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Notas sobre simbolismo e realidade

Olavo de Carvalho
Estas notas serviram de base para as aulas do Seminário de Filosofia de janeiro de 1998, onde receberam extensos desenvolvimentos orais. — O. de .

1. O simbolismo natural Há três métodos de uso corrente para a explicação do símbolo: 1º O método etnol !ico" #ue o re$ere %s intenç&es e valores de uma cultura em particular ou de várias delas comparativamente' (º O método psicol !ico" #ue os re$ere %s estruturas mais ou menos permanentes da psi#ue humana' )º O método esotérico *%s ve+es chamado também tradicional" no sentido estrito #ue ,ené -uénon con$ere ao termo." #ue re$ere o símbolo a uma intencionalidade supra/humana' 0sses três métodos são redutivistas: os dois primeiros" ostensivamente1 o terceiro" veladamente' ,edu+em o símbolo a um véu" a um dis$arce: de normas culturais implícitas" no primeiro1 de anseios ou temores inconscientes" no se!undo1 no terceiro" de realidades meta$ísicas' 2enhum dos três" portanto" nos responde % per!unta: !ue " o s#mbolo$ 3in!indo respondê/la" substituem/na pela per!unta: %e &u' o s#mbolo " s#mbolo$ 0" tendo/nos dito o simboli+ado" pretendem #ue aceitemos isso como conceito de símbolo 4 como um homem #ue" interro!ado sobre o #ue são as palavras" respondesse indicando as coisas #ue elas nomeiam' 0sses três métodos desviam a nossa atenção do $en5meno 6símbolo6 en#uanto tal e a diri!em %s causas reais ou supostas da produção do símbolo" escorre!ando do &u' para o por&u' 4 o expediente clássico de #uem não sabe de #uê está $alando' 7sto não #uer di+er" evidentemente" #ue tudo o #ue essas teorias tenham a di+er sobre as causas do símbolo se8a despropositado ou $also1 #uer di+er apenas #ue é destituído de $undamento su$iciente e #ue este $undamento s poderia ser encontrado 8ustamente na investi!ação #ue essas teorias eludem e pretendem substituir" #ue é a investi!ação do &uid 4 a primeira de todas as investi!aç&es" se não na ordem do tempo" ao menos na ordem da prioridade l !ica' 9ito de outro modo" esses três métodos tomam por implícito #ue uma interpretação de símbolos" desde #ue se $eche num sistema mais ou menos completo" coerente e $undamentado" 8á é" por si" uma elucidação su$iciente #uanto % nature+a do

estraté!ia #ue proponho para a aborda!em do símbolo adotará como ponto de partida metodol !ico a se!uinte re!ra: todo empenho sistemático de interpretação de símbolos deve ser posto entre parênteses como meramente hipotético" até #ue se alcance uma elucidação su$iciente da nature+a do símbolo' 0sta elucidação" por sua ve+" deve ser independente de #ual#uer chave ou sistema interpretativo ou explicativo/causal previamente dado" por ele!ante" completo ou presti!ioso #ue se8a' Como ob8eto inicial da investi!ação" não admitirei nada mais senão o $ato bruto de #ue existem palavras" !ra$ismos" ob8etos" entes en$im" aos #uais os homens atribuem um tipo especial de si!ni$icação #ue denominam 6simb lica6" di$erente de uma outra #ue denominam 6não simb lica6' 0ste é um $ato de ordem hist rica e cultural' . $iloso$ia analítica pretende suplantar as 6imprecis&es6 da lin!ua!em corrente" explicitando até o extremo limite as intenç&es e si!ni$icados latentes e submetendo/os % crítica $ilos $ica' @as uma certa latência e imprecisão não são inerentes % nature+a mesma do pensamento" da percepção e do pr prio ser das coisasA <ma explicitação plena de todos os si!ni$icados s é reali+ável sob a $orma de um sistema ideal de . crença nele subentendida re$ere/se a uma dualidade de modos de si!ni$icação' 2ossa primeira tare$a será simplesmente veri$icar se essa dualidade é possível e" se possível" em #ue pode ela consistir' 2. prevalecem amplamente sobre a $unção denominativa" com a #ual contamos" apenas" como com uma reserva bancária sobre a #ual passamos che#ue ap s che#ue sem veri$icar o saldo' )' . A perspectiva rotatória 1' Cada termo si!ni$ica uma constelação de intenç&es atuali+áveis' 2o curso habitual do pensamento" essas intenç&es permanecem latentes e em !erme" como #ue comprimidas no inv lucro do termo' 2ão as atuali+amos senão #uando temos al!um motivo especial para $a+ê/lo' <ma per!unta" uma d=vida" podem convidar/nos ou obri!ar/nos a desdobrar as si!ni$icaç&es #ue supomos carre!ar em al!um canto obscuro do nosso 6interior6' 0ntão %s ve+es veri$icamos #ue elas não estão lá1 $oram/se" ou então a enumeração não vem tão completa #uanto esperávamos' (' 0sse caráter meramente potencial da intenção si!ni$icante revela/nos #ue" na comunicação habitual" as $unç&es expressiva e comunicativa da lin!ua!em * >' ?:hler .símbolo 4 con$usão idêntica % de #uem tomasse a interpretação exaustiva de uma obra poética 4 ou mesmo de várias 4 como resposta su$iciente % #uestão: !ue " a poesia$ Ora" pode ocorrer" por des!raça" 8ustamente o contrário: #ue a elucidação da nature+a da poesia acabe por impu!nar todas essas interpretaç&es" por exaustivas e coerentes #ue se8am" e por mais amparadas #ue este8am em conhecimentos cientí$icos" revelando nelas al!o assim como uma paralaxe" um desvio do eixo de atenção em relação ao centro de interesse do ob8eto" uma concentração das #uest&es em ob8etos parecidos" associados ou circunvi+inhos" uma metabasis eis allo (enos como tão $re#:entemente sucede nas investi!aç&es cientí$icas não su$icientemente ancoradas numa consciência crítico/ $ilos $ica das complexidades e peculiaridades do ob8eto #ue se pretende investi!ar' .

Dado. percepção do mundo como amontoado ou coleção de 6coisas6 ou meros 6dados6 sem uma conexão espiritual =ltima pressup&e um observador destituído" por seu lado" de sua pr pria conexão espiritual" do elo interior entre sensação e si!ni$icado" consciência e ação" antes e depois1 um observador est=pido" em estado de divisão hipn tica e #uase paralisia catat5nica' G curioso" ou mais propriamente absurdo" #ue o 6mundo6 $ra!mentário captado por essa percepção de$iciente se8a tomado como norma da 6realidade6 e medida de a$erição da validade da conexão interior #ue apreendemos no universo' .conceitos e 8uí+os" #ue por sua ve+ não se atuali+ará na consciência todo de uma ve+" mas parte por parte" en#uanto as demais partes permanecem latentes no $undo' Ou se8a" a consciência #ue temos desse sistema terá ela mesma a estrutura de perspectivas rotat rias #ue observamos na vida psí#uica corrente e na comunicação habitual: um conceito vem para a $rente" en#uanto os outros vão para o $undo" desaparecem como conte=dos atuais da consciência para se tornarem es#uemas compactos de conte=dos meramente atuali+áveis' B' <ma cadeia l !ica não é" assim" mais conhecível de instantCneo e no todo do #ue uma casa ou uma paisa!em' Demos de percorrê/la" e #uando no $im cremos conhecê/la 6no todo6" o #ue sobrou em nossas mãos não é mais #ue um es#uema simpli$icado" ou se8a" uma potência de reatuali+ar no tempo a cadeia percorrida' 6Conhecer6 um raciocínio é poder reprodu+i/lo na se#:ência" não é reprodu+i/lo no todo e com todos os detalhes num instante sem duração' E' 3orçosamente" cada passo #ue é atuali+ado na consciência implica a virtuali+ação dos outros" seu recuo para o dep sito do meramente atuali+ável' F' G isto o #ue #uero di+er com 6perspectiva rotat ria6' G a estrutura do ato mesmo de conhecimento" se8a do conhecimento pelos sentidos" se8a do mero pensamento' H' G" por outro lado" a estrutura mesma da $enomenalidade como tal: nenhum ob8eto" nenhum ser" pode se apresentar a um determinado su8eito co!noscente na totalidade instantCnea dos seus aspectos' G ilusão pensar #ue o ob8eto meramente ideal pode $a+ê/lo' O conceito mesmo de 6#uadrado6 s se apresenta a mim no resumo compacto de um termo" e não no desdobramento completo das propriedades #ue inclui' Danto o pensamento abstrato #uanto a percepção sensível têm a estrutura de uma perspectiva rotat ria: o su8eito co!noscente circunda o ob8eto tanto #uanto circunda o conceito" e o $a+ precisamente por#ue seu $oco de atenção é circundado pelas latências de inumeráveis ob8etos" conceitos e si!nos' 3. percepção e$etiva do real exi!e" na mais alta medida" as supremas $aculdades de síntese" #ue nos revelam" para lá mesmo da pr pria unidade $ísica do mundo" a unidade de um 6sentido6 do mundo para o #ual conver!em todos os atos conscientes de um homem no mundo" até os mais mínimos' O Iantismo e outras escolas #ue tomam como 6realidade6 os puros dados sensíveis e redu+em toda síntese a uma contribuição sub8etiva #ue a mente $a+ ao mundo i!noram #ue um mundo sem unidade . sentido e unidade (I) .

ealidade" mundo e sentido não podem ser construídos" se8a pelo $il so$o" se8a pela cultura1 s podem" por isto" ser percebidos intuitivamente" subentendendo #ue a intuição pressup&e um su8eito co!noscente dotado de unidade autoconsciente tima no momento do ato intuitivo' Dodo o trabalho da $iloso$ia / e da cultura / é re!istrar o mundo intuído e de$endê/lo" mediante a $aculdade discursiva" da dissolução' 0 #uem o ameaça de dissolução é a pr pria $aculdade discursiva" ." como um 6x6 remoto e distante" ao #ual s poderíamos che!ar no termo de uma caminhada #ue começa no 6dado6 sensível' @as é uma ilusão de tica" #ue inverte a ordem do real1 ao sentido não se che!a" pois ele é o pressuposto da pr pria percepção e" mais ainda" da caminhada re$lexiva' O ob8etivo desta não é atin!ir o sentido" mas recuperar" no nível discursivo *portanto intersub8etivo.não poderia ser 6dado6 a nenhum su8eito" para #ue o ordenasse se!undo suas cate!orias a priori" por#ue toda ordenação pressup&e a unidade consciente do su8eito e esta unidade s se reali+a" precisamente" nos instantes de coesão tima em #ue o mundo lhe aparece como uno" não como um amontoado $ra!mentário de sensaç&es' . por meio de criaç&es mentais" se8a na arte" se8a na ciência" se8a na meta$ísica' . verdadeira meta$ísica não constr i um mundo" não é meta$ísica construtiva1 é $undamentação discursiva da unidade do mundo espontaneamente percebida' 9aí também o $racasso de toda tentativa de 6expressar6 o sentido =ltimo1 ele é o pressuposto de toda expressão1 é o supremamente percebido" 8amais construído1 e" $atalmente" s expressamos o #ue nossa mente constr i' G uma ilusão dedu+ir" da inexpressabilidade do sentido" sua inapreensibilidade' 0le é inexpressável 8ustamente por ser apreensível eminenter" por ser 6o6 aprensível como tal" en#uanto todos os demais apreensíveis s são apreensíveis nele e por ele" sendo por isto expressáveis' Jor não $a+er parte nem do mundo pra!mático #ue construímos com nossas aç&es" nem do mundo ima!inativo #ue construímos com nossa arte" nossa ciência" etc'" ele acaba por parecer" % re$lexão $ilos $ica de primeira instCncia *re$lexão sobre a cultura" sobre o mundo construído pelo homem.s presentes consideraç&es vão um pouco além do #ue habitualmente se chama 6realismo6' O realismo a$irma somente a realidade do mundo' 0las a$irmam #ue a realidade do mundo é um dado" e #ue também o são" inseparavelmente dela" a unidade espiritual e o sentido do mundo' ." a certe+a inicial e intuitiva do sentido' O ob8etivo é tornar patrim5nio comum essa certe+a inicial e $undamental #ue o homem s possui en#uanto individualidade vivente" não en#uanto ser social $alante" plural na variedade de seus papéis e idiomas' 2o curso dessa recuperação" muitos desastres acontecem" #ue separam o homem da recordação do sentido e o levam a ima!inar" se8a #ue pode construir um sentido a partir dos dados" se8a #ue pode encontrar um sentido partindo de dados sem sentido" se8a #ue pode provar a inexistência do sentido ou a separação abissal entre o dado e o sentido" se8a #ue não necessita de um sentido e pode viver entre puros dados' Dal é o panorama da hist ria da $iloso$ia' . $ra!mentação do mundo em 6dados6 supostamente pré/cate!oriais s se obtém por dois meios: pelos estados patol !icos de divisão do eu ou por es$orço pessoal de abstração ima!inativa1 no primeiro caso" o su8eito está separado de si $uncionalmente1 no se!undo" hipoteticamente e" em suma" $in!idamente' Os 6dados6 não são prévios % síntese si!ni$icativa1 obtêm/se" ao contrário" por divisão abstrativa desta =ltima" se8a como resíduos de uma sonolência alucinat ria" se8a como meras $ormas $antasiosas de um mundo construído pela ima!inação' Os $amosos 6dados6 são em suma construídos" e a unidade espiritual =ltima do mundo" em ve+ de construída" é dada' Jor isto $racassam todas as tentativas de construí/la *ou mesmo de reconstruí/la.

" dupla pela duplicidade de suas $unç&es *pensar e comunicar.constitutivamente dupla e auto/anta!5nica / dialética" em suma / 1 dupla pela duplicidade de suas operaç&es *si(nificatio e suplentia.#uele #ue di+ 6viver o momento6 o $a+ sobre o pano de $undo de toda uma concepção do universo" a #ual inclui" $orçosamente" uma expectativa de continuidade' Danto #ue" se $osse in$ormado de sua morte iminente" seu momento se!uinte seria bem di$erente da#uele #ue experimentaria se lhe dissessem" ao contrário" #ue a dama de seus dese8os o espera no #uarto ao lado' . !nidade e unidades @as" se a unidade do mundo é dada e a unidade de cada ente conhecido é apenas potencial" atuali+ada parcialmente e passo a passo pela perspectiva rotat ria" uma conclusão se se!ue imediatamente: cada ente conhecido s é uno e s é ente a título de ima(o mundi' 9a unidade total extraem sua unidade as unidades parciais' . sentido e unidade (II) . Dado.' 4. percepção imediata do sentido e da unidade do mundo" a #ue me re$iro" é simplesmente o saber imediato #ue temos acerca do #ue estamos $a+endo nele na#uele preciso momento" e de aonde pretendemos che!ar em se!uida" e de aonde pretendemos #ue vão dar" no $im" todas as nossas aç&es' Kem esse pressentimento" seríamos incapa+es de dar o pr ximo passo' Keria tolice ima!inar #ue um homem dá seu pr ximo passo independentemente de #ual#uer consideração do #ue vem depois / um pr ximo passo isolado" atomístico' O 6viver cada momento6 é apenas uma $i!ura literária' . expectativa de uma continuidade #ue se prolon!a para além da morte" se8a na $orma de uma vida celeste" se8a sob a $orma da simples permanência temporal do mundo ap s nossa saída dele" se8a sob #ual#uer outra $orma #ue se ima!ine" é uma conditio sine &ua non do a!ir humano" e está subentendida mesmo nas nossas aç&es mais mínimas e corri#ueiras' @as essa diversidade de ima!inaç&es e suposiç&es tradu+ apenas a variedade de reaç&es individuais a uma experiência #ue é =nica e a mesma em todos os seres humanos: a experiência do movimento !eral do cosmos" #ue vai para al(uma dire)*o e nos leva' 0ssa experiência pode ser vivenciada de maneira consciente" com mais probabilidade" na in$Cncia" mas em !eral ela se torna inconsciente pelo $ato mesmo de ser a mais constante e ininterrupta experiência humana" $undamento e condição de toda e #ual#uer experiência em particular' .