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Vamiré, by J. H.

Rosny

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Vamiré, by J. H. Rosny
The Project Gutenberg EBook of Vamiré, by J. H. Rosny This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www.gutenberg.net Title: Vamiré Romance dos tempos primitivos Author: J. H. Rosny Translator: Cândido de Figueiredo Release Date: June 24, 2009 [EBook #29213] Language: Portuguese Character set encoding: ISO-8859-1 *** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VAMIRÉ *** Produced by M. Silva Notas de transcrição: Este texto é uma transcrição do original de 1905, tendo-se actualizado a grafia para a variante europeia da língua portuguesa (pré-acordo ortográfico de 1990).

Vamiré, by J. H. Rosny Foram corrigidos alguns erros tipográficos evidentes. VAMIRÉ ROMANCE DOS TEMPOS PRIMITIVOS Traduzido de J. H. Rosny POR CÂNDIDO DE FIGUEIREDO LISBOA LIVRARIA EDITORA VIÚVA TAVARES CARDOSO 5, Largo do Camões, 6 1905 VAMIRÉ ROMANCE DOS TEMPOS PRIMITIVOS Porto--TIP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA, SUCESSORA. Rua da Cancela Velha, 70 VAMIRÉ ROMANCE DOS TEMPOS PRIMITIVOS Traduzido de J. H. Rosny POR CÂNDIDO DE FIGUEIREDO LISBOA LIVRARIA EDITORA VIÚVA TAVARES CARDOSO 5, Largo do Camões, 6 1905 PALAVRAS DO TRADUTOR Há dez ou doze anos, li numa Revista estrangeira uma extraordinária narrativa romântica, que o seu autor, o sr. J. H. Rosny, intitulava Vamiré. Referia-se a narrativa aos tempos primitivos da humanidade, e atestava tão raros predicados de artista e tão vasto conhecimento da pré-história natural, que senti a tentação de a verter para a nossa língua.

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Não obstante a dificuldade de uma versão exacta do romance, procurei remover ou atenuar essa dificuldade, e estampei alguns capítulos na imprensa periódica desse tempo, verificando que o conceito de apreciadores competentes autorizava o conceito que a obra me inspirava. Decorreram alguns anos e, relendo o meu desambicioso trabalho, ainda entendi que valia a pena reduzi-lo a livro, não pela tradução em si, mas pelos predicados essenciais da obra do sr. J. H. Rosny. Já aludi à dificuldade da tradução, e lealmente confesso que mais de uma vez hesitei sobre se devia pôr de lado o meu tentame, para não desrespeitar a estilização do autor, ou se devia acatar estritamente a ousada originalidade da forma, ou se me cumpriria conciliar essa originalidade com as exigências normais do idioma português.

Vamiré, by J. H. Rosny

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Com efeito, a prosa do sr. J. H. Rosny, no Vamiré, abunda em vocábulos que, se não foram criados pelo autor, são, pelo menos, estranhos aos léxicos correntes da língua francesa; a adjectivação é, por vezes, de um arrojo, que deve ter feito calafrios à Academia Francesa; e o pensamento, de longe em longe, aperta-se em sínteses tão cerradas, que não ressalta facilmente a olhos desprevenidos. Mas todas estas qualidades se relacionam, até certo ponto, com o estranho cenário que o Vamiré nos desenrola, com os cambiantes misteriosos da linguagem nascente, e com a vaga psicologia do homem primitivo. De maneira que poderá capitular-se de beleza o que, a revezes, se antolhe obscuridade e nimio arrojo ao leitor vulgar. E, assim, eu próprio, seduzido porventura pelo brilho encantador da concepção do sr. Rosny, e pelo esplendor imprevisto da sua linguagem, reproduzi formas, que eu relegaria de trabalhos originais meus, mas que são características de um grande talento insubmisso, que se espraia, poderoso e intemerato, nas estepes e florestas do mundo pré-histórico. Os puristas absolver-me-ão pois de uma ou outra condescendência com brilhantes ousadias, e os leitores de romances terão neste livro um salutar correctivo à romançada piegas, que entulha as livrarias, e desvela as noites da mocidade ingénua. Lisboa, 1 de Janeiro de 1905. C. de F. VAMIRÉ ROMANCE DOS TEMPOS PRIMITIVOS I Guerra nocturna Foi há vinte mil anos. O pólo Norte defrontava com uma estrela da constelação do Cisne. Nas planícies da Europa, ia extinguir-se o mamute, as grandes feras emigravam para o pais da Luz; a rena fugia para o setentrião. O auroco[1], o uro[2], o veado apascentavam-se na erva das florestas e das planícies. O urso colosso, muitos tempos antes, havia já passado além da região das cavernas. [1] Espécie de uro. Os franceses chamam-lhe auroche, palavra alemã, de auer, planície, e ochs, boi. (N. do trad.). [2] Espécie de boi selvagem. (N. do trad.). Os homens da Europa, os grandes dolicocéfalos[3], achavam-se então disseminados desde o Báltico ao Mediterrâneo, desde o Ocidente ao Oriente. Habitantes das cavernas, mais relacionados que os seus avós da idade da pedra, mas sempre nómadas, a sua indústria elevava-se, a sua arte era graciosa. Esboços traçados a buril fraco, tímidos mas fiéis, representavam a luta do cérebro no encalço do sonho, contra a brutalidade dos apetites. Séculos depois, com a invasão asiática, a arte decairá, e o gracioso tipo daquela indústria só reaparecerá ao cabo de longos períodos. [3] Homens de crânio oval. (N. do trad.).

e ficou imóvel. grandes batráquios coaxavam sobre as plantas fluviais. durante alguns minutos. entremeados de longas sombras. --Lô! Lô!--repetiu ele. à espreita. taciturno. Entrementes. Vega. caminhava ao longo do rio. e ele. O homem exibiu então as suas formas de corpulento caçador. aproximou-se um vulto ágil. aos pulos. A sua zagaia. Em quanto a vida palpitava nas trevas. A teoria das constelações imortais descortinava-se entre as nuvens erradias. mas a sua tribo devia estar muito provida de caça. arrojada às festas e às batalhas do amor ou da alimentação. afastou-se de novo. Decorreram minutos. fatigado da imobilidade. O leopardo atravessou o rio como uma porção de escuma. Pela orla de um bosquete de bordos. no pontal de uma rocha solitária. feroz ou apavorada. a paisagem entrou numa existência menos selvagem. na planície. e imergiu nas sombras da perspectiva. a Carreta rodeavam lentamente a Polar do Cisne. O alfange da lua apontou. A estrela Vénus engastava-se no Levante. refugiando-se na sombra de um moitedo. todo o gracioso organismo em carreira. reboavam as vozes dos animais carnívoros. na plena consciência da sua força. atento. 4 A noite ia em dois terços. intemerato. foi-se afastando. ligeiro como um raio. by J. H. depois. veio juntar-se-lhe um pensamento. espreitando as ciladas da noite. percebeu os passos da fera sobre a terra mole. pintado com traços de minio. Ao estirarem-se os raios lunares. um rio cantava a vida dos fluidos. Nos amieiros. de olhos afeitos às penumbras. em todas as coisas uma palpitação sensível. o hálito da noite perfumava-lhe o rosto. fruía. os seus raios estenderam-se pelo rio e pelas árvores. À beira do rio. preocupava o madrugador. os murmúrios e a calmaria da natureza virgem. O homem libou a simples voluptuosidade de viver ante a magnificência das grandes águas. um vulto ressaiu da caverna dos homens. Nos intervalos de silêncio. em harmonias intermitentes. na altura da testa. . --Lô! Lô!--disse o caçador. Altaír. meio minuto depois. por baixo da estrela Vénus. a mesclada difusão dos claros e dos escuros. --Hoi?--murmurou ele interrogativamente. Os amieiros e os álamos respondiam em murmúrios. sem ser perseguido. tímidos protestos contra os pavores da sombra. na estação em que as plantas abotoam. A quinhentos cúbitos. transpareceu um pequenino clarão. um grande veado de dez pontas. sob um crânio alongado e resistente. de nariculas latejantes e nervos inquietos. levemente comovido. O caçador hesitou. de ponta córnea. nesgas entreabertas de paraíso. pequenos animais agitavam levemente as moitas da ribanceira. Rosny Era no Oriente meridional. O homem preparou a zagaia e a clava. algum esboço de estética astral. O homem. E todavia o delicado ouvido do caçador ainda. olhando a revezes a estrela do Levante. porque o animal. que andaria caçando. num movimento de simpatia.Vamiré. e na sua mão direita firmava-se uma enorme clava de carvalho. projectava-lhe no corpo sombras em ziguezague. Efectivamente. parou. surgiu da banda de além da rocha dos trogloditas um leopardo. a cabeça repuxada para trás. As pontas da lua tornavam-se mais nítidas. projectadas sobre a claridade avermelhada as pernas delgadas. O instinto predizia-lhe a aproximação de inimigo feroz. algum potente felino. Algum devaneio. O vigor e a felicidade palpitavam nas suas veias. O seu rosto pálido. de ombros cobertos de uma pele de uro. atento. numa atitude de provocação grandiosa. à escuta. menos raro entre estes avoengos da arte do que em muitas populações históricas. a eufonia das ondas. havia frémito de asas dos elitros brancos. de zagaia firme. era largo. Na claridade cinzenta de um grande vale. com o passo cauteloso de quem procura presa.

a hora em que os nocturnos vão dormir e os diurnos renascem para a luz. ficou imóvel: o leão aproximava-se tranquilamente. tão rápido mas menos exacto na direitura da carreira. com um bramido. aconchegava-se cautelosamente no seu abrigo frondoso. abalado no intimo das suas entranhas. Em volta. dando sinal de ataque. a quem a vizinhança do leão aconselhava prudência. o silêncio. deitou-o para as costas e pôs-se em fuga. uma suspensão como a de há pouco. Preferiu sujeitar-se à ventura. Devastador como um ciclone. Lá em baixo. afastando-se vagarosamente. H. A cinquenta passos.--o leão. Após ligeira pausa debaixo dos freixos. [4] Corpulento animal felino dos tempos pré-históricos. O leopardo quaternário. além disso. no espreitar angustioso. com um miar de raiva e de humilhação. o leão interrompeu-se: perturbação. quando o leopardo segurava a presa. Foi um momento de tréguas. deu uma volta precipitada e desastrosa. e o leopardo cedeu. abrindo caminho sem esforço. Teria andado quatrocentos cúbitos. a pronta vitória do carnívoro. O outro despedaçava o veado. e esperou.Vamiré. soberano das florestas e planícies. O veado reapareceu. Ali. contemplava a cena. Em dois minutos. sob a vaporosa claridade. em pleno luar. que prosseguia na retirada. transpareceram em todo o seu aspecto. surgiu um animal monstruoso. furioso de se lhe ter malogrado o esforço. A trinta passos. desgostoso. pelo rugido cavo. sem pensar no vencido. o homem reconheceu a quase soberana fera. dúvidas. por ter achado algum obstáculo. suando. era o símbolo da força. erecto. Rosny Um rumor de galope. perseguia o leão em fuga para o Oeste. quando a cena se complicou: o leão regressava obliquamente. sem fadiga. as feras atingiam a beira do seu retiro. por não ter calculado melhor a fuga. quando junto a orla. em que. mas sem terror. . 5 O homem admirava. hesitou. no tremor da juba. O pobre veado. ressaía um vulto maciço. desorientado pela surpresa. mas mais colossal. o leão. agora mais alta. enquanto o leopardo. já triunfante. Claridades de sonho. devassando a penumbra com os seus olhos de oiro-esmeralda. devorava. tomou o veado. aproximava-se. o espeleu[4] trepava às árvores. onde ele tinha aparecido. Que fazer? O caçador estendeu a vista em torno de si: para alcançar algum choupo era mister galgar duzentos cúbitos e. de respiração alta. e o leopardo. o leopardo. ficava ainda a uma distância dez vezes maior. sangrenta. O homem. e achou-se logo sob as garras cortantes do leopardo. gracioso. o arranco do veado agonizante. pântano ou fosso. Luta rápida. a grandes pedaços. disposto para qualquer aventura. corpulento. cimos de árvores embebendo-se em algodoamentos pálidos. e pensando em aventurar-se a combater. sobressaltado. sem preparar assalto. e pela farta crina. o fugitivo perdia terreno. evidenciava-se. felis spelaca. De repente. deixou cair o veado. a presa roubada. à orla da moita de bordos. Depois de alguns instantes de deglutição furiosa. reboou pelo vale. chasqueando o leão. e retraiu-se para o seu esconderijo. retardado pelo desvio e pelo peso do veado. de cabeça voltada para o tirano. quando sobreveio uma peripécia terrível. e o homem pensou em deixar o seu retiro porque o leopardo o inquietava pouco. a hora da anunciação. Mas a voz do dominador. Como era natural. by J. pelo salto de vinte cúbitos. vendo que a fuga era inútil. o animal prosseguiu na caça. O homem tremeu. A sua hesitação foi rápida. com um desejo crescente de intervir. Os dois vultos foram desaparecendo. ofegante. Quanto à rocha dos trogloditas. porque os dois colossais antagonistas vinham na direcção dele. vago ao principio. Intermediário ao leão e ao tigre no aspecto e na forma. retrocedeu. parando. O homem sorriu. estacou. com a força de uma convicção.

O espeleu não obstante a sua força prodigiosa. Lá em cima. --Lô! Lô!--murmurou o homem. mais débeis. sob o tremendo assalto. rugindo medonhamente. voltou com um rugido mais estrepitoso que o do seu adversário. o espeleu não pôde dominá-lo. e. largou por dois segundos a presa. ferido por um golpe terrível. Parado. uma confusão de crinas e maxilas.. Na penumbra. fez rosto sem fraqueza.Vamiré. atirou-se sobre ele e começou a rasgar-lhe o ventre. o salmo da eterna vida. senão também que o outro não se apiedaria dele. de cabeça erguida. em tremor de vértebras. Depois. o espeleu sacudiu a crina e começou a descer. Um rugido surdo se espraiou. os seus ossos partidos entre arpéus poderosíssimos. repercutidos através do horizonte. Conseguiu porém levantar-se ainda. o ataque. desesperado. de faixas cetinosas de céu. bramidos semelhantes ao restrugir das tempestades nas franças dos carvalhos. enquanto o sangue escorria. De repente. a pata ruiva e a pata mosqueada defrontaram-se num armistício final. o revoltear das crinas ao clarão da lua. hesitante em face do colosso. que. Por dois segundos. acuado. cada vez mais roucos. Mais abaixo. e achavam-se a um salto de distância. a pesada garra assente sobre o veado.. caiu. por toda a parte. fez um salto transversal. a sua face triturada e disforme. com as espáduas e tórax sangrando de largas chagas. atacou de flanco e a batalha tornou-se indecisa. rolando. Ao principio. O espeleu transpôs a distância.. como um raio. conserva-se de pé. estimulado pelo orgulho. a agitação dos músculos de bronze. . um arranco lamentoso. a sua garra monstruosa levantou-se ante as unhas do inimigo. deitado em terra. reduzida a estreitas faixas de território. o espeleu recortava na claridade lunar o seu perfil altivo de dominador. o leão. O outro. de dentes descobertos. com a voluptuosidade da vingança e o receio de uma ressurreição. depois. Por fim.. Compreendendo não só a impossibilidade de fugir. de respiração rouca. o vago. as maxilas proeminentes. as vísceras do leão arrancadas. uma convulsão de garganta. Novo rugido do agressor. durante minutos. o leão dobrou-se. e assentou de novo a garra no veado. celebrou com um rugido o seu triunfo e o seu repto às penumbras. em estertores. em decadência hoje. não respondeu logo. uma réplica retumbante do leão. veio o suplicio. a crina pendente sobre uma peladura mosqueada de pantera. as forças do vencido decresciam rapidamente: dominado de novo. de entranhas pendentes e juba ensanguentada. feita de fronteiras arborescentes. O espeleu encarniçou-se no cadáver. by J. uma fosforescência nas suas pupilas. Finalmente. repeliu desdenhosamente o cadáver. Rosny 6 guarnições de graminias lanceoladas meneando-se ao sopro hesitante do Poente. na carne ainda vibrante. O leão. mesclada de receio e cólera. como pouco antes o leopardo diante dele.. H. o confuso. os astros despertos. Sobre um montículo. de clareiras. já familiarizado com o drama. e os rugidos da agonia. e reentrou no combate com tal fúria. em recuo.. um despegar de carnes igual às palpitações de uma onda no mar. e o espeleu. o frenesim dos organismos. a testa chata. Mas o desenlace aproximava-se. a escuma das goelas e a fosforescência das pupilas fulvas. Enfim. o encarniçamento do mais forte. amortecido o arrojo do espeleu. a indecisão de esforços malogrados. o homem. o leão. Debateu-se o leão. Desembaraçado em seguida. examinava o leão. Queria dizer que aceitava o combate. com a altivez da sua raça..--rei outrora da Europa cheleana. a emboscada da natureza. calculava-lhe a força e a agilidade. e o soberano animal expirava. transmudados logo em suspiros. assegurando-se de que era infundado o receio. bramidos ferozes.

A hesitação não podia durar muito: o espeleu começava a afastar a folhagem da moita. referidas em noites veladas. Um estremecimento de espanto e de terror lhe percorreu o corpo. by J. rodeou a moita. firme. o homem hesitava sobre o que. sentiu que a fome voltava. Cansado. rugiu. Rosny Rompia a manhã. de ventre pálido. sempre que se lhe deparava um individuo solitário.. O espeleu. O grande felino. Entrementes. vendo surgir um vulto humano. a planície tornava mais fácil o tiro da zagaia e os golpes de clava. e estalaram vértebras. Ao tumultuarem-lhe no cérebro estas lembranças. depois de lamber as feridas. mosqueada de negro. ergueu a zagaia e apontou. seguiu direita o seu caminho e foi cravar-se no pescoço do felino. e. e caminhou para a carcaça do veado. em decadência contínua. 7 Entretanto. não tinha disso a certeza. em que se abrigava o caçador. os seus músculos enormes. o espeleu inquietou-se. e já não tornaria a encher de pavor as trevas. os seus grandes olhos amarelos. Ao agitarem-se os ramos. Ante esta ameaça. e satisfazia o seu rancor desordenado. sob a pelagem amarela. deixou passar o monstro. brandindo a clava com ambas as mãos. sem lhe tirar o instinto da luta e do cálculo. em ângulo recto com a linha que o monstro seguia. depois de tal combate. atraiu o seu olhar. A moita próxima. a imobilidade imediata do colosso. --Eô! Eô!--gritou o homem. procurou um retiro. de vida. desvanecida qualquer tergiversação. Um rugido estrangulado de pranto. fez um movimento obliquo. o arco da lua esmaecendo. herói das idades de luta. o caçador. H. muito distante do covil. se a planície rasa. e saiu por um atalho.. abertos. Mas estava bem morto o espeleu. todo aquele admirável organismo bélico. e o homem repetiu vitorioso o seu grito de guerra: --Eô! Eô! Continuava todavia na defensiva. o homem contemplava ainda o vencedor. fascinado pela magnificência do combate. ante as flores que a aurora iluminava. calculando o salto. à sombra. de olhar lúcido. a sua clava desceu como um martelo formidável. de músculos ágeis e destros. com uma destreza maravilhosa. as suas goelas escancaradas e ainda cheias do sangue do leão e do veado. Decidida rapidamente a escolha. que o pôs nervoso e contemplativo. . Aquele amorteceria o ímpeto da fera. Depois.Vamiré. e cuidou de arrastar para ali a sua presa. de confiança em si. uma plenitude de orgulho dulcíssimo. quando viu que ele se dirigia para a moita. as suas garras do comprimento de meio cúbito. raro já. a queda. seria preferível: se o abrigo. em caso de ataque. O homem. o homem deu um salto. contemplando a fera. O homem sentiu no peito um grande bem-estar. onde pudesse comer. parecia ter o instinto do papel dos primatas para a extinção do homem. o ódio do espeleu contra os homens. O espeleu avançou. tornou-se imóvel. uma dilatação de personalidade. A arma vibrou. belo gigante. uma viva filtração de prata. Pensou que. temendo a repetição do ataque. o espeleu não o inquietaria naquele retiro. recordava as lendas dos velhos. e ávido de descanso e de alimento. evaporando-se. Ao fundo do horizonte.

as aves pipilaram de encantadas. vivendo em paz. voltando-se para o Levante. até à fronteira das águas. (N. entumecidas as suas pequenas cornamusas. pingentes de caninos furados à nascença. caçadora mas não belicosa. ao pescoço. o rio e a planície. entre os salgueiros. de trogloditas extintos. [5] Refere-se o autor à árvore. ornatos bárbaros. fios entre-cruzados. quando a aragem afagava. e um velho. mergulharam nele os esplendores do vapor e nele se reflectiu um mundo de formas e matizes. que aceitava o mistério das coisas sem ter ainda conhecido culto. dominadora da Europa quaternária. de horda para horda. estendia os seus braços. de crânios alongados e cheios de energias belicosas. de auroco. traços irradiantes. eufonias silábicas. alguns guerreiros moíam e misturavam o minio vermelho com medula de uro. que ainda não surgira o instinto de apropriação directa nem sombra de astúcia vil. que os nómadas escolhiam. vagas representações do natural.. ainda não haviam entronizado o despotismo. devorado pelo nada. As crianças saltavam pelo campo. compreendendo a força e a eternidade do sol.. à borda da caverna. entremeados de sombras de árvores delgadas e intermináveis. quase todos corpulentos e musculosos. algumas vezes. vértebras de peixe. apoiando o tronco em os calcanhares. caracterizava-os uma nobreza rude. misteriosamente. o ossário aéreo emitia cânticos suspirosos. para nela dependurar os esqueletos dos seus mortos. os homens compraziam-se em projectos de caça ou de trabalho. O homem estendia os braços. sem culto determinado. dominada apenas por vagos simbolismos. chamado também idade da pedra-polida. punha os olhos présbitos em tais ou tais crânios que surgiam de entre as sombras ramusculares. os tições da primeira refeição extinguiam-se à beira da caverna dos homens. Unicamente as questões de amor e rivalidade manchavam.). numa religiosidade vaga. livremente escolhidos e seguidos. e o efémero da sua personalidade. Sob transparente névoa. [6] Segundo período da idade de pedra. A árvore-sepulcro[5] de cem cúbitos de alto. regeneradora e voluptuosa. enlaçava as ondas fulvas dos seus cabelos. II A horda Aos sorrisos da manhã. do trad. depois. teve um grito. Os cimos dos grandes choupos e das pequenas graminias da planície estremeceram. O sol já se elevava acima da floresta distante. Os animais diurnos foram abrindo as suas pupilas. sem autoridade efectiva. litorinas. by J. lapas.Vamiré. e a miúda joalharia marinha: a porcelana-lúrida. Os condutores de tribo. de veado). à testa. cristais com reflexos de ametista. pequenos anéis. Depois. o rio parecia de estanho levemente embaciado. derramado por homem. de tal ou tal companheiro da mocidade. Outros prendiam aos joelhos. e pintavam o rosto e o peito com um fino pincel de fibras: parábolas mal-feitas. alguma rapariga semi-nua avivava a sua frescura e os seus enfeites. e os seus raios estiravam-se pelo vale. o seu grito de triunfo: --Eô! Eô!-E. (dentes de leão. ao mesmo hálito quente de vida. H. Rosny 8 As musicas e a brisa da manhã ergueram-se ao mesmo tempo no horizonte. . de urso. uma grandeza e uma bondade que não mais se encontrarão no decurso da neolítica[6]. a terra com o sangue de homem. ressentia-se do encanto daquela hora. Em tigelinhas de sílex. de lobo. cheios de esqueletos pálidos. aos pés. estranhos à degradação da escravatura. A horda representava uma humanidade já propensa ao ideal. A horda de Pzanns. industriosa e artista. por virtude da sua seriedade e experiência. espalhada. Eram largos os seus campos e tão ricos de alimentos. Ao frouxo embate da viração. apareceram os homens. seixos gravados. reconstruía mentalmente os anais de tal ou tal caçador glorioso. Eram filhos da grande raça dolicocéfala.

e o desejo da caça. Tarefa mais delicada ainda. traçando com o dedo a direcção da caça. os anzóis. escavação do fundo na ponta curva. ao mesmo tempo. as facas. senão em passando da pedra para o metal. H. A configuração do terreno e a situação das feras davam lugar a duas alternativas: atacá-las. Decidiu-o a mocidade. por uma servidão que já existia desde muito. Em quanto os trabalhos começavam. quantas fronteiras ultrapassadas. Em frente. a floresta esbatia-se no horizonte. a velho chefe. e o bando pôs-se em marcha para o Norte.--inteligência atrofiada. a atracção dos vales rejuvenescidos. a explorar as perspectivas. foram-se tornando depois silenciosos. o arpéu. desde o taciturno antropopiteco. lentamente. Uma inteligência selvagem. os burís. os outros machos agruparam-se para o combate. 9 Ao rochedo mais alto subiu um moço. Com delicada agulha. afiavam as machadas. Com uma voz atroadora. contornavam outros as pontas. e reapareceu logo. crânio volumoso e pelo avermelhado. com polidor e raspadeiras trabalhavam em peles frescas. de majestade pacifica e de força social. no momento da partida. organismo multiplicador das forças humanas. e mui raramente o artista deixava de descobrir as direcções convenientes à percussão. entre os seus irmãos da Ásia. os valeiros. agora que no seio da fauna ia surgir o antepassado cheleano. Depois. outros. e feito com uma destreza e paciência admiráveis. começou o trabalho das mulheres e dos homens que não entravam na caça desse dia. dotado da previsão que se adquire com a longa prática. Os caçadores pararam. a zagaia.--tornava-os aptos para a táctica. . Aquele rebanho enorme realizava um esplendor de vidas tranquilas. perdida na poeira da tíbia claridade das nuvens. anunciou-os aos seus companheiros. em número de muitos centenares. todos tomaram as armas: o arco.. as serras. fazendo saltar pequenas estilhas. polidura e alisamento com grés fino. as exclamações dos seus companheiros. À sua esquerda. o espelho sinuoso das águas fecundas. e por toda a parte perfis diminutos de animais pascendo em planícies: o caçador contou uma horda de cavalos e um rebanho de uros. deixava aparecer. Àquele aviso. os arpéus de osso e corno. um grupo de caçadores reunia-se junto da caverna. soberania da natureza. tais que a humanidade não poderá excedê-los. numa área de dois mil cúbitos. esboços artísticos. entre as fêmeas e os machos tenros. Atrás. as quebradas das estepes. munindo-se de utensílios finos e perfeitos. Encobertos por um cabeço. com uma lentidão calculada. dentro do universo cerebral!--divisão do trabalho. prolongando-se até o rio. depois de abrir nelas pequenos orifícios com um punção de pedra. Rosny Terminada a refeição e dispostos os enfeites. discutiam o plano de ataque. a passos lentos. sob reflexos de ametista embaciada. familiarizado com a matéria. (um toiro colossal. tradição de utensílios. as lâminas e as pontas. de olhar penetrante. à direita e à esquerda. lançando um olhar em roda. martelavam. apareceu o moço que vencera o espeleu. Os grandes herbívoros espalhavam-se em triângulo. Os toiros. by J. De súbito.Vamiré. Sobretudo a agulha revelava uma engenhosa indústria: esquirolas arredondadas por meio de sílex denteado e com entalho. muitos cosiam pelicas. em bancos de pedra ou de madeira. ao ar livre. circulavam. Ah! desde o sílex de Thenay[7]. para a espontaneidade. oásis semelhantes a nenúfares num pântano. armado de arco e clava. O corte. alguns. atribuídos a uma espécie de homem-macaco ou antropopiteco. a clava. Reentrou na caverna. um rebanho de uros apareceu-lhes no alto de uma colina. no portal das grutas. com mil perigos de se partir a obra. Hesitou entre o desejo de prosseguir na preparação da manta que talhara na pele do monstro e que começara na véspera. bradou: --Vamiré!-Então. excitados os cérebros bárbaros pela marcha e pelas belezas matinais. a ondulação suave dos outeiros. Cheios de vivacidade ao principio.. [7] Os sílex de Thenay são os primeiros e os mais grosseiros vestígios da indústria humana. postado no ângulo mais agudo do triângulo). À voz do condutor. a região das montanhas. de flanco leonino. precursor do nosso antepassado da época cheleana. frouxa e vaga.

sem estorvo dos novilhos. em posição de receber o golpe supremo. de uma densa mata de figueiras silvestres. e dominados por um orgulho de valentia e destreza. pela maior parte. a sua voz ergueu-se. o uro pareceu vencido. o implacável inimigo vertical. empenhavam-se numa luta de emulação. nobres protectores da sua raça. sacrificando-se. insensíveis à palavra dos guias. um toiro caiu. decisivo. Os herbívoros dispersos assustaram-se. e as frechas silvaram. que fazia latejar o vale. e o outro dirigido por um colosso de idade madura. mas. pôs-se de esguelha e cravou a sua lança na ilharga do toiro.Vamiré. Um minuto de duvida. a marcha foi organizada segundo as regras. Erguendo a cabeça vermelha. Mas. e com uma velocidade terrível. ele ressaltou. e surgir lá de baixo. e o seu terceiro golpe. a duas léguas. Estes andavam rápidos. acelerando-se num trote. cada vez mais próximas sempre. Escarvando o solo por um minuto. três de entre eles chegaram a menos da distância de um tiro. os mais ágeis apareceram na cumeeira. mais penetrante. antes de serem assaltados. sem cálculo. bela e grave. correu directamente contra o mais alto dos moços caçadores. embora mais produtivo em caso de bom êxito. cinco caçadores tinham os uros ao alcance de tiro. Levado na parte convexa daquele crescente e não na ponta. dois dos bovídeos machos fizeram alto. e a horda do velho. O primeiro toiro. guiado um pelo velho que empunhava um bastão de comando com esculturas. utilizados sabiamente os acidentes do terreno. by J. com um movimento elegante. ajoelhado. De ambos os lados. mas as belicosas alimárias não pareciam senti-los. facto curioso. aproximava-se. esperavam imóveis. mais cruel. Confiados nas pernas. os trogloditas subiram a cadeia de outeiros que os encobria. constelada de luas brancas. quando o grande uro condutor pareceu inquietar-se. Os mais ardentes. como a voz dos leões. era evidentemente menos seguro. desde o primeiro assalto dos caçadores. e logo o sinal de fuga. o guerreiro desembaraçou-se a tempo. --Eô! Eô! Partiram outras frechas. mais golpes profundos. de cerviz baixa. O bando dos caçadores dividiu-se em dois troços. verdadeiros bárbaros de raça vitoriosa. a maioria optou pelo primeiro método. Depois. os caçadores dispersaram-se. arrojaram-se à luta. mais de dez tiros de arco os distanciavam dos retardatários do rebanho de uros. e ficou suspenso numa perscrutação profunda. ou contornar a planície. era evidente que a expedição chegava ao seu terreno. mas dois moços. e concentraram-se. H. avançando rapidamente. Os outros então. e com o corno esquerdo levantou o homem. Então. podendo qualquer pânico afastar os uros. e fixando no espaço os grandes olhos perturbados. Ficou estendido um toiro e depois uma fêmea. porque o outro. Rosny aproveitando a série de outeiros transversais. menos ligeiro e mais cauteloso. a partida inopinada da enorme caravana. sempre mais ferozes. Cambaleante. no momento em que a lança se levantava de novo. Mas nem por isso evitou melhor o bote: a arma entrou-lhe de novo nas entranhas. Em poucos minutos. Sangrado. entre-olhando-se. um estremecimento de espinhaço. estava já a distância de tiro. o animal parecia desfalecer. assegurou-lhe a vitória. farejou o horizonte. . tão conhecido das feras. fizeram semicírculo. em pleno coração. Este. a convicção enfim de que estava próximo o inimigo. Mais frechas. mas voltou de soslaio. 10 Depois de alguns minutos. outro urrou formidavelmente. Renunciando o ardil.

. que pode proteger a sua raça contra o leão e o leopardo. o bovídeo fitava no caçador as suas largas pupilas azuladas.. Vamiré. num sonho dilatado e vago. mas um tiro de zagaia nas espáduas do uro salvou o homem e o flexível perfil de Terann veio interpor-se. e o toiro. sacrificada à fatalidade das lutas. marchou altivamente contra os assaltantes. e. Vamiré desviou qualquer auxilio. apareceu. mas desejando cair como guerreira. dispunha-se a arrebatá-lo. Nuvens de dardos foram embeber-se nos seus belos flancos.. e uma piedade misericordiosa segredava. como o toiro se encarniçava no corpo do vencido. Quando Terann aniquilava o seu adversário. Inerme. Terann evitou o ataque do uro.. na alma de Vamiré. o uro parecia escutar o caçador. e os cinco uros. de clava erguida. precipitando-se como um raio. falou-lhe assim: --Retira-te.. H.. 11 Postado em frente. Baixando a cornadura. roçou apenas uma omoplata. numa grave tristeza. enquanto os trogloditas bradavam: --Vamiré é forte como o mamute!-Com um aceno.. outro toiro se arrojava contra o caçador da clava. já sem arrojo e com as artérias exaustas. que jaziam dispersos na planície. espezinhado. mal dado.--rugiu ele. haviam custado a . tão digno de pastar por muito tempo as boas ervas da planície. Imóvel.. Mas. ágil como o salmão que sobe um rio. Vamiré sentiria que as planícies ficassem privadas do valente. Depois. e o seu último alento exalou-se sobre as gramíneas. sem lhe sustar a velocidade. penas por aquela grandiosa alimária. e lançou-o por terra. valente. --Terann! Terann!--clamaram os caçadores. por sua vez. o toiro baixava ainda a cornadura. Assim findou a caça. Convicta.. rolou pelo chão. um velho que fugia sem agilidade. Por sua vez. apenas algumas frechas soaram dos arcos. Vamiré não tocará no grande uro vencido. maltratado.. triste. viam-se já as entranhas do desgraçado. talvez. Entretanto. temerário. tão digno de viver e de conservar a grande raça dos uros. de repente. Teve apenas tempo de retirar Terann e arrojá-lo ao acaso. a luta empenhava-se de outra forma. e por um desvio de cornadura. A monstruosa alimária não os esperou. by J. O toiro prostrou-se. Depois. um eco débil de rugido estremeceu-lhe na garganta. a pancada não sortiu todo o efeito. valente. arrastava o nómada pelo espaço de dez cúbitos. Ao lado.. e todos o julgaram perdido. aguardando o ataque do homem. a sua cabeça oscilou. Depois o sangue jorrou: feridas enormes esburacaram o peito. muitos arrojaram-se com grande clamor. viu baixarem-se as agudas e velozes pontas da cornadura. Dobrado sobre os joelhos.Vamiré. Rosny --Terann matou o grande uro. na perturbação dos caçadores. Depois ainda. despedidas pelos melhores archeiros. de que morreria. E Vamiré prosseguiu: --Não. as suas pálpebras entrecerraram-se. e prontamente atingiu um novo antagonista. Mas. o homem desceu a arma e julgou esmigalhar o crânio da alimária. vindo de lado. mas o seu segundo tiro. colocando-se a seis cúbitos do toiro.. e ouvia-se-lhe o estalido dos ossos.

. à beira do rio. o leopardo.. Homens. Vanhab. nascido entre nós. sobre as ruínas de um moço que desaparecera para sempre no abismo das metamorfoses. tinham aprendido a dispor moderadamente de qualquer vida... viu-se um velho colocar-se ao pé de Vanhab. muitos milhares de anos antes da domesticação da alimária. salvo da dos carnívoros e parasitas. e é por este profundo sentimento que eles. era um caçador intrépido e um trabalhador destro. e todos aguardaram a sua fala. H. os velhos surgiram da caverna.. caía como um símbolo de profunda amargura. ainda não tinha concebido mistério algum além das formas materiais. filho de Djeb.--repetiram as vozes da horda. e a horda começou a debandar sob a penumbra do crepúsculo. ao cordão entrançado... e uma majestade tão serena. conheceram-lhe a força.. oscilou um pouco... Associados às últimas palavras de Vamiré.. e os restos do finado subiram por entre a folhagem. Depois. seguro enfim. III O funeral de Vanhab Ao cair da tarde. ..Vamiré. avessa a um dia primaveral.. não caçará mais. e o vermelho clarão do sol poente.. as naturezas contemplativas viram repartir-se a luz em mil figurações efémeras.. não mais despojará a alimária. que passou de ramo em ramo. O uro. e as cabeças dos trogloditas ergueram-se para ver subir à árvore-sepulcro um ágil caçador. filho de Djeb. os rebanhos de bovídeos e as caravanas de cavalos estivessem fortalecidas contra as grandes feras. por um sentimento de indefinida discrição. Rosny 12 vida a um filho dos homens.. sabiam que a existência do herbívoro é necessária à dos homens. saiu da vida. Nos pontais das suaves colinas. Retalhou os despojos de alimárias. em cuja extremidade pegava o trepador. porque se viu que Vanhab. Dois guerreiros moços transportavam o cadáver de Vanhab. dominada pela natureza. para que lhe chegassem à memória coisas antigas. Dentro em pouco. filho de Djeb. que os companheiros de Vanhab. Quando chegou a um ramo livre. a hiena. E falou: --Homens.. e deles fez vestidos e armas... nós deploramos Vanhab. Fabricou utensílios da pedra beneficente. porque tinha fama de saber falar aos outros homens. filho de Djeb.. suspendeu-se Vanhab. confusas sínteses adquiridas pela sua raça que.. O cadáver. filho de Djeb.. havia apenas o núcleo dos companheiros íntimos e dos parentes.. transformado o sol num braseiro circular. filho de Djeb. --Nós deploramos Vanhab. houve pesado silêncio. Do horizonte morno e do grande zénite manava uma languidez tão doce.. um sopro de vida tão encantador. mas. nem mais fabricará utensílios da pedra beneficente. sobre o pálido crânio e através da caixa toráxica. A horda desfilou lentamente através da planície. e a mostrar-se generosos com os uros valentes. Vanhab. debaixo da árvore. Quando subiram a colina e chegaram à árvore-sepulcro. seguidos pela melancólica horda. e os lamentos surdos da esposa e da mãe interrompiam a taciturnidade da cena. sentiam agora mais amargura que cólera. E porque era um companheiro fiel e prudente. E os guerreiros Pzanns ainda uma vez reconheceram a força e a coragem do uro. para que as hordas de veados. O velho conservou-se imóvel por algum tempo. por entre os esqueletos dos avoengos. acabava de restituir o seu ser às coisas. sua mãe e sua viuva esqueciam a dor e o terror da morte. by J.

Vamiré. porque sabia manejar o buril que grava no osso e no corno. Rosny 13 A sombra sucedeu aos esplendores do céu. e o cinzel. porque o cabelo da mulher era formoso e o seu pescoço arredondado e branco. às vezes penedos dispostos com simetria arquitectural em galerias abertas aos quatro ventos. apiedou-se dela e sentiu estremecer o coração. Ora. pelo jubilo de surpreender as coisas secretas. fiéis a Vanhab. onde palpita eternamente a alegria. ficou um ao lado do outro. Durante dias e semanas inteiras. nas quais soluçavam vozes de abismo. o cosmos dos cipós e das plântulas em briga. os humildes pré-históricos. trabalhando em algum retiro longínquo. De homens tais não motejavam os dolicocéfalos da Europa. e os grandes carnívoros sentiam dilatar-se-lhes a força. de que nasceram as alianças do terror. rio abaixo. os rumores da pedra batida da água. com imaginações embrionárias. e ela ergueu os olhos. era o assombro da horda dos Pzanns. Havia ali o hino das águas extensas. do sobrenatural e da imortalidade. não obstante a sua juventude. um dia de manhã. se inquietavam muito com essas ausências.. amigo de Vanhab. saía do meio dos seus companheiros. com o pensamento da morte e da noite associadas. explorando solidões. o terror e o amor. Nem Zom seu pai. bétulas nos cabeços. numa penumbra de templo e de emboscada. que estremecia à menor ondulação das águas. Caçador experto e valente. o mistério da natureza criadora. e sem ferocidade para as mulheres e crianças. enquanto os lobos vagueavam na planície. o baixo grave da corrente. H. IV A ilhota Vamiré. a população de árvores gigantes. ou vogam pelo rio. a renascença sobre o hino milenário. na sua pequena embarcação. sem movimento. Terann teve então palavras doces. nem Namir sua mãe. Mais uma noite desenrolou o manto do infinito. . by J. à claridade final do dia. como as flores dos salgueiros que choram sobre os nenúfares dos lagos. Mais um dia desapareceu nas profundezas do passado. a jovem esposa estava prostrada sobre a erva. e foi. e a hiena gargalhava à borda do rio. tornara-se o mais famoso dos artistas entre as tribos que. com os cabelos esparsos sobre as gramíneas. possuía também os dons misteriosos da arte. freixos plangentes. Impressionados então. chegavam ao Oriente meridional. o vencedor. E. e Terann. mas sentindo raiar em si um porvir. À proporção que ele perdia de vista a caverna dos trogloditas. belo de estatura e forte como o auroco. antes estimavam profundamente Vamiré. As formas do animal e da planta cativavam a sua imaginação. sem palavras. e os artefactos que ele trazia das suas excursões eram o espanto da sua horda. vestidos de musgos e líquenes. filho de Zom. na primavera. e grandes pedaços de rocha dificultavam a navegação. e o formão que desbasta a madeira e o marfim. quando as trevas se cerraram. de que nasceram os cultos. Até às margens virgens chegava a floresta. um encanto de ressonâncias. atrás. embarcou ele.. Era daqueles que divagam sozinhos sobre as colinas e que cruzam a floresta. Apaixonado pela sua arte. ou se embebem nas trevas. Entretanto. povoada de choupos grisalhos. porque muito fiavam da fortuna do filho. juntaram um sonho aos milhões de sonhos. orlada de salgueiros frágeis. o rio era mais largo e menos profundo. cortadas pelo remo. Ponderou que Terann era forte entre os fortes. forças livres.

e de bom tacto. Finalmente. a luta. roçando os penedos erráticos. por muitos minutos. Apanhou numa enseada um grande ranúnculo aquático de corola pálida.Vamiré. as fronteiras da flor. pontas de sílex. e tirou de lá raspadeiras. tomando um dos caninos do espeleu. Em seguida porém. eivado de cólera. H. e foi amarrar a canoa numa angra. exprobrações à matéria. avincavam-lhe a fronte e as pálpebras. e passeando pela ilhota. entre salgueiros. de olhos meio cerrados e lábios mais nervosamente apertados entre os incisivos: os minutos foram bem empregados. encantado pela vacilação das sombras das árvores sobre a água. recomeçou-os. os pontos das anteras sobre as débeis hastezinhas. de madeira de carvalho. corrigindo as linhas imperfeitas. Mas a obstinação da sua raça fazia-o retomar o trabalho. apagou-os com a raspadeira. pareceu buscar algum modelo. Pegou neles uma e muitas vezes. uma concentração de artista. e bandos de esturjões subiam a corrente. os contornos que o seu buril poderia reproduzir. com a sua retina voluptuosa. a flor aparecia belamente sobre o fino marfim. entreviam-se já uns traços graciosos. Entrementes. começou a traçar um ligeiro perfil. indecisa ainda. Grandes pétalas de verniz suave. descontente de alguns traços. Batráquios. e. by J. descaídas de braços ao longo do tronco. a sua mão musculosa de atleta prestava-se ao trabalho artístico. galinholas. foi à canoa buscar os dentes e os ossos que tinha levado. Sorrindo ligeiramente. peixe. um esboço do ranúnculo. dominado pela solenidade do espectáculo. tudo isto ele apreciou. e um adem espantaram-se. . estética: --Estará concluída. como amante da forma. ave.-Depois. Vamiré pôs-se a remar. o desabrochamento das pétalas. até que terminou o esboço. Vamiré quedou-se. mas principalmente as linhas terminais. Firme. de corda. arrojou o manto. Vamiré meteu a mão na cavidade de um ameeiro. pedaços de osso. apareceu uma ilhota.--árvore. tentou restituir-lhe a posição natural e aguçou o seu utensílio. Rosny 14 Vamiré largou os remos. duas ou três vezes largou o buril. lâminas. a subtileza de estar em contacto cerebral com a natureza. onde a terra parecia calcada e as ervas silvestres mondadas intencionalmente. anteras tenuíssimas. até que surgiu a contrariedade. Comovido. Piscando os olhos e apertando os lábios entre os incisivos. Tentavam-no principalmente os caninos do espeleu. pedúnculo matizado de rosa. e profundamente absorto. Uma doçura inteligente. hesitou sobre se continuaria a estatueta. o momento em que o trabalho se torna pesado. antes da lua cheia. no limite meridional da pequenina ilha. Fixando-a no solo e escorando-a com ramúsculos. Ficou por um instante em contemplação diante de uma estatueta. pelo perfume agreste da paragem. espalhando a vista em redor. cuja cabeladura. Depois. Vamiré desviou a folhagem e achou-se numa clareira. e deixou-se tomar de uma beatitude religiosa. e examinou-o atentamente. esboçou com a ponta do buril de sílex contornos imaginários. enquanto por entre varas e ervas iam passando focinhos de herbívoros. testa e olhos estavam quase concluídos. O homem riu-se em voz baixa e cruzou os braços sobre o peito. gravemente apaixonado. Com gestos de criança-colosso. ou se trabalharia em gravuras.

estremunhado.. o grande sol. por aquele dia. e pensou logo na gravura incompleta do canino. Chegou o meio dia. depois. Porque não havia de ir vê-las? Na sua juventude intrépida. Abatido diante da natureza. na margem distante. sentiu que a melancolia lhe invadia o cérebro. de trabalhos perigosos. O coração do caçador palpitou. então. debaixo dos salgueiros e ameeiros frescos. As enchentes do equinócio haviam cessado mais de um mês antes. o ar trémulo de calor. de imaginação ardente. Desconhecidas pelos da sua raça. previamente assada. by J. Vamiré viu fugir meia dúzia de ratos aquáticos. estendeu-se no chão e adormeceu. mostrou-se um grande animal cornígero. 15 Demorou-se largamente à beira do rio. na lentura da ilhota. Deglutiu-a. desejos de caça. inclinada sobre o rio. o peito musculoso: --Eô! Aqui está Vamiré!. para calcular a hora. propensa a ásperos empreendimentos. muitos dos quais vinham do mar. até à beira do rio ao longo de uma espécie de molhe. afastou-se. Então um aborrecimento pesou no coração do dolicocéfalo. era deliciosa aquela hora. exacto. repôs os seus materiais e os seus utensílios na cavidade do ameeiro e ergueu a vista ao firmamento. H. as sombras diminuídas. Além. uma desabilidade contínua. Admirou-lhe a cabeça larga. se bem que a fresquidão se sentia já no prolongamento das sombras. sem pressa. acostumada aos errores solitários..--um aborrecimento de saúde opulenta. Quando a retomou. no seu cérebro de artista. Vamiré tinha levado. um rumor acordou-o em sobressalto. excitavam-lhe a curiosidade rude. Pegou no buril. Levantou-se de um salto. acabando de beber. a jusante do rio. . era um bosquejo firme. para conservação sua. ergueu-se. assombrado. com voz retumbante. e não quis olhar mais para a sua obra. mas. O auroco levantou a cabeça. de procriação. na raiz do dente. definiu-se. A noite vinha ainda longe. Rosny Cansado. Descoroçoado. Apenas. aprofundou cuidadosamente os contornos. em que Vamiré reconheceu o auroco. aquele desejo engrandeceu-se. Esvoaçaram no seu crânio desejos indefinidos. de linhas elegantes. o sol ia a meio caminho do Poente. acompanhavam cada um dos seus esforços. o seu poder criador achava-se esgotado: tentou em vão retomar a estatueta: um enfado invencível. Vamiré adiantou-se. Tentavam-no as regiões de além. Passado tempo. e raramente se avistavam ramos e troncos de árvores desarraigadas. Os nemóceros zumbiam em colunas.Vamiré. Vamiré!--gritou ele ao animal. Era a grande estação fecundadora: as águas enchiam-se de uma nuvem de animais inferiores. audaciosa e pueril. as pernas altas. foi agradável a sua surpresa: em vez do esboço duvidoso que ele imaginava. uma posta de uro. de força acumulada. subindo as correntes. sorriu de alegria diante do seu novo e belo artefacto. colunas de ar ascencionais. à vista do enorme mamífero. e o nómada repetiu: --Vamiré consente que vivas!-O auroco. fazendo um buraco para suspensão. e por cima da floresta iam-se formando nuvens translucidas.

Em meio da abundância de tudo. o grande caçador. e o ventre das montanhas entreabriu-se. Mas os fogos subterrâneos expandiram-se. embarcou de novo. o seu arpéu duplamente denteado. tendo encontrado um lugar seco. ora nas margens silvestres. acompanhado pelo pai de Tah e por moços valentes. nem povo algum conhecido dos Pzanns tinham jamais transposto. Permaneceu largo tempo. e. haviam tentado explorar a floresta. desenvolveu-se uma geração inteira. Mais de uma vez. Lembrou-se ainda de outras lendas: a história dos Pzanns aventureiros. assegurou-se de que nenhuma veia de água ameaçava a sua canoa.. e que os perigos aumentavam a cada dia de viagem. não lhe faltou carne nem frutos que mantivessem a força do homem. com a clava numa das mãos e a zagaia noutra. diante da interminável floresta. «O abismo bebeu os grandes lagos. e a gritaria dos papagaios encobria os murmúrios augustos da vida. grandes répteis dormiam nos promontórios. A sua curiosidade e a sua coragem crescia a cada rumor da noite. de escombros silvestres. e. Vamiré acampava ora em ilhotas. Depois. Rosny 16 Inspeccionou então cuidadosamente as suas zagaias. Três gerações antes de Tah. que. e o coração enchia-se-lhe de . sem sono debaixo da faia. foi buscar a sua canoa e transportou-a para a margem.. a memória inquietava-se-lhe com a história dos que não tinham regressado. Vamiré desejou ser. E. Pensava em que o regresso seria mais difícil que a ida. que nem os Pzanns. o Oriente meridional era limitado por lagos e serras. os penedos já não apareciam. mais de cem anos antes. vieram-lhe à memória as lendas vagas dos Pzanns: --«Tah. H. o cansaço lhe oprimiu o corpo. O espanto dominou os homens. E foi assim que se descobriram as grandes planícies do Oriente meridional. by J. A água. aventurou-se aos desfiladeiros cavados pelo cataclismo. resguardando-se contra surpresas muito rápidas. e a tristeza tomava-lhe a alma. Nem nessa noite nem nas seguintes foi Vamiré atacado pelos carnívoros. e. narrava o desmoronamento das montanhas. adormeceu. depois. Harm. Mas nada disto desalentava o nómada. Vamiré percebeu que estava imensamente longe dos confins da floresta. enfim. formadas de humo viscoso de aluviões movediças. e outros tinham regressado. velhas árvores de mil anos erguiam-se de espaço a espaço. mas é que nenhum tentou o assalto. de onde manavam grandes ribeiras afluindo ao rio. a floresta tornava-se cada vez mais densa. as margens menos definidas. e muitos dos quais tinham desaparecido sem deixar vestígios. Mas quando. como Harm. a sua clava. cobriu-se com ela. virando a canoa. comovido por aquelas lendas. sem que ninguém se atrevesse a devassar as novas regiões. ancião de cento e vinte Invernos e memória lúcida. V O homem das árvores Quando a noite escureceu o rio. mitigada a fome. chegou a arrepender-se da aventura. um daqueles que descobrem terras distantes. mais escura. contando que o rio corria eternamente por entre árvores gigantes.Vamiré. À proporção que ele se adiantava remando. a cada emboscada que ele entrevia nas sombras. retomando o remo. Assou algumas postas de um esturjão arpoado na passagem. Não porque os monstros da sombra não girassem à volta da sua canoa. estendeu ali a pele do espeleu e. era também mais vagarosa.»-Sentado sob uma faia de franças trémulas.

Levantando-se. e se haviam acostumado às ausências dele. O homem das árvores parou. Um dia. lembraram a Vamiré palavras de Sboz. já sem ira. conservavam apenas algumas famílias solitárias. entreabrindo os beiços. espreitando com os olhos redondos. por baixo da espessura da ramaria. Venturoso sejas! O homem das árvores pôs-se em pé.. por cima da acidentada areia movediça. o homem das árvores bateu no peito e ameaçou o troglodita. à proporção que ele os vencia em maior número. despertou quando as aves findavam o hino da alvorada. aquele que de entre os Pzanns penetrara até mais longe no desconhecido da floresta: naquele extraordinário ser. estimulavam-no à perseverança. . descobriu-o de súbito. Vamiré tornou: --Vamiré. de braços desmedidos e peito largo.. H. amigo. a sua estatura excedia a da pantera. É verdade que Zom e Namir o tinham já esperado por outras vezes durante dois ou três quartos de lua. mas então. de raros cabelos. nem as ciladas dos homens. ao lembrar-se de Zom e Namir. Um ruído de ramagens chamou a sua atenção. que Vamiré não podia transpor. seus geradores. mas estes próprios obstáculos. Vamiré deu alguns passos em frente. mais novos que ele. Estranho aos povos da Europa e quase aos da Ásia. amigo! O homem das árvores rosnou. de punhos cerrados e pupilas trémulas. Por entre espinhais e grossas raízes que ressaíam da terra. --Hoi!. reconheceu Vamiré o homem das árvores.. parecia dotado de uma força extraordinária. nem o mamute. senão aumentar a desconfiança do desconhecido. acocorado nas mãos posteriores. e com uma curiosidade crescente. vendo a inutilidade das palavras. as maxilas enormes. o prazer de encontrar um semelhante. depois de uma semana de solidão. sem que diminuísse a simpatia. de menor estatura que o nómada. Vamiré calou-se. Coberto de pelos penugentos. de andadura oscilante. soltou o grito de chamar. desviando as frondes. pela ânsia de perigos sem recompensa. recorreu aos gestos. os seus olhos circulares. árdua era a passagem.-O homem das árvores rosnou outra vez. mantendo-se na defensiva. quando o orvalho escorria das árvores como chuva ligeira..Vamiré. sem avançar todavia para o Pzann. inquieto. Rosny saudade. as sobrancelhas emaranhadas por cima das pupilas amarelas. aos pulos. que duração teria a viagem? 17 Os obstáculos acumulavam-se. acompanhando as palavras com o gesto.. certamente hesitante sobre as intenções do outro. senão levando a canoa pelas margens. Viu avançar então um vulto cor de freixo. Vamiré. As suas quatro mãos. a sua epiderme escura e granulosa. cada período o impelia para as regiões ardentes: cem mil anos depois do êxodo da raça. Vamiré teve um movimento de simpatia. as florestas meridionais. Sem se importar disso.. mas agora.. O nómada. Este irritou-se: --Vamiré não teme o leão. as suas orelhas delicadamente contornadas. o seu rosto. próprio dos Pzanns. by J. especialmente as cachoeiras. raras e espessas. À vista do que. por entre répteis e feras alapadas. mas mais largo de ombros. e de seus irmãos e irmãs. Vamiré admirou-lhe a fisionomia feroz. mas sem outro resultado. e.

Esta pausa pareceu inspirar alguma confiança ao homem das árvores. talvez recordações directas. voltou-se e viu que o homem das árvores o tinha seguido e o olhava com curiosidade. e convencendo-se da impossibilidade de se fazer compreender. À excepção do assalto de uma pantera. Rosny Os dois contemplaram-se por algum tempo. a sua raça estava agonizante e a do outro vitoriosa? Traria ele. retirou-se para a sua canoa. à excepção da tortura dos infinitamente pequenos que sem cessar lhe perseguiam o corpo. as revoltas. e cujas entranhas ele fez em pedaços.Vamiré.. novos recantos silvestres em que as árvores eram mais acanhadas e mais raros os colossos seculares. à excepção das ameaças dos répteis. a vegetação começou a clarear-se. ao dissolver-se o período terciário. E o homem das árvores. não lhe tornavam agradável tal presença. continuava. ressurgidas subitamente nas fibras hereditárias. Embarcado Vamiré. Por outros indícios ainda. e cujo despertar indefinido. Cada vez mais hábil em adivinhar os perigos. no crânio moroso do homem das árvores. Vagos instintos porém. Porque não seria ela a fronteira do mundo? E contudo as cachoeiras iam diminuindo. temores atávicos. e desculpando ao selvagem a desconfiança. as campanhas perdidas. Quando chegou ao rio. de sangue a sangue. Embora menos analista que Vamiré. Vamiré só tivera que vencer os obstáculos do inanimado. Ao sexagésimo dia. by J. equivale à memória directa e precisa?. e sempre a floresta! Vamiré começou a duvidar de que ela terminasse. H. . e onde as árvores se disseminavam muito. A margem esquerda mostrou-lhe velhas estepes. as dores.. pela presença de animais que preferem a proximidade dos espaços livres. do homem das árvores. a espreitar Vamiré. as nostalgias. e enquanto a débil canoa se afastava. sobreposta de nariz chato. e uma admiração pânica e uma impressão mista e selvática como as sarças marginais. desajeitado. pela própria natureza do terreno. os êxodos perpétuos. Por muito tempo. percebia também que estava na presença de um semelhante. embora menos desconfiado. entre o raizame das margens deixou-se ver imóvel uma face atenta. deixando de gesticular. a fim de a pôr a flutuar. as ciladas da terra pantanosa e das plantas emaranhadas das angras. sorrindo. manifestando uma paz de herbívoro. Por duas ou três vezes se avistaram clareiras. ao simples aspecto da terra e das águas. por misérias e vivendas depressivas. haviam desaparecido as suas últimas duvidas. tudo que se transmite de geração a geração. vagueavam no cérebro do homem inferior. 18 Sentiria ele que outrora. Vamiré correspondeu-lhe imediatamente. que com os braços peludos esboçou um vago gesto de amigo. O Pzann. Vamiré pôde pressentir o bom êxito da sua empresa. Dois dias depois. entressonho de vidas passadas. acostumara-se a rir de tais obstáculos. ele ocupava a mesma escala do grande dolicocéfalo que estava em pé diante dele? Que. gravadas na sua carne. ligeiramente arborizadas. VI Contra-anúncio Mais alguns dias. que do alto de uma árvore o atacou. e maior altivez palpitava no seu coração e nas suas carnes. uma certa benevolência se desenhou na boca cinzenta. A sua fisionomia desvincou-se.

para o ano seguinte. de onde avistava um amplo horizonte. Foi durante uma paragem. ascensional. convenceram-no da fecundidade do terreno. Rosny Ao meio do sexagésimo oitavo dia. de aurocos. A certeza de que ela era moça demonstrava-se não só ao simples aspecto. bebidos pela tepidez firmamental. de veados. violácea. por onde se escoavam os encantos da luz. viu-se que atingia apenas a puberdade. e cuja aparição lhe encheu triunfalmente o peito. uma perspectiva verde. No outro dia. cada vez mais. parou à beira de um oásis e passou ali a noite. se não sobreviesse alguma aventura. para o lado do Ocidente. se não estepes imensas. na satisfação de Zom e de Namir. Ia chegando a noite. O solo era firme. Apenas as gramíneas guardavam a humidade fluvial: a terra ávida tudo absorvera. de instante a instante. . de crânio alongado e compleição robusta. viu aproximar-se uma mulher. Vamiré gostou da tempestade. e empreendeu uma excursão a pé. quando lhes contasse a sua viagem.Vamiré. Abrigado sob umas figueiras silvestres. sobre a colina. Mas. à proporção que ela se aproximava. prosseguiu na marcha. esfarrapados os nimbos. Vamiré marchou deliciado para a paisagem. a regressar. a onda que nele se agitava. traduzia ansiedade e satisfação. Mas o firmamento. quando o nómada acabava de comer um par de codornizes. entrecortadas de oásis. Depois da chuva. surpreendendo Vamiré pela dissemelhança com a rapariga vulgar da Europa. 19 Depois de algumas horas. e uma ligeira sombra. desfeitos pelos choques eléctricos. orladas de fosforescências. entrecortadas de verdes maciços. pensava na surpresa dos Pzanns. onde a vida se alastrava em expansões inúmeras e subtis. do coração ao cérebro. ocorreu uma aventura importante. entre as árvores. armou-se com as zagaias e a clava. Rindo consigo. As nuvens disseminadas desmanchavam-se em pedaços efémeros adiante do sol. À hora do crepúsculo. Os últimos vestígios silvestres tinham-se desvanecido. e projectou uma grande expedição de moços Pzanns. by J. amarrou a canoa numa calheta escolhida. tornou-se ardente. resolvido. entretecidas de gramíneas da planície. Juntaram-se grossas nuvens. a inclinação das estepes. Vamiré chegou acima de um outeiro. carbunculosas. Ficou extático. a floresta-oceano. Quando se despenhavam as águas do céu. Nada havia já. mas também pela cadência do andar e pela flexível vacilação das ancas. atrigueirada. Vamiré desnudou os ombros e recebeu com voluptuosidade a fresca inundação. os raios caíram majestosamente sobre a floresta. caçadas durante a marcha. Ao Sul. o seu organismo absorveu a força e o movimento dela. Vinha vestida de fibras vegetais. Quando ela chegou a trinta passos. Vamiré encobria-se. Vamiré. por muito tempo. a perspectiva de uma região de caça e transito livre. ao segundo terço daquele dia. mimosa virgem de grandes olhos. H. comprimia as plantas. as gramíneas e as plântulas predominavam. tão acordes com o estado da sua alma. de cavalos. refrescava as perspectivas. Calmou-se entretanto a tormenta. Ao Norte. Pegadas de uros. visto como havia descoberto o que desejava: novas terras de caça. giratório. por cima dele. o novo pais que Vamiré desejava conhecer. Um sopro angustioso.

não compreendia senão movimentos amplos e monótonos. de raças cultuais. os olhos e as interjeições de Vamiré iam-na tranquilizando a pouco e pouco. perturbando-a ainda mais. retardado simplesmente pelo prazer de ver flutuar os cabelos da fugitiva e requebrar-se seu tenro corpo em curvas tentadoras. mas sem esperança de escapar ao formidável caçador. após milhares de séculos sem contacto com as hordas nómadas do Ocidente. Vamiré levantou-se de um salto. enquanto hesitava. Vamiré. sorrindo. Parou e voltou-se. Mas a linguagem da natureza. mais rápida e mais sonora que a sua. ergueu os braços suplicante. Sentindo rumor e voltando-se. como a aproximação de uma tempestade nos nervos de um pássaro. Vamiré perseguia-a. Ela recuou. significar-lhe que não queria fazer-lhe mal. e a forma dos seus lábios e da sua fronte. agitada por um sangue eléctrico e por todo o amor de Maio. Rosny 20 O seu rosto. Filho da arte. e o peito turgescente sob as fibras do vestuário. Com o susto a reflectir-se nas pupilas. aonde o levara um capricho seu.--da mesma forma que o herbívoro. voltando à desconfiança. a viandante abeirou-se do oásis. pela encantadora viveza das pupilas. tudo lembrava a raça longínqua. Vamiré pôs-lhe a mão no ombro. pelo andar oscilante. a virgem viu chegar Vamiré. e por duas ou três vezes procurou ladear. lho ofereceu: não sem desconfiança. e resolveu-se. guarda o instinto atávico de reconhecer o grande tigre. desprendendo um dos seus enfeites de marfim. correndo ligeira. o terror impresso nos lábios e nas pálpebras da desconhecida. e na cabeça o hálito do caçador. Filha de raças não plásticas. com a rapidez de um garanhão. Pisava as grandes ervas. Mas na sua imaginação bárbara. a representar o desenho por gestos. o instinto sequer. e o talho das suas pálpebras. Hesitava o nómada em assaltar aquela presa de amor. Assombrada e gritando plangentemente. do seu triunfo sobre o grande ocidental de cabelos claros? Menos tremula. H. Mas. continuou a murmurar silabas.Vamiré.--e pegava no artefacto em sentido contrário sem o compreender. Entretanto. pareceu surpreendida quando Vamiré. . pela precisão dos contornos.--a corrida de um uro. Vamiré tentou responder. Menos vivas e mais profundas. tentou fugir. esboço de poema selvagem e retraimento de brutalidades voluptuosas diante da ternura. estranho desde séculos às regiões bravias. e esta presciência do desconhecido abalou-o. Previu coisas inteiramente novas naquele recanto do mundo. e o porte da sua figura.--Vamiré percebia a distância entre o seu organismo e o da adolescente. cheio de alegria. pálido como as nuvens primaverais. --Vamiré é bom!--murmurou ele. O nómada ficou imóvel diante dela. A virgem sentiu-o enfim junto de si. A desconhecida já sorria também. e uma horripilação atravessava-lhe as fibras. convencido da impossibilidade de compreender aquela linguagem. em meio de uma caudal de palavras confusas. a virgem contemplou as linhas gravadas na pequena lâmina. Mas os seus gestos de estatuário eram novos para ela. tomando por tangentes. perseguido por uma fera. a estrangeira pareceu infinitamente apetitosa. percorreram-lhe o organismo novas impressões. cada vez de mais perto. pôs-se a indicar a direcção dos traços. by J. propenso à voluptuosidade dos contrastes. Teria ela a compreensão. que os observava atentamente. mais comparável à circunferência dos freixos que à dos choupos. Mas ainda mais que pelos gestos. um pouco redondo. Então. mescladas de uma indecisa malícia. distantes da natureza. sentiu-se atraído pelos longos cílios de frouxel negro. a humanidade que se engrandecera. encobrindo-se com as moitas. os seus cabelos iguais à melânia dos lagos em noites sem estrelas. a sua cintura breve. moveram-no à piedade. O nómada.

a força de Vamiré. Os que lhe iam na cola. cobertos de mantos tecidos com fibras de plantas e lã de animais. enquanto ela. Vamiré. Supondo-se mesmo que mantivesse a sua velocidade. E. --Vamiré não tem medo. Armados de grandes arcos e lanças velozes. Irritado. deu um salto e bateu as mãos. a atracção do desconhecido. viu. seguiu-a e segurou-a por um braço. levada por um homem que a não tratava severamente. Vamiré tomou caminho. Vamiré. seguindo-lhe a direcção do olhar. via os homens da sua tribo. não cansariam tão depressa como Vamiré. contrariado. a menos que este não abandonasse o fardo.Vamiré. gritando alto. armados de grandes arcos e lanças. deixando descansar a cabeça e a parte superior do peito no ombro de Vamiré. como os dolicocéfalos ocidentais. Vamiré não viu os perseguidores. não poderia chegar lá antes de metade de um dia. um tanto travesso. a impressão feminina de que a violência do homem não era uma injuria. Uns longes de vaidade. Mas ele não pensava nisso. um grupo de homens. e a sombra do caçador e da sua presa galopava. e. correndo. Ágeis contudo. e contudo desejaria também salvar a vida do seu raptador. desejaria sem duvida que eles triunfassem. Aterrada por ver que era leve como uma cabrinha sobre o peito do nómada. não pareciam perseguidores de presas. Mais suave. Rosny De repente. estendendo os olhos pelo horizonte. 21 Não obstante o fardo. Vamiré corria para leste. com uma velocidade surpreendente. Ao longe. e de raça menos encorpada que a dele. a luz cobria de âmbar a planície. H. dominado pelo seu temperamento de lutador. excitado pelo grito dos que o perseguiam. homens de jarretes de fera. Decorreu uma hora de terrível correria. Voltando-se subitamente. Passados alguns minutos. para a margem onde deixara a canoa. Ela debatia-se. Subiu a um montículo e avistou-os a mais de quinhentos cúbitos. vestido com a pele do espeleu e armado de clava e zagaia. Abriu os lábios num sorriso triunfal e gritou: --Eô! Eô! E. Diante da impossibilidade da luta. a desconhecida. depois que a lua estivesse no zénite. muito depois do crepúsculo. by J. não permitindo a fixidez de um desejo. mais inclinada. como a estrangeira se ia afastando. com um gesto. projectando-se imensa para leste. deixou-se possuir de uma desesperação de idílio frustrado e de orgulho ferido. aproximar-se. voltando-se para a virgem: . crispando as mãos. e pôs-se a correr. Vamiré apertou-a contra si e levantou-a. que eram doze. fazia sinal ao nómada para que fugisse. todas estas coisas vagueavam no seu espírito semibárbaro. Mulher afinal. defendeu-se sem violência.--disse ele altivamente. começou a sentir uma vaga curiosidade. a donzela deixou de se defender. na planície. pelo menos nos primeiros minutos. foi ele o vitorioso. membrudos. em que Vamiré aumentou sempre a dianteira que tomara. tacteava as suas armas e contava os sobrevindos. distinguia-lhes os gestos. eram por ela confusamente cotejados com Vamiré. timidamente.

. hora em que os grandes ruminantes se deitavam na planície com uma segurança encantadora. Ia-se entretanto extinguindo o dia. não compreendia o acto da oriental e olhava-a com curiosidade. Quanto a ele. Chegava o crepúsculo. A respiração de Vamiré.Vamiré. e Vamiré estremeceu. cansariam primeiro. rouca e desagradável pouco antes. O caçador sentou-a. Vamiré retomou a dianteira que levara. em que os animais diurnos não tinham que recear o vaguear das feras. Vamiré inquietava-se e encantava-se com isso: achava-a assim mais amável. e pareceu então evidente que os outros. ao cair do dia. Era a hora da cor de jalde. ao lado dele. Demais. O nómada murmurou então algumas palavras. estender os braços para o horizonte e falar ao disco do sol. H. com menor convicção: --Vamiré é o mais forte!-Os perseguidores aproximavam-se: era necessário recomeçar a fuga. Na extrema do horizonte. e debalde o caçador procurou avistá-los. compreendendo a inutilidade de qualquer tentativa de fuga. foi-se regularizando. Com uma lentidão majestosa. deixando ler no rosto uma temeridade feminina. um estádio de repoiso. os perseguidores. Descansou pela segunda vez. E ficaram ambos silenciosos. maliciosa. by J. começaram a desunir-se. Na planície. demoraram-se ainda algum tempo. melancólica. um silêncio sem vibrações. poisando a desconhecida. com inquietação talvez. Consolava-o contudo a ideia de que os seus perseguidores deviam estar também extenuados. Ela encrespou as pálpebras. subindo a um montijo. por toda a parte despertava um frémito eufónico. dominado pelo misterioso da aventura e pela estatura elevada e agilidade extraordinária do dolicocéfalo. sem que nenhum curasse de se adiantar aos companheiros. o vulto dos archeiros fora-se esvaindo. vagamente supersticioso mas sem culto. os mundos do colorido iam-se apagando sobre o Poente. Quando ela terminou. A corrida de Vamiré tornava-se frouxa e difícil. a perseguição parecia abandonada. vendo a sua companheira inclinar-se. Hora de segurança e bem-estar. Os outros conservavam-se quase em grupo. atrás dele. e em que alguma coisa do viço matinal voltava. Rosny --Vamiré é o mais forte!-- 22 Ela voltava a cabeça. balbuciações de pássaros. desdenhosa. mas. e repetia. Filho dos ocidentais não hieráticos. e ficaram em silêncio por minutos. Esta. Ela abriu os olhos. e não ele. ofendida por aquele sorriso e por aquele grito. uma atmosfera melancólica e fresca. até que a lua se ergueu. O olhar de Vamiré era sereno e terno. e inquietava-se por ver que não poderia recomeçar a corrida. Os oásis esparsos difundiam vida em torno de si. e o seu olhar encontrou o dele. o peito arquejava-lhe mais rítmico. quedou-se de pé. que até então corriam juntos. sentia-se agora muito fatigado para exprimir o seu triunfo. os nemóceros voavam em altas colunas por cima das superfícies húmidas. e três ou quatro apresentavam-se muito fatigados para prosseguir.

--significou Vamiré. o eterno sonho da lua e das constelações. a chama levantou-se. Ela compreendeu o gesto. ali sozinha. pequena ao principio. esgotado nas suas artérias o sangue de Maio. sibilou. povoavam-lhe a mente e torturavam-na até as lágrimas. antes o considerava como barreira única diante da noite formidável. se aproxima das três figueiras. A refeição foi breve. anunciavam a proximidade da floresta. não chegava a odiar o homem que a roubara. A asiática. lançada ao ombro e fixada por ligaduras. uma lebre. o lobo fugiu e Vamiré foi apanhar a lebre. . Perfis de felinos apareciam a espaços. Ela assentou-se. Mas eis que um lobo. cheio de cansaço. e o pequeno animal rolou entre as ervas. O cansaço de um e a comoção de outra não lhes permitiam comer muito. Perturbou-se. Vamiré. --Descansa!--disse ele. como fizera diante do sol poente. marchou ao lado dele. 23 Ela compreendeu o gesto e. na planície observava atento o horizonte. e a filha dos orientais entregou-lhe a sua alma confusa. Depois de algumas tentativas. os raios do luar incidiam mais prateados sobre as ervas. antes de mil passos. A natureza dominou-a. Esfolou-a rapidamente e suspendeu-a de uma frança. à palidez do luar. abatido. Vamiré. acertadamente dispostas. e ambos comeram em silêncio. os rebanhos de bois asiáticos. tirou de um saquete o sílex com que os dolicocéfalos faziam lume. percebia a fragilidade do seu ser. tinha um aspecto triste. Ao salto do caçador. mas avivada depois por mancheias de combustível. Começava a estepe a cobrir-se de mais numerosos oásis. inclinou-se. Sentou-se então contra um vidoeiro e. multiplicando-se em moitedos. que. onde se dessedentaram. mas atormentava-os uma viva sede: era mister prosseguir na marcha até se achar água. Sonhando. depois.Vamiré. ele era um apoio. saltou assustado um animalzito. avistou um regato. e ela cedeu à semi-morte quotidiana. Era já um principio de intimidade. Vamiré começou a ouvir o murmúrio de águas e. entrecerrou as pálpebras. quase ao mesmo tempo. em luta com o cansaço. Vamiré esperou o ponto em que lhe ficasse mais próxima a carreira dela. Postado em linha obliqua. enquanto subia a lua pré-histórica. by J. os sacerdotes. o larário da noite. Depois. H. impassível. de confiança. convidou a sua companheira. Depois. Depois. robustas e cheias do perfume da primavera. Muito ao longe. Rosny --Vem. e Vamiré entendeu que a sua companheira devia ter fome e sono. --Dormir!--deu a entender o homem. O sonho infiltrava-se por entre as ramarias. um cervídeo ia fugindo. de resignação mais calma. à vista do lume. nada feroz. de focinho erguido. e a lebre começou a assar-se. perscrutou Vamiré. sem resistência. a sua família e a sua tribo. e com igual melopeia de palavras. Mas Vamiré. ajuntando ramos e ervas secas. A estrangeira admirava profundamente a grande clava do caçador. a sua zagaia ergueu-se. cheio de poderosas moléculas. e. Marcharam por muito tempo os dois vultos. na solidão da noite. mas. logo após. enquanto o lobo e o chacal começavam a uivar sobre as estepes. Ele tinha sobretudo sede. não tinha o ardor de pouco antes. estendeu as fibras mais secas e fez saltar centelhas. acabou de assar a lebre. Vamiré vai caçar. as árvores. Puseram-se em marcha. submissa. um tanto receosa ainda. Era debaixo de três figueiras silvestres.

que lhe pendia dos ombros. mas. Mas nada viu de duvidoso. dobrado em ziguezague. as ombreiras dos salgueiros interpostos diante da lua. resolveu aumentar ainda aquela boa disposição e pôr-se a caminho. estremunhada. como a pele do espeleu. Vamiré sentiu o ambiente pesado. oferecida por Vamiré. profundas. segurou com a mão a veste da adormecida e estendeu-se sobre as ervas. Por ter trazido consigo a donzela. H. cheio de piedade? Incapaz de a analisar. o uivo dos animais. a cabeladura desprendida ao longo do pescoço. assustada. as retículas da vegetação. A lua começou a declinar e estava a menos de trinta graus do horizonte. VII A perseguição Pouco depois do alvorecer. assegurou-se da presença da sua companheira e pôs-se de pé. ficou triste e estendeu um olhar sombrio às estepes lunares. e as suas carnes viçosas eram uma invocação à felicidade. A ascensão da lua. Restava um pedaço de lebre. partiu-o em dois e comeu um. maior que a dele. à queda avermelhada do astro nos abismos ocidentais. Vamiré contemplava as facetas da água. A delicada cabeça apoiava-se no cotovelo. ia-se ela acostumando à presença do caçador. tendo refrescado a cabeça no regato. Uma onda de sangue rugiu nas fontes do caçador. admirava-lhe os dentes de lobo. o seu ser retraído e as suas carnes cedendo ao repoiso. Pelo seu cérebro vagueava um devaneio vasto e tranquilo como a noite. os fantasmas arborescentes erguidos na planície. O caçador. De maneira que não recusou a ligeira refeição. renascendo-lhe o apetite. as árvores iam-se transmudando em fisionomias movediças. contemplando a adormecida. by J. encantado. o murmúrio dos fluidos. reaparecia nele o instinto selvagem. os condenara ao repoiso. que alvoraçava Vamiré. pois que o dia se aproximava. toda aquela aventura se lhe esboçava em notas lentas. observando a planície. Vamiré e a sua companheira chegaram enfim ao rio. quando Vamiré despertou. pareciam conceder-lhe o tempo e o espaço. e concluiu que os perseguidores tinham desistido do intento ou que a sua fadiga. Entretanto. O seu corpo. Com um lance de olhos. Mas que instinto ou que doçura poética o fez erguer. Amortecido pela fadiga. Depois. Ela ergueu-se lentamente. Furtivamente. Por sua vez. Mas o firmamento começou-lhe a vacilar. readquirida a percepção das coisas. Correu tempo. acordou a sua companheira. sentiu prazer em mordiscar a coxa assada da lebre. O homem abaixou-se. Depois. a sagrada recordação da tribo interpunha-se aos dois e enchia-a de saudades. Deu vagamente alguns passos por baixo do vidoeiro. foi-a invadindo uma vaga satisfação. achava-o mais belo e mais robusto ainda do que na véspera. Estava estendida agora sobre o solo. ficou. sem que ela por isso o impressionasse menos. parecia-lhe sua. Rosny 24 Sentado à beira do regato. e não sei que sentimento de maternidade se mesclava ao amor crescente do moço pré-histórico. eternas. tinha um estranho encanto. e até. por alguns minutos. de olhos baixos. .Vamiré. Como se sentia bem disposto e com as forças restabelecidas. tocando-lhe levemente.

acompanhando a margem. por onde a corrente era mais branda. Mantendo-se a velocidade actual da canoa. a rapariga avistou por sua vez os que a procuravam. by J. a sua salvação dependia de uma dezena de cúbitos. nada poderia ser observado pelos perseguidores. quando teve um rebate. o seu fatalismo de oriental. Vamiré baixou os olhos. não sendo visto no momento em que eles chegassem à margem para conhecer as condições do rio entre a vegetação que o ladeava. . os raios do sol oblíquos. após alguns minutos. foi enorme a inquietação de Vamiré: um dos asiáticos. Calculando bem as velocidades respectivas. Graças ao cortinado das árvores. Vamiré não descobriu a impressão à sua companheira. Era deliciosa a hora. pareceu a Vamiré que ele nada tinha visto. estava em posição de lhes seguir os movimentos pela planície inclinada que levava ao rio. na planície. Felizmente a ilha estava próxima: mais algumas remadas. Demais. dirigiu-lhe um olhar suplicante e humilde. e desde logo percebeu o nómada que eles lhes seguiam a pista. Foi quase preciso empregar a força. ou que teria atravessado o rio e continuado o seu caminho para leste. Mas quando nela quis meter a estrangeira. antes que o sol estivesse a meio caminho do zénite. e a sua fisionomia animou-se. Empenhou todas as suas forças num impulso supremo. como na véspera: --Vamiré é o mais forte!-Ela conservou-se firme. desde que ela se viu embaraçada. voltando-se para o seu raptador. lentamente. a dois mil cúbitos. Pela maneira como deixou cair a mão. hesitariam necessariamente entre três ideias: que ele teria descido a corrente. parecia olhar na direcção dos fugitivos. H. e começou a pangaiar com mais ardor. Mas haveria apenas meia hora que ele pangaiava. mas não era menos certo que o cortinado das árvores se tornava menos opaco para os outros e podia ser sondado por algum deles. e abeirou-se rapidamente da ilha. Mas. não restava duvida: eram homens parecidos aos perseguidores da véspera e provavelmente os mesmos. esta manifestou violenta repugnância. Naquele momento. que ele avistava mais acima. Soltou uma exclamação. Vamiré calculou que. que lhe fez dizer. Entretanto. Vamiré. uma resolução rude. e Vamiré esperava chegar lá. Árvores mais numerosas anunciavam a proximidade da floresta. com todas as paragens inerentes a este modo de perseguir. e toda a natureza rejuvenescia nas estepes. indiferente na aparência.Vamiré. Chegando lá e voltando à direita. O seu olhar perspicaz descobria além. cujos intervalos lhe serviam de observatório. Mas depois veio-lhe o despeito. pôs-se a navegar rio acima. Minutos depois. voltou-lhe a resignação. pondo a mão em pala sobre a testa. observando obliquamente a vinda dos outros. no intuito de atingir a floresta e desembarcar na outra margem. próximo dessas árvores. que a teria subido. e. uma multidão confusa de homens ou animais. Mas ao mesmo tempo chegavam os outros ao rio. não traziam pressa. ao passo que ele. comovido. e Vamiré estaria no pontal. Rosny 25 A abandonada canoa lá estava ainda na moita onde ele a escondeu: teve só que tomá-la aos ombros e pô-la a nado. seria possível chegar à ilhota longa e estreita. coberta de arvoredo. paravam amiúde. Vamiré tinha a vantagem de que eles não descobririam prontamente a canoa.

Ela assustou-se. de uma graça mais discreta e de uns revérberos vertiginosos. Os outros. o mistério das forças.--ele chegaria provavelmente à região florestal antes de ser avistado. nunca mais!-E. de organismos sáurios. descobriam-se sapos colossais. certamente não podiam ainda explorar o rio. Vamiré conservou-se irritado dois minutos. enquanto os seus inimigos não chegassem ao ponto marginal correspondente ao centro. o divagar da fome. serenou. Sem reagir. mais vagarosos. A pequena embarcação singrou silenciosamente por algum tempo. E assim foi chegando Vamiré até meio da costa. de veias frias. à sombra. e ali a dificuldade da marcha para eles dava toda a vantagem à canoa. Depois. calou-se. Vamiré deu as últimas remadas. recoberta de áspera vegetação.. vogando livremente sobre as águas. As ogivas dos ameeiros e dos freixos roçavam Vamiré e a sua companheira. dominada. ele estava de melhor partido. dobrou o pontal. e. lá em baixo. invisível. com os temporais latejantes.. de repente. convencido de que o grito não chegara à margem. o contacto interminável da terra. à feição de proa. a afilar-se. de árvores devoradas por cipós.Vamiré. ficando à esquerda.. A ilha ia-se alargando. As águas azulejaram. Rosny 26 Mas. entregue ao seu fatalismo. da alegria perfumada das corolas. dado que eles continuassem a persegui-lo. revestida. de madeira bolorenta. ergueu-se em pé e soltou um grito. o eriçar-se dos organismos imóveis. H. das angustias. Ainda mesmo que eles passassem para a outra margem. ao mesmo tempo. a ilha começou a estreitar-se. chegados a uma zona. triunfantemente com o dedo à oriental: --Nunca mais te haverão. obrigando-a a sentar-se de novo na canoa. a floresta ostentou-se a três mil cúbitos. o choque das moléculas e dos seres. emanava das sombras um bafio de humo. e a imagem trémula das coisas ressaltava das águas.. retomou o remo e continuou a costear a ilhota. sacudindo-a.. by J. em que as pegadas de uros se confundiam com os vestígios de Vamiré. léguas de floresta. o rio mostrou-se largo e límpido. e um astro de âmbar pálido rolando nas solidões do firmamento. VIII Noite na floresta Ainda a noite! A vida imensa e minúscula. Avistou-se enfim a ponta da ilha. aves pernaltas. De espaço a espaço. percebendo-lhe a estratégia desesperada. a interposição da ilhota-navio o tornaria seguramente invisível. mais hesitantes. Aqui e ali. dos amores. Através do incenso primaveral.--caso em que o perigo seria mais próximo. tomou terra numa pequena calheta. Devidamente. . e pôs-se a perscrutar a estepe. pontais a dobrar e plantas fluviais sobrenadando. depois. Vamiré apontou-os. palmípedes. O nómada entendeu que. e levantou-se furioso: --Cala-te!-A sua mão rude levantou a rapariga. atravancavam a canoa. a sua companheira. estremecendo ao roçar da aragem.

afastam-se depois. e apesar de todos os perigos. levando a sua presa. e fecha as pálpebras. sem que o nómada saiba se são perseguidos ou não.. Fortaleza sólida. à proporção que lutara por ela e contra ela. sabe que é valente e pacifico e conhece a história melancólica da sua decadência. mas tudo vencera o caçador. H. À proporção que ele vinha fugindo. a floresta abundante de ciladas.Vamiré. perturba-o com o seu silêncio. cheio de piedade e de paciência. afasta-se na direcção do rio. Só a iminência de um perigo. o descanso. Débeis ondas de luz.. Àquela. era o da sua companheira. adormecida. Conserva por ele o respeito que os velhos transmitiram. e Vamiré. uma pantera ia passando na dúbia claridade do mato. e Vamiré distingue-lhe a crina e a pelagem. em compensação. lentas. hora. que pronunciou. monótonas. nome que ele obtivera na paragem do meio dia. o perfil da sua larga cabeça torna-se mais nítido na penumbra.. Por baixo das ramarias. Se uma fera tentasse violá-la. o medo de a perder ou de morrer poderiam devolvê-lo à brutalidade de troglodita. Se se sente rudemente impelido a levar a aventura até ao desenlace. suspirando.. É a terceira noite que passam na floresta. Ao meio da noite. as peripécias da travessia vinham-lhe à mente. admira o enorme animal. coberto e fechado por grossos ramos. Vamiré. que se põe à escuta. Demais. deitando-se. Abrem-se então os olhos negros da sua companheira. eis o colosso quaternário. Vamiré construiu provisório abrigo. com a sua misteriosa prosternação perante o sol poente e o sol nascente. As ideias chocam-se confusamente. que acumulara fadigas para a raptar. Em torno do abrigo. o rio cheio de sinuosidades. apoiado nas colunas redondas das suas pernas. com a ponta da zagaia. Soaram entretanto uns gemidos roucos: Vamiré avistou o vulto de um grande tigre. Vamiré. entrelaçados de enrediças. --Lô! Lô!-O mamute continua a andar. 27 A doçura penetrou-lhe na alma. Agita-o uma certa inquietação ou febre primaveral. imóveis durante horas. O nome. embebida num veneno subtil e encabada numa haste de freixo. e o próprio tigre recua. com as suas defesas brancas cintilando à frouxa claridade. --Élem!. o grande mamute da decadência. A fuga fora penosa. diante da braveza da noite.. e a respiração igual atesta o sono. mais preciosa se lhe tornara ainda. Vamiré é o senhor de Élem!--Contempla-a. ainda vivo. Adianta-se majestosamente. até ali desconhecidas. Vamiré teria tempo de a ferir mortalmente. delicadezas de sentimento. e os flancos enormes. Assalta-a uma ideia de . Rosny Entre musgosos montijos. O animal roça o abrigo do caçador. com as palavras que ela então profere. Vamiré palpitava diante daquele perfil indefinido. a tromba escura que se baloiça sincronicamente. de envolta com o nome da sua companheira. estremecendo. julga que pode ter uma hora de sono. pelos interstícios. sente-se. os lobos afastam-se. escoavam-se dos orifícios do abrigo sobre o rosto da virgem. --Élem!--murmurou ele.. O desenvolvimento da sua ternura coincidia com afectuosidades subtis. Ouvem-se na clareira passos pesados. vagueavam lobos. rítmicas. quando a apertava com perguntas gesticuladas. se deseja Élem apesar dela. by J. um desejo de refrescar-se nas águas do rio. e recompunha-lhe mentalmente os traços pálidos. abriu os olhos e observou. despertado por certo rumor. Estalam ramos. que devorava um antílope. entremeadas de sombras. ela incute-lhe um religioso temor. com os seus grandes olhos.

. só à ideia do seu grito de cólera. em que o gigante loiro a arrancava ao sono. Vamiré conseguiu algumas vezes que ela cantasse as melopeias. IX O idílio nascente Nos dias daquela fuga febril. Entretanto assoma-lhe aos lábios um sorriso. e o fio para coser. seguia a cadência.--as de bases abertas para receberem a haste. com que a sua tribo acompanhava o trabalho. surgia o cenário da floresta e o vulto de Vamiré em movimento. quebravam aquela indiferença. Por isso os seus receios são mesclados de indulgência. as horas que ao meio do dia dominam a carne e ao crepúsculo o pensamento. tirado dos tendões da rena. quando recrescia o instinto de resistência extrema. se bem que já sabia a arte de entrelaçar as folhas vegetais. e quando surgia a ideia da união dos dois. começara a formar-se o idílio na alma de Élem. ela interessava-se pelas armas. e através das pálpebras. Algumas vezes porém. E não admirava menos a escultura e a gravura. by J. as de pontas que se embebiam num buraco da haste. e ela estremece. poisava os olhos nos olhos do homem. para as regiões da sua tribo? Mas Vamiré ouviria certamente o ruído. inclinando-se às articulações misteriosas. um súbito receio dos lobos nocturnos. Então. permitia um pouco de intimidade.--coisas desconhecidas da tribo dela. ou embalada nos vagos rumores do sonho. Mas. dos seres da sua raça. Em todos os seus sonhos. embebia-se na musica de uma língua desconhecida. encantado pela sua candura de selvagem. da segurança dos entalhes. o desejo de sorte menos inquieta. e reconhece quanto é fraca. as de lâminas como punhais. no contacto dos corpos. apavora-a a floresta que a rodeia. Indispunha-a porém contra ele uma fera que rugia. da verdade das análises. mas o que ela admirava sobretudo era a fina agulha de fundo aberto.Vamiré. as de raspadeira. esquivos. e das quais ela possui a ciência confusa e. já sabia designar objectos e vocalizar movimentos. dos moços que falam a sua língua. enquanto as estepes natais e as tribos pastorís se confundiam e se desvaneciam nos confusos horizontes da memória. amortecida ao calor da atmosfera. concentrados. se ela ousasse. sem a clava e a zagaia do raptador. as de arpões chatos ou de varetas. na convivência. Escutava com curiosidade Vamiré. que procurava explicar o modo de vida dos Pzanns. um desvanecimento feminil e não se supõe simplesmente uma vencida. Escutava-a. Tudo isto ela compreende tão bem como as filhas do homem que hão de viver em longínquo futuro. Rosny 28 libertação. enquanto ele dorme. H. a virgem morena. e durante a comoção das caçadas. sem todavia poder esquecer-se daqueles entre quem passou a infância. Por seu lado. desmanchar o entrelaçamento dos ramos do abrigo e fugir para o Ocidente. abundante de meandros e carnívoros. um relampaguear de tormenta. e fez recuar os apetites do bárbaro. Como uma criança balbuciante. da sua família. mais distantes pareciam um do outro. pelas zagaias. ao mesmo tempo. de que Vamiré empregava muitas espécies. ainda empregava unicamente o furador. Se ela ousasse. o receio da maternidade. a qual. repetia o canto. Porque ela viu-o embaraçado e tímido. espantada da paciência.. subtil. acima da cólera de Vamiré. nas paragens nocturnas. Porque ele ia aprendendo o dialecto estrangeiro. distendia a vontade rude. e seguia a . Mas. acordaria.

Além de que. têm uma beleza vertiginosa. entristecia às vezes. vai correndo pelo amplo intervalo que separa as ramarias. essa cólera procedia da viva aversão a uma raça longínqua. segurando a haste. e os pais reciprocamente guarda-costas das esposas e protectores vigilantes da prole. pelo quê. abrigo formidável da eterna luta. a necessidade de descanso prende-o a quaisquer entretenimentos: a Reparação das armas ou do vestuário. tocavam-se ingenuamente. alto dia. e Vamiré. Vamiré aceitava as provas que deviam engrandecer a espécie. grande despensario de mantimentos. Os raptos de donzelas eram habituais. quis ela informar-se da sorte das mulheres e. entretém-se com a pesca. Abaixa-se o arpão pela terceira vez. Depois das corridas dos últimos dias.Vamiré. Nesta manhã. submergia-se-lhe o coração numa onda de fogo. Admirou-se muito. e ele tomava nos braços a companheira. voga a canoa. Quando havia uma passagem perigosa. Ao longe. Entretanto. como duas crianças perdidas na floresta imensa. e é mister que Vamiré manobre habilmente. a vida que nelas palpita. Rosny gesticulação do homem. ele sabia que nas cavernas da sua tribo os esponsais eram precedidos de preparações e provas. e. mas ele conservava a humildade do leão diante da sua fêmea. pela impossibilidade das minúcias. na caça. para . toda povoada pelos rumores da vida. figurava cerimónias. os liames estão em risco de se partir. comum ao animal frugívoro e ao carnívoro. não tinha a menor violência. porque o animal das águas foge mais rapidamente na esteira do seu hélice. para ela. com os saltos eléctricos da presa.--a sedução lenta. Viviam em comum. crava a ponta aguda no flanco de um pequeno esturjão. Ela obedecia a todas as necessidades estratégicas. pisando os ramos de árvores. lutas intimas. no intuito de ferir algum peixe. a ventura recebida aos poucos. mas. Na marcha. mas. do que a mão do homem se move. que eram já uma delicada compreensão dos transes fecundos do amor--alegrias e penas. iam decorrendo longas horas. algumas ilhotas formam escalão e a imagem das árvores marginais. compreendeu a repartição em famílias. asilo de raças contrárias. febres sufocadas. Já duas vezes errou a vitima. Está tranquilo. que indicava dimensões. era rude com as coisas. a cólera dos orientais não procedia do rapto de Élem. deixava-se quase guiar. a sua cor escura. propicia às ciladas do ataque e aos redutos da defesa. correndo contra os lobos e as panteras. Em torno. Vamiré e Élem compreendiam-se mal. sendo os filhos criados pelas mães. ao réptil e à ave. por entre a frescura das margens. Vamiré empunha o arpão. na cozinha. Vamiré mantinha não sei que nobre doçura. O peixe ondula e ressalta. sem triunfos grosseiros. uma nobreza de bárbaro distinto. sob a direcção dos anciãos. dele procedentes. H. X Combate Depois da alvorada. destinadas a converter-se em grandes batalhas da futura humanidade. porque provinha das tribos monógamas em que havia uniões periódicas com as tribos amigas. a espera de caça apetitosa. 29 De uma vez. sobre o rio que se alarga. as empolgueiras opõem-se à saída da arma. descrevia habitações. depois de alguns esforços. mas. by J. e é por isso principalmente que as gerações. a cada paragem. assumia uma atitude mesclada de temor e galantaria. a floresta é como um antro escuro de mil aberturas hiantes. seriam gloriosas através dos tempos. mais ainda. mas de que Vamiré tivesse cometido esse rapto sem aliança prévia.

para não constituírem alvo muito certo. Élem e Vamiré devaneiam suavemente em completa tranquilidade. através da febre da luta. e uma nuvem de frechas dilata-se no espaço. e vai recuando para o rio. as hastes herbáceas. e de se ver. são os homens do Oriente. caem sobre ele. Este verga-se. e eles obedecem. Reconhece nos seus inimigos a raça de Élem. Então Vamiré sobraça Élem. produzem um acervo de cinzas pardas. e entretanto o sol ilumina a grande arena. Abundam as sarças. e o seu grito de guerra perturba o coração dos mais valentes. onde espera poder embarcar.. ao passo que a luta se anuncia. levanta enfim o esturjão ensanguentado e atira-o para a margem. Os ramos secos.. com que os orientais se irritam. a impressão de um recontro impertinente. de olhos de Érebo. Disseminados. transmudados em carne tenra e saborosa. de onde os orientais espiam o inimigo.. possam os demais vingá-lo. mas erguem-se vozes. na eterna penumbra sotoposta às frágeis padieiras de ramaria. não faz vitimas. correm sobre o raptador. devoradas pelo fogo. com um olhar de melancolia belicosa. o cerrado espinhoso.. por forma que lhes não possa escapar. Trazem tatuados os braços e a testa. os homens trigueiros resguardam-se com os troncos mais próximos. crava ainda mais o arpão. arremessado. em número de sete. O arpão. Mas a zagaia de Vamiré atravessa o mais ágil. se aproximam céleres. onde se embebem pedaços da presa. olhos escuros. ladeada de faias giganteias.. o instinto encosta Élem ao peito de Vamiré. Naquela hora de perigo. No cinzento das faias que formavam polistilos obscuros.. mas eis que uma frecha passa a dois palmos do Pzann. acelerando a retirada.. São atarracados. Desabrocham robustas compósitas com uma flor amarga.. Um pouco entorpecidos pela boa refeição. acham-se a bastante distância da margem. que ele traz consigo. O chefe antevê a perda dos seus. Rosny evitar os repelões muito fortes ou muito perpendiculares. farpados. H. se algum perecer... . por muito tempo. O seu olhar adestrado descobre perfis humanos atrás dos troncos das faias. e de onde se retiram. separando-se da haste o chifre. e todas as mãos substituem a frecha pela lança. Este levanta-se. ali abertos por alguma catástrofe antiga. crânio largo. em que. Um momento de tréguas. a provocá-los. e comanda-os um velho robusto. ao passo que os inimigos. que o Pzann desvia lestamente. e empunha as armas. numa clareira.. que Vamiré e Élem comem com apetite. hirsutos. que vão recosendo os rasgões. soberbos e terríveis. o seu braço dispõe-se ao extermínio. ordena-lhes que parem. estiram vagamente os olhos pela diversidade das coisas. by J. e adiantam-se três deles. o receio de perder Élem. pele trigueira. Os asiáticos coleiam por entre os espinhais. Vamiré empunhara a zagaia. e o Pzann solta o riso triunfal da sua raça. Aqueles perfis emergem a súbitas. Vamiré encara-os altivamente. Na cabeça longa do Pzann. A sua clava gira no espaço. indicando o perigo de Élem. Conhecem a agilidade de Vamiré e. tem apenas o arpão. entendendo que os dois sobreviventes não terão a coragem de lutar contra ele. chovem as frechas. A uma ordem do chefe. até à borda do rio. Vamiré entrevê-os. procurando cortar a retirada de Vamiré. 30 Vai pangaiando com a mão esquerda e impelindo a presa adiante de si. e serve-se dele como projéctil. Táctica hábil. Para arremessar. ferindo o velho chefe. formando leque.. e crescem cardos colossais. as frechas envenenadas vão descrever as suas terríveis parábolas. e refazendo a integridade da floresta. O chefe oriental quer um assalto em massa. rodeado apenas do mutismo petrificante das coisas. Mas Vamiré descobre novo recurso num sílex ovóide. chegado ali. do seu peito hercúleo saem rugidos ferozes. Já os arcos estão tendidos. Vai preparar a refeição.Vamiré.

carregado com Élem. O chefe proíbe que tentem o perigo. desapareceu. apanha apressadamente uma lança e um arpão. ambidextro. Havia uma hora que ele esperava uma reacção favorável para abicar na margem. a inquietação. Vamiré cobria com a mão o seu ferimento.. junta-se ao bando. Vamiré tenta ainda fugir. levantando o pensamento a Zom.. De pronto adquiriu as hastes: doze. Com a febre. até lá. vê-a em poder dos inimigos.. e apanhou folhas balsâmicas e resina para o penso da ferida. parte o crânio de um oriental. Demais. lavou a ferida na água corrente. desembarcou. no peito. porque a barca desaparece por trás de uma ilhota. aceita o combate. ligeiramente. Seguem-nos as frechas: uma ferida seria a morte.. impossibilitado o êxito das frechas. uso das duas armas. em pequeno espaço. Era o fim. e todas as suas forças se congregam na defensiva.. cheia de ansiedade pelo Pzann. levanta-se. pouco havia que recear. que toda doença importa. por cima. antes que a barca possa vogar ao largo. ao passo que o coração lhe vogava nas delicias de uma onda morna. Depõe Élem. Ao cabo de oito dias. H. XI Vamiré Estendido no fundo da pequena barca... Vence-a. confrangente. outra é tomada por ele. e. Ela porém não se retira. coberto de sangue coagulado. O Pzann pôde impelir a barca até à margem. num suave meio-deliquio. refrescou os lábios... mas. com um ombro escalavrado. porque a perda de sangue o mantinha prostrado.. depois. e adianta-se para a reaver. em que ia perdendo a nítida concepção do seu ser. mas o tiro é inútil. e faz ainda uma vitima. de uma solidez a toda prova. Élem solta doloridos clamores. Todos então empunham os arcos. Depois. e o ardor belicoso arrasta o próprio velho para junto do inimigo ferido. uma atadura de pele. será apanhado à beira do rio. Os seus adversários medem o perigo de uma luta aquática. permitia evaporação suficiente. O Pzann todavia sente-se fraquejar. Mas estas peripécias afastaram-no de Élem. Recuando. avançando.. uma alegria de vencedor: comeu e bebeu voluptuosamente. a refrega começa mal para os orientais: uma lança é despedaçada pela clava de Vamiré. salta para a canoa e três remadas confiam-no à corrente.. Este compreende-a. As coisas figuravam-se-lhe pequeninas. Vamiré procura escapar-se. asfixiante. corre para o rio... pequenas. A sua clava é brandida ainda uma vez. by J. Sobraça Élem. e pôs-se depois em cata da madeira necessária para o fabrico de novas armas.. em luta silenciosa contra a dor. mas fraqueja. e estendeu na ferida uma compressa de folhas embebidas de resina. e um grande orgulho despertou. graças às folhas aromáticas e à resina.. Este penso. quase sem dianteira. e. Em desforra tremenda. deixa-a livre... corre o sangue. faz. Corpo a corpo. a Namir.. segundo a oportunidade. e dava até lugar à supuração. para zagaias. . e prostra outro no solo. chega a manter em respeito os cinco braquicéfalos. os da sua raça dispõem-se para o assalto final.. terrível. renasceu a força. Rosny 31 estóico.. enquanto com uma lançada atravessa a coxa do chefe. ao mesmo tempo.. e fere até um deles. e uma. quase imperceptíveis.. Vamiré sentiu grande alivio. e no seu semblante espelha-se o sofrimento e o ódio.Vamiré. seria mister renová-lo. Passou afinal a crise. às cavernas e às grandes planícies. Fere-o de lado uma lança. e.

naquela ocasião. onde adormeceu. ao passo que buscava abrigo nocturno. Em toda noite. Com intervalos. O troglodita. e adormeceu tarde. . Examinou o penso. e passou depois longas horas a desgastar o tronco. macho. Vamiré acordou com fome. para pontas de lança. cujas extremidades queimava. naquela hora. A cabeça ardia-lhe. com a alvorada. em que ele ia matar a sede como sonâmbulo. As dores haviam desaparecido. Decorreram três horas. Vamiré foi à procura de alimento. Quando acordou. à maneira oriental. ao pensar que eles a não possuiriam definitivamente. planeava acabar primeiro a lança. com os seus feridos. além de tudo. de facto. H. uma grande fraqueza o prendia ao solo. Era caça grossa e perigosa. com os seus dois mortos. e depois um tabuleiro guarnecido de pontas recurvas. duas forquilhas primeiro. ia o sol a pino. depois de se ter dessedentado. excitado pelos estratagemas que ele estudava para a readquirir. mostravam apenas um pequeno lanho.. De forma que. Vamiré sorria. as ideias eram confusas. Debaixo das árvores. Os orientais. em risco de ser devorado pelas feras. ao despertar. quanto os cornos do alce proporcionariam quanto era preciso. de arpões e de zagaias. afora o tempo para aguçar as frechas. no quarto dia. mas larga. e. As carnes. by J. Compreendeu que o dia estava perdido. para se precaver contra qualquer ataque. A cabeça desanuviava-se. e calculou que precisava de dois dias. Os períodos da crise sucediam-se como ondas de maré. A banda do arco era chata. os arpões. e. com um encalhe redondo. guiado por um belo alce. aproximou-se do bando. levando consigo Élem. A vermelhidão desaparecia do peito. armado apenas de um arpão e uma lança.. feitas de madeira endurecida ao fogo. Vamiré sentiu deveras. só a emboscada era possível. as trevas envolveram-lhe a existência. mas a distância era ainda bastante. entre os quais o chefe. Era sol posto. junto à ribanceira. servindo-se alternadamente do fogo e do sílex. Vamiré arrancou um pequeno freixo. Vamiré dessedentou-se de novo. Mas. e já a fome começava a atormentar vivamente o estômago do caçador. Rosny grande. poucos recursos havia. sentiu a tentação de ter um arco e frechas. chegara a calma. as veias latejavam. e meteu-se na barca. Abeirou-se do Nada. até a alvorada próxima. as únicas armas que lhe restavam. não pensariam logo em reabrir hostilidades. Esperou pois. porque o alce costumava vingar energicamente o morticínio das suas cervas. as zagaias. do tamanho dos maiores cavalos da actualidade. quase unidas. quando apareceu um bando de cervas. para dirigir a frecha. e as suas pontas espalmavam-se-lhe por cima da cabeça. Começava a cicatrização. encoberto pelas ramadas. Vamiré não concluíra o seu trabalho. resignou-se. com infinitas precauções. O alce era um veado colossal. No outro dia. para esperar que arremessaria proficuamente o seu único arpão. mas tanto mais tentadora. o sono fora vigorificante. e. o não ter arco. como ramos de faia desfolhada. Arrastou-se com dificuldade até à margem. dirigiam-se apressadamente para as suas estepes. de carne repugnante. para lança. aliás improvável. que lhe permitisse o ataque de longe.Vamiré. a sua robusta organização agonizou nas sombras. porque o ferido não teria forças para um assalto às feras. 32 Quando trabalhava. em que apenas se lhe depararam pequenos carnívoros.

abaixando-se de maneira. Lembrou-se das peripécias daquela luta. fazendo-a entrar até o coração. Vamiré quedou-se observando. espantado. e escarvou nervosamente o solo. profundezas de abismos. O herbívoro hesitou. Fazia . deixou-se ir ao grado da corrente. A noite abrigava-o em manto de trevas. assaltou-o grande tristeza: faltava-lhe Élem. incessantemente. Com algumas remadas. O sol espelhava-se no rio. e o animal prostrou-se. baixa. e Vamiré sentiu confranger-se-lhe o coração. a contemplação destas coisas abalava todo o ser do troglodita. decorrida uma hora. As ramarias repoisavam como grandes nuvens. Élem deveria estar deitada defronte do brasido. Chamou-a pelo seu nome. em que se alternavam as sombras e os reflexos. Repassado de dor e de solidão. ora o de trabalhar. desfilava pelo balsedo. by J. A pouco trecho porém. e saltavam. Meteu-se na barca e acompanhou a corrente. enquanto o cervo se desembaraçava do manto com um movimento formidável. acendeu lume. esculpiu um bastão de comando. murmurosa. perpassava na memória o dia em que ele. vagos indícios que poderiam sugerir receios. Rosny 33 Os animais pasciam. porque o vaivém do braço lhe irritava o ferimento. até o sofrimento. a soberba e comovida atitude da fera impressionou Vamiré. intoleravelmente. Por fim. Mas o homem já recuava. nos meios de a reaver. estirando a pupila oblonga pela melania do matagal. Entrementes. por um movimento de irreflexão e fraqueza. A súbitas. que designavam túmulos. nas cavernas. Provido de um sílex serreado. e Vamiré sentou-se. dominado. H. Um minuto depois. O rio parecia uma voz de segredo. por pequenas elipses. amargamente. por muito tempo. através da folhagem das balsas. ausente. e meditou. o caçador cravou-lhe a lança entre as costelas. e não podendo dormir. em que ela o não abandonara. onde combatera com os orientais. e assou uma posta de cerva. o caçador saiu do esconso. Primeiro. e o instinto da fera viu nisso uma fraqueza. em procura de Élem. ao mesmo tempo. atirou-se contra o bárbaro.Vamiré. suspendeu-lhe das pontas o seu pesado manto. o clarão de uma fogueira denunciou-lhe a vigília dos inimigos. extenuado pelo esforço. À noite. O animal caiu. Satisfeito o apetite. Descansando. levantou-se. Sentiu alguma febre então. que o barco pudesse parecer de longe um tronco de árvore. o voo do morcego perdia-se e reaparecia. de lança em riste. e. enquanto o rebanho. depois. cavava um abismo nas águas. entremeadas de clarões esparsos. E. parecia-lhe mais preciosa ainda. O olhar dele procurou-a por entre as sebes. e o espaço. altivo e terno a um tempo. depois. silêncio nos bosques. e coava-se. pelo desejo da vingança e o receio do desconhecido. embebeu-se. deixando o alce imóvel. de que apenas ressaía o rouco e triste coaxar dos batráquios. espicaçava-o o desejo de uma expedição. pôs-se a trabalhar. a devassar com os olhos a espessura da mata. velado pelas mais altas frondes. por forma que uma das cervas foi pulando até o alcance da mão do homem. A faixa de céu estrelado. em que a fauna permanecia tranquila. Hora de calma. e isto lhe trouxe à ideia o alce e as novas armas. Nas superfícies. dilatada para cima das árvores. com os seus olhos pretos e o seu ar. o grande veado aproximou-se da vitima. baixando a cabeça até o solo. um bramir de agonia. Vamiré aproximou-se da margem. atravessou solidões conhecidas. O arpão silvou. havia já cortado as pontas da cabeça do alce. avistou montões de pedras. e. Ora sentia o desejo de dormir. tinha perspectivas confusas. Este viu-a aproximar-se.

o Pzann desviou o obstáculo. ou um arroio de constelações. de um fundo de halo. durante alguns minutos. O trabalho das nuvens alterava a cada momento a superfície das águas. e ele teria readquirido todas as suas energias. poderia voltar-se a embarcação. calculava a eventualidade de um ataque. No entretanto. lentamente ao princípio. Impeliu para ali a barca e. Um drama conturbou a alma de Vamiré. a ponto de que um extremo cansaço se apoderou do homem. a barca vogava com dificuldade. Chegou a pensar em desistir de fundear e adormecer na canoa. . erguia para o céu uma das mãos. Rosny sentinela um guerreiro. se bem que Vamiré seguisse a ribanceira. como noutro tempo! Mas. apenas. os caniços. deixou-se ver Élem. e entrou. deixou-se levar pela corrente à margem oposta. da outra banda do rio. O rumor dos bosques crescia com o roçar da viração. impotente o seu braço! Contudo. e escolheria a sua hora. entremeado de notas claras. Dali. seguiria a pista. até porque a vegetação aquática se tornava cada vez mais espessa. alguns dias mais. empunhou o remo. Pareceu-lhe considerável. O zénite empalidecia aos prenuncios da alvorada. com os olhos fixos na fogueira. em que viviam ramagens longínquas. Salvo curtos intervalos. e. Vamiré ergueu-se. levá-la consigo. H. Ah! tornar a possui-la. Decorrida uma hora. se avistava a orla negra da floresta. com o esforço interior. by J. calhetas povoadas de caniços. e este teve de estender-se por algum tempo no fundo da sua piroga. Atrás do brasido. Depôs vagarosamente o arpão. A fogueira projectava este movimento numa sombra enorme para além do rio. para não adormecer. de quando em quando. o chapinhar de uma lontra. e erguia-se da espessura o canto dos galos silvestres. quando o animou uma espécie de canal entre os caniços. As coisas pareciam emergir em bruma pardacenta. navegou com facilidade. Ia adiantada a noite. que. Sentia extraordinário entorpecimento. uma luzinha trémula. os pântanos cobertos de lentilhas. antes de voltar à sua última paragem. eram os únicos ruídos daquela solidão. a qualquer movimento. meio-transparente. Estava quase resolvido a saltar para terra. remou com prudência. entre as águas e o céu. lançando sobre elas um véu plúmbeo. O ligeiro rumorejar da folhagem. e o ferimento ainda não permitia o gesto largo do nadador. Com a esperança de achar águas livres a pouca distância. impelindo-o para a temeridade a sua febre e a sua fraqueza. os juncos. A água iluminava-se de uma fosforescência pálida. Teve pressa de achar o fundeadoiro. reconheceu mal fechada a sua ferida. Afora o impulso da corrente. e calculou a distância da margem. 34 O Pzann apertava o seu arpão. mas.Vamiré. que o convidava ao sono. o eterno murmúrio do rio. cerrou-se o canal com longas plantas aquáticas. e depois com progressiva velocidade. tinha de lutar com as algas. em seguida. mas. as algas. continuaram a travar-lhe o andamento. em que se embaraçava a proa e que lhe sobrecarregavam o remo.

em socorro da sua progénie. Depois. quando interveio o compassivo nómada. parando de espaço a espaço. e tudo pareceu pálido ao homem extenuado: as águas. e dirigia os dentes para o ventre da presa. apareceu a fêmea. adormecia. Então a pantera refugiou-se na selva. o grilo. de um salto. a floresta parecia inquieta. Sob os gladíolos da erva. radiante de alegria e ufano da sua coragem. procurava a carcaça. Quase ao mesmo tempo. começava a cravar na terra. o necróforo. em que devia pôr os ovos. traçando ângulos. nas flores. nas hastes. Nos primeiros alvores. H. o tecido. em legiões. a espada. O arpão fizera apenas sangue na pele mosqueada. nas folhas. a verruma. as longas barbas-antenas. fatigado das suas vibrações. a cera. as industrias do utensílio e do ácido. com as suas asas aveludadas. a seda. a armadura. as forfículas embebiam as suas pinças no fundo das corolas. a floresta. e conheceram a sua própria . Mas a pantera. a fieira. quando procurava sentar-se. trôpego. pelos penetrantes perfumes dos exploradores de troncos e ramadas. e. estames. enormes piérides. a química. de mistura com ranúnculos. XII O mamute Era uma clareira entre faias. agitavam-se. debalde tentava desviar com a tromba o seu adversário. O pequeno herbívoro. os ramos mais apropriados àquele fim. ajudando-se com o remo. ensanguentando as mãos nas folhas cortantes dos caniços. as formigas. caiu prostrado pelo sono. Cansado. nas raízes. e os enormes proboscidios. a cicindela. arremessou o arpão e caminhou para o felino. para consolidar o seu abrigo sob a piroga. pela visão. havia o mundo dos insectos. Crescia ali a tabua e o joio. o fura-pau batia com a tromba na casca dos olmos. a vespa explorava corolas. e empregou as suas últimas forças em apanhar alguns ramos. nervoso. A ribanceira enfim! Vamiré desembarcava. as galerias de mina. Soltou um grito de guerra. internou-se na mata. ainda novo. rugindo. a sineta do escafandro. perscrutaram as essências. empurrando a frágil embarcação.Vamiré. tomou a piroga aos ombros. à volta do rei bípede: os narizes microscópicos. voluteava a grande mosca madaleneana. fatigado. a abrigar-se nas folhas. já penetrava com as garras o espesso coiro. as pérolas negras de olhos salientes. Avistava-se ao longe a corrida impetuosa da fêmea. de emboscada. pendulando as suas trombas. transportavam pulgões. junto de uma árvore. o grande cárabo sobre o escaravelho. A pantera recuou. 35 Rompia a manhã. semelhante ao tigre. espreitava uma presa. o céu. a perfuração com cáusticos. as sensíveis trompas auditivas. ficou sobre o dorso do pequeno elefante. afastaram-se. tudo começou a decrescer. prosseguiu. Rosny Resignado. a serra. e em cinza se alongava ainda. A madrugada achava-os trabalhando. pouco a pouco. cardos frocosos e urtigas dióicas. criando a broca. o mel. avistou uma pantera em briga com um mamute. Desviando as hastes mais altas. quando surgiu a cabeça enorme do mamute macho. a escavação na pele. a espátula. A zona limitada pela outiva. voltavam do rio nuvens de mosquitos. os despojos das minúsculas batalhas da vida. com as suas extremidades palidamente orladas. coitado. grãos. e. mas teve de interromper essa tarefa: dominou-o um entorpecimento mais forte. a luz. O grande rio saía de um horizonte de cinza. carvalhos e olmos. e o grito do macho entre os caniçais anunciava que se dirigia a nado para a margem. Vamiré viu-os desaparecer ao longe. o açúcar. praticando a física. a habitação social. by J. que emanavam do homem. esboço material do futuro mundo do homem. Amodorrado o homem.

com o enxamear das aves à sombra do moitedo. e bandos de cabritos monteses partiam as plantas. e depois empoleiraram-se numa faia. por um momento. a sombra atingiu o seu mínimo. em fios cetineos. Enquanto Vamiré dormia. Apareceram ratos. Os pescoços nus emergiam firmes de um colar de guarnição branca. eram as cabeças curiosas dos arganazes e esquilos. em vozes baixas. A sua pituitária reconheceu o odor humano. A corrente da vida engrossou com os raios solares. Vamiré dormia ainda. A quatro mil metros de altura. A hesitação mantinha-os quietos e de atalaia. mais rápidas e mais sonoras. H. iam andando. claudicava esfaimada entre os espinhais. e caíram vertiginosamente sobre uma árvore vizinha. as moscas zumbiam doidamente. Os corvos voltaram para os ramos. compreendeu que o homem não estava morto. numa semi-sonolência. depois. a hiena escafedeu-se. baldada a sua digressão nocturna. que se abeiravam do mato. se aprestavam para o ataque. Os ratos debandaram. o fétido da hiena deu no faro de chacais. através dos interstícios das ramagens. A esperança fe-la alapardar-se na sombra. . desejando os nocturnos que chegasse a noite. No entretanto. com a afiada tesoira do seu bico. O jogo e os gritos espantaram os nocturnos. Pausa. entre o do coiro e o do unto. alternados de saltos. com as asas negras escureceram por um pouco a clareira. as grandes árvores emudeciam. atraídos pelas correias untadas de tutano. crocitava furiosamente e voltava a reunir-se à fila. canguru. Ouve-se rir a hiena e chorarem os chacais. de um cinzento pálido. onde ela se agachara. sem sair do seu esconso. com os zângões. O sol banhou a clareira. antílope. espreitado pela hiena. e quando. este esvoaçava por um pouco. e o medo invadiu os chacais. das pôlas das altas ramarias. astutos e grotescos. Restabelecido o silêncio. a formiga trepava aos gladíolos da erva. até que um deles caísse. Os corvos. Decorreram horas.Vamiré. e depois foi aumentando. Deixaram de crocitar. e a cabeça longa. espiados pelo grande lince quaternário. Nada prevaleceu contra os corvos. Um movimento do Pzann determinou a debandada. e os mais velhos formaram conciliábulo. os palreiros baixaram sobre o homem. Abriram eles o espectáculo: graves e cómicos nos ramos da sua faia. como gorgolejos. e a sua comoção de glutões. by J. 36 Pelas duas horas depois do meio dia. e a necrófaga. os seus gritos sinistros. camelo. e temendo os diurnos que findasse o dia. desvendaram aos corvos a perspectiva de um opulento repasto. os abutres. Os corvos chegaram crocitando. numa nuvem. de terríveis mandíbulas que simulavam um grande nariz. curvando-a. uma hiena. emboscaram-se também na espessura. parecia a cabeça de um mamífero inofensivo. a asa dos abutres soou pesadamente e as três aves de rapina baixaram sobre o solo. como míopes. que se reuniam aos centos. começaram por uma espécie de dança. o pânico dispersou. Por seu turno. com o ruído do granizo em floresta. os carnívoros gizavam o seu plano. A luz continuava a coar-se. com os turbilhões de moscas que traçavam o seu voo enigmático. depois. Rosny fraqueza. os chacais afastaram-se mais da hiena. o besoiro segurava-se na haste franzina das flores. Aproximou-se. As aves iam-se calando. A dois metros de Vamiré. três abutres reconheceram a comoção dos corvos. avançando para a extremidade dos poleiros. hesitaram. com as abelhas. e que. na sua carreira veloz. entretanto. e de corpo ondeado de azul-escuro.

e até nas galerias dos insectos. antes que os dedos de Vamiré largassem a presa. nas mãos de Vamiré estava apenas a cabeça do abutre. e. através do interstício da cabeleira de Vamiré.--como difuso tiquetaque do relógio das coisas.Vamiré. Então. O grande nómada. os seus punhos de atleta acharam o pescoço de abutre.. os corvos retomaram o seu lugar. indecisos cantos. H. esparsa nas faces. os seus vultos ergueram-se até as cimas das árvores. as suas garras potentes. Os dez verificaram que a grande presa era perigosa. subordinados às mesmas funções. esta ripostou com uma bicada no pulso. deslizaram pelo mato. uma espécie de riso provocante soerguia o lábio. em que as vozes entre-cortadas respondiam a sons roucos. saindo por uma larga abertura. os seus companheiros chegaram também. o abutre olhava. a envergadura do seu voo ia até oito pés. by J. Os ângulos do número apareciam nas espáduas altas e pontiagudas. que deixava entrever a esclerótica. velava um tanto os olhos. Ouviam-se pequenos ruídos. num esforço comum. assombrados. na pele do espeleu. Depois. e a hiena escarvava o solo com as patas dianteiras. A mão de Vamiré. As asas dos sobreviventes feriram o ar. hesitaram por um momento. Arrancar os olhos é o instinto da ave de rapina: o abutre decidiu-se ao assalto. acudiu ao ponto ameaçado. e o pêlo do espeleu encobria o tronco. para se esclarecer. os chacais. mas os caninos famélicos. aferravam presas animadas. Tinha a aparência de um cadáver. como os tentasse o cadáver do abutre. Os corvos. recaiu na sua letargia. e atacaram-lhe o colo nu: abriram brecha. De raça forte. as tesoiras aprofundaram-na e. os cabos retorcidos do tríceps denunciavam o poema das fibras em milhares de feixes. O ombro seminu parecia de pedra polida. O homem conservava esse cadáver na sua mão crispada. cansados de esperar. ávidas em remexer carnes mortas. Aproximou-se lentamente. o colo parecia jorrar do peito. o cair de frutos maduros.. pararam. bocejando. As garras aduncas fincaram-se. fundindo-se depois estes e aquelas. A floresta realizava. Com minuciosa circunspecção. Entrementes. A cabeleira. dormitava nos fojos. com ruído. deram volta ao animal. depois daquele incidente. desapareceram. e o abutre mais velho caminhou para a cabeça loira de Vamiré. os chacais. veio a asfixia e a morte. em que pulsava o coração agitado. fechavam os olhos deslumbrados. Então. A vida. trataram de o explorar. Ali. repleta.. Ponderariam eles a agonia do homem. o grande bigode fulvo estremecia ao passar do hálito febril. Os outros celebraram conferência. de entre si. por dois minutos. depois. e as asas eram mantos. O ferimento despertou no homem as faculdades defensivas: como num sonho. nas horas de fome. o resto da energia dos seus músculos soberanos. entre a resignada tranquilidade dos vincos da boca. inconscientemente. interessados no procedimento do abutre. dentro em pouco. a pálpebra semi-cerrada. guarnecidos de uma bela franja clara de penas rudes. nos ninhos. o seu trabalho de cidade colossal.. a sua cabeça de uro? Estavam silenciosos. e os corvos delegaram dez. mas. portavam-se com discrição. em silêncio. e um deles pôs a garra no ombro nu. os corvos levaram a presa para . o seu peito arquejante. Rosny 37 Quedaram por muito tempo. caindo sobre a asa da ave. como sentinelas imóveis.

alapardados no esconso da vegetação próxima. Os dez corvos ergueram voo. parou. e começou a devorar o abutre. balanceou a sua enorme corpulência. apresentou as suas defesas ao urso. fora das épocas do amor. sem duvida! De olhos vivos. baixando-se como um animal que rasteja. o arganaz. As exigências do estômago impeliam-na para a audácia. para o repasto do dia. farejou. As moitas entreabriram-se com fragor. Rosny alguma distância. a dez metros do homem. e a exibição sugestiva das dentaduras. que prontamente fugiram. 38 Os chacais acharam favorável o ensejo. e até parecia que de ambos os lados se estimulava a audácia. Embora altiva ainda. os mais sólidos na animalidade daquela época. com os seus caninos de dupla lâmina. não obstante possuir caninos e molares. não se atreveu. e fixou o pescoço. hiena mosqueada. perdendo sucessivamente a índole ofensiva. Este cálculo pareceu acertado desde logo. Despertado o apetite. Despertado no seu fojo. mugindo ameaçador. arrancando com a tromba algumas ervas. esperando a neutralidade do grande elefante. H. agredia os proboscídeos. Um animal indolente. Já estávamos longe do monstro daquele género. num capricho de colosso pueril. durante um desvio do adversário. pestanejando sob a acção da luz. Magra refeição.. puderam conquistar os restos do abutre. entre os chacais e os corvos. atraíra-o o barulho dos chacais. a sua raça ia decaindo. E. afastando-se. e apareceu um mamute. reunidos aos outros. pesado.Vamiré. O plantígrado parou. pois que o elefante se ergueu e começou a andar. rompia vagarosamente do matagal e exibia-se em toda a luz: um urso. e capazes de partir o fémur de um auroco. recuaram de pronto. O mamute. ou atacava. Enquanto ela hesitava. foram-se chegando. Mas. A hiena e os chacais.. Mas. em suas galerias os pequenos fossadores. O bando negro ficou senhor do campo de batalha. pôs-se de pé. reacendia-se a luta. virou a tromba na direcção de Vamiré. com um ruído semelhante ao de um aguaceiro na folhagem. que. de maquerodo. nesse tempo. Adiantou-se lentamente. planeando o assalto do cão e do lobo: a estrangulação. contava agora com o homem estendido. de fronte bojuda e de quinze pés de altura. o mato partiu-se com um rumor de tempestade. Os caninos fizeram uma sortida e. Gostou da clareira. cada vez mais inquieta. limitava-se a preferir a carne morta. calculou. Este sentiu a cólera funda. desajeitado. e. tranquilo. e estendendo a cabeça a farejar o homem. cega e obstinada da sua raça. e deitou-se: gozou a semi-sonolência dos grandes animais. arrastasse ainda para as cavernas herbívoros palpitantes. Os risos e os uivos cruzavam-se com as corridas. o inesgotável fluxo das formas e dos movimentos que durante o dia lhe haviam impressionado a retina. perpassou-lhe na mente o devaneio. A hiena não se opôs. com ar de precaução. Ganindo e uivando. consultando o proboscídeo. e raspando o colo. porque sabia quanto este era pacifico. mas esta. by J. com um croaa furioso. pensaram na grande presa. trincavam os ossos do volátil. os saltos de lado. atentou nele. perante a imprevista agressão. viu-o chegar. toda nervosa. do tamanho de um côvado. aproximou-se. a toupeira. olhou. caíram aos centos sobre o espinhaço dos carnívoros. A um salto de distância. e a mímica das suas patas e o ricto do seu beiço exprimiram . Talvez que a grande hiena. A hiena deixara de fugir. Grunhiu. atrás de um choupo. à beira-rio. mas.

o plantígrado perdeu o equilíbrio e caiu entre as defesas. Rosny sede de represálias. na planície. com o seu corpo gigantesco potentemente especado. A tromba segurou-o ali. contra a tromba. Era quase noite agora. o elefante meridional. Podia. o urso caiu-lhe sobre o dorso. que rebolou na erva. depois o marfim enorme entrou-lhe no ventre. de repente. com um mugido de dor. e. fugindo com dificuldade. Depois. o dinotério. todos três. A árvore salvou o urso. e como o gigantesco animal se dirigisse ainda para o inimigo. arremessou o cadáver para longe da clareira. Por alguns segundos. e ficaram todos três em volta de Vamiré. a monstruosa fauna alimentada do glúten da planta. não o embaraçava na luta contra as feras. fez cair o inimigo. O mamute soltou um mugido formidável e arrojou-se. o braço do antropóide. para não ser atirado ao solo. colocando-se a alguns côvados de distância. do período terciário. e o urso exalou o seu derradeiro grunhido. ao invés dos do urso. Com este movimento. O mamute. muitas vezes.. o grilo recomeçava a sua vibrante arieta. O hipopótamo. A sua pele espessa. as suas defesas recurvadas. o proboscídeo foi o primeiro em deixar a expectativa. às cegas. cravadas na casca do choupo. a tromba. 39 Com a tromba erguida em semicírculo. o triunfo da paz armada. a embriaguez do furor toca. E a hiena e os chacais tiveram que comer. O outro. a sua musculosa maxila. mostrava-se a destreza e a facilidade de se voltar. as raias da loucura. contra a sanha dos carnívoros. atirando-se. e. relíquia dos colossos de tromba. Os dentes do urso fixaram-se em a nuca do elefante. quando o urso reapareceu. Misericordioso. Mas a força do mamute era incomparável. A grande mosca azul pré-histórica procurava o abrigo da folhagem. os caninos e garras de aço. o peso ajudava-o. a coiraça.. com a espádua. e. arranhando-a e mordendo-a cruelmente. o elefante esperou. como o leopardo e até o leão. em seguida. este levantou-se. jogavam e perfuravam como os cornos do auroco. as defesas tocando no solo. A fêmea apareceu com a cria. Eram dois poderosos animais. podendo este subir por ela até grande altura. as grossas colunas do paquiderme esmagaram-lhe a caixa toráxica. Todo o seu corpo. apanhou-o com a tromba. os seus caninos. H. by J. ergueu-o. o triunfo das grandes corporaturas e dos grossos músculos.Vamiré. as pontas. viam perfeitamente. como um animal que sai da água. e os seus gestos vagarosos eram de uma exactidão terrível. de pé. o herbívoro aceitava este desenlace. Na floresta. Os seus pequenos olhos. o rinoceronte e ele representavam. a agilidade de locomotores. em cima das quatro colunas das pernas. Mas o paquiderme sacudiu-se. armados de garras colossais. na agilidade e nos músculos. a sua admirável tromba excedia. as defesas. dobrou o jarrete e abanou a cabeça. as formigas transportavam a . do comprimento de dez côvados. com um formidável impulso da tromba. e sob o pêlo arruivascado e a abundante e negra crina mediana. e atirou-o para cima de um silvado. os nemóceros partiam em nuvens para as águas. agarrar e sufocar. colocou-o sobre as defesas. Mas o elefante insistiu. mugiu longamente. Perante o plantígrado míope. era ele o vitorioso senhor herbívoro. teve de socorrer-se das suas garras de três polegadas. oscilante. o elefante antigo. o mamute encarniçou-se furioso nos despojos da vitima. depois ainda. Naquele crânio. banhado de ondas de sangue. o proboscídeo voltou para junto do homem. Farejou-o novamente e. em toda a parte. e. e já se ia afastando. o escol da era tapiriana. e o urso. nos desfiladeiros. e as garras junto às orelhas. fez agitar o tronco da grande árvore. O urso mostrava os braços peludos. Satisfeita a sua vingança.

de face clara. recordava-se e chorava. enfartada da carne do urso pardo. docemente enérgica. de relance. H. algumas palhetas claras.Vamiré. e pensava em evadir-se. pelo receio de ser sacrificada por seus irmãos. À sua alma de primitiva faltava o grande nómada. a superioridade intelectual. que a idade acalmara. e o rir da hiena. XIII Entre os orientais Decorridos cinco dias de enfadonha marcha. silenciosa e torva. Na paragem do sexto dia. com a aventura da manhã anterior. impelindo as afinidades de raça para propícios cruzamentos. Apenas o chefe. e pronunciava palavras mais benéficas que o bálsamo. como de um banho fluvial em dias calmosos. mais de uma alcateia de lobos. adoptava um inquérito tranquilo. Mais de um leopardo. e notou. acordava frequentemente. a partida dos proboscídeos. mas nenhum ousou perturbar a invencível família do grande mamute peludo. Pôs-se em pé. passava em revista a sua gente. Soube-o depois. e ouviu-se a voz das feras. Suportava o ferimento do ombro como velho robusto e estóico. enquanto as horas decorriam. da agilidade e. notavam-se grandes melhoras nos feridos orientais. quando descobriu o cadáver do urso. e os graves mamutes recebiam nas pupilas serenas estas últimas luminosidades. de cabeça bojuda. Élem acompanhava o bando. estiveram de atalaia. Vamiré saiu então do seu longo entorpecimento. . o olhar azul. embora não soubesse quanto lhes devia. depois. com amiudadas paragens. Até às quatro horas depois do alvorecer. Mas da erva ressaía ainda uma fosforescência. e teve para os mamutes palavras de boas-vindas. proclamando as suas carnificinas triunfais. fixavam-se nas extremidades da grama e da tabua. Começavam já a carregar o semblante. e ouvia com interesse os pormenores acerca da força. E os ímpetos dele. de onde vinha o rio. escureciam mais. deixando apenas. e acerca dos costumes da região longínqua. ombros largos e músculos de ferro. de noite. a preocupação da arte e do trabalho. observador reflexivo. a coruja suspirou no côncavo dos carvalhos. com os louvores que ela tributava ao Pzann. enquanto de entre o bosque saía o clamor sinistro dos chacais. as expansões alegres. a larva da cicindela dormia no fundo do seu poço. De manhã e à noite. refrescado e fortificado. o chefe não soltava uma queixa. tudo agitava a sua carne viçosa. engolfaram-no no encantado enigma. aplicava drogas conhecidas para se evitar a inflamação. Durante o dia. by J. de asas lanuginosas. adquiriram a esperança de tornar a ver o acampamento da tribo. tratava o seu ferimento e os dos seus homens. e os corvos tinham levantado voo. no mato brilhavam pirilampos. porque talvez este soubesse até onde se estendia a floresta. Distendeu os braços e o peito. Os seus ódios. com os ossos partidos. Rosny 40 última colheita para os seus celeiros subterrâneos. Sentia que não tivesse sido aprisionado o grande homem loiro. estendendo o seu misterioso véu na floresta e no rio. Suspirava de amor. Caíram enfim as trevas. mas. aquém e além. os necróforos lidavam no enterramento de um cadáver de arganaz. Entre os primeiros que se punham a pé. o chilrear da passarada esmorecia nas ramarias. mais escuros. Os raios difusos. cujos sofrimentos parciais não influíam no organismo geral. antes de finda a incipiente lunação. da indústria e da arte do homem fulvo. perseguidas pelo morcego. mais rubros. Esta partida relacionava-se. na sua mente. mais ainda. e onde a terra tocava no céu. esvoaçavam falenas. aspirou os eflúvios do homem estendido. e o seu coração comoveu-se vivamente. quando a interrogavam.

Na época do regelo. começava o êxodo dos bugios. onde o feiticeiro Nadda criava abelhas. ao urso. Nas idades lendárias. Explorar-se-iam paragens desconhecidas: seria descerrado o grande abismo. À semelhança do homem. cheios do mistério das coisas. ao lobo. by J. dos chacais. formavam assembleias deliberativas. Nas suas florestas. preparavam massas farináceas com diversos grãos. hiena. . menos artistas que os grandes dolicocéfalos das planícies do Ocidente. tornava as incursões dos braquicéfalos da Ásia menos extensas que as dos dolicocéfalos da Europa. aumentando assim a sua estabilidade. já a terra estremecia sob os passos vagarosos de um entre-sonhador da génese civilizadora. os orientais exploravam já o vegetal. aventureiras. consentia que ela vagueasse a seu grado. os cães haviam compreendido o benefício da sociabilidade. gamos misturados com os animais das estepes frias. e ajudava-o a caçar o uro ou o chacal. Em meio de tais recordações. sob a condição de compartilhar os despojos. De dia e de noite. Já o pai do neandertal lacerava a face do leão e domava o dinotério de defesas invertidas.--mamute.. atraía-os o verão. Rosny De costumes mais selvagens. e estimulavam as tentativas de domesticação. adiantando-se ou atrasando-se na marcha. mas aquelas raças não tinham o destino das raças plásticas. uma fauna de transição vivia onde já se encontravam espécies emigradas do Ocidente. os orientais haviam aceitado desde o principio as jerarquias sagradas. a tribo da lua. às aves. tinham chefes encanecidos pelo roçar dos tempos. conhecer-se-ia a região dos elefantes cornígeros. havia séculos. os asiáticos haviam-se aliado com o cão. levantava exércitos. tudo que a lenda referia. contidos dentro de cerrados.. cheios de emulação no ensino dos conhecimentos. postos em comunhão através da distância. a tribo do trovão. menos vencido que o antropóide. visto que o antropopiteco se restringia aos agrupamentos familiares. ampliava a pátria. enquanto o outro confederava as suas tribos. e reprimia de tal maneira o azedume dos seus homens. Quanto seria para desejar a paz com aqueles gigantes loiros. Iam a consideráveis distâncias ver as tribos das chuvas. Devia-se-lhes a aliança com os cães. para os grandes bosques meridionais. aventurando explicações rudimentares sobre as fases da lua. Não só proibiu qualquer violência contra ela. Nas savanas de leste. à primitiva horda. sopeavam o instinto da ferocidade. e apenas servia para alimentação do homem. outros preferem a morte à violência. fortificava as suas cidades e educava seus filhos! Os velhos encanecidos. Era mais perfeita a sua organização social. chacais. Ocupava isto capitulo extenso em seus anais. As colheitas de feno permitiam-lhes sustentar alguns rebanhos de cavalos e de bois asiáticos. mas até lhe dispensou inteira liberdade de acção. onde os guerreiros moços cavalgavam poldros. cujas vivendas se dilatavam. alimentavam o devanear monótono e imóvel do pastor. onde três ursos viviam com os homens.Vamiré. laboriosas e individualistas da Europa. porque o animal. e sabiam que. se alguns cedem à força. e a fertilidade das suas terras. uro. urso. pouco domesticado ainda. raras variedades de bugios. Protegeu Élem. e que. ao cavalo. teriam ampliado o património do homem. auroco. dos gamos. ao uro. esboçada nos mundos do insecto. E quem poderia prever o desfecho. boi almiscarado. o chefe oriental sentia crescer o despeito de não ter conhecido Vamiré. lutava como o homem contra as grandes feras. 41 Nómadas e caçadores. sabedoria das tribos nómadas. sobre o curso das estrelas. esquivava-se a aplicações metódicas. Tudo isto. com respeito aos insectos. ver-se-ia a serpente monstruosa. Nas férteis regiões do Levante. e ainda o cão defendia o seu império. dispunha de disciplina e de inteligência. H. organizavam exércitos masculinos. que não aventuravam uma observação. foram o inimigo terrível da raça nascente. Conheciam o capricho dos animais. laboriosos e ousados! Os dois afastados povos.

grutas.. desmedidamente poderosa e grave. fogo. grandes lagos rutilantes. mas. mundo que se exaltava e se acalmava e se tornava mais furioso. e na cinza se deparavam pequenas barras solidificadas. ateado ou apagado por sopros desconhecidos. sufocava-a. --O fogo corre em nossas veias.--murmurou o velho. de purpura. enquanto o bando dormia. e os seus olhos semicerrados devassavam as trevas. um mundo transitório. Já o calor fundia partículas de terra ou de pedra. a quedar-se nas ribanceiras. esparsa na extrema do fumo. subjugado pela mão de uma criança. ufano daquela ideia. em que a barca do Pzann a trouxe durante semanas. davam-lhes formas diversas. mais belo que a água.. fogueira. que. E o oriental dizia: --Salve. o velho chefe lia na fogueira o evolar desordenado da vida dos ramos. Através das brumas da alvorada. um profundo instinto de sobrevivência. Os seus olhos exploravam atentos o rio. brancas. Talvez ele pressentisse então a grande maravilha do futuro. . a sua mágoa amadurecia. não distinguia bem. prestes a jorrar das veias. que tuas caricias aquentam.-Calou-se. E guardavam-se com desvelo estas lágrimas de metal. Estava longe. com toda a sua energia de primitiva. ou ser eco de montanha. um sentimento de insubmissão e de capricho. ao contemplar a noite. quando chegou a hora do sono. e a sua bela voz guerreira parecia emergir das cavidades abissais. suave para o homem.Vamiré. tudo isto. dominado e terrível. mas tremeluziam numerosas e pequeninas no horizonte do rio. impulsiva e crepitante. como um fruto ao sol do Estio. ou as partiam em lâminas. tua inimiga. durante a marcha. suplicava. mas estas lâminas eram frágeis. é um fogo frio como o olhar dos homens. do chifre. do osso.-E pareceu meditar profundamente. matizada de fino azul. alta e ondulante sobre os ramos. dos nevoeiros errantes. erguia os braços para o Invisível. a era da metalurgia. XIV Reconquista Ora. Distraída e meditabunda. florestas. teve tentações de se extraviar a bater mato. chegou um momento de calma. O ruído nocturno dos sarçais parecia mais frouxo. Muitas vezes. Batendo-as com uma pedra. não pôde dormir. de vibrações rápidas. que inda hoje é o perigo dos nossos amores. sangue rubro e ardente. Havia-as de diversas cores: amarelas.--e por isso é que a nossa boca expele fumo. Com o decorrer dos dias. dilatava-se-lhe o coração. Élem julgou avistar entre os caniçais a barca de Vamiré. que tu fecundas. o das estrelas. Rosny 42 Élem reconhecia a generosidade do velho chefe. bramia um leão. Uma sede mortal. Ao sétimo dia porém. fogueira que se desatava em numerosos seres subtis e coloridos. O clarão da fogueira amortecia as estrelas zenitais. Solitária. rasteira sobre as cinzas. de onde surgiam mil quimeras. Muito ao longe. devorador de florestas. de noite. O aspecto das plantas aquáticas.-Respirou voluptuosamente. flexíveis ou quebradiças. se iluminava e se rasgava. como um brasido em que se deita água. --O fogo da lua. H. pardas. by J. o rio amigo. convenceu-se da presença do Pzann. orava. inebriava-a. a revezes. e. e ninguém supunha ainda que estivesse ali o competidor da pedra. a perturbava e a tornava mortalmente amante e desesperada. voltando ao seu misticismo. de amarelo claro. suave para a terra.

mas esta perdeu-se. o velho despediu uma frecha. em que a ingenuidade de se julgarem compreendidos inutilizava a prudência do chefe. e ouviu-se um pequeno choque. suplicante. internou-se nas trevas. os orientais tornaram a deitar-se. O velho olhava sem receio para o intruso. com palavras doces. e. Os outros armavam-se então. Pareceu inquietar-se de ver que Élem tinha os olhos abertos. O Pzann deixou-se conduzir. H.--Vamiré compreendeu que podia ditar as suas condições. Por seu turno. para que sossegassem.-Entrementes. como de animal que rasteja. --Vai!--disse o velho a Élem. roçando a cabeça do chefe. mas Vamiré desapareceu. desgostosos daquela cena. e aplicou o ouvido. cativado pela voz austera e nobre do oriental. e as sombras coavam angustias na alma. para junto do chefe.. espalmavam-se aqui e além as manchas de vegetação. de um salto.--Mas porque levas. se achava junto da fogueira. O velho sentiu a impressão de tudo isto. ia esmagar o seu único adversário. uma rapariga das nossas tribos? Funda-se o teu sangue com o nosso. nas trevas. quando Élem interveio. agitou-se o mato. mas o teu espírito quer a guerra. Imediatamente. impedia a perseguição: --Não marcheis para a morte. significou-lhes claramente que mataria o primeiro agressor. A alguma distância. o grande nómada dirigiu-se aos homens estendidos e.--a tua voz canta a paz. como de uma pedra contra outra. e ainda os orientais estavam meio estendidos. e fez sinal aos seus. segurou Élem e começou a fugir.. indicou que desejava Élem. XV Reforços . e já Vamiré.--clamou ele. e reúna a paz os filhos da Luz com os homens das regiões desconhecidas. passando à esquerda do Pzann. A fogueira iluminou toda a sua forte corporatura. Vamiré acreditou numa perfídia.-Élem pegou na mão de Vamiré e conduziu-o. logo após. Um ligeiro ruído. vinha da escuridão da selva. Uma frecha rompeu do matagal. à força. consternado. e os vossos gritos assustaram-no! A fogueira recebeu novo combustível. Vamiré despreza-te. e. Ergueu-se. atrás de si. Vamiré. armava o arco e apontava. by J.Vamiré. mas. e não prefiras a violência à justiça. de arco tenso na direcção do ponto suspeito. com a sua mímica. Reconhecendo-se vencidos. --A pé!--bradou ele. os orientais levantaram-se inopinadamente. enquanto o chefe. --Fala. Ele não compreendeu as minhas palavras. os orientais aguardavam as ordens de Vamiré. enquanto ela se ateava clara. desviada. num gesto. Élem interpôs-se novamente. com um clamor entusiástico. --Velho burlador. Rosny 43 Não corria uma aragem. A frecha. Sobre a claridade do rio. parou. de clava erguida.

até. dificultaria um combate franco. Apagou-se o lume. em alcateia distante. o vaguear das feras nos moitedos era ameaça terrível. Todos reconheceram. quatro horas antes de amanhecer. que marchavam para o Sul. nos arabescos da ramaria. aceitando a sorte adversa. Os novos entreolhavam-se furtivamente. O velho todavia continuava a marchar. e levou consigo os companheiros. Os quatro homens marchavam em silêncio. mas nada diziam. que se sentiram invadidos pelo devaneio e pelos encantos do lar. era o território dos cães. Os moços admiravam-se. impossível. estendiam-se. sem fazer hesitar a caprichosa inexperiência da gente moça. O receio do Inverno estimulava o apetite: foi preciso disputar aos lobos uma presa já morta. e o voo de certas aves na direcção das planícies. by J. Da terra ergueu-se uma névoa. Felizmente. curvava a cabeça às contrariedades. Sucedia-lhe pensar alto. Só o velho. e impunha-lhes numerosas paragens. com seis paradas de um dia. como podia sê-lo um primitivo. Reconhecer primeiro o território inimigo. suavíssimo. a algumas semanas de caminho. consideravelmente superior. começavam de seguir os orientais. sombriamente. gravemente. e voltavam-se amiúde para Leste. O sol. Foi mester construir um abrigo e. A noitada foi áspera. Sagaz. até o sopé de altas colinas. descobriram uma larga clareira. dirigiu orações ao astro. estudou a direcção da sombra. era manhã clara. Pelas oito horas. Principalmente a segunda noite foi frigidissima. O velho estendeu as mãos. as serpentes multiplicavam-se. e parecia que os animava um fermento de revolta. Rosny 44 A alvorada difundia-se por cima da floresta. que demoravam longe. poderiam chegar às tribos amigas. ao meio dia. observou o voar de certas aves. e os corpos tiritavam encharcados. com um cheiro morno. Uma chuva torrencial caiu sobre a floresta. com uma espécie de entusiasmo. Uma espécie de ferocidade emanava das coisas: a chuva fustigava as ramadas. e levar lá depois um exército? Mas não surgiriam obstáculos invencíveis? E a floresta teria limites? As orações e os ritos cantavam-lhe longamente na alma. à borda da qual chegaram a acender uma fogueira de folhas secas. Tomou as suas armas. e depois voltou-se para os seus companheiros: . e o musgo das árvores. a sua força. logo. impenetrável. Mas esta era já menos segura. grandes planícies estéreis. começaram a trocar palavras em voz baixa. O seu olhar buscou a chave do enigma nos pálidos lampejos das achas. e rir. e manteve-se a orientação até à noite. Decorreu o dia. H. os lobos. Além de tudo. Mas não disse uma palavra: a sabedoria das tribos exige que o chefe prudente opere. puseram-se a caminho. rasgou as nuvens. a terra prendia os pés na lamacenta argila. era impossível lutar com segurança contra o homem fulvo. altivo e robusto. e o velho permanecia ainda indeciso. De manhã cedo. na previsão de carnagem. Um pouco mais para o Levante. foram-lhes orientação bastante. interrompido de breves paragens.Vamiré. dir-se-ia que tinha vista longa e dupla. a que se aventuravam raros exploradores. quando prosseguiram na marcha. Pedir auxilio a tribos. A nostalgia das cabanas e das grutas insinuou-se no peito dos orientais. e a sua prudência inutilizaria qualquer cilada. sinistramente estendidas nos braços das árvores. Desse lado. e uma voz reveladora no seu intimo.

mas prestes a sucumbir. um vento impetuoso sacudiu as árvores. entre nós. irromperam da sombra. muitas vezes. o frio matava. de pupilas fosforescentes. e o lume era impossível. fechava adiante o seu círculo.. aguardavam os seus amigos. Demais. Era forçoso resignarem-se os orientais a marchar de noite. deves-lhe a tua vida. e uivava. de beiços erguidos sobre os agudos caninos. tornou-se mais vivo o rir das grandes hienas. Lentamente. as feras. não obstante a chuva. Havia poucas frechas. mantendo os lobos em respeito com tiros de zagaia. A aproximação da noite duplicou os ruídos de hostilidade. com infinitas precauções. e passarem por ele centenares de corpos invisíveis. Os orientais largaram a passo forçado. em meio de murmúrios de raiva e gritos de matança e de agonia. o mais forte e o mais discreto? Os vossos cabelos ainda não branquejam. e estes. o que foi confirmado pela presença dos grandes quadrúpedes migradores. no esconso da mata. mais uma vez. O lobo. espantando sempre a desordenada horda dos lobos. Rosny 45 --Quem há que tenha o direito de se esquivar à obediência? Se o Conselho quer a tua cabana. Os lobos uivaram angustiosamente. e o negrume da floresta. se quer a tua vida. a flor ou o fruto no ramo. Abatei o vosso orgulho. Os lobos tornaram a agrupar-se. H. onde os cães aliados. reconheceram. e os Espíritos não vos falam ainda. o odioso clamor das feras. by J. ouviu-se um agitar de mato. ofegava a respiração dos lobos. cheio de resistência nas suas fibras ressequidas. O chefe ia na retaguarda. a sua fuga. ladridos raivosos e a debandada dos lobos. XVI A chuva Aproximava-se o período diluviano do Estio. As pálpebras da noite fecharam-se rápidas em meio do temporal. e grandes fomes sucessivas . a nona depois do meio-dia. depois. O chefe parou então. Seis lobos pereceram sob as frechas ervadas. e a rajada do vento atirava-lhes aos olhos folhas mortas. o homem pareceu retomar o seu ceptro. deves-lhe a tua cabana. inquietas. avistaram a aberta que dava para a planície. os outros dispersaram-se. prosternados. apesar da idade. O chefe anunciou-lhes que depois do crepúsculo chegariam às raias. amigos das planícies. os orientais chegaram à orla da floresta.. O vento arrefecia então. Atrás deles. Tranquilos então. À terceira hora de trevas. que todos os anos vinha ensombrar o céu quaternário. Aos vitoriosos clamores dos homens responderam latidos a distância. Reapareceu a confiança e a esperança.Vamiré. Não sou eu. ou grandes males vos advirão!-O arrependimento e o terror encheram então a alma dos novos. a situação dos homens tornou-se lamentável. a autoridade da experiência. Mas as cataratas jorravam mais copiosamente. em que vagueavam mais numerosas as feras nocturnas. deves-lhe o teu braço. se quer o teu braço. e dirigidos por um chefe. a raia era a salvação. os asiáticos prosseguiram na marcha.

atravessando-lhe o coração com a zagaia. e. Vamiré velava ternamente por Élem. enquanto as hordas do mamute chegavam mais numerosas. O cérebro do animal. mais agressivas então. encerrado na gruta da região alta. sustentada por quatro espeques. de emboscada. em descobrir algum animal felpudo. serviu para untar a pele. e algas terríveis emaranhavam as suas meadas. que eles passavam nas margens do rio. e amodorrada pela monotonia da água corrente. e as noites. Abrigavam-se perfeitamente contra o ímpeto da chuva. O antropóide recuava então para o trópico. e acresciam frutos silvestres. O ruído da chuva. as armas partir-se-iam. Mas Vamiré mantinha a preocupação das grandes chuvas próximas. servia de tecto. opunha-se. aprovisionado. com uma confiança infinita. H. O repasto era a sua principal ocupação. encantada do conforto. desagasalhado em favor de Élem. de per si. Este facto ocasionava emigrações parciais de símios.Vamiré. de chacais. durante as quais a floresta era inabitável. os filhos do grande Anticus de Chelles desciam das montanhas. ria docemente. um peixe arpoado em viagem. raízes tenras. à barca sobrevieram avarias. trescalavam a poesia imensa das infâncias. Não se desprecatou. dominada. de aves palmípedes e pernaltas. era preciso ir junto da terra. Em combates contínuos. a barca. envolta na pele felpuda. Graças à provisão de folhas secas em lugar coberto. A corrente. grandes troncos flutuavam ameaçadores. para renovar arpões e zagaias. A carne de élafo assado servia para a alimentação. surpreendeu um urso. Vamiré. e foi preciso despender três dias em reparos. hibernava. O clima seco e frio dos tempos madaleneanos nas estepes da Europa. Teve de gastar a manhã inteira do dia seguinte. além disso. desde a aurora ao crepúsculo. As feras. Por menos suave que fosse o inicio do período diluviano. para conjurar os perigos nocturnos de um acampamento volante e as torrenciais chuvadas ao ar livre. iam amplificar a luta nos bosques. e grandes ramos pendiam da barca. e o homem. de roedores. de todos os lados. . sob a condição de se apressar e de não perder tempo. o lume era suficiente para acabar de assar uma posta de élafo. um palmípede. Élem. Foi naqueles dias que o grande nómada do Ocidente se tornou esposo da filha dos países desconhecidos. de gamos. tiritava ao sopro do nordeste prematuro.. remava todo o dia. a barca foi de novo lançada à água. posto que moderado no Oriente meridional. durante o sono. Por fim. comportava todavia o súbito regresso do frio antes do equinócio do Outono. Amarrava-se então a barca em qualquer calheta. e transbordava já para as margens mais baixas. misturado com o cerebelo e a medula de uma rena. com a enchente. ajudava-o. já falava de invernia e do prazer do refugio. a pele do espeleu tapava o lado do vento. Desde então. durante semanas. As primeiras friagens confirmaram o prognóstico. isto. puderam ambos estar quentes. e os pais do elefante indiano. by J. Rosny exterminavam os frugívoros. 46 Vamiré. submissa. tomava a cor do barro. o fragor da floresta açoitada pelo vendaval. as hordas de lobos perigosamente esfomeados. e. prevendo aqueles dias nefastos. O rio. a sua mão vigorosa fazia andar a piroga. previamente esfregada e desembaraçada da gordura e dos tendões. Era preciso estacionar. em alguma gruta. Élem. Élem passava grande parte do dia. Vamiré poderá chegar às grutas em fins de Julho. Transbordavam rios e ribeiros. passando as horas a fabricar utensílios e armas. ovos tirados dos ninhos serôdios. Infelizmente..

e. à hora em que o vermelho indeciso. num monte. e dirigiu para eles a piroga. mas via-se que simpatizavam com ele. Na margem direita. pelo caminho. caprichoso. folhas hortenses. Durante algum tempo. passavam à outra margem. os seus olhos de visão recta. com gestos de fraternidade. A face deles tinha trejeitos. apoiavam-se na clava. que. que encontrara outrora. contidos nas conchas. desciam-lhes até o queixo. procuraram raízes e frutos de pevide entre as plantas aquáticas. assentados. contrariada. cabelos raros e corpo peludo. à beira do rio. Eram de baixa estatura. coçando a cabeça. suspendendo-se e prosseguindo aos saltos. descascando frutos com os dedos e com os dentes. Élem soltou um grito. saltando a vinte côvados. mas o pequeno número dos adventícios tranquilizou-os. e Vamiré recordou-se do ente de olhos de âmbar. alimentado de frutos. porque eles. desfilando. atirou um filhito para o caniçal. Cabriolavam. o cerebelo. ao principio. O montão era já considerável. em quem reconheciam o tipo dos mais ferozes perseguidores dos vermívoros. em marcha. apanhando de novo um ramo de árvore. by J.--murmurou Élem. brincão. e saltando de ilhota para ilhota.--No Estio. Agasalhado. dispostos em pequenos anéis. . --Conhecem a justiça!--murmurou Vamiré. anuncia o desaparecimento do astro soberano. furiosa.Vamiré. contemplavam o grande nómada e a sua companheira. agruparam-se em volta do chefe. construtor de cabanas. observava os vermívoros. o animalzito tornou-se estimável: gostava de dormir no colo de Élem. inquieto. Élem falou-lhe do homem das árvores. e soube que a linguagem deles era desconhecida. parecia pesar-lhes. se um bando de gamos ou de chacais chegava. curvados. encantavam extremamente Vamiré. aos centos. beber água na mão dele. baloiçando-se. o grande nómada correu a apanhar o pequerrucho. clamorosos. catando-se. de mãos estendidas no peito. A estatura do homem. tremulando em fundo claro. satisfeito. e que viviam como animais. Um dia. desconhecida no Oriente. As suas orelhas bem caireladas. marchando. e nada satisfazia o coração de Vamiré. e nenhuma tribo sagrada tolera a sua vizinhança. Encontrou-o gemendo. tubérculos. Silenciosos e graves. Rosny 47 Vamiré fazia parar. e o Pzann suspendeu o remo. cedeu ao impulso do seu coração. diante do chefe. que equitativamente distribuiu por eles os mantimentos. ao passo que visivelmente desconfiavam de Élem. a finura. como o ver o macaquito. Ao cair da tarde. às vezes. a inteligência dos seus movimentos. não tinham os rins arqueados. Seria aquilo uma raça de homens anões? Consultou Élem a este respeito. H. Debalde gemeu ferido o pequeno macaco: os outros pareceram não cuidar em não avolumar a sua coluna com um inválido. Sucedeu que uma fêmea. Comovido. a testa descia levemente até os enormes sobrecenhos arqueados. assombrou-os. Entretanto. Tinham gestos inteiramente humanos. entram nas florestas e sustentam-se de bichos moles. que pareciam determinados por ideias. e os seus cabelos. Armados apenas da antiga clava. apareciam homens. Impressionaram-se. vendo que eles acendiam lume. com interesse febril. Depois. mas o que verdadeiramente o apaixonava era o êxodo dos macacos. Tinham proeminente a maxila. haviam já empilhado moluscos univalves. de se encarrapitar no ombro de Vamiré. e todos depunham a sua colheita. no tempo das chuvas. descem para a beira-mar. a piroga. Vamiré. de se arrufar com a sua própria imagem na face do rio. --São os comedores de vermes. desmedido. e em seu rosto estereotipava-se uma fealdade triste e humilde.

desencadeou-se uma furiosa tempestade. Saídos cedo da matriz antropomorfa do período terciário. seguiam-nos de muito longe. com exclamações em voz baixa. Quando já os não via. gulosos de moluscos. O seu riso franco. Élem passou a noite em suplicas. Este. em frente do vigoroso quaternário.Vamiré. resignado e tranquilo. e observou a partida dos vermívoros. escondido pelos caniçais. O Pzann sentiu então grande piedade para com a sorte dos seus irmãos inferiores. e. o Outono e o Inverno. tinham perdido. acordou a sua companheira. e até evitavam os grupos insulados. brindando o chefe com uma pele de raposa. os vermívoros. passando o Inverno nas costas do Cáspio ou do Mar-Negro. eram ainda senhores do leão. e pela generosidade com que lhes ofereceu alimentos da sua barca: postas de élafo e de esturjão. passava em seus lábios um murmúrio de tristeza. e manifesto ainda era o terror que Élem lhes inspirava. mau grado seu. As partilhas eram reguladas pela mais estrita igualdade. by J. descambavam progressivamente na fitofagia. caçadores das estepes fecundas: é que tinham visto perecer milhares dos seus. com a cara entre os joelhos. em conhecer as hastes e raízes comestíveis. todo se tomou de surpresa. em hordas confusas. Já a distância. Ao amarrar a barca. do urso. o bando masculino abandonava o bando das fêmeas durante o Estio. Vamiré cativou-os pelo seu riso ingénuo. acocoraram-se sobre os calcanhares. e assim adormeceram. do leopardo e até do antropóide. onde se alimentavam de pesca rudimentar. Vamiré dormiu. Eram como vencidos. ovos de adem. Mostrou-se sombrio. quando viu que a pele era gravemente retalhada e distribuído um pedaço a cada um do bando. tornava a vida do individuo preciosa para a comunidade. a menos de seis dias de marcha. com gáudio do Pzann. Quatro dias decorreram no labor da viagem. relegados nas estepes áridas ou na profundeza das florestas. onde se perdiam clamores em som . os comedores de vermes. mas tinham medo enorme dos braquicéfalos. à refeição da noite. agrupavam-se à roda delas. e desamarrou a piroga. de métodos de sociabilidade. que derrubou árvores ruidosamente. Também estas provisões foram repartidas. orando ao Desconhecido. O furacão sibilava. sugeriram alguma desconfiança aos vermívoros. em que o chefe se recolheu. Por isso. H. Rosny 48 Entre estes não havia mulheres: as mulheres. a ponto que Vamiré. esta força singular que abandona o velho tipo do Vermelho perante o Árico. e o desgosto dela. levantou no rio enormes vagas e fez tremer toda a floresta. lançados nas vias externas do humano pela adopção de armas. e adormeceu tarde. ao ar livre. Reembarcou pois. adestrados em descobrir os tubérculos que há debaixo da terra. activando as suas fogueiras. decidiu separar-se deles. as mãos na cabeça. depois de construírem com ramos uma ligeira choupana. Acordou antes da aurora. e a sua tentativa de fazer compreender o absurdo daquela prática. Viu-os atravessarem o rio a nado. mal armados para a caça da ligeira fauna silvestre. e curvava as altas ramarias. depois. Uma bondade. suspirou melancolicamente. fixou longamente a vista. de grãos de helianto. Abrigado numa lapa. Em a noite do quarto. e cada qual tinha a maior dedicação em salvar o companheiro da garra das feras. A primavera reunia os sexos em paragens tradicionais. Nunca se aproximavam dos acampamentos inimigos. e desaparecerem ao nascente. a esperança orgânica. insinuando-se nos sarçais. já muito distanciados do processo animal. para que nele reentrassem sem fraquejar. Demais. um instinto adorável. sob os golpes das frechas e zagaias. fracos. fazendo provisões de pevides de melancias.

Vamiré, by J. H. Rosny confuso.

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A tempestade declinou de madrugada. O dia amanheceu suave, as nuvens deixaram passar réstias de sol, e a floresta ressurgiu para uma vida húmida e tépida. O rio, barrento, largo, engrossado e tranquilo, carreava os despojos da batalha da véspera. Começava a descida para o mar dos peixes que sobem aos rios, e que iam passando em chusmas, adelgaçados, extenuados pelo trabalho da fecundação. Élem, fatigada, dormia; Vamiré, de bom humor, remava para a pátria longínqua. Em horas monótonas, a ideia do espaço a transpor, a vertigem da andadura, adormentava o cérebro do Pzann. Vamiré já não era senão uma vontade tensa, um organismo mergulhado no sono dos fluidos, a água, o ar; o marulho daquela e o infinito afago deste entorpeciam as suas carnes, imobilizavam a sua memória sobre algumas palavras, sobre a imagem de seu pai, de sua mãe, do seu valente irmão Guni ou da sua irmãzita, que saltava como uma cabra montesa; mas não chegava a realizar o esforço que relaciona as coisas e as faz falar. Mas à sexta hora depois do meio-dia, deu-se um incidente inquietador, que atraiu toda a atenção do grande nómada. XVII Os aliados Animais corredores, ligeiros,--élafos, gamos, elãos,--chegavam espavoridos ao rio e atravessavam-no. Formavam bandos consideráveis, dominados do pânico herbívoro. O seu número ia crescendo com o declinar do dia, e com eles se misturavam cavalos e alguns uros. Vamiré, espantado, baldadamente procurava uma causa simples daquela extraordinária fuga: incêndio, emigração... Interrompia o remar, e Élem murmurava esconjurações. E o galope dos animais ia-se acelerando. Aos cervídeos, aos bovídeos, aos cavalos, juntaram-se lobos, chacais, raposas. O ruído do mato patenteou a corrida de animais menores,--lebres, doninhas, fuinhas e lontras. Apareceram enfim carnívoros,--ágeis panteras e ursos de marcha pesada. Ao longe, os macacos clamavam alarma, como sentinelas escrupulosas, e o seu clamor atravessava, como um furacão, as altas ramadas, transpunha o rio e difundia-se nas regiões desconhecidas. Anunciava-se formosa a noite: nenhum sinal de tempestade, nenhum sintoma de perturbação atmosférica. Mas, como um prodígio misterioso, a fuga das feras despertava no intimo do homem e da mulher os mais sinistros presságios. Todas as vozes, na serenidade do crepúsculo, vibravam de um medo enorme, e espalhavam o contágio do terror... Vamiré entrevia, não o receio do animal perante a natureza, mas o receio dos seres perante outros seres, o êxodo das raças vencidas, o desalento de uma espécie perante a espécie dominadora. Era mister entretanto precaução contra a extraordinária ameaça, e segurança contra o perigo de ser esmagado pela cega corrida de herbívoros, que prosseguia nas trevas.

Vamiré, by J. H. Rosny

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Vamiré avistou, a meio do rio, uma ilhota, em que cresciam freixos. Dirigiu para lá a embarcação, e acendeu pequenas fogueiras, pondo-se assim a salvo de ataque directo e em posição excelente para observar tudo. Depois da refeição, nem ele nem a companheira pensaram em dormir. Rio abaixo e rio acima, findara a corrida dos animais. Uns aventuravam-se contra a corrente, outros seguiam-na; e este curioso movimento tinha a singularidade curiosa de se efectuar nas duas direcções, em sentido inverso, como se os animais que seguiam para cima e os que seguiam para baixo procurassem fugir da zona florestal, que terminava quase em frente da ilhota. XVIII Os vermívoros Os comedores de vermes marchavam na direcção do grande-lago. Ainda que tristes em geral, à sua exploração não era estranha uma certa satisfação no inicio das paragens. Espalhavam-se então, e, como a colheita da manhã era individual, tinham exclamações a cada bom achado, e mostravam puerilmente o que colhiam, túbaras, caracóis, raízes doces de umbelíferas, frutos agridoces... Sob os longos e negros topetes, com a sua cara proeminente, a disposição daqueles topetes sobre o rosto tornava-os mais parecidos a qualquer cão do que a um antropóide. Os seus braços curtos, o seu peito em quilha, o indeciso ganido do seu rir, completavam a semelhança. Demais, entre as tribos braquicéfalas corria a lenda, de que tinha existido ou devia existir no extremo Oriente uma raça de homem-cão, aniquilada a pouco e pouco pelos verdadeiros homens, pelos filhos do animal, das águas, únicos e legítimos possuidores da Estepe e da Floresta, do Rio e dos Grandes-Lagos. E assim, ou folgando entre os vastos arvoredos, ou perseguindo-se através dos matagais, de ventre em forma de odre cheio, de dorso curvo, marchando muitas vezes a quatro patas, conservavam a instintiva orientação que guia os animais emigradores. A linguagem, reduzida a alguns sons, exprimia o medo, a alegria, a fome, a sede. Quanto ao mais, serviam-se da mímica animal, e ainda da comunicação oculta, da transmissão simpática do terror ou da ira. Os velhos, sem ferocidade, eram os guias. Dois deles comandavam uma vanguarda de batedores; outro, o mais velho, fechava a marcha. Quando atravessavam os fojos das grandes feras, os chefes, com um grito agudo, reuniam a coorte; e, então de clava pronta, não se pode imaginar que solidariedade corajosa os impelia a investir sem temor contra o urso ou o leopardo. Depois do meio-dia, reuniam as provisões comuns, as que serviam para o repasto da noite, antes de adormecer. Cada um ali depunha a sua colheita individual, sem lhe tocar com os dentes. Feita a divisão, junto de um regato ou de uma fonte, comiam e bebiam sobriamente, e todos adormeciam, fatigados do seu trabalho diário, com sonhos tão vagos, como os do leão ou do lobo, que rosnam dormindo. Marchavam. A floresta húmida espalhava sobre eles a sua sombra. Graves e pueris, a sua atenção desviava-se constantemente, acendia-se o seu pobre riso e apagava-se, como os fogos que flutuam nos pântanos; e a sua vida expandia-se em ligeiras comoções, em esboços de ideias, em artifícios de quem amamenta um aborto, em lineamentos de memória e previsão. Lavasse-lhes a chuva os crânios duros, açoitasse-lhes o vento as nucas com varas de frio, fizessem-lhes os espinhos sangrar os pés, perfurassem-lhes a epiderme milhares de parasitas, eles tudo aceitavam. Acumulava-se-lhes no cérebro uma herança inteira de resignação.

Vamiré, by J. H. Rosny Depois que o homem de braços longos chegou através dos tempos, tinham deixado de progredir: conservavam-se. Nada mais havia para eles. A terra imensa desprezava-os; e, entrementes, a vida esgotava-lhes os meios, endurecendo-lhes a epiderme, erguendo-lhes velos no peito, e estendendo-lhes refegos de gordura à volta dos quadris. Mas o circulo das raças rivais ia-se-lhes sempre fechando adiante, e o pobre homem antigo tinha de durar menos que as feras carniceiras, porque estava desarmado pela longa crise de transição, em que as forças musculares se reduzem e se transformam, na luta contra as adaptações que o cérebro realiza no mundo exterior. Na penumbra dos arvoredos, tinham companheiros de êxodo, aos quais se haviam desacostumado de fazer mal: numerosos bandos de gamos e chacais, dirigindo-se para o Sul, ou o tugir dos roedores, que se encaminhavam para o Poente. Saudavam com um longo clamor o pacifico barrito do elefante oriental, o buzinar dos pequenos cavalos de boca papuda, cujas hordas militares cruzavam as suas.

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Na noite do segundo dia da sua viagem, o chefe dormia na sua choupana de ramos, a fogueira nocturna ia-se apagando, e os tardígrados, acocorados, encolhiam-se com o frio, quando o grito do vigia pôs todos a pé. A palavra, que significava o leão, trocou-se entre eles, e um grande terror lhes fez bater os queixos. O chefe agrupou os mais corajosos, e todos se reuniram, de clava erguida. O pavoroso vulto do leão entrou no âmbito, frouxamente iluminado pela fogueira que se extinguia, e estacou, por um minuto, diante dos clamores belicosos dos homens. Mas, ou porque tivesse escasseado a caça, ou porque preferisse a carne dos primatas à dos outros animais, abaixou-se, arremessou-se com um salto prodigioso, e caiu sobre a horda. Esta havia recuado, abrindo espaço, segundo uma táctica milenária, e mais de cinquenta clavas desceram sobre o crânio, sobre o focinho, sobre os olhos, sobre o espinhaço da fera. O leão defendeu-se, levantou-se, e com três lances de garras prostrou quatro adversários. Os outros, estimulados à luta, tornaram-se mais audaciosos, atacaram o focinho ensanguentado; e o hércules do grupo, com uma pancada, partiu uma das pernas dianteiras do animal, ao passo que mais dez pancadas paralisavam as pernas traseiras. Vencido, o leão procurou fugir, mas os vermívoros, tornando-se ferozes, não lho consentiram. Arrojaram-se todos contra ele; e, enquanto uns o seguravam, procuravam outros estrangulá-lo. Não o conseguiram logo, e receberam golpes terríveis; mas, afinal, tendo o chefe enterrado a clava na goela aberta, o leão entrou de estertorar; e então, ferozes e vingativos, todos acabaram com ele. Viu-se que dois companheiros expiravam e cinco estavam gravemente feridos. Os mortos, longamente pranteados, foram depositados no fetal, e os feridos foram desveladamente tratados. De manhã, quando prosseguiram na marcha, os mais feridos foram levados em braços. Os tardígrados, não obstante as suas perdas, ufanavam-se de, mais uma vez, haver dado lição severa ao seu temível antagonista, e erguiam galhardamente a clava, mutuando gestos de triunfo e confiança. A floresta agora parecia-lhes melhor. Os seus pés descalços pulavam ligeiros pelo caminho, a sua estatura aprumava-se quase, e os seus pobres olhos de deserdados pareciam brilhar. É certo que, perante a simples possibilidade da vitória, uma expansão de seiva lhes teria dilatado o crânio; mas as vitórias restringiam-se ao animal: como uma pressão material, como uma ligadura das artérias, como uma degenerescência dos pulmões, o medo dos braquicéfalos acanhava-os, imobilizava-os; aniquilava-os, até de

que eles se puseram a cantar. que se juntaram ao primeiro. E. estavam reunidas as duas hordas. não houve incidente na marcha. os antropóides pareceram logo reconhecer aliados. escutavam-no. O sol tornava tépido o humo das clareiras. ou porque não ousavam pensar no que não podiam realizar.--depois da troca de presentes: o homem deu clavas ao macaco. Surpreendidos a principio. assim. devidamente vigiado. por muito tempo. Era a comunhão dulcíssima de parias nas fronteiras da animalidade. e avançando lentamente. e a melancolia do grande macaco parecia mais pesada que a do tardígrado. enquanto os tardígrados riam de boa vontade.Vamiré. e como que uma curiosidade do Espírito das coisas em conhecer os progressos por ele realizados na disposição da matéria. os antropóides dirigindo-se para o Sul. o chefe tirou de dois pedaços de pau seco o fogo necessário. pelo contrário. Entrou em laboriosas explicações. Abundavam os javalis. Achavam-se num azinhal interminável. De maneira que o homem foi o primeiro a rir. cheio de orgulho. e resolveu-se destacar um pequeno grupo. esvoaçavam legiões de moscas gulosas. uma espécie de confraternidade animava o grande macaco. Os tardígrados. Por volta do meio-dia. e. Aquele grupo. e. por um momento. Mas um deles pareceu impressionar-se com uma recordação longínqua. by J. com gritos de alegria e sinais de benevolência. fugindo adiante dos emigradores. Os vermívoros viram então que os antropóides se referiam ao lume. H. até que um deles se lembrou de apanhar uns ramos secos e indicar o movimento de uma chama. Marchando. Minutos depois. entre volutas azuladas. a confusão porém era cada vez maior. e assim o mostraram. os homens das árvores ficaram. receosos e assombrados. enquanto o macaco permanecia grave e meditabundo. a vanguarda avistara uma fêmea de antropóides. e o macaco deu ao homem ovos tirados . e os tardígrados já nele tinham tido um precioso auxiliar contra o urso e os felinos. o circulo das suas ideias era tão limitado como o da sua vivenda. Rosny longe. ou porque não podiam pensar no que não tinham realizado. sobretudo quando estes não levavam mulheres no seu bando. parando para escavar. sem chegar a compreendê-lo. A sua natureza parecia comportar um fundo comum de melancolia. Os homens das árvores aceitaram estas coisas com prazer. um prazer reciproco em se compreenderem. mas a recordação pareceu germinar noutros antropóides. 52 Desde a fresca alvorada até um terço da manhã. por cima das trufeiras. Todos se alimentavam de trufas. pevides e folhas tenras. e os seus raios penetravam na espessura. a vanguarda de quinze homens recuou vivamente. a brincar. Formou-se conselho. inclinados. só havia animais inocentes. Separaram-se como amigos.--os tardígrados avançando para o Oriente. A tal ponto a vida se expandia. que fosse assegurar as suas pacificas intenções ao homem das árvores. As duas raças deserdadas ficaram depois em silencio. porque o seu regime alimentício era idêntico ao dos tardígrados. Quando se fez a chama e se difundiram as línguas amarelas. Os vermívoros ofereceram aos antropóides uma refeição de túbaras. Era raro que os antropóides atacassem os vermívoros. No agradável arvoredo. despertada pela analogia das circunstâncias. como se fosse proporcional ao vigor dos músculos e à largura do peito. atraiu a atenção dos antropóides. gesticulando com gravidade.

aguardavam a noite. dirigindo-se para eles. uma fronteira alvorescente em face das sombras eternas. semelhante ao uivo dos lobos ou ao lamento dos chacais. lisos ou eriçados. que reina em as montanhas.. Rosny dos mais altos ninhos. a crina ondeante do cavalo. javalis. com práticas religiosas. todavia. continuava a murmurar as suas orações. e a quem as tribos sagradas aniquilarão. os seus corpos escuros limitados por traços de luz. nas suas reminiscências. e perceberam um rumor muito distante. ninguém pensava em atravessar o rio sem os feridos. e porventura até depois. os gamos. as cabeças delicadas e longas. 53 E havia apenas três horas que a separação se dera. expulsando das florestas todos os seres animados. sem animais? Depois. e o mesmo faria até a hora da morte. avistou-se na margem um bando considerável de comedores de vermes. já se não viam senão animais vagarosos. Primeiro. mas horas depois. tomados igualmente de pânico. e. porque as coisas místicas. se o destino lhe concedesse filhos. avistavam-se. embora nasçam lentamente. nada ela encontrava. na margem. e a resguardar-se a si e ao seu amante. quando Vamiré saltou para a sua piroga. semelhando. como companheiros de êxodo. élafos. cobertos de lama e de sangue.. houve uma suspensão. Julgava oportuno interrogar a filha do Oriente. E então os vermívoros. o tronco flexível e serpentiforme da lontra. as armas pontiagudas do élafo. viam-se os hóspedes vulgares daquela região. a margem parecia muito distante. Mostravam-se fatigados.. ou largas e volumosas. Vamiré e Élem redobraram a atenção. O clarão do Crepúsculo era vívido e roxo a um tempo. Os animais foram salvos pelo Elefante cornígero. refluindo em bandos consideráveis. que só o tempo transforma e aniquila. e muitos dispunham estoicamente as suas clavas para uma luta extrema.Vamiré. mas. quedavam-se amargurados. Sob aquele clarão. que vinha chegando. Transportavam em braços grande número de feridos. Quando a noite se ia cerrar enfim. Vamiré não podia imaginar um animal invisível. Agora. H. insectívoros ou carnívoros vermiformes que fugiam de uma vivenda próxima. e a Serpente. retrocederam também. sobre a floresta. Élem e Vamiré conversavam. os espinhaços roliços ou sinuosos. .. diante da impossibilidade de transpor com estes últimos o rio. e as árvores e o rio se engolfavam lentamente na sombra. Inclinados sobre o rio. a fim de investir o homem na posse delas. Cada vez mais raros. que esclarecesse a situação. já o Pzann podia compreender e exprimir as ideias fundamentais da linguagem dos braquicéfalos. No seu crânio supersticioso perpassavam apenas as antigas lendas do Animal das águas. Vigias de retaguarda surgiam da espessura a cada instante. opôs-lhe o ser imundo que se alimenta de vermes. duplicado pelo reflexo. Estas coisas falavam pouco ao espírito do nómada e até o indignavam. recurvados. são como o pigmento da carne ou a forma dos crânios. rival do Animal das águas e inimiga do homem. moviam-se animais fugitivos. o dorso corcovado do urso. Acaso o homem não vive de carne? e que seria das florestas e planícies. by J. quando os vermívoros viram os primeiros sintomas da fuga dos animais. Quase ao mesmo tempo. que ao depois tanto inquietou Vamiré. a vasta fronte do gamo. mas ninguém tugia. As suas duvidas abalavam as crenças de Élem. a qual. e por isso não se impressionaram muito os tardígrados. XIX Na ilhota Na expectativa de extraordinário acontecimento. com gestos de alarma.

mas depois ouvia-se. Quanto a ele. A tiros de frecha. procurava devassar a sombra e conhecer a ameaça que fazia tremer Élem e os tardígrados. por muitas vezes. Às vezes parecia extinguir-se. debaixo de um formoso céu constelado. e tomou lugar no barco. respeitava ordinariamente o homem antigo. e também ponderou que os comedores de vermes estavam debaixo de sua protecção. cujos bandos emigrantes atravessavam as vivendas caninas. já da esquerda. naquela mesma noite. Retrocedendo. já da direita. encontraram outros bandos de irmãos. movendo-se indistintamente na sombra. Conversaram em voz baixa. os outros alcançaram-na a nado. Vamiré desvelou-se por eles. o reboar de latidos multiplicados pelos ecos. iam buscar as presas e esfolavam-nos rapidamente. reconheceu o gigante loiro e manifestou alegria. e. porque os vermívoros. com gravidade e altivez. Vamiré chegou à margem. O vago rumor de pouco antes tornava-se agora mais distinto. H. De quando em quando. acabando de esfolar as presas e de as partir em quartos. um transbordar de vida e de alvoroto. O animal. os demais confiaram-se passivamente à ventura. e mal se distinguiam as margens. Vamiré fez uma quinzena de travessias. com receio de um ataque deste género. como formada de centenares de corpos em bando. e todos os feridos se acharam na ilhota. a chama das fogueiras reflectia-se na água. que ele encontrara quatro dias antes. Durante a sua marcha lentíssima. prostrados de fadiga. os comedores de vermes tinham sido atacados pelos cães. o mergulho de um corpo e o ofegar do nadador: depois. os comedores de vermes tinham retrocedido de pronto. Os comedores de vermes despertaram também. que ele punha logo a assar. matou três gamos fugitivos e um pequeno cavalo de focinho papudo. comodamente abrigada por uma pele de urso. estupefactos. caíram logo no sono. viram chegar aquele homem. sem luar. e quase ao mesmo tempo viu-se uma ondulação rasteira. sempre mais próximo. tendo distinguido a voz do cão das grandes planícies estéreis. todavia. ficou de vela. os asiáticos tinham-se servido dos seus aliados quadrúpedes para atacar as tribos errantes. correu para junto de Vamiré. Finalmente. tratou dos feridos zelosamente. quebrando o silêncio das trevas. Élem resignou-se. e foi juntar-se à sua companheira. Vamiré aplicava o ouvido. procuravam o nómada. alimentando o lume. consternado pelo desgosto de Élem. Mas. desvairada. para os conservar bem. by J. e ouviu-se um estrépito de tempestade. depois da refeição. ao clarão da fogueira. Este. Os que se recordavam dele obedeceram. que estava em observação na outra extremidade da ilhota. A viração dava linguagem às folhas. Os outros. perigosos para a canoa. e fez sinal para que transportassem dois inválidos para a canoa. 54 Vamiré facultou-lhes as suas provisões. sob as indicações do grande nómada. assomou um perfil humano. Élem propôs que subissem o rio. a intervalos.Vamiré. indicou a cada um lugar de dormida. à orla da floresta. tranquilizados. Élem. e segredou-lhe uma palavra desconhecida do Pzann. mas Vamiré opôs à proposta que o temporal da véspera avolumara o rio. Rosny O bando. Os comedores de vermes. e. que arrastava troncos de árvores. o silêncio e a solidão. de maneira que o seu número se elevava a muitos . As trevas envolviam tudo.

referia-lhe a ferocidade quando conduzido pelo homem. o Pzann te saúda. o espírito do saber. Aliados com o cão. e está pronto a mutuar o próprio sangue com o teu. Este movimento foi perfeitamente compreendido. com a sua larga mandíbula.Vamiré. a sua alta corpulência. Vamiré compreendeu-lhe as palavras. Afasta o animal. escuta a voz daquele. a alguma distância da fogueira. A margem oposta pouco tempo se conservou escura. Nesse momento. reuniram-se ao grande nómada. e uma voz ressoava em meio do grande silêncio e sobre as águas do rio. auxiliado de frechas e braços humanos? Aceita a paz. cujos cabelos são brancos. Vamiré e Élem reconheceram a voz do chefe oriental. Ouviu a filha da tua tribo. pois a iluminou rapidamente uma grande fogueira. convencidos. gritando: --Velho. O clarão da fogueira. ao vê-lo mais semelhante à hiena do que ao lobo. adiante da fogueira. animados pelo belicoso aspecto do Pzann. apenas levantou acima da cabeça uma das antigas clavas. a sua flexibilidade.. menos enfumarado. perdas consideráveis. que os asiáticos o guiavam. depois de uma longa paragem. 55 Chegando à beira do rio. homem das nascentes do rio. os três moços haviam-se reunido. pelos seus belos olhos que chispavam altivez. e o grupo dos braquicéfalos animou-se. H. precipitaram a sua retirada. pronunciava-lhe o nome. Élem apontava-lho com insistência. Este convocou os chefes. O número dos seus adversários ia crescendo sempre. Rosny centenares. e todos se encheram de coragem. Mutuemos o sangue de nossas veias. e designou-lhes lugar de combate nas ribanceiras da ilhota. quando Vamiré os salvou. Voltando para a sua clareira. a sua aliança com os braquicéfalos. e foi pôr-se de atalaia. quase na estrema do espaço iluminado. e por isso sofreram. Vamiré compreendeu que ele devia ser um perigoso adversário. e salvem-se os comedores de vermes!-Na margem oposta. porque. Vamiré fez reavivar as fogueiras. pelo seu arcaboiço. Vamiré avistou o cão. dilatado nas previsões da luta. como ao seu protector único. pela marcha lenta do quadrúpede. Surpreendidos no sono pelo grito do cão. foram novamente assaltados.. Élem dizia: --Homem das regiões desconhecidas. e horrorosamente fatigados. quando. e a quem fala. já não esperavam senão a morte. Desviou-se porém a sua atenção. poderíamos encarar a guerra sem receio. contra as inumeráveis legiões do animal. Demais. se interpôs um vulto humano. As minhas palavras significam paz. e chegavam quase sempre a repelir o seu terrível inimigo. aceitou-as. . a meio dia do rio. e. carregados de feridos.-Com a ajuda de Élem. a sua organização em vivendas. by J. Que poderias tu. Defendiam-se entretanto com energia. banhava de claridade o quadrúpede. encarregando-os de formar os seus grupos. neste último encontro. O Pzann escutava-a atentamente. na solidão. Como instruções. baixando-a sobre um inimigo imaginário.

Os orientais recuaram a sua fogueira para o abrigo do matagal. porque o nómada ferira um homem. O velho tendia para a clemência. para vingar uma criatura ignóbil. fanático exaltado. Rosny Não podiam fraternizar com os filhos da Serpente. pareciam convencidos. No campo dos orientais. folhas alcalinas. Os cães estavam invisíveis. à necessidade de estar em paz com os povos longínquos. by J. Os companheiros chupavam o sangue da ferida. da margem.--clamou o velho. mas referiu-se à coragem de Vamiré. e todos. ao passo que o fanático baixava os olhos. ferindo o tardígrado num ombro. replicou: --O meu sangue também é novo. correu para junto do tardígrado ferido.--perdoa a exaltação de um sangue muito novo!-Mas Vamiré. Este persistia em soltar injurias contra os comedores de vermes. cuja seiva ele espremeu na ferida aberta. o Pzann quer a paz. à glória de uma expedição para as bandas do Norte depois do Inverno. Dois dos moços pareciam convencidos. O chefe voltou-se de novo e clamou: --Porque é que o homem irmão toma o partido do ser imundo? É melhor deixar essa presa ao cão. entre os orientais. mas um dos moços. O doloroso grito do homem foi acompanhado de um grito colérico do homem loiro. se abandonasse os seus aliados. Vamiré buscou um antídoto. Aproximou-se. e de um rumor de censura. XX Assalto à ilhota Prolongaram-se as tréguas. repassados de desgosto e ódio.Vamiré. em que depois as estendeu. e todos os moços. apontando a frecha ervada a um dos vermívoros: --O Conselho diz: nunca a tua frecha hesite em ferir o imundo!-E a frecha descrevia a sua parábola mortal. e. e todos estavam indignados. H. 56 O chefe não se atreveu a opor-se abertamente. o velho tratava do ferido. extraindo assim o veneno. até.-Formaram os orientais novo conciliábulo. pregou a vontade implacável do Animal das águas. . tendiam para a guerra. e não perdoaria a perfídia!-Armou o arco. cheio de indignação.-Mas Vamiré indignou-se: --O Pzann não ousaria aparecer entre os outros Pzanns. --Homem. mas quere-a para todos que estão com ele. obstinado. a lei das tribos sagradas. e a sua frecha atravessou o peito do agressor. mas os seus uivos trovejavam na espessura. Depois. mais desejosos de uma vitória do que de uma solução pacífica.

ossos e achas. . A sua alta corporatura. O fumo das fogueiras flutuava sobre a água. tudo isto pareceu produzir nos animais uma impressão como que supersticiosa. que recuaram para fora de alcance. enquanto a outra retomava directamente a ofensiva. com a sua imersão. e defendendo-se sem desanimo. Parecia que de ambos os lados se faziam preparativos para uma luta próxima. Entrementes. os cães mergulhavam e nadavam. Não se ouviu mais uma palavra de paz. os cães foram atacados tão vigorosamente. desaparecendo depois no mato. H. Acabava de depor a seu lado a décima segunda frecha. soberbamente humana. --Eô! Eô!--gritou ele. Lá adiante. Silenciosos e terríveis. latindo desordenados. a pouca distância da água. Do lado dos cães. Os tardígrados. mas nada anunciava uma investida. um bando de cães veio beber ao rio. uma das quais singrou para o ponto mal fortificado da ilha. Rosny Os comedores de vermes recaíam no sono. contra ele dirigida. impetuosos. foram recuando. 57 De uma vez. e os tardígrados contavam uma vintena dos seus. defendido por Vamiré. se erguia. quando notou um rápido movimento e o formigar de muitos vultos na margem. entre clarões purpúreos. a sua formidável destreza em despedaçar crânios. e obrigou cada um a reocupar o seu posto. de costas para o centro. Vamiré fortificava o retiro de Élem com grossas ramadas e preparava as suas armas. mostravam-se enérgicos. by J. sempre reunidos em grupos. untada de veneno. fazendo. armada de uma lança. a carnificina do Pzann espalhou nela o terror. postados em pequenos grupos. as perdas eram consideráveis. Mas de pronto se dividiram em duas fortes colunas. tocou em terra. Antes que tocassem terra. aos milhares. pareceu-lhe avistar um oriental que. à parte alguns velhos mais resistentes. erguer o nível das águas nas costas da ilhota.Vamiré. depôs o arco e empunhou a clava. Julgou portanto que o chefe oriental aguardaria a manhã. A precipitação dos tardígrados em auxiliar o seu salvador poderia tornar eficaz aquela táctica dos agressores. poderia defender o seu abrigo. animados pelo Pzann. a sua voz autoritária. De outra vez. postos fora de combate. Vamiré. com que eram acolhidos. a sua clava enorme. a agilidade dos seus movimentos. Élem. de olhos fosforescentes em suas cabeças húmidas e luzidias. e recomeçaria as negociações. com espaço livre para manejarem os seus bastões. enquanto os tardígrados arrancavam do sono os companheiros. Mas Vamiré repeliu energicamente o reforço. Cheios de pânico. sob a saraivada de pedras. nadavam intrepidamente. sem desconcertar todavia a táctica dos comedores de vermes. a segunda coluna conseguira invadir a ilhota. verificando que entre eles não havia nenhum homem. Apenas a coluna. Vamiré trabalhava e velava.

sem necessidade de se defender. Rosny 58 O animal sentia-se vencido. mas esquivava-se a quaisquer concessões. e. e em que os dois bandos inimigos exaltavam o seu valor não vencido e prenuncio de novos combates. repelida por Vamiré. partindo da margem. Os cães redobraram o seu furor. foram colocá-los perto do sitio. Vamiré falava-lhe da vitória. . notara que os asiáticos despediam frechas. e ela escutava-o. despediu algumas frechas. e. da probabilidade de novos recontros. e a sua clava abria caminho por entre crânios e espinhaços despedaçados. Dos cães. quando algumas frechas ervadas. Voltando-se para o homem loiro. e o nómada aprovava. Uma ebriedade de vitória inflamava os olhos dos comedores de vermes. resoava o latir furioso dos cães e as maldições dos homens do Oriente. de trás dos arbustos. fazendo votos pelo advento de uma paz imediata. tanto mais que a coluna. repercutido pelos ecos. o animal. A situação agravava-se. iluminando os braços negros e contorcidos do arvoredo e as densas e flexíveis cumeeiras da floresta. e os cães. by J. Vamiré velava sempre. Cheia ainda do desgosto que lhe causavam os comedores de vermes. em que alguns acabavam de morrer. uivavam cães feridos. de onde os seus tiros eram muito incertos. Élem permanecera no seu abrigo. XXI A derrota Foi decorrendo a noite. desembaraçaram-se os tardígrados. aterrorizado.Vamiré. à beira das florestas seculares. relativamente aos tardígrados. postos fora de combate. Os orientais tiveram que se retirar para trás de grandes troncos. cantaram a melopeia do triunfo. repelidos para a água. tinha entrado pela outra extremidade da ilhota. chegavam à outra margem. fizeram duas vítimas. assaltaram com mais vigor os seus adversários. Fatigada. A maior parte dos vermívoros também dormia. Produziu isso um certo terror. Élem adormeceu por fim. e os grupos da costa aproximaram-se do centro. ao passo que outros. a que Vamiré correspondeu com um belicoso clamor. A ronda dos astros atravessava as calmas profundezas do rio. por forma que os tardígrados retomavam coragem. depois da sua vitória. pensativa e triste por aquele incidente. a pouco trecho. Os tardígrados trataram acuradamente dos seus feridos. levando reforço. H. em que Vamiré acampava com Élem. os quais. e contentavam-se em açular os seus aliados quadrúpedes. Decorreu a noite naquele tumultuar terrível. quase a descoberto. Na outra margem. Por seu turno. as fogueiras dos orientais ardiam por trás das ramadas. Vamiré fora ter com a sua companheira. inquieto. da ferocidade dos assaltantes. De todos os lados. para maior segurança. voltavam ao campo dos asiáticos. Manifestava a esperança de que as negociações se retomariam de madrugada. lançando-os à água. respondendo-lhes com latidos formidáveis. tendido o arco. reconhecia naquela voz e naquela força a força e a voz das raças vitoriosas. e o seu grito de guerra tornou-se plangente como um gemido de agonia. ao grado da corrente. Mas o grande nómada do Ocidente levava-lhe já o auxílio do seu braço. do número das vitimas. era terrível o número dos feridos humanos. O pobre tardígrado viu-se perdido. No entretanto Vamiré.

A dez metros da ilha. salvou-os do desbarato. Antes de assentar o pé em terra. para isso. deixando-se ir ao grado da corrente. e depois com ligeiras lanças. O contacto dos inimigos aterrorizara os comedores de vermes. rodeou a ilha. sendo necessário. açulados pelas vozes distantes. Em tais condições. com fortuna vária. iam quase todas cair inofensivas no meio da ilhota. o assalto era grave. que certamente se não salvariam da derrota. fizeram reaparecer os cães. H. Luziam-lhes os dentes e o fósforo azulado dos seus olhos rasgava as trevas. que. as colunas da frente estacaram contra a corrente. mas os orientais. anexou. formigando na margem e latindo furiosamente. Estes. . a heróica defesa dos outros. desta feita. Os cães acabavam de se atirar à água. outra para o pontal. e pôs-se de atalaia em bom lugar. armados de arpões e zagaias não aguardassem corajosamente os asiáticos. que toda a gente se agrupasse com ele. se os seis velhos. uma lança à sua clava. outro perfil apareceu na ribanceira. e. Seguidamente. e. organizando tudo de forma. Sem perda de tempo. todas as forças atacaram a um tempo. como para dar ensejo a palavras de conciliação. consideráveis perdas.Vamiré. Quando chegou o sinal. Os orientais não se viam. para melhor se confundirem entre as cabeças dos cães. os cães. a presença do homem revelou-se em nova táctica: formaram-se três colunas. dois orientais haviam-se adiantado e. denunciou um nadador. nada melhor do que estar na retaguarda. mas. sofreram. como antes. sustentaram o ataque. satisfeito de ver que se iam esgotando as munições contrarias. Mas teve de se furtar a uma frecha que vibrou. para concentrar a defesa. Vibraram outras frechas. aguardou. Rosny 59 Vamiré aproximou-se do rio. e a luta seguiu curso regular. O seu plano devia ser o dirigir o ataque. e a terceira. com gritos e açulamentos. tinham efectuado a invasão. suspenderam-no. by J. e fez guarnecer o outro lado da ilhota. E daqui concluiu Vamiré que. Ao princípio. O Pzann guardou-as. uma seguiu para a frente. não intervindo na luta senão com brados e alguns tiros de frecha em momentos oportunos. aguardando um sinal do bando que fora por trás da ilha. Do lado de Vamiré. e ali se quedou alguns instantes. fez evacuar o pontal oposto àquele em que se achava. desde que lá chegaram. onde estava Élem. acocorando-se logo. em observação. despertou toda a sua gente. compreenderam a imprudência de arrostar armas ervadas. para seu uso. Então Vamiré. irrompendo do rio. intervindo nele apenas no momento decisivo. Tinham provavelmente mascarado os rostos. compreendendo logo a inutilidade daquele tiroteio. Um vago perfil humano se desenhou entre os cães. para a assaltar por trás. e depois uma voz humana. Armou com arpões de pontas fixas e de zagaias seis velhos mais sagazes. Parecia que aumentara a coragem dos cães. Depois. primeiro a tiros de frecha. os asiáticos acompanhariam a expedição. enristando a lança. descrevendo vigorosas parábolas. muitos tardígrados das primeiras filas pereceram estrangulados. dando pela ausência do Pzann. envolvidos num círculo ameaçador. e debandaram em retirada. postos fora de combate centenares de cães.

e os gritos de guerra mesclavam-se às agonias do estertor. e tendiam a concentrar-se em grupos numerosos. Demais. fazendo rosto ao inimigo. arremessou-se de repente para a vanguarda. sobreveio um incidente. manietou-o. Rosny 60 Vamiré não os esperou. H.Vamiré. Vamiré. Eles obedeceram. porque os orientais. lançou-o aturdido no chão. que eles alimentavam cuidadosamente. Num impulso terrível. a pouco trecho. desde então. o Pzann. dirigiam mais activamente a batalha. Do esconso das moitas. e. ao clamor das vidas que se extinguiam. mas não o conseguiu. by J. Os comedores de vermes. enquanto os demais trucidavam os cães que mais se haviam internado. como os latidos do animal se mesclavam à enrouquecida respiração dos homens. partiu a frágil haste da arma inimiga. e acercavam-se dos seus brasidos. segurando o homem pela nuca. A peleja travava-se nas trevas. Os seis velhos. não obstante os estragos que neles produzia a clava. que tornou indispensável a presença de Vamiré. Os tardígrados deixavam os lugares sombrios. com uma pancada. para que se lhe juntassem. e cuja coragem era apenas mantida pela presença de Vamiré. deu-o a guardar a Élem. que os animais aguentaram apenas o primeiro embate e fugiram. mas retomaram o assalto. sacrificavam-se. e queimaram arbustos. obrigando os cães a recuar. A purpura de sangue avivava-se ao clarão vermelho das fogueiras. aproximar-se-lhes o cansaço. Ao grito de guerra. ventres estripados. mordiam. aos centos. mato. além de tudo. ao passo que os mortos patenteavam gargantas rasgadas. soltado por Vamiré. a sua clava e a sua lança fizeram tão numerosas vitimas. Gemiam ali numerosos feridos. procurou aproximar-se dos asiáticos. sentiam os seus braços menos lestos em erguer a clava. Os orientais. . Vamiré e a sua gente puderam tomar alento. da espessura da floresta. produzindo um princípio de pânico. que poderia trazer desastrosas consequências: os comedores de vermes. macissos. que defendiam as traseiras da ilhota. tinham mordidas as pantorrilhas e as coxas. invadiram ervas secas. deixando a descoberto um oriental. na frente. e. fechando com a mão ferimentos terríveis. de forma que. a horda dos cães emergia incessantemente para a luz. uma rampa de braseiros protegia o núcleo principal dos seus homens. fez compreender que era mester alimentar as fogueiras extensamente. viam. e correu a socorrer os seus aliados. sempre que podiam. os cães recuaram. estimuladas pela voz dos asiáticos. e conseguiam repelir os ataques de flanco. prontos em auxiliar a estratégia do nómada. Este. armados de arpões e lanças delgadas. para estimular a coragem dos cães. Mas as hordas caninas. que reboavam naquela confusão. sustentou firme todo o peso do assalto. Este pequeno grupo. disseminavam as fogueiras. agruparam-se de novo. encarniçavam-se e era de recear que aos homens chegasse a hora fatal do cansaço. As chamas elevaram-se. Geralmente. mas invadiam. durante uma trégua curta. porque os animais se opuseram firmes. Depois. resguardados por tal barreira. aterrorizavam. sempre renovadas. fez sinal aos velhos. e recebiam a aproximação de Vamiré com basto tiroteio de frechas. marchou contra eles com tal vigor. Vamiré compreendeu a situação. Encarniçados com os gritos agudos dos orientais. Finalmente. já impressionados pelo contacto dos homens das grandes estepes. imitando-os os mais vigorosos de entre os demais. Estes lutavam bizarramente. refluíram para a frente. armado simplesmente de uma zagaia. armados de arpões e zagaias.

com dentes e garras. pouco a pouco. Vamiré interveio.-O chefe não respondeu. Com o afastamento dos homens. depois de ter novamente agrupado os tardígrados e recomendado a Élem que se abrigasse. porque os flancos do inimigo eram protegidos por espessa vegetação. conhecedores dos costumes do animal. de um salto. Para isso. mas. rodeados de cães prestes a atirar-se. para que o animal voltasse à carga. Muitos comedores de vermes. os cães latiram amarguradamente. Facto curioso. os tardígrados tomaram a ofensiva. prevendo aquele movimento. Morrera um milhar de cães. resolveram ladear a barreira. largavam o bastão. Vamiré. Reconhecendo nela a raça amiga. sempre de zagaia apontada. Animados.--eu sei que és bom. Vamiré. e defendiam-se com pés e mãos. soltando clamores de vitória. e. tiraram dele vantagem. Percebendo que o alvejavam do recesso dos matagais. disparando uma zagaia e largando as frechas. com brandões que levavam e que cobriam de ramos secos. duas frechas varreram a cabeça e o ombro de Vamiré. em poucos minutos. e depois vibrou uma zagaia que atravessou o peito de um tardígrado. o ataque do quadrúpede tornou-se formidável com a aproximação dos asiáticos. e continuou a recuar. e que não poderia livrar-se dos cães. obrigou-os a voltar à ribanceira. tirou a zagaia ao velho e obrigou-o também a deitar-se a nado. lestos como uma pantera. Na refrega. até que viu erguer-se o seu companheiro. Neste ensejo. O Pzann alcançou-os. O Pzann e os seus aliados ficavam senhores da ilhota. Élem veio ter com Vamiré. e as suas palavras pareciam mais eficazes que as armas. Com a pancada no solo. A desordem estendeu-se às matilhas distantes. que fugiram. alcançou os orientais. Estes animais farejaram Vamiré e denunciaram-no. Eram forças folgadas. a qual caiu no vácuo. primeiro. as matilhas recuaram desordenadas. os cães. e os orientais. e com uma só punhada. partiu-se a clava. antes da chegada dos cães. procurando estes por indicação dele. evitaram a morte. e levantou a clava. o velho apontou-lhe a zagaia. Frouxo ao principio. Vamiré prostrou o mais novo dos seus inimigos. destacou mais de trezentos tardígrados para os principais desfiladeiros. acender ali fogueiras. e depois desbaratadas. era preciso passar pelo pontal da ilhota. Orientou-se pela voz dos asiáticos. pô-los em desordem com a sua clava. em que as forças disseminadas fraquejariam. by J. Mas o Pzann desatou a correr. arremessou o mais novo ao rio. fatigadissimos. achou-se perto deles. e caiu sobre os orientais. devida principalmente ao número. se não chegasse a pôr os orientais em debandada. como de reserva para as eventualidades.--disse Vamiré. Mas ele. Rosny 61 Os cães tomaram-se de assombro. que lhes permitia opor três ou quatro dos seus a cada um dos homens. porque os outros. e foi necessária a intervenção dos orientais.Vamiré. ao lado do Pzann. inquietaram-se com aquele novo processo. um velho e um moço. mas não lograram esse intuito. H. e cruzaram-se os olhares de ambos. e não desejo tirar-te a vida. --Bem. embrenhou-se no mato. Fugiu então. os cães estavam evidentemente desbaratados. e os asiáticos eram apenas dois! XXII O incêndio .

Nas suas contorções. e ajudava a tratar os feridos.Vamiré. tudo se conjugava: as labaredas simétricas e ondeadas. crepitava. faziam reviver o pesadelo da peleja. sopeara a sua repugnância. levando consigo os finos estofos do vapor. chegara à beira do rio. esburacadas de perspectivas. estendiam a grossa maxila. perpassava uma expressão de alegria. o incêndio alimentava-se. Estavam sem armas. ufanas de vencer. As labaredas subiam. o desgraçado. Vamiré encontrara o oriental cativo. as estrelas desapareciam atrás das volutas da fumarada. produzia o terrível aspecto da queda de grandes rochedos. Dardejantes. O vento impelia as labaredas. deixavam cair centelhas abundantes. animadas de estranhos hálitos. como o ondear de um tanque. por baixo de frocos de fumo húmido. da sua cumeada. por forma que era perigoso acampar no pontal. franzindo-se a qualquer bafejo da viração. Rosny Ardia a ilhota. última expansão das suas forças. como pequenas gotas de saliva. alongava-se em grandes nós ondulados. à excepção das do ferido. No espelho das águas. Tinham-se apinhado ali os tardígrados. esbranquiçadas depois. atrás das moitas. e as faúlhas fictícias. lambia demoradamente as grandes árvores. e. e. Sob a acção do vento. e na perspectiva de se verem abandonados . O voo das aves. Demais. abaixava-se. rasteiro. carregado. de uma espessa chuva de cinza. Nas espessuras mais densas. Do seu acampamento. arrojava-se. lento. mas não pôde realizar esse intento. by J. e ali curavam dos seus doentes. ora obscuras. levavam a crepitação das fibras secas. as nuvens de fumo. a ramaria esboçava as folhas de um livro mágico. inopinadamente. os asiáticos viam arder a ilhota. antes da chegada do Pzann. e. um tanto frouxas. erguiam de entre os braços o rosto frenético. profundas como abismos. e. difundia-se em feixes desacordes. A rapariga. nas fases de extinção. A sua situação não era lisonjeira. ao verem passar Vamiré ou a sua companheira. soltavam gritos. Debalde procuraram levar os cães a terceiro assalto. na intenção de se deitar à água. cruzava os clarões. palpitava como coisas vivas. comovida pela coragem daquela pobre gente e pelos serviços que tinham prestado a Vamiré. as quais cumpria reservar para defesa extrema. através do pesado sono. penetrando as trevas. Depois de perseverantes mas inúteis esforços para partir os seus liames. as línguas de fogo ressurgiam purpureadas. de uma sólida condensação das trevas. as explosões das seivas aquecidas. rosnavam. na sua posição habitual. Fê-lo hesitar porém a violência da corrente e quis ao menos partir as correias que lhe ligavam as pernas. ora luminosas. rompia. rebolando. depois. claras na base. flamejava sobre as ervas secas. as folhas correadas. e como atravessadas por ondulações. 62 Naquelas tristes fisionomias. mordia as pequenas franças. sombreadas como nuvens. acabrunhadas de fadiga. aquilo seguia um rumo. e chegar à outra margem. como orvalho de uma cólera que se esvai comprimida. inquietos quanto ao destino do companheiro desaparecido. onde se achava o abrigo de Élem. Quando a rápida fúria dos gases em ignição abandonava um moitedo. H. associando-se à queda das faúlhas reais. Muitos tinham adormecido. que se aninhavam nas elevadas cimas do arvoredo.

Aliás. O Pzann desligara os pés do oriental e interrompera o sono de Élem. Talvez o incêndio o force a abandonar a ilha. como enxames de vespas em desordem. --A morte.--disse o asiático. devoradas depois. O velho ouviu-os. mas ensina que na hora da derrota. e atingiam as folhas. lambidos pelo incêndio. manda que se proponha a paz no princípio da guerra. --Os meus não foram vencidos! --Não. e. Possível é que o nosso inimigo.--disse Vamiré. não podendo a proposta significar humilhação.-Seguiu-se longa pausa. falará.--mas não é um fraco aquele que se salva. O incêndio. Rosny 63 pelos cães. enquanto as hostes são vigorosas e os destinos incertos. . mais intenso e como receoso de que o dia lhe atenuasse os esplendores. em pequenos gritos. encarquilhadas desde logo. e que se baloiçavam chamejantes à brisa matinal. H. Entrementes. ao tocar no solo. fatalista. Vamiré. Este. na hora da guerra quereis a paz. Élem dormia no seu abrigo. pensativo. seco e cruel. jorrando cóleras de centelhas. mugia como um rebanho de búfalos atacados por feras. inclinado para a fogueira. e os cães aprenderam a temer-nos. O calor era enorme. A cor do lilás passara à da turquesa e uma semiclaridade aquosa se estendia por todo o horizonte do rio. by J.-A aurora tingia de lilás pálido o oriente.--disse-lhe ele. --Sei que és valente. as ribanceiras acusavam uma frescura extrema. com o destroço dos grandes ramos. e. de semblante anuviado de tristezas. ou crepitava. agarrava-se às ramarias. pareciam leves e vaporosas. prefira a certeza de uma conciliação aos acasos de um combate final. para a morte ou para a fuga. Na hora da paz. transmitido de pais a filhos. e que. os mais novos julgavam próximo o seu aniquilamento. queríeis vós a guerra. Os outros falaram-lhe humildemente sobre o seu desbarato e sobre a necessidade de acordo com o inimigo.Vamiré. mas que. se ele entender que deve falar. e lastimavam o não se haverem confiado à prudência do chefe. cumpre que nos preparemos para a vitória. como legiões ácidas de formigas em marcha contra os casais. o bom conselho.--se não julga que chegou a hora de se fazer paz. em confronto com a vibrante sequidão do incêndio. O saguim. cheio de resignação. nesse horizonte. saltava aos píncaros do arvoredo em labaredas mais altas. e depois falou: --Rapazes. salvando seus irmãos. em pequenos estalidos. as árvores. o céu. para que não caiam sobre o vencido os sarcasmos do vencedor. Tinha em lugar seguro a canoa e as armas. como bandos ruidosos de gafanhotos destruidores das gramíneas. Inquietos e sonolentos. no ar. crepitavam asperamente. para que esta lhe servisse de interprete: --Pergunta a teu irmão. que se avivavam caindo. durante a qual o asiático meditava. despertando ao ruído e à claridade. como borboletas de luz. os tardígrados iam recuando sempre para a extrema ponta da ilha. guardou silêncio por muito tempo. é preciso morrer.--não me assustaria.--mas são apenas dois. descrevendo estreitas curvas. em que tudo revela tino e coragem.--disse o Pzann. as labaredas avultavam mais. Os seus claros hélices de réptil cingiam os grandes troncos. contemplava o incêndio. A alvorada subira um grau. não dizia nada.

Vamiré remava sempre. . e soltou a voz de chamamento. as largas desembocaduras de ribeiras. acompanhado de Vamiré e Élem. palidejando com a luz nascente. a barca ia singrando contra a corrente. H. por um instante. --Vem pedir-nos auxilio ou vingança? --Não. O Pzann hesitou.-O oriental transmitiu a Vamiré o desejo do velho. que as chuvadas entumeciam. Depois. ou disseminadas em delicados tecidos. no esconso das florestas. o leve rumor das pequenas quedas de água. desatou os laços. --Que fales a teus irmãos--respondeu este. e o misero tardígrado terminara o seu êxodo para o Grande Lago.. porque é justo que fales dessas coisas como homem livre. Firmara-se a paz com os orientais. e. com o receio de uma traição. aderentes às retículas dos pequenos ramos. agitadas em línguas monstruosas. e a ver as suas florestas. observar a correnteza dos rápidos. --Desligue ele pois as tuas mãos. by J. Ao longe. o homem do montante do rio pede paz. o que arrancou o oriental à sua meditação. Os cães tinham regressado às áridas savanas da beira das florestas. O cativo não se mexeu. sem dizer uma palavra.Vamiré. as suas penedias. Rosny 64 O Pzann sentiu desejos de prosseguir na sua viagem pela face verde das águas. acompanhado pelo moço válido: --O nosso irmão está cativo do homem das regiões desconhecidas? --Está cativo. enquanto Élem e o saguim brincavam ou dormiam na barca. --Que queres tu de mim?--perguntou ele ao Pzann. O oriental ergueu-se. por extensos e alumiados canais. as chamas completavam o seu assamento feroz. a sombra dos pequenos canais povoados de mouchões. a claridade dos extensos álveos. ouvir o rugido das cascatas.. No entretanto. E. ouvia-se o ladrido dos cães em caça. caminhou até a beira da ilha. conhecida das tribos: --Ré-á. Viu que Vamiré percebera a ausência dos cães e a facilidade de um acto de força no campo inimigo. limitando-se gravemente a erguer os braços acima da cabeça. de continuar a subir o grande rio. XXIII Regresso Pelas gargantas das ilhotas e à sombra de árvores. ré-á!-O chefe braquicéfalo saiu então do mato.

no vago latir das suas risadas. Contra-anúncio 41 VII. Sentia-se maior que Harme. O homem das árvores 37 VI.. e Vamiré falou de paz. nos lararios nocturnos. demorando-se junto de Vamiré. Noite na floresta 65 . e sua irmãzinha. na terceira lua depois do equinócio. Pelas gargantas das ilhotas. o escancarar do solo. seus valentes irmãos. a agressão dos animais ferozes. A tribo. a que corresponderam com a humilde melopeia da marcha. e Vamiré tornaria a ver seus pais Zom e Namir. narrando o esboroar das montanhas. à sombra das árvores. Na primavera do ano seguinte... by J. as semanas sucederam a semanas. o rugir dos leões. nos seus broncos semblantes. que era o que os mantinha de pé em face do antropóide e das grandes feras. Pelas gargantas das ilhotas. em cavernas propicias. até melhorar o tempo. desde a alvorada ao lusco-fusco. A história da sua viagem. Guerra nocturna 1 II. e o seu sangue mesclou-se com o de Vamiré. a canoa vogava sempre para o Norte. Era mester então procurar abrigo nas calhetas. Em nome das sagradas tribos. açoite invernal. Índice Pag. Élem. a esposa que ele levava de longe. rápidos e catadupas. a absorção dos grandes lagos em fauces de abismos. homens tardígrados. refugiada nas cavernas da alta região. humildemente. os Pzanns enviarão trinta caçadores. O funeral de Vanhab 25 IV. o barrir do mamute. pelas gargantas das ilhotas. para dominar a nostalgia. tendo a Vamiré por chefe. quando o pólo do Setentrião gravitava para o luzeiro do Cisne. não deixaria as savanas do Oriente meridional. faria palpitar o coração dos moços: surpresas do rio. A horda 13 III. E os velhos acrescentariam que devia ter sido necessária uma vontade invencível. e pelos grandes canais alumiados. e aqueles homens virão buscar outros tantos aliados. Do alto de um pequeno outeiro. dirigidos pelo prudente velho. saudavam a passagem da frágil barca e o homem adversário. O bramir dos cervos.. A ilhota 29 V. de cento e vinte Invernos.. e dos seus queixumes. na gratidão infinita dos seus olhares e na dificuldade com que eles. o velho enjeitou todas as ideias de guerra. com Élem folgando ou dormindo e Vamiré manejando o remo. perversidade dos répteis. Rosny 65 Os asiáticos abriram as veias dos braços. o horror das imensas solidões! Ainda os sorrisos do céu. E apresentaria aos velhos. em nome dos grandes nómadas ocidentais. ou soprava o nordeste. à sombra de árvores. que saltava como cabra montesa. Mas Vamiré tinha o peito cheio de grande orgulho. a corrente mais impetuosa. ferocidade das feras. H. E ela vogava. vogava.. empenhada no regresso. algumas vezes o sol dardejava os seus ardentes afagos. Sentiam-se próximas as chuvas. porque vencera as ciladas da natureza. ou caíam lufadas impiedosas. homens das árvores. e sempre a barca. pelos vastos canais alumiados. e os rudes aguaceiros. antes de meado outono. Firmes na união fraternal. e pelos extensos canais desensombrados. escolhidos entre os mais intrépidos. as infinitas chuvas. se resolveram a partir. PALAVRAS DO TRADUTOR v I.Vamiré. e o ardiloso ataque dos homens. o rio verde ou lodoso. cobrindo-as de pequenas bolhas saltitantes. A perseguição 59 VIII. referida pelos anciãos. Parecia-lhe tornar a ouvir. no declinar do período madalenico. comedores de vermes. o velho Tá. Quer o vento encrespasse as águas. regiões novas. e perder dias inteiros. quer as crivasse a chuva. transportavam consigo os seus feridos. despediu-se deles com um grito de amizade. E Vamiré pensava nos comedores de vermes. na profunda tristeza deles à hora da separação.

so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United States without permission and without paying copyright royalties.txt or 29213-8. Redistribution is subject to the trademark license.A.net/license). Rosny *** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VAMIRÉ *** ***** This file should be named 29213-8. by using or distributing this work (or any other work associated in any way with the phrase "Project Gutenberg"). "Project Gutenberg" is a registered trademark. There are a lot of things you can do with Project Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic works. . O incêndio 165 XXIII. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm electronic work. Reconquista 109 XV. Silva Updated editions will replace the previous one--the old editions will be renamed. Os aliados 129 XVIII. O idílio nascente 69 X. Special rules. especially commercial redistribution. Entre os orientais 103 XIV. A derrota 157 XXII.zip ***** This and all associated files of various formats will be found in: http://www. performances and research. You may use this eBook for nearly any purpose such as creation of derivative works. understand. If you do not agree to abide by all the terms of this agreement. by J.B. H. by J. set forth in the General Terms of Use part of this license. you must cease using and return or destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. Rosny 66 IX. Os vermívoros 133 XIX. you indicate that you have read. reports.Vamiré. O mamute 89 XIII. A chuva 119 XVII.E below. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the terms of this agreement. apply to copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Reforços 113 XVI. See paragraph 1. you agree to comply with all the terms of the Full Project Gutenberg-tm License (available with this file or online at http://gutenberg.gutenberg.E. unless you receive specific permission. There are a few things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works even without complying with the full terms of this agreement. you may obtain a refund from the person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1. H. Na ilhota 141 XX. *** START: FULL LICENSE *** THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free distribution of electronic works. Section 1. If you do not charge anything for copies of this eBook. It may only be used on or associated in any way with an electronic work by people who agree to be bound by the terms of this agreement. They may be modified and printed and given away--you may do practically ANYTHING with public domain eBooks. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm electronic works 1. Project Gutenberg is a registered trademark.C below. See paragraph 1. and may not be used if you charge for the eBooks. agree to and accept all the terms of this license and intellectual property (trademark/copyright) agreement.8. Vamiré 79 XII.org/2/9/2/1/29213/ Produced by M. 1. complying with the rules is very easy. Combate 73 XI. Creating the works from public domain print editions means that no one owns a United States copyright in these works. Regresso 173 End of the Project Gutenberg EBook of Vamiré. Assalto à ilhota 151 XXI.

9. give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www. if you provide access to or distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than "Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www. distribute or redistribute this electronic work.net). including any word processing or hypertext form. performed.E.7 or obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1. the work can be copied and distributed to anyone in the United States without paying any fees or charges. Rosny 67 1. owns a compilation copyright in the collection of Project Gutenberg-tm electronic works.1 with active links or immediate access to the full terms of the Project Gutenberg-tm License.E. Do not copy.E. perform. displaying or creating derivative works based on the work as long as all references to Project Gutenberg are removed. or any files containing a part of this work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. You can easily comply with the terms of this agreement by keeping this work in the same format with its attached full Project Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.3.E. distributing. Copyright laws in most countries are in a constant state of change.E. Additional terms will be linked to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the permission of the copyright holder found at the beginning of this work. copying. nonproprietary or proprietary form.C. with active links to. performing. Of course. or any part of this electronic work. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" or PGLAF).E. you .D. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted with the permission of the copyright holder.1 through 1. check the laws of your country in addition to the terms of this agreement before downloading. Nearly all the individual works in the collection are in the public domain in the United States. The Foundation makes no representations concerning the copyright status of any work in any country outside the United States. without prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1. 1.E. If you are redistributing or providing access to a work with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the work. viewed. or other immediate access to.8 or 1.gutenberg. You may copy it. your use and distribution must comply with both paragraphs 1.Vamiré.E.E. compressed. the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the phrase "Project Gutenberg" appears. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived from the public domain (does not contain a notice indicating that it is posted with permission of the copyright holder). or with which the phrase "Project Gutenberg" is associated) is accessed. we do not claim a right to prevent you from copying. 1.5. distributing or creating derivative works based on this work or any other Project Gutenberg-tm work. display.E. marked up. displaying. we hope that you will support the Project Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with the work.4. H. you must comply either with the requirements of paragraphs 1. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm License terms from this work. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: 1. The copyright laws of the place where you are located also govern what you can do with this work. If you are outside the United States.1.E. 1.E. The following sentence. copied or distributed: This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with almost no restrictions whatsoever. displayed. by J. You may convert to and distribute this work in any binary.2. 1.E.6.gutenberg. 1.1 through 1.net 1. performing. If an individual work is in the public domain in the United States and you are located in the United States. 1.E.7 and any additional terms imposed by the copyright holder. However.

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