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Movimentos sociais na América Latina: revisitando as teorias1 Ilse Scherer-Warren
Assim como “cultura” ou “civilização”, modernidade é mais ou menos beleza (“essa coisa inútil que esperamos ser valorizada pela civilização), limpeza (“a sujeira de qualquer espécie parece-nos incompatível com a civilização”) e ordem (“Ordem é uma espécie de compulsão à repetição que, quando um regulamento foi definitivamente estabelecido, decide quando, onde e como uma coisa deve ser feita, de modo que em toda circunstância semelhante não haja hesitação ou indecisão”). Bauman, 1998.

Se partirmos da definição de que existe um movimento social quando uma ação coletiva gera um princípio identitário grupal, define os opositores ou adversários à realização plena dessa identidade ou identificação e age em nome de um processo de mudança societária, cultural ou sistêmica, podemos concluir que os movimentos sociais existem em permanente tensão e conflito com os princípios da modernidade, conforme relatado por Bauman2. Talvez esta tensão explique a constante tentativa de criminalização dos movimentos sociais ou a dificuldade das elites hegemônicas em aceitar como legítimos os movimentos dos segmentos subalternos em países como o Brasil, onde os valores da modernidade estão bastante presentes. Entretanto, frequentemente, em uma direção conciliatória, os movimentos sociais têm dialogado com os valores orientadores da modernidade, numa tentativa de coadunar “permanência” e “mudança”, face aos conflitos sociais e contradições que os atingem. Nas ciências sociais, por sua vez, as teorizações sobre os movimentos sociais na América Latina, especialmente durante a última metade do século passado, utilizaram-se frequentemente de referenciais teóricos relacionados à modernidade, à modernização e aos respectivos estudos complementares para a análise desta temática. No entanto, gradativamente, tem havido iniciativas de revisão crítica quanto ao alcance temático dessas análises através de teorias da pós-modernidade, culturais e pós-coloniais. Não se pretende fazer aqui uma revisão completa e detalhada das teorizações sobre os movimentos sociais em nosso continente. Pretende-se, sim, à luz desse debate, considerar a relevância da transição de alguns enfoques: a passagem das interpretações sobre os movimentos sociais baseadas num olhar que privilegiava as teorias de classe para enfoques culturalistas e identitários dos denominados “novos movimentos sociais”, por um lado; e para enfoques institucionalistas através das teorias de mobilização de recursos e dos processos políticos, por outro; sendo que
1 Palestra proferida na Mesa Redonda “Ações coletivas, movimentos e redes sociais na contemporaneidade” no XIV Congresso Brasileiro de Sociologia, realizado de 28 a 31 de junho de 2009, Rio de Janeiro. 2 Inspirado em Freud (Bauman, 1998, p. 7-8)

Na atualidade. ecológica. Transitava-se assim do pensamento universalista acerca de um sujeito único e central da transformação social para as interpretações sobre o descentramento das lutas. para os movimentos sociais latino-americanos da atualidade as respostas não estão claras. em última instância. na releitura e na revalorização das trajetórias de classes. segundo o princípio da diversidade sociocultural (de gênero. encontram-se subjacentes às múltiplas formas de exclusão dos sujeitos dos movimentos sociais contemporâneos. ainda que. pela paz. As explicações para a luta dicotômica entre as classes tornaram-se muitas vezes reducionistas. revendo abordagens clássicas da modernidade. de acordo com os pressupostos das teorias pós-modernas. houve perdas pela negligência em se continuar aprofundando o conhecimento sobre as raízes históricas desses processos. as teorias dos movimentos sociais ao abandonarem as explicações classistas universalizantes. discutir as estratégias organizativas e discursivas dos movimentos receptivos ao pensamento pós-colonial. por diferentes tipos de direitos humanos etc. baseadas nas teorias de classe. do cultural ao . Aderem a uma idéia de socialismo mais como um ethos histórico do que como uma resposta concreta às suas agendas” (Poletto. teleológicas ou previsíveis. isto é. enfatizavam a tendências universalizantes para os comportamentos coletivos. As teorias culturalistas e identitárias dos movimentos sociais. de grupos. O objetivo é também verificar em que medida esses estudos dialogam criticamente com a tradição teórica. Os modelos analíticos foram aplicados de forma generalizada em diferentes situações e contextos históricos. de uma forma ou outra. também denominadas de “teorias dos novos movimentos sociais”. que incluem e articulam dimensões de múltiplas formas de dominação que vão do econômico ao social. é trazer elementos para a tese de que os estudos pós-coloniais comportam contribuições para se repensar o papel de movimentos sociais mais recentes na América Latina. em muitos casos. Legados teóricos para os estudos dos movimentos sociais na atualidade As “grandes narrativas” sobre os movimentos sociais na América Latina. Finalmente. tiveram o mérito de buscar a complexidade simbólica e de orientação política dos agrupamentos coletivos formadores de movimentos sociais. da multiplicidade e contingência das identidades etc. definindo-o como “legado civilizatório eurocêntrico”. da tradição marxistas e nos princípios discursivos da modernidade. de comunidades e de culturas historicamente subalternas em nosso continente.2 ambas as teorias referenciavam-se aos legados da modernidade e da modernização.). frequentemente deixaram de lado os fundamentos da desigualdade socioeconômica que atinge a maioria das populações latino-americanas e que. étnica. 2009). Se houve avanços teóricos pelo entendimento das opressões e discriminações que ocorrem em torno de diferenças socioculturais. “enquanto para a classe operária estava claro que aquilo que viria depois do capitalismo era o socialismo. do social ao cultural. O que se pretende. com uma visão crítica. as questões da previsibilidade histórica e da centralidade política de determinadas classes passaram a ser questionadas. Por sua vez.

contribuindo para aprofundar o entendimento sobre as formas de mobilizações sociais contemporâneas e as possibilidades políticas de uma sociedade em redes. Castells (1996). vieram gradativamente aproximando os debates das teorias da mobilização de recursos (TMR) com o das teorias dos novos movimentos sociais (TNMS). tratam-se de uma abordagem e .3 ideológico. (cf. de aprofundar a compreensão sobre as raízes históricas mais profundas dos processos de exclusão social que atingiram amplos segmentos da sociedade mundial e latino-americana. Embora Klandermans. McAdam e Tilly (1996). em certa medida. mas sem desvendar o desejo emancipatório mais arraigado dos sujeitos historicamente discriminados. especialmente as teorias da mobilização de recursos e dos processos políticos. a partir da relação entre sociedade e Estado. simbólicos e materiais) e ganhos (políticos. Es decir. os aspectos de inclusão e integração social. através das teorias da escolha racional e do individualismo metodológico3. já na década de 1990. b) en los procesos de la comunicación persuasiva durante las campañas de movilización por parte de las organizaciones de movimientos y contramovimientos. incorporam legados das teorias de classe e das respectivas formas de opressão das elites coloniais e hegemônicas. contribuíram para a análise de oportunidades e de formas de participação de atores coletivos na esfera pública formal. 1997. y c) en los procesos de la concienciación durante los episodios de la protesta. de um pensamento do pós-colonianismo. A partir da década de 1990. nos moldes das teorias da modernização. a partir do retorno a suas raízes estruturais. porém. si se le estudia dentro de los contextos en los que se produce y constituye. así como de sus oponentes. das teorias culturalistas. pois esses estudos não possuem uma matriz teórica única. materiais e no plano dos direitos). Nessas abordagens. Al reconocer que la participación en los movimientos sociales tiene lugar en un amplio contexto. São esses os elementos que estão sendo resgatados pelas teorias pós-coloniais. enfatiza que “la concepción de la protesta como construcción social sólo adquiere significado si se justifican sus raíces estructurales” (1994:185). (Valles. alguns autores. . Tarrow. 2006. históricas. especialmente. 1994). do ideológico ao político e vice-versa. visando analisar os processos articulatórios da diversidade dos atores envolvidos. Veja uma síntese interpretativa destas distintas abordagens em Costa. no que diz respeito às 3 Uma ampla exposição sobre está abordagem encontra-se em Gohn. (grifo nosso) Os estudos pós-coloniais ou do pós-colonialismo4. às vezes. As teorias institucionalistas dos movimentos sociais. Tais teorias auxiliaram no entendimento do cotidiano do fazer político institucionalizado. Essa postura abriu o caminho para um diálogo entre teorias da modernidade e da pós-modernidade. compreendidos. tais como Klandermans (1994). Klandermans. foram privilegiados deixando-se. 4 Prefiro me referir a estudos pós-coloniais do que a teorias. entre outros. Los contextos de la participación de los movimientos sociales. tenha demarcado a relevância dos movimentos sociais em construírem significados simbólicos e desenvolverem processos de conscientização coletiva. onde encontra-se em jogo a relação entre investimentos (recursos humanos. 2008). se darían en tres niveles: a) en el discurso público y su relación con la formación y transformación de identidades colectivas.

Mais recentemente (Dussel. aborda os processos de subjetivação. Dussel (1934) inicia suas contribuições para repensar o processo de colonização e de dominação a partir da reflexão de uma nova epistemologia. possibilitaram a elaboração de uma nova leitura do processo histórico da colonização. 2. um desenvolvimento unilinear e à européia o que determina. Estes autores interpretaram a modernidade a partir de um outro lugar. Máscaras Brancas. a Filosofia ou Teologia da Libertação na América Latina. que faz uso de um neomarxismo para repensar os processos de subjetivação dos pobres para a construção de uma pedagogia do oprimido. novamente de modo inconsciente. construídos pelo colonialismo e introjetados pelo colonizado. de fato. o autor possui uma das mais extensas obras sobre os princípios desta teologia. e da respectiva exclusão e/ou subalternidade destes segmentos no plano do fazer político. A superioridade obriga a desenvolver os mais primitivos. desenvolve uma teorização crítica ainda mais contundente sobre uma interpretação “eurocêntrica da modernidade mundial”. O autor prevê que a libertação dessas mentes só se dará através dos processos de desconstrução dessas formações discursivas e da construção de novas subjetividades dos sujeitos historicamente oprimidos e discriminados. dentre outros. 3. à desvalorização devido à cor das peles negras e indígenas escravizadas. 2005). publicou obras que tornaram-se clássicas em vários países5 e referenciadas recentemente pelos estudos culturais e da diáspora efetuados por Hall (2003) e Bhabha (1994). como exigência moral. 4. Portanto. (1952) e Os Condenados da Terra. considerada como um mito que poderia ser assim descrito: 1. rudes. foi militante da Frente de Libertação Nacional da Argélia (FLN). interessa verificar que contribuições os estudos pós-coloniais incorporam das teorias anteriores das ações coletivas e dos movimentos sociais. especialmente. (1961). bem como por intelectuais e militantes dos movimentos negros no Brasil e na América Latina. Fanon. que se construíram sob a égide dos referenciais teóricos da modernidade e da pós-modernidade. exilado e radicado no México. A civilização moderna autodescreve-se como mais desenvolvida e superior (o que significa sustentar inconscientemente uma posição eurocêntrica). psiquiatra e militante político. Argentino. Frantz Fanon e Enrique Dussel são lembrados pela academia e por movimentos sociais como precursores relevantes dos estudos pós-coloniais na América Latina. bárbaros. Como o bárbaro se opõe ao processo civilizador. em relação ao corpo do dominado. Frantz Fanon (1925-1961). a fim de analisar o que trouxeram de novidade para se pensar a subalternidade de sujeitos sociais na América Latina.4 múltiplas formas de opressão e discriminação simbólica em relação aos segmentos sociais colonizados. a “falácia desenvolvimentista”). no cotidiano societário e nas instituições. O caminho de tal processo educativo de desenvolvimento deve ser aquele seguido pela Europa (é. a partir deste lugar. . o lugar do sujeito colonizado e. bastante utilizado durante os processos de independência na África. a práxis moderna deve exercer em último caso a 5 Pele Negra.

isto é. refletir sobre alguns princípios para a investigação. para ele. Para o moderno. Por último. mas sim aplicá-lo a partir de um outro olhar. 2007. o bárbaro tem uma “culpa” (por opor-se ao processo civilizador) que permite à “Modernidade” apresentar-se não apenas como inocente mas como “emancipadora” dessa “culpa” de suas próprias vítimas. • a construção de novas plataformas de direitos humanos que atendam os anseios desses sujeitos subalternos. se necessário for. • a construção de formações discursivas adequadas à historicidade desses sujeitos. o escravo africano. Portanto. a destruição ecológica. Boaventura de Sousa Santos (2004. a mulher oprimida. o negro escravizado. 6. e pelo caráter “civilizatório” da “Modernidade”. 7. (as “vítimas” da “Modernidade”) como vítimas de um ato irracional (como contradição do ideal racional da própria “Modernidade”)”. . etcetera). Posicionamento do intelectual em relação ao seu objeto de estudo Na filosofia da libertação de Dussel um dos elementos fundamentais de sua 6 Vários estudos de intelectuais do Norte têm contribuído para o desenvolvimento recente de um pensamento pós-colonial na América Latina. etcetera. às necessidades e às utopias dos subalternos em relação aos processos de mudança social. a partir dessas idéias que influenciaram os estudos pós-coloniais. dentre os quais destacam-se os de Homi Bhabha (1994). para destruir os obstáculos dessa modernização (justifica a guerra justa colonial).5 violência. interpretam-se como inevitáveis os sofrimentos ou sacrifícios (os custos) da “modernização” dos outros povos “atrasados” (imaturos). Stuart Hall (2003). 2006. o herói civilizador reveste a suas próprias vítimas da condição de serem holocaustos de um sacrifício salvador (o índio colonizado. Esta dominação produz vítimas (de muitas e variadas maneiras). contemplando questionamentos em torno dos seguintes pontos: • o posicionamento do intelectual em relação aos sujeitos dos estudo póscoloniais. violência que é interpretada como um ato inevitável. de um outro lugar e da compreensão sobre a cultura. o índio sacrificado. análise e práticas dialógicas dos movimentos sociais latino-americanos. através de práticas articulatórias em rede. (grifos nossos)? Dussel conclui que para superar as formações discursivas discriminatórias e opressivas da “modernidade” será necessário negar a negação do mito da modernidade. como foi feito por alguns dos autores da pós-modernidade. a criança e a cultura popular alienadas etc. • a relação entre experiência e representação. não se trata de negar o princípio de racionalidade da modernidade. complementadas por outras contribuições contemporâneas a esses estudos6. das outras raças escravizáveis. 2009) e merece ainda ser lembrada a contribuição recente de Sérgio Costa (2006). do outro sexo por ser frágil. “des-cobrir” pela primeira vez a “outra-face” oculta e essencial à “Modernidade”: o mundo periférico colonial. Paul Gilroy (2004). Gostaria. e com o sentido quase-ritual de sacrifício. 5. a mulher.

Segundo Fanon e Dussel. que influencia os caminhos da história. conforme foi lembrado pela teórica feminista. na produção dos saberes há poderes e legitimidades diferenciadas. se ubica a su lado y toma. frutos da supervalorização do saber científico no processo de modernização. sin pertenecer al ámbito de los oprimidos leones. los oprimidos. Hay otra historia. tanto no plano dos mitos como na produção de novos saberes. é necessário descolonizar as mentes para “que cesse para sempre a servidão de homem para homem. Além disso. el oyente interfiere reiteradamente en el relato. Al mismo tiempo que alude a una historia. aos marginalizados pelas práticas e pelos mitos da modernidade. na experiência cotidiana e na história. Lo que se agrega es la posicionalidad del intelectual que. teoría. que ofrece una variante de interés: un hombre narra a un amigo su aventura con una onza. Portanto. O que. além da reflexividade. Para Fanon. o dicho de otra manera. contribui para a reflexão a respeito desse comprometimento a partir do seguinte relato literário: Hay un proverbio africano que dice: "Hasta que los leones tengan sus propios historiadores. aos discriminados. cazadores e historiadores.6 construção é a “aproximação” com o Outro. A relação entre experiência e representação A representação do social relaciona-se com a memória e a experiência. uma memória a partir dos centros de poder como uma memória a partir dos oprimidos. nas sociedades póscoloniais serão encontradas representações que expressam lados distintos do processo de colonização. em última instância. práctica. em seu espaço e tempo. La historia de la onza agrega un personaje o una situación al escenario del proverbio africano: se trata del intelectual que sin ser onza o león. vivencialidad) afirma la desigualdad de poderes trazada entre quienes patentan los códigos de figuración . si no una identidad prestada. Desta forma considera-se que o posicionamento. aos oprimidos. los opresores y los intelectuales. o intelectual deve fazer uma análise crítica sobre o lugar de sua fala. discursividad) y experiencia (concreción. lo que obliga al fastidiado narrador a preguntar: "¿Vocé é amigo meu ou da onça?". de mim para outro”. deverá estar ciente que há uma memória oficial hegemônica como uma memória coletiva dos “de baixo” na pirâmide social. Assim sendo. Desta forma. há uma ética de posicionamento e de comprometimento com a cultura e com o conhecimento. enquanto enunciado da modernidade. uma memória intelectual hegemônica como uma memória de saberes historicamente subalternos. Quer dizer. diseña dos lugares y dos prácticas intelectuales: el lugar y la acción de los leones y el lugar y la acción de los cazadores. las historias de cacería seguirán glorificando al cazador" (citado por Galeano 1997). al menos sí una "conciencia de onza prestada". a história da colonização tem que ser reescrita e reinterpretada. a localização e a memória são os centros do debate político e intelectual do final do século XX. es sin embargo amigo de la onza. Hugo Achúgar (1998). El proverbio escenifica un conflicto permanente mediante tres personajes: leones. de origen brasileño. significa um debate em torno do poder da representação versus a experiência vivida. mas. Nelly Richard: La oposición entre representación (abstracción. acima de tudo. A medida que avanza el relato. O outro aqui refere-se aos empobrecidos. poeta e ensaísta uruguaio.

E te digo mais: temos mais diálogos com os europeus do que com os latinoamericanos.]. sentido da identidade) não se destrói. a um reencausamento (p. conocimiento situado. decorrente da legitimidade atribuída pelo lugar de enunciação do conhecimento. conforme podemos observar no discurso de Fernando Huanacuni (Brasil de Fato. que nos movimentos indígenas pode traduzir-se em demandas por espaços de autonomia política e cultural. para depois poder dialogar com a Europa. na Venezuela. em nenhum momento é possível o abandono da própria história. Nosso modelo não é comunista. 56). em oposição a um modelo emancipatório universalizante. árvores de milhares de anos. O indígena amazônico ainda briga com os garimpeiros. eu diria que os latinoamericanos têm que se encontrar com os indígenas. com seu discurso do socialismo do século 21. não podem ser expulsos da história. liderança e intelectual dos aymara na Bolívia. seu legado específico. Porque os latinoamericanos querem ser como os suíços. os ingleses. Esta diferença do poder de representação da fala. Este modelo de interpretação pode ser encontrado na abordagem de Carlos Gadea (2007) ao movimento indígena neozapatista do México. recém estão descobrindo os povos indígenas. tornaram o movimento indígena invisível porque pensavam que ele era inferior. [.7 teórica que dotarán a sus objetos de estudio de legitimidad académica. com seu pensamento de esquerda. Chávez disse que era seu irmão indígena. muitas vezes redutor da especificidade sociocultural indígena à categoria abstrata de cidadão. 59) . discurso y conciencia situacionales”. já que o prévio sentido do conhecimento. não podem se apagar.. O seu pensamento não está relacionado com o movimento indígena. é criticada pelos próprios movimentos pós-coloniais latino-americanos. história. da língua e das identificações indígenas. muitas vezes. Mas. Eles simplesmente imitaram a Europa. ou também com uma “política de experiências”. é mais difícil de ser aceita pela própria intelectualidade local do que pela externa. Huanacuni esclarece também sobre o modelo indígena boliviano para pensar a transformação: Agora está havendo uma confusão entre socialistas e povos indígenas. quando o autor reconhece que: [. (p. Muitos estão pensando que o movimento boliviano é socialista.. as cortaram para mandar para o mundo ocidental. destruíram arvores mãe. Quando Evo Morales ascendeu. Esse discurso descolonizador encontra também respaldo nas palavras de Nelly Richard (ibid). os alemães. o qual defende que a retomada de culturas originárias deve estar contemplada nos processos de mudança no país e que esta retomada. Dizem América Latina. Aquilo que os indígenas têm herdado (como cultura.... Estes destroem florestas. Primeiro.] A reivindicação pela diferença cultural. 13/07/2009). percebe? Para nós. seguem no processo de colonização. árvores pai. parece realizar uma estreita aliança com uma “política de campanhas”. apenas se desloca. que é ocidental. se abre ao questionamento. assim chamamos nosso continente há milhares de anos. quando afirma que “subvertir esta dicotomía de poder requiere producir teoría local. mas comunitário. os italianos. mas é um movimento indígena. somos Abya Yala.. y los sujetos representados por dichos códigos —hablados por su teorización de la otredad— sin mucho acceso a los beneficios institucionales de la teoría metropolitana ni derecho a ser consultados sobre la validez de las categorías que los describen o interpretan. tradição.

destacamos a necessidade de pensá-los em outro patamar. pela agência do sujeito e pela democracia como valores fundamentais.). seria possível combater essas múltiplas formas de exclusão social e pensar a universalidade dos direitos humanos? A resposta é negativa se for pensada a partir do universalismo relativamente abstrato da modernidade estrito senso. Como. os desejos e os projetos desses sujeitos? Da construção de novas plataformas de direitos humanos Em contextos latino-americanos de profunda subalternidade de amplos segmentos populacionais (os indígenas e negros – herdeiros do escravismo colonial. com inclusão das diferenças identitárias e de valores no contexto de uma formação discursiva pós-colonial.. pactos e convenções internacionais.”. conforme lembrado por Rifiotis (2008).. Segundo o autor. é necessário “repensar em um ser-em-comum composto de histórias diversas e de diferenças inassimiláveis: em uma civitas como comunidade paradoxal suscetível de acolher as existências (e experiências) singulares. O autor acrescenta que: [. o que traz novos desafios para a construção de plataformas mais inclusivas de direitos humanos e para um civismo que não reduza esses povos a uma cidadania genérica da modernidade. Esta é uma via de contradiscurso. Mas é positiva se for pensada a partir de um universalismo que contemple as diferenças. “o problema fundamental que os pós-colonialistas apontam é a existência na nossa modernidade-mundo de uma proliferação de “comunidades imaginárias”.] considerando os Dhs como discurso. pode ser atingida pelos movimentos sociais através da construção de redes de significados para uma cidadania inclusiva. re-significando-se social e culturalmente.. conforme . construir agendas de negociação de direitos que contemplem uma inclusão não colonizada dessas populações diaspóricas. Segundo Marramao (2009). nessa situação..terra. e políticas sociais. vinculado a uma plataforma de direitos humanos em constante construção. dando foco a questões que estão aparecendo no nosso horizonte e rapidamente se tornando uma experiência cada vez mais cotidiana. educação etc. os “sem tudo” . As comunidades subalternas e diaspóricas no mundo globalizado não estão restritas apenas ao localismo.. nem sempre redutíveis a sentidos minimamente comuns. então. retóricas. mas igualmente de uma militância que reclama protagonismo. mas recuperando as vozes. Consideramos que uma universalidade contingente e em constante processo de atualização. mas igualmente leis.. sem que se utilize de políticas meramente assistencialistas ou clientelistas. mas são constantemente atravessadas pelos valores e pelas relações com atores globalizados. estando assim sujeitas a processos de desterritorialização e re-territorialização. deveríamos rever os termos e os próprios problemas que estão na pauta dos Direitos Humanos.8 A avaliação de Gadea nos remete a seguinte questão: como construir uma plataforma de direitos humanos que consolide os “direitos originários” das populações subalternas e que inclua medidas reparadoras de suas condições históricas de sujeitos discriminados. teto. que incorpore valores e demandas das comunidades diaspóricas a partir de dinâmicas e configurações atuais e receptivas a discursos emancipatórios implícitos ou explícitos. trabalho formal.

9 veremos a seguir. comunicação e debate. entre as bases das ações coletivas (incluindo-se aí os espaços comunitários do cotidiano dos grupos subalternos). racismo. mercados para seus produtos. nem possibilidade concreta de trabalho “livre” e. enquanto imigrantes europeus tiveram terras. Talvez isto explique por que territorialidade e escolaridade são os dois pólos centrais das lutas atuais dos negros no Brasil”. indígenas. 2008). 8 Vide detalhamentos em Scherer-Warren (2006. na sociedade brasileira e em outros países da América Latina. reconhecimento social e político. genocídio. mulheres e outros segmentos sujeitos a desigualdades históricas. seriam necessários não somente a permanência nas terras de seus antepassados. Temos discutido em outros momentos8. formando assim as redes de movimentos sociais. que segundo Boaventura Santos (2006). Como bem concluiu a antropóloga Ilka Boaventura Leite (2008. p. Nesse momento. em seus estudos sobre os quilombolas. contando com a mediação de agentes políticos articulatórios (fóruns e redes interorganizacionais diversas). mas também garantir o seu ingresso no mundo letrado. Face a este legado é que o compromisso de intelectuais com a ação movimentalista tem buscado resultados concretos de ações reparadoras. trabalho e acolhimento. de trocas materiais e simbólicas. nos primórdios da colonização. reparadoras de séculos de exclusão social. passam a ser legitimados. numa esfera pública que vem se ampliando7. protestos e campanhas). Todavia. Os valores da modernidade ocidental foram incorporados em nosso país com uma herança histórica. mesmo que sujeitos a conflitos sociais profundos e os direitos à educação (cotas étnicas. 104). como as articulações em redes tem empoderado os movimentos sociais. impunidade. como as ações afirmativas. na medida em que aproximam e criam espaços inter-organizacionais. menos ainda. quilombolas. negros. Os “direitos originários” como os dos indígenas. os avanços serão demorados e reduzidos se os intelectuais e as lideranças políticas não apoiarem e acompanharem iniciativas de políticas sociais. não ética da guerra” Em termos mais concretos. com implicações na auto-estima. com a possibilidade de participação em mobilizações na esfera pública (marchas. compreende: “colonialismo. a ter algum eco para além de seus territórios. raciais e sociais) passam a ser implementados. . gostaria de trazer uma reflexão sobre o papel das redes de movimentos para a re-significação dos processos de colonização na América Latina e para a criação de significados em-comum para a superação dos legados históricos 7 Refiro-me ao aumento de ações afirmativas para negros. escravatura. mesmo enfrentando várias formas de resistência. ainda que com dificuldades. “para destravar a chave do racismo. indígenas e seus descendentes não tiveram nem terra. 2007. destruição cultural. Formações discursivas construídas através de práticas movimentalista em rede O comunitarismo histórico dos grupos subalternos na América Latina vem transcendendo de uma situação de marginalidade na esfera pública para uma outra condição onde as vozes de camadas subalternas começam. sem-terra e posseiros.

assim. denominado “Carta de Aliança de Parentesco entre Índias e Negras”. Sobre o caso do neo-zapatismo. O Ciborgue Neo-Zapatista é capaz de nos des-locar ao nos convidar a atravessar fronteiras geográficas. em Brasília. realizada em 2004. apesar da sua ampla presença. p.considerando a expoliação e expropriação das terras. na qualidade de leitores(as)/escritores(as)espectadores(as)/atores(atrizes) de textos/performances de uma guerrilha multimídia. O Ciborgue Zapatista é mais eficiente na sua habilidade para nos des-locar: para incitar a afirmar e transgredir diferenças. mesmo no seio dos movimentos sociais. ajuda-nos a compreender para além dos rumos da modernidade o desenrolar desse movimento. Abdel-Moneim (2002. Durante a Conferência. Será no jogo dialético entre a tradição e as raízes culturais revistas criticamente. as opções políticas e as utopias. Isso é possível porque apesar do avanço tecnológico no mundo da informação ser um dos carros-chefe da globalização hegemônica. também serve como um mecanismo para a construção de uma globalização contra-hegemônica. que os movimentos sociais vêm atribuindo novos significados às situações de opressão e discriminações históricas. pode ser frutífera aos movimentos sociais na medida em que “o passado deixar de ser a acumulação fatalista de catástrofe e for tão-só a antecipação da indignação e do inconformismo” (p. 55). . Outro exemplo emblemático de construção de uma crítica à herança colonial e à consequente hegemonia política de representantes brancos. Criase. através da ação em rede dos movimentos sociais. e a participar. em especial as mulheres. Gadea (2004. respeito e solidariedade entre o tradicional e o moderno. .considerando a perpetuação da exclusão histórica desses povos desde o término do período colonial até os . e de classe. e para entrever novas ‘uniões radicais’ na busca de solidariedade com outros indivíduos e grupos.considerando que esses dois povos foram igualmente submetidos a processos de genocídio e/ou extermínio. A seguir. 116). . na história latino-americana. por outro. veremos alguns casos empíricos ilustrativos dessa análise. observa como o uso da comunicação informatizada foi uma ferramenta estratégica para a construção de redes de solidariedade e de resignificação simbólica. de esforços de resistência virtual contra projetos globais neoliberais. observando a fraca visibilidade temática de suas questões. perpetrado contra índias e negras.10 opressores. dos saberes desses dois povos. A equação das raízes/opções. ocorreu por ocasião da 1ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres. as mulheres negras e indígenas.considerando a semelhança da opressão colonial sofrida pelos povos indígenas e afrodescendentes. o qual conseguiu resgatar valores culturais milenares associando-os a novos ideários pós-modernos e difundindo-os em tempo real. um potencial para uma relação dialógica entre culturas com raízes históricas diversificadas e a emergência de um laboratório para a construção de relações interculturais de reconhecimento. que passou a ser utilizado também em momentos articulatórios posteriores. das culturas. resolveram elaborar um documento. por um lado. numa escala mundial e multi-identitária. com o seguinte conteúdo: . em prolongado estudo sobre o Movimento Neo-Zapatista de Chiapas. 2007). . nos termos de Boaventura Santos (1997).considerando o estupro colonial. étnicas.

O diálogo inter-étnico no interior do movimento das mulheres repercutiu também na própria “Articulação das Mulheres Brasileiras”. Isso tudo é fruto das mulheres negras dentro da AMB”. quando essas organizações defendem a Carta da Terra. sociais. . Portanto. nas quais têm participado em diferentes momentos organizações de base. . merece ser mencionado o caso das articulações de lutas territoriais. que visa a democratização da propriedade a partir de um limite em seu tamanho e pela observação de sua função social. o uso político estratégico desta noção de “aliança de parentesco”.. como a do princípio da “função social da propriedade”. 9 Durante o trabalho de campo do Projeto AMFES.Firmar uma aliança estratégica para a conquista da igualdade de oportunidades para mulheres índias e negras na sociedade brasileira. políticas. mulheres camponesas. quilombolas. há identificações políticas possíveis e possibilidades de construção de pautas ancoradas em significados simbólicos e políticos similares. segundo uma de suas lideranças: “AMB uma articulação feminista e anti-racista”.10 Por fim. culturais e de poder. 10 Entrevista com Guacira. uma rede nacional de Fóruns de mulheres. Apesar da diversidade de origem e.Firmar o nosso parentesco através de uma aliança política na busca conjunta de superação das desigualdades econômicas. às vezes.11 nossos dias. 2005. que adicionou a sua denominação o seguinte sub-título. para o Projeto AMFES. os atingidos por barragens etc. e articulações de representação como o Fórum Nacional de Reforma Agrária (FNRA). no sentido de construir um empoderamento das etnias oprimidas pelo processo de colonização. Doravante índias e negras consideram-se parentes. distorcendo e desvalorizando suas imagens. ex. .considerando a necessidade da reparação histórica que o Estado brasileiro tem para com esses povos em geral e as mulheres em particular. o que pretendem é a reparação de um processo de colonização que deixou um legado estrutural no desenvolvimento das desigualdades sociais. A articulação em torno desse princípio se dá a partir de um lugar de fala comum dos sujeitos envolvidos. a Via Campesina e outras redes transnacionais da sociedade civil organizada. Os fóruns da sociedade civil têm sido atores estratégicos para a construção e a consolidação de novos significados sobre o direito à terra produtiva. Ilse Scherer-Warren. como a dos sem-terra.coordenadora da AMB. que consideram-se credoras de reparação histórica no que diz respeito à diminuição da desigualdade. que vitima especialmente as mulheres.Firmar uma aliança estratégica que dê visibilidade a índias e negras como sujeitos de direito. de concepções dos sujeitos desses movimentos. o Fórum Nacional de Reforma Urbana (FNRU). em outros fóruns posteriores9. à visibilidade e ao reconhecimento social e político. à conquista de direitos. com conseqüências históricas para as populações excluídas desse processo. Isso se definiu afirmando o feminino e também afirmando o anti-racismo como uma questão central. . à moradia e a um território comunitário para populações historicamente excluídas no Brasil. 2005. indígenas. Observamos. sem-teto. Decidimos: . de uma crítica aos processos de colonização e da ocupação da terra rural ou urbana no Brasil.

. e vamos tentar fazer. Quando não há. conforme nos foi relatado por um entrevistado do FNRA11: Nós só agimos como Fórum quando há unidade.12 Os fóruns da sociedade civil não são organizações formalmente localizadas. à questão da demarcação das terras indígenas. de resolução de problemas concretos. Está concepção (da defesa de teses) foi perdendo espaço historicamente. de formulação de objetivos comuns de luta. porque? Se nós não nos acertamos do ponto de vista das idéias. vamos aflorar o debate. enfim. Nós tentamos unificar esses vários pensamentos em torno de algumas ações concretas. Será. que as políticas emancipatórias só sobrevivem se vierem acompanhadas de pragmatismo. por um lado. vamos colocar as diferenças na mesa. a unidade possível na ação. mas seus elos de mediação na rede buscam as conciliações possíveis. entra a questão da luta pela reforma agrária. de respeito e/ou reconhecimento do outro. Enquanto aqueles sindicalistas. mas complementar. como sujeito com diferenças. Na diversidade e na compreensão das diferenças. O que nós descobrimos nesses 10.. Desta forma. 11 anos de experiência coletiva. mas espaços estratégicos de debate político entre atores diversificados. não o discurso. recursos naturais. dos fundos de pastos. vamos tentar na prática então o que é possível. 11 Para o Projeto AMFES. é que o que determina é ação concreta de cada um. O Fórum cresce e se consolida como espaço de todo mundo. Tudo que entra na questão da terra. dos quilombolas. e você não discutia alternativas de ações concretas em conjunto. Estamos descobrindo metodologicamente e pedagogicamente. que tenha ação conjunta. de elaboração de princípios e de encaminhamento de ações concretas de impacto político. Naturalmente. conflitos e ambiguidades dentro dos fóruns. que temos que mudar o nosso método. também no meio rural brasileiro. mas vamos ver que dessas diferenças todas. concepções. Quando falo em terra. a luta pelo meio ambiente. Porque um dos grandes problemas dos movimentos do campo e da esquerda como um todo. dos pescadores. vamos discutir as idéias. entra aí. aquelas lideranças populares ficavam eternamente estressados defendendo suas teses nos centros. através de ações e relações sociais não isentas de conflitos que os atores em rede constroem suas novas plataformas políticas e significados simbólicos para as lutas.. Paulo Freire já explicava isso. 2005. ou seja. mesmo dentro do movimento. mas respeitando as diferenças. observa-se que a busca de consenso cada vez mais tem sido confrontada com o princípio de respeito à diversidade e às diferenças. nos seminários. (Representante da coordenação do FNRA. o que é possível fazermos juntos. . dentro de determinados limites ideológicos e éticos e. deixando-se para os espaços próprios de cada organização as lutas específicas ou não consensuais. a biodiversidade. não é? Nós aprendemos. observando-se. 2005) Neste ponto. tanto sindical quanto popular. nós descobrimos que o melhor jeito de você defender suas idéias é fazendo. Cada um age da sua maneira. ribeirinhas. observa-se nos movimentos sociais de luta pela terra no Brasil o mesmo que Gadea (2007) constatou em relação ao movimento indígena no México. não se briga. que a melhor maneira de você construir unidade é na ação concreta e não no discurso. o direito à diferença. nas escolas.. era a chamada de defesa das teses: vocês estão somente para defender idéias.. não necessariamente homogênea. por outro. Então vamos fazer tudo o que é possível dentro do fórum para que tenha unidade.. as controvérsias geram tensões.

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