You are on page 1of 7

MOÇÃO DE ESTRATÉGIA SECTORIAL

ALTERAÇÃO À LEI DO ABORTO

CONCELHIA DE LISBOA DA JUVENTUDE POPULAR

Francisco Rodrigues dos Santos Frederico Sapage Pereira Carmo Pinheiro-Torres Madalena Pinheiro-Torres

CONSIDERANDOS GERAIS

A discussão sobre o aborto é um debate que tem atravessado a sociedade portuguesa com uma invulgar constância, com uma louvável mobilização cívica e um vigor de participação política, sem paralelo com outros temas de natureza idêntica ou diferente. Não é por isso um dossier encerrado como tantos outros ao longo dos quase 40 anos que leva a democracia portuguesa. Ainda hoje existe na sociedade portuguesa uma reivindicação de revogação da lei de 2007 que introduziu o aborto a pedido da mãe até às dez semanas de gestação. E um movimento social e cívico, com intervenção política e na solidariedade social, amplamente implantado no nosso país que sustenta essa reivindicação, capaz de uma mobilização numericamente significativa seja nas petições que protagoniza seja nas manifestações de rua que promove. É conhecida a posição do nosso partido a esse respeito seja através dos seus dirigentes ao longo dos tempos seja concretamente pelas votações que realizou na Assembleia da República em 1997, 1998 e 2007, só para referir a questão do aborto a pedido. É pois natural que um dia este tema regresse em pleno ao debate público e o nosso partido seja chamado de novo a reiterar ou redefinir a sua posição de fundo sobre a lei de 2007.

NÃO É NO ENTANTO DISSO QUE CURA ESTA NOSSA MOÇÃO porque se está neste momento arredada a discussão sobre a lei de 2007, não o está o que fazer com a lei que temos, fazer um balanço sobre a sua aplicação, verificar a adequação da sua regulamentação e sobretudo curar dos seus efeitos mais negativos QUE HOJE EM DIA OS PRÓPRIOS PROTAGONISTAS DO SIM RECONHECEM E POR ISSO PEDEM MEDIDAS ADEQUADAS PARA OS IMPEDIR. Coincidem estes nossos oponentes de então com a Concelhia de Lisboa da Juventude Popular que considera que os actuais moldes da Interrupção Voluntária da Gravidez encontram-se descontextualizados dos objectivos defendidos por aqueles que no referendo de 2007 propuseram o SIM como resposta á pergunta então colocada. Como esses nossos oponentes de então verificamos (no nosso caso, sem surpresa…) que em Portugal aconteceu uma banalização do aborto. Como eles não a desejamos.

Também neste diagnóstico de que a lei e a sua regulamentação ou não estão a ser aplicadas ou tem conduzido na sua actual formulação a resultados indesejados pelos próprios dos seus proponentes, coincidem quer a Inspecção-Geral das Actividades em Saúde (IGAS), no seu relatório da “Inspecção aos Estabelecimentos de Saúde Oficiais onde se realiza a Interrupção da Gravidez por Opção da mulher (IVG)”, quer a própria Assembleia da República, através da Comissão de Saúde, no relatório suscitado pela Petição “Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar!”

É de salientar que em Portugal foram realizados até ao fim de 2012, 101.456 abortos (de acordo com os números provisórios da Direcção Geral de Saúde, publicados em Abril de 2013) com 19 mil abortos por ano na média entre 2010-2012, pelo que no fim de 2013 se atingirão provavelmente os 120 mil abortos em consequência da lei. Note-se que os números acima se referem apenas àqueles realizados a pedido da mãe até às dez semanas e que representam 97% do número total de abortos em Portugal. Os restantes 3% correspondem àquelas hipóteses da lei de 1984, ou seja: perigo para a vida física ou psíquica da mãe, malformação do feto e violação Acresce que um quarto destes abortos são reincidentes, ou seja, são praticados pela mesma mulher mais que uma vez, inclusivamente no próprio ano.

Isto é, conforme o reconhecem muitos os protagonistas de maior relevo do SIM o aborto tornou-se um método contraceptivo existindo na sociedade portuguesa (homens e mulheres) uma mentalidade irresponsável no que respeita ao planeamento familiar (recorde-se a talhe de foice que a pílula do dia seguinte, permitida em Portugal desde há uma boa dezena de anos e surpreendentemente de venda livre, tem vendas na ordem das centenas de milhar por ano, o que constitui também já um grave problema de saúde pública, que não é no entanto objecto desta Moção).

RECORDAR OS OBJECTIVOS DO SIM:

No referendo de 2007 o Sim ganhou com 59,25%. A abstenção foi de 56,43%. Ou seja, apenas 25% dos eleitores de então sufragaram aquela resposta. No entanto seguindo a tradição política portuguesa (provando-se assim como o costume é d efacto uma fonte da lei) respeitou-se aquele resultado e a Assembleia da República aprovou a lei que se encontrava em apreciação, introduzindo-se na legislação a possibilidade da realização do aborto a pedido da mãe até ás dez semanas de gestação do feto, sem qualquer outro limite ou necessidade de razão justificativa.

Assim, quando se pretende fazer um balanço da lei importa conhecer quais os objectivos dos seus proponentes para poder verificar se da aplicação prática da legislação resultou ou não serem atingidos as finalidades pretendidas. Ora essas finalidades foram conhecidas aquando da discussão prévia ao referendo: a) Fim da penalização da mulher (e também do homem e do profissional de saúde que realizasse o aborto) b) Fim do aborto clandestino c) Não utilização do aborto como método contraceptivo Ou seja, que o Aborto fosse “Raro, Legal, e Seguro” numa fórmula uma vez proclamada pelo Presidente Clinton nos Estados Unidos e depois retomada em Portugal por muitos dos mais importantes protagonistas do SIM entre os quais a actual Ministra da Justiça do Governo sustentado pela Coligação que o nosso partido integra. Infelizmente e fora de todas outras considerações que se possam fazer sobre a razoabilidade, justiça ou equidade, da respectiva prática, estes objectivos não foram atingidos.

SITUAÇÃO ACTUAL DO ABORTO EM PORTUGAL

Em média e entre 2010 e 2012 realizaram-se 19 mil abortos por ano. Isto é, a taxa de incidência do aborto a pedido, está em média dos últimos três anos a 20% dos nascimentos, ou, em outros termos, em Portugal por cada quatro nascimentos há um aborto a pedido da mãe…

Além disso persiste o aborto clandestino conforme comprovado seja pela Inspecção Geral das Actividades de Saúde seja pela Comissão Parlamentar de Saúde, ou mais basicamente pelas notícias que vão saindo em jornais insuspeitos de simpatia pelo NÂO.

Por fim como consta dos relatórios da Direcção Geral de Saúde continuam a chegar aos hospitais públicos centenas de mulheres com complicações sequentes á realização de abortos clandestinos ou legais e até a morte de uma mulher na sequência da realização de aborto legal medicamentoso num hospital público em 2010.

Constata-se pois que ao contrário do que era pretendido pelo SIM, o aborto em Portugal Não é Raro, não é Legal e não é Seguro!

Sendo isso reconhecido por protagonistas do Sim e não estando em discussão neste momento a própria lei manda a prudência, a coerência políticas bem como as preocupações com a saúde pública que se reveja a regulamentação da lei do aborto a partir da ponderação das declarações já muitas vezes referidas, dos resultados da lei e das experiências estrangeiras, em especial em países da União Europeia.

PROPOSTAS DE ALTERAÇÃO DA REGULAMENTAÇÃO DA LEI DO ABORTO

A Concelhia de Lisboa da Juventude Popular propõe com a presente moção, o seguinte:

1. Se ponha termo ao aborto universalmente gratuito, financiado e subsidiado pelo Estado. Este não pode chamar a si a obrigação de oferecer gratuitamente a prática de todo e qualquer aborto (eliminar o art. 3º n.º1 da Lei 16/2007). O Estado deve assegurar a verificação dos requisitos à sua prática, designadamente através da introdução de taxas moderadoras, agravada no aborto recorrente. (Ver anexo B)

2. No processo de aconselhamento e acompanhamento de uma grávida que solicita aborto até às 10 semanas, possa participar qualquer médico, mesmo que objector de consciência (art. 6 n.º2 da Lei 16/2007 de 17 de Abril).

3. Seja a consulta prévia de aconselhamento, efectiva, obrigatório o requisito indispensável ao acesso à IVG. A qual deve ser pluridisciplinar, onde possa ser apoiada a grávida e prestadas informações alternativas (art.6º n.º1 da Portaria 741-A).

4. Sejam disponibilizadas no sitio da Internet da DGS a par das informações sobre IVG, alternativas fornecidas por instituições reconhecidas que apoiem grávidas e crianças em risco (art. 22º da Portaria 741-A).

5. Eliminar o aborto em clínicas privadas custeadas pelo SNS.

6. Implementar a audição obrigatória do batimento cardíaco nas ecografias, incorrendo a paciente no dever de assinar uma declaração mediante a qual confirme, com consciência, a intenção de interromper voluntariamente a gravidez. (art. 142º nº7 da Lei 16/2007 de 17 de Abril).

7. Fim do subsídio e licença de parentalidadesubstituída pelo normal regime das baixas por saúde na medida em que esta for necessária e com a mesma percentagem de subsidiação*. * A mulher que aborta legalmente goza em Portugal de uma licença de parentalidade de 14 a 30 dias e o salário é-lhe pago a 100%...! 8. Fim do pagamento de custos de transporte, Hotel, motorista e técnico social de acompanhamento (Portaria 66/2010 de 30 Junho Governo Regional dos Açores) sendo este regime substituído pelo equivalente aplicável a qualquer grávida daquela ilha que necessite de assistência médica no continente 9. Como sucedeu já com o actual Governo em que a Comissão Nacional de Protecção às Crianças em Risco, passou a emitir os seus relatórios com periodicidade trimestral em vez da anterior, anual, assim propomos que o relatório da Direcção Geral de Saúde sobre o aborto legal , passe de anual a trimestral para existir uma análise mais concreta e realista e uma actuação célere sobre os problemas relacionados com a “IVG”.

PROPOSTAS EM TERMOS POLITICOS

Depois de aprovada esta moção, pretendemos que este tema seja discutido pela Comissão Politica Nacional da Juventude Popular e que esta apresente as propostas supra mencionadas ao Grupo Parlamentar do CDS-PP. Este é um assunto que não pode continuar camuflado por outros interesses, sejam políticos ou económicos, estando em causa vidas humanas e a própria regeneração populacional em Portugal. Se não existirem alterações concretas à Lei de 16/2007 estaremos a hipotecar o futuro das próximas gerações. Não se trata pois de um problema de coragem mas de lucidez. Na Juventude Popular não esperamos nem mais nem menos do que isso. E por essa revisão séria da regulamentação nos bateremos!