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A literacia da informação na escola do século XXI: como trabalhar com a biblioteca escolar

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Localizar e avaliar recursos educativos digitais: reflexão!
Considera-se que um recurso digital de interesse para a educação e formação (RED) “é um objecto ou serviço a que se acede através da Internet, que contém intrinsecamente uma clara finalidade educativa, se enquadra nas necessidades do sistema educativo português, tem identidade e autonomia relativamente a outros objectos e satisfaz padrões de qualidade, de acordo com os critérios de avaliação definidos no âmbito do Projecto SACAUSEF (Sistema de Avaliação, Certificação e Apoio à Utilização de Software para a Educação e Formação)”1. A definição de RED chama a atenção para uma realidade bastante recente, se bem que, para os nossos alunos, considerados nativos digitais, seja o seu habitat natural, porque a sua vida corresponde ao período da democratização destas novas tecnologias. Referimo-nos ao mundo maravilhoso da world wide Web (www) ou rede global que, desde há alguns anos a esta parte, mudou completamente o paradigma da informação e da comunicação em que operamos. Desta revolução, resulta um dado incontornável que tem a ver com o facto de os alunos – e os cidadãos em geral – passarem a pesquisar a informação de que precisam noutras fontes e através de outras ferramentas que não apenas nas bibliotecas onde estão os tradicionais documentos impressos. O ambiente em que se movimentam, de uma forma porventura obsessiva, é o digital e, por isso, sempre que necessitam de localizar qualquer dado, é à www que recorrem. E ainda bem: porque na internet está disponível toda a informação, à distância de um simples clique e sem qualquer barreira espacial ou temporal. Em termos educativos, nasce, assim, o conceito de recurso educativo digital. Só que este “maravilhoso mundo novo”, cheio de virtualidades, também encerra fragilidades. Sem qualquer pretensão de exaustividade, sublinho apenas algumas das fascinantes potencialidades educativas do ambiente digital:     Comodidade, facilidade e rapidez na pesquisa da informação; Abolição de distâncias espaciais e temporais; Possibilidade de explorar a partilha de conhecimentos e de conteúdos com outros cibernautas; Contacto com um ambiente multimédia, por vezes bastante aliciante e fazendo apelo à interatividade.

A verdade, porém, é que este “mundo” também possui limitações, aspeto que, porventura, deverá constituir o grande desafio para a Escola/ Biblioteca Escolar e para os professores.

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RAMOS, R., et al., 2004, cit. in RAMOS, Raquel, “Localizar e Avaliar Recursos Educativos Digitais”, 02.12.2013, p. 2 (bibliografia obrigatória da sessão 4 da formação, disponível na plataforma Moodle).

Luís Arezes – Professor Bibliotecário na Escola Básica e Secundária de Ponte da Barca

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Eis algumas situações que merecem a maior atenção:  Educar o espírito crítico e seletivo, orientando os utilizadores para que consigam discernir e separar o “luxo” do “lixo”. Se não existir esta capacidade, qualquer cidadão sentir-se-á perdido no meio da torrente de informação com que, diariamente, é bombardeado e jamais estará em condições de construir o conhecimento e, muito menos, de chegar à sabedoria, apenas ao alcance de uma minoria; Refletir com os alunos/ utilizadores da BE/CRE sobre um conjunto de itens relevantes na avaliação de um sítio e dos recursos educativos digitais aí existentes, de tal forma que, rapidamente, consigam fazer uma primeira triagem e aferir a qualidade da informação (cfr. documento “Avaliar Recursos da Internet”2). Exercitar/ treinar com os alunos/ utilizadores da BE/CRE a literacia da informação, tendo como referência um modelo de pesquisa, porventura o The Big 6; Valorizar a dimensão ética da responsabilidade social, debatendo com os alunos a problemática do plágio e trabalhando com eles a técnica da citação e das referências bibliográficas; Avivar a consciência de que a internet e os recursos educativos digitais não são a panaceia para os males e para os insucessos do sistema educativo. Assim como a tecnologia e a robotização não trouxeram a sonhada “sociedade do lazer” profetizada por Alvin Toffler nos anos setenta e oitenta do século passado, também as TIC e a internet não ensinam as pessoas a pensar, nem a construir o seu próprio conhecimento. Na minha opinião, o paradigma multimédia e interativo em que nos movimentamos, desde há cerca de uma década, encerra, aliás, um risco altamente perverso – o de, subliminarmente, cimentar a ideia de que tudo é divertido, lúdico e de que tudo é aprendível numa dinâmica de mero jogo que não exige qualquer esforço. Nada mais errado: a construção do conhecimento exige trabalho, dedicação, persistência, resistência. É um processo penoso, de reflexão pessoal, de estudo solitário… Em suma, a internet e os RED são realidades do nosso quotidiano e, por isso, a Escola não pode ignorá-las. Os alunos vivem neste “mundo” e a Escola tem a obrigação de os educar para o seu uso correto e seguro. Mas também tem o dever de agir com bom senso e equilíbrio3 e de não entrar na deriva de pensar/ agir na convicção de que as novas tecnologias, só por si, vão resolver tudo.

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RAMOS, Raquel, “Avaliar Recursos da Internet” – anexo 1, bibliografia obrigatória da sessão 4 da formação, disponível na plataforma. 3 Em nome do bom senso e do equilíbrio, seria preferível haver “apenas” várias (algumas) salas com computador, equipados com antivírus e acesso de qualidade à internet, em vez de todas as salas terem um PC, mas sem antivírus e com uma internet imprevisível.

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Trata-se de mais uma ferramenta fantástica que proporciona uma enorme economia de tempo e que ficará para a história como mais uma etapa, tal como a invenção da imprensa, a democratização da escolaridade obrigatória e o alargamento da alfabetização, o fim da “lousa” e a introdução da sebenta/ caderno, a chegada da fotocópia e, agora, o mundo maravilhoso das novas tecnologias… Aliás, vou verificando que as alegadas virtualidades pedagógico-didáticas e educativas das TIC, em termos de mobilização e de envolvimento dos alunos, já não são o que eram nos primeiros tempos. O efeito novidade diluiu-se, de tal forma que, para esta geração “clique”, já pouco os surpreende e já quase nada lhes desperta o interesse. Tal como já havia acontecido com os manuais escolares: bastaria o aspeto gráfico e visual e a qualidade da impressão dos atuais compêndios, a uma distância infinita dos livros quase artesanais de há umas décadas atrás, para que todos os nossos alunos sentissem um fervor devorador pelas matérias e elegessem o estudo como o seu passatempo favorito… Infelizmente, não é isso o que acontece. O colorido e a animação e a interatividade ajudam. Mas não resolvem o problema essencial da motivação. Essa continua a residir na figura do professor e nas expectativas que a sociedade coloca na Escola e naquilo que ela proporciona. Ainda está por descobrir o “chip” capaz de substituir um professor apaixonado pela nobre missão de educar, um docente inspirador, que desafia a voar e a partir à descoberta de novos horizontes, sempre mais vastos, sempre mais exigentes! Consolidar um novo paradigma pedagógico Os aspetos anteriormente considerados relevantes no trabalho a desenvolver com os alunos já estão interiorizados e são postos em prática por muitos professores. Há, no entanto, um longo trabalho ainda a fazer, no sentido de alargar este novo paradigma pedagógico a todos os docentes. Impõe-se, por isso, uma estratégia bem concertada em termos de aproveitamento responsável dos RED, valorizando, nomeadamente, as seguintes dimensões de atuação:  Evitar que o projetor multimédia existente na sala de aula seja usado apenas para passar filmes ou para mostrar um PPT. Para tanto, impõe-se que os postos tenham acesso à internet, com garantia de qualidade; Fazer um levantamento de outros motores de busca que não apenas o Google (http://www.google.pt, assim como de repositórios e de sítios de reconhecida qualidade nas diversas áreas do saber. A ficha de trabalho “Localizar e Avaliar Recursos Educativos Digitais” é riquíssima neste âmbito e mostra, de uma forma surpreendente, como somos redutores ao limitarmo-nos e ao deixarmos que os alunos se limitem a pesquisar no Google. Paradoxalmente, o Google Académico (http://www.scholar.google.pt) ainda é muito desconhecido e, por isso, quase nada usado e o mesmo se
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diga em relação ao Leme (http://www.leme.pt), que, apesar de ser pobre em informação sobre literatura, tem documentação muito interessante e útil, por exemplo, nos capítulos das efemérides, biografias e crianças. Particularmente importante é também a divulgação e o uso dos dicionários em linha de acesso livre, tais como o Priberam (http://www.priberam.pt/dlpo) e os da Porto Editora (http://www.infopedia.pt), que, para além de permitirem pesquisar o significado dos vocábulos, têm associadas outras funcionalidades;  Aproveitar o manancial de RED disponível em linha, nomeadamente os de acesso livre, não só porque já estão feitos, mas também porque, quando devidamente escolhidos, colocam situações novas, exploram abordagens diferentes e fazem apelo à interatividade; Criar uma base de dados de RED, através do envolvimento de todos os Grupos Disciplinares, convidados a fazer uma pesquisa e a indicar o URL de sítios de reconhecida qualidade e a que os alunos devem recorrer quando têm de fazer uma pesquisa em determinada área do saber. Esses sítios seriam, depois, disponibilizados à comunidade escolar, através de ferramentas, como o diigo ou o delicious; Mobilizar o corpo docente, no sentido de, sempre que pedem uma pesquisa ou um trabalho escolar, indicarem aos alunos documentos de consulta obrigatória, em suporte de papel ou em formato digital. Neste último caso, desnecessário será dizer que o documento ou o sítio deverá constar da “nuvem” da ferramenta referida no ponto anterior; Desafiar os professores, não só a construírem os seus próprios recursos, mas também, no âmbito de uma cultura de trabalho colaborativo, a partilharem-nos com os colegas e até a disponibilizarem-nos, on-line. Devo confessar, por exemplo, que alguns repositórios de RED são ainda muito pobres. Consultando os recursos educativos de Português, 10.º, 11.º e 12.º anos, disponíveis no “Portal das Escolas”, verifiquei uma situação confrangedora. Na página Web do Agrupamento onde trabalho (www.avepb.net), em “Projetos”, “Biblioteca/Centro de Recursos”, existem materiais de apoio mais diversificados e mais ricos – perdoar-meão a imodéstia – e com um número de exibições muitíssimo superior. Na qualidade de professor bibliotecário, tenho trabalhado, desde há alguns anos a esta parte, no sentido de ir fazendo o caminho que preconizo. Em articulação com as outras estruturas de coordenação educativa e de supervisão pedagógica, a BE/CRE tem promovido encontros de formação abertos à participação dos docentes, tem solicitado aos grupos disciplinares a indicação de sítios de interesse, tem divulgado esses e outros sítios no blogue da BE, através do diigo (http://www.bibliobarca.blogspot.com), assim como repositórios de livros digitais gratuitos, tem chamado a atenção e trabalhado com
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os utilizadores as vantagens da pesquisa avançada no Google, tem encaminhado para os coordenadores de departamento e para os subcoordenadores disciplinares a indicação de sítios de interesse, sempre que se justifique. Nem sempre o resultado tem sido o desejável. Há grupos disciplinares que não recomendam qualquer sítio de interesse e de qualidade na sua área do saber; há docentes que não indicam qualquer documento de consulta obrigatória, quando pedem um trabalho aos alunos; existem colegas que não penalizam o plágio, nem valorizam os direitos de autor e a importância das referências; há ainda os que persistem no apego servil ao manual e na reprodução do que lá está; muitos professores parecem nem saber do que é que se trata quando se fala da literacia da informação e do preparar os alunos para que sejam cidadãos com as ferramentas que os habilitem a aprender ao longo da vida, construindo com autonomia o seu próprio conhecimento; e há os colegas que quase nunca estão disponíveis para o trabalho colaborativo, nem para uma oportunidade de formação. Mas também há os que são tudo menos isto. O importante é que o fermento da mudança comece a levedar a cultura institucional da Escola onde trabalhamos. E que o desânimo não vença o entusiasmo!
EBS de Ponte da Barca, 14 de dezembro de 2013.

O formando, Luís Arezes

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