You are on page 1of 4

PROSPERIDADE

- por René Burkhardt | 15 de Setembro de 2004

"Seja a vossa vida sem avareza. Contentai-vos com as
coisas que tendes; porque Ele tem dito: De maneira alguma
te deixarei, nunca jamais te abandonarei.” (Hb 13.5)

Nas últimas décadas, a Igreja tem sido invadida por uma pregação de prosperidade material, a
ponto de já ser uma doutrina – denominada por muitos de teologia da prosperidade -, que tem causado
dúvidas, discussões sobre sua validade no Evangelho verdadeiro e desânimo em muitos cristãos que não
a alcançam, já que ela é vinculada à fé e a atitudes do próprio cristão.

Essa doutrina tem sido pregada não só nas igrejas, mas, principalmente, nos meios de
comunicação de massa (rádio, tv, internet), onde atinge um sem número de não-convertidos, leigos,
recém-convertidos, imaturos espiritualmente e débeis na fé, que a tudo recebem como verdade, já que
está sendo dito por pessoas que (supõe-se) têm a autoridade e o conhecimento para fazê-lo. E, assim,
pelo muito falar, passa-se a acreditar que tal discurso seja verdadeiro, a ponto de colocar em dúvida, até
mesmo, pessoas mais firmadas na fé, que, por concordarem com o princípio bereiano (At 17.11),
reexaminam as Escrituras, para saberem se realmente perderam algo em seu ensino.

Graças a Deus, que, ao fazê-lo, descobrem que essa doutrina é fruto de um uso inadequado da
Palavra, onde os textos que a apóiam são arrancados do grande contexto bíblico. A grande maioria dos
textos utilizados é do Velho Testamento, onde Deus faz promessas de prosperidade ao povo de Israel e,
todas elas, vinculadas à obediência da Lei, todas condicionais. É bem verdade que o Velho Testamento é
de suma importância para a Igreja, por ser a preparação da salvação, a fonte de conhecimento da
história da criação, da evolução do mundo e para conhecermos o modo de agir e o caráter de Deus.

Mas tudo isso aponta para o Senhor Jesus, Rei dos reis, Senhor dos senhores, o próprio Deus,
determinando que devemos ouvi-Lo, segui-Lo e imitá-Lo. Se aplicamos tais promessas à Igreja, devemos
aplicar, também, as suas condições, ou seja, o cumprimento da Lei e, assim, anulamos a Cruz de Cristo.
Na verdade, devemos guardar e praticar as palavras de Jesus e dos apóstolos, “a fim de viverdes
[vivermos] de modo digno do Senhor, para o seu inteiro agrado, frutificando em toda boa obra e
crescendo no pleno conhecimento de Deus” (Cl 1.10).

“Toda Escritura é inspirada por Deus...” (2Tm 3.16) e por diversas vezes nos orienta a não
buscarmos bens materiais, pois essa busca, que é a definição de avareza em qualquer dicionário, faz
parte da nossa natureza terrena, a qual devemos fazer morrer, e é idolatria (Cl 3.5). “Não ameis o mundo
nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo
que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não
procede do Pai, mas procede do mundo. Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele,
porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente” (1Jo 2.15-17).

Então, “Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. Ora, os que querem ficar ricos
caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os
homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça,
se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores. Tu, porém, ó homem de Deus,
foge destas coisas; antes, segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão” (1Tm 6.8-
11).

Será que o Espírito Santo, que claramente nos orienta a fugirmos dessas coisas, ao mesmo
tempo nos orientaria a buscá-las? “Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os
espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora” (1Jo 4.1) e
não há criatura que não seja manifesta na presença da Palavra de Deus (Hb 4.12-13).

Na dispensação da Lei, época das promessas de prosperidade ao povo de Israel, o próprio EU
SOU disse: “Não cobiçarás...” (Êx 20.17), deixando claro que o povo não deveria aplicar seu coração à
busca de bens materiais, ainda que seu próximo tivesse fartura deles. E o Espírito Santo ainda registrou
nas Escrituras as conseqüências, impostas por Deus, àqueles que insistissem nessa busca, a despeito da
orientação divina.

Entre outros casos, nunca devemos esquecer de Balaão (Nm 22-24), “...que amou o prêmio da
injustiça” (2Pe 2.15), ou seja, olhou apenas para as vantagens próprias, sendo envergonhado por um
animal de carga falando com voz humana para refreá-lo (2Pe 2.16) e tendo, dessa forma, o seu nome
como exemplo de falso profeta e pregador de falsas doutrinas (Ap 2.14), para sempre.
Também não podemos esquecer de Acã, que cobiçou uma bela capa, uma barra de ouro e um
punhado de moedas e os tomou para si (Js 7.21), colocando todo o povo de Israel sob maldição, a ponto
de ser derrotado em Ai, e ele e sua família morrerem apedrejados. Outro que deve ser lembrado é Geazi,
moço de Eliseu, que, em busca de prosperidade pessoal, pediu recompensa, que já havia sido recusada
pelo profeta, ao general sírio Naamã (curado de lepra por Eliseu). A conseqüência foi a lepra de Naamã
passar para Geazi e seus descendentes (2Rs 5). E, já no Novo Testamento, Ananias e Safira (At 5.1-11),
provavelmente temendo passar alguma necessidade, mas, ao mesmo tempo, não querendo perder a
aparência de piedosos, foram levados a mentir ao próprio Deus, o que lhes custou a vida
instantaneamente.

Todas essas pessoas foram movidas por princípios que são a base da doutrina da prosperidade,
onde o direito de possuir está acima da nossa condição de adoradores do Deus Altíssimo em verdade e
em espírito. Com relação a isso o Espírito de Cristo nos exorta: “Não vos deixeis envolver por doutrinas
várias e estranhas, porquanto o que vale é estar o coração confirmado com graça e não com alimentos,
pois nunca tiveram proveito os que com isto se preocuparam” (Hb 13.9).

Muitos têm sido enredados por essa doutrina nociva, que os faz concentrar seu olhar nos
encantos do mundo, crendo que estão no Caminho do Senhor, sem se aperceberem que os cuidados do
mundo, a fascinação da riqueza e as demais ambições sufocam a Palavra, ficando infrutífera neles (Mc
4.19). O Senhor Jesus contou uma parábola, registrada em Lucas 12.16-21, na qual um homem rico se
regozijava por ter em depósito muitos bens para muitos anos. “Mas Deus lhe disse: Louco, esta noite te
pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?”(v.20).

E disse em outra vez: “Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua
alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma?” (Mt 16.26). Mas, antes, ainda recomendou:
“...Tende cuidado e guardai-vos de toda e qualquer avareza; porque a vida de um homem não consiste
na abundância dos bens que ele possui” (Lc 12.15). E, além disso, “Ninguém pode servir a dois senhores;
porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não
podeis servir a Deus e às riquezas” (Mt 6.24). “Vendei os vossos bens e dai esmola; fazei para vós outros
bolsas que não desgastem, tesouro inextinguível nos céus, onde não chega o ladrão, nem a traça
consome, porque, onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”(Lc 12.33-34).
“Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive,
assentado à direita de Deus. Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra" (Cl 3.1-2).

Todos esses textos são claros indicativos de que a nossa prioridade não deve ser nós mesmos,
mas, sim, Deus e, por conseqüência, as outras pessoas. Estamos no mundo, mas não somos dele (Jo
17.14) e, por isto, não podemos nos agarrar a ele, nem mesmo, quando consideramos ser alguma coisa
bênção do Senhor, porque o nosso interesse não pode ser pelas bênçãos, mas pelo Abençoador. Nada
tem valor se não tivermos a presença de Deus em nossas vidas.

Vejamos a situação descrita em Êxodo 33.1-4: Deus disse a Moisés para levar o povo a Canaã,
que o Anjo iria adiante deles, que os inimigos (moradores da terra) seriam expulsos de lá, que eles
tomariam posse de uma terra que mana leite e mel, porém, o próprio Senhor não iria com eles. Apesar
de todas aquelas bênçãos prometidas por Deus, o povo “pôs-se a prantear, e nenhum deles vestiu seus
atavios” (v.4), porque o Senhor não estaria com eles. Aquele povo estava cheio de pecados, mas teve a
consciência de que o afastamento de Deus seria a pior coisa de sua vida, ainda que recebesse todas as
bênçãos.

E foi esse reconhecimento, esse choro profundo, que fez o Senhor “voltar atrás”, anuindo com a
oração de Moisés pelo povo, e refazer a aliança com o povo (Êx 34.10). Da mesma forma, devemos
temer que o Senhor se retire de nossas vidas e, como já vimos, é o que Ele faz quando amamos o
mundo, pois, quando o fazemos, o Seu amor não está em nós (1Jo 2.15-16), ou seja, Ele não está
presente em nossas vidas.

Que coisa terrível é esta! Conhecermos ao Senhor Jesus e, depois, nos afastarmos de Seus
princípios verdadeiros. Isso é apostasia! Isso é rejeitarmos o caminho apertado, a porta estreita e
optarmos pelo caminho espaçoso, pela porta larga (Mt 7.13-14), pois só neles cabem todos esses nossos
desejos pessoais, essas coisas que satisfazem a nossa carne. Não nos enganemos mais, “porque o que
semeia para a sua própria carne, da carne colherá corrupção; mas o que semeia para o Espírito, do
Espírito colherá vida eterna” (Gl 6.8).

E, se é essa vida eterna com Deus que buscamos, temos que seguir a Cristo. E o Senhor não
viveu aqui na terra em busca de bens móveis ou imóveis. Ele não fazia propósitos com Deus a fim de
aumentar Seu patrimônio, Seu conforto, Seus meios para viajar, ou para ter manjares desejáveis a Sua
disposição. A Sua preocupação única era fazer a vontade do Deus Pai, pregando a Palavra, consolando,

2
exortando, orando sem cessar. Ao fazê-lo, todas as bênçãos de Deus apareciam, porque Ele estava
presente.

Então, os alimentos se multiplicavam, os enfermos eram curados, os espíritos malignos fugiam, o
dinheiro do imposto aparecia em um peixe, os mortos ressuscitavam e acontecia tudo o que, aos nossos
olhos, era impossível. É isso que acontece quando temos Deus presente em nossas vidas, ainda hoje,
pois o Senhor disse: “Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as
obras que eu faço e outras maiores fará...” (Jo 14.12). Mas, antes, devemos ouvi-Lo dizer: “Vinde a
mim...e aprendei de mim...” (Mt 11.28-29).

O Senhor Jesus quer que sejamos Seus discípulos, que O sigamos, que sejamos tais como Ele foi.
Sem interesse pelo que é terreno, mas, sim, pelo que é dos céus. E só sendo discípulos do Senhor Jesus
é que chegaremos ao Reino dos Céus. E só seremos Seus discípulos se abrirmos mão do nosso fascínio
pelo que é do mundo, como Ele mesmo disse: “Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a
tudo quanto tem não pode ser meu discípulo” (Lc 14.33). Aqui, Ele confirma que não podemos servir a
dois senhores.

Como, então, vamos louvar a Deus e exigir a herança a que temos direito no mesmo culto? Quem
é, verdadeiramente, o nosso senhor? Deus ou as riquezas? Quando damos ouvidos a uma doutrina de
busca pela prosperidade, não estamos cercando-nos “de mestres segundo as suas [nossas] próprias
cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos” (2Tm 4.3b)? É bem verdade que o Espírito de Cristo nos
disse: “Deus pode fazer-vos abundar em toda graça, a fim de que, tendo sempre, em tudo, ampla
suficiência, superabundeis em toda boa obra, como está escrito: Distribuiu, deu aos pobres, a sua justiça
permanece para sempre” (2Co 9.8-9).

Mas, aí, há dois pontos importantes: primeiro, quando diz “Deus pode”, afirma que Deus tem a
capacidade para fazer algo, mas, apenas, quando for de Sua vontade. Segundo, que esse poder será
exercido com o fim de que o beneficiado distribua, com os necessitados, aquilo que recebeu. Então, não
podemos ficar exigindo de Deus esses benefícios. Nosso interesse não pode ser o acúmulo de bens. Isso
é contrário à vontade do Senhor. “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a
vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará; porque Deus, o Pai, o confirmou com o seu selo” (Jo
6.27). “Aquele que furtava, não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom,
para que tenha com que acudir ao necessitado” (Ef 4.28).

Novamente o Senhor nos indica onde deve estar o nosso coração, ou seja, em agradá-Lo e ter
uma vida piedosa. Por isso, “Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o coração, de
toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo,
semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem
toda a Lei e os Profetas”(Mt 22.37-40).

Sabemos que a Aliança da Lei foi substituída pela Nova Aliança em Cristo Jesus, e que os
Profetas, junto com os Apóstolos, nos dão o fundamento sobre o qual devemos edificar, que também é o
Senhor Jesus. Então, sigamos as Suas determinações. Estamos próximos do tempo em que “Os mansos
terão regozijo sobre regozijo no Senhor, e os pobres entre os homens se alegrarão no Santo de Israel, e
os que erram de espírito virão a ter entendimento, e os murmuradores hão de aceitar instrução” (Is
29.19,24). Por isto, tenhamos em mente que “Melhor é o pouco, havendo o temor do Senhor, do que
grande tesouro onde há inquietação" (Pv 15.16).

Busquemos ao Senhor e a Sua sabedoria, porque “A sabedoria protege como protege o dinheiro;
mas o proveito da sabedoria é que ela dá vida ao seu possuidor” (Ec 7.12), pois nos orienta no Caminho
que é a própria Vida. “Há caminho que parece direito ao homem, mas afinal são caminhos de morte” (Pv
16.25). E, se a busca pela prosperidade material é avareza, “Sabei, pois, isto: nenhum incontinente, ou
impuro, ou avarento, que é idólatra, tem herança no reino de Cristo e de Deus. Ninguém vos engane com
palavras vãs; porque, por essas coisas, vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência. Portanto, não
sejais participantes com eles”(Ef 5.5-7), mesmo que se apóiem em alguns textos bíblicos, porque são
textos “que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a
própria destruição deles. Vós, pois, amados, prevenidos como estais de antemão, acautelai-vos; não
suceda que, arrastados pelo erro desses insubordinados, descaiais de vossa própria firmeza; antes,
crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A Ele seja a glória, tanto
agora como no dia eterno”(2Pe 3.16b-18).

Quando éramos crianças, era comum tentarmos transferir nossa culpa para os outros dizendo:
“foi ele que mandou”, ou “ela fez primeiro”. Mas, agora que nos entregamos a Cristo e Ele nos aceitou,
recebemos o Seu Espírito e tornamo-nos, ainda mais, indesculpáveis, porque foi pelo derramamento do
Espírito Santo em nossa vida, que falou o profeta: “Não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem
cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao Senhor, porque todos me conhecerão, desde o menor até ao

3
maior deles, diz o Senhor. Pois perdoarei as suas iniqüidades e dos seus pecados jamais me lembrarei”
(Jr 31.34). Portanto, sejamos sóbrios e vigilantes, como disse o Senhor.

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a Sua muita misericórdia, nos
regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma
herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus para vós outros que sois guardados
pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo” (1Pe
1.3-5). Amém.

4