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WLADIMIR POMAR

A Dialética da História

Volume 1 Sinfonia Desencontrada

1a edição São Paulo, 2011

Copyright© Wladimir Ventura Torres Pomar

Coordenação editorial Valter Pomar Diagramação Sandra Luiz Alves

Índice

Apresentação ....................................................... 5 A síndrome dos dinossauros .............................. 12 Origem e desvios ............................................... 30 História e mudança ........................................... 45 Justificando a viagem ........................................ 63 Sobre o autor ..................................................... 82

transformações. progressivamente.Apresentação O presente texto é o primeiro de uma série. A dialética se tornou. ter afirmado não ser marxista. Deixou de ser tida como um instrumento de análise. que ocorrem em todos os aspectos da natureza. mas como estudo do processo de mudanças. desprovido de sentido. nunca venhamos a conhecê-los totalmente. foi posteriormente retomado por Hegel e revirado de cabeça para cima por Marx e Engels. surgido na antiguidade clássica grega e chinesa. Este método. tanto por marxistas. quanto por anti-marxistas. E passou a ser considerada. Cerca de 150 anos depois. assim. a dialética foi relegada a um plano secundário. ou um simples artifício descritivo. praticamente desconhecida dos ativistas sociais e políticos. Em síntese. ao ponto de Marx. como ideologia. modificações. cujo título geral será A Dialética da História. mutações. ou simplesmente deixada de lado. Nesta série pretendo discutir a história. embora ainda não conheçamos devidamente todos esses aspectos e. Em tais . em certo momento. criado pelo pensamento humano. não como estudo e relato do processo de mudanças exclusivamente humanas. um sem-número dos adeptos do marxismo preferiu tomar a dialética como uma doutrina. e da maior parte dos cientistas. ou metamorfoses. A partir daí. procuro retomar a discussão sobre a dialética. seja do desenvolvimento social. com a crise do socialismo. talvez. seja dos fenômenos da natureza.

também deva ser dialético. Isto é. providos de métodos de pesquisa pouco condizentes com o processo de evolução e desenvolvimento da realidade social e natural. além das vicissitudes da própria dialética. Busco reafirmar que as leis dialéticas ou gerais decorrem daquele processo natural de mudanças que compõem a história. Em virtude disso tudo. físicas. para quem a dialética tem apenas por incumbência estudar as leis gerais decorrentes da dinâmica e do desenvolvimento da natureza e do pensamento. com leis gerais próprias. com Engels. Isto. mas também das contradições dos homens com a natureza. Ou seja. é necessário reconhecer que muita gente põe em dúvida que a natureza se movimente dialeticamente. Concordo. pretendo retomar o argumento de que a natureza e sua história se movem dialeticamente. biológicas ou sociais.6 Wladimir Pomar condições. pois. justamente no momento em que a história ingressa não só numa fase avançada de desenvolvimento das forças produtivas sociais e das contradições de classe. num contínuo conflito e unidade ou fusão entre seus opostos. Elas são extraídas da história da natureza e da história humana. talvez. justamente no momento histórico em que. que o pensamento deva ser o reflexo do movimento das contradições que aparecem em todas as partes da natureza e que. químicas. E que o pensamento. para refletir aproximadamente a realidade. geradas por todas as formas específicas de movimento. uns e outros têm produzido análises incompletas e pouco consistentes. conduza a formas superiores de existência. mais necessitemos de um instrumento de análise do porte da dialética. Por outro lado. cujo conhecimento é essencial para analisar as diferentes formas através das quais a natureza e os ho- . sejam mecânicas. histórias entrelaçadas e interdependentes.

ou unidade e luta entre os contrários. em virtude disso. Engels acreditava que as leis dialéticas. a reprodução ampliada. mas delas são extraídas. e negação da negação. uma concepção da história. com os avanços das ciências. talvez se deva considerar como suas características fundamentais o movimento. com as experiências do desenvolvimento social e humano. Em seu rascunho sobre a Dialética da Natureza. reduziu ainda mais a realidade a duas características fundamentais: a interdependência e a fluência. ou lei da contradição. e vice-versa. partindo da própria natureza. por seu lado. e vice-versa. e o desenvolvimento desigual das diversas formas de movimento da matéria. as mudanças. ou a interpenetração. ou opostos. interpenetração ou unidade e luta entre os contrários. Hoje. ao mesmo tempo dialética e materialista. evoluiriam e se transformariam. as contradições. exige o conhe- . o problema consiste não em impor à natureza leis dialéticas predeterminadas. Todos os aspectos da realidade.Volume 1: Sinfonia desencontrada 7 mens se movem. Desse modo. mas em descobri-las e desenvolvê-las. conforme estabelecidas por Hegel. e com as controvérsias geradas pelo próprio conceito de dialética. portanto entre as contradições internas e seu meio ambiente. mas seus resultados finais. sem a qual um dos aspectos da contradição começa seu declínio. em todas as suas formas. Eles não se aplicam à natureza e à história humana. fazendo com que cada história particular seja composta de várias histórias aparentemente desencontradas. Os princípios não são o ponto de partida da investigação. ainda de acordo com Engels. Nessas condições. a negação da negação como instrumento de solução das contradições. Bento Caraça. a interdependência entre todos os aspectos da realidade. mutações ou transformações da quantidade em qualidade. poderiam ser reduzidas a três: transformação da quantidade em qualidade.

o mesmo Hawking admitiu que. Einstein também havia dito algo idêntico. o físico Stephen Hawking assevera que no século 21 a ciência se tornou tão técnica que somente um pequeno número de especialistas seria capaz de dominar a matemática necessária para lidar com ela. isto poderia ser dito. De qualquer modo. de cara. ou da física. Mas é evidente que ambos esqueceram de dizer que a dificuldade em compreender a ciência contemporânea não está apenas na tecnicidade da matemática. da linguagem que os cientistas utilizam comumente para tentar explicar suas hipóteses e comprovações. Reforçando essa exigência e complicando o assunto. como eles abriram a brecha para pessoas sem formação científica explicarem a origem e a evolução histórica do universo. Por sorte. biologia ou outras subdivisões em que elas se fragmentaram. os planetas. a humanidade e a sociedade. as galáxias. O que. as partículas.8 Wladimir Pomar cimento das matemáticas e das ciências naturais. naturalmente. me deu vontade de desistir. O que exigiu de mim voltar a estudar as diversas ciências que procuram explicar o universo. Infelizmente está também na tecnicidade. as idéias básicas com relação às origens e ao destino do universo podem ser consideradas sem o uso da matemática. decidi aproveitá-la. mais simplesmente. É evidente que isso me pareceu um desafio idêntico ao que os filósofos naturais enfrentaram há mais de 2500 anos atrás. as estrelas. Como afirmou o físico e matemático Richard Feymann. parecendo uma sinfonia desencontrada. os átomos. de maneira que pessoas sem formação científica possam compreendê-las. a vida. química. muitas vezes rebuscada. afirmando que a luz pode ser refletida pela água e outros materiais que possuam . Aos poucos me convenci que talvez não seja tão difícil decifrar a noção física de que a luz pode ser refletida por um meio com um índice de refração.

dizendo que a direção da luz depende da posição em que alguém está olhando. que começa com o subtítulo Volume 1: Sinfonia Desencontrada. ainda hoje. São esses os pressupostos que orientam esta série. também desde a antiguidade grega e chinesa. Neste primeiro volume. em oposição à idéia da imutabilidade histórica. O mesmo deve ocorrer com o conceito de direção da luz. Origens e Desvios. como história da mudança no tempo. além desta apresentação. mostrando como. e de como o evento da extinção dos dinossauros colocou em xeque o conceito de história como algo exclusivamente humano. de suas características marcantes. E. constam quatro capítulos: Síndrome dos Dinossauros. E que desculpem minha necessidade de enfatizar tal presença. tento fazer um voo de pássaro sobre a origem e a evolução da narrativa histórica desde a antiguidade grega e chinesa. ao mesmo tempo. mais simplesmente. Em História e Mudanças. de uma forma ou de outra. A Síndrome dos Dinossauros trata da contradição do conceito da história como história humana e. os pensadores que introduziram. procuro resgatar. ou mais de uma. ao . diante daquelas concepções que as negam. História e Mudanças. Espero que. Em Origem e Desvios. em Justificando a Viagem. e Justificando a Viagem . permanece como força invejável a crença de que se vive uma eterna repetição e de que as mudanças seriam uma simples aparência. o conceito de mutação. sugerimos que a humanidade alcançou um ponto de desenvolvimento científico e tecnológico de tal ordem que já permite a alguém se embrenhar. os leitores possam perceber naturalmente a presença daquelas leis dialéticas listadas acima. cada um a seu modo. ou de mudança.Volume 1: Sinfonia desencontrada 9 idêntica capacidade de reflexão. na descrição de cada capítulo. que poderia ser explicitado. através de uma.

segundo o qual a verdade emergirá se levarmos em conta que são os fenômenos da natureza que confirmam ou desabonam as teori- . Ou. Brotamento da Vida. Viagem ao Início do Tempo. utilizando-me dos conhecimentos e das diversas teorias que a sociedade humana moderna produziu. em notas de rodapé. cujos subtítulos preliminares. serão Redescobrindo o Mundo. até a origem do universo atual. Na medida do possível. Talvez eu nem sempre tenha sido capaz de adaptar vários termos científicos à linguagem corrente. procurei observar o alerta de Feymann. Surgimento do Homem. em vários outros casos. de volta pelo menos até a civilização humana atual. pelas profundezas mais longínquas do universo e pelo mundo nano ou microscópico das partículas atômicas. penso retomar o debate sobre a dialética e a história através de uma espécie de viagem virtual. o que está dito nos textos será. me abstive de citar. Também por isso. Retardatários e Socialização Humana. como tais textos de destinam a um público amplo e diversificado. Evolução da Vida. Tudo. Depois. apenas. da natureza e da sociedade humana. cada um dos quais com cinco ou seis capítulos. Privatização Humana. tenha escorregado em agressões involuntárias aos preceitos conceituais utilizados pelos cientistas. assumindo de antemão toda a responsabilidade por qualquer deslize involuntário a tais idéias. o que tentei saber do conhecimento acumulado por outros autores nas diversas ciências. Caminhos das Ciências. Serão. em suas relações internas e externas. Com isso. De qualquer modo. Servidão Humana. mais dez volumes. com o objetivo de colocar em evidência o sentido histórico e dialético. Primeiro.10 Wladimir Pomar mesmo tempo. ao todo. as pessoas associadas às idéias descritas. na falta de outros mais criativos.

como cientistas ou ativistas da natureza e da sociedade. mesmo sem o saber. com o que disse Engels mais de um século atrás. Nesse sentido. agir sobre elas. não são os fenômenos da natureza e da sociedade que se adaptam às teorias. Esta talvez seja a lei dialética mais geral a ser observada por todos que pretendam. São as teorias que precisam adaptar-se aos fenômenos naturais e sociais para serem consideradas verdadeiras. Em outras palavras. Setembro de 2011 .Volume 1: Sinfonia desencontrada 11 as. ele concordou plenamente.

o holocausto dessas populações indígenas. Como decorrência.12 Wladimir Pomar A síndrome dos dinossauros Sempre estranhei que alguns historiadores tomassem. além de ignorar ou tomar como irrelevante a história anterior. a descoberta ou ocupação portuguesa do território. Ao escarafunchar textos de diferentes autores. pelo menos desde 11 mil anos atrás (alguns acreditam que eles já estavam aqui há mais de 40 mil anos). algumas vezes chamada de préhistória americana. Nela se desconsidera. em 1500. Além disso. Os povos indígenas que ocupavam esse território. Essa estranheza aumentou ainda mais quando resolvi escrever sobre o desenvolvimento do capitalismo no Brasil. por exemplo. seja diante de seus se- . Eles estariam despreparados para a chegada da civilização. muitos historiadores sequer os incluem como parte do projeto escravista da Coroa portuguesa. nossa história é contada de forma toda fragmentada e com sérias lacunas quanto às relações de seus diferentes aspectos. em geral não são considerados como parte do que ocorreu a partir da chegada dos europeus ao Novo Mundo. seja diante da natureza. por incrível que pareça. aparece como tendo sido resultado de um processo natural de falta de adaptação aos novos tempos. descobri que. durante mais de 300 anos de colonização européia e quase 200 anos de independência. quase totalmente como os homens sobreviviam. como ponto de partida da história brasileira. ou pré-colombiana.

a utilização de uma única palavra – história – tanto para o processo real de mudanças. quanto para sua narração. modo de produção. como os problemas do trabalho. qual seu objeto. são quase inexistentes na narração histórica da sociedade que se formou no processo de colonização portuguesa. e das relações que tais necessidades impõem aos homens? Como decorrência. de onde emergem relações culturais e políticas que parecem não ter raízes sociais e econômicas. Constatei que. da produção. mesmo que não se saiba de onde vieram. relações de produção e classes sociais. forças produtivas.Volume 1: Sinfonia desencontrada 13 melhantes. no caso da língua portuguesa e algumas outras. O que importa mesmo são os revólveres e winchesters. como combatente . nem com a organização da produção. boa parte dos narradores parece concordar com o historiador francês Marc Bloch (1886-1944) que. e como ela evolui. se confunde o processo histórico real com a narração ou a explicação do que se considera tal processo. Além disso. ou concentradas principalmente nas figuras de algumas personalidades. Tudo parece como em alguns filmes. nos quais os homens não se preocupam com o trabalho. A produção da própria sobrevivência e das condições materiais e espirituais da reprodução humana são quase sempre dissolvidas nos aspectos gerais da vida de cada momento. Talvez isso ocorra porque cada historiador tem sua própria versão do que é a história. por mais tiros que dêem. Para que perder tempo com algo aparentemente sem importância. Na melhor das hipóteses. A comida e o vestuário estão sempre à disposição. as análises de categorias históricas como formação econômico-social. maravilhosos. mesmo que a narração não corresponda ao real. o que se tem é um agregado geográfico e populacional. seja um empecilho para uma melhor definição. É provável que. que jorram balas que nunca terminam. muitas vezes.

nada mais nada menos. é uma aberração supor que a natureza tenha história. descenderem de algum outro tipo de vertebrado? Assim. mas esta teria pouca ou quase nenhuma relação com a verdadeira história. dos quais os homens descendem. Por outro lado. Para ele. para muitos. como fica a teoria de que a história se relaciona apenas aos homens? Apesar disso. morreu fuzilado pelos nazistas. Como reduzir a história do tempo e da mudança à história dos homens? Como fica. por um lado. há os que postulam a história como história dos homens no tempo. há os que continuam acreditando na . se formos seguir a longa cadeia evolutiva e de seleção natural dos seres vivos. A natureza e as ciências naturais não seriam objetos da história. a natureza faria parte de uma história natural. história seria tão somente a história dos homens no tempo. a maioria esmagadora dos historiadores parece concordar que os fatos históricos seriam. O próprio Bloch afirmava que a história é a ciência do tempo e da mudança. este será ou não parte da história humana? E se os mamíferos. Mas. diante da história dos homens. Os fatos históricos seriam. Aliás. descendem de algum outro tipo de mamífero. no frigir dos ovos. Isto é.14 Wladimir Pomar anti-fascista. então. a teoria de Darwin e sua conclusão de que os homens descendem de algum tipo de macaco? Os macacos ancestrais fazem ou não parte da história dos homens? E se os macacos. por sua vez. do que fatos humanos. há sempre um mas. essa cadeia faz ou não parte da história? Diante dessas questões. a história humana. Para outros. Comecei. a me perguntar se a história dos homens no tempo seria a mesma coisa que a ciência do tempo e da mudança. Entre eles. culturas e épocas. marcadas por idades. fatos humanos. a história ocorre porque há mudanças de diferentes tipos. durante a segunda guerra mundial. por seu turno. apenas.

sua história sendo uma eterna repetição de fatos e acontecimentos. Para chegar a tal ponto foi . o presente. e que o movimento em torno do Sol não era circular. mostrar que a Terra tinha. as estrelas. parecem amarrados ao período histórico de mais de mil anos atrás. divergências que desbordam também para outros temas. E este começo teria não mais do que 4400 anos. a dificuldade para mostrar que as demais criações. que se caracterizou pela concepção de que a natureza era invariável.Volume 1: Sinfonia desencontrada 15 invariabilidade da sociedade humana. Ainda hoje. porém.c. Para superar questões relativamente mais simples. um movimento rotativo. O Sol. como colocar a Terra e os planetas girando em torno do Sol. não possuíam ainda elementos de prova para demonstrar suas teorias. portanto. ela própria. consenso entre eles quanto à exclusividade histórica dos humanos. a flora e a fauna terrestres existiriam da mesma forma. e que tudo estava em movimento. e o futuro? Desse modo. então. os planetas e demais corpos celestes. foram necessários cerca de 1800 anos após Aristóteles (300 a. assim como a geografia. todos simplesmente desconsideram a natureza. Há. tidas como divinas. Eles. eternas e invariáveis. mas divergências quanto às mudanças no tempo. Imagine-se. aqui compreendida como natureza terrestre e natureza universal. eram criações históricas naturais e sofriam mudanças constantes. mas elíptico. e 1400 anos após Cláudio Ptolomeu (100-170). o passado. desde o começo dos tempos. Os fatos humanos seriam essencialmente fatos culturais? Econômicos? Políticos? Ou o que ocorre é uma multiplicidade de fatos? Qual a relação entre os diferentes fatos humanos? Como encarar o tempo histórico humano.). É verdade que alguns gregos e chineses da antiguidade se aventuraram a dizer que a natureza terrestre sofria mudanças.

alguns dos filósofos naturais. coletassem e classificassem informações e dados durante cerca de dois mil anos. e que a Idade Média parecesse uma Idade de Trevas. fazendo com que o conhecimento humano desse um salto. tratavam do humano em sua relação com a natureza. enquanto os filósofos da antiguidade e. Veremos. apenas as admitiu como resultado de cruzamentos espacialmente restritos. Para ele. o caminho posterior não se viu livre dos obstáculos representados pelas idéias de invariabilidade. e que as ciências se desenvolveram não apenas em quantidade. retomaram o pensamento dos antigos dialéticos gregos e começaram a tratar a natureza como uma criação histórica. os filósofos da atualidade não conseguem mais acompanhar a evolução das ciências da natureza e das próprias ciências sociais. Não lhe passou pela cabeça que elas fossem o resultado de mudanças e desenvolvimento no tempo. Apesar dessa dificuldade. ao admitir que poderiam surgir novas espécies de plantas. especialmente naquelas ciências que. Mesmo Lineu. Além disso. ou filósofos naturais. eternidade e de um universo formado por corpos estáticos. os . mas também em complexidade e em especialização. necessitam isolar e colocar em repouso os corpos ou fenômenos. novas espécies eram somente uma possibilidade espacial. em outros locais.16 Wladimir Pomar necessário que os chamados naturalistas. em 1750. No entanto. como essas idéias ainda hoje reaparecem. especialmente. em grande parte religiosa. Com isso. À medida que as sociedades humanas se tornaram mais complexas. criaram as bases para o surgimento das ciências. da modernidade pós-século 15. para estudar suas propriedades sem as interferências de corpos ou fenômenos externos. ao contrário da química. Mudanças como desenvolvimento histórico natural estavam fora da sua percepção. que permearam a história da humanidade ocidental entre os séculos 15 e 19. imutabilidade.

físicos. arqueólogos. geólogos. à parte dos problemas e das preocupações humanas.Volume 1: Sinfonia desencontrada 17 filósofos passaram a se voltar. paleontólogos e outros naturalistas. para astrônomos. permitiu que esta se tornasse uma das principais responsáveis pelos avanços de diversos ramos técnicos dos meios de vida humana. tido por alguns como o mais famoso pensador do século 20. Deixam isso. químicos. por mais pesado que ele seja. para os aspectos humanos comportamentais. astrofísicos. cada vez mais. supostamente inúteis. a pressão da conexão existente entre as diversas gerações humanas e a subordinação das novas gerações às antigas. tecelagem. medicina. parece natural que a maioria dos historiadores continue evitando debruçar-se sobre a história da natureza. petroquímica e plásticos. biólogos. Sem libertar-se da obrigação de carregar o legado dos mortos. farmácia. na suposição de que ela não acrescenta nada à história humana. A geologia é responsável não só pelo estudo da estrutura da Terra. Para alguns. Sofrem. A química e a geologia já têm uma longa e evidente tradição de participação no metabolismo entre os homens e a natureza. mas também pela descoberta da deriva continental e das jazidas minerais e energéticas. alimentos. como exercícios teóricos. Assim. Aliada à química. No entanto. arqueólogos e paleontólogos não passariam de inúteis caçadores de ossos. como todos os outros homens vivos. . a humanidade se vê cada vez mais obrigada a entender a história de sua ação em conexão com a história natural. De tal modo que Ludwig Wittgeinstein (1889-1951). alguns historiadores tendem a tratar os cientistas da natureza como alienados. chegou a admitir que a única tarefa que sobrou para a filosofia teria sido a análise da linguagem. a exemplo da metalurgia.

Durante milhões ou bilhões de anos.18 Wladimir Pomar Embora a participação da física nem sempre fique claramente definida. das energias elétrica. a cada dia acrescentam novos dados factuais sobre a evolução histórica articulada dos homens e da natureza. telecomunicações. contribuindo para diferentes modificações no ambiente terrestre. as atividades vulcânicas e também dos seres vivos pré-humanos emitiram dióxido de carbono para a atmosfera terrestre. principalmente diante das mudanças climáticas e da poluição. nada tendo a ver com a ação do homem. com a ação e a vontade humanas. solar e das marés. dos aparelhos eletromecânicos. mesmo porque o homem simplesmente ainda não surgira sobre a Terra. informática. embora possam ter mudado sua escala e suas formas. robótica e outras áreas importantes da vida cotidiana. silvicultura e ecologia. atômica. A arqueologia e a paleontologia. eólica. por auxiliares essenciais outros ramos das ciências naturais. dos líquidos e dos gases. Durante centenas de milhões de anos. automação. que afetam cada vez mais a vida humana sobre o globo. tendo por base os estudos geológicos e. muitas pessoas já se aperceberam de seu papel no uso e desenvolvimento da mecânica dos sólidos. de elementos simples para complexos. a transformação dos restos orgânicos em óleo e gás metano processou-se naturalmente. tem participação. tanto à parte. agricultura. cresce o número dos que se dão conta de que é difícil desconsiderar que a natureza não-humana. ou inanimada. da aeronáutica. Esses processos naturais continuam ocorrendo. em seu sentido estrito. pecuária. Assim. quanto paralela e intrincada. e de complexos para simples num processo . a natureza. realiza infinitas mudanças ou transformações de desenvolvimento. Passo a passo. O mesmo ocorre com a biologia e suas ramificações científicas no âmbito da medicina.

sarcasticamente. pode-se deixar a história como exclusividade humana? A história humana já vinha sendo constrangida a incluir em sua grade temporal os hominídeos. como história da natureza? Diante de tantas evidências de uma história natural. da qual os homens fazem parte. Não havia outro meio de explicar suas origens. bem antes do surgimento de algo tão complexo como os antropóides e. tanto para os problemas que os próprios homens infligiram a ela. pode-se desconsiderar o desenvolvimento natural. o fato de que a ação humana passou a incidir fortemente sobre as condições naturais de sua sobrevivência. assim como os primatas que os antecederam. talvez. não é apenas a continuidade das transformações naturais. cada vez mais. os homens. a natureza obriga a história dos homens no tempo a buscar. destruições. quanto para as mudanças que parecem resultar da evolução histórica natural da Terra e do universo. principalmente. Há. O que há de novo na história da natureza. Irônica e. esse processo de mudanças ou transformação da natureza por seus próprios meios. incidindo fortemente sobre a ação dos homens. e entender como os primatas e os hominídeos se relacionaram com a natureza circundante ao longo do tempo. criações etc.Volume 1: Sinfonia desencontrada 19 que inclui dissociações. depois. Em grande parte. as respostas. pelo menos da natureza terrestre. nela e em sua história. meios que aos poucos vão sendo descobertos e conhecidos pelos homens. da natureza terrestre e. mais e mais. às vezes. associações. A própria vida surgiu de um processo de desenvolvimento natural. Nessas condições. A continuidade da evolução humana parece depender. É verdade que existe gente que explica a presença dos homens na Terra pela ação de extraterres- . sem que o homem tenha qualquer poder ou ação sobre elas. da natureza sideral.

passaram a atrair crescente atenção. Porém. um dinossauro gigante. ou por desígnios divinos. Sem que a maior parte das pessoas se apercebesse da contradição presente no fato. Esses répteis. da qual os homens fazem parte? Por mais estranho que pareça. a partir de metade do século 19. Depois. essas noções de história imutável e de história exclusivamente humana. Como fazer? Desprezar como história o tempo e a mudança da natureza. os rastros dos homens primitivos. não foram cientistas e historiadores que colocaram em dúvida. em virtude das progressivas descobertas de seus fósseis. arqueólogos e paleontólogos. na Europa e na América do Norte. sendo popularizados tanto pela imprensa escrita. assim como de animais que viveram há milhões e bilhões de anos. onde a natureza sem os homens era soberana. a cada dia. Primeiro foram encontrados fósseis de Tyrannosaurus rex. isso começou a ocorrer quando os dinossauros viraram moda humana. tanto da terrestre. certamente nos confrontaríamos com o enigma de sua origem no planeta e na galáxia onde se desenvolveram. quanto pelo cinema. há mais de cem anos. O que atiçou ainda mais o interesse por esses animais. nos anos 1920. quanto da universal. ocorreu um novo surto de descobertas na Mongólia.20 Wladimir Pomar tres. Na hipótese da ação de extraterrestres. que dispensaria demonstração. que viveram entre 170 e 65 milhões de anos atrás. para o grande público. durante o dilúvio . recolhidos por geólogos. No caso dos desígnios divinos. estaríamos diante de um axioma. Eles nos obrigam a procurar a origem do homem e de seus ancestrais em algum lugar do tempo passado. que não faziam parte da lista dos pares salvos pela Arca de Noé. mesmo ai. novas indagações para os historiadores da vida humana. recolocam.

Segundo. Nos anos 1980 e 1990 foram descobertos na Argentina. China e África Ocidental. em algumas regiões da Itália. no México. filmes e outras formas de divulgação transformaram os grandes dinossauros numa verdadeira síndrome.Volume 1: Sinfonia desencontrada 21 bíblico que teria coberto a Terra. não por sua evolução histórica natural. Por outro lado. as camadas geológicas de irídio esta- . quanto aos adultos. Os Saurópodes. o irídio é um metal raro. o geólogo Walter Alvarez concluiu que um meteoro. A partir da descoberta da existência de uma camada geológica de irídio. geralmente associado à queda de asteróides na Terra. achados na América do Sul. os dinossauros ocorreram em todos os continentes. rivalizam em tamanho com as grandes baleias da atualidade. apesar de centrar-se na hipótese de que os dinossauros foram extintos. relativamente grande. O mais interessante dessa síndrome é que ela destrona o conceito de que a história seja apenas a história dos homens no tempo. há 65 milhões de anos. teria atingido a Terra. Síndrome hoje alimentada pela hipótese de que. dinossauros ainda maiores dos que os encontrados anteriormente. com a engenharia genética. livros. seja possível reproduzi-los e colocá-los em parques especiais. Em 1930. milhões de anos no passado. Revistas. Primeiro. há 65 milhões de anos. com diâmetro superior a 10 km. Dinamarca e Nova Zelândia. Portanto. capaz de seduzir tanto às crianças. mas em virtude da queda de um meteoro na península de Yucatan. herbívoros de pescoço longo. apareceram os primeiros filmes tendo o Tyrannosaurus como um dos astros principais. na China foram localizados fósseis de pequenos dinossauros carnívoros. As sucessivas descobertas estimularam a crescente divulgação sobre sua existência. Sua dedução teve por base três fatos articulados.

Ela tem a vantagem de jogar a história para um tempo em que o homem ainda não estava presente na face da Terra. a luz solar teria sido impedida de atingir o solo terrestre por muitos anos. Da mesma forma que eventos do mesmo tipo podem ter causado a extinção de outras espécies. terremotos. no caso da hipótese de Alvarez. Sob tais condições. Tão ou mais espantoso. enquanto fragmentos incandescentes teriam caído por todo o mundo. talvez pouco importe que essa hipótese se transforme em certeza absoluta. ou que se seguiram a eles. espantoso não é o fato de haverem ocorrido tais extinções. a queda de um asteróide com aquele diâmetro teria causado uma explosão equivalente a um milhão de toneladas de dinamite. é o fato de metade dos animais e plantas marinhas. glaciações. maremotos. como erupções vulcânicas. Terceiro. tsunamis. e a maioria das plantas ter- . matando todos os animais terrestres grandes demais para se abrigarem. enchentes e mudanças químicas nas águas e no ar. Para o que nos interessa. Ora.22 Wladimir Pomar vam incrustadas em camadas de calcário de 65 milhões de anos. foram responsáveis por extinções de muitas espécies de seres vivos. no México. uma explosão dessa envergadura teria gerado uma nuvem de poeira e gases com capacidade de se espalhar sobre todo o globo através das camadas superiores da atmosfera. Porém. no momento. A localização da área de impacto na costa do Yucatan. É até possível que a extinção dos grandes dinossauros tenha ocorrido com o auxílio desse evento extraterrestre. onde existe uma cratera de meteorito de 200 km de diâmetro. Hoje se sabe que grandes desastres naturais ou cataclismos terrestres. nos milhões de anos que antecederam aos dinossauros. tornou a hipótese de Alvarez uma certeza para muitos cientistas. assim como pandemias causadas por germes.

Assim. Estes períodos guardam não apenas as camadas das diferentes rochas terrenas. Portanto. no século 19. mas ela é uma ciência muito nova. estudar como sobreviveram alguns descendentes diretos dos dinossauros pretensamente extintos pelo meteoro. ocorridos ao longo de mais de 4 bilhões de anos de vida sobre a Terra. onde deve- . sobretudo. é o conhecimento do que permitiu que inúmeras delas sobrevivessem e evoluíssem. a tropeçarem em dentes e ossos de animais gigantescos. cada uma contada por milhões e bilhões de anos. quanto herbívoros. Nessa mesma época. A paleontologia tem dado passos enormes nessas descobertas. Valeria a pena. tão importante quanto o conhecimento do que causou a extinção de espécies inteiras. Nasceu da geologia. As principais encontravam-se entre as eras Terciária (60 milhões a 600 mil anos atrás) e Quaternária (600 mil anos atrás até hoje). quase incomensurável. modificações químicas radicais ou disseminação mortífera de germes. cujo precursor mais evidente parece haver sido o Archaeopterix. exigida pelo depósito das camadas de origem sedimentária. o zoólogo Ernest Haeckel (1834-1919) considerava que os arquivos paleontológicos de então apresentavam lacunas imensas. apesar dos inúmeros desastres naturais.Volume 1: Sinfonia desencontrada 23 restres. haverem sobrevivido a tal impacto e se adaptado ao novo ambiente resultante de vários anos de ausência de luz e calor solar. Em meados dos anos 1800. provenientes de diferentes eras geológicas. a maioria dos geólogos calculava em cem milhões de anos a duração. as espécies vivas tenham continuado seu processo de evolução e seleção natural. como as aves. durante suas escavações. mas também fósseis de vertebrados e outros materiais orgânicos de cada período. o realmente espantoso é que. em grande medida como bifurcação dos estudos que levaram os geólogos. tanto carnívoros.

O ornitorrinco. Isto é. através do cordão umbilical. Os marsupiais. responsáveis pela comunicação entre a mãe e o embrião. Os placentários surgiram no período Cretáceo. gambás e cangambás. . que viveram entre 175 a 140 milhões de anos atrás. O sistema térmico e numerosas características do esqueleto apontam para a possibilidade desses mamíferos descenderem de répteis. dos quais os homens descendem. Suas glândulas mamárias não possuíam mamilos. mas o feto migrava para uma bolsa.24 Wladimir Pomar riam estar os restos fósseis que permitiriam descobrir a série ancestral dos mamíferos. ainda continuam presentes entre nós. que viveram na era do Triássico. por seu turno. que produziam e punham ovos através da cloaca. durante toda a gestação. como os cangurus. encontrado ainda hoje na Austrália. O embrião permanecia nessa bolsa até completar a gestação do animal completo. sustentado por um osso à frente da bacia. onde se encontrava uma teta mamária. Alguns descendentes dos marsupiais do Jurássico. Eram mamíferos cujas fêmeas tinham dois úteros. ou órgãos localizados no útero das fêmeas. como bifurcação evolutiva dos marsupiais. resultaram da evolução dos monotrêmatos ou monotremos. dos mamíferos cujos fetos são envolvidos por placentas. entre 140 milhões a 60 milhões de anos atrás. ou marsúpio. Mas reconhecia que a anatomia comparada e o estudo da origem dos fósseis comprovavam a história da evolução zoológica dos placentários. é um sobrevivente dessa ordem animal. entre 200 milhões a 175 milhões de anos atrás. Tasmânia e Nova Guiné. Ele também se lamentava dos vestígios pouco abundantes dos mamíferos no Mesozóico (200 milhões a 60 milhões de anos atrás). o que obrigava os filhotes a lamberem o leite que escorria nos pelos. Estes mamíferos também possuíam placentas.

Portanto. Nesse sentido. mas também permitiram a muitas outras sobreviver e transformar-se. Uns e outros acreditam que as extinções ocorreram apenas em virtude de cataclismos terrestres ou espaciais. Isto tudo apesar de George Cuvier (1769-1832). houve um constante processo de crescimento físico de algumas espécies. a paleontologia aponta para o fato dos dinossauros haverem surgido e se desenvolvido num período histórico em que os continentes pareciam estar todos agrupados numa única massa territorial. apenas mudaram o dilúvio por um outro objeto vindo do espaço. os documentaristas do meteoro caído no Yucatan. como o Tyranossaurus rex e o Saurópode.Volume 1: Sinfonia desencontrada 25 Em outras palavras. parecidos a ratos. que desenvolvera o importante instrumento da morfologia comparativa e fundara a paleontologia. no mesmo período. acreditar na hipótese bíblica de que os fósseis de dinossauros eram apenas restos de criaturas que haviam perdido o embarque na Arca de Noé. movida ou não pelo charme da síndrome dos dinossauros. De qualquer modo. ela também está chegando à conclusão de que. há cerca de 65 milhões de anos. mesmo antes de Darwin dar à luz sua teoria de seleção natural. Aos poucos. relacionados com a própria evolução e desenvolvimento das espécies. numa época terrestre de grande abundância vegetal e animal. a realidade da evolução já se fazia presente na mente de muitos cientistas do período. com mudanças genéticas que as levaram a transformar-se em espécies cada vez maiores. que levaram muitas à extinção. Essas descobertas também indicam a existência. de dinossauros pequenos. até chegarem aos sáurios enormes. Eles desdenham os problemas internos. e durante um período de dezenas e centenas de milhões de anos. assim como a pre- . não é novidade que a extinção dos dinossauros seja creditada a algum tipo de cataclismo.

presentes nos períodos anteriores. anfíbios e mamíferos. como os dinossauros gigantes. as questões relevantes são: por que e como isso tem ocorrido? Os dinossauros. sem deixar qualquer descendência. por incapacidade de adaptação ao novo ambiente. e a proliferação das próprias espécies. Nesse processo de mutação. Então. para adaptar-se aos novos ambientes. entre 170 e 65 milhões de anos atrás. modificadas de forma insuficiente. incluindo a cooperação e a concorrência entre espécies e dentro de cada espécie. provavelmente como os mamíferos. ou ramificações. que era altamente predatório. Muitas outras desapareceram ao transformar-se em novas espécies. Algumas das descobertas apontam para a existência de animais em transição. certas espécies de seres vivos. E havia ainda. Havia as que estavam totalmente adaptadas ao ambiente de abundância e concorrência. Muitas espécies desapareceram simplesmente pelo processo constante de mutações internas e no meio ambiente. assim como as diferentes espécies animais e vegetais. Em outras palavras. Bem vistas as coisas. Os que se transforma- . desencadeava mutações nos seus organismos. o processo de mudanças no ambiente natural. durante os 100 milhões de anos de vida dos dinossauros. estavam em processo de extinção. como parece ser o caso do Archaeopterix e do Ornitorrinco. Algumas outras.26 Wladimir Pomar sença de espécies de insetos. haviam sido extintas. continuou a ocorrer um processo natural ininterrupto de bifurcações. Hoje há pouca dúvida de que várias das grandes extinções de espécies no passado ocorreram sem a ajuda de qualquer meteoro ou cataclismo terrestre. tiveram uma história evolucionista. com a destruição ou extinção de antigas espécies e surgimento de novas. as que se mantinham em dificuldade de sobrevivência nesse ambiente.

Em certa medida. talvez tenham sido extintos por seu próprio desenvolvimento incontrolado. fortes mudanças climáticas. se transformou num novo ambiente de escassez. e aos marsupiais e ornitorrincos. ramificando-se em mudanças sucessivas de extinções e criações. emergência de desertos. mamíferos e insetos. Elas sobreviveram ao primeiro minuto do ano 64 milhões atrás. conformado aos 65 milhões de anos atrás. sofreram um fim com maior rapidez. O evento externo apenas apressou um desenlace já em curso. ao transformar-se em novas espécies. O homo sapiens surgiu de um longo processo de evolução dos vertebrados e dos primatas. queda de meteoros ou explosões solares. Como essas questões não parecem ter apelo de marketing. ou em novas classes. embora . O problema das espécies de grandes dinossauros talvez tenha consistido em que elas foram incapazes de adaptar-se ao novo ambiente. que deram continuidade à sua classe ou ordem. ao contrário de outras espécies de répteis. Ou mesmo pela ação predatória animal descontrolada. No caso de algum cataclismo.Volume 1: Sinfonia desencontrada 27 ram em grandes (grandes mesmo!). como parece ser o caso dos sáurios que deram surgimento às aves. que lhes permitiu tal crescimento. em combinação ou não com glaciações. a exemplo das catástrofes cósmicas e dos grandes sáurios (apesar destes nem sempre serem simpáticos). erupções vulcânicas. Essas modificações no ambiente terrestre podem ter sido causadas por grandes secas. numa era em que o antigo ambiente terreno de abundância exuberante da vida vegetal e animal. aquelas espécies já em processo de extinção. somos obrigados a conviver com a síndrome dos dinossauros. resultante da queda de um meteoro. continuando seu processo evolutivo. aos crocodilos e jacarés. ela é apenas a síndrome da evolução da própria humanidade.

Que se há de fazer? Na pior das hipóteses. ainda. ou epidemias e pandemias. seja com o auxílio de algum grande cataclismo. conjugação de inúmeros terremotos e maremotos. novas glaciações. enquanto outras continuarão seu processo de bifurcação ou ramificação. pela ação de algum artefato destrutivo criado pelo próprio homem. deixa muitos historiadores e cientistas inconformados. que há muito fazem o imaginário humano perder o sono e ter pesadelos e. Muitas das formas hoje viventes poderão ser extintas. em parte. agora. agora. Ou. deve bifurcar-se. Esses desastres naturais e. que deve prosseguir em sua evolução e desenvolvimento ainda por alguns milhões ou bilhões de anos. Esta datação do processo evolutivo. o fato de que a natureza . inundam televisões e revistas especializadas. apenas amplificam. sendo em parte destruídas e. na melhor das hipóteses. não apenas das espécies vivas. dando lugar a outra espécie. poderão se fazer presentes na existência terrena. mas da natureza em geral. As inúmeras previsões sobre catástrofes terrestres e siderais. embora esta afirmação sofra restrições até de biólogos partidários de Darwin. consciente ou inconscientemente. com a participação ou independentemente da queda de algum meteoro enorme. os homens podem simplesmente liquidar as condições de sua própria existência e extinguir-se.28 Wladimir Pomar não tão longo quanto o dos dinossauros. porque eles têm sido intrínsecos às mudanças que marcaram a história natural desde bilhões de anos atrás. Eles certamente deixarão muitos rastros sobre a Terra. em algum momento do futuro. criando novas formas viventes. extinções continuarão a ocorrer. em alguns ou vários momentos. seja naturalmente. extinguindo-se e. como aconteceu a várias outras espécies. formação de tsunamis gigantes. também artificiais. E. juntamente com a espécie humana. erupção de um super-vulcão. Portanto.

ainda estamos tateando às cegas o interior da crosta da Terra. Em parte. eles podem chegar lá. Isso acontece. porque o tempo de existência do conhecimento humano ainda é infinitésimo em relação ao tempo de existência do próprio homem. também. mesmo sumariamente. da Terra e do universo. Conhecer os argumentos que a consideram imutável. a atmosfera. E. em parte. também. a exemplo das mudanças climáticas. o que a humanidade criou a respeito da história. e estou sendo levado a fazer uma viagem bem mais longa ao passado. Portanto. dialeticamente. na tentativa de entender a história do tempo e da mudança. Mas o avanço das ciências indica que. como contraponto à idéia de que a história seria apenas a história dos homens no tempo. Porém. porque apesar dos avanços científicos e da transformação da ciência. Fui confrontado com esses espécimes gigantes. antes de seguir adiante. algum dia. Os homens ainda não conseguiram medir a regularidade e o período de existência de muitos dos eventos históricos da natureza. o mundo microscópico e a própria sociedade humana. é conveniente repassar. o universo. devo agradecer à síndrome dos dinossauros. das mudanças no campo magnético terrestre e das transformações de vários tipos de átomos e partículas.Volume 1: Sinfonia desencontrada 29 tem história. de instrumento de conhecimento. e com sua história de mais de 100 milhões de anos. De qualquer modo. . os daqueles que. Navegar por suas origens e desvios. comecei querendo estudar bem menos do que 500 anos de história. vêem a história como algo em constante movimento e mutação. em uma das principais forças produtivas humanas.

a istoria significava não só o fato. como base do relato histórico. domínio sobre a natureza. deixou isso de lado e pretendeu extrair da história as lições. ou a pesquisa sobre eles.). É possível encontrar uma certa unidade na antiguidade grega e chinesa. ou dentro desta. Para eles. e explicá-los. independentemente do ângulo utilizado para analisá-las. mas também a investigação.). os acontecimentos em curso.c. Em geral. Hesíodo (século 8 a. Heródoto (484-425 a.c. embora hipotético. Porém. com um mosaico estraçalhado. inevitavelmente. que fossem úteis às gerações presentes e futuras. por sua vez. a teoria histórica se reporta aos gregos antigos.30 Wladimir Pomar Origem e desvios Qualquer sumário que se queira fazer das concepções sobre a história se confrontará. das técnicas agrícolas e dos costumes de sua época. quando a história era a narração dos fatos correntes. assim como creditando tal domínio à Providência Divina ou ao Mandato Celestial. o acontecimento. à medida que a civilização humana avançou em sua espiral ascendente e foi tomando consciência de seu progressivo. em O Trabalho e os Dias. Ele não queria que o tempo apagas- . as correntes sobre a explicação da história multiplicaram-se. ou a verdade. como os primeiros que tentaram investigar os fatos. sem grandes preocupações com possíveis clivagens entre natureza e humanidade. fez um relato circunstanciado das formas de trabalho. pelo menos no lado ocidental do planeta.

Portanto. que se encarnavam na política. avidez. No entanto. Mas. do mesmo modo que tinha esta como assunto exclusivo dos homens. Tucidides não podia ir tão fundo. A honra. Tucídides (471-400 a. Desse modo. desde os primeiros sintomas dos conflitos. mas como um possível apagador das grandes ações humanas do presente vivido. Tucídides chegou a narrar o diálogo forte. com a pretensão de ser testemunha ocular dos acontecimentos e relatá-los. não explicou que tal escravidão estava relacionada à produção da vida material dos homens livres de então. talvez. coisa tão banal como a produção dos meios de vida dos homens não poderia fazer parte dos fatores passíveis de transformar-se em matéria histórica. prudência. um dos primeiros repórteres de guerra da história ocidental. as guerras pareciam apenas decorrência das paixões humanas. Tanto quanto Heródoto. não fazia parte de seu imaginário considerar as formas empregadas para . que se punha a trabalhar. Desse modo. E que garantir essa produção era o interesse real que colocava em movimento os combatentes. ele não tinha o tempo como história. violência. no artesanato e em outras atividades produtores dos bens que. na ocasião. Para Heródoto. as grandes façanhas dos gregos e dos bárbaros cairiam no esquecimento.) sucedeu Heródoto. como disse. heroísmo. seriam os fatores que transformavam os acontecimentos em matéria histórica. ele não considerava o tempo como história. sem narrar a história dos acontecimentos. tinham raízes profundas na agricultura. ambições. entre atenienses e mélios. satisfaziam as necessidades dos homens.Volume 1: Sinfonia desencontrada 31 se os feitos heróicos dos homens. os primeiros pretendendo convencer os segundos a se entregarem sem combate e aceitar a escravidão. Apesar de sua perspicácia. após a crítica das informações colhidas. Ele foi.c. hipocrisia e paixões.

dedicou-se a estudar a transformação dos romanos em senhores do mundo. mas delas deveriam ser excluídos os fenômenos de ordem física ou natural.c..32 Wladimir Pomar a produção dos alimentos. mas obrigado a viver em Roma. ambições e outras peculiaridades humanas. Não eram tidos como seres humanos. como prisioneiro de guerra. mas como bestas falantes. Em sua obra As Histórias.c. como fatos e acontecimentos em curso. desde 168 a. tornando-se um instrumento pragmático de ensino. coisa de escravos. como parte da história. Os romanos. carros e outros utensílios indispensáveis à vida humana. naquela época. No oriente. depois dos gregos. ele introduziu em sua narração uma relação de causa e efeito e de repetição histórica. Xenofonte (430-354 a. mesmo mantendo-se fiel à história dos fatos correntes. os estados de crescimento.).) também se limitou a narrar a campanha do persa Ciro contra os gregos e a retirada destes. haviam sido despojados de honra.c. também falavam em seus anais de fatos e acontecimentos. E.c. porque eram assuntos privativos dos escravos. Políbio tenha se negado a considerar esse processo como algo histórico. embora tenha percebido que os organismos vivos atravessavam. Portanto. inevitavelmente. defendeu a idéia de que a história deveria fornecer os elementos de explicação dos fenômenos observados. armas. Porém. E escravos.). ele desconsiderou a produção dos meios de vida. de origem macedônica. tendo por base documentos literários e his- . maturidade e declínio. Talvez por isso. os historiadores da civilização chinesa seguiam passos idênticos a seus desconhecidos congêneres ocidentais. vestuários. O Duque de Zhou (841-780 a. Vida e morte fariam parte apenas da ordem física ou natural. Políbio (200-120 a. Haveria causas gerais e particulares. do mesmo modo que Heródoto e Tucídides. não poderiam fazer parte da narrativa histórica.

Sun Wu ou Sun Zi (535-? a. as colheitas e a invenção de ferramentas e instrumentos. Em seus Anais de Primavera e Outono. de guerras. E homens eram apenas os seres livres. Apegado à história como história humana. sintetizou os ensinamentos morais e administrativos de conduzir-se e de conduzir o Estado. truques.) viveu durante a dinastia Han do Oeste. mercadores. especializou-se na história dos acontecimentos militares como base para sistematizar aquilo que chamou arte da guerra. batalhas. a partir do conhecimento das causas que os levavam ao sucesso ou ao declínio. em seus Relatos Históricos descreveu as figuras que compunham a sociedade daquele período. ainda hoje. letrados.c. Confúcio ou Kong Qiu (551-479 a. cavaleiros e pessoas do baixo escalão social. boatos e espionagem. nem o que eles produziam. assim como a moralidade política.) seguiu o mesmo caminho. foram analisados e transformados em ensinamentos para as gerações seguintes de reis e estrategistas.c. As experiências históricas. homem. Mas só se .c. Sima Qian (145-90 a. mais do que o grego Tucídides. família e Estado. cobriu a história do Estado de Lu. relatando os acontecimentos políticos e militares do período. Para ele. Incluiu reis. Ensinamentos que. homem e sociedade.).c. as intempéries. embora sem eles a sociedade. combates. o controle do meio ambiente. nobres. positivas e negativas.Volume 1: Sinfonia desencontrada 33 tóricos escritos nos séculos anteriores. destacou as relações entre homem e natureza. burocratas. vividas por ele e por outros comandantes. são estudados nas mais prestigiadas academias militares e de formação de empresários de todo o mundo. a história era como um espelho ou uma lição para os condutores de homens. a família e o Estado sucumbissem. entre 722 e 481 a. Mas. Nessa obra. da categoria homem não faziam parte os escravos. o cultivo do solo. escaramuças.

em virtude de seus distúrbios e rebeliões. como os anais e as epopéias. que à verdade dos fatos. a presença do gênero literário. Para empreender a narrativa histórica.). ambos acabaram por introduzi-los em seus relatos. . particularmente.-17 d. Ele trouxe à luz as inquietações e as desordens de seu tempo. em especial dos germanos.c.c. através da análise das causas e efeitos dos acontecimentos. De qualquer modo. tanto ocidentais quanto orientais. os historiadores da antiguidade. quanto de referenciar-se em documentos escritos. este tipo de história contemporânea surgiu do gênero literário e do gênero de registros factuais. Tanto Tito Lívio. de declínio do Império Romano.34 Wladimir Pomar referiu aos escravos porque as rebeliões e os conflitos gerados por eles rebatiam negativamente sobre aqueles que considerava figuras humanas e suas realizações. E todos eles já discutiam os possíveis enganos a que poderiam ser levados por visões incompletas e versões distorcidas ou mesmo falseadas. Ele também descreveu com vivacidade o modo de vida dos bárbaros. Isto é. Porém. da mesma forma como já haviam incluído os povos dominados por Roma. que deram renome ao grego Homero e davam mais atenção aos mitos e paixões. Hesíodo. não creditavam aos escravos qualquer papel na história. Tinham em conta. que consideravam desvios no curso da história. sobre os quais o império romano havia se imposto. A história seria distinta por estar a serviço da verdade. utilizaram-se tanto do instrumento de ver diretamente os acontecimentos. considerado o maior historiador da antiguidade romana. quanto Tácito. Cornélio Tácito (56-112) concebeu a história como um gênero baseado na arte da expressão. ou ouvir a versão dos que haviam participado deles. Depois dele. Algo idêntico ocorreu com Tito Lívio (59 a.

iniciaram esses gêneros. o mesmo por toda parte. na Grécia. por exemplo. No mesmo rumo vai Lawrence Stone (1980). Algo idêntico ocorreu na Idade Média chinesa. Para esta. Seus historiadores dedicaram-se principalmente a escrever crônicas e compilações sobre as regiões e localidades dos sucessivos Impérios. a serviço da teologia. A explanação histórica tornou-se progressivamente um gênero menor. apesar de toda sua erudição. era ditada pela autoridade política. que estivesse a serviço da Providência Divina. que se estendeu dos anos 220 a. supunha que o tempo era imutável. uniforme e simultâneo. deveria dedicar-se exclusivamente à missão de contar os desígnios de Deus.Volume 1: Sinfonia desencontrada 35 Heródoto e Xenofonte. não fazia nem fez parte de suas preocupações. afirma que a história é um relato dos acontecimentos. portanto. Aristóteles (384-322 a. Embora algumas correntes modernas da história dos fatos correntes admitam que a história teve uma existência temporal no passado. e defende uma história narrativa. A história. A verdade histórica.). tendo o homem como primeiro objeto. por exemplo.c. pesquisando nos documentos anteriores os elementos necessários para o desenvolvimento e a so- . Essa concepção de imutabilidade histórica se acentuou durante a Idade Média européia. mantendo-os da mesma forma para todo o sempre. todo o resto decorrendo disso. como a marxista e a ecológicodemográfica. a Providência Divina criara a Terra e todos as coisas e seres.c. assim como seus congêneres chineses. que se estendeu dos anos 300 aos anos 1450. que se mantêm vivos ainda hoje. que se opõe às investigações históricas que chama de estruturais e cientificistas. religiosa ou secular. outras supõem que a história é apenas uma sucessão de fatos numa existência geral fixa. Paul Veyne (1970). desse modo. A história. aos anos 1900. portanto.

que faziam parte dos interesses de boa parte dos que financiaram e participaram das Cruzadas. que combatiam. Eles sequer se deram conta de que esses interesses influenciaram fortemente a história real. no velho mundo medieval. da fase final da dinastia Song. ao narrar os combates que. que em geral desconheciam. surgiram cronistas. a Igreja cristã viu-se constrangida a preservar de olhos ímpios. não foi tema da história desses cronistas. que traziam à luz. o sempre jovem mundo grego. os documentos descobertos. As pretensões territoriais e a abertura de rotas comerciais para o oriente. quanto dos muçulmanos. a serviço de Deus. reais ou imaginárias. políticas . fazendo com que as Cruzadas contribuíssem para a abertura de novas rotas de comércio e contatos com o oriente médio e extremo. já vivendo num novo tempo de ebulições sociais. da nobreza em decadência. porém. Numa das ironias de que é pródiga a história real. e dos povos orientais. os cronistas medievais ainda procuravam exaltar as façanhas. tanto dos antigos mundos grego e romano. Esta. que exaltavam a honra. já no final da Idade Média. acabou por se tornar a agente da universalização da história. retidão (Yi). a lealdade e o cavalheirismo dos reis e seus cavaleiros. E mais tarde. como Villehardouin e Joinville. cortesia (Li).36 Wladimir Pomar brevivência das dinastias. inteligência (Zhi) e veracidade (Xin). ao dar conhecimento das inquietações e abordagens geniais da filosofia grega sobre o mundo e os homens. acreditava que a chave dessa sobrevivência histórica residia no espírito moral da benevolência (Ren). Sima Guang (1019-1086). eles travavam contra os infiéis. por alguns séculos. E que levassem à descoberta de documentos e realizações. No período do expansionismo europeu das Cruzadas (1096-1270). Mesmo então.

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e militares, e de descobertas e invenções nos sistemas produtivos, procurava manter sua posição social privilegiada, através de versões fantasiosas de seu papel e de seus feitos. E excluía os burgueses e os camponeses das histórias de suas campanhas militares, embora fosse cada vez mais obrigada a levá-los em conta. Afinal, essas classes subalternas eram o grosso de seus exércitos. E, em geral, seus motins tinham os nobres como alvo principal, na prática negando a história que os cronistas destes narravam. Talvez como reação a tudo isso René Descartes (1596-1650) tenha desprezado a história como um dos ramos do saber. Mas essa era uma época em que a suposição de espaços, tempo e história estáticas ou imutáveis, estava profundamente enraizada, mesmo na mente de muitos dos homens que revolucionaram o conhecimento a partir dos anos 1400 e 1500. A começar por Nicolau Copérnico (1473-1543), que desfechou um golpe mortal na visão religiosa da Terra como centro do universo, ao situar o Sol como ponto central de sua teoria planetária. Apesar de haver imprimido rotação e movimentos circulares aos planetas, Copérnico permaneceu fiel à idéia da fixidez do Sol. Johannes Kepler (1571-1630) sofreu horrores diante das crenças religiosas de seu tempo, que também eram as suas. Primeiro, quando concluiu que a teoria de Copérnico concordava com as medições que fizera das órbitas dos planetas e que era a Terra, assim como os demais planetas conhecidos, que giravam em torno do Sol. Bem que tentou argumentar que isso, muito mais do que estava escrito nos livros sagrados, demonstrava toda a sapiência e beleza da obra de Deus. Tão terrível quanto sua comprovação da teoria de Copérnico foi a descoberta de que tal teoria, embora tivesse causado uma revolução no conhecimento do sistema planetário, estava tão errada quanto as

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escrituras religiosas em relação à forma geométrica das órbitas planetárias. Elas não eram formadas por círculos, tidos como a forma geométrica perfeita criada por Deus. Eram elipses que tinham o Sol como fulcro. Kepler tentou, mais uma vez, argumentar que as formas elípticas eram uma criação divina muito mais bela. Mas isto também não convenceu os sacerdotes, nem o livrou de perseguições e de ver sua mãe acusada de bruxaria. Foi preciso esperar outros dois séculos para que a teoria das órbitas elípticas fosse aceita em concordância com a realidade. Nesse meio tempo, Giordano Bruno (1548-1600) foi queimado na fogueira por defender a extensão da teoria de Copérnico a todo o universo. Galileu Galilei (1564-1642), por sua vez, embora tendo boas relações com o próprio Papa, foi excomungado por defender a idéia de que a Terra tinha um movimento de rotação. Isaac Newton (1642-1727) viveu num novo momento histórico e pode partir das premissas de Kepler, Laplace e Galileu, quanto ao sistema planetário e ao movimento dos corpos celestes, para elaborar sua teoria de gravitação. Mas desconsiderou o tempo, tomandoo como uma criação divina absoluta. Voltaire (1694-1778), por sua vez, apesar de haver liquidado a história teológica de Jacques Bossuet (1627-1704), introduzindo a secularização da história e da evolução, e haver ajudado, juntamente com Descartes, a emancipar a história da tutela da teologia, também considerava o homem e a natureza imutáveis. Ou seja, negava a essência de seus próprios argumentos. Apesar da força demonstrada pelas idéias de imutabilidade, imobilidade, estática e eternidade, elas começaram a ter seus alicerces abalados a partir das descobertas marítimas e arqueológicas, da invenção de novos instrumentos de pesquisa e de produção, da recuperação dos textos clássicos gregos e da expansão do comércio. Es-

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sas mudanças, perceptíveis na história contemporânea européia desde meados dos anos 1400, deram surgimento a novas correntes de pensamento, que introduziram dúvidas nas concepções de um tempo eternamente fixo, ao mesmo tempo em que acentuaram a cisão entre literatura e história. Jean Bodin (1530-1596) iniciou o rompimento com a supremacia da teologia na história, introduzindo, além da forma divina, que trataria da ordem e da fé, a forma natural e a forma humana. A forma natural se ocuparia das causas secretas da natureza e se prenderia à ordem das necessidades. A forma humana explicaria as ações do homem vivendo em sociedade. A história humana decorreria principalmente da vontade dos homens, que nunca seria semelhante a si mesma e da qual jamais se poderia entrever o término, já que as ações humanas não cessariam de conduzir permanentemente a erros. Apesar desse pessimismo, Bodin não concordava com a filosofia cristã da história, que acentuava a decadência progressiva da humanidade. Comungando com o otimismo de seu tempo, ele introduziu a influência do clima na evolução das sociedades e citou as modernas descobertas do Novo Mundo, a expansão do comércio e o aparecimento de inventos, a exemplo da bússola, metalurgia e imprensa, como demonstração do progresso humano. Concluiu, daí, que o motor da história seria o instinto de sobrevivência dos homens, que os levaria ao desejo de adquirir riquezas e civilização. Nivelou, assim, interesses materiais e espirituais ao instinto de sobrevivência, teoria que ainda hoje se mantém em vários círculos acadêmicos. Logo depois, Jean Mabillon (1632-1707) se associou às preocupações quanto ao estudo da escrita e dos suportes materiais dos documentos, tomando-os como a verdadeira fonte da história, enquanto

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Wladimir Pomar

Alexandre de La Popelinière (1693-1762) assegurava que a essência da história consistia em conhecer os motivos e verdadeiras ocasiões dos fatos e acontecimentos humanos. Isto deu surgimento à paleografia, isto é, ao exame minucioso dos documentos antigos para verificar sua veracidade ou falsificação, que levou a descobertas desconcertantes. Muitos documentos emitidos por reis, nobres e religiosos não passavam de falsificações. A busca da verdade documental como a primeira regra da pesquisa histórica tomou vulto. Naquele momento, não se podia prever que a história da natureza e a história do homem estavam prestes a mostrar a existência de outros tipos de documentos, além dos escritos, a exemplo das ferramentas fabricadas pelos hominídeos, a partir do paleolítico e do neolítico, e dos restos fósseis. Mas deram uma contribuição importante ao estudo da história ao chamar a atenção para a necessidade de distinguir a verdade da falsificação, ou do erro, no processo de pesquisa. Na China da dinastia Qing (1644-1911), quando esta ainda considerava seu império o centro do mundo, os historiadores dedicaram seus estudos às relações entre os fenômenos astronômicos, as condições geográficas e a vida social e política. Nessa busca, muitos resvalaram para os antigos mitos da comunicação entre o Céu ou Mandato Celestial, e o homem, enquanto outros adotaram a idéia da existência de relações entre o ambiente natural e a vida social. Mas, como no ocidente, a conclusão principal foi que a história da natureza era absolutamente distinta da história da humanidade. Para Wang Fuzhi (1619-1692) o valor da história residia em seus serviços como mestre para a posteridade. Neste sentido, um historiador que relatasse muitos eventos em detalhe, mas negligenciasse os eventos importantes, que poderiam servir como lição às gerações

o filósofo Zhang Xuechang (1738-1801) pensava que os fatos anotados na historiografia não poderiam ser mais do que episódios como as biografias dos soberanos. os estudos e discussões sobre a relação histórica entre natureza e humanidade haviam explodido na Europa. que criaram o mundo civil. Aí estaria a origem da complexidade histórica e das fábulas. em oposição a Descartes. teria surgido e se consolidado sob o dualismo homem-natureza. influência sobre o desenvolvimento das sociedades humanas. levara ao conhecimento da gênese do pensamento bárbaro. a história seria a forma pela qual os homens conheceriam a si mesmos. o pragmático e o genético. necessariamente. A história da natureza possuiria suas próprias leis de desenvolvimento. segundo a ordem e a medida de tudo aquilo que era matéria e movimento. os fenômenos astronômicos ou geográficos não teriam. .Volume 1: Sinfonia desencontrada 41 seguintes. Isto. como já se viu. Enquanto isso. Desse modo. Descartes negava à história lugar nos ramos do saber. para Vico. E. Por outro lado. A essa altura dos séculos 17 e 18. Já para Giambaptista Vico (1668-1744). por sua vez. diferentemente da representação da natureza. O mundo ocidental. a relação entre natureza e humanidade se diluía na necessidade de extrair noções morais da história de cada geração humana. peculiar aos primeiros homens. Gottfried Leibnitz (1646-1716) considerava a história no contexto do processo genético e de continuidade da sociedade humana. no embalo do quase completo autarquismo feudal da dinastia manchú. que a Física e a Mecânica cartesianas explicavam unicamente sob uma forma plana. seria de valor histórico insignificante. Tal dualismo teria levado a ciência social a transformar-se na filosofia da autoridade e esta. incluindo aí seus deuses e seus mitos. sugerindo haverem três modos de sua exposição: o narrativo.

42 Wladimir Pomar Mas Vico recusou-se a pensar a história profana separada da história sagrada. guiada pelo princípio mecânico. por seu lado. Com isso. Ele via o homem não como a soma de seus atos. Para ele. aceitando a idéia de declínio e queda. contrariamente a Kant. Ela reviveria na própria consciência a atividade passada. a natureza não poderia fazer parte dessa relação. no quadro da Providência. o que constituía a história era o ato de compreender e entender.G. uma humanidade e uma história imutáveis. Ele também concluiu que a história não evoluía como processo linear. substituiu a história pragmática por uma história que seria um drama interior da humanidade. Nessas condições. (1744-1803). o inglês Walter Dilthey (1833-1911) e o italiano Benedetto Croce (1866-1952) tomaram a história como o conhecimento do eterno presente e a história do espírito. concluindo que ela era multidimensional e instrumento de conhecimento da história. Vico também vagou entre o idealismo e o materialismo filosóficos. Na mesma linha de pensamento. a explorar a cultura de seu tempo. mas em espiral. embora cada cultura só pudesse ser compreendida em sua época singular. Assim. Para Dilthey. mas também naquelas que separavam irremediavelmente homem e natureza. elaborou um conceito de história universal segundo o método de uma teoria geral da natureza. e se desenvolvido num processo evolutivo e progressivo. Herder. embora navegando no movimento dialético. Porém. O universo teria surgido do caos de uma nebulosa. então. entre o objeto da história e o historiador haveria uma relação de vida. mas como a dinâmica de seu sentir. . Emanuel Kant (1724-1804). desferiu um golpe não apenas nas idéias de uma natureza. J. queria livrar-se do materialismo vulgar das ciências de seu tempo e afirmou que toda a história era história contemporânea. Croce. Dedicou-se.

ou os fatores constituintes daquilo que se convencionou chamar de cultura. obra do historiador. também vagou entre o idealismo e o materialismo. assim. Em plena primeira metade do século 20. na sua individualidade. A ciência e a cultura histórica existiriam com o propósito de manter e desenvolver a vida ativa e civilizada da sociedade humana. A história seria a história do espírito. A história seria. clara afirmação subjetiva. Ainda de acordo com Croce. . ao afirmar que a natureza e a história seriam dois conceitos opostos. não levou em conta que eles a faziam sob condições naturais e humanas já dadas. enquanto na natureza se considerava um fato. desapareceria. as obras históricas de todos os tempos e de todos os povos teriam nascido dessas exigências e das perplexidades que implicavam. a história estudava o fenômeno cultural na sua particularidade. Alexandre Kojève defendeu o fim da história em virtude do advento da ciência. supostamente com base numa tese de Georg Hegel (1770-1831). sem referência a valores. perpetuando uma vida natural. entre as ciências naturais e as ciências do espírito. e não ao livre arbítrio dos sujeitos contemporâneos. o filósofo moderno que foi pioneiro em apresentar a história como o próprio processo de mudança ou transformação. A imutabilidade retornaria.Volume 1: Sinfonia desencontrada 43 induzido pelas exigências da vida prática. aparentemente sob os auspícios de Hegel. ou um fenômeno. Rickert (1836-1916). na qual o homem estaria de pleno acordo com a natureza. pois. Croce e outros. Ou seja. que se distinguiriam por seus objetos e por seus métodos. O abismo cavado por Dilthey. Croce. Embora reconhecendo que os homens faziam sua própria história. os determinantes da história seriam os valores humanos. um ser. parece ter sido levado ao extremo por H. desse modo. Para Rickert. Com isto. emergindo uma pós-história. a história pararia.

. a história do homem não poderia ser uma espécie de modulação. como as que ocorriam nas mudanças das condições de vida. mas em virtude da consolidação das ciências e tecnologias como motores da vida moderna. permanecer como uma força invejável. assim como da vitória supostamente definitiva do capitalismo sobre o socialismo. Portanto. para Michel Foucault (1926-1984). Nessa mesma linha. ou nas transformações da economia e. ainda hoje. não seria histórico. profundidade do solo. Francis Fukuyama retomou a tese do fim da história. O pensamento se formaria a partir do discurso e não da prática social. O homem. modos de cultura.44 Wladimir Pomar Não muito depois disso. não mais em virtude do advento da ciência. ainda. a crença de que se viveria uma eterna repetição e de que as mudanças seriam uma simples aparência parece. na sucessão das formas e usos da língua. a exemplo de clima. simplesmente. nos anos 1990. Ela apresenta uma vitalidade que a torna um dos principais entraves a uma abordagem mais consistente da história real. Porém. por via de conseqüência. da sociedade e das instituições ou. exploração das riquezas.

Na China.) procurou demonstrar a ideia das mudanças a partir da comprovação de que a água modificava constantemente seus estados físicos. Anaxímenes de Mileto (610-550 a.Volume 1: Sinfonia desencontrada 45 História e mudança É verdade que o pensamento de um mundo imutável e estático ainda apresenta uma vitalidade que não se pode subestimar.).c. por volta de 1200 a.c. esse não é o pensamento único. diversos pensadores introduziram.). o conceito de mutação. Esta surgiu.). .) usava o ar como elemento mutável por excelência. Heráclito (550-480 a.c. No entanto. em parte pelas dúvidas suscitadas com as crises das dinastias Xia (2070-1600 a. E tomou vulto justamente durante a decadência da dinastia Shang (1075-1046 a. água ao condensar-se ainda mais. segundo a qual tudo se manteria em seu estado para todo o sempre.. nem agora. em oposição à idéia da imutabilidade. ilustrava a idéia de que tudo estava em mudança constante ao dizer que nunca se mergulhava na mesma água de um rio. nuvem ao condensar-se.c. antecedeu em cerca de mil anos a teoria das mutações (Yi ou Yi Jing). ou de mudança.c. e pedra ao atingir um grau ainda maior de condensação. Tales de Mileto (624-548 a. cada um a seu modo. Na Grécia. Durante a antiguidade grega e chinesa. ao contrário. as primeiras dinastias da história chinesa. a teoria do Mandato Celestial. o pensamento de que o movimento e as mudanças eram os componentes essenciais do mundo surgiu antes das idéias de um mundo imutável. por sua vez.) e Shang (1600-1046 a. nem nos tempos passados. Tornava-se fogo ao esquentar.c.c.

o Velho (23-79) se aventurou a escrever uma História Naturalis. e diferenciou-se das epopéias. já no império romano.46 Wladimir Pomar Segundo a teoria das mutações. Lao Zi. inclusive históricos. ou Lao Tsé (580500 a. Estipulou que não se deveria afirmar nada falso. A história. desse modo. Para ele. seria movimento e mudança constantes. Com isso. contrapondo ao falso tudo que fosse verdadeiro. a luz da verdade. um furacão nunca duraria uma manhã toda. reunindo os conhecimentos sobre a natureza. preso aos ditames de sua época.). Caio Plínio. e também não chegou a indicar como diferenciar o falso do verdadeiro. Marco Túlio Cícero (10643 a. considerava a história como o testemunho dos séculos. onde os mitos predominavam. no curso do tempo. Porém. distanciou-se dos anais de sua época. a mensageira da antiguidade. Séculos depois. Foi uma exceção no mundo romano. que ficavam restritos aos acontecimentos do momento. ao afirmar que apenas o prazer e a aver- . expressava essa idéia com a afirmação de que nenhum regente de um estado poderia estar para sempre em sua posição e isento de mudanças. a vida da lembrança. em que os escravos e os povos tributários não faziam parte da humanidade. John Locke (1632-1704) voltou a atacar a idéia da imutabilidade do ser humano. Só 1600 anos depois. cujo nome verdadeiro parece ter sido Li Er. a matriz da vida.c.c. colinas se transformariam em vales e vales em colinas. cuja literatura entrara em decadência e se contentava com o picaresco. produzidos até então.). nem uma tempestade um dia todo. as mudanças seriam inerentes aos fatos e fenômenos. evitando qualquer parcialidade e respeitando a cronologia. preocupando-se com as regras que podiam levar à verdade. Cícero ignorou as formas de produção da vida dos homens.

Todo o resto da natureza humana teria sido adquirido pela associação ou hábito no curso da história. supunha que apenas entre os homens existiriam guerras. O Barão de Montesquieu (1689-1775). Dizia que onde mais detinha sua mente era diante das enormes mudanças que fizeram as eras tão diferentes das eras. sendo mutável.Volume 1: Sinfonia desencontrada 47 são seriam inatas. Idealizando o mundo selvagem. escravidão. A idéia de história. por sua vez. quanto de estabilidade. retomou a idéia da história como uma imersão no tempo. assassinatos e suicídios. a Terra tão dessemelhante de si mesma. que estabeleceria correlações e formulações de regras gerais. Dela se extrairiam as diferenças e semelhanças entre os homens e o tempo de seu leitor. a partir da qual se poderia compreender a relação entre as dimensões espacial e temporal. Jean Jacques Rousseau (1712-1789) acreditava que era somente na espécie humana que as necessidades. de tal modo que cada diversidade fosse uniformidade e cada transformação fosse constância. se sabe que também o prazer e a aversão são produtos históricos. através do surgimento e desenvolvimento das neurociências. cujas mudanças conduziriam tanto a estados de desequilíbrio. Hoje. climáticas e geográficas. imanentes aos fatos. A lei histórica seria uma relação necessária entre termos variáveis. A história seria uma reflexão sobre o passado. Ele não ligava sua idéia de mudança àquela idéia de progresso entendido como uma mudança para melhor. os desejos e as faculdades não se reconciliavam. que consideravam imutável a natureza . Tratar-se-ia de um conjunto de variáveis ligadas por um processo de comparação histórica. Porém. submetida a leis dinâmicas e regulares. ao contrário de grande parte dos pensadores de sua época. para Montesquieu. compreendia as questões físicas. Não tinha conhecimento de quão árdua era a vida dos animais não-humanos.

Desse modo. portanto. a Razão podia chegar a ter existência e a experimentar as perdas e a sofrer os danos das ações.48 Wladimir Pomar humana. tendo por base as contradições. através da ação das paixões. Se assistirmos hoje a qualquer programa televisivo sobre os acontecimentos internacionais e nacionais. de novas contradições. Essa astúcia da Razão. o problema residia em que os historiadores pragmáticos. sobretudo. só procuravam saber o que havia ocorrido no passado em virtude do que estava acontecendo no presente. Em reação a tal pragmatismo. poderemos comprovar ao vivo aquilo que Hegel chamava de pragmatismo histórico. E elas conteriam. As contradições seriam o motor da história. não tinham interesse em conhecer o que realmente havia ocorrido. que as paixões agissem em seu lugar. Quanto a Hegel. já nos anos 1800. o pragmatismo histórico. por outro . astuciosamente. Hegel assegurava que a Razão deixava. Essas contradições dariam um caráter singular. Para ele. porque a partir delas teriam se originado os processos históricos. Para ele. Não haveria um caso sequer que fosse completamente igual a outro. a cada um desses momentos históricos. ou diferente. A história ocorrida é sempre um pretexto de justificação do que está acontecendo no momento. criticou. da mesma forma que para os dialéticos da antiguidade grega. a condição de sua superação e de surgimento de um novo momento histórico e. Portanto. Isto é. Rousseau tinha consciência do caráter histórico do ser humano e da maleabilidade de sua natureza no curso do tempo. as contradições estariam presentes e ativas em todos os momentos históricos. a história das leis que regem os acontecimentos. Considerava que a reversão histórica não era possível. Hegel opôs sua história filosófica. que haviam dominado a narração histórica até o século 19. dentro de si próprias.

Juntamente com Niebuhr. Bastava considerar as mudanças ou transformações como constituintes do próprio tempo. Pretendeu narrar a história como na realidade teria sido. sempre. quanto do determinismo de Comte e do evolucionismo de Darwin. representava uma inversão materialista em seu pensamento. Ranke (1795-1885) dissociou o estudo do passado das paixões do presente. quando era ela a enganada. a afirmação de que a história desdobraria seu processo segundo uma sucessão de épocas. dos acasos e das determinações. Apesar disso. levando a Razão a crer que os enganava com a astúcia das paixões. embora tal história se desenvolvesse às suas costas. que a história se desenvolvia às costas dos homens porque eles a faziam. estabelecendo a necessidade da construção histórica basear-se em fontes estritamente contemporâneas. resvalou numa história oca. para retirar o tempo da abstração e colocá-lo na realidade. Hegel tinha razão ao afirmar que não era no tempo que tudo se produziria e passaria. seria a única perspectiva histórica.Volume 1: Sinfonia desencontrada 49 lado. nas condições herdadas das gerações anteriores e das mudanças impostas pela natureza. procurou criar um método que deixasse os historiadores do século 19 indiferentes às soluções e imposições. negação do presente. gerando aniquilamento e criação. tanto da dialética idealista de Hegel. Em contraposição a Hegel. levava os homens a acreditarem que faziam sua própria história. ao procurar livrar-se das contradições. que engendraria tudo e destruiria tudo que criava. . Embora ele considerasse o tempo uma abstração. Desse modo. Isto é. em que o futuro. num processo progressivo. O próprio tempo produziria o futuro. cada uma constituindo uma totalidade e traduzindo uma plenitude do presente vivido. Hegel não se dava conta de que ocorria justamente o contrário. bom ou ruim. do movimento.

e deduzir daí que a história era um jogo das forças da raça. já que o homem provinha de alguma linhagem de vertebrados ou. Comte (1782-1837) reduzira a história à descoberta e coleta dos fatos. como afirmou Darwin. A comprovação de que as espécies evoluíam através de um processo histórico de seleção natural deu uma base científica às teorias evolucionistas e representou um golpe poderoso contra as ideias. J. Desse modo. ponderava que a história era a ciência das sociedades humanas. estabeleceu um forte elo entre a história natural e a história humana. por seu turno. do meio e do momento. Berckhardt (1818-1897) não acre- . de que a natureza era imutável e não tinha história. sem entender a profunda relação entre acaso e determinação na história. H. e formuladas as leis gerais do desenvolvimento humano. O que lhe valeu críticas dos que consideravam tal ideia uma redução da parte que cabia ao indivíduo na história. Quanto ao evolucionismo. cuja conexão resultaria na conformação de leis históricas.50 Wladimir Pomar O positivismo determinista de A. bem antes de Charles Darwin (1809-1892) e Alfred Wallace (1823-1913) fazerem suas descobertas sobre a seleção natural das espécies e introduzirem uma cunha dialética profunda na história biológica. Portanto. ele já estava em curso com Christian Wolf (1679-1754). desde o final do século 18. Por outro lado. Fustel de Coulanges (1830-1889). o positivismo sempre vagou entre a dialética e a metafísica. aventurou-se a tomar por base o desenvolvimento das ciências naturais e da mecânica. na esteira de Comte e na contramão de Herder e Ranke. principalmente religiosas. Taine (1828-1892). Jean Baptiste Lamarck (1744-1829) e outros zoólogos. No estudo de tais fatos seriam estabelecidas as relações de causa e efeito. descendia de algum tipo de macaco antropóide.

a objetivos previamente estabelecidos. entre 1936 e 1938. Considerando a cultura uma de suas forças universais. ele não queria dizer que a história começou com os homens. Reconhecia que os demais animais também tinham uma história. no rumo do progresso. No entanto. a realizavam sem que o soubessem ou quisessem. Centenas de milhares de gerações poderiam nascer e morrer. Marx e Engels frisavam que tais objetivos só obteriam os resultados desejados se observassem as leis da natureza. quanto mais se afastavam dos demais animais.Volume 1: Sinfonia desencontrada 51 ditava na história como ciência. os seres vivos haviam entrado na história. Os homens. supunha a história reversível e procurava nela o típico e o constante. Mas. Karl Marx (1818-1883) e Frederic Engels (1820–1895) diziam conhecer apenas uma ciência. tanto mais faziam sua própria história. Com isto. nesse sentido concordando com o positivismo. em declínio. Engels afirmou que. mas que estes evoluíram ao ponto de conhecerem como a história se processava. com o homem. Haldane achou que essas previsões fúnebres teriam sido desmentidas por Milne e Dirac. Essa história era feita por eles. Mesmo porque. mas na medida em que participavam dela. Os dois teriam . Já Pierre Proudhon (1809-1865) tinha a história como uma determinada série de acontecimentos. pelo contrário. inexoravelmente. cada vez com maior exatidão. Milhões de anos podiam escoar-se. e deveria ser por ele absorvida. Em que. Os resultados desta história poderiam corresponder. a ciência da história. não conseguiria derreter os gelos invasores. a de sua descendência e desenvolvimento gradual até seu estado atual. avançaria a hora em que o calor solar. pouco a pouco. desapareceria o último resquício de vida orgânica e em que a Terra giraria cada vez mais próxima do Sol apagado. tudo quanto era criado acabaria perecendo.

Isto tornaria possível que o processo de aceleramento fosse suficientemente rápido para gerar calor e compensar o esfriamento das estrelas.52 Wladimir Pomar demonstrado que as leis da natureza evoluiam e que as transformações químicas se aceleravam em relação às transformações físicas. ou lógico formal. perdurava no trabalho de grande parte dos cientistas. Maxwel explicitara o movimento da luz sem conhecer os . esse método perdurava por inércia e pela ausência de um outro mais simples. No entanto. ambas se condicionariam mutuamente. Faraday determinara as leis de ação das correntes elétricas sem saber da existência do elétron. pode haver outras que levem ao mesmo fim as estrelas e a vida terrena. assim como das ciências em geral. dividindo-a em história da natureza e história humana. poderia nunca se tornar impossível. porque conseguira responder razoavelmente bem a determinadas questões do movimento terrestre. De um lado estaria o método metafísico ou lógico formal. Marx e Engels achavam possível enfocar a história de dois ângulos. Newton estabelecera as leis da gravidade. desse modo. Embora destruído teoricamente por Kant e Hegel. dos diferentes campos do conhecimento humano. as observações astronômicas posteriores demonstraram que. Eles reconheciam que o método metafísico. Por exemplo. nem seus limites ao ambiente terrestre. Kepler conseguira determinar as órbitas dos planetas sem jamais colocar em dúvida que Deus os tinha colocado lá. Infelizmente para Haldane. estaria no método. A vida. além daquela hipótese fúnebre. A partir das considerações acima. o problema chave no tratamento da história como ciência. Para eles. Enquanto os homens existissem. cujas bases se encontravam em Aristóteles. sem entender o conteúdo das forças envolvidas. não seria possível separálas completamente.

ou creditando a fonte geradora apenas a um ou a outro fator. especulativa e idealista. sem nada saber sobre a força de trabalho. ao atomismo. Nas chamadas ciências sociais. o próprio Aristóteles havia vislumbrado a existência do valor. A questão do método tornou-se. o método lógicodialético de Hegel tornava-se inservível. à física molecular. à sociologia e a outras ciências nas quais as mudanças são uma constante evidente. E as leis da termodinâmica foram definidas sem que seus autores conhecessem o processo interno de movimento dos átomos. Mas os cientistas que. os metafísicos preferem dizer que é impossível conhecer a essência das coisas ou corpos. emaranham-se em problemas e contradições de diferentes ordens. vital para resolver tais problemas e contradições. Mas esse método. surgidos com o desenvolvimento social e o avanço das ciências. apesar disso. Os historiadores relatavam os acontecimentos muitas vezes sem conhecer suas origens remotas e os diferentes interesses envolvidos. à economia política. Ao partir do pensamento puro. numa situação em que seria preciso partir dos fatos reais. Adam Smith (1723-1790) e David Ricardo (1772-1823) concluíram que o trabalho humano era o gerador da riqueza sem saber o mecanismo através do qual essa riqueza era gerada. sem consciência dos métodos filosóficos envolvidos em qualquer pesquisa. Diante dessa contradição. então. O problema da lógica formal seria sua limitação para o conhecimento das leis internas que geram esses fenômenos. à biologia.Volume 1: Sinfonia desencontrada 53 fótons. tinha a vantagem de resolver as contradições da metafísica ao dar sentido histórico a tudo que é exis- . à física das partículas (ou quântica). à paleontologia. tinha o defeito de apresentar-se sob uma forma abstrata. O método dialético de Hegel. tentam aplicar a metafísica a fenômenos relacionados à química. que se opunha à metafísica.

provavelmente estivéssemos mais avançados na compreensão de muitos fenômenos ainda desconhecidos. A lógica dialética do século 19 certamente errou nos milhões de anos. definidos através da metafísica. Ela tinha a capacidade de explicar. antes que os astrônomos e astrofísicos se convencessem que o universo tinha uma história. que o movimento e as mudanças são inerentes a todas as formas da matéria. daqui a vários milhões de anos. se desde o início os homens de ciência houvessem entendido que nada é estático. eram verdadeiros para o momento histórico em que vivemos. E que. Porém. e de verificar se as descobertas das ciências naturais correspondiam às leis de movimento da natureza. mesmo usando apenas o raciocínio abstrato. foi em virtude do sentido histórico do método dialético hegeliano que Marx e Engels avaliaram. De qualquer modo.54 Wladimir Pomar tente e permitir a investigação e o conhecimento das leis internas dos corpos. ou de suas mudanças. e ainda faz parte da realidade. a lógica dialética não se limitava a calcular as órbitas de vários corpos celestes com uma certa precisão. as órbitas e o nascer do Sol não eram os mesmos da atualidade. nem a afirmar que o Sol deve nascer em determinada hora. admitia que as órbitas dos planetas do nosso sistema solar e os horários de nascimento do Sol. que há alguns milhões de anos atrás. Ou seja. chegaria o dia em que o Sol não nascerá e seu sistema planetário deixará de existir. a origem e a natureza desses movimentos. ela também afirmava. e que a contradição é o motor que as gera. Assim. em meio a todo o material lógico existente na época. A lógica dialética. que ele era o único que podia . ao invés dos bilhões. esse descompasso tem feito parte da história do pensamento. Mas acertou na tendência geral. por exemplo. No entanto.

Volume 1: Sinfonia desencontrada 55 ser utilizado. porém. Alheios ao processo gerador do fenômeno ou acontecimento. esses fatores ou relações externos fariam com que a história. com a interferência de fatores ou relações externos. quanto pelo método lógico-dialético. Nutrindo-se de conteúdo real. ela punha em relevo o processo de desenvolvimento. a lógica dialética estabelecia essa prática como forma científica de analisar todo e qualquer fenômeno da natureza. de modo a descobrir seus aspectos internos de desenvolvimento. incluindo a sociedade humana. Ao seguir o procedimento histórico. materialista. No dizer de Marx. Por isso. seus objetos de pesquisa das interferências externas. além de brindar um ponto de partida para o método lógico-dialético. A dialética hegeliana era a única que marchava paralelamente ao desenvolvimento histórico universal. Tal concepção. em toda parte tratando a matéria historicamente. Da mesma forma que muitos cientistas já vinham isolando. submetida à crítica. onde as coisas se desenrolariam a grandes traços. qualquer pesquisa científica poderia ser abordada tanto pelo método histórico. despojando-o de sua roupagem idealista e colocando-o sobre uma base materialista. ele teria apenas restaurado o método dialético de Hegel. A partir dessa conclusão. obscurecendo o processo real de desenvolvimento do fenômeno ou acontecimento pesquisado. se desenvolvesse aos saltos e em ziguezagues. os pesquisadores se defrontariam. empiricamente. em sua forma pura. poderia ser a premissa direta de uma nova concepção histórica. freqüentemente. Marx e Engels não consideravam que isso representasse uma separação irreparável entre o método histórico e o método lógico- . suas conexões internas. Marx considerou que o método lógico-dialético seria o mais adequado para estudar os fenômenos específicos de desenvolvimento da natureza e da humanidade.

a história pode interromper o processo lógico-dialético de desenvolvimento. por acidentes ou por outro motivo qualquer. Este último não passaria do método histórico despojado de sua forma histórica e das contingências perturbadoras que a cercam a cada momento. devesse esperar a história para realizar-se plenamente. Por exemplo.56 Wladimir Pomar dialético. na aplicação do método lógico-dialético dever-se-ia sempre partir da relação primeira e mais simples. Historicamente. quanto em sua interdependência recíproca. um ser humano tem um período de vida que inclui. Portanto. Em outras palavras. a idade adulta. como é o caso dos seres humanos que. a serem analisados tanto separadamente. Completar todas essas fases representa completar todo o seu desenvolvimento lógico-dialético. encurtam ou alongam algumas dessas fases. Um dos problemas de alguns cientistas consiste em sua incapacidade de trabalhar essas duas ordens de desenvolvimento – o lógicodialético e o histórico – de modo articulado. a puberdade. a velhice e a morte. a juventude. Ela também pode causar um desvio nesse processo. que existisse historicamente e de fato. esse ser pode morrer logo após o parto. a prática a comprovaria mais cedo ou mais tarde. se a pesquisa lógico-dialética fosse correta. tal análise conduziria a contradições que reclamariam solução. ou sobrevivem muito além do período médio de vida. a partir do nascimento. apesar dos desvios e sobressaltos impostos por essas contingências externas. em muitas ocasiões. Para Marx. por problemas congênitos. Ao estudar o caráter . a infância. por algum fator externo ou interno. seguindo uma sucessão real de fatos ocorridos real e efetivamente. mesmo que. ou em qualquer das fases intermediárias. Segundo ele. porém. antes de que ele se complete. Tomar tal relação significaria considerar a existência de dois lados ou aspectos.

Além disso. Terceiro. a maior parte dos historiadores não os conhece. não seriam mais do que a expressão relativamente clara de lutas entre classes sociais. embora tendo sido posto sobre uma base materialista. político. religioso e filosófico. Primeiro. cujos aspectos contrapostos deveriam ser analisados na busca de outra solução. fossem aquelas que se realizavam nos terrenos social. muitos dos seguidores de Marx e Engels não entenderam o método de ambos e procuraram transformá-lo em doutri- . porque o próprio Marx.Volume 1: Sinfonia desencontrada 57 da solução encontrada. acharam mais importante dedicar-se à aplicação desse método ao estudo econômico-político das relações internas do capital. Segundo. e em que a cooperação e o conflito ocorriam tendo por base outros interesses. a existência dessas lutas estaria condicionada pelo grau de desenvolvimento de sua situação econômica e pelo caráter do modo de produção e de troca que davam base a tal situação. nega-se a lê-los e. Por sua vez. lograr-se-ia uma nova relação. do que tentar explicar didática e historicamente a evolução do próprio método. ou deterministas. fossem as que ocorriam em qualquer outro terreno das idéias. mesmo assim. permaneceu difícil de ser estudado e compreendido. É lógico que Marx deixou de lado o período histórico da humanidade em que as classes e as sociedades ainda não existiam. o método proposto e adotado por Marx e Engels encontrou reações contrárias de todos os tipos. porque embora existam muitos textos em que tanto Marx quanto Engels apliquem seu método ao estudo de acontecimentos históricos. os repudia como mecanicamente estreitos. porque Hegel. Como decorrência da utilização desse método na história humana. Marx deduziu que todas as lutas históricas das sociedades humanas. Por esse e por outros motivos. assim como Engels. e assim sucessivamente.

Ou seja. Tinham grandes reservas às generalizações. Tratar-se-ia de . Em oposição às contradições do método dialético. o hábito inveterado de conceber-se como história dos indivíduos. tendo em conta a multiplicidade dos fatores reais. filosóficos e históricos de ambos. O que os tem levado a uma interpretação metafísica dos textos econômicos. por exemplo. antropologia e história) fora do domínio das ciências naturais. libertando-se de seus ídolos. Nessas condições. considerava que a história só poderia ser uma ciência com a condição de elevar-se acima do individual. à medida que o marxismo se tornou um instrumento para a transformação social. Rodrigues (1913-1987) se aproximou de Hegel e de Marx. seu método passou a ser encarado como um método ideológico e não científico. em especial da realidade social. por seu turno. e a cronologia. acreditando na necessidade de estudar a história concreta. François Simiand (1873-1935) também pretendia que a história se juntasse à sociologia para tornar-se científica. Emile Durkheim (1858-1917). Weber considerava que a história só seria uma ciência à medida que levasse em conta os procedimentos metodológicos. J.58 Wladimir Pomar na. Max Weber (1864-1920) e Ernest Troeltsh (1865-1923). muitos pensadores deixaram de lado o método lógico-dialético. deixando de lado a preocupação dominante nos fatos políticos e militares.H. o rejeitaram. deixando de ser ela mesma para tornar-se um ramo da sociologia. considerando as ciências históricas (sociologia. da importância dos fatores ideais e da periodização da história universal. os acontecimentos particulares de cada momento. criou a teoria da multiplicidade das conexões causais. seja criticandoo ou simplesmente ignorando-o ou omitindo-o. perdendo-se no estudo das origens. ao afirmar que a história seria a ciência da mudança. Por fim. e a uma avaliação pouco científica da realidade.

sua perda de credibilidade teria sido um grande acontecimento do século 20. Uma. Um problema histórico.Volume 1: Sinfonia desencontrada 59 uma ciência humana. para ele. A vida e a realidade seriam história. subordina este à perspectiva presente. contestava o ideal da natureza imutável do homem e das leis naturais. Com isso. Ao mesmo tempo. A história se colocaria em tudo. naturalista. os interesses singulares dos indivíduos. em constante movimento. seria sempre uma questão levantada pelo presente em relação ao passado. a sociedade e o homem. anti-naturalista. Portanto. Assim. acompanhando o processo temporal no todo e em cada parte. Em oposição a tal estreiteza. do Estado e dos povos. afirmou que o historicismo. não acreditava na existência de leis gerais. Reconhecia. distorcendo a visão histórica. que não temeria verdades incômodas. embora sustentando a existência de leis de . ele expressou a opinião de que o marxismo era mecanicamente estreito. Procuraria captar a natureza. porém. oferecendo condições mais favoráveis para o entendimento desse passado. Mas Adam Schaff (1913-1989). enquanto a outra. na linha do pensamento de Hegel e Marx. como corrente de pensamento. que o historicismo havia se desdobrado em duas vertentes. porque serviria à verdade e não aos acontecimentos políticos do dia. sugeriu que o historiador deveria estar ligado ao ponto de vista contemporâneo. Paul Ricoeur (1913-1986) opinou que a filosofia hegeliana da história teria empanado. expressou o ponto de vista de uma grande corrente de historiadores que procura atacar o marxismo através do descredenciamento de Hegel. com sua totalização. em suas mutações contínuas. A realidade histórica seria uma pintura que dependia da perspectiva que o historiador tivesse. ao invés de considerar o presente como um desenvolvimento do passado. gerando passado e futuro. porém.

opondo a longa duração histórica à antropologia estrutural de Claude Lèvi-Strauss (19082009). como os homens poderiam compreender o presente pelo passado e.60 Wladimir Pomar desenvolvimento histórico. ao invés de uma ciência do passado. Bloch também considerava que. o passado pelo presente? Fernand Braudel (1902-1985) procurou colocar a história como a ciência federativa das ciências humanas. Ou. Supunha que a longa duração subordinaria até mesmo as estruturas imutáveis da antropologia. melhor: os homens. o desenvolvimento histórico teria deixado a dialética de lado e seguido seu próprio rumo. que deveriam procurar a verdade e a justiça na história. Em outras palavras. se o passado não for objeto da ciência. ele pluralizou a di- . discordava da utilização de leis universais para os fenômenos sociais. embora o passado não fosse objeto de ciência. correlativamente. Assim. Talvez nem se tenha dado conta de que. deveríamos ter uma ciência histórica que levasse os homens a compreenderem o presente pelo passado e. sobre a história como ciência do tempo e da mudança. mas não nos processos sociais. Já a visão de Bloch. não se coadunava com a sua própria idéia de que a história é a história dos homens no tempo. Para isso. sendo impossível enxergar nela qualquer regularidade ou determinação. Para ele. sem considerá-las uma contradição. Por isso. correlativamente. Nestas condições. seguindo Dilthey nesse aspecto. Pensava as duas coisas. A historia se produziria totalmente de forma aleatória. ele não poderá fazer parte da ciência histórica. o objeto da história seria. o homem. uma simplesmente descartava a dialética como imprestável. A partir daí. por natureza. o passado pelo presente. a dialética teria acompanhado os hominídeos até constituírem a sociedade. A outra reconhecia a existência da dialética.

sob o impacto da física quântica. Este é um exemplo de onde pode nos levar uma leitura desatenta de Hegel. Seus fios ficariam perdidos durante séculos e se entrelaçariam. convivem sociedades de momentos históricos diferentes). Alain Boyer considera a indeterminação essencial para pensar as várias possibilidades dos agentes da história. considerando que o tempo se decompunha em ritmos heterogêneos. seria nos fatos biológicos. Ou seja. O passado seria contemporâneo do presente. que se encontraria o motor da história humana.Volume 1: Sinfonia desencontrada 61 mensão temporal. que permitiriam a repetição idêntica dos equilíbrios existentes. Com ele. Em conseqüência. num mesmo momento histórico do planeta Terra. Emmanuel Le Roy Ladurie (1929-1973) achou que a história não colocava sua tônica nas acelerações e mutações. . mas sobre os agentes da reprodução. ao fazer isso ele não mais diferenciou passado. que nos dão um ritmo temporal plural (por exemplo. Como a trama histórica seria de natureza dialética. em algum tempo no futuro. identificá-la a um simples nó causal redundaria em desencaminharse. a história não tem uma relação de causa e efeito. No entanto. mais do que na luta de classes. pelo curso atual da história. Embora nossa morte seja previsível. Finalmente. Para Walter Benjamin (1892-1940). saltou da teoria quântica para a teoria histórica. Estes se reproduziriam sem descontinuidade. presente e futuro. presente e futuro e nos conduziu a um tempo estacionário. não se devendo pensar o passado e o presente como uma relação de sucessividade. o chamado princípio de incerteza. embora levando em conta a existência de ritmos diferentes ou desiguais no processo de mudanças. bruscamente. Braudel misturou passado. de Heisenberg. que romperiam a unidade da duração.

nada melhor do que começar por uma viagem ao início dos tempos atuais. Assim. sua relação com a história humana. se aplicam. ao mesmo tempo. não só permanecem contraditórios.62 Wladimir Pomar o princípio da incerteza nos diz que é impossível prever a data certa. nos deparamos com um mosaico desencontrado de escolas díspares. . Decidi. na confusão de suas inumeráveis transformações. comprovar se Engels tinha razão ao afirmar que. na natureza. Questões sobre a história da natureza. como se isso fosse uma descoberta científica fundamental. E. então. repassando o pensamento de uma relação apenas sumária de historiadores que trataram da teoria da história. sobre o espaço e o tempo histórico. sobre o método de estudo histórico e sobre uma série de temas relacionados ao conhecimento da história como ciência. leis essas que governam a aparente contingência dos fatos históricos. Para isso. tentar esclarecer para mim próprio esses assuntos. sobre a imutabilidade e a mudança histórica. as mesmas leis dialéticas do movimento. mas também obscuros em grande parte dos textos históricos.

Volume 1: Sinfonia desencontrada 63 Justificando a viagem Querer aventurar-se numa viagem ao início dos tempos atuais. mesmo de maneira virtual. Tal viagem seria impensável em qualquer outra época da história humana. A maior parte delas é constituída de nações multi-étnicas. já alcançamos tal estágio de desenvolvimento. ao mesmo tempo. a partir de observações continuadas do cosmos e das partículas microscópicas. Hoje. com seu próprio idio- . não é isso que estamos sugerindo. Esta é uma contradição que aponta para desafios de monta. que permite discutir o processo histórico da natureza desde os seus momentos primordiais. Portanto. somos mais de seis bilhões de seres humanos sobre a Terra. parece coisa de ficção científica. No entanto. cada uma das quais com dezenas ou centenas de etnias. como costumam especificar alguns físicos e filósofos das ciências. pelas profundezas mais longínquas do universo e pelo mundo nano ou microscópico das partículas atômicas. À primeira vista. Somente agora a ciência tornou viável a alguém se embrenhar. apesar de uma nova barbárie estar à nossa porta. nossa primeira preocupação será demonstrar que. Estamos apenas afirmando que a humanidade alcançou um ponto de desenvolvimento científico e tecnológico que nos permite conhecer aquela realidade histórica com razoável grau de aproximação. a maioria dessa humanidade está organizada em nações e regiões autônomas ou independentes. Ela reuniu uma massa de conhecimentos empíricos e teóricos.

a maioria dos homens atuais continua tendo que trabalhar. vestuários. os homens continuam tendo que se organizar para realizar tal produção. assim como para distribuir seus resultados entre os diversos membros de cada sociedade. seja entre países e regiões globais. os meios de transformação desses recursos em produtos úteis. Eles precisam produzir alimentos. nos defrontamos com produções minerais. assim como sobre sua organização em sociedades. enquanto outras possuem centenas de milhões. Em vários casos. seja entre regiões dentro de um mesmo país. Apesar da variedade de interpretações sobre a história e a essência humana. assim como do nível técnico que alcançaram os meios de extração desses recursos naturais. agrícolas e industriais e com meios de transporte extremamente desiguais em sua distribuição territorial. tanto biológica. e os meios capazes de distribuir tanto as matérias primas quanto os produtos criados a partir delas.64 Wladimir Pomar ma. uma observação mais atenta nos leva à conclusão de que. A organização econômica depende. Esta produção e distribuição ganhou o nome de economia política ou. quanto as dos demais membros da sociedade. Assim. meios de transporte. energia e outros bens necessários à vida cotidiana. dependem dos meios de produção e das relações que os homens estabelecem com a natureza e entre si. para alguns. moradias. Em outras palavras. por sua vez. dos recursos ou matérias primas que a natureza coloca à disposição dos homens. a exemplo das fabricações e . tanto as suas. da mesma forma que seus ancestrais mais longínquos. algumas destas bastante ricas e prósperas. nos defrontamos com as chamadas altas tecnologias. como a kaiuwa e a ianomami. Em função dessa necessidade. quanto social. como a han e a hindu. Algumas dessas etnias possuem apenas alguns milhares de seres. simplesmente economia.

. em geral. A invenção da agricultura levou a humanidade a estabelecer as relações escravistas. Nos campos. O desenvolvimento dos instrumentos agrícolas. máquinas. manteve o trabalhador agrícola como escravo da terra. introduziu mudanças importantes nas relações dos donos da força de trabalho com os proprietários privados. assim como a terra. um modo de produção no qual uma série de pessoas concentra em suas mãos riquezas monetárias. o desenvolvimento técnico dos meios de produção tem desempenhado papel fundamental para o estabelecimento das relações entre a força de trabalho e os proprietários dos meios de produção. equipamentos. da lavoura manual e do transporte de tração animal. nas quais o dono da força de trabalho. ou valores de troca. O escravo da terra tornou-se proprietário privado de pequenos meios de produção e. ou dinheiro. Isto é. transportes etc) e a força de trabalho necessária para o funcionamento daqueles meios. associada a diversos outros fatores históricos. isto é. mercadorias. Com o dinheiro. Historicamente. matérias primas. era propriedade privada. aqui incluído o próprio homem. ao mesmo tempo. com o auxílio de computadores e robôs. o trabalhador agrícola. tributário do proprietário fundiário. a força de trabalho transforma as matérias primas fornecidas pela natureza em produtos. Meios de produção e força de trabalho constituem pólos de uma relação social normalmente chamada forças produtivas. Em vários outros. essas pessoas compram meios de produção. Na maioria das nações atuais predomina o modo de produção capitalista. Através de tais meios. energia. a exemplo do artesanato. predominam as tecnologias tradicionais. mas não mais como propriedade privada do proprietário fundiário.Volume 1: Sinfonia desencontrada 65 transportes automatizados. para uso na vida humana. distribuição e circulação (prédios.

que se materializa principalmente na compra e na venda. Temos. a utilização desse tipo de trabalhador livre tornou-se cada vez mais intensa. O espaço onde essas relações de compra e venda ocorrem é o famoso mercado. em virtude do desenvolvimento técnico dos meios de produção. que transformam esse dinheiro tanto em ativos ou capital constante (compra de meios de produção). e da expropriação de massas de lavradores. quanto em capital variável (compra de força de trabalho). com a transformação da manufatura em indústria. embora tenha surgido apenas no estágio histórico do escravismo. que podem vender essa sua força. mas proprietários de força de trabalho. historicamente. para colocar em funcionamento os meios de produção pertencentes aos proprietários de capital constante. O capital é. da acumulação de imensas riquezas de metais nobres. uma relação social. temos não-proprietários de capital. como uma mercadoria qualquer. ao transformar as matérias primas em novos produtos.66 Wladimir Pomar Ao lado disso. transformadas em dinheiro. em troca de salário. um trabalhador livre de qualquer propriedade. para se reproduzir seja como força de tra- . assim. de um lado os proprietários de capital dinheiro. que vendia sua força de trabalho em troca de soldo. Mas o segredo do desenvolvimento do modo capitalista de produção reside no fato de que. fez surgir. Neste caso. De outro. que muitos tratam como um ser vivente. ou um conjunto de relações sociais. embrionariamente. com a ampliação do artesanato e o surgimento da manufatura. no processo de cooperação para a produção social a força de trabalho. gera um valor superior ao valor que recebe para se reproduzir. Posteriormente. Temos aí uma relação de opostos em que a cooperação predomina para a realização da produção social. mitologicamente eterno. da relação que o proprietário de dinheiro estabelece com o proprietário da força de trabalho. O capital surge. então.

Esta é a base do conflito estrutural entre os proprietários dos meios de produção e os proprietários da força de trabalho. a luta pela existência. Os proprietários dos meios de produção cooperam entre si. reduzin- . temos aqui uma relação entre opostos em que a disputa. a competição ou o conflito predomina no processo da produção social. para elevar suas taxas de lucratividade. que os economistas celebram como a maior conquista histórica da humanidade. principalmente através da elevação dos salários. ou lucro. na relação com os proprietários de força de trabalho. Neste aspecto. o modo capitalista de produção também se move empurrado por uma constante concorrência ou competição entre os diversos proprietários de meios de produção. ou capital excedente. como dizia Engels. estes os produtores de fato. Esta competição os compele a realizar inovações técnicas e organizacionais. Os primeiros procuram aumentar a mais-valia através de uma série de artifícios. por diferentes meios. quando afirmou que a livre competição. ou rentabilidade. Essa disputa entre os proprietários capitalistas e os proprietários da força de trabalho é um dos principais aspectos da luta de classes no capitalismo. ou mais-valia. seja como ser humano. que o divide para seu usufruto individual e para a substituição ou ampliação dos seus meios de produção. Assim.Volume 1: Sinfonia desencontrada 67 balho. o que incide diretamente sobre a mais-valia. Por outro lado. Darwin não tinha a menor idéia da sátira amarga que escreveu sobre os homens. que elevem a produtividade do trabalho. os principais sendo o rebaixamento dos salários e a extensão das horas de trabalho. mas não o único. Esse valor a mais. é apropriado pelo proprietário dos meios de produção. Os segundos procuram melhorar as suas condições de reprodução. constitui exatamente o estado natural do reino animal.

por seus próprios semelhantes. a elevação da produtividade. (ou proletários como os chamavam os romanos da época do escravismo). Isto também representa uma contradição entre semelhantes. o que inclui tanto os meios de produção quanto a força de trabalho. Isto represente uma contradição entre semelhantes. esse modo capitalista de produzir possui diferentes graus de desenvolvimento de suas forças produtivas. assim como outros fatores de funcionamento do processo produtivo. cooperação e conflito se apresentam como aspectos contraditórios não só da relação entre os proprietários de meios de produção (capitalistas) e os proprietários de força de trabalho. em relação aos concorrentes. Em cada nação ou região do mundo. como seres econômicos e sociais. como capitalistas. em termos de custos e preços. fazendo com que a taxa média de lucro tenda a cair. Os proprietários de força de trabalho também cooperam entre si para forçar a elevação dos salários e das condições de sua reprodução. Ao introduzir reduções nos valores de troca. tendem a criar um excedente de força de trabalho disponível no mercado. Em geral. mas também como aspectos contraditórios de cada um dos pólos da contradição entre capitalistas e proletários. elas estão mais concentradas em algumas zonas urba- . a concorrência incide sobre a lucratividade dos capitalistas. os assalariados. Os que não conseguem vencer na concorrência do mercado são expelidos e aniquilados. difícil de ser resolvida no quadro das relações capitalistas. A força de trabalho não empregada procura resolver sua situação de reprodução ofertando-se por salários mais baixos.68 Wladimir Pomar do o valor de troca unitário de seus produtos e elevando suas vantagens. difícil de ser resolvida porque a concorrência ou competição é vital para a sobrevivência dos proprietários capitalistas no mercado. Desse modo. No entanto.

evidenciando seu desenvolvimento desigual. às vezes em cooperação. como o camponês. é altamente concentrada. em várias nações ou regiões o modo capitalista convive. ditaduras étnicas. monarquias hereditárias. Também convive. sensibilidade etc. Essa situação gera grande multiplicidade de culturas. idiomas. regimes socialistas. Isto é. seja dos antigos para o capitalismo. No Brasil. com as formas econômicas públicas e estatais sob controle do Estado. são muito variados entre as diferentes nações. seja deste para outro. democracias populares. Os sistemas políticos também variam. teatro. com remanescentes de modos de produção historicamente mais antigos. O Brasil também é um exemplo de país onde a propriedade. comportamento. em cooperação e/ou em conflito. Além disso. Em termos gerais. monarquias constitucionais. O mesmo ocorre com a divisão social do trabalho. . As relações sociais. em especial a propriedade territorial. às vezes em conflito. que têm poder de interferir no funcionamento do mercado e da economia como um todo. o feudal. também são mais polarizadas em alguns países e menos em outras. nos sistemas políticos socialistas. culinária. o escravista e o comunitário. artes. não passa de um sistema de transição. que se eleva proporcionalmente à concentração da propriedade capitalista e da força de trabalho. formam um mosaico variado. quanto modernas. e dentro de cada uma delas.Volume 1: Sinfonia desencontrada 69 nas do que em outras. a maior parte da humanidade se encontra em sistemas de transição de um modo de produção para outro. cinema. por exemplo. em especial as que dizem respeito à divisão da propriedade. tanto antigas. literatura. algumas vezes no interior de cada país. teocracias. neste sentido. Democracias liberais. ditaduras militares etc. as principais forças produtivas estão concentradas nas capitais e em algumas grandes cidades da região sudeste. O socialismo.

se a apropriação dos resultados desse desenvolvimento fosse realizada de maneira socialmente equilibrada. Paradoxalmente. como é o caso do capitalismo. é possível verificar aquilo que Engels chamava colossal desproporção entre os objetivos fixados e os resultados obtidos. acima de tudo. . às custas da exploração dos demais países e povos do planeta. os países ricos da Europa e América alcançaram um desenvolvimento material de tal ordem que permitiria à humanidade suprir as necessidades da maior parte de seus membros. Assim. ele estimulou e. Na África. Mesmo nos países economicamente mais desenvolvidos. foi estimulado pelo desenvolvimento científico e tecnológico. cerca de dois bilhões de pessoas vivem ameaçadas de extinção pela fome e pelas doenças. A conseqüência do domínio dos homens sobre as forças naturais. que constitui o fundamento material de todas as suas outras atividades – a produção para as necessidades de sua vida – estaria submetida ao jogo das influências indesejáveis. tem sido. Porém. ao mesmo tempo. verificaremos que os efeitos não previstos predominam sobre os objetivos fixados. de forças não controladas. Ásia e América Latina. em grande parte. Se aplicarmos a tese de que os homens impõem cada vez mais sua própria história à história humana. por um lado. miséria e poluição. com o capitalismo elevando a produtividade a níveis inimagináveis. aquela que o elevou da animalidade à humanidade. Isto porque a principal atividade histórica do homem. As forças não controladas seriam muito mais poderosas do que as postas em movimento pelo plano estabelecido. esse desenvolvimento exponencial da capacidade produtiva proporcionado pelo capitalismo foi realizado.70 Wladimir Pomar As disparidades regionais e de renda também são acentuadas.

Depois. surgiram entre 7 mil e 6 mil anos atrás. A metalurgia de bronze foi praticada pelos chineses desde 4300 anos atrás. da mesma forma que o primeiro calendário solar. Os egípcios criaram os seus hieróglifos cerca de 5500 anos atrás. os homens consumiram uns 2 a 3 mil anos após a revolução agrícola. Para inventar a escrita. feito pelos egípcios. entre 15 mil e 5 mil atrás. de madeira. há mais de um milhão de anos atrás. e as primeiras máquinas que substituíram os músculos humanos na fabricação de fios e tecidos. inventou a agricultura e.7 milhão de anos. chineses e gregos. apresentaram evidências de que esse antropóide já utilizava o fogo. os seus caracteres há 4700 anos. Os primeiros veículos de transporte de pessoas e cargas. o pensamento de escrever e fazer operações com números. e utilizavam um sistema de cálculo geométrico idêntico ao teorema de Pitágoras. pedra e osso. Mas a metalurgia do ferro levou pelo menos outros 1700 anos para ser praticada por hititas. Fósseis do hominídeo yuanmounensis. enquanto os gregos de Creta criavam a primeira civilização do mar Egeu e os fenícios criavam uma escrita alfabética.Volume 1: Sinfonia desencontrada 71 Se olharmos em retrospectiva. os ancestrais dos homens começaram a dominar o fogo e a utilizá-lo para fins úteis à sua sobrevivência. datados de 1. os chineses. babilônios. na Mesopotâmia. o Homo sapiens passou a domesticar animais e plantas. Os agiotas da Babilônia aprenderam a calcular juros. com ela. já que as taxas de cobrança tinham por base a área de terra ocupada. só surgiram há uns 3500 anos. As primeiras ferramentas para lavrar a terra. criou o primeiro código jurídico. embora através de enigmas. A cobrança de impostos reais talvez tenha sido o primeiro impulso para a criação da geometria. . e os hindus há 4300 anos. Há 4100 anos atrás a cidade-estado de Ur.

a bússola. Mas. navios e aviões em série. capazes de produzir substâncias químicas. relógios de água e mecânicos. o motor elétrico. o motor diesel e a explosão. Constituíram assim um complexo sistema muscular e sanguíneo produtivo industrial. os chineses já escreviam em tiras de papel vegetal e fabricavam tecidos de seda. chapas e laminados de aço. Com isso. a pólvora e as armas de fogo.72 Wladimir Pomar Por volta de 500 a. A seguir.c. e o aço. E transformaram as ciências e tecnologias nas principais forças produtivas da humanidade. construir as primeiras embarcações oceânicas. redescobrir os continentes e conhecer outros povos. enquanto os egípcios utilizavam pergaminhos e tecidos de algodão. e corpos microscópicos. que multiplicou por milhares de vezes a capacidade do cérebro e das mãos humanas em produzir bens e equipamentos para sua comodidade. Criaram a indústria. elas passaram a produzir equipamentos e instrumentos capazes de analisar grandes corpos. os humanos mais avançados gastaram mais 2 mil anos para inventar moinhos de água e de vento. com suas máquinas ferramentas e linhas de produção. num espaço de menos de 50 anos. Tendo por base o sistema industrial que seus técnicos e empreendedores haviam criado. esta foi a primeira vez que introduziram o sinal de + (mais) em seus cálculos. . Depois disso. segundo um manuscrito alemão de 1481. tecidos. inventar a máquina a vapor. ampliaram consideravelmente o conhecimento que os homens de ciência tinham da realidade que cerca a vida terrena e o cosmos. as ferrovias. Depois. como partículas e vírus. o fuso e o tear mecânicos. as sociedades humanas avançadas deram um salto ainda maior. levaram apenas mais quinhentos anos para criar manufaturas. a locomotiva e os navios a vapor. como estrelas e galáxias. pavimentar e iluminar ruas. na segunda metade do século 20.

assim como microscópios de alta resolução. Hoje ela avança nos trabalhos com fulerenos. os antibióticos. o saneamento. na forma de chips de silício. que tornaram possível estudar a composição das grandes moléculas.Volume 1: Sinfonia desencontrada 73 No estudo dos corpos microscópicos. o tomógrafo e outros equipamentos avançados para diagnoses e cirurgia por imagens. Em contrapartida. a higiene pessoal e as dietas para a saúde humana. para a obtenção de imagens por ressonância magnética. por exemplo. Os químicos criaram os plásticos. as vacinas. passou a ser realizado. os vidros e as cerâmicas refratárias. como a febre amarela e a dengue. assim como as tecnologias de montagem dos circuitos eletrônicos miniaturizados em chips. que os vírus eram causadores de inúmeras doenças. no qual o fluxo de elétrons é controlado. nanotubos e supercondutores de altas temperaturas. foram dados grandes passos para diagnosticar as doenças dos seres vivos e descobrir meios de curá-los. puderam ser projetadas e fabricadas bobinas de escaneadores. com a invenção dos sistemas eletrônicos e das tecnologias de supercondutores de silício. a insulina. o eletro-encefalograma. Os fisiologistas conseguiram descobrir que bilhões de células dos . Ao mesmo tempo. Os bioquímicos desenvolveram novas técnicas de difração dos raios X. materiais que podem revolucionar ainda mais o processo produtivo. também foram descobertas e produzidas as sulfanilamidas. tudo o que pode ser pensado com coerência e for possível de ser produzido. Descobriu-se. Isso permitiu substituir as antigas válvulas amplificadoras usadas nos rádios e tornou o transistor usado universalmente em televisores e outros aparelhos eletro-eletrônicos. os fatores que permitem uma transfusão de sangue segura. Na química. A descoberta dos semicondutores levou à fabricação do transistor.

O conhecimento profundo de uma substância particular pode ser aprimorado. que constituem o embrião inicial para a especialização e desempenho das células. com o surgimento das primeiras proteínas. precisado e multiplicado pelo conhecimento de substâncias diferentes ou pelo conhecimento do conjunto das substâncias. Os geneticistas demonstraram que os genes eram feitos de DNA. Ao se introduzir corpos novos em séries de corpos incompletamente conhecidos. destas. Planos cada vez mais precisos e extensos permitem racionalizar a composição química. como fizeram os geneticistas que modificaram alguns pares de genes do DNA. substitui-se o conhecimento de corpos particulares pelo conhecimento da série. Apenas cerca de 35 mil. E descobriram a forma de produzir tecidos vivos em cultura. embora suas funções sejam diferentes. Em outras palavras. através de técnicas automatizadas para decifrar as informações codificadas do DNA. em seres vivos. de tal modo que as qualidades dos compostos poderão ser previstas antes de qualquer experiência. abrindo um campo vasto para o conhecimento em profundidade da evolução histórica da vida e introduzindo a informação como um aspecto importante do processo de reprodução das espécies. em especial as células-tronco embrionárias. colocaram os seres humanos como mais um dos resultados do processo histórico de transformação de substâncias inanimadas em substâncias orgânicas e. . Com o Projeto Genoma Humano. mesmo estando fisiologicamente saudáveis. muitos dos quais são compartilhados com insetos e plantas. a mais singular de todas as moléculas celulares. constataram que os seres humanos contam com menos genes do que se supunha.74 Wladimir Pomar organismos vivos morrem e são repostas a cada dia.

tratamento e transmissão de dados. através de equipamentos eletrônicos de coleta. e manter telescópios e satélites artificiais de controle meteorológico e militar ao redor da Terra. enviar sondas astronômicas de pesquisa a outros planetas do sistema solar. Com a invenção do rádio. o homem pode submeter a natureza. Em geral. físicos.Volume 1: Sinfonia desencontrada 75 Astrônomos. do mesmo modo que a química moderna. informação e comunicação. num futuro não muito distante. de instrumentos de pesquisa da realidade. tornou-se cada vez menos ciência dos fatos e mais ciência dos efeitos. ainda sem perceber todas as suas implicações. à criação daquilo que se pode chamar de sistema nervoso do processo produtivo e da comunicação social. astrofísicos. abrindo janelas maiores para observar fenômenos cósmicos de baixa temperatura e determinar a composição química das estrelas a distâncias maiores. sem romper com as leis naturais de desenvolvimento. Os físicos descobriram a fissão e a fusão nucleares como poderosas fontes de energia. televi- . Com a criação da espantosa tecnologia aeroespacial. o espectrógrafo. a humanidade assistiu. Com tudo isso. que permite fazer viagens a longa distância. em curtos espaços de tempo. a óptica adaptável e a interferometria. em instrumentos de modificação da realidade e das forças produtivas. rapidamente. Teoricamente. E pode sonhar com a possibilidade de explorar e habitar outros planetas e satélites do nosso sistema solar. pondo-a a serviço de seus fins determinados e imprimindo-lhe as modificações que julga necessárias. Cada vez mais nos encontramos em condições de conhecer as conseqüências mais remotas de nossas atividades mais comuns de produção. cosmólogos e engenheiros criaram o radiotelescópio. E a ciência física moderna. as ciências estão se transformando. a humanidade pode chegar à Lua.

tornou-se comum realizar em poucos minutos cálculos matemáticos complexos e acompanhar ao vivo os acontecimentos. telefones sem fio e. os homens se tornaram capazes de replicá-las em produtos projetados para uso humano. estão confrontados com os problemas resultantes dos danos causados à natureza. a exemplo da eletrônica. tendo por base novos ramos científicos. quanto pelo atual sistema capitalista. nanotecnologia e química fina. seu entorno ou meio ambiente. os homens ingressaram no século 21 às voltas com inúmeras lacunas no conhecimento sobre si próprios. Mas os modelos computadorizados também mostraram que o próprio processo natural de atividades vulcânicas. robótica. Embora persistam regiões em que esses meios de informação e comunicação ainda não aportaram. mas estritamente econômica e social. associadas às tecnologias. apesar das ciências e tecnologias haverem alcançado esses níveis e demonstrarem uma capacidade de desenvolvimento cada vez maior. a solução deste problema não é mais técnica. inventos e inovações tecnológicos. computadores. tanto pelas antigas formações sociais. de provados instrumentos de pesquisa e conhecimento. as ciências. em cada canto do mundo. se transformaram nas forças produtivas mais poderosas dos seres humanos. Além disso. emite quan- . mais recentemente. da Internet. biotecnologia. Desse modo. e sobre o universo em que se encontram. Simulações em computador mostraram que a queima de combustíveis fósseis tem ligação estreita com a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera e pode causar a elevação da temperatura da camada de ar que envolve a superfície terrestre. e dos seres vivos em geral. No entanto.76 Wladimir Pomar são. descobertas científicas. Conhecendo em profundidade as leis da natureza.

derretendo as camadas de gelo tão repentinamente quanto haviam surgido (repentinamente. Assim. mudando os padrões climáticos do Atlântico Norte. o atual processo de rápidas mudanças nos padrões atmosféricos e nas correntes oceânicas ainda é imprevisível. como ocorreu várias vezes no passado remoto. quanto da Terra. Embora hoje saibamos. podendo significar algumas centenas ou mesmo milhares de anos). Só há pouco tempo começou a ganhar foros de verdade a hipótese de que na natureza nada acontece isoladamente. no caso. ainda não temos um quadro claro sobre os malefícios e/ou benefícios desse fenômeno. A maioria das pessoas tem dificuldade de entender exemplos . Cada um desses períodos parece ter terminado quando erupções vulcânicas lançaram grandes quantidades de dióxido de carbono e outros gases-estufa na atmosfera. em grande medida porque o processo geral de resfriamento. O exame de amostras nas capas de gelo da Groenlândia e da Antártida mostrou que ocorreram mudanças bruscas durante vários períodos glaciais dos últimos milhões de anos.Volume 1: Sinfonia desencontrada 77 tidades consideráveis de dióxido de carbono para a atmosfera. tanto do Sol. Em alguns momentos de sua história. continua. empurrando massas de poros e germes patogênicos do deserto do Saara para o Caribe e influenciando a vegetação marinha caribenha. ou em qualquer outra parte do mundo. O clima global pode ser apenas parcialmente estável. a Terra esteve coberta por camadas de gelo que chegaram aos trópicos. podendo saltar de um estado confiável para outro imprevisível. Segundo alguns. que as mudanças climáticas no Índico liberam grandes ondas de energia. o bater de asas de uma borboleta no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. repercutirá em toda parte. com a ajuda dos satélites artificiais de pesquisa.

empurrada pelos ventos árticos no sentido leste e sudeste. causou prejuízos imensos às companhias aéreas. e deve ter impedido negócios no interior do Laos e da Bolívia. mesmo naquelas regiões aonde não chegou. porque os matemáticos que procuram demonstrar essa interação entre todos os eventos do universo e da Terra (é disso que se trata). tanto os animais inferiores. Engels frisava que a interconexão universal. Embora não tenha sido publicada a dimensão de todas as repercussões da cadeia de acontecimentos. na televisão. agora. tomar como exemplo a explosão do vulcão islandês Eyjafjalla. em abril de 2010. Poderiam. não conseguem dar exemplos práticos. num movimento de interação universal. também. em qualquer das formas que se apresentasse. bem antes das recentes teorias do caos e fractais. e sem os instrumentos matemáticos que só agora são possíveis. apresentando isso como uma novidade. Certamente. e problemas no sistema de transporte aéreo de todo o mundo. Para demonstrar essa noção. afirmou que os fenômenos exercem entre si influências recíprocas. e a nuvem de cinzas que lançou no espaço. com resultados bastante contraditórios. sugerida por Hegel. No rascunho que preparava sobre a Dialética da Natureza. odiar a Islândia por causa da erupção. ela certamente chegou a locais inusitados em todo o planeta. Engels lembrou que. carreando lucros extras para esses setores. E pode ter levado outras pessoas a terem a mesma reação imbecil de um turista que declarou. A nuvem.78 Wladimir Pomar desse tipo. modifica- . Certamente ampliou de forma inesperada a ocupação dos hotéis próximos aos aeroportos e o transporte rodo-ferroviário. com exemplo práticos. causou caos ao transporte aéreo em toda a Europa. Na segunda metade dos anos 1800. era uma lei do movimento da matéria. quanto os homens.

é hoje algo que biólogos e geneticistas têm comprovado cada vez com maior insistência. ao mesmo tempo em que essa modificação repercutia sobre os próprios causadores. O problema reside em que os homens. Os animais inferiores modificam a natureza em menor proporção do que os homens. soja ou outros grãos. mais exercem sobre a natureza uma influência intencional e planejada. modernamente. às vezes com danos irreversíveis. num texto escrito em 1876. à medida que se afastam dos animais inferiores. os homens fazem isso com o propósito de utilizar a terra livre e a madeira. semear trigo. Ao transportar. a cada vitória dessas ações humanas.Volume 1: Sinfonia desencontrada 79 vam a natureza exterior com suas atividades. plantas úteis e animais domésticos. esse filósofo já dizia que não deveríamos nos regozijar com as vitórias humanas sobre a natureza. bem antes de nossos ecologistas acordarem. de um país para outro. que em sua época pareceu uma bizarrice a um grande número de naturalistas. mas não há dúvidas de que as cabras desmataram os bosques da Grécia. os homens modificam a flora e a fauna de continentes inteiros. conscientes de que a colheita será maior. como ocorreu com a vegetação da Ilha de Santa Helena e com a fauna da Nova Zelândia e. que chegavam a se tornar irreconhecíveis. a natureza respondia com uma vingança. Portanto. com a Mata Atlântica e parte do Cerrado do Brasil. plantar árvores frutíferas. e de modo involuntário e acidental. Esse exemplo. ou cultivar videiras e laranjais. a fim de alcançar objetivos previamente projetados. Cada uma dessas vitórias produzia conseqüências que . Ele sugeria que. ao provocar estragos na vegetação. Engels também analisou que as plantas cultivadas e os animas criados em condições artificiais sofriam uma influência tão grande nas mãos do homem. Isto é.

como o aumento das safras agrícolas decorrentes da derrubada de bosques e matas. Sem dar a mínima importância às chuvas torrenciais dos trópicos. que varriam a camada vegetal do solo. Ásia Menor e Alpes italianos. elas também resultavam em conseqüências muito diferentes. e nosso domínio sobre ela consiste na vantagem que levamos sobre os demais seres. pelo menos das mais comuns. pelo plantio da batata. Engels tinha a esperança de que. ele acrescentou os exemplos da destruição dos bosques e florestas na Mesopotâmia.80 Wladimir Pomar podíamos prever. os homens seriam capazes de prever e controlar cada vez mais as remotas conseqüências naturais de suas atividades de produção. como alguém situado fora da natureza. para o plantio de cafeeiros. Grécia. Ele lembrou ainda a propagação da escrofulose. conhecendo as leis de transformação. nosso sangue. Ao contrário. Estamos no meio dela. . e evitar os danos que até então vinham causando. esse plantio causou devastação e deixou como legado apenas rochas desnudas. Para reforçar sua visão ecológica. com nossa carne. não previstas. Em outras palavras. de poder chegar a conhecer suas leis e aplicá-las corretamente. No entanto. Não tinha dúvidas de que a natureza e o homem eram mutáveis. pertencemos à natureza. Porém. os homens poderiam adaptar-se a tais leis naturais e agir positivamente sobre elas. a natureza nos adverte de que não podíamos dominá-la como um conquistador domina um povo estrangeiro. com os progressos das ciências. ao deslizamento das encostas e ao assoreamento dos rios das respectivas regiões. Essa destruição deu origem à desertificação dos solos. e se mostrou indignado com a queima dos bosques das encostas montanhosas cubanas. sofriam transformações. que quase sempre anulavam as vitórias anteriores. nosso cérebro.

. no qual os homens ainda não estavam presentes.Volume 1: Sinfonia desencontrada 81 É na busca dessas leis de transformação que nos propomos a fazer uma viagem ao início do tempo.

a 14 de julho de 1936. Foi engenheiro de serviços da General Eletric. Adquiriu formação técnica e trabalhou como técnico de planejamento e manutenção de máquinas pesadas da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). por ação de resistência ao golpe militar. no setor de locomotivas. Foi colaborador do jornal Movimento. diretor do Correio Agropecuário. Também trabalhou como engenheiro de manutenção da Cerâmica do Cariri. pela perseguição que a polícia do Estado Novo de Vargas movia às atividades do Partido Comunista do Brasil (PCB). além de repórter e diretor editorial de Brasil Extra. Começou a trabalhar aos doze anos. foi preso na Bahia. trabalhou na Arno e participou no movimento sindical metalúrgico. como aprendiz de linotipista. quando ingressou no PCB. .82 Wladimir Pomar Sobre o autor Wladimir Pomar nasceu em Belém do Pará. Depois trabalhou como repórter e redator nos jornais Tribuna Popular e Classe Operária. filho de Pedro Pomar e Catarina Torres. fez parte do movimento que deu origem ao PCdoB. tendo trabalhado junto às estradas de ferro Leopoldina (RJ) e Leste-Brasileira (BA). Em 1962. estudou ajustagem mecânica no Senai. do qual seu pai era membro. conheceu a vida da clandestinidade. Militante político desde 1949. Desde os cinco anos. Em 1964. Wladimir Pomar atuou inicialmente no movimento estudantil secundarista. ao mesmo tempo que fazia o ginásio. em Volta Redonda (RJ) e Conselheiro Lafaiete (MG). Em 1951.

Outra vertente de suas obras aborda a história do Brasil e da esquerda brasileira. onde foi responsável pela secretaria nacional de formação política. participou da coordenação da campanha de Lula a deputado federal constituinte. um dos quais seu pai. integrou a executiva nacional do PT. foi coordenador-geral da campanha Lula. Viveu na clandestinamente até 1976. Depois de 1964. de uma trilogia sobre a teoria e a prática das tentativas de construção do socialismo. Miragem do mercado (Brasil Urgente). China. foi julgado e condenado à revelia. . Desta vez. A revolução chinesa (Unesp). Wladimir Pomar é autor de diversos estudos e livros sobre a China. durante uma ação militar que assassinou três dirigentes do PCdoB. A ilusão dos inocentes (Scritta) e Os latifundiários (Editora Página 13). desligou-se da direção do PCdoB e ingressou no Partido dos Trabalhadores. Durante as eleições presidenciais de 1989. quando foi preso novamente. o partido e a guerrilha (Brasil Debates) e de Pedro Pomar: uma vida em vermelho (Xamã). colaborou com a imprensa partidária e desenvolveu suas atividades políticas principalmente no interior de Goiás e do Ceará. o dragão do século XXI (Ática). Pouco depois. atividade que acumulou com a coordenação do Instituto Cajamar. ao longo do século XX: Rasgando a cortina (Brasil Urgente). também.Volume 1: Sinfonia desencontrada 83 Solto no final deste ano. em 1979. no bairro da Lapa (SP). China: desfazendo mitos (Editora Página 13 & Editora Publisher). É autor. devido a habeas corpus. aqui entre os sindicatos de trabalhadores rurais. Foi libertado pouco antes da Anistia. entre os quais O enigma chinês: capitalismo ou socialismo (Alfaômega). É o caso de Araguaia. Em 1986. Entre 1984 e 1990.

2003. foi lançada a página eletrônica www. China. Pedro Pomar: um comunista militante. o partido e a guerrilha. São Paulo: Brasil Urgente.wladimirpomar. Um mundo a ganhar: revolução democrática e socialista. 2004. Para comemorar seus 75 anos. São Paulo: Xamã. Casado com Rachel.84 Wladimir Pomar Quase lá.br. Era Vargas: a modernização conservadora. São Paulo: Unesp. Livros de Wladimir Pomar Araguaia. avô de 11 netos e 2 bisnetos. A ilusão dos inocentes. O enigma chinês: capitalismo ou socialismo. O Brasil em 1990. São Paulo: Editora A revolução chinesa. nem publicado em formato de livro. é pai de três filhos. onde se pode conhecer sua obra. 1996. 2007. 2004. 2002. O Brasil em 1990 e Era Vargas: a modernização conservadora (Ática). o dragão do século XXI. 1996. São Paulo: Scritta. Nos últimos trinta anos colaborou regularmente com o Correio da Cidadania e com a revista Teoria e Debate. Ática. São Paulo: Brasil Urgente. São Paulo: Brasil Debates. São Pedro Pomar: uma vida em vermelho. 1991. 1987. .org. ômega. São Paulo: Editora Ática. Mas grande parte de seus textos ainda não foi organizado para consultas. São Paulo: Expressão Po- pular. 1991. É o caso do romance inédito O nome da vida. A miragem do mercado. 1994. Lula e o susto das elites (Brasil Urgente) e Um mundo a ganhar (Viramundo). São Paulo: Editora Ática. São Paulo: AlfaRasgando a cortina. 1980. Paulo: Viramundo.

2009. 2009. 13. . Os latifundiários. 2009. São Paulo: Editora Página 13. Lula o susto das elites. São Paulo: Editora Página 13. São Paulo: Publisher e Editora Página Quase lá.Volume 1: Sinfonia desencontrada 85 China: desfazendo mitos.