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Subjetividade e Modernidade: o recuo de Nietzsche

Vânia Dutra de Azeredo

Nossa comunicação visa a mostrar que o pensamento de Nietzsche ultrapassa os pressupostos modernos, inviabilizando, com isso, a leitura de uma possível subjetividade presente tanto no conjunto da filosofia de Nietzsche, quanto e, principalmente, a partir da elaboração de Assim falava Zaratustra e da introdução do conceito de vontade de potência. Com referência à Modernidade, que entendemos de Descartes a Hegel, partiremos da exposição habermasiana acerca do sentido e identidade de seu projeto de autocertificação a partir, justamente, do conceito de subjetividade. O que nos leva a refutar a tese de que haveria no pensamento nietzschiano a expressão de tal conceito, embora admitamos a proposição de uma estrutura social de muitas almas enquanto ponto de ruptura com a abrangência e as conseqüências da defesa de uma subjetividade no projeto filosófico desse autor. Em termos de ruptura, partiremos dos seguintes pontos: 1) O que é a crítica para Nietzsche; 2) O sentido da Revolução Francesa e da Reforma; 3) e, por fim, o conceito de estrutura social de muitas almas. A escolha desses pontos de ultrapassamento deve-se à circunscrição realizada por Habermas no livro Discurso filosófico da modernidade que apresenta, por um lado, como “Os acontecimentos-chave históricos para o estabelecimento da subjetividade (...) a Reforma, o Iluminismo e a Revolução Francesa” p. 26. E, por outro, a realização da crítica à modernidade enquanto tentativa de situá-la no nível do conceito. A expressão subjetiva, na visão de Habermas, comporta quatro conotações a partir de Hegel: o individualismo, como ponto de partida para particularmente fazer valer as ações; o direito de crítica, enquanto necessidade de legitimação do reconhecido; a autonomia da ação, tida como resposta ao que se faz e, por último, a filosofia idealista enquanto idéia que se sabe a si mesma. Convém mencionar que, no referido livro, há uma menção direta a Hegel como aquele que descobre o princípio dos novos tempos, no caso os modernos, como sendo a subjetividade, ainda que ela esteja presente, no discurso filosófico, desde Descartes. Na página 28, encontramos a seguinte afirmação que se torna elucidativa da caracterização do discurso e da subjetividade modernos.

Assim. Significa que o pensamento. encontra primeiro em si os critérios que permitirão estabelecer algo . refletir sobre o estatuto da posição de Habermas frente à Modernidade e. nossa posição alusiva a esse ponto. a saber. A realidade está sempre primeiro no sujeito e se apresenta como idéia. Descobrindo a subjetividade como princípio. como subjetividade abstrata no cogito ergo sum de Descartes e na figura da consciência de si absoluta de Kant. Faz-se necessário. cuja denominação de subjetivismo quer dizer primado da subjetividade. Ele faz da razão o supremo tribunal ante o qual deve se justificar tudo aquilo que em princípio reivindica validade. como marco inaugural da Modernidade. tratando-se “da figura de auto-realização do sujeito cognoscente”. a superioridade e a tendência à crise dos novos tempos. Trata-se da figura de autorealização do sujeito cognoscente que se desdobra sobre si mesmo enquanto objeto para se compreender como em uma imagem especular. compartimos com o autor a afirmação de que a estrutura da subjetividade é apreendida no cogito cartesiano. assim como a ciência. uma vez que o intelecto é o único princípio de conhecimento. consistiu em tomar o sujeito como ponto de partida do conhecimento significando que o sujeito é o pólo a partir do qual se irradia a certeza. a vida religiosa. haja vista que a filosofia passa a ter como tarefa apreender no pensamento o seu tempo que. na ótica de Habermas que. que se constitui o conhecimento verdadeiro.2 Na modernidade. Sua estrutura é apreendida enquanto tal na filosofia. da autocertificação da Modernidade. ao mesmo tempo. justamente de modo “especulativo” Kant toma essa abordagem da filosofia da reflexão como base de suas três “Críticas”. Trata-se. no caso. Hegel explica. é a própria Modernidade. exclusivamente o pensamento. precedência do sujeito no processo de conhecimento. conduzido metodicamente. cuja exposição descritiva encontra no idealismo hegeliano sua expressão conceptualizada. nesse ponto seguimos. antes de continuarmos nossa argumentação. É a partir do que se encontra no sujeito. o sujeito passa a ter a função ordenadora do conhecimento enquanto é a sede da certeza de todos os objetos. A posição idealista de Descartes. a moral e a arte transforma-se igualmente em personificação do princípio da subjetividade. Eis a grande mudança que Descartes introduz na filosofia. Efetivamente. o Estado e a sociedade. particularmente. A realidade sensível do mundo material terá que ser demonstrada no nível do intelecto para que possa vir a possuir valor. portanto.

Afinal. Por isso o elemento definidor do sujeito e da racionalidade modernos encontra em Kant sua possibilidade efetiva. O governo absoluto da razão em termos de moralidade possibilita a universalidade de uma legislação e a resposta a segunda questão kantiana . Daí recusarmos a possibilidade de uma subjetividade em Nietzsche nesse sentido. A possibilidade e a descrição do processo de conhecimento relacionam-se diretamente com a dimensão da razão e. A subjetividade racional aparece como fundante do conhecer. Os pensadores modernos quase que na sua totalidade passam a antepor à elaboração de uma metafísica a de uma teoria do conhecimento. Torricelli. A postulação cartesiana da supremacia e da autoridade da razão introduziu na condução do pensamento filosófico diretrizes inexistentes até a modernidade. paradigma de todas as outras. assim como do uso do termo para introduzir outra significação. . começamos nossa proposta de refutação de uma possível subjetividade em Nietzsche pela noção de inversão crítica. justamente de modo “especulativo” Kant toma essa abordagem da filosofia da reflexão como base de suas três “Críticas”. com isso. à questão do que se pode conhecer. O homem assume a tarefa de fundar na subjetividade todo e qualquer conhecimento. cuja plena realização fica evidenciada pela extensão de uma legislação de essência universal às esferas da natureza. A vinculação da compreensão da razão à sua própria produção – atestada sobretudo pela Ciência da Natureza (Galileu. Todos esses pontos teóricos são objetos da crítica de Nietzsche e. estabelece suas possibilidades com relação ao conhecimento. por isso. Convém mencionar que não identificamos sujeito e subjetividade. antecede a qualquer outra formulação. a razão kantiana. será a existência do sujeito enquanto pensamento. respondendo. Stahl) – configura a autoafirmação. Consoante a determinação da legislação do entendimento ao mundo fenomênico.3 como verdadeiro. da vida social. Contudo a constituição dessa subjetividade atingiu a plena auto-afirmação mediante a crítica. do ser e do agir. jurídica e ética. por isso. “figura de auto-realização do sujeito cognoscente que se desdobra sobre si mesmo enquanto objeto para se compreender como em uma imagem especular. já que entendemos o primeiro com o primado do pensamento e da representação e o segundo como expõe Habermas. Com isso tem-se um marco de transformação substancial na própria ordem de explicação. à razão é dado um uso prático pelo qual atinge o númeno. mediante a crítica. A primeira verdade. referente ao agir humano. As mudanças de procedência lógica na construção filosófica têm como pano de fundo a auto-afirmação do sujeito na modernidade.

por isso. enquanto referida ao valor dos valores. embora possa demonstrar a impertinência de tais análises e. portanto. Seria necessário verificar quais os limites e as possibilidades da razão em termos de conhecimento.). destruidora de idéias e ideais. Se a pergunta pelo valor dos valores remete às suas condições de criação e. Stahl).). tem-se aqui a atribuição do valor como proveniente de uma avaliação referida à coletividade e. já que a crítica. ideal a ser destruído pelo “martelo”. o problema central da filosofia de Nietzsche é o do sentido e do valor. necessariamente. foi a percepção da fragilidade das construções argumentativas da Metafísica . refere-se diretamente aos valores.01) 2 “A Metafísica (. a crítica. pois o elemento diferencial não pode referendar o em si. Daí a posição indiferente que se efetivaria na manutenção do dado ser objeto de crítica e. Segundo o próprio Kant. “O problema crítico é o valor dos valores.... A questão da crítica. o conhecimento seguro atingido pela ciência da natureza até sua época (Galileu. sem possibilidade de questionamento acerca de seu próprio valor. Não realizar a crítica possibilitaria justamente um uso da razão que a fizesse transpor limites que lhe são vedados cognoscitivamente.. igualmente a recusa da questão do valor de tais avaliações. aniquila tanto aquilo que vale em si quanto aquilo que vale para todos. a sua resposta com relação à falta de uma crítica da razão no seu conjunto como determinante de construções que terminam em ruínas. configura a “filosofia a marteladas”. a crença na validade em si da postulação – atribuição de um valor – requer de imediato a compreensão do valor como algo dado e. Daí. entre aquilo que valeria em si e aquilo que valeria para todos. de um lado e. com isso.4 Nietzsche procede a uma crítica à moral. inúmeras vezes porque se descobre que não leve aonde se quer” ( Crítica da Razão pura. Torricelli. ao elemento diferencial de onde derivam os valores. p. o problema de sua criação‟ ( Nietzsche et la philosophie. os estudiosos da moral que o antecederam sempre oscilaram. a avaliação da qual procede o valor deles. recusar a continuidade dessas avaliações. por conseguinte. Segundo ele. instância indispensável no pensamento nietszchiano. ou mesmo o para todos. à postulação de um elemento indiferente no que concerne aos valores. manifestamente. o caminho seguro de uma ciência”. com isso.) a razão emperra continuamente na Metafísica (. Ora. que o levaram à necessidade de uma crítica da razão... no tratamento dos valores. (. p. Não obstante a determinação do valor como algo válido para todos diferir daquilo que vale em si. portanto. requer as condições de criação dos valores como algo que possibilite o próprio estabelecimento do valor deles . não teve até agora um destino tão favorável que lhe permitisse encetar. referindo o sentido à força e o valor à vontade. A posição nietzschiana entende o elemento crítico como criador e. Esse modo de 2 1 1 Para Gilles Deleuze. 11) . de outro. porque não dizer. Nela se precisa retornar o caminho.

isto é. § 3. Nietzsche apresentaria a tematização kantiana das antinomias. „não tão resplandecente. de per si. na ótica de Nietzsche. A recusa do fato em favor da vigência exclusiva 3 da interpretação faz com que se elimine de imediato as ilusões da verdade referentes ao conhecimento. e Kant também que seu propósito era aparentemente certeza.5 proceder que configura a subjetividade moderna enquanto a presença do sujeito cognoscente desdobrando-se sobre si mesmo. ao contrário erigi-los em algo absolutamente seguro. à moral e à religião. em vez disso. das ilusões da metafísica enquanto pretendendo o estatuto de conhecimento 3Gilles 4F. que todos os filósofos edificaram sob a sedução da moral. da própria moralidade. NIETZSCHE. quis propriamente mostrar qual é a instância crítica e porque a crítica kantiana promove uma defesa do criticado. Aurora. “chave da interpretação em geral e análise do tipo reativo em particular” . A resposta correta teria sido. mas era propriamente „majestáticos edifícios éticos‟: para servir-nos ainda uma vez da inocente linguagem de Kant. mais enfaticamente. Todavia. É essa propriamente a intenção de Para a genealogia da moral. Nietzsche et la philosophie p. A crítica kantiana jamais questionou o valor do próprio conhecimento e. Nietzsche. esse desdobrar-se do sujeito presente na crítica tem por base a defesa da invulnerabilidade da moral. quis rescrever a Crítica da razão pura. o ideal ascético enquanto triunfo manifesto da reação e uma explícita argumentação confirmadora e legitimadora desse triunfo e dessa manutenção. Na visão nietzschiana. em uma crítica. a crítica e a filosofia são a mesma coisa. Seguindo esse viés interpretativo deleuziano. DELEUZE. segundo Deleuze. „tornar plano e sólido o chão para esses majestáticos edifícios éticos” 4 Segundo Deleuze. algo dado para Kant. W. de modo que o que define ambas é a apresentação de um elemento de interpretação geral que possibilite inclusive analisar detalhadamente o tipo reativo. não consistindo. buscando. em Para a genelogia da moral. mas também não desprovida de mérito‟. que designa como sua própria. por conseguinte. „verdade‟. tarefa e trabalho. prefácio. . mediante a crítica do falso conhecimento e da falsa moral. O valor do conhecimento e o valor de moral são. 99. Quis mostrar o que está na base desta defesa.

no caso a coisa em si ou númeno. antinômica. a subjetividade não seria emblemática da Modernidade. a mistificação do ideal em que a vontade prefere querer o nada a nada querer. é de anuir à tese. . requerendo refutar a tese defendida por Habermas no Discurso filosófico da Modernidade. Essas questões são propriamente objetos de tematização de Para a genealogia da moral e. enquanto procedimento acrítico. aos quais se refere em Para além de Bem e Mal como "trabalhadores filosóficos". mas qual a avaliação que determina o valor desse valor. força que se interioriza. à Revolução Francesa e à Reforma. 02. recusa-se "a inventoriar valores existentes ou em criticar as coisas a partir de valores estabelecidos. p. Nesses termos. referida aos valores. “Aqueles trabalhadores filosóficos segundo o nobre modelo de 5Gilles DELEUZE. Primeiramente. ao menos do desdobrar-se do sujeito sobre si mesmo. A crítica kantiana apresenta três problemas cruciais que comprometem a sua realização. ou a recusa de uma subjetividade nos moldes habermasianos em Nietzsche ou a transformação completa desse conceito. Nietzsche et la philosophie. nossa posição. mas do seu ultrapassamento. que se volta contra si mesma. não identifica a instância crítica: a vontade de potência enquanto quem interpreta e avalia. apresentarmos a perspectiva de Nietzsche com referência ao Iluminismo." 5 Assim fizeram os que antecederam Nietzsche. Por último. ao perguntar pelo valor dos valores. Em vista disso. não falamos da mesma crítica e nem. a força separada do que ela pode.6 seguro pela atribuição à razão da possibilidade de apreender cognoscitivamente objetos a conhecer. em vista disso. Essa é a inversão crítica que. da verdadeira religião e da verdadeira moral. o caráter primordial da má consciência. assim como a atribuição do poder de síntese à razão enquanto empreendimento de defesa de uma dada moral e. Todavia. Em segundo lugar. Deleuze reivindica para Nietzsche a contraposição de Para a genealogia da moral à Crítica da razão pura como empreendimento de realização da crítica. Nietzsche requer para a genealogia o empreendimento crítico sem estabelecimento de compromissos com a verdade. o que requer. entre eles Kant e Hegel. portanto. até esse momento. Nesse último caso. o dever. não se contentaria em perguntar qual o valor que está por trás dessa avaliação. efetivamente. A crítica. o belo e o absoluto. não observa o paralogismo. o ideal ascético como expressão de todas as ficções: ficção do verdadeiro conhecimento.

e verificou-se um grande conflito quanto à disputa hegemônica de seus valores. entretanto. já que houve um declínio da nobreza guerreira ao qual se seguiu a ascensão da aristocracia sacerdotal –. Se porventura se interpretar interioridade versus exterioridade como possibilidade de uma exterioridade enquanto determinante. mas. Pode-se dizer que ambas as morais eram oriundas de uma mesma classe dominadora. a representação da exterioridade passou a ser meio de determinação. A primeira utilizava o princípio da força. ou do político (moral). para Nietzsche. A investigação de Nietzsche procura mostrar que historicamente houve um esforço dos sacerdotes. . enquanto a segunda. Podese tomar “Roma contra Judéia. consequentemente. de postulação. em agregar fracos e sofredores a fim de transmutar a moral de senhores em moral de escravos. esquecer-se-á a instância básica da vida. Para além de bem e mal. criações de valor. uma vez que os juízos de uma e de outra são totalmente antagônicos. o da impotência. NIETZSCHE. Judéia venceu.” 6 Comecemos com a Revolução Francesa. § 211. enfim. Todavia. A moral sacerdotal desenvolveu-se em sentido contrário à moral aristocrática. W. A interioridade foi julgada e condenada. se diferenciavam pela adesão a princípios opostos. foram soterrados. uma vontade que se 6 F.7 Kant e Hegel têm um vasto campo de estimativas de valor  o que significa antigas posições de valor. Judéia contra Roma”. a saúde a aventura e. Isso faz justamente com que surja um ódio radical com relação à moral aristocrática. a vontade de potência. ao contrário. que se tornaram dominantes e por um tempo foram denominadas „verdades‟  para estabelecer e encaixar dentro de fórmulas. A moral sacerdotal. seja no reino do lógico. movidos pelo seu ódio ao nobre. Na moral aristocrática se desenvolve a musculatura.não era exatamente o mesmo. Judéia contra Roma” como uma divisa da disputa da interioridade versus exterioridade enquanto imperante. embora tendo sua proveniência em um mesmo estamento . desenvolve a decadência e a negação. quase todas as potências do vigor e da energia. a própria impotência de uma dada interioridade acarreta a construção de uma representação externa para manter um impulso vital doente. O dístico histórico dessa luta é “Roma contra Judéia. detentores da manutenção de um impulso vital forte e pleno. ou do artístico. embora tendo derivado da aristocracia guerreira. da afirmação de suas respectivas morais. cujos germes encontram-se na luta travada entre a aristocracia-guerreira e a sacerdotal em termos da primazia de suas avaliações e. os valores nobres.

credor e devedor. na sua perspectiva. § 8. credor e devedor: “aqui entrou pela primeira vez pessoa contra pessoa. Para Nietzsche. NIETZSCHE. Em vista disso. nessa sua capacidade de medir e valorar: “Talvez exprima ainda nossa palavra „Mensch‟ (manas) algo. W. enfim. elas atingem um tal 7Idem. já que a relação entre dor e esquecimento. Tal determinação aponta para a proveniência do sentimento de culpa e de obrigação pessoal. Mais tarde. Para a genealogia da moral. devese situar a justiça. quanto imposta como meio determinante de sua suspensão temporária. do peso. que torna o devedor responsável por uma dívida. justamente aí. mede pessoa a pessoa. precisamente. em vista do estabelecimento de uma memória da vontade. então a equivalência entre dano e dor. remete ao próprio papel da justiça.. cabendo-lhe fixar na memória uns “quero” e uns “não quero”. igualdade e fraternidade”. a dor é tanto equiparada ao esquecimento. Ora. como única possibilidade de sua continuidade enquanto vontade. que valora e mede. aqui se mediu pela primeira vez pessoa a pessoa. 9Idem. inclusive. A justiça recebe. enquanto modo de suspensão do esquecimento. com isso. o sentimento de superioridade do homem sobre os demais animais. tidas por Nietzsche como as mais antigas encontradas entre os homens. o esquecimento diante da palavra empenhada.8 volta contra a vida. A troca e a valoração. isto é. uma vez que tais relações se estabelecem primeiramente entre as pessoas. pois foi a partir da medida. O sentimento de culpa tem sua gênese na relação entre comprador e vendedor. II. Eis o móvel da Revolução Francesa com seu lema de “liberdade. Se a necessidade de fazer no homem uma memória remonta a sua pré-história. é no âmbito das relações materiais entre comprador e vendedor que surgem o direito e a justiça. desse sentimento de si: o homem se designou como o ser que mede valores. O dano representa justamente o não cumprimento da promessa e. § 13. estabelece equivalência entre uma pessoa e outra. 8F.” 8Essas relações. apontam para o homem como aquele que valora. ibidem. . O castigo aparece como meio necessário para fazer no homem uma memória: “castigo como um fazermemória”7 – um dos sentidos possíveis do castigo. em Nietzsche outro estatuto. as relações entre comprador e vendedor. como o „animal‟ estimador em si‟”9. assim. em Nietzsche. também remonta e. antecedem qualquer organização social e só posteriormente passam a ser transpostas para as comunidades. do ato de estimar que o homem chegou ao estabelecimento de direitos e deveres. ibidem. são tão fundamentais para o início do pensar humano que acabam por defini-lo e nisso encontra-se.

tudo pode ser pago‟ – o mais antigo e mais ingênuo cânon moral da justiça. juntamente com o Iluminismo. os conceitos de “liberdade.9 refinamento que se passa a perceber em tudo um valor. Pelo contrário. “. O Renascimento retoma os valores nobres. do ganso e de tudo que é irremediavelmente superficial e estridente. com grande generalização. nas mãos do „homem bom‟ (do cordeiro.. em referência aos que têm menos potência. de toda „eqüidade‟ sobre a terra. Nas palavras de Nietzsche em A Gaia ciência § 350. ao „cada coisa tem seu preço. a um igualamento”. solenemente e sem reservas. Assim. Em vista disso. “Foi a Revolução Francesa que colocou o centro. de se acomodarem uns aos outros. como acontecimentos históricos chave para o estabelecimento da subjetividade. por meio de um igualamento.Logo se chegou. voltarem a se „entender‟ – e. e estabelecer direitos e deveres entre os iguais. cultua o Renascimento como movimento de transvaloração dos valores cristãos. ibidem. promoveram uma aliança com os valores teocêntricos para combater a transvaloração iniciada pela Renascença. entre os que têm potência mais ou menos igual. mostrando uma atitude de enfrentamento. abaixo de si. . mas não o cristianismo. os próprios alemães colocaram em suspenso o reascender da nobreza romana expresso no Renascimento. nesse primeiro grau. Todavia. coagi-los. mediante o resgate do valor do cristianismo através da Reforma. maduro para o manicômio das idéias modernas)”. tidas por Habermas. medindo pessoa a pessoa. fazendo com que cada coisa existente tenha um preço.. enquanto Nietzsche faz críticas contundentes à Reforma e à Revolução Francesa. estimulando tudo o que era forte e ascendente em relação à vida. o que remete àquela noção de igualdade entre os iguais. Estabelece-se. igualdade e fraternidade preconizados pela Revolução Francesa. Os ideais da Reforma combateram o catolicismo e a igreja. de. uma diferença entre o grupo de mais potentes e um de menos potentes. Convém mencionar que. ao menos no que concerne aos “fatos” históricos10Idem. sendo que a boa vontade estende-se aos de potência igual. considerada por Nietzsche como expressão do “ressentimento radicalmente plebeu”. os iguais ajustam-se entre si e subjugam aqueles que têm menos potência. uma retomada da nobreza guerreira. o que levou novamente a vitória de Judéia. o início de toda „bondade‟. um equivalente. por completo. por conseguinte.10 A noção de justiça procede da possibilidade de o homem. Justiça. refutando. do asno. diferenciar os que têm mais ou menos potência. é a boa vontade.

tem sua efetividade a partir da alternância entre dominação e subjugação que propriamente o mantém. de fato.. Daí ele se referir. o constitui. São nossos impulsos que. como forças e vontades de potência em relação. em termos do querer. Desse modo. não precisam apresentar diferenças em termos de significação em Nietzsche. Partamos da noção de impulso. Conquanto força e vontade sejam termos diversos. o que requer a introdução do conceito de estrutura social de muitas almas. não podemos chegar a outra realidade. Todas as nossas manifestações. Estende-se à totalidade dos organismos o fluxo entre o vir-a-ser e o perecer. constituir-se a partir de outros parâmetros. pois cada organismo. que não há outra força dinâmica ou psíquica” (14 [121] da primavera de 1888). em Para além de bem e mal. “São nossas necessidades que interpretam o mundo: nossos impulsos e seus prós e contras. levando-nos a admitir certa paridade entre os termos. atividade – melhor. O impulso deve ser compreendido como um despotismo que a partir de sua perspectiva. disposta a partir de relações de mando (BM §19). Cada existente se compõe de uma multiplicidade de impulsos que se digladiam permanentemente. vontade. este mesmo querer e atuar. para o filósofo. “a uma estrutura social de muitas almas”. Cada impulso é uma espécie de despotismo. já que sua formulação afasta do . aplica-o indistintamente à força. Nessa passagem. salvo a de nossos impulsos. Nietzsche os recusa um a um. em luta permanente. Em outro trecho. voltamos à questão de ou não haver uma subjetividade em Nietzsche ou. são expressões das relações dos impulsos entre si. já que.10 chave para o estabelecimento da subjetividade. configuram interpretações. fica expressa a identificação entre essas noções. cada órgão mesmo. ele afirma: “Um quantum de força equivale a um mesmo quantum de impulso (Trieb). pois o autor. em algumas passagens.. e os impulsos são apresentados. expresso no jogo de alternância de dominação e subjugação que. ele comenta: “que toda força é vontade de potência.” (GM I § 13). cada um tem sua perspectiva. introduz uma interpretação que expressa ascensão ou decréscimo. nada mais é senão este impulso. sentir e pensar. Para o filósofo. em havendo. Em Para a genealogia da moral. não podemos subir ou descer à outra instância que não seja a de nossos impulsos. que ele desejaria impor como norma a todos os demais impulsos” (7 [60] do final de 1886/primavera de 1887). ao impulso e à vontade. “Infinita interpretabilidade do mundo: toda interpretação um sintoma de crescimento ou de declínio” (2 [117] outono de 1885/outono de 1886). recorrendo a um termo da Física.

entre força e vontade de potência. (DELEUZE. identificam-se no pensamento de Nietzsche e. inclusive. escreve Deleuze. “[e]ste conceito vitorioso de „força‟. em nossa ótica. certas situações. esquecendo-se a diferença das forças que constitui o seu ser. ao ser introduzido em Assim falava Zaratustra. a vontade é quem quer". Nietzsche et la philosophie. Mas. redimensionando. uma vez que ambas as noções são demasiado próximas. Tradução André Coeuroy. Segundo o filósofo. (SCHLECHTA. Um dos textos que suscitou dúvidas acerca dessa questão é um fragmento póstumo. “todos os fins. em que ele exprime uma determinada relação. o exercer-se e o efetivar-se11. a partir dessa nova relação. demasiado humano. pois antes dele Nietzsche não havia relacionado vida e valor. A partir desse parágrafo. de 1885. dos demais conceitos de força até então introduzidos. nos textos do filósofo. Na maior parte dos casos. Força e vontade. Com esse livro. Le cas Nietzsche. 1970. p. que finaliza o quarto livro de A gaia ciência. Outrossim. à rede complexa de que os existentes seriam formados e não implica a compreensão de uma unidade. tudo isso não é de modo algum novo: encontra-se já em Humano. O dinamismo perpassa as duas noções que expressam. pois o fato de se acrescer ao conceito de força um complemento interno não implica uma diferenciação conceptual entre força e vontade. entretanto. a distinção não procede. especialmente em Humano. Todavia. por conseguinte. mas também todas as produções no mundo. A força é quem pode e a vontade quem quer: "Inseparável não significa idêntico. certos estados de alma -. parece ser mais fácil de apreender. Assim. não caem no mecanicismo por serem pensadas desde a multiplicidade e do efetivar-se. ainda assim. ignora-se o elemento de onde deriva a gênese recíproca. 12 Na visão de Karl Schlechta. Karl Schlechta os vê presentes desde as obras anteriores ao seu Zaratustra. o seu produzir-se a partir do conceito de vontade de potência enquanto conceito vitorioso de força.certas imagens. graças ao qual nossos físicos criaram Deus e o mundo. mas também em Aurora e A gaia ciência: "Mesmo o que parece subsistir de específico nesta tonalidade Zaratustra . são apenas sinais de que uma vontade de potência se 11 Há controvérsias entre seus comentadores referentes a uma possível identificação desses conceitos. compreendendo-o em uma dimensão mais abrangente. identificando-os como fio condutor que perpassa seus escritos. como é o caso do eterno retorno. não necessariamente a mais precisa. sem risco de perder o sentido das proposições nietzschianas. Gilles. O conceito de vontade de potência. à primeira vista suscitada pelo termo vontade de potência. Na nossa visão. . em especial Gilles Deleuze. K. em se retirando de Assim falava Zaratustra sua conotação profética ou suas alusões e inversões. Impulso. são os temas principais da sua filosofia construtiva que ganham relevo. com mais facilidade. A força é quem pode. para o filósofo alemão. eventualmente esboçados nas obras anteriores. demasiado humano". julgaram que força e vontade são inseparáveis mas não podem ser identificadas. encontramos no referido livro temas já presentes em obras anteriores. alguns intérpretes. ele estaria tentando explicar não apenas as produções humanas. precisa de um complemento: é preciso atribuir-lhe uma dimensão interior que eu chamarei „vontade de potência‟” (36 [31] do junho/julho de 1885). a introdução do além-do-homem e da doutrina do eterno retorno conferem ao livro a dimensão de um anúncio dos temas centrais da filosofia de Nietzsche.11 campo designativo dessas noções tanto as idéias de causa e de efeito como qualquer perspectiva de unicidade e substancialização. já que remete. podendo ser mais um recurso para ampliar o campo de aplicação de um tal conceito. Mas confundir a força e a vontade é arriscar demasiado: recai-se no mecanicismo. mas não tematizados desde a inter-relação presente em Assim falava Zaratustra. p. 57). Nietzsche introduz o conceito de vontade de potência a partir de Assim falava Zaratustra. Ainda assim não se pode afirmar que esse conceito difira do de impulso. sua compreensão do próprio conhecimento. na nossa avaliação. todas as utilidades. 1960. Paris: Gallimard. indistintamente. postula a vontade como intérprete por excelência 12 . diferindo-o. Fazendo do conhecimento e do saber o ponto de partida da filosofia de Nietzsche. A vontade de potência não pode ser separada da força sem cair em uma abstração metafísica. entretanto. 19). podemos substituir uma pela outra. Paris: PUF.

forças. a menção nietzschiana quanto à possibilidade de a origem da linguagem ser . cuja procedência remete à ação do senhor de designar. I § 2. De outra parte. intelecto e razão das mais variadas filosofias remete ao conceito de subjetividade. mas também nossa consciência" (BM § 158). Em termos da meta de Nietzsche ao propor e impor essa nova perspectiva. Todos são instrumentos da hierarquia dos impulsos. pois quem avalia incessantemente são os impulsos. simultaneamente. da organização presente na multiplicidade de impulsos. correspondendo àquilo que Nietzsche denominou em Para além de bem e mal de estrutura social de muitas almas que designam os impulsos. e introduz na História da Filosofia um novo conceito que vem ao encontro de sua visão afirmativa da linguagem. deixar falar a gama de impulsos presente no homem. se a circunscrição do espírito. as configurações de domínio manifestas por nossos impulsos. recriar o homem ao propor reinseri-lo no mundo como vir-a-ser criador e. Nesse caso. imprimiu-lhe o sentido de uma função” (GM II § 12). o tirano em nós. daquilo que Nietzsche chama. abandona os pressupostos modernos e o conceito de subjetividade habermasiano. vontades de potência. compreendendo a regência que determina a hierarquia de impulsos que promove a ascensão dele como tipo. em perpétua mutação. Daí Nietzsche afirmar que "[o]s julgamentos de valor estão presentes em todas as funções do ser orgânico" (26 [72] do verão/outono de 1884). constituem aquilo que chamamos homem. algumas vezes. de certa forma. por isso. o tirano em nós: "Ao nosso impulso mais forte. conforme Para a genealogia da moral. essa ação já se configura como uma apropriação. forças ou vontades de potência. Cada acontecimento recebe uma designação. de nomear. a partir de si. pensar. julgamos ser.12 tornou senhora de algo menos poderoso e. do acontecimento nomeado. submete-se não apenas a nossa razão. mas da introdução do conceito abrangente de regência. Em vista disso. situando-se em um novo registro para além da Modernidade. vontades de potências que correspondem a essa ou àquela organização humana. quer dizer. forças. em que estabelece uma relação entre a instituição do signo e o sentimento de potência. Atribuímos a Nietzsche uma nova compreensão do homem como estrutura social de muitas almas que. intelecto e razão vigentes nas mais variadas filosofias. Ora. expressa pelo direito do senhor de dar nomes. querer e sentir não provêm da fragmentação humana em faculdades. a estrutura social de muitas almas dela se afasta. Por isso. propriamente um som. em suma. eminentemente interpretativo. a mesma argumentação aplica-se aos conceitos de espírito. visto que o ato de nomear implica a posse do nome e. Ora. Ora.

. o afastarmos completamente do discurso filosófico da modernidade. Ibid. não lermos em Nietzsche uma subjetividade e. eles selam cada coisa e acontecimento com um som e. kantiano e congêneres que se situa para além da figura. consoante a Habermas. “de auto-realização do sujeito cognoscente que se desdobra sobre si mesmo enquanto objeto para se compreender como em uma imagem especular”. Em vista disso. como que tomam posse dele”.13 Em nossa avaliação. devido a isso. com isso.13 referida à “exteriorização de potência dos dominantes: eles dizem „isto é isto e isto‟. Nietzsche toma posse do conceito de estrutura social de muitas almas que está para além se um sujeito nos moldes cartesiano. 13Id.