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TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

COMARCA DE SÃO PAULO
FORO REGIONAL III - JABAQUARA
2ª VARA CÍVEL
RUA JOEL JORGE DE MELO, 424, SÃO PAULO - SP - CEP 04128-080

SENTENÇA

Processo nº: 003.08.109667-0 - Ação Monitória
Requerente: Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo - Bancoop
Requerido: Oswaldo Miguel

Juiz(a) de Direito: Dr(a). Carlos Vieira Von Adamek

Vistos.

COOPERATIVA HABITACIONAL DOS BANCÁRIOS DE SÃO
PAULO - BANCOOP ajuizou a presente AÇÃO MONITÓRIA contra OSVALDO MIGUEL,
aduzindo ser credora do requerido pela importância de R$ 5.197,75 (cinco mil, cento e noventa e sete
reais, setenta e cinco centavos) (fls. 53), decorrente Resíduo Final previsto de Termo de Adesão e
Compromisso de Participação, necessário para o término da obra. Inicial e documentos a fls. 02/44.

Citado (fls. 70), o requerido compareceu em juízo e ofereceu embargos
(fls. 89/102), sustentando a impossibilidade jurídica do pedido ante a ausência de liquidez, certeza e
exigibilidade do título executivo, descumprimento do procedimento estatutário para cobrança do resíduo
final, especialmente a necessidade de se aguardar a conclusão da obra, falta de demonstração do
adimplemento pelos demais cooperados, não convocação e realização de assembléia geral ordinária para
deliberação sobre rateio de perdas e cobertura de despesas, além do que teria se instaurado investigação
criminal e ajuizado ação civil pública questionando a conduta da requerente.

A requerente ofereceu impugnação aos embargos (fls. 103/129).

É o breve relatório.

DECIDO.

A questão é de fato e de direito, não havendo, porém, a necessidade de
realização de provas em audiência, cabendo o julgamento antecipado (CPC, art. 330, inciso I).

Cuida-se de ação monitoria para cobrança de valores decorrentes de
termo de adesão a empreendimento habitacional, referentes a resíduo final apurado pela cooperativa,
com fundamento na cláusula 16 do contrato.

A presente ação não merece prosperar.

003.08.109667-0 - lauda 1
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A demandante indicou em sua petição inicial a inadimplência do
requerido quanto ao pagamento das parcelas referentes à apuração final, vencidas a partir de 30 de abril
de 2006 (fls. 41-vº).

Não se nega a possibilidade de previsão de cláusula contratual da
famigerada -Apuração Final-, para a finalidade apontada pela autora na petição inicial. Inadmissível,
todavia, que após mais de três anos do pagamento da última parcela para aquisição do bem (28.11.2002),
proceda a cooperativa um segundo saldo devedor, para novo rateio de resíduos, sem apresentação de
qualquer documento hábil demonstrando a origem e a certeza dos débitos.

Essa conduta acaba por manter os cooperados indefinidamente
vinculados ao pagamento do preço, impedindo a quitação da unidade adquirida. Ainda que o contrato
entre as partes preveja dita cobrança (fls. 40), isto é, a possibilidade de exigência de eventual saldo
residual, isso não significa possa fazê-lo da maneira como bem entende, quando lhe convenha, e sem
demonstração objetiva e antecipada da composição do crédito.

Patente, no caso sub examine, a violação do princípio da boa-fé objetiva,
na medida em que dá-se ensejo a uma situação de insegurança para os devedores, ante a surpresa da nova
cobrança, sem o prévio conhecimento ou justificativa para tanto.

É certo que no regime cooperativo o preço cobrado pelo imóvel é
calculado com base no custeio da construção do empreendimento, somado a outras despesas
administrativas, inclusive de inadimplemento de outros cooperados, todos partícipes de um contrato
relacional.

De outro modo, somente com o encerramento das obras ou uma fase
dela, deveria ocorrer a realização de assembléia para que houvesse a aferição de eventual resíduo,
cobrando-os dos cooperados, o que de fato, não ocorreu, de acordo com o que se noticiou nos autos.

Como dito, não há nos autos prova inconteste sobre a origem e a
especificação do débito que se imputa ao suposto devedor, haja vista a inexistência de elementos
suficientes a demonstrar sua composição, a forma de cálculo, e os documentos que a amparam

Não há sequer a comprovação dos custos das obras, dos materiais
utilizados, da mão-de-obra empregada, muito menos a aprovação de referidos gastos pelos cooperados
em assembléia.

Ao admitir-se tal cobrança, os cooperados permaneceriam
indefinidamente obrigados perante a cooperativa, jamais quitando seu saldo devedor e pagando preço
superior aos verdadeiros custos de seu conjunto habitacional.

Diante disso, a cobrança de apuração final, após quitação de todas as
parcelas, da maneira como ocorreu no caso examinado, constitui comportamento contraditório, ou venire
contra factum proprium, que atenta contra o princípio da boa-fé (cfr. Menezes de Cordeiro, Da Boa-Fé
no Direito Civil, Editora Almedina, Coimbra, 1997, p. 742).

003.08.109667-0 - lauda 2
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Não se desincumbiu a autora do seu mister que lhe imputa o artigo 333,
I, do Código de Processo Civil, não bastando breve alegação dos fatos, sem lastro em prova sólida e
robusta a respeito da exigibilidade do crédito.

Impõe-se, portanto, a improcedência da ação monitoria, com o
acolhimento dos embargos monitórios, para o fim de impedir a constituição de título executivo judicial
que ampare a cobrança pretendida pela cooperativa.

ISTO POSTO, julgo IMPROCEDENTE a presente ação monitória.
CONDENO a autora nas custas e despesas processuais, bem como nos honorários advocatícios do
patrono do autor, fixados em 10% (dez por cento) do valor da causa.

P. R. I. e C.

São Paulo, 28 de agosto de 2009.

CARLOS VIEIRA VON ADAMEK
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