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Santo Agostinho: Contra a Dúvida Universal

Um dos problemas milenares do homem é o problema do conhecimento e da dúvida. Na Filosofia, essa relação é tratada dentro da disciplina chamada Epistemologia: a questão básica que a representa poderia ser “como saber algo”? Ou “como nós sabemos quesabemos”? Da dúvida, surgem muitos problemas. Existem outras pessoas? Existem outras mentes? Existe, ao menos, um mundo externo a nossas sensações? Alguns pensadores foram tão longe a ponto de duvidar se o próprio homem pode dizer que existe (!). Naturalmente, os objetores também se manifestaram. E um dos filósofos que tratou dessa questão foi Agostinho de Hipona. Em suas obras, Agostinho lida com questões gerais de filosofia, sempre as relacionando com a visão e a perspectiva cristã. E esse ponto também não ficou de fora. Podemos citar algumas obras de Agostinho para discorrer sobre o assunto. Em um dos seus trabalhos, Agostinho (A.) conversa com a razão (R.), no modelo de um diálogo, característica dos livros antigos, sobre a alma e sobre o autoconhecimento:            R. Tu, que queres conhecer-te a ti mesmo, sabes que existes? A. Sei. R. De onde sabes? A. Não sei. R. Sentes-te como um ser simples ou múltiplo? A. Não sei. R. Sabes que te moves? A. Não sei. R. Sabes que te pensas? A. Sei. R. Portanto, é verdade que pensas. Santo Agostinho, Solilóquios O que podemos retirar desse trecho é que não é pelo movimento e também não é por ser simples ou múltiplo – a apreensão do ser se dá pelo saber da consciência do pensamento. É fácil ver o porquê: imagine que eu esteja apenas sonhando. Nesse caso, tenho a impressão de estar me movendo, embora esteja o tempo todo parado no meu lar. Mas o que não posso dizer é que não está ocorrendo uma operação do pensamento. Por isso, sei que existo. É plausível pensar que argumentos similares contra a sensação de ser múltiplo ou simples podem ser oferecidos. Sei ao menos que penso, pois. Um ser que pensa pode ser considerado um ser que não existe? Como proceder com a dúvida nesse momento? Eu posso não saber se estou me movendo; posso não saber se sou um ser múltiplo ou simples; mas sei, segundo Agostinho, que é verdade que penso. É claro que alguém pode novamente duvidar; duvido que me movo; duvido se sou simples ou não; e também duvido que penso e duvido da minha própria existência.

mesmo se duvida. não há motivos para temer argumento algum por parte dos acadêmicos. não pode duvidar de de sua dúvida. pensa. se duvida. por conseguinte. quer estar certo. ergo sum”. [2] 1. pensa. se duvida. pode duvidar que a alma vive. Agostinho leva esse pensamento até às últimas consequências: Quem. pois a existência é uma condição necessária para um ser realizar um ato. Ainda que duvide de outras coisas. sabe e julga? Pois. A Cidade de Deus Fundamentalmente. se duvida. ainda estaria realizando um ato consciente. Santo Agostinho. para estabelecer o fim da dúvida sobre a própria existência. se duvida. tampouco pode enganar-se e. Porque se me engano já sou. e se estou realizando um ato. E esse pode ser considerado o começo de alguma investigação epistemológica. quer. sabe que não sabe. existo. e o ato consciente é o ato no qual se estabelece a própria existência. É verdade que nem toda nossas dúvidas sobre a capacidade de conhecer são respondidas por essa introdução.Poderia alguém. logo. vive. *** Outros posts da série “Filosofia Antiga e Contemporânea em Debate”:     David Hume: Argumento contra os Milagres – Parte I Friedrich Nietzsche: Origens do pensamento neo-ateísta Gaunilo: Argumento da Ilha Perfeita contra o Argumento Ontológico Richard Swinburne: Argumento da Consciência . lembra-se do motivo de sua dúvida. talvez o que Agostinho tente mostrar é isso: é contraditório pensar que duvido se não existo. entende que duvida. se duvida. Santo Agostinho. se duvida. entende. [1] (…) Sobre essas verdades. Um raciocínio bastante semelhante foi utilizado por Descartes na criação e fundamentação de seu método. porém. já sou se me engano. recorda. ao menos. uma vez que o que realmente não é. mesmo que digam: “E se você estiver enganado?”. A Trindade 2. Se eu duvidar que estou pensando. seja na dúvida ou não. julga que não deve consentir temerariamente. Visto que não existisse. no famoso dito “Cogito. coerentemente. mas o procedimento de Agostinho e de Descartes serve. proceder assim? Nos livros A Cidade De Deus e A Trindade. seria impossível duvidar de sua dúvida.