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EDITORIAL

Evangelizar na outra margem
SUMÁRIO
JUNHO 2008/05

A
programação do 2º Congresso Missionário Nacional,
realizado em Aparecida e Guaratinguetá, SP, entre os
dias 1º e 4 de maio, foi organizada em quatro etapas,
sincronizadas entre si: o Dia do Caminho, o Dia do En-
contro, o Dia da Partilha e o Dia do Envio. Os trabalhos
do primeiro dia concentraram-se na simbologia do ca-
minho feito pelos participantes para chegar até Aparecida, como 1 - Globo representando a
uma experiência espiritual e mística de fundamental importância na Missão para a humanidade.
Missão. As delegações vindas de todo o Brasil se reuniram como 2º Congresso Missionário Nacional.
Foto: José Altevir da Silva
povo peregrino, caminhante, na simplicidade e na pobreza, no pro-
visório e na busca do definitivo. O missionário vive a espiritualidade 2 - Maria Cecília Domezi.
do caminho. Jesus dá-se a conhecer caminhando (cf. Lc 24, 15), Foto: Jaime C. Patias
justamente porque Ele é o Caminho (Jo 14, 6).
Mas o Congresso em si não era o ponto de chegada. Caminhan-
do, Jesus encontrava-se com pessoas vivendo as mais diversas  Mural-----------------------------------------------------04
situações. No segundo dia, os participantes viveram o Dia do En- 300 pessoas 'marcadas para morrer' no Pará
contro, da reflexão e aprofundamento das questões que desafiam  OPINIÃO--------------------------------------------------05
a Missão hoje. Como Jesus ao aproximar-se dos discípulos de A consciência do Oriente Médio
Hazem Saghieh
Emaús aqueceu seus corações, explicando a partir das Escrituras
os fatos sobre os quais estavam falando, também os congressistas  festa no imc-------------------------------------------06
buscaram compreender sua caminhada missionária à luz da Palavra A missão inspirada na Consolata
Corrado Dalmonego
de Deus. Para tal, contaram com a colaboração de assessores,
os missiólogos, padres Paulo Suess e Agenor Brighenti, e o Frei  PRÓ-VOCAÇÕES----------------------------------------07
Santiago Ramírez, da Comissão Teológica Desabrochar onde Deus nos colocou
Rosa Clara Franzoi
Jaime C. Patias

do CAM 3 - Comla 8.
Os assessores resgataram da Constitui-  VOLTA AO MUNDO-------------------------------------08
Notícias do Mundo
ção Pastoral Conciliar Gaudium et Spes e da BBCBrasil / Fides / Servas do Espírito Santo / Zenit
Conferência de Medellín, que está comple-
tando 40 anos, a concepção da humanidade  ESPIRITUALIDADE----------------------------------------10
Martírio e missão a partir das CEBs
como uma família humana universal, a opção Dirceu Benincá
pelos pobres e a Missão Ad Gentes como
Missão para a humanidade. Após o almoço,  TESTEMUNHO-------------------------------------------12
Resgatados e integrados
já no Colégio do Carmo, em Guaratinguetá, Raquel Soria
organizados em 12 mutirões de aprofundamento sobre temas rela-
 FÉ E POLÍTICA -------------------------------------------14
cionados à Missão, os participantes puderam contribuir com suas Lei de combate à corrupção eleitoral
experiências. O resultado partilhado em plenário recolheu valiosas Humberto Dantas
propostas para a conversão pastoral e renovação missionária das
 FORMAÇÃO MISSIONÁRIA----------------------------15
comunidades. 2º Congresso Missionário Nacional
Sábado, dia 3 de maio, foi o Dia da Partilha, uma oportunidade Jaime Carlos Patias
para ouvir os testemunhos de vivências e projetos de oito missionários  Juventude missionária ----------------------------19
e missionárias que estiveram na Amazônia e nos confins da Terra: no Jovens investem na formação
Timor Leste, Coréia do Sul (Ásia); na Guiné Conacrí e Moçambique Patrick Gomes Silva
(África). Os relatos de vivências na Missão além-fronteiras foi uma  DESTAQUE DO MÊS -----------------------------------20
das marcas do Congresso, proporcionando uma harmonia entre a Rumos e esperança da Igreja no Brasil
reflexão, o aprofundamento e a prática missionária. José Carlos Stoffel
Enfim, os discípulos missionários chegaram ao domingo, dia  AÇÃO SOCIAL ------------------------------------------22
4 de maio, com o coração aquecido pela chama da Missão aqui e Destaque para a inclusão na periferia
além, podendo então viver o Dia do Envio. O encontro com Jesus Petra Mareschi
ressuscitado no caminho revigora o ardor dos discípulos, que partem  infância missionária ------------------------------24
imediatamente para anunciar a Boa Nova que seus olhos viram Cadê a áqua daqui? Nós temos sede!
Roseane de Araújo Silva
e seus ouvidos ouviram. As comunidades cristãs encontram-se
inseridas no processo de conversão pastoral e renovação mis-  ENTREVISTA MARIA CECÍLIA DOMEZI----------------26
sionária solicitados pelo Documento de Aparecida (DA 365-372). Deus habita esta cidade
Jaime Carlos Patias
A fé se fortalece quando é partilhada além das fronteiras. A Igreja
no Brasil, que tanto recebeu, aos poucos vai se abrindo para dar  ATUALIDADE----------------------------------------------28
mais de si na Missão para a humanidade. O 2º Congresso e a Raposa Serra do Sol e impunidade no Pará
Frei Betto e CNBB
participação de 130 representantes do Brasil no CAM 3 - Comla
8, em agosto próximo, em Quito no Equador, contribuem para a  volta ao brasil---------------------------------------30
Agência Brasil / Cimi / CNBB
renovação missionária da nossa Igreja. 

- Junho 2008 3
Mural do Leitor
Ano XXXV - Nº 05 Junho 2008 300 pessoas 'marcadas para morrer' no Pará
Diretor: Jaime Carlos Patias Trezentas pessoas que vivem que seria ingenuidade pensar que
no interior do Estado do Pará estão se resolvem facilmente. Alguns
Editor: Maria Emerenciana Raia sendo ameaçadas de morte por foram se acumulando durante
terem denunciado casos de tráfico anos e não é possível resolver
Equipe de Redação: Patrick Gomes de seres humanos, exploração de repente”, disse o religioso, que
Silva, Cristina Ribeiro Silva, Rosa Clara sexual de crianças e adolescentes também participou da reunião.
Franzoi, Júlio César Caldeira, Michael e pedofilia. O número foi apresen- “Tivemos casos como o da irmã
tado dia 6 de maio pelo bispo da Dorothy Stang em que não houve
Mutinda e Corrado Dalmonego
diocese da Ilha de Marajó (PA), respeito à idade dela, nem pela
dom José Luiz Azcona, em reunião situação em que se encontrava”,
Colaboradores: José Tolfo, Vitor
ex­traordinária do Conselho de disse o bispo, referindo-se ao
Hugo Gerhard, Lírio Girardi, Luiz
Defesa dos Direitos da Pessoa assassinato da missionária norte-
Balsan, Roseane de Araújo Silva, Hum-
Humana (CDDPH). Ele é um dos americana Dorothy Stang, em
berto Dantas, Luiz Carlos Emer, Dirceu
quatro religiosos ameaçados de fevereiro de 2005, no município
Benincá e Ricardo Castro
morte no Estado. Azcona afirmou de Anapu (PA). Ele também citou
que o governo do Pará, apesar o caso de dom Ervin Kräutler, da
Agências: Adital, Adista, CIMI,
de ter conhecimento do número, Prelazia do Xingu, que está jurado
CNBB, Fides, IPS, MISNA, Radioagência ainda não tomou providências de morte e disse que as ameaças
Notícias do Planalto e Vaticano para reduzir os casos. “Não me que ele próprio vinha sofrendo
preocupa tanto a minha segurança cessaram após a nota divulgada
Diagramação e Arte: Cleber P. Pires pessoal. Se existem 300 homens pela Conferência Nacional dos
e mulheres marcados para morrer, Bispos do Brasil (CNBB). O bispo
Jornalista responsável: isso indica uma sociedade doente, de Abaetetuba começou a ser
Maria Emerenciana Raia (MTB 17532) pobre e moribunda”, criticou. ameaçado em meados do ano
Segundo o bispo, dos 300 passado, por causa de denúncias
Administração: Eugênio Butti ameaçados de morte, apenas de tráfico de drogas. Há dois
100 estão sob proteção do governo fede- anos, dom Erwin participa do Programa
Sociedade responsável: ral. “Tem que ter uma mudança de men- de Proteção aos Defensores dos Direitos
Instituto Missões Consolata talidade, uma conversão. Olhar para a Humanos, ligado à Secretaria Especial
(CNPJ 60.915.477/0001-29) Amazônia como a Amazônia é, não com de Direitos Humanos da Presidência da
os olhos de Brasília”. Ele disse ainda que República (SEDH). Há pelo menos 10
Impressão: Edições Loyola há conivência de autoridades locais em anos, ele passou a ser ameaçado de
Fone: (11) 6914.1922 casos de “prostituição, tráfico e consumo morte, segundo dom Flávio, por denunciar
de drogas e uso de bebidas alcoólicas irregularidades no sul do Pará. Inicialmente,
Colaboração anual: R$ 45,00 entre os jovens”. eram casos de grilagem, invasões de terras
BRADESCO - AG: 545-2 CC: 38163-2 Para o bispo da diocese de Abaetetuba e extração ilegal de madeira. Dom Ervin
Instituto Missões Consolata (PA), dom Flávio Giovenale, as denúncias denunciou a castração de vários meninos
(a publicação anual de Missões é de 10 números) retratam uma situação que não deve ser da região, que eram seqüestrados e, em
resolvida facilmente. “Temos problemas alguns casos, mortos. Fonte: Agência Brasil
Missões é produzida pelos
Missionários e Missionárias da Consolata
Fone: (11) 2256.7599 - São Paulo/SP
A Missão Continental
(11) 2231.0500 - São Paulo/SP Dom Raymundo Damasceno Assis, Continental e o vídeo comemorativo de
(95) 3224.4109 - Boa Vista/RR arcebispo de Aparecida e presidente Aparecida. O documento reúne o espírito,
do CELAM (Conselho Episcopal Lati- os objetivos e um plano essencial para
Membro da PREMLA (Federação de Imprensa no-Americano), e dom Víctor Sánchez tornar visível a comunhão. Consta de
Missionária Latino-Americana) e da UCBC Espinosa, bispo auxiliar do México e três capítulos: “Uma Igreja Missionária
(União Cristã Brasileira de Comunicação Social) secretário-geral do CELAM, estiveram no Continente”; “A Missão Continental”
em Roma por ocasião da celebração do e “Sugestões Pastorais para a Missão
Redação 50º aniversário de fundação da Ponti-
fícia Comissão para a América Latina,
Continental”. Segundo afirmou dom Sán-
chez Espinosa, serão as Conferências
Rua Dom Domingos de Silos, 110
02526-030 - São Paulo ocorrido em 9 de maio, e apresentaram Episcopais e as dioceses de cada país
Fone/Fax: (11) 2256.8820 a alguns membros da Cúria Romana os a concretizar o processo da Grande
Site: www.revistamissoes.org.br últimos documentos do CELAM. Entre Missão, que será lançada no dia 17 de
E-mail: redacao@revistamissoes.org.br eles, o Plano Global para o quadriênio agosto durante o CAM 3 - Comla 8, em
2007-2011, o Documento da Missão Quito, Equador. Fonte: Zenit

4 Junho 2008 -
A consciência do
www.pazcondignidad.org

OPINIÃO
Oriente Médio
Nunca o Oriente Médio esteve tão unido e
tão dividido como hoje.
na obscuridade. De forma parecida, em Israel, a emergência do
“Pós-sionismo”, à margem de Oslo e de suas ruínas, sugeriu a
necessidade de algo similar, demandando uma forma mais clara
de auto-identificação. Esse “Oriente Médio” é o que nacionalistas
árabes e radicais em geral sempre odiaram. Eles vêem isso como
Manifestação em Ramallah. um produto colonialista que procura enfraquecer o arabismo,
ainda que o arabismo jamais tenha cessado de enfraquecer a
si mesmo, sem necessidade de ajuda de quem quer que seja.
de Hazem Saghieh Radicais mais sofisticados insistem que nós somos apenas um
“Oriente Médio” aos olhos dos ocidentais e na nossa situação

O
geográfica vis-à-vis ao Oeste, sem notar nosso pobre senso de
Oriente Médio nunca esteve tão dividido como hoje. direção enquanto um relógio suíço determina onde nós oramos
Ao lado do conflito israelense-palestino, o conflito e adoramos.
turco-curdo se intensifica, o medo árabe do Irã
aumenta e o Iraque nos provê um vívido e tangível Problemas comuns a todos
retrato do Inferno. Por outro lado, o Oriente Médio Décadas antes de Shimon Peres especializar-se na amarração
jamais esteve tão unido como hoje. É suficiente do Oriente Médio, Michel Aflaq especializou-se em acusar os
contemplar a ligação iraquiana-turca sobre a questão curda e “Shuubiyyin”, ou seja, os parceiros não-árabes do Oriente Médio,
iraquiana-iraniana sobre a questão xiita. Na verdade, é suficiente de sabotar a civilização e a cultura árabes. Mais freqüente do
olhar para o contraditório consenso sobre a questão palestina, que se imagina, a sabedoria da luta concluiu que a função do
que se tornou um mero elemento de instrumento, perdendo Oriente Médio era colocar Israel discretamente no seu interior
todo seu significado histórico. Alguém pode também olhar para e deixá-lo escondido com tal disfarce. Quando Condoleezza
a extensão do envolvimento em muitas questões árabes, assim Rice começou a alardear com orgulho a “novidade” do conceito,
como a habilidade de Damasco em ignorar os árabes em favor aqueles que duvidavam perceberam o quão verdadeiras eram
do Irã. O quinto aniversário da guerra no Iraque claramente as suas suspeitas.
expõe a responsabilidade de todos em forçar as estruturas ára- Nossas questões hoje, no entanto, são médio-orientais em
bes, seja no nível da segurança ou da consciência, até o ponto uma medida sem precedentes, assim como as últimas de nossas
do colapso. Sem mencionar que se tornou impossível discutir guerras foram, a de julho de 2006, o engajamento militar Israel/
questões como religião e modernidade no mundo árabe sem Síria/Irã. A questão palestina, assim como a curda, requer esfor-
referir-se à experiência turca. ços transnacionais e trans-étnicos. Enquanto isso, a maioria de
A causa palestina foi tradicionalmente uma linha divisória nossos maiores rios é compartilhada por dois ou mais Estados,
entre árabes e não-árabes. Era costume dizer que tanto o Irã alguns dos quais são não-árabes. A sede está nos confrontando,
sob o Xá quanto a Turquia sob a Otan eram aliados do Estado e há também as armas nucleares, certamente presentes em
Judaico, mas isso agora tornou-se um mero non sense. Poli- Israel, e possivelmente presentes no Irã de amanhã.
ticamente e ideologicamente, o Irã tornou-se o que os árabes Tal identidade, a médio-oriental, não implica a hegemonia
um dia foram. Enquanto a Turquia, semi-islâmica e semi-militar, de uma comunidade religiosa ou étnica sobre outra, nem tem a
agora se coloca numa posição mais complexa, pois “interfere” intenção de acabar com Estados ou Estados que virão a ser. É
à sua maneira na sua vizinhança mais ampla, mediando entre mais técnico e procedente do que ideológico, desenvolvimen-
Damasco e Tel Aviv. Mesmo a questão palestina não é o que tista e construtivo na natureza do que destrutivo. Desse modo,
costumava ser, não só porque o palestianismo de Mahmoud nossas elites vão internalizar esse momento em suas consciên-
Abbas difere qualitativamente do de Mahmoud al-Zahhar, mas cias, assim como fizeram no fim do século XIX e começo do XX
também porque a posição de tomada de decisões que Ahmadi- quando adotaram o arabismo cultural para substituir a coesão
nejad hoje tem na questão não é objeto nem de nacionalidade da obsoleta sociedade otomana? 
nem de “nacionalismo”.
Dado o que o “arabismo” veio a ser, é como se nós estivésse- Hazem Saghieh, editor de política do Dar Al-Hayat. Artigo originalmente publicado no jornal
mos no processo de formar outra identidade, uma ainda encoberta online Dar Al-Hayat no dia 14 de abril de 2008.

- Junho 2008 5
A missão inspirada na
Consolata
Cleber Pires

No dia 20 de junho celebramos a festa de
Nossa Senhora Consolata, venerada com esse
título de raízes fortemente bíblicas, desde o
século V, na cidade de Turim, Itália.

Evangelho, continua respondendo o seu “sim” nas pessoas que
preparam seu coração à acolhida do projeto de Deus.
de Corrado Dalmonego Maria, que com solicitude visitou a prima Isabel, continua
mostrando a urgência de anunciar ao mundo Cristo, e de fazê-

O
lo com firmeza, sobretudo nas situações difíceis. A “Virgem do
povo, movido pela fé, sempre recorre a Nossa Senho- encontro” nos aponta a missão de construir relações pessoais
ra Consolata buscando amparo nas perseguições, significativas, uma forma de consolação que desabrocha na
proteção nos flagelos e auxílio nas aflições. A mãe proximidade, no sentir o bater dos corações e na acolhida
de Jesus, consolada por ter acolhido a Palavra de das palavras de quem não tem voz. Maria também é sinal de
Deus feita carne, pela presença do Espírito, trouxe consolação quando revive e canta o encontro com o Deus da
ao mundo a consolação esperada e por isso não história, na história de seu povo, não hesitando em proclamar
deixa de espalhá-la a quem a ela recorre com fé. Aquela que Deus misericordioso que defende os humildes e oprimidos e
foi consolada, dessa forma, se torna também “consoladora”, destrona os poderosos. Ela é imitada quando nos colocamos
confirmando o título carinhoso com o qual em dialeto piemon- em defesa da vida, contra toda escravidão e morte.
tês, origem de sua devoção, o povo simples da Itália, se dirige Maria mãe, que com o nascimento de Jesus o deposita numa
a ela: “La Consolá”. manjedoura, abre-lhe o caminho para todas as casas, cortiços,
O Bem-aventurado José Allamano foi um fervoroso filho de albergues, abrigos, acampamentos, barracos de lona e malocas
Maria Consolata. Desde os seus primeiros anos de sacerdócio, onde a humanidade mora. Inspira a missão na presença simples
até à morte, isto é, por 46 anos, foi reitor do Santuário a ela e fraterna, que gera confiança e produz compreensão. A sua
dedicado, ao qual transformou num centro de intensa vida cristã maternidade impele os discípulos do Senhor a dar atenção a
e espiritualidade mariana, que acolhia um crescente número de todas as aflições da vida, ao mistério da dor, às condições de
fiéis. Allamano, que cultivava desde jovem o anseio pela missão, exclusão, à maior fraqueza, tornando evidente que o Evangelho
era consciente de que a fé recebida pelo batismo não podia ser é libertação de toda escravidão, opressão e dor.
guardada egoisticamente no espaço da intimidade ou dentro Maria, que apresenta Jesus no templo, é a mulher que recebe
de um grupo restrito: era preciso “derrubar paredes”, “percorrer a herança de seu povo. A Consolata é a mesma Nossa Senhora
caminhos”, “construir pontes” e “atravessar mares” para alargar Aparecida negra e a Virgem de Guadalupe, dos traços e trajes
os horizontes do coração da Consolata ao mundo. indígenas que deixa a luz da Boa Nova resplandecer. Ela é
Numa Igreja fecunda, com muitas instituições, José Allamano para nós uma exortação a acompanhar o caminho dos povos,
atendeu o chamado de enviar missionários e missionárias sob favorecendo o encontro positivo entre culturas e religiões, na
seu nome a todos os povos onde Jesus e sua mãe não fossem tentativa comum de frisar os rumos do Reino.
conhecidos. A Consolata foi a verdadeira “fundadora” e inter- Maria aos pés da cruz partilha as dores do Filho como só
cessora das graças de Deus, pelas quais se “abriram todas as uma mãe pode sofrer e, junto a nós, seguidores e seguidoras do
portas”. Homens e mulheres que a carregam no coração, são Senhor, levanta um grito contra todas as crucificações.
como ela, discípulos e discípulas do Evangelho, partícipes da Maria, junto aos discípulos no cenáculo, recebe o Espírito
missão de seu Filho, de anunciar o Reino de Deus aos povos. que abre os caminhos da missão, estimulando-nos a enxergar os
A sua presença e o seu modelo materno são ajuda no trabalho sinais dos tempos, intuir o futuro e favorecer a sua preparação.
e ponto de referência nas dificuldades. Hoje como sempre, a vida missionária encontra em Maria Con-
solata a inspiração para o desapego, o zelo e a visão profética
Maria e os caminhos da evangelização sobre a realidade. Mãe Consolata, continue intercedendo pela
Os caminhos da evangelização encontram inspiração na figura humanidade! 
de Maria, consolada com a Ressurreição do Filho: núcleo do anún-
cio do Reino e força para a missão de consolação. Maria, que ao Corrado Dalmonego é missionário, membro da equipe de formação do Centro Missionário José
longo de sua vida se dispôs a colocar suas energias a serviço do Allamano em São Paulo.

6 Junho 2008 -
pró-vocações
Desabrochar onde
Deus nos colocou
De onde vim? Para onde vou?
Jaime C. Patias

muita gente, isso se torna um valor. As pessoas passam a viver
de aparências: encontram-se, mas não se relacionam; trabalham,
mas não se realizam; aparentam felicidade, mas no coração
amargam o vazio e a solidão. Vivem sem perceber e conhecer
a sua essência, a estrutura do seu ser, rico de potencialidades
que, se trabalhadas, levam à realização pessoal, à felicidade
verdadeira e mais, com a possibilidade de serem de ajuda
aos outros; o mundo deve ser melhor onde passamos... Na
tentativa de aparecer e ter o máximo, essas pessoas acabam
por viver com o mínimo: mínimo de amor, de compreensão,
de humanidade, de perdão... e não percebem que estão se
prejudicando grandemente, porque ninguém pode manter-se
no topo por muito tempo, sem uma base firme e verdadeira.
Uma hora a máscara cai e o super-homem, a supermulher,
volta a ser um simples mortal como todo ser humano. Esta é a
hora da graça; é um momento muito especial para quem tiver
lucidez e humildade de reconhecer em que erro se meteu. É
hora de olhar para frente e decidir-se por outro caminho, se
de Rosa Clara Franzoi de fato quiser vencer na vida.

R
Um caminho mais simples...
ecentemente, li num livro de psicologia algo que me Para que sofrer tanto, vivendo uma vida de aparências, quando
fez pensar e da reflexão nasceu este nosso bate-papo. há possibilidades de caminhos mais simples que realizam e fazem
O autor dizia: “Nunca se viu em toda a história da as pessoas felizes? Eu conheço e você também deve conhecer
humanidade um culto ao ego tão exacerbado como gente que todos os dias acorda contente, agradecendo a Deus
nos nossos dias” (Robert Swarav). Acho que concor- pelo presente de um novo dia; trabalha com competência, ama
damos, não e? Não precisamos ser psicólogos para com generosidade, é fiel ao que Jesus ensinou e viveu, ajuda a
perceber esse tipo de comportamento. Gente que finge saber quem precisa com simplicidade de coração... porque sabe que
tudo, acertar e ganhar sempre, convicta de sua superioridade. a plenitude da vida e a felicidade não estão na realização de
Esta necessidade esdrúxula acaba levando a pessoa a mostrar coisas mirabolantes, mas em saber escutar, com simplicidade,
o que não é, e a exibir o que não tem. É um fato, tudo ao nosso suas aspirações, seus sonhos, suas lutas e suas vitórias. Sabe
redor leva a cultuar a ostentação, em todos os sentidos. E para que vida autêntica, plena, é aquela de quem se esforça para
responder as perguntas fundamentais da existência humana: de
onde vim? Para onde vou? Sabe que tem um futuro a construir,
Quer ser um missionário/a? portanto, é preciso abraçar e assumir um projeto de vida e ter
objetivos claros e autênticos. “O segredo é ter mil razões para
Irmãs Missionárias da Consolata - Ir. Dinalva Moratelli viver, mesmo que os anos passem e deixem marcas; é perseguir
Av. Parada Pinto, 3002 - Mandaqui uma causa, que valha a pena, e a ela dedicar a própria vida”
02611-001 - São Paulo - SP (dom Hélder Câmara). 
Tel. (11) 2231-0500 - E-mail: rebra@uol.com.br
Para refletir:
Centro Missionário “José Allamano” - padre Patrick Gomes Silva Querendo, continue a reflexão lendo o texto de Lc 18, 9-14 e
Rua Itá, 381 - Pedra Branca
02636-030 - São Paulo - SP tente responder:
Tel. (11) 2232-2383 - E-mail: secretariamissao@imconsolata.org.br 1. O que o texto bíblico tem a nos ensinar?
2. Quando é que no nosso agir vivemos de aparências?
Missionários da Consolata - padre César Avellaneda 3. O que experimentamos quando assumimos esse tipo de
Rua da Igreja, 70-A - CXP 3253 postura?
69072-970 - Manaus - AM
Tel. (92) 3624-3044 - E-mail: amimc@ibest.com.br Rosa Clara Franzoi, MC, é animadora vocacional.

- Junho 2008 7
também por causa dos impedimentos políticos: a junta
militar no poder em Mianmar, aceitou as ajudas inter-
nacionais somente das Nações Unidas e das ONGs,
impondo algumas restrições para as ofertas de diversos
governos. No dia 12 de maio, a província de Sichuan,
no sudoeste da China foi sacudida por um terremoto
de 7,9 graus na Escala Richter. O número de mortos
e desaparecidos pode chegar a 80 mil. Segundo os
últimos dados compilados pelo governo, há 34 mil
mortes confirmadas e 65 mil feridos. A China estima
que 10 milhões de pessoas tenham sido afetadas
pelo tremor, o maior dos últimos 30 anos.

Holanda
Fundadora beatificada
A co-fundadora das Missionárias Servas do Es-
pírito Santo, Hendrina Stenmanns, mais conhecida
ONU como Madre
Fome já atinge 100 milhões

Divulgação
Josefa, será
VOLTA AO MUNDO

A América Latina não está imune à crise mundial beatificada no
dos alimentos, mesmo sendo um dos principais lo- próximo dia 29
cais de produção agrícola do planeta. O alerta é da de junho, em
Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), Steyl, na Ho-
ligada à ONU. A entidade publicou um mapa da nova landa, graças
cara da fome no mundo, alertando que 100 milhões de a um milagre
pessoas já são atingidas e que o esforço de promo- ocorrido no
ver o desenvolvimento das regiões mais pobres nos Brasil. O mila-
últimos sete anos pode ser perdido com a atual crise. gre aconteceu
Na América Latina, a alta nos preços dos alimentos em Poço das
pode levar 10 milhões de pessoas à camada mais Antas, RS, no
miserável da população mundial. O caso mais grave dia 23 de março
é o do Haiti. A ONU conta com apenas 13% dos mais de 1985, quan-
de US$ 100 milhões que pediu aos governos para do Valdir Ben-
dar comida a 1,7 milhão de pessoas no país. Em der, na época
El Salvador, a população hoje compra metade dos com 19 anos,
alimentos que adquiria há 18 meses. Na Nicarágua, teve complica-
o preço da tortilla sofreu um aumento de 54% em ções com uma cirurgia de apendicite e precisou se
um ano. Na Guatemala, o índice foi de 17%. A alta submeter a uma segunda intervenção. Desenganado
é conseqüência da inflação de 100% que atingiu o pelo médico, já tinha entrado em agonia quando,
preço do milho em toda a América Central. O milho é graças à oração fervorosa da enfermeira Hildigart
o ingrediente básico da tortilla, uma espécie de massa F. Käffer pedindo à Madre Josefa pela sua cura,
de pão presente em diversos pratos da culinária local. teve uma melhora súbita, inexplicável pela medi-
Um outro problema reside na alta do preço do feijão, cina. Hendrina nasceu em 28 de maio de 1852 em
mais um alimento básico para a região. Segundo le- Issum, na Alemanha. Atraída pela obra missionária
vantamento do governo americano, a diferença entre de Arnaldo Janssen, pediu admissão em Steyl em
o que a América Latina produz em alimentos e o que 1884. Como as Missionárias Servas do Espírito Santo
é consumido pela classe mais pobre cresce, apesar ainda não existiam, ela trabalhou como empregada
do cultivo recorde no continente. Diante da situação, a na Casa Missionária durante vários anos até que,
ONU iniciou um estudo para tentar ajudar os governos em setembro de 1889, teve início a congregação.
latino-americanos. Um plano será apresentado a cada Hendrina fez parte do primeiro grupo de irmãs e,
um dos países mais afetados na América Central. Mas mais tarde, foi considerada co-fundadora junto com
a ONU admite que não tem uma receita para evitar Helena Stollenwerk (beatificada em 1995). Madre
que a pobreza aumente na região. Josefa orientou as jovens que entravam para a vida
religiosa e enviou numerosas irmãs às missões além-
Ásia fronteiras. Faleceu em 20 de maio de 1903, deixando
Tragédia em Mianmar e China um exemplo de simplicidade, alegria, comunhão
Mais de 77 mil mortos, 56 mil desaparecidos, para profunda com Deus, dedicação missionária e amor
uma tragédia que, segundo as estimativas sobre as às pessoas, especialmente as mais necessitadas.
vítimas que continuam a aumentar, poderia ser “mais Um dos traços característicos da espiritualidade
grave que o tsunami”, como afirmam alguns obser- de Madre Josefa era sua entrega incondicional ao
vadores internacionais. O ciclone Nargis que no dia Espírito Santo. As primeiras missionárias de Steyl
3 de maio atingiu a parte centro-sul de Mianmar (na chegaram ao Brasil em 1902, onde hoje estão em
área do delta do rio Irrawaddy), teve conseqüências 40 comunidades. 
catastróficas, ainda sendo verificadas. Vilarejos inteiros
foram destruídos, enquanto o socorro está sendo lento, Fonte: BBCBrasil, Fides, Servas do Espírito Santo, Zenit.
8 Junho 2008 -
INTENÇÃO MISSIONÁRIA
de Vitor Hugo Gerhard Para que o Congresso Eucarístico Internacional de
Quebec, no Canadá, ajude a compreender, ainda

O
s Congressos Eucarísticos, em qualquer âmbito
que se realizem (diocesano, nacional, internacional) mais, que a Eucaristia é o coração da Igreja e a
são sempre uma ocasião privilegiada no processo
permanente de evangelização no qual a Igreja está
fonte da evangelização.
empenhada, ao menos pelas seguintes razões:

Jaime C. Patias
a) é um evento de caráter público. Com estes Congressos,
a Igreja vai às praças, aos novos areópagos para dizer qual o
centro de sua fé, qual a razão de sua existência. Em alguns
momentos da história do cristianismo e em vários lugares, nem
sempre foi tão fácil e simples ir às ruas e proclamar a presença
de Cristo Eucarístico em meio aos homens;
b) é um evento religioso de tipo devocional, pois coloca as
pessoas de joelhos diante da Santíssima Eucaristia e faz com
que muitíssimas delas voltem seus olhos para o ostensório e lá
se reconheçam como seguidoras de Jesus Cristo, Rei e Senhor
do universo. A procissão eucarística sempre toca nas emoções
de quem dela participa, pois, nos recorda a cruz libertadora e
a paixão redentora;
c) é um evento naturalmente eclesial, pois agrupa as forças Cardeal Marc Oullet, arcebispo de Quebec, V Conferência do CELAM, Aparecida, SP.
vivas de uma diocese, de uma região ou de um país na sua das pessoas, seja na organização social e eclesial, seja no
preparação e realização. Da mesma forma, penetra no tecido revigoramento da vida cristã;
das Igrejas locais, chamando-as para um maior empenho em f) por fim, mas sem esgotar o assunto, é um evento forte-
torno da profissão pública da fé eucarística; mente missionário, pois é uma oportunidade privilegiada para
d) é um evento de tipo doutrinal, pois produz um variado o anúncio da Palavra, para o testemunho de comunhão, para
material para ajudar na reflexão das pessoas e das comunida- o serviço da caridade e para o diálogo com os irmãos e irmãs
des em torno de um tema. Além disso, recorda a centralidade de caminhada.
da Eucaristia na vida da Igreja. A Eucaristia “faz” a Igreja e a Nosso desejo é que mais este Congresso Eucarístico Inter-
Igreja “faz” a Eucaristia; nacional, a realizar-se de 15 a 22 de junho em Quebec, Canadá,
e) é um evento por assim dizer “fecundante”, pois a presen- cumpra com suas finalidades e abra ainda mais os corações
ça do Senhor Eucarístico no meio do mundo não se dá sem para Deus. 
que algum resultado se verifique. A presença do Senhor nas
esquinas da vida deixará sempre Sua marca, seja no coração Vitor Hugo Gerhard é sacerdote e coordenador de pastoral da Diocese de Novo Hamburgo, RS.

Jovens caminham na missão


preciso experimentar a solidariedade e a convivência para casa, que recentemente passou por reformas. Depois de terem
alimentar o espírito missionário”. Essa idéia juntou, entre recuperado as forças e terem fortificado a amizade, partiram em
os dias 18 e 21 de abril, um grupo de jovens no Centro viagem... uma pequena viagem, mas bem animada! O destino
Missionário José Allamano, Zona Norte de São Paulo, foi um Assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais
para viver o acampamento “Jovens pela Sem-Terra. Lá, aprenderam um pouco mais sobre
Patrick Silva

Missão”. O grupo maior de participantes veio da a história do MST. Foi uma manhã bem proveitosa
Zona Sul de São Paulo, mas, havia também uma para vencer os preconceitos e tirar dúvidas. Após
representante da Zona Norte da cidade e três o almoço caseiro, o grupo pode conhecer um pou-
cariocas da paróquia Nossa Senhora Consolata. co mais da organização no Assentamento e dos
Durante os dias de vivência, os jovens tiveram projetos de desenvolvimento sustentável.
momentos de partilha e sensibilização sobre O último dia de convivência foi dedicado à
as causas missionárias, conforme o carisma meditação e à oração para interiorizar o que
dos membros da Consolata. Depois de uma vivenciaram e cultivar a necessária dimensão
exposição do padre Valeriano Paitone sobre a espiritual. Após as habituais despedidas, com
realidade dos portadores do vírus HIV nos primeiros tempos da algumas lágrimas nos olhos, chegou a hora de regressar, com
sua descoberta e sobre o surgimento do Lar Betania (casa de a certeza de que mais uma semente da missão fora plantada
apoio) como uma resposta para este desafio, os participantes no coração de cada participante, e com a esperança de repetir
colocaram as mãos na massa e foram fazer uma boa limpeza na momentos semelhantes. Fonte: www.centromissionario.org.br

- Junho 2008 9
espiritualidade

Martírio e missão a
partir das CEBs
de Dirceu Benincá

Fotos: Jaime C. Patias
C
om maior ou menor intensidade,
ao longo da história do cristia-
nismo sempre houve batismo
de sangue por causa da fé.
Em tempos mais recentes, na
América Latina e Caribe, os
mártires se multiplicaram. Isso eviden-
cia, por um lado, o aprofundamento das
injustiças e desigualdades sociais e, por
outro, a resistência e a luta do povo na
defesa dos diversos direitos, da vida e
da dignidade humana. O mártir é alguém
consciente da conjuntura sócio-histórica;
da ordem que produz a desordem; das
forças que geram a fraqueza. É portador
de um projeto coletivo. Pensa para além
das contradições do presente; enxerga
através da noite escura e ousa ajudar o
dia a clarear. Doa-se aos poucos ou tudo
de uma vez, ancorado em uma espiritua-
lidade profético-libertadora.

CEBs: uma Igreja martirial
As Comunidades Eclesiais de Base
(CEBs) têm suas raízes no movimento
desencadeado por Jesus de Nazaré.
Surgidas no contexto do Concílio Vaticano
II (1962-1965), ao longo de sua história
foram vistas com suspeita, questionadas
e até perseguidas. Alguns as rotularam de
subversivas e comunistas. Porém, elas
significam uma nova expressão eclesial;
um espaço de evangelização, de vivên-
cia fraterna e tomada de consciência da
realidade.
Em 1979, na Conferência de Puebla,
os bispos disseram: “Está comprovado
que as pequenas comunidades, sobre-
tudo as Comunidades Eclesiais de Base
criam maior inter-relacionamento pessoal,
aceitação da Palavra de Deus, revisão de
vida, reflexão sobre a realidade, à luz do
Evangelho; nelas acentua-se o compromis-
so com a família, com o trabalho, o bairro
e a comunidade local [...]. Constituem elas
ambiente propício para o surgimento de
novos serviços leigos...” (DP 629). Encontro celebrativo diocesano das CEBs, São José dos Campos, SP, 2005.

10 Junho 2008 -
Em meio à diversidade
de ofertas religiosas
e espiritualistas,
as Comunidades
Eclesiais de Base
(CEBs) mantêm vivo o
espírito profético da
Igreja.

Tenda dos Mártires durante a V Conferência do CELAM em Aparecida, SP.

As CEBs procuram ser ecumênicas, Missão das CEBs hoje dar novo impulso à vida e missão profética
abertas ao diálogo, inculturadas e inclu- No atual mundo globalizado e mer- e santificadora das CEBs, no seguimento
sivas. Articulam fé-vida e religião-política; cantilizado, somos induzidos a esquecer a missionário de Jesus. Elas foram uma
promovem a solidariedade e valorizam a memória, renunciar a cruz e desacreditar das grandes manifestações do Espírito
diversidade, buscando a libertação integral na utopia do Reino. Entretanto, as CEBs na Igreja da América Latina e do Caribe
das pessoas. São espaços de formação entendem que o resgate permanente depois do Vaticano II” (DA 194).
da consciência crítica, de construção de da história, o cultivo da espiritualidade Em nosso continente sofrido, as
relações democráticas, ecológicas, étnicas, libertadora e o fortalecimento do sonho Comunidades Eclesiais de Base deram
de gênero. São comunidades que não de uma sociedade mais justa e igualitária importante contribuição na formação de
se acomodam diante da realidade, mas são condições indispensáveis para seguir discípulos e missionários do Senhor. Muitos
procuram transformá-la. a caminhada. de seus membros chegaram, inclusive, a
Desde o início da colonização, a Amé- Através de sua práxis, os mártires derramar o próprio sangue em gesto de
rica Latina vem sendo regada pelo sangue expressam sua consciência crítica sobre entrega generosa pelo Reino de Deus.
de muitos mártires. “Esse martírio de o contexto em que atuam e sua decisão “Elas arrancam da experiência das primei-
nossa América tem, já desde as origens radical pela transformação da realidade. ras comunidades, como estão descritas
da evangelização no continente, duas Veja-se o testemunho de Dorothy Stang: em Atos dos Apóstolos (cf. At 2, 42-47).
peculiaridades: é um martírio pelo “pobre” “não vou fugir e nem abandonar a luta Enraizadas no coração do mundo, são
e pelo “outro”. Entre nós o conceito de desses agricultores que estão despro- espaços privilegiados para a vivência
martírio se alargou. Nossos mártires são tegidos no meio da floresta. Eles têm o comunitária da fé, mananciais de fra-
mártires pelo Reino, não somente pela sagrado direito a uma vida melhor numa ternidade e solidariedade, alternativa à
estrita confissão de um artigo de fé cristã. terra onde possam viver e produzir com sociedade atual, fundada no egoísmo e
Nossos mártires não só deram o sangue dignidade sem devastar”. na competição” (DA 193).
“pela Igreja”; deram-no também “pelo povo” Celebrar a memória de alguém que foi Em meio à diversidade de ofertas reli-
[...]. Em sua oblação pela causa maior do martirizado é, em primeiro lugar, valorizar giosas e espiritualistas, as CEBs mantêm
Reino, nossos mártires são testemunhas seu espírito e sua atitude de entrega da vivos a dimensão e o espírito profético
de sangue de causas específicas, novas vida. Nisso consiste a grande diferença da Igreja. Seu projeto e método seguem
em certa medida e bem nossas. Mártires entre um santo tradicional e um mártir que tendo um papel fundamental na luta pela
pelo Reino da Vida, vidas dadas pela vida. morreu na luta pela justiça social. Normal- libertação dos pobres e excluídos. Esse
Contra todos os deuses da morte que nos mente, pede-se para o santo tradicional jeito de ser Igreja não perderá sua impor-
espreitam, tão atualizados pelo lucro, uma graça ou um milagre pessoal. O mártir, tância enquanto houver fome, miséria,
pela prepotência, pela marginalização”. no entanto, suscita em nós o desafio de opressão, exclusão, violência, injustiça,
(CASALDÁLIGA, Pedro. Cartas marcadas. continuar lutando na mesma causa pela corrupção, agressão à dignidade, depre-
São Paulo, Paulus, 2005, p.185.) qual ele derramou seu sangue. dação do meio ambiente etc. Longe de
Nos últimos 25 anos, mais de duas mil Na Conferência de Aparecida, o tema estarem superadas, elas são mais atuais
lideranças sem-terra foram assassinadas do martírio esteve presente. O Documento e necessárias do que nunca! 
no Brasil, na luta por dignidade e direitos. Final incentiva a assumir o projeto de Jesus
Para as CEBs, os mártires têm um relevante Cristo, defendendo a vida das pessoas e Dirceu Benincá é sacerdote, doutorando em Ciências Sociais pela
significado místico, teológico e sócio-político. da natureza até o martírio, se for preciso. PUC/SP e mestre pela mesma universidade. É coordenador dos
Eles atualizam a memória do mártir Jesus Também retoma o método ver-julgar-agir cursos online no CESEP/SP, membro da equipe nacional de CEBs
Cristo, que foi processado e linchado como consagrado pelas CEBs. Os bispos decla- e co-autor do livro CEBs: nos trilhos da inclusão libertadora.
malfeitor pelo sistema da época. ram: “queremos decididamente reafirmar e São Paulo, Paulus, 2006.

- Junho 2008 11
Resgatados
testemunho

e reintegrados
de Raquel Soria

Fotos: Arquivo Andare alle gentti
E
stou trabalhando há pouco mais
de quatro anos no Youth Corretive
Center - Centro de Recuperação
de Nairóbi, Quênia que abriga
adolescentes e jovens infratores,
dos 14 aos 21 anos. Passo com
eles cinco dias por semana, orientando-os
num caminho de conhecimento pessoal,
através de oficinas de estudo, onde são
aprofundados e debatidos temas por eles
próprios solicitados: violência doméstica,
alcoolismo, tráfico e uso de drogas, aborto...
Reservo as segundas e terças-feiras, para
o atendimento pessoal dos que desejam
ter uma conversa comigo. Como esses
jovens têm necessidade de falar! Eles
querem ser acolhidos e escutados sem
pré-julgamentos. Eles precisam se liber-
tar de tantas experiências negativas que
carregam em seu coração. Aos domingos
celebramos o Dia do Senhor, colocando em
oração tudo o que foi estudado, refletido
e debatido durante a semana. Isto muito
os ajuda a fazerem a integração entre a
própria vida, a oração e a fé. As celebra-
ções que fazemos são ecumênicas, pois
eles pertencem a várias denominações
e credos religiosos. Há também um bom
número de muçulmanos. Eles juntam-se
em grupos de acordo com sua fé e, orien-
tados por mim, preparam uma parte da
oração. É interessante notar como cada
grupo tem seu jeito diferenciado de se
comunicar com Deus.

A reintegração Ir. Raquel com os três primeiros hóspedes (Erick, Michael e Leewel), Casa de Consolação São José Cafasso.
Desde que comecei a freqüentar o
Centro, fui percebendo que ao se apro- filhos para sustentar. Os que eram órfãos e todas as portas se fechem diante de um
ximar o término do tempo de reclusão, os analfabetos, não tinham para onde ir. Para problema tão grave!
jovens ficavam inquietos e angustiados. mim eram sempre momentos de grande
Ao perguntar-lhes o motivo, eles confessa- sofrimento. Sofria, porque sabia que para Deus tarda, mas não falha
vam sentimentos de medo por terem que muitos, sair dali era retornar ao crime, ser Não é assim que reza o dito popu-
enfrentar a sociedade, sem as mínimas novamente preso e ter a pena dobrada lar? Pois bem, em fevereiro de 2004, fui
condições. A quase totalidade provinha de pela reincidência. Eu ficava pensando: convidada a participar de um Congresso
famílias muito pobres; alguns com mulher e deve haver uma saída. Impossível que Internacional, que se realizaria naquele

12 Junho 2008 -
Missionária da Consolata, Raquel Soria é de depois de ter conseguido o certificado
de conclusão do curso básico, também

nacionalidade argentina. Ao ser enviada em missão, cursou mecânica. Edward fez o curso
de cabeleireiro e montou o seu próprio

após ter freqüentado um Curso de Assistência Social, negócio. O órfão James, que viera para
a cidade em busca de trabalho para aju-

iniciou um trabalho no Centro de Recuperação - tipo dar a família e que acabou sendo preso,
cumprida a pena especializou-se em

Fundação CASA - em Nairóbi, capital do Quênia. trabalhos artesanais em couro. Mesmo
tendo plena consciência de que estes

mesmo Instituto onde eu havia feito o
curso de Assistência Social. O tema a ser
abordado seria: desenvolvimento susten-
tável. Eu disse a mim mesma: esta é uma
ótima chance. Aceitei e fui para lá levando
no coração uma grande esperança... Não
só tive a oportunidade de expor o meu
trabalho com os jovens do Centro de
Recuperação, como também pude dividir
o meu sonho de criar uma estrutura que
desse a eles novas oportunidades para
uma integração na sociedade. Ao término
da minha apresentação, vi os membros do
Koinonia Advisory Reseach Development
Service - Serviço de Aconselhamento,
Pesquisa e Desenvolvimento, presentes
ao Congresso, virem em minha direção
interessando-se pelo projeto. Após ouvirem
os detalhes colocaram-me imediatamente
em contato com a Cáritas italiana. Termina-
do o Congresso, iniciamos logo um estudo
Dom Alain Paul Lebeaupin durante inauguração da Casa de Consolação São José Cafasso.
mais detalhado da obra e a elaboração
do programa. Ao se espalhar a notícia, a encarcerados. A Casa tinha a capacidade sucessos são apenas uma gota de água
iniciativa recebeu o apoio total dos capelães para hospedar 10 jovens, com possibi- num oceano imenso de jovens abandona-
carcerários e em seguida, da Conferência lidade de ser ampliada. Desde o início, dos e sem perspectivas de futuro, temos
Episcopal do Quênia, que se prontificou na admissão dos candidatos, foi dada certeza que a Casa de Consolação São
a doar o terreno ao lado do Centro de a prioridade aos jovens órfãos, filhos José Cafasso está fazendo a sua parte,
Recuperação. Tudo estava caminhando de mãe solteira e de pais separados e abrindo caminhos e horizontes, antes
bem demais, quando apareceu um senão. filhos de famílias muito pobres. Depois considerados inatingíveis.
Algumas pessoas influentes começaram de serem selecionados, os jovens prestes
a discordar da idéia de se construir uma a receberem a liberdade, já começam Prioridade: a pessoa
outra estrutura, só para ex-detentos. Diante a ser preparados para seu ingresso na Eu continuo sonhando. Sonho com um
do impasse, foi dada a sugestão de re- Casa de Consolação. Nesse ínterim, um sistema carcerário que dê mais atenção
formular o objetivo, acrescentando algo assistente social visita as famílias ou o à pessoa dos detidos, de modo especial
mais. Os jovens acompanhados na sua parente mais próximo, porque o apoio aos que estão doentes física e psiquica-
recuperação serviriam de estímulo aos deles é de suma importância. Ao sair da mente, e que se descubram maneiras de
que ainda estavam presos, através de Casa de Consolação com um certificado poder recuperar tantas vidas excluídas
algumas atividades neste sentido. Deve- profissional, eles são orientados a voltar e marginalizadas pela sociedade. Eu
riam mostrar com sua conduta, também para a região de origem e, ao menos sonho com muitos Centros de Recupe-
ao povo, que a recuperação é possível no início, ajudar as próprias famílias. ração, onde a dignidade humana seja
quando se tem uma nova chance, o apoio Para tanto, além da formação humana, reconhecida, respeitada e defendida;
e vontade de mudar. Com esse acréscimo psicológica, moral e espiritual, a Casa de onde as pessoas tenham chances de
a idéia foi aceita e as obras começaram. Consolação fornece também um reforço se redimirem dos próprios erros sem
Ainda durante a construção, o programa escolar e alguns cursos profissionalizan- se sentirem a escória. Vivo este serviço
de formação e reintegração já contava tes: mecânica, marcenaria, eletrônica e como parte integrante da minha vocação
com três jovens, Erick, Leewel e Michael, artesanato em couro. missionária. Estou profundamente con-
numa pequena casa alugada. vencida que nesta missão, o Senhor me
Apostando nos frutos pede para ser um instrumento seu, para
A realização do sonho Erick, órfão de pais vítimas da Aids, mostrar a estes jovens a sua ternura e
Em abril de 2006 a nova casa abriu as e que vivia na rua quando foi preso, compaixão, amando-os com um coração
portas. Seu nome: Saint Joseph Cafasso especializou-se em mecânica, voltou para de mãe. 
Consolation House - Casa de Consolação sua região e com o nosso apoio começou
São José Cafasso, o grande apóstolo dos a trabalhar. Leewel, filho de mãe solteira, Raquel Soria é missionária da Consolata no Quênia.

- Junho 2008 13
fé e política

Lei de combate
à corrupção eleitoral
de Humberto Dantas
Campanha da CNBB visa
ampliar a lei 9.840/99.

N
a década de 90 a CNBB encampou ação das mais

Jaime C. Patias
relevantes contra a corrupção eleitoral. Cansada
de assistir práticas criminosas contra nossa frágil
democracia, os católicos se uniram e conseguiram
encaminhar ao Congresso a primeira lei de iniciativa
popular do país. Esse mecanismo, descrito em nossa
Constituição Federal, permite à sociedade apresentar projeto à
Câmara dos Deputados mediante abaixo-assinado contendo
a adesão de 1% do eleitorado - cálculo feito sobre o total de
eleitores que votou nas últimas disputas para deputado federal.
Com uma ressalva: as assinaturas precisam estar concentradas
em pelo menos nove estados da federação.
Em 1999 foi aprovada a proposta da CNBB, que contou
com o apoio de organismos importantes como a Ordem dos
Advogados do Brasil (OAB), entre outros. A lei 9.840/99 ficou
conhecida como a lei de combate à corrupção eleitoral. E três
grandes pontos devem ser destacados. Primeiramente, a lei prevê
penas rigorosas aos candidatos e equipes de correligionários
que compram - ou tentam comprar - o voto dos eleitores com
ofertas das mais diferentes - empregos, dentaduras, dinheiro,
churrasco etc. Em segundo, prevê penas contra aqueles que
utilizam a máquina administrativa em benefício de campanhas 6º Encontro Nacional de Fé e Política, Nova Iguaçu, novembro de 2007.
eleitorais, desequilibrando a competição às custas dos recursos
públicos e de posições privilegiadas. Nesses dois primeiros de iniciativa popular tem como objetivo impedir que cidadãos
casos, a cultura brasileira ainda impede número significativo de que estão respondendo a processos, se candidatem. Não se
cassações e denúncias. Parcelas do eleitorado ainda aceitam trata de um pré-julgamento de um suposto inocente, mas de
vender seus votos - o que não tem preço, e sim conseqüências uma precaução coletiva contra um problema individual. Assim,
gravíssimas à democracia -, e a utilização de estrutura pública de acordo com carta distribuída recentemente: “decisão do
em campanha é nítida por parte de muitos candidatos que são Episcopado Brasileiro, na 46ª Assembléia Geral da CNBB, a
detentores de mandatos. Igreja no Brasil estará empenhada na coleta de assinaturas
de eleitores para a apresentação de um novo projeto de lei de
Comitês para denúncias iniciativa popular, tratando da inelegibilidade de pessoas que
O terceiro ponto destacado na lei é a formação dos Comitês tenham sido condenadas pela Justiça, em primeira instância,
9.840. Centrais de denúncias são montadas em centenas de ou que tenham renunciado a seus mandatos para não serem
cidades brasileiras com o objetivo de colher denúncias e garantir cassadas pelo Poder Legislativo. Com isso se ampliam os
idoneidade às nossas eleições. A participação de organizações objetivos da Lei nº 9.840/99, contra a corrupção eleitoral.
católicas nesse movimento é fundamental, mas, o envolvimento Igual empenho tem a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)
do eleitorado no reconhecimento das práticas é absolutamente e um grande número de entidades” afirma o documento. Mais
indispensável. Deve-se procurar sempre o Comitê da cidade, informações podem ser obtidas no site: www.lei9840.org.br ou
ou estado, buscando denunciar quem tenta comprar votos ou pelo e-mail: lei9840@gmail.com
utiliza a máquina em benefício de campanhas. E em caso de Participemos todos desse importante movimento para a
não existir o organismo, deve-se buscar montá-lo. Mais de 700 ampliação dos temas de interesse coletivo na política brasileira.
cassações de corruptos foram realizadas desde 1999, algo Nossa assinatura é absolutamente indispensável. Fiquemos
bastante relevante. atentos! 
Diante de todo esse compromisso, a Igreja está envolvida
em mais uma coleta de assinaturas para ampliar o combate Humberto Dantas é cientista político, professor do Centro Universitário São Camilo. Co-autor do
à corrupção eleitoral, e garantir a idoneidade do processo livro Introdução à Política Brasileira, Paulus, 2007.
democrático de escolha de representantes. O novo projeto e-mail: hdantas@usp.br

14 Junho 2008 -
FORMAÇÃO mISSIONÁRIA

Rumo ao CAM 3 - Comla 8

2º Congresso
Missionário Nacional
de Jaime Carlos Patias

José Altevir da Silva
Do Brasil de batizados ao Brasil de discípulos

E
stimular, educar e celebrar o
compromisso dos batizados
missionários! A dimensão missionária é parte
com a Missão universal da
Igreja é o objetivo dos Congres-
integrante do caminho evangelizador da Igreja.
sos Missionários nacionais e
continentais celebrados há 40
anos. Nessa perspectiva é ainda atual o
apelo da Conferência de Puebla (1979):
“Finalmente, chegou para a América
Latina a hora de intensificar os serviços
recíprocos entre as Igrejas particulares
e de estas se projetarem para além de
suas próprias fronteiras, Ad Gentes.
É certo que nós próprios precisamos
de missionários, mas devemos dar de
nossa pobreza” (DP 368). Há pouco
mais de um ano, a Conferência de
Aparecida, voltou ao tema: “a conver-
são pastoral de nossas comunidades
exige que se vá além de uma pasto-
ral de mera conservação para uma
pastoral decididamente missionária”
(DA 370). “O mundo espera da nossa
Participantes do 2º CMN impulsionam a Missão sem fronteiras.
Igreja latino-americana e caribenha
um compromisso mais significativo e Guaratinguetá abriram suas portas e presença, ação e serviço missionário
com a Missão universal em todos os corações para acolher os congressistas, da Igreja no Brasil pelo mundo”. Essa
continentes” (DA 376). num gesto de partilha e solidarieda- colocação vinha a propósito do tema:
Foi exatamente no mesmo auditório, de, características da Missão para a “Do Brasil de Batizados ao Brasil de
no subsolo do Santuário de Aparecida, humanidade. discípulos missionários, sem fronteiras”,
SP, onde os bispos falaram da Missão e o lema: “Igreja do Brasil: escuta, segue
continental, com um olhar tímido para a Superar a timidez e anuncia”, fio condutor do Congresso.
Missão universal, que a Igreja no Brasil “Apesar dos avanços e compromis- Definitivamente, a Igreja discípula-mis-
realizou o 2º Congresso Missionário sos assumidos, há um clamor dirigido sionária realiza-se, na Missão universal
Nacional – 2º CMN, reunindo, entre à Igreja no Brasil: escuta, segue e e a Missão Ad Gentes é equivalente à
os dias 1º e 4 de maio, cerca de 600 anuncia. Continuamos convocados Missão para a humanidade.
pessoas, representando os 17 regionais a projetar-nos para além de nossas
da CNBB, Conselhos Missionários, gru- fronteiras”, anunciava padre Daniel Aprofundando a Missão
pos de animação, forças e organismos Lagni, diretor das Pontifícias Obras Os participantes tiveram a oportuni-
missionários do país. Missionárias – POM, ao abrir os tra- dade de refrescar a memória do Vaticano
Parte dos trabalhos do Congresso balhos. Na sua opinião “é chegada a II, Concílio que tanto marcou a Igreja.
foi realizada no Colégio do Carmo, das hora de romper de vez com os tímidos Para tal, contaram com a assessoria do
irmãs Salesianas, em Guaratinguetá. e estreitos círculos de uma consciên- teólogo espanhol radicado no Equador,
Tudo pensado e organizado por uma cia e prática missionária doméstica, Frei Santiago Ramírez Alonso, que pôs
Equipe de Coordenação e assessores. por mais que sejam necessárias e em relevo a Missão para a humanidade
As famílias das paróquias de Aparecida inquietantes. Ainda é muito limitada a na Constituição Pastoral Gaudium et

- Junho 2008 15
Geraldo Martins
Auditório no subsolo do Santuário de Aparecida acolheu o 2º Congresso Missionário Nacional.

Spes. Num segundo momento, da tinental e nos confins do mundo. Para em algum momento não sabemos para
Conferência de Medellín, em seus 40 Paulo Suess, “o lugar não é importante, onde ir, pode ser muito útil saber de
anos, padre Agenor Brighenti, teólogo desde que os batizados compreendam onde viemos; para continuar fazendo
da Missão, destacou a opção pelos que a missão não é uma atividade ex- processo, precisamos situar nossas
pobres como a urgência da missão traordinária, mas ordinária e cotidiana, raízes na história”, ponderou.
hoje. Iluminado pelo Documento da porque “toda a Igreja é missionária”,
V Conferência do CELAM, o tema “a obra de evangelização é o dever Mutirões de reflexão
central do Congresso foi desenvolvido fundamental do Povo de Deus” (AG Além das três grandes conferências,
pelo teólogo padre Paulo Suess, que 35) e o povo de Deus é missionário um momento significativo do Congres-
traçou algumas pistas para Caminhar “por natureza”. so foram os 12 Mutirões de Reflexão,
com Aparecida além de Aparecida. A esse respeito Agenor Brighenti realizados no Colégio do Carmo, em
O Documento coloca a Missão sem lembrou a importância de se considerar Guaratinguetá, abordando temas como:
fronteiras e discípulos missionários “este Pentecostes, que põe a Igreja na Os Congressos Missionários Conti-
por toda parte: nas comunidades, na América Latina em estado permanente nentais e o significado da caminhada
paróquia missionária, na missão con- de missão”. Porque, segundo ele, “se missionária da América Latina desde o
Vaticano II até Aparecida; A formação
da comunidade como discípula missio-
nária sem fronteiras; A missão para a

A
humanidade como responsabilidade
realização e coordenação do Congresso esteve sob a responsabi-
dos ministérios ordenados nas Igrejas
lidade do Conselho Missionário Nacional (Comina), da Conferência
locais; Os consagrados e as consagra-
Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a qual articula e congrega
das como presença profética da Igreja
a Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Missionária e Cooperação
missionária no meio de nós e nos confins
Intereclesial, das Pontifícias Obras Missionárias (POM), dos Institutos e
do mundo; Perspectivas evangélicas
Organismos Missionários, da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB),
para a missão dos leigos, das leigas e
do Centro Cultural Missionário (CCM), do Conselho Indigenista Missionário
das famílias diante dos novos desafios
(Cimi), dos Leigos e Leigas Missionários. Todas essas forças trabalham em
do mundo globalizado; A Infância e
estreita comunhão com os Conselhos Missionários Regionais (Comires),
juventude missionária: sementes de
diocesanos (Comidis) e paroquiais (Comipas), em preparação para o 3º
uma nova humanidade; Discípulos mis-
Congresso Missionário Americano – CAM 3 e 8º Congresso Missionário
sionários da Amazônia para o mundo;
Latino-Americano – Comla 8, a realizar-se em Quito, Equador, de 12 a 17
Comunicação e missão; A missão e o
de agosto, ao qual o Brasil enviará 130 delegados.
desafio do diálogo ecumênico, inter-

16 Junho 2008 -
FORMAÇÃO mISSIONÁRIA

Os números do Congresso
religioso e intercultural para uma ética irmã Elvira Augusto, moçambicana no
Participantes = 603
e uma paz mundial; Migração como Brasil; as irmãs Elenice Buoro e Maria
Leigos e leigas = 298
caminho de evangelização; A Igreja Nieta Oliveira, no Timor Leste; padre
Padres = 183
em discipulado missionário junto aos Luiz Carlos Emer, na Coréia do Sul e
Religiosas = 103
povos indígenas e afrodescendentes; padre Joachim Andrade, indiano no
Bispos = 19
A animação missionária além-fronteiras Brasil. Os relatos de vivências na missão
como tarefa específica dos organismos além-fronteiras criaram uma harmonia
missionários. Numeroso era o grupo de entre a reflexão, o aprofundamento e a

Jaime C. Patias
assessores e representantes da Infância prática missionária. Nesse espírito, os
e Adolescência Missionária – IAM e da discípulos missionários chegaram ao
Juventude Missionária – JM, indicando domingo, dia 4 de maio, com o coração
um futuro promissor. aquecido pela chama da missão, po-
A reflexão desenvolveu-se em dendo então viver o Dia do Envio.
dois momentos: primeiro em grupos “Este foi um momento de renovação
temáticos segundo o interesse dos da paixão e do entusiasmo pela Missão.
participantes, depois em plenário, com Aqui confluíram práticas missionárias
a apresentação dos resultados. Os que fizeram pensar e rever as respostas
mutirões, além de refletirem sobre a que temos dado aos novos desafios
especificidade de cada tema, foram que exigem redimensionar a missão”,
caixas de ressonância dos outros mo- disse padre Agenor Brighenti, para
mentos do Congresso. quem as experiências dos missioná-
Os participantes experimentaram rios brasileiros em outros países e a
ainda um gostinho da missão além- presença de alguns participantes es-
fronteiras ao ouvirem vozes missio- trangeiros, reforçou o caráter universal
nárias que evangelizaram “na outra da Missão.
margem”, na América, África e Ásia: Frei Santiago Ramírez ressaltou
as leigas missionárias Aparecida Se- o compromisso e o entusiasmo.“Os
vero, na Amazônia e Mônica Guarniere participantes mostraram que estão
Machado, na Guiné Conacrí, o padre comprometidas e que têm clareza da Discípulos missionários de Jesus Cristo.
Camilo Pauletti, em Moçambique e a Missão. Isso dá esperança de que a Igreja brasileira se abra mais à Missão
e vença seus limites”, observou. Para
o frei, há setores e ambientes que se
Miguel Taboada

mostram sensíveis e claros na direção
de uma Missão que se preocupa com
a humanidade e tudo que a envolve,
mas há outros que estão fechados
sobre si mesmos. “Se temos clareza
do que diz a Conferência de Aparecida,
que se preocupa com os problemas
de hoje, vamos nos abrir a uma Igreja
que, como Jesus, olha com compaixão
e amor para todos, sem limites de
fronteiras”, concluiu.
As considerações traçadas pelos
assessores Agenor Brighenti e Frei
Santiago Ramìrez, revelam o fio con-
dutor que perpassou os 12 Mutirões
que, por sua vez, além de recolher
seu conteúdo, aponta para algumas
conclusões.
Duas celebrações eucarísiticas no
Santuário Nacional e aquelas realizadas
nas paróquias com as famílias que
acolheram os congressistas, foram
momentos de comunhão que renovou
o entusiasmo de todos. Em vários mo-
mentos a imagem de Nossa Senhora
Aparecida, Padroeira do Brasil, mãe
e mestra de comunhão e Missão, a
proteção dos Padroeiros das Missões,
Entronização de Nossa Senhora Aparecida, sessão de abertura do 2º CMN. São Francisco Xavier e Santa Teresinha

- Junho 2008 17
FORMAÇÃO mISSIONÁRIA

A Missão em seis enunciados
1º. O sujeito da missão: Juntamente com Medellín como espetáculo. Mediações também para a missão
e Aparecida, conseqüentes com a eclesiologia “Povo de são as missões populares, projetos Igrejas-irmãs, o
Deus” do Concílio Vaticano II, se fez ênfase na comuni- estabelecimento de laços entre comunidades eclesiais
dade eclesial, no seio da Igreja Local, como o sujeito da e missionários, bem como os Conselhos Missionários,
missão. Como diz Aparecida, “a vocação ao discipulado em seus diversos níveis eclesiais.
é convocação à comunhão na Igreja”. Se começa a ser 5º. Dimensões da missão: Em um mundo cada
missionário pelo chamado do Pai, no encontro com Jesus vez mais pluralista e diversificado, a missão, enquanto
Cristo, mas este encontro do discípulo passa sempre não têm destinatários mas, interlocutores, precisa ser:
pela mediação da Palavra acolhida no seio de uma ecumênica (a unidade dos cristãos para que o mundo
comunidade de fé. A adesão a Jesus Cristo passa pela creia); inter-religiosa (antes do missionário sempre che-
adesão ao sacramento da comunidade. Isso desautoriza ga o Espírito Santo) e inter-cultural (em Jesus, o Verbo
missionários voluntaristas ou como aventureiros dispersos se fez cultura). Conseqüentemente, a diversidade das
e atomizados, bem como vinculados simplesmente a um culturas precisa ser levada em conta na catolicidade. A
grupo ou movimento eclesial. Igreja, quanto mais encarnada na diversidade das cul-
2º. Os ministros da missão: Como é a comunidade turas, tanto mais católica será; e, ao contrário, quanto
eclesial, no seio de uma Igreja Local, o sujeito da mis- mais identificada com uma só cultura, menos católica
são, seus ministros são todos os batizados: os ministros será, pois estará menos apta para fazer presente a
ordenados, os consagrados e consagradas, os leigos e plenitude da revelação.
leigas, as famílias. Em vista disso, insistiu-se muito na 6º. Os âmbitos da missão: Não se deixou de referir-
importância e na necessidade da formação missionária se à missão, a começar de casa, Inter Gentes, pois até
de todos os membros da comunidade: formação bíblica, a própria localidade está se tornando, cada vez mais,
teológica e nas ciências humanas. Neste particular, colo- espaço de missão Ad Gentes. Depois, ressaltou-se o
cou-se em relevo o desafio da formação dos candidatos âmbito nacional, com as interpelações principalmente
ao ministério ordenado, propiciando-lhes, além de uma da Amazônia, seguido do âmbito latino-americano, este
esmerada formação missionária, também experiência de rico espaço de tecitura de uma tradição autóctone, que
prática. Entre os leigos e leigas, destacou-se com ênfase tem enriquecido a nós e a outros continentes. O âmbito
o segmento missionário mais entusiasta do Congresso – a mundial, enquanto a missão é sempre para a humani-
infância e a juventude missionárias. dade, é a expressão da universalidade da salvação de
3º. Situações que interpelam, hoje: Apareceram, Jesus Cristo. Finalmente, além de Ad Gentes, a missão
com toda crueza e realismo, algumas situações, em que é também além-fronteiras, entendidas estas não somente
a vida se apresenta mais ameaçada e minguada: os ultrapassar limites geográficos de país ou continente, mas
migrantes, sobretudo nos Estados Unidos e na Europa; também fronteiras de culturas, etnias, fronteiras etárias
os indígenas; os afro-americanos; a Amazônia, com ou de gênero – “já não existe nem judeu nem grego, nem
suas comunidades indígenas e de ribeirinhos, agredida escravo e nem senhor...”.
também em sua biodiversidade; a África e a Ásia; a Eu- Como se pode constatar, a reflexão feita nos 12 Mutirões
ropa, que vive um momento delicado; o mundo urbano catalisaram ricos processos missionários presentes na
e sub-urbano; e, entre vítimas por questões de gênero, Igreja hoje, assim como buscas de respostas a grandes
as mulheres. desafios que se encontram na missão, em nosso país e
4º. As mediações para a missão: Ressaltou-se fora dele. Mas o Congresso não foi só reflexão. Além de
como primeiro meio de evangelização o testemunho, na nos ter propiciado profundidade, renovou-nos a paixão e
consciência de que o mensageiro é também mensagem; o entusiasmo pela Missão. Entretanto, mais importante
de que a instituição eclesial, em sua organização e es- que o Congresso é o Congresso depois do Congresso,
truturas, também são mensagem. Foi tema de reflexão pois nossa hora é agora.
os meios de comunicação social, questionado seu uso,
às vezes, cedendo à tentação do mercado e da religião Agenor Brigheiti, assessor do 2º CMN.

do Menino Jesus, foram invocados para ção participaram das três Coletivas de fez uma experiência de fé e de Igreja, a
iluminar os trabalhos. Imprensa que ao todo reuniram nove partir do Discipulado, de Pentecostes e
O Congresso conseguiu pautar os convidados. da Evangelização para a humanidade.
meios de comunicação que noticiaram Plenamente sintonizado com todo Na seqüência, as dioceses e paróquias
a sua realização, publicaram matérias o trabalho de animação no continente, do Brasil estão convocadas a promover
e desenvolveram os temas abordados. o 2º Congresso Missionário Nacional eventos, para envolver e animar os
Marcaram presença pelo menos seis aparece na esteira de um processo, com batizados e impulsionar a conversão
emissoras de TV, a Rede Católica de etapas antes, durante e depois, onde pastoral e a renovação missionária das
Rádio - RCR que congrega cerca de os participantes abrem novos caminhos comunidades. 
170 emissoras, e outras emissoras para a evangelização. Quem esteve
que produziram programas ao vivo de em Aparecida, lugar de convergência Jaime Carlos Patias, imc, diretor da revista Missões e
Aparecida. 15 veículos de Comunica- de milhares de peregrinos, certamente integrante da Assessoria de Imprensa do 2º CMN.

18 Junho 2008 -
Roteiro de Encontro
Tema do mês: O valor da liberdade
a) Acolhida Jovens investem na
formação
b) Invocação do Espírito Santo
c) Dinâmica
d) Apresentação do tema,
questionamentos e debate
e) Compromisso mensal
f ) Oração conclusiva

Muito entretenimento e pouca reflexão

Francelildo da Luz
distraem e esvaziam a juventude.
de Patrick Gomes Silva

J
á visitei um bom número de grupos de jovens nas nossas
paróquias e notei algo interessante: grande parte dos
encontros que fazem têm um caráter programático, isto
é, preparação das celebrações (cantos, encenações,
simbologias, procissões etc.), eventos (festas, rifas,
passeios etc.). Poucas vezes os encontrei debatendo
temas de atualidade, investindo na espiritualidade ou até mes-
mo rezando. Nestes dias fiquei encantado com o trabalho dos
jovens de Icuí, bairro com 80.000 habitantes em Ananindeua, seremos as famílias do amanhã e poderemos repetir os mesmos
região metropolitana de Belém, PA. Partilho o trabalho deles erros de nossos pais....”; o cuidado com o meio ambiente, espe-
com vocês, leitores de Missões. cialmente com a água, a defesa e a preservação das florestas,
o pedido de socorro do planeta, a poluição sonora...; a coragem
O valor da liberdade de recomeçar, de sair das drogas, de aprender com os próprios
Os vários grupos de jovens da Paróquia Santo Inácio de erros; a fome no mundo, a missão do jovem, a valorização das
Loyola, Ananindeua, entre eles o grupo Ressoar (Comunidade famílias, meios de comunicação que escondem a realidade mais
São José), JOMIR - Jovens Missionários de Rita (Comunidade dura da vida, a falta de saúde pública, as injustiças, a unidade da
Santa Rita), JSM - Juventude de São Marcos (Comunidade família, atitude perante os meios de comunicação; valorização
São Marcos), JUCRI – Jovens Unidos em Cristo (Comunidade da própria fé, a busca de Deus na vida juvenil, a luta contra o
Sagrada Família) e Espírito da Juventude (Comunidade Santa preconceito e o racismo...
Terezinha), e da Comunidade Cristo Rei aproveitaram a manhã Organizados em grupos os jovens aprofundaram ainda
do feriado de 21 de abril para juntos refletirem como anda a sua temas como: a liberdade e o espaço do jovem na escola e no
liberdade, dom gratuito de Deus para cada pessoa. trabalho, o jovem cristão, o jovem no mundo de hoje, o jovem e
O encontro começou com uma dinâmica de apresentação sua vocação, o jovem e sua família... A apresentação em plená-
onde cada jovem “subiu na tribuna”, dizendo seu nome, idade rio foi em forma de encenações. O encontro foi concluído com
e Comunidade de origem, e completando no uso da sua liber- uma dinâmica intitulada “O lixo e a cruz”, para mostrar quando
dade, discursou: “sou a favor disso, mas sou contra aquilo...”. é que a vida pode se tornar lixo. Tendo em mãos a cruz, cada
Foi um exercício de liberdade de expressão onde os mais de um escreveu o seu compromisso de liberdade para com Deus
40 presentes, não tiveram dificuldades de se manifestar. Na e com a sua comunidade, cantando juntos o refrão: “deixa-me
ocasião, muitos se posicionaram contra o aborto, a eutanásia, ser jovem, não me impeça de lutar, pois a vida me convida uma
o desemprego, a violência, as drogas, o medo, e em defesa da missão realizar”. As palavras do padre Zezinho, extraídas do seu
vida, da saúde, educação, liberdade de expressão, da família, livro “diga ao mundo que sou jovem”, reforçaram o estudo.
da religião e da política verdadeira. Publicamos essa experiência para servir de inspiração a
Num segundo momento, motivados por um painel de imagens, outros grupos. Que tal “copiar” criativamente a idéia no seu gru-
refletiram sobre a realidade. Muitas coisas interessantes foram po? Se você tiver uma experiência semelhante para comunicar,
ditas por cada um dos presentes, destacando-se: a violência contra escreva-nos. 
os jovens em Icuí com prisão e mortes, a falta de oportunidades
no trabalho e nos estudos, o horizonte futuro e infinito, a falsa Patrick Gomes Silva é missionário, membro da equipe de formação do Centro Missionário José
amizade que os leva às drogas, valorização de si mesmos, “nós Allamano, SP. Com informações da Paróquia Santo Inácio de Loyola, Ananindeua, PA.

Para refletir: Compromisso Mensal:
1. Em que é usada a maior parte do tempo do seu encontro de jovens? Passar de um grupo apenas
2. Quantas reflexões já realizaram neste ano? de programação a um grupo
3. Quantos momentos de oração já ocorreram? de reflexão e ação.

- Junho 2008 19
Destaque do mês

Rumos e esperança da
Igreja no Brasil
Diretrizes Gerais da Ação história de cada comunidade eclesial”
(NMI 20) com novo ardor missionário,
individualista, dissociada dos valores da
ética que está gerando uma cultura de
Evangelizadora da Igreja no Brasil. fazendo com que a Igreja se manifeste morte.
como mãe que vai ao encontro, uma casa b) No campo econômico: o capitalis-
acolhedora, uma escola permanente de mo neoliberal que absolutiza o mercado
de José Carlos Stoffel comunhão missionária (DA 370). A missão como regulador de todas as relações
não é mais tarefa opcional e sim, parte privilegiando o lucro e estimulando a

T
integrante da identidade cristã. Qual o concorrência, está gerando exclusão so-
erminou o compasso de espe- conteúdo central da missão? Levar a vida cial. Os novos pobres são “supérfluos” e
ra. Na 46ª Assembléia Geral plena a todos (n. 06). “descartáveis”. Alarmantes são os níveis
da CNBB, foram aprovadas as de corrupção na economia.
novas Diretrizes da Ação Evan- A missão no mundo c) No campo sócio-político: Ao lado
gelizadora da Igreja no Brasil O discípulo missionário deve sempre do enfraquecimento da política no campo
(2008-2010). A Conferência de estar atento aos sinais dos tempos. A da esfera partidária vêem-se novos sinais
Aparecida determinou a mudança de Igreja quer realizar sua missão inserida de esperança com muitas organizações
cronograma. As nossas Diretrizes são uma no mundo e seus desafios: alternativas e não governamentais e uma
aplicação das linhas mestras e intuições a) No campo sociocultural: frag- crescente consciência da sociedade em
da V Conferência. Aparecida pede que se mentação dos referenciais de sentido e exigir políticas públicas de defesa de
desenvolva uma valente ação renovadora dos valores; o desencanto apesar dos direitos. Todavia vê-se o crescimento da
para que nossas paróquias e comunidades avanços tecnológicos e da facilidade de violência e a falência do sistema penal.
se tornem “centros de irradiação missio- comunicação que continuam privilegiando d) No campo da ecologia: este tema
nária” e haja uma verdadeira conversão uma minoria; a falta de um Projeto de entra em cheio na pauta da Igreja. A CNBB
pastoral que exige que se vá além de uma Nação; a busca de satisfação imediata e denuncia a degradação ambiental e a
pastoral de mera conservação para uma com bases em necessidades artificialmente devastação da Amazônia, a apropriação
pastoral decididamente missionária. Assim criadas; a sociedade de consumo que cria intelectual ilícita de conhecimentos sobre
será possível que “o único programa do produtos que têm caráter eficaz, efêmero nossa biodiversidade e a expansão da
Evangelho continue introduzindo-se na e até messiânico. Vive-se numa cultura pecuária extensiva e monoculturas que
priorizam o agronegócio.
e) No campo religioso: nunca a missão
se deu num ambiente tão plural. Diante da
mentalidade individualista, enfraquece-se
a pertença institucional e a adesão a uma
comunidade eclesial. Cresce a atração por
práticas esotéricas, baseadas em falsas
doutrinas. A “teologia da prosperidade”
difunde uma ótica utilitarista da fé. Não há
mais lugar para a graça de Deus! A religião
vira mercado e lugar de espetáculo. A fé
também é “show”. Também se reconhece
que a organização da Igreja Católica está
muito dependente do padre e da paróquia,
exigindo uma auto-avaliação e coragem
de mudar as estruturas.

A missão permanente
A Igreja é chamada a ser uma comu-
nidade missionária. "Não há discipulado
sem comunhão e missão" (n. 47). Todos
os organismos devem estar animados
por uma espiritualidade de comunhão
missionária. As atuais Diretrizes conti-
nuam ressaltando o serviço, o diálogo,
o anúncio e o testemunho de comunhão
como quatro "exigências intrínsecas da
evangelização". Porém, o anúncio do

20 Junho 2008 -
Evangelho deve ter primado ou prioridade Promover a dignidade Uma sociedade solidária
permanente, no contexto acima descrito, da pessoa Desafio: O escândalo da exclusão e
especialmente junto a uma multidão de Desafio: A construção da identidade da violência na sociedade consumista nos
batizados e crismados não-praticantes. pessoal e da liberdade autêntica. interpela à realização da solidariedade.
Não se pode conceber um cristão que A fé cristã: “Filhos de Deus, nós o A fé cristã: “Não havia necessitados
não colabora no anúncio e na realização somos!” (1Jo 3,2). entre eles!” (At 4, 34).
do Reino de Deus na história humana. Pistas de ação: Pistas de ação:
Todo discípulo é missionário. ● Ir a todas as pessoas, a cada pessoa, ● Trabalhar, em todos os ambientes da
A missão se realiza segundo um trí- às pessoas integralmente. sociedade por uma nova cultura de aus-
plice múnus: ● Valorizar o encontro pessoal, como teridade.
Ministério da Palavra - proclamação caminho de evangelização. ● Estimular condições mínimas de
da Palavra na liturgia, animação bíblica da ● Pastoral da Visitação, com serviços e ­subsistência.
pastoral, ministério da catequese, formação ministérios próprios. ● Firmar o compromisso com políticas
bíblico-teológica dos leigos e apoio decidido ● Apoio decidido à Pastoral da Criança e públicas que facilitem a criação de novos
à evangelização da juventude. à Infância Missionária. empregos e geração de renda.
Ministério da Liturgia - celebração ● Renovar a opção afetiva e efetiva de ● Apoiar meios eficazes de controle da
do mistério pascal; valorização da religio- toda a Igreja pela juventude. Considerar as aplicação dos recursos aos programas
sidade popular; “pastoral do domingo”, o indicações do Documento "Evangelização sociais.
cuidado com a música e o espaço litúrgicos da Juventude. Desafios e perspectivas ● Estimular a segurança alimentar e nu-
e a inculturação. Permanecem os desafios pastorais". tricional e promover a justa distribuição
da promoção de uma liturgia mais popular; ● Pastoral da Pessoa Idosa e promoção de renda.
a participação em celebrações ecumênicas, do protagonismo das mulheres na ação ● Combater a corrupção e a impunidade
celebrações transmitidas pela mídia que pastoral. e trabalhar pela segurança e combate à
respeitem as normas e ligação da Pás- ● A família como um dos eixos transversais criminalidade.
coa de Cristo com a criação e cuidado e da ação evangelizadora. ● Incrementar ainda mais a presença
conservação da natureza. ● Atenção especial aos desempregados, pastoral junto aos presidiários.
Ministério da Caridade – necessi- migrantes e ao surgimento de novos ros- ● Promover uma sociedade que respeite
dade de ratificar e potencializar a opção tos sofredores: pastoral da sobriedade as diferenças e educar para preservação
preferencial pelos pobres e empenho da de prevenção ao HIV; acolhimento das do meio ambiente.
Igreja por uma globalização da solidarie- pessoas com deficiência. ● Manter o Mutirão para a superação da
dade e da fraternidade. Anunciar uma ● Promover a vida de oração de todos miséria e da fome.
antropologia integral e a importância da os fiéis. ● Incentivar a participação ativa e cons-
bioética. Cuidado com o meio ambiente, ciente nos Conselhos de Direitos.
cuja degradação prejudica os mais po- Renovar a comunidade ● Apoiar as diferentes iniciativas de eco-
bres, especialmente os povos indígenas. Desafio: A fragmentação da vida e a nomia solidária.
A Igreja deve formar pessoas em níveis busca de relações mais humanas. ● Compromisso missionário nos novos ae-
de decisão, sem esquecer o protago- A fé cristã: “Onde dois ou três estive- rópagos: o mundo das culturas, a ­realidade
nismo dos pobres em seu processo de rem reunidos, eu estarei no meio deles!” urbana, o mundo da educação e os meios
libertação. Todos os fiéis são também (Mt 18, 20). de comunicação. Apoiar as propostas e
impulsionados pelo Espírito a participar Pistas de ação: políticas públicas que favoreçam a inclusão
da vida política. ● Promover uma espiritualidade e cultura social e o reconhecimento dos direitos das
O exercício desse tríplice múnus exige do diálogo dentro das comunidades e para populações de origem indígena e africana.
a formação dos discípulos missionários. O fora aprofundando a comunhão. Formação de pensadores e pessoas que
processo formativo se estende aos bati- ● Setorização das paróquias em unidades estejam em níveis de decisão. Formação
zados não suficientemente evangelizados territoriais menores. teológica dos leigos e também na Doutrina
que constituem a maioria dos católicos. ● Estimular as diversas formas de Pas- Social da Igreja, tornando-os verdadeiros
No processo de formação aparecem cinco toral Bíblica. missionários da caridade. Superar as desi-
aspectos fundamentais: o encontro com ● Testemunhar a efetiva participação de gualdades econômicas e sociais existentes
Jesus Cristo, através do querigma; a todos nos destinos da comunidade atra- no interior da Igreja. Organização pastoral
conversão; o discipulado como amadureci- vés da formação dos conselhos pastoral adequada à realidade urbana (criação de pa-
mento constante; a comunhão; a missão. e administrativo-financeiro (princípio da róquias em ambientes especializados).
O processo formativo deve considerar transparência). As diretrizes também apontam com-
quatro eixos: a experiência religiosa, a ● Articulação de ações evangelizadoras promisso com as grandes questões que
vivência comunitária, a formação bíblico- evitando a fragmentação e desperdício envolvem toda a humanidade (aquecimento
doutrinal e o compromisso missionário de forças e recursos. global, livre comércio, direitos dos povos).
de toda a comunidade. Neste empenho, ● Educar para o diálogo ecumênico e A CNBB, através de um Projeto Na-
os sujeitos sejam alimentados por uma inter-religioso. cional, explicitará melhor o significado
espiritualidade missionária. ● Formar comunidades essencialmente de estarmos, como Igreja, em estado
missionárias, através de uma ação pla- permanente de Missão e como a Missão
A missão evangelizadora nejada, organizada e sistemática, aban- continental proposta em Aparecida, se
As pistas são sugeridas dentro dos donando estruturas que já não favoreçam desenvolverá no Brasil. 
chamados âmbitos da evangelização: a transmissão da fé. Cada comunidade
Pessoa – Comunidade – Sociedade. Para é convocada a formar pelo menos uma José Carlos Stoffel, fpm, é mestre em teologia, pesquisador
cada âmbito, um desafio e um postulado equipe missionária. Comunidades peque- de temas ecumênicos, e pároco em Guaianases, São Paulo,
da fé cristã. nas, unidas às paróquias. Paróquia São Francisco de Assis.

- Junho 2008 21
Promover

Arquivo Centro Social José Allamano
Projetos Sociais - IMC - MC
a Vida
O
Instituto Missões Consolata e o Instituto Irmãs Missionárias Equipe do Centro Social José Allamano.
de Nossa Senhora Consolata, fundados pelo Bem-aventurado

Lírio Girardi
José Allamano, em Turim, Itália, em 1901 e 1910, respecti-
vamente, têm por finalidade a evangelização e a promoção
humana como expressão do carisma missionário. Padres,
irmãs, irmãos e leigos missionários trabalham em 23 países
de quatro continentes, privilegiando situações humanas menos favorecidas. No
Brasil, desenvolvem projetos com a colaboração de amigos e benfeitores.

Centro Social José Allamano
Criado em março de 2002 pelas irmãs Missionárias da Consolata na Vila
Curuçá, São Miguel Paulista, SP, o Centro Social José Allamano, atende cerca Lideranças indígenas da Raposa Serra do Sol, RR.
de 7.300 pessoas contribuindo para a promoção da mulher e geração de renda;

Livã Reis
empreendedorismo – em parceria com o SEBRAE. Desenvolve projetos na área
da formação humana e cristã, assistência, artesanato, culinária e informática.
Para a Terceira Idade: ginástica, dança sênior e coral. Nele trabalham cinco
imãs e 20 voluntárias.

Apoio à causa indígena
Desde 1948, o IMC colabora com outros organismos na defesa e promoção
dos direitos dos povos indígenas, particularmente na Região Amazônica. Como
muitas lideranças, alguns missionários deram a própria vida por esta causa.
Crianças da Pastoral Afro, Salvador, BA.
Entre ameaças, invasões, raptos e mortes, juntos conquistaram algumas im-
portantes vitórias: a demarcação das terras indígenas e a sua autogestão.

Arquivo IMC
Pastoral Afro
O Brasil tem a maior população de origem africana do mundo. No entanto,
pesquisas revelam que, entre os menos favorecidos do país, além de sofrer
com o racismo, os afrodescendentes são os mais excluídos da educação, da
saúde e do mercado de trabalho. A Pastoral Afro tem por missão resgatar a
dignidade deste povo apoiando ações afirmativas para sua inserção na uni-
versidade e no mercado de trabalho.
Crianças da Creche Bernardo Gora, Jd. Peri, SP.
Creche Padre Bernardo Gora

Arquivo Centro Comunitário Consolata
Obra social do Instituto Missões Consolata, localizada no bairro Jardim
Peri, Zona Norte de São Paulo atende 100 crianças de 3 a 5 anos. A Paróquia
Nossa Senhora da Penha administrada pelos missionários, no mesmo bairro,
mantém outras três creches que atendem juntas cerca de 350 crianças, con-
tribuindo para a sua educação e formação.

Centro Comunitário Consolata
Criado pelas irmãs missionárias em 2004, na periferia dos municípios de
Itapevi e Jandira, em São Paulo, o Centro Comunitário Nossa Senhora Con-
solata dedica-se à promoção completa da pessoa: humana, social, cultural Centro Comunitário Consolata, Jandira, SP.
e religiosa. O Centro está transformando a qualidade de vida, a cultura e a
Tarcisio Patias

prática religiosa de uma numerosa população. As missionárias acreditam no
potencial das obras sociais que desenvolvem em lugares mais carentes como
uma oportunidade para promover a vida.

Atuação nas periferias
A grande maioria dos missionários está prestando serviço nas periferias
das cidades, como Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, onde a violência, a
falta de emprego, a moradia precária e a insegurança são grandes desafios.
Evangelização e promoção humana através de obras sociais nas áreas da
saúde, educação e formação profissional proporcionam, principalmente aos Comunidade Flamengo, Bairro Jardim Peri, SP.
jovens e mulheres, uma vida mais digna. 

22 Junho 2008 -
Destaque para
“Dai-lhes vós mesmos
de comer”. (Mc 6, 37)

a inclusão na periferia
de Petra Mareschi Consolata, do voluntariado e dos funcionários, representam
hoje uma contribuição muito significativa para a comunidade,
a eficácia e o crescimento social da entidade e do trabalho. O

A
Centro é hoje um ponto de referência e de atendimento social
s missionárias da Consolata, em 1979 iniciaram para milhares de pessoas.
uma forte e profunda experiência de “tenda” na
periferia de São Paulo, no bairro do Jardim Peri, Projetos desenvolvidos no C.C.N.S.A
Zona Norte da cidade, no meio dos empobrecidos da Núcleo Socioeducativo – NSE - atendimento para 370 crian-
favela “Amália Matarazzo” e seu entorno. Em 1980 ças e adolescentes, na faixa dos seis aos 16 anos; Centro de
o Centro Comunitário Nossa Senhora Aparecida Educação Infantil – CEI Creche Consolata com 120 crianças de
dois a cinco anos; Agente Jovem Eucaliptos
– AJE, atendimento para 50 adolescentes
Álvaro Pacheco

e jovens em situação de exclusão social;
Movimento de Alfabetização de Jovens
e Adultos – MOVA, com 120 alunos em
seis turmas; Centro de Referência Ação
Família – CRAF –com 1050 famílias em
situação de alta vulnerabilidade social; Pro-
grama de Erradicação do Trabalho Infantil
– PETI – 35 famílias atendidas; Núcleo de
Proteção Psicossocial Especial - NPPE,
que atende 120 adolescentes e jovens e
ciclo de violência, na faixa etária de 12 a
18 anos, excepcionalmente até os 21 anos;
Programa Adolescente Trabalhador do
Banco do Brasil - PAT - orientação para o
trabalho; Fábrica de Cultura – atendimen-
to a 25 jovens - capacitação para Artes
Cênicas, Expressão Corporal e Artística.
Todos estes projetos são desenvolvidos
pelo Centro Comunitário em convênio com
as Secretarias Municipais de Assistência
e Desenvolvimento Social - SMADS, e de
Educação – SME e Secretaria do Estado
e Cultura – SEC.
O Centro coordena e articula ainda
Ir. Petra acompanha oficina de costura. projetos em parceria com colaboradores e
(C.C.N.S.A.) nasceu com uma grande vontade de avançar, de amigos da entidade: Informática-Acessinha: Acesso a Inclusão
buscar melhorias, tendo como suporte a reflexão: “a justiça na Digital para crianças de dois a 16 anos - atende 480 crianças e
realidade latino-americana”. A luta conjunta pela moradia sempre adolescentes; Informática – curso básico para a comunidade;
foi prioridade, e o objetivo principal era a criação de comunida- padaria comunitária, hoje Cooperativa – COOPERMASSA, na
des fraternas de comunhão e defesa dos direitos humanos e de Comunidade São José. Promove cursos de capacitação de
anúncio do Evangelho. Desde o seu surgimento, o C.C.N.S.A padeiros e confeiteiros, além de produzir e vender pão a um
constitui-se uma associação civil sem fins lucrativos, alicerçado preço acessível à comunidade. A oficina de costura oferece à
em projetos nas áreas socioeducativas, cultural, promocional, comunidade cursos de capacitação e trabalho de confecção.
focando em primeiro lugar a inclusão social, a educação, a ca- Oferece cursos de capacitação em marcenaria e marchetaria
pacitação ao trabalho, o lazer e o esporte, a geração de renda, a para jovens e adolescentes, com trabalhos remunerados para
promoção humana e cristã, de acordo com a realidade concreta interessados; salão de beleza, em parceria com a EMBELEZE
do povo. A continuidade na linha de ação: trabalho conjunto entre – que atende 40 pessoas em duas turmas; trabalhos manuais
entidade, comunidade e Igreja deu consistência, segurança e e artesanais: crochê, tricô, pintura, biscuit - aproximadamente,
harmonia à missão. O investimento em lideranças leigas locais, 550 pessoas são atendidas diariamente. 
as parcerias com diferentes organismos públicos e privados, o
apoio, o envolvimento do Instituto das Irmãs Missionárias da Petra Mareschi é missionária da Consolata e doutorada em Missiologia.

- Junho 2008 23
Cadê a água daqui? Nós temos sede!

José Roberto Garcia
“Podem beber que é água pura e cristalina [...] Não desperdicem sequer uma gota d'água”.
Infância de Roseane de Araújo Silva
Roberto Malvezzi (Gogó)
Missionária

N
este mês em que comemoramos o Dia Internacional
da Ecologia e do Meio Ambiente, optamos por abordar
uma temática bastante preocupante nos dias atuais.
Vamos falar sobre o bem mais precioso que temos
em nosso planeta e insisto em chamar de precioso
porque está diretamente ligado às nossas vidas. Estou
falando da água. Como todos nós sabemos, estima-
se que o nosso planeta seja composto por 70% de água, mesmo
assim há uma pequena quantidade de água doce, aquela potável,
indispensável à nossa sobrevivência. Dados apontam que há mais
de 1,2 bilhão de pessoas, sobretudo na América Latina, África e
Ásia, sofrendo com a escassez desse elemento vital. Segundo o
Fundo de População das Nações Unidas, em 25 anos uma em
cada três pessoas na Terra terá pouca ou nenhuma água.

Líquido precioso
Em passos lentos, mas precisos, os grandes capitais trans-
nacionais vêm se instalando principalmente na América Latina,
Projeto garante água para família em Monte Santo, BA.
adquirindo fontes de águas potáveis em diferentes pontos deste
continente, da mesma forma como foi com o petróleo no século água será mais vantajosa para estas empresas que as bebidas
passado e ainda hoje. Há indícios de que em breve, a venda de gasosas vendidas tradicionalmente. O mais agravante de tudo isso,
é que a água continua sendo um bem indispensável à sobrevivência
humana e também fator de lucro para uma minoria. O que acontece

Sugestão para o grupo então? De um lado, a escassez de água, e de outro, o desperdício.
Pesquisa recente comprovou que o consumo médio das famílias
Acolhida (preparar o ambiente com os símbolos missionários,
brasileiras está 40 litros acima do recomendado pela Organização
incluir um recipiente com água e também imagens de rios, das Nações Unidas (ONU) por pessoa, que é de 110 litros. No
lagos etc.). Estado de São Paulo recentemente foi aprovado um projeto de
Motivação (objetivo): vamos celebrar a vida, dom de Deus e lei, que prevê punição para os consumidores que desperdiçarem
também a problemática da água nos últimos anos. Convivemos água potável, tais como lavagens de calçadas, ruas, veículos com
com duas realidades distintas: a falta d'água e o desperdício mangueiras, máquinas de pressão a jato. A punição iniciará com
diário de cada um de nós.
uma advertência até chegar à multa, em casos reincidentes. Nos
Oração: Deus Pai, Criador de todos seres vivos, rogamos por
todas as pessoas, de todos os credos e raças, que sofrem
dias de hoje, em nosso país o desperdício de água abasteceria
com a falta d'água e saneamento básico, principalmente em cerca de 38 milhões de pessoas.
nosso continente. Na narrativa da Criação, a água é apresentada como uma
Partilha dos compromissos semanais. grande bênção de Deus para gerar a vida e a organização na
A Palavra de Deus: João 6, 28-38 - Jesus é o pão da vida. Terra (Gn 1, 9-11 e 2, 4b-6). Era também passagem da situação
Compromissos missionários: Jesus nos apresenta a propos- de doença, morte, descrença, para uma vida saudável, renovada
ta do Reino do Pai, um Reino que só chegará a todos com
pela ação de Jesus. No encontro com a Samaritana, Jesus nos
ações concretas e o compromisso de cada um de nós. Ele
não impõe a sua vontade, mas aponta o caminho a seguir: convida a beber da água viva e nunca mais ter sede, nos propõe
acreditar nAquele que O enviou, na construção do seu Reino ainda superar os preconceitos de raça e discriminações sociais,
aqui na terra e na vida em plenitude. Esta vida está ameaça- porque veio nos proporcionar uma vida nova de uma maneira
da por tudo que nos afasta de Deus Pai, impedindo-nos de integral (Jo 4, 4-15). Esta vida nova virá aos poucos, através dos
servir ao seu reino. Busquemos celebrar a nossa vida, dom pequenos gestos que fazemos, como gotas da água de chuva,
de Deus e também o que recebemos dEle para tornar a vida constantes e firmes, que ao juntar-se a outras pequeninas gotas,
possível. Marcar para o grupo da IAM, uma visita à empresa
formam córregos, rios, mares. Assim também deverá ser a nossa
de água e saneamento básico em sua cidade, para conhecer
o processo de tratamento de água até chegar às casas. Após atividade missionária, porque somos todos co-responsáveis “em
a visita, organizar um mural na comunidade ou paróquia para casa, na escola, na comunidade, evangelizando com o exemplo
partilhar estes conhecimentos. da própria vida” (Programa de vida da IAM). Somos também con-
Momento de agradecimento a Deus Pai pelas nossas vidas, vidados a preservar a água, não desperdiçá-la, porque ela é um
pela água que sacia nossa sede e nos alimenta. Agradecemos dos presentes de Deus para todos nós. De todas as crianças do
também pela vida de tantos homens e mulheres, defensores mundo – sempre amigas! 
de um mundo melhor para todos nós.
Canto e despedida.
Roseane de Araújo Silva é missionária leiga e pedagoga da Rede Pública do Paraná.

24 Junho 2008 -
- Junho 2008 25
Deus habita es
Entrevista

Álvaro Pacheco
de Jaime Carlos Patias Cecília, o que representa a arquidio- Entre as opções feitas pela Igreja

I
cese de São Paulo para a cidade? em São Paulo, quais merecem des-
nstaurada no dia 7 de junho de 1908, Representa uma Igreja em constante taque?
a arquidiocese de São Paulo come- mobilização, sempre desafiada a dar res- A opção pelos distanciados do centro,
mora este ano o seu centenário. Dom postas urgentes às pessoas, no sentido da pelos “periferizados”, já vem desde o
Duarte Leopoldo e Silva (1907-1938), justiça e solidariedade.Acidade de São Paulo esforço do cardeal Motta, que lançou a
dom José Gaspar de Affonseca e tem sido estudada como a metrópole dos campanha “uma igreja em cada bairro”.
Silva (1939- 1943), cardeal dom contrastes, onde as “manchas” da pobreza Apesar de ser ainda através de centros
Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta se movem e convivem, lado a lado, com os paroquiais, dentro da velha estrutura,
(1944-1964), cardeal dom Agnelo Rossi bairros “nobres”. É cidade-mundo, onde tudo essa iniciativa já mostrava uma preo-
(1964-1970), cardeal dom Paulo Evaristo se junta e onde os excluídos aumentam a cupação com os pobres e esquecidos
Arns (1970-1998) e cardeal dom Cláudio cada dia. É cidade que atrai como ilusão, pelo poder público e pela própria Igreja.
Hummes (1998-2006) foram os arcebispos mas também como oportunidade de tra- Podemos dizer que, desde a década de
na Igreja de São Paulo, que hoje tem como balho. A arquidiocese aqui representou um 40, aparece clara uma opção pelo meio
Pastor o cardeal dom Odilo Pedro Scherer. espaço possível, aberto e solidário nos anos popular. Depois vieram as corajosas
Durante as celebrações do centenário o de chumbo da ditadura militar. E continua opções do tempo da ditadura militar
Apóstolo Paulo foi anunciado como novo representando uma consciência de valores (1964-1985): além do povo da periferia, o
Patrono da arquidiocese. Entrevistamos a evangélicos, de amor solidário e de opção mundo do trabalho, os direitos humanos
teóloga leiga e historiadora Maria Cecília radical pelos excluídos. Hoje, mais que nunca, e as CEBs. Mas, como a cidade sempre
Domezi, professora de Ciências da Religião esta arquidiocese tem que ser uma Igreja em se move e se complexifica ainda mais,
e de Teologia. Com mestrado em Teologia diálogo com a pluralidade, em parceria com outras opções se fizeram, a partir dos
e doutorado em Ciências da Religião, os movimentos sociais, presente em todas clamores urgentes dos injustiçados.
Cecília acompanha e assessora as CEBs as instâncias da sociedade e defensora dos Assim, organizaram-se vicariatos, como
há mais de 20 anos. direitos humanos. o do Povo da Rua.

26 Junho 2008 -
sta cidade

Jaime C. Patias
O centenário da arquidiocese de São Paulo e os
desafios na sua evangelização.
Quais os sujeitos (lideranças) da solidário e ser profeta. Mas, cada lugar
história da arquidiocese que você des- desta cidade deve ser evangelizado, no
tacaria? sentido de impregnar-se dos valores
Os sujeitos que, a meu ver mais do Evangelho. Além dos que sofrem a
merecem destaque são os pequenos fome e toda insegurança, há também
grupos anônimos que foram surgindo do as pessoas que sofrem a solidão, as
20º Seminário Arquidiocesano de CEBs, Região Belém, SP.
meio da população e chegaram ao povo dores existenciais, a ausência de amigos.
mais abandonado. Grupos de mulheres, Evangelizar é dar testemunho do Reino ças morriam queimadas porque as mães
especialmente, com seus Clubes de Mães. de Deus através de resposta concreta, no trancavam-nas nos barracos, pois preci-
Mas também profissionais voluntários, sentido humanitário. Outro tipo de lugar é savam ir trabalhar. Não existia assistência
solidários com a luta do povo. Os círcu- o das instituições. Muitas vezes, elas são médica, nem para as gestantes, nada.
los bíblicos e as CEBs, que continuam injustas, omissas, corrompidas. A evan- Tudo era clamoroso. Dom Paulo Evaristo
enraizados em tantos bairros, favelas, gelização deve ser acompanhada pelas Arns quando assumiu a arquidiocese, em
becos distantes desta cidade que se es- ações concretas de cidadania. Temos 1972, lançou a “Operação Periferia”. Era
tende indefinidamente. Muitos grupos de ainda os lugares sociais, culturais e reli- numa intuição ousada e consistia em criar
jovens que têm atuado com consciência giosos. O lugar das crianças, dos jovens, uma parceria entre as paróquias do centro
crítica. Grupos de trabalhadores, grupos das famílias, dos idosos, dos estrangeiros com as periferias. Foi uma campanha de
da ACO (Ação Católica Operária), grupos que vivem aqui, das culturas brasileiras solidariedade de todos entre todos, com
organizados a partir das favelas... são diversas, dos imigrantes condenados à ações concretas. A Igreja do centro ofe-
muitos os sujeitos. Mas também merecem ilegalidade e à exploração. Uma Igreja recia bens materiais e ajudava também
destaque as religiosas, os religiosos, os que evangeliza faz-se presente junto do com o que sabia. O que a periferia estava
padres e os seminaristas que, por opção, povo, nas dores e alegrias, na luta e na oferecendo era um novo jeito de ser Igreja.
inseriram-se no meio dos mais pobres. festa. É uma Igreja inserida, dialógica A “Operação Periferia” era uma proposta
Tivemos bispos profetas da atualidade, e fraterna. Mas, o lugar-sacramento de de evangelização, resolvendo problemas.
como dom Luciano Mendes de Almeida. Deus está sempre nos pobres. É na so- A Igreja de São Paulo fez das CEBs uma
E o mensageiro da esperança, o cardeal lidariedade com os pobres e excluídos, prioridade pastoral.
dom Paulo Evaristo Arns. Sempre des- e com a ética da justiça em favor deles,
pontam novos sujeitos. Temos indígenas que temos de atingir também o lugar Quais os resultados da “Operação
atuantes, grupos de consciência negra, dos empresários, dos banqueiros, dos Periferia” na cidade de São Paulo?
leigas e leigos teólogos, lideranças do governantes, da mídia. Enquanto as CEBs se propagavam,
povo da rua, lideranças dos recicladores... as paróquias no centro estavam estag-
Realmente, esta arquidiocese é rica de A “Operação Periferia” fez história nadas. Então era uma salvação para as
lideranças, de profetas, de irmãos e irmãs na evangelização da cidade. Como paróquias. Porém, como campanha, a
de verdade. nasceu essa ação? “Operação Periferia” foi o maior fracasso.
O papa Paulo VI - quando ainda não Poucas paróquias do centro entenderam
“Deus habita esta cidade” é o lema era papa - ao vir para o Rio de Janeiro e que era uma troca. Ficaram no assisten-
do centenário. Quais os lugares para ver as zonas de pobreza e miséria, falou: cialismo e não mudaram o modo de ser.
evangelizar São Paulo? “parece uma coroa de espinhos na cabeça Não havia lideranças e clero preparado
Esta cidade tem porões e submundos. de Cristo”. A periferia era resultado de para essa nova concepção. Sempre foi
Tem gente morando – se é que se pode um modelo perverso de desenvolvimen- um assistencialismo. Mas, alguns frutos
chamar de moradia – em buracos subter- to econômico. Por parte da Igreja, aqui fabulosos surgiram, como: construção de
râneos, debaixo de belas praças. Como em São Paulo, já havia começado uma inúmeros centros comunitários, legitimação
vemos no testemunho da Bíblia, Deus mora preocupação com a periferia através do do novo jeito de ser Igreja; crescimento
em tendas provisórias e acompanha o seu cardeal Motta. Ele fez uma campanha para da consciência popular; evangelização
povo por onde ele vai. Assim, podemos implementar “uma igreja em cada bairro”. do povo abandonado. A Igreja se tornou
dizer que Deus habita principalmente os Visava instituir uma paróquia em cada canal para organização de trabalhadores
buracos, cortiços, favelas, becos, ruas, bairro, mas já tinha intenção de atingir as explorados. 
onde as pessoas convivem com toda periferias abandonadas pelo poder público
espécie de risco e desconforto. Evange- e pela Igreja Católica. Em alguns bairros Jaime Carlos Patias, imc, é diretor da revista Missões e mestre
lizar nestes lugares é ser concretamente a violência era muito forte. Muitas crian- em Comunicação. Com a colaboração de Dirceu Benincá.

- Junho 2008 27
Raposa Serra do Sol
Atualidade

Jaime C. Patias
Dentro do território demarcado, seis
Cabe ao STF confirmar rizicultores ocupam 6 mil hectares, com
lavouras irrigadas, às margens dos rios
a homologação da Terra Cotingo, Tacutu e Surumu. Todos grileiros
em terras da União. Utilizam agrotóxicos,
Indígena em Roraima. destroem a mata ciliar, soterram lagoas
e igarapés, abrem valas para canalizar a
água dos rios às suas lavouras. A mesma
de Frei Betto água, poluída com agrotóxico e inutilizável
para o consumo, retorna ao rio, matando

E
os peixes.
m 15 de abril de 2005, o presiden- No verão, impedidas de fazer uso da
te Lula assinou a homologação, água dos rios, as comunidades indígenas
em área contínua, da reserva são obrigadas a cavar poços. Com a
indígena Raposa Serra do Sol, destruição das lagoas e da mata ciliar, as
em Roraima. Este ano, a Polícia caças desaparecem. Os vilarejos dentro da
Federal, em cumprimento da lei, reserva dão apoio ao garimpo ilegal e, ali,
mobilizou-se para retirar da reserva seis circulam bebidas alcoólicas, muitas vezes
arrozeiros. Os invasores da área, conven- oferecidas às jovens indígenas…
cidos de que "índio atrapalha o progresso", Os direitos dos povos indígenas estão Retroagir a homologação de Raposa
reagiram com violência, inclusive bombas. garantidos pelo artigo 231 da Constituição; Serra do Sol para área não-contínua repre-
Criaram o fato político capaz de induzir o assegura-lhes a posse permanente e o uso senta grave precedente jurídico em relação
STF a suspender a medida legal e reiniciar exclusivo de suas terras. Uma demarcação aos demais processos demarcatórios, e
o atribulado percurso já transitado pelos fracionada da área favorecerá a invasão poderá estimular grileiros e oportunistas a
três poderes da República. de forasteiros, aumentará a incidência de realizarem invasões nos mesmos moldes
Roraima abriga pouco mais de 400 mil conflitos e porá em risco a sobrevivência das que ocorrem em Roraima.
habitantes num território de 224.298 km2 de culturas milenares. Quanto à Segurança Nacional, lembro
(pouco menor que o Equador). Raposa Na primeira semana de janeiro de que os povos indígenas têm, historicamen-
Serra do Sol é uma área de 1,67 milhão 2004, o Jornal Nacional mostrou a mo- te, desempenhado papel fundamental na
de hectares situada no nordeste do estado, bilização de arrozeiros e latifundiários preservação e defesa de nossos atuais
nas fronteiras com a Venezuela e a Guiana. interrompendo estradas na tentativa de limites territoriais. Não são os índios que
A área foi demarcada pelo Ministério da evitar a homologação da Raposa Serra do promovem degradação ambiental, con-
Justiça, através da Portaria 820/98, em Sol. Com o apoio de lideranças indígenas trabando, garimpagem de minérios pre-
1998, durante o governo FHC. cooptadas, seqüestraram três missionários ciosos e derrubada de madeiras nobres.
Da área de Roraima, 46,35% são re- católicos da Missão Surumu: os padres A hipótese de se criar uma faixa de 10
servadas aos indígenas. Ali eles somam Ronildo Pinto França, brasileiro, Cézar a 20 km de largura ao longo de nossas
46.106, distribuídos em 152 aldeias dos Avellaneda, colombiano e o irmão espanhol fronteiras abre o risco de atrair intenso
povos Yanomami (15 mil), Macuxi, Wa- Juan Carlos Martinez, todos membros do movimento migratório de não-índios para
pixana, Wai-Wai, Ingaricó, Taurepang, Instituto Missão Consolata. a região, causando degradação ambiental
Waimiri-Atroari e Patamona. O ministro da Justiça, Márcio Thomaz e social, desmatamento e contaminação
Políticos e arrozeiros queriam a de- Bastos, advertiu o governador Flamarion dos rios.
marcação em área descontínua, "ilhas" Portela, de Roraima, de que o governo Cabe ao STF fazer cumprir a Consti-
onde pudessem permanecer com suas federal tomaria providências para liberar os tuição, ou seja, confirmar a homologação
terras (invadidas) e propriedades (ilegais). reféns e desmobilizar o protesto. A Polícia em área contínua e, ao governo, deslocar
Três municípios foram criados dentro da Federal agiu e libertou os seqüestrados. a sede do município de Uiramutã para as
reserva indígena: Normandia, Uiramutã, Eram seis horas da manhã de 23 de margens da rodovia BR-401 (que liga à
e parte de Pacaraima. novembro de 2004, quando a comunida- Guiana); promover a regularização fundiá-
Raposa Serra do Sol não é apenas uma de Jauari foi despertada por tiros, gritos, ria de Roraima e reassentar os posseiros em
selva salpicada de tribos. Ali atuam 251 roncos de máquinas. Quarenta homens áreas definidas pelo Incra, com pagamento
professores indígenas em 113 escolas de armados mataram galinhas, porcos e cães, das justas indenizações; e preservar as
ensino fundamental e três de ensino médio. e deram dois tiros no macuxi Jocivaldo atuais rodovias, como bens públicos, para
Os indígenas manejam um rebanho de 27 Constantino, um deles na cabeça. De lá uso de cidadãos indígenas ou não.
mil cabeças de gado. Funciona dentro da marcharam para destruir as comunidades Retalhar Raposa Serra do Sol é re-
reserva a Escola Agropecuária de Surumu, indígenas Brilho do Sol, Retiro São José e talhar a Constituição Brasileira, reforçar
que profissionaliza técnicos de nível médio. Homologação. Nas quatro aldeias derruba- a discriminação aos indígenas e premiar
Conveniados com a Funasa, há 438Agentes ram, com tratores, 37 casas e incendiaram o faroeste dos que apóiam os interesses
Indígenas de Saúde e 100 indígenas técnicos os escombros, sem poupar a igreja, a de apenas seis arrozeiros. 
em microscópio, trabalhando em 187 postos escola e o posto de saúde; isolaram as
de saúde e 62 laboratórios. Valoriza-se a áreas e fecharam as estradas. Ficaram Frei Betto é dominicano. Escritor, autor de "A Mosca Azul -
medicina tradicional indígena. desabrigadas 131 pessoas. reflexão sobre o poder" (Rocco), entre outros livros.

28 Junho 2008 -
Impunidade no Pará
Fazendeiro mandante do

Arquivo Santuário dos Mártires São Félix do Araguaia
Entre 1971 e 2007, no Pará, 819 pesso-

assassinato de irmã Dorothy as foram assassinadas no campo.
Em 568 casos não houve apuração.

Stang é absolvido. 92 casos resultaram em processos.
O Tribunal do Júri julgou 22 casos.

O
Somente seis mandantes foram con-
mundo assistiu inconformado denados. Nenhum deles está preso.
a mais um caso de impunida- Um está foragido, um morreu, um foi
de no Pará. Vitalmiro Bastos perdoado pela Justiça, dois aguardam
de Moura, conhecido como novo julgamento e o outro é Bida,
Bida, foi absolvido pelo tri- absolvido pela morte da irmã Dorothy
bunal do júri, no último dia 6 Stang.
de maio, em Belém. Segundo os dados
da Comissão Pastoral da Terra (CPT),
em 40 anos de luta e resistência, mais de mam por Justiça! Preocupa-nos a situação
800 trabalhadores, lideranças sindicais e de ameaças constantes de morte contra
sem-terra, religiosos e ativistas dos direitos bispos, padres, sindicalistas, indígenas etc
humanos, foram assassinados no Pará. que se vêem obrigados a andar protegidos
Quase todos esses crimes foram cometidos por policiais militares para não serem
por pistoleiros a mando de fazendeiros e assassinados por pistoleiros a mando de
madeireiros. Nesse período, apenas seis madeireiros e fazendeiros. Clamamos pelo
mandantes foram julgados e condenados fim da impunidade e reafirmamos o nosso
pela justiça paraense, no entanto, nenhum compromisso pela Reforma Agrária e pela
deles permanece preso. O Poder Judiciário distribuição da terra e da renda que possa
paraense, parece ser conivente até mesmo garantir alimento e vida e, esperamos
com o descumprimento das penas dos confiantes que o Tribunal de Justiça do
pistoleiros condenados. Nos últimos anos, média de tramitação desses processos Estado do Pará corrija o equívoco come-
três deles tiveram suas fugas facilitadas está acima dos 10 anos, provocando a tido pelo corpo de jurados que contrariou
das penitenciárias estaduais. O último foi prescrição da maioria dos casos. flagrantemente as provas existentes no
Welinton de Jesus, condenado a 29 anos A absolvição do fazendeiro Vitalmiro é processo e faça restabelecer a justiça
de prisão, pelo homicídio do sindicalista vergonhosa, pois durante toda a investi- em relação ao assassinato da missionária
Dezinho, que teve sua fuga facilitada por gação policial e judicial, ficou devidamente Dorothy Stang.
uma juíza da vara de execuções penais da provado que ele e Regivaldo prometeram Belém, 8 de maio de 2008.
capital. Fazendeiros mandantes, em geral 50 mil reais para que Raifran assassinasse
e grandes proprietários de terras usam a missionária. Fato que ensejou na conde- Assinam:
todo o seu poder de influência financeira nação de Bida no primeiro julgamento, a CNBB Regional Norte 02 (Cáritas Regional
e política para permanecerem livres e 30 anos de prisão. O último júri absolveu o Norte 02, Comissão Pastoral da Terra, Co-
impunes dos crimes juntamente com os fazendeiro e ficou provado pelo promotor missão Justiça e Paz, Pastoral do Menor,
executores e intermediários. de justiça e os advogados assistentes Conselho Indigenista Missionário, Pastoral
A impunidade no Pará, em crimes ligados de acusação que o pistoleiro Raifran e da Criança, Comunidades Eclesiais de
à posse da terra, se mantém em função o intermediário Amair, mudaram seus Base, Pastoral da Juventude, Pastoral
da permanência de outros crimes ligados depoimentos, comprados por mais de 100 da Comunicação, Pastoral da Juventude
à grilagem de terra, trabalho escravo e mil reais. Prometeram 50 mil para assas- Rural, Pastoral da Pessoa Idosa, Pastoral
exploração madeireira que mantém o sinar Dorothy e pagaram mais de 100 mil Carcerária) Comitê Dorothy, Conferência
poderio e a prepotência de uma minoria para que mudassem seus depoimentos e dos Religiosos do Brasil, UNIPOP - Instituto
de fazendeiros e madeireiros que não Bida fosse absolvido. O Estado e o Poder Universidade Popular, FAOR - Fórum da
abandonaram suas práticas tradicionais Judiciário precisam urgentemente apurar Amazônia Oriental, FASE - Federação de
de imposição da violência no campo. essa denúncia e punir os responsáveis Órgão para Assistência Social e Educa-
Soma-se a isso, a inércia dos aparelhos por mais esse crime, pois a impunidade cional, ABONG - Associação Brasileira de
repressores do Estado, que atuam na estimula a continuidade da violência. ONGs, SDDH - Sociedade Para­naense dos
maioria das vezes, contra os camponeses A absolvição do fazendeiro Bida se in- Direitos Humanos, Movimento de Mulheres
e na defesa da oligarquia agrária do Pará. sere no conjunto de violência que nas Trabalhadoras de Altamira, Comitê de
De acordo com o monitoramento feito pela últimas décadas vem se alastrando na Defesa da Vida das Crianças de Altamira,
CPT, 73,19% dos casos de assassinatos Amazônia contra a floresta e os povos Fórum Popular de Altamira, Fórum Dorothy
no campo, não são apurados, 8,11% dos que nela habitam. Não nos esqueçamos Stang de Direitos Humanos, Mutirão pela
inquéritos policiais não são concluídos e do assassinato de padre Josimo, Chico Cidadania, GTARegional Xingu, Movimento
apenas 18,68% dos crimes transformam- Mendes, dos massacres de Corumbiara, de Mulheres do Campo e da Cidade do
se num processo judicial. No entanto, a Eldorado e tantos outros, que ainda cla- Estado do Pará. 

- Junho 2008 29
Brasília - DF Serra do Sol. “E nem poderia ser diferente, pois a
CNBB combate corrupção eleitoral referida Portaria apenas oficializa o reconhecimento
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil de um direito constitucionalmente garantido”, afirma a
(CNBB) lançou na 46ª Assembléia Geral o novo petição dos indígenas. A petição também demonstra
projeto de lei de iniciativa popular contra a corrupção que a demarcação não fere o princípio federativo,
eleitoral. A iniciativa é desenvolvida em parceria com pois não visa separar a terra indígena do estado de
outras instituições da sociedade civil, que compõem Roraima: “Estados não governam apenas sobre os
o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral. O terrenos de seu domínio. (...) Se assim fosse, os
projeto quer impedir a candidatura de pessoas já Estados federados do Sul e Sudeste do país seriam
condenadas em alguma instância e de parlamentares ingovernáveis, já que a imensa maioria de seus res-
que deixaram o cargo para fugir da cassação e as- pectivos territórios está sob domínio privado.” “Se
sim não ficarem inelegíveis. O presidente da CNBB, o Supremo é o fiscal da Constituição e, em relação
dom Geraldo Lyrio Rocha afirmou que política é um aos povos indígenas, as questões estão baseadas
serviço ao próximo, mas infelizmente não é pequeno na Constituição, esperamos que a decisão seja
o número dos que atentam contra a dignidade do tomada em acordo com a lei maior do país e que a
próximo e buscam nos cargos eletivos privilégios que Ação seja considerada improcedente. Espero que
os coloquem a salvo de qualquer responsabilidade. os argumentos políticos não se sobreponham aos
Está havendo uma mobilização em todas as dioceses direitos dos povos indígenas”, afirma Joênia Carvalho
e paróquias do país para a coleta de assinaturas. A Wapichana, advogada das comunidades. A petição
VOLTA AO BRASIL

meta é recolher um milhão e duzentas mil assinaturas apresentada também lembra que a convivência
(1% do eleitorado) para que a lei possa ingressar entre índios e não-índios no interior da terra nunca
na pauta de votações do Congresso. Os formulários foi pacífica. Até hoje, 21 indígenas morreram em
para coleta estão disponíveis nas Cúrias Diocesa- conflitos por causa da terra indígena RSS.
nas, junto ao Secretariado Regional da CNBB ou
no site www.lei9840.org.br. Além da assinatura dos Brasília
eleitos é necessário destacar endereço, município 15ª Assembléia Nacional da PJB
e número do título de eleitor para que as adesões Realizou-se de 22 a 25 de maio, na Chácara
tenham validade. Manacá, em Samambaia, Distrito Federal, a 15ª
Assembléia Nacional da Pastoral da Juventude do
Roraima - RR Brasil (PJB), evento realizado a cada três anos que
Raposa Serra do Sol tem por objetivo “celebrar e planejar a caminhada
da PJB e as demais Pastorais da Juventude”. Este
Valter Campanato/ABr

ano o lema foi “Por uma PJB geradora de Vida e
Esperança”. De acordo com a secretária nacional
da Pastoral da Juventude Estudantil (PJE), Tábata
Silveira, “a experiência da PJB nem sempre é coe-
rente com o que os jovens acreditam, mas eu tenho
esperança que essa Assembléia seja comprometida
com a missão e assumida pela Pastoral da Juventude,
cujo reflexo seja sentido pelos jovens”, sintetizou.
Participaram do evento 16 delegados das quatro PJs,
15 jovens de cada pastoral específica, a Comissão
para o Laicato da Conferência Nacional dos Bispos
do Brasil (CNBB), o assessor do Setor Juventude da
Joênia Wapichana, Paulo Santilli e Jocenildo Saterê.
CNBB, padre Gisley Gomes e o secretário Silvano
No dia 14 de maio, seis comunidades indígenas Silvero, além dos secretários das PJBs dos Regionais
da terra Raposa Serra do Sol (RSS) ingressaram no da CNBB e convidados.
Supremo Tribunal Federal (STF) com um pedido para
se tornarem parte na Ação Popular que decidirá o Nordeste
futuro daquela terra. Na mesma petição, requerem Campanha SOS
que a Ação, do senador Augusto Botelho (PT/RR), Mais de 600 mil pessoas foram atingidas pelas
seja considerada improcedente e que a demarca- enchentes em seis Estados do Nordeste, ocorridas
ção da terra em área contínua seja mantida. As no mês de abril. Em solidariedade a essas famílias, a
comunidades são beneficiárias da demarcação que CNBB e a Cáritas brasileira lançaram a Campanha SOS
a Ação pretende anular e podem ser prejudicadas Nordeste, com o objetivo de recuperar casas e meios
se o STF considerar a Ação procedente, por isso, de subsistência, como alimentos, remédios, roupas,
elas entendem que têm o direito de participar do transporte, entre outros. A Campanha prosseguirá até
processo. O ministro Carlos Ayres Britto, relator, 15 de julho. As doações podem ser feitas nas con-
decidirá se aceita o pedido das comunidades. Em tas bancárias: Banco do Brasil, agência 3475-4, c/c
relação à Ação Popular, a petição apresentada pe- 8018-7; Banco Bradesco agência 0484, c/c 66.000-0;
las comunidades afirma que “o objetivo do autor é Caixa Econômica Federal, agência 1041, operação
defender os interesses patrimoniais de indivíduos”. A 003 - conta 645-0. Informações: www.caritasbrasileira.
Ação Popular omite os supostos prejuízos ao meio org.br ou pelo tel.: (61) 3214.5422. 
ambiente ou ao patrimônio público causados pela
Portaria que declarou como indígena a terra Raposa Fontes: Agência Brasil, Cimi, CNBB.
30 Junho 2008 -
V
ivemos em uma sociedade do espetáculo, onde,
obedecendo às regras do mercado, a notícia
é vendida juntamente com outros produtos de
consumo e a informação, ao invés de gerar
conhecimento, proporciona entretenimento para
distrair. Hoje, mais do que nunca precisamos
comunicar para informar os cidadãos na sua capacidade de
refletir e entender a realidade.
Quando falamos de comunicação na Igreja não devemos
pensar apenas nos meios. Entendemos de maneira especial
o processo de comunicação nos espaços de reflexão para as
comunidades, as pastorais, os grupos, os movimentos, nas
diversas iniciativas que criam interação entre pessoas movidas
pelos valores do Evangelho.
A revista MISSÕES, editada pelos missionários e missionárias
da Consolata no Brasil, é um meio de informação e formação
que visa contribuir com a construção de um mundo mais justo
e solidário através de subsídios pastorais, espirituais, sociais
e culturais. Seu público alvo são as lideranças e os cidadãos
em geral, as famílias, os jovens e os agentes de pastoral das
comunidades cristãs. Neste sentido, MISSÕES apresenta
matérias sobre:

• Atualidade da sociedade e movimentos sociais
• Espiritualidade e temas pastorais
• Articulação de projetos sociais e ambientais
• Estudos sobre os desafios para a missão da Igreja
• Subsídios para uma pastoral missionária
• Testemunhos de vida e de experiência
• Reflexões para a juventude
• Trabalhos didáticos para as crianças, e muito mais.

Com isso, a revista MISSÕES deseja ajudar os seus leitores
a olhar para fora do próprio mundo, além das próprias fronteiras
eclesiais, culturais e geográficas.
A solidariedade em vista do bem comum é fruto da partici-
pação de todos. Faça parte desse projeto!


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Nos meses de Jan/Fev e Jul/Ago a edição é
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