You are on page 1of 5

Tempo de quebrar grilhões

Moção Sectorial ao XX Congresso Nacional da Juventude Popular

1º Subscritor
Rafael Pinto Borges

Mudar para não morrer
Escreveu Charles de Gaulle, general e estadista francês, que a democracia confunde-se exactamente, para mim, com a soberania nacional. A democracia é o governo do povo pelo povo; a soberania nacional é a possibilidade de o povo exercer essa soberania sem entrave. De Gaulle estava certo: a soberania tem tanto de característica inalienável como de atributo essencial das nações livres. Sem ela, soçobra o Estado de Direito e solidifica-se o direito do protectorado. Para Portugal, essa transformação tem sido particularmente violenta. A um sentimento de morte nacional, os responsáveis políticos replicaram com uma resignação tão afrontosa quanto irreflectida. Terminada a era imperial do país, os portugueses e a sua classe política capitularam perante a ideia de que era inevitável um momento de abaixamento colectivo. E isso traduziu-se em decisões tão imprudentes como perigosas. Em Portugal e na Europa, optou-se pelo caminho da centralização de poderes. Comercializou-se a independência. Mercantilizou-se a soberania. Vendeu-se a liberdade. Essas opções, sem dúvida imponderadas, tiveram consequências pesadas sobre Portugal. Para Lisboa, significaram a exposição a uma lógica de subsidiação que distorceu o tecido produtivo, motivou o aparecimento de graves bolhas especulativas e, no caso da Política Agrícola Comum, aumentou em centenas de euros a factura alimentar dos cidadãos. Os resultados, contudo, não se ficaram por aí: implicaram ainda um sério afastamento entre eleitos e eleitores, a submissão a um leviatã regulatório e à adopção de políticas comunitárias cujas virtudes não poderiam ser mais questionáveis. A Europa custeou com semelhante severidade o voluntarismo dos seus líderes. Se a Comunidade Económica Europeia de que Portugal se fez membro em 1986 era um clube de futuro, a actual União Europeia aparenta ser um grupo do passado. Os efeitos do fascínio comunitário pela regulamentação medem-se em números concretos: quando Portugal aderiu à CEE, em 1986, a organização representava 34% do PIB global. Em 2013, esse número havia colapsado para 23%. Em 2020, as economias europeias verão a sua relevância ainda mais diminuída: a riqueza produzida na Europa comunitária não será, nesse ano, superior a 15% do total mundial. Não é, naturalmente, ilegítimo sugerir que a emergência de novas potências económicas – a China Popular, o México ou a Índia, por exemplo – contribuiu para essa perda de protagonismo económico. Menos sério, contudo, seria mascarar os falhanços da União com o sucesso obtido por outras áreas do globo. Se não é difícil entender que países como a Indonésia ou o Brasil tenham registado um ritmo de crescimento económico superior ao da Europa, já o é que este lado do Atlântico apresente dados tão mais desapontantes que

os dos Estados Unidos. Em matérias como o desemprego (Estados Unidos: 7.2%; União Europeia: 12.2%), a taxa de pobreza (Estados Unidos: 14.8%; União Europeia: 17%) ou a recuperação pós-2008 (em 2012, a economia norteamericana cresceu 2.2%; a europeia sofreu uma recessão de 0.3%), a UE parece bastante frágil que os seus concorrentes mais directos. O mau desempenho do velho continente não brota do acaso. Resulta, pelo contrário, das escolhas erradas e políticas insensatas das últimas décadas. A opção comunitária pela centralização de poderes, por uma regulamentação sem limites e pela integração política a todo o custo são um fardo para a Europa, para Portugal e para os portugueses. Afirmá-lo não revela eurocepticismo: demonstra eurorrealismo. E, se é verdade que as falhas do projecto europeu não podem levar-nos a desistir dele, também o é que, para ser salvaguardado, ele terá de ser reformado.

Pôr Portugal e a JP no centro do debate europeu
É uma constatação que não requer particular radicalismo: o futuro do projecto europeu é incompatível com a apologia do facilitismo. Mais que jurar-lhe fidelidade, é necessário relançá-lo; mais que louvar-lhe as virtudes, importa corrigir-lhe os defeitos. Isso, contudo, não se alcança reiterando os erros cometidos: se a principal deficiência da Europa é a centralização de poderes, a opacidade democrática e a obsessão regulatória, o sonho europeu só poderá ser vindicado quando a União compreender que tem de mudar de rumo. Nunca foram tantos a entender que corrigir não é destruir e reformar não é desmantelar. Até agora, ser-se pró-europeu era pouco mais que afirmar sê-lo. O europeísmo raramente constituía mais que um beija-mão ideológico. Vão longe, felizmente, esses tempos: por todo o continente, cresce a percepção de que Bruxelas não é à prova de erro. E esse é um fenómeno que extravasa limites doutrinários ou fronteiras partidárias. Na Holanda, é um governo ligado ao Partido Popular Europeu a pedir que se lhe seja devolvido poder de decisão; no Reino Unido, o centro-direita lidera o campo dos que, querendo proteger o projecto europeu, não sentem necessidade de perpetuar-lhe os abusos. A Juventude Popular deve estar atenta a esses desenvolvimentos. Por um lado, deve recusar o sectarismo dos que divinizam tudo o que parte de Bruxelas, estendendo aos temas europeus o cepticismo que mantém em relação ao poder do Estado; por outro, deve adaptar-se ao novo momento político que a Europa vive, libertando-se das amarras da lisonja inconsequente. Aos que referem as virtudes de uma Europa monolítica, a Juventude Popular deve replicar com a sua crença na importância da concorrência. Aos que sugerem que a Europa deve fechar-se ao mundo para proteger os seus produtores, a JP deve reiterar a sua confiança no comércio livre e na liberdade

económica. Aos que se deixam mesmerizar pelas vantagens de um centro político europeu forte, a JP deve retorquir com a sua preferência por um poder descentralizado, localizado e próximo dos cidadãos. Essa argumentação ganha ainda mais sentido quando nos deparamos com situações em que há uma colisão clara entre o interesse nacional e o desígnio integracionista. E isso não sucede, infelizmente, com raridade. A PAC, por exemplo, aumenta em centenas de euros a factura alimentar dos portugueses. A regulamentação económica imposta pela União tem um impacto negativo de, diz-nos a Comissão Europeia, 700 (setecentos) mil milhões de euros anuais. Quatro vezes, portanto, aquilo que a própria Comissão estima ser a riqueza gerada com a principal conquista do projecto europeu: o mercado único. A Política Comum de Pescas, ou PCP, é-nos igualmente desvantajosa: devido a ela, são burocratas franceses e alemães quem gere os recursos marítimos de Portugal. Que uma nação de tradição atlântica tenha permitido algo do género é, por si, algo de extraordinário. Que tenha transferido o controlo sobre os seus recursos marítimos para a União Europeia enquanto negociava com a ONU a expansão da sua plataforma continental, então, é escandaloso. Trocar uma Europa de liberdade, diversidade e concorrência entre Estados por um monólito europeu constituiu mais que uma enorme traição ao espírito ocidental: foi uma catástrofe para a própria Europa. A PCP, a PAC, o excesso de regulamentação e o primado da burocracia não asfixiam apenas Portugal. São um fardo para quinhentos milhões de europeus. Mas, se é verdade que o projecto perdeu rumo, actualidade e perspectiva, também o é que o seu objectivo fundacional, o bem-estar dos povos do continente, mantém a pertinência de sempre. É tempo de devolver a construção europeia a esse propósito. É aí, na protecção do radical de liberdade em que se ancora o ideal europeu, que a Juventude Popular pode ser determinante. A JP deve juntar-se aos que crêem numa Europa integrada, mas não arregimentada. Deve associar-se aos que, no centro-direita europeu, defendem um rumo novo para o processo de integração. Deve colaborar com os que, fora de Portugal, desejam uma União menos política e mais económica, menos regulatória e mais transparente, menos proteccionista e mais aberta. Assim, a Juventude Popular deverá:  Opor-se frontalmente aos abusos de uma regulamentação comunitária que rouba competitividade às nações europeias e fere os interesses de consumidores e empresas; Recomendar ao Governo que renegoceie, aproveitando a janela de oportunidade criada pelo Reino Unido, os termos da relação entre Portugal e Bruxelas; Sugerir ao Executivo que atribua, nessas negociações, prioridade à recuperação do controlo sobre a totalidade dos recursos marinhos

presentes na nossa Zona Económica Exclusiva. Igual importância deverá ser dada à reassunção, por Lisboa, da capacidade de gerir uma política externa independente, assim como do direito de assinar tratados de comércio livre com outros Estados e organizações internacionais; Cooperar com outros partidos políticos cuja visão europeia se aproxime daquela por que pugnamos: por um lado, os britânicos do Partido Conservador e os checos do ODS; por outro, os holandeses do Partido Popular para a Liberdade e a Democracia, os suecos do Moderaterna e os dinamarqueses do Venstre, já nossos parceiros no Partido Popular Europeu.

São quatro propostas. Sozinhas, não dotarão os portugueses da relação que estes merecem ter com as instituições comunitárias. Mas garantirão à Juventude Popular a oportunidade de assumir um lugar central na concretização desse intento. Servirão para reiterar aquele que, historicamente, sempre foi o papel da JP: o de edificar soluções e evitar a comodidade, quer do atavismo resignado, quer da crítica infecunda. Mais: porão a JP na vanguarda dos que, em Portugal, conciliam a crença na União com a vontade de extirpá-la das falhas de que padece; posicionar-nos-á junto dos que, para salvaguardar o essencial, estão dispostos a sacrificar o acessório. Isso, para recordar a Europa dos princípios que constituem a génese da sua prosperidade passada: a autonomia em lugar da burocracia, a liberdade em vez da arbitrariedade, o brio da renovação como alternativa aos grilhões do laxismo. Isso, para restituir propósito às instituições, credibilidade ao projecto e futuro aos europeus. Isso, para devolver a União ao trilho com que sonharam os seus pais-fundadores: o de uma Europa de mercados, nações e indivíduos livres.