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Eleições

Presidenciais
em Portugal
(1958)

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INFORMAÇÃO IMPORTANTE

O texto que se segue é uma reprodução escrita,
com pequenas adaptações e esclarecimentos, do
programa exibido pela Rádio e Televisão de
Portugal, “1958 – Eleições presidenciais em
Portugal”, integrado na série “50 Anos 50 Notícias”,
de 2007.
Como tal, cumpre-me esclarecer que toda a
informação constante deste documento foi
apresentada pela citada estação de televisão
portuguesa, aquando da exibição do documentário
referido.
Resta-me recordar, em último lugar, que no ano
de 2007 a Rádio e Televisão de Portugal celebrou o
seu quinquagésimo aniversário.

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ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS EM
PORTUGAL (1958)

No dia 10 de Maio de 1958, o general Humberto
Delgado lança a sua candidatura à Presidência da
República no restaurante Chave d’Ouro.
(João Coito, jornalista Diário de Notícias em 1958)
“Eu, hoje, devo ser, aliás, sou o único sobrevivente
dos jornalistas que assistiram a essa conferência de
imprensa. Ele estava na mesa, ocupando um lugar
central e ao lado dele estavam todos os membros
da Oposição do tempo. Ficaram todos estupefactos
com o que ouviram, não estavam à espera de ouvir
o general Delgado dizer aquilo tão
categoricamente.”
A RTP não enviou nenhuma câmara para gravar o
acontecimento. À noite, a notícia foi dada da
seguinte forma:
“O general Humberto Delgado declarou que se
vier a ser eleito, e até à realização de eleições
gerais, teria que manter um governo de força, de
características militares.”
A televisão difundiu a ideia de que Delgado
pretendia manter a Ditadura, quando a notícia que
vinha nos jornais era a frase “Obviamente, demito-
o!”, referindo-se a Salazar.
No dia seguinte, o Telejornal alinha com os jornais
conotados com o regime e dá conta das
manifestações de desagravo a Salazar, mas

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continua sem referir a frase que deu origem à
polémica.
(Vasco Hogan Teves, jornalista RTP em 1958)
“Chegamos a ter instruções, nessa altura, se bem
me lembro, a dizer, taxativamente, “Não vale a
pena fazerem, porque não vai ser exibido”.
A campanha eleitoral de 1958 foi um teste
inesperado para o regime salazarista. Humberto
Delgado subira bastante novo a general, por ser um
dos mais convictos apoiantes do Estado Novo. Mas a
passagem pelos EUA, o contacto com a Democracia
levaram-no a candidatar-se à Presidência da
República para mudar o regime. Delgado fez uma
campanha “à americana”, junto do povo, na rua. No
dia 14 de Maio, no Porto, foi aplaudido por uma
enorme multidão. Dois dias depois, a 16 de Maio, a
GNR e a PIDE dispersaram à força a multidão que se
juntou em Santa Apolónia para apoiar Delgado, que
passou a ser conhecido como o “General Sem
Medo”. Apanhado de surpresa pelas manifestações
populares, o regime tinha, sobretudo, receio do
“efeito de contágio” que a divulgação de imagens
televisivas poderia provocar.
No encerramento da campanha do candidato do
regime, só se ouviu o discurso de Salazar. Não se
gravaram as palavras de Américo Thomaz.
No dia das eleições, a televisão gravou,
finalmente, imagens de Delgado a votar. A câmara
captou também no exterior do Liceu Camões
imagens do apoio popular ao general. Estas
imagens também não foram exibidas.
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(Vasco Hogan Teves) “Chegaram a dizer que a RTP
ia para a rua com as câmaras sem filme lá dentro, o
que é mentira. Isso não é verdade. Mas, de qualquer
modo, o material era feito e não era exibido.
Portanto, as pessoas sentiam-se um bocado
defraudadas perante esta situação.”
Delgado não tinha dúvidas quanto ao desfecho de
umas eleições viciadas à partida. Os resultados
oficiais deram 75% a Américo Tomás e 23% a
Delgado. Quatro meses depois das eleições, no dia 5
de Outubro, os festejos da oposição republicana
transformaram-se em mais um teste ao governo de
Salazar. Desta vez, o Telejornal mandou uma equipa
cobrir os acontecimentos. As mais célebres imagens
de Delgado em confronto com a polícia do regime
são desse dia. Primeiro, junto ao cemitério do Alto
de S. João, e depois junto à estátua de António José
de Almeida.
(Vasco Hogan Teves) “Gostariamos de as ter
metido no ar, mas isso aí já era completamente
impossível, por motivos de censura interna, da
própria RTP, porque a Administração metia-se muito
nesses problemas, como até da própria censura
externa.”
Delgado acabaria exilado no Brasil, mas o
terramoto que provocou iniciou um novo ciclo de
oposição que não iria dar descanso ao regime do
Estado Novo.

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ANEXOS

Figura 1 – Humberto Delgado no Café Chave D’Ouro, lançando o mote da sua campanha
eleitoral “Obviamente, demito-o”

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Figura 2 – Humberto Delgado afirmava a sua confiança “Espero sair vencedor desta
campanha” (Jornal República)

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