UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES

PENSAR COM IMAGENS Uma introdução ao método de Aby Warburg

Disciplina: CAP0283 - História da Arte I Docente: Liliane Benetti Discente: Bruno Ferreira (6009719)

e tratam-se de expressões formais ou temáticas de estados emocionais intensificados no limite da tensão. cuja memória não saberíamos relembrar sem o auxílio de imagens. que Benjamin. fantasmas. iria formular em uma de suas teses “Sobre o Conceito de História”. por meio de uma compreensão complexa da temporalidade histórica. Warburg deixava inacabado um de seus maiores projetos. o Renascimento da Antiguidade pagã. o Atlas Mnemosyne. em que são justapostas imagens de tempos distintos. expandir seus limites disciplinares. Quando morreu. De qualquer forma. constitui-se em uma investigação imagética dos temas que compuseram o escopo de interesses do pesquisador durante toda sua vida: a Ninfa. fórmulas de páthos. A operação de Warburg nos traz a possibilidade de investigar a história buscando relações não cronológicas. recortes de livros e de jornais. em alemão. termo que indica uma vista póstuma das imagens. cujo método tem chamado a atenção de autores contemporâneos. O termo aparece pela primeira vez em seu ensaio de 1905 sobre Dürer e a antiguidade italiana. hoje presente no Instituto Warburg em Londres.000 reproduções de obras de arte. O núcleo fundamental do pensamento desenvolvido em seu atlas remete-nos ao preceito de “escovar a história a contrapelo”. cujas conexões se dão não por similaridade. como o filósofo italiano Giorgio Agamben e o historiador da arte francês Georges Didi-Huberman. O interesse crescente por sua obra justifica-se pelo esforço atual em redefinir os fundamentos tradicionais da história da arte. passa então a ser entendido como um trabalho de montagem. O atlas de Warburg. a morte de Orfeu. a melancolia. e que foi traduzido por Georges Didi-Huberman como sobrevivência. composto por 79 pranchas e contendo mais de 1. mas por um nexo secreto que Warburg chamou de Nachleben. e colocá-la em movimento. Este trabalho. esquemas. alguns anos depois. o retrato do burguês fiorentino. A carga de sobrevivência das imagens em Warburg se dá pelas Pathosformeln. desenhos. que liga o tema de uma gravura de Dürer à linguagem patética da arte antiga apresentada em um vaso grego e em uma gravura de Mantegna.Este trabalho tem por objetivo estabelecer um percurso introdutório no pensamento do historiador da arte e teórico alemão Aby Warburg (1866-1929). os gestos e a migração das formas. a astrologia. o que é interessante na .

.ideia de Pathosformel é a análise do próprio termo utilizado por Warburg. desde um baixo-relevo medieval até um afresco do Quattrocento. a composição formular das conexões estabelecidas por Warburg implicam a impossibilidade de distinção entre novidade e repetição. Agamben leva a questão adiante: “um ser cuja forma coincide pontualmente com a matéria e cuja origem é indiscernível do seu vir a ser é o que chamamos tempo”. por outro lado. pois para as formas haveria um molde. em que coexistem mesmo em tempos distintos .. Para o filósofo italiano. Para o historiador não concernia tanto as origens dos páthos quanto suas manifestações (sobrevivências) e as conexões que estabeleciam lateralmente. Cada imagem interessante é uma confrontação. . uma referência clara e distinguível na superfície das imagens. a Ninfa não se trata de um molde ao qual a existência do trabalho deveria se submeter. cunhada por Benjamin no livro das Passagens. a Ninfa é um composto misto de forma e substância. remete-nos à ideia de imagem-dialética. estaríamos realizando uma leitura equivocada do atlas. O quadro contém 26 reproduções. imagens carregadas de tempo. realizada por Giorgio Agamben...BENJAMIN IMAGEM DIALÉTICA . algo indiscernível entre o traço do desenho e seu assunto. Tomemos como exemplo o painel 46 do atlas.e provoca . dedicado a Pathosformel Ninfa.. Agamben interroga seus leitores: qual delas é a ninfa? .. portanto. Agamben defende a ideia de que se tratam de fórmulas de páthos e não de formas de páthos..se procurarmos entre essas imagens uma original da qual as outras derivariam.. Pensar as Pathosformeln como cristais de memória histórica.

. Contrariando o senso comum. Warburg desenvolveu uma teoria sobre a história baseada em uma temporalidade não linear. A PROPOSTA É FAZER DELA UMA CONSTELAÇÃO. Qual é o interesse atual em seu trabalho? Didi-Huberman Giorgio Agamben Dar exemplos da leitura de Warburg sobre Botticelli. REDESCOBRIR A RIQUEZA DO PENSAMENTO DE WARBURG SIGNIFICA. romperiam com o continuum da historia. Durer e o fiorentino. O contemporâneo abre a possibilidade de uma relação anacrônica entre diferentes tempos históricos que ameaça as fronteiras e o encadeamento entre passado. Nossa época oferece um presente dilatado em que o passado cresce à nossa frente e o futuro consta como uma visão do passado. ENCONTRAR NOVOS MODOS DE ENTENDER NOSSA PRÓPRIA CONTEMPORANEIDADE. presente e futuro. O pensamento de Warburg nunca cessou de colocar a história da arte em movimento.CONTRÁRIO DE FAZER DA HISTORIA UMA NARRATIVA. o conceito de “contemporâneo” hoje não significa apenas a simples coincidência temporal entre dois fenômenos. Saber-montagem inaugurado por Warburg renuncia aos esquemas evolutivos e teleológicos em vigor desde Vasari. ULTERLLY. traçando pontes entre o passado e o presente. portadoras de uma memória coletiva. em que as imagens.

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