1 RESUMO BIOGRÁFICO

:
O pernambucano João Cabral de Melo Neto, nascido na cidade
de Recife, em 09 de janeiro de 1920. Foi o último grande poeta brasileiro do
século XX. Passou parte de sua infância nos engenhos e aos dez anos
retornaram à capital onde João Cabral inicia-se na via estudantil e intelectual,
freqüentando as rodas boêmias. Em 1945, ingressou na carreira diplomática e
viajou por muitos países. Em 1952 enfrentou um inquérito em que era
acusado de práticas subversivas. Em 1954 é reintegrado à carreira
diplomática, passou a servir no Departamento Cultural do Itamaraty, sendo
transferido para Sevilha em 1956, ano que publicou “Morte e Vida Severina”.
Serviu como diplomata em vários países: Paraguai, Senegal, Equador,
Honduras e Portugal. Em 1968, João Cabral ingressa na Academia Brasileira
de Letras, ocupando a cadeira que pertenceu a Assis Chateaubriand,
nordestino como ele que nunca perdeu de vista e da arte seu rico Nordeste. Como diplomata, pôde se
relacionar com grandes artistas contemporâneos – pintores, arquitetos, músicos e, principalmente, grandes
poetas. Mas foi na Espanha que se relacionou com os mais significativos nomes da arte do século XX.
Deixando a vida de diplomata em 1990. Em 1992 recebe o prêmio Neustadt International Prize for Literature,
da Universidade de Oklahoma. Nos últimos anos, uma irremediável degeneração da retina, por erro médico, o
impediu de escrever, privando-o da principal arma para lidar com as inquietações da vida. O homem tímido que
se dizia materialista, o poeta das poucas e exatas palavras, que desde garoto nunca gostou de chamar a
atenção para si, morreu rezando um pai-nosso, em 09 de outubro de 1999, no Rio de Janeiro.
2 CONTEXTO: A GERAÇÃO DE 45 / PÓS-MODERNISMO
Terminada a Segunda Guerra Mundial e, no Brasil, a ditadura Vargas, o mundo passou a viver a
Guerra Fria. O Brasil entra num novo período de sua história, marcado pelo desenvolvimento econômico, pela
democratização (governo de Juscelino Kubitschek – 1956-1961), política e pelo surgimento de novas
tendências artísticas e culturais.
A pesquisa estética e a renovação das formas de expressão literária, tanto na poesia quanto na
prosa, são os traços distintivos da geração de 45. CLARICE LISPECTOR, JOÁO GUIMARÃES ROSA e JOÁO
CABRAL DE MELLO NETO, por exemplo, relativizam os limites entre a poesia e a prosa e obriga a crítica
literária a rever seus critérios de análise e avaliação da obra literária. Renova, define e intensifica a tendência
introspectiva de determinada corrente de ficção da segunda geração modernista (1930-45, período
essencialmente ideológico e voltado para a discussão dos problemas brasileiros).
A principal distinção dessa nova geração é a renovação dos meios de expressão a partir de uma
pesquisa em torno da linguagem.
3 OBRAS:
• Pedra do Sono (1942)
• Os Três Mal Amados
(1943)
• O Engenheiro (1945)
• Psicologia da Composição
(1947)
• O Cão sem Plumas (1950)
• O Rio (1953)
• Paisagens com Figuras
(1956)
• Morte e Vida Severina
(1956)
• Uma Faca Só Lâmina
(1956)
• Quaderna (1960)
• Dois Parlamentos (1961)
• Serial (1961)
• A Educação pela Pedra
(1966)
• Museu de Tudo (1976)
• A Escola das Facas
(1981)
• Auto do Frade (1984)
• Agrestes (1985)
• Crime na Calle Relator
(1987)
• Sevilha Andando (1993)
• Andando Sevilha (1989)
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Auto é uma
composição de
tradição medieval
de raízes ibéricas
4 O POETA E SEU ESTILO:
É reconhecidamente o poeta-arquiteto, o poetas-construtor: “Para mim, a poesia é uma construção
como uma casa. Isso eu aprendi com Le Corbusier.” Foi buscando o “puro cinema” de versos límpidos e
desbastados de todo ornamento, que João Cabral criou um estilo próprio, cujas influências alinhavam fontes
díspares, como cubismo ou a arquitetura modernista.
A sua poesia tem dado um exemplo fortemente persuasivo de "volta às próprias coisas" como estrada
real para apreender e transformar a realidade que, opaca e renitente, desafia sem cessar a nossa inteligência.
Na esteira de Drummond e de Murilo Mendes, o poeta recifense estreou com a preocupação de desbastar suas
imagens de toda ganga de resíduos sentimentais ou pitorescos, ficando-lhes nas mãos apenas a nua intuição
das formas (de onde o geometrismo de alguns poemas seus) e a sensação aguda dos objetos que delimitam o
espaço do homem moderno.
Abandonando nos livros que se seguiram a Pedra do Sono os resquícios surrealistas deste, João
Cabral passou a realizar, desde O Engenheiro e Psicologia da Composição, um verso substantivo e
despojado que, se parecia partilhar com os formalistas de 45 o rigor métrico. Na verdade, instaurava um novo
critério estético - o rigor semântico, pedra-de-toque da sua radical modernidade.
A esta nova poética não estaria alheio um certo maneirismo do descarnado, do ósseo, do pétreo, que
se entende, porém, ao menos no momento em que apareceu, como necessidade de afirmar uma nova
dimensão do discurso lírico.
Foi com os instrumentos devidamente afiados que João Cabral passou de uma linguagem
autocentrada (verdadeira metalinguagem, em Antiode) para o tratamento da substância natural e humana da
sua província, dando ao O Cão sem Plumas aquele "salto participante” que viria a ser, nas décadas de 50 e
60, uma exigência ética sentida por toda a cultura brasileira. O Cão sem Plumas (= pêlos) é o Capibaribe, rio
que carreia os detritos dos sobrados e dos mocambos recifenses (...).
Quanto a temática o poeta apresenta três grandes preocupações:
I. O Nordeste sua gente, os retirantes, suas tradições, seu folclore, a herança medieval e os
engenhos; seu estado natal, Pernambuco e sua cidade, Recife, merecem atenção especial;
II. A Espanha destaca as semelhanças de sua paisagem com o do Nordeste brasileiro;
III. A própria Arte suas manifestações: pintura, literatura e até mesmo o futebol. O grande
destaque fica por conta de seu caráter metalingüístico, nunca esgotando as possibilidades de
pensar sobre e o poema.
Embora apresentasse em sua obra as preocupações formalistas que marcaram seus
contemporâneos, não se limitou a elas. Ou, melhor dizendo, tratou a forma poética de maneira bastante
particular, conseguindo torná-la um veículo expressivo de peso. Esta era a proposta da Geração de 45, mas
quem conseguiu melhor desempenho foi mesmo João Cabral de Mello Neto.
A preocupação com a forma não o fez abandonar a expressão popular, a linguagem livre e direta
que melhor se adaptara ao ambiente que buscava reproduzir na sua poesia: o da caatinga nordestina, a que
estava profundamente ligada. Este ambiente contagia até mesmo a definição métrica de muitos de seus
poemas. De fato, os versos de redondilha maior (sete sílabas) utilizadas por ele fazem parte da cultura
popular nordestina, aparecendo inclusive em muitos repentes da literatura de cordel.
5 MORTE E VIDA SEVERINA:
1 - INTRODUÇÃO
A partir de 1950, o poeta pernambucano apresenta uma poesia cada vez mais engajada,
aprofundando a temática social. Mais do que nunca o poeta atenta para a necessidade de conceber a poesia
de forma plena, maior.
O poeta em si achava que esse poema que foi feito a pedido de Maria Clara Machado era um
trabalho menor. “Quando digo que ele é o meu pior poema é porque o fiz às pressas, não é um poema que
eu tenha trabalhado como os outros”, disse João Cabral. Mas é a obra de maior
sucesso desse grandioso poeta, assim o foi considerado pelos críticos e
também pela Academia Brasileira de Letras que indicou a obra por cinco
vezes ao prêmio Nobel de Literatura.
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1. Anunciar o nascimento;
2. Trazer pastores dirigidos por uma estrela;
3. Promover o encontro e o louvor do recém-nascido.
ESTRUTURA DO AUTO DE NATAL Na Idade Média, era comum a apresentação viva de
presépios que tinham três pontos básicos:
Morte e Vida Severina é composta a partir de 18 subitens que assinalam a jornada de Severino, o
retirante. Essas jornadas são pequenos atos ou cenas, feitos à maneira dos autos natalinos e se alinhavam
da seguinte maneira:
Nas 12 cenas iniciais estão narradas as peregrinações do herói; iniciadas com um prólogo em 1ª
pessoa, explicando quem é Severino e a que vem, até o encontro com “José”, mestre carpina. O
protagonista assiste a cada ato, mas não participa, sendo uma espécie de espectador das diferentes formas
de morte que vai encontrando no caminho. O protagonista só participa da ação em 03 de seus encontros:
primeiro dialoga com dois homens que carregam na rede um defunto (2ª cena); depois, conversa com a
mulher “que vive da morte ajudar” quando resolve descansar da travessia e procurar trabalho (6ª cena);
finalmente, no encontro do mestre carpina (12ª cena). Nas três cenas referidas, a forma de participação do
protagonista é estabelecida com o diálogo.
Em 06 cenas finais estão o anúncio do nascimento, os louvores, a predição das ciganas e a
entrega de oferendas. Nesse espetáculo da vida, Severino é somente um espectador. Na cena final há uma
breve conclusão que remata a peça e une as duas partes.
Esquematicamente, teríamos este auto assim dividido:
I – CAMINHO OU FUGA DA MORTE
1.(Monólogo) O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI.
2.(Diálogo)
ENCONTRA DOIS HOMENS CARREGANDO UM DEFUNTO NUMA REDE, AOS GRITOS DE "Ó
IRMÃOS DAS ALMAS! IRMÃOS DAS ALMAS! NÃO FUI EU QUEM MATEI NÃO!".
3.(Monólogo)
O RETIRANTE TEM MEDO DE SE EXTRAVIAR POR SEU GUIA, O RIO CAPIBARIBE, CORTOU
COM O VERÃO.
4.(Diálogo)
NA CASA A QUE O RETIRANTE CHEGA ESTÃO CANTANDO EXCELÊNCIAS PARA UM
DEFUNTO, ENQUANTO UM HOMEM, DO LADO DE FORA, VAI PARODIANDO A PALAVRAS DOS
CANTADORES.
5.(Monólogo)
CANSADO DA VIAGEM O RETIRANTE PENSA INTERROMPÊ-LA POR UNS INSTANTES E
PROCURAR TRABALHO ALI ONDE SE ENCONTRA.
6.(Diálogo)
DIRIGE-SE À MULHER NA JANELA QUE DEPOIS, DESCOBRE TRATAR-SE DE QUEM SE
SABERÁ.
7.(Monólogo)
O RETIRANTE CHEGA À ZONA DA MATA, QUE O FAZ PENSAR, OUTRA VEZ, EM
INTERROMPER A VIAGEM.
8.(Diálogo)
ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO OS
AMIGOS QUE O LEVARAM AO CEMITÉRIO.
9.(Monólogo) O RETIRANTE RESOLVE APRESSAR OS PASSOS PARA CHEGAR LOGO AO RECIFE.
10.(Diálogo)
CHEGANDO AO RECIFE O RETIRANTE SENTA-SE PARA DESCANSAR AO PÉ DE UM MURO
ALTO E CAIADO E OUVE, SEM SER NOTADO, A CONVERSA DE DOIS COVEIROS.
11.(Monólogo) O RETIRANTE APROXIMA-SE DE UM DOS CAIS DO CAPIBARIBE.
12.(Diálogo)
APROXIMA-SE DO RETIRANTE O MORADOR DE UM DOS MOCAMBOS QUE EXISTEM ENTRE O
CAIS E A ÁGUA DO RIO.
II – O PRESÉPIO OU O ENCONTRO COM A VIDA
13.(Presépio) UMA MULHER, DA PORTA DE ONDE SAIU O HOMEM, ANUNCIA-LHE O QUE SE VERÁ.
14.(Presépio)
APARECEM E SE APROXIMAM DA CASA DO HOMEM VIZINHOS, AMIGOS, DUAS CIGANAS,
ETC.
15.(Presépio) COMEÇAM A CHEGAR PESSOAS TRAZENDO PRESENTES PARA O RECÉM-NASCIDO.
16.(Presépio) FALAM AS DUAS CIGANAS QUE HAVIAM APARECIDO COM OS VIZINHOS.
17.(Presépio) FALAM OS VIZINHOS, AMIGOS, PESSOAS QUE VIERAM COM PRESENTES, ETC.
18.(Conclusão
da Peça)
O CARPINA FALA COM O RETIRANTE QUE ESTEVE DE FORA, SEM TOMAR PARTE DE NADA.
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COMPOSIÇÃO DOS VERSOS, DIÁLOGOS E PERSONAGENS do movimento modernista, João Cabral
herdou duas características importantes: a tonalidade da paródia, lapidada com certa ironia; e a liberdade
de composição poética, com o aproveitamento dos metros populares de ritmo toante e versos livres. Não há
personagens individualizados, eles estão generalizados como “severinos”, simbolizando os reais severinos
da região das secas. Os personagens fazem uma espécie de coral que substituiu os diálogos tradicionais.
Dessa forma, um personagem (ou grupo de), como em coro, estabelece diálogo com Severino à medida
que o encontra ou é ouvido por ele ao se aproximar do grupo. Tais diálogos se alternam de forma livre com
os monólogos do protagonista ou de um ou outro personagem.
OS DOIS MOMENTOS FUNDAMENTAIS essa obra revela a triste peregrinação de um (dos muitos)
Severino, que saindo da Serra da Costela, limite da Paraíba, vai até o Recife, encontrando a seca, a fome e
a morte por todo o caminho. A estrutura da peça segue dois momentos fundamentais: a morte e a vida,
como o próprio título sugere.
O primeiro momento é representado pela trajetória de Severino ao fugir das opressões sócio-
econômicas. O segundo, é o movimento da vida, resultado da esperança tênue do homem diante de sua
capacidade de resolver seus problemas. Entretanto, não apresenta a tradicional euforia que marca dos autos
medievais. No texto, a morte e a vida caminham juntas, fazendo parte de uma mesma estrutura, nascendo uma
da outra.
2 - COMENTÁRIOS:
Ao ler essa grande obra em sua totalidade vamos perceber todo o pessimismo e indignação de João
Cabral em relação aos problemas sociais do Nordeste. Na obra ele consegue mostrar o equilíbrio entre o rigor
formal e o conteúdo engajado (participante).
João Cabral ambientou sua história em Pernambuco, fazendo de um retirante, Severino, um retirante que
tem dificuldades de se apresentar ao público para contar sua história de tristeza e busca da sobrevivência.
Trata-se de um monólogo poético. As palavras do mestre carpinteiro não vão convencer Severino de que a vida
vale a pena. Num momento de profunda beleza, a vida responde às dúvidas do retirante através do nascimento
de uma criança. O poeta assume a responsabilidade de denunciar a seca, a fome, a morte, enfim, a condição
miserável da vida do pobre homem do sertão, ao mesmo tempo que abandona o lirismo individualizador e
subjetivo de outros poetas.
Vemos que no subtítulo da obra, “auto de natal pernambucano”, o poeta nos deixa a impressão de uma
esperança no advento de uma nova vida, o que é uma redenção do povo nordestino. Esse subtítulo contrapõe
a miséria e a seca com a esperança e o renascimento.
É a esperança que move Severino, que o faz reunir forças para iniciar a viagem. É ela também que o faz
continuar sua jornada, apesar dos espetáculos tristes que presencia ao longo de seu percurso. E é ainda a
esperança que o reanima no momento de maior desespero, quando pensa e desistir da vida. Esta esperança
que renasce a todo instante, corporifica-se, no final da peça, no nascimento de uma criança, filha de um mestre
carpinteiro em uma clara referência cristã.