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O INCESTO, DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO: uma obra - embrião

Márcia Manir Miguel Feitosa**

Resumo: Aborda-se, neste estudo, a obra de Mário de Sá-Carneiro, mais especificamente, a novela “O incesto” que compõe o volume Princípio, datado de 1912. Defende-se a idéia do caráter embrionário da novela, dadas as características peculiares à produção do poeta que se revelariam mais maduras nas obras subseqüentes, vide sua obra-prima A confissão de Lúcio. Palavras-chave: Características. Mistério. Arte. Incesto. Abstract: In this study, Mário de Sá-Carneiro’s literary work is approached, more specifically the novel “O incesto” which composes the volume Princípio, from 1912. The idea of the embryonic character of the novel is supported, due to the peculiar characteristics of the poet’s production, which would be revealed maturer in his subsequent works, as in his masterpiece A confissão de Lúcio. Keywords: Features. Mystery. Art. Incest.

Dra. em Literatura Portuguesa pela USP. Profa do Departamento de Letras da Universidade Federal do Maranhão. E-mail: feitos@terra.com.br
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Ciências Humanas em Revista - São Luís, V. 3, n.2, dezembro 2005

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com a sua principal e mais importante narrativa: A confissão de Lúcio. espírito formado no ambiente cético d’uma época positivista em que a análise é tudo. p. volume de “novelas” escrito entre os 18 e 22 anos. incapazes de sujeitarem-se ao real entediante e banal. creia que o atingiu. ávidas por mundos fantásticos ou quiméricos. o afloramento do subconsciente e o descerramento de uma personalidade às voltas com o seu desconhecido mundo interior. de Mário de Sá-Carneiro . em que algo nebuloso circunda o desaparecimento de Júlia – esposa de Luís de Monforte. a “quimera de ouro”. 16) tanto as narrativas. mais tarde. massacrador do espírito raro e invulgar. Em todas essas páginas palpita a alma d’um artista. a qualifica de “perversa e linda”: “. autor dramático e criador da peça “Doida”. bizarro. Sá-Carneiro. pois. p. com publicação em novembro de 1912. o troca por uma ligação medíocre. Mário de Sá-Carneiro pairou sobre a crítica literária portuguesa da época como um escritor insólito. “O incesto”. procurando sempre atingir o auge. “Página de um suicida” ou “Felicidade perdida”) revelam alguns dos leitmotiven do futuro escritor de A confissão de Lúcio. Princípio se diferencia justamente por deter em suas páginas almas angustiantes.desaparecera no turbilhão esfacelante duma vida arrebatadamente louca. interpretada por Júlia que.. como atestou o jornal “O Século”. 07) 180 O incesto. “O incesto”. em Lisboa. tragicamente agitada” (SÁ-CARNEIRO..1. de polir e de aperfeiçoar” (QUADROS apud SÁ-CARNEIRO. de sonhar. A morte e o suicídio aparecem. s/d. diferente do “ramerrão das estréias literárias”. 1984. estranhamente. “Sexto sentido”. por constituir-se numa das mais insólitas e misteriosas produções do autor. “Princípio é o livro d’um homem do seu tempo. deixando-lhe a filha Leonor. escrita entre abril e julho de 1912.” ( “O Século” apud GALHOZ. até certo ponto. As narrativas que o compõem (“Loucura”. Paira sobre a narrativa certo culto do inexplicável já no primeiro capítulo. Apesar da obtenção de certo êxito ao publicá-lo. portanto. Introdução O ingresso de Mário de Sá-Carneiro nas letras portuguesas remonta ao livro Princípio. numa consagração máxima da arte e do artista. Se foi esse o fim desejado pelo sr. como válvulas de escape diante de tamanha insatisfação e desajustamento. 2 . Segundo este. edição de 30 de agosto de 1912. Princípio o princípio da carreira de um escritor que “não deixará mais de escrever. O mistério esfíngico Com “O incesto” vemos. destacamos a última. É. comparável. quanto a obra poética. Sá-Carneiro. pela primeira vez em Mário de Sá-Carneiro. Dentre as narrativas deste livro. 1963) Por não se dirigir ao leitor que busca uma diversão fácil.

com ela.São Luís. nem de onde procedem. nas convulsões despedaçadoras de todo o seu corpo nu!. Não obstante reconheça seu estado de martírio. olhos de infinito – esboçava-selhe nos lábios sempre húmidos o sorriso enigmático de Jocunda. p.. aparece morta a punhaladas num quarto onde. numa verdadeira e autêntica apoteose. quanto o seu surgimento como atriz são enigmáticos e obscuros. mas a uma força sobrenatural. envolvendo o leitor numa teia de fios inextrincáveis: Duma beleza misteriosa – cabeleira de fogo. embora mantivesse inviolável sua vida íntima. 24) Toda essa atmosfera nebulosa e não muito lúcida aparecerá novamente quando da viagem de Luís ao estrangeiro após a morte prematura de Leonor. o mistério e a inexplicabilidade dos acontecimentos ocorrem. como um meteoro pelos céus a resplandecer num turbilhão dourado. Num estado de semidelírio. sequer uma palavra é mencionada. apesar dos evidentes sinais de luta. no final do segundo ato da peça “Doida”. 1984. profundo como um túmulo. não teria conseguido resistir ao golpe da morte da filha. pressentiase sem se saber porque nessa mulher frágil. a Júlia-Esfinge volta a atuar.. não consegue atribuir a razão de seus atos a si mesmo. contorce-se e serpenteia-se em espasmos loucos e sobrenaturais. Tão misteriosa e esfíngica é Júlia Gama que. Contudo. 24) Entretanto. que o feria nas carícias brutais de sua boca escaldante.. de sua vida íntima.” (SÁ-CARNEIRO. Tanto sua caracterização física. Uma certa manhã. 1984. capaz de seduzir e aliciar desmedidamente: “No leito vasto de pau-santo. (SÁ-CARNEIRO. Ela fala pouco e. Ciências Humanas em Revista . a Júlia-Esfinge metamorfoseia-se na Júlia-Serpente. Devido talvez a esse último porém. simultaneamente. pp. todo um poema brutal de amor ardente.Mais adiante. 1984. desprendia-se um aroma estranho que lhe poetizava a carne de pedra. semelhante à festa da “americana fulva” de A confissão de Lúcio. Júlia resolve fugir para o estrangeiro com o secretário da legação da Áustria. de voluptuosidade e de sangue. abandonando Leonor e Luís. audaciosa e mal escondida. p. que o induz e o conduz a praticá-los.2.” (SÁ-CARNEIRO. a existência até então misteriosa e enigmática desta última parece desvanecer-se.. Pobre alma fugitiva. medo da grande serpente amorosa que o mordia. Atraía e afugentava ao mesmo tempo essa mistura singular de inferno e céu.linda estrela cadente. num “cenário magnífico duma vila em Nice”. quando da encenação da peça “Doida”. todas as portas estavam fechadas por dentro: “Singular destino o de Júlia! Passara em carreira fugaz pela vida. V. desconhecida.. prefere-o à razão. mediúnica. dezembro 2005 181 . n. uma vez que. símbolo do mal ardiloso e insinuante. 3. muitas vezes tivera medo. após a união de Luís e Júlia. 08-09) Os próprios amantes que tivera situam-se sob um véu de penumbra: não se sabe quem são. Do seu corpo flexível de estátua grega admiravelmente musculada.. A partir daí.

conseqüentemente. um dramaturgo. levado a considerála apenas como evasão da vida e não da fantasia. Os homens são crianças eternas. 15) Tal concepção de “arte” equivale a uma “poética” ou a um “programa de arte”. de Mário de Sá-Carneiro . cuja ascensão se torna eminente quando da encenação de “Glória” – “um dos mais belos estudos que existem sobre a “grande fera”. 68) 3.Mais adiante. desesperadamente. suaviza-se pelo menos. lhe assinala um campo de ação vasto como a própria vida. e há quem busque na arte o alívio de um instante de pura contemplação e o fascinante deleite do sonho. p. No capítulo II. 1984. Luís de Monforte inseremse nessa segunda concepção. Em frente da arte. onde a filha esteve internada) e já alucinado pelo reconhecimento do incesto moral. 1984. configura-se numa metáfora da própria arte. mas. (SÁ-CARNEIRO. enigmático e. já que defendem a arte evasiva e lúdica. Ele revela. O relevo e a glorificação da e pela arte Como todo protagonista de Sá-Carneiro. tão explorada e esmiuçada nas digressões do narrador. mais especificamente. (SÁ-CARNEIRO. A sua dor. diante do desespero de Luís. sendo. 1984. irradiando das pupilas. que: . Vejamos. aqui. Complexos conteúdos espirituais e múltiplas funções na vida. por isso. p. o artista esquece. uma vez que são: 182 O incesto. É que a arte é também um “brinquedo”.o prazer de criar avantaja-se a todos.. como Mário de Sá-Carneiro entende o que vem a ser a “arte” e o seu feitor – o “artista”. lhe cobriam o rosto duma luz estranha.. O artista. na sua angústia. Luís de Monforte também é um artista. consola-se com a sua arte. entrega-se. p. A “grande fera”. quando do triunfo do drama “Glória”. incompreensível. Para ele: Há quem busque na arte um alimento espiritual completo e. discorrendo a respeito de algumas dessas digressões. após o casamento com Magda (jovem nórdica. à paixão física. duma luz fantástica. sem “um posicionamento completo em face da vida”. nem por isso. pois. 42) Mário de Sá-Carneiro e. por isso. a ponto de se tornar para Magda um homem misterioso. e o segundo. Eram umas faíscas vermelho-esverdeadas que. se não se cura. Às vezes? Quase sempre. há dois momentos em que o narrador disserta sobre o objeto de seu trabalho: o primeiro. (PAREYSON. segundo Luigi Pareyson em Os problemas da estética. muito parecida com Leonor e que ele conheceu em Davos. durante os amplexos. A arte é um refúgio. arrepiante. por isso. quando Luís procura refugiar-se na arte ante o abandono de Júlia. com expressões faciais monstruosas e “faiscantes”: E ela recordava-se do brilho singular que surpreendera às vezes nos olhos de Luis.

quando da publicação de “O incesto”. marcado. Além das digressões. recatada e enfadonha. Após ter retornado da Dinamarca. Tal escolha. deveras. e mesmo na sua intolerância com respeito à vida social e a sua revolta contra a comunicação atestam em seu relacionamento – embora negativo – com a sociedade. há vários momentos em que se evidencia a glorificação da arte. longe de se assentar nas suas qualificações como guarda-marinha.[. 21). num mesmo capítulo. V. o seu próprio reflexo. abominável literatura que a ‘gente honesta’ compra para suas filhas!” (SÁ-CARNEIRO. visto que Céu em fogo. “inteiramente diversa. 3. Quanto à glorificação pela arte. 1984. senão a maior: a literatura. verificamos uma passagem curiosa no final do capítulo VII.] filhos de um tempo e da sociedade em que vivem. era certo. enquanto escritor e poeta. Sua leitura consiste apenas de “belos livros” e não de “chochos idílios”. restrito e seletivo. n. Observamos. pois.. inclusive. “ainda que nebulosas e angustiantes. um mero caso de homonímia? Teria em mente Sá-Carneiro. nebulosidade e singularidade de um espírito perturbado. 1984. escritores e artistas”.São Luís. casado com Magda. é um dos livros do próprio Sá-Carneiro. firma-se mais no seu “protogênio” artístico. dentre eles. totalmente oposta” à das mocinhas da época. o costume de uma determinada sociedade ou grupo social. sem a soberba e o crispamento de uma obra de gênio. publicado em 1915. 91) No capítulo II – um capítulo da arte? – uma nova digressão do narrador procura enfocar agora uma das suas especialidades. “As páginas imortais desse livro”.. formado por “poetas. 65). em princípios de 1911. Tal enfoque vem a propósito por ocasião da formação intelectual de Leonor. faz-se arte ao mesmo tempo em que se fala dela. eminentemente artístico. Luís de Monforte. desde 1912. 1984. O outro relaciona-se à escolha de Carlos (filho do Doutor) para marido de Leonor. Um deles diz respeito ao círculo de amigos de Luís de Monforte. revelado já nos primeiros escritos e na confecção de um “romance exótico”. Fialho de Almeida e Eça de Queirós. (PAREYSON. p. começa a trabalhar na sua nova obra-prima. mas perfeitamente lúcido e mais do que nunca genial” (SÁCARNEIRO. numa prática efusiva da metalinguagem. Semelhante posicionamento em face da literatura revela o quanto o narrador renega a romantização literária. relata o narrador. portanto. portanto. Ciências Humanas em Revista . o título da obra de 1915? Luís de Monforte não seria. pela genialidade. a sua projeção? Questões que ficam em aberto diante da delicada fronteira entre o mundo ficcional e o mundo real em Mário de Sá-Carneiro. levada a extremo através de amores cor-de-rosa e lirismos exacerbados. p. demonstravam à evidência um espírito torturado. p. “singular e perturbadora”: Céu em fogo. que. quando não qualificam. dezembro 2005 183 . inserindo-se na própria narrativa. Tal publicação provoca um estranhamento no leitor. “literatura de pacotilha. Seria.2.

do plano do subconsciente e afeta a racionalidade: “beijou de novo as travessas. sutilmente. p. não tão sutil quanto o já referenciado. sofregamente as beijava. ocorre no Folies-Bergère. mas “uma das muitas profissionais do amor”. de Mário de Sá-Carneiro . que mais parecia de luxúria que de dor. aos poucos. a imagem esquecida da grande amante loira. 1984. Quem lhe suscita agora a volúpia por Leonor não é Júlia. realçada pelo narrador com mais veemência através não só de uma oração em negrito e reticências. foi a imagem de Júlia.” (SÁ-CARNEIRO. 1984. em vários momentos no fluxo da história. beijou-as com desespero. 1984. num crescendo vigoroso e intenso. 1984. num delírio tal. este já se indicia. por fim. quando Luís se refugia em sua casa de Lisboa e se apega aos objetos e roupas outrora pertencentes a Leonor: Imóvel. revela-se após a morte da filha. A filha recordara-lhe a mãe. A realização onírica do pecado No que concerne ao incesto – ponto fulcral da narrativa -. toda nua sobre um leito de rosas. estonteante. p. quando do abandono de Júlia: “Ela era com efeito o que de mais seu Júlia deixara perto dele. 57) Nova manifestação do desejo carnal pela filha. levava aos lábios um feixe dessas roupas íntimas. 16) Outro indício. antes de adormecer. chorava longo tempo e. beijou-as como quem beija uma recordação de amor. nem as prostitutas assumem o trono de Leonor. nem Júlia. arremessou-o para o fundo duma gaveta. mas também de uma linha pontilhada. O leitor. acaba sendo conduzido facilmente ao deslindamento do mistério. 56) Já na página seguinte. por não serem como Magda. tal manifestação da subconsciência ganha realce por parte do narrador. o incesto emerge. Enquanto durava a visão perturbadora nem só por um momento ele esquecera a filha. numa ânsia. quando da apresentação de um bailado. devido a essa atitude do narrador: Freqüentemente tinha visões estranhas: Uma noite. 51) A partir daí. que se aquarelou nas trevas. p. Beijava-as. pensando em Leonor. (SÁ-CARNEIRO.4. com os lábios pintados e os seios à mostra. até que por fim – voltando-lhe a razão – fechou o estojo num confrangimento horrível. donde se desprendia. O primeiro deles pode ser denotado no capítulo II. por conseguinte. p. (SÁ-CARNEIRO. denunciando o que há por detrás dessas alucinações e delírios do protagonista. devido mesmo à manifestação maliciosa do narrador e ao seu caráter reticente. um perfume loiro a mocidade e a carne. Contudo. 184 O incesto. a sua ressuscitação física. perturbadoras.” (SÁ-CARNEIRO.

e Luís se suicida ante a culpa moral do pecado cometido. toda ela carnal” (SÁ-CARNEIRO. Estava configurado. assimila o crime e. devido à aparente tranqüilidade demonstrada por Luís. ardentíssima. o desejo onírico do pecado. nessa união bizarra e estranha. portanto. pois. n. só se concretiza quando da criação de um terceiro – Magda. 1984. afeta também o Dr. com súbitas contrações e brilhos singulares nos olhos. Decide. Ciências Humanas em Revista . Contudo. resolve. uma vez que o incesto. Inicia-se. Entretanto.2. 75). 75). 66). Noronha que vê. ainda se podem encontrar – dois rostos e duas almas iguais. tal preocupação se desanuvia de sua mente. “a evidência apavorante” do pecado assume a sua alma através das reminiscências de todos os seus atos que julgava paternos e puros. finalmente. conciliá-las. sem que haja. por ter acreditado que não era crime ou loucura o que estava fazendo. p. a não tê-lo e sofrê-lo mais. até então semiconsciente. com solução extrema. 1984.São Luís. (SÁ-CARNEIRO. é a partir do capítulo VIII que o clímax atinge o seu cume. algo de muito grave na alma do artista. 1984. com certeza que não” (SÁ-CARNEIRO. aflora de todo: “O que ele sentira defronte dessa segunda Leonor – descobrira hoje horrorizado – fora uma paixão súbita. uma vez que se sentia absorvido por um desejo inexplicável. então. como se tudo que pudesse estar implícito entre esses dois acontecimentos ficasse mais do que explícito: a união de Luís não com Magda-Magda. convencendo-se de que era preferível ter um crime e sofrer com ele. mas com Magda-Leonor. p. o leitor se depara apenas com duas linhas pontilhadas. A mesma surpresa que afeta o leitor. Uma vez ciente desse complexo. e não como fantasma de Leonor. conhecer a alma de Magda. conseqüentemente. 1984. a cada noite. 3. exterior a sua vontade. Conclui. ele não deixaria de a beijar com a mesma ânsia. p. V. 71). que a realização onírica de Luís. suicidando-se para se ver livre de sua própria consciência. numa tentativa de adequar a arte à vida. que o dominava e o controlava. todavia. dezembro 2005 185 . a ponto de justificá-la com certa passagem de A Dama das Camélias. Como o delírio perdura.o objeto – é inacessível no plano real. pois “quando Magda lhe surgisse como aquilo que realmente era. no caso o sujeito. Contudo. p. Realiza. já que “dois rostos semelhantes. que Luís casou-se com Magda por amá-la como sua filha e não como sua esposa. Vemos. Eis a prova concludente de que apenas desejava o corpo de Magda”. Entretanto. Porém.Do momento em que a conheceu até seu casamento com ela. a morte de Magda. portanto. “o derradeiro lampejo de razão” vence o duelo. “um desejo de perversidade”. ao invés de se redimir perante o sacrilégio. desiste de tal intento. portanto. Luís procura. o duelo entre a lucidez e a loucura. o castigo. um vencedor. o incesto. já que Leonor . “cada noite mordia com maior ânsia o corpo nu da estrangeira” (SÁ-CARNEIRO. por conseguinte. só assim poderá restituir a pureza à filha. “num último lampejo de razão”. possuindo Magda numa ânsia violenta e monstruosa. mas sim o que estava conjecturando.

Céu em fogo. em A confissão de Lúcio. em que Inácio de Gouveia vai encontrar. futuramente. PAREYSON. presentes. Vimos. 1963. de “O incesto”. Lisboa: Editorial Presença. precisa anulá-la para que se estabeleça novamente o status quo. Logo.1984. sobretudo. porém. portanto. tenha sido legado a esta última narrativa: o desdobramento da pessoa em personae. Outro cúmplice desse ciúme é o último “conto” de Céu em fogo: “Ressurreição”. Lisboa: Publicações Europa-América. pois. Em “O incesto”. s/d. São Paulo: Martins Fontes. s/d. Ambos necessitam de um terceiro para a viabilização do objeto de desejo e ambos. SÁ-CARNEIRO. Mário de. a ressurreição dessa antiga companheira morta. chegou-se à conclusão de que um outro motivo. no decorrer deste trabalho. Cúmplice. Maria Helena Nery Garcez. 186 O incesto. _________. Entretanto. Os problemas da estética. manter um elo de comparação entre o criminoso (“O incesto”) e um dos seus cúmplices (A confissão de Lúcio). talvez o mais importante. 1984. _________. a escolha de “O incesto”. que o uso desse subterfúgio mais se assemelha ao utilizado em “O incesto”. é. Procurando. baseou-se na sua “capacidade anunciadora” do que seria. de um desdobramento de Leonor. A confissão de Lúcio. impossibilitados de permanecerem com ele. A confissão de Lúcio não procurou se defender. Lisboa: Edições Rolim. a prosa poética do seu autor. Referências: GALHOZ. Lisboa: Publicações EuropaAmérica. como uma das obras do principiante Sá-Carneiro digna de análise e aprofundamento. de Mário de Sá-Carneiro . Luigi. antes seguiu seus passos até que pôde ultrapassá-la e configurar-se na obra-prima de Mário de Sá-Carneiro. na união com um dos amantes de Paulette. Magda não passou. Trad. Mário de Sá-Carneiro. anula-se a si próprio. Ricardo desdobra-se em Marta para atingir o outro lado da ponte: Lúcio. verificamos que houve a necessidade da criação de uma ponte para que o eu e o outro se encontrassem. Anulando-a. alia-se a Luís de Monforte pelo suicídio. aniquilam-se. Maria Aliete. O incesto. Conclusão A título de conclusão. motivos que atestam essa sua caracterização com o afloramento do subconsciente e a poetização excêntrica da prosa. portanto.5. em A confissão de Lúcio.