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DOSSE, F.

Os engajamentos políticos de Gilles Deleuze

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OS ENGAJAMENTOS POLÍTICOS DE GILLES DELEUZE* Gilles Deleuze’s Political Commitments
François Dosse**

RESUMO
Por trás da obra filosófica de Gilles Deleuze, voltada notadamente à construção de conceitos, percebe-se sua propensão à defesa de causas políticas, pontuais e concretas. A partir de maio de 1968, ele participa de movimentos sociais (GIP) e de debates políticos e intelectuais que animaram a década de 1970. Seus escritos filosóficos atestam seu espírito ”rebelde” e sua aversão a toda forma de poder e de opressão. Palavras-chave: Maio de 1968; movimentos sociais; debates inte­ lectuais.

ABSTRACT
Behind the philosophical work of Gilles Deleuze, directed mainly to the construction of concepts, we can make out his propensity for political advocacy, both timely and concrete. From May 1968, he participated in social movements (GIP) and political and intellectual debates that animated the 1970s. His philosophical writings attest to his “rebel” spirit and his aversion to all forms of power and oppression. Key-words: May 1968; social movements; intellectual debates.

O horizonte politico, no sentido amplo do termo, atravessa o pensamento de Gilles Deleuze e seu trajeto intelectual é pontuado por engajamentos. No entanto, sua posiçao difere-se daquela do intelectual engajado, porta-voz da justiça, frente à razão de Estado, à maneira de Sartre, durante o mesmo periodo. Ou melhor, ele seria um intelectual específico, tal como o definiu seu amigo Foucault, ou seja, ele colocaria suas competências a
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Traduzido para o português por Germaine Mandelsaft. Professor na Université de Paris XII e no Institut d’Études Politiques, Paris.

História: Questões & Debates, Curitiba, n. 53, p. 151-170, jul./dez. 2010. Editora UFPR

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DOSSE, F. Os engajamentos políticos de Gilles Deleuze

serviço do espaço público. Se, nesse trabalho limitado, a nossa intenção é identificar os momentos em que Deleuze deixou de lado seu trabalho de criador de conceitos para tomar posições públicas, isso não significa que haja uma fratura entre o filósofo e o político. Pois, do início até o fim, desde seus primeiros trabalhos sobre Hume até as suas últimas reflexões sobre o virtual, toda a sua obra circunscreve-se no espaço do político, aquele da reabertura incessante das forças de criatividade e do enfraquecimento das limitações institucionais. Sem dúvida, sua travessia de maio de 1968 e seu encontro, em seguida, com Félix Guattari, aumentaram a visibilidade desse engajamento político. Esse gesto (de uma consciência política) se enraiza, provavelmente, num terreno histórico, comum a ambos, isso é, o trauma da Segunda Guerra Mundial que eles atravessaram, jovens demais, para desempenhar um papel ativo. A resistência dos dois à barbárie foi adiada e podemos até supor que a revolta dos mesmos poderia ser vista como um efeito retardado do terremoto representado pela vitória do nazismo na visão do Ocidente e de seus valores. Criar novos conceitos torna-se um imperativo absoluto: o traumatismo da barbárie nazista o obriga a retomar, novamente, a tarefa do pensar. Pensar impõe ser digno de um evento que Deleuze e Guattari atravessaram bastante jovens. O pensar pode ser encontrado através da sua abordagem da história do cinema, que Deleuze vai se inspirar no trabalho do crítico francês André Bazin. A filosofia não pode sair desarmada da travessia da tragédia histórica. Pelo contrário, ela não pode abdicar da sua função: “Certamente, não há razão para acreditar que não podemos mais pensar depois de Auschwitz, e que somos todos responsáveis pelo nazismo”1. Mas, um sentimento subsiste e que, segundo a incandescente formulação de Primo Levi é: “A vergonha de ser um homem”. Embora cada um de nós seja maculado pelo nazismo, nós não somos responsáveis por ele. “Há catástrofe, mas a catástrofe consiste no fato da sociedade de irmãos ou de amigos terem passado por uma tal prova, impedindo que eles possam se olhar [novamente] um para o outro, ou cada um para si

1 DELEUZE, Gilles, GUATTARI, Félix. Qu’est-ce que la philosophie? Paris: Les Éditons de Minuit, 1991, p. 102. PRADO Jr., Bento; ALONSO MUÑOZ, Alberto (Trad.). O que é a Filosofia? São Paulo: Editora 34, 1992, p. 138.

História: Questões & Debates, Curitiba, n. 53, p. 151-170, jul./dez. 2010. Editora UFPR

já que vocês são os únicos que entendem. p. Em seguida à publicação do livro de Mascolo. Não há intenção de segredo. p. 1992. 6 août 1988. Lettre à Gilles Deleuze. Qu’est-ce que la philosophie? Op. Gilles. O que é a Filosofia? São Paulo: Editora 34. 4 Correspondance Dionys Mascolo-Gilles Deleuze. fundadora. e também com Blanchot. afirma Mascolo. 30 avril 1988. p. 3 Ibid. é profundamente ressentida por Deleuze. Editora UFPR . In: Deux régimes de fous. de maneira tão intensa.. Os engajamentos políticos de Gilles Deleuze 153 mesmo. F. Dionys. em 1987. 2010. p. o relacionamento entre o pensamento e a vida. que se tornou imperativa. ALONSO MUÑOZ. 306. também in: DELEUZE. Esta transformação do pensamento. p. 5 MASCOLO. e não como segunda. ao pé da letra. Mascolo responde que esse suposto segredo6 “talvez fosse. Paris: Les Éditons de Minuit. jul.. 141. n. 33. como atesta a correspondência mantida com Dionys Mascolo4. Autour d’un effort de mémoire. cit. 1987..). 307. Autour d’un effort de mémoire. A travessia dessa experiência e da sua memória requer repensar e passar pelo crivo da crítica algumas teses canônicas da história do pensamento: “Como os conceitos (de Heidegger) não seriam. Na sua resposta. sem [ressentirem] uma “fadiga”. Após Auschwitz./dez. História: Questões & Debates. Deleuze sugere uma inversão da ordem das coisas e lhe pede que considere a amizade como primeira. Alberto (Trad. Isto implica uma reevaluação total da ‘filosofia’. Nadeau. 8 DELEUZE. “Este sentimento de vergonha é um dos mais poderosos motivos da filosofia. 102. Dionys. 139. op. uma outra metafísica que restaura a relação com o caos para criar forças vitais e não mortíferas. não podemos 2 Ibid. Encontramos. renovado. mas este sofrimento constitui o alicerce para eventuais amizades. 151-170. no fundo.. n. Curitiba. 140. Félix. 7 DELEUZE. a palavra philos”7. Deux régimes de fous. mas diante das vítimas”3. PRADO Jr. Gilles. nessa instância. 53. 20. cit. 222-226.. p. p. p. é a amizade. 305-310. Lettre à Dionys Mascolo. p. Bento. Essa oportunidade o leva a questionar a afirmação de que “tal transtorno da sensibilidade geral só pode conduzir a novas disposições do pensamento”5. maculados por uma reterritorialização abjecta?”8 E para preparar devires de liberdade. Gilles. segundo ele. compensatória: “Com você. 2003. Não somos responsáveis pelas vítimas.. Lignes. talvez uma desconfiança”2. 6 MASCOLO. p. p. 104.DOSSE. nós não podemos mais ter o candor dos gregos. intrinsicamente. E isso é um sofrimento”. 103. somente um pensamento que desconfia do próprio pensamento. Ibid. Paris: M. p. Deleuze exprime sua admiração pela obra por ter. Deleuze pressente que Mascolo possui um segredo. mars 1998. GUATTARI.

em 1984. Curitiba.. é bem provável que esse encontro nunca tivesse ocorrido. os efeitos do trauma da Segunda Guerra Mundial. a uma forma futura. 2010.154 DOSSE. O evento Maio 68 foi essa ruptura no fluxo. 143. isto é. Gilles. Se Deleuze e Guattari sofreram. esse acontecimento vai preparar o encontro entre os dois. eles percebem. passado. está. n. nitidamente. p. invoca uma nova terra e um povo que não existe ainda”9. Essencialmente filosófica. 1988. Junto com Guattari. resultam numa colocação diferente de problemas diferentes. por outro lado eles participaram. Evitar a abjecção requer a experimentação de conceitos criados: “pensar é experimentar. plenamente. p. 53. necessária para a liberação da combinação das forças criativas de ambos.. E os problemas crescem. 106. a experimentação não pode se gabar de possuir qualquer território. p. tornando-o frutífero. Particularmente sensíveis às questões do tempo em que vivem. L’Abécédaire de Gilles Deleuze (avec Claire Parnet). p. jul. imediatamente./dez. A primeira obra escrita em conjunto. Deleuze afirmará muito mais tarde. pois ela é a sua definição. 10 Ibid. presente ou futuro: “Nunca me senti comovido por aqueles que dizem que deve-se ir além da filosofia. Os engajamentos políticos de Gilles Deleuze recuar diante da necessidade de criar: “Falta-nos resistência ao presente. 151-170. Fazer filosofia é criar novos conceitos em função de problemas que ocorrem hoje. Sem Maio de 68. 104. enraizada no movimento de Maio. História: Questões & Debates. haverá a filosofia. como seu futuro amigo Guattari. Desde que haja necessidade de criar conceitos.. do acontecimento subsequente. nem por Deleuze. 141. F. sociais. lateral e retrospectivamente. Editora UFPR . O último aspecto seria: o que quer dizer evolução dos problemas? As forças históricas. Ela esboça as modalidades de um pensamento renovado do mundo. Há um devir do pensamento que permanece misterioso”11.. Paris: PierreAndré Boutang. mas também um devir do pensamento. Há uma história do pensamento que não pode ser reduzida a um conjunto de influências. 11 DELEUZE. O anti-Édipo. Esse apego ao impulso vital jamais será negado. nem por Guattari. A criação de conceitos faz apelo por si mesma. mas a experimentação é sempre o que se está fazendo”10. p. que só renegados podem dizer que um evento 9 Ibid. seu valor de ruptura instauradora. Embora Deleuze não seja um militante revolucionário. de Maio de 68.

visando provocar uma 12 DELEUZE. 53. que. é recebido com cartazes. O possível não preexiste. mas não é isso que importa. Ele é um dos poucos professores universitários que declara. inesperadamente. visse o que continha de intolerável e também visse a possibilidade de algo mais. Houve muita agitação em 68./dez. totalmente. sob a forma: [me dê] “o que é possível. cit. É uma questão de vida. F. Os engajamentos políticos de Gilles Deleuze 155 pode ser ultrapassado. de repente. Quando. Deux régimes de fous. op. É um fenômeno coletivo. participando das assembleias gerais e das passeatas dos estudantes de Lyon. ele é o único professor do Departamento de Filosofia presente no movimento. Félix. n. livre de qualquer causalidade normal ou normativa”.. Julien e Emilie. Curitiba. Deleuze aderiu. escritora e militante política] e seu marido neste mês de maio. escuta-os sem jamais se erigir em pregador de verdades. repris dans DELEUZE. bandeiras vermelhas e faixas penduradas na varanda pelos filhos de Deleuze. Les Nouvelles Littéraires. O evento cria uma nova existência. O que importa é que foi um fenômeno de clarividência como se uma sociedade. Mai 68 n’a pas eu lieu. e anuncia que um projeto de intervenção enérgica pela extrema direita está em preparação. 151-170. 3-9 mai 1984. Num jantar preparado para Jeannette Colombel [professora de filosofia. jul. torna-se bastante receptivo aos protestos estudantis. 2010. dia 10 de Maio de 1968. Editora UFPR . Aliás.. A ruptura instauradora: Maio de 1968 Em Maio de 68.. ele é criado pelo evento. Gilles. p. na sexta-feira. um estudante chega. Maurice de Gandillac. Ele simpatiza com os estudantes. o acontecimento atravessa um indivíduo da mesma maneira que ele atravessa a sociedade. seu orientador de tese de doutorado [d’état].”. por sua vez. História: Questões & Debates. De fato. GUATTARI. passa por sua casa em Lyon. de imediato. produz uma nova subjetividade”12. Deleuze leciona na Universidade de Lyon e. ele afirma: “Maio de 68 participa mais da ordem de um acontecimento puro. Respondendo à tentação reducionista das ciências sociais. p. senão eu sufoco. publicamente. Sua história é “uma sucessão de instabilidades e de flutuações simplificadas”. ao movimento. Gilles.DOSSE. 215-216. seu apoio.

PINHAS. Abécédaire. sobretudo. André. Eles estavam com medo. n. 1988. o “Mas Revery”. mas os confrontos do movimento de maio ainda estão longe de um término. Eu me lembro que o presidente do júri havia dito: existem duas possibilidades. Os membros do júri tinham uma obsessão: como evitar os bandos [de agitadores] que se encontravam na Sorbonne. de modo a não cansar o candidato. sem que seja feito um procedimento cirúrgico. p. embora sua prioridade seja finalizar sua tese de doutorado e defendê-la no outono de 68. 53. continuamos a defesa no primeiro andar. Durante o verão. 151-170.). 2010. de modo a não comprometer sua defesa de tese. ou fazemos a defesa no andar térreo. quando defendi minha tese. cujo trabalho é considerado por todos de qualidade excepcional. Paris: Hermann.. que não foram convidados para a defesa. Publicada neste mesmo ano. Então. para espiar se os bandos estavam chegando14. Curitiba. Professeur. lettre P. 2005. mas há uma desvantagem: só existe uma mesma entrada e saída. Mas. com Claire Parnet. cit. resistente a antibióticos e responsável por uma enorme perfuração em um dos pulmões. Deleuze é sensível ao movimento de Maio. Editora UFPR . que é adiada para janeiro de 1969. por meio da qual ele abandona o longo periodo da história da filosofia para expressar suas próprias posições filosóficas. Mas seu cansaço é tão grande que o leva a consultar um médico. para irmos ao encontro dos nossos estudantes”13. p. porque esses bandos não costumam subir até lá. ele se dedica a essa tarefa. e questiona Deleuze sobre a possibilidade da continuação da sua defesa. no início de 1969. Os engajamentos políticos de Gilles Deleuze briga contra o piquete dos universitários: “Gilles e eu descemos as escadas. 13 COLOMBEL. que tem a vantagem de ter duas saídas. mas a desvantagem é que os bandos vagueiam por lá. o júri decide encurtar a duração da defesa. o júri teme a chegada de intrusos. localizada na região de Limoges. é a sua grande obra. Conhecendo seu grave estado de saúde.156 DOSSE. História: Questões & Debates. Richard (Dir. Jeannette. Ou. apressadamente. F. nunca cheguei a cruzar o olhar do presidente do júri. na propriedade da família. op. Ele necessita ser internado às pressas. Deleuze apresenta na Sorbonne. jul. essa tese de doutorado. constituindo-se numa exceção no meio acadêmico de Lyon. 43. que diagnostica a repetição de uma velha tuberculose. então. In: BERNOLD. Deleuze-Sartre: pistes. porque seus olhos estavam grudados na porta. Gilles. Portanto. 14 DELEUZE. uma das primeiras teses após o movimento de Maio./dez. Deleuze épars. Diferença e repetição.

carregarmos o brilho da chegada dessa ruptura. mencionado frequentemente por Deleuze. como também a tantos outros. uma continuação de Maio de 1968”15. o GIP (Grupo de Informações sobre as Prisões). Editora UFPR . Gilles. a primeira obra escrita em conjunto com Guattari. n. um ano inteiro de convalescença. em 1967. esse encontro não teria ocorrido. Este grupo derivava diretamente da corrente maoísta e da vontade de proteção aos militantes da GP (Esquerda Proletária). Curitiba. O GIP: um modelo de “máquina de guerra” De natureza pouco ativista e diminuído por seus graves problemas respiratórios. no início dos anos 70. Deleuze foi submetido a uma cirurgia grave – uma toracoplastia – que o deixou com apenas um pulmão. Os engajamentos políticos de Gilles Deleuze 157 Após a apresentação e defesa desta tese. além de uma insuficiência respiratória. Deleuze.DOSSE. nós devemos ser dignos dos acontecimentos. É nesse momento de enfraquecimento vital e de afastamento temporário e forçado que Deleuze fez o encontro fundamental com Félix Guattari. Entretien sur L’Anti-Œdipe. a Gilles e a mim. O anti-Édipo. que lhe forneceu um segundo fôlego. L’Arc. 26. em todo caso. Paris: Les Éditons de Minuit. abriu uma exceção e se engajou na organização criada por seu amigo Foucault. 49. 2010. no entanto. Essa cirurgia necessitou também de um longo periodo de repouso. 151-170. Comentando a publicação dessa primeira obra conjunta. p. Félix. está claramente enraizada no movimento de Maio de 68. mas esse livro foi. transformando-a em devir libertador. F. longe de toda agitação. in: DELEUZE. 53. Portanto. mas logo o grupo se afastou deste primeiro objetivo. 1990. p. apresentando o sinal da efervescência intelectual do período. Nós não nos conhecíamos. jul. Sem o acontecimento Maio de 68. O GIP se 15 GUATTARI. n. Pourparlers. Ela esboça as modalidades de um pensamento renovado do mundo moderno. Félix Guattari confirmou esse enraizamento: “Maio de 68 nos abalou. História: Questões & Debates./dez. 1972. Segundo o ensinamento de Joel Bousquet. em sua propriedade da região do Limousin. que ele passou na companhia de sua esposa. Isso o obrigou a se submeter a perfusões repetidas até o final de sua vida.

O GIP promoveu. nesta cidade. F. Entre outras coisas.158 DOSSE. tão devastador para as autoridades que a mesma acabou sendo demitida de suas funções. na prisão de Toul. Editora UFPR . Curitiba. ao mesmo tempo. havia trinta e dois movimentos de revolta. durante o inverno de 1971-1972. Na noite de Natal. em setembro de 1971. excluído pelos próprios regulamentos da administração penitenciária. Deleuze testemunhou durante o processo para defender o jornal que tinha questionado a inspeção 16 DELEUZE. onde aproximadamente quinze presos foram feridos. tendo por base um grupo por prisão. Imediatamente. 17 Mort d’un surveillant chef. se inclinar e tossir. No dia 27 de abril. Deleuze foi seduzido por este tipo de organização. podiam ficar amarrados numa cama de metal por vários dias: “Na sua chegada à prisão. Este modelo parisiense rapidamente se espalhou pelas prisões do interior da França. funcionando sem centralização. o GIP organizou uma manifestação da qual participaram Foucault e Deleuze. Guignol. visando acalmar a ansiedade dos guardas. onde alguns ativistas encontravam-se presos. o “Comitê Verdade e Justiça” e. Gilles. Essa decisão atiçou a contestação latente nas prisões. p. o detento está submetido ao seguinte procedimento. em frente à prisão da Santé. Alegando que uma tensão crescente existia nas prisões. n. Foucault deu uma entrevista coletiva para divulgar o relatório da psiquiatra Edith Rose. em Paris. Foucault conseguiu não se comportar como um líder”16. História: Questões & Debates. após a tomada de reféns e a execução dos mesmos. violentos confrontos ocorreram. jul. Universidade de Paris 8. havia rompido com toda forma de centralismo e de burocracia e que se definia como uma microestrutura: “O GIP desenvolveu um dos únicos grupos de esquerda. por Buffet e Bontemps.. Aula de 28 de janeiro de 1986. na solitária./dez. ela revelou que os presos. 2010. Supostamente é para ver se não há nada escondido no orifício”17. sobretudo.. que parecia encarnar um grupo voltado a uma resistência prática e eficaz que. no entanto muito praticado. alguns dos quais chegaram até a destruir as celas e a ocupar os telhados. como um castigo coletivo. 9 septembre 1971. no dia 16 de dezembro. na prisão de Clairvaux. Ao longo do mês de dezembro de 1971. 151-170. Os engajamentos políticos de Gilles Deleuze organizou de maneira completamente descentralizada. o ministro da Justiça decidiu cancelar a entrega dos presentes de Natal enviados pelas famílias dos presos. 53. O réu tem que se despir. fora da prisão. arquivos sonoros da BNF (Biblioteca Nacional da França).

Hélène Cixous. algumas vezes. estiveram presentes o casal Deleuze. Claude Mauriac. por exemplo. e deram início a uma amizade ao longo das quatro horas de viagem. foi rapidamente interrompido pelo ataque da polícia e disse o seguinte: “Como meu chefe não está presente. Jacques Donzelot e alguns outros se deslocaram até Nancy para participar de uma manifestação. o motim dos presos foi duramente reprimido e seis entre os duzentos amotinados foram julgados pelos tribunais. Jean-Pierre Faye. Ele mal havia pronunciado essas palavras proféticas e os tiras caíram em cima deles.DOSSE. na Place Vendôme. Curitiba. Foucault foi detido. amigo do Foucault. A intervenção da polícia se fez sem entusiasmo. ficou ao seu lado. Todas essas pessoas ficaram sentadas no chão do corredor do Ministério. Yves Hardy. Daniel Defert. p. o jovem Jacques Donzelot. já em um estado semicomatoso. Sartre 18 Entre outros. Jean-Pierre Bamberger. n. Deleuze subiu num banco para discursar. Jacques-Alain Miller. Gilles Deleuze. 151-170. Editora UFPR . para ouvirem a declaração dos detentos de Melun. Jean-Pierre Faye. para Paris. o filósofo Jean-Pierre Faye conversou com um jornalista do diário L’Est Républicain que disse-lhe que essa manifestação não apresentava o menor interesse. Monique Antoine. Jérôme Peignot. François Régnault. Jean Chesneaux. Michel Foucault. Os engajamentos políticos de Gilles Deleuze 159 dos detentos e havia afirmado que esse procedimento era um sistema de humilhação. Em 17 de janeiro de 1972. para dar uma entrevista coletiva18. Ficam irritados. juntos. Um pequeno grupo de personalidades quis penetrar no Ministério da Justiça. René Schérer. André Glucksmann. em Paris. Por isso. após ter tentado ajudar um imigrante que estava sendo espancado. lida por Foucault. Na praça principal de Nancy. F. Muito preocupado com a saúde dele. Em Nancy. ele disse a Donzelot: “Ah. vou falar no lugar dele”. No entanto. Por causa das suas dificuldades respiratórias e do ataque da polícia. a fim de protestar contra a repressão nas prisões. sob as vaias e os gritos de “Pleven [ministro da Justiça] na cadeia” ou “Pleven assassino!”: “Os tiras nos empurram cada vez mais. não pôde estar presente. 53. 2010. Marianne Merleau-Ponty. Sylvie Marion. obrigados a viajar para o interior da França. Daniel Defert. o GIP mobilizou vários intelectuais e conseguiu reunir Sartre e Foucault no mesmo ato de contestação. o fotógrafo Elie Kagan… História: Questões & Debates. Deleuze teve que deitar no chão. Dominique Desanti. Os intelectuais do GIP foram. Michelle Vian. jul. Christian Descamps. Quando Deleuze acordou. você está aqui? É muito gentil!” Os dois voltaram de trem./dez. Jean-Paul Sartre. Faye o aconselhou a esperar alguns minutos.

Finalmente expulsos do Ministério. Editora UFPR . Pouco tempo depois.. Mas os tiras acabam dominando o confronto. p. p. muito preocupado e pálido. Deleuze resiste e não consegue parar de rir. p. 2004. in: Michel Foucault. ao isolamento em cela de segurança. 53. Paris: Les Éditons de Minuit. 286. Paris: Aedelsa Éd. e conseguem empurrar o grupo para fora do prédio. Na primavera de 1971. Mauriac et Fils. Titre: Michel Foucault. História: Questões & Debates. ele seja publicamente denunciado por aquele que foi espancado ou por alguma testemunha”22. une journée particulière. à exploração do trabalho e à liberação condicional. ou um mês depois... a expressão dos prisioneiros era algo inteiramente novo que deixava de ser uma “confissão pública”. 22 Ibid. jul. no dia 16 de dezembro de 1972. 1986. sendo mais uma “crítica personalizada”21: “Chegará o dia em que nenhum guarda poderá agredir um detento sem que.”20 Ele lembrou as reivindicações dos mesmos em relação ao final da censura. na rua Dussoubs.. 31 de janeiro de 1972. “Somos todos grupúsculos” Além das ações referentes às prisões. encaixado em L’Ile déserte et autres textes. F. Type de document: texte imprimé. Deleuze escreveu em Le Nouvel Observateur o artigo: “O que os presos esperam de nós. Foucault ficou particularmente atento e preocupado com a saúde de seu amigo Deleuze. o GIP se mobilizou também em torno da repressão e do racismo. Le Nouvel Observateur. Gilles. p. indagou [o escritor] Claude Mauriac: “Você viu o Deleuze?. une journée particulière.”23. a entrevista coletiva realizou-se na sede da Agência de Notícias do jornal Libération (APL)..160 DOSSE. Année de publication: 2004. Michel Foucault. n.. 287../dez. no dia 31 de janeiro de 1972. Photographe Editeur: Aedelsa (Lyon). Claude. às salas do tribunal. Assim. que estava protegido por uma tripla fileira de policiais armados e usando capacetes. 2002. Segundo ele. até a calçada”19. 2010. Auteur: Philippe Artières. Curitiba. 20 DELEUZE. Os engajamentos políticos de Gilles Deleuze resiste. 15. 388. Auteur: Elie Kagan. Durante todas essas manifestações. Foucault resiste. 151-170. Espero que não tenha sido preso. após confrontos com a polícia. no dia seguinte. p. Paris: Grasset. Auteur: Alain Jaubert... Faye resiste. 23 MAURIAC. 21 Ibid. o caso Jaubert 19 ALAIN.

151-170. colocando-as em um quadro mais concreto. o intelectual teórico deixou de ser um sujeito. jul.. Simone Signoret.. n. em Paris. em 1972: “somos todos grupúsculos”25. 24 DELEUZE. Foucault anunciou a formação desta comissão em uma reunião presidida por Claude Mauriac. F. Foucault se responsabilizou em constituir uma nova comissão de inquérito. L’Arc. Deleuze afirmou. BDIC. O contexto de tensão racial crescente foi revelado através desse caso e manifestações foram organizadas contra esse crime racista. O marido da zeladora presenciou a cena. Foucault. Deleuze exprimiu o seguinte: “As primeiras perguntas foram colocadas a partir de um comunicado emitido pela Administração Central da polícia. o nome de um jovem argelino que espancou a zeladora de seu prédio. Ele acabou sendo levado num camburão e espancado pelos policiais militares.. Ele tem um outro objetivo. Após uma intervenção de Denis Langlois. Jornalista na revista semanal Le Nouvel Observateur. assinado por Deleuze. 49.”24 O outro caso disse respeito ao Djellali. Les intellectuels et le pouvoir. Deleuze. p. Michel Leiris. A razão pela qual este comunicado é tão incrível é porque ele não pretende ser acreditado. Claude Mauriac. Jean-Claude Passeron. Jean Genet. Alain Jaubert testemunhou a brutalidade da polícia durante uma manifestação de antilhanos. no dia 30 de maio. 4 mars 1972. Curitiba. segundo ele. Os engajamentos políticos de Gilles Deleuze 161 veio à tona. Sartre. organizados por Deleuze e Foucault em conjunto. n. Arquivos Université de Paris 8. Yves Montand. 289. Uma comissão de informação foi constituida e deu uma entrevista coletiva no dia 21 de junho de 1971./dez.DOSSE. entre outros. “Para nós. 2002. no bairro popular da Goutte d’Or. Em 27 de novembro de 1971. Gilles. Jean Genet.. que reuniu. No decorrer desta intrevista. que é a intimidação. Sartre e Foucault lideraram uma manifestação no bairro da Goutte d’Or e o cartaz que eles apresentaram à multidão era um “Apelo aos trabalhadores do bairro”. História: Questões & Debates. 26 Ibid. Deleuze via no GIP a expressão de um novo tipo de organização que poderia renovar a relação entre teoria e prática.. 289. Editora UFPR . uma consciência representante e representativa”26. acidentalmente. p. 25 DELEUZE. local e parcial. o argelino Djellali. Paris: Les Éditons de Minuit. 53. Esses atos de militantismo. 2010. apanhou sua arma e matou. Gilles. proporcionaram um diálogo entre os mesmos sobre a definição das novas missões dos intelectuais em relação ao poder. também in: L’Ile déserte et autres textes. no outono deste ano de 1971. p.

Pois. 28 FOUCAULT. Os engajamentos políticos de Gilles Deleuze Por sua vez. bem como a várias instituições de pesquisa. Mas os ativistas de extrema esquerda enfrentavam uma repressão que se tornava cada vez mais intensa e apelaram à solidariedade dos 27 Centre d’Étude. à psicoterapia institucional. enquanto encarnação da verdade. n. 53. Entrevista com M. 2010. um Maio de 68 tardio. Michel. F. elaborados em conjunto com Deleuze. Foucault considerava que o papel do intelectual. Um vasto movimento de autonomia crescia nos campi universitários. que eram lugares de experimentação de conceitos. tome 2. suas insatisfações. havia terminado. dizia Foucault28. amplamente inspirado pelas teoria d’O anti-Édipo. jul. 151-170. n. 3 mars 1974. da melhor maneira possível. enquanto que Foucault tentava propor um conjunto de ferramentas: “Eu gostaria que meus livros fossem uma espécie de tool-box. Com efeito. se Foucault frequentava o hospital psiquiátrico Sainte Anne. se interessava pela psiquiatria. Guattari se inscrevia em uma variedade de práticas sociais. por sua vez Deleuze e Guattari produziam conceitos e máquinas e testavam o que esses últimos poderiam produzir na realidade social. Editora UFPR . ligadas à militância. em seguida escrevia Vigiar e punir e trabalhava sobre a analítica do poder. Avanti. era bem diferente. 523. 53./dez. p. por um lado. História: Questões & Debates. a experimentação. criava o GIP. D’Eramo. e a prática. de Recherche et de Formation Institutionnelles. onde os outros pudessem encontrar uma ferramenta com a qual pudessem fazer o que quisessem em suas áreas”. a conceitualização. por outro. designado como “anos de chumbo”. como o CERFI27. Curitiba. também in: Dits et Écrits. traduzido em italiano. pois a democratização da sociedade havia possibilitado que cada categoria social exprimisse. Prisons et asiles dans le mécanisme du pouvoir. em 1977. com muita efervescência e um ambiente muito tenso. No entanto. Esta é a razão pela qual a dupla Deleuze/Guattari parecia tão única e rica. em 1975.162 DOSSE. podemos considerar que a maneira como eles encaravam a relação entre a teoria. p. Solidariedades internacionais A Itália vivenciava.

2010. segundo 29 DELEUZE. sem a existência de algo tangível no processo penal e usou a mesma analogia feita posteriormente por Carlo Ginzburg. segundo o princípio de disjunção ou de exclusão. refugiou-se em Paris. redigiu um apelo condenando a repressão contra o movimento na Itália. junto com Guattari. Michel Foucault. Em julho de 1977. neste caso judicial. Ou seja: os interrogatórios eram similares àqueles realizados pela Inquisição. Curitiba. O réu não pode ter estado em um local e. Ele se mostrou surpreso que fosse possível processar alguém. p. por Gilles Deleuze. Gilles Deleuze proclamou a inocência do mesmo. jul. La Republica.. a acusação não tem a mínima consistência identificável para sustentar um procedimento penal.. a imprensa também procede pela simples acumulação de rumores e boatos e. por sinal. a investigação e o inquérito devem ter um mínimo de coerência.. Bifo. 115-159. 156. Mais adiante. 53.DOSSE. neste caso preciso. articulador da Rádio Alice em Bolonha. 10 de maio 1979. Gilles. que havia sido cercada pela polícia. despertando. Julia Kristeva. 31 Ibid. enquanto que. F. Deux régimes de fous. p. n. em uma carta escrita para os juízes. Bifo foi acolhido como refugiado político e. ao mesmo tempo. Em segundo lugar. Editora UFPR . Finalmente. Bifo foi pessoalmente pedir a assinatura a Jean-Paul Sartre. Roland Barthes. Ele foi assinado. no final do julgamento de seu amigo Sofri. 151-170. também in: DELEUZE. e prendê-lo. em um outro. em 10 de maio de 197929. publicada em La Republica. Os engajamentos políticos de Gilles Deleuze 163 intelectuais franceses. Gilles. Foi nessa conjuntura que Deleuze e Guattari manifestaram sua solidariedade. Gilles Deleuze enunciou alguns princípios que./dez. nesse caso. p. História: Questões & Debates. uma polêmica acirrada entre os italianos. em 1979. Em terceiro lugar. Antes do início do processo judícial. entre outros. o filósofo Toni Negri. 2003. a justiça deve obedecer a um certo princípio de identidade”30. p. considerado como não passível de extradição. adicionando os termos contraditórios”31. logo após a prisão de Negri. Philippe Sollers. a acusação “age pela inclusão. 30 Ibid. outro ativista da extrema esquerda. Lettera aperta ai guidieri di Negri. No entanto. Paris: Les Éditons de Minuit.. Este apelo questionava e condenava tanto o poder democrata-cristão quanto a política de compromisso histórico do PCI (Partido Comunista Italiano). concerniam a todos os democratas: “Em primeiro lugar. foi preso na Itália. 157. mas foi preso e ameaçado de extradição.

em Roma.]. Ele propôs ao seu editor. Finalmente. Gilles Deleuze escreveu no jornal Le Matin de Paris um artigo sobre a inocência desse autor. em Milão e em Paris. uma prova de inocência”33.. No entanto. a todas as livrarias. um intelectual importante na França e na Itália”32. acusando-os. Dito e feito. Editora UFPR . uma vez que recusava qualquer forma de midiatização e nunca desviou desse princípio. na data de 19-21 de junho de 1977. sem tardar. p. Gilles. 53. antecipadamente. enfatizando que “Negri é um teórico. ele sugeria aos juízes que investigavam as intenções de Negri para determinar seu grau de envolvimento. 161. era “[. Abaixo o “trabalho mal feito” Deleuze permaneceu longe do borbulho mediático. uma exceção a essa regra. Deux régimes de fous. por ocasião da publicação do livro de Toni Negri. ao mesmo momento. de interferir no que não lhes dizia respeito. algumas indiscrições chegaram até o jornal Le Monde que.. 2010. 151-170. no entanto. pela Editora Bourgois. para se opor. Ibid.. pois ele é capaz de estar. História: Questões & Debates. Gilles Deleuze respondeu. jul. continuando inflexível nesse ponto. 33 DELEUZE. à violenta crítica dos italianos aos intelectuais franceses. Jerôme Lindon.164 DOSSE. Jérôme Lindon concordou e esse plano devia ser sigiloso. literalmente. escrever algumas páginas em forma de um pequeno fascículo. em 1977. Se ele odiava todo tipo de controvérsia que o afastasse da construção positiva de sua própria obra. p. Le Matin de Paris. de lerem seu livro que. publicou esse texto na sua página “Idéias”. Todos os livreiros deveriam disponibilizá-lo aos clientes. às teses dos “novos filósofos”. Marx para além de Marx. 158. 32 Ibid. Nesse texto. n. F. o folheto conheceu um verdadeiro sucesso nas livrarias. Toni Negri possui um dom especial de ubiquidade. diretor das Éditions de Minuit./dez. pelas Éditions de Minuit. no caso Aldo Moro.. Pouco tempo depois. vigorosamente. Curitiba. que seria distribuído gratuitamente. Os engajamentos políticos de Gilles Deleuze ela. também in: DELEUZE. ele abriu. segundo Deleuze. em relação ao apelo de Bolonha. Gilles. 13 dezembro de 1979. Enquanto isso. p.

quanto mais fraco é o conteúdo do pensamento. 127. mais importante é o pensador. Este triunfo dessa nova equipe. n. Nesta ocasião.”35. p. Curitiba. Os engajamentos políticos de Gilles Deleuze 165 Datado de 5 de junho de 1977. ele foi contundente. O mundo. 53. Supplément de Minuit. É o ato jornalístico que faz o 34 DELEUZE. tão grosseiros quanto dentes ocos. n. Primeiro. A rebelião. À pergunta “O que você acha dos “novos filósofos”?” Deleuze respondeu de maneira brusca: Nada. aquele que ele havia iniciado com Guattari. Ao mesmo tempo. O poder. jul. às vezes o animador alegre e às vezes o disc-jóquei. A fé etc. eles podem fazer misturas grotescas. Eu acho que o pensamento deles é zero. também in: Deux régimes de fous. o poder e o anjo. Paris: Les Éditons de Minuit.. A lei. Então é hora de colocar as coisas em seu lugar e Deleuze vê no fenômeno dos “novos filósofos” um casting especial. a lei e o rebelde. Essa simulação do pensamento exerce sua sedução e sugere que podemos deixar de lado o trabalho de complexidade. às vezes o produtor. de desenvolvimento de conceitos para evitar esse tipo de dilemas dualistas e simplificadores: “Eles estragam o trabalho”. a inversão da relação entre jornalismo e criação intelectual..DOSSE. uma ordenação cuidadosa dos papéis: “Há um pouco do Dr. O problema com esses novos filósofos é que eles não são sérios. A propos des nouveaux philosophes et d’un problème plus général. mai 1977. Mabuse em Clavel. História: Questões & Debates. um Dr. Alguém tinha que pensar nisso. Assim./dez. comentou Deleuze e. p. dualismos sumários. F. os dois assessores de Mabuse (eles querem ‘prender’ Nietzsche). Benoist é o entregador. O fenômeno novo é a introdução de regras de marketing no campo da filosofia. Lévy é. segundo Deleuze. Editora UFPR . eles utilizam conceitos grosseiros. 2010. dans Deux régimes de fous. O mestre. Vejo duas razões possíveis para esse vazio. Por um lado. em particular. consciente de que esses filósofos de má qualidade ameaçavam o próprio pensamento. Mabuse evangélico. 24. como disse Deleuze.. 151-170. se explica por dois motivos principais. ele é o Nestor. 35 Ibid. p. Jambet e Lardreau representam Spöri e Pesch. 2003. o texto de Deleuze se apresentava em forma de respostas a questões. Gilles. e mais o sujeito de enunciação se acha importante em relação aos enunciados vazios34. 129. às vezes o continuísta.

Portanto. onde circulava pouco ar. Deleuze nos convoca para uma celebração da vida.133. Eles se sustentam de cadáveres. aqueles que arriscam suas vidas pensam em termos de vida e não de morte. o que motivava esses comediantes ambulantes era o ódio de 1968: “Era uma verdadeira competição de quem difamaria mais Maio de 68: a aversão a Maio de 68 era a única coisa que eles propunham”36. p. quando não há mais tempo para pensar. A causa palestina: uma exemplificação do povo nômade A sensibilidade aos povos sem terra. Em segundo lugar. Enquanto Deleuze e Guattari se esforçavam em preservar um pouco de ar para poder respirar. F. à implantação de um “pensamento-minuto”. 2010. frente aos perigos mortíferos que podem derrubar séculos de esforço intelectual. 53. Com efeito. desterritorializados é o alicerce do engajamento de Deleuze e Guattari ao lado da causa palestina.166 DOSSE. Ibid. em nome do fracasso das rupturas revolucionárias. no auge da “nova filosofia”. É a negação de toda política e de todo tipo de experimentação... dessas vítimas que tiveram que crer e viver de forma bastante diferente para que aqueles que choram em nome deles. Geralmente. o que eu critico é que eles fazem um péssimo trabalho”38. Em suma. neste ano de 1977. Os resistentes são cheios de vida37. p . Os engajamentos políticos de Gilles Deleuze evento e isso leva. o Gulag e as vítimas da história.. Ibid. 131. os novos filósofos “reconstituíam um lugar sufocante. que pensam em nome deles e dão lições em nome deles sejam nutridos. n. o aniversário dos 10 anos de Maio de 68 se aproximava e uma parte dessa geração saboreava a negação de suas esperanças frustradas. 132. jul. O que me enoja é muito simples: os novos filósofos elaboram uma martirologia./dez. p.. p. História: Questões & Debates. asfixiante. Em 1977-1978. Editora UFPR . de amargura e de vaidade mórbida. Ilan Halevi organizou um seminário em Vincennes sobre o 36 37 38 Ibid.. Curitiba. 151-170.

certamente. 149. 53. que estava quase pronto. Deleuze e Guattari estavam redigindo Mille Plateaux e refletindo sobre as máquinas de guerra. Elias Sanbar se apresentou. Não era prevista a sua fala. interessados na experiência palestina. 151-170. Nesse texto. Elias Sanbar projetava criar uma revista de reflexão sobre a questão palestina. constituem uma dor de cabeça para todos”40. jul. 7 avril 1978. n. recomendado a Lindon 39 40 41 DELEUZE Gilles. nasceu uma amizade muito intensa até o fim da vida de Deleuze. que conhecia Halevi e um pouco Guattari. 147. Ele apelava à comunidade internacional para reconhecer os mesmos como interlocutores legítimos “porque [os palestinos se encontram] em um estado de guerra pelo qual eles. p.DOSSE. Paris: Les Éditons de Minuit.. Esse artigo surgiu na sequência de uma operação extensiva por parte do exército israelense no sul do Líbano. então. História: Questões & Debates. estavam. particularmente. Ele multiplicava os contatos. Guattari tinha convencido Deleuze de que era preciso entrar em contato com Sanbar. às Éditions de Minuit. Ibid./dez. 2003. apresentando seu projeto. portanto. Ibid. Curitiba. Guattari assistia a esse curso de maneira entusiasta e assídua. mas as portas permaneceram fechadas. Essa primeira troca de ideias resultou na primeira intervenção pública de Deleuze sobre o difícil e doloroso conflito israeliano-palestino nas colunas do jornal Le Monde39. Os engajamentos políticos de Gilles Deleuze 167 confisco de terras árabes em Israel. povo sem-terra e sem Estado. Sanbar telefonou para Deleuze e perguntou-lhe como conseguir publicar a revista. p. in dans Deux Régimes de fous. não são os responsáveis”41. Sanbar improvisou uma longa comunicação sobre as técnicas de guerra dos resistentes palestinos. que matou centenas de pessoas nos campos palestinos. A partir deste encontro entre Deleuze e Sanbar. Deleuze defendeu os palestinos: “Os palestinos. sobre a nomadologia. Editora UFPR . Les gêneurs. No ano de 1978. 2010. encontrava-se na sala. mas. Le Monde. os dispositivos de captura e. Na ocasião de um dos debates. Em 1980. o intelectual palestino Elias Sanbar. na década de 1930. junto à população libanesa e causou um êxodo de dezenas de milhares de libaneses para Beirute.. Deleuze denunciava a chantagem feita aos palestinos: a morte como única perspectiva. no calor das controvérsias. Ele respondeu que pediria a Jérôme Lindon para recebê-lo. p. F. depois de ter ouvido suas observações na Universidade de Vincennes sobre as técnicas de guerra nômade.

p. cit. n. a noção de máquina de guerra era. pudicamente. Essa dedicatória atestava uma confissão de dívida. 44 Ibid. 221. Na sua rejeição da política israelense. e foi assim que a Revue d’Études Palestiniennes foi criada. como se tivesse saído das páginas de Shakespeare. Para além do caso palestino.. também in: Deux Régimes de fous. Revue d’Études Palestiniennes. Editora UFPR . 2004. Libération. O trabalho de Deleuze e Guattari era um trunfo essencial para Elias Sanbar que publicou. Les Indiens de Palestine. 8-9 mai 1982. em primeiro lugar. hiver 1984. quando o conflito se prolongava em uma luta cada vez mais dramática. Sem dúvida. adequada para pensar a questão palestina. particularmente. identité de devenir. Identité des origines.. não só em termos do engajamento de Deleuze ao seu lado. Em seguida. Figures du Palestinien. Elias Sanbar e Deleuze decidiram publicar uma longa entrevista que. Arafat só podia falar de vergonha no que dizia respeito aos massacres de Sabra e Shatila: Deleuze criticava a transformação do maior genocídio da história perpetrado pelos nazistas num Mal absolutizado em uma visão religiosa des-historicizada: “Esta não é uma visão histórica. 47 SANBAR. mas. p. Para resistir à determinação de Israel e à cumplicidade internacional que abafava. op. Gilles. p. também in: Deux Régimes de fous... Deleuze considerava que era preciso encontrar “uma grande figura histórica que parecia. 2010. sob a perspectiva ocidental. Deleuze escreveu um texto em que exaltava a causa palestina. ainda no início dos anos 1980. Figures du Palestinien e dedicou-o a “Gilles Deleuze. 53. op. em outubro de 1981. Curitiba. Os engajamentos políticos de Gilles Deleuze por Deleuze. o conjunto de todas as injustiças que este povo sofreu e continua sofrendo”44. Pouco tempo depois. Ela não para o mal. na medida em que o povo palestino não possuía nem território nem Estado. e aquela personagem era Arafat”46. 151-170. 221. Paris: Gallimard. 45 Ibid. História: Questões & Debates. ela o espalha. Deleuze expressava um pensamento radical. também. e o faz recair sobre outros inocentes”45. Gilles. chamaram de: “Os índios da Palestina”42. 42 DELEUZE. em homenagem e em eterna amizade”47. em 2004.. em termos da dívida intelectual referente a inúmeros conceitos operacionais. p. 43 DELEUZE. Elias. p. saudando seu líder Yasser Arafat43: “A causa palestina é. F. jul. p.168 DOSSE. 221-225. Entrevista com Elias Sanbar. 10. cit. pelo contrário. 46 Ibid./dez. Grandeur de Yasser Arafat (escrito em setembro de 1983). n. sua política. juntos. 223. 179-184.

questionava sobre si mesmo. História: Questões & Debates. Ibid. Deleuze condenou. Ela se encontrava no centro da reflexão sobre a vida de um grupo. então. Finalmente.. e eles se voltaram contra o que percebiam como sendo um simples alinhamento do governo francês: “Nosso governo continua a negar as suas declarações e se lança em uma guerra contra a qual ele teria o poder de se opor. Editora UFPR . Gilles. descrito como um “órgão de terrorismo de Estado que testa suas armas”50. ao contrário do esquema evolutivo. em situações de externalidade. seu colega da Universidade de Paris VIII. intitulado “A guerra suja”49 que ele assinou com René Scherer. a guerra contra o Iraque./dez. extensivas. Gilles. portadora da burocracia e da servidão na sociedade moderna. a nação do Iraque. de maneira radical. Bush nos congratula como é congratulado um servente”51.. F. perdessem suas funções a favor de microrredes moleculares. p. Também havia a ideia de evitar a deterioração de todas as tentativas de transformação social dentro das revoluções. Pierre. tornar-se uma garantia de um contrapeso eficaz para evitar essas armadilhas.DOSSE. que o Estado não devia ser o resultado do desenvolvimento das forças produtivas nem o resultado da diferenciação das forças políticas. também in: DELEUZE. 351. Ibid. cujo modo de existência era apenas efêmero e que. indefinidamente.. cit. Libération. O etnólogo Pierre Clastres reforçou as teses de Deleuze e Guattari a partir de suas observações e análises48. sem cessar. op. para que as instituições oficiais. de fazer essas máquinas crescerem. Curitiba. podia a partir deste ponto de vista. Ele mostrava. René Schérer. DELEUZE. p. jul. se multiplicarem. O fato de aumentar o número de máquinas de guerra. 4 mars 1991. 48 49 50 51 LASTRES. 2010. Eles denunciaram a destruição de uma nação. p. Tratava-se. Os engajamentos políticos de Gilles Deleuze 169 a função desse conceito era estudar as formas para impedir a formação de uma máquina de Estado. La guerre immonde. 351. n. da mesma maneira que a psicoterapia institucional queria sujeitar a instituição a um tratamento clínico ao mesmo tempo em que ela tratava dos pacientes. 1974. que foram traídas e confiscadas. 151-170. 53. Paris: Les Éditions de Minuit. Deux régimes de fous. sob o pretexto da libertação do Kuwait pelo Pentágono. La société contre l’Etat. em um texto particularmente duro.

identité de devenir. Michel. Les intellectuels et le pouvoir. Elias. L’Arc. Paris: Les Éditions de Minuit. jul. Paris: Les Éditions de Minuit. Paris: Les Éditions de Minuit. Tradução de Qu’est-ce que la philosophie? São Paulo: Editora 34. Mauriac et Fils. Libération. 3-9 mai. Paris: M. 151-170. Arquivos Université de Paris 8. BDIC. Dits et Ecrits. p. MAURIAC. tomes 1 e 2. Deleuze épars. L’Ile déserte et autres textes. Paris: Les Éditions de Minuit. Deux régimes de fous. DELEUZE. Paris: Grasset. René Schérer. 1974. ALONSO MUÑOZ. André. La société contre l’Etat. FOUCAULT. CLASTRES. Paris: Pierre-André Boutang. Alberto. Identité des origines. Autour d’un effort de mémoire. 4 mars 1972.170 DOSSE. 1988. 1987. ______. MASCOLO. hiver 1984 SANBAR. Paris: Gallimard. História: Questões & Debates. 2010. ______. Richard (Dir. 2004. LES NOUVELLES LITTERAIRES. La guerre immonde. Claude. Pierre. ______. une journée particulière. Paris: Hermann. ______. Recebido em abril de 2010. 53. 2004.). n. 1991. 4 mars 1991 ______. REVUE D’ÉTUDES PALESTINIENNES. Gilles. n. Dionys. 1992. Qu’est-ce que la philosophie? Paris: Les Éditions de Minuit. Félix. n.. 1986. 2001./dez. Paris: Larousse. 2005. ______. Editora UFPR . 10. Aprovado em abril de 2010. 1984. PINHAS. PRADO Jr. Curitiba. Alain in Michel Foucault. 15. Figures du Palestinien. 2003. JAUBERT. O que é a Filosofia. Paris: Gallimard. L’Abécédaire de Gilles Deleuze (avec Claire Parnet).. Paris: Aedelsa Éd. F. 2002. Bento. Os engajamentos políticos de Gilles Deleuze Referências BERNOLD. GUATTARI. p. 49. Nadeau.