You are on page 1of 32

EDITORIAL

Um convite à conversão
SUMÁRIO
março 2008/02

A
bundante nos documentos da Igreja é o convite à conver-
são. O Documento de Aparecida é o mais recente deles,
objetivando mudanças urgentes e necessárias na vida
dos seguidores de Jesus. Dentre as várias chamadas
à conversão, podemos destacar três: a pessoal, no en-
contro com Cristo ressuscitado, numa experiência de fé
profunda que gera mudança integral de vida (DA 226); a pastoral,
na passagem do esquema existente, de mera conservação, para 1 - Páscoa: luz do Ressuscitado que
uma pastoral decididamente missionária (DA 370); e a conversão deve contagiar a humanidade.
Foto: Jaime C. Patias
estrutural, na renovação das estruturas eclesiais, abandonando as
ultrapassadas (DA 366). Detalhe: a renovação das paróquias exige 2 - Aparecida Severo.
a reformulação de suas estruturas, para que se torne uma rede de Foto: Arquivo Pessoal
comunidades e grupos capaz de se articular, conseguindo que seus
membros se sintam realmente discípulos missionários de Jesus
Cristo em comunhão. Tudo isso sem esquecer da realidade dos  Comemoração---------------------------------------04
nossos povos. Toda mudança é um processo que requer tomada de Centenário de dom Hélder Câmara
cons­ciência pessoal, decisão e esforço para que de fato, aconteça  NOVICIADO----------------------------------------------06
na nossa vida. Isso também vale para a vida da Igreja. Ousamos Consagrados a serviço da Missão
Robério Crisóstomo da Silva
colocar algumas questões para contribuir no debate proporcionado
por Aparecida. Estaria a Igreja Povo de Deus, organizada sobre a  PRÓ-VOCAÇÕES----------------------------------------07
hierarquia e comunidades, decidida a converter-se? Estaria a Igre- Nunca deixe para começar amanhã
Rosa Clara Franzoi
ja disposta a rever sua postura e práticas pastorais em relação a
temas como a inculturação do Evangelho, que enriquece a fé cristã  VOLTA AO MUNDO-------------------------------------08
nas mais variadas culturas e povos indígenas Notícias do Mundo
Divulgação

Cimi, Fides, IPS/Envolverde
e afro-americanos, incluindo um pedido de
perdão pelos danos causados por uma pastoral  ESPIRITUALIDADE----------------------------------------10
A Páscoa nossa de cada dia
pouco encarnada? Estaria a Igreja disposta a José Tolfo
deslegitimar o sistema neoliberal capitalista que
produz pobreza, impede a experiência comuni-  TESTEMUNHO-------------------------------------------12
Onde for, leve seu coração!
tária e inviabiliza a vivência do cristianismo? A Aparecida Severo da Silva
tratar com seriedade a questão dos ministérios
ligados à Eucaristia para garantir a atualização  FÉ E POLÍTICA -------------------------------------------14
A lógica da queda
do mistério Pascal na grande maioria (70%) Humberto Dantas
das comunidades cristãs sem a Eucaristia? Discutir uma revisão do
 FORMAÇÃO MISSIONÁRIA----------------------------15
exercício de poder em suas instâncias e pastorais para superar uma Aparecida: Evangelizar na outra margem
mentalidade machista que ignora a novidade do cristianismo quando Ramón Cazallas Serrano
reconhece e proclama a igual dignidade e responsabilidade da mulher
 Juventude missionária ----------------------------19
em relação ao homem? Reconhecer a chave da questão acerca da A alegria de viver!
família? Rever critérios e opções em relação à presença do clero Patrick Gomes Silva
no meio do povo? Repensar a catequese, a liturgia, a comunicação,  DESTAQUE DO MÊS -----------------------------------20
a acolhida...? A lista continua... o que precisamos fazer é nos dar Jovens lutam por políticas públicas
conta do quanto a Igreja como um todo, fala, insiste e aponta para Dirceu Benincá
a conversão e mudanças, mas ela mesma dá poucos sinais dessa  AÇÃO SOCIAL ------------------------------------------22
conversão, especialmente naquilo que, ao longo dos séculos foi Uma opção corajosa
assumindo e que não a deixa livre para avançar. Não negamos a Valeriano Paitoni
realidade humana da Igreja de Jesus Cristo, que também é divina.  infância missionária ------------------------------24
Contudo, ficar repetindo que a Igreja, Povo de Deus é santa e pe- Chega de fumaça!
cadora para justificar as suas incoerências, pouco ajuda. Aparecida Roseane de Araújo Silva
não passará de mais um projeto ousado se não levar a Igreja a  ENTREVISTA IR. ANA DE FÁTIMA ---------------------26
tomar decisões sérias nas questões que bloqueiam um verdadeiro Educação é vida!
Jaime Carlos Patias
processo de conversão pastoral e missionária. Tudo começa com a
conversão pessoal que nos dispõe a propor, aceitar e implementar  PROFISSÃO RELIGIOSA--------------------------------28
as mudanças almejadas. Vidas para a Missão
Cristina Ribeiro Silva
O Senhor nos diz: “Não tenham medo” (Mt 28, 5). Como às
mulheres na manhã da ressurreição, Ele nos repete: “Por que  ATUALIDADES--------------------------------------------29
buscam entre os mortos Aquele que está vivo?” (Lc 24, 5). Os Fórum Social Mundial 2008
Redação
sinais da vitória de Cristo ressuscitado nos estimulam enquanto
suplicamos a graça da conversão e mantemos viva a esperança  volta ao brasil---------------------------------------30
Carta do 12º Encontro Nacional dos Presbíteros
que não engana (DA 14). 

- Março 2008 3
Centenário
dom Hélder
Ano XXXV - Nº 02 Março 2008

Diretor: Jaime Carlos Patias

Editor: Maria Emerenciana Raia

Equipe de Redação: José Tolfo,

Gregg Newton/Reuters
Ramón Cazallas, Patrick Gomes Silva e
Rosa Clara Franzoi

Colaboradores: Vitor Hugo Gerhard,
Lírio Girardi, Luiz Balsan, Roseane de
Araújo Silva, Humberto Dantas, Luiz
Carlos Emer, Dirceu Benincá, Ricardo
Castro

Agências: Adital, Adista, CIMI,
CNBB, Dom Hélder, IPS, MISNA,
Pulsar, Vaticano
Dom Hélder Câmara recebe o papa João Paulo II na Catedral Metropolitana, Rio de Janeiro, 1997.

Diagramação e Arte: Cleber P. Pires do Regional Nordeste 2 da CNBB dom Genival Saraiva, explica o sentido
destas comemorações.
Jornalista responsável:

U
Maria Emerenciana Raia (MTB 17532) O que é o centenário de dom Hélder
ma missa em Recife, no dia 7 Câmara?
Administração: Eugênio Butti de fevereiro, marcou a abertura O centenário de dom Hélder é nosso
das comemorações do cente- olhar no tempo, para o dia 7 de fevereiro
Sociedade responsável: nário de nascimento de dom de 1909, dia de seu nascimento, em For-
Instituto Missões Consolata Hélder Câmara, arcebispo de taleza. Não tem como endereço o culto
(CNPJ 60.915.477/0001-29) Olinda e Recife, falecido em 27 à personalidade, mas visa reverenciar a
de agosto de 1999. Cerca de 700 pessoas memória e, principalmente, render graças a
Impressão: Edições Loyola participaram da celebração, realizada junto Deus pela existência deste pastor da paz,
Fone: (11) 6914.1922 à sede do Regional Nordeste 2 da CNBB, porque nele o dom da vida se tornou um
com a presença de 17 bispos e 60 padres. serviço ao povo de Deus. A comemoração
Colaboração anual: R$ 45,00 Também o governador do Estado, Eduardo de cem anos do seu nascimento nos dá a
BRADESCO - AG: 545-2 CC: 38163-2 Campos, além de outras autoridades e oportunidade de identificá-lo como homem
Instituto Missões Consolata personalidades, esteve presente. de Deus, servidor da Igreja, pastor de
(a publicação anual de Missões é de 10 números) Segundo o arcebispo de Maceió e todos, irmão dos pobres, com o objetivo
presidente do Regional, dom Antônio Mu- de fazer chegar às bases o conhecimento
niz Fernandes, a celebração não poderia da pessoa de dom Hélder.
Missões é produzida pelos
ocorrer em melhor momento, lembrando a
Missionários e Missionárias da Consolata
abertura da Campanha da Fraternidade, De quem é esta iniciativa?
Fone: (11) 2256.7599 - São Paulo/SP
cujo tema é a defesa da vida. “O tema da A iniciativa de promover a comemo-
(11) 2231.0500 - São Paulo/SP
Campanha se encaixa com os conceitos ração do centenário envolve o Regional
(95) 3224.4109 - Boa Vista/RR
de dom Hélder, que defendeu a vida, o Nordeste 2 da CNBB, a arquidiocese de
amor e a paz”, disse o arcebispo. Olinda e Recife, o Instituto Dom Hélder
Membro da PREMLA (Federação de Imprensa Nascido em 7 de fevereiro de 1909, Câmara (IDHeC) e a Universidade Católica
Missionária Latino-Americana) e da UCBC em Fortaleza, Ceará, dom Hélder foi or- de Pernambuco. De conformidade com a
(União Cristã Brasileira de Comunicação Social) denado sacerdote em 1931. Em 1952, foi natureza da programação, a comemoração
nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro do centenário vai acontecer no âmbito do
Redação e, em 1964 tornou-se arcebispo de Olinda
e Recife onde ficou até se tornar emérito
Regional Nordeste 2 da CNBB, com uma
acentuação maior em Recife, por sua
Rua Dom Domingos de Silos, 110
02526-030 - São Paulo em 1985. condição de sede das instituições que
Fone/Fax: (11) 2256.8820 Outras atividades deverão ocorrer assumiram a organização. A programação,
Site: www.revistamissoes.org.br durante o ano para lembrar o centenário todavia, por sua natureza e abordagem,
E-mail: redacao@revistamissoes.org.br de seu nascimento. O bispo de Palmares, ultrapassa os limites locais e fala à Igreja
Pernambuco e secretário do Regional, e à sociedade brasileira.

4 Março 2008 -
de No dia 7 de fevereiro de 1909 nascia dom Hélder,
que viria a ser um grande pastor da Igreja do Brasil.

Câmara
Para marcar esta data, merecidas homenagens serão
realizadas durante o ano de 2008 e o próximo.

Quais os objetivos desta come- Qual é a programação do ano cen- todas as atividades comemorativas é 7
moração? tenário? de fevereiro, Dia do Centenário de Dom
O fator tempo já distancia dom Hélder Ela compreende momentos celebra- Hélder, com a celebração eucarística no
das gerações mais novas, que precisam tivos, atividades científicas, culturais e Ginásio de Esportes “Geraldão”. Serão
conhecer as suas iluminações e contribui- marcos materiais que serão vividos no feitas gestões junto à direção dos Correios
ções em assuntos de interesse da vida período de 2008-2009. A partir de 11 de para edição de um Selo Comemorativo.
da Igreja. Basta vê-lo ante a Conferência fevereiro de 2008 começamos a reapre- Estão previstos, ainda, um segundo Se-
Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e sentar o programa de dom Hélder, “Um minário, de caráter internacional, com
o Conselho Episcopal Latino-Americano olhar sobre a cidade”, que ele comandava o tema “O Século de Dom Hélder” e
(CELAM), instituições a que esteve ligado, na Rádio Olinda. Será realizado também várias celebrações nos aniversários de
do momento de sua criação à maturidade o Seminário “O Século de Dom Hélder: sua ordenação e de morte, além de uma
de seu funcionamento. As novas gera- cristianismo e construção da cidadania no cerimônia ecumênica. Outras atividades
ções precisam conhecer dom Hélder por Brasil, ontem e hoje”, no período de 12 a previstas: uma sessão comemorativa na
sua eficiente participação no Concílio 15 de maio, coordenado pela Universidade Assembléia Legislativa de Pernambuco,
Vaticano II. Por sua visão de Igreja, de Católica de Pernambuco. Já as celebra- as inaugurações do Memorial Dom Hélder
sociedade, de mundo e por sua capaci- ções de aniversário de sua ordenação Câmara e da reforma da Igreja das Fron-
dade de articulação, ele contribuiu muito sacerdotal serão realizadas na Igreja do teiras e uma apresentação da Sinfonia
junto aos padres conciliares, peritos e Regional Nordeste 2, no dia 15 de agosto, dos Dois Mundos. Serão organizadas,
assessores, na elaboração do conteúdo e de sua morte, na Sé de Olinda, no dia 27 também, exposições itinerantes e edição
dos Documentos. Outro objetivo é tornar de agosto, com a participação da CNBB. ou reedição de obras de e sobre dom
presente as suas preocupações e con- Em setembro, a Universidade Católica de Hélder, como expressões culturais do
tribuições em relação à vida do povo, Pernambuco criará uma Cátedra, com a seu centenário.
com iniciativas que vencem a prática do temática dos Direitos Humanos, sugestão
assistencialismo, estimulam a promoção de dom Hélder ao receber o título de doutor Qual o significado de dom Hélder
social e defendem a dignidade humana, Honoris Causa. Em sua homenagem, será para a Igreja do Brasil?
a exemplo da Cruzada São Sebastião, chamada Cátedra de Direitos Humanos A Igreja do Brasil tem registrado em
Banco e Feira da Providência, bem como Dom Hélder Câmara. No site Obser- sua história o lugar de dom Hélder, na
sua condição de corajoso defensor dos vatório das Religiões, da Universidade gênese e na vida da CNBB. Por sua mís-
direitos humanos, da justiça e da paz. Essas Católica, estará inserido o seu legado tica, contribuiu para a comunhão pastoral
preocupações e contribuições continuam inter-religioso. Também a Câmara de Ve- e para a colegialidade episcopal. A sua
sendo razão da ação evangelizadora da readores de Recife realizará uma sessão espiritualidade e o seu profetismo são
Igreja no Brasil. comemorativa. Em 2009, a referência de exemplos a serem lidos e imitados. A ter-
nura de sua personalidade e a firmeza de
seus posicionamentos em defesa da vida
Reprodução

continuam falando à Igreja e à sociedade.
A sua capacidade de diálogo e a coragem
de denunciar as injustiças sociais devem
também estar presentes na ação ministerial
de todos os agentes pastorais da Igreja,
na sua condição de discípulos missionários
de Jesus Cristo. Nele, a ação pastoral e
a construção da cidadania eram marcas
indissociáveis. Sem dúvida, sua vida e seu
ministério episcopal, sempre comprometidos
com a causa dos pobres, com o drama
dos injustiçados e perseguidos durante os
governos militares e a incansável defesa
dos direitos humanos são referências para
a vida da Igreja do Brasil. 

- Março 2008 5
Consagrados
a serviço da Missão
Profissão religiosa de 11 jovens noviços Missão Ad Gentes, característica do carisma da Congregação.
Esta Missão nos identifica na Igreja como evangelizadores dos
da Consolata em Buenos Aires. povos, principalmente daqueles que ainda não conhecem Jesus
Cristo em termos de fé, assim como das populações menos
favorecidas ou excluídas. A nossa formação em comunidades
de Robério Crisóstomo da Silva
multiculturais e internacionais nos prepara para trabalhar além
de nossas fronteiras, em diversas nações e etnias. Além de

O
internalizar as principais características da Congregação, o
chamado que Jesus fez aos discípulos, como nos tempo de Noviciado tem como atividades exercícios espirituais,
relata o Evangelho de Mateus (10, 1-15), nos apre- oração, contemplação, adoração eucarística, trabalho, estudo
senta a Missão como forma de gratuidade e entrega, e pastoral. O objetivo é levar o jovem noviço a assumir a Vida
a qual se concretiza no anúncio da Boa Notícia. Esse Consagrada de forma radical e consciente em todos os seus
mesmo chamado faz-se presente hoje na história da valores e desafios.
Igreja e da humanidade. Percebemos que a Igreja No dia 29 de dezembro de 2007, na capela do Noviciado,
sempre teve e tem, a missão de preparar homens e mulheres ante o superior provincial, padre Ruben Horácio Lopez, com a
capazes de assumir a Vida Religiosa, consagrando-se a Deus, presença de vários missionários da Consolata da região, do padre
em função do seguimento de Jesus Cristo. Pietro Plona, representante do Brasil, sacerdotes diocesanos e
do povo de Deus, durante a missa fizemos nossa primeira pro-
O Noviciado fissão religiosa consagrando-nos a Deus através dos votos de
Foi procurando responder a esse chamado de Jesus, que obediência, pobreza e castidade, para a vida missionária.
ao longo do ano de 2007, o Noviciado Latino-Americano Nossa
Senhora de Guadalupe, em Buenos Aires, obra do Instituto Mis- Estudos de Teologia
sões Consolata, acolheu 11 jovens provenientes da Argentina, Depois do Noviciado a formação continua com os estudos
Brasil, Colômbia e Venezuela. Tendo como mestres os padres de Teologia em seminários localizados em diferentes partes
Daniel Bertea e Matteo Pozzo, nos preparamos para a profissão do mundo, sempre tendo no coração os horizontes da Missão.
religiosa, vivendo uma profunda experiência de vida em vista da Para o Seminário de Bravetta (Roma), foram Juan Carlos Araya,
(argentino) e Dawinso Licona, (colombiano); ao Seminário de
Bogotá (Colômbia), Marinei Ferrari, (brasileiro), Yair Ligardo
Noviciado IMC

Morales, (colombiano) e Efrain Ocanio (argentino); ao Seminário
de Kinshasa (Congo), Edwin Becerra (colombiano) e Manuel
Pereira (brasileiro); e ao Seminário de São Paulo (Brasil), Júlio
César Caldeira e Robério Crisóstomo (brasileiros), Victor Ernesto
Ochoa (colombiano) e José Rafael Zambrano Durán (venezuela-
no). Os novos estudantes somam-se aos colegas que já vivem
nessas comunidades formando comunidades internacionais. O
Seminário Teológico Padre Bísio, em São Paulo, por exemplo,
conta com 20 membros, provenientes de oito países da África,
Europa e América Latina. Os padres Elio Rama e Luiz Carlos
Emer, brasileiros, são os nossos guias na formação. Além dos
estudos teológicos e atividades formativas colaboramos nas
diversas pastorais das comunidades da Paróquia Santa Pauli-
na, em Heliópolis, periferia de São Paulo. Atuamos também na
Animação Missionária e Vocacional, em albergues de moradores
de rua, em assentamentos de sem-terra e junto às crianças que
vivem com o vírus HIV em casas de apoio. Na nossa caminhada
queremos manifestar nossa alegria em seguir Jesus na Vida
Consagrada missionária para testemunhar o amor de Deus a
toda a humanidade. 

Robério Crisóstomo da Silva é seminarista do IMC.

6 Março 2008 -
Nunca deixe para começar amanhã

pró-vocações
movimento. “Faça-se.... E Deus viu que tudo era bom” (Gn 1).
Ao dar existência a todos os seres, Deus deu a cada um, uma
tarefa específica a cumprir; e eles a desenvolvem fielmente. É
por isso que os astros não se chocam entre si; todos seguem
a ordem estabelecida pelo Criador. E como os astros, todos os
demais seres da natureza.

Senhor, o que queres Uma Criação diferenciada
Quando Deus pensou em criar o ser humano, ele o imaginou

que eu faça? inteligente, com vontade própria e lhe deu o precioso dom da

Divulgação
liberdade. Só nós, humanos, temos o privilégio de fazer opções
conscientes e livres; de escolher esta ou aquela maneira de
organizar e orientar a nossa própria vida. Tudo o que foi criado,
foi colocado a serviço do ser humano. “Crescei, multiplicai-vos
e dominai a terra” – é assim que lemos na Bíblia Sagrada, no
primeiro capítulo do livro do Gênesis (Gn 1, 28). Talvez, pensamos
de Rosa Clara Franzoi muito pouco na responsabilidade que nos foi dada por Deus,
em relação ao mundo que nos rodeia, e em relação à nossa, e
à vida de cada pessoa. Talvez, paramos pouco para pensar que

I
Deus, mesmo respeitando a nossa liberdade quanto a escolha
magine-se num lugar aprazível, bonito, onde a natureza do nosso futuro, está continuamente torcendo para que não
explode em toda a sua pujança. Depois de olhar e apreciar façamos nenhuma besteira, e em poucos instantes coloquemos
tudo, experimente fechar os olhos. Aquela beleza toda tudo a perder - adeus, liberdade! Esta é a questão que deve nos
entra no seu coração e na sua imaginação e você continua preocupar: A vida, e o que iremos fazer com ela.
vendo, percebendo e sentindo a vibração que toma conta
de seu ser. E se isso não acontece, é porque, infelizmente, O que será que Deus quer de mim?
você está vivendo distraído e agindo roboticamente. Os robôs Para todos chega o momento de ter que responder às perguntas:
podem ter os olhos bem abertos, mas nada percebem. Todas O que serei amanhã? Qual será o meu futuro? Seja em termos
as coisas criadas acontecem por um chamado de amor; e a profissionais ou vocacionais. Nunca esquecer de acrescentar outra
sua presença, cada qual desempenhando a sua finalidade, é pergunta: Senhor, o que queres que eu faça? Essa disposição de
a resposta amorosa ao seu Criador e Senhor. O mundo não é abertura, já é meio caminho andado; porque Deus é quem mais
obra do acaso. Não foi o acaso que lhe deu a vida e a pôs em quer que nos sintamos realizados. Ele, mais do que ninguém quer
que acertemos na escolha do nosso futuro e sejamos felizes. E
você, quer acertar? Oriente a sua busca sempre na direção do
Quer ser um missionário/a? bem, da verdade, do compromisso, da doação, nunca na direção
do egoísmo e você estará no caminho certo.
Irmãs Missionárias da Consolata - Ir. Dinalva Moratelli Jovem! Não deixe para começar amanhã este caminho de busca.
Av. Parada Pinto, 3002 - Mandaqui A vida é curta e passa num piscar de olhos. Cultive a sua liberda-
02611-001 - São Paulo - SP de, porque tudo o que não é assumido, livre e conscientemente,
Tel. (11) 2231-0500 - E-mail: rebra@uol.com.br não é duradouro. 
Centro Missionário “José Allamano” - padre José Tolfo
Rua Itá, 381 - Pedra Branca
Para refletir:
02636-030 - São Paulo - SP Leia o texto do livro do Gênesis 1, 26-28 e tente responder:
Tel. (11) 2232-2383 - E-mail: secretariamissao@imconsolata.org.br 1 - Você já se deu conta que foi criado à semelhança de Deus e
que pode estar sendo chamado para alguma missão importante
Missionários da Consolata - padre César Avellaneda sobre a terra?
Rua da Igreja, 70-A - CXP 3253 2 - O que significa para você cultivar a própria liberdade?
69072-970 - Manaus - AM
Tel. (92) 624-3044 - E-mail: amimc@ibest.com.br Rosa Clara Franzoi, MC, é animadora vocacional.

- Março 2008 7
nia), conselheira; padre Mariano Sedano Sierra (cmf,
missionário claretiano, Rússia), conselheiro.

Brasil
Direitos dos Povos Indígenas
Aprovada em 13 de setembro de 2007 pela Assem-
bléia Geral das Nações Unidas, a Declaração sobre os
Direitos dos Povos Indígenas foi tema das discussões
promovidas por organizações indígenas nos dias 13
e 14 de fevereiro, no Hotel Nacional, em Brasília,
DF. Segundo Azelene Kaingang, do Warã Instituto
Indígena Brasileiro, um dos objetivos do evento foi
discutir como os avanços propostos pela Declaração
podem ser incorporados pela legislação brasileira. O
documento é um importante instrumento para a defesa
dos direitos dos povos indígenas em todo o mundo.
Nele são colocados direitos como à livre determinação;
Quênia, Chade e Moçambique à terra, aos territórios e aos recursos naturais; ao con-
Perda de vidas humanas sentimento prévio, livre e informado; às normas não
VOLTA AO MUNDO

O Comitê Permanente do Simpósio das Conferências escritas que regem internamente a vida das comuni-
Episcopais da África e Madagascar (SECAM/SCEAM), dades indígenas; o direito de propriedade intelectual.
reunido dias 8 e 9 de fevereiro em Johanesburgo, na Representantes de diversas organizações de países
África do Sul, manifestou a sua solidariedade à Igreja da América Latina participaram das discussões. Juan
e às populações do Chade, Quênia e Moçambique Leon Alvarado, indígena maya-quiché, embaixador da
atingidas respectivamente por uma guerra civil, uma Guatemala no Equador e ex-presidente da Comissão
gravíssima crise política e várias inundações que da OEA, falou do significado da Declaração da ONU
destruíram boa parte das plantações. Nas mensagens para os povos de todo o mundo: “pela primeira vez,
enviadas ao cardeal John Njue, arcebispo de Nairóbi os povos indígenas são reconhecidos como sujeitos
e presidente da Conferência Episcopal do Quênia, e de direitos individuais e coletivos em seus Estados e
a dom Jean-Claude Bouchard, bispo de Pale e presi- internacionalmente. Em segundo lugar, a Declaração
dente da Conferência Episcopal do Chade, o Comitê representa um avanço na legislação com a criação de
Permanente do SECAM exprime a sua “tristeza pelos novas normas que reconhecem os direitos coletivos.
acontecimentos políticos que levaram à violência e Também é um importante instrumento de valorização
à perda de tantas vidas humanas, em especial de e auto-estima dos povos que antes não se sentiam
crianças, mulheres, de pessoas vulneráveis e até respaldados em suas manifestações e reivindicações.
mesmo de um padre. A nossa esperança e a nossa Posso dizer ainda que a Declaração é um guia de como
oração é para que o Senhor intervenha trazendo de os Estados devem respeitar os povos indígenas”.
volta a paz, a justiça, o bom governo e o respeito à
vida humana para o vosso querido País e o continente EUA
africano em geral”. Washington defende o uso da tortura
O secretário de Justiça dos Estados Unidos, Michael
Bélgica Mukasey, negou-se a iniciar uma investigação penal
Conferências de religiosos e religiosas dentro da Agência Central de Inteligência (CIA) pelo
A União das Conferências Européias dos Superio- uso de “submarino” ou simulação de afogamento nos
res Maiores (UCESM) realizou sua Assembléia Geral interrogatórios de suspeitos de terrorismo. Mukasy
em Torhout, na Bélgica, de 11 a 17 de fevereiro. Os tampouco investigará qualquer outro tipo de tortura
representantes das 39 Conferências de religiosos e – pelas chamadas “técnicas de interrogação intensifi-
religiosas de 26 países da Europa se reuniram neste cadas” – nem deixará que o Congresso tenha acesso a
encontro, que se realiza de dois em dois anos. Eles um memorando preparado pelo Escritório de Conselho
representam 400 mil religiosos e religiosas de toda a Legal do Departamento de Justiça no qual se concluiu
Europa. O tema que reuniu os participantes foi: “Pai- que estas práticas eram legais.O funcionário afirmou
xão por Cristo, paixão pela humanidade, vividas em que não é viável nenhuma investigação porque os pro-
comunidade. Que contribuição a vida comunitária pode cedimentos já haviam sido considerados legítimos pelo
oferecer à Europa?” Lugar de fraternidade e de comu- Departamento. Na audiência de outubro no Congresso,
nhão na fé e na solidariedade, a comunidade, dentro Mukasey negou-se a dizer se o submarino é ou não
da sociedade, é um dos sinais que a reconciliação e uma tortura. A polêmica renasceu com os comentários
a esperança são possíveis. A Assembléia redigiu uma do porta-voz da Casa Branca, Tony Fratto, que disse
mensagem final, na qual expressa suas convicções que o submarino é legal, e que o presidente George
sobre a importância do valor da vida religiosa para a W. Bush poderia autorizar CIA a reiniciar seu uso em
Igreja e o mundo. A Assembléia também elegeu o novo circunstâncias extraordinárias. Ativistas pelos direitos
Comitê executivo para 2008-2012: irmã Lutgardis Cra- humanos como a Anistia Internacional, fizeram duras
eynest (salesiana, Bélgica), presidente; padre Manuel críticas a estas declarações. 
Joaquim Gomes Barbosa (scj, dehoniano do Sagrado
Coração, Portugal), vice-presidente; irmã Danuta Wrobel
(snmpn, Pequenas Servas de Maria Imaculada, Polô- Fonte: Fides.
8 Março 2008 -
INTENÇÃO MISSIONÁRIA

Divulgação
Para que os cristãos, que em tantas
partes do mundo e de várias maneiras
são perseguidos por causa do Evangelho,
sustentados pela força do Espírito Santo,
continuem testemunhando a Palavra de
Deus com coragem e franqueza.
de Vitor Hugo Gerhard

U
m dos testemunhos mais eloqüentes da vida cristã
nos tempos de hoje, certamente é a perseguição,
silenciosa e anônima. E não são poucos os recantos
do mundo onde isso acontece. Sem muito esforço,
podemos identificar ao menos três lugares de perse-
Irmã Dorothy Stang, mártir da fé em Anapu, PA.
guição: a) a promovida por regimes autoritários que não desejam
ver os cristãos viverem as verdades do Evangelho ou mesmo porque inferem uma espécie de violência silenciosa e corrosiva,
participarem da construção de um mundo melhor; b) a religiosa, que afeta a alma sem deixar marcas na carne.
em muitos casos realizada apenas pelo desejo desenfreado do Uma Igreja que não sofre perseguição, uma comunidade
poder e da conquista, fundada numa visão fundamentalista da que não é combatida, cristãos que não experimentam a con-
fé: c) a de tipo econômico, onde a opção religiosa já é motivo trariedade por causa do Evangelho e da Pessoa de Jesus, não
suficiente para a segregação e a marginalidade social. fizeram ainda o itinerário completo da fé e do seguimento. No
As maneiras de perseguição vão desde as formas desca- final do texto das bem-aventuranças, Jesus deixa claro que a
radas e evidentes, até aquelas sutis e mascaradas. Em alguns perseguição em Seu Nome será um componente necessário
lugares do globo, os cristãos morrem por causa da fé, sendo neste caminho. Suportar estes infortúnios com alegria e es-
perseguidos de forma cruenta; em outros, são sitiados geográfica perança é tarefa diária em muitas partes deste velho mundo
e fisicamente em guetos; noutras partes, pelo fato de se identificar de Deus, tão marcado por tantos tipos de perseguição e tão
com o cristianismo, muitas pessoas são tratadas como seres de sedento de testemunhas com credibilidade. A cada época da
segunda categoria, inferiores; entretanto, talvez as formas mais história humana corresponde um certo grau de perseguição,
desumanas de perseguição, nos tempos de hoje, sejam aquelas com seus ritos e formas próprios. 
ligadas à cultura, às comunicações e ao mundo econômico.
Não porque sejam violentas no sentido físico da palavra, mas, Vitor Hugo Gerhard é sacerdote e coordenador de pastoral da Diocese de Novo Hamburgo, RS.

Três anos da morte de Dorothy Stang
da Agência JB* paraense não pode fazer nada aqui. Para nós, isso está se
prolongando muito. Já são três anos. Está muito lento", afirmou
Mais de 600 pessoas participaram, na manhã do dia 12 de a irmã Margarida. Até agora, foram julgados e condenados pelo
fevereiro, em Belém, Pará, de ato ecumênico em memória da assassinato da missionária Rayfran das Neves Sales, Clo­doaldo
missionária Dorothy Stang, assassinada há três anos, em uma Batista (como executores), Amair Feijoli da Cunha (como inter-
emboscada no município de Anapu, no interior do estado. mediador) e Vitalmiro Bastos de Moura (como mandante). Tanto
Além de lembrar a luta e a morte de Dorothy em defesa das Rayfran quanto Vitalmiro, no entanto, terão direito a novo julga-
pessoas em busca de terra, os manifestantes pediram mais rigor mento, possivelmente neste ano. O primeiro, porque recebeu
e agilidade da Justiça, já que, até agora, um dos acusados de ter pena superior a 20 anos de prisão e o segundo, porque teve o
sido mandante do crime, o fazendeiro Regivaldo Galvão, ainda último julgamento anulado, por alegação dos seus advogados
não foi julgado, pois aguarda decisão de um recurso apresentado de que houve cerceamento de defesa durante o processo.
no Supremo Tribunal Federal (STF). Participaram do ato público, realizado em frente ao Tribunal
Segundo a freira Margarida Pantoja, uma das coordenadoras de Justiça de Belém, representantes de sindicatos, associações
do Comitê Dorothy, entidade que organizou o ato público, a ação e entidades ligadas à defesa dos direitos humanos e das igrejas
da Justiça está muito lenta. "Queremos reivindicar o julgamento católica, anglicana e metodista, além de grupos de seguidores
e a prisão de Regivaldo, que é um dos principais mandantes. de filosofias orientais.
Ele está com um recurso na mão do ministro Cezar Peluzzo
em Brasília e, enquanto esse recurso não for julgado, a Justiça *Com informações da Agência Brasil

- Março 2008 9
A Páscoa nossa de
espiritualidade

Páscoa é a realização do ser
humano em comunhão com o
outro; é capacidade de partilha,
de estar com os demais.
de José Tolfo

A
Páscoa é o resultado de uma
caminhada, de um processo de
questionamentos e interpela-
ções provenientes da propos-
ta de Jesus, da realidade do
mundo de hoje e da situação
existencial de cada ser humano. Para
chegar ao resultado final, nós sabemos
que o caminho é permanente e as exi-
gências não são poucas. Podemos citar
como exemplo os atletas que estão se
preparando para os jogos olímpicos de
Pequim. Ainda faltam alguns meses, mas,
eles já estão trabalhando pesado para
conseguir uma medalha (nem que seja de
Prata). Muitos deles renunciam ao conví-
vio familiar, às festinhas com os amigos,
aos passeios e férias para se dedicarem
completamente aos jogos: muita concen-
tração e exercícios. É o caminho exigido
para conquistar um bom resultado. Quem
não aceita os esforços, os sacrifícios, as
renúncias e uma adequada disciplina,
não vai muito longe. Aliás, nem chega a
Pequim. O mesmo acontece com certos
jogadores famosos de futebol, quando a
disciplina é deixada de lado, o rendimento ainda estava no começo, eis que acontece com Ele. Uma reflexão sobre o que fez
diminui bastante. o inesperado: a morte de Jesus na cruz. Jesus e porque o condenaram. Pois, a
Um acontecimento que marcou profun- fé pascal é um processo de comunhão
Seguidores de Jesus damente suas vidas. Então, aconteceu a com Jesus e ela já existia na convivência
Para os seguidores de Jesus, a Páscoa dispersão e o medo da perseguição e da deles com Ele, antes de sua morte. É um
também foi uma passagem exigente. Eles morte. É a realidade de muitos movimen- reconhecimento em profundidade desta
experimentaram a alegria e o entusiasmo tos: quando o líder principal é morto, o vivência anterior. Mas, é fundamental
de viver com o Mestre e de lutar para movimento cai bastante e, alguns acabam também, a obra de Deus, o sim de Deus.
a construção do Reino de Deus: uma desaparecendo. O que aconteceu com os Esta nova ação de Deus, em Jesus, por
sociedade diferente, um novo mundo, seguidores de Jesus? O sonho acabou sua total abertura ao Pai. Então, para os
onde todos tivessem vida com qualidade. mesmo? Por que e como eles voltaram discípulos, o anúncio da ressurreição é
Ainda que nem sempre entendessem a se reunir e a proclamar com coragem e o testemunho de uma transformação, de
certas atitudes de Cristo e se deixassem alegria, o projeto do Mestre? A resposta uma conversão pela força do ressusci-
levar pela lógica do lucro, de quem seria é importante para nós hoje (discípulos tado e do Espírito Santo. Pois, só um
o maior e o mais importante, eles ficaram missionários). Uma das primeiras respos- convertido pode falar do ressuscitado.
maravilhados com Seu projeto de vida tas dos discípulos foi o fazer memória de É a própria obra do ressuscitado nos
para a humanidade. Quando o trabalho Jesus histórico: a experiência que viveram seus discípulos. Esta habitação de Jesus

10 Março 2008 -
A comunidade cristã individualismo pela comunidade, a indife-

cada dia
A vivência em comunidade foi o lugar rença pela participação, a exclusão pela
privilegiado dos primeiros discípulos para inclusão, as dúvidas pela fé, o desespero
reavivar o sonho do Reino de Deus e para pela esperança, as tristezas pela alegria,
testemunhar a sua presença no mundo. a competitividade pela solidariedade, a
Páscoa é a realização do homem em vingança pela compaixão, as trevas pela
comunhão com o outro; é capacidade de luz... (oração de São Francisco), a expe-
partilha, de estar com os demais. Assim, nós riência pascal vai se realizando em nós
vamos aprendendo a conviver. Este viver e na comunidade. Mas, são necessárias
em função do outro (a dimensão da cruz) decisões políticas e estruturais para que
implica esvaziar-se de nós mesmos (Fl 2, este processo se realize na sociedade

Divulgação
1-11). Tal experiência é obra do ressusci- e seja visível no meio do povo de Deus.
tado e cria a comunidade dos seguidores O Documento de Aparecida nos oferece
de Jesus. É muito importante recuperar algumas pistas e exigências para que
sempre esta dimensão de estar com o outro, a Páscoa seja permanente e aconteça
do abraço fraterno, do caminhar junto, das nas comunidades cristãs: isto é, a vida
equipes de vida e trabalho... Pois, o indivi- em plenitude para a pessoa inteira e
dualismo e ultimamente, as comunicações para nossos povos. Para que nossas
virtuais vão crescendo e deixando nossas comunidades sejam mais missionárias e
relações vazias de significado. Recuperar sinais visíveis e críveis da presença do
a sacralidade do outro, da comunidade, Ressuscitado, necessitam:
do encontro é celebrar permanentemente • desinstalar-se de seu comodismo,
a experiência pascal. Mesmo as nossas estancamento e tibieza.
comunidades paroquiais deveriam revelar • converter-se em um poderoso centro
esta sacramentalidade. Nesses dias estive de irradiação da vida em Cristo.
celebrando numa pequena comunidade • passar pela experiência de um novo
da periferia de Curitiba. Foi maravilhoso Pentecostes que livre a todos do cansa-
experimentar o calor e a vida antes, du- ço, da desilusão e da acomodação.
rante e depois da celebração. Terminada • renovar as estruturas eclesiais, aban-
a celebração da Eucaristia, a maioria das donando as ultrapassadas, criando
pessoas ficou conversando na Igreja ou comunidades eclesiais de base e
fora dela, partilhando experiências de vida planejando as ações pastorais...
e trabalho. Quase todos se conheciam. • transformar a pastoral de mera conser-
Não havia pressa. Só faltou um bom copo vação, em uma pastoral decididamente
de vinho para completar a festa. Nós esta- missionária.
mos convidados a cultivar e fazer crescer • assumir os novos rostos da pobreza,
constantemente esta simplicidade e alegria à luz da opção pelos pobres.
do encontro, para que seja realmente um • aceitar o protagonismo das mulheres
sacramento na comunidade e uma fonte na evangelização.
de energia e vida para continuar nossas • ter uma atitude permanente de con-
atividades cotidianas. versão pastoral.
• constituir uma pastoral social estru-
Novas comunidades turada, orgânica e integral
Fala-se muito hoje sobre o futuro de Que o Crucificado-Ressuscitado nos
nossas comunidades paroquiais. Muitas transforme, pela força do seu espírito, para
delas para continuar sendo um centro de viver em constante caminho de Páscoa
vida e alegria necessitam de um caminho e converter nossas comunidades em
pascal significativo. Pois, do jeito que centros de irradiação da vida em Cristo
numa pessoa se transforma em missão: estão, caminham para a morte. Pouca e, decididamente, missionárias... 
o alegre e corajoso anúncio da morte e comunicação e partilha de experiências;
ressurreição de Cristo. Um acontecimento ninguém se conhece; o líder é mais um José Tolfo é missionário e reitor do Seminário Filosófico Nossa
que transforma o homem por dentro. profissional burocrático que um anima- Senhora Consolata, Curitiba, PR.
Então, os discípulos não anunciam uma dor e servidor; tudo está centralizado na
teoria; mas, uma experiência vital: aquilo paróquia e se fica esperando aí; nada se Para refletir:
que eles estão vivendo. O medo desa- partilha ou se faz fora do seu território... O 1. O que necessita ser mudado em mim
pareceu e o sonho cresceu dentro deles que significa viver o caminho da Páscoa e na minha comunidade para sermos
(a realização do Reino de Deus). Pois, para uma comunidade semelhante? O sinais sacramentais da presença do Res-
eles voltaram a se reunir (Jerusalém). que significa celebrar a ressurreição do suscitado?
Este foi o primeiro passo de conversão Senhor? Qual o significado da expressão: 2. Como renovar a comunidade cristã
e o primeiro testemunho da ressurreição. ele está vivo, ele está no meio de nós? para que seja sempre mais um lugar de
A vivência comunitária (obra do ressus- Cada vez que nós por Cristo, com Cristo encontro e uma fonte de santidade e de
citado) é o lugar privilegiado para fazer e em Cristo assumirmos as atitudes de vitalidade para todos?
uma experiência pascal e para afirmar, Jesus vencendo o ódio pelo amor, a ofen- 3. Quais são as características de uma
com alegria e coragem, que o crucificado- sa pelo perdão, a discórdia pela união, a comunidade cristã missionária que vive
ressuscitado está vivo. morte pela vida, o erro pela verdade, o a Páscoa todos os dias?

- Março 2008 11
Onde for
testemunho

leve seu coração!
Aparecida Severo da Silva,

Arquivo Pessoal
leiga missionária na
Amazônia.
de Aparecida Severo da Silva

V
enho de uma família nume-
rosa de quatro irmãos e sete
irmãs. Em 1969, quando tudo
foi se tornando muito difícil no
sertão da Paraíba, rumamos
para São Paulo. Na bagagem
trouxemos muita fé em Deus e muita es-
perança num futuro melhor. Trouxemos Aparecida com jovens indígenas, Tefé, AM.
também a forte religiosidade nordestina
que, para nós, era algo de sagrado. Nossos procurei a Congregação das Filhas de São bispo dom Sérgio Eduardo Castriani, que
pais, embora sendo muito simples, nos José. Gostei muito de ter conhecido o seu viera pessoalmente nos receber. Senti-me
educaram na fé, no respeito pelo outro, Carisma e ter vivido momentos bonitos de plenamente acolhida na terra de missão.
no amor ao trabalho. Já o papa João XXIII serviço e doação; mas, percebi que não
dizia: “Aonde quer que você vá, leve seu era daquele jeito que Deus me chamava O jeito de ser Igreja
coração”. a servi-lo no seu povo. Saí do convento e Ao ouvir o bispo nos contando um pouco
continuei minha busca. Nesse período fiz o da história da realidade da sua diocese,
Luta com o povo Curso de Teologia para leigos na diocese, sentia de estar entrando em contato com
O povo clamava por justiça e eu fui em Santo André, SP. Conheci um grupo uma Igreja com uma longa caminhada
me engajando em sua luta por melhores de mulheres leigas consagradas. Quis pastoral; uma Igreja com muitas lutas e
condições de vida. Pela minha cabeça a aprofundar mais esse estado de vida e muitas vitórias, mas com muitos sofrimentos
dúvida de como poderia concretizar aquela gostei. Parecia que respondia ao meu e cruzes, por ser aquela uma região onde,
vontade de ser útil aos que estavam ao meu anseio. Depois de um período de orienta- em muitos lugares, o povo é oprimido. O
redor. Cheguei à conclusão que a única ção, fiz minha total consagração a Deus a extermínio dos povos indígenas marca, com
maneira seria me tornando religiosa mis- serviço da Igreja. Era o ano 2000. Com a tristeza, a história da região. A Prelazia é
sionária. Empolgada com esta descoberta, consagração, cresceu mais ainda aquela formada por dez municípios e um grande
vontade de me colocar a serviço dos que número de comunidades ribeirinhas ao
Jaime C. Patias

mais sofrem. À minha grande aspiração longo dos rios e afluentes do Solimões,
da missão, veio unir-se o incentivo do meu Japurá, Juruá e Jutaí. Minha grande an-
bispo. Foi então que comecei a conhecer siedade era a de conhecer a cidade onde
o Projeto Missionário Sul 1 e Norte 1 -que eu ficaria - Alvarães. A viagem foi feita de
prepara e envia missionários: leigos, pa- barco motorizado, que o povo chama de
dres, religiosos e religiosas para a Igreja catraia ou voadeira. Após uma travessia
do Amazonas - Roraima. Fui convidada a de uns 20 minutos chegamos a uma comu-
integrar a equipe de missionários leigos nidade simpática, chamada Nogueira. De
que atuavam na Prelazia de Tefé, que fica lá, mais 20 minutos de carro e estávamos
na parte ocidental do Amazonas. Parti em na paróquia de Alvarães. Fomos recebidos
junho de 2004. Meu coração se encheu de pela equipe de missionárias leigas que
Ir. Rosa Clara Franzoi e Aparecida Severo, VII Enoim, SP. alegria ao avistar, no aeroporto de Tefé, o lá trabalham. Foi nesta comunidade que

12 Março 2008 -
comecei a conhecer o jeito de ser Igreja A escassez de missionários
Leigos e leigas
daquele povo. Além da matriz, a paróquia As dificuldades da evangelização são
tem mais duas comunidades na cidade e muitas: o alto custo das viagens de longa
cerca de 30 no interior. É uma Igreja bem
ministerial. Com a escassez de padres, despertam cada vez distância e, sobretudo a escassez de mis-
sionários e missionárias. São poucas as
os leigos atuam em todos os âmbitos
da comunidade, mesmo não tendo toda mais para o discipulado pessoas que decidem abraçar esta causa
ou se dispõem a dar alguns anos de sua
aquela formação que seria necessária. As
pastorais caminham com bastante força; missionário na Igreja. vida em prol desses irmãos e irmãs. Só
para se ter uma idéia: a Prelazia de Tefé
então percebi que o meu, deveria ser um ainda não tem um padre autóctone, isto
serviço de animação, de formação e de é, filho da terra. Muitas paróquias não
acolhida. Meu primeiro contato foi com os interessante: todo aquele cansaço parecia têm sacerdotes e isto significa que não
jovens; um grupo com grande vontade de desaparecer quando se chegava a cada têm a Eucaristia. Em muitas comunidades
lutar por justiça e disposto a transmitir esse comunidade. As crianças vinham ao nosso ribeirinhas e indígenas, esta presença
entusiasmo aos outros jovens. Comecei encontro com flores, fazendo festa. Naque- só acontece de seis em seis meses ou
a assessorar as pastorais já existentes, les encontros percebia-se o quanto o povo a cada ano. É de admirar a consciência
procurando somar forças com todos. Fiquei estava desejoso de ouvir a Palavra de Deus de pertença à Igreja que muitas pessoas
naquela paróquia apenas cinco meses. e de receber a visita da Igreja, na pessoa têm. Homens e mulheres que, mesmo com
dos seus missionários e missionárias. No seu pouco conhecimento, têm a coragem
Constante adaptação contato direto com eles, tocava-se nos seus de tomar a frente de uma comunidade
Em seguida fui me juntar à equipe inúmeros problemas: falta de assistência e levá-la adiante, em comunhão com o
missionária da cidade de Uarini. Tratava-se médica, remédios, saneamento básico, pequeno grupo de padres e missionários
de uma paróquia que estava sob a exclu- escola, energia elétrica, água potável, o da região e o seu bispo. Diante desse
siva responsabilidade dos leigos, distante alcoolismo e a droga. Naquelas visitas testemunho cristão, sinto que valeu a pena
de Tefé, 13 horas de barco. Lá encontrei procurávamos incentivá-los à luta por uma ter ido e ter ficado lá três anos. Muito mais
uma realidade completamente diferente. vida mais humana. Além disso, insistíamos desbravadores foram os missionários que
Aliás, esta é uma característica de toda a muito na necessidade da preservação da lá chegaram no início, quando tudo era
Prelazia: uma diferença marcante entre as natureza, principalmente dos lagos, de onde ainda muito mais difícil. Foram verdadeiros
comunidades. Se por um lado isto pode ser retiram o principal alimento da região, os heróis e heroínas chegando a dar a vida
um fator positivo, por outro, especialmente peixes. A Prelazia incentiva e dá todo o seu pela causa do Evangelho. Tais exemplos
para nós, é um grande desafio, pois significa apoio a uma outra luta: a defesa dos povos nunca serão esquecidos.
estar sempre em contínua adaptação. A indígenas, de suas terras, educação, saúde,
paróquia de Uarini tem 52 comunidades subsistência e o resgate de sua cultura. Um pedaço fica lá...
espalhadas ao longo dos rios. Realizei Já existem organizações nesse sentido, O último ano da minha missão foi na
ali a minha primeira visita missionária às como o movimento das mulheres, dos cidade de Tefé, no serviço de Coordenação
comunidades ribeirinhas. Passei quase pescadores e ultimamente dos catadores da Pastoral. É um trabalho mais burocrático;
um mês morando no barco para visitar de resíduos sólidos. Para a comunicação, porém, de imprescindível necessidade para
mais de 20 comunidades ao longo do além dos barcos, a Prelazia tem uma que a evangelização aconteça. Quando
Rio Solimões. Foram dias maravilhosos e rádio para que a voz do Pastor chegue senti que se aproximava o momento de
cansativos. Acresce-se o fator psicológico aos mais remotos rincões. As distâncias despedir-me daquele povo que tão amoro-
necessário de estar sempre disposta para são enormes. Há equipes missionárias samente me acolhera e me ensinara como
o encontro com a comunidade seguinte. que para chegar à sede em Tefé, viajam ser missionária no seu meio, o meu coração
Confesso que foi uma boa prova para o 85 horas de barco. E no retorno rio acima, ficou apertado. Saí da Prelazia durante a
meu grande desejo de servir. Porém, era são muitas horas a mais. assembléia das CEBs, que contou com
a participação de mais de 700 pessoas.
Arquivo Pessoal

Para mim, aquele foi um momento forte
e preparado por Deus. Naqueles dias eu
pude reencontrar quase todos os repre-
sentantes das comunidades que eu tinha
visitado. Diante de tanta graça, confirmei
meu propósito de continuar servindo o Se-
nhor e seu povo. Hoje, de retorno à minha
casa e diocese, em Santo André, procuro
partilhar com o povo, a alegria que se sente
em dizer sim a Deus. Eu já me propus: vou
deixar para mais tarde os meus projetos
pessoais e renovar a minha entrega: “Aqui
estou Senhor, envia-me”. Foi-me proposto
um serviço à Igreja missionária no Centro
Cultural Missionário (CCM) em Brasília,
DF, onde me encontro trabalhando desde
fevereiro. A missão continua. 

Aparecida Severo da Silva é leiga missionária consagrada,
Aparecida em retiro com catequistas, 2007. CCM Brasília, DF.

- Março 2008 13
A lógica da queda
fé e política

O governo federal tem se mostrado enérgico no combate à
corrupção, e não tem poupado ministros e amigos.
de Humberto Dantas Gushiken (Secretaria de Comunicação e Núcleo de Assuntos
Estratégicos, 2006), Silas Rondeau (Minas e Energia, 2007),

L
Walfrido Mares Guia (Relações Institucionais, 2007) e Matilde
uiz Inácio Lula da Silva tem o costume de insistir na frase Ribeiro (Igualdade Racial, 2008).
“nunca antes na história desse país” como forma de
valorizar os feitos de seus anos à frente da Presidência Cartões corporativos
da República. Um olhar acurado sobre os fatos sociais, Matilde Ribeiro, às vésperas do Carnaval, entregou o cargo
políticos e econômicos dos últimos cinco anos atesta- como vítima de um escândalo envolvendo cartões de crédito
rão que, em alguns casos, o chefe de nosso Executivo corporativos do governo federal. O aumento significativo nos
nacional tem plena razão. E em outros, está longe de tais feitos milhões despendidos mensalmente chamou a atenção da
memoráveis. imprensa. Destaca-se que a ministra não está sozinha nessa
Tema relevante nessa análise é o combate à corrupção. O história. Pagou um preço alto pelas centenas de usuários dessa
trabalho da Polícia Federal é marcante no último qüinqüênio. A facilidade. O que deveria ser um uma ferramenta capaz de agilizar
quantidade de operações deflagradas resulta em descobertas o trabalho da equipe de confiança do Planalto, transformou-se
ousadas de ações contra o patrimônio público. Algumas delas em suposta ferramenta de corrupção.
foram trazidas à tona pelas denúncias e investigações de Co- A ex-ministra admitiu que cometeu erros, sobretudo ao utilizar
missões Parlamentares de Inquérito que agiram, sobretudo, seu cartão para o pagamento de compras pessoais. Mas é pouco
entre 2005 e 2006. Diante desses resultados significativos, os provável que outros não seguiram caminho semelhante. O que
brasileiros se perguntam: o Brasil de Lula é o mais corrupto da Matilde precisa entender é que a estratégia de Luiz Inácio Lula
história ou o trabalho da PF tem funcionado como “nunca antes da Silva se mostra eficaz desde 2004, quando derrubou Bene-
na história desse país?” Tendo a apostar na segunda hipótese, e dita da Silva. Não importa quem cometeu o erro, em nome da
destacar que surpreende a quantidade de ministros afastados do preservação da imagem do governo, tem que pagar. Foi assim
governo federal por denúncias de corrupção e envolvimento. Em também com José Dirceu e Antônio Palocci, homens fortíssimos
que pese o fato de nenhum ter sido condenado, a lista é longa do primeiro mandato. Diante de tal resultado, o que se espera
e soma oito nomes: Benedita da Silva (Assistência e Promoção é que a ex-ministra sirva à famigerada imprensa, oferecendo à
Social, 2004), Anderson Adauto (Transportes, 2004), José Dir- sociedade a sensação de combate à corrupção. Nunca teremos
ceu (Casa Civil, 2005), Antônio Palocci (Fazenda, 2006), Luiz uma explicação para os gastos excessivos com carnes e vinhos,
e muito menos para os milhões sacados em
dinheiro? Para quem já teve um filho e um
José Cruz/ABr

irmão envolvidos em supostos escândalos,
uma ministra não tem grande valor.
Diante de tal cenário, seria melhor que as
organizações em defesa dos direitos dos negros
arrefecessem suas críticas à queda da ministra.
Definitivamente sua demissão não parece nos
remeter ao racismo. Um breve histórico das
deposições não permite que utilizemos etnia,
gênero, origem ou qualquer variável como
fator explicativo do afastamento. O que parece
melhor explicar as atitudes da Presidência é a
necessidade de manter-se fiel ao “combate à
corrupção”. Algo que seguramente aumentou
muito ao longo de seu governo, a ponto de piorar
a péssima imagem de nossa classe política e
reforçar uma questão que completará três anos
em breve: Luiz Inácio Lula da Silva, realmente
não sabe de nada e sequer se envolve com
tais questões? Fiquem atentos. 

Humberto Dantas é cientista político, professor do Centro Universi-
tário São Camilo. Co-autor do livro Introdução à Política Brasileira,
Senadores contam assinaturas para a criação de CPI sobre o uso de cartão corporativo. Paulus, 2007.

14 Março 2008 -
FORMAÇÃO mISSIONÁRIA

A Conferência de Aparecida

Evangelizar na
outra margem
Muito além da missão continental, Aparecida garantiu a Missão Ad Gentes,
uma conseqüência do coração universal do cristão.

Arquivo IMC Venezuela
Padre Josiah K'okal, Missão entre o Povo Warao em Nabasanuka, Venezuela.

de Ramón Cazallas Serrano que têm pouco a ver com a Missão; tarefa da evangelização e da Missão.

N
a segunda, porque temos no Brasil Lendo o evangelista Marcos pode-
o artigo anterior, tratamos homens e mulheres que estão fazendo mos observar o imperativo da Missão.
da Missão do discípulo uma verdadeira missão Ad Gentes sem Os versículos de 9 a 20 do capítulo
em geral no Documento sair das fronteiras do país: homens e 16, são um apêndice ou acréscimo
de Aparecida. Missão que mulheres na fronteira da injustiça, na posterior, onde sobressai o mandato
corresponde a todo batiza- pobreza de nossas periferias e nas missionário: “vão pelo mundo inteiro
do que se torna discípulo. fronteiras da marginalização por raça, e anunciem a Boa Notícia a toda hu-
Agora, vamos refletir sobre a Missão cultura ou condição social. Desta forma, manidade”. No começo, nas primeiras
Ad Gentes. Em nossa língua, o termo podemos dizer que no capítulo anterior redações do Novo Testamento não
recebeu a tradução de além-fronteiras. tratamos da Missão “para dentro” e aparecia este mandato. Posteriormente,
Confesso a vocês que pessoalmente, nestas páginas vamos ver a Missão as comunidades da primeira geração
não gosto muito deste termo. Por duas “para fora”. provavelmente quiseram completar com
razões: a primeira, porque é uma de- Tradicionalmente, no conceito da uma apresentação global da missão
finição geográfica da Missão e nem Missão Ad Gentes estava o anúncio do da Igreja. Podemos interpretar que as
todos os que estão fora das fronteiras Evangelho a todas aquelas pessoas que primeiras comunidades não podiam
necessariamente estão Ad Gentes. ainda não conheciam ou nunca escu- viver o Evangelho de Jesus sem a
Às vezes aparecem nas estatísticas taram falar de Jesus. Recentemente, Missão, não existiam só para elas,
dos missionários brasileiros que estão com alguns documentos, a Igreja tem mas, para o mundo e a sociedade na
além-fronteiras e realizam serviços repetido este conceito como primeira qual estavam inseridas.

- Março 2008 15
Os verbos do Ad Gentes
Como já assinalamos, apenas que, por sua vez, a entrega à Igreja. E do povo de Deus não são só os povos
a ­geografia não define a Missão Ad não pode ser fechada, mas, comunicada não-cristãos e das terras distantes, mas
Gentes. Mas, também é importante na a todos os povos e raças. Poderíamos também os campos socioculturais, e
atividade e na espiritualidade missio- dizer que a Igreja não vive para si. Ela sobretudo, os corações” (375 - discurso
nária o “sair”, ir ao encontro, caminhar tem a tarefa de anunciar, convocar e aos membros do Conselho Superior
e sentir a força interior de comunicar enviar servos e testemunhas do Reino. das Pontifícias Obras Missionárias, 5
o que somos e partilhar o que temos. Falar da Missão é falar da Igreja e falar de maio de 2007).
Sair além dos limites da Igreja, da sua da Igreja é falar da Missão. A Igreja latino-americana deseja
pastoral ordinária. Ser separado para Aparecida não define o que é a que a influência de Cristo chegue até
a específica tarefa missionária como Missão Ad Gentes, fala do “compromisso os confins da terra. Não fica indiferente
Paulo e Barnabé na Igreja primitiva: com a Missão Ad Gentes: conscientes quando toma consciência de que muitos
“Separem para mim Barnabé e Saulo, e agradecidos porque o Pai amou tanto povos ainda não escutaram o primeiro
a fim de fazerem o trabalho para o qual ao mundo que enviou seu Filho para anúncio.
eu os chamei” (Atos 2, 2). “Ir longe”, no salvá-lo (cf. Jo 3, 16), queremos ser Aparecida fala que “devemos for-
sentido de deixar uma Igreja estrutu- continuadores de sua Missão, visto mar-nos como discípulos missionários
rada para formar novas comunidades. que essa é a razão de ser da Igreja e sem fronteiras, dispostos a ir “à outra
“Ser enviado” para esta tarefa pela que define sua identidade mais pro- margem, àquela onde Cristo ainda não
comunidade cristã. A Missão não se faz funda” (373). é reconhecido como Deus e Senhor, e
sozinha, pois é a Igreja-comunidade que O papa Bento XVI confirmou que a Igreja não está presente” (376). “É
envia. Para “pregar o Evangelho” como o Ad Gentes se abre a novas dimen- desejo que a V Conferência seja estímulo
autêntico enviado ou enviada. sões: “O campo da Missão Ad Gentes para que muitos discípulos de nossas
Como podemos ver, são todos se tem ampliado notavelmente e não Igrejas vão e evangelizem na “outra
verbos em movimento e a Missão é é possível defini-lo baseando-se ape- margem”. A fé se fortalece quando é
uma ação contínua que procede da nas em considerações geográficas ou transmitida e é preciso que em nosso
Trindade, começa no Pai, passa por jurídicas. Na verdade, os verdadeiros continente entremos em nova primavera
Jesus, é animada pelo Espírito Santo destinatários da atividade missionária da Missão Ad Gentes” (379).

As margens humanas
As outras margens da Igreja se palavra à pregação de Jesus teve, por-
Cecília de Paiva

encontram no mesmo continente e em tanto, um sentido fortemente crítico, era
todo o mundo. Diríamos em todas as como dizer: “Deus, e não o imperador,
nações, e por nações não entendemos é o Senhor do mundo e o verdadeiro
os estados, mas, todos esses povos e Evangelho é o de Cristo”.
situações onde existem as múltiplas A luta da Igreja contra a fome, as
pobrezas: os deserdados, os excluídos, doenças, a ignorância e as injustiças
marginalizados, perseguidos, refugia- sociais não é “cálculo” ou “engano”
dos, enfim, todas aquelas vítimas que com vistas às futuras conversões, mas
a globalização e o neoliberalismo vão sincera vontade de estender os frutos
deixando à margem da estrada. Todos da redenção até os últimos limites da
aqueles que dão prejuízo ao capital, e Criação. Por isso, nascem as mais di-
ao Estado são descartáveis. E estas versas iniciativas para responder a todas
situações encontramos aqui e fora. A as exigências humanas; se participa e
Igreja não pode voltar-lhes as costas. colabora em todo sentido e com todos
Faz parte da sua missão evangelizadora, para a promoção de um mundo melhor.
desde a prática de Jesus, continuada O exercício da caridade é também
pelos apóstolos até nossos dias. Ilumi- exercício de esperança, especialmente
nadoras são as palavras de Bento XVI onde ainda não é possível o anúncio
na oração do Angelus de 27 de janeiro Lixão em Campo Grande, MS. pleno e explícito de Cristo.
deste ano: “Os milagres realizados por imperadores romanos para fazer seus O Evangelho de Jesus e sua presen-
Jesus constituem uma provocação pronunciamentos”. Independentemente ça substituem todas as “boas notícias”
frontal ao Império Romano, pois com do conteúdo, eram definidos como “boas que os poderes deste mundo prometem
eles, mostrou que havia chegado o novas”, ou seja, anúncios de salvação, à sociedade. Portanto, evangelizar e
“Reino de Deus”. O bispo de Roma pois o imperador era considerado como ir “para a outra margem” é um dever
declarou que “o termo Evangelho, nos o senhor do mundo e cada um de seus da Igreja como depositária dessa boa
tempos de Jesus era utilizado pelos editos era portador do bem”. Aplicar esta notícia para todos os povos.

16 Março 2008 -
FORMAÇÃO mISSIONÁRIA

“As margens” da fé
Há 40 anos o Concílio Vaticano II alguns negam claramente a existência

Ernesto Viscardi
falava que 66% da humanidade “nada de Deus e outros mais, lutam contra
ou muito pouco escutaram falar do Deus. A Igreja deve enfrentar estas
Evangelho”. Hoje, esta cifra aumentou situações concretas porque foi cons-
para 80%, ou seja, 4/5 da humanidade. tituída com o fim de “oferecer a todos
Estes números demonstram a urgência o mistério da Salvação e a vida trazida
do mandato missionário, do primeiro por Deus” (AG 10).
anúncio a todos os povos. Uma boa A globalização derrubou todas as
parte da humanidade está “à margem” fronteiras territoriais, culturais e reli-
da vida da fé e, conseqüentemente, da giosas. O fenômeno das migrações
Igreja. Portanto, esta última deve pensar está provocando situações novas e
bem a sua missionariedade quanto à desconhecidas até pouco tempo. A
distribuição dos agentes de pastoral, Missão mudou o conceito de missão. A
examinar a sua caminhada missionária territorialidade e a geografia da Missão
e perguntar-se se não existe demasiada Crianças na Mongólia. tiveram uma grande mudança, sobre-
preocupação pelo que tem e se não mulheres que ainda não escutaram a tudo, nos países da antiga cristandade
esqueceu o mandato de Jesus de “ir a mensagem do Evangelho. e também nos antigos países chama-
todos os povos”. Não se pode cair num Destes homens e mulheres não- dos de Missão. Estas situações novas
“eclesiocentrismo”, numa preocupação evangelizados, alguns seguem uma das nos levam a diferentes considerações
exagerada com os problemas da Igreja grandes religiões; outros se mantêm que hoje fazem parte da missão Ad
vendo essas multidões de homens e à margem da mesma idéia de Deus; Gentes.

O diálogo ecumênico
É atitude fundamental que nos leva a que continua com o escândalo da separa- a paz, a justiça, a diversidade cultural,
dialogar com as outras confissões cristãs ção é uma evangelização pela metade. A a nova ordem mundial, a ecologia e as
na procura da unidade que Jesus desejou mesma fé, o mesmo Senhor e o mesmo futuras gerações. Ultimamente diversas
para “todos aqueles que acreditassem no batismo são o fundamento da missão autoridades ecumênicas falam do “ecu-
seu nome”. Há pouco tempo, Bento XVI evangélica, mas, pode somar forças nas menismo espiritual” alicerçado na oração
falou que a evangelização hoje passa grandes questões não confessionais como motor do movimento ecumênico
pelo ecumenismo. Uma evangelização que hoje atormentam a humanidade: entre as Igrejas cristãs.

O diálogo inter-religioso
Desde o Concílio Vaticano II a Igreja religiões possuem nas suas Escrituras, o diálogo com as religiões dos povos
Católica convidou ao diálogo e colabo- os Livros Sagrados. indígenas e das culturas africanas.
ração com outras religiões não-cristãs O diálogo inter-religioso se estende Um bom protetor para o diálogo inter-
testemunhando sempre a fé e a vida cris- também às grandes religiões milená- religioso seria Carlos de Foucault, que
tã. Nessas religiões podemos descobrir rias, até mais antigas do cristianismo, passou grande parte de sua existência
“um raio daquela verdade que ilumina sem excluir, na nossa América Latina, em terras islâmicas.
todos os seres humanos”, nelas podemos
encontrar “a semente do Verbo” e elas
Michelino Roberto

podem ser uma “preparação evangélica”.
O diálogo inter-religioso é também um
diálogo de Salvação que tem seu lugar
na missão salvífica da Igreja.
Nestes tempos, o diálogo está sendo
intenso entre as religiões monoteístas
(que acreditam em um só Deus: cris-
tianismo, judaísmo e islamismo). O
centro deste diálogo está na paz que
se encontra na raiz das três revelações.
O terrorismo atual, exercido em nome
de Deus pelos fanáticos, está produ-
zindo um anseio de paz que todas as Encontro ecumênico no Mosteiro de São Bento, maio de 2007, São Paulo.

- Março 2008 17
FORMAÇÃO mISSIONÁRIA

Entre os que não crêem em Deus
Há um número crescente de pes- diminuição dos católicos e o aumento do Brasil esta situação é de urgência.
soas que não acreditam em Deus, de pessoas que declaram abertamente E aqui não conta mais a “distância
em todos os continentes e em todas a não-crença em Deus. A diminuição geográfica” e sim a “distância religiosa”.
as culturas. Nas estatísticas da Igreja dos cristãos foi muito rápida, quase É um novo Ad Gentes no qual a Igreja
sobre o número de cristãos, se viu a 10% em nove anos. Para os bispos deve pensar.

Missão Inter Gentes
Superado o conceito geográfico ecumênico, como parte integrante da outros continentes dando assistência
da Missão e o desenvolvimento dos pastoral ordinária. em algumas paróquias carentes de
movimentos migratórios, a globalização -As migrações de pessoas de religião clero. Na França, “filha primogênita da
dos conhecimentos, o propagar-se das não-cristã estão crescendo cada dia Igreja”, há cidades com mais presen-
religiões, as situações sociais em muitas mais para países tradicionalmente ca- ça de muçulmanos que de católicos.
áreas urbanas e a generalização das tólicos. Pensemos nos fiéis das grandes Concretamente em Marselha, terceira
pobrezas, podemos dizer que a Missão religiões asiáticas que estão emigrando cidade da França, 60% por cento de seus
Ad Gentes pode estar fora de casa, na por todo o mundo. Os árabes da reli- habitantes são de religião muçulmana. A
rua onde habitamos e a poucos metros gião muçulmana que estão chegando França já não precisa sair para realizar
dos lugares de culto. Elenco algumas às nações ricas. Abre-se para muitas o diálogo inter-religioso ou para fazer o
situações para ver como muitas vezes paróquias a possibilidade do diálogo primeiro anúncio. Está em casa.
os cristãos estão em situações Inter inter-religioso. No Brasil, temos desafios concretos
Gentes: - Muitos destes migrantes, es- dentro da sua geografia: culturas indí-
- Dizem os especialistas que a paró- pecialmente os da Ásia e da África gena ou afro nas grandes cidades, com
quia tradicional tem um influxo que não sub-sahariana estão em condições de sua própria religiosidade. Encontramos
vai além dos 600 metros de distância. E primeiro anúncio. os pobres nas periferias das grandes
os outros como ficam? Aparecida fala Como podemos ver, já não se trata metrópoles urbanas.
de renovação das estruturas obsoletas de áreas geográficas, mas, de situações Podemos ver como os antigos des-
e de “conversão pastoral”. Talvez abran- diversas num mesmo lugar. Hoje, a tinatários do Ad Gentes se encontram
jam 10% da população, e os outros? O Igreja, em muitas partes do mundo nas antigas cidades cristãs. Portanto, os
cuidado das estruturas, que emprega se encontra em situações Ad Gentes. temos em casa que é também a casa
a maior parte dos agentes de pasto- Vamos ver alguns exemplos: deles. Portanto, a Igreja e a Missão
ral, está criando, sem querer, o novo Na Espanha, nação tradicionalmente estão Inter Gentes.
paganismo e o indiferentismo, porque católica e berço de muitos missionários, Estas situações, missionárias cem
muitas pessoas não são tocadas pela temos centenas de muçulmanos que por cento, não anulam o mandato mis-
Palavra de Vida. Uma paróquia que professam a sua fé até com símbolos sionário de Jesus: “Ide e ensinai”, a
não está aberta à evangelização está externos como são as belas mesqui- todos os povos, raças e culturas.
condenada à morte. tas. Centenas de milhares de latino- Temos figuras missionárias muito
- As religiões cristãs estão se es- americanos à procura de emprego, interessantes na História da Igreja que
tendendo por nações e cidades tradi- muitos deles católicos de origem, mas podem ser luz para a Missão hoje: São
cionalmente católicas. Temos uma boa não atendidos suficientemente pela Francisco Xavier, São Pedro Claver,
oportunidade para realizar o diálogo Igreja local. Encontram-se padres de Santa Teresinha do Menino Jesus, Madre
Teresa de Calcutá, Carlos de Foucault,
Mateus Ricci e tantos outros e outras. O
Jaime C. Patias

Ad Gentes teve muitas formas e modos
de presença e atividade, mas estes ho-
mens e mulheres viveram radicalmente
a sua vocação missionária. 

Ramón Cazallas Serrano é missionário e mestre em
Teologia Dogmática.

Para Refletir:
1. Conhece alguma experiência de
ecumenismo, diálogo inter-religioso
ou ateísmo no seu ambiente?
2. A comunidade católica faz alguma
atividade conjunta, ou se encontra para
Dom Servilio Conti (italiano) e o diácono Lourenço Elísio (moçambicano), São Manuel, SP. dialogar ou colaborar?

18 Março 2008 -
Roteiro de Encontro
Tema do mês: “A alegria de viver!”
a) Acolhida
b) Invocação do Espírito Santo
c) Dinâmica
d) Apresentação do tema,
A alegria de viver!
questionamentos e debate
e) Compromisso mensal
O sorriso é uma conseqüência direta da felicidade.
f ) Oração conclusiva

Jaime C. Patias
de Patrick Gomes Silva

N
ão sei se você conhece alguém que sempre acorda
com cara de quem vai para um velório, passa o dia
inteiro com o semblante fechado e cada vez que abre
a boca é para se lamentar ou reclamar de algo... Eu
conheço algumas pessoas assim! O mais triste de tudo,
é que, por vezes, tratam-se de jovens que perderam
a alegria de viver...
A Campanha da Fraternidade deste ano nos lança um convite
tirado do livro do Deuteronômio: “Escolhe, pois, a vida”. Mas, não
basta escolher a vida, é preciso redescobrir a alegria de viver. Somos
criaturas de Deus, modeladas à sua imagem e semelhança e a
melhor resposta que podemos dar a este Deus criador é a alegria
de viver. Viver a vida na sua plenitude. Sei que tantas vezes em-
barcamos num ritmo frenético em nossas atividades. Parece que
sempre estamos correndo atrás de coisas que não nos enchem
o coração, mas, ao contrário nos tornam pessoas tristes e com
um grande vazio... Quando deixamos que as coisas tomem conta I Fórum da Igreja Católica no Rio Grande do Sul, setembro de 2007.
de nós, perdemos esta alegria, por isso, é preciso ter o domínio Um dos mais bonitos testemunhos que podemos dar é exatamente
sobre a nossa própria vida. Mas, atenção: a sociedade de hoje não esta alegria de viver, não ter medo de sorrir. Perante um estranho
quer que tenhamos domínio sobre a nossa vida, ao contrário, quer que encontramos na rua, por que desviar o olhar? Não seria mais
que sejamos como “marionetes” ou seja, deseja que façamos o fácil sorrir? Somos jovens e temos a vida em plenitude, ainda não
que os outros querem. Um simples exemplo: todos os dias somos sentimos os limites da natureza fazendo efeito em nós, então é
submetidos a inúmeras propagandas. A publicidade não quer nos tempo de sorrir, de declarar ao mundo que amamos viver, que não
ajudar a pensar no que é melhor para nós, ao contrário, ela nos existe nada melhor do que isto. Quando você encontrar alguém
induz a comprar produtos que muitas vezes nem precisamos. O que só se lamenta e reclama da vida, devolva-lhe um sorriso e o
que importa é que consumamos, essa é a lógica. faça entender toda a alegria de viver!
O primeiro passo para redescobrirmos a alegria de viver é Despeço-me com este texto de Cris Íris:
estarmos no comando da nossa própria vida, sermos capazes de O sorriso é uma conseqüência direta da felicidade.
parar e descobrimos que não precisamos de muitas coisas para O sorriso é a expressão mais bonita que o ser humano tem.
poder sorrir para ela. O sorriso embeleza qualquer pessoa, independente de sua
aparência.
O poder de um sorriso O sorriso nos traz forças e esperanças para lutarmos contra
No ano passado trabalhei como administrador paroquial em todos os empecilhos.
São Paulo, por cerca de seis meses. Com a chegada do novo O sorriso é universal, tem reflexos por toda parte.
pároco, no dia da despedida, um senhor se aproximou e me disse: Quando sorrimos, mostramos que estamos felizes, de bem
“padre, quero lhe dizer obrigado”. Confesso que fiquei orgulhoso, com a vida; mostramos que temos esperança e que não nos
pensando que provavelmente teriam sido as belas palavras das deixamos levar pelos problemas.
minhas homilias que tivessem feito o senhor dizer aquilo, mas, Quando sorrimos passamos nossa alegria para quem nos ama,
estava profundamente enganado e o senhor continuou, “... quero lhe e não damos prazer para quem quer nos ver chorar.
dizer obrigado pelo seu sorriso, pela sua alegria de viver!” Naquele Portanto, sorria sempre para que o amor que está em você,
instante caí por terra... afinal não foram as minhas palavras que brilhe. 
o impressionaram, mas um simples sorriso tocara a vida daquele
homem. Por uns tempos fiquei pensando naquele episódio. Depois Patrick Gomes Silva é missionário, diretor do Centro de Animação Missionário José Allamano,
entendi que um sorriso tem o poder que muitas palavras não têm. em São Paulo, SP.

Para refletir:
1. O que orienta a sua vida? Você está no comando dela, ou se deixa dirigir Compromisso Mensal:
por outras pessoas? Levar um sorriso a todos
2. Você reclama muito da sua vida? O que gera a sua reclamação? os que encontrar.
3. O que tornaria você uma pessoa alegre?

- Março 2008 19
Jovens lutam por
Destaque do mês

políticas públicas
de Dirceu Benincá Promovido pelo Centro Ecumênico de A I Conferência propõe a discussão e
Serviços à Evangelização e Educação mobilização da sociedade a partir de 12
Popular (CESEP) e realizado na Pontifí- eixos temáticos: família; educação; cida-

N
cia Universidade Católica de São Paulo des e territórios; trabalho; cultura; drogas;
o ano de 2005, a Secretaria (PUC), a 21ª. edição do Curso ocorreu meio ambiente; sexualidade; diversidade;
Nacional de Juventude definiu entre os dias 6 e 16 de janeiro deste ano. participação política; mídia; liberdades
como juvenil a faixa etária Com o tema: “Juventude: caminhos para democráticas. Mais informações podem
compreendida entre 15 e 29 outro mundo possível”, 560 pessoas de ser encontradas no site www.juventude.
anos, num total de 50,5 mi- 19 estados brasileiros e até de outros gov.br onde também existe sugestivo
lhões de pessoas em todo o países, sendo 58% jovens, refletiram e material de apoio.
país. Ou seja, quase 1/3 da população trocaram experiências.
brasileira é constituída por jovens que Durante o Curso de Verão aconte- O fantasma do desemprego
vivem, na sua absoluta maioria (84,6%), ceu uma conferência livre. Junto com Os jovens são vítimas do desemprego
em áreas urbanas. Não só pelo expressivo as conferências livres, as municipais e ou subemprego. Em 2004, para cada 100
contingente, mas também pela difícil rea- estaduais são momentos de preparação adultos no mercado de trabalho, 8 estavam
lidade enfrentada por múltiplas categorias para a I Conferência Nacional de Políticas desempregados. No caso dos jovens, o
de jovens e pela pluralidade de aspectos Públicas para a Juventude, que terá lugar número era três vezes maior (24,5%). O
e questões vinculadas a esse período da em Brasília entre os dias 27 e 30 de abril. desemprego os obriga a encontrar saídas
vida, é importante, necessário e urgente Todo o processo da I Conferência é um em trabalhos informais, precários e/ou
o debate sobre o assunto. espaço de diálogo entre a sociedade civil autocriados. Muitos buscam uma “alterna-
Interessantes ações estão sendo e o governo, visando construir políticas tiva” de sobrevivência ao mundo da droga
realizadas para esta faixa etária. Entre públicas para os diversos segmentos e do crime. Isso ajuda a entender porque
elas, o Curso de Verão de São Paulo. juvenis. cerca de 70% dos detentos do sistema
Fotos: Arquivo Oficina de Jornal Popular

Participantes do Curso de Verão 2008, PUC-SP.

20 Março 2008 -
Entre os dias 27 e 30
Elza Fiúza/ABr

de abril, ocorrerá a I
Conferência Nacional de
Políticas Públicas para
a Juventude, em Brasília,
como um espaço de diálogo
entre a sociedade civil e o
governo.
à Universidade. Mas, não é só isso. Há
os analfabetos funcionais e também os
que não estudam nem trabalham. O con-
tingente dos jovens de 15 a 29 anos que
está nessa situação chega a 4,5 milhões
(PNAD/2003).
No ano 2000, quase três milhões de
Jovens no Encontro Nacional de Gestores em Políticas Públicas de Juventude.
jovens entre 15 e 19 anos se declaravam
carcerário são jovens. Dentre as iniciati- acerca do assunto, a participação comu- analfabetos. São os que vivem no campo os
vas de enfrentamento à exclusão juvenil, nitária, a escolha de amizades saudáveis que menos estudam. Em 2003, 45% deles
existe o Programa Nacional de Inclusão são importantes formas de combater esse estavam fora da escola. Isso se deve em
de Jovens: Educação, Qualificação e Ação problema. Drogas: é muito melhor prevenir grande parte ao insuficiente investimento
Comunitária (ProJovem), implantado em que remediar. Para isso, é necessário a de recursos financeiros para o setor. O
2005 pelo governo federal. O ProJovem decisão pessoal, mas também exige sérios Brasil destina à escola pública em torno
é coordenado pela Secretaria-Geral da investimentos em políticas públicas. de 4,6% do PIB (Produto Interno Bruto).
Presidência da República em parceria com Segundo o INEP/IPEA, para cumprir as
os ministérios da Educação, do Trabalho A questão da sexualidade metas do Plano Nacional de Educação,
e Emprego e do Desenvolvimento Social Na sociedade de consumo, a sexua- seria necessário elevar o valor para 8%.
e Combate à Fome. Destina-se a atender lidade passa a ser vista e tratada como
jovens de 18 a 24 anos que terminaram a importante fonte de lucro. Embarcando O desafio da participação
4ª série, mas não concluíram a 8ª série do na onda do prazer total e, muitas vezes Existem inúmeros espaços sociais
Ensino Fundamental e não têm vínculos sem responsabilidade, inúmeros jovens onde a juventude está participando e
formais de trabalho. Informações podem ser sofrem e se dão mal, contraindo Doenças dando uma contribuição significativa e
obtidas no site www.projovem.gov.br Sexualmente Transmissíveis (DST). Muitas diferenciada. Bastaria lembrar a presença
adolescentes e jovens engravidam; depois dos jovens nas comunidades eclesiais,
O submundo da droga se ressentem com a falta de acesso a um nos múltiplos grupos, na arte, no esporte,
Há vários caminhos que conduzem à digno atendimento; são abandonadas, nos meios estudantis, nas universidades,
dependência e morte. Entre eles estão as desprezadas e acabam carregando marcas nos movimentos sociais etc. Porém, nem
drogas, em torno das quais se mantém um negativas pela vida afora. sempre há reconhecimento, aceitação,
grande e perverso comércio. A juventude A afetividade e a sexualidade na vida compreensão e valorização da sua ca-
é o principal alvo desse mal. Segundo o juvenil são dimensões importantes e pre- pacidade e potencial.
Grupo Interdisciplinar de Estudos do Álcool cisam ser bem integradas. Não é possível A participação dos jovens pode e ne-
e Drogas (GREA), da Universidade de São reduzir a sexualidade à relação sexual. O cessita crescer no compromisso efetivo
Paulo, a curiosidade é a motivação que diálogo, a formação com base em princípios com a construção de um mundo mais justo,
leva nove, em cada dez jovens, a consumir éticos e o respeito pelo outro são fatores solidário, democrático, fraterno e humano.
drogas pela primeira vez. Porém, as cau- imprescindíveis para uma vida afetiva Nesta perspectiva, a I Conferência Nacio-
sas variam. Entre os medos enfrentados responsável e serena. Nisso, a família, a nal de Políticas Públicas para Juventude
pelos segmentos juvenis de hoje está o escola, a Igreja e os meios de comunicação – com o lema “levante sua bandeira” – é
medo de "sobrar". Daí a necessidade de têm um papel fundamental. um acontecimento importante. É preciso
se encaixar em algum grupo. Mas, nem garantir a continuidade desse processo
sempre esses jovens escolhem caminhos Educação e formação na luta por direitos, na conscientização
de vida e acabam ingressando em grupos Embora haja avanços na área da acerca das responsabilidades e na busca
de risco. educação, a situação precisa melhorar da cidadania ativa. Muitas são as bandeiras
Não basta dizer que a droga é ruim. muito. De acordo com o IPEA/2005, 68% a serem erguidas e mantidas levantadas
É preciso encontrar maneiras eficazes dos adolescentes não completam o Ensino para que outro mundo seja possível! 
de prevenir a dependência. Certamente Fundamental aos 15 anos; apenas 40%
o trabalho, a educação, o bom ambiente dos jovens brasileiros concluem o Ensino Dirceu Benincá é sacerdote, doutorando em Ciências Sociais -
familiar, o diálogo sincero e elucidativo Médio e 3,6% entre 20 e 24 anos chegam PUC/SP e membro da equipe de trabalho do CESEP.

- Março 2008 21
Projetos Sociais

João Sinhori
Instituto Missões Consolata
promovem a vida

O
Evangelização nas periferias.
Instituto Missões Consolata - IMC, fundado em Turim, Itália, em

Lírio Girardi
1901, pelo Bem-aventurado José Allamano, tem por finalidade
a evangelização e a promoção humana como expressão do
carisma missionário. Contando com cerca de 1.000 membros
entre padres e irmãos consagrados, o IMC atua em 23 países
na África, Ásia, Europa e Américas, privilegiando situações
humanas menos favorecidas. No Brasil, os missionários da Consolata desen-
volvem projetos com a colaboração de amigos e benfeitores.

Nas periferias
A grande maioria dos missionários está prestando serviço nas periferias Jacir de Souza e dom Aldo Mongiano, Maturuca, RR.
das cidades, como Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, onde a violência, a

Arquivo
falta de emprego, a moradia precária e a insegurança são grandes desafios.
Evangelização e promoção humana através de obras sociais nas áreas da
saúde, educação e formação profissional proporcionam, principalmente aos
jovens e mulheres, uma vida mais digna.

Apoio à causa indígena
Desde 1948, o IMC colabora com outros organismos na defesa e promoção
dos direitos dos povos indígenas, particularmente na Região Amazônica. Como
muitas lideranças, alguns missionários deram a própria vida por esta causa.
Curso em Salvador, BA.
Entre ameaças, invasões, raptos e mortes, juntos conquistaram algumas im-
portantes vitórias: a demarcação das terras indígenas e a sua autogestão.

José Roberto Garcia
Pastoral Afro
O Brasil tem a maior população de origem africana do mundo. No entanto,
pesquisas revelam que, entre os menos favorecidos do país, além de sofrer
com o racismo, os afrodescendentes são os mais excluídos da educação, da
saúde e do mercado de trabalho. A Pastoral Afro tem por missão resgatar a
dignidade deste povo apoiando ações afirmativas para sua inserção na uni-
versidade e no mercado de trabalho.
Cisterna em Muquem, Monte Santo, BA.
Água para o semi-árido do Nordeste

Patrick Silva
Os projetos de captação, canalização e distribuição da água para as po-
pulações do semi-árido na Bahia realizam o sonho de milhares de famílias. O
objetivo é solucionar o histórico problema da falta de água na região através
de poços, construção de reservatórios, cisternas e canalização da água até
as casas.

Apoio à causa dos portadores do vírus HIV
Quando o vírus HIV começou a se difundir entre os brasileiros, em 1990
surgiu em São Paulo o Lar Betania, uma das primeiras casas de apoio para
as pessoas portadoras. Hoje as Obras Sociais Padre Costanzo Dalbesio da Lar Betania
Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro do Imirim, São Paulo, conta
Jaime C. Patias

com outras três casas abrigando 20 pessoas entre crianças, adolescentes e
jovens. Cada unidade tem a capacidade para acolher 12 pessoas. Essa obra
é uma contribuição para re-inserir os moradores, com todos os seus direitos
e deveres, na sociedade (ver matéria na pag. 23).

Creche Padre Bernardo Gora
Obra social do Instituto Missões Consolata, localizada no bairro Jardim
Peri, Zona Norte de São Paulo atende 100 crianças de 3 a 5 anos. A Paróquia
Nossa Senhora da Penha administrada pelos missionários, no mesmo bairro,
mantém outras três creches que atendem juntas cerca de 350 crianças, con- Crianças da Creche Jd. Peri.
tribuindo para a sua educação e formação. 

22 Março 2008 -
Uma opção corajosa
Obras sociais como expressão missionária de uma Igreja
comprometida com a vida.
de Valeriano Paitoni ceito e a rejeição. Apesar de alguns avanços, infelizmente, elas
continuam constituindo o maior desafio na formação humana e
espiritual dos portadores do vírus HIV.

E
A afirmação do Apóstolo Tiago de que “a fé sem obras é
m preparação para o Congresso Missionário Latino- morta” foi a base do renovado ardor missionário que requalificou
Americano (COMLA 5), - que foi realizado em Belo todas as pastorais e que salvou a vida das mais de 100 crian-
Horizonte no ano de 1995 - a comunidade paroquial ças que ao longo desse tempo passaram por essas casas de
de Nossa Senhora de Fátima no bairro do Imirim, apoio. Somente cinco vieram a óbito enquanto as demais foram
Zona Norte de São Paulo, respondeu ao chamado adotadas ou inseridas em suas próprias famílias. Atualmente
missionário fundando a Sociedade Padre Costanzo 20 crianças, adolescentes e jovens ainda estão morando nas
Dalbesio, no dia 20 de junho de 1994. A Sociedade tinha como casas de apoio.
objetivo dar suporte às casas de apoio de crianças portadoras A Vila Vitória destina-se aos jovens com 16 anos ou mais,
do vírus HIV, constituindo-se como entidade não-governamental. com o objetivo de torná-los protagonistas do próprio futuro, até
Iniciava-se assim um novo caminho de requalificação das pas- que atinjam condições para o desligamento da entidade.
torais com um renovado ardor missionário. Assim como a paróquia foi rápida em dar uma resposta ao
Em 7 de outubro de 1994 foi inaugurada a Casa Siloé, e em apelo do COMLA 5, hoje se alegra ao constatar que o compro-
janeiro de 1998 o Lar Suzanne começava suas atividades. Em misso assumido pelos bispos na V Conferência do Episcopado
outubro de 2006 surgiu a terceira casa, destinada aos adoles- Latino-Americano e do Caribe, em Aparecida, está sendo vivido
centes e jovens, com o sugestivo nome de Vila Vitória. A escolha pela comunidade desde 1994.
do nome consagra a luta, as dificuldades e as conquistas vividas Mais feliz ainda, a paróquia pode se sentir quando reflete
ao longo dos 14 anos de existência, mantendo viva a esperança sobre o tema da Campanha da Fraternidade deste ano, e percebe
da vitória definitiva, quando a ciência anunciar a cura definitiva a sintonia com o desejo da CNBB e da Igreja: “a riqueza de uma
aos portadores do vírus HIV. existência consiste em promover vida onde ela está ameaçada
As dificuldades financeiras são reais e acompanham os e empobrecida na sua dignidade humana”. 
trabalhos das casas de apoio, porém, muito maiores e dificeis de
serem superadas são as dificuldades humanas, como o precon- Valeriano Paitoni, imc é missionário na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, Imirim, SP.

Pascom Imirim

- Março 2008 23
Chega de fumaça!
“O ar que eu respiro [...] É o sopro do Espírito que anima a terra
Infância [...] nas quatro estações”. Roberto Malvezzi (Gogó)
Missionária

de Roseane de Araújo Silva

Q
uando pensamos em crianças e adolescentes, lem-
bramos sempre da algazarra, da alegria, da vida em
flor, dos risos incontidos, sem lembrar de momentos
nem tão alegres que alguns destes pequenos acabam
passando. Dados nos mostram que em 25 países
do mundo, mais de 15% das crianças morrem antes
de chegar aos cinco anos de idade, por inúmeras
razões, dentre as quais a desidratação, o abandono, as infecções,
desde as mais simples até as mais graves... No hemisfério sul do
planeta, onde está localizado nosso país, bem como o continente
africano, muito embora as incontáveis campanhas de vacinação,
implantação de postos de saúde e educação junto às mães, os o monóxido de carbono e cianeto, ou seja, o fumo causa riscos
índices de mortalidade infantil mantém-se praticamente os mes- crônicos à saúde das pessoas, sejam elas fumantes ou não.
mos, ano após ano. A União Internacional contra o Câncer lançou em fevereiro,
no Dia Mundial do Câncer, a primeira campanha global intitu-
O mal do tabagismo lada "I love my smoke-free childhood" (Eu amo minha infância
Vamos falar de um mal quase invisível em nossos dias: o livre de fumo). Esta campanha ressalta a necessidade dos pais
tabagismo. É de conhecimento de todos os males causados pelo protegerem as crianças do fumo passivo, devido a influência
cigarro, porém, pouco se discute sobre o fumo passivo. Estima- prejudicial desde os primeiros meses da concepção até a idade
se que 700 milhões de crianças respiram o ar poluído da fumaça adulta. Um dos objetivos desta campanha é a prevenção do
de cigarro, em um número que equivale à metade dos jovens câncer, principalmente junto às crianças. Cerca de 40% dos
do mundo. É uma perigosa mistura de toxinas, como a nicotina, cânceres são evitáveis através de hábitos saudáveis e o principal
deles é a prevenção através da educação, a partir da família e
comunidade. Sabemos que o interesse das indústrias do fumo
em todo o planeta é o lucro exorbitante, passando por cima da
Sugestão para o grupo vida de milhões de pessoas, fumantes ou não. Mais uma vez,
a vida das nossas crianças é posta em risco.
Acolhida
Motivação (objetivo): refletir com o grupo as enfermidades
que atingem as crianças, principalmente as doenças causadas Pseudoliberdade
pela fumaça do cigarro. Jesus afirmou ser o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14, 6),
Oração: Deus Pai, olhai com carinho as nossas crianças e e quando realizava sua missão na terra colocou a vida em pri-
adolescentes que sofrem com os efeitos do fumo passivo. Que meiro lugar. Foi assim quando curou o empregado do centurião
o Teu Santo Espírito fortaleça a todos aqueles que combatem romano (Mt 8, 5-13), e o paralítico na piscina de Betesda (Jo 5,
o tabagismo nos cinco continentes. 1-18). Para Jesus o importante é a vida e a liberdade, porque
Partilha dos compromissos semanais
elas estão acima até mesmo das leis religiosas e da opinião de
Leitura da Palavra de Deus: Ato dos Apóstolos 3, 1-8 O nome
de Jesus liberta quaisquer autoridades. Foi dessa maneira que Jesus agiu. Diante
Compromissos missionários: Neste episódio, Pedro e João da máquina de “produzir fumantes” desta sociedade do espetáculo,
demonstram sua presença junto aos que deles necessitam. onde vemos a cada dia o consumo do cigarro aumentar desde os
Seu gesto de dar a mão e fazer levantar o aleijado, nos ajuda nossos adolescentes, também devemos agir. Sempre em grupo e
a entender que a nossa missão ocorrerá junto aos que mais falando sobre cigarro, eles dizem: “ah, não dá nada!”, “é massa!”,
necessitam, porque somos chamados a servir aos nossos ou “é legal fumar!”; mas isso representa uma pseudoliberdade
irmãos em qualquer situação. Cristo caminha conosco, nos
manifestada pela rebeldia e pelo uso precoce do fumo. O desa-
fortalecendo por maior que seja o desafio. O gesto concreto
junto à comunidade será a pesquisa do grupo a respeito das fio para defender a vida das nossas crianças e adolescentes, é
doenças causadas pelo fumo, principalmente as mais comuns não deixá-los sozinhos enfrentando este problema. Escolhemos
nas crianças. Organizar o painel no mural da comunidade ou a vida como bandeira e é por várias vidas que clamamos, sem
paróquia, em conjunto com a catequese para atingir um número esquecer que “a criança missionária sempre pensa em nós” (10º
maior de pessoas. Compromisso da Criança Missionária). Ao defender o mundo que
Momento de agradecimento à Santíssima Trindade pela vida queremos, defendemos da mesma maneira a vida com liberdade
das crianças e adolescentes que resistem aos problemas de
saúde causados pelo cigarro. Abençoai ainda, aqueles que se
para todos, como Deus Pai assim sonhou. De todas as crianças
envolveram desde cedo no vício do fumo. do mundo – sempre amigas! 
Canto e despedida.
Roseane de Araújo Silva é missionária leiga e pedagoga da Rede Pública do Paraná.

24 Março 2008 -
- Março 2008 25
Educação é vida!
Entrevista

Parte das instalações da Escola.

Missão é partir, anunciar, de Portel, Pará. Ana trabalhou na periferia
da capital, Belém, onde, além da formação
ge alunos da 8ª à 12ª classe, é o ensino
secundário geral. Além das disciplinas
testemunhar, servir. Abrir religiosa, fez seus estudos na Universidade
Estadual e foi assessora da Conferência
curriculares introduzimos educação moral,
língua e cultura local Xitshwa e psicologia
horizontes e ir ao encontro dos Religiosos do Brasil (CRB). Atuou
também em Divisópolis, Minas Gerais.
educacional, preparando os jovens para
enfrentar a vida na sociedade, que está
dos que estão perto e dos Em Moçambique, é diretora da Escola
Secundária Padre Gerardo Gumiero, criada
carente de bons profissionais. Nos últimos
anos a educação tem ajudado considera-
que estão longe. pelas Agostinianas e missionários da Con-
solata em 1995, com início das atividades
velmente para uma mudança de compor-
tamento na organização da vida.
em 1996. A Escola pertence à Diocese de
Inhambane e tem por finalidade, educar e Os alunos que estudam na escola
Texto e fotos de Jaime Carlos Patias promover a vida. Em 12 anos de funciona- conseguem ingressar na faculdade?
mento, a escola preparou mais de 5.000 Por causa dos custos, a universidade

N
alunos. Para Ana de Fátima, a Missão das ainda é para poucos, porém, já temos mui-
o intuito de incrementar o Agostinianas em Moçambique é promover tos ex-alunos de Mapinhane cursando as
compromisso com a Missão a pessoa humana evangelizando através universidades do país, privadas ou públicas.
além-fronteiras, em 1995, as da educação na escola e comunidade, ins- Alguns que se destacaram, pelo esforço e
irmãs Agostinianas Missioná- piradas na pedagogia de Santo Agostinho, boas notas como é o caso do Reginaldo
rias abriram uma comunidade educador e mestre. Banze, filho de Mapinhane, e Ralita, filha
no sul de Moçambique. As de Massinga, estudam medicina em Ma-
irmãs Ana de Fátima Primavera Mendon- Irmã Ana, qual a importância da puto, além de outros tantos que seguem
ça, Evanilda de Jesus Coelho da Costa Escola Padre Gumiero para a região? outros cursos. Sabemos de alguns que
e Antônia Eribe formaram a primeira co- São apenas dez as escolas secundárias foram contemplados com bolsas e estão
munidade em Mapinhane, província de na Província de Inhambane, que é muito em universidades no Brasil, Portugal,
Inhambane, Missão que foi fundada pelos extensa e com um número crescente de Índia e outros países. Um grande número
missionários e missionárias da Consolata jovens em idade escolar. Em Moçambique, são professores nas escolas primárias
em 1946. segundo o Ministério da Educação, cerca e secundárias da região. Existem ainda
Entrevistamos irmã Ana de Fátima, 42, de 400 mil alunos estão fora dos colégios aqueles que voltaram à Escola Gumiero
religiosa há 21 anos, enfermeira, natural por falta de vagas. A nossa escola abran- como professores e cursam a universida-

26 Março 2008 -
de à distância na Beira, como Ana Bela, deixaram a nossa escola por gravidez. A ocupado pela irmã Evanilda. Mesmo não
Florêncio e Carlos Inácio, num programa juventude enfrenta também as Doenças atuando especificamente na minha área
da Universidade Católica. Sexualmente Transmissíveis (DTS) e o de formação, Deus me deu os dons e
vírus HIV, que vem ceifando muitas vidas. reconheço que eles devem estar sempre
Como vocês enfrentam a falta de O índice de contaminação entre os alunos em função das necessidades da Missão.
professores? e professores preocupa. A experiência ensinou-me a acolher a
Esse é um dos maiores desafios da vida com objetividade, mas também com
educação no país, bem como a qualidade E como a escola se mantém? o coração. Diante de algumas situações,
de sua formação. Nos últimos anos as Desde o início a Escola Gumiero fez nem sempre tenho a solução, nem sei
escolas aumentaram de 6.114 para 8.691, um acordo com o Ministério da Educa- como dar respostas.
mas o número de professores diminuiu. ção no qual o governo fornece e paga
Na nossa escola, o problema é ainda os professores. Os alunos pagam uma Qual a importância da comunidade
maior porque os nosso professores são do mensalidade, pois o ensino secundário para o trabalho na Missão?
Estado, que prioriza as escolas públicas. no país não é gratuito. Há uma grande Como Agostinianas estamos cons-
Quando eles adquirem experiência alguns procura de vagas por famílias com me- cientes de que o trabalho missionário
são retirados para assumir cargos de chefia lhores condições de vida, residentes nas parte da comunidade e tem valor se for
em outros estabelecimentos de ensino. cidades vizinhas e até na capital, Maputo, assumido em fraternidade. Santo Agos-
Em 2008 matriculamos aproximadamente distante 650 quilômetros, que visam uma tinho nos ensinou que devemos ter tudo
700 alunos e o número de professores boa formação aos filhos. Alguns vêem o em comum e ter em conta, em primeiro
diminuiu para 25, sendo 21 contratados internato (Lar) das escolas católicas como lugar, a humildade, em segundo lugar a
pelo Estado, dois enviados do Corpo um centro de correções, o que nos tem humildade e em terceiro lugar a humil-
de Paz (voluntários americanos), uma trazido desafios, devido aos costumes e dade. Sem o apoio da comunidade não
brasileira (missionária) e um assumido vícios como drogas e álcool. Damos prio- é possível viver o Evangelho de Jesus
pela escola. Prevalecem professores com ridade aos alunos da região, praticando Cristo. Muitos foram os missionários, com
formação de nível médio. Os bacharéis uma taxa menor em relação aos que vêm seus talentos e carismas, também leigos e
e licenciados são poucos. Contudo, sete de fora. Os alunos que têm dificuldades de colaboradores, que passaram pela região
estão cursando faculdade à distância e alojamento ficam nos internatos da escola, deixando a sua contribuição. De maneira
outros irão iniciar em breve. mas nem todos têm condições de contribuir especial, agradeço aos missionários da
com as despesas. Mesmo com apoio que Consolata, que reativaram esta Missão
No dia-a-dia quais os maiores a escola recebe do Programa Mundial de e foram apoio para as irmãs Agostinia-
desafios? Alimentação, que neste ano está sendo nas em sua chegada em Mapinhane. A
Além da falta de professores forma- retirado, fica difícil manter os internatos. missão é de Deus e tem sempre quem
dos, a maioria deles são jovens e alguns Além da alimentação, temos de pagar o dá continuidade. Hoje vivo e trabalho
têm menos idade do que muitos alunos. pessoal de serviço em geral. com as irmãs Lenice Echamendi e Maria
Outro desafio é manter as meninas na Bernadete Gonçalves, ambas brasileiras,
escola pela falta de prioridade que a Ao longo dos anos, o que você e na paróquia trabalham os missionários
mulher dá ao estudo. São poucas as aprendeu com a Missão? da Consolata padres Fábio Malesa, Jorge
que concluem o nível médio. No país, o Estou aqui como missionária e devo Guilherme e Fernando Carneiro.
número de meninas corresponde a 46% ser feliz onde Deus me plantou. Nessa
dos alunos matriculados. As meninas em Missão tenho aprendido bastante com os O que você diria para missionários
geral, tendem a ter filhos muito cedo, e desafios e dificuldades. Agora a vejo muito e missionárias, mesmo os leigos que
quando isso acontece abandonam a es- mais abrangente, vivida e assumida desde vão para a Missão?
cola. Não é fácil acompanhar as alunas uma experiência de fé. O meu desejo como Diria para deixar de lado a bagagem
grávidas devido à tradição, que passa missionária, ao chegar em Moçambique, das certezas, da formação universitária,
a ser lei da vida. Ao atingir 12 anos, as foi servir mais na área da saúde como profissional. Partam com o coração livre
meninas já devem seguir o seu caminho, enfermeira, mas ao chegar em Mapinhane, e o espírito despretensioso, dispostos a
buscar um companheiro para se manter e o plano de Deus foi outro. No início custou partilhar experiências, dar e receber, ouvir
ter seus filhos. A mulher que não procria aceitar, mas hoje sou agradecida por ter e falar, ser e deixar que o outro seja... sem
sofre algum tipo de pressão. Em 2007 sido capaz de trabalhar na educação como esperar muito, mas, sobretudo servir. Em
cerca de 20 meninas (num grupo de 250) professora e diretora, cargo inicialmente maio completo 13 anos em Mapinhane e
cada ano que passa cresce a convicção
de que o fundamental é estar disponível
para assumir a Missão com tudo o que ela
comporta e acolher o povo que nos recebe
com alegria. Sou feliz e acima de tudo,
sinto-me realizada na minha vocação. A
certeza do amor de Deus por mim e pelos
meus irmãos faz-me mais forte e segura
onde quer que eu vá. “O meu amor é o
meu peso”. “Fizeste-nos Senhor Para Vós
e o nosso coração está inquieto até que
descanse em Vós”. (Santo Agostinho).

Jaime Carlos Patias é missionário, mestre em comunicação e
Alunas da escola. diretor da revista Missões.

- Março 2008 27
Vidas para a Missão
Primeira Profissão Religiosa de
três jovens missionárias.
de Cristina Ribeiro Silva

A
primeira Profissão de três jo-
vens missionárias da Consola-
Daniela com os pais. Camila (centro).
ta testemunha a revitalização
carismática numa Igreja sem
fronteiras. “Eu, Javé, chamei-te
para a justiça. Tomei-te pela
mão e te dei forma. Coloquei-te como
aliança de um povo e luz para as nações”
(Is 42, 6).
Um grande desafio para os tempos
atuais é, sem dúvida, a vocação religiosa
missionária além-fronteiras: radicalidade,
desapego, profetismo, internacionalidade
e compromisso no seguimento a Jesus
Stefania. Noviças 2008.
Cristo.
Daniela dos Reis Chagas, Maria Ca- Sim definitivo seja necessário. "Continuar a fortalecer
mila Rozalez e Stefania Raspo souberam Stefania fez a sua Profissão Religiosa este chamado que Deus me tem feito,
arriscar. Elas encarnaram durante os no dia 29 de janeiro de 2007. O que sentiu aprofundando e alimentando o amor em
anos de formação, o sentido de pertença foi muita paz e alegria em dizer "sim" ao seu Filho Jesus Cristo, amando-O radi-
a uma família, a família da Consolata. Senhor. Ao longo de sua preparação, vá- calmente assim como aos meus irmãos e
Identificaram-se com a força vital do Ca- rios "sins" foram proferidos: o ingresso na irmãs é a minha Missão" afirmou.
risma da Consolação. Como mulheres congregação, as dificuldades do dia-a-dia
apaixonadas por Cristo e pela humani- e os momentos de discernimento vocacio- Noviciado
dade se comprometeram a permanecer nal. Mas, para ela "este foi o definitivo. Na O Deus da Vida continua chamando:
firmes e fiéis no amor, a assumir novos minha liberdade eu entreguei tudo o que “Passo por passo, eis-me aqui! Mãos em
riscos e a transformar as estruturas de sou ao meu Senhor, para que Ele faça de tuas mãos na estrada sem fim!”
violência e morte em possibilidades de mim segundo o seu coração. Eu não sei O Noviciado Continental América,
vida. Realizaram sua primeira Profissão aonde esta vocação missionária vai me situado na Região Norte de São Paulo,
nos respectivos países, na própria Igreja levar. Somente sei que onde eu for, terei Brasil, acolhe mais quatro jovens: Cláudia
local, com a presença dos pais, familiares a certeza que estar naquele lugar pelo Liliana Gómez Cardona, Maryore López
e amigos. Camila na Argentina, Stefania na coração de Deus-Amor. E tudo isso é e Castro, Angélica Guevara Quirós, da Co-
Itália e Daniela em São Paulo, Brasil. será a minha alegria". lômbia e Hortência Brito Novais, do Brasil.
Elas juntam-se a outras três noviças do
Verdadeira felicidade Amor radical por Cristo segundo ano visando a preparação para
Para Daniela, ser consagrada a Deus Camila deu seu "sim" a Deus no dia a Profissão Religiosa. Os dois anos de
e à Missão na família da Consolata, sonho 27 de janeiro. Alegria, emoção, ansiedade, Noviciado são precedidos por outras eta-
alimentado durante os anos de acom- nervosismo e muita felicidade a invadiram, pas que progressivamente vão ajudando
panhamento vocacional e formativo, foi porque estava confirmando o seu sim, a esclarecer o que Deus quer para a vida
finalmente concretizado. Sentiu imensa que foi amadurecido durante o tempo da das vocacionadas e como gostariam de
alegria por ter dado seu sim a Deus e pelo formação, até chegar diante do altar. Na responder a este chamado. O Noviciado,
convite que Jesus fez para anunciar seu celebração sentiu-se acompanhada por portanto, é uma etapa de encontro com
amor entre os povos, especialmente aos toda a família das irmãs, missionários e Deus e consigo mesmo, dentro de uma
pobres, seus preferidos. "A entrega da leigos da Consolata, assim como de sua comunidade e junto com outras jovens que
própria vida é o que dá sentido à existência. própria família. Experimentou a verdadeira estão no mesmo processo. A Profissão
Oxalá que todo jovem sentisse a mesma fraternidade. Com este compromisso, Religiosa é a resposta livre a um Deus
alegria e liberdade que sinto percorrendo que em liberdade e tranqüilidade é dado, que chama com amor fiel, para o serviço
este caminho, que por vezes é de pedras, sentiu-se enviada a levar a Consolação e na Missão. 
não se pode negar, mas que leva à ver- o amor do Senhor a todo aquele que pre-
dadeira felicidade", afirmou. cisar, em qualquer lugar do mundo, onde Cristina Ribeiro Silva, MC, é educadora.

28 Março 2008 -
Fórum Social Mundial
2008
Jaime C. Patias

do Colégio São Luiz, um encontro de or-
ganizações da sociedade civil e pessoas
durante todo o dia. Um diferencial em
relação às edições anteriores foi a intensa
troca de experiências entre as diversas
cidades participantes ao redor do mundo.
O participante do Fórum em São Paulo,
por exemplo, poderia se inteirar sobre a
situação da Palestina, da Alemanha ou
dos países africanos por meio de uma
videoconferência.

Belém no horizonte
Depois de Porto Alegre ter sido a sede
em 2001, 2002 e 2003, o encontro dos mo-
vimentos sociais migrou para Mumbai, na
Índia em 2004, e retornou à capital gaúcha
em 2005. No ano seguinte, o Fórum teve
Chico Whitaker um dos fundadores do FSM e membro do Comitê Internacional, participa de ações em São Paulo. um arranjo diferente e dividiu-se em três:

M
Bamako, em Mali, Caracas, na Venezuela,
ais de 800 ações em 80 de 40 atividades. As oficinas, palestras, e Karachi, no Paquistão. Já o de 2007 foi
países. Esse foi o Fórum plenárias e vídeos, entre outras ações, realizado em Nairóbi, no Quênia.
Social Mundial (FSM) de ocorreram também em mais 47 cidades Em 2009, o Fórum Social será realizado
2008: um processo de mo- brasileiras, além das manifestações por em Belém, Pará, que, oito anos depois do
bilização descentralizada mais de 80 países do globo terrestre. A primeiro encontro, apresentará um novo
que culminou com o Dia descentralização serviu para levar o FSM contexto de enfrentamento dos movimentos
de Mobilização e Ação Global em 26 de a diferentes regiões e para dar oportunida- sociais. "Porto Alegre era ainda um am-
janeiro. "A minha avaliação é de que foi de a participantes que teriam dificuldade biente político onde o neoliberalismo era
muito positivo fazer o Fórum descentrali- de cobrir os custos de deslocamento até hegemônico até no mundo intelectual. Foi
zado neste ano. Nos fóruns centralizados, locais mais distantes. o grito de que outro mundo era possível,
mundiais e nacionais, nem todo mundo pode Em mais uma edição do FSM, a oi- denunciando o neoliberalismo", lembra
participar. Muito mais gente se interessou tava, destacaram-se os cerca de dez João Pedro Stedile, do Movimento dos
nesse processo", afirma, satisfeito, Chico mil cariocas que circularam pelas sete Sem-Terra. "Estamos em um ambiente
Whitaker, integrante do conselho internacio- tendas temáticas espalhadas no Aterro político melhor", completa. Reflexo dis-
nal do Fórum Social Mundial. Ele destaca do Flamengo – cada qual com um tema so, para ele, são as vitórias eleitorais de
a amplitude comunicacional possibilitada especial como a economia solidária, artes presidentes de alguns países do sul e da
pela divisão das manifestações entre as cênicas, audiovisual e a tenda das idéias. América Latina como protesto ao neoli-
cidades do mundo, o que conferiu uma Estiveram presentes o dramaturgo Augusto beralismo. "Portanto já estamos saindo
maior visibilidade para as ações. Num Boal, o teólogo Leonardo Boff e o músico da hegemonia total do neoliberalismo",
balanço geral, Whitaker acredita que este Tico Santa Cruz. pontua. Os temas da mudança climática
foi um ano de muito aprendizado. A mobilização em São Paulo foi mar- e agressões ao meio-ambiente estão
Muitos aprenderam que em Belém, cada por atos em diferentes pontos da diretamente envolvidos com o modelo de
Pará, daqui a um ano, provavelmente o cidade, com destaque para a encenação desenvolvimento atual. Um novo modelo
tempo estará chuvoso, como foi no Dia anticapitalista protagonizada por integran- econômico, não-consumista, baseado na
de Ação Global, 26 de janeiro deste ano, tes de movimentos sociais no Centro. A qualidade de vida e na interação de toda
mas não o bastante para aplacar os âni- Comissão de Justiça e Paz e a Associação biodiversidade existente no planeta é o
mos das mais de seis mil pessoas que, para o Desenvolvimento da Intercomuni- que propõe o FSM 2009. 
por meio de um grande cortejo político- cação (ADI) associaram-se organizando
cultural, encerraram os cinco dias de mais o "Sábado-Feira" no centro de eventos Envolverde/Brasil de Fato

- Março 2008 29
Carta do 12° Encontro Nacional
de Presbíteros
Estimado irmão Presbítero:

Arquivo CNBB
Nós, 430 presbíteros delegados vindos
das dioceses do Brasil, reunidos de 13 a 19 de
fevereiro de 2008, em Itaici, Indaiatuba (SP),
no 12° Encontro Nacional de Presbíteros nos
dirigimos fraternalmente a você. Refletimos,
à luz da Conferência de Aparecida, o tema:
“Presbíteros, Discípulos e Missionários de
Jesus Cristo na América Latina”, e o lema:
“chamou-os para estar com Ele e enviá-los
em missão” (cf. Mc 3,13-14). O encontro foi
VOLTA AO BRASIL

um momento oportuno de partilha de expe­
riências e sonhos que acalentam nossa vida
e ministério presbiteral. Além dos delegados,
tivemos a presença de alunos do Pontifício
Colégio Pio Brasileiro, seminaristas, diáconos,
Instituto Mariama, Associação Nacional de
Presbíteros do Brasil, Organização dos Seminários e Institutos do Brasil, Associação Rumos - padres casados,
Comissão Nacional dos Diáconos, Conferência Nacional dos Institutos Seculares, além de dom Esmeraldo Farias
Barreto, de dom Dimas Lara Barbosa, secretário-geral da CNBB e do cardeal dom Cláudio Hummes, Prefeito da
Congregação para o Clero, que ajudaram no aprofundamento da reflexão. Menção especial merece o querido
Dom Moacyr Grechi que orientou o dia de retiro.
Vivemos numa sociedade capitalista e globalizada que se expressa em vários contextos complexos, dinâmicos,
envolventes e que ocasionam uma grande angústia, pois nossos irmãos e irmãs, em número muito elevado, não
têm acesso à cidadania e aos bens essenciais para a vida com dignidade. Com relação à ecologia, sentimos uma
grande indignação com o processo de destruição da natureza. A nossa Igreja, não raro, aparece com estruturas
“pesadas” e com dificuldade para ser fiel à dinâmica de Jesus e ao projeto do Reino de Deus e a sua justiça (cf.
Mt 6,33). Reportamo-nos à Conferência de Aparecida, que confirmou o caminho traçado no Concílio Vaticano II
e nas Conferências de Medellín e Puebla, nos interpelando para sermos discípulos missionários. Neste sentido,
reconhecemos a necessidade de uma conversão pessoal e pastoral que nos possibilite ser:
Presbíteros-discípulos abertos para acolher o chamado do Deus Trindade e compassivos aos clamores dos
irmãos e irmãs, que solicitam posturas semelhantes às do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 25-37). A renovação da
Igreja exige que sejamos autênticos discípulos de Jesus Cristo, porque só um presbítero apaixonado por Jesus
poderá renovar uma paróquia e toda a sua ação pastoral (cf. DA 201).
Presbíteros-profetas que, em comunhão, assumamos continuamente os valores fundamentais da vida, do
projeto de Deus e da dignidade humana e denunciemos tudo o que destrói a imagem de Deus nos irmãos e
irmãs mais pobres. Neste sentido, surge o grande desafio de “trabalhar para que nossa Igreja Latino-Americana e
Caribenha continue sendo, com maior afinco, companheira de caminho de nossos irmãos mais pobres, inclusive
até o martírio” (DA 396).
Presbíteros-missionários movidos pelo Mestre Jesus na perspectiva do Reino de Deus para que possamos
cuidar do povo, procurando os afastados e construindo relações fraternas. Isto implica que a Igreja saia de uma
pastoral de manutenção com estruturas pesadas e ultrapassadas e passe para uma pastoral renovada, missio-
nária, ministerial, servidora do povo, acolhedora e misericordiosa (cf. DA 365).
O poeta nos ensina: “caminheiro não há caminho, o caminho se faz...” Em nossa vida presbiteral, encontra-
mos muitos testemunhos de evangelizadores, profetas, mártires, missionários como pe. Alberto Antoniazzi, pe.
Cícero, pe. Ibiapina, pe. Josimo Moraes Tavares, dom Hélder Câmera, dom Ivo e dom Aloísio Lorscheiter, dom
Luciano Mendes de Almeida, ir. Dorothy Stang..., que nos enchem de esperança. E, em cada diocese, encon-
tramos grandes referenciais igualmente significativos. Celebramos, ainda, os 80 anos do poeta-profeta-pastor
dom Pedro Casaldáliga e expressamos a solidariedade aos perseguidos na pessoa do pe. Júlio Lancelotti e
do dom Luís Flávio Cappio. (...) Foi eleita a nova coordenação da Comissão Nacional dos Presbíteros, assim
constituída: pe. Francisco dos Santos, presidente; pe. Lázaro Silva Muniz, vice-presidente e pe. Mário Spaki,
secretário. É fundamental que em cada diocese a Pastoral Presbiteral também esteja organizada.
Renovamos a esperança de que Maria, Estrela da Evangelização, continue sendo a modelo de discípula
missionária a nos incentivar e encorajar nosso ser e ministério presbiteral.

Presbíteros participantes do 12º ENP

30 Março 2008 -
V
ivemos em uma sociedade do espetáculo, onde,
obedecendo às regras do mercado, a notícia
é vendida juntamente com outros produtos de
consumo e a informação, ao invés de gerar
conhecimento, proporciona entretenimento para
distrair. Hoje, mais do que nunca precisamos
comunicar para informar os cidadãos na sua capacidade de
refletir e entender a realidade.
Quando falamos de comunicação na Igreja não devemos
pensar apenas nos meios. Entendemos de maneira especial
o processo de comunicação nos espaços de reflexão para as
comunidades, as pastorais, os grupos, os movimentos, nas
diversas iniciativas que criam interação entre pessoas movidas
pelos valores do Evangelho.
A revista MISSÕES, editada pelos missionários e missionárias
da Consolata no Brasil, é um meio de informação e formação
que visa contribuir com a construção de um mundo mais justo
e solidário através de subsídios pastorais, espirituais, sociais
e culturais. Seu público alvo são as lideranças e os cidadãos
em geral, as famílias, os jovens e os agentes de pastoral das
comunidades cristãs. Neste sentido, MISSÕES apresenta
matérias sobre:

• Atualidade da sociedade e movimentos sociais
• Espiritualidade e temas pastorais
• Articulação de projetos sociais e ambientais
• Estudos sobre os desafios para a missão da Igreja
• Subsídios para uma pastoral missionária
• Testemunhos de vida e de experiência
• Reflexões para a juventude
• Trabalhos didáticos para as crianças, e muito mais.

Com isso, a revista MISSÕES deseja ajudar os seus leitores
a olhar para fora do próprio mundo, além das próprias fronteiras
eclesiais, culturais e geográficas.
A solidariedade em vista do bem comum é fruto da partici-
pação de todos. Faça parte desse projeto!


Desejo receber MISSÕES
por BOLETO BANCÁRIO

Novo/a leitor/a Renovação
por CHEQUE NOMINAL E CRUZADO

Colaboração anual R$ 45,00 Quantidade por DEPÓSITO BANCÁRIO pelo Banco Bradesco, agência 0545-2 c/c 38163-2

Tabela de preços 01 assinatura
02 ou mais assinaturas
R$ 45,00
R$ 40,00 cada assinatura
A Revista Missões publica 10 edições no ano.
Nos meses de Jan/Fev e Jul/Ago a edição é
bimensal.

TELEFAX.: (11) 2256.8820 PREENCHA, RECORTE E ENVIE JÁ o cupom pelo correio.
Rua Dom Domingos de Silos, 110 - 02526-030 - São Paulo

Nome:........................................................................................................................
Endereço: ..................................................................................................................
Cidade: ........................................................................... UF: .................................
CEP: ............................................................................... Telefone: . .........................
E-mail: ............................................................................ Dat. Nasc...........................