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“Para além de bem e mal” de F.

Nietzsche: a experimentação da Grande Crítica


Carlos Eduardo Ribeiro
I. Resumo do projeto

A partir da análise dos chamados Prefácios de 1886 e da quinta parte de Gaia


Ciência, publicada no mesmo ano, investigaremos a posição que ocupa a obra Para além
de bem e mal no conjunto da produção filosófica de Nietzsche do ano de 1886 e o papel que
ela desempenha na vertente corrosiva da filosofia nietzschiana da maturidade. Mostraremos
que, publicado no contexto de um ano marcado por uma atitude de revisão, Para além de
bem e mal é um escrito que guarda singularidade na idéia de crítica frente ao corpus
nietzschiano. Uma concepção singular porque vinculada, desde os prefácios, ao
experimentalismo. Enquanto a maioria dos escritos declaradamente corrosivos de
Nietzsche, como O Crepúsculo dos Ídolos e O Anticristo, combate diretamente os eternos
ídolos do quadro axiológico do Ocidente, é de outra maneira que o autor de Para além de
bem e mal terá de se haver com os mesmos. Trata-se, então, de focalizá-los tais como
aparecem em voga na modernidade. Este deslocamento de olhar para seu tempo requer de
Nietzsche uma crítica altamente operacional. Com efeito, veremos que ela se realiza sob a
operação do conceito de vontade verdade que promove a própria postura filosófica do
experimentalismo de maneira que tangenciam a empreitada corrosiva do escrito de 1886.

II. – Desenvolvimento
II.1 – O ano de 1886:A Grande Saúde para a Grande Crítica
No percurso filosófico de Nietzsche, o ano de 1886 resulta manifestamente singular.
Se é fato que este não é o ano em que o autor produz um grande número de obras, como se
compararmos ao seu último ano produtivo, a singularidade do ano de 1886 é sentida na
atitude de revisão de seus próprios escritos através daqueles que ficariam conhecidos como
os Prefácios de 1886. Marcando a maior parte da produção intelectual do filósofo neste ano,
é sob a forma de reedição de obras publicadas anteriormente que aparecem os seguintes
prefácios: o “Ensaio de autocrítica” à guisa de prefácio a O Nascimento da Tragédia, os

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prefácios ao primeiro e segundo volumes de Humano, Demasiado Humano, Aurora e A
Gaia Ciência.
Apreciando as condições sob as quais cada uma destas obras foram concebidas,
Nietzsche revisita esses seus escritos, no ano de 1886, de uma maneira bastante peculiar.
Tais prefácios acenam para uma característica própria dos escritos do filósofo: enquanto
atitude de revisão, Nietzsche acaba por fazer destes prefácios a retrovisão de suas próprias
vivências, de maneira que autor e obra inevitavelmente se confundem. Neste sentido,
Nietzsche resgata o conteúdo filosófico de cada uma das obras, trazendo ao leitor uma
espécie de perspectiva vivencial em que o “autor” teria levado a cabo a escrita de cada uma
delas.
Com efeito, as primeiras linhas do “Ensaio de Autocrítica” marcam de antemão essa
posição. Declara Nietzsche: “Seja que for aquilo que possa estar na base desse livro
problemático, deve ter sido uma questão de primeira ordem e máxima atração, ademais
uma questão profundamente pessoal – testemunho disso é a época em que surgiu e a
despeito da qual surgiu, ou seja, a excitante época da Guerra Franco-Prussiana de 1870-
1(GT/NT 1 grifo nosso). Sob a batalha de Wörth, Nietzsche relata suas primeiras anotações
de pensamentos sobre os gregos que resultariam no que então considera como o bizarro
livro O Nascimento da Tragédia. Interrogando-se sob a arte e a serenojovialidade desse
povo, o cismador de idéia e amigo de enigmas se depara com o problema central de sua
obra nascente: “naquele mês de profunda tensão em que se deliberava sobre a paz em
Versalhes, também ele chegou à paz consigo próprio, lentamente, enquanto convalescia em
casa, de uma enfermidade contraída em campanha, constatou consigo mesmo, ‘o
nascimento da tragédia a partir do espírito da música’.” (GT/NT 1 grifo nosso). Sendo de
primeira ordem a empreitada vivencial deste prefácio, Nietzsche resgata o nascedouro de
sua obra tratando a si mesmo na terceira pessoa.
No prefácio aos dois volumes de Humano, Demasiado Humano, Nietzsche
reconstitui igualmente suas motivações vitais. Frente ao profundo isolamento que lhe
acometera a suspeita profunda de seus escritos e, assim, face à procura de abrigo contra seu
desolamento, o autor afirma que para restabelecer-se, naquele instante da produção do
primeiro volume de Humano, Demasiado Humano, ele deveria crer que “não era o único a
ser assim”(...)( MAI/HHI Prefácio). Tal como o poeta e sua arte inventiva, Nietzsche

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entende, desse modo, ter criado a companhia que lhe era necessária: “E foi assim que certa
vez, quando precisei disso, inventei para mim também os “espíritos livres”, aos quais é
dedicado este livro gravemente corajoso com o título: Humano, demasiado
humano(...)”(MAI/HHI Prefácio 1). primavera
Por seu turno, ainda mais veemente e exemplar, é o prefácio ao segundo volume de
Humano, Demasiado Humano. Na reconstrução das vivências de seu autor, o ponto
culminante é a manifestação da necessidade de uma retrodatação de seus escritos: “Meus
escritos falam somente de minhas superações: “eu” estou neles, com tudo o que me foi
hostil, ego ipsissimus, e até mesmo, se me é permitida uma expressão mais orgulhosa, ego
ipsissimum (...). Mas sempre foi preciso o tempo, a convalescença, o longe, a distância (...).
Nessa medida, todos os meus escritos, com uma única, certamente essencial exceção,
devem ser retrodatados – falam sempre de um atrás-de-mim”(VM/OS Prefácio 1 grifo
nosso).
Percorrendo a mesma trilha vivencial, o prefácio a Aurora assume nitidamente esta
postura, com especial destaque para a sua última seção. Nela o filósofo assume a escrita
como sendo inseparável do autor que ali se constitue, de forma que a obra só seria
compreensível para aqueles que vivenciassem a experiência de um filólogo: “E por fim: por
que deveríamos dizer tão forte e com tanto ardor o que somos, o que queremos ou o que
não queremos? Consideramos isto com mais frieza, distância, inteligência, elevação,
dizemos isto como aquilo que pode ser dito entre nós, tão discretamente que o mundo
inteiro não entende, que o mundo inteiro não nos entende! Sobretudo, dizemos isto
lentamente!... Cada prefácio vem tarde, mas não muito tarde! Que importância, no fundo,
tem cinco ou seis anos? Um tal livro, um tal problema não são acuados; além disso, ambos
somos amigos do lento, eu e meu livro. (...). Oh, meus pacientes amigos ! Este livro deseja
somente os leitores e filólogos perfeitos: aprendam a ler-me bem! - ”(M/A Prefácio 5 - o
último grifo é nosso).
Por fim, e de igual modo, o prefácio da segunda edição de A Gaia Ciência resgata a
ocasião da produção do escrito no próprio limite que um prefácio apresenta para expressar a
vida que a obra contém. Transpor este limite significa vivenciar experiências análogas às do
seu autor: “Mais de um prefácio seria necessário a esta obra e ainda restariam dúvidas:
como tornar sensível a vida deste livro – através de prefácios – a quem não tenha sofrido

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experiências análogas?” (FW/GC Prefácio 1 grifo nosso outono).
Em suma, esta atitude do filósofo de revisitação, que ocupa a maior parte de sua
produção intelectual no ano de 1886, faz transparecer a imbricação entre vida e obra, ou
melhor dito, entre vivência e reflexão filosófica. Não sendo este o único traço confluente, o
resgate das vivencias, nas quais Nietzsche inscreve cada uma das obras reeditadas, revela
uma segunda imbricação. Os prefácios, assim, possuem um denominador conceitual
comum que constitui o cerne de sua discussão. Trata-se da vinculação entre as idéias de
filosofia e saúde. Se o autor não dissocia vivência e reflexão filosófica ao revisitar seus
escritos mas, ao contrário, ao perseguirmos uma é a outra que acaba por se revelar, então,
disto depreendemos necessariamente: serão certas condições fisiológicas que responderão,
em última análise, pela própria formulação de certo discurso filosófico.
Desse modo, a matiz vivencial dos prefácios envolve uma descrição da fisiologia do
seu autor. Se por um lado o Ensaio de Autocrítica relata o surgimento do problema central
de O Nascimento da Tragédia, através da recolocação vivencial de seu autor, por outro, ele
vai se afastando do problema, porquanto este ter se desdobrado sob a débil ótica de um
“consolo metafísico”. Embora inovador em questões psicológicas, O Nascimento da
Tragédia é um escrito em grande parte entendido nesse ensaio como fruto da insipiência.
“Edificado a partir de puras vivências próprias prematuras e demasiado verdes, que
afloravam todas à soleira do comunicável, (...)” (GT/NT 2 grifo nosso), Nietzsche lamenta
a produção desse seu escrito: “Mas há algo muito pior no livro, que agora lamento ainda
mais do que ter obscurecido e estragado com fórmulas schopenhaurianas alguns
pressentimentos dionisíacos: a saber, que estraguei de modo absoluto o grandioso
problema grego, tal como ele me havia parecido, pela ingerência das coisas mais
modernas!”(GT/NT 6).
Ao cabo do Ensaio de Autocrítica, Nietzsche reconhece o escrito como a própria
expressão de um modo de pensar completamente imbuído do espírito alemão, cuja
passagem para a fundação do Reich significava a rendição às idéias modernas e cuja música
atual era puro romantismo. Destarte, numa declarada exortação do autor de O Nascimento
da Tragédia, Nietzsche reencontra a própria debilidade fisiológica que o tomara quando da
produção desta obra. Citando sua própria passagem do Nascimento da Tragédia e a
considerando um autêntico anti-helenismo, diz Nietzsche: “Mas, meu caro senhor, o que é

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romântico no mundo, se o vosso livro não é romântico? (...) Não é esta porventura a
autêntica e verdadeira profissão de fé dos românticos de 1830, sob a máscara do
pessimismo de 1850? Atrás da qual também já se preludia o usual finale dos românticos –
quebra, desmoronamento, retorno e prosternação ante uma velha fé, ante o velho Deus...”
(GT/NT 7).
Que os prefácios aos dois volumes de Humano, Demasiado Humano se dedicam à
descrição da fisiologia de seu autor é inegável. A vinculação que se estabelece entre saúde e
filosofia desponta à medida que Nietzsche compreende esta obra como o percurso de um
autor convalescente. A primeira etapa desta convalescença é entendida pelo prefácio ao
primeiro volume como anterior ao próprio escrito. Trata-se do auto-engano que é condição
para uma futura vitalidade: fino falsificador de sua própria moeda, Nietzsche teria tomado
partido de olhos vendados da vontade moral de Schopenhauer, também do romantismo de
Wagner, bem como quando discorria sobre os gregos e sobre futuro dos alemães. Imputar-
lhe nessas ocasiões falsidade, defende o filósofo, só poderia resultar na própria afirmação
de suas vivências que, ademais, não se remetem mais aos pares verdade/falsidade, porque
expressam uma condição vital, cuja medida não se coloca em xeque.
A segunda etapa situa-se quando da escrita de Humano, Demasiado Humano. A
invenção do tipo “espírito livre” acompanha uma necessidade de ordem vital. “(...) Tais
espíritos livres”, declara Nietzsche, “não há, não havia – mas daquela vez como disse, eu
precisa deles como companhia, para permanecer de bom trato em meio aos maus tratos
(doença, isolamento, estrangeiro, acedia, inatividade) (VM/OS Prefácio 2). Necessidade de
parentesco, a criação do “espírito livre” é signo de uma condição fisiológica que procura o
seu auto-restabelecimento e cura. Todavia, nesse prefácio de 1886, o tipo criado por
Nietzsche não se reduz a um mero anseio de companhia. As linhas do prefácio insinuam
que o espírito livre se identifica ao autor de Humano, Demasiado Humano.
É a formulação da idéia do grande livramento que sugere esta identificação: apenas
para o espírito que desfrutou da experiência de estar acorrentado e preso em seu auto-
engano que deverá ser possível o livramento.
Comparado a um tremor de terra, o grande livramento é exatamente o termo oposto
dos grilhões do auto-engano que, como visto, o próprio Nietzsche admitiu para si com bom
fundamento. Assim quase identificado ao tipo que criara, o autor de Humano, Demasiado

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Humano é acometido do “impulso e ímpeto” que se torna senhor como um comando. Ele é
levado “a uma vontade e desejo de ir avante, para onde for, a qualquer preço; uma
impetuosa e perigosa curiosidade por um mundo inexplorado se imfla e se crepita em todos
os seus sentidos” (VM/OS 3 Prefácio). Tal gosto exacerbado pelo estrangeiro não encontra
limites e é exatamente nisso que reside o aspecto mais problemático do grande livramento.
Se ilimitado, contra o que se luta e de quem se vence ? Assim, esse ímpeto primário “de
força e autodeterminação” é uma circunstância que perigosamente conduz ao isolamento
doentio. Diz Nietzsche: “Essa vontade de vontade livre: e quanto de doença se exprime nos
selvagens ensaios e excentricidades com que o que se livrou, o libertado, procura doravante
demonstrar seu domínio sobre as coisas!” (VM/OS 3 Prefácio).
Esta segunda etapa da convalescença, portanto, avança cada vez mais no perigo da
solidão na medida em que a curiosidade e vontade de autodeterminação do espírito livre se
agravam. Contudo, a “descomunal segurança e saúde transbordante” (VM/OS) ainda não
são uma prerrogativa do autor de Humano, Demasiado Humano. Entendidos como “anos
de ensaio” meio ao deserto, a criação do tipo espírito livre oferece sinais da grande saúde
“aquele excedente de forças plásticas, regeneradoras, conformadoras e restauradoras, que é
justamente o sinal da grande saúde, aquele excedente que dá ao espírito livre a perigosa
prerrogativa de viver para o ensaio (...) (VM/OS 4 Prefácio). Porém, trata-se ainda de um
tempo intermediário. Muito tempo de covalescença deverá se passar neste “meio-tempo”
para o gozo de uma grande saúde: “anos de mudanças multicores (...) dominadas e
conduzidas pela rédea de uma tenaz vontade de saúde, que muitas vezes já ousa vestir-se e
tranvestir-se de saúde” (VM/OS 4 Prefácio).
Vemos, assim, que o tipo “espírito livre” encarado como uma segunda etapa da
convalescença do autor de Humano, Demasiado Humano, embora se aproxime da grande
saúde, ainda permanece no perigo do isolamento doentio. Para evitá-lo, e mesmo
temerosamente, ele retorna à vida estabelecendo assim um ir e vir entre o sair e o estar
“junto de si”. Assim, a recaída do convalescente é encarada por Nietzsche como uma sábia
condescendência consigo mesmo, pois significa receitar a saúde em pequenas doses: “há
uma cura radical contra todo pessimismo (...) no modo de esses espíritos livres ficarem
doentes, por um bom tempo permanecerem doentes e então, ainda mais longamente, mais
longamente ainda, ficarem sadios, quero dizer ‘mais sadios’. ”(VM/OS Prefácio 5).

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À diferença do prefácio ao primeiro volume de Humano, Demasiado Humano, o
prefácio ao segundo volume não hesita na identificação entre o tipo criado e o autor da
obra: “A Miscelânea de Opiniões e Sentenças, assim como O Andarilho e sua sombra,
foram editados, pela primeira vez, isolados, como continuações e apêndices daquele
humano-demasiado-humano “livro para espíritos livres” que acaba de ser citado: ao mesmo
tempo, como continuação e redobro de uma cura espiritual, ou seja, autotratamento anti-
romântico, tal como meu instinto que permaneceu sadio inventou para mim, e me receitou
ele próprio, contra um temporário adoecimento da forma mais perigosa de
romantismo”(WS/AS Prefácio 2 grifo nosso).
As seções finais desse mesmo prefácio corrobora com a temática da saúde/filosofia
disseminada nos Prefácios de 1886. Elas indicam a condição fisiológica em que o autor de
Humano, Demasiado Humano se encontrava ao fim da feitura dessa obra. Ao perguntar-se
“teria sido o que eu vivi – a história de uma doença e convalescença, pois veio dar em uma
convalescença – apenas minha vivência pessoal?” (WS/AS Prefácio 6), Nietzsche faz
seguir como resposta sua expectativa com relação ao surgimento de ouvidos e coração para
seus escritos, talvez, o próprio surgimento do tipo “espírito livre”. Expectativa receosa, o
filósofo não antevê rigorosamente o surgimento de “espíritos livres”, mas de uma espécie
rara de homens que, embora integrem a ordem da alma moderna e, conseqüentemente, da
doença que lhe é intrínseca, serão capazes de reconhecer “o caminho para uma nova saúde,
ai! E segui-lo, de uma saúde de amanhã e depois de amanhã, vós predestinados, vós
triunfantes, vós dominadores do tempo, vós os mais sadios, os mais fortes, vós bons
Europeus!” (WS/AS Prefácio 6). Portanto, a descrição do prefácio de 1886 do autor
convalescente atinge a etapa da antevisão de sua grande saúde. Caberá ao prefácio da
segunda edição de a Gaia Ciência trocar o termo convalescente pelo nome próprio
“Nietzsche”, da mesma maneira que caberá à V parte desta obra, não a antevisão do
caminho para a grande saúde, mas o próprio reconhecimento do autor como seu detentor.
“ Mas deixemos o Sr. Nietzsche: que nos importa que o Sr. Nietzsche está outra vez
com saúde ? . . . Um psicólogo conhece poucas questões tão atraentes como a da relação
entre saúde e filosofia, e para o caso em que ele próprio fica doente, ele traz toda sua
curiosidade científica consigo para sua doença” (FW/GC Prefácio 2 grifo nosso).
Filosofia/saúde ganha, desse modo, contornos decisivos: Nietzsche se depara com uma

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filosofia “necessária”, a saber, a filosofia de sua própria pessoa. Definitivamente, não temos
mais a dicotomia entre filosofia e vida. O mecanismo de diferenciação entre uma filosofia e
outra serão, pois, as próprias condições de fisiológicas de um tipo e outro:
“Em um são suas lacuna que filosofam, em outro suas riquezaz e forças. O primeiro
necessita de sua filosofia, seja como amparo, tranquilizante, medicamento,
redenção, elevação, alheamento de si; neste último, ela é apenas um belo luxo, no
melhor dos casos a volúpia de uma gratidão triunfante, que acaba tendo ainda de se
inscrever maísculas cósmicas no céu dos conceitos. No outro caso, porém, o mais
habitual, quando são os estados de indigência que fazem filosofia, como em todos os
pensadores doentes – e talvez preponderem os pensadores doentes na história da
filosofia - : o que será do pensamento mesmo, que é posto sob a pressão da doença ?
Esta é a pergunta que importa aos psicólogos: e aqui é possível a experimentação”
(FW/GC Prefácio 2).
À medida que são os estados de indigência ou riqueza que respondem pela espécie
de discurso filosófico, toda filosofia é um sintoma de certa condição fisiológica. E esta
assertiva declara aberto o campo filosófico para a experimentação de pensamentos. Para
onde se dirigem as necessidades do corpo? Eis o mais pertinente questionamento que,
agora, deve perseguir o discurso filosófico como sinal ou sintoma de uma fisiologia “Toda
filosofia que coloca a paz mais alto do que a guerra, todo ética com uma concepção
negativa do conceito de felicidade, todo metafísica e física que conhecem um termo final
(...) todo preponderante desejo estético ou religioso por um à-parte, um além, um fora, um
acima, permitem que se pergunte se não foi a doença aquilo que inspirou o filósofo. O
inconsciente travestimento de necessidades fisiológicas sob os mantos do objetivo (...)
(FW/GC Prefácio 2).
Fisiologia e filosofia: termos não só conciliáveis no território nietzschiano mas,
sobretudo, interdependentes. A própria idéia de filosofia é definida no mesmo prefácio
como “uma interpretação e um mal entendido sobre o corpo”. Sintoma do seu acerto ou
desacerto, de sua força ou cansaço, o corpo é o próprio experimentum filosófico. Para tanto,
um médico filosófico terá de balizar tal empreendimento colocando no seu horizonte “o
problema da saúde geral do povo” e com toda ousadia pronunciar “em todo filosofar até
agora nunca se tratou de “verdade”, mas algo outro, digamos saúde, futuro, crescimento,
potência, vida...”(FW/GC Prefácio 2).
Ousadia demais para o autor de A Gaia Ciência ? E, então, que filosofia tem

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Nietzsche de sua pessoa ? Depois de ter fortemente vinculado vivência à reflexão filosófica
e esta à fisiologia, que espécie de filosofia expressa, afinal, sua própria condição? Encerra,
pois, o filósofo seu prefácio dizendo: “(...) dos abismos, graves doenças e mesmo da grande
suspeita, regressa o regenerado, pele nova, mais vencível e maldoso que nunca, com gosto
mais apurado e sutil para a alegria”. De muitas saúdes, também de muitas filosofias, nosso
autor se despede não com ingratidão do tempo de enfermidade, pois que “essa arte da
transfiguração é justamente filosofia” (FW/GC Prefácio 3). Eis que as saturnais de um
espírito sob a pressão da doença se converte lentamente no festim da grande saúde.
Nesta medida, o Livro V da mesma obra, cuja publicação também data do ano de
1886, é incisiva na afirmação declarada de uma nova tarefa motivada por uma nova
condição. “Nós, os sem medo” não é um prefácio e, por isso mesmo, não se destina a
revisitar vivências. É antes um novo capítulo do percurso “intelecto-vivencial” de
Nietzsche. Conceitos centrais de sua filosofia madura são aí habilitados como não foram
nos Prefácios de 1886. A morte de Deus, a definição da vontade de verdade, os esboços de
uma crítica à moral somada ao anúncio de uma possível história genética dos sentimentos e
estimativas de valor, o tipo decadente dos “Homines Religiosi”, os ataques às “conquistas”
filosóficas da “alma alemã” bem como à ciência moderna são exemplos de um nova
empreitada filosófica no ano de 1886.
De nossa parte e frente a isso, situamos o Ensaio de Autocrítica, os prefácios aos
dois volumes de Humano, Demasiado Humano e o prefácio à Gaia Ciência num conjunto
de trabalhos do ano de 1886 que conservam entre si uma unidade. Como vimos, esta
unidade é a própria descrição fisiológica do autor de cada uma dessas obras, cujo ápice se
encontra na definição de uma grande saúde. Associada pelo próprio filósofo ao nome
“Nietzsche”, ela supera a oposição doença/saúde na medida em que ambas passam integrar
um percurso de convalescença. Em contrapartida, a partir desta associação à grande saúde,
o autor do V Livro de A Gaia Ciência já se compreende, então, como uma fisiologia bem
lograda ao tomar para si uma nova tarefa.
O título do livro, “Nós, os sem medo”, os destemidos, já não indica a criação de um
tipo, tal como o “espírito livre” servira ao filósofo em Humano Demasiado Humano. Antes,
aponta para uma atividade destemida de um autor pleno de saúde. “Carcaças, tu tremes ?
Tremerias mais ainda se soubesses aonde te levo”. A citação inicial do livro declara um

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caminho desconhecido, temível mas, ao mesmo tempo, imprescindível de ser trilhado pelo
corpo. Ainda notemos que, se nos prefácios analisados predomina o tratamento na terceira
pessoa, Nietzsche utiliza agora neste V livro a primeira do plural. “Nós”, como mais tarde
esclarecerá Nietzsche, é apenas uma cortesia (GD/CI 5). Trata-se de um empreendimento
de uma condição particular. Reflete este posicionamento a seção intitulada a grande saúde:
para um novo fim, um novo meio:
“Nós, os novos, os sem-nome, os difíceis de entender, nós, os nascidos cedo de um
futuro ainda indemonstrado – nós precisamos, para um novo fim, também de um novo
meio, ou seja, de uma nova saúde, de um saúde mais forte, mais engenhosa, mais tenaz,
mais temerária, mais alegre, do que todas as saúdes que houve até agora. Aquele cuja
alma tem sede de viver o âmbito inteiro dos valores e anseios que prevaleceram até
agora e de circunavegar todas as costas desse “mar mediterrâneo” ideal, aquele que quer
saber, pelas aventuras de sua experiência própria, o que se passa na alma de um
conquistador e explorador do ideal (...): este precisa, para isso, primeiro que tudo, de
uma coisa, da grande saúde – de uma saúde tal, que não somente se tem, mas que
constantemente se conquista ainda, e se tem de conquistar, porque sempre se abre mão
dela outra vez, e se tem de abrir mão ! . . .”(FW/GC 382).
Uma terra inexplorada de limites desconhecidos requer “naturezas” fortes que
tenham experimentado diversos estados de fraqueza. Se este meio é a grande saúde, que
terras são essas? Que nova tarefa ou fim se desponta? A “morte de Deus” abre o V Livro de
A Gaia Ciência. A confiança na crença do velho Deus virou dúvida e a moral européia, que
nela se fundamenta, agora entra em crise. Eis o novo fim: “De fato, nós filósofos e
“espíritos livres” sentimo-nos, à notícia de que o “velho Deus está morto”, como que
iluminados pelos raios de uma nova aurora (...) eis que enfim o horizonte nos aparece livre
outra vez, posto mesmo que não esteja claro, enfim podemos lançar outra vez ao largo
nossos navios, navegar a todo perigo, toda ousadia do conhecedor é outra vez permitida
(...)” (FW/GC 343).
Contra a moral e acima dela, Nietzsche vislumbra a tarefa da crítica dos valores. A
própria grande saúde leva o filósofo a essa empreitada visto que “como poderíamos, depois
de ver tais paisagens, e com tal voracidade na consciência e na ciência, contentar-nos com o
homem do presente? (FW/GC 382)”. No homem do presente reside o problema da velha
moral. Desvencilhar-se de ambos constitui a nova tarefa. Se a grande saúde maneja o par
saúde/doença integrando-os num percurso convalescente, a crítica à velha moral deverá,

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por sua vez, abarcar também seus desdobramentos na modernidade. Para tanto é que
reservamos até então a referência ao prefácio à segunda edição de Aurora. Se os demais
prefácios de 1886 surtem efeito na descrição da fisiologia de seu autor, o prefácio à Aurora
nisso destoa. Nietzsche reencontra ao prefaciar Aurora um sentido bastante próprio de
crítica.
“Pensamentos sobre os preconceitos morais” é quando, em seu percurso intelectual,
Nietzsche abre fogo contra a moral, como confirmará mais tarde em Ecce Homo (EH/EH
Aurora 1). Exatamente por isso, o prefácio de 1886 à Aurora tem de se remeter
predominantemente à idéia de crítica e não à relação filosofia e saúde. A exposição da idéia
de crítica, no referido prefácio, obedece a dois movimentos. Em primeiro lugar, Nietzsche
constata a incompetência da filosofia em meditar sobre os valores bem e mal. A
imparcialidade impossível frente a moral e, portanto, de criticá-la, vem do fato de que esta
não apenas possui autoridade para afastar tal imparcialidade, impondo obediência, mas,
sobretudo, ela sabe “manter mãos críticas e instrumentos de suplício afastados do seu
corpo” (M/A Prefácio 3).
Mestra da sedução, a moral constitui o engodo de todo filosofar. Segundo
movimento: decorremos que toda filosofia foi até então uma vã moralidade? E, assim, toda
arquitetura filosófica está em ruínas? Certa disso, a história da filosofia, de imediato, teve a
pretensão de dar uma resposta, mas apenas re-introduziu sub-repticiamente o engodo moral
no discurso filosófico: “Oh, como é falsa a resposta que ainda agora se tem pronta para essa
pergunta, “porque todos eles descuidaram da pressuposição, do exame do fundamento, de
uma crítica da razão em seu conjunto” – aquela fatal resposta de Kant, que com isso, em
verdade, não nos atraiu, a nós filósofos modernos, para um chão mais firme e menos
enganoso !” (M/A Prefácio 3).
Em face dessas duas constatações, Nietzsche expõe sua própria maneira de realizar
a crítica ao balizar o criticismo kantiano pelo valor da razão: “não é curioso que um
instrumento critique seu próprio acerto e competência? Que o intelecto mesmo conheça o
seu valor, sua força, seus limites? Isso não foi mesmo até um contra-senso? “(M/A Prefácio
3 grifo nosso). Se Kant necessitou de sua crítica para, em última análise, tornar
invulnerável o ‘reino moral”, haja vista este ter sido tomado por um valor mais alto, é
questionando o valor dos valores que Nietzsche procede à sua crítica moral. No tocante a

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Kant, a própria razão é entendida como um valor.
Crítica horizontal à moralidade, a pergunta pelo valor dos valores terá de encontrar
um procedimento para localizar a procedência das valorações de todos os tempos.
Nietzsche reconhece a imensa dificuldade de estabelecer uma crítica dos valores desta
espécie, porquanto ela pressupõe uma absoluta isenção moral. Esta questão aparece
altamente problematizada na seção 380 do V Livro de A Gaia Ciência, estabelecendo com
o prefácio à Aurora um interessante diálogo.
“Para uma vez ver com distância nossa moralidade européia, para medi-la com
outras moralidades, anteriores ou vindouras, é preciso fazer como faz um andarilho, que
quer saber a altura das torres de uma cidade: para isso ele deixa a cidade” (FW/GC 380).
Não sendo exatamente o anúncio de um procedimento, o filósofo entende que uma isenção
de tal ordem demanda múltiplas condições. Esta imprescindível posição “além de bem e
mal” significa o enfrentamento da “Europa”, ou seja, de “uma soma de juízos de valor
imperativos, que nos entraram na carne e no sangue” (FW/GC 380). Ora, que isso seja
efetivado por “nós”, com nossas idiossincrasias, diz Nietzsche, é o ponto que há de se
tentar. Traduzindo esta tentativa, perguntaria Nietzsche: seria possível para “nós”
realizarmos uma crítica para além de bem e mal? A resposta do filósofo segue
argumentando a necessidade de uma extemporaneidade para tal tarefa.
Decerto, extemporaneidade não significa uma abdicação metódica da ordem
temporal, mas sim uma superação em si mesmo dos valores do tempo. “É preciso ser muito
leve para levar sua vontade de conhecimento até uma tal distância e como que para além de
seu tempo, para se criar olhos para a supervisão de milênios e ainda por cima céu puro
nesses olhos!” (FW/GC 380 último grifo nosso). De imediato inferimos que é a condição da
grande saúde quem logra este além-tempo necessário à crítica dos valores. Há de se notar,
no entanto, que uma extemporaneidade assim determinada estabelece uma relação
necessária com o tempo, a saber, a própria contrariedade. Quer dizer, se num sentido o
estabelecimento da crítica dos valores demanda uma isenção dos mesmos no tempo, por
outro, ela só se constitui na medida em que com este, contrariamente, comercia. Assim, o
andarilho que sai da cidade para reconhecer a altura das torres terá ainda de referir-se às
mesmas e, dessa maneira, “O homem de um tal além, que quer discernir as mais altas
medidas de valor de seu tempo, precisa, para isso, primeiramente “superar” em si mesmo

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esse tempo – é a prova de sua força – e, conseqüentemente, não só seu tempo, mas também
a má vontade e contradição que ele próprio teve até agora contra esse tempo, seu
sofrimento com esse tempo, sua extemporaneidade, seu romantismo” (FW/GC 380 grifo
nosso). Portanto, se a pergunta pelo valor dos valores demanda uma extemporaneidade, é
esta mesma que traz à tona o quantum de contrariedade que visa a crítica.
Tem-se, assim, um constante recuo e aproximação do estado de coisas da ordem
temporal: num só golpe, ela está imbuída dos valores e juízos imperativos a serem
avaliados, porém, também é aquilo do que o filósofo extemporâneo se afasta radicalmente.
E se a idéia de crítica parte da avaliação dos valores, também ela está associada a este
movimento de recuo e aproximação. Com isso, uma vez o filósofo alemão vendo a si
mesmo como uma condição fisiológica bem lograda, ele próprio uma grande saúde,
podemos inferir que sua avaliação dos valores terá de estabelecer este movimento com
relação ao tempo. Daí decorre que a maior crítica, a Grande Crítica, não seria assim aquela
destinada a combater os ideais frentes aos quais já se adquiriu manifestamente isenção; a
Grande Crítica será aquela que se destina a combater os mesmos ideais de outrora, mas cuja
isenção é difícil haja vista estarem transvestidos no tempo. Com outro nomes, os
desdobramentos dos velhos ideais na modernidade dificulta a tarefa da avaliação dos
valores, mas, por isso mesmo, leva o autor à sua Grande Crítica: data de 1886 a publicação
de Para além de bem e mal, uma crítica da modernidade.

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Bibliografia
Nietzsche, Friedrich.
Obras Incompletas / Tradução e notas de Rubens Rodrigues Torres Filho;
seleção de textos de Gérard Lebrun,; posfácio de Antônio Cândido. - 2a. edição -
São Paulo: Abril Cultural, 1978. ( Os pensadores).
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Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro / Tradução, notas e
posfácio de Paulo César de Souza - 1a. edição - São Paulo: Companhia das
Letras, 1992.
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Genealogia da Moral: uma polêmica / Tradução, notas e posfácio de Paulo
César de Souza - 1a. edição - São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
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Ecce Homo: como alguém torna-se o que é / Tradução, notas e posfácio de
Paulo César de Souza - 1a. edição - São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
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O Nascimento da Tragédia: ou helenismo ou pessimismo / Tradução, notas e
posfácio de J.Guinsburg - 1a. edição - São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
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Humano, Demasiado Humano: Um livro para espíritos livres / Tradução, notas
e posfácio de Paulo César de Souza - 1a. edição - São Paulo: Companhia das
Letras, 2000.
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O caso Wagner: um problema para músicos & Nietzsche contra Wagner: dossiê
de um psicólogo / Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza - 1a.
edição - São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
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Más allá del bien y del mal: Preludio de una filosofia del futuro / Tradução,
Introdução e notas de Andres Sanchez Pascual – 9ª edição – Madrid: Alianza
Editorial, 1985.
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El Anticristo / Tradução, Introdução e notas de Andres Sanchez Pascual – 4ª
edição – Madrid: Alianza Editorial, 1976.
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Crepúsculo de los ídolos / Tradução, Introdução e notas de Andres Sanchez
Pascual – 7ª edição – Madrid: Alianza Editorial, 1998.
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La Genealogia de la moral / Tradução, Introdução e notas de Andres Sanchez
Pascual – 9ª edição – Madrid: Alianza Editorial, 1985.

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