CENTRO DE APOIO CIENTÍFICO PARA DESASTRES DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ

RELATÓRIO DA MISSÃO DO INCÊNDIO QUÍMICO NO PORTO DE SÃO FRANSCICO DO SUL – SC

CURITIBA – DEZEMBRO DE 2013

WILSON A. SOARES E GEORGES KASKANTZIS

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INTRODUÇÃO
Neste relatório se encontram apresentadas as atividades desenvolvidas na missão de avaliação do incêndio químico ocorrido, do mês de setembro do ano de 2013, nas instalações da empresa onde se encontrava armazenado o fertilizante incendiado, no porto de São Francisco do Sul, do Estado de Santa Catarina. Os objetivos da missão foram obter conhecimentos a respeito do atendimento a emergência e conhecer as consequências que decorrem dos eventos acidentais dessa natureza. Participaram da missão do CENACID o físico WILSON ALCÂNTARA SOARES e o engenheiro químico Georges Kaskantzis, professores da Universidade Federal do Paraná – UFPR. A missão foi realizada no dia XX de setembro de 2013. Com a realização da missão verificou-se que eventos acidentes envolvendo incêndio químico são de alta de complexidade requerendo treinamento específico das equipes de atendimento a emergência, e que estes acidentes produzem consequências de grande importância e magnitude. Com base no resultado da missão realizada também identificouse a oportunidade do desenvolvimento por parte do CENACID do curso de capacitação de profissional dos profissionais da área de segurança, saúde e de meio ambiente, visando o atendimento de incêndios químicos. A seguir, apresentam-se o histórico resumido do acidente, as atividades realizadas na sequencia as considerações a respeito da missão executada.

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VISITA DA ZONA QUENTE
O incêndio químico do fertilizante armazenado nos galpões da empresa Global Logística iniciou na noite no dia 24 do mês de setembro do ano de 2013 e foi um evento de grande repercussão, tendo atraído o interesse da impressa nacional e internacional. Este evento acidental foi de média importância e grande magnitude em razão dos reagentes das reações que se desenvolveram no incêndio químico, tais como: o nitrato de amônio; o difosfato de amônio e o cloreto de potássio, terem, provavelmente formado gases, partículas e vapores tóxicos e perigosos. As dez mil toneladas do produto incendiado denominado NPK, se encontrava armazenado no porto de São Francisco do Sul do Estado de Santa Catarina. A pedido do professor Wilson Alcântara Soares e com o apoio da atual Coordenadora do CENACID, a Dra. JUCIARA CARVALHO LEITE, a equipe se preparou rapidamente tendo seguido pela rodovia BR376 para o Município de São Francisco do Sul. Adotando os procedimentos padrões do CENACID, ao chegar em São Francisco do Sul a equipe do seguiu para o quartel base do Corpo de Bombeiros Voluntário do município para obter as informação e as orientações de como deveria proceder para visitar o local do acidente, caso fosse autorizada para executar tal atividade. O comandante dos Bombeiros do município de Guaramirim, LAURY CARLOS LEITE explicou a equipe do CENACID que a emergência tinha sido controlada, assim como, a rotina de trabalho adotada pelas equipes de combate ao incêndio. Basicamente, a cada três

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de trabalho, a equipe era substituída, e os soldados combatentes que eram substituídos da labuta recebiam atenção especial de uma equipe de técnico da área da segurança e da medicina do trabalho, que lhes fornecia líquidos e nutrientes adequados para a hidratação e descontaminação do corpo. Após ter descritos as rotinas e os procedimentos de trabalho das equipes de combate a emergência, o comandante solicitou a equipe dos soldados que estava se dirigindo para o local do desastre que nos acompanhasse visando a facilitar o acesso à área controlada, chamada” zona quente”. Na FIGURA 1, encontra-se indicada a zona “quente” controlada pelos militares que foi visitada pela equipe do CENACID.

FIGURA 1. IMAGEM DA ENTRADA CONTROLADA PELO EXÉRCITO DA ÁREA DE VULNERABILIDADE DO INCÊNDIO QUÍMICO OCORRIDO NO MUNICÍPIO DE SÃO FRANSCISCO DO SUL, DO ESTADO DE SANTA CATARINA, BRASIL. [FOTO: CENACID].

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Na FIGURA 2, pode-se observar um dos membros da equipe do CENACID, WILSON ALCÂNTARA SOARES, registrando imagens das instalações destruídas pelo incêndio sem chama do fertilizante NPK.

FIGURA 2. PESQUISADOR DO CENTRO DE APOIO CIENTÍFICO PARA DESASTRES – CENACID, DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ – UFPR. [FOTO: CENACID]

Nas diligências realizadas na área do incêndio observou-se a estrutura que as equipes da defesa civil, do exército, da marinha, do porto e do corpo de bombeiros haviam construído em aproximadamente 24h para combater o incêndio. Na FIGURA 3, apresenta-se uma vista geral da estrutura de atendimento do acidente, onde se pode notar uma grande barraca da cor branca e ônibus do corpo de bombeiros onde se concentravam as atividades de logística e comando das equipes de combate ao incêndio químico. Estima-se que tenham participado do atendimento da emergência, cerca de 350 pessoas, incluídos os técnicos da CIESP e da VALE FÉRTIL.

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FIGURA 2. VISTA GERAL DA ESTRUTURA CONSTRUÍDA PELAS AUTORIDADES PARA COMBATER O INCÊNDIO QUÍMICO OCORRIDO NO PORTO DE SÃO FRANCISCO DO SUL DO ESTADO DE SANTA CATARINA, BRASIL. [FOTO: CENACID] A questão no âmbito dos incêndios químicos observada pela equipe do CENACID durante as entrevistas realizadas foi visibilidade do foco do incêndio, visto que o incêndio químico se desenvolve sem a formação de chama. Conversando com as autoridades, observou-se que no atendimento preliminar da emergência, que iniciou em torno das 22:00h, houve certa dificuldade para localizar o ponto central da reação, pois além da falta de iluminação havia também muita fumaça no local onde o fertilizante estava em combustão. Nesta primeira tentativa de extinguir a fogo que não se podia perceber, provavelmente aconteceu a grave intoxicação do bombeiro da corporação. A solução encontrada para ultrapassar essa dificuldade foi o emprego do pirômetro cujo funcionamento não depende da luminosidade sendo apenas função da energia de radiação emitida pela reação de combustão. Aprendida a lição do pirômetro, a seguir, deverão ser apresentadas algumas das múltiplas consequências do incêndio químico de São Francisco do Sul.

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AS CONSEQUÊNCIAS
O incêndio químico ocorrido no porto de São Francisco pode ser considerado como de grandes proporções. A fumaça produzida pelas reações, de combustão e de outras, que se desenvolveram em série e também em paralelo com a primeira pode provocar: tosse, irritação dos olhos e da derme e se for inalada além máximo intervalo de tempo pode suportado pelo homem, pode provocar a morte do receptor, porque nos produtos destas reações se encontram vapores tóxicos, corrosivos e inflamáveis. Dependendo da condição de temperatura na qual a reação se desenvolve os produtos podem variar, conforme explicado na seção. À medida que as reações de degradação do fertilizante avançavam as incertezas de como combater o fogo invisível persistiam, o que é natural quando se depara com uma situação nunca antes enfrentada, o volume de gases, vapores e particulados formado tornou-se perigoso para as comunidades que moram no entorno do local do acidente, resultando a fuga da população. Diante do quadro estabelecido, as autoridades decidiram pela evacuação da zona “quente”, significando que executaram rapidamente a ação correta, evitando desse modo uma tragédia de maior proporção. Apesar da decisão acertada dos comandantes, cerca de, sessenta atendidos foram registrados nos estabelecimentos de cuidados da saúde. A população retirada dos bairros vizinhos que, provavelmente seria afetada pela fumaça do incêndio químico foi alojada nos municípios vizinhos de São Francisco do Sul, tendo sido tratada com atenção e suprida com

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água e alimentos. Segundo divulgado pela imprensa que fez a cobertura do evento, a Prefeitura do Município dos fatos teria distribuído, cerca de, 5 mil máscara para a população. Na ocasião da missão o CENACID, notou-se a completa paralização das atividades de turismo e comerciais localizadas, notadamente na região central da cidade. Na FIGURA 3, apresenta-se a situação da área central da cidade.

FIGURA 3. MOSAICO DE IMAGENS DO CENTRO DA CIDADE OBSERVADA DURANTE A MISSÃO EXECUTADA PELA EQUIPE DO CENACID.

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Quanto às consequências ambientais do acidente, pode-se afirmar que houve impactos negativos significantes em determinados componentes dos ecossistemas, como, por exemplo, deposição de materiais particulados nas águas salinas, no solo e na flora e a significativa alteração reversível da qualidade do ar. A quantidade de resíduos sólidos e de efluentes líquidos produzidos em razão do acidente também devem ser considerados no balanço dos danos ambientes decorrentes do acidente. Na FIGURA 4 se pode observar a extensão da nuvem de gases produzida pelo acidente que dispersou na atmosfera. Nas FIGURAS 5 e 6 podem ser observados a retirada de 400 mil litros de efluentes e os resíduos oriundos da combustão do fertilizante e das atividades de combate do acidente, respectivamente.

FIGURA 4. VISTA AÉREA DA NUVEM DOS PRODUTOS GASOSOS DA REAÇÃO DE COMBUSTÃO DO NPK QUE DISPERSOU NO ATMOSFERA DOS ESTADOS DE SANTA CATARINA E DO PARANÁ.

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FIGURA 6. RESIDUOS SÓLIDOS PRODUZIDOS PELO INCÊNDIO QUIMICO OCORRIDO NO PORTO DE SÃO FRANCISCO DO SUL, SC.

A seguir apresentam-se os resultados da matriz de compatibilidade química de compostos envolvidos no cenário ambiental.

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MATRIZ DE COMPATIBILIDADE QUÍMICA
Antes discutir a termodinâmica das mudanças das energias das reações em tela, apresenta-se uma questão de interesse dos acidentes que envolvem reações químicas. Deve-se também citar que a composição do fertilizante adotada neste estudo de caso não é necessariamente aquela da mistura dos produtos incendiados, porque a mistura NPK comercia pode apresentar outras composições dependendo do fabricante. Os fertilizantes fabricados a base de nitrogênio, fósforo e potássio contém um grande n° de compostos na sua formulação, significando que a reação de combustão não foi singular, ocorrendo de maneiras múltipla o aumenta o perigo e o risco dos acidentes nessa natureza. Neste estudo adotou-se os 4 (quatro) principais compostos do NPK: o cloreto de amônia (NH4Cl); o nitrato de amônia (NH4NO3); o cloreto de potássio (KCl) e o difosfato de amônia ((NH4)2HPO4), tendo sido usada a técnica denominada matriz de incompatibilidade química, a qual foi elaborada pela Agencia de Proteção Ambiental EPA dos Estados Unidos da América do Norte. Além dos citados composto, também foram considerados nas reações o oxigênio, o nitrogênio e o vapor de água da atmosfera (umidade relativa do ar). A temperatura do padrão de referência adotada para calcular as mudanças das energias foi aquele do dia do evento acidental. Os resultados da matriz de compatibilidade da mistura dos produtos constituintes da mistura de NPK estão indicados na FIGURA 4.

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FIGURA 4. MATRIZ DE COMPATIBILIDADE QUÍMICA DOS COMPOSTOS QUE FORMAM A MISTURA DO FERTILIZANTE NPK INCENDIADO

Inspecionando os resultados da matriz verifica-se que os produtos da fórmula do fertilizante quando em contato com água, oxigênio, nitrogênio e vapor de água podem realizar cerca de, 21 reações. Deste total, as seis reações compatíveis da matriz estão indicadas na células de cor verde, as duas células que estão destacadas com a cor amarela na matriz são aquelas reações instáveis, devendo ser conduzidas com atenção e cuidado, e, finalmente as13 reações incompatíveis indicadas pelas células da cor vermelha representam mais da metade de todas as reações potenciais. Os produtos originados pelas reações incompatíveis foram: óxidos de nitrogênio; sulfetos de hidrogênio e de carbonila; cianeto hidrogênio, vapor de amônia e de água.

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PRODUTOS DO INCÊNDIO QUÍMICO
Em virtude da ocorrência do acidente de São Francisco e interesse despertado nos fenômenos que se desenvolvem no incêndio químico, isto é, nas reações de combustão do NPK, a equipe do CENACID realizou um breve estudo do comportamento das energias envolvidas nestas reações, visando a verificação da espontaneidade das potenciais reações envolvidas no evento acidental, bem como, os aspectos tóxicos dos produtos supostamente formados pelas citadas reações. É importante observar que as reações e os produtos formados a partir destas não são necessariamente aqueles que foram produzidos no incêndio químico de São Francisco de Sul. O estudo desenvolvido para ser usado no curso de treinamento do futuros integrantes do CENACID.  Composição Básica do NPK O fertilizante NPK (nitrogênio, fósforo e potássio) é constituído basicamente de nitrogênio, fósforo e potássio os quais são incorporados no produto comercial na forma de sais, ácidos e bases inorgânicos tais como: o cloreto de amônia (NH4Cl); o nitrato de amônia (NH4NO3); o cloreto de potássio (KCl) e o difosfato de amônia ((NH4)2HPO4) e outros compostos intermediários e auxiliares não foram considerados. Como se trata de reação de combustão, o primeiro passo realizado foi a determinação dos coeficientes estequiométricos das reação investigada, principalmente aquelas de combustão do fertilizante envolvido no acidente.

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 Reações de combustão do cloreto de amônio

NH4 Cl + 2 O2 (g) = HNO3 (g) + HCl(g) + H2 O NH4 Cl + 2,25 O2 (g) = NO3 (g) + HCl(g) + 1,5H2 O NH4 Cl + 3 O2 (g) = 2NO (g) + Cl2(g) + 4 H2 O 2 NH4 Cl + 5 O2 (g) = 2 NO3 (g) + Cl2(g) + 4 H2 O

(R1 ) (R 2 ) (R 3 ) (R 4 )

As equações estequiométricas elementares da oxidação do cloreto de amônio indicam que os produtos usualmente formados nesta reação são cloro vapor, ácido clorídrico, vapor de água, ácido nítrico vapor e os óxidos de nitrogênio. Outros produtos podem se formar, dependendo das condições de temperatura e de pressão do sistema reacional, mas, neste estudo foram consideradas apenas as reações cujas mudanças das energias de entalpia, entropia e energia livre indicam que a reação é favorável, espontânea e exotérmica, uma vez que a reação deverá ocorrer a temperatura ambiente sem a introdução de energia na forma de calor no sistema reacional. Os valores das mudanças das energias de cada uma das quatro reações de combustão do cloreto de amônio se encontram apresentados na TABELA 1. Repetindo esse procedimento para os demais reagentes, isto é, o nitrato de amônio, difosfato de amônio e cloreto de potássio obtém-se os demais resultados apresentados na tabela.

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TABELA 1. MUDANÇAS DE ENERGIAS DAS REAÇÕES DE COMBUSTÃO FAVORÁVEIS, ESPONTÂNEAS E EXOTÉRMICAS DO CLORETO DE AMÔNIO

REAÇÃO ∆H (kcal) ∆S (cal K-1) ∆G(kcal) Log(K) (R1) (R2) (R3) (R4) (R5) (R6) (R7) (R8) (R9) (R10) (R11) (R12) -40,965 -20,610 -46,288 -55,311 -6,110 -12,078 -52,788 -30,811 -8,770 -25,696 -44,595 -85,124 24,008 31,423 124,986 46,565 182,882 12,020 -1,809 55,236 80,930 170,282 4,127 63,294 -59,527 -449,05 -142,921 -91,313 -147,505 -22,145 -51,389 -73,516 -71,341 -157,623 -47,786 -134,059 16,828 12,695 40,403 25,814 41,699 6,260 14,528 20,783 20,168 44,56 13,509 37,989

Reações de combustão do nitrato de amônio 2 NH4 NO3 + O2 (g) = 4NO3 (g) + H2 O NH4 NO3 + 2,5 O2 (g) = 2NO3 (g) + 2H2 O NH4 NO3 + 2 O2 (g) = 2 HNO3 (g) + 4 H2 O NH4 NO3 + 1,5 O2 (g) = 2 NO2 (g) + 2 H2 O (R 5 ) (R 6 ) (R 7 ) (R 8 )

Reação de combustão do difosfato de amônio (NH4 )2HPO4 + O2 (g) = 4NO3 (g) + H2 O (R 9 ) (R10 )

(NH4 )2HPO4 + 1,25 O2 (g) = 2NO (g) + 1,5H2 O + H3 PO4(l)

(NH4 )2HPO4 + 4 O2 (g) = 2 HNO3 (g) + 2H2 O (g) + H3 PO4(l) (R11 ) (NH4 )2HPO4 + 5 O2 (g) = 2 HNO3(g) + 2 H2 O2 (g) + H3 PO4 (l) (R12 )

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-180.0 -160.0 -140.0 -157.62 -142.92 -147.51

-134.06

Energia Livre (kcal)

-120.0 -100.0 -80.0 -59.53 -91.31 -73.52-71.34 -44.91 -22.15 -20.0 0.0 R1 R2 R3 R4 R5 R6 R7 R8 R9 R10 R11 R12 -51.39 -47.79

-60.0
-40.0

FIGURA 7. MUDANÇA DA ENERGIA LIVRE DAS REAÇÕES DE COMBUSTÃO
-90.00 -80.00 -70.00 -85.12

ENTALPIA (Kcal)

-60.00 -50.00 -40.97 -40.00 -46.29

-55.31

-52.79 -44.60 -30.81

-30.00 -20.61 -20.00 -10.00 0.00 R1 R2 R3 R4 R5 R6 R7 R8 R9 -6.11 -12.08 -8.77

-25.70

R10

R11

R12

FIGURA 8. MUDANÇA DA ENTALPIA DAS REAÇÕES DE COMBUSTÃO DO NPK

Analisando os resultados das propriedades termodinâmicas das reações de combustão estequiométrica do fertilizante pode-se verificar que as três reações mais favoráveis em termos da energia livre são as reações do difosfato de amônio com oxigênio (R10 = -157,62 kcal), do nitrato de amônio com oxigênio (R5 = -147,51kcal) e cloreto de amônio com O2 (R3 = - 142, 92 kcal).

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Os resultados da tabela indicam também que as reações com os maiores valores das mudanças de entalpia, isto é, as reação que liberam as maiores quantidades de energia (calor). Estas reações são R12 = – 85,12 kcal; R4 = – 55,31 kcal e a R7 = – 52,79 kcal. Considerando que três dos quatro constituintes do fertilizante estão incluídos na lista das reações favoráveis decidiu-se balancear mais uma vez a os coeficientes estequiométricos incluindo todos os componentes do NPK, tendo sido obtido:
2(NH4 )2HPO4 + 2NH4 NO3 + 4NH4 Cl + 15,5O2 = 8NO(g) + 2NO3 (g) + 17H2 O(g) + 2Cl2 (g) + 2HNO3 (g) + 2H3 PO4 (l)

A partir do balanço estequiométrico da equação química geral de combustão do fertilizante verifica-se que 23,5 mols de reagente reagem para formar 33 mols de produtos. Os produtos da reação global são óxidos de nitrogênio, vapor de cloro, ácido nítrico vapor, ácido fosfórico liquido, e vapor de água. Fazendo o balaço de massa da reação obtém-se os resultados que se encontram apresentados nas TABELAS 2 - 3. Com os resultados apresentados nas tabela e a massa molecular média do NPK pode-se estimar as quantidades de gases que, supostamente teriam se formado no acidente de São Francisco do Sul. Adotando a massa molecular do NPK igual a 84,79 kg kmol -1 e supondo que toda a massa dos reagentes se converte em produtos obtém-se o número total de mols dos produtos formados ou que poderiam ser formados no incêndio.
10 × 108 kg ( ) = 117.938,44 kmols kg 84,79 kmol

N° de mols do NPK disponível =

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TABELA 2. REAGENTES E PRODUTOS FORMADOS PELAS REAÇÕES DE COMBUSTÃO DO FERTILIZANTE.

Composto (NH4)2HPO4 NH4NO3 NH4Cl O2(g) Soma NO(g) NO3(g) H2O(g) Cl2(g) H3PO4(l) HNO3(g) Soma

MW (g/mol) C (p%) C (mol) Massa (g) Volume (L) 132.056 80.043 53.491 31.999 23.287 14.115 18.866 43.732 2.000 2.000 4.000 15.500 23.500 30.006 62.005 18.015 70.906 97.995 63.013 21.166 10.934 27.003 12.504 17.281 11.112 8.000 2.000 17.000 2.000 2.000 2.000 33.000 264.112 160.086 213.965 495.981 1134.145 240.049 124.010 306.258 141.812 195.990 126.026 1134.145 0.000 92.804 0.000 347.411 440.215 179.309 44.827 381.031 44.827 0.000 44.827 694.822

TABELA 3. VALORES DAS MUDANÇAS DE ENERGIA E DA CONSTANTE DE EQUILÍBRIO TERMODINÂMICO DA REAÇÃO DE COMBUSTÃO DOS CONSTITUINTES DO FERTILIZANTE.

T (K) 273.150 373.150 473.150 573.150 673.150 773.150 873.150 973.150 1073.150 1173.150 1273.150 1373.150 1473.150 1573.150

H (kcal) S (cal K-1) -229.975 -225.013 -244.686 -238.972 -233.446 -228.222 -223.347 -218.850 -214.786 -211.194 -208.123 -205.618 -203.722 -202.473 575.533 591.245 547.179 558.139 567.031 574.272 580.207 585.08 589.065 592.269 594.784 596.681 598.016 598.839

G (kcal) -387.182 -445.636 -503.584 -558.869 -615.143 -672.221 -729.954 -788.227 -846.941 -906.014 -965.372 -1024.950 -1084.690 -1144.537

K

Log(K)

1.000E+308 308.000 1.060E+261 261.025 4.232E+232 232.627 1.324E+213 213.122 5.414E+199 199.734 1.085E+190 190.035 5.284E+182 182.723 1.083E+177 177.035 3.134E+172 172.496 6.284E+168 168.798 5.373E+165 165.730 1.393E+163 163.144 8.570E+160 160.933 1.042E+159 159.018

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TABELA 4. FRAÇÕES MOLARES E MÁSSICAS DOS PRODUTOS DA REAÇÃO

REAGENTES NO(g) NO3(g) H2O(g) Cl2(g) H3PO4(l) HNO3(g) Soma Frações NO(g) NO3(g) H2O(g) Cl2(g) H3PO4(l) HNO3(g) Soma

C (mol) 8.00 2.00 17.00 2.00 2.00 2.00 33.00 W (massa) 0.2424 0.0606 0.5152 0.0606 0.0606 0.0606 1.0000

Massa (Kg) 240.05 124.01 306.26 141.81 195.99 126.03 1134.15 X (molar) 0.2117 0.1093 0.2700 0.1250 0.1728 0.1111 1.0000

Volume (L) 179.31 44.83 381.03 44.83 0.00 44.83 694.82 Y (molar) 0.2581 0.0645 0.5484 0.0645 0.0000 0.0645 1.0000

TABELA 5. COMPOSIÇÃO TÉORICA DOS PRODUTOS DA REAÇÃO. T (°C) Mols (kmols) Massa (Kg) Volume (Nm3) TOTAL 298.15 235000.0 11341447.19 3.533.559.01 (NH4)2HPO4 298.15 20000.0 2641117.25 --NH4NO3 298.15 20000.0 1600863.95 928.08 NH4Cl 298.15 40000.0 .-----O2(g) 298.15 155000.0 4959814.04 3532630.97 SAÍDA TOTAL 298.15 330000.0 11341447.16 6.954.105.44 NO(g) 298.15 8.00E+04 2400487.98 1791408.89 NO3(g) 298.15 2.00E+04 1240098.04 448272.00 H2O(g) 298.15 1.70E+05 3062583.94 3810312.00 Cl2(g) 298.15 2.00E+04 1418119.97 455840.55 H3PO4(l) 298.15 2.00E+04 1959901.28 --HNO3(g) 298.15 2.00E+04 1260255.97 448272.00 Na TABELA 4, se pode observar as frações mássicas e molares da mistura reagente, as quais podem ser adotadas para calcular o número de mols nos gases e vapores produzidos da combustão do fertilizante. Os resultados dessa etapa se encontram indicados na TABELA 5.

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Inspecionando a TABELA 5, pode-se notar que, teoricamente poderiam ser produzidos ou foram produzidos, cerca de, 7,0 (sete) milhões de metros cúbico de gases, na sua grande maioria, perigosos. Por exemplo, o vapor de Cl2 em contato com a vapor de água do ar se converte em ácido clorídrico e, dependendo da condição do tempo também pode precipitar. O ácido fosfórico não evapora na condição de referência padrão adota nesse relatório para calcular as mudanças das energias, mas, na temperatura que se desenvolvem as reações de combustão, certamente também evapora.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Tendo finalizado a descrição das atividades executadas pela equipe do CENACID na missão de avaliação do incêndio químico ocorrido no porto de São Francisco do Sul nesta seção apresentação as considerações finais do relatório. Lições aprendidas:  Os incêndio químicos são evento acidentais complexo, apresentado dificuldades para combatê-lo notadamente em razão de inexistência de labaredas;  No combate dos incêndio químicos é requerido o emprego de pirômetro visando a localização do foco central do incêndio, principalmente se o atendimento a emergência for noturno;  Os incêndios químicos produzem vapores tóxicos e perigosos, devendo ser combatidos com atenção e cuidado;

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No acidente, estima-se que tenha sidos produzidos 7 milhões de metros cúbicos de gases na temperatura de 273,15 K e 1atm;

Os incêndios químicos se desenvolvem consumindo uma grande quantidade de oxigênio, como indicado na reação de combustão do NPK, significando que a supressão ou a diminuição da concentração deste nos incêndios químicos também pode ser uma alternativa para extinguir o evento;

Em virtude do aspecto dos resíduos do incêndio podem ter ocorrido reações de polimerização da mistura dos constituintes do NPK;

A retirada da população dos bairros localizados no entorno da zona perigosa foi uma decisão correta realizadas pelas autoridades que coordenaram as equipes de atendimento a emergência;

Pode-se verificar in loco que as equipes de emergência do Estado de Santa Catarina atuam de maneira coordenada e possuem uma boa infraestrutura e equipamentos para o atendimento de acidentes de diferentes natureza.

Levando em conta a complexidade do evento acidental e o ineditismo do incêndio químico, pode-se observar que o desempenho das equipes de atendimento da emergência foi muito bom.

Findo o relatório da missão.

Curitiba 02/12/2013.

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