
de eleições diretas para governador em 1982. A oposição venceu em diversos
Estados. O crescimento da oposição culminou, em 1984, na campanha pelas
“Diretas Já”. Milhões de brasileiros foram às ruas, em grandes manifestações,
pedir que a eleição do próximo presidente da República fosse direta − e não,
como até então ocorrera durante o regime militar, indireta, feita por um colégio
eleitoral. Apesar da enorme mobilização popular, a proposta foi derrotada no
Congresso.
O governo não conseguiu, no entanto, que seu candidato, Paulo Maluf,
vencesse as eleições. Dissidentes do PDS, o novo partido do governo, formaram
a Frente Liberal Frente Liberal Frente Liberal Frente Liberal Frente Liberal. Esta se uniu ao PMDB, o maior partido de oposição, criando a
Frente Democrática Frente Democrática Frente Democrática Frente Democrática Frente Democrática. Seu candidato, o ex-governador de Minas Gerais, Tancredo
Neves, foi o vitorioso. Chegava ao fim o regime militar.
lm tcmpo
37
) 7 )
As duas últimas aulas trataram dos governos militares. Vimos de que forma
a sociedade foi perdendo sua liberdade de manifestação política. Mas a socieda-
de persistia. Dava mostras de sua vitalidade na cultura, nas artes, na música.
As próximas duas aulas leverão você a uma viagem pela cultura dos anos
60 e 70. Venha...
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Explique como o presidente Geisel desenvolveu a chamada “abertura
política”.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Caracterize o governo do presidente Figueiredo.
UItimas
paIavras
lxcrcícios
Manifestação em
apoio às eleições
diretas para
presidente, em1984.
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) 7 )
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) 7 )
O morro não tem vez
e o que ele fez
já foi demais
Mas olhem bem vocês
quando derem vez ao morro
toda a cidade vai cantar.
Este samba foi composto por Tom Jobim e Vinicius de Moraes na abertura da
década de 1960. Muita coisa aconteceu naqueles anos. Houve uma grande
reviravolta na nossa história política e cultural. Só para lembrar, ao longo dos
anos 60 tivemos cinco presidentes: Jânio Quadros, João Goulart, Castelo Branco,
Costa e Silva e Médici. Entre Goulart e Castelo, um golpe de Estado inaugurou
o regime militar.
Como andavam as idéias daqueles que, nesses anos, se dedicavam à arte
e à cultura? Que diziam sua música, seu teatro, seu cinema? Quais eram
suas preocupações? É isso o que esta aula vai mostrar.
A artc cngajada
Era no morro, como dizia a canção, que viviam aqueles que, quando
tivessem vez, fariam a cidade cantar. Era hora de construir a nova sociedade
revolucionária, que libertaria os oprimidos com a ajuda dos jovens estudantes e
dos intelectuais. Era o tempo da arte participante arte participante arte participante arte participante arte participante e do jovem engajado jovem engajado jovem engajado jovem engajado jovem engajado. Como
você sabe, engajado engajado engajado engajado engajado é aquele que se filia a uma causa e luta por ela. A grande
causa, na época, era a de uma sociedade mais justa e igualitária.
Você deve estar lembrado do jovem de 1950: rebelde, vaselina nos cabelos
e jaqueta de couro. Montado na sua lambreta, ele era o jovem transviado jovem transviado jovem transviado jovem transviado jovem transviado que
se dizia dono do seu próprio destino, desafiando a todos.
No final dos anos 50, essas idéias já não valiam mais. Agora, nos anos 60,
o que valia era a imagem do jovem estudante responsável que queria mudar o
país. Foi por meio da UNE (União Nacional dos Estudantes) e do CPC (Centro
Popular de Cultura) que os jovens partiram para a ação política. O lema da UNE
convocava: “A hora é de ação!” O trabalhador, fosse ele operário ou camponês,
era o alvo principal desse projeto de “conscientização” sobre os problemas
nacionais.
Da rcvoIução
poIítica à rcvoIução
dos costumcs
Abcrtura
Movimcnto
38
) 7 )
A educação era uma das preocupações centrais da época. Paulo Freire criou
um método de baixo custo para alfabetizar adultos em 40 horas. Esse método
começou a ser aplicado por todo o país com a ajuda da CNBB (Confederação
Nacional dos Bispos do Brasil), do MEB (Movimento de Educação de Base) e do
MCP (Movimento de Cultura Popular).
A campanha dizia: “Educar para libertar”. Só depois que o povo soubesse ler
e escrever é que poderia lutar pelos seus direitos. Por isso era necessário
alfabetizar a população de acordo com as experiências do seu dia-a-dia. Em vez
de ensinar que “vovó viu a uva”, os alfabetizadores do método Paulo Freire
ensinavam as palavras casa casa casa casa casa, comida comida comida comida comida, saúde saúde saúde saúde saúde e educação educação educação educação educação.
Para o CPC, entraram jovens como Oduvaldo Viana Filho e Leon Hirszman,
que receberam o apoio de outros tantos artistas e intelectuais como Ferreira
Gullar, Carlos Lyra e Arnaldo Jabor. Eles produziram peças teatrais e shows
musicais, editaram livros e revistas, realizaram o filme Cinco vezes favela
dentro do espírito do cinema-verdade.
Para o pessoal do CPC, o importante era criar uma linguagem que pudesse
ser compreendida pelas camadas populares e fazer com que elas aprendessem
a lutar pelos seus direitos. A idéia era despertar uma “nova consciência popu-
lar”, pela denúncia do subdesenvolvimento e do imperialismo.
O golpe de 1964 evidentemente veio mudar esse quadro. A sede da UNE foi
incendiada, o CPC foi fechado e a ação dos estudantes foi dificultada.
Ilustração do programa
da peça Revolução na
América do Sul de
Augusto Boal.
38
) 7 )
Mas a idéia da arte engajada não morreu ali. Ela se manteve viva no Cinema
Novo, no teatro, na música. Ainda em 1964 estreou o filme Deus e o Diabo na
Terra do Sol, de Gláuber Rocha, enquanto a cantora estreante Maria Betânia
soltava a voz no show Opinião:
Podem me prender,
podem me bater,
podem até deixar-me sem comer,
que eu não mudo de opinião...
Nem toda a juventude, porém, estava envolvida com o projeto
revolucionário de mudar a sociedade brasileira. O programa Jovem
Guarda, lançado em 1965 pela TV Record, também tinha o seu
público garantido entre os jovens da classe média.
Diferentemente daquele grupo que se inspirava no regional, no
sofrimento e na miséria do povo, a jovem guarda falava nos
“carangos”, na garota “papo firme” que era “uma brasa, mora”!
Roberto Carlos, Wanderléa e Erasmo Carlos estouravam nas
paradas de sucesso com o iê-iê-iê. Em 1966, Quero que vá tudo pro
inferno foi a música que mais tocou em todas as rádios do país. Era
um outro jeito de a juventude expressar o seu sentimento de
rebeldia e a vontade de quebrar alguns tabus... Na televisão,
Chacrinha liderava os programas populares. Também faziam su-
cesso as telenovelas, como O direito de nascer.
Cena do filme
Deus e o Diabo na Terra do Sol.
Três flagrantes do programa Jovem Guarda da TV Record.
38
) 7 )
O tropicaIismo a caminho
Caminhando contra o vento,
sem lenço sem documento,
no sol de quase dezembro,
eu vou....
Eu abro uma Coca-Cola,
ela pensa em casamento...
Em 1967, Alegria, Alegria, música de Caetano Veloso apresentada no
III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, com acompanhamento
de guitarra elétrica − o que até então estava reservado à música “alienada”
da Jovem Guarda −, já deixava perceber alguns traços do movimento tropicalista.
Repare só na letra. Ela mostra em rápidos flashes o que se passa com o
personagem, as suas sensações e o seu jeito de olhar o mundo: desafio, despre-
ocupação, despojamento, a Coca-Cola americana, a namorada que quer casar...
São coisas e valores diferentes. A intenção é registrá-los, sem ensinar nada
a ninguém.
Isso era o Tropicalismo. Desse movimento cultural participaram artistas
como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rogério Duprat, Hélio Oiticica, José Celso
Martinez Correia e muitos outros. O público, para eles, não era mais um conjunto
de pessoas que ficavam do lado de lá, só vendo e escutando o que acontecia no
palco. Agora era a hora do público participante público participante público participante público participante público participante. O Tropicalismo lutava por uma
nova estética nova estética nova estética nova estética nova estética, buscava um outro jeito de ser e de se expressar culturalmente.
“A imaginação no poder!” “Abaixo a cultura de elite!”
O que os tropicalistas queriam dizer exatamente com essas palavras?
A resposta é clara: eles eram contra a arte engajada e a estética revolucionária.
Criticavam o tratamento paternalista dado ao público pelos artistas. Como
acabar com a alienação, se já se dava tudo explicadinho ao povo? Se tudo já vinha
explicado, o povo não podia pensar com a sua própria cabeça. Assim, a sua
capacidade de imaginação e de pensamento não ia adiante.
Caetano Veloso
e Gal Costa.
38
) 7 )
lm tcmpo
Os tropicalistas também achavam que a mudança era necessária. Só que ela
devia acontecer de uma outra maneira: não por meio da política, mas a partir da
crítica dos comportamentos e dos costumes. Por isso eles se recusavam a ser
“bons moços”, preferindo usar roupas coloridas, cabelos longos, e ter atitudes
pouco convencionais.
Uma das coisas que o Tropicalismo mais criticava nos jovens revolucionários
era a sua esperança exagerada no futuro. O importante era viver “o aqui e o agora”.
Querer mudar o mundo, viver para a realização de um projeto futuro era conside-
rado “caretice”, coisa de gente “quadrada”, conforme a expressão da época.
O final da década de 1960 foi marcado no mundo inteiro pela rebelião da
juventude. O movimento hippie defendia a revolução individual, criticando os
valores da sociedade tecnocrata. Em vez de brigar violentamente pelas suas
idéias, os hippies diziam: “Faça amor, não faça a guerra”!
Em maio de 1968, em Paris, os jovens levantaram barricadas nas ruas.
Eles diziam coisas como: “O sonho é realidade”, “É proibido proibir”...
Em 1969, surgiu no Rio de Janeiro o jornal O Pasquim, no qual colaboravam
jornalistas e humoristas como Millôr Fernandes, Ziraldo, Jaguar, Paulo Francis
e Henfil. Esse jornal foi muito importante na época, porque criou um novo estilo
de comunicação. Seus editores conseguiam dizer o que queriam, mas não
brigavam diretamente com o governo e as autoridades.
É bom lembrar que em dezembro de 1968 fora editado o AI-5, que dava ao
governo controle total sobre a sociedade. Então, era muito difícil exercer o direito
de crítica e a liberdade de pensamento. Tudo tinha de ser muito bem pensado
antes de ser dito, pois o governo tinha o poder de censurar, proibir e reprimir.
A sociedade só podia recorrer ao poder da imaginação para escapar da
censura. Por isso foi tão importante a comunicação por meio de imagens.
Com humor e ironia, muitas idéias e valores foram transmitidos. Era também
uma maneira de brincar com a situação política, cada vez mais tensa.
Veja só o que o Jornal do Brasil publicou no seu boletim meteorológico da
primeira página no dia 14 de dezembro de 1968, quando noticiou a edição do
AI-5: “Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. Máx.: 38°C
em Brasília. Mín.: 3°C nas Laranjeiras.”
E do outro lado, na mesma página: “Ontem foi o dia dos cegos.”
Nesta aula vimos como a década de 1960 é importante para entendermos o
nosso país de hoje. Vimos que amplos setores da sociedade estavam voltados
para a questão da mudança mudança mudança mudança mudança. Os intelectuais engajados achavam que só uma
revolução poderia mudar as coisas. Já o movimento tropicalista partia para a
crítica de comportamentos como caminho para a mudança social. Vimos que o
humor teve um papel importante na época: mesmo no interior de um regime
militar autoritário e repressor, procurou burlar a censura e aliviar as tensões.
Na próxima aula, você verá que caminhos tomou a nossa vida cultural
na década de 1970.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Explique o lema da UNE nos anos 60: “A hora é de ação”.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Caracterize o movimento tropicalista.
UItimas
paIavras
lxcrcícios
39
) 7 )
De repente é aquela corrente pra frente,
parece que todo o Brasil deu a mão.
Todos ligados na mesma emoção,
tudo é um só coração.
Essa marchinha comemorava euforicamente o tricampeonato mundial de
futebol conquistado pelo Brasil em 1970. A década começava com uma verdadei-
ra onda de ufanismo que iria louvar o “milagre brasileiro” do crescimento
econômico e da modernização.
Mas será que o Brasil estava mesmo todo de
mãos dadas, batendo num só coração?
Não. Havia também os que estavam presos,
perseguidos, ou que deixaram o país porque aqui
não havia liberdade de expressão.
Vamos ver, nesta aula, o que as pessoas conse-
guiram “dizer” nesses anos que começaram sob a
sombra do AI-5 e se encerraram com a esperança
trazida pela anistia.
O impório da ccnsura
O início da década de 1970 foi um momento de forte repressão política e
endurecimento do regime militar. De um lado, a guerrilha rural e urbana, os
seqüestros, os assaltos a bancos para obter fundos para a os movimentos
revolucionários; de outro, as prisões, a tortura, a morte e o exílio.
Grande parte dos intelectuais e artistas foi obrigada a abandonar o país.
Passaram temporadas mais ou menos longas no exterior Oscar Niemeyer,
Augusto Boal, Darcy Ribeiro, Glauber Rocha, Chico Buarque de Holanda,
Gilberto Gil, Caetano Veloso, Paulo Freire... Foram os “anos de chumbo” de que
falamos na Aula 36.
Você deve estar lembrado de como, no início da década de 1960, era forte a
idéia de engajamento, e eram numerosas as manifestações de uma arte partici-
pante. Agora, a situação era outra.
Fortalecida pelo AI-5, a censura dificultava o exercício da vida cultural e
política. Eram proibidos livros, peças de teatro, canções que defendessem idéias
diferentes daquelas do regime militar. A apresentação do balé Bolshoi na
televisão brasileira chegou a ser proibida porque o grupo era russo...
Ufanismo c rcprcssão,
indústria cuIturaI
c contracuItura
39
) 7 )
Abcrtura
Movimcnto
39
) 7 )
Talvez você conheça uma música de Chico Buarque de Holanda que diz:
Acorda, amor.
Eu tive um pesadelo agora:
Sonhei que tinha gente lá fora,
Batendo no portão,
Que aflição!
Era a “dura”,
Numa muito escura viatura.
Minha nossa, santa criatura!
Chame, clame, chame, chame o ladrão, chame o ladrão!
Chico Buarque mostra o medo que reinava dentro de cada um. A vida era
vivida como um pesadelo, no qual o cidadão apavorado acabava pedindo
socorro ao ladrão em vez de pedir à polícia. Era uma maneira bem-humorada de
expressar uma situação política cada vez mais tensa. Mas, sobretudo, era uma
forma inteligente de driblar a censura.
ßuscando caminhos
Entre os extremos da marchinha ufanista e do drible à censura, o que
aconteceu com a cultura brasileira nos anos 70? Houve quem falasse em vazio vazio vazio vazio vazio
cultural cultural cultural cultural cultural. Realmente, não era mais possível identificar movimentos coerentes e
com programas mais ou menos definidos, do tipo arte engajada, Tropicalismo
e assim por diante. Mas isso não quer dizer que vários caminhos não estives-
sem sendo tentados.
Um desses caminhos foi o do investimento na indústria cultural indústria cultural indústria cultural indústria cultural indústria cultural, destina-
da a atingir o grande público e a criar um mercado de consumidores. Para
alcançar esse objetivo, nada melhor que a televisão!
A estética do subdesenvolvimento estética do subdesenvolvimento estética do subdesenvolvimento estética do subdesenvolvimento estética do subdesenvolvimento, que marcara os anos 60, foi cedendo
o lugar à magia visual da televisão. Sobretudo a partir de 1973, com a introdu-
ção da televisão em cores e a incorporação de uma tecnologia avançada, a TV
Globo firmou o “padrão Globo de qualidade”, que iria se difundir por todo o
país por meio de uma rede de integração nacional. Vem dos anos 70 o sucesso
do Jornal Nacional, do Fantástico, das telenovelas...
A década assistiu igualmente ao crescimento das gravadoras, das rádios,
das editoras. O cinema também procurava entrar na era industrial e conquistar
o público habituado às produções estrangeiras.
Muitos filmes importantes foram feitos com financiamento estatal por
meio da Embrafilme, criada em 1975. Dona Flor e seus dois maridos, adaptação do
romance de Jorge Amado dirigida pelo jovem cineasta Bruno Barreto, foi um
sucesso de bilheteria e alcançou repercussão internacional.
Mas houve ainda outros caminhos. Houve aqueles que preferiram mani-
festações mais “artesanais”, mais “fora do sistema”, mais individuais.
Você está lembrado de que, na aula anterior, falamos no movimento hippie
do final dos anos 60? Tendo se originado na mesma época, chegou aos anos 70
um movimento chamado de contracultura contracultura contracultura contracultura contracultura. Aqui no Brasil, como nos outros
países, a contracultura procurava se opor à cultura oficial, valorizando aquelas
manifestações que eram consideradas marginais marginais marginais marginais marginais. Foi sobretudo no teatro que
a contracultura encontrou seu meio de expressão.
39
) 7 )
Em 1969, na virada da década, a produtora paulista Ruth Escobar montou
Cemitério de automóveis, de Fernando Arrabal. Era uma peça surrealista e anárqui-
ca. No ano seguinte, foi a vez de O balcão, de Jean Genet, de grande impacto
visual.
Enquanto isso, o Grupo Oficina encenava Na selva das cidades, de Brecht,
questionando o sistema social e cultural vigente. A radicalização chegaria ao
máximo com a montagem seguinte, da peça Gracias Señor, criação coletiva do
grupo que conclamava a platéia à libertação do corpo e da mente. No Rio de
Janeiro, a peça Hoje é dia de rock, de José Vicente, propunha a utopia e a
liberdade individual.
Novos grupos iriam surgir ao longo da década, como o Asdrúbal Trouxe
o Trombone, de 1975. Sua montagem de Trate-me leão falava dos caminhos
e descaminhos da juventude.
Na literatura, os anos 70 foram a época dos poetas “marginais” e seus
livrinhos mimeografados vendidos nas portas dos cinemas, dos teatros, nas
mesas de bar. Torquato Neto, Wally Salomão, Chacal, Cacaso, Paulo Leminski
e outros juntaram seus versos aos dos poetas mais velhos, que continuavam
a produzir.
As memórias foram outro gênero que floresceu na época, a começar pelo
Baú de ossos (1972), de Pedro Nava, até O que é isso, companheiro? (1979),
de Fernando Gabeira, que voltava do exílio e abria um filão de relatos da
experiência da guerrilha.
Um outro traço característico da época foi a explosão da chamada impren- impren- impren- impren- impren-
sa nanica sa nanica sa nanica sa nanica sa nanica, em contraposição à grande imprensa. A marca dessas publicações
era a irreverência, o humor e sátira de costumes.
O que se pode perceber de tudo isso é que a revolução dos costumes revolução dos costumes revolução dos costumes revolução dos costumes revolução dos costumes que
começara nos anos 60 prosseguiu. Ela modificava os valores e a forma de pensar,
sentir e viver.
Cena da peça teatral
Macunaíma, dirigida
por Antunes Filho.
39
) 7 )
A idéia do instante instante instante instante instante substituía a idéia de futuro. Muitas
pessoas não acreditavam mais em um projeto revolucionário que
apostava num resultado lá na frente. Importava viver o momento,
o aqui e agora. Era preciso mudar a linguagem e a vida, mudar as
relações já prontas, viajar, tornar-se mutante. Os valores eram
questionados no dia-a-dia. Quebrar as estruturas. Ser radical.
Protestar.
A repressão do governo militar dificultava a participação
política e a vida cultural, mas a sociedade conseguia criar novas
formas de expressão. As manifestações políticas mudaram. Sur-
giu um outro jeito de protestar. Criticava-se o autoritarismo da
família, da escola e da universidade. Criticava-se a repressão
sexual e as normas institucionais. A liberdade do indivíduo era a
grande causa. Essa era uma outra maneira de fazer política, um
outro jeito de participar.
Por 21 anos, os militares estiveram no controle direto da política nacional.
O Brasil de 1985 era muito diferente do de 1964. É verdade que houve um
significativo desenvolvimento da infra-estrutura econômica nacional, fato sem-
pre destacado pelos defensores do regime militar.
No entanto, a economia brasileira em 1985 apresentava problemas graves.
Após duas décadas, a distribuição de renda no país havia piorado, aumentando
o fosso entre os mais ricos e os mais pobres. Além disso, o país chegou ao final
do regime militar com inflação em alta, aumento do desemprego e uma dívida
externa recorde.
Além dos problemas na área econômica, a falta de democracia e a violenta
repressão exercida contra todos aqueles que se opuseram ao regime militar
desorganizaram a vida política do país. Deixaram feridas difíceis de cicatrizar na
memória nacional.
Superar esse legado tornou-se o grande desafio para a nascente democracia
brasileira. Ela teria de aprender a lidar com as diferenças, com os direitos civis,
com a liberdade. Uma nova Constituição seria escrita. E, nela, teríamos de incluir
a sociedade brasileira em todas as suas distinções, em toda a sua riqueza
e variedade. É por onde passaremos no último ponto de nossa viagem.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Caracterize a indústria cultural dos anos 70 no Brasil.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Identifique características básicas da “contracultura”.
lxcrcícios
UItimas
paIavras
Capas de publicações alternativas.
A história política brasileira nos ensina que nossa democracia foi constante-
mente ameaçada. Os momentos de abertura, no entanto, trazem em seu colorido
toda a vida que uma sociedade livre pode expressar.
Nosso último módulo traz um desses ricos momentos: aquele em que foram
entregues à sociedade os destinos da política brasileira. Uma nova Constituição
traduziria os novos caminhos que a sociedade exigia.
A “Constituição cidadã” é o tema deste nosso último encontro.
MúduIo 14
Os dcsafios
da nação dcmocrática
40
) 7 )
Em aulas anteriores, você acompanhou o
processo de transição política pelo qual o Brasil retomou lentamente o caminho
da democracia, após 21 anos de ditadura.
Você certamente deve se lembrar da expectativa que tomou conta do país no
início de 1985 diante da doença do presidente eleito Tancredo Neves, e da
consternação por sua morte, às vésperas de tomar posse. Em seu lugar assumiu
o vice-presidente, José Sarney, a quem coube fazer um governo de transição governo de transição governo de transição governo de transição governo de transição.
A transição democrática só terminou, no entanto, com a convocação da
Assembléia Nacional Constituinte, a promulgação da nova Constituição de 1988
e a eleição presidencial de 1989.
Na aula de hoje você vai acompanhar a feitura da nova Constituição. Vai
saber como ela mudou e ainda poderá mudar a nossa vida.
Vamos fazer uma pequena viagem ao mundo dos direitos e dos deveres, ao
mundo das leis que um povo cria para tentar viver melhor, com paz e justiça.
Uma viagem ao mundo da cidadania.
As Constituiçõcs brasiIciras
O que é uma Constituição? De que modo as leis influenciam o nosso dia-a-
dia? O que significa viver num “regime constitucional”?
A Constituição é o mais importante conjunto de leis de um país, e por isso
ela também é conhecida como a Carta Magna Carta Magna Carta Magna Carta Magna Carta Magna de uma nação. Na Constituição
40
) 7 )
A rcdcmocratização
Abcrtura
Movimcnto
População segue
cortejo por ocasião
da morte de
Tancredo Neves.
40
) 7 )
da República Federativa do Brasil estão contidos os princípios, direitos e deveres
fundamentais que regem a vida pública dos cidadãos brasileiros.
Assim como nos estatutos dos clubes e associações, todas as leis que
estabelecem tudo aquilo que podemos e não podemos fazer são baseadas nas
normas constitucionais.
Antes da Constituição de 1988 já haviam sido promulgadas seis Cartas
Magnas em nosso país: uma durante o Império, em 1824, e cinco durante a
República, em 1891, 1934, 1937, 1946 e 1967. Tivemos também a Emenda Consti-
tucional de 1969, que alterou a Carta de 1967 em vários aspectos essenciais.
Em geral, a elaboração de uma Constituição, em uma democracia, é atribui-
ção de uma Assembléia Constituinte especialmente eleita pelo povo para tal
finalidade. Esse princípio, contudo, nem sempre foi respeitado em nossa histó-
ria, tão repleta de crises políticas.
Você deve estar lembrado de que, em 1937, Getúlio Vargas simplesmente
“outorgou” (na verdade, impôs) a Constituição que viria a reger o Estado Novo.
Assim também ocorreu com a Constituição de 1967, emendada em 1969, e que
regeu nossa vida pública até 1988. Na verdade, ela foi imposta pelo regime
militar, sem qualquer consulta ao povo ou a seus representantes.
Para retornar definitivamente à democracia era necessário, portanto, elabo-
rar uma nova Constituição, que estabelecesse as regras para a convivência livre
e democrática dos brasileiros. Uma nova Carta que fosse feita pelos representan-
tes legítimos do povo.
Eleitos em novembro de 1986, os deputados e senadores constituintes
iniciaram os trabalhos da Assembléia em 1º de fevereiro de 1987.
Começava então um rico período de debates e de movimentação política.
Não apenas os parlamentares, mas também todos os setores organizados da
sociedade civil, procuraram deixar no novo documento a marca de seus interes-
ses e ideais.
Você sabe o que são “setores organizados” ou “grupos de pressão”? São
qualquer forma de associação de pessoas que se juntam, se organizam para lutar
por alguma causa, alguma idéia ou interesse. Assim, os sindicatos, as associações
de moradores, até mesmo os condôminos de um prédio, podem ser exemplos
de setores organizados.
Você faz parte, ou já fez parte, de algum grupo ou associação?
Use sua imaginação e pense: de que grupos voce poderia participar para
atingir um determinado fim? A que tipo de pessoas você poderia se associar,
se precisasse?
Uma verdadeira caravana de pessoas, das mais
diversas regiões, se dirigiu ao Congresso Nacional, em
Brasília, para fazer valer os seus pontos de vista junto
aos congressistas. Entre elas estavam empresários,
sindicalistas, fazendeiros, lavradores, profissionais de
todos os tipos, líderes religiosos e comunitários,
e muitos outros.
Uma Constituição trata de todas as regras que
orientam a vida em sociedade: as econômicas, as polí-
ticas, as educacionais, as sociais. Os deputados discu-
tem todos os aspectos antes de votar o texto final.
Pausa
Ulisses
Guimarães ergue
exemplar da
Constituição
Federal de 1988.
40
) 7 )
Já pensou como são demorados os trabalhos?
Os trabalhos da Constituinte duraram cerca de 19 meses, durante os quais os
parlamentares se dividiram em oito comissões e 24 subcomissões temáticas, cada
uma responsável pela regulamentação de um tema diferente. Ao longo desse
período, outras propostas de artigos, elaboradas não pelos parlamentares, mas
diretamente por quaisquer cidadãos, foram incluídas no debate.
No dia 5 de outubro de 1988, num emocionante discurso à nação, em que
procurava destacar os avanços que a Constituição trazia em matéria de direitos
individuais e sociais, o deputado Ulisses Guimarães, que havia presidido os
trabalhos da Assembléia Constituinte, saudou a promulgação da Carta Magna.
A Constituição mudou na sua elaboração (...), mudou quando quer mudar
o homem em cidadão, e só é cidadão quem ganha justo e suficiente salário, lê
e escreve, mora, tem hospital e remédio, lazer quando descansa.
Com essas palavras, o deputado Ulisses Guimarães expressou os objetivos
da nova Constituição, que chamou de “Constituição cidadã”.
A Constituição dc 1988
A primeira parte da Constituição trata dos seus princípios fundamentais princípios fundamentais princípios fundamentais princípios fundamentais princípios fundamentais.
Em 1988, pela primeira vez, declarou-se aí que a República Federativa do Brasil
é um Estado Democrático de Direito, quer dizer, uma nação de cidadãos iguais
entre si e governados pelas mesmas leis.
Os fundamentos desse Estado são a soberania, a cidadania, a dignidade da
pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, e o
pluralismo político. O poder se origina do povo e deve ser exercido por meio
de representantes eleitos ou diretamente pelo povo, por meio de referendos
e plebiscitos.
Essa parte da Constituição define também os objetivos fundamentais da
nossa República: construir uma sociedade livre, justa e solidária, garantir o
desenvolvimento nacional, acabar com a pobreza e a marginalização e reduzir
as desigualdades sociais e regionais, e promover o bem de todos sem qualquer
tipo de preconceito ou discriminação.
Uma vez estabelecidos os princípios fundamentais, passam a ser definidos
pela nova Carta os direitos e garantias fundamentais direitos e garantias fundamentais direitos e garantias fundamentais direitos e garantias fundamentais direitos e garantias fundamentais dos cidadãos brasileiros.
São definidas quatro categorias de direitos: individuais e coletivos, sociais,
da nacionalidade e políticos. São arrolados também os preceitos que regem
os partidos políticos.
Os brasileiros têm garantidos os seus direitos civis, ou seja, a igualdade
perante a lei e o direito à justiça; os seus direitos sociais, que dizem respeito ao
seu bem-estar e à participação na riqueza aqui produzida; e também os seus
direitos políticos, quer dizer, a liberdade de cada um para manifestar seus
pensamentos, candidatar-se e apoiar seus candidatos aos cargos públicos,
e associar-se para defender seus pontos de vista e seus interesses.
A Constituição de 1988 ampliou os direitos de associação, sem intervenção
do Estado. E o direito de voto foi igualmente estendido a um maior número de
pessoas. Assim, mais brasileiros podem votar, e fica mais fácil se associar a outras
pessoas para defender os seus interesses e as suas idéias.
lm tcmpo
40
) 7 )
Você sabia que só pela Constituição de 1934 as mulheres conquistaram o
direito de votar?
Como você sabe, o Brasil é uma federação de Estados, e estes são divididos
em municípios. Você vive num município, que faz parte de um Estado, que por
sua vez compõe a federação.
A Constituição de 1988, na parte referente à organização do Estado organização do Estado organização do Estado organização do Estado organização do Estado,
introduziu modificações importantes na organização da nossa federação. Os
municípios ganharam maior autonomia, passando a se reger por leis orgânicas
votadas por suas próprias Câmaras de vereadores.
Os impostos passaram a ter uma nova distribuição que beneficiou os
Estados e municípios em detrimento da União, ou seja, do governo federal.
Houve também uma nova distribuição de encargos entre os três níveis de
governo, passando aos municípios a responsabilidade pelo ensino fundamen-
tal, pela pré-escola e pela saúde.
Além disso, foram estabelecidos os princípios que deveriam nortear toda
a administração pública, tanto no município quanto nos Estados e no governo
federal: legalidade legalidade legalidade legalidade legalidade, impessoalidade impessoalidade impessoalidade impessoalidade impessoalidade, moralidade moralidade moralidade moralidade moralidade e publicidade publicidade publicidade publicidade publicidade. Assim, além
de votar para os cargos de prefeito, governador, presidente, vereador, deputa-
do e senador, você tem também o direito e o dever de cobrar deles o cumpri-
mento de todos esses princípios.
De acordo com a nova Carta, o Brasil continua a ser presidencialista, isto
é, governado por um presidente eleito pelo povo. E, segundo a parte da
Constituição que trata da organização dos poderes organização dos poderes organização dos poderes organização dos poderes organização dos poderes, o Estado continua sendo
dividido em três poderes: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário.
O Poder Legislativo faz as leis que regulam o nosso dia-a-dia. O Executivo
governa de acordo com essas leis e garante o cumprimento delas. O Judiciário
interpreta o sentido das leis e determina a sua justa aplicação sempre que
há conflito em torno delas.
Com a nova Constituição, o Poder Legislativo recuperou uma série
de vantagens perdidas no período ditatorial. Além de fazer as leis, ele tem
a missão de fiscalizar a administração realizada pelo Executivo.
Em tempo de eleição, os candidatos sempre fazem promessas. Algumas
vezes essas promessas ou compromissos são razoáveis, quer dizer, se referem a
coisas que os políticos podem realmente tentar realizar. Outras vezes, contudo,
as promessas são totalmente irreais e impossíveis.
Assim, por exemplo, quando um candidato a vereador diz que vai acabar
com a inflação, ele está obviamente mentindo. Essa é uma tarefa que dificilmente
ele pode executar.
Levando em conta a divisão de responsabilidades entre o governo federal,
os Estados e os municípios, e entre os poderes da República, imagine algumas
tarefas diferentes que é justo esperar e cobrar dos diferentes ocupantes de cargos
públicos.
A ordem econômica ordem econômica ordem econômica ordem econômica ordem econômica foi um dos assuntos que mais polêmicas provocou ao
longo dos trabalhos da Assembléia Constituinte.
Essa parte da nova Carta estabelece as normas e os princípios que regulam
todas as atividades relativas ao trabalho e à produção dos bens que consumimos.
Aqui se define o que é uma empresa nacional empresa nacional empresa nacional empresa nacional empresa nacional, quais as funções sociais da funções sociais da funções sociais da funções sociais da funções sociais da
lm tcmpo
Pausa
40
) 7 )
propriedade propriedade propriedade propriedade propriedade e uma série de normas que regem o uso das riquezas mineirais do
nosso território.
Na parte relativa à ordem social ordem social ordem social ordem social ordem social, os avanços da nova Constituição foram
numerosos, embora ainda estejamos muito longe de poder ver as normas
constitucionais em pleno vigor.
A ordem social é definida tendo por base o trabalho, e, como seu maior
objetivo, o bem-estar e a justiça sociais. Essa é a parte da Constituição que dita
as regras para a previdência social, a saúde e a assistência social. A nova Carta
inovou estendendo esses direitos a todos os brasileiros, da cidade e do campo.
A saúde é declarada um direito de todos os brasileiros e um dever do Estado.
Criou-se o sistema único de saúde, que possui como atribuições, além do
atendimento médico e hospitalar, o controle dos alimentos, do meio ambiente e
o saneamento básico.
Já a previdência social se destina a garantir as aposentadorias e as pensões
dos seus segurados. Com a nova Carta, foram ampliados os tipos de benefícios
pagos pela previdência, e foi aberta a participação a qualquer contribuinte.
Quanto à assistência social, ela busca a proteção de todos os cidadãos mais
carentes e incapazes de se prover, e não depende de contribuições.
Outra seção importante é a que trata da educação. O ensino é um direito de
todos e um dever do Estado e da família. De acordo com a nova Carta, todos
devem ter acesso à educação gratuita. A nova Constituição prevê também a
elaboração periódica de um plano nacional de educação que promova a elimina-
ção do analfabetismo e o aprimoramento da educação em todo o país.
A nova Carta é, portanto, um documento vasto, abrangente e polêmico, que
regula praticamente toda a nossa a vida social, e expressa assim os mais caros
desejos da população brasileira.
Apesar dos seus erros e excessos, ela nos fornece uma base sólida de direitos
e garantias fundamentais e de princípios democráticos que nos permitem
construir uma nova ordem social, enfrentando os enormes desafios econômicos
e sociais legados pelo passado mais ou menos recente.
Chcgando ató hojc
Com a promulgação da Constituição de 1988, estava aberta a campanha para
a primeira eleição presidencial pelo voto direto após 29 anos. Isso mesmo. Desde
1960 o país não se mobilizava em torno de eleições presidenciais. Partidos e
candidatos se apresentaram, e não foram poucos! Os principais concorrentes
foram Ulisses Guimarães, pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro
(PMDB); Luiz Inácio Lula da Silva, pelo Partido dos Trabalhadores (PT);
Fernando Collor de Melo, pelo Partido da
Reconstrução Nacional (PRN); Aureliano
Chaves, pelo Partido da Frente Liberal (PFL);
Mário Covas, pelo Partido da Social Demo-
cracia Brasileira (PSDB); Leonel Brizola, pelo
Partido Democrático Trabalhista (PDT);
e Paulo Maluf, pelo Partido Democrático
Social (PDS).
Pela nova Constituição, as eleições
devem ser feitas em dois turnos, desde
que nenhum candidato obtenha mais de 50%
dos votos válidos no primeiro turno.
Manifestação
estudantil pelo
impeachment do
presidente Collor.
40
) 7 )
Em 1989, como ninguém conseguiu mais de 50% dos votos na primeira
rodada da eleição, foram para o segundo turno os dois candidatos que obtiveram
o maior número de votos no primeiro: Fernando Collor de Melo e Luiz Inácio
Lula da Silva.
A disputa foi acirrada. A vitória coube a Fernando Collor, mas Lula obteve
apenas quatro milhões de votos menos, em um eleitorado de aproximadamente
66 milhões.
O governo Collor se elegeu com a promessa de modernizar o país, garantir
a democracia e defender os “descamisados”, ou seja, os despossuídos, os mais
pobres. Porém, mais uma vez, os brasileiros tiveram de enfrentar as conseqüên-
cias das ações irregulares do governo. O governo Collor foi acusado de consentir
no desvio e na apropriação privada de uma imensa quantidade de recursos
públicos.
Imagine você! O mesmo governo que se elegeu para proteger os
“descamisados” teve de responder à acusação de corrupção.
Para apurar as denúncias, foi criada no Congresso Nacional uma Comissão
Parlamentar de Inquérito (CPI). O movimento das ruas, a pressão dos setores
organizados e a ação da CPI resultaram no impeachment impeachment impeachment impeachment impeachment do presidente Collor.
Você sabe o que quer dizer impeach- impeach- impeach- impeach- impeach-
ment ment ment ment ment?
Quer dizer impedimento. O presidente
Collor foi impedido de permanecer na pre-
sidência da República. Isso ocorreu no se-
gundo semestre de 1992, em pleno funcio-
namento das instituições democráticas.
Com o impedimento do presidente
Collor e, de acordo com a Constituição,
assumiu o governo o vice-presidente,
Itamar Franco, que conduziu o país até as
eleições diretas de 1994.
Novamente partidos e candidatos se
apresentaram à nação. Os principais con-
correntes foram Fernando Henrique Car-
doso (PSDB); Luiz Inácio Lula da Silva
(PT); Leonel Brizola (PDT) e Orestes Quércia
(PMDB). Dessa vez, o candidato vencedor,
Fernando Henrique Cardoso, conseguiu
mais de 50% dos votos válidos logo no
primeiro turno da eleição. Não houve, por-
tanto, o segundo turno. Desde janeiro de
1995, Fernando Henrique Cardoso gover-
na o Brasil.
Nossa aventura pela história do Brasil chega ao seu ponto final. Não é a
aventura de viajar que chega ao fim. É o roteiro que definimos que se conclui.
Mas, se a aventura não termina, por onde nos deve conduzir agora? Pela
mais importante das viagens. Aquela que fazemos no presente. A que nos ensina
o que somos, que direitos temos e em que sociedade queremos viver.
Um país que se permitiu conviver com três século de escravidão, uma
sociedade que recentemente consentiu uma ditadura militar por 21 anos, uma
nação que ainda olha sem a devida indignação para uma concentração tão brutal
de renda tem muito o que aprender.
linaI
dc viagcm
Os jovens
cara-pintadas
pelo impeachment
do presidente Collor.
40
) 7 )
A nação precisa estar mais atenta às violências de cada dia, contra
cada cidadão. Essa mensagem de vigilância permanente é o que os professores
que escreveram estas aulas querem deixar para você.
Um país se faz com as diferenças, e não com a imposição do aceitável.
Esta é a lição de todo dia.
Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1 Exercício 1
Releia a aula e explique o significa viver em um regime constitucional regime constitucional regime constitucional regime constitucional regime constitucional.
Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2 Exercício 2
Releia a aula e explique o que mudou na vida política brasileira com
a Constituição de 1988.
lxcrcícios
AuIa 21 - °l dando quc sc rcccbc"
1. 1. 1. 1. 1. A política dos governadores representou um acordo entre o presidente da
República e os governadores dos Estados. O primeiro, em troca de apoio
político, garantiu ampla liberdade de ação aos governadores. Estes,
fortalecidos, utilizaram-se da fraude e da violência física, entre outros
métodos, para controlar a política dos seus Estados.
2. 2. 2. 2. 2. Alguns exemplos de resposta: Pacto oligárquico/Acordo entre as oligar-
quias /A política das oligarquias e dos coronéis.
AuIa 22 - lstado c cconomia na Primcira kcpúbIica
1. 1. 1. 1. 1. A expansão cafeeira favoreceu o desenvolvimento industrial paulista porque
estimulou a vinda de um grande número de imigrantes que serviram como
mão-de-obra e mercado consumidor para a indústria; capitais investidos no
café foram repassados à indústria; a infra-estrutura criada, em grande parte,
pela economia cafeeira, foi fundamental para o desenvolvimento industrial
no Estado de São Paulo.
2. 2. 2. 2. 2. A intervenção ocorreu em virtude da acentuada queda dos preços do café e
da falta de uma política protecionista protecionista protecionista protecionista protecionista por parte do governo federal, muito
mais preocupado em assegurar o equilíbrio financeiro do país.
AuIa 23 - A formação da socicdadc industriaI brasiIcira
1. 1. 1. 1. 1. Divisão do trabalho, novos métodos de racionalização do trabalho, contrato
de trabalho.
2. 2. 2. 2. 2. O movimento operário dividia-se em correntes revolucionárias e moderadas.
Os anarquistas representaram a mais importante corrente revolucionária.
Defendiam a supressão do Estado e de todas as formas de opressão política.
Os moderados, muitas vezes denominados pejorativamente de “amarelos”,
defendiam melhores condições de vida e trabalho e buscavam mais a
negociação do que o confronto com o empresariado e o governo.
Gabaritos
das auIas 21 a 40
AuIa 24 - ßrasiI: a nação rcvisitada
1. 1. 1. 1. 1. O autor critica a intelectualidade brasileira que, fascinada pela cultura
francesa, não consegue enxergar as manifestações culturais brasileiras.
2. 2. 2. 2. 2. O modernismo defendia e valorizava a diversidade cultural brasileira.
AuIa 2S - Os anos Ioucos: a crisc da dócada dc 1920
1. 1. 1. 1. 1. Foi um movimento político liderado por grupos oligárquicos de importantes
Estados − Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Sul e Pernambuco − criado
para concorrer às eleições presidenciais de 1922 e combater o predomínio das
oligarquias de Minas Gerais e São Paulo
2. 2. 2. 2. 2. Os tenentes eram favoráveis ao fim das fraudes e da manipulação eleitoral.
Defendiam a moralização das instituições políticas e um governo centralizado,
capaz de resolver os graves problemas do país.
AuIa 26 - As inccrtczas da dcmocracia
1. 1. 1. 1. 1. Maior centralização política, com o fechamento do Congresso e o
fortalecimento do Poder Executivo; nova política social baseada na
organização e no controle do movimento sindical.
2. 2. 2. 2. 2.
1 11 11 Quadro internacional marcado pela crise das instituições liberais e
fortalecimento das propostas autoritárias e totalitárias.
2 22 22 As elites brasileiras ficaram assustadas com a revolta comunista de 1935.
Getúlio Vargas aproveitou-se disso para fortalecer o seu governo e dar o
golpe que instaurou a ditadura no país, com amplo apoio de lideranças
militares e políticas.
AuIa 27 - A nova ccntraIização: o lstado Novo - t
1. 1. 1. 1. 1. Para Vargas, o regime democrático era uma farsa a serviço das minorias; além
disso, segundo ele, a livre competição entre os partidos enfraquecia e dividia
o país.
2. 2. 2. 2. 2. A máquina de propaganda criada pelo governo foi fundamental para construir
a imagem de Vargas como grande líder nacional. Além disso, o governo
tomou uma série de iniciativas no campo social, como a legislação trabalhista,
que reforçou a imagem de Vargas como “pai dos pobres”.
AuIa 28 - A nova ccntraIização: o lstado Novo - tt
1. 1. 1. 1. 1. Desde o início dos conflitos, o governo brasileiro procurou não se envolver:
manteve relações diplomáticas com os dois lados. A entrada dos Estados
Unidos na guerra, no entanto, obrigou o governo brasileiro a sair da
confortável posição de neutralidade que até então mantinha. As pressões
externas e internas tornaram-se cada vez maiores. O bombardeio de navios
brasileiros, em julho/agosto de 1942, foi o estopim para o ingresso do Brasil
na guerra, ao lado dos aliados e contra o Eixo.
2. 2. 2. 2. 2. A participação das tropas brasileiras na guerra contra as ditaduras nazi-
fascistas desgastou a ditadura varguista. O governo começou a se isolar e
tentou liderar uma transição para a democracia. Suas manobras não deram
certo, e Vargas foi derrubado em outubro de 1945.
AuIa 29 - A ordcm IibcraI-dcmocrática
1. 1. 1. 1. 1. No plano internacional, os anos do pós-guerra foram marcados pela ascensão
do comunismo na Europa e em outras partes do mundo. O combate ao
comunismo passou a ser tarefa primordial do governo norte-americano.
Surgia a Guerra Fria Guerra Fria Guerra Fria Guerra Fria Guerra Fria, confronto político-ideológico entre os Estados Unidos
e a União Soviética. O governo Dutra logo tratou de mostrar de que lado
estava: adotou uma política externa de alinhamento ao governo norte-
americano. Essa política se relacionava ao interesse do governo brasileiro de
preservar e ampliar as relações políticas e econômicas com o país líder do
bloco ocidental na luta contra o comunismo. Ao mesmo tempo, tratou
também de adotar uma política de caráter repressivo aos movimentos
trabalhistas influenciados pela ação do PCB. Foi, portanto, nesse contexto de
radicalização política externa e interna que o governo brasileiro tomou
medidas como o rompimento de relações com a URSS e a cassação do PCB.
2. 2. 2. 2. 2. O governo Dutra adotou um conjunto de medidas baseadas no liberalismo
econômico, tais como: controle dos gastos públicos e ampliação das
importações como forma de combater o aumento da taxa de inflação.
AuIa 30 - O lstado na diantcira: intcrvcncionismo c
dcscnvoIvimcnto no scgundo govcrno Vargas
1. 1. 1. 1. 1. As duas primeiras propostas defendiam o apoio do Estado à industrialização
brasileira. A proposta desenvolvimentista via com bons olhos o ingresso de
capitais e empresas estrangeiras. Já a proposta nacionalista defendia
fundamentalmente o capital nacional. Os liberais não concordavam que o
Estado deveria planejar e subsidiar a industrialização. Defendiam que a
indústria deveria crescer com seus próprios recursos.
2. 2. 2. 2. 2. Em linhas gerais, pode-se dizer que um modelo autárquico de
desenvolvimento é aquele preocupado em atender autonomamente a todas
as necessidades econômicas de um país. O segundo governo Vargas criou
uma série de empresas e ampliou a intervenção estatal na economia. Essas
medidas tiveram por objetivo, entre outros, reduzir a influência externa em
nosso desenvolvimento econômico. O modelo autárquico tende a ver com
desconfiança a presença maciça de capitais externos em determinados
setores econômicos considerados estratégicos (energia, comunicações).
AuIa 31 - O suicídio dc Vargas c a carta-tcstamcnto
1. 1. 1. 1. 1. A oposição civil e militar desconfiava que, a qualquer momento, Vargas
poderia se utilizar do seu prestígio junto aos trabalhadores para promover
um golpe semelhante ao que instaurou o Estado Novo em 1937.
2. 2. 2. 2. 2. Apesar da crise, Vargas era um político popular. O seu suicídio abalou a
opinião pública. A carta-testamento o coloca como vítima de uma conspiração
que envolvia grupos nacionais e internacionais. Ele era o herói que se
sacrificou pelo seu povo. Além disso, as inúmeras leis sociais colocadas em
vigor em seus governos fortaleceram muito sua imagem de “pai dos pobres”.
AuIa 32 - O nacionaI-dcscnvoIvimcntismo
1. 1. 1. 1. 1. Juscelino Kubitschek contou com apoio maciço no Congresso Nacional. Para
isso, tratou de garantir pastas em seu ministério para os partidos que o
elegeram − o PSD e o PTB. JK procurou também não desagradar aos
militares. Garantiu melhores equipamentos e aumentos salariais às Forças
Armadas.
2. 2. 2. 2. 2. Muita coisa mudou no Brasil nos anos JK. Para começar, pode-se dizer que
ocorreu uma mudança no clima político do país. Após o drama da morte de
Vargas, a sociedade brasileira viveu anos de otimismo e esperança. Houve,
também, uma importante alteração na relação do governo federal com as
instituições políticas e com os meios de comunicação. JK conseguiu dialogar
com as instituições e garantir plena liberdade de expressão. Finalmente,
ocorreu uma importante mudança no perfil da nossa economia. O país
ingressou em uma nova fase industrial e passou a contar com uma economia
mais moderna e diversificada.
AuIa 33 - Socicdadc c cuItura nos anos dourados
1. 1. 1. 1. 1. Um estilo de vida baseado na moderna sociedade norte-americana. O rádio,
as revistas e a televisão divulgavam a imagem de um homem e de uma
mulher ativos, com uma vida marcada pelo conforto e pela praticidade. Vive-
se a era dos eletrodomésticos e do automóvel. Tecnologia e progresso andam
de mãos dadas. O jovem é apresentado como alguém de personalidade, livre
de compromissos e rebelde.
2. 2. 2. 2. 2. Resgate e valorização da cultura popular. Estabelecer relações entre a cultura
popular brasileira e movimentos culturais de outras partes do mundo,
particularmente da Europa e dos EUA.
AuIa 34 - Os anos radicais: o govcrno }ânio Quadros
1. 1. 1. 1. 1. Foi uma nova orientação na política externa brasileira. Representou o
abandono da política de alinhamento com o governo norte-americano.
Teve por objetivo inserir o país de uma outra maneira no panorama
internacional. Para isso, o governo procurou aproximar-se de países de
diferentes ideologias. Foram reatadas as relações com a URSS.
2. 2. 2. 2. 2. Entre outras, podem ser citadas: a falta de apoio dos grandes partidos no
Congresso Nacional; o crescente isolamento político que o presidente
passou a sofrer muito em função das crescentes críticas que setores
conservadores desencadearam à política externa independente política externa independente política externa independente política externa independente política externa independente e, também,
à sua orientação política interna personalista e autoritária.
AuIa 3S - Os anos radicais: o govcrno }oão GouIart
1. 1. 1. 1. 1. O governo João Goulart tinha por objetivo imediato debelar a inflação e
retomar o crescimento econômico. Em uma perspectiva de longo prazo, o
governo acreditava que o país somente resolveria seus principais problemas
econômicos se fossem adotadas mudanças de caráter estrutural: as reformas
de base. Se estas fossem implementadas, o país ampliaria o seu mercado
interno, o que favoreceria a expansão industrial.
2. 2. 2. 2. 2. O governo de João Goulart, no final de 1963 e nos primeios meses de 1964,
encontrava-se em meio a um intenso bombardeio político. De um lado, forças
políticas nacionalistas e de esquerda, com apoio nos sindicatos e no movimento
estudantil, exigiam a imediata aprovação e aplicação das reformas de base.
Essas medidas vinham sendo sistematicamente barradas no Congresso, de
maioria conservadora. De outro lado, grupos políticos conservadores, com
apoio de setores empresariais, de profissionais liberais e de militares,
afastavam-se cada vez mais do governo, que consideravam fraco e incapaz
de solucionar a crise política e econômica. O resultado de tudo isso foi a
radicalização política por parte do governo − o que contribuiu para a sua
queda, em março de 1964.
AuIa 36 - O rcgimc miIitar - t
1. 1. 1. 1. 1. Para os militares, o país vivia um momento de guerra revolucionária. As
instituições democráticas haviam, até aquele momento, se mostrado incapazes
de derrotar a “subversão”. Apenas um governo forte seria capaz de vencer
a crescente ameaça comunista.
2. 2. 2. 2. 2. Alguns exemplos de resposta: “Sob a égide do AI-5”; “ Ditadura militar”;
“Repressão e luta armada”.
AuIa 37 - O rcgimc miIitar - tt
1. 1. 1. 1. 1. O governo do presidente Geisel promoveu uma “lenta e segura” abertura
política. Medidas de caráter liberal, como maior liberdade de expressão,
foram acompanhadas de medidas de caráter repressivo, como o fechamento
do Congresso e a cassação de parlamentares da oposição. Mesmo
promovendo uma lenta distensão política, o governo enfrentou sérios
problemas com a “linha dura”. A estratégia do governo foi afastá-la dos
principais centros de decisão. A eleição do general Figueiredo,
comprometido com a liberalização política, garantiu a continuidade da
abertura. O presidente Geisel extinguiu o AI-5.
2. 2. 2. 2. 2. O governo Figueiredo foi marcado pelas idas e vindas do “projeto de
abertura política”. Os presos políticos foram libertados e anistiados.
Assegurou-se maior liberdade partidária. Criou-se um clima favorável ao
retorno da democracia. Foram promovidas, depois de 17 anos, eleições
diretas para os governos dos Estados. Mas os anos do governo Figueiredo
também foram de tensão política. Terroristas de direita promoveram
atentados com o intuito de impedir a continuidade da abertura. O governo
manteve impunes esses atentados. No final do seu mandato, o governo
procurou, mais uma vez, controlar a sucessão. Para isso, tratou de impedir
a vitória da emenda que transformava as eleições presidenciais em eleições
diretas. A derrota da campanha das “Diretas Já” abriu caminho para a
constituição de uma frente política liderada pela candidatura de Tancredo
Neves, que permitiu, pela primeira vez, a vitória de um candidato de
oposição no Colégio Eleitoral.
AuIa 38 - Da rcvoIução poIítica à rcvoIução dos costumcs
1. 1. 1. 1. 1. A União Nacional dos Estudantes defendia o engajamento dos jovens no
processo de transformações políticas que o país estava vivendo naquele
começo da década de 1960. A UNE defendia a existência de uma cultura
engajada, voltada para as massas populares.
2. 2. 2. 2. 2. Foi um movimento cultural da segunda metade dos anos 60 que defendia
uma nova estética, livre dos compromissos políticos da arte engajada.
Os tropicalistas acreditavam que as mudanças no país deveriam passar
pela revolução dos costumes e do comportamento.
AuIa 39 - Ufanismo c rcprcssão, indústria cuIturaI c contracuItura
1. 1. 1. 1. 1. Nos primeiros anos da década de 1970 a economia brasileira cresceu
rapidamente. Era o tempo do “milagre econômico”. Naquele momento,
ganhou força a produção cultural voltada para as grandes massas produção cultural voltada para as grandes massas produção cultural voltada para as grandes massas produção cultural voltada para as grandes massas produção cultural voltada para as grandes massas.
O grande veículo de comunicação era a televisão. A TV em cores colocava
no ar as maravilhas do mundo moderno. A indústria fonográfica, muitas
vezes acompanhando a televisão, também teve uma enorme expansão. Já
a indústria cinematográfica, mesmo contando com o apoio do governo
federal, por meio da Embrafilme, encontrou dificuldades para se firmar
como veículo de comunicação de massa.
2. 2. 2. 2. 2. A contracultura foi um movimento cultural de combate à cultura oficial.
Opunha-se à sociedade de consumo e à indústria cultural. Defendia a arte
marginal, a liberdade individual e a radicalização política.
AuIa 40 - A rcdcmocratização
1. 1. 1. 1. 1. Um regime constitucional é aquele em que os cidadão vivem sob a proteção
de uma lei fundamental que estabelece os princípios e regras básicas de uma
determinada sociedade. Em um regime ditatorial, o respeito aos direitos
individuais e coletivos fica a critério dos detentores do poder.
2. 2. 2. 2. 2. A promulgação da Constituição, em 1988, representou o término de uma
longa transição política, iniciada no começo do governo Geisel, em 1974.
O país passava agora a contar com instrumentos legais democráticos,
fundamentais para o enfrentamento dos nossos graves problemas sociais.
A Constituição de 1988 valorizou a participação política. Ampliou o direto
de voto, garantindo esse direito para o analfabeto e para os jovens maiores
de 16 anos. Permitiu ampla liberdade partidária. Ampliou a autonomia dos
Estados e municípios. Fortaleceu o poder Legislativo. Não foi por acaso,
portanto, que o presidente da Constituinte − o deputado Ulisses Guimarães
− a denominou Constituição cidadã.